A Imprensa no norte de Santa Catarina

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A Imprensa no norte de Santa Catarina
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
Reitor
Lúcio José Botelho
Vice- Reitor
Ariovaldo Bolzan
EDITORA DA UFSC
Diretor Executivo
Alcides Buss
Conselho Editorial
Alcides Buss - Diretor Executivo
Eunice Sueli Nodari - Presidente
Cornélio Celso de Brasil Camargo
Jõao Hernesto Weber
Luiz Henrique de araújo Dutra
Nilcéa Pelandré
Regina Carvalho
Sergio F. Torres de Freitas
Maria José Baldessar
e Rogério Christofoletti (Orgs.)
Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina
Universidade Federal de Santa Catarina
Maria José Baldessar e Rogério Christofoletti (Organizadores)
Capa
Maria José H. Coelho
Editoração Eletrônica
Sandra Werle
Revisão
Maria Elizabeth Saraiva Nogueira
Supervisão Editorial
Maria José Baldessar e Rogério Christofoletti
J82
Jornalismo em perspectiva / Maria José Baldessar e
Rogério Christofoletti (org.). - Florianópolis: [s.n.], 2005.
288p.
Inclui bibliografia.
1. Jornalismo - Santa Catarina - História. 2. Sindicato
dos Jornalistas de Santa Catarina - História. 3.
Imprensa - História. 4. Ética Jornalística. 5.
Jornalismo - Objetividade. 6. Jornalismo - Aspectos
Sociais. I. Baldessar, Maria José. II. Christofoletti,
Rogério.
CDU: 07.01
Catalogação na publicação por: Onélia Silva Guimarães CRB-14/071
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Federal de Santa
Catarina
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http://www.editora.ufsc.br
Índice
Apresentação
7
Parte 1 - Histórias do jornalismo catarinense
11
Imprensa na Serra - Paulo Ramos Derengoski
13
A imprensa no norte de Santa Catarina - Apolinário Ternes
21
Uma história de coragem no sul do estado - Celso Martins
33
Resistência no oeste catarinense - Rubens Lunge
45
A mídia no Vale do Itajaí - Mario Luiz Fernandes
49
A imprensa na Grande Florianópolis - César Valente
71
Parte 2 - Expansões e Transformações
85
Assessoria de Imprensa: mercado em expansão - Roger Bittencourt
Comunicação no Terceiro Setor - Marli Cristina Scomazzon
87
103
Rádio: na 3ª idade, mas ágil como adolescente - Regina Zandomênico 115
Fotojornalismo Catarina - Andressa Braun
123
Mulheres e jornalismo - Elaine Borges
131
Televisão, jornalismo e negócios - Áureo Moraes
143
Jornalismo e Política - Moacir Pereira
153
Jornalismo em cima do muro - Jacques Mick
165
Parte 3 - Inovação e Perspectivas
185
Muita história para contar (ou Uma história por contar) - Gastão Cassel
187
Jornalismo e tecnologia: pioneirismo e contradições- Maria José Baldessar
203
A preocupação com a ética: tradição e futuro - Rogério Christofoletti 219
A contribuição das escolas: o curso da UFSC - Francisco José Karam
233
A contribuição catarinense ao ser-fazer jornalístico e à Crítica de Mídia Mario Xavier
247
Parte 4 - O traço do jornalismo catarinense
265
Apresentação
267
Bonson
268
Fábio Abreu
270
Frank
272
Samuel Casal
274
Sandro
276
Zé Dassilva
278
Os autores se apresentam
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Apresentação
Um livro como este dispensaria apresentações. Tanto por
seu título quanto por seu escopo. Tanto pelos autores quanto pelo
ineditismo da obra. Entretanto, os organizadores deste Jornalismo em perspectiva consideram necessárias algumas palavras não
para introduzir o leitor nas histórias que lerá a seguir, mas para
reconhecer e sublinhar os esforços aqui empreendidos.
Este livro marca as celebrações dos 50 anos do Sindicato
dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina, entidade que vem
acompanhando a evolução do jornalismo no estado e que vem contribuindo para muito desse desenvolvimento. Mas este não é um
livro sobre o Sindicato. A obra se debruça muito mais sobre o
próprio jornalismo que vimos construindo nas últimas décadas,
fatia de tempo fartamente recheada pelos avanços tecnológicos,
pela profissionalização do exercício e pela consolidação do jornalismo como uma atividade vital para a sociedade.
Os últimos 50 anos mudaram a face da vida humana no globo, alterando nossas relações interpessoais, modificando o impacto sobre o meio ambiente, conferindo novos contornos também
às nossas idéias e condutas. O mundo parece ter ficado menor
com as novas velocidades dos meios de transporte e mesmo com
a facilidade de manuseio e agilidade dos veículos de comunicação.
Isso se traduziu em outras sociabilidades e comunicabilidades. Assistimos a uma enxurrada de progressos ao mesmo tempo em que
percebemos o aumento da desigualdade social, dos confrontos armados e da complexidade das sociedades. A vida parece ter ficado
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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mais rápida, mais curta. Os meios de comunicação registraram
tudo isso, e o jornalismo apressou-se em contar as histórias que
serviam de fundo para as revoluções tecnológicas, morais e de
comportamento.
Na última metade do século XX, Santa Catarina deixou um
modesto posto entre as unidades da federação para se converter
num destacado produtor agrícola, num estado industrialmente competitivo, num pólo tecnológico, num diversificado exportador. E
tudo isso apesar da sua pouca extensão territorial. Em 50 anos, o
estado ampliou a qualidade de vida, investiu em infra-estrutura e
melhorou seus índices de desenvolvimento humano. A mídia e a
indústria cultural também se expandiram, cobrindo todas as regiões catarinenses, fazendo circular bens e notícias, arte, diversão e
informação.
O jornalismo catarinense deu sucessivos saltos de qualidade
neste período: estendeu a malha de cobertura noticiosa, fortaleceu sua infra-estrutura e passou a capacitar melhor os seus profissionais. Por conta de sua distribuição geográfica, o estado viu surgirem no interior influentes jornais e empresas de radiodifusão.
Escolas de comunicação se espalharam, tornando-se em berçários
dos novos jornalistas. Paralelamente, o mercado publicitário também evoluiu, fazendo girar a roda da fortuna nos departamentos
comerciais. Um pouco desse mosaico de realizações está descrito
nas próximas páginas, de forma a registrar parte das ações humanas no campo da comunicação em Santa Catarina.
Para tanto, foram convidados jornalistas de todo o estado
para tentar oferecer ao leitor um retrato de 50 anos de jornalismo. Repórteres, colunistas, editores, chargistas e ilustradores,
homens e mulheres dos mais diferentes meios reúnem aqui uma
generosa parcela da história recente do campo jornalístico local. É
evidente que o tema não se esgota neste título. Muita gente e muita
história ficaram de fora. O que só alimenta a disposição pelo res-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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gate de mais fatos em novos volumes, como bem o fazemos cotidianamente no jornalismo. Autêntico trabalho de Sísifo, o exercício de reportar os fatos não termina nunca, sabemos todos.
Este Jornalismo em perspectiva não dá conta de tudo o
que se produziu em meio século na área. Mas isso já era esperado
desde os primeiros instantes dessa idéia. A intenção era mesmo
produzir uma obra multifacetada, parcial, plural, dinâmica. Ao longo dessas páginas, o leitor vai se deparar com a menção a nomes já
mitificados na imprensa local e vai encontrar também a citação de
autores de outros capítulos do volume. Não é mera coincidência,
já que alguns dos convidados a escrever não apenas foram testemunhas dos acontecimentos como imprimiram suas digitais neles,
participando ativamente da história.
O livro foi totalmente produzido por jornalistas: dos textos
às ilustrações, da capa ao projeto gráfico, da organização e revisão
à captação de recursos para a sua impressão. Disposto em quatro
partes, o conteúdo não apenas reconta a trajetória dos acontecimentos que talharam o jornalismo catarinense nos últimos 50 anos.
Inicialmente, é apresentada uma certa geografia do fazer jornalístico no estado, seção em que o leitor poderá visualizar as regiões
catarinenses como peças de um quebra-cabeça. Nesta parte, o
foco se desloca do Planalto Serrano ao Vale do Itajaí, do Norte ao
Sul e passando pelo Oeste e pela região metropolitana, salientando
a imprensa local, os principais nomes, as maiores empresas.
Na segunda parte do livro, a produção jornalística de outros
meios é mostrada. O fio condutor é o conjunto de expansões e
transformações que a atividade sofreu no rádio e na televisão, na
fotografia e na política, bem como os impactos das assessorias de
comunicação no mercado de trabalho.
Como nenhum balanço é completo sem a miragem de algum
futuro, a terceira parte do livro realça as inovações que marcaram
o jornalismo local e sinalizam algumas perspectivas para a área.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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O advento das escolas de comunicação, a discussão sobre a ética
profissional e a chegada dos computadores às redações são alguns
dos tópicos abordados. Mas também são apontadas a participação
das mulheres no fazer jornalístico e as contribuições do Sindicato
dos Jornalistas na articulação dos profissionais. Para completar, a
quarta parte reúne trabalhos de alguns dos mais talentosos e importantes ilustradores e chargistas de Santa Catarina: crítica, humor e inteligência.
Jornalismo em perspectiva serve de registro do passado,
reflete ações do presente e lança luzes para caminhadas futuras. As
contribuições que este livro oferece vão da preservação da memória de um tempo ao desenvolvimento de novos procedimentos
que aperfeiçoem as práticas diárias dos que vivem das notícias.
Este projeto deve um agradecimento especial à Universidade Federal de Santa Catarina, que patrocinou a impressão desta
obra, e a todos os jornalistas envolvidos na sua produção. Uma
história do jornalismo catarinense – mesmo que parcial – só poderia mesmo ser escrita por jornalistas. Os que aqui imprimem as
suas assinaturas, o fizeram sem nenhuma remuneração, sem qualquer menção a ganhos eventuais. Todos os autores deste Jornalismo em perspectiva acreditaram no projeto, e cederam direitos
autorais, e parcela de sua energia e entusiasmo para viabilizar o
produto. As páginas que o leitor vê a seguir foram pura obra de
um esforço coletivo.
Os organizadores
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Histórias do
jornalismo catarinense
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Imprensa na Serra
Paulo Ramos Derengoski
Nos primórdios, a imprensa serrana foi basicamente a imprensa de Lages.
E o primeiro jornal editado em Lages foi “O Lageano”, na
verdade um micro-jornal de formato 23x33 cm, com apenas quatro páginas. O primeiro número circulou em 14 de abril de 1883.
Dirigido pelo professor João da Cruz e Silva, era um vibrante e
pequenino semanário que dedicava seus artigos de fundo à defesa
do ensino público, criticando as péssimas estradas da região e exigindo a criação de um Mercado Público, bem como a retirada do
cemitério da época do centro da cidade.
Dentre os colaboradores que mais se destacaram com empolgados textos estavam o médico homeopata e futuro desembargador, Genuíno Firmino Vidal Capistrano e João José Theodoro
da Costa.
Em 4 de janeiro de 1884, o pequeno semanário foi vendido
para Henrique José Siqueira, que acrescentou “mais uma coluna
em cada página”. Nessa fase, o grande colaborador seria o acadêmico de Direito, “nosso correspondente em São Paulo”, Caetano
José da Costa, que entre reportagens memoráveis, descreveu a
visita à bandeirante capital de dois manda-chuvas lageanos: os coronéis Belizário de Oliveira Ramos e Henrique de Oliveira Ramos,
“que conferenciaram com o chefe da democracia paulista”, dr.
Rangel Pestana, e foram à ópera, assistir “A Corsa do Bosque”.
Com a proclamação da República, “O Lageano” deixou de
circular por algum tempo. Não que ele fosse monarquista. Ao conJORNALISMO EM PERSPECTIVA
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trário, mudou o nome para “Quinze de Novembro”. Mesmo assim, o seu proprietário, Henrique José Siqueira, seria fuzilado barbaramente em 1893. O saudoso pequenino “O Lageano” voltaria a
circular em 1891 pelas mãos de João Costa, Belizário Ramos, Vidal
Ramos, Caetano Costa, João Nunes, Sebastião Furtado, Julio da
Costa e Manoel Thiago de Castro.
Em 1886, já circulava em Lages, com boa penetração, “O
Escudo”, órgão do Partido Liberal, cujo gerente era José Joaquim
de Córdova Passos e cujo lema era: “Não se admitem testas de
ferro”. Advertindo ainda que as assinaturas teriam que ser pagas
adiantadas, e os “autógrafos que nos forem remetidos não serão
devolvidos”.
Seria substituído em 1893 pelo “Rebate”, agora órgão do
Partido Republicano Federalista, mas sob a direção do mesmo José
Joaquim de Córdova Passos.
Em 21 de abril de 1892, saía o primeiro número da “Gazeta
de Lages’, um bi-semanário que circulava às quintas-feiras e aos
domingos e que tinha um sistema de entregas nas grandes fazendas da região,“do Cajuru aos fundos da Coxilha Rica”. Era diretorproprietário Manoel Thiago de Castro, notável intelectual serrano.
Suas páginas registraram uma polêmica que marcou época entre
Caetano Costa e Pedro Leite Júnior. Do mesmo diretor apareceria
em 1896 “O Município”.
Até que em 1º de janeiro de 1897 começaria a circular um
jornal de maior duração: o “Região Serrana” dirigido também por
Manoel Thiago de Castro e que marcaria época em todas as regiões catarinenses pela ampla atuação política. Seus redatores eram
homens cultos, historiadores como Fernando Athayde e até poetas como Sebastião Furtado, Caetano Costa e Antônio Henrique, o
Professor Tota.
Nessa ocasião, surge na Serra – com duração até hoje – a
sátira e o humor irônico para encarar as pugnas partidárias provin-
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ciais. Os versos de sátira política, publicados no semanário, atingiram até a Capital, provocando o então governador Hercílio Luz.
Eram as famosas “herciliadas”, baseadas nos Lusíadas e assinadas
pelo pseudônimo de “Petit Camões”. Até hoje se discute quem era
o autor das setas envenenadas – ou dos perdigotos cáusticos –
que eram lançadas de Serra Acima. Acredito que eram feitas por
três mestres: Caetano, Furtado e o professor Tota.
Eis um exemplo mordaz, em decassílabos:
“Os feitos e os varões proeminentes
Que da terra fecunda deste Estado
Surgiram afobados, impacientes
Em assalto ao Poder representado
Pela honra e critério convenientes
Ao povo e ao partido denodado (...)
(...) De tudo desfazer do pé pra mão
Pelo insulto, calúnia e traição (...)
(...) Camoneando exporei nesta Secção
Se pra tanto houver tempo e...inspiração”
Grandes polêmicas, algumas de caráter puramente pessoal,
inundavam as paginas do “Região Serrana”. O tom subiu tanto que
muitas matérias eram pagas pelos contendores. Uma das discussões mais famosas travou-se entre os grandes fazendeiros José
Maria Antunes Ramos e Hortencio Rosa, chamado pelo contendor
de “tucano de bombacha”. Ao que este respondia dizendo que o
outro era “dominado pela vaidade, aventureiro desalmado, querendo
chamar para si as glórias do mundo (...) abrindo diques de asneiras,
tornando-se um verdadeiro idiota, arvorado em pasquineiro...”
Muitas dessas ofensas terminavam em desforços pessoais e
ameaças de tiros, até que a turma do deixa-disso interviesse, marcando um bom churrasco “sem bebidas alcoólicas”.
Outro polemista violento foi José Castello Branco, que fundou o semanário “O Imparcial” em 23 de junho de 1901. Ele atacaJORNALISMO EM PERSPECTIVA
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va os padres, principalmente frei Pedro Sinzig, intelectual franciscano respeitado e autor de vários livros, chamando-o de Pedro
Barulho. Observe que na ocasião era muito grande a influência da
Loja Maçônica Lageana – “A Luz Serrana”.
Os franciscanos lançaram então o semanário “O Cruzeiro
do Sul”, sob a direção do frei Sinzig no dia 13 de maio de 1902 e
que também usava um tom polêmico, desabrido e até agressivo. E
ainda por cima foi editada pelos padres uma espécie de revista
mensal intitulada “A Sineta do Céu”, mas com um número bem
avantajado de páginas. E já no seu número 9, de 1º de maio de
1904, caía em cima do “Imparcial”, dizendo: “É um mau jornal; é
indecente e obsceno, de tal modo que não pode ser lido por famílias”. E ameaçava: “Quem apoiar tão nojento órgão a-católico (não
católico) seja por assinatura ou recomendação, não é isento de
Culpa...”
Talvez de tão acossado “O Imparcial” faliu em 1907.
No dia 7 de setembro de 1906, surgia “A Aurora” jornal que
se pretendia humorístico e literário. Em fins de 1907, aparecia “O
Clarim”, dirigido por Bibiano Lima. Quase todas essas publicações
dependiam de “amigos e favorecedores”, que davam um aporte
quando o preço do boi subia, mas que cortavam a grana quando
vinham as cíclicas crises do preço da carne. Por isso, quase todos
tinham vida curta.
Mesmo assim, quando um jornal de fora (“Evolução”, de Itajaí) ousou criticar o hábito serrano das serenatas noturnas, os nanicos da região se uniram e proibiram a circulação do mesmo na
Serra, ameaçando o seu “correspondente”, que teve que mudar
de profissão transformando-se em “cenógrafo teatral”.
A fase mais profissional da imprensa serrana começa em
1915, quando volta a circular “O Lageano” sob a direção de Jucundino Godinho e que teve notável atuação política quando da cisão
do poderoso Partido Republicano Catarinense em 1920 e lançou
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em suas páginas a candidatura de Nereu Ramos a deputado federal, contra a vontade das cúpulas partidárias.
Em 23 de junho de 1917, começava a circular “O Planalto”,
sob a direção dos irmãos Athayde e que tinha no expediente um
elenco de colaboradores permanentes de alto nível, como Octacílio Costa. Excelentes crônicas sobre a história de Lages começaram a ser publicadas no “Planalto”.
Nesse período em que a imprensa serrana se profissionalizava, não deixavam de publicar alguns jornais nanicos; todos de
vida breve e feliz: “A Coruja”, “O Dunguinha”, “A Marreta”, “A Verruma”, “O Diabo”, “O Fantasma”, “O Garoto”, “A Metralhadora”,
o “Zum-Zum”, etc. Geralmente, tinham apenas quatro páginas e
tiragem variável, maior no verão, menor no inverno. Até o distrito
lageano do Painel (hoje município) teve um jornal semi-manuscrito,
“O Painelense” de 1917. O Centro Cívico Cruz e Sousa, entidade
que congregava basicamente representantes da raça negra, também editou por breve período “O Cruz e Sousa”.
Com o acirramento das lutas políticas, com o advento do
tenentismo no sul do Brasil, novos jornais surgiam e desapareciam
do dia para a noite. Quase todos eram semanários. Ou, como preferiam se auto-intitular: “Hebdomadários”. Em 1924, o chefe político da oposição lageana, coronel Aristiliano Ramos, lançou “A Época”, com uma linha editorial agressiva e com violentos ataques aos
adversários. Mais radical ainda era “A Defesa”, do advogado Odílio
Malheiros, que também teve vida efêmera.
Até que um jornal de bom nível, “A Região Serrana”, cuja
circulação havia sido interrompida em 1914, voltou às bancas em
5 de setembro de 1937, sob a direção de João Pedro Ghiorzi e do
coronel Aristiliano Ramos. O secretário de Redação era um nome
legendário na imprensa catarinense, por seu estilo refinado, cultura
e bom humor: Jayme de Arruda Ramos, lageano que também se
destacaria nos jornais da Capital. Mas com o crescente acirramen-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
17
to das lutas políticas nacionais e até mundiais, o tradicional “Região” partia também para o ataque e a retaliação. Até que em 1955
as máquinas pararam.
Nesse período conturbado, com guerras mundiais, golpes e
revoluções, o jornal de mais forte permanência voltou a ser dos
padres. Era o poderoso “Guia Serrano”, lançado pelo próprio Vigário de Lages, frei Archanjo Moratelli em março de 1936 e que se
pretendia “apolítico”. Durou 35 anos ininterruptos até dezembro
de 1971, quando saiu o número 3.158.
As páginas culturais do “Guia Serrano” eram de boa qualidade, com análises sobre a história e as tradições da Serra. O seu
alcance se estendia a municípios vizinhos como São Joaquim, Curitibanos, Rio do Sul, Bom Retiro e até a Capital onde muitos eram
os assinantes, principalmente no Palácio do Governo. Nele pontificavam os professores: Walter Dachs, genealogista; Octacílio Costa com as pesquisas de outrora; Fernando Athayde com alentados arquivos de notas e o padre mineiro (Brude) Sebastião da
Silva Neiva, que formou gerações de serranos com suas aulas
de inglês.
A partir de 21 de outubro de 1951, a grande estrela da imprensa lageana passou a ser o “Correio Lageano” sob a direção de
João Ribas Ramos e Almiro de Freitas. Depois de uma breve interrupção, reapareceria sob a direção de um empreendedor da imprensa, José Paschoal Baggio, tendo a lado a cultura de Edésio Nery
Caon. De bissemanário a diário foi um pulo. E assim se conserva
até hoje com grandes inovações gráficas, totalmente informatizado, com amplo noticiário internacional, nacional e local. O editorialista Nevio Santana de Fernandes tem milhares de artigos assinados e a atual editora-chefe é a jornalista Olivette Salmória que
conduz uma equipe de bons profissionais. Após o falecimento
de José Baggio, seus filhos, Izabel e Paulo Baggio, são os atuais
proprietários.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Em 1977, aparecia em Lages “O Planalto”, dirigido pelo engenheiro Roberto Amaral, proprietário de uma grande rede de
rádios e televisão no Estado.
Um semanário que se firmou em Lages é “O Momento”,
com um bom corpo de redatores e repórteres e cujo forte é a
cobertura completa de área local e policial, tendo um vasto número de leitores, às vezes se esgotando mal chega às bancas. O diretor do vibrante jornal é Wilson Graupner.
Lages é a cidade onde se gera a imagem da Rede TV Sul, de
Roberto Amaral, e a poderosa Rádio Clube de Lages, de grande
penetração no campo, com um corpo de veteranos radialistas. Na
TV por assinatura, foram pioneiras no estado a TV Pinhão, a TV
Nova Era e a TV Câmara Municipal.
Mas nem só em Lages floresceu a imprensa serrana. Em outros municípios, jornais bem mais jovens vêm se firmando, embora alguns tenham vida curta.
Em Caçador tem boa penetração o semanário “Folha da Cidade”, que já teve em seus quadros um brilhante diagramador:
Moacyr Oliveira. Em Canoinhas, vários semanários apareceram:
“Correio do Norte”, “Folha do Planalto”, “Correio da Sorte”, “Jornal da Cidade” e “O Melhor”.
Em Capinzal, o semanário “O Tempo”. Em Joaçaba, o bissemanal “O Vale”. Em Ponte Serrada, com periodicidade mensal, “O
Gazeta do Oeste”. E em Taió, o semanário “Gazeta do Alto Vale”.
Em Curitibanos, “A Semana”.
Com as novas técnicas de impressão quase todos esses jornais são em cores e nesse sentido, refletem uma tendência mundial. Pois em quase todos os países, médias e pequenas cidades têm
seus próprios jornais, relatando, descrevendo, noticiando fatos diversos, econômicos e sociais da comunidades onde se situam.
Se o tamanho e o alcance da imprensa reflete as dimensões
de uma região como queria Victor Hugo, não restam dúvidas de
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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que a imprensa da Serra catarinense é o reflexo de uma sociedade
pujante e dinâmica. De um modo geral, são jornais que se impuseram pelo critério, refletindo o império da opinião pública. E que
sempre existiram graças ao esforço dos que nela trabalham e trabalharam: os operários do jornalismo – desde os simples entregadores, passando pelos gráficos, redação, jornalistas colaboradores
aos diretores.
Porque na vida, como nos jornais – e até na máquina do mundo –, mais vale gastar-se do que se enferrujar...
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Apolinário Ternes
A Imprensa no norte de Santa Catarina
Mesmo com São Francisco do Sul então com cerca de dois
séculos de existência, a imprensa no Norte de Santa Catarina tem
como data de nascimento o dia 2 de novembro de 1852, quando
surge o jornal manuscrito “Der Beobachter am Mathiasstrom” –
O Observador às margens do Rio Mathias - , sob a iniciativa do
imigrante polonês Karl Konstantin Knüppel, chegado a Joinville a
13 de dezembro de 1851 a bordo do veleiro “Neptun”.
Aos 34 anos, solteiro, Karl Knüppel procedia da cidadezinha
de Pinne, interior da Prússia Oriental, atual Polônia. De profissão
lavrador, viria a se constituir no escrivão da colônia e, como tal,
bem informado sobre tudo o que acontecia na colônia Dona Francisca, além de receber notícias “de fora”. Decidiu publicar um “boletim informativo”, que redigia de próprio punho e depois “assalariava” terceiros calígrafos para, exaustivamente, repetirem de 20 a
30 outras cópias comercializadas a 120 réis a ávidos leitores da
colônia.
“O Observador às margens do Rio Mathias”, contudo, já pelo
título denunciava o perfil da publicação que tinha o espírito indomável do melhor jornalismo, de ironia, denúncia e críticas. O ribeirão Mathias, assim denominado em homenagem ao presidente da
Sociedade Colonizadora Hamburguesa de 1849, senador Mathias
Schroeder, constituía-se num plácido córrego no centro da colônia, de águas calmas e serenas, jamais num rio caudaloso, estrepitoso, como seria o caso do vocábulo “strom”, próprio para designar grandes rios como o Amazonas ou o Nilo.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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“Mathiasstrom”
O “Mathiasstrom” nasceu apenas três meses antes de “Der
Kolonist” – O Colono -, fundado em Porto Alegre a 2 de agosto
de 1852, então o primeiro jornal em língua alemã em todo o país.
O de Joinville seria o segundo em língua alemã no Brasil. É possível
que o próprio lavrador-jornalista da colônia Dona Francisca, Knüppel,
tenha sido estimulado pelo surgimento do jornal portoalegrense,
do qual deve ter tido conhecimento em razão de suas funções de
escrivão na colônia.
Na primeira página, o “artigo de fundo” do número 1 do
“Observador”, destaca: “demos adeus à plagas do torrão natal.
Ah! Doloroso adeus. Apoderou-se de nós e consigo nos arrastou a
possante corrente de desconfiança e do fracasso. Não tinha mais
espaço para nós, a terra que fez a felicidade de nossos pais e que
amávamos mais do que o nosso sangue? O que foi – e continua
sendo – que nos expulsou, aos milhares, da idolatrada e inesquecível pátria? É a vontade de uma Providência onisciente e insondável,
que generosamente se revela, sempre que um coração torturado
anseia por mitigação e que, pródiga, estende sua mão, onde existe
alma em desespero”.
Pouco adiante, os objetivos do jornal:
“Levar a opinião e os anseios de todos ao conhecimento geral; informar os colonos a respeito das condições da colônia, desde o seu início; informar as obrigações da Sociedade Colonizadora
e a maneira de sua aplicação; informar a respeito das obrigações
dos colonos e de seus direitos para com o Estado, o Príncipe de
Joinville e a Sociedade Colonizadora; demonstrar a necessidade da
formação de uma comuna; demonstrar a situação no futuro, caso perdurem as atuais condições; debater as condições entre empregadores
e empregados e demonstrar porque seria mais vantajoso para a colônia se fossem empregados apenas trabalhadores europeus; esclarecer
assuntos como escola, igreja, hospital, caridade e coleta”.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
22
O “Observador” irá ainda: “divulgar os meios para melhor
produção das diversas culturas agrícolas e esclarecer sobre a venda dos produtos; coletar e publicar assuntos de interesse geral, e
para que o útil seja unido ao agradável, publicará anedotas e pilhérias sadias e miscelâneas que lhe forem enviadas e anúncios”. (Tradução Elly Herkenhoff, in “História da Imprensa de Joinville”,1998,
pp. 18 e 19)
Não se tem notícia sobre a existência de uma única cópia do
primeiro jornal da colônia, nem informações sobre até quando circulou o “Observador”. Sabe-se, contudo, que o jornalista Knüppel
no ano de 1861, já casado com Caroline Baring desde julho de
1853, instalou-se na cidade de São Paulo para lecionar na Escola
Alemã. Posteriormente, transferiu-se para Botucatu, onde, em
1880, fundou o “Colégio Benjamin Franklin”, vindo a falecer no dia
18 de setembro de l895.
“Kolonie- Zeitung”
A “grande imprensa” da colônia Dona Francisca teria início
com o surgimento do “Kolonie-Zeitung”, a 20 de dezembro de
1862, com a publicação do “probenummer”- exemplar de prova
– por iniciativa do advogado, jornalista e político Ottokar Doerffel,
chegado à colônia a bordo do “Floretin”, no dia 20 de novembro
de 1854.
Ottokar Doerffel terá excepcional presença na vida política,
cultural e econômica da colônia, figurando como fundador das primeiras instituições, das quais o jornal “Kolonie” será das mais importantes e fundamentais para o sucesso do empreendimento colonizador. Instalado em modesta casa onde mais tarde edificaria a
sólida residência que hoje abriga o Museu de Arte de Joinville, na
Rua 15 de novembro, ali mesmo instalaria uma pequena prensa,
adquirida em Leipzig, e iniciaria a publicação do primeiro jornal
impresso de Joinville.
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Publicado aos sábados, integralmente em língua alemã, destinava-se a ser uma espécie de órgão oficial das colônias de Joinville
e Blumenau. A assinatura anual custava 1500 réis e o número avulso 100 réis. “Qualquer artigo de interesse geral será publicado
gratuitamente, enquanto os anúncios serão cobrados a 150 réis e
120 réis, por linha”.
O jornal de Ottokar Doerffel será publicado ininterruptamente por 80 anos consecutivos, transformando-se em importante fonte de informações para a história de Joinville. A única coleção
completa das oito décadas do jornal encontra-se no Arquivo Histórico de Joinville. Após a morte de Ottokar, em 1906, o jornal
passou às mãos da família Boehm, inicialmente de Carl W. Boehm
e depois para seu filho, Otto, que mantiveram por longas décadas
importante empresa gráfica e livraria na cidade.
O “Kolonie – Zeitung” cresceu ao longo dos anos, ampliou o
número de páginas e de edições, circulando até três vezes por
semana, e teve sua publicação interrompida em 1942, depois de
quatro anos de dificuldades crescentes, a partir de 1938, quando
seus editores tiveram que publicar o jornal em português, em razão da Campanha de Nacionalização decretada por Getúlio Vargas. Ainda no início da década de 1940, a grande maioria de assinantes e leitores, espalhados por todo o Sul do Brasil, só conseguia ler jornal na língua de Goethe, o que determinou o fechamento da empresa, 80 anos após a edição número 1 do “KolonieZeitung”.
Outras publicações
Levantamento feito pelo historiador Plácido Gomes e publicado no Álbum do Centenário de Joinville, em 1951, enumera dezenas de publicações jornalísticas feitas na cidade até aquela data. A
grande maioria foi de publicações efêmeras, quase todas de cunho
político-partidário, uma característica do jornalismo que se pratiJORNALISMO EM PERSPECTIVA
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cava na primeira metade do século XX em todo o país, que nasciam e desapareciam ao sabor dos interesses político-eleitorais de
cada momento.
Raras foram as iniciativas de cunho empresarial, de caráter
supra-partidário, de forma que passamos a citar de forma abreviada as principais publicações enumeradas por Plácido Gomes:
1884 – Publicou-se “O Globo”, “noticioso e comercial”, de
propriedade de M. Moreira da Silva Reis Jr., e posteriormente passou
a denominar-se “O Democrata”, órgão oficial do Partido Liberal;
1885 – Apareceu “O Constitucional”, filiado ao Partido Conservador;
1885 – Imprime-se o “Neue Kolonie Zeitung”, sob a direção de Robert Gernhad, substituído logo depois pelo “Reform”,
composto e impresso em tipografia própria;
1877 – “A Gazeta de Joinville” - primeiro jornal em português – numa colônia de pouco mais de 20 mil habitantes, com a
grande maioria falando apenas o alemão e, também, lendo apenas
textos em alemão. A Gazeta era impressa na gráfica do “Kolonie” e
tinha como redator principal Carlos Lange e colaboradores Etiene
Douat e o telegrafista Manoel da Costa Pereira;
1891 – Surge “A Gazeta de Joinville”, sem caráter políticopartidário;
1891 – Imprimiu-se o “Volkstaat”, tendo como redator Albino Kolbach, posteriormente sucedido por Vitor Mueller e Francisco Schendl;
1905 – Em abril, surge outra “Gazeta de Joinville”, de propriedade do jornalista Eduardo Schwartz, tendo como redator
Crispim Mira, um dos mais conceituados jornalistas de Joinville nas
primeiras décadas do século 20 e que seria assassinado em Florianópolis, em 1927;
1910 – Surge o “Die Fackel”, com duas publicações semanais, sob a orientação política do Dr. Abdon Batista;
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Ao longo da década de 1910, publicam-se em Joinville, em
português, “A Gazeta” e o “Comércio de Joinville”. Em alemão, o
“Joinvillenzer Zeitung” e o “Kolonie Zeitung”. Circulam ainda, no
período, publicações com nomes sugestivos de “O Gato e a Borboleta” e a “Revista do Estado”; “A Comarca” é outro jornal de
cunho político, sob a direção do Dr. Carlos Gomes de Oliveira e
Marinho Lobo.
1919 – Surge o “Jornal de Joinville”, de propriedade do jornalista Eduardo Schwartz, tendo como redatores Aristides Rego e
Carlos Gomes de Oliveira. Primeiramente bissemanário, depois
trissemanário e por fim diário, a partir de 1924. Foi um dos mais
importantes jornais da cidade, posteriormente encampado pela
rede dos Diários Associados. Circulou até a década de l980.
Jornalistas importantes
Ainda da lavra de Plácido Gomes, registre-se os seguintes
apontamentos sobre veículos e redatores importantes na primeira
metade do século XX: “depois de 1905, podem ser citados como
os mais freqüentes colaboradores da imprensa joinvilense os seguintes, cada qual em seu tempo e com mais ou menos assiduidade: Crispim Mira, Ignácio Bastos, Avelino de Carvalho, Eduardo
Schutel, Arthur Costa, Plácido Gomes, Carlos Gomes de Oliveira,
Ulysses Costa, Leonel Costa, Leopoldo Jardim, Aristides Rego,
Moacyr Gomes, Montezuma de Carvalho, César de Carvalho e
Dr. Plácido Olympio de Oliveira.”
Na imprensa alemã: Victor Muller, Albino Kolbach, Eduardo
Schwartz, Otto Boehm, Wolfgang Ammon, C. Kasting, F. Hudler,
R. Busse e poucos mais.
Depois de 1940, novos colaboradores vieram-se juntar à
lista dos precedentes: Heráclito Lobato, por cerca de 20 anos
editorialista de “A Notícia”; Manoel Simões, José de Diniz, Oswaldo Silva, Augusto Sylvio Prodhol e Ilmar Carvalho. Nas seções
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esportivas, Arcy Neves, N. Stamm, Realcy Moreira, Jota Gonçalves, Hugo Weber, José Lopes de Oliveira, Raul Vidal e Gilberto
Navarro Lins. (IN: Dr. Plácido Gomes, Álbum do Centenário de
Joinville, 1951, pp.49-53).
“A Notícia”
O primeiro número de “A Notícia” circulou no dia 24 de
fevereiro de 1923. O fundador do jornal, o paranaense Aurino Soares, se instalara na ainda quase colônia de Joinville há pouco tempo e vinha de experiências jornalísticas em cidades como Curitiba,
Rio de Janeiro e Florianópolis.
Personagem polêmico e contraditório, Aurino tinha a pele
morena, espírito aventureiro e grande tino comercial. Desde o
início, tinha como intenção criar um jornal independente, acima
das correntes políticas e em língua portuguesa, mesmo com a cidade tendo pouco mais de 20 mil habitantes, a maioria só usando a
língua alemã, tanto para o convívio social, quanto como fonte de
informação.
Instalou a redação na Rua 3 de maio e começou “A Notícia”
como semanário. Posteriormente, passou a bissemanário e partir
de l926, o jornal saía às ruas às segundas, quartas e sábados. Em
1929, adquire máquina própria de impressão e desde 11 de outubro de 1930, passa a circular todos os dias da semana, ou seja, de
terça a domingo.
A primeira fase de “A Notícia” desenvolve-se no período em
que seu fundador comanda diretamente o jornal, o que acontece
até 17 de dezembro de 1944, quando Aurino Soares morre de
forma repentina, vítima de aneurisma cerebral. Nesse período de
pouco mais de 20 anos, “A Notícia” evoluirá de um modestíssimo
semanário de quatro páginas para um grande jornal, com parque
gráfico próprio e dos mais equipados em todo o Sul do país. Com
máquina impressora capaz de imprimir caderno de até 32 páginas
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
27
– a primeira rotativa instalada no estado -, o jornal publicava aos
domingos revista ilustrada, em cores, com 24 páginas e tinha grande circulação no Estado de Santa Catarina e no Sul do país. No eixo
Rio de Janeiro – Porto Alegre, era um dos principais jornais.
Com a morte do fundador, o jornal deixa de circular por 18
meses, só voltando às ruas a 1º de maio de 1946, quando inicia a
chamada segunda fase, que se prolonga até 1956. O controle acionário pertence então ao empresário Antonio Ramos Alvim e ao
político Aderbal Ramos da Silva, de Florianópolis.
A terceira fase de “A Notícia” começa no dia 23 de outubro
de 1956, com o jornal passando ao controle de um grupo de 130
acionistas, quase todos de Joinville, liderados por três empresários importantes da cidade: Helmut Fallgatter, Wittich Freitag e Baltasar Buschle.
A quarta fase tem início em 1978 e dura até o presente, com
a chegada de Moacir Thomazi à presidência do jornal, encarregado, inicialmente, de vender o jornal e, posteriormente, aprovado
o seu projeto de recuperação, de recolocar “A Notícia” na liderança editorial e jornalística em Santa Catarina.
Ocupando nova sede, especialmente projetada para acolher
empresa jornalística, à Rua Caçador, 112, “A Notícia” vem escrevendo novos capítulos de expansão desde então. Nova sede, novo
parque gráfico, impressão em cores, edições todos os dias da semana, produtos especiais e contínua atualização em informática,
conferem nova e pujante dimensão à empresa, com índices de crescimento recordes no setor em todo o país. Quando Thomazi chegou à empresa, em l978, “A Notícia” tinha tiragem de cerca de
oito mil exemplares e edições de 8 a 12 páginas, com apenas oito
jornalistas.. Hoje, a redação é constituída por 130 profissionais e
as edições têm média de 50 páginas todos os dias. “A Notícia” foi
o primeiro jornal brasileiro a conquistar a certificação ISO 14001,
com sistema próprio de gestão ambiental, que detém desde o ano
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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2002 e também a única empresa jornalística com tal certificação na
América Latina.
Depois de conquistar dois prêmios Esso de Jornalismo na
região Sul, em 1988 e 1989, “A Notícia” obteve o primeiro lugar
no prêmio Fernando Pini de excelência gráfica, da Associação Brasileira da Indústria Gráfica, nos anos de 1999 e 2002, disputando
as finais com jornais de porte como a “Folha de S.Paulo”, o “Estadão” e “O Globo”, do Rio de Janeiro.
A registrar, ainda, a existência em Joinville, no período de
março de 1978 a outubro de 1988 do jornal “Extra”, fundado por
este autor, que se manteve em sua direção até janeiro de 1979,
quando era semanário e depois bissemanário. Posteriormente, foi
transformado em diário e assim se manteve até o encerramento
de suas atividades, em outubro de 1988.
Também o surgimento da “Gazeta de Joinville”, em dezembro de 2004. Semanário, a publicação tem caráter empresarial e
pretende disputar o mercado editorial com edições de 12 páginas
e circulação apenas local.
São Bento do Sul
A história da imprensa em São Bento do Sul começa também com o surgimento de um jornal manuscrito, como o “Mathiasstrom” em Joinville, em 1852. Em São Bento, será a vez de “O
Urubu”, a partir de 1885, doze anos após a fundação da colônia.
O autor da idéia será o médico Felipe Maria Wolf, que usava
o periódico para difundir suas idéias republicanas. Já em 1860 surge o “Liberdade”, impresso em tipografia, também com os mesmos ideais republicanistas.
O “Liberdade” deu lugar, em 1892, ao “Legalidade”, ainda
do mesmo médico e jornalista Maria Wolf, um republicano convicto, que cedeu sua residência para a instalação do quartel general
dos revolucionários federalistas de 1893.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Em julho de 1900, ainda do mesmo Maria Wolf, surge o “Der
Wolksbote”, escrito em língua alemã, cuja circulação perdurou por
dez anos, segundo pesquisa da jornalista Marília Maciel em sua monografia de final de curso, em 2003, na turma de Jornalismo do
Instituto de Ensino Superior Luterano, em Joinville.
Em 1908, São Bento conhece simultaneamente o “Wolkszeitung”, composto de três páginas em língua alemã e uma página em
português, que tinha o título de “Gazeta do Povo”. O jornal teria
vida longa, reunindo a colaboração de nomes importantes da vida
cultural sãobentense e seu último número circulou 29 anos depois
da primeira edição, a 19 de novembro de 1938.
A 1º de maio de 1911 vem à lume “O Catharinense”, semanário, com quatro páginas, em português, fundado por Luiz de
Vasconcellos, que também mantinha secções em alemão, e tinha
forte conotação de jornal partidário, defendendo a proclamação
da República.
Publicações de vida curta foram se multiplicando ao longo
dos anos 30 e 40 em São Bento do Sul. Na data de 3 de janeiro de
1963, surge o “Tribuna da Serra”. “A princípio saía como ‘Tribuna
da Fronteira’ e funcionava como uma extensão do jornal do mesmo nome, que circulava em Mafra. A partir da edição número 2, o
cabeçalho indicava Antonio Dias e Nivaldo Lang como diretores.
Arno Fendrich como diretor da sucursal de São Bento e Carlos
Von Bathen como diretor da sucursal de Rio Negrinho e Alaor
Lino da Silva como diretor-gerente. A adoção de sucursais comprova que o Tribuna tinha pretensões de regionalização”, informa a
jornalista Marília Maciel.
Nos dias atuais, São Bento conta com quatro jornais: “Informação”, circulando desde 14 de junho de 1979. Inicialmente semanário, hoje circula às quartas-feiras e sábados, com redação e
sede na cidade de Rio Negro, no Paraná. “Evolução”, criado em
1990, circula às sextas-feiras, sob a direção de Pedro Skiba; “Tri-
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buna do Povo”, semanário, sob a direção de Jairson Sabino; e “A
Gazeta”, jornal diário, que circula desde 15 de março de 1995,
sob a direção de Cezar Celeski.
Jaraguá do Sul
Jaraguá do Sul tem no “Correio do Povo”, jornal com 85
anos de existência, fundado em 1919, quatro anos antes de “A
Notícia” em Joinville, na forma de semanário, o seu mais antigo
jornal. Mudando de proprietários várias vezes, o “Correio do Povo”
tem se constituído num porta-voz da comunidade jaraguaense e
hoje circula cinco vezes por semana, através de empresa gráfica
sólida e com ambiciosos planos de futuro.
Antes de Eugenio Victor Schmöckel, diretor do “Correio
do Povo” desde 1957, o jornal teve outros proprietários, muitos
personagens da política e da economia de Jaraguá do sul. O fundador do jornal foi Venâncio da Silva Porto, que o dirigiu e imprimiu
entre os anos de 1919 a 1922. Seguiu-se a gestão de Artur Muller,
entre os anos de 1922 a 1936, que voltou ao jornal numa segunda
gestão entre os anos de l943 a 1957, juntamente com Waldemar
Grubba. Depois, veio o comando de Paulino Pedri, 12 anos proprietário, de 1946 a 1959; seguindo-se Murilo Barreto de Azevedo e Fidelis Wolf, Honorato Tomelin, até chegar ao comando o
jornalista Eugênio Victor Schmöckel, falecido no dia 17 de maio de
2004, aos 82 anos de idade e poucos dias antes da passagem dos
85 anos do “Correio do Povo”.
Outras publicações
Nos dias atuais, circulam em Jaraguá do Sul os seguintes jornais: “A Gazeta”, com destaque para as editorias de esporte e sociedade; “Absoluto”, primeiro jornal eletrônico de Santa Catarina,
diariamente, pela internert; “AN Jaraguá”, caderno diário de “A
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Notícia”, com circulação desde 1997 (semanal) e diária desde
4 de abril de 2000, com destaque para política, esportes e comunidade.
Em Jaraguá do Sul circulam ainda sete revistas: “Nossa Região”; “Fia Mais”, “Thefato”; “Dom sete”, “Quale”, “Mercado Brasil” e “Conteúdo”.
Na região do Vale do Itapocu, destaque ainda para o “Jornal
do Vale”, em Guaramirim e jornal “O Regional”, da mesma cidade.
Referências bibliográficas
Álbum do Centenário de Joinville, 1951
Correio do Povo, edição especial de 85 anos, maio de 2004
HERKENHOFF, Elly. História da Imprensa de Joinville, UFSC e
Fundação Cultural de Joinville, 1998
MACIEL, Marília. Imprensa em São Bento, monografia, Ielusc, 2003
TERNES, Apolinário. História do Jornal “A Notícia”. 1ª edição: 1983. 2ª
edição revista e ampliada: 2003
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Celso Martins
Uma história de coragem no sul do estado
– Sai para a rua, valentão!
Foi assim que o capitão Elpídio Silveira deu voz de prisão ao
jornalista João de Oliveira, ouvida da janela da casa onde funcionava
a gráfica do jornal “A Imprensa”, em fins de março de 1925, no
município de Tubarão. O oficial da então Força Pública trazia uma
ordem de prisão do governador Hercílio Luz, descontente com
matérias sobre episódios ocorridos em Araranguá.
Nessa cidade, fora aberto um inquérito para apurar o assassinato do delegado de polícia Manoel Maciel, conduzido pelo próprio capitão Silveira, que aproveitou o momento para atingir pessoas ligadas ao coronel João Fernandes, superintendente municipal
e chefe do Partido Republicano em Araranguá há 30 anos, caído
em desgraça perante o governador. João de Oliveira denunciou as
“arbitrariedades” promovidas pelo “ditador catarinense”, o que
resultou na ordem de prisão.
Por esse motivo, ele resolveu ignorar a ordem de prisão, e
enfrentar armado qualquer tentativa de invasão da gráfica de seu
jornal. Nesses momentos de muita tensão e medo, o jornalista e
advogado João de Oliveira, nascido em 18 de fevereiro de 1891,
em Ouro Fino (MG), pensou em tudo o que já havia ocorrido.
Havia chegado em Tubarão como bacharel recém-formado
na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, no final
da primeira década do século passado. “Inteligente” e “orador de
recursos que iam às figuras e aos gestos teatrais, poeta de rimas
inspiradas”, segundo Walter Zumblick, o jovem logo se casou com
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Maria Elisa Colaço, filha do superintendente municipal e chefe político local, coronel João Luiz Colaço.
João de Oliveira começou no jornalismo imprimindo três jornais na tipografia municipal – “O Argonauta”, o mais famoso, iniciado em 1911, “Gazeta do Sul”, a partir de 1º de janeiro de 1912,
e “A Folha”, em 1913. Mestre no editorial, “fazia dele o seu florete
de corte perigoso, que esgrimia com audácia e agilidade”, destaca
Zumblick. “Polemista duro, a vestir seus argumentos com a roupagem das frases contundentes”, logo adquiriu inimizades.
Na noite do dia 14 de agosto de 1913, alguns homens se
reuniram no hotel Itália, na rua de Baixo, em Tubarão, fazendo grande bebedeira. Eram todos da oposição. Na saída, o dentista Antônio Pereira Pitta, embriagado, sacou a arma ao passar pela frente
da casa do coronel Colaço, e deu um tiro para o alto, e gritou:
– Quero ver se o João de Oliveira é homem de coragem, disse.
A resposta foi uma saraivada de balas na direção do grupo,
vinda de dois lados, a casa do superintendente e imediações da
ponte sobre o rio Tubarão. Pitta foi atingido e morreu, o que gerou
uma revolta geral, levando à invasão da residência do superintendente e sua deposição, enquanto a gráfica onde João de Oliveira
imprimia seus jornais foi empastelada. O que não pôde ser quebrado foi parar dentro do rio. Os Colaços e genro partiram de trem
até Laguna e de lá num vapor para a Capital, onde foram conferenciar com o governador Vidal Ramos.
Não demorou muito e estavam todos de volta. No dia 2 de
fevereiro do ano seguinte, 1914, foi a vez da destruição da gráfica
da tipografia Americana, onde era impresso o jornal “O Fiscal”, um
“hebdomadário crítico, literário e noticioso” e “órgão de oposição
à grei política chefiada pelos Colaços”. Dirigido por Fábio Silva,
circulando desde julho de 1911, “O Fiscal” ficou sem circular algumas semanas, já que as máquinas foram desmontadas e os tipos e
prelo lançados no rio Tubarão.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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João de Oliveira pensava em todos esses acontecimentos
durante o cerco do final de março de 1924 a seu jornal. Depois
dos episódios de 1913 e 1914, havia editado a “Folha do Sul”
(1918), “Correio do Sul”, “A Tribuna” (1919) e finalmente “A Imprensa”, cuja oficina tipográfica havia sido empastela às 3 horas do
dia 7 de agosto de 1922, por ordem do Governo do Estado. A
ação foi executada pelo tenente da Força Pública Athanázio de Freitas, delegado especial de polícia, quando “máquinas, tipos e latas
de tinta foram atirados ao rio”, conta Zumblick.
No seu livro “O Ditador Catarinense”, escrito em parceria
com Alexandrino Barreto, João de Oliveira recorda a ocasião: “Depois de haverem subjugado e amordaçado Pedro Spritze [gerente
gráfico], o tenente e seus soldados amarraram, ato contínuo, o
tipógrafo Geraldino Eduardo, dando começo então ao ato de selvageria e banditismo que consistiu no empastelamento da tipografia, cujas caixas e demais materiais tipográficos eram conduzidos
pelos soldados e atirados ao rio Tubarão, que corre a cem metros
mais ou menos”.
Entre a manhã do dia 27 até a noite de 31 de março de
1924, “esse jornalista resistiu de armas em punho, dentro da lei,
no edifício de ‘A Imprensa’, que foi transformado em seu reduto”,
contou mais tarde. Alertados pelos amigos sobre a iminência de uma
tragédia – o capitão Elpídio dissera que em 12 horas efetuaria a prisão
“custasse o que custasse” –, João de Oliveira entregou os pontos e
seguiu rumo ao Rio Grande do Sul, às 2 da madrugada de 1º de abril.
Nesse mesmo dia, às 15 horas, o então Superior Tribunal de
Justiça do Estado acatou pedido de habeas-corpus preventivo em
favor de Oliveira, requerido pelo jovem advogado Nereu Ramos.
A notícia só chegou a Tubarão 35 horas após a partida do beneficiado, que já estava próximo da fronteira com o Rio Grande do Sul
quando um emissário chegou com a informação. Às 15h30 do dia
4 de abril, estava de volta a Tubarão.
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“A decisão do Egrégio tribunal”, escreveu, “veio demonstrar
que a prisão do dr João de Oliveira era um ato de puro arbítrio,
evidentemente ilegal, e que a resistência oferecida por ele, durante
cinco dias, foi fundada no direito que assiste ao cidadão de reagir
contra ordens ilegais, muito embora emanadas de autoridades constituídas”. Autoridade que, ao invés de dar uma ordem de prisão,
lança um desafio: “Sai para a rua, valentão!”
Mas o sossego ao lado da família não durou 24 horas. No dia
5 de abril, Hercílio Luz renova a ordem de prisão, ignorando o
habeas-corpus preventivo. “É assunto que regularizarei”, garante
em telegrama ao mesmo capitão Elpídio, que tentou sem êxito
cumprir a ordem até o dia 17, sendo chamado de volta à Capital.
Seu substituto, o capitão Trogílio Melo, chegou no dia seguinte,
uma sexta-feira santa, “com escolhido grupo de soldados, armados de fuzis e fartamente municiados”, ocupando a Superintendência Municipal (prefeitura).
“As ordens escritas, trazidas pelo novo delegado especial,
eram de uma violência desumana, de uma verdadeira ferocidade”,
recorda Oliveira em “O Ditador Catarinense”. Hercílio Luz exigia
“a todo custo a minha prisão, e ordenava que se invadisse o prédio
das oficinas gráficas de ‘A Imprensa’, afim de que fossem arrebatadas as máquinas de impressão”.
O cenário do confronto estava montado. Além dos homens
que levou da Capital, o célebre Trogílio Melo tratou de recrutar
reforços pela região, colocando patrulhas nas ruas à noite, com
suas “carabinas embaladas”. Ao todo, 22 policiais, que invadiram o
edifício do jornal às 9h15 do dia de Tiradentes, 21 de abril. Arrombados o portão de ferro e as grossas portas reforçadas com
trancas de madeira, “a soldadesca investiu a coices de carabinas,
com pancadas violentas e sucessivas”.
Foi um corre-corre na cidade, um “momento de pavor, de
confusão e de correria”. Segundo Oliveira, “horda de selvagens,
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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em sertões agrestes, não causa tanto horror, como o grupo armado que depreda e assalta, em plena cidade, à luz do dia, perante
uma população estarrecida, acovardada e transita de susto”. Vencidos os obstáculos se consuma a invasão. Os oito tipógrafos que
trabalham no local fugiram.
Nesse momento, chegaram o coronel João Colaço e sua filha Maria Elisa, esposa de João de Oliveira, protestando “com altivez e dignidade contra o ato de banditismo que se cometia”, mas
as carabinas dos soldados se voltaram contra eles. O capitão, “muito agitado e cheio de raiva, proferindo, em altas vozes, palavrões
que homem educado não diz a frente de uma senhora”, se justificou.
- Não sou eu o bandido, não sou eu! Veja esta ordem!
O velho coronel Colaço olhou a assinatura e viu o nome de
seu filho, secretário do Interior e Justiça do Estado, irmão de Maria Elisa, cunhado de João de Oliveira. “O saque a mão armada se
consumou. O capitão Trogílio e seus soldados ocuparam a tipografia, os escritórios, o interior do prédio enfim”. Depois, ele requisitou um mecânico e carpinteiro das oficinas da Estrada de Ferro
Teresa Cristina para que desmontassem as duas máquinas de impressão, serviço que durou todo o dia. Colocadas em caixotes,
seguiram para Florianópolis. À noite, a força deixou o prédio “levando um prelo grande, a pedal, para tiragem de jornal, e um prelo
pequeno, a pedal e força matriz, para impressão de avulsos e serviços de gabinete”.
Mais tarde, em 19 de maio, o Supremo Tribunal Federal confirmou o habeas-corpus da Corte catarinense. “A Imprensa” vai “circular em breve”, anuncia Oliveira. “Novas máquinas foram adquiridas a custa de sacrifícios”, anuncia. É nesse momento que Oliveira
reúne os artigos que vão compor o livro “O Ditador Catarinense”,
impresso na Alemanha e que não chegou a circular devido o falecimento de Hercílio Luz. Alguns exemplares, entretanto, foram parar nas mãos de amigos e na Biblioteca Pública do Estado.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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“Sacrifício e esforço”
Uma característica comum entre a segunda metade do século XIX, e avançando bastante no seguinte, foi o “topete atrevido
do corpo redatorial”. Todos eles possuem “forte tempero característico que o tempo ainda não conseguiu apagar”, escreve Zumblick no início da década de 1970. Quase todos eram partidários
e, ao mesmo tempo em que “teciam loas aos seus”, respingavam
“a lama mal cheirosa de um palavreado feio e nada elegante, àqueles outros, da oposição”.
Até o surgimento do off-set e da informatização, as oficinas
gráficas eram o lugar do “desconforto e igual sujeira”, quase sempre “montadas em pardieiros”. Quem chegou a conhecer uma deve
se lembrar que “pelo ar, dominando o ambiente, o constante resfolegar compassado do prelo grande, a pedal, num movimento de
mandíbulas, enchendo de letras e borrões escuros o branco das
páginas”, descreve Zumblick.
A rotina era mais ou menos comum. Na segunda-feira, bem
cedo, eram desmanchadas as páginas da última edição, devolvidos
os tipos a seus lugares nas gavetas, estantes e prateleiras. Era um
trabalho demorado e minucioso. Lá pela quarta-feira, com os originais à mão ou datilografados na frente, o tipógrafo ia montando
letra por letra o texto a ser impresso. As manchetes e títulos tinham tipos especiais, mantidos após o surgimento das máquinas
linotipos para a composição.
Claro que essa sujeira era eliminada periodicamente, mas a
natureza da atividade era ingrata: com o tempo, a tinta e a fumaça
impregnavam e escureciam o ambiente. Muitas dessas oficinas eram
instaladas em porões, devido ao peso do conjunto de equipamentos, facilitando a chegada de papel e a saída dos jornais impressos.
A análise de Zumblick dos profissionais que fizeram a imprensa em Tubarão, serve de perfil para os demais. “Há muito diletantismo nos homens que movimentaram os nossos semanários
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de ontem” e, jornalistas mesmo, “poucos o foram”. Entre esses, sempre estiveram presentes “o sacrifício e o esforço”, vivendo “intensamente” os dramas de um jornalismo “inçado de discórdias e polêmicas”, momentos que eram “soltas as amarras da ética, cortados os
cabos do bom senso e desamarradas as cordas da polidez”.
As retaliações “pipocavam atrevidas” e “os fatos mais íntimos ganhavam inteiras dimensões. Ao redor das refregas valiam
todos os tipos de armas. Armas-palavra. Armas-vitupério. Armascalúnia”, resume o mesmo Zumblick.
O berço em Laguna
José Joaquim Lopes foi um baiano nascido em 24 de outubro
de 1805, militar voluntário da guerra da Independência, estabelecido em Laguna com a dissolução de seu batalhão e aparecendo
em 1831, como professor de primeiras letras na cidade. Com os
episódios da República Catarinense em 1839, se transferiu para
Desterro (Florianópolis), voltando os olhos para o jornalismo, tendo
adquirido em hasta pública a Tipografia Provincial.
Além de criar o jornal “O Argus da Província de Santa Catarina”, em 1º de janeiro de 1856, que passou a circular três vezes
por semana a partir de 1861, considerado diário, ligado ao Partido
Conservador. Ele é apontado como autor do primeiro jornal de
Laguna, denominado “Pirilampo”, lançado em 6 de junho de 1864,
de curta duração. Mestre-escola e deputado provincial (18501863), J. J. Lopes também foi editor, tendo falecido em 6 de abril
de 1894, em Florianópolis.
O segundo periódico, impresso em Laguna, foi o “Município”. Circulou a partir de 12 de setembro de 1878, dirigido pelo
sergipano Prezalino Lery Santos, que tinha 28 anos de idade ao ser
contratado por negociantes locais para a instalação de um colégio.
“Era baixo, magro, moreno, nariz grande e usava somente bigode”, “volumoso e preto”, diz Saul Ulysséa.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
39
Os primeiros números do “Município”, impressos em tipografia própria, tinham o formato de 17 x 23 centímetros, ampliado depois para 23 x 29 cm. “Ensinou a alguns rapazes a arte tipográfica”, um deles “de nome Pedro Gaspar e um pardo de nome
Luiz”. Lery Santos, como ficou conhecido, montou o colégio e
dava aulas nas residências. “Era inteligente e bom orador”, recorda o mesmo Ulysséa, um de seus ex-alunos.
O terceiro jornal lagunense apareceu em 6 de julho de 1879,
por iniciativa de Tomáz Argemiro Ferreira Chaves – “A Verdade”.
Chaves era natural do Recife (PE), nascido em 28 de julho de 1851,
advogado e deputado estadual entre 1882-1885, ano em que faleceu na Capital. Outros dois profissionais pioneiros do jornalismo
em Laguna, então o município mais importante do Sul do Estado,
foram José Johanny e Antônio Bessa.
Nascido em Laguna em 30 de maio de 1872, filho do armador e exportador Henrique Joahanny, José tinha onze anos de idade ao concluir o ensino primário e ingressar como aprendiz no
jornal “A Verdade”, do advogado Chaves. Desde então, dedicouse de corpo e alma às artes tipográficas, passando por diversos
periódicos de Laguna, como “Fanal” (1887), “O Trabalho” (1888),
“A Pátria” (1892). Em 1892, Johanny, com 20 anos, atuou em “O
Lidador” e gerenciou o jornal “O Pharol”, órgão federalista.
Com 24 anos de idade teve que ganhar a vida, ingressando
como agente de correio (Gravatal, 1896) e professor público
(1899), passando em seguida ao comércio. Também foi secretário
da Câmara de Laguna (1902-1908) e deputado estadual nas 6ª e 7ª
legislaturas, em 1909 e 1910-1912, respectivamente. Mas renunciou ao mandato para assumir a direção do jornal “O Albor” (1910),
onde permaneceu pouco tempo, passando a se dedicar à edição
da “Revista Catarinense”, seu principal trabalho.
Tendo circulado entre 1911 e 1914, a “Revista Catarinense”
deu ênfase aos episódios da República Catarinense de 1839, publi-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
40
cando textos de Tobias Becker (“Os farrapos em Santa Catarina”),
em capítulos, assim como as atas da Câmara de Laguna sobre a
experiência republicana. Em suas páginas foram editados artigos
de Cruz e Souza, Henrique, José e Lucas Boiteux, José Vieira da
Rosa, Luiz Delfino, Horácio Nunes, Virgílio Várzea e Crispim Mira,
entre outros. Johanny faleceu em 1915, com 43 anos de idade, no
auge da produção jornalística.
A história do principal semanário de Laguna começa no dia
15 de setembro de 1901, quando três adolescentes resolvem fundar um jornal denominado “O Albor”: Adalberto Bessa, Manoel
dos Passos Bessa e Manoel Bessa. Antônio Bessa, que trabalhava
na gráfica Futuro, onde era impresso o jornal, assumiu a direção de
“O Albor” a partir de 1904. “O jornal circulou até 19 de janeiro de
1965, e só parou de circular devido a uma grande alta no preço do
papel”, entre outros fatores, conta Lúcia Maria Barros da Silveira,
bisneta de Antônio, autora de um trabalho de conclusão de curso
de Jornalismo na UFSC sobre o periódico.
“Até 2000, era o semanário com maior tempo de circulação
no Estado”, assinala a jornalista, que passou um ano e meio lendo as
3.054 edições – os primeiros números na Secretaria de Turismo
de Laguna e os restantes na Biblioteca Pública do Estado.
Durante algum tempo, “O Albor” enfrentou a concorrência
do jornal “Correio do Sul”, fundado em 1931, pelo mesmo João
de Oliveira já referido, e que circulou até 1955, ano de seu falecimento. O prédio onde funcionou o semanário, em Laguna, ainda
ostenta na fachada a logomarca da publicação. “A pessoa que adquiriu a edificação manteve intactos, como meu pai deixou, os
móveis e equipamentos da redação”, conta Vamiré Collaço de Oliveira. Um excelente perfil de João de Oliveira pode ser conferido
em “Retrato Político de uma Época - 1947-1960” (Editora Insular:
Florianópolis, 1999), de Paulo Konder Bornhausen.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
41
Imigrantes italianos
Os demais jornais do Sul do Estado surgiram em regiões de
imigração italiana, iniciada em 1878, como Criciúma, Orleans e
Urussanga. Nessa última cidade, vamos encontrar José Caruso MacDonald, siciliano, regente real do consulado italiano em Florianópolis, que se dedicou desde a chegada à educação. Era um homem
de “inteligência aberta e muito interessante no processo de colônia”, diz o padre Luigi Marzano.
Chegado em Urussanga em 1899, primeiro padre italiano,
Marzano entrou em conflito com a liderança dos colonos. “Quando o sacerdote chegou, encontrou os pobres imigrantes italianos à
mercê da exploração de alguns patrícios seus, prepostos do governo de Itália”, narra o padre Claudino Biff. “Eram eles filhos do
Mezzagiorno e da Reggio Emilia, ainda hoje a mais comunista das
províncias italianas. E por que eram anticlericais, carbonários,
logo de início sentiram a força da liderança do sacerdote que
contestava a opressão destes funcionários do governo italiano”,
acrescenta.
Um deles era o próprio Mac-Donald, que passou a publicar
um jornal intitulado “L’Azino” (O Asno), atacando padre Marzano,
que não se intimidou e mandou editar a resposta em Turim, sob a
denominação de “Il Mulo” (“O Jumento”). O enfrentamento durou
até 1908, quando o padre foi chamado de volta a Roma. O principal trabalho de Mac-Donald, entretanto, foi o “La Patria”, editado
em italiano, entre maio de 1901 e maio de 1902, num total de 52
números.
“A Gazeta Orleanense”, de Orleans, surgiu em 1915 e circulou durante três anos, nas mãos do jornalista Tito Carvalho (Orleans 1896, Florianópolis 1975), então auxiliar de escritório do Loyd,
ao lado do cunhado, Godofredo Marques. Outros jornais surgiram no município, todos com assinantes em Braço do Norte, Urussanga, Tubarão, Laguna e Florianópolis e mesmo no Rio de Janeiro
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
42
e São Paulo. “Quase todos os jornais eram de orientação política
definida, ligados ao Partido Republicano Catarinense”, diz o padre
João Leonir Dall’Alba.
O jornal pioneiro de Criciúma foi lançado em 1º de janeiro
de 1926, “O Mineiro”, data da posse do primeiro superintendente
(prefeito) municipal, Marcos Rovaris. O jornal foi criado por ele, o
presidente do Conselho Municipal (Câmara), Pedro Benedet, e o
minerador Frederico Minatto. Tendo o professor Adolpho Campos como redator, “O Mineiro” registrou os principais momentos
da criação de um novo município catarinense.
Jornalismo hoje
Tomando por base a relação de cerca de 100 jornais editados em Tubarão, feita por Walter Zumblick, podemos dizer que o
Sul de Santa Catarina conheceu centenas de periódicos desde fins
do século XIX.
Entre os mais importantes de Tubarão destaque para “A Imprensa”, dirigido por Manoel de Aguiar entre 1934 e 1960, com
circulação regional. Outro personagem de presença permanente e
controversa foi o jornalista Hermínio Menezes, que já em 1911,
estava no ramo. Zumblick fala num “destemido jornalista” que, “do
alto do seu jornal, fustigava Deus e todo mundo”.
Entre os pioneiros no aprimoramento técnico, destaque para
o “Gazeta do Sul”, editado em Tubarão desde 1959, primeiro jornal catarinense a circular em off-set a partir de 1969, impresso em
Porto Alegre (RS).
Hoje, a região conta com vários jornais. Os principais semanários são o “Jornal de Laguna” (Laguna), “Agora” e “Hoje” (Orleans), “Jornal da Cidade”, “A Crítica”, “Jornal de Bairros”, “Nossa
Folha” e “Última Hora” (Tubarão). Em Criciúma, circulam os semanários “Folha de Criciúma”, “Folha dos Municípios” e “Folha
Regional” (editado em Maracajá).
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
43
O diário mais antigo é o “Diário do Sul” (Tubarão), desde
1995, terceiro do país a usar sistema de fotografia digital, e o “Notisul” (iniciado em 2000) no mesmo município. Em Criciúma, circulam os diários “Jornal da Manh㔠(desde 1983) e “Tribuna do
Dia” (1955, antigo “Tribuna Criciumense”) e o “Diário de Criciúma”. O “Diário do Sul Vale”, editado em Braço do Norte, cobre
os municípios entre o vale de Braço do Norte e o pé da Serra do
Rio do Rastro, em Lauro Müller. Em Imbituba, circula o “Diário do
Sul Litoral”.
Fontes
BIFF, Claudino. Crônicas da Diocese de Tubarão. Tubarão: Edição do
Autor, 1996
DALL’ALBA, João Leonir da. Colonos e mineiros no grande Orleans.
Orleans: Edição do Autor/Instituto São José, 1986
OLIVEIRA, João de; BARRETO, Alexandrino. O Dictador Catharinense –
Artigos de defesa. Tubarão: A Imprensa, 1924
PIAZZA, Walter F. (org). Italianos em Santa Catarina (Vol 1).
Florianópolis: Lunardelli, 2001
ULYSSÉA, Saul. Laguna antes de 1880. Florianópolis: Imprensa Oficial
do Estado de Santa Catarina (Ioesc), 1943
ZUMBLICK, Walter. Este meu Tubarão...! (Vol 2). Tubarão: Edição do
Autor, s/d.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Resistência no Oeste catarinense
Rubens Lunge
A ação coletiva em defesa dos direitos dos trabalhadores
pelos jornalistas do Oeste de Santa Catarina tem como parâmetro
o mês de fevereiro de 2004, três mulheres e a redação de um
tradicional e conceituado jornal impresso. Em nome de uma idéia e
de um conceito sobre jornalismo e equipe, profissionais resistem
até mesmo ao mais cruel argumento dos empresários: a demissão.
É esta a história que devo contar com o ex-chefe de uma redação
de jornalistas que buscou a verdade como fonte e construiu a unidade como profissionais.
Longe demais
Antes de iniciar efetivamente esta parte da história do jornalismo brasileiro, vale registrar que a categoria na região – um vasto
território, envolvendo mais de um terço da área de Santa Catarina
e mais de uma centena de municípios –, somente sofreu forte transformação com a chegada dos cursos superiores, primeiramente
em Chapecó, em meados da década de 1990, e depois em Concórdia, no final da mesma década, e, por fim em Lages. É possível
que o ciclo esteja se findando com a abertura de um curso de
Jornalismo em São Miguel do Oeste, na fronteira com a Argentina,
neste início de século e milênio.
Mas as grandes preocupações dos jornalistas, como o cumprimento da legislação, principalmente quanto ao exercício profissional, mesmo com os cursos superiores, ainda são problemas a
serem vencidos: as Universidades formam jornalistas, que enconJORNALISMO EM PERSPECTIVA
45
tram não habilitados exercendo a função nos meios de comunicação. O choque legalista, que deveria ser promovido pelos órgãos
governamentais, especialmente a fiscalização do Ministério do Trabalho, não se verifica.
A ação sindical ocupou-se, sucessão após sucessão de dirigentes, em buscar a filiação de jornalistas profissionais, promover
cursos de aperfeiçoamento, como o realizado em parceria com a
Universidade Federal de Santa Catarina, no final dos anos de 1980,
credenciar conveniados e, eventualmente, debater com maior profundidade e substância o exercício profissional.
O espaço privilegiado para os debates sempre foi o da Universidade, diante da quase impossibilidade do exercício do sindicalismo de ação pelos dirigentes sindicais, pela falta de estrutura,
carência de tempo, uma vez que nenhum, em tempo algum, foi
liberado, e pelas distâncias a serem percorridas para o fazer sindical na base, assim como a carência de formação voltada para os
dirigentes.
“Diário da Manhã”
O jornal “Diário da Manh㔠começou a circular em Chapecó
há um quarto de século. Mantém um estilo sóbrio, mas faz questão de se pautar por suas relações. A notícia que os jornalistas
dariam nem sempre é aquela que a empresa recomenda. Principalmente aquelas que tratam de assuntos relacionados com o Poder
Executivo e com os grupos economicamente mais ativos. Ocorre
o mesmo nas redações de Passo Fundo, a matriz, Erechim e Carazinho.
No entanto, uma outra possibilidade começou a acontecer
em maio de 2004, quando o grupo da redação – um chefe de
redação e quatro repórteres – iniciam a construção de uma proposta buscando na comunidade a resposta que ela – a comunidade
– quer nos meios de comunicação.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
46
Nem bem haviam se passado seis meses deste início, e tendo como deflagrador a troca de gerentes da unidade, ocorre a
demissão do chefe de redação e o seu retorno, por ordem judicial, em vista de sua condição de dirigente sindical.
A empresa “Diário da Manhã”, através do novo gerente, em
fevereiro de 2004, faz uma nova tentativa para acabar com este
grupo de jornalistas, que aplicava na prática uma das propostas
teóricas de todas as faculdades de jornalismo que se possa ter
conhecimento: o exercício da função pública do trabalhador jornalista, porque comprometido com a informação verdadeira e ética,
e principalmente porque antes de tudo quer cumprir o seu acordo, a sua aliança, com o leitor, com o seu público, oferecendo
informação de qualidade e sem nenhum compromisso que não o
do interesse coletivo.
A estratégia da empresa foi desfazer a equipe. O gerente
exige que o chefe de redação demita uma das jornalistas. Diante da
negativa, ele mesmo o faz. Sem justificativa, brutal – e recheada de
ameaças -, a demissão da jornalista Solange Oro moveu os colegas
da redação, que na tentativa de construir o diálogo com os proprietários da empresa, encaminha uma pauta de solicitações para a
sede da empresa, em Passo Fundo (RS), e notificam que se não
houvesse conversações, a greve estava declarada. O grupo exigia
a anulação da demissão de Solange Oro.
Nem mesmo com a convocação da Subdelegacia Regional
do Trabalho de Chapecó os representantes da empresa compareceram para a negociação, preferindo mais um ato que atenta contra a liberdade de organização de qualquer categoria de trabalhadores: demite as repórteres Fernanda Conte e Cátia Leila De Filtro
por justa causa, acusando insubordinação, e afasta, para abertura de
inquérito administrativo, o dirigente sindical e chefe de redação.
Na Justiça, todos os que tiveram, pela empresa, os seus direitos atingidos, buscaram reparação.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Jornalismo e Realidade
Recém-formadas, Solange Oro, Fernanda Conte e Cátia Leila De Filtro chegaram ao mercado de trabalho com os sonhos de
todos os principiantes: construir através da comunicação uma relação melhor, voltada para todos. Em poucos meses, constataram
que em alguns lugares ainda há preferências orientadas pela relação
comercial, e que elas não poderiam sonhar com as teorias da Universidade, e, forçosamente, teriam que se render aos ditames do
mercado.
Pela demonstração que deixaram para aqueles que lhes são
contemporâneas e para todas as gerações futuras, Solange, Fernanda e Cátia fizeram a opção mais difícil. Resolveram dizer que
acreditam na Universidade, na profissão de jornalista – empregado, sim, de uma empresa privada, porém com o coração e as
mentes dirigidas pela função pública – e, principalmente, que acreditam que a informação não tem versão, mas tem verdade.
Essas três trabalhadoras do jornalismo de Chapecó devem
ter seus nomes guardados. Não porque foram as primeiras a participar de uma greve em um meio de comunicação na maior cidade
do Oeste de Santa Catarina para exigir justiça, mas porque demonstraram o verdadeiro espírito do sindicalismo, em que a solidariedade é a base para todas as ações.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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A mídia no Vale do Itajaí
Mario Luiz Fernandes
Uma das mais ricas e populosas regiões de Santa Catarina e
segundo pólo têxtil do mundo, o Vale do Itajaí tem um papel singular na história dos meios de comunicação do estado. É no Vale,
mais precisamente em Blumenau, que nasceu a mídia eletrônica –
rádio e televisão – catarinense, colocando a cidade em posição de
vanguarda em relação a municípios maiores como Florianópolis e
Joinville.
Mais de setenta anos depois, a região mantém posição de
destaque na radiodifusão. Das 184 emissoras de rádio existentes
no estado, de acordo com a Associação Catarinense de Emissoras
de Rádio e Televisão, pelo menos 36 (17 FMs e 19 AMs) estão no
Vale, isto sem levar em conta as educativas e comunitárias, além de
emissoras comerciais não filiadas à entidade. Há ainda seis emissoras de televisão com sinal aberto1 , além dos canais por assinatura.
No jornalismo impresso, o destaque é o “Jornal de Santa
Catarina”, o terceiro mais importante do estado. Em pesquisa realizada em 19992 , constatamos que a imprensa catarinense é constituída por 177 pequenos jornais, além dos quatro maiores: “Diário Catarinense”, “A Notícia”, “Jornal de Santa Catarina” e “O Esta1 Comerciais: RBS TV Blumenau (Blumenau) e TV Record (Itajaí); Educativas: TV
Brasil Esperança (Itajaí), TV Bela Aliança (Rio do Sul), TV Educativa Vale do
Itajaí (Blumenau), TV Panorama (Balneário Camboriú).
2 A dissertação de mestrado defendida na Universidade Católica do Rio Grande do
Sul em 2000 é um estudo inédito sobre a pequena imprensa catarinense e foi
transformada no livro “A Força do Jornal do Interior” (Fernandes, 2003). Na
pesquisa, não foram considerados jornais institucionais como de bairros,
sindicais, house organs, escolares, religiosos, especializados e outros mantidos
por instituições não comerciais.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
49
do”. Entre os pequenos, 45 (25%) estavam no Vale, a maioria semanários. Dois estão entre os seis mais antigos3 do estado ainda
em circulação: 3º) “Nova Era” (Rio do Sul – desde 26/12/1937),
6º) “O Município” (Brusque – desde 25/06/1954).
Por suas atuações nas respectivas comunidades, vale registrar ainda o “Página 3” e “Tribuna Catarinense” (Balneário Camboriú), “O Atlântico” (Itapema), “Jornal do Médio Vale” (Timbó), “Cruzeiro do Vale” (Gaspar), “Diário da Cidade” e o polêmico “Diário
do Litoral” (Itajaí), “A Voz da Razão” e “Tribuna Regional” (Blumenau), “A Cidade” (Rio do Sul) e o “Jornal do Comércio” (Piçarras).
Esta pequena panorâmica evidencia a necessidade de uma
ampla pesquisa para se traçar o perfil da imprensa no Vale do Itajaí.
Em razão da brevidade desse capítulo, concentraremos nossa abordagem na imprensa escrita de Blumenau e Itajaí como representativas da região. Tal delimitação parte do fato, também, que estes
são os municípios mais expressivos e os pioneiros da indústria cultural do Vale e de Santa Catarina.
Apenas como ilustração, é importante ressaltar que o pioneirismo do rádio coube a João Medeiros Júnior, o primeiro radioamador4 licenciado do estado, e que em 1929 instalou um serviço
de alto-falantes no centro de Blumenau. No final de 1931, ele iniciou as primeiras experiências radiofônicas e em 1935 a Rádio Clube (PCR-4) estava no ar. A licença saiu em 19 de março de 1936.5
3 “O Estado” (13 de maio de 1915), de Florianópolis, é o jornal catarinense mais
antigo ainda em circulação. Entre os pequenos jornais, os dois primeiros são
“Correio do Povo” (10 de maio de 1919), de Jaraguá do Sul, e “O Comércio” (11
de junho de 1931), de Porto União.
4 De acordo com Medeiros e Vieira, durante 15 anos, o serviço de rádio amador
prestado por Medeiros Júnior, “foi o principal elo de comunicação de Blumenau
com o Brasil e com o mundo, numa época em que não havia serviço telefônico de
longa distância e o telégrafo era ainda bastante precário” (1999 : 29).
5 A rádio contava então com dez sócios, entre eles Luiz de Freitas Melro, Ingo
Hering, Roberto Grossembacher e Medeiros Júnior.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
50
Santa Catarina entrava na era do rádio6 , 23 anos depois de fundada
a Rádio Sociedade Rio de Janeiro, a primeira do Brasil7 . Em Itajaí,
em 26 de outubro de 1942, Dagoberto Alves Nogueira e Adolfo
de Oliveira Júnior instalaram oficialmente a Rádio Difusora, a terceira em solo catarinense.
Em 1954, era constituída a Rede Coligadas de Rádio8 que,
mais tarde ,pleiteou a concessão de um canal de televisão para
Blumenau. Surgia assim, em 1º de setembro de 1969, a TV Coligadas, a primeira emissora oficialmente instalada em Santa Catarina,
dezenove anos depois da TV Tupi, a primeira do país9 .
Breve retorno às origens
Para compreendermos melhor o processo de evolução da
imprensa no Vale do Itajaí, é sempre necessário recorrermos à
história. Assim como ocorreu nos primórdios da imprensa em
todo mundo, o jornalismo na região também nasceu estreitamente
comprometido com o poder político, e só nos últimos vinte anos
vem rompendo lentamente essas amarras.
Ao contrário do que ocorreria com a mídia eletrônica no
século XX, o jornalismo impresso nasceu tardiamente em Santa
Catarina e mais ainda no Vale do Itajaí. O “Kolonie Zeitung”, lançado em Joinville em 1862, foi, durante vinte anos, o porta-voz dos
blumenauenses e por isso mesmo considerado o primeiro jornal
6 Depois da Rádio Clube vieram a Rádio Difusora de Joinville (Joinville - 01/02/
1941), Rádio Difusora de Itajaí (Itajaí - 26/10/1942), Rádio Guarujá
(Florianópolis - 14/05/1943) e Rádio Catarinense (Joaçaba - 06/07/1945).
7 A emissora foi fundada em 23 de abril de 1923 por Roquete Pinto e Henrique
Morize.
8 Liderada pela Rádio Clube de Blumenau, a rede contava ainda com a Clube de
Gaspar, Clube de Indaial, Araguaia (Brusque), Difusora (Blumenau) e Clube de
Itajaí.
9 Assis Chateaubriand, o fundador dos Diários Associados, foi o pioneiro da televisão
brasileira ao fundar a TV Tupi Difusora, em São Paulo, em 18 de setembro de
1950.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
51
da colônia fundada por Hermann Blumenau. O primeiro periódico
local, de fato, só surgiu em 1º de janeiro de 1881. Em Itajaí, somente em 1884. Ou seja, o Vale do Itajaí só teve imprensa própria cinqüenta anos após Jerônimo Coelho ter lançado em 28
de julho de 1831, em Desterro, “O Catharinense”, o primeiro
jornal da província, e 31 anos após o início da colonização oficial de Blumenau.
Blumenau
O “Blumenauer Zeitung” (“Gazeta Blumenauense”), primeiro jornal de Blumenau e do Vale, foi resultado de uma ação cooperativada da qual 71 colonos eram cotistas. A iniciativa partiu de
Hermann Bauggarten, então com 25 anos. Nascido em Blumenau,
mas ilustrado em Porto Alegre e Rio de Janeiro, o descendente de
alemães voltou à sua terra natal com o objetivo de montar um
jornal. A falta de recursos financeiros o levou à constituição da
Sociedade Tipográfica Blumenauer Zeitung, em 1879. Conforme
o estabelecido em contrato, o valor das ações foi devolvido gradativamente aos cotistas, e Baugartem tornou-se o único dono.
Com uma impressora importada de Leipzig (Alemanha), o
semanário surgia no formado 30 por 39,5 centímetros, quatro
páginas, redigido em alemão e com circulação nas principais cidades catarinenses, onde mantinha agentes (Itajaí, Brusque, Joinville,
Desterro), além do Rio de Janeiro e Alemanha. Antônio Härte era
o redator e Hermann Baumgarten o editor. Circulou até 2 de dezembro de 1938.
Mesmo contrário à criação do jornal, Hermann Blumenau, o
administrador da colônia, comprou duas ações e sob sua assinatura colocou a observação bedingt (condicionalmente). Uma semana
depois da primeira edição, Blumenau recebia a devolução de sua
parcela no empreendimento. Tal conservadorismo é defendido por
Silva (1977: 10) como “altamente proveitoso à ordem e disciplina
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
52
da Colônia”. Justifica o autor: “Os anos que se seguiram à publicação regular do Blumenauer-Zeitung vieram dar-lhe razão. As atividades políticas desse jornal, embora sem sombra de dúvidas, voltadas exclusivamente para a defesa do nome da Colônia e dos interesses dos seus moradores, provocou a fundação de outro jornal,
o Immigrant e dos debates entre as duas folhas, nasceram discórdias, lutas sérias, ataques à moral e à dignidade dos contendores e
dos seus adeptos” (idem).
O “Immigrant”, segundo jornal da colônia blumenauense, foi
criado por Bernardo Scheimantel e circulou de abril de 1883 a
abril de 1891. Nascia como resultado declarado de um embate
político. Após a grande enchente de 1880 - que atrasou em dois
anos a instalação do município -, o governo imperial designou uma
comissão de engenheiros, chefiada pelo Dr. Antunes, para fazer o
levantamento dos prejuízos e atuar na reconstrução da colônia.
A comissão praticou desmandos, favorecimentos e atos de
corrupção que geraram pronta reação do “Blumenauer-Zeitung”,
e em muitos casos bastante contundentes. Foi então que simpatizantes e beneficiados por Antunes criaram o “Immigrant”. O confronto entre os dois jornais chegou à esfera do poder público,
sendo debatido na Câmara de Vereadores, criada em 1882. Os
desafetos só amenizaram quando a comissão Antunes deixou
Blumenau.
Após a Proclamação da República, os dois jornais travaram
novo embate. O “Immigrant”, de matiz liberal, comemorou o novo
regime em vários editoriais e perdeu muitos aliados, os opositores
à política florianista. O “Blumenauer”, ligado ao Partido Conservador, revidou. Sem apoio, o “Immigrant” fechou as portas em 1891.
Em 18 de julho de 1892, surge “O Município”, editado em
português e alemão. O objetivo era veicular os comunicados oficiais da Intendência, já que o “Blumenauer” fazia oposição ao intendente. O jornal teve apenas 32 edições e saiu de circulação em
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
53
março de 1893. No mesmo mês, foi substituído pela segunda versão de o “Immigrant”, agora sob a direção de Paulo Stelzer, que
defendia a causa federalista. A maioria da população era republicana e tinha como porta-voz o “Blumenauer”. Os confrontos entre
os dois jornais não tardaram. Em 16 de julho, após 16 edições,
“Immigrant” desaparecia pela segunda vez. Foi comprado pelo
pastor Faulhaber, em nome da Conferência Pastoral Evangélica, que
passou a editar o semanário religioso “Der Urwaldsbote” (“O Mensageiro da Floresta”), que circulou até 29 de agosto de 1941.
Em sua longa trajetória, o “Der Urwaldsbote” trocou de proprietário algumas vezes, assumindo também colorações políticas.
O pastor Faulhaber ficou no comando da redação até 1898 e, após
as eleições daquele ano, foi substituído por Eugênio Fouquet. Este
foi o responsável pela orientação do jornal durante quase trinta
anos. A Primeira Guerra interrompeu a circulação do jornal por
dois anos, que retornou em 23 de agosto de 1919. Variados e
ricos suplementos, inclusive impressos na Alemanha, foram encartados em “Der Urwaldsbote” durante muitos anos. Em 1928, o
jornal chegava à tiragem de cinco mil exemplares.
A partir da década de 30, nada menos que 32 municípios
foram desmembrados de Blumenau, com novos veículos de comunicação emergindo como porta-vozes destas novas comunidades.
Os novos títulos criados a partir do início do século XX
expandiram a imprensa de Blumenau. “A Nação” (1943/1980), fundado por Honorato Tomelin, foi o principal jornal blumenauense
até o nascimento do “Jornal de Santa Catarina” em 1971. Seguindo
a vocação industrial do município, os jornais tornaram-se cada vez
menos voltados às questões da imigração e à agricultura, e mais ao
cotidiano urbano e industrial. Até início dos anos 70, de acordo
com Silva, foram 137 publicações entre jornais-empresa, órgãos
sindicais, classistas, colegiais, agremiativos, house organs, revistas,
anuários e outros.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Itajaí
Em uma época em que, às portas da Proclamação da República, expressiva parcela dos jornais catarinenses não escondia suas
cores partidárias, ocorre a primeira e breve experiência da imprensa de Itajaí. Em 10 de maio de 1884, João da Cruz, o mestre
Janja, lança o semanário “Itajahy”, que circulou pouco mais de um
mês. “As precárias condições econômicas e tecnológicas aliadas
aos obstáculos políticos oferecidos à circulação de idéias em uma
sociedade nitidamente autoritária” são elencadas por Santos (2002:
259) como as principais causas que condicionaram o atraso do
nascimento da imprensa itajaiense.
Com uma postura editorial de isenção ante às refregas políticas locais, em 18 de fevereiro de 1886, Tranqüilo Antônio da
Silva e Eduardo Dias de Miranda lançam o moderado bissemanário
“A Idéia”. Na mesma linha editorial, em 20 de fevereiro de 1887,
Galdino de Pereira Lima coloca em circulação “A Liberdade”. Porém, esta aparente neutralidade da imprensa local muda radicalmente em setembro de 1890 quando o médico Pedro Ferreira e
Silva, um dos líderes locais do republicanismo, funda a “Gazeta de
Itajahy” “para divulgar as idéias republicanas e defender as ações
político-administrativas do interventor Lauro Muller” (Ibidem: 260).
Este foi o mote inicial para que a imprensa da foz do Itajaí
estivesse cada vez mais atrelada ao poder político, cenário que só
começaria a mudar gradativamente a partir do final do século XX.
O exemplo seguinte foi um outro semanário intitulado “Gazeta de
Itajahy” criado em 13 de outubro de 1892, também republicanista, e o primeiro com circulação em todo o Vale. Inovou ainda na
distribuição gratuita e no conteúdo bilíngüe (português e alemão).
Encerrando a primeira fase da imprensa itajaiense do final do século XIX, circularam na cidade O “Immigrant” (1890), “A Flexa” e “A
Semana Ilustrada” (1894), “Jornal do Brasil” (1896) e o “Progresso” (1899).
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
55
Do início ao final do século XX, de acordo com levantamento de Santos (2002), 83 jornais foram lançados. Em meio a tantas
publicações efêmeras, algumas se tornaram marcos na imprensa
local por sua longevidade e postura editorial: “Novidades” (1904/
1919), fundado por Tibúrcio de Freitas, teve a colaboração dos
irmãos Konder (Victor, Marcos e Adolpho) e desempenhou importante papel na Campanha Civilista, de Rui Barbosa em 1910;
“O Pharol” (1904/1936), criado por João Honório de Miranda, de
oposição e postura crítica, foi fechado pela censura de Getúlio
Vargas; “Diário de Itajaí” (1914 – quatro meses), de Manoel Ferreira de Miranda, foi o primeiro diário da cidade; “Jornal do Povo”
(1935/1989), fundado por Abdon Fóes, passou por várias fases
com diferentes proprietários, dominando o cenário jornalístico itajaiense até o início dos anos 60, quando do surgimento do jornal “A
Nação”; “O Correio” (1963/1976), de Elias Adaime, o único jornal
local de oposição ao regime militar e inclusive era revisado por
censores do Serviço Nacional de Informação (SNI); “Diário do
Litoral” (1979), de Dalmo Viveira; “Diário da Cidade” (1992), de
Valdemir Corrêa das Chagas.
No segmento revista, vale o registro da “Realeza”, editada
em Balneário Camboriú por Coninck Júnior e Ivaine Salete Gilioli; e
“Papa Siri”, por Adilson Amaral, vinculada à Academia Itajaiense de
Letras.
Caminhos para a profissionalização
Definir com precisão o início da profissionalização da imprensa escrita no Vale do Itajaí, não é tarefa fácil. Longe de limitar a
questão em torno de ter ou não diploma superior para exercer a
profissão, entendemos por profissionalização aquela que passa pela
modernização e consolidação econômica das empresas, consistência e independência/imparcialidade da linha editorial, conscientização e espírito de classe dos profissionais, qualidade do conteúJORNALISMO EM PERSPECTIVA
56
do informativo, conduta ética de empresários e jornalistas, e compromisso social com a informação e com o leitor. Ou seja, processo este que ainda está em construção, pelo menos em alguns dos
aspectos enumerados.
Nesta direção, elencamos pelo menos quatro marcos fundamentais: o jornal “A Nação”, de Itajaí, como o primeiro a implantar
as modernas técnicas de redação; o “Jornal de Santa Catarina”, de
Blumenau, o primeiro grande e moderno empreendimento jornalístico do estado; a chegada dos primeiros jornalistas com formação superior; o curso de Jornalismo da Universidade do Vale do
Itajaí (Univali), o primeiro do Vale.
Acrescentamos ainda a contribuição do professor e jornalista Hélio Floriano dos Santos10 , que há anos estuda a imprensa de
Itajaí, e a divide nas fases artesanal – estruturada no jornalismo
opinativo e no jornalismo adjetivado – e industrial – centrada no
jornalismo técnico e no jornalismo técnico-profissional. Estas fases
da imprensa itajaiense não só complementam como aprofundam a
proposta deste artigo.
O jornalismo técnico de “A Nação”
O jornal “A Nação”, de Itajaí, é um desmembramento do “A
Nação”, de Blumenau, fundado por Honorato Tomelim em 29 de
maio de 1943. O jornal blumenauense nasceu com seis páginas e
circulação às terças, quintas e sábados. Seis meses depois se tornava diário. Já em agosto do ano seguinte era adquirido pelo voraz
Assis Chateaubrian, dos Diários Associados. Em Santa Catarina, o
grupo contava ainda com o “Jornal de Joinville” (1919) e “Diário
Catarinense” (Florianópolis – 1973). Todos fecharam em 1980 com
a falência do grupo.
A versão itajaiense de “A Nação” foi lançada em 15 de novembro de 1962, sob a direção de Wilfredo Eugênio Currlin e
10 Entrevista concedida ao autor em 20/12/2004.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
57
Nilton Isaac Russi. Durante o ano de 1967, o repórter Renato
Mannes de Freitas fez estágio no “Diário do Paraná”, em Curitiba,
de onde traz para Itajaí as novas técnicas de redação. Estas incluem
as seis perguntas clássicas que compõem o lead – O quê? Quem?
Quando? Como? Onde? Por quê? – além do conceito de pirâmide
invertida, objetividade e imparcialidade, o uso de normas e o manual de redação.
Numa época em que o texto jornalístico era carregado de
adjetivação, opinião e proposições políticas, a nova técnica causou
polêmicas, mas se espalhou rapidamente pela redação de “A Nação”, que se tornou uma verdadeira academia “formando” pelo
menos duas gerações de jornalistas dentro da nova técnica. A nova
técnica também chegou às emissoras de rádio, já que seus departamentos de jornalismo tinham os jornais como suas fontes. “Antes
se misturava muito os fatos e as opiniões. Na verdade o jornalismo
era mais feito de opinião do que de informação. O jornalismo era
mais comentado, inflamado. Era um texto de cunho pessoal, quase
um testemunho. Com a nova técnica tudo isso foi revisto. O repórter passou a ter a função de relatar de forma impessoal os fatos. Os
comentários e opiniões ficavam por conta das fontes (informantes,
entrevistados). Basicamente aprendemos a elaborar um texto onde
estava bem separado o fato e a opinião” (Freitas In: Santos, 2004).
Outro repórter do “A Nação” a dar uma forte contribuição
à difusão das novas técnicas jornalísticas em Itajaí, foi Álvaro Balbinot, após realizar um curso de jornalismo técnico por correspondência no Instituto Gutenberg. No relato do jornalista, uma síntese
do que era o improviso e o amadorismo do jornalismo da época:
“a imprensa só elogiava e as matérias eram superficiais. Os leitores
não eram levados à reflexão, apenas ficavam lendo bajulações. O
jornal disponibilizava muito espaço e nós tínhamos que preencher.
Às vezes, acabávamos escrevendo a mesma coisa, só que com
outras palavras“.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
58
A ditadura militar, que estava no seu auge no início dos anos
70, também impunha suas amarras à imprensa local e os efeitos
eram nefastos à autonomia editorial. “Os jornalistas tinham medo de
se posicionar e sofrer represálias na redação. Por isso não existia censura, ninguém se arriscava”, lembra Balbinot (In Jordão, 2003: 77).
O “Jornal de Santa Catarina” inicia a
era da modernização
A 22 de setembro de 1971, Santa Catarina entra na era do
jornalismo moderno com o seu primeiro jornal em off-set, sistema
de composição que era privilégio apenas dos grandes diários das
principais capitais brasileiras. Foi também o primeiro jornal a ter um
sistema de telefoto no estado e a contar com uma frota de 26 veículos
para a distribuição do jornal em todo território catarinense. Foram
dois anos de planejamento, incluindo edições pilotos para avaliar o
projeto gráfico, o conteúdo editorial e a produção industrial.
O projeto era coordenado pelo professor e jornalista gaúcho Nestor Fedrizzi que deixou um exemplo de profissionalismo
para a imprensa catarinense. O governador Colombo Machado
Salles acionou as rotativas que imprimiram a primeira edição com
a manchete em tom de denúncia e embalada em moderno projeto
gráfico: “Esgoto só existe em duas cidades de Santa Catarina”.
Assim nascia o “Jornal de Santa Catarina”, para, a partir de
Blumenau, atingir os então 197 municípios catarinenses, concorrendo com “A Notícia” (Joinville) e “O Estado” (Florianópolis). Na
capa, abaixo do logotipo, ao invés da cidade sede e a data, constava “Santa Catarina, 22 de setembro de 1971”. Era uma época que
“Santa Catarina não tinha jornal independente”, destaca Flávio de
Almeida Coelho11 . “Boa parte dos jornalistas não vivia do jornalismo, vivia de outros empregos, principalmente no Governo do Estado. Como então a imprensa podia ser independente?”, questiona
o empresário.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
59
A redação sob o comando de Nestor Fedrizzi (também diretor do departamento de telejornalismo da TV Coligadas), não
era nada modesta para a época. Contava com cerca de 40 profissionais na sede e outros 20 apenas na sucursal de Florianópolis,
incluindo o jornalista Adolfo Ziguelli. Tinha a colaboração de colunistas como Ibraim Sued e Joelmir Betting, e operava com as agências de notícias do “Jornal do Brasil”, “Folha de S. Paulo”, Reuters e
Asa Press. Quando do seu lançamento, o Santa contava com 200
funcionários e chegou a 400 no início da década de 80.
Para montar a moderna redação, pelo menos 15 dos 40 profissionais da sede em Blumenau foram trazidos de Porto Alegre,
onde os cursos de Jornalismo da Universidade Federal e da Universidade Católica já tinham 20 anos de tradição. Essa “importação” deu trabalho, pois os gaúchos não conheciam as peculiaridades de Santa Catarina e levou algum tempo para se adaptarem ao
novo cenário.
O “Jornal de Santa Catarina” nascia para completar a primeira grande rede de comunicação do estado. Com a TV Coligadas
operando desde setembro de 1969 e uma cadeia de emissoras de
rádios associadas, no projeto dos empresários Wilson de Freitas
Melro, Caetano Deecke de Figueiredo, Flávio Rosa e Flávio de Almeida Coelho, entre outros que formavam o grupo, só faltava o
jornal impresso.
Apesar do sucesso, logo surge a primeira crise interna a que
se sucederiam várias outras. A titularidade do jornal passa por diferentes grupos políticos e empresariais, indo da matiz política de
direita à esquerda12 . Essa alternância de comando afetou a estrutura da empresa e a linha editorial do jornal que perde sua independência e imparcialidade.
11 Entrevista concedida ao autor em 20/12/2004.
12 Em 1972, Wilson Melro e Caetano Deecke se desentendem sobre a
administração das empresas e os jornalistas gaúchos são demitidos. Dois anos
depois, o controle acionário passa a um grupo de empresários e políticos
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
60
Com a venda da TV Coligadas em 1980, o Santa mergulha
em grave crise financeira, acentuada pela recessão no início do
Governo Collor. Em maio de 1990, seus jornalistas realizaram a
mais longa greve da categoria, que durou quase dois meses. Nas
primeiras semanas a adesão foi de quase 100% dos jornalistas,
fechando praticamente todas as sucursais. “Mais de 40 profissionais foram demitidos, embora o movimento tenha sido julgado
legal. Durante o tempo em que a redação parou, o jornal circulou
precariamente e no início uma edição de quatro páginas explicava
aos leitores o que estava acontecendo” (Zero, 1993 : 14).
Em 1º de setembro de 1992, a RBS assumia o jornal imprimindo-lhe novo ritmo editorial, comercial e administrativo. A aquisição
era estratégica. Como o “Diário Catarinense”, jornal do grupo lançado
em Florianópolis em 1986, não conseguia penetrar maciçamente no
Vale do Itajaí, o Santa representava um grande portal de entrada da
RBS naquele importante mercado de anunciantes e leitores.
O Santa foi regionalizado e atualmente atinge 64 municípios
do Vale do Itajaí com sucursais em Florianópolis, Itajaí, Brusque,
Rio do Sul e Jaraguá do Sul. Já em setembro de 1994, passava a ser
impresso em cores e em 1996 chegava à Internet. Atualmente, é o
terceiro em tiragem no estado, chegando a 20 mil exemplares de
segunda a sábado e cerca de 25 mil aos domingos. Conta com
cerca de 50 profissionais na redação que produzem a média de 44
páginas diárias.
integrado por Mário Petrelli, Flávio Coelho, Paulo e Jorge Bornhausen, entre
outros. Mário Petrelli, Flávio Coelho e Rudi Bauer ficam no comando até 1983,
ano em que Bauer deixa a sociedade. No ano seguinte, foi a vez de Petrelli vender
sua parte e Flávio de Almeida Coelho passa a acionista majoritário. Em 1985,
Flávio Coelho negocia o jornal com o empreiteiro Nilton José dos Reis. No final dos
anos 80, nova transferência, desta vez para um grupo de 12 empresários
blumenauenses, e o Santa passa “a ser dirigido por profissionais indicados ou
aprovados pelo governo do PMDB, mantendo íntimas ligações com o Palácio Santa
Catarina (Pereira, 1992 : 126)”. Segundo o autor, a transação foi conduzida
secretamente pelo então presidente da Centrais Elétricas de Santa Catarina
(Celesc), Nogert Wiest, tesoureiro da campanha do governador Pedro Ivo Campos.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
61
Nesta nova fase, o jornal não deixou de trazer jornalistas de
outros estados para aperfeiçoar seu quadro profissional. Após a
greve de 1990, foram contratados principalmente jornalistas paranaenses. No início de 1993, além de profissionais do Rio de Janeiro, São Paulo e Paraná, chegaram mais seis gaúchos. Entre eles,
Edgar Gonçalves Júnior, que a partir de janeiro de 2000 tornou-se
o atual editor-chefe.
Os desbravadores
No início dos anos 80, chega a Itajaí a primeira geração de
jornalistas com graduação na área. A primeira foi a itajaiense Constância Teresinha Severino, formada pela Universidade Católica do
Paraná em 1976. Antes de retornar à terra natal, atuou em jornais
de Curitiba. Foi a primeira mulher na imprensa de Joinville (“Jornal
de Joinville” – 1978) e em Itajaí (sucursal de A Notícia – 1980).
Trabalhou ainda na sucursal de “O Estado” e no “Diário do Litoral”,
encerrando as atividades como jornalista em 1982.
Ela lembra que não houve preconceito, mas foi um “choque” para os jornalistas de Joinville e Itajaí verem invadido um território que até então era exclusivamente masculino13 . Era uma época
em que muitos jornalistas não eram nem provisionados e a grande
maioria tinha apenas formação em nível de 2º grau.
Alberto César Russi, itajaiense formado pela Universidade
Nacional de Brasília em 1980, voltou à região para atuar na Rádio
União de Blumenau (1980/1982). Em Itajaí, trabalhou na sucursal
de “A Notícia” (1982/1987), TV Vale do Itajaí (1986/1988 e 1991/
1993), na época pertencente a Rede Eldorado de Comunicações –
RCE, e foi colunista esportivo no “Diário do Litoral” (1989/1991).
Atualmente, dirige a Rádio e TV Univali e é diretor do Centro de
Ciências Humanas e da Comunicação da Univali.
13 Entrevista concedida ao autor em 10/01/2005.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
62
Das duas primeiras turmas formadas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), três profissionais, coincidentemente
todas mulheres, vieram atuar na imprensa de Itajaí e atualmente
são professoras do curso de Jornalismo da Univali.
A lageana Márcia Estela da Costa foi da primeira turma (1982).
Passou três anos estudando e trabalhando no México (1984/1987).
Chegou a Blumenau no final de 1987 onde atuou no “Jornal de
Santa Catarina” e em 1988 na assessoria de comunicação do grupo
Hering. Em 1991, foi a primeira professora jornalista contratada
no curso de Jornalismo da Univali. Além do ensino, é editora-chefe
da Rádio Educativa Univali FM.
Em 1984, Janete Jane Cardozo da Silveira (turma de 1983),
ingressou no semanário “Liberal do Vale”, de Waldemir Correa das
Chagas. Fazia parte de uma geração “mais idealista” para a qual a
atividade jornalística “era mais um ideal que uma profissão. Hoje o
profissional é mais voltado para o mercado”, observa a jornalista14.
Jane Cardozo atuou ainda em vários veículos entre eles nas sucursais de “O Estado”, “A Notícia” e “Jornal de Santa Catarina” e desde 1993 é professora no curso de Jornalismo da Univali. No Santa,
foi uma das demitidas durante a greve de 1990.
Luciene Cruz, também da turma de 1983, de 1985 a 1990, foi
apresentadora do Jornal do Meio Dia na TV Vale de Itajaí. Entre 1994
e 1996, voltou à emissora como produtora. Foi a primeira mulher a
atuar na televisão em Itajaí. Da fase inicial, destaca o improviso e a
estrutura amadora que era a televisão, inclusive com jornalistas tendo,
muitas vezes, que produzir matérias comerciais15.
Curso de Jornalismo da Univali
Vários fatores relegaram ao atraso a imprensa catarinense.
Um deles, sem dúvida, foi a falta da formação de profissionais es14 Entrevista concedida ao autor em 21/12/2004.
15 Entrevista concedida ao autor em 16/12/2004.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
63
pecializados. Esta realidade só começou a mudar lentamente com
a criação do primeiro curso de Jornalismo do estado, o da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que formou a primeira
turma em 1982. Porém, jornalistas formados no estado só começaram a chegar em maior número às redações do Vale após a criação do curso de Jornalismo da Univali em 1991.
Entre a formatura da primeira turma em setembro de 1995
e final de 2004, o curso já havia formado 518 profissionais, muitos
deles atuando nos mais variados veículos de comunicação do país.
O “Jornal de Santa Catarina”, entre tantos outros, é um importante
termômetro da evolução do curso na região. Dos seus mais de 50
profissionais da redação, mais da metade é egressa da Univali.
Edgar Gonçalves Jr., editor-chefe, lembra que dos egressos
das primeiras turmas que chegavam ao Santa em busca de uma
colocação, apenas 30% eram selecionados. Hoje, este índice ultrapassa aos 80%. Ele destaca que alguns destes jornalistas já alçaram um novo patamar profissional no jornal e hoje ocupam cargos
de chefia na redação.
Movimento de Oposição Sindical
Além desses fatores que marcaram o início da profissionalização da imprensa no Vale do Itajaí, acrescentamos a contribuição
do professor Hélio Floriano dos Santos sobre o jornalismo do
município de Itajaí. Para ele, como já dissemos, o desenvolvimento
da imprensa local se divide em duas fases: artesanal e industrial.
A artesanal tem dois momentos: de 1886 a 1962, caracteriza-se pelo jornalismo opinativo e estrutura empresarial constituída por sociedades ou subsidiada por grupos político-econômicos;
de 1962 a 1967, pratica-se um jornalismo adjetivado e com vínculo político-econômico, mas começa a se constituir como empresa
capitalista.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
64
A fase industrial também se divide em dois períodos: de
1967 a 1980, é marcada pelo jornalismo técnico que prima pela
informação em detrimento da opinião e notícia passa a ser tratada
como um produto; de 1980 aos dias atuais, o período é ditado
pelo jornalismo técnico-profissional que se subdivide em: a) oposição sindical (1980 a 1986); b) situação sindical (1986 a 1991); c)
período de diplomação (1991 em diante).
As características da chamada fase artesanal e sua transição para
a industrial já foram abordadas. Portanto, aqui focaremos os três períodos mais recentes que dizem respeito à questão sindical e à diplomação. O Movimento de Oposição Sindical – MOS – surgiu em 1980,
em Florianópolis, Blumenau e Itajaí, num momento em que o Sindicato
de Santa Catarina vivia um forte atrelamento político, inclusive com
algumas despesas da entidade – aluguel da sede da entidade, por exemplo – sendo custeados pelo governo, e muitos jornalistas tinham na
folha de pagamento do Estado sua principal fonte de renda.
Hélio Floriano destaca que nas eleições de 1982 para o Sindicato dos Jornalistas, apenas três profissionais itajaienses foram
filiados e puderam votar, em razão dos artifícios criados pela diretoria da entidade para dificultar a filiação de novos sócios. Depois
de um trabalho de base feito pelo jornalista e encaminhamento de
processos de provisionamento, nas eleições de 1986, Itajaí já contava com 31 filiados votantes, sendo três com diploma de jornalista.
Como resultado desse processo que também ocorreu em
outras cidades, o MOS venceu as eleições daquele ano. Em Itajaí,
criou a Delegacia Regional do Sindicato, tendo como delegado Hélio Floriano dos Santos.
Com a criação do curso de Jornalismo da Univali e a conscientização profissional iniciado nas fases anteriores, nasce o atual
período da diplomação. Este vem sendo marcado pelo expurgo
gradativo dos provisionados e não diplomados, embora estes ainda atuem em bom número em Itajaí.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
65
Outro processo que está na base da conscientização profissional na imprensa local foi a criação do Clube da Imprensa de Itajaí
– CIITA – que iniciou informalmente em novembro de 1980, coordenado por Valdemir Correa das Chagas. De entidade recreativa, passou a atuar em questões técnicas e políticas, quer defendendo seus filiados contra atos de censura e arbitrariedades, quer promovendo coletivas de imprensa.
Sua instalação oficial se deu em 15 de maio de 1981, com a
eleição da primeira diretoria que teve como presidente José Pereira. A posse foi em 12 de julho e já no dia 29 daquele mês era
realizada palestra com o presidente do Sindicato dos Radialistas de
Santa Catarina – Hugo Silveira Lopes, mostrando que o CIITA pretendia ser mais que um clube recreativo.
A gestão de Hélio Floriano iniciou em 10 de maio de 1985 e
atuou prioritariamente no registro dos profissionais da imprensa
junto aos sindicatos dos jornalistas e radialistas, e à Delegacia Regional do Trabalho. Aproximou o CIITA do Sindicato dos Jornalistas e
iniciou a campanha para criação do curso de Jornalismo na Univali. Em
1988, na solenidade de posse de Emerson Ghislandi como presidente
da entidade, era entregue um abaixo-assinado dos profissionais da imprensa ao reitor da Univali, Edson Villela, reivindicando o curso.
Considerações finais
O “Jornal de Santa Catarina” é uma exceção na imprensa escrita do Vale do Itajaí. Os demais veículos ainda precisam superar
algumas etapas para chegarem ao estágio da profissionalização. Com
a popularização do computador, as empresas, da maior a menor,
se modernizaram. Porém, falta investir em recursos humanos. Em
alguns veículos ainda há resistência na contratação de jornalistas
formados. Como resultado, o que se percebe é uma frágil qualidade editorial – estética e de conteúdo –, comercial, administrativa e
até de circulação.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
66
A já referida pesquisa que realizamos em 1999 sobre a pequena imprensa catarinense, evidenciava o perfil de um profissional jovem, mal remunerado, sem formação profissional e com pouca
experiência profissional. Esse também é o perfil do profissional
atuante no Vale do Itajaí.
Neste contexto, os profissionais com formação superior seja jornalista, publicitário ou administrador de empresas – têm o
importante compromisso de colocar nossa imprensa no caminho
da profissionalização. Como assinalamos, profissionalização, no caso
das redações, não significa apenas diploma universitário para os
jornalistas, mas a consistência e independência/imparcialidade da
linha editorial, conscientização e espírito de classe dos profissionais, qualidade do conteúdo informativo, conduta ética de empresários e jornalistas, compromisso social com a informação e com
o leitor.
Ou seja, a profissionalização não está relacionada apenas à
instrumentalização técnica propiciada aos profissionais pelas universidades, mas também pela formação humanística e o discernimento crítico e ético. É este conjunto de competências técnicas e
culturais que legitimam o profissional na construção social da realidade de uma comunidade.
Os novos profissionais, seja criando seu próprio negócio de
comunicação ou atuando nas redações dos veículos já estabelecidos, também começam a redimensionar o setor, principalmente
aguçando a sadia concorrência.
A consolidação econômica das empresas também faz parte
desse processo, para que empresários e jornalistas possam atuar
com a autonomia indispensável ao jornalismo. Em uma região tão
rica, há espaço para sólidos e modernos grupos de comunicação.
Porém, faltam investimentos para que o Vale tenha a imprensa que
precisa e merece.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
67
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Entrevistas
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JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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A imprensa na Grande Florianópolis
César Valente
No princípio, eram os partidos políticos. Mais especificamente, na Santa Catarina da época da criação do Sindicato, o PSD
(Partido Social Democrático) e a UDN (União Democrática Nacional). Os jornais e as emissoras de rádio em Florianópolis eram
conhecidos por serem “de propriedade” de uma ou de outra corrente política. A rádio Guarujá e o jornal “O Estado” elogiavam
quem era simpático ao PSD e expunham as mazelas dos adversários. A mesma coisa, só que com o sinal inverso, faziam a rádio
Diário da Manhã e o jornal “A Gazeta”, da UDN.
E era um jogo, de certa forma, às claras: todos sabiam que
se quisessem encontrar críticas aos Ramos teriam que ler o jornal
da UDN. E para saber o que estavam dizendo dos Bornhausen era
só ler o jornal do PSD. Simples assim.
Os jornalistas, redatores daqueles textos rebuscados que invariavelmente iniciavam com um longo “nariz de cera”, eram também partidários. Amigos e apadrinhados das principais personalidades políticas de cada clã. Por décadas a imprensa da capital de
Santa Catarina viveu essa rotina provinciana. Uma espécie de serviço de alto-falantes dos principais partidos ou coligações.
Os jornais eram mantidos em estado de indigência tecnológica pela falta de ambição comercial. Ninguém parecia interessado
em ganhar dinheiro com jornais ou em buscar mais leitores com
algumas inovações já disponíveis em outras capitais brasileiras: bastava que cumprissem seu papel de arautos dos partidos. As notícias, ora, as notícias eram copiadas do repórter Esso, da Rádio Nacional do Rio, ditadas pela fonte ou ainda recortadas de jornais de
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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fora e publicadas no dia seguinte. A pequena cidade, ainda que capital de estado, não tinha a pressa de hoje.
Em 1956, o jornal “O Estado” iniciou um lento e longo processo de modernização, ao comprar uma segunda linotipo. Em
1957, instalou uma rotoplana, impressora mais moderna e rápida
que a prensa tipográfica anterior e instalou uma clicheria. Já podia
produzir suas próprias fotos e ilustrações.
Paschoal Pitsica contou, numa entrevista a Apolinário Ternes
(“A Notícia”, 1996, disponível em http://an.uol.com.br/grande/pitsica), que o diretor Rubens de Arruda Ramos e o gerente Domingos
de Aquino, animados com os novos equipamentos, resolveram criar,
em 1958, um Suplemento Dominical “cultural e social” em “O Estado”. Paschoal e seu irmão Nicolau foram encarregados da parte
cultural e Zury Machado fazia a coluna social. Foi uma espécie de
“primavera de Praga” que durou um ano, fez grande sucesso e
reuniu colaborações dos principais nomes da época.
A justificativa para o fechamento do suplemento foi a necessidade de economizar. A crise financeira, que a essa altura é um
personagem novo, depois irá se instalar confortavelmente e tomar
parte em todos os movimentos da imprensa florianopolitana.
Enquanto “O Estado”, de tempos em tempos comprava uma
ou outra máquina nova, os demais jornais permaneciam onde sempre estiveram ou regrediam. O “Diário da Tarde” fechou e “A Gazeta” continuava, mas sem novidades. Essa polarização PSD/UDN
durou mais ou menos até a década de 70. A extinção dos partidos
pelo Ato Institucional nº 2, em 1965, certamente contribuiu para
que as coisas mudassem ou pelo menos se tornassem menos evidentes e preponderantes.
Em 1964, o jornal “O Estado” já era de propriedade do exgovernador Aderbal Ramos da Silva. Quando Rubens de Arruda
Ramos deixa a direção, o jornal fica sob a responsabilidade de José
Matusalém Comelli, jovem genro do “Doutor Aderbal”. Além dos
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filhos de Rubens (Sérgio da Costa Ramos que desde os 14 anos de
idade convivia com o jornal e Paulo da Costa Ramos), Comelli cercou-se de outros jovens, como Marcílio Medeiros Filho, Raul Caldas Filho, Mauro Júlio Amorim e Luiz Henrique Tancredo. E o jornal “O Estado” continuava sua lenta e segura trajetória de mudanças.
O lançamento do “Jornal de Santa Catarina”, em Blumenau,
em 1971, foi um terremoto jornalístico cuja onda de choque chegou a Florianópolis com toda a força. Não só porque Nestor Fedrizzi (jornalista gaúcho responsável, com João Aveline, pelo sucesso da “Última Hora” em Porto Alegre) levou para Blumenau
jornalistas da melhor qualidade, uma rotina jornalística profissional
e nova tecnologia de impressão, mas também porque, antes mesmo
do lançamento, começou a montar uma grande sucursal na capital.
Ayrton Kanitz lembra que, ao chegar a Florianópolis em 1970,
trazido de São Paulo por Nestor Fedrizzi, com a tarefa de montar
a sucursal do Santa (como é chamado o jornal de Blumenau) foi
muito bem recebido por Adolfo Zigelli, um radialista de prestígio
que embora apaixonado por Florianópolis e defensor das tradições locais, não hostilizou os recém-chegados e os ajudou de inúmeras formas, mesmo antes de tornar-se colunista do jornal.
O Santa foi lançado em 22 de setembro de 1971, composto
a frio e impresso em rotativa off-set. Todos os demais jornais tinham composição a quente (com linotipos) ou manual (com tipos
móveis) e impressão direta plana ou no máximo rotoplana (matriz
plana e entintador rotativo). E um projeto editorial moderno e
competitivo.
O jornal “O Estado” foi, de certa forma, surpreendido pela
iniciativa do Santa. José Matusalém Comelli conta que a modernização de “O Estado” estava sendo pensada e planejada, mas ainda
não tinha sido feito qualquer processo de compra ou importação
de equipamentos, procedimentos excessivamente burocratizados
e que, em geral, demorava mais de um ano.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Mesmo assim, oito meses depois, em maio de 1972, o jornal “O Estado” estreava sua nova sede, na rua Felipe Schmidt, com
equipamentos semelhantes aos do concorrente de Blumenau. Um
jornal totalmente renovado, gráfica e editorialmente. Para fazê-lo,
trouxe parte da equipe que lançara o Santa, acrescentando alguns
jornalistas gaúchos recém-chegados e poucos locais.
“O Estado”, na verdade, foi beneficiado pelo acaso. Em meados de 1971, Jorge Daux (então proprietário da rede de cinemas
da capital) procurou Comelli para apresentá-lo a um deputado paranaense que estava vendendo o equipamento que “O Estado” precisava. O amigo de Daux, do grupo de apoio do então governador
paranaense Haroldo Leon Peres, importara todo o maquinário para
instalar um jornal em Maringá. As máquinas tinham acabado de chegar e, enquanto ainda estavam nos portos de Santos e Paranaguá, o
governador deixou o cargo (Peres renunciou em setembro de
1971, após sete meses de mandato, num episódio até hoje obscuro). Diante disso, o dono do jornal achou melhor não lançá-lo e
saiu em busca de compradores para as máquinas. Portanto, havia
todo um sistema de composição a frio IBM e uma rotativa off-set
Goss, com todos os demais equipamentos complementares à venda,
em portos brasileiros. Praticamente pronta entrega. Foi por isso
que, em tempo recorde, “O Estado” conseguiu renovar-se, surpreendendo a todos.
Não eram só os jornais que mudavam. O jornalista florianopolitano também nunca mais foi o mesmo. A imprensa, como um
todo, estava em processo de mudança.
No rádio, Adolfo Zigelli conseguia, com o Vanguarda, completar uma das histórias profissionais mais interessantes: o garoto
engajado nas lides da UDN em Joaçaba, locutor de rádio do partido, trazido para Florianópolis para continuar a atuar politicamente,
tanto no serviço de imprensa do Palácio quanto na rádio da UDN,
percebe o momento histórico e acaba ganhando credibilidade com
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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uma atuação focada na defesa da cidade e de seus valores que começavam a desaparecer (como a até hoje injustificada demolição
do Miramar). O Vanguarda não era um programa da UDN e não
tinha o ranço político-partidário que caracterizou o passado do
mesmo Zigelli, mas não deixava também de ter a visão política
básica dos dessa corrente, só que numa linguagem moderna. Vale lembrar que, nessa época, a UDN estava unida ao PSD na Aliança Renovadora Nacional – Arena –, o partido-frente que se opunha ao MDB, o
outro partido-frente do sistema bipartidário, mais à esquerda.
Em 1972, Florianópolis estava “cheia” de jornalistas gaúchos,
na sucursal do Santa e no jornal “O Estado”. E não eram quaisquer
jornalistas: Ayrton Kanitz. JB Scalco, Elaine Borges, Mário Medaglia, Jorge Escosteguy, Nei Duclós, Virson Olderbaun, por exemplo, poderiam, como de fato alguns fizeram, trabalhar em qualquer lugar do mundo. Não era um fato isolado, porque as redações dos principais veículos, no Rio e em São Paulo também estavam “cheias” de gaúchos talentosos.
Em março de 1972, com 19 anos, eu estava entre os jornalistas catarinenses que compunham a redação, na nova etapa de “O
Estado”. Naturalmente, os postos principais nas principais editorias eram ocupados pelos “gaúchos”. Eles eram os jornalistas experientes. Nós éramos os iniciantes. Ocupava uma vaga de redator
no Caderno 2, editado pelo Paulo da Costa Ramos.
O choque cultural e profissional era ao mesmo tempo assustador e estimulante. O Jorge Escosteguy (falecido em 1996),
grande jornalista que depois tornou-se nacionalmente conhecido e
respeitado, era uma esfinge arrogante aos olhos curiosos dos locais. Ele desenhava e diagramava as páginas que editava, traduzia
os telegramas das agências internacionais, trabalhava sem descanso e sem levar a sério aquele bando de provincianos que circundava o grande centro do saber. Tinha vindo diretamente de Porto
Alegre, sem ter passado pelo Santa.
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E eu, sem maiores responsabilidades do que dar texto final a
matérias culturais, muitas delas traduzidas de revistas estrangeiras, achava tudo muito divertido. E ainda me pagavam para participar daquela festa.
Mas o melhor estava por vir. Em outubro de 1972, de repente, literalmente de uma hora para a outra, os “gaúchos” foram
embora. No meio da tarde, nós, os remanescentes e inexperientes catarinas, fomos chamados a assumir todas as funções do jornal que tinham ficado desguarnecidas. Tivemos que arrebentar a
caixa preta a marretadas. Aprender a fazer tudo o que ainda não
tínhamos aprendido, para poder manter o jornal circulando.
Tomamo-nos de brios e ninguém mais falou em ir pra casa,
jantar, descansar. Eu, pelo menos, fiquei dois dias inteiros no jornal.
A primeira edição que fizemos chegou às bancas perto do meiodia (não lembro se antes ou depois), mas chegou. A segunda, um
pouco mais cedo. Provamos, para nós mesmos e para o mundo, que
éramos capazes de baixar um jornal, mesmo sem os “gaúchos”.
A gota d’água que provocou a saída daquela turma, vista a
esta distância, parece mesmo apenas uma gota (uma discussão
menor sobre funções e atribuições). Mas a conjuntura na qual o
incidente ocorreu era mais ampla. Havia um conflito latente sobre
como conduzir o jornal “O Estado”: de um lado, os jornalistas que
tinham sido criados num ambiente empresarial mais profissional
(Porto Alegre, àquela altura, tinha cinco ou seis jornais, alguns de
grande qualidade jornalística) e do outro os dirigentes do jornal,
responsáveis pela implantação de uma mudança que, embora radical, tinha menos de um ano de vida. Parecia que o ritmo dos locais
que estavam se esforçando para modernizar a imprensa provinciana e de quem tinha vindo de fora com o mesmo objetivo não
estava sintonizado, favorecendo os atritos.
Muitos dos jornalistas que vieram de outros estados naquela
época, acabaram ficando na cidade até hoje. E os principais jorna-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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listas locais, também naquela época, foram, por maior ou menor
tempo, correspondentes de publicações de outros estados: Sérgio da Costa Ramos (“Veja”), Marcílio Medeiros Filho (“Jornal do
Brasil”), Antônio Kowalsky (“O Globo”), Raul Caldas Filho (“Manchete”), Vânio Bossle (“Folha de S. Paulo”), José Carlos Soares, o
Zico (“O Estado de S. Paulo”) e Silva Jr. (“Correio do Povo”).
A década de 70 é um marco importante na imprensa florianopolitana. E um marco fundamental para o jornalismo catarinense. Essa injeção de profissionalismo nas práticas semi-amadoras do
jornalismo ilhéu foi, a meu ver, o principal fato jornalístico destes
50 anos. Agitou o ambiente, provocou discussões, estimulou o
aperfeiçoamento. A cidade não foi mais a mesma, todos fomos, de
uma ou outra forma, influenciados.
Depois da “debandada” dos “gaúchos”, o jornal “O Estado”
começou a recompor sua equipe tomando mais cuidado para não
ficar tão dependente de grupos de profissionais. Trouxeram uns de
São Paulo, outros do Paraná e mais alguns foram recrutados em
Florianópolis mesmo.
Com uma sucursal grande e ativa na capital, o “Jornal de Santa Catarina” continuava, ao longo da década de 70, como o concorrente mais importante de “O Estado”. O surgimento dos jornais
do grupo Diários Associados, movimentou o mercado, mas não chegou a ameaçar de fato os líderes. Em 1977, com redação em Florianópolis, foram lançados três jornais: o “Diário de Notícias”, que circulava na Grande Florianópolis, “A Nação”, em Blumenau e o “Jornal de
Joinville”. Nos três, o miolo era igual, mudando apenas a capa, para
inserção das matérias dos correspondentes de cada um dos locais.
Também nesse ano, houve uma tentativa de reativação do
jornal “A Gazeta”. Reforçou a redação, melhorou a cobertura, mas
continuava a ser impresso tipograficamente. Sem dispor da qualidade do off-set, as fotos e ilustrações perdiam em qualidade. A
experiência durou pouco tempo.
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A partir desse impulso inicial e talvez estimulados pelo ambiente de renovação, Florianópolis viu surgir muitos veículos, com
maior ou menor sucesso e variado tempo de vida. Entre eles, por
exemplo, o “Jornal da Semana”, “Afinal”, “A Ponte” e o “Vento Sul”.
Outro jornal que teve uma trajetória importante na cidade
foi o “Bom Dia, Domingo”. Tratava-se de um “Shopping News”,
semanário de distribuição gratuita, com grande espaço para anúncios. Lançado em fevereiro de 1975, foi uma idéia de Luiz Daux,
empresário da construção civil, que teve a participação do irmão,
George Daux, de Nestor Fedrizzi (o mesmo que criou o Santa) e
de José Joaquim de Souza. Teve, entre seus editores, além do próprio Fedrizzi, Valdir Zwetsch, Luiz Lanzetta e Flávio de Sturdze.
Durante boa parte da sua vida, teve uma circulação de cerca de 20
mil exemplares. Não sobreviveu ao início da década de 80.
Passado o furacão (tsunami, tornado, ciclone... por favor, escolham o chavão preferido para nomear as mudanças na primeira
metade da década de 70), a cidade estava posta em sossego, deliciando-se com as novidades. Beto Stodieck dava às colunas sociais
uma nova roupagem, na trilha aberta por Zózimo Barroso do Amaral, no JB, tratando sem frescuras tanto de amenidades quanto de
fatos políticos, dando opinião e lançando sobre a província e seus
hábitos um olhar crítico, maroto e bem humorado.
Durante os primeiros anos da década, Zigelli, assim como
Ayrton Kanitz, eram contrários à criação de um curso de Jornalismo em Florianópolis. Acreditavam que ainda não havia, na cidade,
empresas jornalísticas em número e qualidade suficientes. Seria mais
útil cursar Jornalismo em cidades como Porto Alegre ou São Paulo
e depois voltar para exercer a profissão com uma visão mais aberta e atualizada. Em 1978, o grupo de trabalho liderado pelo jornalista Moacir Pereira chegou à conclusão contrária, elaborou o projeto do curso em poucos meses, o MEC autorizou e no vestibular
de 1979 foram colocadas à disposição as primeiras 40 vagas.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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O curso de Jornalismo da UFSC acabaria se destacando entre
os demais cursos brasileiros. Suas inovações e contribuições ajudaram
a colocar Florianópolis no mapa do ensino do jornalismo no País.
A abertura da concorrência para o segundo canal de televisão em VHF de Florianópolis agitou o empresariado local e das
cidades e estados vizinhos, numa movimentação que provavelmente a maioria da população e mesmo dos jornalistas nem tenha percebido. Mas seu desenrolar definiu o perfil e o futuro da imprensa
nesta pequena ilha do sul do Brasil.
Estamos em plena ditadura (ainda que num processo “lento
e seguro” de distenção), o presidente é o general Ernesto Geisel e
os governadores, indicados sem voto popular, têm grande participação no processo, sempre político, de concessão de canais de
TV. José Matusalém Comelli foi, portanto, ao governador Antônio
Carlos Konder Reis informar que liderava um grupo que pretendia
disputar o canal. O governador, conta Comelli, disse que achava
“muito justo que o jornal “O Estado” tenha um canal de TV, da
mesma forma que o “Jornal de Santa Catarina” tem a TV Coligadas”.
Maurício Sirotsky, dono da TV Gaúcha e do jornal “Zero
Hora”, em Porto Alegre, também está interessado. Propõe sociedade a Comelli e ao ex-governador Aderbal Ramos da Silva. A minuta do contrato chega a ser redigida. Mas a pressão contra essa
aliança com os “estrangeiros” cresce. Imaginavam os opositores
da sociedade, que numa disputa com um pretendente de outro
estado, o governador tomaria partido dos locais. Comelli e Aderbal recuam e Sirotsky decide entrar na disputa sem sócios.
Em 1977, a TV Catarinense é outorgada à RBS (Rede Brasil
Sul), de Sirotsky, com as bênçãos de Antônio Carlos Konder Reis.
A televisão entra no ar em 1979, retransmitindo a programação da
Globo, que anteriormente era exclusividade da TV Coligadas. O
jornal “O Estado” continua sem um canal de TV, mas o principal
concorrente, o “Jornal de Santa Catarina”, também estava sem a
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sua TV, que fora vendida em 1975 para o grupo paranaense de
Mário Petrelli.
Essa disputa mexe profundamente com as empresas de comunicação de Florianópolis. As que perderam saíram desgastadas
e a ganhadora chega ao estado com o poderosíssimo trunfo que é
a Rede Globo e seu quase monopólio de faturamento comercial.
Assim como a chegada do off-set e das novas práticas profissionais foi
importante para os jornalistas e para o jornalismo, a disputa pelo segundo canal de TV em Florianópolis foi decisiva para as empresas.
Na noite de 12 de abril de 1980, um sábado, caiu um avião
da Transbrasil no morro dos Ratones, próximo à sede do jornal “O
Estado” e já era madrugada quando o local foi alcançado pela polícia e pela Aeronáutica. Às 8 horas da manhã de domingo, todos os
jornalistas e funcionários de O Estado tinham voluntariamente chegado à redação para trabalhar. Muitos chegaram ainda no sábado à
noite e vários, como os fotógrafos, passaram a madrugada no local
do acidente. O jornal fez três edições extras. Como reconhecimento
ao fato de todos terem aparecido, foi publicado, em cada uma das
edições, um expediente especial com a nominata completa. “Tinha até
o nome do vigia, que escalou o morro para buscar os filmes e trazer
para revelar”, conta, emocionado, Osmar Schlindwein.
Muitos jornalistas, entre os quais me incluía, tinham o sentimento que a profissionalização e a paixão pela profissão precisavam ser acompanhadas pelo Sindicato. Começou, então, uma longa luta para colocar no Sindicato dos Jornalistas uma diretoria mais
sintonizada com os novos tempos. Para estimular a sindicalização
(sem a qual não haveria votos), e fazer campanha, foi criado o
Movimento de Oposição Sindical, que teve ampla adesão em todo
o estado. O MOS atingiu seu objetivo com a posse, em 1987, da
diretoria presidida por Celso Vicenzi.
A RBS iniciou a década de 80 retomando as conversas com
José Matusalém Comelli, desta vez para comprar ou associar-se ao
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jornal “O Estado”. Novamente, a decisão acabou sofrendo a influência de muitos grupos de pressão. Em geral amigos, empresários, políticos, que viam na venda de “O Estado” uma espécie de rendição ao
“inimigo”. Comelli conta isso com uma certa mágoa, talvez porque
depois não tenha visto, naqueles que pressionaram para que o negócio
não fosse feito, grande empenho para ajudar o jornal a sobreviver.
Sem negócio com “O Estado”, a RBS decide lançar seu próprio jornal. Armando Burd, o jornalista escalado para fazer as primeiras sondagens e ajudar na formatação do projeto, chega à cidade em 1984 e começa as conversas com jornalistas. Após dois
anos de estudos, o “Diário Catarinense” é lançado em 1986. A
RBS-TV, a cavaleiro da programação da Globo, lidera a audiência e
garante o suporte financeiro para a empreitada.
O “Jornal de Santa Catarina”, em 1985, foi vendido para o
empresário Nilton Reis, que resolveu reforçar sua circulação em
Florianópolis, ampliando a sucursal. Tirou, de “O Estado”, colunistas e jornalistas e levou, também, uma das personalidades mais
versáteis do jornalismo da capital: Osmar Schlindwein.
Osmar começou cedo, naquele “O Estado” da rua Conselheiro Mafra, cujo gerente era Domingos de Aquino, não por acaso
seu tio. Envolveu-se de tal maneira com a manufatura dos jornais,
que não se pode delimitar exatamente o que o Osmar faz, fez ou
fazia. Lembro-me dele sujo de tinta, nas oficinas tipográficas de “O
Estado”, em 1970. Mas também lembro dele colocando ordem na
composição eletrônica do jornal, anos mais tarde. Já o vi dirigindo
o comercial. Mas também fazia as vezes de gerente de recursos
humanos, apaziguando ânimos. E certamente muitos o viram prestando consultoria a seus próprios chefes. Não é repórter, mas
sabe quando uma matéria está bem escrita e quando o repórter é
apenas um enrolão.
Osmar lembra que estava no Santa quando o jornal bateu o
recorde catarinense de tiragem, até hoje não superado: 102 mil
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exemplares da edição extra com a tabela da Sunab do plano Cruzado, em 1986. A tabela não era exclusiva, a estatal EBN (Empresa
Brasileira de Notícias) distribuiu para todos os seus escritórios,
em todos os estados. Bastava ir lá buscar e publicar. Só que nenhum outro jornal, em Santa Catarina, deu-se conta da importância
e do apelo popular desse material. Uma vez publicada a edição
extra, a população literalmente foi às ruas para comprar a lista.
Fui editor-chefe de “O Estado” de 1988 a 1989. Com a ajuda do Flávio de Sturdze, trouxe para o “mais antigo” vários jornalistas que estavam se destacando no nascente “Diário Catarinense”, para reforçar a equipe. E, naturalmente, fiz questão que o
jornal recontratasse o Osmar Schlindwein. Achei que poderíamos
fazer uma boa dupla, para dar um susto na concorrência. Nessa
época “O Estado” ainda circulava na maioria dos municípios e sua
venda, tanto em bancas quanto de assinaturas (chegava, aos domingos, a cerca de 30 mil exemplares), o colocava como principal
concorrente do DC, que ainda não podia ser considerado “líder”.
A equipe viveu, em “O Estado”, grande emoções: tanto lá quanto
cá havia gente capaz de produzir um bom jornal. E sempre que
fazíamos alguma cobertura melhor que o concorrente, enchíamonos de justificado orgulho. Emocionados com o elementar e saudável efeito da disputa pelo leitor.
Ao completar 80 anos, em 1995, O Estado publicou um
caderno comemorativo com 76 páginas bem recheadas de anúncios, ainda em formato standard. Uma demonstração de vitalidade
que parece difícil de se repetir. Acuado pela crise, o jornal hoje só
circula na Grande Florianópolis, mudou para o formato tablóide e
raramente tem edições com mais de 16 páginas.
O interesse por economia e negócios cresce no país todo e
em Florianópolis surgem duas revistas especializadas, a “Expressão” (1990) e a “Empreendedor” (1993), que existem até hoje e
circulam também em outros estados. Em 1995, o grupo que pu-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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blica o “Indústria & Comércio” em Curitiba, lançou aqui um jornal
com o mesmo nome. Montou uma redação local para editar algumas páginas e utilizava material do jornal paranaense para fechar as
demais páginas. A impressão era em Curitiba. Inicialmente parecia
promissor, porque montou uma equipe de grande qualidade (com
jornalistas como Flávio de Sturdze e Belmiro Southier, por exemplo). Mas não chegou a completar quatro anos.
Assim como a sucursal do “Jornal de Santa Catarina” teve
papel importante no jornalismo da capital, o crescimento do jornal
“A Notícia”, de Joinville, impresso em off-set a partir de 1980,
levou-o a instalar-se em Florianópolis, com uma sucursal que também passou a fazer parte do mercado profissional, como um dos
projetos mais estáveis e bem sucedidos. Além de fornecer material para o jornal principal, editado em Joinville, a sucursal edita
um caderno, o “ANCapital”, que circula com o reparte da Grande Florianópolis.
Toda essa movimentação profissional e empresarial, que trouxe tantas mudanças e afetou de tantas maneiras o jornalismo da
capital, não se refletiu na melhoria do padrão salarial. As empresas
justificam os baixos salários com a crise, ora local, ora estadual,
ora nacional, ora mundial. Na verdade, não houve crescimento do
número de leitores e a verba publicitária gerada pela economia da
Capital não parece suficiente para manter os veículos. E os salários, como conseqüência, não são suficientes nem para remunerar
um trabalho com tal responsabilidade e nem para dar aos jornalistas uma vida digna.
Para agravar a situação, nos últimos anos surgiram, em muitos bairros, semanários que institucionalizam a picaretagem: as “reportagens” só são publicadas se os interessados pagarem. Isso leva
o leitor a desacreditar dos jornais e a desconfiar que seja assim em
todo lugar. E, o que é pior, a achar que isso é jornalismo.
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Agradecimentos
Em dezembro de 2004 e janeiro de 2005, conversei com
alguns dos participantes dessa história, que me ajudaram a confirmar muitos detalhes e informações. A eles o meu agradecimento
(e desculpas, por condensar num capítulo tantos casos e lembranças, que valeriam um livro inteiro): Ayrton Kanitz, Elaine Borges,
Flávio de Sturdze, José Matusalém Comelli, Marcílio Medeiros Filho, Mário Medaglia e Osmar Schlindwein.
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Expansões e
Transformações
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Roger Bittencourt
Assessoria de imprensa: mercado em expansão
Jornalista ou assessor? É comum muita confusão entre uma
definição e outra. Ou ainda, se assessor de imprensa é jornalista ou
não. E o pior, a discussão se dá mais entre os próprios jornalistas,
já que clientes, fontes, leitores, telespectadores e ouvintes não parecem ter dúvidas neste sentido. Mas afinal, jornalista ou assessor?
Nem todo jornalista é assessor, mas todo o assessor de imprensa é jornalista – ou pelo menos deveria ser. Claro que existe
muito assessor que não é jornalista. São aqueles que se aproveitam
da falta de regulamentação e fiscalização da atividade profissional
dos jornalistas, que até hoje brigam para fazer valer a obrigatoriedade do diploma universitário para exercer a profissão.
A assessoria de imprensa, como o nome mesmo diz, é função de jornalista e hoje um importante campo no mercado de trabalho para a categoria. O cargo de assessor é uma das atividades
do Jornalismo, assim como a reportagem, a edição e a pauta, para
ficar nas mais tradicionais. Atualmente, os profissionais saem das redações para trabalhar em assessorias e vice-versa, por que na essência
são jornalistas e não vão perder esta condição por estarem desempenhando este ou aquele papel. Os assessores e jornalistas de redações
trabalham com a mesma matéria-prima – a informação.
Há diferenças, é claro, na execução de algumas tarefas, mas
na essência as atividades estão muito próximas. Numa assessoria
de imprensa também se faz pautas, reportagens, edição de informativos, programas de rádio e televisão, entre outras ações, todas
próprias do Jornalismo. O experiente e respeitado jornalista, assessor e escritor Francisco Viana destaca inclusive que as assessoJORNALISMO EM PERSPECTIVA
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rias devem caminhar para um modelo de redação de jornal. “Jornalista é aquele que pensa a pauta, escreve o texto, e edita. Entende de todas as pontas do processo. Na assessoria, não é diferente”, afirma Viana.
A jornalista Eliane Ulhôa, no livro “O Papel do Assessor”,
ressalta a função desses profissionais na “nem sempre fácil tarefa
de contribuir para o aperfeiçoamento da comunicação entre a instituição, seus funcionários e a opinião pública e fornecer aos veículos de comunicação e, conseqüentemente, à sociedade, informações de interesse coletivo, norteando o seu trabalho de forma
ética e consciente”.
A atividade de assessor vem a cada dia se profissionalizando,
ganhando espaço e reconhecimento nas redações, nos sindicatos
de jornalistas e junto à Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas),
assim como nas universidades. A disciplina de Jornalismo Empresarial, ou Jornalismo Empreendedor, ou seja lá como for chamada,
nada mais é que o reconhecimento da importância da atividade –
até como perspectiva de absorção dos centenas de jornalistas que
se formam em todo país anualmente.
Por que a dúvida então entre jornalista ou assessor? Porque
alguns míopes ainda tentam contrapor as duas atividades, como se
não pudessem conviver em perfeita harmonia, com a compreensão de que o papel do assessor – como o nome mesmo define – é
assessorar na divulgação de notícias, auxiliando inclusive o trabalho
da imprensa, que vai aproveitar ou não estas informações. O mestre em Comunicação João José Forni considera que o relacionamento do assessor com o jornalista de redação passou a ser um
jogo pautado pelo respeito ao trabalho de cada um, onde deve
prevalecer o profissionalismo e o interesse público.
No livro “De Cara com a Mídia”, Francisco Viana define bem
essa relação: “Nunca consegui ver empresários e imprensa em
campos opostos. Assim como não posso aceitar o princípio de
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que o assessor e o jornalista que trabalha na mídia são adversários,
em lados antagônicos. Pelo contrário, empresários e imprensa,
assessores e jornalistas ocupam sim espaços diferentes e desempenham funções diferentes na sociedade. Contudo estão unidos no
objetivo maior de construir o desenvolvimento e promover justiça social. Estão unidos em busca da transparência e da racionalidade”.
É claro que, como em toda atividade, há bons e maus assessores, ou melhor, bons e maus jornalistas.
Um pouco de história
Atualmente, é cada vez menos expressiva a restrição à assessoria de imprensa, uma atividade, se é que se poderia chamar
assim na época, que remonta a um passado bastante distante e
onde não havia controvérsias. O professor e jornalista Boanerges
Lopes, autor do livro “O que é Assessoria de Imprensa”, revela
que vem das cartas circulares que apresentavam decisões e realizações da Dinastia Han, na China (202 a.C), o conceito básico de
assessoria de imprensa: a necessidade de divulgar opiniões e realizações de um indivíduo ou grupo de pessoas. Esta definição seria
ampliada muito tempo depois, no século XV, com a invenção, por
Gutenberg, da prensa de tipos móveis e ainda mais com a chegada
da rotativa em 1811 e do linotipo em 1885.
No século XIX, surgem nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha as primeiras publicações empresariais para reduzir o descontentamento interno em diversas organizações, já que os empregados não tinham acesso à grande imprensa da época. Gaudêncio
Torquato do Rêgo, professor e jornalista, credita ao Lloyd´s List,
editado pela primeira vez em 1696, na Inglaterra, o título de primeiro exemplar do chamado jornalismo empresarial. Já a precursora na área de assessoria de imprensa, segundo Boanerges Lopes, data de 1829, nos Estados Unidos, organizada por Amos Kendall para o Governo de Andrew Jackson. Com um setor de imJORNALISMO EM PERSPECTIVA
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prensa e relações públicas bem organizado, a assessoria pioneira
publica o “The Globe”, apontado por muitos estudiosos do assunto como o primeiro house-organ. Em 1868, surgem nos Estados
Unidos, pela primeira, vez as expressões agente de imprensa (press
agent) e divulgador (publicity agent).
A excelente pesquisa do professor Boanerges Lopes revela
que no Brasil a Light foi a precursora do conceito de preservação
e divulgação positiva da imagem da empresa, seguida pelo Ministério da Agricultura. Mas foi o presidente Getúlio Vargas que criou
oficialmente um serviço de atendimento à imprensa durante o Estado
Novo – o temido DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda).
Criado para divulgar obras e atos do presidente, o DIP acabou se transformando em um órgão de promoção pessoal de Vargas e de censura. Com o advento do Regime Militar em 1964, os
jornalistas passaram a ser inimigos do sistema e a imagem negativa
das assessorias de imprensa aumentou. Até porque, na maioria das
vezes, tinham exatamente o papel oposto ao que se propunham na
essência – cabia a elas esconder a verdade. Essa deformação talvez
seja a responsável até hoje pela postura equivocada de alguns jornalistas em relação às assessorias de imprensa, que a partir da década de 70 tiveram rápida expansão, ainda com a missão clara do
controle da informação para o público, conforme revela o professor de Jornalismo Manoel Carlos Chaparro. Na opinião de Clovis
Rossi, jornalista da “Folha de S. Paulo”, “foi um dos piores momentos do setor”, pois o assessor passou a ser, em muitos casos, cúmplice do regime e inimigos da informação para a imprensa.
É nos anos 80 que o setor de assessoria de imprensa se
consolida, retoma seu conceito original e passa a ocupar importante espaço tanto na absorção de mão-de-obra como nos processos
jornalísticos. Segundo o professor Chaparro, “as assessorias estão
inseridas em todas as fontes detentoras de informações, opiniões
e explicações que interessam à sociedade” e à imprensa. Essa re-
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tomada dos valores iniciais é acompanhada também do reconhecimento hoje existente, inclusive em muitos veículos de comunicação, da importância do papel da assessoria de imprensa seja para
ajudar a obter informações ou acelerar esta busca. Veículos segmentados da grande imprensa (em especial nas áreas de Economia
e Esportes), a mídia especializada (dos mais diversos setores) e uma
quantidade cada vez maior de jornalistas inteligentes já perceberam
que o assessor pode e deve auxiliar muito na busca de informações.
Boanerges lembra que a importância do setor se consolida
nos anos 90 com as faculdades de Comunicação criando disciplinas
específicas tanto na graduação como em cursos de especialização,
para retratar o universo das assessorias de imprensa. Também nesta
época surgem os primeiros manuais de assessoria de imprensa e a
valorização do setor pelas entidades de classe dos jornalistas, com
o fortalecimento das comissões de assessoria de imprensa em diversos sindicatos. Na mesma linha, em 1995, a Fenaj cria o Departamento de Mobilização em Assessoria de Imprensa.
Grandes empresas, entidades, órgãos governamentais descobriram o valor da atividade das assessorias de imprensa, que
hoje utilizam cada vez mais profissionais qualificados e novas tecnologias, o que igualmente contribui para o boom deste mercado.
Mercado em expansão
Este crescimento é inegável nos últimos anos, inclusive em
Santa Catarina, com a proliferação dos serviços em todas as regiões e não apenas na Capital e em Joinville. O impulso se deu tanto
pela importância da atividade e sua compreensão pelo mercado da
comunicação, como por ser mais uma alternativa de trabalho para
centenas de jornalistas que saem das universidades todos os anos.
O crescimento do mercado também é registrado em números. Apesar do setor ainda não ser suficientemente organizado para
se ter uma estatística nacional completa, na última pesquisa da AbraJORNALISMO EM PERSPECTIVA
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com – Associação Brasileira das Agências de Comunicação –, realizada em 2003, com 185 empresas de assessoria, 41% revelaram
que o número de clientes aumentou e para 37% este índice permaneceu estável, contra apenas 22% das empresas onde houve
redução de trabalho.
Para 74% das assessorias, o mercado é considerado regular
(36%), bom (29%) ou muito bom (9%). E as perspectivas são
animadoras: 32% dos entrevistados apostam que o mercado vai
permanecer regular e 64% acreditam que vai melhorar, apesar
dos valores pagos ainda serem considerados baixos – o investimento máximo das empresas em assessoria é de R$ 3 mil em 46%
dos contratos.
Ainda segundo o mesmo levantamento, 66% das assessorias
contam com até dez clientes e 25% chegam até 20 clientes. Os
setores de serviços (62%), saúde (46%), tecnologia (40%), comércio varejista (37%), educação (37%), indústria (37%) e terceiro setor (33%) são alguns dos mais atendidos pelas assessorias
de imprensa. E esta pequena amostragem revela que praticamente
todos os setores hoje já utilizam o serviço de assessoria de imprensa, que deixou de ser prerrogativa das grandes corporações
para beneficiar os processos de comunicação de médias e até pequenas empresas, ampliando o leque de atuação.
Também é inquestionável a profissionalização do segmento,
que hoje conta com muitos especialistas e busca cada vez mais se
adequar aos anseios dos clientes e às necessidades das redações,
sempre enxutas e correndo contra o relógio. O papel desempenhado pelas assessorias para profissionalizar o setor foi e está sendo fundamental para quebrar resistências e valorizar as empresas
deste segmento, assim como as transformações no País e no mundo, privilegiando a transparência e precisão nas informações.
Nas universidades, sindicatos e já em muitas redações, a função do assessor de imprensa tem sido mais estimulada e respeita-
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da. Recente pesquisa da Universidade de São Paulo junto à mídia
mostrou que mais de 80% das notícias publicadas em jornais tiveram origem em estímulo externo, ou seja, não partiram de dentro
das redações (pautas próprias). Não se tem o dado, mas com
certeza boa parte destas informações foram geradas por assessorias. E a tendência é aumentar.
O poder da redação
E qual o papel das redações neste caso específico? Filtrar as
informações que chegam e transformá-las em notícias de interesse
para o público, quando entender que há valor no material recebido
da assessoria. Em alguns casos, o que se vê é um processo desvirtuado. Apesar de toda evolução e reconhecimento do setor de
assessoria de imprensa, certos jornalistas, ao invés de saberem
aproveitar o material que recebem, ou simplesmente descartá-lo
quando inútil, ainda preferem condenar e até boicotar o trabalho
das assessorias de imprensa. São casos cada vez menores, mas
que ainda existem até porque esses profissionais não têm a percepção do poder da redação. São os profissionais do jornal, revista, rádio, portal ou televisão que vão decidir se vão e quando aproveitar as sugestões enviadas pelas assessorias. Na verdade, quem
manda é a redação.
Estes poucos, que ainda mantêm uma visão ultrapassada sobre o papel da assessoria de imprensa, ao contrário de perder
tempo combatendo a atividade, hoje reconhecida nacionalmente,
deveriam se preocupar em qualificar mais suas equipes para usarem corretamente o que estas empresas oferecem de melhor e
descartar o que não é Jornalismo. Agindo assim, estarão inclusive
contribuindo para qualificar ainda mais as assessorias e adquirindo
fontes confiáveis para busca de informações.
Já para a assessoria, é importante manter um excelente e
permanente diálogo com as redações e seus jornalistas. Nos EstaJORNALISMO EM PERSPECTIVA
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dos Unidos, onde o press agent é muito respeitado pelos colegas
que atuam em veículos, é comum assessores fazerem estágios nas
redações para adquirir experiência e compreender na prática o
funcionamento dos veículos.
O desafio da assessoria
É exatamente quando uma empresa ou interlocutor transforma-se em fonte fidedigna para o jornalista e consegue igualmente divulgar o serviço ou produto por ela desenvolvido com foco
positivo que podemos considerar que a assessoria de imprensa
cumpriu o seu papel na plenitude. “Transformar em ponto de referência dos jornalistas, não por favores, mas pelo trabalho pró-ativo e dinâmico, rapidez, eficiência e credibilidade é um resultado
que poucos conseguem”, lembra João José Forni. Cabe à assessoria buscar esta visibilidade positiva do cliente seguindo as regras
do Jornalismo e os princípios éticos que norteiam a profissão.
A assessoria trabalha de forma a equilibrar dois interesses
distintos. De um lado, buscar divulgação para o cliente, transformando informações da empresa em notícias potenciais, e de outro, oferecer aos veículos de comunicação conteúdo adequado de
interesse para a sociedade. Daí a importância da assessoria estar
permanentemente sintonizada com as redações para ter a percepção de quais as pautas podem despertar mais interesse. Uma boa
assessoria de imprensa saberá oferecer de maneira oportuna a
matéria-prima (notícia do cliente) para os veículos de comunicação.
Na opinião do jornalista Augusto Nunes, o assessor de imprensa tem que fazer fluir a informação. É ele quem organiza o
trânsito das informações em áreas em que os repórteres não conseguiriam entrar. Forni é outro que aponta como papel do assessor contribuir com o repórter na apuração da matéria e buscar
dar uma característica de serviço ao leitor/telespectador naquilo
que é divulgado. Para o professor Manuel Carlos Chaparro, há uma
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relação cada vez mais profissionalizada entre jornalista e fontes justamente porque a capacidade das assessorias de produzir conteúdos rompeu com os limites do jornal.
O trabalho da assessoria de imprensa é de manter seu cliente no lado positivo da notícia. É provocar situações que rendam à
determinada marca uma imagem associada à competência, produtividade, iniciativa e proximidade com a comunidade onde atua.
Isto explica porque as maiores organizações de todo o mundo
aliam o trabalho de publicidade ao de assessoria de imprensa quando precisam estar em intensa evidência positiva junto à comunidade ou ao seu público consumidor.
É o valor da notícia que determina o espaço ocupado jornalisticamente. Quanto mais interessante ou importante for a informação que uma empresa tem a divulgar, mais chances terá a assessoria de imprensa de conseguir uma boa colocação na mídia. Com
jornalistas conquista-se a simpatia pela tese – é o convencimento
democrático, profetiza Francisco Viana.
Com a profissionalização do setor, este trabalho de “construção de uma boa pauta jornalística” e de “convencimento” das
redações que a notícia tem importância deve ser feito exclusivamente por uma assessoria de imprensa. Quanto mais experiência a
assessoria tiver em realizar este tipo de trabalho, quanto mais feeling jornalístico seus profissionais forem capazes de possuir e quanto
maior credibilidade a assessoria de imprensa conquistar junto às
redações e suas equipes, maiores serão as chances de sucesso na
publicação de uma matéria.
Do “Manual de Comunicação da Unimed” vem uma analogia
interessante neste sentido: da mesma maneira que só o médico
pode diagnosticar e receitar quando o assunto é saúde, só o comunicador (assessor) está habilitado a diagnosticar e prescrever ações
de comunicação.
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Apostando a verdade
Com a modernização e a facilidade tecnológica para a comunicação, hoje, as assessorias de imprensa precisam atuar com a
agilidade necessária para dar resposta às demandas, tanto do cliente quanto dos veículos de comunicação. Essa rapidez deve ocorrer no momento de divulgação de um novo serviço/projeto, como
também na hora de esclarecer alguma informação equivocadamente
publicada. A veracidade no relacionamento com as informações e
com a imprensa é outra características indispensável para uma assessoria obter sucesso e manter a credibilidade, qualidade fundamental no relacionamento com os veículos de comunicação.
Mesmo tendo que atender os interesse dos clientes, as assessorias de imprensa devem se pautar pela verdade sob pena de
prejudicar o nome do cliente e, principalmente, da própria assessoria. O especialista em assessoria João José Forni destaca no livro
“O Papel do Assessor” que o leitor quer informação correta e o
jornalista não pode enganá-lo: “Se esse jornalista se sentir usado,
não levará a assessoria a sério, buscando a informação em outras
vertentes”.
O “Manual Nacional de Assessoria”, elaborado pela Fenaj é
mais enfático: “A mentira é condenável em qualquer circunstância.
A verdade, ainda que referente a um fato desagradável ou inconveniente, pode ser mais bem compreendida do que qualquer mentira e nunca fecha as portas para futuros entendimentos”. Idéia compartilhada por Augusto Nunes, para quem o pecado mortal de uma
fonte é mentir – “Nesses casos não há absolvição: acaba-se a fonte”.
O trabalho de assessoria de imprensa também exige continuidade, fidelidade e presença constante para alcançar bons resultados. Para isso, os assessores devem estar permanentemente em
contato com o cliente não apenas atendendo às solicitações da
empresa, mas também propondo fatos geradores de notícias e descobrindo assuntos internos que gerem exposição positiva na mídia.
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Entender a imprensa é pré-requisito fundamental, afirma João
José Forni. Em artigo escrito em conjunto com o professor e jornalista Armando Medeiros Faria, ele ressalta: “Essa capacidade sólida – teórica e prática – a respeito do papel, natureza e características da mídia permite às assessorias de imprensa encontrarem um
caminho adequado no relacionamento. Evita que a assessoria seja
preconceituosa em relação à imprensa ou maniqueísta (sentir-se
sempre vítima de perseguições da mídia)”.
Apesar de todos os avanços no segmento de assessoria, ainda existe uma ausência de uma cultura de comunicação com a imprensa em muitas empresas. Não são raros os casos de fontes
querendo ser editadas da maneira como desejam, de centralização
da informação e até de incompreensão do papel da imprensa. Elementos como estes prejudicam o processo, ressalta Forni, assim
como o desconhecimento sobre o funcionamento do processo
jornalístico e até do que é notícia realmente. Daí caber também à
assessoria exercer um trabalho pedagógico com seus clientes.
Com tantos vetores influenciando no trabalho e ainda levando-se em consideração que no fundo, trata-se de um caso permanente de relação interpessoal (assessor x jornalista de redação),
qual o modelo de atuação? Para Francisco Viana, hoje, não é possível definir um modelo de trabalho para assessorias de imprensa. E
a saída apontada por ele parece simples. “É preciso ser flexível e
criativo”. As peculiaridades dos clientes e dos veículos de comunicação é que vão definir o mecanismo de operação, portanto uma
regra pode ser estabelecida: é fundamental conhecer bem o cliente e os veículos de comunicação. Manuais de assessoria ensinam
que a transparência, a presença imediata, o claro entendimento de
que área comercial do veículo é uma coisa e redação é outra, a
consistência das informações e a atenção aos compromissos dos
jornalistas são elementos que contribuem muito para o sucesso.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Sintonia com a publicidade
Num mercado onde o que importa, cada vez mais, é a percepção dos produtos, serviços e da marca, a sistematização da
comunicação para consolidar a imagem de uma empresa ou instituição é uma meta a ser alcançada e a assessoria, uma das ferramentas.
Aliada ao marketing e à publicidade, a assessoria de imprensa passou a ser um instrumento fundamental para o bom desempenho da estratégia de comunicação de uma empresa ou instituição. Atuando de forma integrada e seguindo a mesma linguagem,
as três áreas contribuem de maneira inequívoca para a solidificação
de uma marca, produto, serviço ou conceito. Vale ressaltar, no
entanto, que a compra legítima de espaço publicitário não implica
na reserva automática de espaço editorial no jornal ou televisão. O
que até é uma ofensa aos jornalistas. Assessoria integrada com a
publicidade, sim, mas jamais vinculada.
Positiva no atual mercado nacional de comunicação e Santa
Catarina não foge à regra, é a percepção cada vez maior das agências de publicidade de que o trabalho de uma assessoria de imprensa dentro de uma empresa contribui em muito para reforçar,
com credibilidade, a mensagem passada através dos anúncios.
Com base nessa premissa, é cada vez mais comum que as
agências incluam em seu planejamento estratégico a utilização dos
serviços de assessoria de imprensa, o que até pouco tempo não
ocorria. Ou pior, a própria agência se aventurava à tarefa, na maioria das vezes sem profissionais especializados ou em quantidade
insuficiente para atender às necessidades dos clientes com resultados pelo menos satisfatórios, prejudicando inclusive o nome assessoria de imprensa. Conceito também abalado por todos aqueles que se metem a exercer as funções de assessor de imprensa, e
assim se intitularem, sem serem efetivamente jornalistas e sem a
mínima formação para a função.
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“Comunicação é essencial na vida das empresas. Trata-se de
um investimento prioritário e estratégico”, destacou Francisco
Viana em recente entrevista ao site Comunique-se. “Ignorar ou
menosprezar o papel da assessoria seria colocar fora importante
instrumento de conquistas de espaço na imprensa”, completa o
jornalista e mestre em Comunicação João José Forni. Ele compartilha a tese de que a concepção negativa do passado já não existe
mais e hoje a ferramenta é indispensável.
Atuação diversificada
O mercado de assessoria de imprensa não apenas cresceu
como buscou novas vertentes. De assessoria de imprensa, as empresas do setor passaram a assessorias de comunicação, o que
Francisco Viana define como “a mesma coisa dita de forma diferente”.
A nova denominação vem acompanhada de uma série de serviços oferecidos. Além da atividade original de divulgação na imprensa e relacionamento com os jornalistas, hoje, as assessorias
vêm desenvolvendo outras atividades complementares para atender a demanda dos clientes na área de comunicação. Essas atribuições incluem desde a criação e execução de projetos de jornais,
revistas, boletins, newsletter on line e murais informativos, até o
desenvolvimento de roteiros e produção de vídeos institucionais e
peças eletrônicas jornalísticas para veiculação no rádio e na televisão.
Outra novidade é o que se convencionou chamar de release
eletrônico. Nada mais é que a produção de vídeo com imagens e
entrevistas realizadas em palestras, seminários, eventos, com a
respectiva edição e envio de texto com as informações para utilização pelas emissoras de televisão que não tiveram oportunidade
de realizar a cobertura.
O surgimento da internet abriu novos caminhos para as assessorias, tanto para ampliar o leque de divulgação, como para
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oferecer o trabalho de elaboração de conteúdo para sites e portais, bem como a manutenção de notícias online na página da empresa e de envio automático de matérias para jornalistas cadastrados.
Algumas empresas do segmento se especializaram na administração de assuntos que tornaram-se crises na imprensa, a partir
de um fato inesperado ou mesmo já previsto. As assessorias assumiram o papel de monitorar as notícias veiculadas pela imprensa,
coordenar o trabalho de atendimento aos veículos e elaborar estratégias para garantir que as versões do cliente também mereçam
atenção.
A comum tarefa dos jornalistas de escrever ganhou relevância na elaboração de discursos, palestras, artigos, prefácios, apresentações, editoriais e até na revisão de conteúdos. A proliferação
dos meios eletrônicos, em especial da televisão fechada, abriu mais
oportunidades de divulgação e igualmente exigiu uma maior preparação dos entrevistados e uma adaptação não apenas do conteúdo,
mas também ao formato. As assessorias desenvolveram então um
novo produto, muito em evidência atualmente – o media training.
É o treinamento das fontes para se relacionarem com os jornalistas
e de como se posicionarem em entrevistas de rádios e televisão
para que a mensagem seja melhor captada pelo público.
Enfim, até por uma questão de sobrevivência pelo surgimento de muitas assessorias, é preciso diversificar. É importante ter
métodos claros, planejamento, organização e muita produção, com
eficiente sistema de aferição de resultados, que não se materializa
no simples cálculo de quantos centímetros por coluna ou minutos
de exposição o cliente mereceu e quanto isso representa em termos financeiros. Afinal, comprar espaços nos veículos de comunicação não é atividade de jornalistas e sim das agências de publicidade. A análise dos resultados vai além dos números e atinge elementos subjetivos, relacionados à credibilidade, posicionamento e valorização da marca.
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A profissionalização da gestão é também outra necessidade
hoje para as assessorias de imprensa. Tarefa difícil aos jornalistas,
que, em geral, não tiveram formação adequada ou não gostam de
se dedicar aos processos administrativos. No entanto, esta é uma
necessidade para a sobrevivência da assessoria.
Setor público
O papel e as características da assessoria de imprensa, aqui
abordados, servem igualmente para o setor público. É claro que
existem algumas peculiaridades, no entanto, na essência a função é
a mesma. A profissionalização das assessorias de imprensa não deve
ser prerrogativa de clientes da iniciativa privada.
Órgãos públicos, em geral com estruturas internas, hoje têm
sistemas de assessoria muito eficientes e bem montados. Não é
um mercado alvissareiro para as empresas de assessoria de imprensa, já que normalmente os profissionais são concursados ou
indicados, mas jornalistas que desejam atuar neste setor vão encontrar um bom filão, já que as oportunidades são muitas. Em Santa Catarina, os três poderes têm grandes e eficientes estruturas. A
assessoria da Assembléia Legislativa até um canal de televisão mantém no ar e a Secretaria de Comunicação do Governo do Estado
possui um eficiente sistema de comunicação por rádio que oferece
de maneira ágil e fácil informações para todas as emissoras do Estado. Para ficar em alguns exemplos. Prefeituras de grande e médio porte também possuem suas assessorias bem instaladas e até
o Judiciário investe no melhor relacionamento com a imprensa através de estruturação de assessorias profissionais.
A ética que rege a assessoria de imprensa do órgão público
é a mesma que serve para a iniciativa privada, ou deveria ser, e as
prerrogativas são as mesmas. No entanto, ainda há dificuldades no
setor público, onde as tentativas de dominar a mídia, vincular a
ação editorial ao processo publicitário ou personalizar as ações
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são grandes. Esta talvez seja a maior diferença entre o assessor de
imprensa de uma empresa privada e de um órgão público, onde
efetivamente é mais difícil para o profissional não incorporar o papel do assessorado.
Em função do oficialismo das notícias, cabe também ao assessor de órgão público ser ainda mais criativo nas suas estratégias
de comunicação e capaz no relacionamento com a imprensa, considerando a vantagem que, em muitos casos a própria imprensa vai
em busca das informações diariamente. Os momentos de crise,
em geral, também são maiores nesta esfera e é preciso ao assessor conhecimento, paciência e senso de equilíbrio para lidar com o
assunto, com a imprensa e com o assessorado.
Concluindo essa colcha de retalhos sobre o mister de assessoria de imprensa, vale ressaltar que a atividade é, sim, função jornalística, hoje desenvolvida por profissionais com experiência e
competência e que merecem o respeito das redações. E por ser
trabalho para jornalistas, assim também deve ser encarado pelo
assessores no que tange à criatividade, à busca da informação, à
veracidade e à ética. Utilizando palavras de Francisco Viana para
evidenciar o valor da atividade - “Comunicação é arte divina. Não
podemos vulgarizar nosso trabalho”. Assessoria é igualmente um
excelente mercado para os novos profissionais, no entanto, é preciso buscar o aprimoramento constante, inovar, modernizar processos jornalísticos, diversificar os serviços e gerenciar profissionalmente a empresa. Faz tempo que assessoria deixou de ser bico
para jornalistas.
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Marli Cristina Scomazzon
Comunicação no Terceiro Setor
O Terceiro Setor existe para preencher lacunas de demandas sociais que, numa sociedade ideal, seriam naturalmente atendidas pelas instituições formais.
Neste capítulo, serão tratados alguns aspectos do trabalho
do jornalista neste tipo de organização. O enfoque dar-se-á, sobretudo, àquelas instituições preocupadas com democracia e que
atuam na contestação da hierarquia social, econômica e cultural
predominante, com destaque especial ao movimento sindical e à
experiência da autora no Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis e Região.
Existem no Brasil, atualmente, cerca de 250 mil ONGs (Organizações Não Governamentais), segundo Luciano Junqueira, coordenador do Núcleo de Estudos Avançados do Terceiro Setor da
PUC/SP. As ONGs formam um conjunto que é convenção se chamar de Terceiro Setor. Com número tão expressivo é de se esperar que tanto os interesses, como a forma de atuar, sejam muito
diversos. Parte destas entidades tem orientação filantrópica ou assistencial. Outras defendem interesses empresariais, comunitários, culturais, esportivos, sociais, de classe. A forma de organização também é muito variada. Podem se instituir como redes, institutos, fundações, cooperativas, sindicatos. E sua importância econômica no conjunto não é desprezível. Segundo Junqueira, o Terceiro Setor no Brasil movimenta R$ 23 bilhões/ano e emprega aproximadamente 1,3 milhão de pessoas. Algumas destas são jornalistas que prestam assessoria de imprensa para estas instituições.
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A comunicação no Terceiro Setor atua em duas frentes. A
primeira criando meios de diálogo dentro da organização – a comunicação interna, boa parte dela dedicada à formação dos integrantes da entidade e, em menor grau, à prestação de contas e
informação dos rumos adotados pelo comando da instituição. A
segunda visa abrir canais externos de interação com a sociedade e
o Estado. O objetivo aqui é dar visibilidade às ações da instituição
e expor suas propostas, inserir sua visão de mundo na mídia e,
através de suas próprias publicações, interferir no debate público,
formando opiniões. O processo de comunicação no Terceiro Setor inclui, além do jornalismo, as relações públicas e a propaganda.
Um trabalho exemplar em termos de comunicação em uma
ONG brasileira é o da Pastoral da Criança, cuja ação é organizada
em rede e aproveita boa parte da estrutura da igreja católica no
país. O serviço de comunicação da Pastoral é extenso, vai desde materiais educativos, vídeos, audiovisuais, folhetos, até a produção de
um jornal bimestral, de 16 páginas com 230 mil exemplares, distribuído especialmente para os ativistas do movimento em todo país. Também tem um programa de rádio semanal de veiculação nacional.
Outro exemplo é o do Ibase (Instituto Brasileiro de Análises
Sociais e Econômicas), criado em 1981, que é uma instituição, segundo seu estatuto, que procura a construção da democracia, combatendo desigualdades e estimulando a participação cidadã. O
público-alvo é o de movimentos sociais populares; escolas, estudantes e professores da rede pública de ensino fundamental e médio; rádios comunitárias e experiências em comunicação alternativa; formadores de opinião nos meios de comunicação de massa;
parlamentares e assessores; gestores de políticas públicas. Edita,
entre outros, a revista semanal “Democracia Viva” e um jornal bimestral – “Jornal da Cidadania”.
Ambas têm em comum, na orientação de suas políticas de
comunicação, a idéia de que é necessário primeiro entender para
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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depois propor. Estes veículos buscam, através da informação que
veiculam, formar o leitor, sem cair na linguagem ativista e provocar
a participação, o engajamento na sua causa. Evitam cair num erro
freqüente das publicações do Terceiro Setor que é dedicar seus
conteúdos exclusivamente a discursos panfletários, propagandísticos que afastam os leitores (porque os que concordam com as
posições defendidas já sabem o que será dito e, portanto, não vão
dedicar seu tempo à leitura de algo que já conhecem; os que discordam, na maioria das vezes, também não lêem – a não ser para
polemizar - porque não têm simpatia pela causa em questão).
Em Santa Catarina
Nos últimos 20 anos, a imprensa no Terceiro Setor em Santa
Catarina evoluiu sensivelmente. Embora o aprimoramento não tenha sido uniforme, existem hoje publicações que abandonaram o
característico estilo amador presente em muitas das produções
comunicativas deste segmento.
Isto se deve à profissionalização, à contratação de jornalistas
para ocuparem os departamentos de imprensa destas instituições.
O avanço maior aconteceu no início da década de 90, sobretudo
no movimento sindical que viveu um crescimento no país, com o
chamado novo sindicalismo. Assim, estas entidades passaram a ser
uma frente de trabalho para jornalistas. Para se ter um exemplo da
efervescência no estado vale registrar, por exemplo, que em 1993,
durante uma greve geral nacional de quatro dias, o movimento
sindical catarinense produziu um jornal unificado, que abrangia a
Grande Florianópolis, com tiragem diária de 60 mil exemplares.
Isto foi resultado da formação, em Florianópolis, em 1991,
do Grupo Nois (Núcleo Organizado da Imprensa Sindical) que criou,
inclusive, um projeto de jornal unificado, a ser vendido em bancas.
Por vários fatores, o jornal nunca foi editado.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Ainda em 1991, a Fundação Democracia e Comunicação
Adelmo Genro Filho passou a produzir boletins (eram quatro boletins mensais) através da agência Ipsis Litteris, formada por jornalistas, lideranças sindicais e professores universitários com objetivo de difundir informações à margem da grande imprensa
Também no início da década de 90, os jornalistas Gastão
Cassel e Jacques Mick, assessores de imprensa dos sindicatos dos
eletricitários e bancários respectivamente, propuseram que a comunicação destas duas entidades fizesse uso da linguagem jornalística (proposta a ser detalhada quando falarmos do caso do Sinergia).
Tivemos ainda exemplos de resistência, como o do programa de rádio semanal do Mucap (Movimento Unificado Contra a
Privatização), que era realizado por um profissional, com entrevistas ou diálogos sobre temas atuais e veiculado todos os sábados
pela rádio CBN. Em algumas ocasiões, o programa chegou a ser
censurado pela emissora e saiu do ar.
É claro que há necessidade de muito mais, sobretudo no
que diz respeito à profissionalização e possibilidade de financiamento dos setores de comunicação do Terceiro Setor em Santa
Catarina. Ainda predomina o amadorismo. Há pouca informação a
respeito da importância da comunicação para as ONG’s e são recorrentes os gastos desmedidos com publicações inócuas, que
sequer cumprem objetivos menores, como a autopromoção.
No geral, a atuação no Terceiro Setor pode ser classificada
ainda como convencional. Mas, o trabalho está sendo feito. E existem já bons exemplos a seguir como o da sobriedade do boletim
do Sintrafesc, do volume e periodicidade dos informativos da Apufsc, a agilidade da home page do Sintrajusc e, é claro, o peso e
seriedade da home page do nosso próprio sindicato, o SJSC. Atualmente, destaca-se também o trabalho do departamento de comunicação do Observatório Social.
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O exemplo do Sinergia
A comunicação no Sindicato dos Eletricitários de Floranópolis começou, efetivamente, no final da década de 80. Em 1987,
com a contratação de um jornalista, foi estruturado o departamento de imprensa. O primeiro boletim em arquivo data de fevereiro
de 87. Logo depois, em agosto do mesmo ano, surge o primeiro
informativo e, em março de 1988, o primeiro jornal, com o nome
“Linha Viva”. Em julho de 1990, quando o jornal chegou a sua centésima edição, ocorreu a mudança gráfica e passou a ter o formato
que mantém até hoje - que é de quatro páginas semanais com a
contra-capa dedicada quase exclusivamente a temas culturais. O
projeto gráfico foi de Maria José H. Coelho, que já atuava na “Folha
Sindical”, do Sindicato dos Bancários de Florianópolis, uma espécie de co-irmã do “Linha Viva”.
O primeiro jornalista contratado pelo Sinergia, Gastão Cassel, no início da década de 90, junto com o jornalista Jacques Mick,
na época trabalhando no Sindicato dos Bancários, definiram um
projeto denominado “Imprensa Cidadã”. As análises e propostas
do projeto foram muito importantes e são elas que orientam todo
trabalho do setor de comunicação do Sinergia até hoje. O objetivo
era não repetir, com os meios de comunicação sindical, o mesmo
comportamento da grande imprensa. Ou seja, utilizá-los como um
instrumento de dominação, orientado para os interesses próprios
da diretoria do sindicato. O objetivo deveria ser o de viabilizar a
cidadania.
Num documento datado de 1992, Cassel e Mick detalham a
proposta: “Defendemos uma visão de imprensa sindical baseada
na informação e orientada por um comportamento ético rigoroso,
construindo uma imprensa que se coloque como alternativa especialmente por sua seriedade e credibilidade”. E mais: “A imprensa
sindical tem o papel de disputar a hegemonia, justamente colocando a informação à disposição dos cidadãos para que estes possam
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se posicionar frente ao mundo que os rodeia. Em última análise, a
imprensa sindical é, sobretudo, jornalismo”.
Como a perspectiva era a mesma da diretoria das duas entidades, o projeto não teve grandes problemas de implementação e
foi ao longo do tempo formando uma nova mentalidade que passou a entender que “a importância de um relato é mais forte que
um discurso, que a objetividade pode ser mais revolucionária que
uma análise”.
O jornal “Linha Viva”, junto com a home page (esta inaugurada em 2003), é o produto de maior visibilidade do Sinergia. Sua
tiragem já foi de sete mil exemplares e hoje está nos quatro mil,
devido à redução do quadro de pessoal das empresas. A publicação semanal tem função dupla: a de comunicação interna (com a
categoria eletricitária de Santa Catarina e para alguns eletricitários
dos outros dois estados do Sul) e de ligação com setores do público externo, pois é enviado, por correio, para formadores de opinião. Ele ainda serve para diminuir a dispersão organizativa que
existe dentro das duas intersindicais: a Intercel, que representa os
trabalhadores da Celesc em todo estado de Santa Catarina; e a
Intersul que reúne sindicatos de eletricitários atuantes no ONS, na
Eletrosul e Tractebel em quatro estados.
De acordo com as premissas da “Imprensa Cidadã”, o “Linha Viva” procurou sempre balancear as notícias corporativas com
as de interesse geral. Porém, a escolha de temas gerais se dá pelo
seu conteúdo alternativo, ou seja, evitam-se temas ou enfoques da
grande imprensa, procurando-se dar para reflexão do leitor elementos novos e que encontram pouco eco nas publicações tradicionais. O jornal procura realizar a cobertura jornalística de diversas áreas: economia, política, sociedade, comportamento, esporte, cultura.
Portanto, o jornal “Linha Viva” – que já teve até ombudsman
(tarefa executada durante alguns meses pelo jornalista Cesar Valen-
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te) – além de difundir as ações dos sindicatos, informar seus leitores sobre assuntos de interesse específico dos trabalhadores, trata de temas atuais, numa tentativa ambiciosa que é a de dar argumentos a esses leitores a fim de que ampliem seus conceitos de
cidadania, desenvolvam novas perspectivas de intervenção na sociedade.
O público-alvo do jornal, em termo de educação formal, é
bastante diferenciado. Abrange desde pessoas medianamente alfabetizadas àquelas com pós-graduação. Por isso, a linguagem escolhida pela publicação é a comum, sem obviedades. Ainda dentro da
perspectiva de que o jornalismo é uma forma de conhecimento
democrático, a primeira pessoa do singular e do plural só aparece
se devidamente identificada. Toda matéria que tem objetivo não
informativo é classificada como editorial. Os editoriais são dirigidos em geral aos patrões, aos trabalhadores tratados como uma
categoria homogênea e, algumas vezes, à classe política em geral.
Cada edição começa a ser preparada com uma semana de antecedência e inicia com uma reunião de pauta com a diretoria executiva
do Sinergia.
O jornal passa por fases de maior e menor participação dos
associados. Existe um espaço dedicado ao leitor chamado “Tribuna Livre”. A grande queixa dos dirigentes sindicais é da pouca quantidade do que chamam de “matérias investigativas” que seriam reportagens e registro de depoimentos de trabalhadores.
Um dos grandes feitos do “Linha Viva” é a sua edição ininterrupta, tendo mantido a periodicidade semanal desde a primeira
edição, completando em dezembro de 2004 sua edição número
776.
Atualmente, além do jornal semanal, a assessoria de imprensa elabora alguns boletins e releases. O setor, porém, teve fases
mais diversificadas em que produzia cartazes, adesivos, folders,
brochuras e livros. Hoje, todo este material, assim como a home
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page, é terceirizado. Também são confeccionados por terceiros
calendários, bonés, chaveiros, canetas, enfim todo material específico de marketing de campanhas, congressos, encontros, projetos, concursos promovidos pelo sindicato.
Por orientação política, a entidade não ocupa espaços publicitários nos grandes veículos de audiência aberta.
Privatização
Um dos grandes desafios para o departamento de imprensa
foi o processo de privatização da Eletrosul. Apesar da imagem
externa da entidade não ter sofrido muito, internamente as mudanças decorrentes deste episódio, geraram muita instabilidade e
incertezas. O processo começou timidamente no início da década
de 90 com a “desregulamentação”, Collor, a “caça aos marajás” e o
início da fase de “desestatização”. O quadro de pessoal da empresa, neste período, caiu sensivelmente e isto, é claro, teve reflexos
diretos na entidade. Porém, esta era apenas uma parte do que teria
que ser enfrentado. Em meados da década de 90, surgiu outra
ameaça: a privatização da Celesc. Para o setor de imprensa, como
de resto para toda entidade, foi um período difícil. O departamento não conseguiu assumir a função estratégica de sugerir ações.
Limitou-se a “apagar o fogo” diário e se retraiu devido, essencialmente, à idéia que havia na entidade de que a opinião pública teria
sido iludida pelo marketing e propaganda da privatização. Faltaram
ainda interlocutores experientes para trocar idéias, já que a venda
da Eletrosul foi um acontecimento incomum. Assim, levando-se
em conta este e outros fatores, como a falta de planejamento para
a comunicação no período, a atuação do setor foi tímida em relação à Eletrosul e mais positiva em termos de Celesc, onde a fonte
de poder de decisões – o governo estadual - estava perto e era
suscetível aos movimentos da comunidade local – que foi onde se
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concentrou todo trabalho do departamento, sobretudo com as
mobilizações do Mucap.
O jornalista no Terceiro Setor
Um dos debates típicos em torno da comunicação para o
Terceiro Setor diz respeito à militância do profissional de comunicação contratado pela instituição. A grande questão seria: o assessor de imprensa deve ser também um ativista da ONG?
Essa discussão precisa ser feita com maior rigor. É importante procurar saber se pode haver um equilíbrio entre o nosso
papel social como profissionais e cidadãos. Se não esquecermos
que, como jornalistas, nosso dever ético é de não manipular eventos ou informações, esse equilíbrio fica mais fácil de ser alcançado.
Minha experiência mostrou que se tivermos em conta que o
coração da atividade jornalística é informar, que é a partir disto que
todo resto do exercício da profissão acontece, o trabalho numa
assessoria de imprensa no Terceiro Setor não será diferente do
trabalho numa redação da grande imprensa.
Mas, no dia a dia de trabalho numa ONG, o tema do engajamento do jornalista é recorrente, está sempre presente. E, já que
não existem respostas prontas, pode-se abordar a questão de outra forma: é importante para o jornalista que trabalha para este
tipo de entidade estar em sintonia com os objetivos primeiros da
organização.
Essa empatia é crucial para a entidade, que vai precisar inúmeras vezes confiar no julgamento do jornalista quando decidir,
por exemplo, qual a melhor abordagem para tornar relevante um
desafio no qual a entidade vai despender muita energia, ou como
apresentar posicionamentos que dizem respeito a sua imagem junto à sociedade.
A identificação é importante para o jornalista porque, só a
partir dela, pode assegurar e firmar sua postura profissional denJORNALISMO EM PERSPECTIVA
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tro da organização. O engajamento com a causa maior da entidade
permite executar seu trabalho de acordo com o “primeiro mandamento”: informar clara e objetivamente. O trabalho do jornalista
numa ONG também tem um aspecto educacional. Ele deverá periodicamente lembrar os integrantes da instituição qual é o papel
da imprensa e mostrar que, se a ética jornalística for valorizada, a
ONG ganha em respeito externo e mantém uma estrutura interna
sólida e segura.
O dilema central de um jornalista trabalhando para uma ONG
é a da neutralidade e conseqüentemente o da objetividade, que
muitas vezes é condenada por parte da entidade. Mas a prática da
militância interferindo na produção da assessoria de imprensa é
prejudicial para ambos. No meu trabalho, junto a entidades do
Terceiro Setor, toda vez que descuidei e agi como ativista, ou deixei me “arrebatar” ao narrar um fato, os resultados do que produzi trouxeram danos para a entidade – que sofreu descrédito e
passou a ser alvo de preconceito junto a diversos públicos – e
censuras negativas de meus colegas, dos leitores e minhas, a respeito do meu comportamento. Meu esforço tem sido sempre no
sentido de tornar inteligível, compreensível, acessível para um público maior, os anseios das pessoas para as quais trabalho, facilitando, encorajando a participação, a intervenção deste público.
Outra polêmica a respeito da atividade jornalística numa ONG
tem a ver com o papel de “relações públicas”, no sentido pejorativo do termo. Quer dizer, no sentido de instrumentalizar um marketing de promoção pessoal, ou de um grupo de pessoas. Do
meu ponto de vista, isto não é tarefa para jornalista.
Outro foco de discussões é a relação da assessoria com os
jornalistas da grande imprensa. Nunca simpatizei muito com a função de “porta-voz”, porque acredito que o assessor de imprensa
não é a fonte original de informação. De forma geral, nos contatos
com a grande imprensa o correto, e mais produtivo, tanto para o
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assessor, como para os integrantes da ONG, é: nunca mentir, evitar exageros, jamais fazer colocações off the record, não falar do
que não se sabe.
A comunicação no Terceiro Setor passa por uma tarefa diária dupla: a de incentivar o ativismo dentro da organização e de
tornar visível este ativismo para a sociedade. Esta rotina exige esforços – alguns dos quais foram mencionados rapidamente aqui –
que, no geral, são os mesmos do jornalista que trabalha em qualquer outro segmento: o da responsabilidade com a ética, do direito da sociedade à livre informação, o de ser objetivo e verdadeiro
no que faz.
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Regina Zandomênico
Rádio: na 3ª idade, mas ágil como adolescente
O rádio em Santa Catarina, aos 70 anos de idade, acompanhou e repercutiu fatos políticos, econômicos e sociais que marcaram a história, principalmente a catarinense, além de presenciar
as profundas mudanças que os avanços tecnológicos provocaram
em todas as áreas de conhecimento. No jornalismo, as inovações
ajudaram a consolidar a informação como poder e, conseqüentemente, solidificaram a importância dos veículos de comunicação.
Em Santa Catarina, um município, localizado no Vale do Itajaí, tem uma marca invejável. Distante 160 quilômetros da capital
catarinense, Blumenau traz no currículo o pioneirismo da primeira
emissora de rádio, no final da década de 30, e da primeira estação
de TV ao término dos anos 60. Na cronologia dos acontecimentos, ao radioamador João Medeiros Júnior foi concedida a paternidade da radiodifusão em nosso estado com a instalação em 1935,
da PRC-4 Rádio Clube de Blumenau. A oficialização só ocorreu
depois de uma veiculação de dois anos em caráter experimental
que começou com um sistema de alto-falantes.
Dos três estados da Região Sul, Santa Catarina foi o último a
despertar para o novo veículo de comunicação. Já na década de
20, logo após a instalação oficial da primeira emissora brasileira, a
Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, em 1923, tanto o Rio Grande
do Sul, quanto o Paraná já desfrutavam da novidade que mexia com
o imaginário dos ouvintes. Os paranaenses em 1924, por exemplo, já ouviam a Rádio Clube Paranaense, e os gaúchos a Rádio Gaúcha, inaugurada em 1927.
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O surgimento da primeira emissora catarinense seguiu os
moldes da época baseado na fundação de clubes ou sociedades
onde os associados pagavam cotas que financiavam o funcionamento das emissoras. Nesse contexto, era comum a veiculação nas
próprias emissoras e nos jornais impressos de pedidos de contribuições financeiras para ajudar na manutenção dos novos veículos.
A programação ao vivo da PRC-4 Rádio Clube de Blumenau,
formada principalmente por repertório musical e leitura de comunicados, enfrentava situações absurdas para os padrões atuais: interrupções devido à precariedade dos equipamentos e à falta de
locutores conhecidos como speakers. Embora o trabalho na rádio
fosse inovador e empolgante, financeiramente não era atraente o
que justificava que os integrantes do quadro de funcionários trabalhassem em outros locais com jornadas mais rígidas.
O jornalismo não era a marca da nova emissora e a figura do
repórter sequer existia. O fundador Medeiros Júnior, entretanto,
constatou na pioneira Rádio Clube de Blumenau o poder que o
meio exercia ao veicular, como uma espécie de Orson Welles tupiniquim, fatos fictícios para conferir a reação dos ouvintes e mais
tarde lembrá-los que se tratava de primeiro de abril, a data instituída como o Dia da Mentira pelos franceses há cinco séculos.
O maior município de Santa Catarina, seis anos depois do
primeiro passo da radiodifusão catarinense, instalou oficialmente
em 1941 a Rádio Difusora de Joinville. O início da emissora em
1938 também foi através de alto-falantes. A novidade chegou pelas mãos de Wolfgang Brosig, um jovem técnico em eletrônica descendente de alemães cujo avô era proprietário do jornal “Kolonie
Zeitung”, editado na língua alemã e que circulou em Blumenau e
Joinville de 1862 a 1934. O esforço de Brosig, acumulando as funções de locutor, operador de áudio e até mesmo ator de radionovela, fizeram com que em 1997, aos 80 anos, recebesse da Câmara de Vereadores de Joinville o título de Cidadão Benemérito.
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O surgimento das primeiras emissoras longe de Florianópolis indica que o pomposo título de capital não contribuiu para que a
Ilha fosse pioneira na radiodifusão catarinense. Os florianopolitanos, a exemplo dos ouvintes de Blumenau e Joinville, começaram a
ouvir a sua primeira rádio através de um sistema de alto-falantes.
Se o fato de receber a novidade com atraso incomodava os mais
afoitos, a ironia foi saber que o nome da emissora – Rádio Guarujá
– era uma homenagem a um bairro de Santos, em São Paulo, e o
responsável por ela não havia nascido na Ilha ou sequer era catarinense. O gaúcho Ivo Serrão Vieira, acompanhado de um grupo de
amigos, manteve por cerca de um ano o sistema de alto-falantes e
conseguiu oficializar a emissora em 1943. Três anos mais tarde,
Aderbal Ramos da Silva, eleito no ano seguinte governador do Estado, assumiu o comando da emissora. A Radio Guarujá passou a
desempenhar um papel de “assessor político” do PSD (Partido
Social Democrático).
O final da década de 40 marcou o surgimento de emissoras
em várias regiões catarinenses em um período onde a veiculação
de comerciais nas rádios, conhecidos como “reclames”, já estava
autorizada pelo Governo Federal e a programação das emissoras
vivenciava a chamada “Época de Ouro”.
A presença dos comerciais mudou o perfil das emissoras
que, por terem a obrigação de se tornarem rentáveis, buscaram
alternativas para aumentar a audiência. Nesse período, os ouvintes
acompanhavam uma programação mais popular que incluía jornalismo, radionovelas, com estórias criadas ou adaptadas por roteiristas catarinenses, transmissões de esporte, incluindo futebol, remo
e basquete, e programas de auditório ao vivo. Embora nos primeiros programas os locutores lessem notícias veiculadas nos jornais, a oportunidade de ouvir entrevistas com personalidades, principalmente políticas, era uma garantia de audiência. O crescimento
do número de ouvintes incentivou as emissoras a apostarem na
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figura do repórter, o que conseqüentemente melhorou a factualidade das notícias locais nos radiojornais.
O sociólogo Antonio Miranda, autor do livro “A Era do Rádio”, avalia que esse período causou na sociedade brasileira impactos mais profundos do que os provocados , a partir de 1950, pela
chegada da TV no Brasil. A programação do rádio não apenas
entretinha e anunciava produtos, como também despertava nos
ouvintes uma participação social mais ativa.
A “Época de Ouro” do rádio em Santa Catarina também foi
marcada pela forte influência política. Muitas emissoras, a exemplo
da Rádio Guarujá, chegaram a pertencer a grupos políticos que
nos noticiários defendiam abertamente seus interesses confrontando adversários. Também era comum a compra de espaços na
programação por parte daqueles que ainda não tinham suas próprias emissoras.
A efervescência do jornalismo, aliada à influência política,
motivou a criação da primeira rede de emissoras do estado, a Rede
Coligadas, no ano de 1954, em Blumenau. Ligada ao PSD, as rádios
pertencentes à Rede só concediam espaço aos adversários mediante pagamento.
Além de Aderbal Ramos da Silva, outro governador, Irineu
Bornhausen, também se aventurou pelas ondas do rádio como peça
de persuasão política. Em 1954, ele conseguiu a concessão da
Rádio Diário da Manhã, em Florianópolis, para defender os interesses da UDN (União Democrática Nacional). Um dos destaques da emissora era o programa “Vanguarda”, sob a responsabilidade dos irmãos Adolfo e Walter Ziguelli. Ainda nessa década surgiram na capital outras emissoras como a Anita Garibaldi e a Rádio
Jornal A Verdade.
A descoberta do rádio como peça de marketing político influenciou o surgimento de várias emissoras em todas as regiões
catarinenses. Boa parte delas com tempo de vida vinculado apenas
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ao período eleitoral. A liberdade de expressão permitia que os
veículos se posicionassem abertamente e a participação dos ouvintes era intensa nos programas de debates. Muitas rádios chegaram, inclusive, a transmitir comícios eleitorais. Em todo o estado
as rádios se destacavam por particularidades da programação. Na
Difusora de Laguna, inaugurada oficialmente em 1946 e localizada
a pouco mais de 100 quilômetros da Capital, um dos diferenciais
era o programa “Picadeiro Político”. A produção usava a estrutura
de texto e sonoplastia das radionovelas para apresentar as notícias
da cidade, incluindo até mesmo fatos políticos.
Paralelo aos programas de forte influência política, as rádios
também investiram em programas dirigidos aos universos feminino e infantil. Além das radionovelas, as ouvintes podiam sintonizar
programas que tratavam de culinária, poesias e conselhos de beleza. A Rádio Diário da Manhã, na década de 50, investiu no “As
crianças se divertem” retransmitido para 14 emissoras. O público
específico era mais uma ferramenta que as emissoras dispunham
para atrair anunciantes e aumentar os lucros.
A onipotência do rádio no Brasil começou a ser ameaçada
com a chegada da TV em 1950. À medida que as estações de TV
foram se espalhando pelo território nacional e o público tendo
contato com o veículo que além do som trazia imagens, as emissoras foram perdendo o espaço conquistado. Em Santa Catarina, o
processo não foi diferente e começou em 1969 com a chegada da
TV Coligadas, em Blumenau, a primeira emissora de TV do estado, e posteriormente com a inauguração da TV Cultura, em
1970, na capital.
O espírito jornalístico das rádios catarinenses que concretizou até transmissões internacionais, como um campeonato panamericano de remo na Argentina, foi aos poucos perdendo espaço
para uma programação quase que exclusivamente musical e que
retomava com força a antiga prática do gillete press.
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Nos grandes centros, como Rio de Janeiro e São Paulo, os
atores do rádio migraram para as telenovelas que, no início, também eram produzidas ao vivo. Em centros menores, como Santa
Catarina, a ausência de telenovelas locais colocou os atores em
uma situação difícil. Para os locutores, a adaptação foi mais fácil,
embora a TV exigisse um “olho no olho” com o telespectador e a
preocupação com a relação texto/imagem. A chegada das FMs no
Brasil, a partir da década de 70, também provocou mudanças.
Muitos ouvintes deixaram os antigos programas AM de lado e passaram a sintonizar as FMs que ofereciam uma nova linguagem.
Uma avaliação superficial do rádio pode considerar que atualmente o veículo não possui o mesmo poder de informação em
relação aos outros meios de comunicação, mas a realidade é outra.
Fatos recentes em Santa Catarina, como o apagão de 2003 em
Florianópolis, e a passagem do ciclone Catarina, em 2004, mostraram a eficiência do veículo. Além disso, desde a descoberta do
transistor em 1947 por cientistas americanos, o rádio não está
mais submetido à conexão de uma tomada e pode ser ouvido em
qualquer lugar.
Nas últimas décadas, várias previsões pessimistas garantiram que os avanços tecnológicos beneficiariam a TV e a internet e
provocariam o desaparecimento do jornal impresso e do rádio.
Em 1980, o americano Anthony Smith conseguiu recordes de vendagem ao lançar o livro “Adeus a Gutenberg”, prevendo o fim do
jornalismo gráfico. Entretanto, jornais e revistas, assim como
as rádios continuam crescendo e se adaptando cada vez mais às
novas tecnologias – as rádios virtuais são uma prova.
Dados do Ministério das Comunicações indicam que, em
outubro de 2004, só no âmbito das rádios comunitárias, 2.119
tinham autorização para funcionar no país. No ano anterior, outras
4.412 com o mesmo perfil foram fechadas pela Anatel (Agência
Nacional de Telecomunicações) por terem sido consideradas ile-
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gais. Os estudiosos da comunicação consideram que entre as novas
tecnologias, a que mais se destaca é a relacionada à transmissão,
elaboração e difusão da informação. Dentro deste contexto, cabe
salientar que as novas tecnologias mudaram a relação do jornalista
com o tempo, um fator sempre determinante para um profissional
da área. A prática jornalística do dia a dia demonstra que em termos de agilidade o rádio ainda é imbatível. Nem mesmo os jornais
online que trabalham em fluxo contínuo conseguem chegar na
frente na disputa com o meio quando a tarefa é veicular e repercutir o factual. O rádio, com seu custo relativamente baixo, é o que
mais rápido e facilmente consegue colocar em prática a filosofia do
slogan “pense global, aja local”.
O mais recente levantamento feito pela Acaert (Associação
Catarinense de Emissoras de Rádio e Televisão) aponta que todas
as regiões de Santa Catarina estão contempladas com emissoras
radiofônicas. De acordo com a entidade, seu quadro de filiados
tem atualmente 71 emissoras FM e 101 AM, muitas delas tendo o
jornalismo como carro-chefe aliado às transmissões esportivas.
Cabe salientar que nesta relação não estão computadas as rádios
comunitárias, as veiculadas pela internet, as piratas, e algumas oficiais não filiadas à associação. Para os que ainda teimam em ser
pessimistas uma má notícia: às vésperas de completar 83 anos no
Brasil e 70 em Santa Catarina, o rádio ainda tem fôlego e está na
ativa.
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Fotojornalismo Catarina
Andressa Braun
Após Roger Fenton, o inglês considerado o primeiro fotojornalista da história, um século se passou até que aparecessem os
fotógrafos precursores da imprensa catarinense. O marco do fotojornalismo mundial é a publicação da primeira imagem pelo jornal sueco “Nordisk Boktrycheri-Tidning”, em julho de 1871. Em
Santa Catarina, a primeira foto jornalística registra a inauguração da
ponte sobre o ribeirão Garcia, em Blumenau, por Alfred Baumgarten, em 1906.
A publicação de fotografias por jornais e revistas esbarrava
na dificuldade técnica de se imprimir toda a gama de tons diferentes de cinza (entre o branco absoluto e o preto absoluto), que
formam uma imagem fotográfica em preto-e-branco. Até começo
da década de 1960, a única maneira de incluir fotos na imprensa
era recortá-las de outras publicações e colá-las para a reprodução
no jornal, a técnica conhecida como gilette press. A exceção foi a
publicação precursora e isolada do jornal blumenauense “Blumenauer Zeitung”, que pela experiência autônoma de Alfred Baumgarten, filho do fundador do jornal, de tanto aventurar trabalhos
fotográficos em casa, instalou um laboratório próprio e fez as primeiras ampliações em 1910.
A produção fotojornalística em Santa Catarina também foi
incentivada pelo trabalho do catarinense Valdemar Anacleto que,
em meados da década de 1960, fazia imagens do estado para expôlas em painéis no Rio de Janeiro. O fotógrafo era um grande entusiasta da documentação fotográfica num período em que as imagens eram
utilizadas apenas como ilustração das matérias de jornal.
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As fotos se tornaram mais presentes na imprensa catarinense por volta de 1963. O jornal “O Estado”, o mais antigo diário em
circulação em Santa Catarina, fundado em 1915, comprava o resultado do trabalho independente do fotojornalista Paulo Dutra,
que começou a fotografar fatos isolados que considerava de interesse da imprensa. A publicação era realizada geralmente na capa
com legendas explicativas criadas pela redação. Dutra possuía um
pequeno laboratório de revelação e ampliação em casa. Simultaneamente, ele fazia fotos de Florianópolis e as vendia ao jornal gaúcho “Correio do Povo”.
Paulo Dutra também teve experiências em publicações nacionais. Em 1970, quando trabalhava no Palácio do Governo do Estado de Santa Catarina, fotografou uma apresentação da Esquadrilha da Fumaça e, sem perceber, registrou o momento exato do
choque entre duas aeronaves. O acidente, de repercussão nacional, foi assunto na revista “Manchete”, da editora Bloch, que pouco tempo depois contratou Dutra. Lá, ele trabalhou por dez anos.
Mas foi em Santa Catarina que passou a maior parte de sua carreira. Funcionário público federal, ele trabalhou, entre outras repartições, na Agência de Comunicação da Universidade Federal de Santa Catarina. Dutra voltou em 1988 ao jornal “O Estado”, onde permaneceu, entre entradas e breves saídas, até 2002.
Paulo Dutra ainda participou da primeira equipe profissional
de fotojornalistas de um jornal catarinense. Junto com Gaston Guglielmi, Sérgio Rosário e Rivaldo de Souza, sob o comando de Orestes Araújo, eles formaram, em 1972, o time de fotógrafos de O
Estado. Foi nesse ano que o jornal de Florianópolis adquiriu uma
máquina de impressão off-set – que facilitava a impressão de fotografias – exatamente um ano depois da compra do mesmo equipamento pelo concorrente, o “Jornal de Santa Catarina”, com sede
em Blumenau. O jornal do Vale publicava fotografias produzidas
pelos cinegrafistas da TV Coligadas, que faziam o trabalho de cam-
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po munidos de filmadora e câmara fotográfica. A parceria era possível porque o jornal e a TV pertenciam ao mesmo grupo.
Para Orestes Araújo, o início do fotojornalismo foi marcado
por uma incansável busca pelas melhores imagens, relacionada com
o “realizar algo proibido”. “Algumas vezes sentia um certo medo
de estar tão perto da notícia”, acrescenta. O relato é também
embasado pelo pioneirismo na fundação, em 1965, da assessoria
de imprensa da Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, ao lado do jornalista João José de Souza.
Nesse período, Orestes profissionalizou-se com a realização de cursos de fotografia em São Paulo. Lá, percebeu o interesse
de publicações de outros estados, especialmente do Rio de Janeiro, por fotografias de Santa Catarina. “As revistas do eixo Rio-São
Paulo mandavam profissionais para o Estado quando precisavam
de imagens”, conta ao relembrar o motivo que o levou a oferecer
as próprias fotos a publicações como a revista “Veja”, onde trabalhou doze anos como correspondente em Santa Catarina.
Todas essas experiências creditaram Orestes Araújo a finalizar, em 1985, a formação da equipe de fotógrafos do “Diário Catarinense”, o primeiro jornal totalmente informatizado criado no
Brasil. Em 1986, o DC possuía os mais modernos e completos
equipamentos fotográficos de imprensa da época: 18 câmeras Nikon modelos F-3 e F-3 HP, grande-angulares, teleobjetivas, flashes,
tripés e filtros, entre outros acessórios. Além disso, o “Diário Catarinense” ainda dispunha dos melhores computadores e programas
de edição eletrônica de textos para imprensa da América Latina.
Até 1991, Orestes Araújo continuou o trabalho em outros
diferentes veículos de comunicação e na assessoria de imprensa da
Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina. Naquele ano,
ele cria o “Jornal de Barreiros”, onde até hoje realiza diversas funções: produção fotográfica, texto, edição, distribuição e até venda
de espaços publicitários.
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A partir do início da década de 1970, a linguagem fotográfica
passou a estar de acordo com o texto, matéria jornalística e imagem complementavam-se. Para o fotógrafo e historiador do fotojornalismo Tim Gidal (1971), a evolução do fotojornalismo moderno deve-se a um fator técnico – desenvolvimento de câmaras
fotográficas compactas, luminosas e com visor na parte traseira –
e outro intelectual - o surgimento de uma nova geração de fotógrafos no mundo, na maioria com educação superior e descendência judaica.
Na década de 1970, as revistas já utilizavam fotos coloridas,
captadas por slides. Apesar da dificuldade inicial de utilização da
nova tecnologia, ela teve que ser adotada pelos profissionais. A
informação transmitida pela foto colorida deixava a imagem com
aparência plastificada, porque além da dificuldade de trabalho dos
fotógrafos, os gráficos também tinham problemas para a impressão. “Foi um verdadeiro caos para o fotojornalismo”, opina o fotojornalista Tarcísio Mattos sobre o início do uso de slides quando
“muitos profissionais deixaram de fotografar porque não conseguiam se adaptar”.
Tarcísio Mattos é sócio–fundador da Soma Fotojornalismo,
empresa criada em 1988 e que passou a cobrir pautas para o “Jornal de Santa Catarina”, AN e “O Estado”, geralmente em cidades
que não eram sede dos jornais. A carreira começou aos 18 anos,
em 1979, como laboratorista do jornal “O Estado”. No ano seguinte, foi fotografar profissionalmente na equipe do jornal, com a
saída do pioneiro Rivaldo de Souza. “Quando ingressei no mercado, o material era muito barato, o que me permitia experimentar”. No começo dos anos de 1980, ele trocou uma câmera Canon Ftb por uma Pentax SP 500.
Bem humorado, Mattos conta que, como era o mais novo
da equipe, só recebia pautas que classifica como “carne de pescoço”. Em dois anos de trabalho, ele teve que provar que tinha capa-
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cidade. Depois de realizar com sucesso uma pauta sobre argentinos em Balneário Camboriú, passou a ser escalado para coberturas mais importantes. Ele lembra que, naturalmente, o repórter
fotográfico “cobria melhor”, direcionava-se para o assunto com o
qual mais se identificava.
Uma questão também de sorte
Paulo Dutra acredita que, para fazer uma boa fotografia para
imprensa, o profissional tem que ter sorte acima de tudo, técnica
e muita rapidez. O fotojornalista Tarcísio Mattos não discorda, mas
defende que o profissional deve ser, antes de tudo, um jornalista.
“Ele tem que ter técnica, senso estético, mas, essencialmente, precisa estar ligado à notícia.”
A fotojornalista Suzete Sandin, a primeira no Estado, concorda que além de “olho” (refere-se à sensibilidade para perceber
o que é importante e inusitado em uma cena), o profissional precisa da sorte. Ela reconhece que a tecnologia no fotojornalismo proporcionou ganho de tempo, mas critica: “Com a era digital, a fotografia tornou-se muito mais programada, menos espontânea. É difícil uma foto que realmente chame a atenção”. Para ela, o slide
ainda garante melhor definição e fidelidade de cores, diferente do
equipamento digital.
Mattos diz que, hoje, o fotógrafo é escravizado pela técnica,
o que se reflete na grande quantidade de fotos posadas nos jornais.
“A fotografia privilegia a técnica em detrimento da informação”,
completa. Para ele, a tecnologia foi somente uma evolução e não
pode ser vista como fim, mas como meio. Ele cita, por exemplo, a
baixa qualidade das imagens vendidas por agências de notícias. Ao
mesmo tempo, reconhece ser difícil atender tantos interesses diferentes, o que justifica, em parte, a perda na qualidade.
Orestes Araújo comprovou o quanto a sorte na profissão é
importante depois de um episódio inusitado. No início da década
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de 1970, quando os Estados Unidos e o mundo questionavam se o
presidente Richard Nixon seria candidato à reeleição, o fotojornalista conheceu, por insistência de um amigo, uma fábrica em Rio
Negrinho, no interior de Santa Catarina, que estampava em canecos, a pedido do comitê de reeleição, a imagem do então presidente. Como de costume, Orestes levou consigo o equipamento
fotográfico, fez fotos e as vendeu para as principais publicações
brasileiras e agências internacionais.
O fotógrafo defende a complementaridade imagem-texto.
“A boa imagem para o jornal deve ser casada com o texto. Deve
seguir a mesma linguagem, além de ter qualidade, bom ângulo e
bom enquadramento”. Para Orestes, o fotojornalismo contribuiu
muito para a valorização do produto jornal. “Hoje, ninguém mais lê
jornal sem foto”, completa Paulo Dutra.
Uma estranha no ninho
Com o surgimento do primeiro jornal totalmente informatizado criado no Brasil, surge também a primeira fotojornalista do
estado, Suzete Sandin. Ingressa por acaso na profissão, como ela
mesmo descreve, Suzete só se interessou profissionalmente pela
fotografia durante a realização de um curso de especialização com
um profissional norte-americano de passagem por Florianópolis.
Ela foi sorteada e recebeu uma bolsa para o curso na época em que
estudava Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina.
Após o trabalho de conclusão do curso superior - um
audiovisual que demonstrava o destino do lixo em Florianópolis
-, surgiram várias oportunidades de trabalhos freelancers em fotografia. Hoje, Suzete diz que a escolha pelo fotojornalismo foi uma
casualidade que deu certo. Em 1985, ela tornou-se parte da equipe
de fotógrafos do “Diário Catarinense”. “Foi ali que aprendi tudo”,
reconhece.
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Ela lembra das dificuldades de uma mulher cobrir, por exemplo, futebol naquela época. Era graças à ajuda dos outros fotógrafos que “encarava” as brincadeiras da torcida. “Aprendi todos os
palavrões da minha vida no campo de futebol”. Apesar das dificuldades, para Suzete, o jornalismo diário é a melhor escola de fotografia. “Você tem sempre que encontrar uma saída e levar a foto
para a redação”.
Uma das coberturas que mais a marcou e com a qual conquistou reconhecimento internacional foi realizada em 1997 em
um acampamento de trabalhadores rurais sem-terra em Abelardo
Luz. Um dos objetivos era mostrar de que forma o Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) pressionava o governo. Suzete passou uma semana acampada e viveu momentos de
apreensão. Um deles foram tiros na madrugada. A fotojornalista
acreditou que fosse a Polícia tentando retirar os trabalhadores do
lugar em que estavam. Pouco depois, soube que esta era a forma
que os agricultores comemoram o retorno da colheita. Uma das
fotografias da cobertura foi premiada pela revista francesa “Photo” com o 1º lugar na categoria La Lumière.
Outra cobertura fotográfica que Suzete não se esquece foi
realizada para a revista americana “Life”. Ela fotografou em Santa
Catarina um alemão que criava tigres em casa. Atualmente, Suzete
passa seis meses no Brasil e outros seis no Canadá, e realiza eventuais trabalhos freelancers para revistas como “Caras” e “Quem”.
Suzete acredita que um dos maiores desafios do fotojornalista é transmitir toda a informação em uma única imagem. Para ela,
a fotografia deve chamar a atenção para o texto porque uma boa
imagem estimula a leitura. “A fotografia para jornal deve emocionar, o profissional deve conhecer bem o assunto e saber exatamente o que deseja transmitir”, conclui Suzete.
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REFERÊNCIAS
Entrevistas pessoais:
Orestes Araújo, fotojornalista responsável pela criação da primeira equipe
de fotógrafos do jornal “O Estado” e editor do “Jornal de Barreiros”
Paulo Dutra, primeiro fotojornalista a exercer profissionalmente a função
no Estado, aposentado
Suzete Sandin, primeira fotojornalista de Santa Catarina
Tarcísio Mattos, fotojornalista e sócio-fundador da Soma Fotojornalismo
Dissertação:
IVAN LUIZ GIACOMELLI. Impacto da fotografia digital no
fotojornalismo diário: um estudo de caso. Dissertação para o
Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Produção da UFSC,
2000
Livros:
CABRAL, OSWALDO. Nossa Senhora do Desterro. Florianópolis:
Oficinas Gráficas da Imprensa da UFSC, 1972
KORMANN, EDITH. Blumenau – arte, cultura e as histórias de sua
gente (1950-85), Volume IV. Florianópolis: Edeme Indústria Gráfica
e Comunicação, 1996
SANTOS, SÍLVIO COELHO DOS. Santa Catarina no Século XX.
Florianópolis: Editora da UFSC, FCC (Fundação Catarinense de
Cultura) e Univali, 1999.
Agradecimentos
Aos jornalistas Celso Vicenzi, Celso Martins, Maria José Baldessar e
Luciany Alves Schlickmann.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Mulheres e Jornalismo
Elaine Borges
- E sua mãe sabe que você vai viajar sozinha!?
A pergunta – feita por uma autoridade do alto escalão do
governo Colombo Machado Salles – retrata bem o momento em
que vivíamos. Naquela tarde do mês de outubro de 1972, eu estava no aeroporto Hercílio Luz embarcando para Belém do Pará.
Enviada especial do jornal “O Estado”, fui acompanhar agricultores, a maioria do oeste catarinense que, atraídos pelas promessas
de uma nova vida, iriam para a terra dos sonhos, a Amazônia (sonho que se transformou em pesadelo – a Transamazônica era mais
um projeto megalômano do governo ditatorial do general Emílio
Garrastazu Médici).
Naquele mesmo ano – 1972 –, fui escalada para cobrir o
famoso clássico Avaí e Figueirense. Minha reportagem era acompanhar a reação da torcida. Na época, era raríssimo mulher-repórter trabalhar nas editorias de esporte. Mais raro ainda era fazer reportagens nos campos de futebol. E – pelo inusitado – virei notícia.
Nossas funções nas redações estavam delimitadas: variedades, comportamento, cultura, entre outras, eram editorias eminentemente femininas. As editorias de política, esporte e polícia, tradicionalmente eram preenchidas por jornalistas do sexo masculino.
Se hoje vejo na mídia eminentes lideranças políticas de Santa
Catarina dando freqüentes entrevistas às repórteres do setor, sorrio quando lembro as barreiras invisíveis que estes mesmos políticos erguiam ao perceberem a presença de repórteres. Em plena
ditadura militar, tentei inúmeras vezes entrevistar um deles. Rece-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
131
bia apenas respostas lacônicas. De tanta insistência, fui orientada
por seus assessores para encaminhar perguntas por escrito. As
respostas foram as mais lacônicas, limitando-se ao “sim”, “não”,
“talvez”...
Nesse período – década de 70 – presidi duas vezes o Clube
dos Repórteres Políticos de Santa Catarina. Correspondente de
“O Estado de S. Paulo”, em alguns episódios, minha demissão foi
“gentilmente” solicitada por lideranças locais - nunca aceita pela
direção do jornal. Mas os galanteios eram inevitáveis. Galanteios
que sempre procurava reverter em boas declarações. Lideranças
nacionais – como Ulysses Guimarães – transformavam entrevistas
em aulas de democracia e de resistência.
Bernadete Santos Viana (hoje, além de jornalista, é campeã
sênior de tênis), nos anos 70, era chefe da sucursal do “Jornal de
Santa Catarina”, em Florianópolis, lembra: “A desconfiança que
despertávamos na época não sei se era atribuída à profissão ou a
nossa condição de sermos mulheres jornalistas. Sofríamos mais
contestação nas matérias que escrevíamos do que os jornalistas do
sexo masculino. Inúmeras vezes, tive de enfrentar os entrevistados por insistirem em ler os textos antes de publicados, ou depois
contestavam o que haviam dito. Decididas e combativas, exigíamos igualdade.”
Aline Bertoli (assessora de imprensa do Tribunal de Contas)
foi uma das primeiras jornalistas a apresentar telejornal em Santa
Catarina. Trabalhou também no jornalismo político e relembra: “Eu,
com pouco mais de um metro e 60, magra, tinha que ficar sempre
muito séria, até mesmo com cara de poucos amigos, para chegar
às minhas fontes. Era para impor respeito”.
Mas havia aquelas que, além de novas oportunidades de emprego oferecidas em Santa Catarina, também queriam usufruir como ainda hoje - das delícias de morar numa ilha paradisíaca. Marise
de Martini Fetter (hoje morando em Brasília) foi uma das tantas
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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que veio do sul para trabalhar em Florianópolis: “Para mim era
fazer turismo, tinha sempre festa! E aquela musicalidade do jeito
de falar dos ilhéus, as praias, o vento sul... Mas o que me chamou
a atenção foi a facilidade com que a gente falava com as autoridades. O secretário sempre estava disponível. O governador era
acessível. Aquilo me impressionava muito. Coisa de foca”, conclui.
Essa facilidade percebida por Marise foi também registrada
por Rosamaria Urbanetto (hoje trabalhando na Globonews, no Rio).
Ao entrevistar um secretário de estado, ainda na década de 70, foi
surpreendida com um convite inusitado: “Espera um momento”, e
imediatamente o secretário colocou o braço em volta do ombro
da Rosinha e pediu que o fotógrafo tirasse uma foto de ambos.
Queria registrar o que considerou um fato inédito: ser entrevistado por uma mulher.
A jornalista Marisa Ramos (que na década de 60 teve a “ousadia” de ser a primeira mulher de Florianópolis a botar a barriga
de fora usando maiô de duas peças) foi também umas das primeiras mulheres jornalistas a comandar programas televisivos. Trabalhou na antiga TV Cultura dirigindo um programa voltado para as
mulheres. Mais tarde, com a modernização do jornal “O Estado”,
mantinha uma coluna com informações e comentários destinados
ao público feminino. Em 1999, foi homenageada com a medalha
do mérito pela Associação Catarinense de Imprensa. Atualmente,
Marisa é assessora de imprensa da Casa Civil do governo de Santa
Catarina.
Eloá Miranda, ao contrário da turma que veio do sul, em
1975 chegou a Florianópolis vinda do Rio de Janeiro. Trabalhou no
jornal O Estado e depois na TV Cultura. “Eu lembro que o Celso
Pamplona (famoso e folclórico colunista social da cidade) tinha um
programa de Variedades na TV Cultura e me convidou - por ser
uma mulher exercendo a profissão de jornalista - para ser entrevistada. Uma mulher que sabe tudo, ele dizia”.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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O “saber tudo” e a ousadia intrigavam e faziam aflorar o lado
machista de alguns políticos e empresários. Imara Stallbaum, repórter do “Diário Catarinense” no final das décadas de 80 e 90, ao
fazer uma série de reportagens, denunciando a retirada ilegal de
madeira de uma floresta da reserva Indígena de Ibirama, foi acusada de “mentirosa e irresponsável”. O ataque do madeireiro a ela
“consistiu em tentar me desmoralizar de forma machista”.
Em determinadas situações, agir com sutileza foi sempre uma
tática da repórter: “Na época, desenvolvi uma tática para ligar para
a casa de algumas fontes ou autoridades. Eu ligava e a mulher do
sujeito atendia. Estou certa de que ela desconfiava que eu era um
cacho do marido, não uma repórter. Por isso, um dos primeiros
desafios que aprendi a superar foi aturar suas mulheres e as secretárias. Ninguém me ensinou isso. Aprendi na marra. Ao ligar, eu
explicava em detalhes a matéria em curso para que se sentissem
importantes. No fundo, isso era uma prática feminista”.
Hoje, professora dos cursos de Jornalismo da Ielusc, em
Joinville e da Estácio de Sá, em São José, Imara gosta de dar um
recado às futuras colegas: “Digo que devem evitar decotes ousados e tudo que possa desviar a atenção ou seduzir o entrevistado.
A maioria, certamente, acha que exagero. E não entende que ser
mulher, bonita, atraente, pode ser um problema na hora da entrevista se a jornalista for também inteligente. O ideal é serem maravilhosas na hora de escrever a matéria”.
Traumas também marcaram a vida profissional de algumas
repórteres, grosseiramente ofendidas por homens públicos. É o
caso da jornalista Roseméri Laurindo (hoje trabalhando na FURB,
em Blumenau). Repórter setorista de “O Estado” na Assembléia
Legislativa de Santa Catarina, no final da década de 80, escreveu
uma reportagem comparando os assédios dos partidos aos deputados como se fosssem lances de um leilão (havia um intenso troca-troca de partidos devido à chegada do PRN do Collor). No dia
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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seguinte à publicação da matéria, foi recebida duramente por um
deles: “Eu não tenho nada a declarar a você que está na zona”,
disse. Rose nunca mais voltou à AL e direcionou sua profissão para
outros caminhos: “Fiquei traumatizada com o episódio”, confessa.
Lúcia Helena Vieira, experiente jornalista, há mais de dez
anos é repórter de política e, embora nunca tenha enfrentado problemas profissionais, reconhece que “num mundo que ainda é predominantemente masculino, o da política, é preciso ter jogo de
cintura. Há os assédios, que são quase comuns. Foi preciso ser
muito firme para deixar clara a relação sempre profissional. As
mulheres jornalistas que trabalham em áreas como a política, que
lidam diretamente com o poder – exercido predominantemente
por homens – têm desafios dobrados. Precisam mostrar extrema
competência e independência para conquistar o respeito do meio,
tanto dentro quanto fora do jornal”.
Nas eleições municipais de 2004, Lúcia Helena foi agredida
verbalmente, na redação do “A Notícia”, em Florianópolis, pelo
então candidato a prefeito de São José, Fernando Elias (PSDB):
“Ele ficou possesso por causa de uma matéria minha e deu de dedo
na minha cara, me chamando de mau caráter. Levantei e também
dei de dedo na cara dele. Ele não admitiu ser questionado ou denunciado, muito menos por uma mulher”. No “Diário Catarinense”, “também enfrentei poderosos que pediram minha cabeça
...Não sei se, nessas situações, se fosse homem, deixaria de sofrer
as agressões. Talvez o ‘valentão’ que botou o dedo no meu nariz
não o fizesse se eu fosse homem”.
Há um outro episódio que retrata bem a necessidade quase
permanente das mulheres jornalistas provarem que são capazes e
inteligentes: “Lembro-me de uma longa conversa com um deputado. Ficamos falando sobre o quadro político do momento, ele me
questionava e depois repetia várias vezes:“ah, mas tu és inteligente!” E eu, espantadíssima com as observações dele, rebatia: “ué,
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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mas o que o senhor esperava”? Mais tarde compreendi que ele não
estava acostumado a lidar com mulheres que pensam!”
Deborah Almada (sócia-proprietária de uma agência de notícias) sempre teve uma estranha impressão de que os colegas
jornalistas homens impunham mais respeito: “Eles chegavam nas
entrevistas coletivas sempre muito sérios, cheios de pompa, vestidos de terno e gravata, lascando sempre as melhores perguntas
e naturalmente arrancando dos entrevistados as melhores respostas”. Durante dez anos – de 1986 a 1996 –, Deborah atuou na
editoria de política e tinha esperanças de um dia aprender a “fórmula mágica” de comparecer às coletivas já muito bem informada.
“Logo percebi que no mundo da política as entrevistas coletivas
não deveriam provocar espanto nos jornalistas mais experientes.
Reverenciados pelos políticos, os jornalistas apenas emprestavam
seu prestígio a eventos desta natureza. Até porque já tinham sido
informados em primeira mão dos acontecimentos num café da
manhã no dia anterior”.
Ao avaliar sua atuação no jornalismo político, Deborah constata que os espaços de maior prestígio continuam sendo preenchidos por colegas do sexo masculino: “Não quero diminuir a presença feminina no jornalismo político. Longe de mim... logo eu,
que só fiz isso boa parte da vida. Mas vou morrer achando que a
gravata é quase que uma senha de acesso ao mundinho da política.
As exceções confirmam a regra”.
Detalhes que fazem a diferença chamaram a atenção da
Doroti Port, 30 anos de profissão, grande parte deles vividos
nas redações dos jornais. Em 1975, ano em que chegou de Porto Alegre para trabalhar na redação de “O Estado”, ficou surpresa: não havia banheiro feminino e às vezes nem papel higiênico. As laudas (que com a internet não mais existem) tinham
então dupla utilidade. “A redação, aos olhos de uma mulher,
parecia um tanto bagunçada, cheia de papéis jogados no chão”.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
136
Outra constatação: “os chefes de reportagem, redação e editores, eram todos homens”.
O que hoje chamam assédio, antes eram as “cantadas”. Doroti lembra que alguns “figurões” tentavam aproximações mais
pessoais. Assédios que logo eram contornados: “Mostrávamos que
éramos profissionais sérias”.
Atuar no jornalismo esportivo também exigia das profissionais duplo esforço: mostrar competência e superar preconceitos.
Claudia Sanz, desde 1987, é repórter especializada em cobrir esportes. “Quando eu dizia que trabalhava na editoria de esportes,
as pessoas invariavelmente perguntavam: ‘mas você entra no vestiário para entrevistar os jogadores?’”
Claudia trabalhou pouco na cobertura de futebol, prefere o
esporte amador. Mas lembra que dificilmente era escolhida para
trabalhar fora de Florianópolis porque “os jornais, acostumados a
mandar equipes com motorista, fotógrafo e repórter, colocavam
todos no mesmo quarto no hotel e, se eu viajasse, a empresa teria
um custo adicional, pois teria que reservar dois quartos”.
Não foi fácil para Claudia se impor profissionalmente. Era
recebida “com certa resistência, sem contar que num mundo masculino, como o esporte, as cantadas, as gracinhas e o assédio sempre existiram. Eu sempre tirei de letra tudo isso, mas tive que me
esforçar mais do que muitos homens para conquistar meu espaço.
Aquela coisa de matar um leão por dia”.
A seriedade e a competência profissional foram reconhecidas: em 1995, Claudia Sanz ganhou a Bola de Ouro – prêmio entregue aos cronistas esportivos de todo o país. Com a honraria,
quebrou um tabu: até então os agraciados eram radialistas e homens. Claudia, entre as mulheres, é a que está mais tempo em
atividade no jornalismo esportivo de Santa Catarina (18 anos).
Fora das redações, as mulheres jornalistas também têm histórias para contar. Suzete Antunes trabalhou no “Diário Catarinen-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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se” no final da década de 80. Reconhece que na redação o convívio
entre os colegas foi sempre harmonioso. O que considera ser “o
maior exemplo de sexismo estúpido” aconteceu quando passou a
atuar como assessora de imprensa. Viu uma colega ser preterida a
assumir um posto de chefia por ser mulher. Argumento do chefe:
“e se eu for jantar com um jornalista homem, como posso ir acompanhado por uma assessora, uma mulher?”
Entre as jornalistas que trabalham nas emissoras de televisão, além da eterna preocupação com a aparência (exigência também para os profissionais do sexo masculino), há percalços a serem superados. Ligia Gastaldi - há mais de vinte anos trabalhando
na RBS/TV – percebe que há jornalistas que fazem do visual um
marketing pessoal: “Conheço casos de mulheres que vestem roupas mais ousadas para conquistar certas vantagens no trabalho,
mas eu sou contra isso e nunca usei de tal artimanha. Pelo contrário, tomo muito cuidado com meu visual. Nunca vou trabalhar de
saia curta, ou com decote acentuado. A profissional, para ser respeitada, tem que assumir uma postura séria. O que me livrou de
algumas cantadas indesejáveis”.
A seriedade profissional não a impediu, no entanto, de ser
agredida. Foi durante uma reportagem sobre a Farra do Boi, em
Florianópolis. Os farristas, irritados com a presença dos repórteres, passaram a agredi-la verbalmente, chamando-a de “mulherzinha” e “vagabunda”. “Naquele momento tenso, ficou nítido que se
fosse um repórter a reação não seria tão violenta”.
Histórias sobre a atuação das mulheres na imprensa de Santa Catarina são muitas. Se, com a ajuda da máquina do tempo, fôssemos entrevistar Maura de Senna Madureira, ela certamente teria
muito que contar. Maura foi a pioneira. Seu primeiro texto foi em
resposta a um desafio: José Acrísio, através do jornal “O Elegante”,
desafiou publicamente as mulheres a escreverem na imprensa de
Florianópolis. Maura não só aceitou o desafio como, a partir do
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
138
seu primeiro texto, não mais deixou de escrever. No começo,
usava um pseudônimo – Alba Lygia – logo esquecido. Foi a primeira autora de um artigo feminista publicado em Santa Catarina (1923). Dois anos após a publicação do seu primeiro texto,
escreveu:
“Nesses últimos tempos, com especialidade, muito se há
pregado uma profissão para a mulher. Que ella se não dedique
exclusivamente à aprendizagem de encargos domésticos e prendas especialmente feminis. E o que mais: que não viva unicamente
a cuidar de si, para apparecer bem, bem mascarada, à força de
rouge, carmin e crayon, vivendo a vida material das futilidades e do
coquettismo, das mentiras de salão, cuidando das modas e de flirt,
em busca do marido rico, de invejável posição social, a quem levianamente entregará o coração e a vida, sem a menor reflexão,
quase sempre sem amor, e que lhe assegurará a mesma existência
cômmoda e chic.(...)”
O aumento do número de mulheres jornalistas nas redações
em Santa Catarina está relacionado diretamente ao aumento dos
cursos de comunicação. Nas últimas décadas, à medida que as universidades – públicas e particulares – formavam jornalistas, as
mulheres passaram a buscar empregos nas empresas de comunicação. Basta ver os números para constatar que a presença das
mulheres jornalistas nas diversas mídias passou a predominar.
O curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa
Catarina iniciou em 1979 e a primeira turma, formada em 1982,
era composta de nove homens e nove mulheres. Dez anos depois,
em 1992, de um total de 20 formandos, 15 eram mulheres e cinco homens. Em 2003, formaram-se 19 mulheres e 14 homens.
Nas universidades particularidades, o percentual de mulheres jornalistas também é superior ao dos homens. No curso de Comunicação Social da Univali, no primeiro semestre de 1995, formaramse sete mulheres e três homens; em 2000, eram 27 mulheres e
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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sete homens; em 2004, 24 mulheres e oito homens. No vestibular de 2005, entre 40 aprovados, 28 são mulheres. Na Unisul, em
Palhoça, em 2005 ingressaram no curso de jornalismo 24 mulheres e seis homens no período diurno e 18 mulheres e oito homens, no noturno. No curso de Comunicação Social da UNOESC,
em São Miguel do Oeste, de um total de 50 aprovados em 2005,
36 são mulheres. Na Unochapecó, 31 mulheres ingressaram no
curso em 2005 e apenas 14 homens.
A maioria dos que concluem os cursos de jornalismo não
exercerá a profissão – ou por falta de emprego ou por terem optado por outras profissões. A presença das jornalistas nas redações representa um expressivo percentual. No entanto, a presença das mulheres nas redações não tem correspondido ao acesso
aos postos de relevância. A visibilidade cada vez maior das mulheres nas diversas mídias não corresponde ao aumento de poder. A
jornalista Ana Cláudia Menezes observa que “há uma dificuldade
das mulheres em chegarem a postos de chefia em Santa Catarina.
Elas realizam um trabalho competente em suas editorias, mas, com
raras exceções, atingem o cargo de editoras. É necessário refletir
sobre esta tendência”.
Sendo nossa profissão uma atividade intelectual, nossas tarefas e rotinas estão relacionadas com o escrever, com o pensar,
com o observar. Conciliar a vida doméstica com a profissão sempre foi um grande desafio para as mulheres. Para as que escolheram jornalismo como profissão, o desafio é administrar a vida pessoal com a imprevisibilidade da função. Devido a uma pauta inesperada, a repórter Imara Stallbaum foi fazer uma matéria no dia do
aniversário de uma das filhas. Correu atrás da fonte, escreveu e
finalmente foi para casa. A filha aniversariante já estava dormindo
abraçada à irmã mais velha.
Histórias que aqui são contadas evidenciam que o longo caminho percorrido pelas mulheres jornalistas em Santa Catarina têm
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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sido de conquista, de quebra de tabus, de preconceito, e até de
enfrentamento. Convém sublinhar que as barreiras a vencer são
heranças culturais. Há quem diga que se hoje há um grande número de mulheres nas redações é porque os salários pagos aos jornalistas são baixos. Talvez no dia em que não mais dedicarmos espaços para registrar a presença da mulher na imprensa, estaremos
atingindo o ideal no mercado de trabalho – ou seja, oportunidade
igual para todos com salários dignos.
E não mais ouviremos a pergunta: “E sua mãe sabe que você
vai viajar sozinha!?”
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Televisão, jornalismo e negócios
Áureo Moraes
“... uma rede de televisão, por exemplo, além
de ser um alto negócio, em termos de aplicação de capital, pode ser importante para divulgar informações e idéias que interessem às classes dominantes. Informações e idéias congruentes com os interesses econômicos, políticos,
educacionais, religiosos, militares e outros do
bloco do poder. Dizem respeito à ordem, paz
social, estabilidade política, segurança, integração, identidade nacional ou progresso, crescimento, produtividade, desenvolvimento, modernização”.
- Octávio Ianni1
Talvez uma das provas mais contundentes da importância do
negócio chamado televisão possa ser ilustrada por uma experiência pessoal, vivida há poucos anos, quando tivemos a oportunidade
de permanecer uma semana em Rio Branco, ministrando cursos
de atualização para jornalistas. Em termos comparativos, o estado
do Acre tem algo em torno de 10% da população de Santa Catarina (5,3 milhões de habitantes contra 560 mil), pouco mais de 7,5%
do número de municípios (293 contra 22) e, por outro lado, Santa
Catarina ocupa uma área relativa a 60% do território do Acre.
1 In FILHO, Laurindo Leal. “Atrás das câmeras. Relações entre cultura, estado e
televisão”. Summus. 1988
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
143
Longe de qualquer interpretação pejorativa, o que chamou a
atenção foi que, em termos de veículos de comunicação, ambos,
catarinenses e acreanos, têm uma realidade muito semelhante: só
para ficar no caso das emissoras de televisão, as duas capitais têm
o mesmo número de empresas, cinco. Logo, não se trata aqui de
requerer uma redução lá ou uma ampliação cá, mas de constatar
que, ainda que a realidade sócio-econômica seja incomparável, a
atuação dos agentes políticos e das forças do capital transformam
o quadro das comunicações num universo em que, longe de atender às demandas de uma população, o que está em jogo são interesses de grupos. E é só.
Nesta perspectiva, falar da televisão como negócio deve, ao
nosso ver, partir desta condição consolidada, a de que o veículo ao
longo dos últimos 50 anos sempre se pautou por esta relação intensa com o poder, seja o do Estado, seja o do capital. Aliás, o
modelo de concessão e autorização do funcionamento é, sabidamente, baseado nestas relações. E em Santa Catarina não haveria
como ser diferente.
O contexto da televisão no estado pode ser situado em três
dimensões: a histórica, a empresarial e a profissional. Em momentos distintos, cada uma delas cumpre a função de explicitar em que
medida é peculiar o papel da TV no cotidiano dos catarinenses.
Em relação à primeira das dimensões, situaremos as pioneiras, mais precisamente as TVs Coligadas e Cultura e, mais adiante,
a TV Catarinense. Cada uma a seu tempo foi formada a partir da
realidade política nacional e estadual, tendo como referenciais as
relações estreitas entre seus proprietários e os governantes da
época. Em regra, a constituição de tais empresas reunia os componentes familiar e político. Ou seus administradores eram proprietários de outros negócios aos quais foi incorporada a emissora
ou seus membros estavam ligados a grupos políticos. Ou até ambas as situações ocorriam simultaneamente. Era um período em
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
144
que, por razões inclusive tecnológicas, fazer TV era missão das
mais difíceis. Equipamentos caros, formação profissional restrita,
uma experiência adequada a espíritos empreendedores. Com uma
forte ascendência do rádio, sobre cuja linguagem foram acrescentadas as imagens, ainda captadas em câmeras de película.
Esta dimensão, a histórica, tem seu reconhecimento no que
se refere ao caráter de pioneirismo em si mesmo, restando pouco
que se possa avaliar desde o ponto de vista da gestão do negócio.
O próprio mercado de anunciantes era emergente e, de certo
modo, descrente dos resultados que o veículo então em surgimento poderia oferecer. Funcionava ainda o sistema de programação jornalística vinculada ao nome do anunciante, modelo fartamente adotado pelo rádio de então. Exemplo disso era o Jornal
Malhas Hering, exibido pela TV Coligadas logo no início de suas
transmissões e relatado no trabalho de Joni César Tomazoni2.
Falemos agora da segunda dimensão, a empresarial. Ainda
que na sua origem muitas das emissoras tenham surgido a partir da
associação de empreendedores, com alguma experiência em rádio, a partir dos anos de 1960/1970, multiplicaram-se as concessões. Vivia-se então uma era de transformações tecnológicas, o
meio TV já não despertava tanta desconfiança nem era mais alvo de
grande descrença. Muito antes pelo contrário: iniciava-se o processo de consolidação de sua ação junto ao grande público, assumindo o lugar de protagonista que antes cabia às emissões radiofônicas. Neste contexto – histórico e político –, o regime de concessões e autorizações de operação passou a ser gerido pelo componente político, vale dizer partidário.
Assim, receber a concessão implicava em fazer concessões.
Invariavelmente ligadas a famílias, as emissoras funcionavam a partir da lógica oligárquica. O capital montava a empresa, o poder
2 A História da TV Coligadas de Blumenau – Joni César Tomazoni – disponível no
site do LAMCE (http://www.cehcom.univali.br/lamce/impressao/livro21.pdf)
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
145
político sustentava a conquista da autorização e, ambos garantiam
a manutenção da relação por meio da atuação política nas esferas
do estado. Deputados, senadores, prefeitos, empresários, profundamente ligados entre si, detinham o uso e o abuso da televisão.
Deste período é importante destacar situações emblemáticas, como as “listas negras” que freqüentavam redações. Aos inimigos, o anonimato. Aos amigos, a fartura da presença no vídeo.
De outra parte, a programação jornalística refletia igualmente a
circunstância em torno das relações entre estado e televisão. A
pauta dos noticiários revelava-se absolutamente oficial. Inaugurações, entrevistas coletivas e solenidades ganhavam destaque.
No âmbito da atuação profissional, era ainda incipiente a ação
política dos profissionais. Muitos mantinham duplo vínculo. Atuavam como repórteres, apresentadores, redatores e, em outros
turnos, como assessores. Pronto! Estavam criadas as condições
para a promiscuidade ou, na melhor hipótese, para a omissão.
Consciência profissional, atuação coletiva, isenção, eram palavras
um tanto distantes do exercício profissional. No caso de Santa
Catarina, a implantação de uma faculdade de jornalismo daria início
ao processo que, de modo geral acabou por tomar conta do mercado da televisão a partir dos anos de 1980.
Aqui, entraremos no que chamamos da terceira dimensão
do contexto da TV no estado. Em finais da década de 1970, a
totalidade dos profissionais atuantes em Santa Catarina, com formação universitária, ou vinham de outros estados ou eram graduados em áreas como o Direito. A criação do curso de Jornalismo
na Universidade Federal de Santa Catarina, em 1979, abriu novas e
diferentes perspectivas no cenário da TV. Óbvio que a criação pura
e simples de uma faculdade não foi a única responsável pelas mudanças que o mercado de TV passou a experimentar. Lembremonos de que o país ebulia neste período. Mas o ambiente e seus
vetores, combinados, levaram às transformações.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Pioneiro no estado, o Jornalismo da UFSC já nasceu rebelde.
Sua vocação para a formação crítica, pedagogicamente inovador,
estabeleceu outras bases para a atuação dos profissionais que passou a formar. Ainda que se credite uma boa dose de idealismo e
outro tanto de carências estruturais à primeira fase de implantação
do Curso, ele tinha no seu seio, a intenção de, rigorosa e literalmente, formar jornalistas.
Os estudantes daquelas primeiras turmas possuíam o perfil
de outros tantos de diferentes áreas do conhecimento na época:
contestadores, críticos, socialmente preocupados e politicamente
engajados. Conforme o histórico do curso no sítio
www.jornalismo.ufsc.br: “Os primeiros anos foram de intensa participação na vida política do Estado. Mas, se a formação política
estava em alta, quando se formou a primeira turma, em 1982,
constataram-se deficiências nas áreas técnica e científica. O Jornalismo funcionava com espaço físico reduzido, ocupando salas do
prédio da Imprensa Universitária, tinha poucos equipamentos e
quase nenhuma estrutura laboratorial. Em 1984 constatou-se a inviabilidade de um projeto estritamente político e muitos professores deixaram a universidade. O curso que se tornara conhecido
nacionalmente como inovador, viveu um período de desânimo.”
A realidade que se tinha, até então, fazia dos profissionais ali
formados jornalistas com conhecimento amplo do sentido da profissão. Mas sua inserção no mercado de trabalho e, portanto, sua
condição de protagonista no processo de mudança do negócio
chamado TV ainda era tímida. Forma-se como um combatente do
estado de coisas, mas acaba por se render ao inimigo. Deste período houve frutos no mercado local de televisão. Experiências inovadoras de programas e processos, trazendo, por exemplo, as
chamadas pautas comunitárias, aproximando a população da TV, e
seguindo a agenda da nação, democratizando em alguma medida o
acesso à informação.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
147
Outro resultado dos primeiros anos da faculdade de Jornalismo da UFSC foi, sem dúvida, um dos mais relevantes. A partir
de discussões e debates nascidos entre os alunos e professores se
articulou, em meados dos anos de 1980, o MOS – Movimento de
Oposição Sindical. Um movimento criado naquele ambiente de
teimosa democracia. Na fase derradeira dos anos de chumbo, criaram-se ali as condições para superar o oficialismo sindical que se
mantinha pelos favores do estado. Vencidas as eleições para o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina, os profissionais passaram a agir com outros princípios, com outras condutas.
E o reflexo se deu no dia-a-dia do negócio chamado TV.
Foi a partir da atuação da recém-eleita diretoria do SJSC que
se passou a ter exigências hoje absolutamente banais. O registro
profissional, o devido enquadramento de funções restritas aos jornalistas, a jornada de trabalho, a remuneração devida entre outras
conquistas. No conteúdo apresentado, também houve mudanças.
Algumas delas determinadas pelo fluxo do mercado; outras pelo
tipo de formação que passou a existir. A geração que atuava era
mais atenta às questões sociais, posicionada criticamente perante
os aspectos legais do exercício profissional e engajada nas transformações políticas em curso.
Neste período, mais precisamente nos anos de 1988 a 1990,
o Sindicato dos Jornalistas processa a inclusão de um grupo de profissionais de televisão até então excluídos do reconhecimento legal.
Trata-se dos repórteres cinematográficos que, àquela época, eram
tratados nas emissoras como radialistas. Somente por meio da consolidação de um projeto de ação sindical baseado nos marcos legais
existentes foi possível integrar ao Sindicato estes jornalistas. O reflexo no dia-a-dia dos repórteres da imagem foi altamente positivo:
jornada de trabalho e salários adequados e, sobretudo, a conquista
de uma dignidade profissional, em que a pura e simples eqüidade de
tratamento tornou-os jornalistas, legitimados a utilizar tal expressão.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
148
Seguiu-se ao Curso da UFSC, a implantação de outras escolas de Jornalismo no estado. Se por um lado o fato gerou discussões do tipo “haverá mercado para todos”, de outro é inegável
admitir que, no âmbito das emissoras de televisão houve um expressivo aumento de profissionais com conhecimento da realidade regional. Mais escolas, mais formandos, mais oportunidade de
consolidação de um olhar local sobra a realidade local.
Ainda que se julgue que a nova realidade profissional tenha
boa parcela de participação na transformação do meio TV naqueles tempos, há que se validar outras variáveis com tanta ou maior
relevância. Nos anos de 1970 e 1980, a grande crítica aos meios
de comunicação eletrônica era quanto à concentração de sua propriedade em poucas mãos. Dizia-se em corredores e salas de aula,
que democratizar era distribuir as emissoras entre a sociedade.
Como elemento de um discurso ideológico, a bandeira utilizada
levava à convicção de que somente pela redistribuição do modelo
concentrado se obteria a efetiva democratização da comunicação.
Viu-se, mais adiante, que deter a concessão não seria de fato a melhor
maneira de se chegar ao acesso universal. A saída, provocada pelas
mudanças tecnológicas, estava em se deter o modo de produção.
Neste sentido, o negócio TV passou a sofrer com a crescente variedade de espaços de difusão de informações. No início da
última década do século XX, a produção independente ganha força, em um país cuja ordem política já não dependia dos generais.
Novas abordagens, novos olhares, diferentes perspectivas de mundo ampliam as opções do espectador. As TVs por assinatura elevam o número de pessoas com acesso a outros canais. Mesmo que
se leve em conta o fracasso parcial do modelo de TV a cabo –
decorrência da superestimação do mercado –, sua implantação levou à conclusão de que mais do que ser dono é possível ser produtor.
A título de conclusão, ressalvado que o tema estará sempre
inconcluso, destacamos algumas considerações do professor Hé-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
149
lio Schuch, do Departamento de Jornalismo da UFSC em artigo
publicado em 1998: “O mercado brasileiro de jornalismo movimenta-se no sentido de forte competição. Não apenas no caso de
veículos impressos como também nos eletrônicos, a concorrência
torna-se um componente decisivo na gestão das empresas que
têm o jornalismo como negócio. Nesta competição os veículos
estabelecem as mais diversas estratégias de ação. Pode-se dizer
que a atividade jornalística sob enfoque de mercado não é um assunto devidamente analisado e discutido nas escolas. É uma falha
que deve ser corrigida, já que o ambiente de concorrência que se
estabelece no jornalismo deve ser melhor compreendido”.(...) A
concorrência entre veículos jornalísticos não é, em si, um fato novo,
mas o que atrai atenção é o acirramento desta competição em
anos recentes. Isso pode ser constatado pelos seguintes indicadores: 1) surgimento de novos canais de televisão por assinatura, 2)
aumento da oferta de novas revistas semanais, quinzenais e mensais, 3) aumento da oferta de novos jornais, 4) especialização da
programação jornalística de emissoras de rádio e de televisão por
assinatura, e também de jornais e revistas, 5) oferta de novos serviços de informação, impressa ou via internet, por empresas jornalísticas, 6) intensificação da cobertura regional por veículos nacionais, 7) intensificação da cobertura local por veículos regionais.
Tudo isso amplia as possibilidades de escolha da audiência, seja de
meios impressos, seja de meios eletrônicos.”3
Diante das três dimensões aqui propostas – a histórica, a
empresarial e a profissional –, imaginamos ser possível prever que
elas persistirão daqui para o futuro. A TV Digital bate às portas
como fato iminente. E determinante: no sentido de quem serão
seus pioneiros; como se darão as relações de poder entre os agra-
3 Jornalismo e Mercado: análise da competição entre veículos jornalísticos. Hélio
Ademar Schuch. XXI Congresso da Intercom. 1998
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
150
ciados com a concessão dos canais digitais e os sem-concessão;
que profissionais as escolas irão formar e que foco eles terão diante da nova tecnologia.
Perguntas que outros cinqüenta anos nos ajudarão a responder.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
151
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
152
Jornalismo e Política
Moacir Pereira
Apontada pelos círculos acadêmicos como um dos clássicos
da literatura universal, a coleção “Comédia Humana”, do talentoso
escritor francês Honoré de Balzac, tem um volume com lições
extraordinárias sobre a prática do jornalismo. Publicado em 1843,
“Ilusões Perdidas” é um desses livros a merecer leitura obrigatória
dos estudantes de todos os cursos de Comunicação do Brasil, seja
pelo conteúdo literário, seja pela atualidade de suas apreciações.
Ali estão denunciadas as várias faces do jornalismo, do exercido de
forma engajada ao praticado pela permuta do vil metal, passando
pela mais ostensiva manipulação política.
Qualquer abordagem que se faça sobre o jornalismo e a política exercidos em Santa Catarina nestes 174 anos de existência da
imprensa não poderá prescindir dos escritos do professor Oswaldo Rodrigues Cabral, um dos nossos mais festejados historiadores. Foi dos últimos pesquisadores o que mais se dedicou à leitura
dos jornais e o que mais buscou documentos nos arquivos públicos e particulares para confirmar versões e fatos.
Tendo com o saudoso médico uma fraterna convivência, fruto de seu pioneiro trabalho na instalação do Museu de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina, consegui alguns depoimentos em conversas informais e entrevistas gravadas sobre
temas polêmicos da história catarinense. Indagado certa vez sobre a inexistência de um livro de sua autoria sobre a imprensa catarinense, foi definitivo, ao afirmar que a história da imprensa não
pode ser desvinculada da história da política e dos partidos.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
153
Proclamou em 1975: “A imprensa de Santa Catarina nunca
se desvinculou da política. A política sempre foi o nosso esporte,
de maneira que os jornais sempre viveram em função da política e
dos partidos”.
Jerônimo Coelho, quando lançou o primeiro número de “O
Catharinense”, revelou este engajamento político ao declarar guerra aberta ao centralismo governamental, atirando pesado contra o
Império. Ao longo do período monárquico, os jornais tinham duas
tendências claras, subordinadas às principais correntes de pensamento: liberal e conservador. Seguiu-se na República velha idêntica conotação, já mais acentuada com a marca do partidarismo. Os
jornais assumiam até no frontispício a condição de órgãos de atuação partidária.
Veio a ditadura getulista e com ela a censura do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) aos órgãos de imprensa. Restabelecida a democracia, os principais jornais estabeleceram-se em
Florianópolis. Instalaram-se as principais emissoras de rádio. E,
na maioria delas, a atuação partidária.
Os exemplos clássicos expressam de forma contundente este
cenário predominante em inúmeros municípios. A Rádio Guarujá,
do líder pessedista Aderbal Ramos da Silva, defendia os interesses
do PSD; a Rádio Diário da Manhã, do líder udenista Irineu Bornhausen, era a voz ativa da UDN. Enquanto o PSD defendia os
governos pessedistas pelo jornal “O Estado”, a UDN fazia o mesmo no jornal “Diário da Manhã”, ou pelas páginas de “A Gazeta”.
Sobre estes três diários há singulares registros históricos.
Dois excepcionais jornalistas atuavam em trincheiras opostas: Rubens de Arruda Ramos defendia o PSD e atacava a UDN na famosa
coluna “Frechando”, em “O Estado”, valendo-se do pseudônimo
Guilherme Tell, o arqueiro da justiça, com uma bela ilustração em
bico de pena; e seu irmão, Jaime de Arruda Ramos, disparava contra o PSD e usava todos os escudos para promover a UDN em sua
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
154
prestigiada coluna “Tim Tim”, usando o pseudônimo “Tim Tim”,
em “A Gazeta” ou no “Diário da Manhã”.
Versão que corre há decênios nos meios jornalísticos revela
que Rubens e Jaime tinham um pacto. Os gladiadores podiam tudo,
menos xingar a mãe. O acordo, garantem os filhos da notável dupla, era mais folclórico do que real. O fato é que Rubens e Jaime
não faziam concessões partidárias, mas esgrimavam com categoria e elegância. A irmandade exigia de ambos fina ironia, estilo literário e alto nível em todas as batalhas. A disputa sequer arranhou a
fraterna amizade que cultivaram durante toda a vida. Acometido
pela doença que o vitimou, Rubens teve que viajar ao Rio de Janeiro. E
seguiu acompanhado do irmão Jaime, o temível adversário na mídia.
O matutino “A Gazeta” teve forte presença em Florianópolis
durante anos. Fundado por Jairo Callado, teve o comando de Martinho Callado Júnior. Na fase final, ostentava “Um jornal sem ligações partidárias”. Como dependia quase sempre das verbas governamentais, era alvo de tiradas irônicas dos concorrentes, que
acrescentavam “...com as oposições.” Situação que, segundo os
críticos de plantão, marca atuação de vários veículos neste início
do século XXI em diferentes municípios do Estado. Os governos
mudam, mas eles permanecem sempre na mesma posição.
A chegada de novos jornais, o advento da televisão, o fim do
pluripartidarismo e as novas tecnologias em todos os veículos
mudou o perfil da imprensa catarinense, que foi abandonando gradativamente essa forte atuação partidária para assumir uma postura mais profissional e isenta. A instalação do curso de Jornalismo na
UFSC consolidou esta tendência.
Uma prática que marcou os períodos eleitorais em Santa
Catarina deixou de existir há anos: semanários, quinzenários e até
diários criados por candidatos, partidos e empresas com objetivo
específico de fazer o marketing de seus candidatos. E que desapareciam imediatamente após o término das eleições.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
155
A fase mais recente vai identificar os jornais na busca de uma
postura mais profissional na linha editorial e na cobertura política.
São visíveis os avanços técnicos na edição, na investigação e na
qualidade da impressão dos jornais de Florianópolis e de praticamente todos os diários das principais cidades de Santa Catarina.
Dois fenômenos, contudo, limitam o jornalismo político: a
cobertura das campanhas eleitorais e as múltiplas pressões sobre
os profissionais.
Ao demitirem seus comentaristas políticos, as redes de televisão e os jornais alegam sempre “contenção de despesas” ou
“mudanças editoriais”. Mas, nos bastidores, as informações se multiplicam sobre motivação política na origem da decisão.
Nas eleições, registra-se um paradoxo. Enquanto os cronistas esportivos realizam-se plenamente nos grandes eventos – campeonatos e olimpíadas –, transmitindo toda a emoção vivida na
cobertura, os jornalistas políticos sentem-se mais contingenciados.
Este fato acaba empobrecendo a análise política, uma vez que a
cobertura tradicional tem se limitado aos fatos e declarações oficiais.
O jornalismo constitui atividade profissional realizadora,
muitas vezes exercido como missão, pela possibilidade de prestação de serviço público, combate a toda forma de desonestidade,
defesa de princípios, proclamação de valores e direitos, enfim, a
propagação de mensagens que atuem na promoção humana. Mas
também, penosa e sacrificada, sobretudo no jornalismo político.
De um lado, pela exigência de plantão permanente nas 24 horas do
dia. O repórter político, o comentarista político é exigido em
todos os ambientes que freqüente, sejam eles econômicos, particulares e até sociais, eis que, antenado, registrará fatos e ouvirá
depoimentos que ampliam suas informações mais amplas de acontecimentos nos bastidores.
Sacrificada, porque muitas vezes incompreendida. O analista político não sobrevive sem boas fontes. E estas, sejam elas auto-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
156
ridades, parlamentares ou dirigentes partidários, em todos os níveis, se hoje são altamente qualificadas e freqüentam as colunas
com registros positivos, amanhã podem ser alvo de avaliações críticas ou até denúncias de ocorrências que as envolvem em práticas
condenáveis pela sociedade. Esta relação jornalista-fonte, no segmento político, é extremamente delicada, porque pode implicar
num envolvimento comprometedor pela proximidade ou num distanciamento limitador das informações.
As comemorações do cinqüentenário de fundação do Sindicato
dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina oferecem uma oportunidade singular para debates e reflexões em torno destas questões profissionais de real interesse coletivo e abordagem de temas sempre
relevantes e atuais, como ética e responsabilidade social, o nível de
investigação do jornalismo praticado no Estado, a falta de unidade da
classe e a representatividade restrita das entidades de classe.
O Sindicato dos Jornalistas, afinal, viveu períodos distintos
nestas cinco décadas. Começou forte e numeroso, oxigenado por
dois privilégios conferidos pela legislação: jornalistas tinham desconto de 50% nas passagens aéreas e gozavam de isenção do imposto de renda. Por isso mesmo, a nominata dos fundadores e,
sobretudo, dos primeiros associados vai encontrar número elevado de comerciantes, profissionais liberais e até intelectuais que não
praticavam o jornalismo e que buscavam o registro na época para
o desfrute dos benefícios legais.
Com a regulamentação profissional imposta pelo DecretoLei 972/69, iniciou-se um processo de depuração. Uma comissão
mista designada pelo Ministério do Trabalho fez uma profunda triagem, mantendo no Sindicato apenas os jornalistas registrados nos
termos da legislação. Era a primeira seleção destinada a transformar
a entidade na representação efetiva dos jornalistas catarinenses.
Antes e depois da regulamentação, o Sindicato viveu fases
distintas de sua trajetória. Uma delas deu prestígio estadual e pro-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
157
jeção nacional ao jornalismo catarinense, pelo engajamento determinado em todas as lutas contra a censura e pelo restabelecimento
da ordem jurídica no Brasil. Dela me recordo com saudade e
emoção, orgulho e sentimento do dever cumprido.
Eleito pelo voto direto dos companheiros de todo o estado,
tive o privilégio de presidir o Sindicato dos Jornalistas de 1975 a
1978. Alguns testemunhos insuspeitos dos presidentes e diretores dos Sindicatos de vários Estados, atestam a riqueza política e
intelectual desta época. Entre eles, cito com respeito o nome do
corajoso amigo e bravo companheiro Audálio Dantas (São Paulo),
Dídimo Paiva e Washington de Melo (Minas Gerais), João Borges
de Souza e Antônio Firmo de Oliveira Gonzáles (Rio Grande do
Sul), Mauricio Azedo (Rio de Janeiro), Armando Rolemberg (Brasília), Joesil de Barros (Pernambuco).
Derrotado na tentativa de reeleição, ofereci aos colegas um
relatório resumido de fim do mandato, que revela as intensas e
proveitosas atividades do período. Aprovado pela assembléia da
categoria, na cerimônia de transmissão do cargo, mostra uma transformação inédita, com uma atuação nacional sem precedentes e
uma produtividade estadual até hoje não suplantada.
Em primeiro lugar, o sindicato catarinense alinhou-se à histórica luta do Sindicato de São Paulo contra a censura imposta pelo
AI-5, subscrevendo todos os documentos nacionais da classe pelo
restabelecimento da liberdade de imprensa e da democracia, desde que o Brasil foi sacudido com a morte do jornalista Vladimir Herzog, num dos episódios mais dramáticos de nossa história recente.
Nos congressos nacionais e conferências, jamais titubeou em
avalizar apoio a moções e documentos que denunciavam atentados contra o exercício profissional e enfatizavam a volta da constitucionalidade.
Dentro do estado, várias frentes foram atacadas. O Sindicato instalou delegacias em quatro municípios, para viabilizar a regu-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
158
lamentação profissional, o que permitiu a ampliação de sua base de
oito para dezessete municípios. Editou o livro “Jornalista-Orientação Profissional”, uma cartilha sobre todo o processo de registro
e sindicalização.
Propôs na Delegacia Regional do Ministério do Trabalho o
primeiro acordo para fixação de piso salarial, conquista que já era
uma realidade no Rio Grande do Sul, São Paulo e outros estados.
As três principais empresas jornalísticas de Florianópolis assinaram acordo de piso de três salários mínimos para cinco horas de
jornada diária, além de outros benefícios. Foram assinados convênios com a Caixa de Assistência dos Advogados da OAB, com a
Ciclo e com a Medisan, para prestação de assistência odontológica
e médica.
Data desta fase uma constante atuação na Delegacia do Ministério do Trabalho para o efetivo cumprimento da legislação.
Várias entidades de classe e empresas privadas passaram a contratar profissionais registrados para edição de jornais e revistas.
A programação cultural não foi desprezada. O Sindicato trouxe a Florianópolis, até sob protestos de alguns colegas conservadores, o jornalista Fernando Morais, para o segundo lançamento
nacional de seu livro “A Ilha”, que depois tornou-se best-seller.
Audálio Dantas participou de noite de autógrafos de seu vitorioso
“O Circo do Desespero”. Um produtivo debate foi realizado
após a exibição do filme “Todos os homens do presidente”, baseado no livro denúncia dos jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, sobre o famoso caso Watergate, que levou o presidente Nixon à renúncia. Editado o livro “Hipólito da Costa”, do jornalista
Adolfo Zigelli. Homenageado o saudoso repórter Rodolfo Sullivan,
na edição de “O Estado”. Promoção dos prêmios Jerônimo Coelho de Reportagem, em cooperação com a Assembléia Legislativa,
e do Prêmio Imprensa. Eventos que, ressalte-se, tinham sempre
casa cheia, com a presença efetiva de companheiros de várias ten-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
159
dências ideológicas e partidárias. Eventos que, enfatize-se, tiveram a maior repercussão na comunidade e contaram sempre com
platéias expressivas.
Idealizadas e realizadas duas edições da Semana Catarinense
de Jornalismo, em Florianópolis, e uma edição do Encontro da
Imprensa Catarinense (Chapecó), que trouxeram a Santa Catarina
nomes destacados da imprensa nacional, como Cláudio Abramo
(“Folha de S. Paulo”), Hélio Fernandes (“Tribuna da Imprensa”),
Sérgio Jaguaribe, o Jaguar (“O Pasquim”), Fernando Morais (“Veja”),
Villas Boas Correa (“Jornal do Brasil”), Ricardo Kotscho (“O Estado de S. Paulo”), Sérgio Motta Melo (Rede Globo), José Marques
de Melo (USP), Antônio Firmo de Oliveira Gonzáles (PUC-RS),
Eurico Andrade (“Veja”); e o 1º. Seminário Internacional de Jornalismo, que contou com a presença dos jornalistas americanos Bruce Wandler (“The Washigton Post”) e Roberto Sullivan (“The New
York Times”).
Foram lançadas quatro edições do jornal “Encontro”, órgão
oficial do Sindicato, que teve a participação dos jornalistas Aluízio
de Amorim, César Valente, Flávio Sturtdze, Bento Silvério, Elaine
Borges, Imara Stailbaun, Laudelino José Sarda, Ivani Borges, Orestes Araújo, Jandyr Corte Real, Lourenço Cazarré, Sérgio Bonson,
Raimundo Caruso, Rivaldo Souza, Luiz Antônio Soares, José Carlos
Soares e Rosamaria Urbanetto.
O Sindicato ganhou tanto prestígio de congêneres do país
que obteve aprovação, por unanimidade, à proposta de realização
da 12ª Conferência Nacional dos Jornalistas, o que aconteceu em
Florianópolis em 1979.
Coroando estas realizações, ganhou destaque por último a
articulação para criação do curso de Jornalismo na Universidade
Federal de Santa Catarina. Depois de aprovar moções em todos
os eventos promovidos pelo Sindicato, em Santa Catarina, e nos
congressos e conferências nacionais, a Diretoria iniciou entendi-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
160
mentos com o reitor Caspar Erich Stemmer, que se comprometeu em acolher as reivindicações e viabilizou a instalação do curso
através de vários atos assinados em 1978. Na 1ª Semana Catarinense de Jornalismo, marco do ciclo de eventos profissionais, políticos e culturais, com o auditório lotado, foram lembrados todos
os ex-presidentes. Ali, foi possível resgatar alguns dados dos dirigentes sindicais.
Primeiro presidente, Martinho Callado Júnior mesclava atividades profissionais com a militância no Partido Democrata Cristão, sigla que mais tarde o elevaria ao cargo de secretário da Educação do governo Celso Ramos. Tratou de dar à entidade a marca
sindical, consolidando a obra dos fundadores da Associação Catarinense de Imprensa, a semente plantada anos antes.
Marcou o mandato com a conquista da carta sindical, instrumento legal que permitiria o pleno funcionamento da organização
profissional.
Jairo Callado, diretor proprietário de “A Gazeta”, foi o segundo presidente, com uma característica singular. Durante muitos anos, transformou-se o único empregador a dirigir um sindicato de empregados no Brasil. Enfrentou um período de dificuldades, mas teve o mérito de manter a classe unida e prestigiada.
Homenageado com a denominação de “Príncipe”, pelo estilo elegante com que escrevia, Gustavo Neves assumiu a presidência em 1961. Sua presença no comando da entidade representou
dignidade e prestígio para o jornalismo.
Foi sucedido por seu secretário, o jornalista Adão Miranda,
figura humana de extraordinária comunicação, generoso com os
amigos e muito bem relacionado com os poderes constituídos.
Sua principal realização foi a aprovação do Estatuto do Sindicato,
fato que viabilizou sua reeleição por novo mandato.
O jornalista Alírio Bosle exerceu dois mandatos com uma
fixação: a união da categoria, a garantia de um sistema de assistên-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
161
cia social aos mais idosos e, sobretudo, a integração entre patrões
e empregados tendo como parâmetro a prestigiada Associação
Riograndense de Imprensa, e a atuação harmônica entre os Sindicatos dos Jornalistas e dos Radialistas.
Batalhou durante muito tempo até fundar a Casa do Jornalista, destinada a abrigar todos os profissionais da imprensa, dandolhe caráter mais social e cultural. Graças às excelentes relações
com o então governador Ivo Silveira, obteve a cessão por empréstimo de um casarão na rua Vidal Ramos, onde era constante e
numerosa freqüência dos jornalistas e radialistas.
Fato inédito na história do Sindicato aconteceu na sucessão
de Alirio Bossle. Foi eleita chapa única, montada de comum acordo com várias correntes, tendo como candidato a presidente o
jornalista Osmar Antônio Schlindwein, companheiro de excelentes
relações com a redação de “O Estado”, onde atuava há décadas,
aprovado pelos sócios de outros jornais. Credenciado na área patronal e com trânsito nas agências de propaganda, por suas funções exercidas no “mais antigo diário de Santa Catarina”, onde cumpria várias tarefas jornalísticas, comerciais e administrativas.
Osmar Schlindwein foi eleito pela totalidade dos associados,
mas não assumiu. Intimado na véspera da posse, compareceu na
sede da Delegacia Regional do Ministério do Trabalho, que coordenava por lei todo o processo eleitoral. O delegado, Ciro Belli
Muller, seu conterrâneo de Brusque, retardara a notícia na esperança de vê-la revogada. O 5º. Distrito Naval, na época com sede
em Florianópolis e maior unidade militar de Santa Catarina, que
controlava pelo Serviço Secreto as liberações de candidatos às eleições sindicais, havia cassado a posse do presidente Osmar Schlindwein e do suplente da diretoria, Moacir Pereira. Ação posterior
do jornalista Cyro Barreto naquela unidade da Marinha resultou no
cancelamento do veto à Moacir Pereira. Motivo alegado: o jornalista havia sido confundido com um homônimo, o advogado Moacyr
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
162
Pereira, ex-vereador do PTB, fichado no Distrito Naval por atuar
na concessão de benefícios aos pescadores. Schlindwein teve cassação definitiva e jamais exerceu a presidência do Sindicato.
Criado o impasse, os demais membros da Diretoria decidiram então eleger Antônio Kowalski Sobrinho, o vice, para o lugar
do jornalista impugnado.
Nova revisão dos registros profissionais, exigência do Decreto-Lei 972/69, foi um dos marcos da gestão de Kowalski, dedicado e competente redator que fez carreira desde menino na antiga redação de “O Estado”, na rua Conselheiro Mafra, quase sempre ao lado do inseparável amigo e vizinho, José Carlos Soares, o
Zico, que viria a ser mais tarde inquieto repórter policial e leal
assessor de Esperidião Amin em várias funções públicas e dois
mandatos de governador do Estado.
Ao assumir a presidência, prometi lutar pela eliminação da
censura prévia oficial, pelo cumprimento da regulamentação profissional, pelo piso salarial, pelo aprimoramento e unidade da classe, pelo congraçamento de todos os profissionais e pela criação de
um curso de Jornalismo.
Três anos depois, concluído o mandato, relatava que o AI-5
estava sendo guilhotinado definitivamente, o registro profissional
mantido como exigência legal, o piso salarial conquistado, o aperfeiçoamento promovido por incontáveis promoções de interesse
profissional e público, a categoria demonstrava mais prestígio e
união e estava oficialmente criado o Curso de Comunicação-habilitação em Jornalismo pela UFSC.
Tive o prazer de pronunciar discurso perante autoridades,
colegas e convidados, em que proclamava a certa altura: “Quando
a imprensa curva-se diante das benesses do poder, pende para o
partidarismo e vincula-se a interesses de grupos, a cidadania entrega-se aos azares do arbítrio. Quando, ao contrário, ela assume seu
verdadeiro papel reafirmando os direitos e garantias individuais,
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
163
disseminando princípios democráticos e espalhando valores humanos e cristãos, aí, sim, protege o cidadão e segura o Estado,
impondo juridicamente as regras do equilíbrio entre liberdade e
autoridade”.
Prosseguia a manifestação de despedida: “Como fruto dessas lições e enunciados, que pautaram as ações do Sindicato dos
Jornalistas nestes três anos, cremos haver chegado a um grau elogiável de conscientização profissional no jornalismo catarinense.
Estes postulados sopram como vento nas redações, onde são
marcantes hoje os anseios de democracia, os desejos de justiça
social, os apelos pelos direitos dos cidadãos, as mensagens eloqüentes pela melhoria das condições de vida de todos os brasileiros, os ideais de um entendimento amplo com a concessão da
anistia reparadora de punições injustas; enfim, o firme propósito
de ver os irmãos unidos e mais próximos, todos vivendo sem discriminações”.
O Brasil dá um magnífico exemplo ao mundo, tendo na presidência da República um retirante nordestino que forjou toda sua
formação na luta sindical. O exercício da presidência de um sindicato constitui, realmente, uma magnífica oportunidade de enriquecimento político, pessoal e profissional.
Ao concluir o mandato, dizia há 27 anos: “Gratificante, sob
todos os títulos, foi a experiência que termina. Diria que a nenhum
jornalista seria lícito negar o exercício de tão sacrificada, incompreendida, difícil, penosa, mas realizadora missão. Na realidade,
esta jornada sindical constitui-se na melhor escola de formação de
liderança, de política e de cidadania.”
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Jornalismo em cima do muro
Jacques Mick
Uma metáfora político-arquitetônica é evocada com freqüência para defender a autonomia dos jornalistas: é com um muro
imaginário entre o departamento comercial e a redação que a categoria separa os interesses distintos, quando não rivais, de cada
um desses setores, nas práticas orientadas pelo profissionalismo e
pela ética. O muro demarca territórios, segrega a gerência comercial e simboliza a hegemonia de um jornalismo que, orientado pelo
interesse público, não se vende.
A imagem (pobre de estilo, mas deontologicamente expressiva) tenta dar conta da complexidade da relação. Fendas, vãos,
túneis, escadas, providenciais espaços de conexão entre os territórios favorecem a confluência de interesses comuns ou o contrabando. A parede é mais espessa e alta em certas editorias ou veículos; noutros é delgada e porosa; noutros, ainda, é simplesmente
um falso obstáculo, um embaraço no meio de um caminho que, na
concepção dos transeuntes, deveria estar livre. Quando anunciantes interessados em aparecer bem na imprensa encontram empresas jornalísticas ou profissionais dispostos a agradá-los, o muro
se dissolve. Essa relação de confronto/confluência de interesses
cerca, particularmente, o jornalismo econômico.
Este capítulo analisa a profissionalização da cobertura econômica na história recente da imprensa catarinense, à sombra de
tais jogos de pressão. O texto é especulativo e ampara-se em resgate histórico, na revisão teórica de conceitos de jornalismo econômico, na observação crítica da cobertura do setor dos últimos
quinze anos e no diálogo com repórteres, editores, assessores de
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
165
imprensa e/ou empresários que contribuíram para que a área alcançasse o status que detinha em 20041.
A argumentação está desdobrada em duas partes. Na primeira, apresento uma interpretação da história recente do jornalismo econômico em Santa Catarina, de modo a delimitar mais precisamente o objeto que será analisado na seqüência. Na segunda,
proponho uma crítica em torno de temas que, derivados da revisão histórica, me parecem relevantes para compreender limites e
potencialidades do jornalismo econômico praticado no estado,
como o papel desempenhado pelas assessorias de imprensa e
as novas formas de envolvimento com a mídia adotadas pelo
empresariado.
A consolidação do jornalismo econômico
em Santa Catarina
O jornalismo econômico, como anotam Basile (2002) e Caldas (2003), cobre os acontecimentos de dois universos inter-relacionados: o mercado e a política econômica. A rotina da editoria
envolve ouvir vendedores e compradores, empresários (mais do
que trabalhadores), formuladores de políticas (mais do que suas
vítimas). A cobertura do setor se desenvolveu nos anos 1970, como
reação à censura: falar de economia era uma maneira disfarçada
de, também, falar de política. As adversidades da economia nacional nas décadas de 1980 e 1990 contribuíram para evidenciar a
1 A escolha dos entrevistados foi apenas parcialmente aleatória: procurei
personalidades ao mesmo tempo relevantes para a história recente do jornalismo
econômico e acessíveis no prazo de 60 dias (contando Natal e Ano Ano-Novo)
entre a encomenda e a entrega do capítulo. Foram entrevistados e/ou opinaram
sobre os originais Aluízio de Amorim, Cláudio Loetz, Daisi Vogel, Eli Diniz, Luiz
Felipe Guimarães Soares, Sérgio Murillo de Andrade, Silvio Melatti e Zuba
Coutinho, – aos quais agradeço. Sou grato também às críticas apresentadas pelos
professores Gastão Cassel, Rogério Christofoletti e Samuel Pantoja Lima. Nenhum
desses profissionais tem qualquer responsabilidade sobre os juízos de valor
emitidos neste artigo.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
166
relevância das pautas dessa área para os cidadãos2 e transformar
em celebridades jornalísticas os principais colunistas da área, como
Luiz Nassif, Joelmir Beting, Celso Ming, Aloysio Biondi, Miriam Leitão
e Carlos Alberto Sardenberg.
Em Santa Catarina, não é possível falar de jornalismo econômico antes dos 25 anos precedentes a 2004. Nesse um quarto de
século, o estado registrou intenso crescimento de sua economia.
Somente então, em conexão com esse fenômeno, a cobertura setorial surgiu e se consolidou, sob diversas identidades3. O desenvolvimento do estado teve relação com suas características geográficas e humanas (topografia acidentada, culturas de imigração);
a variedade e a complexidade desse arranjo produtivo constituem
um desafio permanente para a cobertura jornalística. Mas não é
apenas no aspecto temático que jornalismo e mercado se relacionam: o crescimento do estado se refletiu também nas mudanças
na estrutura de propriedade dos veículos de comunicação e, em
conseqüência, nas iniciativas político-empresariais na disputa por
leitores.
A história recente da imprensa catarinense tem como um
marco a audácia do "Jornal de Santa Catarina", criado por iniciativa
dos mesmos empresários que haviam inaugurado a TV Coligadas,
em 1969. Escrito por uma equipe imigrante de repórteres4, foi o
primeiro diário impresso em offset no estado, a partir de 1971.
2 Só mudanças de moedas, houve cinco no país entre 1986 e 1994, sem contar
indexadores (como a URV); a inflação chegoujá foi de a 84,32% no último mês
do governo José Sarney.
3 Há jornalismo econômico em emissoras de rádio e TV e em veículos na internet,
mas interpretar tais manifestações é objetivo inatingível nos limites deste texto,
que se concentra na mídia impressa.
4 “Impresso em Blumenau e com boa circulação nas principais regiões do Estado, o
Jornal de Santa Catarina inovou os meios editoriais e jornalísticos de Santa
Catarina, trazendo, inclusive, os primeiros profissionais de imprensa do Rio
Grande do Sul, que, desde a década de [19]70, foram ocupando em maior
número as redações de jornais e emissoras de rádio e TV” (TERNES, 2003, p. 85).
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
167
Seu principal concorrente, O Estado, de propriedade familiar, aprimorou o sistema de impressão dois anos depois, preservando seu
prestígio e a maior tiragem da época5. A Notícia trocou a linotipo
pelo offset em 19806.
Os investimentos para a modernização tecnológica das empresas jornalísticas incrementaram a articulação entre proprietários de imprensa, lideranças políticas e alguns dos maiores empresários do estado. Em "A Notícia", por exemplo, os US$ 5 milhões
aplicados na modernização do processo produtivo foram aportados por Dieter Schmidt, da Tupy; João Hansen Jr., da Tigre; Baltasar Buschle, da Buschle & Lepper; e também pelo acionista majoritário e ex-prefeito Helmut Fallgatter, ex-presidente da Drogaria
Catarinense. Ao lado do suporte dos grandes empresários, encontrava-se o apoio político de Antônio Carlos Konder Reis, Jorge
Konder Bornhausen, Osvaldo Colin (à época, presidente do Banco
do Brasil, indicado por Bornhausen; o BB financiou parte do empreendimento) (TERNES, 2003)7. No final dos anos 1970, o Santa
passou ao controle do empresário Mário Petrelli, associado a Jorge e Paulo Konder Bornhausen.
5 “É na década de 70 que o ‘mais antigo’ registrará fase áurea, em termos de
tiragem, circulação e prestígio em todo o Estado” (PEREIRA, c1992, p. 119).
6 Apolinário Ternes descreveu com superlativos o significado da inovação tecnológica
para o diário de Joinville: “De um dia para outro, a partir de 31 de janeiro de
1980, realizava-se a mais completa revolução numa empresa de comunicação do
país, e para marcar a data foi idealizado o mais arrojado projeto editorial da
imprensa catarinense de todos os tempos: uma edição histórica, com total de 264
páginas, em 33 cadernos e tiragem de 50 mil exemplares, cuja repercussão e
importância são lembradas ainda nos dias atuais, um quarto de século depois da
edição.” (TERNES, 2003, p. 88-89).
7 Uma década depois, o AN investiu US$ 6 milhões para informatizar a redação e
modernizar o parque gráfico, o que permitiu, a partir de setembro de 1995, a
impressão em cores (TERNES, 2003, p. 105-106). O jornal, aliás, é reconhecido
pela excelência gráfica: a elegância do projeto, combinada com o apuro na
rodagem, assegurou ao diário o troféu de maior prestígio no setor, o prêmio
Fernando Pini. Numa imprensa em geral carente de brilhantismo, este é um
mérito a ser destacado.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
168
O fim do ciclo de adoção do offset coincide com o surgimento dos primeiros repórteres especializados na cobertura econômica no estado, cultivando suas fontes nos palácios e noutros
ícones do poder quase dez anos antes da criação de editorias estruturadas para a área. A cartola "Economia" passa, desde o final
dos anos 1970, a acompanhar um noticiário predominantemente
produzido por agências, enfeitado pela reprodução das colunas
das estrelas nacionais do setor ("A Notícia" e Santa publicavam Celso
Ming, "O Estado" veiculava Joelmir Beting).
Em 1986, quando surge o "Diário Catarinense", o estado tinha 72 jornais locais e três diários de circulação regional (Santa, "O
Estado" e "A Notícia"), que, no ano do Plano Cruzado, já não podiam ignorar o impacto das decisões econômicas no cotidiano dos
cidadãos-leitores8. O DC nasce ambicioso e desde o início adota
uma editoria robusta para economia. Das 40 páginas, seis eram
regularmente dedicadas ao tema e, aos domingos, oito. "A Notícia"
vitaminou sua editoria de economia em 1992, para caprichar na
cobertura do mercado da região norte do estado, mas o segundo
Prêmio Esso Regional Sul recebido pelo veículo, em 1989, já havia
sido uma conquista da equipe, com a pauta "Fraude em seguro lesa
o BESC"9. AN e DC adotaram colunistas exclusivos de economia
no mesmo ano, 1999, com sete meses de distância um do outro.
As mudanças tecnológicas dos anos 1970 e o aumento da
concorrência nos anos 1980 deram início ao que Moacir Pereira
chamou de década da profissionalização (1992, p. 80), conceito
que simbolizaria o rompimento com a tradição de vínculo direto
entre os veículos e os grupos político-partidários que os criaram.
Por essa época, os jornais catarinenses adotaram o discurso de
que são pautados pelo interesse público, pelo direito à liberdade
8 Para os dados, Pereira (1992, p. 128).
9 O primeiro fora recebido no ano anterior, com uma série de matérias sobre
fraudes no Departamento Estadual de Estradas de Rodagem (DER).
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
169
de expressão e pelo compromisso com a pluralidade de pontos de
vista10. Os vínculos político-partidários permaneciam, mas a bandeira da profissionalização levou à adoção de novos processos produtivos, característicos de um jornalismo de fato orientado pelo
interesse público.
Na cobertura econômica, isso significou que mais jornalistas
profissionais passaram a acompanhar a área, substituindo ou acompanhando os economistas que iniciaram o métier11. Entre outros
avanços, isso trouxe aprimoramentos na linguagem e na qualidade
do trabalho de reportagem, além de maior estabilidade na cobertura, com repórteres familiarizados à temática, acompanhando-a
por longo tempo. A cobertura se diversificou, acrescentando às
pautas de política econômica e de vida empresarial o jornalismo de
serviço ao consumidor e ao empreendedor e o acompanhamento
de negócios. E a editoria de economia nos diários mais antigos
beneficiou-se das inovações adotadas pelos veículos na programação visual (incluindo a impressão em cores) para fazer frente à
concorrência do DC, que circulou com capa colorida e diagramação em módulos desde o primeiro número. Como resultado, de
tema periférico, a economia passou a ocupar lugar central na edição dos diários.
O aprimoramento da cobertura econômica dos diários locais foi apimentado pela concorrência com os principais jornais do
10 Tais valores são consolidados em manifestações de classe como a Declaração de
Chapultepec, de 1996, na qual os empresários da comunicação afirmaram que
“a credibilidade da imprensa está ligada ao compromisso com a verdade, à busca
de precisão, imparcialidade e eqüidade e à clara diferenciação entre as
mensagens jornalísticas e as comerciais. (...) Em uma sociedade livre, a opinião
pública premia ou castiga”. Karam (2004) critica o cinismo do discurso,
apontando circunstâncias em que a censura ou a argumentação silogística
restringem a pluralidade de opiniões e/ou violam o interesse público.
11 O DC foi o primeiro dos jornais catarinenses que, desde sua criação, pôde
empregar profissionais formados em Santa Catarina. A primeira turma do Curso
de Jornalismo da UFSC fora graduada em 1982.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
170
país, que entre meados de 1980 e 2000 tiveram sucursais em Florianópolis para cobrir os acontecimentos de Santa Catarina. A "Folha de S. Paulo", por exemplo, manteve o serviço de 1989 a 1996.
A "Gazeta Mercantil", além de uma equipe de correspondentes,
editava um caderno diário sobre a economia estadual. Produto mais
completo e denso do jornalismo econômico catarinense, o caderno foi extinto em 2001. O jornal "Indústria & Comércio" atuou no
mercado catarinense durante poucos anos. Ao que parece, não
havia leitores suficientes para tornar viáveis, em termos comerciais, diários predominantemente econômicos voltados ao mercado
local.
Também nos anos 1990, surgiram e conquistaram mercado
duas revistas especializadas no mundo empresarial, importante
segmento da cobertura econômica. Expressão e Empreendedor
mostraram que era possível realizar uma abordagem competente
do universo corporativo, prestando informação útil a empresários
e a novos empreendedores. Deram relevância, por exemplo, a
práticas de responsabilidade social, a inovações tecnológicas e a
iniciativas empresariais para preservar o meio ambiente. Eram projetos cujo conteúdo era orientado por uma identificação entre os
valores do veículo e os de seu público preferencial: nenhum leitor
esperaria das revistas uma cobertura ácida, com um jornalismo
investigativo capaz de perturbar proprietários de empresas ou
governantes. Focavam-se nas boas práticas de gestão. Nos limites
dessa opção, praticavam um jornalismo cuidadoso e, seguramente, mais aprofundado que os jornais diários.
Como saldo dessas transformações no mercado e no modo
de produzir o jornalismo, os empresários e outras fontes da área
econômica desenvolveram opiniões mais elaboradas sobre a cobertura. Mudara o jornalismo, mas também o empresariado. Uma
olhada para a lista das maiores empresas do estado em dois momentos da história recente (1973 e 2004, selecionados aleatoria-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
171
mente) mostra como se alteraram a composição e o perfil da elite
empresarial: somente uma empresa permaneceu na relação (Embraco/Consul); o predomínio da gestão familiar foi substituído pelo
das SAs; a indústria têxtil perdeu relevância; a agroindústria surgiu
e consolidou-se, assim como a presença do capital estrangeiro; a
exportação tornara-se variável-chave para o desempenho das
empresas (Quadro 1).
Ordem
1
2
3
4
5
6
7
8
1973
Empresa
Hansen
Tupy
Hering
Consul
Carlos Renaux
Teka
Battistela
Cremer
2004
PL (US$ mi)
35
27
15
13
9
9
8
7
Empresa
Tractebel
Sadia
Bunge
Embraco
Perdigão
Weg
Seara
Maesa
PL (US$ mi)
900
517
498
270
266
189
142
119
Fontes: Para 1973, FGV (apud, MICHELS, 1998, p. 221-222).
Para 2004, FGV (PL dolarizado pela cotação de 31/12/2003).
Pesquisa de Schuch (1996) mapeou a percepção do empresariado catarinense sobre a ação da imprensa, a partir de entrevistas com 19 representantes das maiores empresas do estado em
1995. Os empresários, como os atores da política, utilizam as informações da imprensa para traçar cenários e identificar os movimentos da concorrência. São, portanto, zelosos quanto a informações estratégicas (tanto quanto um governante gestando reformas
no primeiro escalão). Global players preferem dar entrevistas para
veículos nacionais, limitando os contatos com a imprensa local às
ocasiões convenientes para a estratégia de vinculação com a comunidade. Julgam que não precisam da imprensa local - mas que a
imprensa local precisa deles. Há fontes empresariais que esperam
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
172
docilidade da imprensa, mas agem com ela com o mesmo autoritarismo com que conduzem seus negócios. Repórteres incisivos
são ainda rejeitados, por serem "agressivos".
O levantamento de Schuch constatou o predomínio de impressões positivas entre o empresariado quanto à importância do
jornalismo econômico catarinense, mas colheu críticas duras aos
diários do estado. Os depoimentos destacaram a "melhoria das
editorias econômicas dos veículos tradicionais", já que, "pela posição econômica do estado, o jornalismo econômico de Santa Catarina tem uma importância considerável". Condenaram, no entanto,
a falta de precisão e correção e, às vezes, de especialização do
repórter. "O jornalismo econômico é um instrumento auxiliar de
administração empresarial. Há que se ter, no entanto, um cuidado
revisional, evitando que matérias publicadas contenham índices
(percentuais) e valores (monetários) distorcidos, sem os devidos
critérios de checagem e que não espelham a realidade" (SCHUCH, 1996)12. As fontes percebiam diferenças na qualificação dos
repórteres dos jornais nacionais, especializados ou não em economia, em relação aos da imprensa diária estadual ou regional. Nas
mídias de circulação nacional identificavam principalmente maior
correção na informação e critérios mais rigorosos quanto à checagem. Diferenciação semelhante efetuavam entre o pessoal das revistas especializadas e o dos diários.
A natureza da crítica indica que a relação da imprensa com
as fontes no mundo empresarial melhorou nos últimos 25 anos.
Os setoristas, em geral, estão mais bem informados sobre o que
cobrem e procuram estabelecer relações profissionais com CEOs,
diretores, gerentes, assessores. Quando isso não ocorre, são as
fontes que estão mais bem informadas sobre as fragilidades que
12 Lastimavelmente o autor não discute as implicações da subordinação do
jornalismo econômico à administração de empresas. De todo modo, a frase indica
o quanto podem ser reveladoras pesquisas sobre as representações do
empresariado em relação à mídia.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
173
cercam o exercício da profissão e agem com mais tolerância diante delas. Boa parte dos empresários aprecia coberturas positivas,
amenidades, visibilidade que estimula devaneios de poder político;
detesta o mau jornalismo ou, simplesmente, o jornalismo (investigação, comparação, crítica). Quanto a este último aspecto, até
2004, eles tinham poucas razões para alimentar rancores: a cobertura econômica era bastante dócil, por motivos que serão analisados na próxima seção.
Do confronto à convergência
Em 2004, o "Jornal de Santa Catarina", adquirido pelo grupo
RBS em 1º de setembro de 1992, mudou o formato para tablóide;
havia se tornado novamente um veículo de importância local. Outro ex-standard, "O Estado", assolado por imenso passivo e atolado em vaidosa incompetência administrativa, era simplesmente irrelevante. Quatro diários locais conservavam algum prestígio, apesar de suas tiragens inferiores a 10 mil exemplares: o "Correio
Lageano"; o "Jornal da Manhã", de Criciúma; o "Diário da Manhã",
de Chapecó; e o "Diário do Litoral" (Diarinho), de Itajaí. Eram apenas dois os diários que buscavam o mercado estadual, o DC e o
AN, ambos com tiragens pouco expressivas, considerando o tamanho da população catarinense: o Diário imprimia, em dias de
semana, 41 mil exemplares, contra 32 mil de "A Notícia"; o estado
de Santa Catarina tinha quase 6 milhões de habitantes.
Saldo da crise financeira que os atingira após o fim da paridade cambial entre real e dólar, em 1999, os veículos de circulação
nacional operavam com freelancers ou deslocavam para coberturas episódicas no estado repórteres e correspondentes do Paraná
ou do Rio Grande do Sul. Nascidas como concorrentes, as revistas especializadas em economia haviam encontrado nichos específicos de mercado; segmentadas, conquistaram viabilidade financei-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
174
ra e puderam dar continuidade às premissas que orientavam a qualidade de seu jornalismo13.
Em função dessas características dos competidores, ao final
de 2004, não existia concorrência efetiva entre os veículos de imprensa. Com tiragem e zonas de circulação cristalizadas havia vários anos, os diários dedicavam-se a controlar custos de produção,
para que coubessem em suas expectativas de faturamento. Excluída a competitividade como motivador da qualidade dos veículos, esta
dependia de fatores tão voláteis quanto o desejo dos proprietários, a
exigência dos leitores ou o empenho espontâneo dos profissionais.
A julgar pelas críticas de empresários e intelectuais (e também pela autocrítica dos profissionais), os avanços de qualidade
registrados desde os anos 1980 mantiveram o jornalismo econômico desenvolvido pelos diários num patamar inferior ao que merecem os leitores. Analistas como Kucinski condenam o adesismo
como falha crucial das abordagens. Trata-se da aceitação acrítica
das políticas econômicas e das declarações das fontes, especialmente as oficiais. A ausência de distanciamento crítico está relacionada com outro problema: o fontismo, caracterizado pela falta de
pluralismo nas abordagens. Como aponta Beting (2003), certo jornalismo econômico "se deixou ficar refém de cenaristas recorrentes e tendenciosos, em cumplicidade com burocratas enrustidos e
equivocados" .
Quanto aos materiais elementares de que é feito o jornal, é
possível apontar o hermetismo na linguagem e o descuido com a
13 Expressão deixara de ser uma revista mensal para tornar-se um conjunto de seis
anuários temáticos, baseados em conteúdo exclusivo (como pesquisas para a
elaboração do ranking de maiores empresas da Região Sul e a definição de
prêmios para empresas nas áreas de meio ambiente e inovação tecnológica).
Empreendedor, criada em 1994, focara-se em “orientar e estimular os atuais e
futuros empreendedores, de todos os portes” ao “mostrar e ressaltar os
empresários que estão inovando e agregando valores aos seus produtos e serviços,
além de apresentar as mais modernas e eficientes formas de gestão empresarial”.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
175
informação como questões recorrentes. A falta de rigor na apuração e no tratamento da informação, lastimavelmente freqüente,
leva a confusões banais como a troca de milhares por milhões, e
disto por bilhões; ou a confusão entre dólar, euro e real. Erros
banais revelam um jornalismo imaturo, sensação que é agravada
pela falta de profundidade: as coberturas usualmente não avançam
na identificação de tendências, na busca do inédito, do diferencial.
Não antecipam tendências - se limitam a refleti-las ou a ecoar as modas da administração. Os jornais publicam muitas histórias, mas poucas são aquelas capazes de acrescentar conhecimento ao leitor.
Parte das razões para tantos problemas encontrava-se nas
características das organizações jornalísticas, significativamente alteradas na década de 1990. Folhas de pagamentos enxutas e contas de telefone enormes eram a síntese contábil desse modo de
fazer jornal. A profissão fora pauperizada e o trabalho de reportagem passara a ser feito por equipes cada vez mais jovens. Além
disso, os setoristas de economia tinham salários tão baixos quanto
os demais, mas eram mais exigidos. Com estruturas limitadas e
linhas telefônicas suficientes, a cobertura se burocratizara. Como
notou Chaparro (1994, p. 73), "os jornalistas das redações escrevem cada vez mais sobre fatos que não observam e sobre assuntos
de que não entendem". O resultado era um material que, em regra, padecia de falta de criatividade: a cobertura apresentava abundantes relatos sobre a vida das empresas, mas relativamente poucas abordagens decisivamente relacionadas ao interesse público.
Pouco jornalismo de serviço limitava o público da editoria de economia aos formadores de opinião. A sucessão de pautas-clichê
(como a suíte no estado de temas nacionais, como a variação na
taxa de desemprego, a última pesquisa do IBGE, a política industrial do governo federal...) revelava um jornalismo sem imaginação.
Uma variável cultural também pode ter influenciado a cobertura econômica. Concepções militantes da profissão haviam sido
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
176
substituídas por uma noção (que parece pragmática, mas é apenas
cínica) que identificava o jornalismo com um produto e com o
mercado. A percepção dos atores sociais teve seus sinais ideológicos alterados: empresários que no passado eram vistos pelos repórteres como adversários de classe passaram a ser reconhecidos como agentes de desenvolvimento, tycoons do emprego e das
oportunidades. A perda de prestígio do conceito de luta de classes
e a hegemonia do liberalismo revigoraram a imagem dos empresários. Redações não eram mais abrigo, muito menos celeiro de anarquistas, comunistas, socialistas. Havia menos entusiasmo quanto à
contribuição potencial do jornalismo para as mudanças sociais (e
menos ilusões).
Sob tais transformações no ambiente das empresas de comunicação, os conflitos de interesse entre o jornalismo e os anunciantes - que levaram à criação da metáfora do muro - foram progressivamente substituídos por concepções de harmonia. Empresas em geral têm interesse em dar visibilidade a suas inovações, a
suas técnicas de gestão, a seus produtos. Empresas jornalísticas
também. Portanto, há convergência de interesses, e ela se dá, sobretudo, na veiculação de "notícias positivas".
Para equipes competentes de assessoria de imprensa, o trabalho ficara facilitado. A profissionalização das assessorias foi mais
veloz e abrangente do que a das redações. Assessores de empresas ou jornalistas de firmas especializadas em assessoria tendem a
ter melhores salários e formação mais completa do que o pessoal
das redações. Raramente trabalham aos domingos; têm jornadas
freqüentemente mais extensas, mas mais regulares; encontram apoio
quando desejam continuar seus estudos (que jornal ou emissora de
TV contribui com o pagamento de um curso de pós-graduação?)14.
14 Mais da metade dos jornalistas catarinenses não estava empregada em veículos
de comunicação em 2004; é provável que, dentre eles, a maioria trabalhasse em
assessoria de imprensa, mas não há pesquisas disponíveis sobre o tema.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
177
O sucesso das firmas de assessoria de imprensa (ou das divisões
especializadas dentro das empresas ou organizações de classe) é
medido pelo aproveitamento do material enviado às redações. O
aproveitamento na íntegra é mais raro, mas empresas do setor
somam 80% a 90% de utilização de seus releases, como notas,
pautas, base para novos textos ou, simplesmente, transcrições integrais. É como um improvável artilheiro, capaz de acertar o gol
(ou passar perto) oito vezes a cada dez chutes: mesmo que o
goleiro defenda, a torcida tem o que celebrar.
Algumas empresas de assessoria de imprensa contribuíram
para levar o entendimento de empresários em relação aos meios
de comunicação a transcender o senso comum. O media-training
discorre sobre os limites do trabalho da imprensa, esquematiza os
"pecados capitais" cometidos pelos empresários na relação com
os jornalistas (como pedir para ler a matéria antes da publicação).
Aprende-se que a qualidade da informação (e sua veracidade) tem
relação direta com a imagem positiva da empresa. Há uma tecnologia para a gestão de situações de crise, para blindar os principais
executivos e preservar a imagem da corporação.
O padrão de relacionamento entre a Fiesc e a imprensa ilustra esse comportamento. A organização do empresariado industrial se fortaleceu nos anos 1970 e se consolidou na década seguinte. A Fiesc adotou uma estrutura de assessoria de imprensa profissional, para perseguir o objetivo de converter em interesse público suas reivindicações corporativas. A ação do empresariado também explorou o prestígio de suas entidades de classe para projetar lideranças na mídia, potencializando candidaturas de confiança15. A repercussão das ações sociais de instituições como o Sesi e
15 A esse respeito, basta lembrar das sucessivas especulações dos colunistas
políticos sobre a possibilidade de o ex-presidente da Fiesc Osvaldo Douat lançar
sua candidatura a governador, a deputado federal ou a suplente de Jorge
Bornhausen no Senado.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
178
o Senai contribuiu para revigorar a imagem do empresariado e de
sua principal entidade representativa. A criação do Prêmio Fiesc
de Jornalismo Econômico, ainda nos anos 1980, consolidou a estratégia de relacionamento cordial com a mídia, apontando as referências de qualidade profissional sob o prisma da entidade de classe.
Em parte como resultado dessas estratégias mais sofisticadas de relacionamento com a imprensa adotadas pelo empresariado, os embates diretos eram cada vez menos freqüentes. Ainda
assim, especialmente diante de noticiário que os desagradasse, grandes anunciantes faziam pressões explícitas sobre os veículos, diretamente ou por intermédio de suas agências de propaganda ou
órgãos de representação. O exercício da barganha era cotidiano, e
mais freqüente em momentos de crise (se ele produzia resultados, é outra questão)16. Um punhado de exemplos reais:
a) o jornal banca uma série de reportagens sobre suspeitas
de irregularidades cometidas num órgão paraestatal. O órgão e
seus congêneres pressionam a direção do veículo para que suspenda a cobertura, ameaçando cortar verbas publicitárias. O jornal mantém a abordagem do tema, que se esgota em poucos dias.
A ameaça não é cumprida;
b) o mesmo jornal aponta irregularidades nos sorteios de
uma loteria. Articulado com outros empresários, o dono da loteria
ameaça boicotar o veículo. A cobertura do tema é interrompida.
O boicote é praticado. Meses mais tarde, mergulhado em problemas financeiros, o veículo fecha;
c) um repórter que só bebe Coca-Cola ouve, de uma fonte
confiável mergulhada em uísque, a confirmação de que uma grande
empresa local será vendida a uma multinacional. A notícia, publica16 A pressão cresce quando interesses econômicos e políticos estão articulados para
pressionar os jornais ou blindar determinados temas. Somados, os anúncios do
poder público e dos grandes anunciantes representam pressão muito elevada
sobre o veículo.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
179
da dias depois, é negada com veemência pelo dono da empresa,
que ameaça o jornal. O proprietário do veículo decide apoiar o
repórter. Semanas depois, a venda é confirmada, nos termos exatos da primeira notícia;
d) um vazamento de óleo de uma grande indústria afeta o rio
que abastece de água a cidade. Os prejuízos para a população são
dramáticos, mas a cobertura enfatiza a agilidade da empresa em
reconhecer sua responsabilidade e tomar providências para conter o dano. A ação da empresa recebe mais destaque que o dano
em si. A agilidade da iniciativa, combinada ao fato de a empresa ser
um grande anunciante, elimina naturalmente as zonas de ruído com
a imprensa, que espontaneamente abandona sua função como porta-voz do interesse público para repercutir a "responsabilidade"
social de quem se restringe a cumprir seu dever.
Em função do histórico de pressões, havia equipes que se
autocensuravam, rejeitando a hipótese de investigar denúncias contra proprietários de marcas renomadas, driblando os dissabores
que anteviam. Em vez do "publique isto", prevalecia o "evite isto".
A gestão profissional da relação com a imprensa, a voluntária
contenção dos veículos no tratamento de temas espinhosos para o
empresariado, a pressão direta dos anunciantes, a ação estratégica
em momentos de crise - todos esses fenômenos tornaram mais
rara a prática do "jabá". Desde os pontos mais remotos da história
do Jornalismo houve repórter ou empresa que trocou diretamente notícia por dinheiro. Hoje, o "jabá" foi diferido. O mais comum
dos fluxos envolve uma conexão entre o departamento comercial
e algum cargo elevado na redação. Surge quando o cliente pede à
agência de propaganda que interfira junto ao veículo para que providencie cobertura ao evento que constitui o objeto do anúncio ou
da campanha. A agência autoriza a veiculação dos anúncios (digamos que se trata de uma verba de dezenas de milhares de reais) e
apresenta o pedido para o contato comercial. A "sugestão de pauJORNALISMO EM PERSPECTIVA
180
ta" chega à editoria e é gentilmente acatada, povoando o noticiário
de bobagens e irrelevâncias.
Há também o "jabá" miúdo e sedutor. Anunciantes pagam
viagens, distribuem brindes, fazem agrados. O catálogo de mimos
é vasto: agendas exclusivas com capas de couro, CDs, livros, calendários, canetas importadas e dezenas de objetos inocentes.
Organizam-se megaeventos de relações públicas, de cardápio fino
e farto. Oferecem-se viagens, e assim focas conhecem o Costão
do Sauípe, veteranos vão mais uma vez ao Salão do Automóvel,
hospedados em hotéis cujas diárias equivalem a vários salários mínimos. É simplista afirmar que a generosidade compra simpatias assim como é ingênuo supor que, independentemente de tamanha
amabilidade, as empresas recebam o mesmo tratamento.
Em síntese, o problema ético continua muito vivo, especialmente na cobertura econômica. Poderia ser diferente, caso os jornais afirmassem, nas negociações comerciais, seu compromisso
editorial com o interesse público - o que, definitivamente, não ocorre. (As crianças aprendem que um "não" pode ser tão amoroso
quanto um "sim", mas contatos comerciais não negam coisa alguma
a seus clientes.) A inexistência de uma cultura comercial que valorize a autonomia do jornalismo não é, evidentemente, uma responsabilidade do pessoal da redação, mas uma prática do veículo, derivada da histórica relação com os governos e as grandes empresas. E o interesse público?
Considerações finais
O muro entre a redação e o departamento comercial dissolve-se nessa trajetória de convergência de interesses e aprendizado
mútuo entre jornais e suas fontes-anunciantes. A cobertura econômica, no núcleo desta relação, é como um espelho mágico que, ao
mesmo tempo em que reflete o jornalismo de seu tempo, indica
antecipadamente a direção para onde caminham as práticas profisJORNALISMO EM PERSPECTIVA
181
sionais. Ao final de 2004, a voz desse espelho descrevia, no fim do
caminho, a imagem de um muro metaforicamente derrubado e,
sobre os escombros, a coexistência de interesses outrora percebidos como rivais.
A distinção entre o jornalismo econômico e o jornalismo
empresarial encontra-se na idéia de que um é supostamente orientado pelo interesse público e o outro, claramente identificado com
o privado17. Como vimos, apenas excepcionalmente os diários, driblando seus próprios limites organizacionais, alcançam excelência
na cobertura econômica. Cada vez menos os anunciantes impõem
censura, porque ela surge espontaneamente. Não há cultura comercial para sustentar um jornalismo mais independente. Diante
disso, faz algum sentido o discurso de que os diários operam de
acordo com o interesse público?
Ao fazer jornalismo de qualidade com maior regularidade,
embora com o enfoque restrito dado pela identificação com o interesse do empresariado, as revistas tornaram-se mais úteis a seus
públicos do que os diários. Afirmar claramente sua identidade de
valores com uma determinada categoria social - os empreendedores - não impediu tais veículos de desenvolverem coberturas abrangentes e aprofundadas, no recorte temático imposto pela identificação. Tal recorte, entretanto, é insatisfatório para públicos nãoespecíficos. Ainda que a aproximação de interesses entre a imprensa e o empresariado seja acompanhada de um aprimoramento na qualidade da cobertura do jornalismo diário, a autocensura, a
vulnerabilidade a pressões, a aceitação acrítica das técnicas de relacionamento impostas pelas assessorias de imprensa continuarão
operando em desfavor do leitor.
Moacir Pereira concluiu seu livro sobre as conexões entre a
imprensa e a política em Santa Catarina indicando dois pontos em
17 Essa distinção merece análise mais aprofundada, desafio que escapa aos limites
deste capítulo.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
182
que o jornalismo catarinense ainda teria muito a avançar. Um era a
ampliação das tiragens dos principais veículos, de modo a que se
tornassem compatíveis com o tamanho da população do estado.
O segundo era mais inquietação na busca da informação diferenciada, para qualificar o produto. Tais desafios, como vimos, permanecem por ser superados, e dificilmente o serão sem um incremento da concorrência entre os veículos capaz de romper a estagnação provocada pela crise e pela acomodação dos diários. A
competitividade não pode ser vista como uma panacéia, mas sem
ela os avanços dependerão de fatores ainda mais complexos - como
a auto-organização dos leitores ou dos jornalistas para discutir o
trabalho da imprensa e reivindicar melhorias18.
Ao final de 2004, a fragilidade da imprensa regional (ainda
maior nos veículos locais) a tornava especialmente vulnerável às
pressões econômicas. O equilíbrio financeiro precário a levava ao
apelo permanente à generosidade dos órgãos públicos, ao assédio
aos grandes anunciantes, à mendicância nas portas das maiores agências de propaganda. A situação financeira dos diários do estado
permitia a seus donos dividir resultados, ao preço de um produto
burocrático, sem qualquer brilhantismo. A ausência de novos concorrentes no mercado só agravava o paradoxo: veículos financeiramente frágeis não desenvolvem jornalismo independente e, ao
não fazê-lo, continuam frágeis19. Como produto, às vezes se assemelhavam a cadernos de classificados, embrulhados em jornal.
18 Para uma noção das resistências das empresas de comunicação a qualquer
possibilidade de controle social, basta evocar a criação do Conselho Federal de
Jornalismo, idéia que sequer pôde ser discutida em 2004 antes de ser soterrada
por uma eficaz ação do lobby do setor no Congresso Nacional.
19 É possível que a ausência de novidades no mercado posteriores à aquisição do
“Jornal de Santa Catarina” pelo grupo RBS, em 1992, se deva à recessão
econômica, combinada às taxas de juros elevadas, fatores que tornam arriscado e
desinteressante, para proprietários de capital, o investimento em atividade
produtiva.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
183
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JORNALISMO EM PERSPECTIVA
184
Inovação
e Perspectivas
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
185
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Muita história para contar
Gastão Cassel
(ou Uma história por contar)
A história do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Santa
Catarina ainda está por ser contada. A memória da entidade não foi
preservada nem sistematizada pelas diretorias que a dirigiram especialmente nas primeiras três décadas dos seus cinqüenta anos.
Os documentos são dispersos, alguns com registros incompletos.
A maior parte dessa história está guardada na lembrança dos seus
personagens e precisa ser cruzada com algum tipo de registro
oficial que lhes confira a exatidão e a precisão que a memória não
consegue lhe emprestar.
Este capítulo não pretende, em hipótese alguma, contar a
história do Sindicato. Não é tarefa para um fragmento de livro
relatar e conectar com seu tempo tudo o que ocorreu em meio
século. Ao recuperar diversos episódios desse período, pretendemos constituir um pequeno guia para quem se aventurar a trabalhar num documento mais completo do ponto de vista historiográfico1 .
No dia 13 de maio de 1955, foi expedida a Carta Sindical
que transformou a Associação dos Jornalistas Profissionais, fundada três anos antes, em Sindicato. Nada poderia ser mais relativo na
época do que a própria expressão “jornalistas profissionais”. A
profissão era regulamentada por legislação de 1938, que era suficientemente ampla para abrigar uma categoria que não tinha muitos
1 Há neste livro uma Linha do Tempo elaborada caprichosamente por Mário Xavier
da qual foram retiradas várias referências para compor este capítulo,
especialmente sobre a primeira campanha de moralização da emissão de
registros profissionais no estado.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
187
espaços efetivos para a formação profissional. O diploma não era
uma exigência para exercer o jornalismo e talvez nem pudesse ser,
uma vez que era escassa a quantidade de cursos universitários de
jornalismo no país.
Os jornalistas daquela época se formavam no calor das redações de jornais e dos estúdios de rádio. Quando tinham alguma
formação superior, era geralmente em Direito ou Letras. Por estas
e outras razões, tratava-se de uma categoria sem uma identidade
própria, sem referências que pudessem dar a ela um espírito de
unidade ou mesmo uma noção de coletividade. Não se precisava
muito mais do que vontade de ser jornalista para se obter um registro profissional na Delegacia Regional do Trabalho.
E muita gente queria ser jornalista. Não pelo amor ao ofício
de informar, mas para usufruir direitos que a sociedade dava a quem
tivesse registro. Jornalista tinha isenção de Imposto de Renda, do
imposto inter-vivos (aquele pago quando se vende um imóvel, hoje
chamado de ITBI), desconto de 50% em passagens aéreas (garantido por lei) e em passagens terrestres (por liberalidade das empresas), aposentadoria especial, facilidade de acesso a financiamentos de casa própria e de automóvel, e até tratamento especial na
Justiça.
O Sindicato dos Jornalistas era uma espécie de avalista do
passe para essas benesses com que se locupletavam pessoas que
jamais haviam chegado perto de uma redação, mas que obtinham
com facilidade a documentação que os faria jornalistas de papel
passado. Não encontramos registros que sustentem a hipótese,
mas é provável que o Sindicato nos seus primeiros anos de vida
funcionasse como um balcão onde pessoas ligadas a esquemas de
poder iam buscar declarações que facilitassem a obtenção do registro no Ministério do Trabalho. Com uma declaração expedida
por uma empresa de comunicação e o aval do sindicato, qualquer
um virava “jornalista”.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
188
A relação dos associados ao Sindicato, na época, era recheada de personalidades notáveis, incluindo secretários de estado,
funcionários públicos, deputados, prefeitos, banqueiros, comerciantes e até autoridades do clero. Nesse tempo, o sindicato tinha
cerca de 400 filiados, mas estima-se que 70% deles eram ilegítimos.
Quem pesquisar essa fase da história da entidade terá que
recorrer aos componentes do Primeiro Comando de Ação (PCA),
que entre 1962 e 1963 lançou a primeira campanha pública do
Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina, justamente brigando pela moralização da concessão de registros profissionais. O pessoal do Primeiro Comando fazia oposição à diretoria da
entidade e era liderado pelos jornalistas Eurides Antunes Severo,
Adolfo Ziguelli, Jorge Cherem, Silveira Lenzi, Melo Prates e outros. As atividades do PCA não tardaram a ser estigmatizadas como
“coisa de comunista” nas vésperas do golpe militar de 1964.
O pesquisador precisará descobrir o que mais o Sindicato
fazia, além de multiplicar o número de registros frios, entre 1955
e 1964. Não há muitos documentos, mas alguns papéis deixados
para trás mostram que ajudar os militares a perseguir jornalistas
foi uma das práticas do Sindicato durante os anos de chumbo da
história do Brasil.
Em 13 de agosto de 1968, no período mais obscuro do
Regime Militar, o jornalista Alírio Bosle, presidente do Sindicato,
recebeu a correspondência 663/68 do general Álvaro Veiga Lima,
chefe do SNI/-NAFL em Santa Catarina. O Serviço Nacional de
Informações queria saber da vida do jornalista Erasmo Prates de
Souza, para “verificar fatos ligados à Reserva de Índios de Xanxerê”. O elenco de perguntas era objetivo: “O Sr. Erasmo Prates de
Souza é Jornalista Profissional? O referido Jornalista é sindicalizado?... É proprietário de jornal em Xanxerê? Qual o nome do Jornal? Jornalismo é profissão única do referido senhor? Qual seu conceito na área do Sindicato? Outros dados úteis ao esclarecimento
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
189
sobre a vida funcional e particular do citado cidadão”. No dia 27
do mesmo mês, Bosle encaminhou resposta ao general mediante
ofício número 26 do Sindicato. Mas não se conhece o teor da carta.
Três anos depois, o chefe do SNI/NAFL continuava preocupado com Xanxerê. Em 20 de fevereiro de 1971, perguntou a
Bosle, através do ofício número 143/NAFL/SNI/71, “se o Sr. J. R.
Martins, diretor do jornal Imprensa do Povo [...] é associado e
devidamente registrado nessa Associação”. Na cópia da carta, há
apenas a anotação manuscrita “Providenciado” e um carimbo do
remetente que diz que “O destinatário é Responsável pela Manutenção do Sigilo dêste Documento (Art. 62 Dec. N. 60.417/67,
Regulamento para Salvaguarda de Assuntos Sigilosos)”.
O Relatório da Diretoria do SJPSC, do exercício de 1970,
revela de forma inequívoca a cordialidade da entidade com o Regime Militar. “Vale assinalar, ainda, a solenidade que realizamos no
mês de Março, ao transcurso de mais um aniversário da Revolução, quando reunimos as autoridades militares desta Capital, em
sessão solene de confraternização”.
Durante a ditadura, o Sindicato fez muita festa. A praxe era
pelo menos um jantar por mês para homenagear autoridades que
pouco tinham a ver com a categoria, mas que eram muito bem
colocadas na esfera do poder. Os jantares eram, algumas vezes,
bancados pelas empresas de comunicação que, no informativo
mimeografado da entidade, eram chamadas de anfitriãs. Mas quem
fosse a estes rapa-pés teria que desembolsar CR$ 2.700,00, sem a
bebida, relata o periódico de 10 de outubro de 1966, dia em que
foi homenageado Osmar Dutra, empresário e primeiro suplente
de deputado eleito pela UDN.
Entre os convidados para os jantares do Sindicato, que na
época era presidido por Adão Miranda, desfilavam nomes como o
do general Paulo Weber Vieira da Rosa, prefeito indicado de Florianópolis, homenageado por sugestão da agência A.S. Propague.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
190
Júlio Zandrozny recebeu homenagens, uma vez como diretor da
Artex e outra como presidente da Celesc. Nilson Bender, diretor
da Fundação Tupy (pré-candidato ao governo derrotado internamente na UDN) também estrelou um jantar. As festas, muitas vezes, eram promovidas em cidades do interior e invariavelmente
destacavam autoridades e empresários bem relacionados com o
governo.
As boas relações com o poder rendiam seus frutos. Em 31
de julho de 1966, o então presidente do Sindicato, Adão Miranda,
partiu para uma viagem de 45 dias a 25 cidades norte-americanas.
Ele foi como bolsista convidado pelo Adido Trabalhista da Embaixada dos Estados Unidos junto com outros cinco sindicalistas catarinenses. A participação na excursão aos EUA não era resultado do
prestígio de Miranda. As viagens eram parte do programa de cooptação sindical articulado pelo Instituto de Pesquisas e Estudos
Sociais (IPES), pelo Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD)
e pelo Conselho Superior das Classes Produtoras (CONCLAP)
em colaboração com o Departamento de Estado Americano (leiase CIA) para combater a “avanço do comunismo na América Latina”.2
Os anos 60 e 70 foram levados pelo Sindicato nesta toada. A
entidade se limitava a transitar junto aos poderosos numa simbiose
de vaidades e locupletações. Nesta época, a Federação Nacional
dos Jornalistas esboçava uma reação à censura imposta pelo governo (como em documento aprovado pelo congresso da entidade em junho de 1976, em Curitiba).
Entre 1975 e 1978 há um período da vida do SJPSC que
merece atenção especial do pesquisador. Comandado pelo jornalista Moacir Pereira, o Sindicato sinaliza tênue defesa das liberda2 A estratégia de levar sindicalistas para os EUA e sua articulação com os
movimentos anti-comunistas é fartamente relatada por René Armand Dreifuss em
seu livro “1964: A Conquista do Poder”.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
191
des individuais e faz denúncias contra a censura. Também investe
no discurso de qualificação profissional. A gestão de Pereira, contraditoriamente, não rompe com a tradição de relação estreita com
o poder, embora avance inegavelmente no sentido da construção
de uma identidade corporativa para os jornalistas. É nesta gestão
que é assinado o primeiro Acordo Coletivo da categoria, criando o
piso salarial de seis salários mínimos para os jornalistas. Pereira
investe, também, na realização de vários eventos e palestras com
profissionais de destaque nacional.
O crescimento da resistência democrática no país, a reorganização dos movimentos sociais e, particularmente em Santa Catarina, a criação do Curso de Jornalismo da UFSC começam a desenhar definitivamente um elo de articulação entre os jornalistas catarinenses, o que o Sindicato insistia em não ser. A partir de 1979,
mas com mais força a partir de 1982, o Movimento de Oposição
Sindical (MOS) dos jornalistas começa a fazer o trabalho que o
sindicato deveria fazer3.
Os jornalistas catarinenses não tinham nenhuma tradição de
organização trabalhista, mas o MOS tinha o exemplo próximo dos
operários do ABC paulista, que começavam a se organizar dentro
dos sindicatos ou em oposições que visavam a conquistar as estruturas sindicais. Ao mesmo tempo que denunciava e enfrentava a
direção do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina, o MOS também tratava de fortalecer a entidade por meio de campanhas de
sindicalização, pois a maioria dos jornalistas ignorava o Sindicato,
uma vez que este pouco significava em termos práticos para a
categoria. Os novos filiados representavam uma base eleitoral potencial para as eleições da entidade que ocorreriam em 1984.
3 O jornalista e professor Eduardo Meditsch, em 1985, relata e analisa o MOS em
artigo produzido para a disciplina Movimentos Sociais, do Programa de PósGraduação em Ciências Sociais da UFSC, sob orientação da professora Ilse
Scherer Warren. Boa parte dos fatos que mencionamos aqui é descrita em tal
trabalho.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
192
Realizar reuniões com cerca de 60 pessoas era normal para
o MOS. Sua representatividade logo foi constatada pela categoria e
pelos setores da sociedade vinculados às lutas democráticas. Diversas entidades apoiaram política e estruturalmente a oposição
dos jornalistas. As próprias empresas de comunicação, de maneira
inconfessa, reconheciam o movimento ao permitir que seus representantes visitassem as redações para distribuir informativos e
discutir com a categoria.
Tendo como voz o “Jornal dos Jornalistas”, o MOS se estadualizou e celebrou a sua consolidação no encontro estadual realizado em Blumenau, nos dias 24 e 25 de abril de 1983, em pleno
Teatro Carlos Gomes, com mais de 200 participantes, que elegeram a primeira Comissão Executiva do MOS, composta de Artur
Scavone, Ayrton Kanitz, Elizabeth Brandão, Moacir Loth, Bonifácio Thiesen e Valdir Alves.
Associações e clubes de imprensa de todo o estado passaram a apoiar o MOS, que crescia como uma locomotiva que se
deslocava a todo vapor em direção ao Sindicato. O principal obstáculo era a máquina política do governo do estado, que estava
disposta a manter o seu singelo aparelho sob controle. Nem a
divisão entre tendências dentro do MOS parecia atrapalhar. Os
simpatizantes do novo sindicalismo do ABC paulista (que viria a
desaguar na Central Única dos Trabalhadores) disputavam com
ampla vantagem espaços com os representantes da Unidade Sindical (que viria a criar a Força Sindical liderada por Medeiros e Magri).
Para escolher os nomes que concorreriam à direção do Sindicato, o MOS realizou eleições prévias em todo o estado, que
tiveram mais de 220 votantes, apesar de o pleito ter sido prejudicado pela enchente que ocorreu em 1984 em Santa Catarina. Ayrton Kanitz foi escolhido para liderar a chapa, que tinha ainda os
nomes de Elaine Borges, Moacir Loth, Ionice Lorenzoni, Maria Lins,
Mário Medaglia e Celso Vicenzi. A situação lançou Cyro Barreto
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
193
para concorrer à eleição, com a prerrogativa de escolher pessoalmente os outros 23 nomes que comporiam a chapa.
A abertura oficial do processo eleitoral revelou um adversário difícil de ser enfrentado: o conjunto de regras e leis sindicais
que favorecia de diversas formas o continuísmo. A oposição não
tinha, por exemplo, acesso às listas de votantes. A Delegacia Regional do Trabalho emudecia diante das denúncias da oposição. E a
diretoria do Sindicato criava empecilhos para que os associados
pagassem as suas mensalidades para ter direito a voto. As empresas de comunicação se dedicavam a auxiliar a situação, ainda que de
forma velada, na maioria das vezes.
Como o presidente do Sindicato, que compunha a chapa de
situação, era legalmente o coordenador do processo eleitoral, só
ele tinha acesso à documentação de habilitação das chapas. Ficou
fácil suprimir papéis e, alegando falta de documentos, pedir a impugnação de todos os membros da chapa de oposição junto ao
Ministério do Trabalho. De 24 solicitações, nove foram acatadas.
A eleição ocorreu assim mesmo, sob boatos e trocas de
acusações. No dia 25 de julho de 1984, o MOS venceu a situação
por dois votos de diferença: 120 a 118. Mas o resultado não valia
nada, pois a legislação exigia que a chapa vencedora obtivesse maioria absoluta num primeiro turno. Nova eleição foi marcada para 9
de agosto, dois dias depois de uma forte enchente fustigar o Estado. O MOS brigou pelo adiamento, que foi contestado pela situação, que via na calamidade a chance de descontar os votos do
interior do estado que havia perdido no primeiro escrutínio.
O Ministério do Trabalho adiou a eleição na última hora, mas
continuou fazendo vistas grossas para as outras irregularidades.
No segundo turno, as cédulas foram levadas para o interior do
estado pelos próprios candidatos da situação, que “informavam”
os eleitores que a chapa do MOS havia sido impugnada. Um funcionário da Celesc ligado politicamente ao governador da época,
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Esperidião Amin, relatou a um eletricitário que, enquanto os fiscais
do MOS conferiam a chegada de votos por correspondência na
Caixa Postal do Sindicato, as cédulas eram trocadas nas dependências internas dos Correios, com a complacência e colaboração do
órgão. O resultado foi a vitória de Cyro Barreto por 137 a 116
votos. Sua gestão, no entanto, foi um fracasso. Ele sequer completou o mandato. Renunciou em fevereiro de 1986 alegando que a
oposição anarquizara o Sindicato.
O impacto da derrota desarticulou o MOS por longo período. Várias lideranças do movimento deixaram o estado ou se envolveram em projetos profissionais que os afastaram do cotidiano
da categoria. Mas em 1987 o Movimento reergueu-se para concorrer a novas eleições e dessa vez obteve êxito. Celso Vicenzi,
repórter do “Diário Catarinense”4, venceu a eleição e assumiu a
entidade, que tinha como patrimônio um arquivo de aço e um telefone. Mesmo assim, iniciou uma nova fase da vida do Sindicato
dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina.
A gestão de Vicenzi ocorreu num momento em que o Movimento Sindical estava a plenos pulmões. Com o país sob um processo inflacionário e recessivo, eram poucas as categorias profissionais que não iam às ruas reivindicar seus direitos. Nesse momento também os jornalistas começam a se enxergar como categoria,
como coletivo. O resultado dessa nova auto-imagem é a mobilização, a identificação de um parceiro de agruras e possibilidades em
cada colega de redação. Nos três anos da primeira gestão do MOS,
acontecem duas greves na redação do “Jornal de Santa Catarina”,
uma na sucursal de Florianópolis e uma em toda a empresa. O
jornal “O Estado” também enfrentou duas paralisações dos jornalistas, uma de doze dias. Durante as greves, “O Estado” era fecha4 Ao saber que Celso Vicenzi compunha a chapa do MOS, a RBS imediatamente
demitiu-o, mas oito meses depois uma determinação judicial reintegrou-o ao
emprego, então com as garantias que o cargo lhe assegurava.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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do praticamente só com despachos de agências de notícias e algumas matérias de assessorias de imprensa. Um trabalho do comando de greve junto aos assessores do governo angariou a solidariedade de alguns deles, que diminuíram a escala de produção de
releases,dificultando ainda mais o baixamento do jornal.
Os empresários de comunicação começaram a sentir o peso
de uma gestão sindical disposta a batalhar pelos direitos da categoria. O piso salarial catarinense, que era o terceiro mais baixo do
país, chegou a ser o mais alto do Brasil. Nenhum acordo foi fechado sem que se obtivesse pelo menos a reposição da inflação do
período. Conquista importante foi a unificação do piso salarial, que
era dividido em cinco faixas distintas por função (repórter, editor,
subeditor, diagramador, fotógrafo). Em várias negociações houve
reajustes diferenciados que privilegiaram os salários mais baixos.
Hoje, o piso regional está na média nacional.
O endurecimento das negociações, que algumas vezes acabaram em dissídio julgado pela Justiça, só foi sustentado porque a
representatividade do sindicato se impôs. A diretoria não ficava 15
dias sem passar nas redações para debater as questões emergentes, sobretudo, criando vínculos essenciais com a categoria. O estreitamento das relações entre o Sindicato e a categoria se evidenciou em situações como a que ocorreu num dia de 1988, quando a
direção do “Diário Catarinense” resolveu impedir os sindicalistas
de entrarem na redação para distribuir um informativo. Ativados
por alguns telefonemas, praticamente todos os profissionais do
jornal deixaram seus postos de trabalho e foram até a frente do
prédio ouvir o que o Sindicato tinha a dizer.
A atividade sindical desse período foi sempre realizada na
adversidade. De estrutura o Sindicato não dispunha, e as empresas
se negavam, por exemplo, a descontar em folha a mensalidade da
entidade, o que só foi conseguido mais tarde, por força do Acordo
Coletivo. Sem recursos, o Sindicato persegue desde sempre o
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sonho da interiorização, da presença efetiva em todos os pontos
do estado.
Uma dificuldade paradoxal do Sindicato é a de se comunicar
com a sociedade. Embora tenha um enorme potencial de representatividade e credibilidade, não consegue estar presente em todos os espaços sociais que seu prestígio permite. Por ser uma
entidade que representa profissionais de comunicação, a sociedade civil identifica nos sindicatos de jornalistas uma legitimidade similar a de órgãos como a OAB, mas sua falta de estrutura não
consegue dar conta dessa tarefa, que poderia redundar no fortalecimento das próprias lutas internas da categoria.
A dificuldade da entidade se comunicar foi bem explorada
pelos colunistas que cerraram fileira com os interesses das empresas. Vários deles usaram as suas colunas para atacar o novo comportamento do Sindicato, que destoava do servilismo que caracterizou as gestões anteriores. O problema se agravou depois que as
empresas de comunicação espertamente suprimiram dos Acordos Coletivos a publicação da coluna do Sindicato, que era veiculada mensalmente nos jornais, sem ônus para o SJPSC.
Para quebrar a barreira de comunicação com a sociedade, o
Sindicato investiu em eventos culturais, especialmente exposições
de fotos e charges que correram o estado. Passeatas, cartas às
agências de publicidade, out-doors e faixas em viadutos foram utilizados dentro das parcas possibilidades financeiras da entidade. Mas
ainda era pouco. A criatividade e a ousadia deram forma à Operação Papagaio. A idéia era simples: fazer aparecer na televisão mensagens sobre as condições de trabalho dos jornalistas. Então, em
várias transmissões ao vivo, especialmente em eventos de grande
repercussão, algum jornalista aparecia de “papagaio de pirata” atrás
do repórter com um cartaz com alguma reivindicação dos jornalistas.
Na cobertura das eleições de 1992, por exemplo, um repórter da RBS TV entrevistava ao vivo o presidente do Tribunal
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Regional Eleitoral quando atrás da autoridade surgiu Valdir Cachoeira, então repórter do jornal “O Estado”, com o cartaz “RBS Rede de Baixos Salários”. Deu uma enorme confusão e Cachoeira
teve sua credencial caçada pelo TRE.
Essa prática ganhou outras formas de expressão, como a
distribuição em encontros empresariais de panfletos que comparavam os editoriais nos quais as empresas de comunicação defendiam práticas de gestão moderna com o tratamento feudal dispensado aos jornalistas. Embora singelas, essas ações de guerrilha informativa espalharam pânico e paranóia entre as empresas de comunicação. Melhor para as empresas de segurança que eram contratadas para evitar que qualquer faixa ou cartaz fosse aberto diante das câmeras. Os principais alvos do sindicato eram as transmissões do Jornal do Almoço ao vivo, os sorteios do Caminhão do
Faustão e os grandes shows.
Quando Xuxa veio ao estádio Orlando Scarpelli como convidada da RBS para as festas de Natal, a equipe da Operação Papagaio despertou a ira de Pedro Sirotsky que, ao final do espetáculo,
desceu de seu camarote para desafiar os dirigentes do Sindicato.
“Isso não vai ficar assim”, disse o herdeiro da RBS com o dedo em
riste. Ele não gostou das faixas que diziam “Xuxa, baixinho é o
salário do jornalista” e o já tradicional “Rede de Baixos Salários”,
com as iniciais da empresa grifadas. Para evitar ações dessa natureza, a RBS contratou mais de 200 seguranças para o show do roqueiro Rod Stewart.
Se as duas gestões de Celso Vicenzi tiveram o caráter de dar
ao sindicato uma estrutura mínima e à categoria uma identidade
corporativa, as duas de Sérgio Murillo de Andrade tiveram, ainda,
a tarefa de defender a categoria dos ataques à regulamentação da
profissão. Obviamente, a tarefa de reivindicar salários e condições de
trabalho fica muito mais difícil quando é necessário debater com a
sociedade a necessidade de se ter diploma para exercer o jornalismo.
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Prevalecia até pouco tempo o arquétipo do jornalista como
uma pessoa bem situada economicamente e com trânsito nos escalões do poder. Hoje, com um maior número de jornalistas no
mercado, a mitificação parece relativizada e, pelo menos para os
setores mais esclarecidos, os jornalistas não carregam mais o glamour que lhes era atribuído. Já é possível perceber que a exposição pública dessa categoria não é proporcional à sua remuneração
e, muito menos, às difíceis condições de trabalho que enfrentam
na maioria das vezes.
O auto-engano com relação ao status da profissão talvez seja
hoje menos relevante do que no passado, provavelmente atingindo jornalistas mais jovens, que ainda não tiveram contato com toda
a extensão da realidade profissional. No entanto, a dissolução do
espírito coletivo solidificado em meados dos anos 80 é um fato
que acompanha uma postura de quem confia no seu sindicato, mas
não participa de suas iniciativas. A desmobilização não é um fenômeno que atinge somente os jornalistas, mas um fato que desafia
todo o movimento sindical no momento em que as ideologias que
alavancam o individualismo ganham força e terreno. A sofisticação
dos processos de cooptação dentro das empresas com políticas
ousadas de endomarketing e desenvolvimento de culturas empresariais certamente também concorre para dissolver o espírito classista.
Nesse período, os desafios se tornaram pelo menos mais
complexos para os sindicalistas. A proliferação de cursos de comunicação em Santa Catarina, com a multiplicação numérica dos
jornalistas, trouxe algumas vantagens e muitos desafios para o Sindicato (como sindicalizar os egressos dos cursos, estar presente
desde o processo de formação dos novos profissionais, por exemplo). Defender a profissionalização do mercado, que parecia uma
tarefa dos anos 70, passa a ser novamente uma urgência.
O reflexo deste novo quadro na organização sindical é grande. Pesquisa publicada pela revista “Imprensa” mostra que a cate-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
199
goria tem alto índice de sindicalização (cerca de 40% em escala
nacional, só perdendo para os bancários, mas superando os metalúrgicos), mas que esse índice é mais baixo entre os jornalistas
jovens e recém-egressos de universidades.
A primeira gestão de Luis Fernando Assunção foi marcada
justamente pelo esforço de interiorização do sindicato, com presença freqüente de diretores nas principais cidades. O resultado
imediato foi um aquecimento da mobilização nas campanhas salariais. Já a segunda gestão (durante a qual Assunção licenciou-se por
onze meses, passando a direção para Rogério Christofoletti, e retornando em seguida) acontece em circunstâncias em que se redesenha o perfil dos jornalistas. Estatisticamente, seus locais de trabalho não são mais majoritariamente as redações de rádios, jornais
e TVs. Eles estão espalhados nas assessorias de empresas, governo e terceiro setor, estão nas suas próprias agências de comunicação (às vezes, até como empregadores de outros jornalistas), estão nas universidades ensinando jornalismo (o que é uma função
jornalística, segundo a Fenaj). Ter uma entidade representativa desta
nova categoria exige novos entendimentos, novas habilidades de
abordagem, nova postura institucional e, além disso, outro tipo de
estrutura física e operacional. Não se trata de dizer que o Sindicato deve esquecer as redações, mas que precisa lembrar que há
outros habitats para a categoria que também merecem atenção.
O Jornalismo é profissão nova, mais nova ainda em Santa
Catarina. Mas o olhar sobre ela já carece de reciclagem. A dinâmica da sociedade repercute muito rapidamente nessa categoria, que
por sua natureza precisa estar sintonizada com as movimentações
tecnológicas, com as tendências do mercado e os novos paradigmas produtivos da sociedade.
Por tudo isso, quem for contar a história do Sindicato vai ter
muito trabalho. Vai ter que articular os poucos documentos que
localizar com o seu tempo. Vai ter que encontrar os nexos entre as
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
200
relações de poder de cada época e as atitudes da entidade. Vai ter
que conhecer a conjuntura política de cada circunstância e sua influência nas ações. Vai ter que resgatar o folclore dos personagens
e inseri-lo na história coletiva. Vai ter que pensar sobre jornalismo
e jornalistas. Vai ter muita história para contar.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
201
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
202
Maria José Baldessar
Jornalismo e tecnologia: pioneirismo e
contradições - Um breve relato da chegada da
informatização nas redações catarinenses
“(...) Nada conseguiremos compreender
da era moderna se não nos apercebermos da
maneira como a revolução na comunicação criou
um novo mundo”.
C.H.Cooley
Os avanços da ciência e tecnologia vivenciados na atualidade
se refletem em todos os segmentos da sociedade. A cada dia, a
busca de informações, sejam elas noticiosas ou não, aumenta sobremaneira, pois a posse da informação caracteriza uma forma de
poder.
No decorrer do século XX, a humanidade presenciou o
surgimento de diversas inovações na área da comunicação. Entre
elas destacam-se o telefone, o rádio, o cinema, a televisão, o computador e, por fim, a Internet. Cada uma dessas inovações teve
grande impacto em sua época e todas, sem exceção, continuam a
existir e a exercer forte papel no cotidiano das pessoas. Ao contrário do que muitos pensavam, nenhuma suplantou totalmente a
outra, e a Internet com certeza não será exceção à regra e nem
será a última invenção humana nessa área.
No entanto, se observarmos a linha de tempo de algumas
invenções dos dois últimos séculos, verificaremos que o tempo de
difusão da Internet é incomparavelmente menor que os demais. A
eletricidade, inventada em 1873, atingiu 50 milhões de usuários
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
203
depois de 46 anos de existência; o telefone (1876), 35 anos para
atingir esta mesma marca; o automóvel (1886), 55 anos; o rádio
(1906), 22 anos; a televisão (1926), 26 anos e o microcomputador (1975), 16 anos. A Internet, por sua vez, criada na década de
90, tem hoje 378 milhões de usuários. Estes números são motivo
de reflexão e de impaciência: qual o próximo invento humano?
Embora um sem-número de jornalistas continue a afirmar
que a profissão nada tem de tecnológica e que é movida pela criatividade e expressividade do profissional, a realidade que se apresenta é bem diversa. Desde sempre o Jornalismo esteve ligado à
tecnologia. Por acaso os aparelhos de rádio, televisão, fotografia e
os equipamentos para produzir materiais para estes suportes não
estão diretamente ligados a ela? O que seriam o telefone, o fax, o
velho telex e as máquinas de linotipia e clicheria senão formas de
tecnologia?
Talvez o que se possa discutir é que, muitas vezes, um muro
(literalmente) separou os jornalistas desses inventos maravilhosos.
Carlos Sepetiba, revisor do extinto jornal A Gazeta, de Florianópolis, conta que na sede da Rua Conselheiro Mafra a redação ficava
na frente e as Mergenthaler1 atrás – separadas por meia parede de
tijolos. Nessa meia parede havia uma passagem estreita por onde
o aprendiz levava o material escrito a máquina ou a mão para a
composição. E mais, “era na parte da frente que trabalhava a intelectualidade, atrás ficavam gráficos que contavam histórias engraçadas e que, diferentemente dos jornalistas, eram organizados, ideológicos e tinham os salários pagos sempre em dia”.
1 Máquina de linotipia inventada pelo alemão Ottmar Mergenthaler em 1879. O
princípio da Linotype consiste em juntar, com a ajuda de um teclado, não letras
mas matrizes de letras que formam um molde/bloco em linha. Por isso estas
máquinas se chamam “linhas bloco” em oposição às máquinas que compõem
linhas letra por letra (ex: Monotype). É esta particularidade de fundir num só
bloco de chumbo uma linha de matrizes (type em inglês), ou seja “line of type”
(linha de matrizes), que está na origem do seu nome.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
204
As mudanças nas redações e no cotidiano
profissional
Sem dúvida, as grandes mudanças no cotidiano profissional
dos jornalistas começam com a informatização das redações dos
jornais e revistas no Brasil, iniciada na década de oitenta. Com a
introdução dos computadores, os jornalistas tiveram de se adaptar a uma realidade profissional que incluía a exigência de maior
qualificação, a especialização crescente, as modificações nas condições de trabalho e, sobretudo, a intensificação do trabalho.
Um artigo publicado na revista Imprensa sobre a informatização do jornal O Globo descreve as mudanças no ambiente da
redação, estabelecendo um paralelo entre a redação do passado e
a atual: “uma louca sinfonia de gritos, gargalhadas, telefones, campainhas reverberavam impunemente (...) as Olivetti e Remington
que não sofriam de arritmia eram disputadas no tapa (...) e o impiedoso papel carbono tingia mesas, paletós, mangas de camisa, dedos, mãos e rostos menos atentos (...) montanhas de laudas se
formavam para qualquer lado que se olhasse (...) hoje as persianas
amarrotadas foram substituídas por um moderno sistema de iluminação que inclui um requinte inimaginável: calhas especialmente
desenhadas, cujos focos de luz só iluminam as mesas dos terminais, sem reflexos nos olhos ou nas telas (...) um sistema de ar
condicionado central acabou com o clima tropical que sufocava
(...) e a sinfonia das pretinhas deu lugar a um silêncio cibernético,
propiciado pelos 140 terminais e suas 138 teclas (...) e a limpeza,
nada de montanhas de papel”.2
As mudanças são percebidas não só no ambiente e na estrutura física, mas também numa nova relação com o texto. O fazer
texto através do computador, com suas possibilidades de proces2 Artigo publicado na revista Imprensa em setembro de 1987, assinado por Astrid
Fontenelle e Débora Chaves. Neste artigo são descritas as condições da redação
do jornal O Globo antes e depois da informatização.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
205
samento e arquivo de texto, ganha mobilidade e rapidez: “ (...)
mas é no terminal que se escondem as mais saborosas novidades
para qualquer jornalista (...) para começar o usuário fica dispensado da preocupação com o fim de cada linha, o computador hifeniza (...) a tela pode ser dividida em duas, de um lado a matéria do
repórter e do outro a do redator (...) o computador também permite a inserção de qualquer informação, em qualquer ponto”.3
No espaço físico das redações a tecnologia introduziu limpeza – desapareceram as centenas de laudas amassadas no chão,
sumiram as caixas de papel carbono para as cópias necessárias para
a linha de produção. Até mesmo o cafezinho e o cigarro se renderam à tecnologia, uma vez que os terminais ficam prejudicados
com farelos e ambientes poluídos. Mudou também a iluminação e a
temperatura do ar. Se antes do computador era inimaginável uma
redação com ar condicionado e persiana nas janelas, hoje isso é
rotina e já está incorporado ao dia-a-dia.
Mas, sem dúvida nenhuma, é na linha de produção de um
jornal ou revista que se percebem as mudanças mais óbvias: o diagramador, que antes não vivia sem a régua de paicas, as cartelas de
letras set e a caneta nanquim, aderiu aos softwares de edição de
texto e trabalha com precisão. A mesma sorte não tiveram os revisores e copy-desks que, simplesmente, um a um, foram desaparecendo da redação. Avaliar se o jornal ficou melhor ou pior sem esses dois
profissionais, numa linha de produção ordenada, é tarefa que cabe a
nós jornalistas, como profissionais e categoria laboral, fazer.
Jornalismo e a Internet
A cada década do último século surgiram mídias e se desenvolveram ferramentas capazes de torná-las massivas e populares
em poucos anos. Com a Internet não foi diferente. Criada original3 Idem nota de rodapé anterior.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
206
mente pelos militares americanos no final dos anos 60, começou
interconectando dez computadores. Hoje, trinta anos mais tarde,
reúne, segundo o Instituto de Pesquisa NEC, ligado à Universidade
de Princeton, aproximadamente 300 milhões de computadores
em 150 países do mundo. Em 2002 a Internet recebeu mais de
130 milhões de novos usuários e o número global atingiu mais de
620 milhões - 9,9% da população mundial. O número de usuários
nos países em desenvolvimento aumentou 40%, três vezes mais
que nos países desenvolvidos. Na China, o número aumentou 75%
em 2002, no Brasil, 78,5% e na Índia, 136%. Mesmo no Oriente
Médio, uma das regiões menos conectadas do mundo, o uso da
Internet cresceu 116%, em 2002.
Os EUA, segundo o American Journalism Review News4 , lideram o número de publicações online: são 4.925 sites de notícias
existentes até setembro de 1998; destes, 3.622 pertencem a
empresas de comunicação. Embora no Brasil não se tenha estatísticas sobre o número de publicações online, o Ibope fez um levantamento sobre a audiência desses veículos. De acordo com a pesquisa realizada em 1999, 50% dos 25 mil internautas entrevistados afirmaram que navegam na Internet em busca de informações5 .
Apesar destes números, a Internet vive a sua pré-história
como meio de comunicação - ainda sem uma linguagem definida,
apropriando-se da linguagem de outros veículos para a difusão de
textos, sons e imagens. Não restam dúvidas, no entanto, que essa
linguagem se estabelecerá a partir da convergência das mídias e da
união dos recursos infinitos de arquivo com a transmissão de informação em tempo real e com as possibilidades inéditas de interatividade e customização. No entanto, para Simone (2001), “(...) só
poderemos desenvolver o verdadeiro jornalismo online quando
4 Disponível em www.ccp.ucla.edu. Acessado em 24 de junho de 2003
5 Disponível em www.folha.com.br/informacao. Acessado 18 de junho de 2003.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
207
todos nós tivermos possibilidade de usar a banda larga e todos os
benefícios que vêm do vídeo, áudio, animação – e não esboços
destas ferramentas”.
O jornalismo na Internet ou jornalismo online vive seus primórdios. No Brasil, e em boa parte do mundo, ainda está “agarrado” aos velhos paradigmas do jornal impresso e se aproxima do
rádio, de forma paradoxal, quando se trata de conteúdo e forma
textual. Os portais de ou com conteúdo jornalístico, mesmo os
que dispõem de links para últimas notícias, continuam com características de jornal e revista impressa.6 A maioria dos sites de notícia ainda são divididos em editorias (índice à vista), com capa,
manchetes principais e chamadas para notícias secundárias, banners comerciais e links para negócios. Assim, não é sem propósito
que todos nós navegamos ou folheamos os sites jornalísticos com
uma certa facilidade. O mesmo não acontece com o restante do
conteúdo da rede, bastando verificar a dependência que temos
dos instrumentos de busca e, muitas vezes, a incapacidade de chegar a resultados satisfatórios quando temos que ousar em hiperlinks múltiplos.
Para Pavlick (1997) o modelo transpositivo – shovelware,
“é integrante dos três estágios do desenvolvimento de conteúdos
para Web, a saber: (1) transpositivo - transposição do conteúdo
analógico para o digital – com pequenas ou nenhuma modificação;
(2) adaptativo, que tem como característica a integração das linguagens dos meios tradicionais com as novas possibilidades da rede
e (3) onde “um original conteúdo noticioso, desenhado especificamente para a Web como um novo meio de comunicação”, vai fluir.
Esse terceiro estágio seria caracterizado também pela “aceitação
6 As empresas brasileiras de mídia se utilizam, em alguma medida, do que os
americanos conceituam como “shovelware”, ou seja, a transposição do conteúdo
analógico para o digital – com pequenas ou nenhuma modificação.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
208
de repensar a natureza de uma comunidade online, mais, aceitação
de experimentar novas formas de contar uma história”.
E os jornalistas, como ficam?
Muitos pesquisadores afirmam que a ascensão e consolidação do jornalismo online vai alterar aspectos importantes de produção, redação, edição e publicação da notícia, além da circulação,
audiência e relação com os receptores. A constatação de que o
jornalismo está passando por transformações profundas e se encontra em processo de renovação de muitas de suas práticas pode
ser aferida se aceitarmos que o mundo online está reconfigurando
as redações e as práticas profissionais, alterando as rotinas de coleta, processamento e difusão da informação. Podemos enumerar
estas mudanças e mesmo as avaliarmos como positivas: (1) acesso
às fontes; (2) aumento na produtividade dos repórteres; (3) diminuição do custo de obtenção de informações em todos os níveis e
em todos os assuntos; (4) qualidade na análise das informações;
(5) menor dependência das fontes para interpretação daquelas informações; (6) aumento do acesso à informação; (7) incremento
da confiança técnica e maior exatidão das informações; (8) melhores formas de arquivo e busca das informações; (9) maior agilidade e facilidades de deslocamento. “É consensual a idéia de que a
Internet evoluirá de forma a garantir uma mais rápida circulação da
informação na rede, a aumentar a informação disponível e a sofisticar a metodologia de identificação e acesso às informações”. (Bastos, 2000:83)
Para estudiosos como Garrison (1993) e Reddick/King
(1995), o próprio conceito de jornalismo poderá modificar-se
devido a vários fatores, entre eles (1) a possibilidade de cada um
atuar como jornalista, disponibilizando conteúdos na Internet, (2)
a usurpação ao jornalista da função de gatekeeper privilegiado do
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
209
espaço público informativo, (3) as características próprias da Internet, que permitem o aproveitamento do hipermedia (a confluência de “várias mídias numa só” e das hiperligações (os links que
permitem a navegação na Internet).
Outros como Koch (1991), Pavlik (1996) e Dizard (1997)
afirmam que, em função dessas mudanças, o perfil profissional também mudará. A cronomentalidade dos jornalistas poderá acentuarse, uma vez que, devido à possibilidade de atualização constante
do noticiário, as deadlines tendem a concretizar-se no imediatismo. As normas que norteiam o jornalismo poderão alterar-se, seja
por força de novas políticas editoriais das organizações noticiosas,
seja por força da própria natureza da Internet, que possibilita a
diluição das responsabilidades e até o anonimato, se não mesmo a
clandestinidade. Campos (2001) compartilha dessa visão e vai além.
Ele afirma que a Internet permite uma forma diferente de fazer
jornalismo e aponta as possibilidades do profissional de contextualizar cotidianos e fatos através dos hiperlinks e de como o receptor pode interagir como essa nova notícia. “(...) Na Internet, além
das imagens atualizadas e até do som se for o caso, o receptor
conta com várias “camadas” de texto que formam o hiperlink,
possibilitando acesso a todo tipo de detalhe, a edições anteriores,
a bancos de dados, a pesquisas de todo tipo, inclusive em outras
línguas, de modo a poder confrontar a informação recebida da
mesma maneira que o bom jornalista confronta, isto é, “checa” a
informação recebida de suas fontes”.
Já em 1996 Lage discutia essas modificações na profissão e
apontava a necessidade permanente de reciclagem para o enfrentamento do cotidiano profissional. “(...) Uma reciclagem que nos
permita a inclusão entre nossas atividades de boa parte das tarefas
outrora exercidas pelos trabalhadores gráficos. Nem repórteres,
nem repórteres fotográficos, redatores, editores ou mesmo projetistas gráficos têm seus empregos ameaçados pela tecnologia, a
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
210
curto e médio prazos. Ampliou-se, sem dúvida, o âmbito de suas
atribuições. A reciclagem necessária para isso é do tipo inclusiva isto é, nos obriga a acrescentar às nossas habilidades o manuseio
de sistemas informatizados e o conhecimento de processos de
telemática, afora, é claro, uma percepção mais aguda do cotidiano.” Um profissional capaz e com qualificação adequada pode servir de mediador entre as diversas “tribos” do mundo globalizado.
Assim sendo, outro aspecto que pode ser considerado é a expansão do mercado de trabalho. A indústria farmacêutica internacional, por exemplo, está contratando jornalistas e publicitários para
traduzirem a linguagem médica das bulas de medicamentos, de
modo a torná-las acessíveis ao grande público, e assim evitar os
erros de interpretação e conseqüentemente, os processos judiciais. O mesmo procedimento está sendo adotado pela indústria de
eletrodomésticos da Europa e Ásia, que está montando escritórios de jornalismo e relações públicas para a produção dos manuais
de instrução. Finalmente, a explosão das chamadas novas mídias
tende a exigir, cada vez mais, um profissional qualificado para a
produção de cd-rom, enciclopédias virtuais e banco de dados, a
exemplo do que já acontece hoje.
Mas como formar esse profissional? Essa talvez seja a principal discussão que permeia o cotidiano das escolas de Comunicação e Jornalismo país afora. Como formar um jornalista que saiba
aliar a capacidade técnica de produção com um olhar crítico da
realidade? Para muitos essa parceria é inviável. Talvez devamos considerar questões como: (1) as novas tecnologias da informação
desencadearam uma discussão sobre a identidade e a sobrevivência das profissões que eram responsáveis pela mediação simbólica.
Nesse contexto, o que é ser jornalista na atualidade? (2) sendo as
ciências da Comunicação e Jornalismo – e os estudos teóricos
relacionados a ambas, como os estudos culturais – um dos contextos em que se procede uma reflexão multifacetada e transdisci-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
211
plinar sobre o mundo de hoje, como deveria ser a formação de
um profissional que dê conta dessa realidade, levando em conta
questões éticas, estéticas e de linguagem que as especificidades do
jornalismo exigem? (3) considerando o jornalismo online como
transposição de uma certa forma de olhar a realidade (o olhar jornalístico) para o suporte informático, será possível afirmar que a
especificidade do meio não altera a especificidade da mensagem?
(4) até onde a construção desse profissional deve aprofundar saberes específicos ou mesclá-los com generalidades e saberes localizados?
As respostas a estas questões talvez possam ser facilitadas se tivermos claro que o jornalismo sempre teve seu fazer
cotidiano ligado à tecnologia. A cada novo invento a profissão
modifica suas práticas, desenvolve linguagens, cria novas formas de mostrar o mundo através da informação. A assimilação
desse fato facilita o vislumbre do profissional necessário para a
atualidade: um profissional que cumpre as atividades jornalísticas tradicionais, mas que utiliza a Internet e o mundo em rede
como ferramenta cotidiana.
A informatização nas redações catarinenses:
pioneirismo e contradições
Em todo o Brasil, a modernização nas empresas de comunicação começou pelas áreas gráfica e gerencial, na década de 70. Já
nas redações o processo foi iniciado na década de 80, com a chegada dos computadores. O jornal “Folha de S. Paulo” foi um dos
pioneiros na adoção e criação de uma rede informatizada. O processo, no país inteiro, apesar de lento, sempre foi incentivado pela
Associação Nacional dos Jornais, que via com bons olhos “a modernização da infra-estrutrura física e administrativa das empresas
de comunicação“, como forma de racionalizar custos e de prepa-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
212
rar para uma “possibilidade de ampliação de mercado e de internacionalização da comunicação, através do advento da Internet.7
Em Santa Catarina, o processo não foi diferente. A reforma
dos parques gráficos começou no jornal “O Estado” em 1971,
seguido pelo “Jornal de Santa Catarina”, em 1972, e, finalmente,
por “A Notícia”, que só em 1980 adotou a off-set. No interior, a
adoção de novas formas de imprimir deu-se aos poucos, sendo
que até 1992 o jornal “O Município”, de Brusque, ainda tirava suas
edições em linotipia. Compreensivelmente, o processo de modernização das redações apresentou surpresas e veio acompanhado
de pioneirismo e contradição.
Pioneirismo por conta da implantação do “Diário Catarinense”, do grupo RBS, o primeiro jornal a “nascer” informatizado na
América Latina. A criação do DC, em maio de 1986, mostrou aos
jornalistas catarinenses uma nova realidade, que mesclava necessidade de reciclagem profissional e adaptação a novas ferramentas
de trabalho. No ano de sua implantação, o DC atingia 166 municípios, com uma circulação média de 26 mil exemplares, considerando-se assinaturas e venda avulsa. Sua redação era composta por
126 jornalistas, entre repórteres, redatores, editores, fotógrafos
e diagramadores.
Contradição gerada por relações de trabalho truculentas,
marcadas pelo desrespeito a jornada profissional de cinco horas,
demissões arbitrárias e até o enquadramento dos profissionais em
outras categorias, como forma de burlar as leis trabalhistas e do
piso salarial vigente. No final da década de 80 e início de 90 uma
série de greves, paralisações e protestos mostraram a organização dos jornalistas catarinense e o resultado desse processo foi o
fortalecimento do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina e da
categoria profissional.
7 Ver, Baldessar, Maria José. Estudo sobre a Associação Nacional dos Jornais.
Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da UFSC. Mimeo, 1997.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
213
Mas onde está a diferença?
A estrutura da redação do DC era diferente de tudo o que
era conhecido no jornalismo catarinense até então. Cada editoria
ficava em uma sala e em cada uma delas havia diversos monitores
ligados a uma única CPU – eram os chamados computadores burros, já que serviam exclusivamente para escrever. Simplesmente
substituíam as máquinas de datilografia. Cada profissional dispunha
de uma senha para abrir sua “máquina” e modificar o texto. Na
diagramação e fotografia, as novidades se misturavam com a tradição: embora os terminais permitissem um pré-cálculo do tamanho da matéria, os diagramadores continuaram a usar as réguas de
paica e os diagramas. Isso só mudaria anos mais tarde com o aperfeiçoamento dos processadores de texto. No fotojornalismo, por
sua vez, o processo de digitalização só começaria no final da década seguinte.
Ainda dentro da experiência pioneira do DC, outra novidade
foram as estações móveis de trabalho. Eram uma prerrogativa dos
repórteres especiais, que não precisavam se deslocar até a redação para terminar a matéria. Para os jornalistas, isso implicava a
possibilidade de cobrir assuntos com mais rapidez e agilidade. No
entanto, a experiência durou menos de dois anos e as estações
móveis foram desativadas por implicarem “gastos excessivos”, que
incluíam horas-extras, hospedagem, alimentação e outros.
Depois do DC, os demais jornais catarinenses seguiram a
tendência de informatização das redações. “A Notícia” iniciou o
processo em 1994, num investimento aproximado de U$$ 500
mil, depois o “Jornal de Santa Catarina” e, mais recentemente, o
jornal “O Estado”. No interior, o processo acompanhou a evolução regional, tendo começado pelos semanários de Criciúma e Chapecó, e se espalhado até mesmo aos jornais de pequeno porte.
A informatização mudou as redações. A limpeza e o silêncio
contrastavam com tudo o que se conhecia. As normas rígidas de
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
214
acesso e uso das máquinas eram complementadas pelos avisos de
“proibido fazer lanche”, “proibido fumar” e outros, que não se
coadunavam com o cotidiano profissional até então estabelecido,
já que a produção do texto para muitos jornalistas começava com
o ritual do cigarro e do café.
Nessa primeira fase, os jornalistas tinham outras preocupações. Em todos os acordos e dissídios coletivos do Sindicato dos
Jornalistas Profissionais de Santa Catarina, a partir de 1986, aparecem cláusulas de proteção ao jornalista em virtude da adoção das
novas tecnologias, como, por exemplo, a das horas de sobreaviso 8 . Estas cláusulas foram muito discutidas, uma vez que todos
estavam a par do que ocorrera na “Folha de S. Paulo”, em 1980,
quando a informatização da redação deixou pelo menos 200 desempregados.
Além do desemprego, os jornalistas logo perceberam outras ameaças: as mudanças na nomenclatura de contratação. Os
diagramadores passaram a ser “paginadores eletrônicos”, tendo
como resultado o enquadramento em outra categoria profissional,
em que o salário era menor e a jornada de trabalho maior que o
limite de cinco horas de trabalho estabelecido pela CLT para os
jornalistas. Em conseqüência, mudaram a representação sindical –
de jornalistas passaram a gráficos.
Outro aspecto relevante foi a juvenização da profissão. As
escolas de comunicação lançam no mercado cerca de três mil pro8 Horas de sobreaviso: “As empresas que exigirem a utilização de aparelhos
eletrônicos de localização, do tipo bip ou telefone portátil, celular ou qualquer
forma de plantão permanente, pagarão adicional de 30% sobre o salário
mensal”.
Adoção de novas tecnologias: “Na hipótese de adoção de novas tecnologias que
possam implicar redução do quadro funcional, as empresas ficam obrigadas a
desenvolver, junto com o Sindicato, estudos de reaproveitamento em outras
atividades dos jornalistas atingidos. Os não aproveitados farão jus a um aviso
prévio de, no mínimo, 90 dias. Para os que tenham mais de 35 anos de idade, o
aviso será de 180 dias.”
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
215
fissionais/ano – em Santa Catarina esse número chega a quase 300.
Esse exército de reserva numeroso, qualificado e jovem tem permitido ao empresariado a opção pela contratação de profissionais
recém formados, em detrimento de outros com mais idade e experiência. Esse procedimento acirra a rotatividade e reforça a
manutenção de salários baixos.
Some-se ainda a estes problemas a questão da saúde. Uma
pesquisa da Organização Mundial do Trabalho, feita em 1984, identificou as doenças cardiovasculares, as neuroses e as doenças do
aparelho digestivo como sendo as enfermidades mais freqüentes
na profissão de jornalista. Onze anos depois, a OIT refaz a pesquisa e acrescenta outros problemas causados pelo computador: deficiências na visão e no sistema reprodutor, lesões permanentes
nos tendões, alergias, epilepsia, estresse, bronquite crônica devido ao ar refrigerado, além de problemas de ergonomia.
Além da deterioração das condições de saúde, a evidência de
precarização no trabalho é observada nos chamados procedimentos flexibilizados. Em 1995, o Sindicato dos Jornalistas de Santa
Catarina deflagrou uma campanha contra o exercício irregular da
profissão. Os laudos da Delegacia Regional do Trabalho, responsável pela fiscalização, não só mostram o desrespeito à legislação profissional como evidenciam a precarização do trabalho. Das trinta
empresas fiscalizadas – entre elas os jornais “Diário Catarinense”,
“A Notícia”, “O Estado” e “Jornal de Santa Catarina” - em seis é
constatada a existência de contratos temporários de trabalho, em
quinze a abolição do controle de ponto através de livro ou máquina, em vinte e duas o não depósito de Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, e em catorze o não pagamento do salário normativo.
Assim, apesar das mudanças físicas nas redações e algumas
alterações nos procedimentos cotidianos de coleta da informação,
no uso da Internet como fonte de dados e do computador como
banco de informações, pode-se afirmar que a introdução dos com-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
216
putadores nas redações catarinenses, assim como em todo o país,
não alterou a condição social do jornalista.
A tecnologia não mudou a relação do jornalista com seu fazer profissional ou com as ferramentas de trabalho necessárias a
ele. Da mesma forma, não mudou a relação entre o empresariado
de comunicação e os profissionais, essa continua sendo mediada
pelo capital e pela apropriação do trabalho.
Referências bibliográficas
CAMPOS, Pedro Celso. Novos paradigmas de produção, emissão e
recepção do discurso. Publicado no Website Observatório da
Imprensa. www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos. Acessado em
23 de junho de 2003.
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JORNALISMO EM PERSPECTIVA
218
Rogério Christofoletti
A preocupação com a ética: tradição e futuro
“A reflexão sobre o jornalismo não pode levar em
conta somente a prática e seus limites, mas também a possibilidade de ruptura com esses limites
para formular uma outra prática. Se reconhecemos a importância contemporânea do jornalismo
e a necessidade de refletirmos sobre ela, temos
de reconhecer que há uma moral que o envolve e
uma ética profissional que pode ser tratada especificamente”.
Francisco José Karam
- Jornalismo, ética e liberdade
Onde fica o centro de gravidade moral de uma profissão?
De que forma uma categoria profissional escolhe e adota suas referências de conduta? Como os indivíduos orientam suas ações
quando estão no campo de trabalho? De que maneira esses sujeitos, que comungam rotinas e valores, manifestam suas preocupações com a ética?
É bem verdade que não há um único pólo irradiador dos
valores deontológicos que marginam as ações dos sujeitos. Há núcleos morais duros em volta dos quais gravitam outros valores e
práticas. O centro de gravidade moral de uma profissão deslocase num raio mínimo, controlado por uma certa rigidez dos princípios e pela indeclinável vontade de alguns de manter a retidão da
conduta. Existem, sim, iniciativas isoladas que tentam traçar linhas
imaginárias que orientem os profissionais na sua lida diária. EntreJORNALISMO EM PERSPECTIVA
219
tanto, esses esforços se liquefazem diante da complexidade das
situações, frente ao dinamismo da vida e à tensão freqüente dos
muitos interesses em jogo. Mais perenes são as iniciativas coletivas, porque essas gozam de mais profundidade nas discussões, de
mais reflexão social, de mais legitimidade e autoridade moral.
Pelo menos no jornalismo, o que se percebe é que o grosso
das iniciativas para a preservação de valores e atenção ética se dá
em dois ambientes: nas entidades de classe e na academia. As primeiras são sindicatos e organizações associativas que reúnem os
profissionais tendo como frente demandas relativas ao trabalho.
Assim, essas entidades de classe não apenas atuam nas esferas de
defesa dos direitos e interesses dos jornalistas, mas também promovem ações de reforço aos valores que dão o perfil identitário
da profissão. Não é à toa que, historicamente, códigos de ética surjam a partir das discussões que essas entidades lideram e estimulam.
Adísia Sá (1999, p. 97) conta que, entre os jornalistas, a preocupação com a ética data dos primeiros tempos de sua organização como categoria profissional. Em 1911, por exemplo, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) “ocupava-se com os delitos de
Imprensa e das incontinências de linguagem dos jornalistas, admitia
a elevação do nível profissional por meio de escolas, para as quais
chegou a elaborar um plano”. Sete anos depois, no primeiro Congresso Brasileiro de Jornalistas, o tema da ética profissional foi intensamente discutido, provocando novos debates nos anos seguintes. Em 1926, Barbosa Lima Sobrinho chega, inclusive, a propor a
criação de um tribunal de imprensa, idéia que não avança.
Baldessar (2003, p. 39) relata que, nessa época, “embora
ainda não tenham um código de ética definido, os jornalistas brasileiros balizam sua atuação pelos códigos vigentes em outros países, marcadamente liberais”.
O primeiro código de ética dos jornalistas brasileiros vai
surgir em fevereiro de 1949, motivado já pela Federação Nacional
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
220
dos Jornalistas, Fenaj – fundada em 1946 – e aprovado no terceiro
congresso nacional da categoria em Salvador1 . O documento era
relativamente longo, prolixo e com poucas condições de perenidade. Mesmo assim, fixava os deveres fundamentais do jornalista,
cuja conduta deveria se pautar por valores que elevassem e dignificassem o ser humano. O código de 1949 “considerava indeclinável dever das empresas coibir a publicação de estampas e fotografias que possam ferir o pudor público, a dignidade e o decoro de
alguém”. Além disso, preocupava-se com o emprego de ternos
dúbios pelo jornalista, o que poderia induzir o leitor a erro e à
desinformação.
Em 1968, a primeira carta de intenções deontológicas dos
jornalistas brasileiros já estava caduca. Por isso, durante o 12º congresso da categoria, em Porto Alegre, um novo código de ética foi
discutido, e “sem que houvesse aceitação dos participantes – mesmo assim foi aprovado”, lembra Adísia Sá (op.cit.). O texto deste
segundo código já era mais sintético, com apenas quinze artigos e
duas disposições gerais. No conteúdo, os jornalistas manifestavam
preocupação com a imparcialidade, com a condição do profissional e seu compromisso com a comunidade, com o sigilo de fontes.
O código ainda apontava a necessidade do profissional esforçar-se
para “aprimorar seus conhecimentos técnico-profissionais, sua
cultura e sua moral”. Entretanto, apesar de fixar os deveres e os
valores que balizariam a conduta, o segundo código deontológico
dos jornalistas não estabelecia as sanções àqueles que desacatassem o documento. Quem fazia cumprir o código eram os sindicatos e eles deveriam decidir as sanções conforme as regras de seus
estatutos de funcionamento.
1 Mario Erbolato (1982, pp.219-220) relata que os jornalistas Alberto Dines e
Washington Novaes teriam formulado uma proposta de código de ética a pedido
da ABI, mas o texto não chegou a ser votado.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
221
Em 1971, a discussão sobre a ética continuava a atrair os
olhares dos profissionais. Da 8ª Conferência de Goiânia, partiu a
orientação de que os sindicatos deveriam promover debates acerca dos valores que norteavam a atuação dos trabalhadores em veículos de comunicação. Reforços a essa proposição são feitos em
1977, na Conferência de Manaus, e em 1981, na de Caucaia, Ceará. Os sindicatos criam comissões locais para a discussão de um
novo texto deontológico nacional. A Fenaj indica uma comissão
para reunir as sugestões vindas de todo o país, e o jornalista mineiro Didimo Paiva assume a relatoria do documento que seria apresentado na 15ª Conferência Nacional, no Rio de Janeiro em 1985.
O texto foi amplamente discutido e aprovado, tornando-se
o terceiro código de ética dos jornalistas brasileiros, versão que
vigora até hoje. Em 1986, o 21º Congresso Nacional da categoria
faz adendos ao texto, e cria a Comissão Nacional de Ética e Liberdade de Expressão. O órgão dá sustentação ao texto e a partir de
1987 os sindicatos se ajustam para seguir as novas orientações de
observação deontológica.
Com 27 artigos, o Código de Ética do Jornalista Brasileiro é
parecido com a sua versão anterior, mas frisa trechos estratégicos.
Trata, por exemplo, o acesso à informação como um direito do cidadão e o exercício de informar como um dever do jornalista; prega a
liberdade de expressão, condena o arbítrio, a censura e a opressão;
orienta a conduta do profissional e ressalta a sua responsabilidade social; por fim, define os trâmites de um processo nas comissões de
ética quando se observa desvio ou falha deontológica. Não são mais
os sindicatos quem deliberam sobre as sanções aos faltosos.
Contemporâneo e bem situado, o código tem consonância
com os principais documentos internacionais acerca do papel dos
meios de comunicação e dos jornalistas, tais como o Código Latino-Americano de Ética Jornalística (1981), a Declaração da Unesco sobre os meios de comunicação (1983), a Declaração de Prin-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
222
cípios da American Society of Newspapers Editors (1975), a Declaração de Chapultepec (1994) e a Declaração de Princípios para
a conduta dos jornalistas, da Federação Internacional dos Jornalistas (FIJ), datada de 1954 e emendada em 1968.
As comissões de ética
Principais braços dos sindicatos no campo da deontologia,
as comissões de ética são um advento recente, prestes a completar vinte anos2. Por determinação do Código, são essas comissões
que recebem denúncias sobre supostos desvios éticos, e que dão
o devido encaminhamento aos casos concretos. São elas também
que propagam com mais empenho os valores próprios da profissão, e assim o fazem com maior autoridade porque contam com
mais legitimidade.
Em Santa Catarina, a primeira Comissão de Ética do Sindicato dos Jornalistas Profissionais surgiu em 1987, na gestão de Celso
Vicenzi. Escolhidos por uma assembléia da categoria após a eleição da diretoria da entidade – conforme estabelece o Código -, os
membros eram Eduardo Meditsch, Elaine Borges, Jarson Frank,
Sérgio Lopes e Mario Medaglia. Entre os propósitos principais do
grupo, estavam a institucionalização da comissão e a divulgação de
sua existência e finalidades. Apesar de ainda pouco conhecida, a
comissão que atuou de 1987 a 1990 chegou a analisar alguns casos, destacadamente em 1989, quando, inclusive, acompanhou o
embate entre dois grupos de jornalistas por ocasião de uma greve.
Em fevereiro daquele ano, uma parcela dos trabalhadores do jornal O Estado, de Florianópolis, decidiu cruzar os braços, enquanto
que outros jornalistas assumiram as funções dos grevistas. A dis2 Segundo Moacir Pereira, presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa
Catarina no final dos anos 70, naquela época, as questões pertinentes à ética
jornalística eram tratadas pela diretoria da entidade, gerando debates internos e
notas públicas, quando o assunto se mostrava mais grave.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
223
cussão sobre se a adesão à paralisação teria sido uma infração ética
foi a espinha dorsal do processo que consumiu dois meses de trabalho da comissão do Sindicato. Em sua decisão, a Comissão de
Ética não entendeu que os jornalistas tinham ferido os princípios
do Código, mas penalizou o proprietário do jornal, José Matusalém Comelli, com a sua exclusão do quadro de associados do Sindicato, já que havia claro conflito de interesses naquela condição.
Em 1990, uma nova Comissão de Ética foi escolhida pela
assembléia dos jornalistas. Dois nomes se mantiveram – os de
Eduardo Meditsch e Elaine Borges – e a eles se somaram os de
Ademar Vargas de Freitas, Francisco José Karam e Moacir Loth.
Os tempos são de definições importantes na vida social brasileira:
o primeiro presidente civil após o Golpe de 1964 é eleito diretamente; a Constituição de 1988 se infiltra positivamente no cotidiano dos cidadãos. Uma atmosfera de legalismo se espalha pelo
país ao mesmo tempo em que se multiplicam as denúncias sobre
corrupção na esfera pública. Fixam-se na mentalidade coletiva valores como “cidadania”, “civismo” e “justiça”, e esse espírito vai
ajudar a forjar uma casca moral um pouco mais rígida no imaginário
nacional. Pelo menos no terreno da administração pública. Essas
transformações contribuem para um resgate de alguns princípios
esquecidos pela população (ou pelo menos recalcados pela ditadura militar). Camadas sociais cada vez mais expressivas vão rechaçar o “jeitinho brasileiro”, a “impunidade” e o “mandonismo”.
Foi num ambiente como esse que a Comissão de Ética do
Sindicato atuou. Não é à toa que deste período emergiram severas
punições em processos éticos no Estado: duas advertências públicas a jornalistas, veiculadas nas páginas dos quatro principais jornais catarinenses3 . Num dos casos, um colunista foi advertido por
3 Na época, o Sindicato não tinha ainda o seu próprio informativo impresso, o Papel
Jornal. E todas as suas decisões mais importantes eram veiculadas na Coluna dos
Jornalistas, publicada em “A Notícia”, “Diário Catarinense”, “O Estado” e “Jornal
de Santa Catarina”.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
224
defender a aplicação da censura e estimular a demissão de jornalistas; em outro caso, o réu desrespeitara acintosamente fontes mencionadas em suas crônicas. Nas duas situações, o Código de Ética
foi ferido e em ambos os casos, os envolvidos tiveram amplas condições para se defender, mas simplesmente ignoraram as convocações da Comissão de Ética.
Com os resultados do trabalho, a instância se consolidou
como referência ética no Estado, e as denúncias de condutas reprimíveis cresceram nos anos seguintes. Entre 1991 e 1993, os
arquivos da Comissão no Sindicato contabilizam a tramitação de
sete casos, e entre 1994 e 2000, mais seis.
Em 1993, toma posse a terceira Comissão de Ética do SJSC:
Francisco José Karam, Moacir Loth, Celso Vicenzi, Doroti Port e
José Gayoso. Para um período de mais três anos, em 1996, são
eleitos Silvio Melatti, Aluízio Amorim, Mario Xavier, Elaine Borges
e Eduardo Meditsch. As duas comissões trabalharam sob o período das gestões de Sérgio Murillo de Andrade à frente do Sindicato
e não apenas analisaram denúncias como também tiveram ações
afirmativas como a impressão e distribuição de milhares de exemplares de bolso do Código de Ética do Jornalista, com o apoio da
Agência de Comunicação (Agecom-UFSC) e da gráfica da Universidade Federal de Santa Catarina4.
Em 1997, a Comissão de Ética decidiu consultar a categoria
para aperfeiçoar seu trabalho. Para isso, um questionário simples,
com sete perguntas, foi distribuído entre os jornalistas de diversas
partes do Estado. As respostas apontaram para o fato de que nem
todos se consideravam bem informados sobre ética, mas que todos achavam muito importante o assunto. A sondagem ainda reuniu sugestões e considerações sobre como a Comissão de Ética
deveria atuar melhor.
4 Esse mesmo esforço já havia sido feito em 1992 na Comissão de Ética anterior,
conforme lembrou Francisco José Karam.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
225
Em 1999, houve uma evidente renovação nos quadros da
Comissão de Ética do sindicato catarinense. Assumiram os postos
os jornalistas Raquel Moysés, Laudelino Santos Neto, Nilson Lage,
Francisco José Karam e Sérgio Murillo de Andrade. Para o período
de 2002 a 2005, foram escolhidos os jornalistas Maria José Baldessar, Celso Vicenzi, Edelberto Behs, Eduardo Meditsch e Laudelino dos Santos Neto.
Mesmo tendo pouco poder punitivo – a expulsão do Sindicato e a advertência pública são as maiores sanções, conforme o
Código -, as comissões vêm trabalhando. Muito possivelmente por
causa disso, o número de denúncias vem caindo gradativamente.
Tanto é que entre 2001 e 2004, foram protocoladas na sede do
Sindicato apenas quatro ocorrências. Destas, duas não deram andamento – ou por não ser da competência de análise da Comissão
ou por fugir de seu alcance de julgamento. Uma terceira foi encaminhada à Comissão Nacional de Ética e Liberdade de Expressão,
da Fenaj, para garantir o equilíbrio da avaliação já que a denúncia
havia partido de um dos membros da própria comissão catarinense.
Entre 2000 e 2001, questionei pessoalmente os jornalistas
locais sobre a sua confiança na eficácia do Código de Ética e no
andamento dos processos nas comissões competentes. A pesquisa revelou que os próprios jornalistas “desconhecem muitos dos
dispositivos que têm para fiscalizar seus procedimentos sob um
prisma de valores éticos. Se não os conhecem, como exigir-lhes
que os acessem?” (Christofoletti, 2003, p.139). O estudo mostrou que há dúvidas quanto ao alcance e eficiência do Código de
Ética como um instrumento forte na orientação da conduta dos
jornalistas, o que inibe a apresentação de novas denúncias. Dependentes das queixas externas e submissas às sanções do Código, as
comissões de ética perdem muito de seu poder de atuação, observou-se também.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
226
Eventos
A discussão sobre a ética profissional ganha mais evidência a
partir do final dos anos 80. Com um código deontológico nacional
e comissões de ética em todos os estados, os jornalistas colocam
o debate sobre a conduta profissional no centro de suas preocupações. Não é à toa que o assunto será tema de uma série de eventos
promovidos pelas entidades classistas.
Em Santa Catarina, o 1º Congresso Estadual dos Jornalistas
vai espelhar essa tendência. Realizado em Rio do Sul, entre 11 e 13
de outubro de 1991, o evento trouxe em seu programa um painel
que discutiu a lei de imprensa, a democratização da comunicação e
a ética profissional. À época, os debatedores foram os jornalistas
Moacir Pereira, Sérgio Murillo de Andrade e Francisco José Karam.
Um ano antes, Florianópolis sediou o 24º Congresso Nacional dos
Jornalistas. Os clamores por mudanças na lei de imprensa e na estrutura concentrada dos meios de comunicação brasileiros foram,
mais uma vez, pauta no evento que ocorreu de 31 de outubro a 4
de novembro de 1990. Na segunda quinzena de agosto de 1992,
Blumenau reuniu a categoria para o 2º Congresso Estadual dos Jornalistas. No programa, debates sobre o mercado de trabalho, sobre o
ensino de comunicação e sobre a ética e a democratização dos meios.
Em 1995, o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina completou 40 anos de atividades. Ao longo das celebrações, destacaram-se dois concorridos debates envolvendo a ética jornalística:
“Que jornalismo é esse?”, com as presenças do diretor de comunicação da Fiat, Fernando Portela, do então ombudsman do ANCapital, Mario Xavier, e do professor da Universidade Federal,
Hélio Schuch; e “Jornalismo, ética e poder”, com o secretário de
governo de Brasília, Hélio Doyle, o então editor de Zero Hora,
Augusto Nunes, e o professor Nilson Lage.
Oito anos depois, em 2003, Florianópolis deu lugar ao 14º
Encontro Nacional de Jornalistas em Assessorias de Comunicação
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
227
(Enjac) e ao 4º Encontro Internacional de Jornalistas em Assessorias de Comunicação no Mercosul. Sob a rubrica “Ética, Formação e
Mercado”, os eventos reuniram mais de trezentos participantes
que discutiram também o tema da ética nas relações com as fontes
de informação, com os clientes e com os colegas dos meios de
comunicação.
As escolas
Enxerga-se com mais nitidez nas entidades de classe as discussões que os profissionais fazem sobre a ética jornalística. Porém, há outro ambiente igualmente fértil para essas reflexões: a
universidade.
No ambiente acadêmico, o ensino propicia a repetição e a
transmissão desses valores deontológicos às próximas gerações
de jornalistas. A pesquisa científica e a produção de conhecimento
ajudam a repensar as práticas do mercado, confrontando-as com
os valores já cristalizados. Esse embate gera uma atmosfera de
crítica e autocrítica que nem sempre é bem recebida pelos profissionais desconectados das universidades, que passam a considerar
que exista uma distância intransponível entre a teoria e a prática,
entre a cotidiano concreto e o ideário das escolas. De qualquer
modo, percebe-se que a academia e a organização classista são os
nichos mais estruturados de discussão da ética profissional e onde
se vê com mais transparência essa preocupação. Grande parte da
produção intelectual sobre ética jornalística vem da academia. E
isso se observa nas estantes e nas novas gerações que passam a
ocupar mais espaços nas redações.
Em 25 anos, Santa Catarina viu surgir onze cursos superiores
para a formação de jornalistas. E todas as regiões hoje são contempladas com unidades de ensino – quase todas particulares, com
exceção da Universidade Federal, em Florianópolis – que atendem
a esses propósitos. É nessas escolas que se forma o grosso da mão
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
228
de obra que abastece o mercado de trabalho local. Mas não apenas
isso. A academia tem funcionado como um pólo gerador de novos
conhecimentos e de muita reflexão sobre o fazer-ser jornalista. No
campo da deontologia, todos os cursos contam com matérias voltadas à discussão da conduta profissional. Há basicamente dois
modelos: um que oferece a disciplina de Legislação e Ética em Jornalismo, que instrui sobre aspectos legais da profissão e que arranha valores e princípios morais da profissão, e outro que oferece
ao aluno duas disciplinas separadas, sendo uma de Ética Jornalística
e outra de Legislação em Comunicação. No primeiro modelo, estão a UFSC, a Univali (Itajaí), a Unisul (Palhoça e Tubarão), o Ielusc
(Joinville), a Unochapecó (Chapecó), a UnC (Concórdia), a Facvest
(Lages) e a Unidavi (Rio do Sul). No segundo, a Estácio de Sá (São
José) e o Ibes (Blumenau). As disciplinas constam de 4 créditos e
carga horária que varia de 60 a 72 horas/aula.
Além do ensino da técnica jornalística e do estímulo à reflexão, parte das universidades a maioria dos livros produzidos sobre
jornalismo. E se o assunto é ética jornalística, os últimos quinze
anos assistiram a uma avalanche de lançamentos editoriais na área,
inclusive com contribuições de Santa Catarina. Neste contexto nacional, é importante citar alguns títulos vindos da academia: “Jornalismo, ética e liberdade”, de Francisco José Karam (Summus, 1997);
“Síndrome da antena parabólica”, de Bernardo Kucinski (Fundação
Perseu Abramo, 1998); “Ética da informação”, de Daniel Cornu
(Edusc, 1998); “A deontologia das mídias”, de Claude-Jean Bertrand (Edusc, 1999); “Ética, cidadania e imprensa”, organizado por
Raquel Paiva (Mauad: 2002); “Ética e jornalismo”, de Mayra Rodrigues (Escrituras, 2002); “O arsenal da democracia” de Claude-Jean
Bertrand (Edusc, 2002); “Monitores de mídia: como o jornalismo
catarinense percebe seus deslizes éticos”, de Rogério Christofoletti (Ed. UFSC e Ed. Univali, 2003) e “A ética jornalística e o interesse público”, de Francisco José Karam (Summus, 2004).
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
229
O que há adiante
Em 2004, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) conseguiu o apoio do governo federal para a tramitação no Congresso
de um projeto de lei que criaria o Conselho Federal de Jornalismo
e suas instâncias regionais. A medida tinha entre os seus objetivos
fortalecer o Código de Ética na medida em que traria mais condições à categoria de punição aos profissionais faltosos. Para muitos,
era uma solução a pouca efetividade das sanções aplicáveis e à oferta de um instrumento importante para a sociedade.
Não totalmente compreendida, a proposta recebeu uma saraivada de críticas do empresariado de comunicações, da política
nacional e até de parcelas da categoria. O projeto de lei tramitou
aceleradamente no Congresso Nacional e foi rejeitado pelo relator,
o deputado Nelson Proença (PPS-RS), visivelmente ligado ao empresariado da radiodifusão gaúcha. Com o descarte dos conselhos
profissionais para os jornalistas, perdeu-se uma histórica chance de
discussão aprofundada sobre as condições em que se produz jornalismo no país. Perdeu-se ainda uma excelente oportunidade de
constituir um instrumento público de acompanhamento da conduta dos jornalistas, visando o cumprimento do código de ética e a
atuação profissional em defesa dos interesses do público. Os conselhos de jornalismo poderiam fazer valer os princípios e valores
éticos expressos pelos jornalistas em seu código deontológico.
Adiada essa possibilidade, o que há pela frente?
Muita coisa pode ser feita. Boa parte do caminho parece já
ter sido palmilhada. As entidades de classe – como os sindicatos e
a própria Fenaj – precisam fortalecer suas comissões de ética, dando transparência ao seu trabalho e difundindo a existência de um
sistema próprio de avaliação da conduta profissional. As entidades
precisam dar mais visibilidade a essas instâncias bem como disseminar mais e mais o seu código deontológico na tentativa de introjetá-lo na vida cotidiana dos trabalhadores. Existe ainda a necessiJORNALISMO EM PERSPECTIVA
230
dade de que o tema da ética permaneça vivo nas rodas de discussão da classe, nos eventos promovidos, nos documentos oficiais e
nas manifestações públicas.
As escolas de comunicação, por sua vez, podem investir mais
na pesquisa e no ensino da deontologia, enfrentando o claro desafio
de tornar a disciplina tão prática e concreta quanto qualquer outra
matéria que trate da técnica no jornalismo. A academia precisa se
aproximar mais do mercado de trabalho e das entidades de classe,
estabelecendo pontes de entendimento comum, preocupadas com
a boa formação dos profissionais e com a sua permanente reflexão
sobre o bom exercício da profissão.
Enfim, a construção de um processo em que a ética esteja no
centro das preocupações jornalísticas é lento, porque segue regras
históricas. Esse processo depende também de um engajamento
coletivo, de reflexão intensa, de crítica e autocrítica permanentes;
é necessária ainda revisão contínua das regras que a categoria e o
público estabelecem. Portanto, é um caminho que não se faz isoladamente. É um caminho que se faz no gerúndio.
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1946 a 1999. 2ª edição revisada, ampliada e atualizada. Fortaleza:
Edições Fundação Demócrito Rocha, 1999.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
232
Francisco José Castilhos Karam
A contribuição das escolas: o curso da UFSC
1
Para que deve existir um curso de Jornalismo? Para formar
profissionais cidadãos? Para formar para o mercado? Para formar
críticos do mercado? Ainda que resumidamente, pode-se responder que é para formar profissionais jornalistas. Teríamos de juntar
as duas palavras numa só – o jornalista profissional e pensar sobre
o que é ser isso, jornalista profissional.
Quando a informação aumenta e a tecnologia se acelera e
diversifica, circula mais conhecimento e, potencialmente, mais saber. Num volume como nunca na história da humanidade, hoje
temos informações instantâneas e dobra-se o volume de informação e conhecimento a cada dois anos, ainda que como qualidade
sempre em discussão.
Como conhecer? Duas das mais antigas universidades do planeta, a de Bolonha, (Itália) e Salamanca (Espanha), que permanecem campos de sistematização do saber apesar dos mais de oito
séculos que as sustentam, podem responder. É possível conhecer
- e ainda mais rapidamente - por meio, precisamente, dos espaços
sistematizados e acelerados dos processos de conhecimento, os
centros de estudos. Eles surgem por necessidade social e porque
não é possível “descobrir a roda” a cada momento; chega-se a ela
rapidamente, por meio do entendimento de como é possível fazêla, sem precisar que a forma quadrada se arredonde ao longo de
décadas ou séculos. Isto é, os campos de conhecimento, resulta1 Parte deste texto formou o dossiê da candidatura do Curso ao Prêmio Luiz Beltrão
de Ciências de Comunicação 2004, vencedora na categoria Instituição
Paradigmática.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
233
do da diversificação dos saberes e da divisão social do trabalho, e
um local onde se possa acessá-los mais rapidamente, transformamse, contemporaneamente, em centros de estudos e, em sua forma
mais elevada e complexa, em universidades. A profissão jornalística seguiu tal tendência por necessidade social e para a afirmação de
um ethos que significa uma forma de ser profissional. E mais: uma
forma moral de ser profissional.
As escolas de Jornalismo em Santa Catarina só chegam no
final de 1979. A primeira foi a da Universidade Federal de Santa
Catarina, seguindo-se, nos últimos 26 anos, mais 10 cursos. Mas,
como pioneira na formação de jornalistas, a UFSC foi destacada
para integrar o livro alusivo aos 50 anos do Sindicato, tarefa certamente delicada. E, também, necessária, já que é preciso uma certa
recuperação de um árduo período.
Assim, faço apenas alguns registros, dos muitos possíveis,
que me pareceram importantes para afirmar o curso de Jornalismo da UFSC no cenário catarinense e nacional. E para afirmar a
necessidade de formação graduada em Jornalismo, tanto diante da
multiplicidade de mídias e de desdobramento tecnológico quanto
diante das especificidades de ordem ética, teórica, estética e técnica que a profissão e a formação para ela demandam.
Da proposição política à qualificação integral
em Jornalismo
Desde sua fundação, em 1979, o curso de Jornalismo persegue a excelência no ensino e o compromisso com a sociedade.
Passados 26 anos, os que agora chegam encontram um ambiente estruturado tecnologicamente, adequado tecnicamente e com
suporte para a reflexão teórica e ética do jornalismo e da mídia.
No entanto, em meados dos anos 70, isso era apenas um
sonho para alguns, um duro projeto a ser criado, com os desafios
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
234
e obstáculos a serem superados. O ambiente então, que vivia o
final da ditadura militar, a luta pela “anistia ampla, geral e irrestrita”
e a incipiente constituição de pólos universitários de ensino e pesquisa sobre a comunicação, a mídia e o jornalismo no país apresentavam alguns desafios: de um lado, a resistência ou a desconfiança
em relação a um curso universitário de Jornalismo em Santa Catarina (o primeiro) em ambiente em que a maioria dos profissionais
que então atuavam não tinham diploma na área ou, sequer, de graduação em outra área; de outro, a realidade - dada a complexidade
crescente social e a profissionalização em outras regiões - exigia
um campo de sistematização do conhecimento prático-teórico e
do envolvimento de tal campo com os novos desdobramentos
sociais que o país viveria dali por diante.
Assim, com o apoio institucional de alguns administradores
da UFSC, um punhado de profissionais, professores e pesquisadores consideraram, contra a visão então hegemônica de setores
profissionais e acadêmicos do estado catarinense, ser necessário
um curso de graduação em Jornalismo. Entre eles, destacou-se a
figura do jornalista Moacir Pereira2 , hoje aposentado, que defendeu, em sucessivas reuniões, a criação do curso e acompanhava os
debates nacionais e internacionais sobre a formação acadêmica. O
curso, iniciado em 1979, teve logo o ingresso de jornalistas então
muito jovens, de grande qualidade técnica e teórica, que contribuíram para a rápida qualificação acadêmica , ainda que a estrutura
funcional fosse incipiente. Pontificam, no início dos anos 80, Daniel
Koslowski Herz, César Orlando Valente, Paulo José da Cunha Brito, Luiz Lanzetta, Carlos Müller, Ayrton Kanitz, Maria Elena Hermosilla e Orlando Tambosi.
E foi de 1979 a 1984, nos primeiros cinco anos, que o curso
estruturou seu projeto pedagógico com base no conhecimento
2 Ver mais detalhes sobre a formação inicial das comissões e primórdios do curso no
capítulo de Mário Xavier, que integra este livro.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
235
prático-teórico, buscando formar profissionais qualificados do
ponto de vista teórico e técnico e com preocupações éticas e estéticas, vinculando sua formação tanto ao exercício diário do jornalismo quanto às questões sócio-políticas e econômicas da sociedade brasileira, como a luta pelas Diretas Já (nome da terceira turma, formada em 31 de março de 1984, e na qual se formou Sérgio
Murillo de Andrade, eleito em 2004 presidente da Federação Nacional dos Jornalistas); as lutas pelas políticas democráticas e públicas de comunicação (movimento iniciado em 84 na UFSC por meio
de Daniel Herz); as mudanças na profissionalização e no compromisso do jornalista com a sociedade (concorrendo, para a presidência do Sindicato dos Jornalistas, em 84, o então professor Ayrton Kanitz), a participação em eventos de porte nacional e estadual, com o envolvimento de alunos e professores (organizando o
Congresso da União Católica Brasileira de Comunicação, em 1981
– memorável encontro que reuniu, então, três mil pessoas; o Encontro Nacional de Estudantes de Comunicação, em 1982; o encontro da Federação Latino-Americana de Faculdades de Comunicação Social - Felafacs, em 1983).
Ao grupo de professores, somavam-se dois dos principais
funcionários técnico-administrativos que dariam sustentação às atividades administrativas, Dalton Barreto e Sônia Silva, o primeiro
até hoje no curso de Jornalismo, realizando excelente trabalho
operacional.
À cultura de comprometimento com mudanças políticas somava-se a necessidade de formar com qualidade os futuros jornalistas. Tal tarefa exigiu dedicação além do previsto, além do contrato de trabalho, além do expediente e do período letivo: foi época
de luta por espaço físico, para alocação de salas de aula e laboratórios; das primeiras reivindicações por mais equipamentos e professores; por posicionamentos políticos contra a ditadura e por
mudanças sociais no país. Tal etapa, que custou aulas no saguão da
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
236
Reitoria, protestos estudantis e luta pela defesa da formação (diploma), como em 1986, capitaneada pelo recém-professor Hélio
Schuch e já então coordenador do curso. As culturas profissional e
política se ampliavam.
Foi no início dos anos 80, precisamente em março de 1983,
que ingressou nos quadros do Jornalismo da UFSC o professor
Adelmo Genro Filho, falecido cinco anos depois, responsável pela
ampliação das preocupações e reflexões sobre a área, tornando-se
referência teórica e ética para os colegas, alunos e categoria profissional, autor de diversos livros sobre política e um especial sobre Teoria do Jornalismo, hoje um clássico na área. Em novembro
de 2004, em Salvador (Bahia), a Assembléia Geral da Sociedade
Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo criou o Prêmio de Pesquisa em Jornalismo Adelmo Genro Filho, nome que obteve a maioria dos votos diante de quatro apresentados no 2º Encontro da
SBPJor. Foi o reconhecimento pelo pioneirismo na constituição de
uma teoria bem sistematizada para a área, que se tornou disciplina
no curso de UFSC e em vários espalhados por todo o país, superando resistências do campo da Comunicação, refratária a estudos
específicos sobre jornalismo.
De 83 a 88, o curso teve algumas modificações estruturais,
com a saída então do primeiro grupo de professores, convidados
a atuar em novos e desafiantes projetos, no país e exterior, entre
eles Herz, Lanzetta, Kanitz, Müller, Maria Elena e Valente, embora
este último sempre tenha mantido relação muito próxima à instituição, tendo retornado, como substituto ou convidado, para colaborar na manutenção da qualidade didático-pedagógica do projeto. No entanto, quase todo o grupo inicial sempre manteve contato, que até hoje perdura, com professores e ex-alunos, além de
acompanhar o movimento do curso até 2005. Foi um período de
ingresso de novos e jovens professores, que uniam militância política e experiência/cultura profissional.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
237
Em 1982, chega ao curso o professor Eduardo Barreto Vianna Meditsch, que amplia a cultura profissional naquela década e
se torna responsável pelo desenvolvimento de pesquisas, especialmente na área de rádio, e de projetos de extensão, iniciando-se
discussões sobre um novo currículo, mais adequado aos novos
rumos sociais e de acordo com os desdobramentos tecnológicos
que o final da década de 80 e anos 90 iriam enfrentar. Simultaneamente, ou logo depois, já no decorrer dos anos 80, ingressam
professores como Hélio Ademar Schuch, Francisco José Castilhos Karam, Luiz Scotto, Ricardo Barreto, Valci Zuculoto, Gilka
Girardello, Carmem Rial, Neila Bianchin, Regina Carvalho, Mauro
Pommer, Sérgio Weigert e Sérgio Mattos, que, ao lado de já exalunos como Maria José Baldessar , Carlos Locatelli, Aglair Bernardo, Fernando Crócomo, Áureo Moraes e Ivan Giacomelli (estes
entre o final dos anos 80 e década de 90) renovam os desafios,
mantendo o compromisso com as grandes questões sociais sem
perder a necessidade sempre renovada de atualização curricular,
envolvimento com temas da categoria profissional e qualificação
prático-teórica.
Durante todos os 26 anos, continuando nos últimos seis, de
2000 a 2005, o curso sempre esteve atuando ao lado das questões profissionais, como debates ético-deontológicos junto com o
Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina e com a Federação Nacional dos Jornalistas, não perdendo nunca, de vista, a intervenção
e a discussão sobre a formação profissional, o Conselho Federal
de Jornalismo, a Lei de Imprensa, os Direitos Autorais, o Conselho
de Comunicação Social, o Fórum Nacional pela Democratização
da Comunicação e muitos outros temas.
Da mesma forma, nos últimos cinco anos, ampliou-se a parceria para melhorar a formação dos profissionais, por meio da
criação de espaços específicos de debates sobre a profissão e da
qualificação prático-teórica. Muitos alunos têm participado de pro-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
238
gramas de estágio ou aperfeiçoamento como os da TV Globo, do
Estado de S. Paulo, Editora Abril, Sportv, Projeto Caras Novas
(hoje desativado) da Rede Brasil Sul; e por meio de dois programas especiais, como o da Cátedra Fenaj-UFSC de Jornalismo para
a Cidadania e o da Cátedra UFSC-RBS para aproximação ao mercado profissional. São projetos que ampliam e sedimentam a pluralidade necessária ao ambiente universitário, permitindo tanto a busca
pelo emprego quanto mantendo a capacidade crítica diante do entorno profissional e social. E contemplam o disposto no Programa
Nacional de Qualidade de Ensino da Fenai, aprovado em 1987, e
subscrito pelas principais entidades da área, como Intercom, Compós, Abecom e Enecos.
Ensino/Currículos
Depois de passar por sucessivas mudanças ao longo de 26
anos, o currículo atual do curso de Jornalismo – o sexto de sua
trajetória – está novamente em discussão. Acredita-se que assim
deve ser, buscando novas exigências e estimulando novos estudos,
além de refletir necessidades de novas áreas e procedimentos, tanto
específicos profissionais quanto de carências sociais.
O último currículo, de 1991, atualizado em 1996, é o mais
longo da história do curso, por razões que parecem ser mais um
mérito do que dificuldades em alterá-lo. A explicação está, basicamente, no fato de que o currículo é “móvel”. Há uma parte de
disciplinas obrigatórias, em torno de 55 a 60%, uma parte de disciplinas optativas e uma terceira que, além de ser optativa, é formada por tópicos especiais, sem nome de disciplina apriorístico.
Parece que, assim, além de cursar as necessárias obrigatórias e as
optativas – podendo dar ênfase mais à área de mídia impressa ou
telejornalística ou digital, por exemplo – também, por meio de
tópicos, é possível adequar rapidamente (a cada semestre) as ne-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
239
cessidades de formação a aspectos emergenciais que surgem, como
disciplinas que podem ser, por exemplo, sobre questões de cultura, história , economia, política, comportamento – tanto por meio
de reportagens em qualquer suporte quanto temáticas de discussões e seminários. Há a opção, ainda, de buscar disciplinas em
outros cursos da Universidade, abrindo-se a interdisciplinaridade
própria do Jornalismo, que lida com todas as áreas sociais.
O curso também é voltado, desde a primeira fase, para a
formação profissional em Jornalismo. Na primeira fase, há disciplinas como Técnica de Reportagem, Fotojornalismo, Redação para
Rádio e TV e outras laboratoriais que, junto com a de Comunicação e Realidade Brasileira I, permite a conexão entre aspectos específicos da profissão com o entendimento e a reflexão sobre aspectos históricos do Brasil. Tal lógica percorre todo o currículo,
buscando o saber fazer e o saber pensar sobre o fazer, relacionando
sua futura atividade à sociedade em que a profissão está inserida.
Assim, acompanham as disciplinas como Tele I , Radio I, Planejamento Gráfico, Jornalismo on line, Foto, um outro conjunto de
disciplinas que ensinam a escrever e a pesquisar, seja em voltadas
para o texto de revista ou jornal, seja em investigação via internet.
Ao mesmo tempo, disciplinas como Teoria da Comunicação, Teoria do Jornalismo, Legislação e Ética do Jornalismo, Estética e Cultura de Massas, Políticas de Comunicação, Método de Pesquisa,
Comunicação e Filosofia e o conjunto de tópicos e optativas permitem ao aluno chegar, no último ano, podendo escolher tema
adequado para o Trabalho de Conclusão de Curso, juntamente com
o suporte mais apropriado em cada caso. Assim, os TCCs permitem escolher, também, a área para desenvolver o projeto, seja
Grande Reportagem (por exemplo, para revista, jornal, tele ou
rádio), Pesquisa Científica (objeto de estudos em Jornalismo) ou
Práticas Editoriais (por exemplo implantação de sítios digitais, programas de rádio ou tevê, revistas ou jornais e similares).
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
240
Nos 26 anos de existência, o curso da UFSC formou ao redor de 800 profissionais, hoje espalhados pelo estado e país, além
de vários terem escolhido o exterior para viver, cursar pós-graduação ou trabalhar. Muitos deles atuam em jornais, revistas, portais,
rádios e tevês, no estado ou pelo país afora. A mudança nas rotinas
profissionais, o surgimento de novas tecnologias e a crise de empregabilidade gerou novos desafios e necessidades: atuar em assessorias de imprensa ou de comunicação; prestar serviços por
meio de micro-empresas e similares, tarefa a que muitos hoje se
dedicam.
Extensão
A partir de 1991, o curso de Jornalismo ampliou significativamente seus projetos de extensão internos ou junto à comunidade.
Hoje, o Projeto Universidade Aberta obtém reconhecimento nacional. Trata-se de sítio digital com atualização, em média, a
cada 30 minutos, e com plantões aos finais de semana, trazendo
informações sobre a Universidade Federal de Santa Catarina e o
mundo da Educação, tanto no âmbito da própria UFSC quanto no
estado e no país, mesclando notícias com grandes reportagens temáticas.
O Unaberta Digital, a partir de 1998, que em média tem
três mil acessos por dia, chega, em coberturas especiais como o
vestibular ou durante as greves, a 10 mil acessos diários. A produção é feita por alunos bolsistas ou voluntários, supervisionados por
professores da área. Também o Unaberta Rádio mantém programas sobre a Universidade e a Educação em emissoras locais, como
Rádio Cultura e CBN, e mantém, 24 horas no ar, a Radioponto
UFSC, via internet.
No telejornalismo, o TV e Ação Comunitária, a Revista da
Semana e outros ocupam os espaços destinados pela UFSC TV
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
241
(canal a cabo) e pela TV Cultura local (aberto). Mantém-se, junto à
comunidade, o projeto Rádio Beatriz, junto a uma escola do Bairro
Pantanal, supervisionado por acadêmico bolsista. Mantém-se o
Núcleo de Radioteatro, os jornais murais, o jornal-laboratório
“Zero” e desenvolve-se, junto à comunidade, assessoria para desenvolvimento de pequenas revistas e jornais, além de sítios digitais, como o da Associação dos Aposentados do Hospital Universitário, da Associação Catarinense de Integração do Cego, e de
entidades filantrópicas ou sem fins lucrativos, ressaltando-se, no
momento seguinte, a necessidade de buscar parcerias para profissionalizar os respectivos setores.
Tais projetos foram intensificados a partir de 1998, acrescentando-se a cobertura do Vestibular e sua produção midiática
jornalística. Com isso, a cada ano, se produz um conjunto de programas que, em 2003, chegou aos seguintes indicadores: programas em vídeo – 252; sítios digitais produzidos – 21; edições de
jornal – 8; programas de rádio – 1296; projetos prestados junto à
comunidade, envolvendo comunicação institucional – 14. Destacase que, mesmo nos programas não diretamente vinculados à comunidade, há tratamento de temas de interesse não apenas da universidade, mas de segmentos do entorno social e da educação
como um todo. Os Trabalhos de Conclusão de Curso ampliam os
dados a cada ano, sendo momento profícuo de apresentação e de
debates sobre a formação e o resultado dela para o futuro jornalista e para a sociedade.
Em 2004, foram criados dois núcleos: o de Projetos Editoriais e o de Televisão Digital Interativa, capazes de desenvolver
pesquisas e projetos que auxiliem tanto a formação como desenvolvam o mercado qualitativamente. São projetos com a participação de professores, alunos e funcionários especializados, e buscam a captação de recursos junto a órgãos de fomento e estabelecem parcerias com instituições públicas e privadas. Foi criado, ain-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
242
da, o Laboratório de Mídias Digitais e Convergência Tecnológica,
para desenvolver projetos adequados aos próximos anos, tanto no
sentido de proposição de estudos e soluções quanto no de acompanhar o desdobramento da área na atividade jornalística em seus
aspectos técnicos, éticos e políticos.
Estrutura laboratorial
Em parte, este acréscimo de projetos deveu-se, a partir do
início dos anos 2000, à chegada de equipamentos via Governo
Federal, conhecido como projeto Fungradão, destinado a melhorar as condições de ensino e aparelhar tecnologicamente as instituições federais de ensino superior. Bem aproveitado, tal projeto
fez com que o curso de Jornalismo da UFSC tenha conseguido –
juntamente com outros apresentados junto a instituições de fomento – estruturar seus laboratórios, por exemplo, com quatorze
estações não lineares para edição de vídeo; softwares atualizados
nas áreas de telejornalismo, fotojornalismo, radiojornalismo e jornalismo digital, com câmeras fotográficas e de vídeo de última geração, com digitalização de praticamente todas as suas produções.
O número de equipamentos nos laboratórios de rádio, tele, foto,
mídia impressa, internet, sites e afins permite, hoje, que se trabalhe com um aluno por computador nos laboratórios, características possíveis dada a divisão das turmas laboratoriais em no máximo 15 alunos por sala e, nas teóricas, de 30 por sala. Com dois ingressos de 30 alunos, nos meses de março e agosto, totalizando 60, é
possível manter tal perspectiva, que atende o conceito A no item específico previsto nos processos de avaliação dos cursos da área.
Da mesma forma, o espaço de planejamento e confecção
dos trabalhos de conclusão de curso, permitindo que o aluno trabalhe Pesquisa Científica, Grande Reportagem ou Práticas Editoriais, tem produzido alguns projetos que resultam em sítios digitais
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
243
permanentes, como o de adoção de menores; livros como reportagens sobre política, esportes ou narcotráfico; pesquisas sobre
jornais catarinenses, dentro do espírito da plataforma Rede Alfredo de Carvalho para a História da Mídia, quer tem na UFSC a
produção de seu sítio digital, juntamente com outros, como o da
SBPJor, Unaberta e Jornalismo no Cinema.
Alguns dos trabalhos têm sido apresentados em eventos e
obtido destaque, seja no Expocom (premiação da Intercom para
produção de alunos da graduação), seleção para apresentação em
emissoras de rádio ou tevê, concursos catarinenses e similares.
Pesquisa/produção científica
O curso de Jornalismo da UFSC é de graduação, voltado
para a formação do jornalista qualificado nos planos teórico, ético,
técnico, estético e tecnológico. A perspectiva, para 2006, é a criação do mestrado acadêmico em Jornalismo. Atualmente, mantém
Programa de Estudos em Jornalismo e Mídia, nível de Especialização, em sua quarta edição durante 2005. E programa ainda incipiente de pesquisa na graduação, por meio da Iniciação Científica.
O corpo docente, ao qual se integraram nos últimos dois
anos as professoras Gislene Silva e Heloiza Herscovitz, produz
periodicamente nas suas áreas, seja por meio de livros, artigos,
resenhas e participações em eventos como os do Congresso da
Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (Intercom), os encontros da Compós (encontro de programas das pós-graduações), do Fórum Nacional de Professores de
Jornalismo, da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor) e da Associação Latino-Americana de Investigadores
da Comunicação (Alaic), assim como em congressos em países
europeus e nos Estados Unidos. Vários dos docentes integram
diretorias de entidades de pesquisa na área, seja no corpo diretor
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
244
ou como coordenação de Grupo de Trabalho. E parte integra, também, conselhos editoriais de revistas acadêmicas.
A ampliação de estudos na área, mais especificamente no
campo do Jornalismo, cresceu a partir dos anos 1990, especialmente a partir de 92, com a contratação do professor Nilson Lemos Lage, que, agora já com 50 anos de experiência, incluindo
atividades profissionais e acadêmicas, contribuiu para grande visibilidade social e profissional do curso por meio de sua extensa
produção científica e reconhecimento nacional de sua atividade nas
redações e na academia.
Palavras finais
O Curso de Jornalismo mantém, desde 1998, seu sítio digital no ar, onde poderá ser conhecida parte da trajetória, incluindo,
hoje, o corpo docente, os alunos, o currículo, os programas, a
produção científica e outros itens. Está acessível por meio de
www.jornalismo.ufsc.br.
Quando comemorou 25 anos, venceu o renomado prêmio
Luiz Beltrão de Ciências da Comunicação’2004, na categoria Instituição Paradigmática. É o principal prêmio na área acadêmica e tal
fato confirma os caminhos, ainda que árduos, trilhados pelo Jornalismo da UFSC na implementação e consolidação de seu projeto
didático-pedagógico. Também, pelo terceiro ano consecutivo
(2002, 2003, 2004), houve a atribuição de conceito Cinco Estrelas pelo Guia do Estudante da Abril, nos dois últimos de forma
isolada.
O projeto descrito aqui não é o único existente e nem o
exclusivo a seguir. Mas certamente, ao focar seu projeto didáticopedagógico em Jornalismo, o curso da UFSC ajudou a consolidar a
profissão e a formação no estado catarinense e no Brasil, além de
torná-las mais úteis e consistentes no tratamento das questões de
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
245
interesse social a partir de sua especificidade, precisamente porque valorizou o profissional integral. Apesar das dificuldades operativas no dia-a-dia de uma Universidade Pública, o curso soube,
pelo envolvimento de professores, servidores técnico-administrativos e alunos, encontrar um caminho que legitimou sua aposta:
um projeto voltado para a formação de jornalistas, com as dimensões que significam as palavras formação e jornalista, vinculadas às
contribuições sociais que delas decorrem.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
246
Mário Xavier
A contribuição catarinense ao ser-fazer
jornalístico e à Crítica de Mídia
Nos 50 anos de existência do Sindicato dos Jornalistas de
Santa Catarina (SJSC) - de 1955 a 2005 -, a imprensa do estado e
do país registrou grandes e marcantes transformações nos campos político-ideológico, industrial-tecnológico, comercial-mercadológico e de conteúdo editorial. Uma parte significativa dessas
mudanças refletiu macro tendências mundiais e se inseriu, no Brasil, em diferentes períodos como: o pós II Guerra, os anos JK, a
ditadura militar dos anos 60 e 70, a redemocratização nos anos
80, o neoliberalismo e a globalização dos anos 90.
As cinco décadas que nos antecederam coincidem com a
criação dos primeiros cursos de Jornalismo e faculdades de Comunicação Social do país, nos anos 50: uma demanda da sociedade
e da categoria, resultante da própria evolução e complexidade crescentes da mídia e do fazer jornalístico. Nos anos 70, a academia
passou a aprimorar a formação, a pesquisa e a pós-graduação no
campo midiático. E o movimento sindical ressurgiu também com
mais força no começo dos anos 80, como resposta à reorganização da sociedade civil e da promulgação da nova Constituição em
1988, incentivando a defesa pública dos direitos elementares dos
cidadãos, eleitores, contribuintes e consumidores.
Os anos 90 representaram a tentativa de afirmação de um
jornalismo voltado crescentemente para os interesses sociais amplos, de forma a atender o cidadão nas suas expectativas de uma
informação cada dia mais ética, plural e de qualidade. Surgiu então
a consciência da necessidade de instrumentos e ferramentas que
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
247
contribuíssem mais diretamente para o aperfeiçoamento da imprensa e dos jornalistas, mediante uma crítica sistemática da mídia
e uma permanente atenção ao ser-fazer jornalístico.
Em Santa Catarina - como no Brasil de um modo geral -,
ainda há muito a construir e consolidar nesse campo. Mas já é possível pinçar, ao longo dos anos, ações práticas que contribuíram
para aperfeiçoar o exercício do jornalismo, qualificar a atuação da
categoria e abrir diversos caminhos para a formulação e exercício
de uma crítica de mídia fundamentada na observação, no monitoramento público e na auto-observação. A linha do tempo a seguir
visa resgatar e pontuar cronologicamente momentos dessa trajetória de contribuições catarinenses ao tema em pauta, buscando
servir de inspiração e referência para pesquisas e projetos futuros
mais detalhados e aprofundados sobre o assunto.
1955
A Associação dos Jornalistas Profissionais - fundada em 18/11/1953
e que deu origem ao SJSC - recebe a Carta Sindical dia 13 de
maio, tornando-se a entidade credenciada a representar e defender coletiva e juridicamente os interesses dos profissionais
que atuam em todo o estado.
1962 a 1963
Registram-se as primeiras campanhas públicas pela valorização da
categoria e promoção de valores éticos e profissionais junto aos
associados e à comunidade. A iniciativa foi de um Comando
Permanente de Ação liderado pelos jornalistas sindicalizados Eurides Antunes de Severo, Adolfo Ziguelli, Melo Prates, Silveira
Lenzi, Jorge Cherem, Amaral e Silva e outros, de oposição à diretoria do SJSC na época, que vinha descumprindo suas obrigações.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
248
A campanha de moralização denunciou a emissão irregular de carteiras de jornalistas, que era feita com a conivência de órgãos
como o Ministério do Trabalho. Questionou legislações governamentais para jornalistas e combateu o usufruto ilegal de direitos tais como: isenção de imposto de renda e do imposto intervivos; descontos de 50% nas passagens aéreas e nas passagens
terrestres; aposentadoria especial; tratamento especial da justiça civil; facilidades de financiamento para aquisição da casa própria e de automóvel. A fim de usufruírem ilegalmente desses
benefícios, alguns buscavam obter o status de jornalista junto ao
SJSC e ao Ministério do Trabalho, mediante declarações falsas
de empresas do setor. Somente uma “empresa jornalística” havia emitido 73 atestados falsos.
Isso fez com que, entre 1962 e 1963, o número de verdadeiros
jornalistas sindicalizados, num total de aproximadamente 400,
fosse de apenas cerca de 30% dos associados ao SJSC, sendo
os outros 70% composto pelos pseudojornalistas que detinham
carteiras frias, o que resultava em descrédito público da categoria e deterioração da profissão. “Eram pessoas que estavam interessadas nos benefícios materiais, em detrimento da responsabilidade de informar”, relembra Severo, veterano radialista e
jornalista catarinense. Na lista dos “jornalistas” ilegais de então,
encontravam-se até mesmo indivíduos de destacada posição
econômica e social: secretários de estado, deputados, prefeitos, banqueiros, comerciantes bem-sucedidos, industriais, funcionários públicos e autoridades do clero.
Em 29 de abril de 1963 (cerca de um ano antes do golpe militar
de 1964), o SJSC organiza o 1º Seminário de Imprensa Universitária, em Florianópolis, integrando os estudantes do ensino superior na campanha de moralização da classe jornalística. “Não
faltou quem nos acusasse de comunistas perigosos, extremistas
exaltados”, descreve um relato do Comando de Ação Permanente da época.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
249
1968
É fundada a Associação Catarinense de Imprensa (ACI), também
denominada Casa do Jornalista.
1969
O SJSC passa a propor a criação de um curso superior de Jornalismo em Santa Catarina para qualificar os profissionais e suprir as
deficiências do mercado de trabalho regional, que obrigava as
empresas jornalísticas a requisitar profissionais de outros centros. Na década de 60, 70 e meados de 80, muitos jornalistas já
graduados ou com experiência profissional migraram para Santa
Catarina, notadamente do Rio Grande do Sul.
1971
É criado em Blumenau o “Jornal de Santa Catarina”, o primeiro
com o projeto editorial de cobertura estadual. O Santa marcou
também o começo de um novo estilo profissional, sob o comando do jornalista e ex-professor da PUC de Porto Alegre,
Nestor Fedrizzi, também o primeiro diretor de telejornalismo
da TV Coligadas.
1973
É formado o primeiro grupo de trabalho para a criação do curso
de Jornalismo da UFSC. Entre os participantes, incluem-se: a
professora Aurora Goulart, os professores Aníbal Nunes Pires
e Murilo Pirajá Martins, e os jornalistas Antônio Kowalski Sobrinho, Marcílio Medeiros Filho, Moacir Pereira e Osmar Teixeira.
1975
O jornalista Moacir Pereira preside o SJSC de 1975 a 1978. Segundo Pereira, o destaque desse período foram as lutas do SinJORNALISMO EM PERSPECTIVA
250
dicato pela defesa das liberdades, contra a censura e pelo aprimoramento profissional. Na época, foi assinado o primeiro acordo coletivo entre a categoria e as empresas do setor, estabelecendo piso salarial de seis salários-mínimos. Foi lançado também o primeiro jornal do SJSC, além da realização de seminários, debates, palestras com profissionais de destaque nacional e
internacional.
O jornalista Adolfo Zigelli, personalidade marcante na renovação
profissional do jornalismo catarinense especialmente na área do
rádio, é convidado para coordenar a implantação do curso de
Jornalismo pelo então reitor da UFSC, Roberto Mündell de Lacerda. Porém, Zigelli falece em um desastre aéreo, o que adia a
criação do curso.
1978
É constituído um outro grupo de trabalho para retomar a iniciativa da criação do curso de Jornalismo da UFSC. Participam desta
vez os professores Aurora Goulart e Celestino Sachet, além dos
jornalistas César Valente, Moacir Pereira e Paulo Brito, que receberam apoio, entre outros, do professor José Marques de
Melo (SP) e de Antônio Firmo de Oliveira Gonzáles, professor
da PUC de Porto Alegre e presidente do Sindicato dos Jornalistas do RS. As propostas foram aprovadas em junho de 1978
pelo Conselho de Ensino e Pesquisa da UFSC. Em 30 de junho,
o curso foi criado por portaria do reitor Caspar Erich Stemmer.
Moacir Pereira relembra que, participando de eventos nacionais e
regionais de jornalismo, como presidente do SJSC, convencerase de que somente com um curso de Jornalismo catarinense
seria possível cumprir a legislação profissional (decreto-lei 972/
69) que exigia o curso superior. Espalhava-se a figura do jornalista provisionado, e tornava-se imperativo a formação de profissionais no estado, na Universidade, conferindo-lhes: formação eclética, universal e com espírito crítico. Santa Catarina era
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
251
o único estado do Sul do Brasil que não tinha ainda um curso
superior de Jornalismo.
1979
Começam as atividades do primeiro curso de Jornalismo do estado, na UFSC, que ficou conhecido como uma faculdade “alternativa”. Com uma proposta pedagógica inovadora, nasceu durante a ditadura, mas comprometido com a democracia. Ao lado
da formação científica e técnica, deveria estar a formação política. Segundo seu primeiro coordenador, professor Moacir Pereira, o lema era: “liberdade, consciência crítica e responsabilidade”. A primeira turma se formou em 1982.
Os jornalistas catarinenses criam o MOS – Movimento de Oposição Sindical -, dando início a um processo de resgate da ética na
categoria e à formação de um novo conjunto de lideranças sindicais, profissionais e acadêmicas que assumiriam o SJSC seis anos
mais tarde, nas eleições de 1987, influindo no rumo da categoria
no estado até o final do século XX e começo do século XXI.
1982
O jornalista Daniel Herz, um dos primeiros professores do curso
da UFSC e autor do livro “A história secreta da Rede Globo”,
lança as bases da Frente Nacional de Luta por Políticas Democráticas de Comunicação, que daria origem ao atual Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC): responsável, entre outras conquistas posteriores, pela aprovação das
leis federais de criação do Conselho de Comunicação Social, da
TV a Cabo e da Radiodifusão Comunitária.
1983
O jornalista e professor da UFSC Ayrton Kanitz tem papel fundamental na articulação do MOS e foi o primeiro candidato à preJORNALISMO EM PERSPECTIVA
252
sidência do Sindicato pelo movimento. O MOS vence no primeiro turno, mas perde a eleição, no segundo turno, para a chapa da situação.
1984
Os professores e estudantes do curso de Jornalismo da UFSC
participam ativamente do processo político do país, contribuindo de forma decisiva e pioneira para o começo da campanha
pelas Diretas Já em Santa Catarina, cujo lema é adotado pela
turma de formandos de 1983, que colou grau em março de
1984.
1985
O jornalista Celso Vicenzi recebe o Prêmio Esso de Informação
Científica e Tecnológica, com uma série de reportagens publicadas no jornal “O Estado”. Foi a primeira vez, em 30 anos de
história do prêmio, que um jornalista conquistou um prêmio
nacional com um trabalho publicado num veículo de comunicação fora do eixo Rio-São Paulo.
O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros é redigido em 1985
e aprovado em congresso realizado pela Federação Nacional
dos Jornalistas (Fenaj) no Rio de Janeiro, com a participação de
delegados catarinenses.
1986
A implantação do jornal “Diário Catarinense” em Florianópolis e
nas cidades-pólo de Santa Catarina, conectados on-line via intranet, representa um novo desafio de competitividade no cenário
da imprensa barriga-verde: induzindo a uma maior qualificação
geral dos profissionais e do produto jornal, estimulando a organização sindical dos jornalistas e renovando e intensificando a
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
253
integração informativa, cultural, política e social de todo o estado. A criação do DC, além de ampliar o mercado para profissionais locais experientes e para os jovens formandos catarinenses, também motivou a migração de jornalistas de outros estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul,
incentivando uma movimentação e discussão em torno do fazer
jornalístico.
1987
O jornalista Celso Vicenzi é eleito presidente do SJSC pela chapa
do MOS, dando início a uma gestão calcada em propostas e valores
éticos, técnicos e acadêmicos voltados para a dignidade da categoria e aperfeiçoamento da profissão e da imprensa catarinense.
A Agência de Comunicação da UFSC (Agecom), dirigida pelo jornalista Moacir Loth, dá início à formulação e implementação de
uma pioneira Política Pública de Comunicação que é reconhecida em 1994 pelo CNPq com o Prêmio José de Reis de Divulgação Científica. O modelo serve de referência, na década de 90,
para outras instituições de ensino superior, especialmente as integrantes do Fascom – Fórum de Assessores de Comunicação
das Instituições Federais de Ensino Superior (IFES).
O professor do curso de Jornalismo da UFSC, Adelmo Genro
Filho, publica sua dissertação de mestrado “O segredo da pirâmide - para uma teoria marxista do jornalismo”. Genro Filho é
considerado o virtual introdutor, no Brasil, da disciplina de Teoria do Jornalismo. Morreu em Florianópolis, em 1988, aos 37
anos. Sua obra influenciou dezenas de teses sobre jornalismo
em todo o país.
Florianópolis é a segunda cidade do país a receber (depois de São
Paulo), a exposição de fotografias “20 Anos da Gamma Presse
Imagens”, uma das três maiores agências de fotojornalismo do
mundo, com 2 mil fotógrafos em vários países que enviam fotos
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
254
a mais de 2 mil publicações internacionais. Organizada pelo SJSC
na Galeria de Arte da Associação Catarinense de Artistas Plásticos, a exposição seguiu também para Blumenau, Joinville, Chapecó e Gravatal.
1988
O SJSC organiza a exposição Humor na Ilha e Humor em Joinville,
com dezenas dos principais cartunistas do país, culminando com
um show, nas duas cidades, do Muda Brasil Tancredo Jazz Band,
integrado pelos irmãos Paulo e Chico Caruso, Luís Fernando
Veríssimo e Reinaldo (da turma do Casseta e Planeta). Em Florianópolis, a exposição foi apresentada no Museu de Arte de Santa
Catarina (MASC), e em Joinville, no Museu de Arte de Joinville.
O SJSC traz a Florianópolis uma exposição internacional de cartazes sobre a paz, em parceria com o Conselho da Condição Feminina, Arquidiocese de São Paulo, UFSC e Secretaria de Cultura e Esporte.
1989
O SJSC traz a Florianópolis a exposição de fotos premiadas em 33
anos do Prêmio Esso de Jornalismo, o mais importante do país.
A exposição também é realizada em Blumenau e Chapecó.
1990
O SJSC realiza em Florianópolis o 24º Congresso Nacional de Jornalistas. Participam cerca de 300 jornalistas e alguns convidados
estrangeiros.
O jornalista Celso Vicenzi é reeleito presidente do SJSC, com
mandato até 1993.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
255
1991
Profissionais de imprensa participantes do 1º Congresso Estadual
dos Jornalistas, realizado em Rio do Sul, de 11 a 13 de outubro,
decidem pela filiação do Sindicato à Central Única dos Trabalhadores. O encontro também debateu a Lei de Imprensa, democratização da comunicação e ética profissional. São Francisco do Sul sedia o 1º Seminário Estadual sobre Ética
Jornalística, uma promoção do SJSC.
1992
Por iniciativa dos jornalistas Moacir Loth e Francisco Karam, integrantes da Comissão de Ética do SJSC, a Agecom e a Fenaj imprimem e distribuem exemplares do Código de Ética da categoria a todos os profissionais e às faculdades e cursos de Comunicação e Jornalismo do Brasil. A ação insere-se numa estratégia
inédita de disseminação do tema e valorização do bom jornalismo e da qualificação profissional na imprensa e na mídia brasileiras. A campanha se repete em 1997, como parte das ações da
Agecom/UFSC.
O NOIS - Núcleo Organizado de Imprensa Sindical (SC) -, estruturado especialmente pelos profissionais do Sinergia, SEEB (Bancários), Sindprevs, Sinte, Apufsc, entre outros, lança o texto “A
imprensa no Sindicato Cidadão: uma reflexão sobre o exercício
do jornalismo sindical”, que tentava sistematizar as experiências
na área e foi debatido em eventos no estado e no país.
O jornalista e advogado Moacir Pereira lança o livro “Imprensa &
Poder - A Comunicação em Santa Catarina”. Na obra, Pereira
divide em três fases distintas a evolução da imprensa catarinense: expansão (anos 60); modernização (anos 70); e profissionalização (anos 80). A expansão ocorre com: o surgimento de
novas estações de rádio no interior; lançamento da TV Florianópolis; inauguração da TV Coligadas, em Blumenau; e o processo
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
256
de implantação da TV Cultura na Capital. Neste período, o meio
jornal era inexpressivo e ainda não conseguira se desvencilhar,
assim como o rádio, de um processo histórico: a subordinação
- ou a linha editorial - partidária. Ainda conforme o autor, a profissionalização tem como principais causas a imparcialidade dos
jornalistas Adolfo Zigelli, no radiojornalismo, e de Nestor Fedrizzi, no jornalismo impresso; a criação do curso de Jornalismo
da UFSC; o movimento de oposição sindical (MOS); a eliminação da vinculação política nos meios; o processo de abertura
política e redemocratização do Brasil; a nova concepção empresarial do setor; a presença do grupo de comunicação RBS; o
aperfeiçoamento dos profissionais; e o aumento da concorrência entre os diversos veículos.
O SJSC traz a Florianópolis, no MASC, as fotos premiadas no InterpressPhoto 1992 – o maior concurso internacional de fotojornalismo.
O SJSC e o curso de Jornalismo da UFSC organizam o projeto
Memória do Jornalismo, que trouxe à Capital catarinense vários
jornalistas de destaque dos principais veículos de comunicação
do país, como Ricardo Kotscho, Ricardo Noblat, José Hamilton
Ribeiro e Washington Novaes, entre outros. Além de palestras,
cada participante gravou entrevista em vídeo sobre o exercício
do jornalismo e o ofício do jornalista.
1993
O jornalista Sérgio Murillo de Andrade é eleito presidente do SJSC,
com mandato até 1996.
1995
O jornalista e professor Itamar Aguiar publica sua dissertação de
mestrado “Violência e golpe eleitoral: Jaison e Amin na disputa
pelo governo catarinense”, na qual dedica um capítulo a ques-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
257
tões como a mídia na campanha, o controle pela elite, o caso do
Sindicato dos Jornalistas e a “construção” da imagem.
A historiadora Joana Maria Pedro lança a obra “Nas Tramas entre o
Público e o Privado - A imprensa de Desterro no século XIX”,
pela Editora da UFSC. Neste período, segunda a autora, já eram
perceptíveis as principais características que marcariam o jornalismo catarinense até os anos 80 do século XX: “vinculação
partidária direta ou indiretamente com o poder público; vida
curta; instrumento de política partidária”.
O jornalista Mário Xavier assume pioneiramente no Sul do Brasil,
em setembro, a função de ombudsman de imprensa do jornal “A
Notícia Capital” (ANC), em Florianópolis; representa Santa Catarina e o Brasil, em 1996, no Congresso Internacional da ONO
(Organization of News Ombudsmen), nos EUA; e exerce a função
até agosto de 1997.
1996
O jornalista Sérgio Murillo é reeleito presidente do SJSC, com
mandato até 1999.
A implantação do ombudsman de imprensa no ANC tem repercussões em outras esferas da vida catarinense, e em 1996 são criados cargos de ouvidores na UFSC e na Celesc, em 1997 nos
Supermercados Angeloni e, nos próximos anos, em instituições
como a Secretaria de Saúde e o CREA, dando origem, em 2003,
à criação da seccional catarinense da Associação Brasileira de
Ouvidores (ABO).
A experiência do jornalista Mário Xavier como ombudsman passa a
ser inserida como objeto de pesquisas universitárias por estudantes da UnB, UFRJ, UFRGS, UFPR, UFSC e Universidad Católica Andrés Bello - Facultad de Humanidades y Educación Escuela de Comunicación Social, da Venezuela. O jornalista é
convidado a compartilhar sua experiência em palestras e even-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
258
tos, e a escrever o artigo “Los Ombudsmen de Prensa son necesarios? Por qué?”, na edição nº 54 da Chasqui – Revista Latinoamericana de Comunicación, editada pelo CIESPAL - Centro
Internacional de Estudios Superiores de Comunicación para
América Latina, de Quito, Equador.
1999
O jornalista Luis Fernando Assunção é eleito presidente do SJSC,
com mandato até 2002.
O jornalista Carlos Alberto de Souza lança pela Editora da Univali
o livro “O fundo do espelho é outro”, onde analisa a condição da
RBS TV de afiliada da TV Globo, discutindo identidade regional e
padrão nacional de produção televisiva. O livro causou polêmica, à época, porque trazia em sua capa uma arte que mesclava as
marcas da Globo e da RBS. A Editora da Univali, atendendo a
pedido da emissora, recolheu a edição e recolocou-a no mercado com outra capa. O livro é uma das poucas obras no país a
refletir o conflito regional X global na TV.
O jornalista Mário Xavier é convidado a escrever para o sítio do
Instituto Gutenberg, num debate nacional sobre os 30 anos da
regulamentação da profissão de jornalista no país, o artigo “A
quem interessa ser contra o diploma?”. Em 2001, o artigo é um
dos incluídos pelos advogados da Fenaj no “agravo de instrumento” apresentado ao Tribunal Regional Federal de São Paulo
para defender a regulamentação da profissão e contestar a medida da juíza paulista Carla Abrantkoski Rister, que tentava suspender a obrigatoriedade de formação superior para o exercício profissional do jornalismo.
2000
De 2 a 5 de maio, o SJSC, em conjunto com a Fenaj e a Agecom da
UFSC, sob a liderança do jornalista Moacir Loth, também direJORNALISMO EM PERSPECTIVA
259
tor da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC),
organizam e realizam pela primeira vez fora do eixo Rio - São
Paulo - Minas Gerais, o 6º Congresso Brasileiro de Jornalismo
Científico. A ABJC era então presidida pelo jornalista Hamilton
Ribeiro. Um dos resultados do evento foi a publicação do livro
“Comunicando a Ciência”.
2001
O jornalista, professor e doutor em Comunicação Rogério Christofoletti implanta na Universidade do Vale do Itajaí (Univali), junto ao Centro de Ensino Superior de Ciências Humanas e da Comunicação (CEHCOM), um inédito trabalho de pesquisa e extensão denominado Monitor de Mídia, tornando-se referência
acadêmica nacional como instrumento de crítica e aperfeiçoamento da imprensa. O Monitor de Mídia faz o acompanhamento sistemático dos três maiores jornais diários do estado, avaliando criticamente sua cobertura noticiosa.
O jornalista e professor Mario Luiz Fernandes, então coordenador do curso de Comunicação Social – Jornalismo da Univali,
defende a dissertação de mestrado “Perfil da Pequena Imprensa
de SC”, na PUC-RS: uma pesquisa inédita e de referência, tendo
como ponto de partida saber quantos jornais existiam no estado, como eles estavam estruturados e vários outros temas de
interesse. Para traçar este perfil, foram percorridos mais de seis
mil quilômetros visitando pequenas redações e entrevistando
empresários e jornalistas.
Santa Catarina, por intermédio da UFSC e de integrantes do SJSC,
tem participação destacada na criação do projeto Rede Alfredo
de Carvalho (Rede Alcar) - preservando a memória e construindo a história dos 200 anos da Imprensa no Brasil, liderado pelos
professores doutores José Marques de Melo e Francisco Karam, e que inclui um sítio digital sob a responsabilidade de Clóvis Geyer e Vinicius Carvalho.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
260
A Rede Alcar propõe converter o século XXI no século da imprensa brasileira, contribuindo para o fortalecimento da nossa
cidadania. Sua premissa é a de que o processo civilizatório ancora-se na capacidade de abstração intelectual dos componentes
de qualquer sociedade humana.
Quando da constituição formal da Rede Alcar, na sede da ABI (RJ),
em 5/04/2001, o presidente da entidade, jornalista Fernando
Segismundo, fez alusão histórica afirmando que a utopia ali esboçada assemelhava-se ao sonho que, há um século, impulsionara (o catarinense e desterrense) Gustavo de Lacerda a lançar
as bases do associativismo jornalístico no país, ao ajudar a fundar
e tornar-se o primeiro presidente da ABI. “Em 1908 – afirmou
Segismundo - ninguém acreditava que fosse possível transformar o ofício noticioso numa profissão juridicamente reconhecida e socialmente legitimada”.
2002
O jornalista Luiz Fernando Assunção é reeleito presidente do SJSC,
com mandato até 2005.
A Fenaj, com apoio do curso de Jornalismo da UFSC, lança o livro
“Formação Superior em Jornalismo – uma exigência que interessa à sociedade”, obra que discute a importância do diploma e
da formação superior na área. O livro foi distribuído em todo o
país, como carro-chefe da campanha da Fenaj pela afirmação do
diploma.
2003
O SJSC promove e organiza o 14º Enjac (Encontro Nacional de
Jornalistas em Assessorias de Imprensa) e o 4º Encontro dos
Jornalistas em Assessoria de Comunicação do Mercosul.
A jornalista e professora Maria José Baldessar lança o livro “A Mudança Anunciada” (Editoras UFSC e Insular), no qual avalia as
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
261
modificações sofridas pelos jornalistas catarinenses com a adoção do computador em suas rotinas de trabalho. O livro é um
dos poucos no país sobre o cotidiano dos jornalistas e sobre os
impactos tecnológicos em suas rotinas de trabalho.
O SJSC participa do Dia Nacional de Mobilização em Defesa da
Profissão de Jornalista com diversas atividades em todo o Estado.
Rogério Christofoletti lança o livro “Monitores da Mídia – Como o
jornalismo catarinense percebe os seus deslizes éticos”, pela
Editora da UFSC. Nele, aponta para a preocupação de como os
jornalistas catarinenses avaliam seus procedimentos éticos no
dia a dia das redações e das assessorias de imprensa. Ancorado
no código de ética da categoria, analisa vários dispositivos de
aferição do comportamento profissional, como as comissões
de ética dos órgãos da categoria e a figura do ombudsman (ouvidor).
Com a participação do SJSC, é instituído em Florianópolis o Fórum Catarinense de Acompanhamento da Mídia (FCAM), braço
catarinense da campanha Quem financia a baixaria é contra a cidadania. Todo o cidadão pode denunciar abusos na programação de
rádio e TV, estadual ou nacional, pelo telefone 0800-619 619.
2004
O jornalista catarinense Sérgio Murillo de Andrade, 42 anos, expresidente por duas vezes do SJSC, é eleito presidente da Fenaj,
quase 100 anos após outro catarinense, Gustavo de Lacerda,
em 1908, ter se tornado o primeiro presidente da ABI. A Fenaj
congrega 31 sindicatos de jornalistas de todo o País, que representam mais de 30.000 profissionais. Murillo formou-se pela
UFSC em 1984, é mestrando na mesma universidade e diretor
do SJSC. Há cinco anos, trabalha como professor do curso de
Jornalismo do Ielusc, em Joinville.
Por proposição da ACI à Assembléia Legislativa, o Governo do
Estado institui, pela Lei nº 12.946, o Dia da Imprensa Catarinense,
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
262
comemorado anualmente em 28 de julho: data em que circulou
em Desterro o primeiro jornal da Província de Santa Catarina,
“O Catarinense”, editado pelo lagunense Jerônimo Francisco
Coelho, e que tinha como slogan “Sentinela da Liberdade”.
É lançado, em ato público na Assembléia Legislativa, o Comitê
Catarinense de Apoio à Criação do Conselho Federal de Jornalismo (CFJ).
O Curso de Jornalismo da UFSC completa 25 anos.
O SJSC atua como co-promotor e co-organizador do 2º Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho e do 7º Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo, em Florianópolis.
O jornalista, professor do curso de Jornalismo da UFSC e doutor
Francisco Karam lança o livro “A Ética Jornalística e o Interesse
Público”, tendo como objeto de estudo o papel social e político
da atividade jornalística. Karam mostra que a informação diária
de qualidade, produzida por profissionais íntegros e competentes, é essencial para a democracia e para a consolidação e a manutenção da cidadania. Para ele, os princípios que regeram a atividade no século XX buscaram estabelecer um estreito vínculo
entre a ética profissional e o interesse público.
O jornal “Diário Catarinense” e o “Jornal de Santa Catarina” criam
pioneiramente na imprensa estadual o “Conselho de Leitores”,
uma modalidade de monitoramento público da qualidade e do
conteúdo da imprensa executada com a participação não-remunerada de nove leitores que se reúnem a cada 20 dias com o
editor-chefe, editores e executivos do jornal para fazer críticas
e sugestões.
2005
O SJSC completa seus 50 anos, atuando firmemente na defesa da
categoria e da própria profissão, estando presente na vida social
e política do país, lutando pela democracia e justiça social, e
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
263
destacando-se na luta pela democratização da comunicação no
Brasil. Podem se associar ao SJSC todos os profissionais que,
por atividade prevista na legislação que regulamenta a profissão,
integrem a categoria profissional.
É lançado pelo SJSC o livro “Jornalismo em Perspectiva”, com o
objetivo de oferecer ao leitor um panorama do jornalismo praticado em SC nas últimas cinco décadas.
Fontes consultadas
ABI, Fenaj, SJSC, ACI/Casa do Jornalista, Instituto Gutenberg, Rede Alcar,
UFSC/Departamento de Jornalismo, Univali, UFRGS, PUC-RS; Antunes
Severo, Celso Vicenzi, Elaine Borges, Flávio de Sturdze, Francisco
Karam, Luiz Paulo Fedrizzi, Maria José Baldessar, Moacir Loth, Moacir
Pereira, Nei Manique, Sérgio Luiz Casares Pinto, Rogério Christofoletti,
Sílvio da Costa Pereira.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
264
O traço do jornalismo
catarinense
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
265
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Apresentação
O jornalismo catarinense é pródigo também no humor gráfico, na ilustração e nas diversas formas de expressão do traço. A
imprensa cotidiana é diariamente abastecida com trabalhos que
não só sintetizam situações e personagens como dão graça e leveza ao noticiário. Sem fazer esforço, é possível lembrar nomes de
expressão nacional em diversas gerações: de Clóvis Geyer e Bonson a Frank e Zé Dassilva. Há ainda nomes premiados como Samuel Casal e obras originais como a de Sandro ou a de Fábio Abreu.
No caso das charges e cartuns, o humor dá a dimensão precisa da crítica, da interpretação do fato e de sua relação com demais acontecimentos. Tarefa ingrata é a do chargista que vasculha
nas folhas do tempo vestígios que podem levá-lo à melhor piada.
Quando nela chega, rabisca caprichosamente a gag e preenche o
espaço na página do jornal. No outro dia, a charge provocará gargalhadas e ranger de dentes, e em pouco tempo se perderá na
memória do público. O chargista, então, vai começar tudo de novo,
buscando a síntese, a melhor tradução imagética de palavras e ações.
A ilustração também assume papel cada vez mais relevante
no noticiário cotidiano. Infográficos, desenhos e croquis são mais
uma ferramenta informativa na edição, para tornar os conteúdos
mais compreensíveis. O alto apuro estético, o equilíbrio, a noção
de espaço e a precisa exploração das páginas auxiliam os profissionais que fazem de curvas, cores e formas o seu vocabulário diário.
Explicar esse trabalho em palavras é difícil, melhor é virar a
página e encontrá-lo numa curta, mas representativa amostra do
talento e da inteligência desses jornalistas.
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Bonson
“A Notícia” - 10 de fevereiro de 2004
“A Notícia” - 13 de outubro de 2004
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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“A Notícia” - 15 de julho de 2004
“A Notícia” - 27 de setembro de 2004
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Fábio Abreu
“A Notícia” 26 de agosto de 2001
“A Notícia”
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
270
“A Notícia”6 de agosto de 2003
“A Notícia” - 20 de abril de 2003
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Frank
“A Notícia” - abril de 2000
“A Notícia” - 7 de fevereiro de 2003
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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“A Notícia” - 2 de junho de 2001
“A Notícia” - 15 de fevereiro de 2004
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
273
Samuel Casal
“Diário
Catarinense” 16 de março
de 2002
“Diário Catarinense” 22 de agosto de 2004
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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“Diário Catarinense” 24 de agosto de 2003
“Diário Catarinense” - 17 de maio de 2004
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Sandro
“A Notícia” - 2002
“A Notícia” - 2004
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“A Notícia” - 2004
“A Notícia” - 2004
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Zé Dassilva
“Diário Catarinense” - 29 de outubro de 2002
“Diário Catarinense” - 6 de maio de 2004
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“Diário Catarinense” - 30 de novembro de 2003
“Diário Catarinense” - 11 de janeiro de 2004
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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JORNALISMO EM PERSPECTIVA
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Os autores se apresentam
Andressa Braun é jornalista formada pela Universidade Federal
de Santa Catarina, assessora de comunicação e pesquisadora da
Rede Alfredo de Carvalho.
Apolinário Ternes – Jornalista e historiador, é formado em História e Direito e tem Mestrado em Cultura e Educação, pela
UDESC. Foi diretor do Arquivo Histórico e da Biblioteca Pública de Joinville. Atua em “A Notícia” desde l970, onde exerce a
função de editorialista há 25 anos. É autor de 23 livros dedicados
à história regional, romance, crônica e teatro.
Áureo Mafra de Moraes – Natural de Brusque (SC), jornalista
formado pela UFSC em 1987, iniciou profissionalmente em rádio em 1984 como locutor e repórter. Depois, passou por emissoras de TV, jornais, atuou como diretor de programas políticos
e desde 1993 é professor do Curso de Jornalismo da UFSC,
onde já exerceu as funções de Chefe do Departamento de Jornalismo e Diretor da Assessoria de Comunicação. Desde maio de
2004, ocupa a Chefia do Gabinete do Reitor.
Bonson nasceu em 13/11/49. Na imprensa como cartunista desde
74, no “finado” jornal “O Estado”.Trabalhou na Folha e no Estadão em 84 e 85. Até maio de 04, como chargista em “A Notícia”. Como aquarelista e desenhista, expôs na França em 91 na
cidade Bonson, sul da França. Seus trabalhos podem ser vistos
no site www.angelfire.com/art2/sergiobonson
email: [email protected]
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
281
Celso Martins da Silveira Júnior; nascido em 23 de novembro de
1955, em Laguna (SC), atua no jornalismo desde 1976. É autor
de “Os Comunas - Álvaro Ventura e o PCB catarinense” (Paralelo
27, 1995), “Farol de Santa Marta - A esquina do Atlântico” (Garapuvu, 1998) e “Aninha virou Anita” (A Notícia, 1999), entre
outros. É acadêmico de História da UDESC, e repórter especial
da sucursal do jornal “A Notícia” em Florianópolis.
César Valente – Jornalista desde 1972 e florianopolitano desde
1953, exerci praticamente todas as funções previstas na definição profissional do Jornalismo. Trabalhei em Florianópolis, Porto
Alegre, São Paulo e Brasília. Os principais empregadores foram a
TV Gaúcha, a Gazeta Mercantil, o jornal “O Estado” e o governo
federal (UFSC e EBN). Sou sócio-diretor de uma empresa de
serviços de jornalismo e comunicação (Multitarefa Ltda.). Ocupo um cargo de confiança no governo do estado de Santa Catarina, como Assessor de Informação da Secretaria da Administração.
Elaine Borges foi correspondente do jornal “O Estado de S. Paulo” em Santa Catarina por mais de duas décadas. Em Florianópolis, coordenou a Editoria de Política do “Diário Catarinense” e foi
repórter do “Jornal de Santa Catarina”, “O Estado” e “Jornal da
Semana”. Também integrou a equipe da Assessoria de Imprensa
da Assembléia Legislativa de Santa Catarina. É co-autora do livro
“Vozes da Lagoa” (editado pela Fundação Municipal de Cultura
Franklin Cascaes), e também participou do livro “Hercílio Luz –
Uma ponte” (Tempo Editorial). Fez parte do Movimento de Oposição Sindical e integrou duas vezes a Comissão de Ética do SJSC.
Fábio Abreu – Nascido em 1964, 7 de Novembro, sou carioca
de origem com sólida formação em Bahia. Vivo em Joinville desde 1995. Nos primórdios, brincava de fazer história em quadrinhos. Profissional do desenho desde 92, em jornal, trabalhei no
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
282
“Bahia Hoje”, de Salvador e em “A Notícia”, onde sou Editor de
Arte. Lá, faço ilustrações, caricaturas, infografias e desenho umas
páginas. Pai da Luiza, adoro ficar com ela e gosto de jogar futebol e
tomar cerveja com os amigos, a ordem dos fatores depende do dia.
Francisco José Castilhos Karam é jornalista e professor no Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina.
Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC de São Paulo, é
autor dos livros “Jornalismo, Ética e Liberdade” e “A Ética Jornalística e o Interesse Público”, os dois pela Summus (SP). Integra
a diretoria da Sociedade Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo - SBPJor.
Nascido Frank Luiz Maia Bretas em 29 de abril de 1967, em Nilópolis (RJ), veio morar em Florianópolis em 1979, virou Frank
Maia na faculdade de Jornalismo da UFSC (1986) e arredondou
para apenas FRANK, na página dois do jornal “A Notícia” faz
oito anos. Passou pelo jornal “O Estado”, onde colaborou
no suplemento “O Estadinho”, onde publi-cou as primeiras
tirinhas, editou o fanzine “Futio Indispensável” e é ilustrador freelancer pela Traça Editorial, sua empresa.
Gastão Cassel é jornalista formado na Universidade Federal de
Santa Maria em 1986. Trabalhou no jornal “A Razão” e na sucursal
da Empresa Jornalística Caldas Júnior (“Correio do Povo” e “Rádio Guaíba”) e atuou como repórter fotográfico freelancer para
vários jornais do RS. Foi assessor de imprensa da CUT/RS. Em
Florianópolis, trabalhou oito anos na assessoria de comunicação
do Sindicato dos Eletricitários, onde criou e editou o semanário
“Linha Viva”. No mesmo período, iniciou a carreira docente no
curso de Jornalismo da UFSC atuando nas áreas de Redação Jornalística e Planejamento Gráfico. Lecionou, também, na Univali, e
hoje está no Ielusc, de Joinville. Sócio da Quorum Comunicação,
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
283
agência especializada em comunicação e marketing institucional
que atua no mercado há dez anos, é especialista em Marketing
pela UDESC/ESAG.
Jacques Mick é jornalista, doutor em Sociologia Política (UFSC),
professor do Curso de Jornalismo do Instituto Superior e Centro Educacional Luterano Bom Jesus/Ielusc (de Joinville), e diretor da Quorum Comunicação (em Florianópolis).
Maria José Baldessar é professora do curso de Jornalismo da
Universidade Federal de Santa Catarina, doutoranda da Escola
de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo e mestre
em Sociologia Política. Na UFSC, além de ministrar
aulas, coordenou projetos de extensão como Universidade
Aberta, Fazendo Rádio na Escola e implantação da rádio Ponto.
Trabalhou nas TVs Barriga Verde e Cultura e depois em assessoria de imprensa. Foi secretária-geral do SJSC por duas gestões e
atualmente integra a Comissão de Ética da entidade.
Mario Luiz Fernandes – Natural de Jonville (SC), onde iniciou no
jornalismo aos 16 anos, atuando como auxiliar de redação e posteriormente como repórter na sucursal do “Jornal de Santa Catarina”. Cursou Jornalismo na Universidade Estadual de Ponta
Grossa (PR) entre 1986 e 1989. Foi repórter do jornal “A Notícia” e editor dos semanários “Evolução” (São Bento do Sul) e
“O Município” (Brusque). Desde 1995, é professor do curso de
Jornalismo da Universidade do Vale do Itajai (Univali). É mestre e
doutorando em Comunicação Social pela Universidade Católica
do Rio Grande do Sul.
Mário Xavier Antunes de Oliveira nasceu em 02/05/1956, em
Porto Alegre (RS). Conheceu SC no começo dos anos 70, visitando o jornal Santa, em Blumenau, pelas mãos do jornalista Nes-
JORNALISMO EM PERSPECTIVA
284
tor Fredrizzi. Depois de uma bolsa de estudos culturais nos Estados Unidos, em 1974/75, na região de New York, foi iniciado
na profissão em 1980, pelo jornalista catarinense Políbio Braga.
Graduou-se Bacharel em Comunicação pela UFRGS, em 1982.
Em 1985, radicou-se em Florianópolis, filiando-se ao SJSC e vindo a integrar, nos anos 90, sua Comissão de Ética. Foi repórter,
chefe de reportagem, editor e colaborador na imprensa escrita.
Trabalhou também como assessor de imprensa de entidades públicas e privadas e como professor universitário. De 1995 a
1997, tornou-se o 1º ombudsman de imprensa catarinense. Criador da Redactor, atua hoje como empreendedor independente, prestando serviços de consul-toria, assessoria, pesquisa, redação e edição de conteúdos.
Marli Cristina Scomazzon tem 48 anos, é jornalista graduada em
Jornalismo Gráfico pela Universidade Federal do Rio Grande do
Sul e tem mestrado em Mídia e Conhecimento pela Engenharia
de Produção e Sistema, da Universidade Federal de Santa Catarina. Já trabalhou em jornais como “Zero Hora”, “Diário Catarinense”, “O Estado”, “Jornal de Santa Catarina” e na RBS TV. Escreveu como freelancer para jornais e revistas como “Veja”, “Isto
ɔ, “O Globo”, “O Estado de S. Paulo”. Desde 1991, presta assessoria de imprensa para o Sindicato dos Eletricitários de Florianópolis e região e para as intersindicais dos eletricitários de Santa Catarina (Intercel) e do Sul do Brasil (Intersul).
Moacir Pereira - Ex-Presidente do Sindicato dos Jornalistas de
SC, fundador e primeiro coordenador do Curso de Jornalismo
da UFSC, conselheiro da Fenaj e da UCBC, colunista político,
Prêmio Nacional de Comunicação Luiz Beltrão (Intercom), membro da Academia Catarinense de Letras e do Instituto Histórico
e Geográfico de Santa Catarina e autor de 21 livros sobre jornalismo, política e comunicação.
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Paulo Ramos Derengoski é lageano. Na década de 60, ainda
menor, foi repórter da “Última Hora” de Porto Alegre, onde se
destacou com a matéria “Sabonete Fugiu Pela Porta Escura da
Morte” sobre um preso comum. Na década de 70, foi sub-secretário da Sucursal Rio da “Folha de S.Paulo” a convite de Cláudio Abramo, onde sofreu pressão do AI-5 por entrevista–bomba de um general. Depois, foi redator da revista “Manchete”, ao
lado de Nilson Lage, Carlos Heitor Cony, Salim Miguel e outros.
Na década de 80, voltou para Santa Catarina, onde escreveu vários livros sobre a Guerra do Contestado, sobre grandes pintores, meio ambiente e índios guarani. Atualmente, tem coluna semanal no “Diário Catarinense” e colabora com outros jornais do
país.
Regina Zandomênico – formada em Comunicação Social – habilitação Jornalismo pela UFSC e mestre em Engenharia de Produção, na área de Mídia e Conhecimento. Começou a carreira há
17 anos na extinta Rádio União FM, em Florianópolis, trabalhou
na RBSTV, Barriga Verde, Record e foi assessora de imprensa na
Assembléia Legislativa de Santa Catarina e do Governo do Estado, além de entidades privadas. Também foi repórter e editora
de revistas especializadas. Regina lecionou nos cursos de Jornalismo da UFSC e do Ielusc e atualmente é professora e coordenadora da agência de notícias da Faculdade Estácio de Sá em Santa Catarina.
Róger Bittencourt – 38 anos, jornalista formado pela PUC-RS,
atua em Santa Catarina há 18 anos. Foi repórter e editor de
Política do “Diário Catarinense” e editor de Geral do DC. Trabalhou como chefe de reportagem e editor-chefe de Jornalismo
na RBS-TV em Santa Catarina. Atuou como professor nos cursos de Jornalismo da UFSC e da Univali. Ocupou o cargo de
secretário de Comunicação do Estado e hoje é diretor da FábriJORNALISMO EM PERSPECTIVA
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ca de Comunicação, empresa de assessoria de imprensa com
atuação estadual e nacional.
Rogério Christofoletti – Paulista radicado em Santa Catarina há
oito anos, é jornalista desde 1991. Já atuou em jornais e revistas
de São Paulo, Paraná e Santa Catarina, e também trabalhou como
assessor de imprensa. É mestre em Lingüística pela UFSC e doutor em Ciências da Comunicação pela USP. Professor do curso
de Jornalismo da Univali, é autor de dois livros: “O discurso da
transição” (2000) e “Monitores de Mídia - como o jornalismo
catarinense percebe seus deslizes éticos” (2003). Desde 2002,
é vice-presidente do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina.
Rubens Lunge, 45, é jornalista formado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e especialista em Comunicação pela
Universidade Metodista. Foi professor na UnoChapecó, UnC
Concórdia e leciona atualmente na Faculdade Concórdia. Escritor, tem três livros publicados - dois de contos e um de poesia , e integra duas coletâneas de contos. É diretor do Sindicato dos
Jornalistas de SC e reside em Concórdia.
Samuel Casal, 30 anos, é ilustrador profissional desde 1990. Atualmente, é Editor de Arte do “Diário Catarinense”, em Florianópolis, e ilustrador freelancer, já tendo colaborado com várias
publicações nacionais como “Caros Amigos”, “Você S/A”, “Exame Info”, “Macmania”, “Mundo Estranho”, “Superinteressante”, “Folha de S. Paulo” entre outras. Casal também é
quadrinista e suas hqs já foram publicadas nos álbuns Front 8,
9, 10, 11, 12 e 14, na coletânea “10 na Área, um na Banheira e
Ninguém no Gol”, Ragú 5 e no catálogo da exposição ConSeqüências (Madri/Espanha). Em 2001, ganhou o Troféu HQmix como Desenhista Revelação e em 2003 venceu o XI
Salão de Desenho para Imprensa, na categoria Histórias em QuaJORNALISMO EM PERSPECTIVA
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drinhos. Em 2004, recebeu Menção Honrosa na categoria Ilustração Editorial também no Salão Internacional de POA e mais três troféus HQmix, como melhor Desenhista Nacional, Ilustrador Nacional e pelo melhor Fanzine, com o Xerocs Porcoration.
Sandro Luis Schmidt, 36 anos, natural de Joinville, arquiteto, chargista. Comecei a carreira como chargista e quadrinhista no jornal
“A Notícia” em 1988, e lá fiquei até 2005. Participo dos sites
www.patodelaranja.com e www.cybercomix.com.br; eventualmente, mando charges pro site do Zé Simão, o Monkey News;
já colaborei com a revista MAD e com o PASQUIM21.
Zé Dassilva nasceu em Criciúma, no último dia do ano de 1973.
Formou-se em jornalismo na UFSC aos 20 anos e lançou, dois
anos mais tarde, o livro “Histórias que a Bola Esqueceu”, uma
reportagem sobre o lendário time de futebol Metropol, que depois rendeu um documentário dirigido por ele. Também escreveu duas biografias institucionais, como ghost-writer. Desde 1998
é chargista do “Diário Catarinense”, de onde seus cartuns já foram pinçados para republicação em veículos como “Veja”, “Pasquim 21”, “Zero Hora” e “O Globo”. Também produziu cartuns animados para o canal SporTv e vinhetas para a TV Globo,
onde é roteirista desde 2000. Lá, escreveu para os programas
Sai de Baixo, Casseta & Planeta, Gente Inocente, Xuxa, Turma do
Didi e Globo Ciência.
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