Escatologia

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Escatologia
STBRS-PETE “5.000 Æ 5.000” Escatologia e o Apocalipse
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Pr. Chrístopher B. Harbin
Escatologia:
O Reinado Definitivo de Deus
Estudo Teológico das Coisas Finais (Vida
além-túmulo, Parousia, Ressurreição,
Julgamento, Fim do Mundo e o Apocalipse)
Um estudo preliminar das doutrinas centrais referentes às temáticas da escatologia e o
Apocalipse, procurando uma aproximação maior com a base bíblica na elaboração de conceitos
em resposta ao contexto evangélico riograndense e os tratamentos sistemáticos norteamericanos
existentes no mercado evangélico brasileiro. Por questão da influência de interpretações
populares do Apocalipse de João na definição de conceitos escatológicos, um breve comentário
ao livro está incluido neste estudo. Material preparado para uso em aula de teologia sistemática
com alunos do Seminário Teológico Batista do Rio Grande do Sul.
Apostila preparada por:
Christopher B. Harbin
Seminário Teológico Batista do Rio Grande do Sul
Edição impressa sem gráfica: janeiro 2012
Edição: 2012-01-05
©Copyright 2002, 2012 por Chrístopher Byron Harbin
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©Copyright 2002 por Christopher Byron Harbin, Atualizado ©2012 conforme versões en inglés (©2012) e espanhol
(©2012).
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Citações breves para fins acadêmicos com referência bibliográfica são permitidas.
O autor pode ser contatado conforme abaixo:
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Seminário Teológico Batista do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS
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Índice
Anotações Gerais: .............................................................................................5
Problemas em tratar Escatologia: ...........................................................................6
Cosmologias Antigas: ......................................................................................9
Geografia/Mundo Físico:................................................................................ 14
Escatologia, Conceitos Essenciais: ....................................................................... 17
“Reinar de Deus”:........................................................................................ 17
Céu: ......................................................................................................... 18
Segunda Vinda/Parúsia: ................................................................................. 19
Fim do Mundo/Últimos Dias: .......................................................................... 19
Ressurreição e Juizo:..................................................................................... 20
Inferno: ..................................................................................................... 20
“Vida da Era”: ............................................................................................ 21
“Ira de Deus”: ............................................................................................ 21
Escatologia, Textos Bíblicos Essenciais: ................................................................ 23
1ª Coríntios 3.10-4.5: ................................................................................... 23
Lucas 14.1-16.31: ........................................................................................ 24
Designação Crítica de Jesus................................................................................... 26
João 3.16-21; 5.5-25: .................................................................................... 28
Mateus 23.29-24.44: ..................................................................................... 29
Mateus 25.14-46: ......................................................................................... 31
1ª João 2.18-4.6: ......................................................................................... 32
1ª Tessalonicenses 4.13-5.11; 2ª Tessalonicenses 2.1-3.5: ...................................... 33
Apocalipse, Introdução Geral e Histórica: .............................................................. 34
Autoria e Contexto Histórico: .......................................................................... 35
Perseguição: ............................................................................................... 37
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Considerações Escatológicas Referentes ao Apocalipse:........................................... 41
Literatura Apocalíptica e Linguagem Pitoresca: .................................................... 42
Apocalipse, Comentário Textual: ......................................................................... 46
Esboço do Livro: ......................................................................................... 46
Apocalipse 1.1-3.22: ..................................................................................... 48
Apocalipse 4.1-18.24: ................................................................................... 49
Apocalipse 4.1-5.14: ..................................................................................... 50
Apocalipse 6.1-8.1: ...................................................................................... 53
Apocalipse 8.2-11.19: ................................................................................... 55
Apocalipse 12.1-14.20: .................................................................................. 58
Apocalipse 15.1-16.21: .................................................................................. 62
Apocalipse 17.1-18.24: .................................................................................. 63
Apocalipse 19.1-10: ...................................................................................... 63
Apocalipse 19.11-22.5: .................................................................................. 64
Apocalipse 22.6-21: ...................................................................................... 67
Conclusão: .................................................................................................... 67
Bibliografia: .................................................................................................. 69
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Escatologia:
O Reinado Definitivo de Deus
“Quer concordemos que estas questões [de escatologia] são importantes, quer não,
devemos examiná-las, pois aqueles que as discutem as consideram importantes” 1.
Anotações Gerais:
No mercado cristão popular, existe muita especulação infundada referente ao “Tempos Finais”.
Quem será “Deixado Para Trás”? Qual é a importancia da reportada Batalha de Armagedão?
Quando alguém morre, do que se fala ao referenciar uma visão de luz branca, anjos, o anjo da morte
e tantas outras imagens da imaginação popular e de Hollywood? Procurar-se-á tratar com estas
preocupações populares ao ver o que a Bíblia diz referente aos temas de morte, vida além-túmulo,
resurreição, juizo e os “Últimos Tempos”.
Escatologia é o termo oficial para o estudo destes e relacionados assuntos. O termo vem de duas
palavras gregas, eschaton (escaton)significando “último” e logos (logo") significando “palavra”. A
combinação dos termos se refere ao estudo das últimas coisas—a morte e os seus assuntos
relacionados.
A escatologia compreende dois aspectos principais: a escatologia cósmica e a escatologia individual2.
Pretende-se em primeira instância tratar algumas das questões de referência comunal e cósmica. Por
outro lado, pretende-se dar mais ênfase aos aspectos individuais da temática. Neste estudo são os
aspectos individuais que serão enfocados, pois são nestes elementos da temática que o indivíduo se vê
em necessidade pessoal de estar relacionado devidamente com Deus.
A escatologia reúne um apanhado de conceitos que sofreu muita transformação ao longo do trajeto
revelacional do povo de Israel. As expectativas escatológicas foram em muito modificadas através do
tempo, incluindo o caso de muitas correntes que nem mantinham conceitos propriamente
escatológicos3.
Não existe um só conceito unificado e sistemático na Bíblia referente a questões de escatologia, mas
vários conceitos com enfoques diferenciados. Estas diferenças se devem ao caráter progressivo da
revelação em termos da escatologia. Ao mesmo tempo, pode-se delinear que há em várias passagens
do Antigo Testamento, da literatura judaica até o primeiro século e do Novo Testamento uma
consciência “de que Deus agirá de forma decisiva no futuro,” fazendo surgir um contexto diferente e
1
ERICKSON, OCnE, 10.
D. E. Aune em FREEDMAN, “Eschatology: Early Christian Eschatology”.
3
David L. Petersen em FREEDMAN, “Eschatology: Old Testament”.
2
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novo4. Em muitos casos essas conceitualizações são expressas em termos de uma volta a um tempo
primordial ou ideal, como no Éden5.
Deve-se lembrar que algumas passagens tratam assuntos tais como a ressurreição e julgamento desde
perspectivas completamente distintas. Uma perspectiva trata o assunto de forma aorista, ou resumida
como se tudo acontecesse num só instante—uma grande ressurreição e julgamento6. Outra
perspectiva trata o conceito de forma a destacar a diferenciação temporal do indivíduo—ressurreição
e julgamento para cada indivíduo no momento de sua morte física7.
A diferença nessas perspectivas tem induzido alguns a tratarem um conceito de “estado
intermediário” entre a morte e o “grande julgamento”. Tudo pode não passar de perspectivas
diferentes de uma mesma coisa, sem qualquer “estado intermediário”. De qualquer forma, Paulo diz
em Filipenses 1.23 que partindo desta vida ele está com Cristo. Mesmo que haja algum “estado
intermediário”, portanto, tal não vem a ser diferente do que o estado “final”.
No estudo da escatologia, muito tem-se dito e publicado sobre o livro de Apocalipse. Grande parte
dos posicionamentos referidos são simplesmente feitas em ignorância. Pode ser um tanto mais difícil
determinar com precisão o que se pode dizer com certeza, mas deve ser um alerta para todo
intérprete a vasta literatura que tem sido escrita e descartada, especialmente entre aqueles que querem
definir com base nesta carta a predição da época e as condições do fim do mundo. Vários
“intérpretes” já pronunciaram erroneamente a data certa do fim do mundo. As palavras de Jesus
deveriam ser o suficiente para o cristão: “Vigiai, pois ninguém sabe quando será aquele dia, a não
ser o Pai”. Certos assuntos não cabem ao ser humano definir. Afinal, foi para um relacionamente
de fé que fomos convocados. Fé em Deus, não nas minhas definições e ilusões dogmáticas.
Problemas em tratar Escatologia:
Distância Pessoal: Um dos primeiros problemas a serem evitados no estudo de Escatologia, é de
manter o assunto muito distante do indivíduo. Pode-se muito facilmente falar da segunda vinda de
Cristo usando expressões no sentido de que Jesus pode voltar amanhã, porém não se ouve a
necessidade de estar preparado. Em geral pensa-se: “Pode ser que Jesus venha amanhã, mas não é
muito provável. Não é preciso dar muita importância ao assunto.” Neste contexto, o estudo da
escatologia vem a ser um estudo bem confortável, pois trata-se de algo polêmico, intrigante, ambíguo
e muito distante. Por outro lado, a Bíblia parece sempre abrir o assunto assinalando a necessidade de
cada um estar preparado. É necessário lembrar que estas “últimas coisas” incluem aspectos que são
refletidos no cotidiano. Cristo pode vir dentro do ámbito das nossas vidas, mas as nossas vidas
terminarão em menos de oitenta anos mais. Estaremos prontos?
Princípios de Interpretação: Outro problema a ser considerado ao estudar assuntos de escatologia
(como também qualquer outro tema bíblico) concerne à necessidade de respeitar os princípios de
interpretação bíblica. Além de sempre ler os versículos e as passagens dentro de seus respectivos
contextos, é necessário lembrar que as passagens de ensino claro sempre tomam precedência no
4
George W. E. Nickelsburg em FREEDMAN, “Eschatology: Early Jewish Literature”.
REDDISH, 55 e D. E. Aune em FREEDMAN, “Eschatology: Early Christian Eschatology”. Veja Isaías 11.6 como exemplo desta forma de
expressão.
6
Uma grande ressurreição e um grande julgamento se vê retratado em passagens como Apocalipse 20.5-13.
7
Como se vê na parábola de Lázaro e o homem rico em Lucas 16. Os irmãos do rico estão vivos ainda na terra, enquanto Lázaro e o rico já
receberam “juízo e sentença”.
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tratamento de um tema. Por exemplo, 1ª João é muito mais claro ao tratar do anticristo do que o
livro de Apocalipse. Outro ponto a observar é o tipo de literatura que se está estudando ao tratar um
texto. O estilo literário do Apocalipse não é igual a 1ª João e o tratamento dos livros deve respeitar
essa diferença.
Respeitando Propósito/Intenção: Mais um problema a negociar é a necessidade de ler as passagens
bíblicas em relação aos seus propósitos, não em sentido de responder curiosidades pessoais. A Bíblia
foi escrita para tratar da necessidade do homem perante Deus, não para ensinar ciência, história, nem
futurismo. No final de um estudo, nem todas as perguntas, dúvidas e questionamentos serão
respondidos, pois a Bíblia não segue o propósito de responder às curiosidades humanas. Jesus
mesmo disse, “Não vos compete saber os sinais e os tempos”8. Deus exige do homem uma
dependência e confiança sem se propor necessariamente a aplacar todas as dúvidas e preocupações
humanas.
História: Outro problema a ser evitado está relacionado à história. Berstén e outros fazem distinção
entre profecias que se cumpriram e outras que ainda não se cumpriram. O problema que deve ser
tratado nesse contexto é o de compreender o que já sucedeu na história para então poder fazer uma
melhor declaração entre aquilo que tem e não tem acontecido. Salienta-se aqui a passagem de Mateus
24.1-28 e o contexto da destruição de Jerusalém no ano 70 depois de Cristo9.
Cosmologia: É necessário compreender como o povo, especialmente os autores bíblicos entendiam o
mundo em que viviam. Sua cosmologia implicava na sua terminologia aplicada a conceitos espaciais
e geográficos, como também a certas referências escatológicas. Não é lícito forçar o texto bíblico a
refletir um conceito cosmológico do século vinte, quando os autores não compartilhavam esse
conceito.
Vocabulário Especializado: Por outro lado, é indispensável que se trate o vocabulário bíblico
conforme o uso dos próprios autores. Certas palavras ou frases eram usadas diferenciadamente da
forma atual. O judeu dividia o tempo em duas partes: antes do Messías e depois do Messías. Por
“últimos tempos” ou “tempos postreros”, a Bíblia designa a segunda etapa do tempo. Os últimos
tempos, então, começaram com Jesus e referenciam o tempo desde aquela época até o final do tempo.
Supremacia Bíblica: É sumamente necessário que respeitemos que a palavra final referente a
qualquer assunto teológico é a palavra bíblica. Não é lícito dar mais confiança a sonhos, palavras de
profecia e visões do que ao próprio texto bíblico. Toda outra fonte deve ser submetida às indicações
e às limitações apresentados no tratamento bíblico dos assuntos correspondentes. A Bíblia é a
Palavra de Deus e Deus não se contradiz, ainda que a Bíblia exibe um desenvolvimento teológico no
processo revelacional. Quando houver conflito entre a mensagem bíblica e a palavra ou evento
profético, a dúvida recairá sobre a fonte extra-bíblica.
Profecia: Biblicamente, a profecia não é um exercicio de contra o futuro. Em vez disso, é a
proclamação do mensaje de Deus ao povo do dia do profeta. Quando um intérprete procura fazer
que textos como Apocalipse falem em predizer eventos do futuro, a tendencia é prognosticar eventos
do tempo do intérprete. Tal faz que textos como Apocalipse percam todo sentido a seus ouvintes
originais10. Ao contrario, a profecia tem que ver com a proclamação da mensagem de Deus ao povo
de Deus. É esencialmente proclamação, não prognosticação. A palavra profética conforme assim
8
Atos 1.7.
LOWRY, 35, Jerusalém foi incendiado na manhã de 26 de setembro de 70.
10
REDDISH, 28.
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era relavante no seu dia e sigue sendo relevante hoje também, pois expresa a mensagem atemporal de
Deus à humanidade, uma mensagem a ser aplicada às circumstancias do tempo de cada ouvinte.
Respeitar Limitações: Também é necessário lembrar que existem limitações ao que pode ser
conhecido em certas áreas. Atos 1.7 indica que não compete ao ser humano saber e entender a
maioria das questões referentes a eventos futuros. Precisa-se aceitar que Deus simplesmente não
revela detalhes a respeito de toda curiosidade humana. É necessário ler o texto bíblico reconhecendo
o propósito do proprio texto, não jogando por cima do texto um propósito pessoal especulativo sobre
o fim do mundo. O que realmente importa saber está exposto de forma clara: “Vigiai, pois não
sabeis em que dia vem o vosso Senhor!”11.
Em consideração às limitações do intérprete bíblico referente a formas divergentes de compreender o
mundo (ou seja, divergências entre as formas da antigüidade e as atuais), apresenta-se certas
reflexões sobre a forma na qual os autores bíblicos refletiram sobre o mundo. Os textos bíblicos
apresentam muito ensino com o uso de expressões que referenciam ou retratam os conceitos
cosmológicos do povo e de seus vizinhos. Espera-se que este tratamento possa ajudar a compreender
melhor as implicações dos termos usados na Bíblia.
11
Mateus 24.42.
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Cosmologias Antigas12:
Em vários casos, será de ajuda na compreensão de um texto saber algo sobre o conceito cosmológico
do povo hebreu na época bíblica. Este conceito, embora diferenciado, está relacionado aos conceitos
cosmológicos dos povos ao seu redor. É importante conhecê-los especialmente ao lidar com
narrativas concernentes à criação, ao dilúvio e tópicos escatológicos que retratam realidades celestias
em terminologias da realidade física conhecida. Evidências deste conceito cosmológico serão
encontradas em outras narrativas e textos ao descrever algo do mundo além-túmulo ou aspectos do
universo criado por Deus.
O conceito hebraico do formato do universo deve ser considerado ao tratar de assuntos tais como a
criação. Os hebreus tinham a mesma percepção “científica” do mundo dos outros povos de sua
época, porém faziam suas distinções. Em matéria do formato físico-estrutural do universo, tinham
12
Observação: Esta seguinte porção do texto sobre as cosmologias antigas procede da apostila, Homilética da Teologia das Narrativas, na versão
de julho de 2002.
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muito em comum com os outros povos. O texto bíblico usa termos como “abismo”13, “expansão”
(em algumas traduções “firmamento”)14, “janelas dos céus”15 e outros termos que de certo soam um
tanto estranhos no século presente. Estes termos demonstram a forma antiga de se refletir sobre o
mundoa sua perspectiva do universo criado por Deus. Pode-se ver que certos assuntos atuais,
como a preocupação de encontrar vida em outros planetas, não tem cabimento no texto bíblico pelo
simples fato de que estas perguntas baseiam-se em outra cosmologia, muito distinta daquela dos
hebreus16.
O gráfico apresentado ajuda na compreensão da perspectiva “científica” dos hebreus referente ao
formato do universo, refletido especialmente em passagens como Gênesis 1-11 e de Jó 38-41, na qual
Deus faz perguntas a respeito da criação do universo que Jó não consegue responder. Os elementos
comuns entre os hebreus e os outros povos são diferenciados em seus termos representativos e
especialmente na sua explicação religiosa. É importante lembrar que mesmo quando o conceito
hebraico reflete certas noções tidas em comum com os outros povos, a ênfase das narrativas hebraicas
é a de oferecer uma crítica nos pontos em que divergem deles pela revelação de Deus.
Este gráfico do conceito hebraico da estrutura do universo limita-se a uma fração mínima da
cosmologia científica atual. Pode-se ver como a Bíblia utiliza certa terminologia que se refere ao
conceito cosmológico de seus autores17. Pode-se ver no gráfico o título de “firmamento” (ou
“expansão”) para o círculo dos céus que separa as águas acima do firmamento da zona que se
denomina hoje por atmosfera. Estes termos ajudavam o povo a falar do mundo ao seu redor, mesmo
que o seu conceito específico tenha sérios problemas em face da ciência atual. Entender a
cosmologia hebraica é de ajuda para compreender as implicações das narrativas que utilizam a
13
Refletido em passagens como Gênesis 1.2; 7.11; 8.2; 49.25; Deut. 33.13; Jó 28.14; 38.16; 38.30; 41.31-32; Salmo 36.6; 42.7.
Refletido em passagens como Gênesis 1.6-8, 14-15, 17, 20; Salmo 19.1; 150.1; Ezequiel 1.22-26; 10.1; Daniel 12.3.
15
Refletido em passagens como Gênesis 7.11; 8.2; 2a Reis 7.2, 19; Malaquias 3.10.
16
Segue-se o quadro: “Cosmologia Hebraica”, conforme BANDSTRA, 56, KASCHEL, 159 e WEST, 81.
17
Gênesis 1.2,6-8,16-17, 7.11; Êxodo 20.4.
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terminologia do mesmo conceito. Quando o autor bíblico refere-se às janelas do céu, é bom saber
que faz referência ao seu conceito de como a água acima do firmamento chega até a terra em forma
de chuva.
A cosmologia é uma área da ciência que influi muito em vários aspectos da comunicação humana,
pois muitos dos seus conceitos alteram a forma de conceber o que acontece em volta do indivíduo e a
sua sociedade. A cosmologia hebraica aparece até no livro de Apocalipse, onde o “‘abismo sem
fundo’ está vinculado a idéias concernentes à forma do mundo. A terra era concebida como um disco
plano que flutuava em cima da água. O abismo refere-se às profundezas imensuráveis debaixo da
terra, para os quais pensava-se existir uma fenda capaz de ser selada”18. Até o Novo Testamento,
portanto, sente a influência desta cosmologia.
O conceito egípcio era estruturalmente bem parecido com o hebreu, mas representado nas pessoas de
seus deuses19. Estes representavam para os egípcios as várias partes do cosmos. Enquanto trata-se
na atualidade do mundo fenomenológico como objeto impessoal, “os antigos reagiam a ele como a
uma ‘pessoa’”20. Assim, entre os egípcios, a mitologia e apresentação cosmológica defendiam que o
panteão de deuses era parte do cosmos em termos físicos e representativos. Assim, o universo é
tanto criação de seus deuses, como também os
seus deuses compõem as partes do universo.
Não parece que houve muita diferenciação
entre a obra resultante e o originador da
mesma. No antigo conceito cosmológico
egípcio, o deus-céu é o céu, o deus-terra é a
terra, o deus-Nilo é o Nilo e o deus-ar é o ar.
(Portanto, no relato das pragas do Egito21,
Deus se revela como maior que os deuses do
Egito, não apenas por dominar suas esferas de
influência, mas, segundo a forma egípcia de
ver as coisas, por dominar os seus próprios
deuses!) Essa forma segue alguns aspectos da
mitologia babilônica retratadas no seu épico,
Enuma Elish22, porém é diferenciada em suas
próprias expressões. Os relatos mitológicos
dos egípcios referentes a este conceito
cosmológico divergiam em muito das
narrativas que se encontram no livro de
Gênesis. Os primeiros relatam lutas e intrigas entre deuses que atuam tais como ou até piores do que
os seres humanos. Esses deuses têm muito em comum com os deuses dos gregos, romanos, e
babilônicos, porém pouco ou nada com YHWH (hwhy), Senhor de Israel.
O conceito babilônico (ou seja, mesopotâmico) do universo é parecido com os conceitos hebraico e
egípcio em seus termos estruturais, mesmo que apresentando outro formato que centraliza a
montanha no centro da terra23. Esta montanha era muito importante para os babilônicos, refletindo a
18
ROBBINS, 221-222.
Aqui a deusa é retratada como suspensa pelo deus do ar, firmado no deus da terra. Veja WEST, 82.
20
LASOR, 24 e 32.
21
Êxodo 7-12, incluindo a morte do herdeiro de Faraó, que também se considerava um deus ou representante divino.
22
Enuma Elish é um poema babilônico, retratando a criação do mundo a partir da perspectiva babilônica de um panteão (veja HEIDEL, 1-60).
23
Este tema de uma montanha era comum a muitos povos, incluindo o Monte Olimpo grego y as figures dos montes Carmelo, Sinai e Sião entre
os hebreos.
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idéia de que no seu ápice era a morada de seus deuses. O épico Enuma Elish24 amplia a perspectiva
narrativa e histórica do conceito babilônico em termos de como o mundo chegou a ser formado. Este
épico enfatiza mais o relacionamento com a perspectiva do panteão de deuses egípcios, pois ele relata
o assassinato de alguns deuses e a construção das partes do cosmo com a utilização de seus corpos.
O mesmo relato diverge do egípcio em que os deuses usados para essa “construção” já não existem,
pois usou-se seus cadáveres na estrutura física do mundo.
Bultmann, estudioso do Novo Testamento, referiu-se à cosmovisão expressa no Novo Testamento em
termos parecidos com a descrição anterior.
Examinando a cosmovisão do NT, [Bultmann] achou que boa parte dela era mítica em sua natureza. Por mito quis
dizer a descrição de realidades do outro mundo em linguagem figurada tirada deste mundo. Os escritores do
Novo Testamento concebiam da totalidade da realidade como sendo um universo em três andares. O andar
superior é o céu, habitado por Deus e os anjos; o do meio é a terra, habitado por seres humanos; e o inferior é
o inferno, a base de operações do diabo e dos seus assistentes demoníacos25.
A estrutura física resultante desta cosmologia, porém, apresenta-se bem semelhantemente à hebraica.
Tem-se também uma reflexão da perspectiva cosmológica do Apóstolo Paulo, ao mencionar um
homem que foi levado até “o terceiro céu”26. Esta citação reflete sua visão estrutural do universo. O
quadro acima ilustra a cosmologia babilônica27. Nota-se que a perspectiva é a da terra ser uma
espécie de ilha, com água na volta por todos os lados. Tal era o conceito geral dos hebreus e seus
povos vizinhos28. Um detalhe faltando no quadro é o túnel por debaixo da superfície da terra pelo
qual o sol passava cada noite para chegar de novo a seu lugar de nascer29.
Nota-se nos relatos babilônicos uma série de conflitos, lutas e intrigas. Estas sucedem tanto entre os
seus próprios deuses, como também entre os deuses e o caos do universo quando da criação do
mundo habitado pelos homens. Desde a perspectiva babilônica, “a criação é realmente nada mais
que a vitória sobre os poderes caóticos que ameaçam a vida dos deuses e das pessoas”30. Os deuses
até conseguem vitória sobre o caos do universo, mas não há uma certeza de vitória entre si, já que
existe entre eles uma disposição a intrigas. Também as suas narrativas referentes ao dilúvio revelam
este mesmo caráter de incerteza, desconfiança, capricho e intriga.
Na cosmologia babilônica pensava-se que a criação do mundo era o resultado da junção dos oceanos
de água salgada e de água fresca na pessoa dos deuses, Tiamat e Apsu. Estes nomes servem de igual
modo para designar os oceanos referentes31. Foi na junção ou união destes deuses que a terra seca se
formou32. O formato do mundo, portanto, era concebido de modo essencialmente igual, trocando o
estilo e especificidade da atuação e identificação dos personagens divinos associados à criação.
Assim, as mitologias narradas por estes outros povos divergem muito das narrativas hebraicas do
Gênesis. No texto bíblico encontra-se conflito, mas este conflito é procedente do homem, não dos
céus entre um panteão de deuses. Em Gênesis, Deus cria a partir de uma decisão de sua livre e
soberana vontade e até domina o “caos” ao começar sua obra criativa. A descrição do restante deste
primeiro relato da criação mostra como Deus operou para impor ordem ao caos que já lhe obedecia e
lhe serviu de base para o restante de sua criação. O narrador continua mostrando ainda a soberania
24
HEIDEL, 78-79.
ERICKSON, OCnE, 30.
26
2ª Coríntios 12.2.
27
Segue-se o quadro: “Conceito Babilônico do Universo” – WEST, 83.
28
BANDSTRA, 55.
29
SASSON, 40-41.
30
BRONGERS em WOUDE, 116.
31
BANDSTRA, 51.
32
COOGAN, 9.
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divina sobre o caos na descrição do dilúvio, apresentando o conceito de YHWH ser muito acima do
conceito dos outros povos referente a seus deuses.
O conceito estrutural da forma do universo, então, era mantido basicamente em comum com os
outros povos ao seu redor, porém as considerações teológicas que os hebreus mantiveram referente a
essas estruturas físicas é algo completamente diferente. Como participavam dos conceitos
cosmológicos dos seus vizinhos, a sua ciência geofísica e geográfica era muito diferente daquela
aceita no século vinte. Estas diferenças devem ser levadas em consideração para uma melhor
compreensão de textos tão antigos.
Mesmo com as diferenças enormes entre conceitos da estrutura do universo de hoje e dos povos do
mundo antigo, as considerações teológicas destes que apresentam conceitos divergentes são aplicáveis
aos dias de hoje, sem qualquer necessidade de alteração. O texto bem pode falar com um linguajar
geográfico ao considerar a vida além do túmulo, sem alterar o significado do ensino teológico da
expressão.
Hoje ainda se fala com o mesmo tipo de linguagem sobre o viver com Deus “nos céus”, mesmo que
se saiba que Deus não mora num lugar fixo acima das núvens. Ainda se faz referência a um inferno
que se localizaria abaixo da crosta da terra, mesmo que não mais se pense no inferno como uma
habitação debaixo da superfície da terra. Estas formas de expressão remontam a cosmologias bem
diferentes da atual. O problema maior para o intérprete é descobrir a intenção teológica do texto,
não considerar a validade científica do pensamento do povo e do autor.
Não se deve cometer o mesmo tipo de erro que a igreja enfrentou na época de Galileu Galilei,
opondo-se a novos posicionamentos científicos para “proteger” os vínculos que se haviam construído
entre questões de fé e conceitos científicos. Aceitando o propósito bíblico básico como sendo
teológico, recorre-se à Bíblia para embasamento de questões de fé e prática, não de conceituações
intelectuais referentes ao mundo criado por Deus. A Bíblia interessa-se mesmo em explicar “Quem”
criou, não o método, nem o formato da criação.
As narrativas bíblicas pretendem demonstrar a identidade de YHWH em relação e contraste com o
homem, não pretendem ensinar ciência. O importante das narrativas, então, não é uma veracidade
detalhada de suas considerações científicas e descritivas do universo, mas o seu ensino referente a
YHWH e Seus desígnios para a humanidade. É interessante lembrar que as narrativas não contam
toda a história da interação de YHWH com o Seu povo. Como o autor do Evangelho de João coloca,
há muitas coisas que poderiam ter sido escritas referente aos acontecimentos históricos entre Deus e o
seu povo, mas estas foram escritas com propósito específico. Assim como o Evangelho de João foi
escrito para suscitar a fé real, também é este o propósito das narrativas bíblicas em geral—“para que,
crendo, tenhais vida em seu nome”33.
33
João 20.30-31.
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Geografia/Mundo Físico34:
ÍMapa de Hecataeus, c. 520 a.C.35
Não se dispõe hoje de mapas do
mundo provindo do povo hebreu,
porém existem alguns provenientes de
outros povos ao seu redor. Em tese,
estes refletem algo da perspectiva dos
povos mediterrâneos, incluíndo os
hebreus, referente à organização e ao
tamanho da superfície da terra. Sua
perspectiva cosmológica era diferente
da atual, como também era diferente a
sua
perspectiva
cartográfica.
Distâncias e medidas na Bíblia não
refletem as precisões da pesquisa
científica atual.
ÓMapa de Strabo, c. 18 d.C.36
34
Observação: Esta seção referente a cartografia antiga vem de Narrative Theology and Homiletics, February 2007, pp. 75-77.
BAIN.
36
ibid.
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O Pentateuco teria chegado à sua forma atual na época do exílio do povo hebreu, entre os séculos
sexto e quarto a.C.37, mesmo que alguns señalam uma data mais recente para sua forma final 38. O
mapa de Hecataeus, grego que viveu por volta de 520 a.C.39, ajuda a posicionar uma referência
mundial relativamente parecida com a que o povo hebreu poderia ter conhecido por volta desta
época. Esta perspectiva é provavelmente mais desenvolvida do que aquela que os hebreus teriam ao
seu dispor. Os hebreus dificilmente teriam conhecimento de um mundo maior do que o aqui
representado. Como o povo hebreu não era um povo marítimo, é bem provável que sua perspectiva
do tamanho do mundo fosse razoavelmente menor do que a perspectiva refletida por Hecataeus.
Estudando o mapa de Hecataeus, é necessário lembrar que o centro do mundo para os hebreus seria o
crescente fértil e mais precisamente a Palestina, não as montanhas do norte da Grécia (o Monte
Olympo sendo central nas mitologias gregas e também neste mapa). Assim, poderia-se tomar uma
perspectiva de tamanho deste mapa e vinculá-lo com o mundo conhecido por Strabo, grego do
primeiro século depois de Cristo. Strabo reflete descobertas das conquistas de Alexandre após a
época de Hecataeus.
O povo hebreu na época do Antigo Testamento provavelmente conhecia algo da metade a dois terços
do mundo representado por Strabo. Provavelmente desconhecia a maior parte da Europa e a parte da
África denominada como Líbia ao oeste do Egito, também como o extremo leste do mapa que
representa a Índia. Sabia-se a respeito da Índia, porém é provável que o conhecimento fosse pouco.
Já no Novo Testamento, o conhecimento do mundo refletido por Strabo estaria acessível para os mais
estudados, como Paulo e Lucas.
ÓMapa de Strabo editado para representar la perspective hebrea40
37
38
BARR, James em MAYS, 68.
DURHAM, xxv.
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Estes dois mapas em conjunto mostram um grande aumento no conhecimento grego do mundo como
resultado das conquistas de Alexandre. Com o crescimento do conhecimento grego, viria também
um crescimento entre os judeus, especialmente com o evento da Diáspora, no qual os judeus
entraram em contato com os ensinos gregos de uma forma muito mais abrangente. O povo hebreu
provavelmente não teve muito contato com as terras ao oeste da Palestina até esse período após o
exílio babilônico e o Antigo Testamento chegar à sua forma atual.
39
40
BAIN.
ibid., editado pelo autor.
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Escatologia, Conceitos Essenciais:
Antes de tratar com o ensino bíblico mais abrangente nos tópicos a seguir, se tomará uma breve
olhada a alguns parámetros básicos para o estudo dos seguintes termos. Mais será discutido nestes
assuntos ao tratar passagens essenciais nos tópicos respectivos.
“Reinar de Deus”:
No estudo da eclesiologia foi revisto algo da importância do conceito do Reino de Deus. Como o
conceito é também de muita importância na escatologia, será tratado aqui de forma mais dirigida às
temáticas escatológicas.
Para a escatolgia, a categoria principal na Bíblia é o Reino de Deus, seu “governo em ação”41. Em
razão disto, usaremos a frase o “reinar de Deus”42 em lugar do costumeiro “Reino de Deus”. Jesus
declarou que esse reinar já se fazia real dentro dos parâmetros da historia43. Mesmo que muitos
tratem o reinar de Deus com uma característica futura, o reinar não somente se acerca no ministério
de Jesus. Vem a uma expressão mais plena numa data futura”44. Esta data pode ser entendida como
o evento de pentecostes, entre outras opções. Nos evangelhos sinópticos, Jesus é apresentado
anunciando não somente a iminência, mas a própria chegada do reinar de Deus45. Logo, não deve
ser concebido apenas em termos da vida após a morte, pois reflete o reinar de Deus na vida do
cristão no “aqui e agora”.
O Reinar de Deus é uma temática especial dos evangelhos sinópticos, principalmente em Mateus.
Aqui se encontra a terceira parte das referências neotestamentárias ao Reinar de Deus (ou Reino dos
Céus)46. Na reflexão de Maetus encontramos um sentido de ugencia ao aproximar o reinar de Deus,
o arrepentimento sendo a categoría mais ressaltada para a preparação do individuo47. Muitas vezes a
palavra de Jesus refere-se à crise centralizada no ingresso ao reinar de Deus48, como nos capítulos 13
a 16 de Lucas. No ensino de Jesus, nada tem valor ao ser comparado com o reinar de Deus49. Jesus
convocava à renúncia de todo laço que impediria o indivíduo de seguir o seu exemplo de submissão
total a Deus, o que o levou à cruz50.
É comum certa confusão referente ao Reinar de Deus, especialmente em termos de seu tempo.
Como já tem sido visto, Jesus trata o reinar de Deus em tempo presente. Simultaneamente, Jesus
trata o reinar em tempo futuro. A ênfase é na realidade presente, mesmo que seja mais comum tratar
a temática em expectativa futura. Mateus 12.28 e Lucas 11.20 indicam que o reino pregado por
Jesus fez mais que acercarse. Ja tinha chegado. Mesmo que não tenha sido completamente
realizado, estava presente e ativo em meio do ministerio de Jesus e na vida da igreja51. Enquanto
41
MILNE, 259.
D. E. Aune em FREEDMAN, “Eschatology: Early Christian Eschatology” e MOODY, 516.
43
MILNE, 260.
44
Brooks em HEMPHILL, 26.
45
D. E. Aune em FREEDMAN, “Eschatology: Early Christian Eschatology”.
46
Brooks em HEMPHILL, 23.
47
ERICKSON, OCnE, 22.
48
D. E. Aune em FREEDMAN, “Eschatology: Early Christian Eschatology”.
49
ERICKSON, OCnE, 22.
50
NOLLAND, 762.
51
Brooks em HEMPHILL, 28-29
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Brooks ainda trata do reinar de Deus como algo que chegava, Jesus falou com de seus discípulos
como vivenciando o reinar de Deus em meio das suas vidas terrestres. Entrata ao reino de Deus era
uma realidade presente na pregação de Jesus. No havia razão para esperar algum evento futuro.
O tratamento bíblico do reinar de Deus após o ministério de Jesus visa menos futuricidade do que
recebe durante o seu ministério sobre a terra. Ao mesmo tempo, permanece a expectativa de um
complemento à realidade do reino já inaugurada nas vidas dos crentes. Tal expectativa, porém,
encontra a sua expressão na base do que Jesus já tem realizado.
“A confessão cristã não é apenas que Cristo virá ao final da história, mas que Cristo já veio; não apenas que a
salvação espera o crente no futuro escatológico, mas que a salvação já é experimentada, numa forma
antecipatória, porém real, no aqui e agora, no meio de problemas e não apenas ao seu fim…. Molda-se o
presente não apenas pelo passado, mas também pelo futuro de Deus”52.
O Novo Testamento geralmente caracteriza o reinar de Deus como a ação divina em reinar naqueles
que se colocam debaixo da autoridade de Deus en Cristo Jesus53. O ingresso ao reino é agora, não
num porvir. No momento em que se abre a vida para depender de Deus completamente, há ingresso
no seu reinar. Em termos políticos, esse reinar “não é deste mundo”54, porém não há necessidade de
pensar que seja apenas um conceito futurístico.
Céu:
Ao tratar com o reinar de Deus, deve-se salientar alguns aspectos da temática do céu, por questão de
ser complemento do ensino referente ao reinar de Deus—o reinar de Deus após a morte física.
Os termos bíblicos para céu, mymc (hebreo: che-ma-yim) e ouranovs (grego: u-ra-nos) são usados na
Bíblia com três sentidos básicos: referindo-se 1—à estrutura física do universo (o firmamento na
cosmologia hebrea), 2—à morada de Deus, e 3—a Deus como um sinónimo55. Olhando para Lucas
15.18, pode-se ver claramente que esta referência é feita especificamente a Deus56, não àquela
espansão estrutural acima das núvens, pois o filho havia pecado contra Deus, não contra uma
localidade. Pode-se ver que o reino do qual Jesus ensina em Mateus 5.3 e em Lucas 6.20 é o
mesmo. Logo, o chamado “reino de Deus” e o “reino dos céus”, são expressamente a mesma coisa.
Entre o uso do termo como morada de Deus e sinônimo de Deus, existe um relacionamento que nos
interessa em referência à temática do reinar de Deus. Há um vínculo entre o estar sob o reinar de
Deus e estar na Sua presença. Essa presença com Deus é elemento essencial da temática de “céu”,
como também do reinar de Deus. Tanto no céu e no reinado de Deus, é a inmediacidade da presença
divina a sua característica que da sentido à experiencia.
A Bíblia, especialmente o Antigo Testamento, também usa o termo “descanso” para tratar
considerações referentes à vida no céu, mesmo que tenha conotações presentes57. Neste sentido, o
descanso não é uma pausa do esforço laboral. É mais o receber e desfrutar algo de grande
52
BORING, 33.
Brooks em HEMPHILL, 21.
54
João 18.36.
55
ERICKSON, CT, 1226.
56
NOLLAND, 784 trata este uso do termos especificamente na categoria de perífrase.
57
HAGNER, NIBCH, 69-73.
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importancia58. Quando falamos em descanso em sentido celestial é necessário lembrar deste aspecto
do emprego deste termo.
Segunda Vinda/Parúsia:
Muitas vezes falamos da Segunda Vinda de Jesus ou seu retorno, mas esas não são as formas pelas
quais Jesus se refiria ao conceito. O termo bíblico para a chamada segunda vinda é a palavra grega
parousia (parousia), com o sentido de aparecimento. É designação de Jesus ser revelado em
glória59. Inerente a este conceito existe um reconhecimento claro, global da identidad e do retorno de
Jesus. Alguns tem comprendido a Jesus ter falado de sua morte como trazendo o reino escatológico
de Deus60. Tal expectação é que neste aparecimento, todos entratão o reinado de Deus—a esperança
mesiánica tão esperada afinal cumprida.
Deve-se notar que as expectativas mesiánicas originais englobavam duas realidades como uma. A
chegada do Mesías e a inauguração do reinado mesiánico eran vistas como um só evento. No
ministerio de Jesus, elas parecem tornarse em duas realidades diferentes. Jesus também introduz uma
terceira realidad na mistura, conforme falamos de uma realidade futura desse reinado de Deus ainda
antecipada. Quer seja além da tumba, o na terra, essa realidade de uma concretização mais plena do
reinado final de Deus chegou a ser um terceiro elemento da esperança mesiánica. Os judeus
entendiam esta realidade como a realidade básica do reino mesiánico. Os escritores do Novo
Testamento parecem reformular esta realidade como uma concretização celestial esperando la
realidade vivida além da tumba.
Fim do Mundo/Últimos Dias:
É valioso lembrar que o uso de frases como “o fim do mundo” e “os últimos dias” nem sempre
referem-se à destruição do mundo físico. Os judeus dividiam o tempo em duas partes—antes e depois
do messías61. Logo, com o dia de Pentecostes em Atos 2, já se pode falar destes últimos tempos,
conforme Paulo, em 1a Coríntios 10.11. Em conjunto com estas frases, encontra-se em certas
passagens a frase “última hora”62. Esta refere-se de forma parecida, se não igual, ao conceito
últimos dias. Pode ao mesmo tempo espelhar uma compreensão de ser um tempo imediatamente
antes da vinda de Jesus em glória, porém tal compreensão deve ser vista no contexto dos quase dois
mil anos após estes textos terem sido escritos, sem que Jesus tenha vindo em sua glória. Autores
bíblicos de textos como Apocalipse e 1a João esperavam que Jesus voltasse a qualquer minuto, porém
estavam errados nos seus cálculos. Tal fato deve servir de alerta àquele que busca definir o quando
da parousia63 e o fim do mundo—ninguém sabe.
58
ERICKSON, CT, 1229.
Veja comentários sobre 1a e 2a Tessalonicenses na página 33.
60
ERICKSON, OCnE, 21.
61
ROBBINS, 222.
62 a
1 João 2.18.
63
Parousia: Vinda ou chegada em glória do Messías, já que os termos segunda vinda e volta de Cristo não são bem assentados no texto bíblico.
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Ressurreição e Juizo:
Os conceitos de ressurreição e juizo estão ligados de pelo menos duas formas: a ligação de seqüência
temporal dos conceitos e o seu tratamento bíblico por via de duas perspectivas distintas. A ligação
temporal é produto de uma das perspectivas que trata a ressurreição como o evento que introduz o
julgamento. As duas perspectivas bíblicas divergentes sobre os conceitos visam a duas ênfases
primárias das temáticas, o individual e o universal.
Desde a perspectiva individual, os autores bíblicos tratam de enfatizar que cada indivíduo passa pela
ressurreição e o julgamento na hora de sua morte. Essa perspectiva realça tanto a experiência
individual como a instantaneidade da experiência. A perspectiva universal normalmente trata o
evento de ressurreição ou julgamento como um evento compartilhado de forma simultânea entre
todos da raça humana de todos os tempos. Poderia-se designar as perspectivas como pontilhar
seqüêncial (olhando a história como uma série de pontos individuais) e aorista sumária (olhando
desde o futuro para trás sem diferenciar questões temporais), descrevendo os mesmos acontecimentos
de perspectivas diferentes. Por outro lado, pode-se interpretar o aspecto pontilhar seqüêncial como
sendo a experiência normativa, passando para o aorista sumário num final cósmico cataclismático.
Assim, Hebreus 9.27 trata da perspectiva pontilhar seqüêncial: cada um morre e segue para o seu
julgamento. Mateus 25 trata de forma aorista sumária: virá o dia de prestar contas, e todos os servos
aparecerão perante o Senhor para serem julgados. Paulo parece vincular as duas perspectivas em
Tessalonicenses: não chegaremos antes dos que dormiram primeiro, mas os encontraremos na região
celestial. Não há necessidade de cogitar um estado intermediário como alguns têm feito. Lucas 16
parece ensinar que o juizo é imediato na hora da morte64, enquanto João 5 denota o juizo como tendo
ocorrido mesmo antes da morte do indivíduo.
Inferno:
Como o conceito “céu” tem vínculo estreito com o estar presente com Deus, o conceito inferno
vincula-se diretamente ao oposto. Várias figuras são usadas para descrever essa realidade, mas o
essencial é de estar completamente desvinculado de Deus para sempre. Há passagens que tratam o
inferno como ardendo em fogo, enquanto outras passagens descrevem com o ranger de dentes,
refletindo um frio interminável. Lembra-se que são figuras para descrever uma realidade que não se
reduz à linguagem humana. Outras formas descritivas também são usadas, como de ser deixado do
lado de fora da festa nupcial ou banquete. Qualquer que seja o detalhe, é um estado consciente de
separação de Deus.
Os comentarios de Paulo em Romanos 10.6-7 claramente demostram que ele entende céu e inferno
como lugares físicos. Ele indica que o céu é um lugar físico acima da terra, o inferno como a
habitação física dos mortos abaixo da superficie da terra. A descrição física, entretanto, não é tão
importante como o seu carácter de estar separado de Deus.
Um lembrete deve ser feito que o conceito de inferno foi revelado num processo de varias etapas.
Eclesiastes desconhece qualquer vida após a morte. 1ª Samuel 28.13-14 descreve a Samuel subindo
desde o mundo subterraneo. Este texto reflete uma comprehensão que ambos os justos e injustos
64
Veja também Lucas 23.43, onde Jesus afirma a bênção imediata de presence no paraiso para o ladrão na cruz.
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existem num estado nebuloso após a morte no mundo subterraneo do Seol. Isaías 26.19 já fala de
uma resurreição dos fiéis.
“Vida da Era”:
Nossas traduções usam a frase “vida eterna” para a frase grega zwhn aiwnion (zo-ín ei-o-ni-on).
Enquanto “vida eterna” é uma tradução válida, não é necesariamente a mais correta. A frase é
literalmente “vida da era”. Refere-se àquela vida que pertence à era por vir—a eternidade.
Mateus, Marcos e Lucas utilizam a frase em labios dos judeus, mas somente en duas instancias como
pronunciada por Jesús. En geral, Jesus fala da vida no reinado de Deus, em vez desta “vida da era
do porvir”65. Enfrentando perguntas sobre entrar à “vida da era”, Jesus responde referente ao entrar
ao reinado de Deus. Viver baixo o reinado de Deus é a característica esencial a esa vida. Sua
duração não é tão importante, nem é a preocupação sobre o reinado mesiánico futuro. O reinar de
Deus é uma realidade presente. A submissão à vontade de Deus é seu enfoque primario, senão
completo.
O Evangelho de João está repleto da frase “vida da era”. João abre com referencia a Jesús como o
Criador da vida quem vem a dar vida com Deus a todos que a recebam. A vezes João simplesmente
usa o termo “vida” em referencia a esta vida especial da era porvir. João é cauteloso, entretando,
para clasificar esta vida como uma realidade presente, em vez de uma experiencia que devemos
aguardar66. João 3 a 7 usa a frase “vida da era” no mesmo sentido que os outros evangelistas usam a
frase “o reinar de Deus”. En João 17:2-3 Jesus define a qualidade desta vida como conhecer ao
único Deus refletado no envio de Jesus Cristo.
Ao todo, a discussão do evangelho não pretende enfatizar a duração desta vida, nem os seus aspectos
futuros. É uma qualidade presente de vida que pode durar por toda a eternidade.
“Ira de Deus”:
Muitos gostam de falar da ira de Deus como uma categoría esencial ao carácter divino. Muito se tem
pregado sobre a necesidade de escapar da ira e a vengança divina, mas a Bíblia não está tão repleto
dessa categoría como alguns querem dizer.
Encontramos um retrato em Mateus 3.7-10 e Lucas 3.7-9 da necesidade de escapar da ira e do
julgamento de Deus. Este tema ya foi tratado em Jónas, como em outros textos do Antigo
Testamento. À vez, tratam mais da necesidade de uma mudança no ser humano que um aspecto
irado do carácter de Deus. Conforme Romanos 1.16-32, a ira de Deus consiste mais do que nada em
deixar que alguém trilhe o camino que escolhe. Aquele que não quer nada com Deus, Deus o deixa
seguir a sua vida aparte de Deus.
Gênesis 3-4 pinta um cuadro de Deus actuando em misericórdia e provisão pela humanidade que cai
nas trampas do pecado. Deus tece roupas para a humanidade y providencia para Caím uma marca da
65
66
Mateus 19.16-30, 25.46; 28.20 (final da era); Marcos 10.17-30; Lucas 10.25; e 18.18-30.
João 3.15-16, 36; 4.14, 36; 5.24, 25, 39; 6.27, 47, 54; 10.28; 12.50; e 17.2-3.
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sua proteção frente à vengança alheia. Miquéias 6-7 pinta um cuadro demostrando que ao mesmo
tempo Deus que age em juizo está pronto para tratar com misericordia. Como em 2ª Crônicas 7,
Dios prefiere misericordia e perdão, usando o julgamento como um recurso para chamar a
humanidade para uma reconciliação. O seu desejo central não é o castigo, mas o perdão, a
misericórdia e a reconciliação.
João 3 indica que o amor de Deus é o ser atributo central, não um desejo irado para vingança e
retribuição. 1ª Timóteo 2.4, 2ª Timóteo 1.18, 4.8 e tito 2.11-14 falam também do desejo divino
para reconciliar a todos. Ao tratar com a idéia da ira divina, deve-se temperar o conceito com a
misericórdia, amor e o perdão de Deus, temas que a Bíblia trata com uma atenção muito más ardente.
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Escatologia, Textos Bíblicos Essenciais:
Passa-se agora a tratar alguns textos chaves para a compreensão das temáticas da escatologia. As
passagens a seguir não são todas as passagens relevantes, mas são as mais centrais para tratar essas
temáticas.
1ª Coríntios 3.10-4.5:
“Aquele que constrói banalmente a igreja de Deus sofrerá a perda de recompensas especiais que Deus tem
preparado para serviço bem prestado. Sua salvação não está envolvida. Ela é um presente da graça de Deus,
recebido pela fé. No entanto, tal salvação teria sido de muito mais agrado se houvesse resultado em boas obras,
em materiais dignos, contribundo para a construção da igreja de Deus”67.
Por contrastar ouro, prata e mármore com madeira, palha e joio, Paulo fala de “um palácio por um
lado, e uma barraca de lodo por outro”68, segundo os materiais em uso comum na época. Os
materiais dignos para a construção sobrevivem ao fogo mencionado. Se Cristo for o alicerce, a
estrutura erguida por cima deveria ser digna da qualidade do seu fundamento. Não se deve construir
de qualquer maneira, mas com qualidade69. Em algum ponto o material utilizado na construção será
visto e provado70.
Não há como escapar desta prestação de contas a Deus71, pois nesta menção do fogo é feita em
conjunto a menção do “Dia”—uma referência escatológica—essa junção refletindo o dia de juízo
escatológico. Nestes termos, a igreja primitiva ouvia uma mensagem de boas novas pelo interesse e a
autoridade de Deus exercida sobre o que se passava entre o seu povo ou sua igreja72. O interesse de
Deus está presente na sua igreja e no labor desse seu campo. Esse interesse virá a ser revelado de
forma mais efetiva no juízo ao qual Paulo aqui se refere. No entanto, muitos trabalham no campo,
mas haverá um prestar de contas. Esta prestação aqui referida não está necessariamente vinculada
com a salvação, mas com a recompensa do justo fiel.
Ao contrario de outras passagens bíblicas, esta figura do juízo aqui não é a questão da separação
entre os fiéis e os infiéis. Em vez disso, é um retrato de uma vida desperdiçada. Os aquí julgados
tem sido infructíferos, entregando resultados tão mínguos sobre o alicerce de Jesus Cristo que os
resultados das suas vidas parecem desaparecer numa fumaça. Não existe nada de valor para mostrar
por seus esforços, seja almas acercadas ao evangelho de Cristo, enriquecidos no carácter do
evangelhos ou crescimento na graça de Deus73. A preocupação básica aqui é que para Deus a
qualidade do investimento que cada qual faz no desenvolvimento do reinar de Deus importa, e Deus
tem exigencias sobre os nossos esforços e investimentos no engrandecer do reinado de Cristo74.
67
BERQUIST, 26.
Lighfoot em ROBERTSON, WPNT IV, 97.
69
BERQUIST, 25-26.
70
FEE, 141.
71
ROBERTSON, WPNT IV, 97.
72
SOARDS, 73.
73
ROBERTSON, WPNT IV, 98
74
SOARDS, 74.
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Quando Paulo trata a questão do corpo do cristão como templo, ele emprega o termo nao;" (naós),
que designa mais precisamente o própio santuário, do que o templo como um todo. O uso aqui pode
designar a parte interna do templo, o santuário75, onde se visualizava a mera presença de Deus. Um
santuário era visto como uma manifestação visível da presença do deus ali cultuado76, neste caso,
YHWH (hwhy). Era visto como uma representação terrestre da sala do trono celestial77. Como tal, era
designado como um lugar apropiado para invocar a presença de Deus.
É neste contexto que Paulo retrata a vivência interna do “Sopro de Deus” no cristão, como parte
desse templo. Vale ressaltar que o termo pneu`ma (pneuma) é usado nos parâmetros do termo
hebraico jwr (ruach), o qual designa não apenas o conceito de espírito, mas o próprio fôlego78. A
intimidade da vivência interna do pneu`ma tou` qeou` (sopro de Deus) assemelha-se ao respirar do
homem no seu viver diário. Paulo assim ressalta a importância e a proximidade do corpo como
sendo a “nave”79 do templo de YHWH, onde Deus vive e reina.
O conceito de “o dia” é especificamente uma referência judicial80. Nesse dia, o juiz seria Deus, não
algum ser humano que usaria de parcialidade no seu juízo. Este juiz julgaria conforme os reais
méritos, não por alguma perspectiva falha ou parcial81. Este julgamento, portanto, é motivo de
alegria para Paulo, pois o seu julgamento e o seu futuro está nas mãos de Deus, não dos homens.
Deve-se lembrar que Paulo termina num ponto positivo, mostrando que o prestar contas ao Senhor
deveria ser um motivo de alegria para o cristão82.
Esta passagem de 1a Coríntios, revela que o julgamento vindouro é mais do que uma símples
separação entre os fiéis e os infiéis. Remonta também a alguma diferenciação entre a qualidade do
investimento de cada cristão na construção da igreja, ou seja, no reino de Deus. Nesta diferenciação,
não existe motivo de se gloriar por haver em qualquer caso “merecido” a salvação, mas parece ser
um ensino coerente com a passagem de Mateus 25.14-30, onde aos servos fiéis são dados novas
responsabilidades, ou seja, oportunidades de continuar o seu serviço a Deus. O reinar de Deus
continua, e o cristão ainda permanece como servo ou mordomo do Senhor do reino.
Lucas 14.1-16.31:
A parábola de Lázaro e o homem rico é uma das passagens mais marcantes referente ao estado do ser
humano após a morte. Aqui se evoca imagens bem ilustrativas de recompensa e juízo. É
interessante notar que Jesus referiu esta parábola aos fariseus e não aos saduceus. Os saduceus não
pensavam existir uma vida além-túmulo no sentido de céu e inferno, apoiando-se aos conceitos mais
tradicionais do judaismo do Seol como o lugar de todos os mortos, sem diferenciação. Esta parábola,
como todo o texto maior desde o capítulo quatorze, parece estar bem dirigida aos fariseus, os quais
tinham expectativas messiânicas e escatológicas bem desenvolvidas. Este ensino, portanto, tem uma
audiência específica. Parece que o tratamento do reino dado por Jesus para os saduceus haveria
tomado uma ótica e ênfase diferente.
75
BAUER, 533-534 e SOARDS, 74.
BERQUIST, 27.
77
Hebreos 9.
78
Veja “O Sopro de Deus” em Homilética da Teologia das Narrativas, p. 18.
79
O termo é provavelmente proveniente do grego nao;" (naós) desta passagem.
80
SOARDS, 87.
81
BERQUIST, 32.
82
SOARDS, 89.
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Tem sido comentado que Jesus parece colocar mais ênfase no ensino referente ao inferno do que
propriamente no ensino referente ao céu. Deve-se lembrar, porém, que o inferno não é o
contraponto ou oposto do céu, mas do reino. Nestes termos, o ensino de Jesus é bem dirigido à
inclusão dos saduceus. O reino já chegou e começa no aqui e agora. Esta vida no reino é a “vida
das eternidades”, o qual começa aqui e continua para sempre. Como a vida do reino é deixar que
Deus reine no indivíduo e no corpo, o céu é a continuação do reinar de Deus, mesmo após a morte.
A morte não interfere no reino, apenas modifica a esfera de sua atuação. O ser humano continua
após a morte no seu relacionamento com Deus, seja como for o mesmo—na intimidade do reinar de
Deus ou na eterna separação de Deus, o inferno.
O termo “Hades” (adh") é a expressão grega utilizada na Septuaginta83 para traduzir o termo
hebraico, lwav (Seol), este designando o lugar de continuidade nebulosa dos mortos84. No Antigo
Testamento, o termo mais significativo para referir-se ao mundo dos mortos é esse termo, “Seol,
uma palavra de origem incerta, porém usada 65 vezes no Antigo Testamento”85.
O conceito do Seol sofreu muitas modificações ao longo do processo revelatório de Deus com o povo
de Israel. Eclesiástes nem compreende qualquer vida além do túmulo, enquanto por outro lado
vários textos começam a sugerir imagens dessa existência ou continuidade. Quando inicialmente
surge o conceito de uma vida além-túmulo, concebe-se em geral um lugar de silêncio86. O termo
essencial é Seol, porém outros termos são empregados para expressar esse conceito. Abadon (@wdba)
por si significa destruição, mas é usado no Antigo Testamento também em referência ao Seol87, o
reino dos mortos88. Mesmo assim, o significado é impreciso por causa de termos que são muitas
vezes vínculados ao seu contexto, gerando a idéia de lugar daqueles que dormem, conforme as
sombras dos mortos que se acordam um pouco para receber o rei da Babilônia89. Em Jó 26.6 e
28.22, o Abadon é a personificação do lugar de destruição, ou seja, dos mortos90. O tehom (µwht—
profundezas, ou abismo) e o deserto são também símbolos, para os hebreus, referentes ao lugar dos
mortos91.
Moody coloca a passagem de Isaías 14.9-15 como sendo a descrição mais vívida do conceito do
Seol92. Ao ler a seguinte passagem, deve-se lembrar o gráfico do conceito hebraico do universo93:
“O Seol desde o profundo se turbou por ti, para sair ao teu encontro na tua vinda; ele despertou por ti os mortos,
todos os que eram príncipes da terra, e fez levantar dos seus tronos todos os que eram reis das nações. Estes
todos responderão, e te dirão: Tu também estás fraco como nós, e te tornaste semelhante a nós. Está derrubada
até o Seol a tua pompa, o som dos teus alaúdes; os bichinhos debaixo de ti se estendem e os bichos te cobrem.
Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filha da alva! Como foste lançado por terra tu que prostravas as nações!
E tu dizias no teu coração: Eu subirei ao céu; acima das estrelas de Deus exaltarei o meu trono; e no monte da
congregação me assentarei, nas extremidades do norte; subirei acima das alturas das nuvens, e serei semelhante
ao Altíssimo. Contudo levado serás ao Seol, ao mais profundo abismo.”94
83
Tradução grega do Antigo Testamento.
MOODY, 493 e NOLLAND, 557.
85
MOODY, 492.
86
WATTS, 209.
87
MOODY, 493. Jó 26.5-6 “As sombras abaixo tremem, as águas e seus habitantes. O Seol é nu perante Deus, e o Abadon não tem coberta”
(citação bíblica da versão Imprensa Bíblica Brasileira, de acordo com os melhores textos). AUNE (B., 534), portanto, coloca o Abadon como
sinônimo de Seol, o reino dos mortos.
88
TATE, 403.
89
WATTS, 209.
90
AUNE, B., 534.
91
MOODY, 493.
92
ibid., 495.
93
Veja a página 10 desta apostila.
94
Versão da IBB, de acordo com os melhores textos.
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“O contraste temor e o desespero do Seol é um contraste marcado com a esperança jubilosa da
ressurreição. Tal é o contraste presentado Apocalipse de Isaías (24-27). Isaías 26.14 diz com
respeito aos ímpios: ‘Os falecidos não tornarão a viver; os mortos não ressucitarão; por isso os
visitaste e destruíste, e fizeste perecer toda a sua memória’. No mesmo capítulo aparece a primeira
referência clara à ressurreição da vida. Dos justos declara-se (v. 19): ‘Os teus mortos viverão, os
seus corpos ressuscitarão; despertai e exultai, vós que habitais no pó; porque o teu orvalho é orvalho
de luz, e sobre a terra das sombras fá-lo-ás cair’. A ressurreição dos mortos depende do poder e da
realidade de Deus e o relacionamento correto do homem para com Deus”95. Em Apocalipse 20.1415, a morte e o Hades são jogados em conjunto no lago de fogo. Seu poder sobre o ser humano é
aniquilado96, mostrando em concordância com outras passagens que até “o Seol fica sob o domínio de
Deus”97.
Ao retratar o nosso conceito de inferno com o emprego de termos como Seol e Hades, deve-se
lembrar as limitações do conceito expresso com esses termos por suas conotações geofísicas.
Lembrando o conceito hebraico do formato físico do mundo, o Seol era o mundo subterrâneo ou
parte dele. Com o complemento do ensino de Jesus e o emprego de outras metáforas para o
inferno98, vale lembrar que a verdade do ensino não está ligada ao espaço físico, mas à sua realidade
relacional. “O inferno não é tanto um lugar de tormento físico, como é a horrível solidão de uma
separação total e completa do Senhor”99.
Para tratar bem a parábola de Lázaro e o homem rico, é necessário ver alguns assuntos do contexto
maior desde o início de Lucas 14. Em geral, uma parábola é dirigida a alguem para evocar uma
resposta100. Assim, é necessário compreender do contexto a quem a parábola estava sendo dirigida e
com que motivo foi empregada por Jesus. Também algumas questões clarificativas devem ser
colocadas de antemão.
Esta parábola vem ao final de uma série de críticas que Jesus dirige às prácticas farisaicas do dia, as
quais são tratadas como um todo em Lucas 16:19-31. Aqui encontra-se as críticas de negligenciar
aos pobres, reclamar direitos propios, fazer bem aos que podem reembolsar, falta de practicar
abnegação e infidelidade às exigencias da Lei em relação ao próximo. Todo o ensino de Jesus nos
últimos 3 capítulos está resumido nesta parábola.
O contexto maior começa fazendo uma diferenciação entre a ótica ou prática dos fariseus e a forma
de vida do reino que Jesus pregava. Desde pelo menos o capítulo 14, Jesus vem lançando uma série
de críticas aos religiosos do seu dia. Com esta crítica, Jesus vem enfatizando o tipo de vida do reinar
de Deus—a “vida das eternidades”—pelo seu caráter ou sua qualidade. No gráfico a seguir, pode-se
ver algo da crítica colocada por Jesus em oposição aos líderes religiosos dos judeus do seu tempo.
Como tem sido comentado em outra parte, a crítica de Jesus tem como alvo aqueles confiados demais
do seu lugar à mesa no banquete escatológico. Em vez destes, aqueles que realmente chegam são os
cegos, pobres e coxos. Aqueles presumidos pela sociedade estar presentes estão ausentes, dado as
suas preocupações com outros assuntos.
Ref:
Designação Crítica de Jesus
95
MOODY, 504, citações bíblicas da versão Imprensa Bíblica Brasileira, de acordo com os melhores textos.
ROBBINS, 230.
97
MOODY, 493. Veja também a referência que Moody faz a 1a Samuel 2.6 e Amós 9.2.
98
Veja Mateus 25.30, onde o servo inútil é colocado para fora no frio, onde existe “o ranger de dentes”.
99
ERICKSON, CT, 1241. Ênfase minha.
100
FEE e STUART, 124.
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14.1-6Æ
Negligenciando os pobres e necessitados
14.7-14Æ
Buscavam o melhor para si; faziam bem para que o bem fosse feito em retorno
14.15-24Æ
Os grandes não querem ir ao banquete, criam desculpas, pois não querem a
renúncia.
14.25-35Æ
Necessidade de renúncia/contar o custo
15.1-2Æ
Murmuravam por Jesus aceitar pecadores
15.3-7Æ
Festa pela ovelha: 1 entre 100
15.8-10Æ
Festa pela moeda: 1 entre 10
15.11-32Æ
Festa pelo filho: 1 entre dois
16.1-9Æ
Infiel sabe utilizar infidelidade em ganância própria, não o fiel
16.10-13Æ
Fiel em pouco, também em muito
16.14-18Æ
Fariseus gananciosos e infiéis à lei
16.19-31Æ
Reversão completa no juízo
A ótica normativa do povo acerca do juizo apegava-se a um conceito de retribuição. O justo
receberia recompensa material enquanto o injusto sofria a falta de bens materiais e saúde.
Conseqüentemente, era comum pensar dos ricos serem aqueles que eram abençoados por Deus e
dignos para participação no reino messiânico por vir. Ao nomear o mendigo na parábola, porém,
Jesus verte esta questão, especialmente em contraste à falta de um nome para o rico.
O nome que Jesus da ao mendigo, Lázaro, tem como significado o mesmo de Eliezar (rz[la)—
“Deus ajuda” ou “Deus, Ajude!”. O nome é uma transliteração grega de uma forma variante do
mesmo nome hebraico101. A própria questão de que ao mendigo é dado um nome, denota a distinção
real entre o valor de sua vida em comparação com a do rico, a quem é dado importância pela
sociedade. O rico atua em desprezo ao mendigo, porém Deus vem à sua ajuda.
Em toda a passagem, Lucas retrata Jesus oferecendo uma série de críticas referentes às práticas
farisaicas do seu tempo, as quais serão tratadas como um todo na parábola de 16.19-31. Aqui vemos
as críticas da negligência para com os pobres, da reivindicação de direitos, do fazer bem aos que
podem dar retorno, da falta de aceitabilidade de renúncia própria e a infidelidade às demandas da lei
em relação ao próximo. Todo o ensino de Jesus nos últimos três capítulos de Lucas encontra um
resumo aqui nesta parábola.
Nesta parábola, mesmo que seja uma figura lingüística ao todo, Jesus coloca algumas informações
sobre a vida futura em sentido de ensino veraz. Não se deve dar ênfase demais aos elementos
referentes ao mundo além-túmulo aqui descrito. Se o teor básico coerente com a crítica lançada
contra os fariseus desde o capítulo 14 fosse inverídico, não haveria por que oferecer a parábola. É,
portanto, uma passagem que contém informação sobre a vida além túmulo, mesmo que esse enfoque
seja parcialmente restrito em função de ser uma parábola. Alguns dos ensinos referentes à vida alémtúmulo nesta passagem incluem os seguintes:
•
Há consciência do estado além-túmulo;
•
Há memória desta vida na vida futura;
101
NOLLAND, 828.
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•
Há algum juízo imediato (mesmo que intermediário) envolvendo algum conceito retribuitivo;
•
Mesmo que o retrato seja de um estado intermediário, vê-se um juízo já pronunciado;
•
Há conforto além-túmulo para os fiéis oprimidos neste mundo;
•
Não há reversões do juízo de Deus após a morte;
•
A informação necessária para receber o “descanso” na vida além-túmulo está clara o suficiente na
“lei e nos profetas”102;
•
Deus se preocupa com aqueles descartados pela sociedade;
•
Não há retorno para esta vida terrestre após a morte;
•
Confiança em Deus é o único mérito de Lázaro (expresso no seu nome);
•
A situação de vida neste mundo é de muito menos valia quando se passa ao mundo além-túmulo.
Uma pergunta que provém do estudo da parábola pode bem ajudar a redefinir as prioridades do
quotidiano. Que diferença faz a minha presente circumstância ou forma de atuar em termos da minha
vida daqui a dez mil anos? Em certo sentido, é esta a pergunta de Jesus aos fariseus através desta e
outras palavras de ensino. Em outra passagem se registra as palavras de Jesus em reação à
preocupação de ter um corpo inteiro na ressurreição (para tal queriam guardar qualquer parte do
corpo que fosse amputado para ser incluído com o resto do corpo no sepultamento). Nesse contexto,
Jesus diz que é melhor arrancar e jogar o olho fora103 se fizer a diferença no ingressar no reinar de
Deus. Muito melhor viver no reino coxo, cego, ou aleijado do que perder o reino por completo.
João 3.16-21; 5.5-25:
João lança que o homem “já está julgado”, mas Jesus veio para o livrar da condenação. “E o
julgamento é este, que os homens amaram mais as trevas do que a luz, pois a suas obras eram más”.
O julgamento e a condenação já estavam realizados e atuantes na humanidade, como também são até
hoje. Não havia de se esperar a chegada de um dia de juízo, mas apenas a efetivação da sentença.
No período antes da morte do indivíduo, porém, existe a possibilidade de ser inocentado por Cristo.
Em outras passagens trata-se de um juízo vindouro, mas aqui de outra perspectiva, a qual trata o
julgamento como fato já no passado. Esta temática será repetida em 5.24-25.
Em João 5.5-14, Jesus vincula a cura do paralítico com questões de fé e pecado. Jesus não curou a
todos, mas curou a este. Logo, a cura deste paralítico vincula-se com o ensino de Jesus referente ao
morto ambulante104. Já há condenação e juízo, o homem apenas está aguardando cumprir a sentença,
mas existe a possibilidade de ser inocentado, mesmo que já tenha sido julgado culpado.
Essa não é a única perspectiva bíblica sobre o julgamento, mas deve ser vista como corretiva a um
conceito dogmático demais referente ao procedimento específico além-túmulo da realidade. A
implicação desta passagem é que a figura popular do juizo é precisamente uma figura. Não é tanto
um evento de acordo com a teologia popular. Enquanto prestar contas a Deus é uma realidade, a
102
Jesus expressa aqui continuidade do plano redentor de Deus. Em concordância com Gênesis 15.6, Romanos 4.3, Gálatas 3.6 e Hebreus 11.114, a salvação é e sempre foi pelo relacionamento de fé—uma confiança e dependência completa de Deus.
103
Mateus 5.29.
104
João 5.24-25.
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nossa definição de uma cena de corte é uma figura que simplesmente aponta à realidade do juízo
divino. Mais propiamente, o que se espera é a sentença de Deus, pois o juízo ja é realidade.
Mateus 23.29-24.44:
O capítulo 23 de Mateus fornece a base segundo a qual se pode compreender as palavras de Jesus no
capítulo 24. Pela pergunta dos discípulos em Mateus 24.3, é óbvio que eles pensavam que as três
coisas (destruição de Jerusalém, parousia105 de Jesus e fim do mundo) aconteceriam juntas106.
Guerras, fomes e terremotos citados por Jesus em Mateus 24 eram sinais comunmente associados
com a aproximação do “fim” na literatura apocalíptica judaica da época107. Jesus diz que estas coisas
não são sinais de nada! Diz que acontecerão, mas os discípulos não devem preocupar-se até verem a
abominação desoladora predita por Joel.
Muitos interpretam esta passagem como uma coletânea de ensinos dados por Jesus, não sendo
necessariamente tão homogênea108. Há, no entanto, uma lógica de argumentação que indicaria um
discurso direto e coerente, mantendo em vista as expectativas apocalípticas do dia e as três perguntas
a serem respondidas por Jesus.
Mateus 24.29-31 reflete a linguagem apocalíptica de Isaías 13.10, 34.4; e Ageu 2.6109, como também
de Joel 2.10, e da expressão de um commentário livre sobre Daniel 7.8-27, 8.9-26, 9.24-27, e 11.2112.13110. “O termo eleitos em Mateus 24 deve ser compreendido de acordo com o seu uso em outras
partes das Escrituras, em que significa ‘crentes’”111.
Mounce coloca em questão a referência do capítulo 24.3-31 à destruição de Jerusalém, considerando
que a linguagem de vários versículos trata da parousia de Cristo112. Mesmo assim, todos os sinais a
serem vistos são enganosos, pois não remontam ao fim, a não ser o fim de Jerusalém113. Os
versículos 29-31 tratam da parousia de Jesus. Ao mesmo tempo, esse tratamento é dado a fim de
esclarecer a questão de que os falsos cristos são exatamente isso—falsos. O enfoque da passagem não
chega a tratar a parousia, mas faz referencia em sentido de um excursus114. Assim Mateus 24.23-28
trata a questão dos falsos cristos, mesmo que o versículo 27 específicamente mencina a parousia de
Jesus. O tema é que os falsos cristos estavam para surgir. Para classificá-los como falsos, Mateus
24.27 explica que a parousia será um evento universalmente visível e reconhecível115.
Propõe-se a seguinte divisão temática para a passagem:
23.1-39
23.37-24.2
24.3
24.4-28
105
Censura aos escribas e fariseus
Jesus fala sobre a destruição de Jerusalém e do templo
Perguntas dos discípulos
Resposta: Destruição de Jerusalém e do templo
Termo do grego para a vinda de Jesus em glória.
MORRIS, 596.
107
MOUNCE, 234.
108
ALBRIGHT, 286 e 288.
109
MOUNCE, 237-238.
110
ALBRIGHT, 289.
111
ERICKSON, ITS, 522.
112
MOUNCE, 237.
113
RIENECKER, 390-391.
114
Um excursos é um texto parentético que visa a tratar uma temática levantada antes de voltar à linha de argumentação geral do texto.
115
MOUNCE, 238.
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Resposta: Vinda do Filho do Homem/Fim
Os judeus haviam parado de oferecer sacrifícios a YHWH (hwhy) em favor do Imperador, assim
rompendo o trato que tinham com Roma. Esse trato foi a forma encontrada para apaziguar as
relações deles com Roma: os judeus sacrificavam em prol do império, o que os preservava da
necessidade de sacrificar aos deuses romanos e à imagem do imperador116. Buscando a resolução do
impasse dos judeus nos anos finais da década de 60, no ano 70 Tito entrou em Jerusalém para fazer o
sacrifício mandatório117, em resposta ao rompimento do acerto com Roma. O templo foi queimado
por completo em reação por parte dos judeus ao procedimento Romano em oferecer sacrifício a
César sobre o altar do Templo118. Em conseqüência da revolta, toda Jerusalém foi destruída. A
destruição deu-se tão completamente que entre os anos 302 e 312, o governador Romano da Palestina
nem havia ouvido falar de Jerusalém119.
Conforme Josefo descreve o caso, não era intenção de Roma destruir Jerusalém, mas tornou-se
realidade em conseqüência da reação judaica em oposição ao sacrifício feito sobre o altar. “[Os
romanos] tiveram durante todo o tempo da guerra grande misericórdia do pobre povo, ao qual era
proibido fazer o que quissesse por aqueles [judeus] tumultuadores e sediciosos… por não [querer]
destruir a cidade [de Jerusalém], somente para que os que eram autores de tal grande guerra tivessem
tempo para se arrependerem”120.
O império enfrentava guerras e dificuldades de todos os lados por volta da época da destruição de
Jerusalém. A introdução descritiva histórica de Tácito é bem ilustrativa: “Começo a obra de escrever
sobre uma época que é rica em tragédias, sangrenta por causa de batalhas, dilacerada por revoltas”121.
Houve terremotos na Ásia nos anos 60. A morte de Nero em 68 foi seguida por um período de muita
instabilidade, mais guerras e até três imperadores num período de dois anos. Josefo declarou que “o
universo estava cheio de discórdias depois da morte de Nero; havia muitos que, por ocasião dos
tempos e de tão grandes revoltas, pretendiam agarrar para si o império; e os exércitos todos, pela
esperança de maior lucro desejavam tumultuar tudo”122. Em 62, os partos estavam em revolta. Em
68 havia revolta na Galícia, na Alemánha em 69, na Judéia de 66 a 70. Vesúvio erruptou em 79,
cobrindo Pompeii e cidades vizinhas e enviando uma núvem sobre grande parte do império. Houve
fomes nos anos 90123. Houve “o maior que quantas [guerras] jamais temos ouvido de cidades contra
cidades e povos contra povos…”124. Também se sabe pelas cartas de Paulo e de Atos que houve
fomes na Judéia durante o período de seu ministério, como a fome nos dias de Cláudio no ano 46125.
Nas palavras de Jesus, não existe sinal nenhum referente ao fim do mundo nem da parousia. Jesus
mesmo diz aqui o que Paulo repete em 1ª Tessalonicenses, e João em Apocalipse 16.15, que ele virá
como o ladrão inesperado durante a noite. Jesus diz propriamente que nem ele sabe quando será essa
vinda. Como, então, poderia ele dar um sinal da vinda cujo tempo desconhecia?
O mais perto que Jesus chega a declarar um sinal do fim na sua declaração é que o evangelho será
pregado em todo o mundo. Muito se tem feito da frase aquí relatada, bem como em Marcos. Alguns
116
AUNE, A., 170.
GONZÁLEZ, 58.
118
JOSEFO, 17.
119
FREND, 2, citando Eusébio.
120
JOSEFO, 13.
121
Tácito em RIENEKER, 391.
122
JOSEFO, 12.
123
BORING, 10.
124
JOSEFO, 11.
125
RIENECKER, 390.
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comentarios estão em ordem, entretanto, para manter as palavras de Jesus no contexto dentro do cual
os seus discípulos as compreenderam.
“…Durante os séculos que precederam ao advento de Jesus, houve um número cada vez maior de
judeus que viviam fora da Palestina”126, o que se chama de Diáspora ou Dispersão127. “…Já no
século primeiro as colônias judaicas em Roma e em Alexandria eram numerosíssimas. Em quase
todas as cidades do Mediterrâneo oriental havia pelo menos uma sinagoga”128. Logo, em Atos 2, é
apresentado que o evangelho foi pregado a todas as nações (etnias—e[qnh) no dia de Pentecostes,
entendendo que estes judeus espalhados levaram o evangelho de volta para as suas cidades, dispersos
por todo o mundo conhecido.
Mateus 25.14-46:
A apresentação aqui do juízo não deve ser vista como uma figura completa de todo aspecto da
salvação, pois tem como objetivo ressaltar a evidência de que o ser humano será julgado129. Não se
deve pensar aqui em dinheiro, mas em potencial a ser aplicado sob o reinar de Deus130.
Alguns interpretam a passagem para dizer que a salvação é merecida pelas obras, mas deve-se
lembrar a implicação aqui de que todos somos servos de Deus. Nesse contexto, Jesus descreve a
realidade da diferença de atitudes entre fiéis e infiéis. Graça é tão importante em Mateus, como em
qualquer outro texto neotestamentário131. Mesmo assim, deve-se lembrar que todos são vistos aqui
como servos de Deus—uns são fiéis, outros são infiéis. Tal como na parábola dos lavradores maus,
todos eram servos, mesmo aqueles que foram depostos dos seus cargos. Não vem ao caso tratar a
forma de alcançar a salvação, muito menos salvação mediante obras, mas, como Jesus já designara
no final de capítulo 24, o infiel mostra-se infiel por suas ações, enquanto o fiel pratica fidelidade. As
ações revelam o caráter da pessoa e a qualidade do seu relacionamento com Deus.
A segunda parábola aqui reflete outra vez conceitos de Mateus 16.27, onde cada qual recebe juízo ou
recompensa de acordo com a sua atuação no reino132. O ministério das ovelhas obviamente não é
uma ação com fins de alcançar mérito, pois não se percebe o mérito de suas ações. É simplesmente
uma forma natural de viver o evangelho de Cristo133.
Interessante no tratamento da parábola dos talentos, é que o talento era uma medida de peso,
equivalente a uns vinte quilos. Provavelmente refere-se a prata ou ouro, mas a designação não é
específica nesse sentido. Se fosse um talento de ouro, o preço de mercado atual colocaria o talento
no valor de mais ou menos 3.100 salários mínimos mensais.
Ao que fora fiel com os cinco talentos, no entanto, é designado como tendo sido fiel em pouco
(15.500 salários, o que seria em 2002 uns R$3,1 milhões, dobrado em R$6,2 milhões)—agora este
será colocado sobre muito! Aqueles dez talentos não são de muito valor, mas o Senhor colocará este
servo fiel sobre muito mais—o suficiente para que ele veja a insignificância do primeiro encargo.
126
GONZÁLEZ, 20.
cf. 1ª Pedro 1.1.
128
GONZÁLEZ, 20.
129
MORRIS, 634.
130
HAGNER, WBCM, 737.
131
MORRIS, 637.
132
HAGNER, WBCM, 741.
133
MORRIS, 639.
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Uma implicação desta parábola é de que o céu não é uma “aposentadoria legal”, como no conceito de
muitos. É a oportunidade de continuar a servir ao Senhor de forma ainda mais significativa. Em
nenhuma instância essa vivência é para aqueles que não querem servir—é para aqueles que querem
ser úteis no reino de Deus e que tem mostrado tal por meio de serviço prestado.
1ª João 2.18-4.6:
“É a última hora”. Para João, não existe nenhum intervalo antes dessa última hora chegar. Ela já
estava presente para ele no primeiro século.
O judeu dividia o tempo em duas etapas—antes e depois do Messias. Logo, após a ressurreição de
Jesus os cristãos já presenciavam os últimos tempos ou a última hora—essa segunda etapa do tempo.
Jesus modificou a expectativa judaica, pois não estabeleceu um reino político, mas já começara o seu
reinar nos cristãos do primeiro século. Agora o cristão anela uma terceira etapa de tempo, marcado
pela vinda em glória (parousia) de Jesus.
O Anti-Cristo já está presente—na época de João! Realmente, o texto trata de “anti-cristos”, ou seja,
muitos que atuam em luta contra Cristo. Não se trata aqui de um anti-cristo singular, mas de muitos
anti-cristos, já na época do próprio João. Conseqüentemente, a sua descrição do tempo em termos de
ser a última hora já entrou em vigor há quase dois mil anos atrás. Já é a última hora, como vem
sendo desde o primeiro século. Quer dizer, já vivemos na época após a vinda do Cristo, esperando a
sua vinda em glória.
Ao tratar o seu concepto do anticristo, João cria um elo em toda a pasagem entre o ser enemigo de
Deus, practicar o pecado e faltar em amar ao próximo. Para João, os gnósticos eram anticristos por
não amarem o próximo de acordo com o mandamente de Jesus. Aqui não existe nenhuma definição
de um personagem em particular, mas uma actitude de viver em contra dos princípios do amor de
Jesus Cristo e o evangelho de Deus. Contrariar of principios do evangelho é viver em contra de
Cristo, colocando-se nessa categoria de anticristo.
João afirma que não há mistério escondido para os fieis, pois o evangelho já fora pregado a eles.
Essa declaração contradiz diretamente os ensinos gnósticos prevalentes já no primeiro século. Tal
grupo ensinava a necessidade de aceitar uma doutrina escondida e especial, e que a salvação era
através de um correto conhecimento da doutrina escondida. João responde que não há novidade, mas
apenas a mensagem gloriosa do evangelho eterno de Jesus Cristo. Não há segredos a serem
descobertos, mas uma mensagem aberta para todos que quiserem assumir o compromisso com Cristo.
Logo, em termos escatológicos, também não há ensinos secretos a serem decifrados. A mensagem
do evangelho é clara—ninguém sabe quando Jesus virá em glória, mas é verdade que virá. Ninguém
pode discernir os tempos, predizendo os eventos futuros escatológicos, mas pode-se saber do próprio
evangelho as verdades referentes àqueles eventos. Não compete ao cristão conhecer os detalhes, mas
compete a ele conhecer o Salvador e obedecê-lo em fidelidade.
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1ª Tessalonicenses 4.13-5.11; 2ª Tessalonicenses 2.1-3.5:
O termo “dormir”134 é comumente usado como um eufemismo para morte, sendo este o uso aqui135.
Deve-se tomar cuidado para respeitar esse uso do termo. 1ª Reis 2.10 diz que Davi dormiu com os
seus pais e foi sepultado, 1ª Reis 11.43 diz que Salomão dormiu com os seus pais e foi sepultado.
De 1ª Reis a 2ª Crônicas, existem 36 ocorrências deste uso do termo dormir. Atos 7.60 diz que
Estevão adormeceu, mas 8.1 diz que Saulo consentia na sua morte! É também neste emprego do
termo que Jesus o usa em João 11.11-14, mesmo que os próprios discípulos não tivessem
compreendido de início.
Aqui em 1a Tessalonicenses 4.13-14, Paulo contrapõe a esperança do cristão em contraste à falta de
esperança no mundo pagão. Para o cristão e o judeu havia esperança de ressurrreição, mas então não
havia entre os pagãos136. Aqueles que estavam "em Cristo" antes de suas mortes, continuam "em
Cristo" após a mesma.
Deve-se lembrar que a expectativa da ressurreição na Bíblia era muitas vezes uma ressurreição física.
Muitos pensavam num retorno a esta terra ou, como indica Apocalipsis 21, uma nova terra de alguma
forma semelhante a esta. Ao encontrarse com Cristo nas núvens, Paulo aparentemente esperava
baixar com Cristo de forma semelhante a Atos 1:11. As especulações cristãs referentes à vida no céu
tem sofrido um choque en decorrencia da nossa apreciação científica de que não haver nenhum lugar
físico acima das nuvens onde Deus mora. Não temos uma boa apreciação da nova metafísica
necesaria para compreender a realidade celestial. Somente sabemos dizer que Deus nos espera e
viveremos com Cristo eternamente ao outro lado da morte, sem que preocupações metafísicas ou
geográficas interfiram na discussão137.
Paulo faz referencia ao “homem de perdição” aqui, a única vez na Bíblia que se usa a frase. É
semelhante ao uso do termo “anticristo” nas epístolas de João e Apocalipse. Paulo escreve antes da
destrução de Jerusalém, e a maior parte dos comentarios aqui parece referir ao evento da desolação
do templo. Nesse sentido, um podería identificar esse “homem de perdição” com Cesar, trabalhando
por meio de Tito y outros para introduzir a sua imagem ao templo de Iavé.
A intenção de Paulo era lembrar aos crentes da esperança do evangelho. Esta esperança era para eles
mesmos, assim como para ofrecê-los consolo referente àqueles quem morreram como crentes.
Fomos resgatados da ira para viver como agentes do reinado de Deus na terra. Agora antecipamos a
realidade futura do reinado de Deus ao outro lado da morte, assim como alguma expressão mais
plena cuando da parousia138 de Jesus.
134
O emprego da palavra “dormir” como eufemismo para a morte inclui uma sugestão que de alguna forma esa morte não é final, pois o que
dorme pode acordar.
135
BRUCE, 95 e WATTS, 209, em discussão do Seol e Abadon como lugar dos mortos, vinculado ao conceito do lugar dos que dormem.
136
BRUCE, 96.
137
Em algunas pasagens como João 14 e 1ª Coríntios 15, fala-se com uma apreciação da vida além da morte não ser física no mesmo sentido da
nossa apreciação do nosso universo. Paulo fala de um corpo espiritual, e Lucas 24 retrata a Jesus resurrecto comendo pão, mas também entrando
numa casa fechada. A norma, entretanto, é que o Novo Testamento parece visualizar o céu y a ressurreição em termos físicos ou terrestes.
138
Veja a seção A Segunda Vinda/Parúsia na página 19 deste documento
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Apocalipse, Introdução Geral e Histórica:
Qualquer interpretação textual é uma hipótese que precisa ser analisada, criticada e comprovada ou
descartada. Apoio válido para qualquer interpretação deve descansar em grande parte na sua
habilidade de respirar vida ao texto. Deve ajudar um leitor a compreender a razão pela qual o autor
deu-se o trabalho de escrever, como também porque os leitores originais o deram importancia
suficiente para não jogá-lo fora, mas preservá-lo para outros, incluindo os leitores atuais139. O leitor
deve, portanto, analisar as colocações destes comentários interpretativos como hipóteses a serem
consideradas e avaliadas. Espera-se definir algumas linhas interpretativas que fazem jus ao texto,
para que o mesmo possa ter aplicação para a vida do leitor.
Há várias perspectivas gerais no mercado referente à ótica interpretativa geral que se deve trazer ao
livro de Apocalipse. Em grande parte, essas opções interpretativas dependem das presuposições com
as quais os intérpretes começam suas leituras140. A grande maioria dessas posições ignoram o
contexto histórico do próprio autor e as igrejas às quais a carta foi originalmente dirigida. Se o leitor
perde de vista o fundo histórico de um texto como o seu propósito original, pode-se chegar a
qualquer interpretação imaginável141. Espera-se apresentar nesta apostila, suficiente do fundo
histórico para ajudar o leitor a situar a carta na condição vivida pelo seu autor e pelas igrejas às quais
foi dirigida.
Se o livro de Apocalipse foi transmitido até a época presente, deve ser pelo fato de que os cristãos da
época ouviram nesta profecia a mensagem de Deus para suas vidas. Isto os impeliu a preservar o
texto para gerações futuras. Assim, espera-se que, com o estudo do contexto histórico do autor e dos
ouvintes originais, o propósito do autor possa ser resgatado, para que o livro de Apocalipse
comunique mais claramente ao leitor atual.
O passagem central do livro de Apocalipse encontra-se nas próprias palavras de Deus referidas desde
o trono em 21.5-8142. Em todo o livro, estas são as únicas palavras registradas como saindo
diretamente da boca de Deus. Nas palavras desta passagem, encontra-se o tema do livro, localizado
precisamente no clímax literário de Apocalipse, numa forma bem sucinta e direta—“sê fiel até a
morte”.
Junto com ese tema central, o Apocalise de João tem outras temáticas teológicas e énfases centrais a
serem consideradas. Sua cristologia é bem acentuada, como também o seu tratamento da soberania
de Deus. O seu monoteísmo é radical, em sentido que o cristão deve manter sempre os seus outros
compromisos en segundo plano ao seu compromiso de dedicação a Deus. A salvação aquí tem um
enfoque no sentido do tempo presente. O juizo divino é tratado como não podendo existir em
conjunto com o designio supremo de Deus para o mundo. O padrão de vida do crente real falta em
violencia, pois a única conquista consistente com os valores divinos vem mediante um amor autosacrificial. Por último, a esperanza é central ao Apocalipse, gerando a idéia que não se experimenta
a vida conforme ela eventualmente será apreciada143.
139
GUNDRY, 254.
ALTER, 414 e 564.
141
HALE, 445. Esta introdução ao Novo Testamento é um dos melhores recursos gerais em Português para oferecer um resumo das preocupações
básicas da carta.
142
AUNE, A., lxxxi.
143
REDDISH, 22-26.
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Um destaque a ser feito referente ao livro é o uso da língua grega. O grego utilizado em Apocalipse
é distinto do grego do resto do Novo Testamento, sofrendo muita influência semítica, provavelmente
ambos do aramaico e do hebraico144. As regras gramaticais normativas do grego são parcialmente
dispensadas, sendo utilizado um estilo gramatical peculiar a este livro. As modificações de regras
gramaticais gregas obedecem normas de gramática semítica. A influência semítica também é clara
pelo fato de haver cerca de 500 alusões às Escrituras145.
No texto traduzido de Apocalipse, essas modificações de gramática não poderão ser apreciadas em
geral. No entanto, haverá no grego certas distinções que podem ser relevantes na interpretação de
uma passagem. Um exemplo é de distinguir entre um personagem já conhecido e um novo
personagem que entra em cena. A mesma regra indica no capítulo 21 que os novos céus e a nova
terra são completamente novos, não apenas uma reformulação das existentes.
Autoria e Contexto Histórico:
O livro de Apocalipse foi escrito com a intenção de ser lido em voz alta como uma obra completa. A
idéia era que fosse lido no contexto do culto cristão. Fazer tal leitura não deve ser visto como
opcional para o intérprete, pois esse drama não pode ser compreendido através do estudo de
versículos individuais. O ensino sobre alguma das seções do livro deve compreender a sua função
como parte da obra completa146.
O livro de Apocalipse é em gênero de literatura apocalíptica, a qual obedece regras interpretativas um
tanto diferentes do que se usa para a maioria das outras classes literárias da Bíblia. Chama-se uma
visão com sonhos, mas demais intérpretes querem interpretar as suas imágens com un sentido literal,
em vez de simbólico, comunmente com um gráu maior que com outros géneros literarios147. Entre as
várias distinções da literatura apocalíptica, duas devem ser vistas em tensão: a ênfase escatológica e
a significância histórica148. Não se pode colocar todo o ensino do livro em termos de relevância
escatológica e perder a questão de seu significado no seu contexto histórico.
O Apocalipse tem o caráter de uma carta pastoral dirigida às igrejas da Ásia Menor que enfrentavam
uma crise religiosa e política. Mesmo que seja de difícil interpretação, deve ser lida, pois tem uma
mensagem para a igreja de hoje, como tinha para a igreja da época149. A mensagem para hoje deve
ser coerente com a mensagem que tinha para os destinatários originais. Como João teve um
propósito ao escrever a carta, procura-se descobrir esse propósito e conseqüentemente a relevância do
livro150.
Desde a sua concepção, o livro de Apocalipse tem sido controverso, porém foi ao mesmo tempo
incluído no cânon das escrituras151. Lutero negou estatus canônico funcional a Apocalipse, por
entender que não era teologicamente adequado. Mesmo assim, o reteve no seu cânon152. Calvino
144
AUNE, A., clxii.
BORING, 27.
146
BORING, vii e 5.
147
Martin Marty citado em REDDING, 32. Veja também, REDDING, 36.
148
HALE, 426.
149
BORING, 1.
150
ROBBINS, viii.
151
BORING, 2 e HALE, 423.
152
BORING, 3 e GEORGE, 85.
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excluiu sómente Apocalipsis no seu comentario do Novo Testamento153. Foi um dos poucos escritos
dos crentes do primeiro século que sobreviveu e foi incluído no cânon neotestamentário154.
Há discórdia entre os estudiosos referente à pessoa do autor de Apocalipse. Muitos afirmam que o
autor foi o Apóstolo João, seguindo posicionamentos tradicionais155. A discussão, porém, não é
necessariamente convincente, vendo todas as provas oferecidas por todos os lados. É tão provável
que tenha sido João, o Apóstolo, como é provável que fosse escrito por qualquer outro João que
considerava-se profeta de Cristo, conhecido dos cristãos da Ásia Menor como sofrendo exílo na ilha
de Patmo. As fontes de tradições nas quais Carson e outros se apóiam não parecem ter o peso
necessário para demandar aceitação, mesmo durante o segundo século156.
Alguns têm procurado ver por detrás da carta uma história de transmissão e redação editorial entre
várias fontes, mas o estilo e coerência lingüística e simbólica não deixam espaço para esta
consideração. O Apocalipse deve ser visto em termos de uma unidade composicional, não uma obra
de aglomerações de passagens acopladas157. A carta foi escrita por um só autor, mas é difícil definir
a pessoa específica. Conforme estudo literário e lingüístico, é muito difícil que tenha sido escrita
pelo evangelísta158.
Seguindo Robbins159, deixamos a questão de autoria específica em aberto, seguindo a definição de
Aune. O autor provavelmente foi um judeu palestino que emigrou à província romana da Ásia
Menor e conhecia as igrejas ali. Esta emigração podia haver sido durante a primeira revolta
judaicade 66 a 70 d.C. O autor se declara um profeta e caracteriza a sua obra como um livro
profético. Ele dirigiu esta obra às congregações da Àsia Menor160. Em realidade, provávelmente foi
escrito por um homem chamado João, que somente conhecemos por meio deste libro que escreveu.
O livro de Apocalipse foi mais provavelmente escrito no final da época do Imperador Domiciano (8696) durante um período de perseguição dos crentes161, perseguição esta que se deu ao final de seu
reinado, começando no ano 95162 e provavelmente foi limitado163. Entende-se que João escreveu,
alertando para uma possível eventualidade de intensificação da perseguição164, como também profetas
do Antigo Testamento davam espaço para arrependimento–i.e. Jonas–sendo as suas mensagens de
interpretação de eventos, não de predições, especialmente em termos do sentido da história165.
No contexto histórico após a guerra na Palestina entre judeus e romanos entre 66 e 70, houve uma
grande migração judáica de refugiados para a região da chamada Ásia Menor166. Esta migração se
deu antecipadamente às guerras na judéia que levaram à destruição de Jerusalém sob Tito no ano
70167. Nero embarcou numa linha de perseguição que foi muito significante. Não foi significante por
sua abrangencia, mas por começar o que tornou-se um tema repetido de perseguição, sucessivamente
crescendo em crueldade. Após uma tentativa de culpar os judeus por queimar a Roma, Nero colocou
153
REDDISH, 1.
BORING, 4. Lembre-se de que mais de quarenta evangelhos foram redigidos, porém apenas quatro deles foram incluídos no cânon do Novo
Testamento. Mesmo que o Apocalipse tenha sido “maltratado” por muitos ao longo dos séculos, merece o destaque de pertencer ao cânon, pois
o povo de Deus ouviu em suas palavras a Palavra de Deus e por isso o guardou até hoje.
155
veja CARSON, 520-525.
156
BORING, 34-35 e AUNE, A., xlvii-lvi.
157
FIORENZA, 347.
158
ALTER, 414.
159
ROBBINS, 17.
160
AUNE, A., lvi.
161
BORING, 1, 10, GONZÁLEZ, 4 e ROBBINS, 18.
162
CAIRNS, 74.
163
REDDISH, 13-15.
164
AUNE, A., lxv.
165
BORING, 25-26.
166
BORING, 9 e GONZÁLEZ, 20.
167
JOSEFO, 17.
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a culpa nos cristãos, quem eram um povo “odiado por todas por as suas abominações, e os castigou
com mui refinada crueldade”168. Como Nero era odiado por muitos, não apenas pelos cristãos,
surgiu o mito após o seu suicídio em 09 de junho de 68 de que não morrera ou que havia ressucitado
dos mortos, mito este que circulou no império amplamente no final do século169.
Após a destruição de Jerusalém no ano 70170, houve muito conflito sobre a nova identificação e
definição do que era ser judeu. Nesse período de busca por identidade, a igreja encontrava-se ao
mesmo tempo numa época após a morte da maioria dos apóstolos e no começo da elaboração de uma
nova estrutura e uma identidade própria à parte do vínculo com o judaismo171. Esto era também em
parte por causa à animosidade crescente dos judeus em contra dos cristão que chamavam-se judeus.
Um dos pressupostos da cidadania grega era que todos tinham o dever de participar do culto religioso
sobre o qual a cidade era fundada172. No contexto do culto ao imperador Domiciano, recusa era
punível com morte173. A importância dada a tais cultos gerava muito conflito com as isenções
especiais oferecidas às comunidades judaicas. Neste contexto surgia grande parte da perseguição aos
judeus por parte das comunidades gentílicas. Os judeus, por sua vez, podiam acusar os cristãos de
não serem judeus, porém revindicando as condições especiais dos judeus. Nos capítulos 2 e 3 do
Apocalipse, os perseguidores parecem ser judeus, não romanos174.
Perseguição:
O propósito de Apocalipse foi comfortar a comunidade crente ao largo de um período de grande
dificuldade175. João declarou nestas imágens a mensagem de esperança que toda agencia maligna ao
fim curvará ao poder supremo de Deus176. É, portanto, uma palavra de conforto para a igreja atual
ao passar dificuldades.
Muito tem sido referido sobre a perseguição geral aos cristãos por Domiciano. Ao mesmo tempo,
outros eruditos entendem que tais afirmações não têm base firme o suficiente para serem apoiadas.
Claramente havia perseguição, mas não foi generalizada e sistemática como alguns querem afirmar.
Muitos sofreram perseguição na era de Domiciano e após, porém não da forma sistemática nazista177.
Pode-se dizer que João viu o que se entende ser a primeira etapa de algo que prontamente tornar-se-ia
numa perseguição universal e sistemática, sendo no seu imediato uma situação religiosamente
constrangedora178. Sem intervenção divina, a progressão dos eventos levaria a um nível de
perseguição até então desconhecido.
Um historiador social romano define os parâmetros da perseguição da seguinte forma: “Desconhecese qualquer perseguição da parte do governo romano até 64, e não havia perseguições gerais até a de
Décio. Entre 64 e 250, havia apenas perseguições locais e isoladas; e até se o número total de
168
Tácito citado em GONZÁLEZ, 52-55. Muitos acreditavam que os cristãos eram canibais, bebiam sangue humana, eram ateos, antipatriotas e
trabalhavam para aruinar la estrutura social por ignorar el culto apropiado de los dioses.
169
AUNE, A., lxi.
170
LOWRY, 35.
171
BORING, 9.
172
AUNE, A., 170.
173
ROBBINS, 24.
174
AUNE, A., lxiv-lxv
175
ROBERTSON, 458.
176
REDDING, 37.
177
GONZÁLEZ, 60-67.
178
BORING, 17-23.
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vítimas era considerável (como creio que era), a maioria dos casos de perseguições deve geralmente
ter sido bem breve”179.
Em meio à perseguição, o Apocalipse mostra uma atitude muito mais negativa contra Roma do que o
resto do Novo Testamento. Paulo havia ordenado aos romanos que se submetessem às autoridades,
que haviam sido ordenadas por Deus180. Mas agora “o vidente de Patmos descreve Roma em termos
nada elogiosos, como ‘A grande rameira … ébria do sangue dos santos, e do sangue dos mártires em
Jesus’ (Ap. 17.1,6). E Pérgamo, a capital da região, é o lugar ‘onde está o trono de Satanás’ (Ap.
2.13)”181. Na cidade de Pérgamo, como também em Êfeso e Smyrna, havia um templo dedicado a
César nos dias de João182.
Em 107 d.C., Inácio de Antioquia, um líder notável da igreja de sua época, escreveu referente a
perseguição sob prisão, sendo levado a Roma para ser julgado. “Estou começando a ser discípulo …
O fogo e a cruz, multidões de feras, ossos quebrados (…) tudo eu hei de aceitar, contanto que eu
alcance a Jesus Cristo”183. Esta perseguição era real, mas Roma não estava diligentemente
procurando matar todos os cristãos do império.
Os cristãos do primeiro século no império romano eram comunmente vistos como faltosos em
patriotismo, não sendo religiosos e às vezes tachados de ateus, por não terem ídolos, enquanto os
povos do império eram extremamente politeístas184. Era difícil para os judeus e, logo, para os
cristãos mostrarem que criam em Deus, quando os vizinhos pensavam que ídolos eram integrais a
qualquer forma de culto.
Na época de 112 d.C., uns 16 anos depois que João escreveu Apocalipse, o governador da província
ao norte da Ásia (Bitínia), escreveu uma carta ao Imperador Trajano. Ele referiu-se específicamente
ao tratamento devido aos cristãos. Como se vê na carta e na resposta, não há exatamente uma
perseguição institucional e programática, mas uma falta de compreensão da fé cristã num contexto
muito constrangedor para o crente da época185. Havia perseguição, sim, mas não como aquela por
Nero em 68. A carta a seguir de Plínio e sua resposta é muito esclarecedora.
Tenho feito como regra, Senhor186, para referir-lhe tudo sobre o qual tenho dúvidas. Pois quem melhor
poderia orientar-me as hesitações ou instruir minha falta de conhecimento?
Nunca estive presente na interrogação de cristãos, pelo qual não sei até que ponto tais investigações
devem ser estendidas, nem quais punições são apropriadas. Também tenho estado incerto se idade é
implicada, ou se os muitos jovens devem ser tratados igualmente como os adultos, se arrependimento187
e renuncia do cristianismo é suficiente, ou se os acusados devem ser considerados criminosos por
haverem sido cristãos, mesmo se depois renunciarem, e se pessoas devem ser punidas simplesmente
pelo nome “cristão”, mesmo se nenhum ato criminoso tenha sido cometido, ou se somente crimes
associados com o nome devem ser punidos.
No entanto, tenho atuado com aqueles denunciados como cristãos da seguinte forma: tenho perguntado
se eram cristãos. Aqueles que responderam afirmando, tenho perguntado uma segunda e terceira vez
sob ameaça de morte. Se persistissem188 em sua confissão, eu os mandei executar, pois seja o que for
179
Saint Croix citado em AUNE, A., lxxvii.
Romans 13:1-7.
181
GONZÁLEZ, 60, citando Apocalipse 17.1, 6 e 2.3.
182
BORING, 19-20.
183
Inácio de Antioquia, citado em GONZÁLEZ, 61 e 66.
184
BORING, 11.
185
Era constrangedor o suficiente para causar a morte do cristão que se recusasse a sacrificar ao imperador (ROBBINS, 24).
186
Senhor (latím: domine, equivalente ao grego kurios): reclamado como título pelo imperador, porém usado pelos cristãos de forma especial
para Deus e Jesus. Era um termo especialmente importante para Domiciano.
187
Latim, penitentiae: palabra central em Apocalipse.
188
Latín, perseverantes: relacionado ao grego hypomone, a virtude central do crente em Apocalipse.
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que eles estejam asseverando, parece-me que a obstinação e a tenacidade devem ser punidas de
qualquer forma. Outros que têm a mesma delusão, mas que foram cidadãos romanos, tenho designado
a serem enviados a Roma.
No trascurso das investigações, como normalmente acontece, acusações são trazidas contra círculos
maiores de pessoas, e os seguintes casos especias têm surgido:
Um letreiro anônimo foi colocado, acusando um grupo grande de pessoas por nome. Aqueles que
negaram ser cristãos agora ou no passado, pensei necessário soltar, já que invocaram os nossos deuses
de acordo com a fórmula entregue e por oferecerem sacrifícios de vinho e incenso perante a tua imagem
que eu fiz trazer para tal propósito, junto com estátuas de nossos deuses. Também os fiz maldizer a
Cristo. É dito que cristãos verdadeiros não podem ser forçados a fazer qualquer dessas coisas.
Outros acusados assim no início admitiram que haviam sido cristãos numa época, mas que haviam
renunciado, alguns há três anos, alguns há mais tempo, alguns há tanto como vinte e cinco anos
atrás189. Todos esses adoraram a tua imagem e as estátuas de nossos deuses e amaldiçoaram a Cristo.
Eles verificaram, no entanto, que toda a sua culpa ou erro consistia no fato de que num certo dia antes
da alvorada eles acostumavam-se a reunir e cantar um hino a Cristo como o seu deus e jurarem-se com
um juramento para não praticar qualquer crime, mas para abster-se de todo roubo, assalto e adultério,
para não quebrar a sua palavra depois de dada, e para não recusar a pagar as suas dívidas legais.
Depois íam pelos seus próprios caminhos, e juntavam-se mais tarde para comerem uma ceia em
comum, mas era comida ordinária e normal. Eles suspenderam até esta prática em acordo com um
edito pelo qual eu havia proibido associações políticas, de acordo com as tuas instruções. Considerei
ainda mais necessário obter através de tortura uma confissão da verdade de duas escravas, as quais
chamavam diaconisas. Não encontrei nada mais que uma superstição vulgar e excessiva.
Assim, eu parei de ouvir outras acusações, para procurar conselho de ti. O assunto me parece
necessitar bom conselho, especialmente em consideração ao grande número dos acusados, pois muitos
de toda idade e classe, de ambos os sexos, estão em perigo de serem julgados agora e no futuro. A
praga desta superstição tem se espalhado não apenas nas cidades, mas também pelas aldeias e pelos
campos, porém eu creio que pode ser parada e uma solução providenciada. De qualquer forma, está
agora bem claro que os templos anteriormente quase desertos estão pouco a pouco recebendo mais e
mais visitantes, e os muito negligenciados festivais sagrados estão mais uma vez sendo observados, e a
carne sacrifical, para a qual compradores eram difíceis de encontrar, está mais uma vez sendo
comprada. Disso pode-se ver facilmente que tipo de melhoria pode ser feita com as massas quando se
dá lugar para arrependimento.
(Resposta do Imperador Trajano)
Meu Segundus! Tens escolhido a forma correta em questão dos casos dos que têm sido acusados
perante ti como cristãos. Nada existe que poderia ser considerado como uma norma universal referente
a tais casos. Cristãos não devem ser procurados, mas se forem acusados e entregues, devem ser
punidos, mas apenas se não negarem ser cristãos e demonstrá-lo pelo ato apropriado, ou seja, o culto
aos nossos deuses. Mesmo se um é suspeito por causa de conduta prévia, ele ou ela deve ser
inocentado em vista de arrependimento.
Acusações anônimas não podem ser consideradas em qualquer tribunal, pois seria um precedente
perigoso, e não se dá com os nossos tempos190.
O conflicto vivenciado pelas igreja na Asia Menor era muito constrangedor, enfrentando certa
perseguição da parte do Império Romano191. João escreveu Apocalipse não sob uma perseguição
sistemática, mas frente a uma perseguição que esperava crescer em intensidade. Ele compreendia
189
A data especificada aqui estipula a época de Domiciano e o contexto da redação do livro de Apocalipse.
Plinio o Jovem, Cartas X:96-97 em BORING, 13.
191
ROBBINS, 24.
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estar vivendo as primeiras fases de uma perseguição que poderia se transformar em algo de escala
universal192.
Houve perseguição, mas não no sentido de aniquilação sistemática. O cristão podia ser executado
por não cumprir com sacrifício ao Imperador193. Sabe-se que muitos foram executados nessa época,
acusados de ateísmo, resultado da recusa de adorar os deuses de Roma e o Imperador. Essa adoração
ao imperador o posicionava como um deus, blasfêmia tanto para judeus como cristãos. Na época em
que vivia sob o Imperador Domiciano, todas as declarações oficiais do governo começavam da
seguinte forma, “Nosso Senhor e Deus Domiciano ordena…”194. Semelhantemente, Domiciano
insistia que todos que o endereçassem por escrita ou palavra o entitulassem “Senhor e Deus”195.
Na sua época, Nero não era bem-quisto no império. Por questão de Nero haver acusado os cristãos
de queimar Roma e haver executado muitos de formas grotescas, a sua figura era vista
incrustadamente na consciência cristã como uma fera selvagem. Após o seu suicídio, houve rumores
de que não havia realmente morrido ou que retornara dos mortos e estaria voltando com os exércitos
partos para uma nova conquista196. Certas atitudes do Imperador Domiciano fizeram com que muitos
o associassem ao mito de Nero redivivo.
…Domiciano começou a perseguir [os judeus] e a exigir o pagamento da oferta [antes dada ao Templo em
Jerusalém]. Quando alguns judeus negavam-se a fazê-lo ou mandavam o dinheiro ao mesmo tempo que deixavam
bem claro que Roma não havia ocupado o lugar de Jerusalém, Domiciano começou a persegui-los e exigir o
pagamento da oferta. Já que ainda não estava totalmente limitada a relação do judaísmo com o cristianismo, os
funcionários imperiais começaram a pressionar todos os que praticavam ‘costumes judaicos’197.
Com a necessidade política de reverenciar o imperador como um deus, havia uma série de opções
limitadas para os cristãos em termos de sua resposta, opções para as quais João aponta no livro de
Apocalipse. Essas opções eram: 1-desistir de Cristo, 2-mentir sobre Cristo, 3-lutar contra o império
romano, 4-mudar a lei, 5-adaptar-se às normas do império, ou 6-morrer. Esta última opção é a única
que João diz ser uma possibilidade fiel cristã198. Desse posicionamento, pode-se ver facilmente por
que o conceito “aquele que perseverar até o fim” permeia toda a carta de Apocalipse199 e por que
João pode falar de todos os fiéis sendo mortos em testemunho200.
Os profetas bíblicos e os escritores apocalípticos falavam para as suas próprias gerações201. Menos de
oito por cento das profecias no Antigo Testamento tinham a ver com uma época após a do próprio
profeta202. Nesses mesmos termos, João dirige Apocalipse às igrejas de sua época. O valor da sua
mensagem, entretanto é ainda válida também às igrejas da atualidade. Como com os profetas da
antiguidade, é a aplicação fiel da mensagem de Deus que importa, não o prognóstico de eventos
futuros. Ainda que a mensagem de João seja vestida no traje contextual do seu dia, a sua aplicação à
vida é atemporal.
192
BORING, 17.
ROBBINS, 24.
194
BORING, 18.
195
ibid., 21.
196
COLLINS, 126.
197
GONZÁLEZ, 58.
198
BORING, 21-23.
199
i.e. Apocalipse 2.7, 11, 17, 26; 3.5, 10, 12, 21; 7.14-15; 12.11; 13.10; 14.12-13; 17.14; 18.20; 20.4; 21.3-7; 22.3-4, 14.
200
Apocalipse 1.5, 17-18; 2.10; 12.11; 13.15; 14.13; 20.4.
201
ROWLEY, 15.
202
FEE e STUART, 154.
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Considerações Escatológicas Referentes ao Apocalipse:
O mal não teve origem dentro da história. Assim também não será erradicado dentro da história. É
somente após a historia, naquela “vida da era” 203 por vir puede existir qualquer esperança da
aniquilação do mal204. À luz do Novo Testamento, diria-se que esse “mundo por vir” já foi
inaugurado em certo sentido, pois é o mundo do Reino anunciado por Jesus. Ao mesmo tempo, o
Novo Testamento afirma que há outro mundo além desta “nova época” (ou seja, “tempos finais”,
“tempos posteriores” ou “últimos tempos”), um mundo que poderia-se chamar de não material, o
qual designa-se por “céus” ou “reinar dos céus/Deus”.
No livro de Apocalipse, o final do mundo chega à conclusão de cada série de sete ítens. Por
exemplo, o sexto selo205 figura a dissolução do cosmo. Tal interfere com a compreensão de que
possa haver mais duas séires de desastres na seqüência da história. Logo, o livro parece tratar
recapituladamente impressões variadas da realidade sendo apresentadas em diversas imagens
evocativas206. Não se deve forçar o texto a apresentar uma progressão de eventos que culminam no
final do livro através de uma seqüência direta. Tampouco deve-se fazer da carta apenas uma
predição de eventos históricos207.
Conforme também na introdução de Apocalipse, Paulo chama Cristo o primogênito de toda a criação
e o primogênito dos mortos, específicamente referíndose à sua soberania sobre a criação e a morte208.
Jesus havia ressucitado outras pessoas dos mortos, mas é Jesus quem se mostrou vitorioso sobre a
morte209. O termo “primogênito” reflete a noção hebraica do primogênito ser dado um lugar de
importancia especial210.
Quando o livro menciona o escurecer do sol, deve-se lembrar da erupção de Vesúvio no ano 79. A
erupção causou a impressão de que a terça parte das estrelas desapareceram por causa da nuvem que
cobriu grande parte do império romano na época211.
Há muitas formas populares de interpretar Apocalipse procurando prever os eventos de juízo do final
do mundo—uma para cada gosto. Muitas das mesmas já sofreram grandes reformulações por se
basearem em especulativas políticas, não em revelação, não em inspirição interpretativa divina, nem
num bom conhecimento dos fatos históricos da carta sendo lida. Deve-se levar em conta que Jesus
diz que ninguém pode discernir de antemão a data do fim, e é imprescindivelmente necessário
submeter a vida ao senhorio de Cristo para estar pronto quando vier o fim. Tal ensino é muito mais
claro do que as interpretações variadas no mercado. É também o tema mais negligenciado entre as
opções populares.
O Apocalipse não é uma carta dirigida especificamente à igreja que vive imediatamente antes do fim
do mundo. É uma carta para a igreja de todas as épocas. O fim está próximo de todos, pelo menos
no sentido da morte física do indivíduo. Várias formas de opressão à mensagem do evangelho estão
presentes em toda parte do mundo desde o primeiro século até o atual. A mensagem escatológica do
203
Enquanto as nossas traduções normalmente usam a frase “vida eterna”, a frase grega é literalmente “vida da era”. Assim, tende a refletar o
caráter o a qualidade dessa vida, em lugar de sua duração. É a sua qualidade, entretanto, que faz possível a sua duração. Veja a discussão “Vida
da Era” na página Error! Bookmark not defined. desta apostila.
204
LEVENSON, 50.
205
Apocalipse 6.12-17.
206
BORING, 32.
207
RISSI, 3.
208
MOODY, 504-505.
209
ROBBINS, 35.
210
MOODY, 571, citando Éxodo 4.22, Jeremias 31.9 e Salmo 89.27.
211
BORING, 10.
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livro de Apocalipse é presente e atual como era nos dias do autor e das igrejas da Ásia Menor a quem
foi escrita a carta.
Estas igrejas preservaram Apocalipse não por predizer o futuro, mas por ajudá-las a enfocarem a
realidade da vitória de Cristo, o Cordeiro imolado de Deus. Gerava esperança e confiança em Deus,
assim ajudando o cristão a permanecer fiel em toda e qualquer circumstância. Esta é a mensagem
atual da carta—a vitória é do Cordeiro, mesmo que os inimigos possam figurar como enormes e
poderosos. O Cordeiro imolado venceu e tem nas mãos as chaves das cadeias da morte. Vive e
concede vida a todos que confiam nEle.
Literatura Apocalíptica e Linguagem Pitoresca:
Após larga discussão dos posicionamentos dos eruditos, Aune defina Apocalipse como sendo uma
obra apocalíptica, porém apocalíptica Cristã, fazendo distinção da judaica212, proposta que se aceita
neste trabalho.
Uma das maiores diferenças entre a apocalíptica judaica e a cristã é que o cristão olha não apenas
para um evento salvífico futuro, como fazia o judeu. Ele olha para a obra de Cristo, pois a vinda de
Cristo tem modificado tudo, e conseqüentemente a apocalíptica cristã reflete a transformação contida
na vinda (parúsia213) de Cristo, mesmo antecipando a sua vinda final em glória214.
Autores de literatura apocalíptica dirigiam suas obras às suas próprias gerações com um senso de
urgência. Zelavam por oferecer uma resposta de orientação àqueles que procuravam entender a
opressão e o sofrimento que experimentavam. Comumente “prediziam” certos eventos da história,
como se a escrita fosse proveniente de épocas anteriores, assim oferecendo uma interpretação dos
eventos descritos. João, porém, não “prediz” eventos nesse sentido, mas interpreta a natureza da
história215. O autor de Apocalipse se vê como profeta, referindo uma mensagem de aplicação da
palavra de Deus para a vida do indivíduo216. Ele vincula aspectos de urgência apocalíptica com o
senso profético de sua mensagem. A proposta básica da carta é de dar a entender a razão do
sofrimento, sendo a literatura apocalíptica uma expressão de fé na fidelidade de Deus, frente a
circunstâncias que a punham em dúvida217.
Para entender o que é um apocalipse, é necessário compreender algo do estilo literário geral. Como
forma literária, um apocalipse apresenta certos parâmetros específicos. Oferece-se a seguinte
definição em termos de forma, conteúdo e função.
1) Forma: um apocalipse é uma narrativa prosa em primeira pessoa, com uma estrutura episódica consistindo de
visões revelatórias comunmente mediadas ao autor por um revelador sobrenatural, estruturadas de forma que a
mensagem revelatória constitui-se num clímax literário, bordado pela narração das circunstâncias da suposta
experiência reveladora. 2) Conteúdo: a comunicação de uma perspectiva transcendente, normalmente
escatológica, de experiências e valores humanos. 3) Função: a) legitimizar a autorização transcendente da
mensagem, b) por mediar uma reatualização da experiência revelatória original através de uma variedade de
ferramentas literárias, estruturas, e imagens, que funcionam para ‘ocultar’ a mensagem que o texto propõe
212
AUNE, A., lxx-xc.
Veja a seção Segunda Vinda/Parúsia na página 19 deste documento.
214
BORING, 44.
215
RISSI, 4-5.
216
ROBBINS, 20.
217
BORING, 41-43.
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‘revelar’, tal que c) os receptores da mensagem sejam motivados a continuar procurando, ou se necessário
modificar seu pensamento e atuação em conformidade com perspectivas transcendentes218.
Em outras palavras, a forma apocalíptica utiliza uma narrativa como um esqueleto para retratar
revelação em termos de visões. Estas visões geralmente vêm através de algum tipo de mensageiro
sobrenatural, levando a um clímax literário. O tratado comunica valores ou experiências humanas de
uma perspectiva que trancende o ponto de vista humano natural. A função do tratado é de legitimizar
a autoridade da mensagem ao convocar o ouvinte a participar da experiência revelatória,
simultaneamente escondendo e ilustrando aquilo que se propõe revelar através de diversos recursos
literários. Assim, visa a incentivar o ouvinte a investigar e modificar suas atitudes em conformidade
com a mensagem referida pelo autor.
Já que o livro de Apocalipse é em estilo literário um apocalipse, a sua linguagem deve ser respeitada
como linguagem apocalíptica. Como outras obras apocalípticas, a sua forma de expressão é pitoresca
em contraste à linguagem proposicional, a lnguagem da lógica219. Em vez de pregar de forma direta,
o livro pinta um quadro da segurança “de que Deus é o Senhor da criação e da história”220. Esta
linguagem não é tão específica como a linguagem proposicional com a qual se costuma tratar. João
pode até falar de estradas pavimentadas com ouro que são ao mesmo tempo transparentes, sem que
haja contradição, nem distorção de sua mensagem pelo uso de símbolos que seriam conflitantes em
outro tipo de literatura221.
Esse estilo de comunicar é distinto das normas utilizadas atualmente. Existe, porém, certas formas
pelas quais a sociedade atual aproxima-se ao uso do estilo apocalíptico de comunicação. Tais formas
de linguagem não vêm a ser iguais à apocalíptica, mas apresentam certos fatores importantes em
comum, que servem de uma ponte para ajudar na compreensão do conceito. A exemplo desse fato,
certo estilo de programação da televisão pode ser útil para compreender como se pode comunicar
certas verdades por meio de uma linguagem que diverge da norma estabelecida de linguagem
analítica e precisa.
É comum ver nos desenhos animados algum personagem como o coiote ser atropelado por um trem.
Enquanto ele é aplastado, um curativo lhe é aplicado e em três segundos ele encontra-se
completamente sarado, pronto para mais uma vez abordar o papa-léguas! Não importa quantas vezes
a dinamite explode na sua boca, balas chegam a furar a sua barriga, sofre quedas desde mil metros de
altura, é atropelado por caminhões ou é engolido por alguma fera, numa questão de segundos ele já
está em plena forma para novamente caçar o papa-léguas.
Esta forma de comunicação não é proposicional, mas pitoresca. O espectador diverte-se com a
contagem e as imagens da caçada interminável, sem se preocupar com a incompatibilidade das cenas
narradas. As imagens comunicam ao telespectador, mas não dentro dos padrões de linguagem de
precisão científica. Comunicam através da impressão emocional gerada no indivíduo, não como
relato clínico de um evento. Neste caso nem sempre há muita mensagem a compartilhar, mas há uma
comunicação—a comunicação do desafio além do alcance e a determinação para prosseguir com um
alvo estabelecido, mesmo inalcançável.
Os quadrinhos e caricaturas políticas nos jornais e nas revistas atuais também comunicam através de
imagens exageradas e retratos distorcidos da realidade, porém comunicam verdades de possível
compreensão do leitor. Assim também, a linguagem apocalíptica aborda questões de revelação por
218
AUNE, A., lxxxii.
REDDING, 29.
220
LINDVALL, 173.
221
GUNDRY, 254.
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meios não-clínicos, retratos às vezes incoerentes e imagens chocantes, não por meio de uma
linguagem fria, clínica, científica e proposicional. Como diz Redding referente a Apocalipse, as
imagens apresentadas sirven para comunicar uma experiencia vicaria ao leitor222.
Para ajudar a diferenciar os dois tipos de linguagem, apresenta-se um quadro com base no trabalho
de Boring para contrastar as maiores diferenças entre estas formas de comunicação223.
Linguagem Proposicional
Supõe que toda linguagem refere-se
em descrição a algo objetivo
Linguagem Pitoresca/Apocalíptica
Utiliza retratos falados para apontar a realidade suprema por trás de
e além de si
Supõe que palavras não podem comunicar realidade, mas apontam
em direção à realidade suprema
Supõe que subjetividade é desprezível
A subjetividade das imagens retratam o sentido da realidade objetiva
Quando usa símbolos, os utiliza como
código específico
Utiliza símbolos para apontar as realidades por trás do que pode ser
descrito objetiva e diretamente
Evoca imagens que não podem ser visualizadas, mas o impacto das
mesmas pode ser sentido
Não é linguagem de código, pois código é linguagem literal e
objetiva para aquele que tem a “chave”224
Os símbolos são usados para comunicar o que não pode ser
comunicado de outra forma
Os símbolos não podem ser reduzidos à linguagem objetiva sem
perda de sentido
Identificando o referente particular de uma imagem, não delimita a
significância da simbologia empregada
O leitor perde a riqueza e o poder da retórica apenas substituindo
“Babilônia” por “Roma”
A interpretação necessáriamente deve ir além da decodificação de
imagens
É linguagem de lógica
É linguagem de participante de culto (litúrgica)
Não deve ser tomado como premisas de argumento lógico ou
doutrinário
É linguagem de confissão e adoração
Utiliza consistência lógica como
critério para definir a verdade
Não exibe interesse em consistência lógica (várias visões nem
podem ser visualizadas)
Certos detalhes descrtios funcinam como cenário, não como
alegoricamente importantes
A mensagem é comunicada através de símbolos, mesmo sem
afirmar toda implicação possível nos termos da linguagem
proposicional
222
REDDING, 29.
BORING, 51-59.
224
REDDING, 29. “...[A]s bestas de Apocalipse estão continuamente surgindo em nossas vidas y em nossa sociedade. As bestas de orgulho,
idolatria, avaricia, odio y abuso de poder podem tomar novas formas e identidades, mas ainda são manifestaçõs do mal.”
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Cada imagem expressa uma verdade no que diz, não pelas
inferências que possam ser traçadas
Trata uma coisa de cada vez
Infere o tratamento de um todo através da sua simbologia
Não trata assuntos de acordo com a lógica linear
As visões e símbolos comunicam pela impressão evocativa que
apresentam ao serem tratados como um todo
Trata o todo com uma mistura (amalgama) de imagens simultâneas
Uma imagem isolada não tem condições de apresentar a realidade
toda sendo apontada
Preza clareza como indicador de
verdade
Pressupõe que linguagem “clara” é limitada demais para expressar
certas verdades transcendentes
Preza imagens como indicadores de verdades que não podem ser
objetivadas por causa da finitude humana
Contrasta “mito” com “verdade”,
entendendo-o como falso
Não funciona para transmitir verdades objetivas sobre o mundo
celestial
Utiliza linguagem mitológica como veículo de verdades
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Apocalipse, Comentário Textual:
Esboço do Livro:
Existe mais de um conceito sobre a forma mais apropriada para dividir o livro de Apocalipse. É bem
viável entender que o livro tenha sido escrito em sete atos de uma peça para ser apresentada no teatro
de Êfeso. Aproveitaremos para os fins deste estudo o esboço oferecido por Boring no seu comentário
sobre Apocalipse por sua utilidade em facilitar a compreensão do panorama geral do livro e sua
divisão de blocos maiores de pensamento225.
I.
Deus fala à Igreja na Cidade (1.1-3.22).
II.
A.
O Título Sumário (1.1-3).
B.
O Começo da Carta (1.4-8).
C.
A Presença do Cristo Ressurreto (1.9-20).
D.
As Mensagens às Sete Igrejas (2.1-3.22).
Deus Julga a “Grande Cidade” (4.1-18.24).
A.
A Sala do Trono Celestial (4.1-5.14).
1.
2.
3.
4.
B.
A Adoração Celestial—Abrindo o Rolo Selado (6.1-8.1).
1.
2.
3.
4.
5.
C.
Os Primeiros Quatro Selos—Os Quatro Cavaleiros (6.1-8).
O Quinto Selo—O Clamor dos Mártires (6.9-11).
O Sexto Selo—O Cosmo Treme na Chegada de Deus (6.12-17).
Interlúdio—A Igreja Militante e Triunfante (7.1-17).
O Sétimo Selo—Silêncio (8.1).
A Adoração Celestial—Tocando as Sete Trombetas (8.2-11.19).
1.
2.
3.
4.
5.
6.
D.
A Sala do Trono do Universo (4.1-6a).
O Deus Criador de Tudo (4.6b-11).
A Redefinição Cristológica de Vencer (5.1-7)
A Vitória e o Louvor Universais (5.8-14).
As Orações da Igreja na Adoração Celestial (8.2-5).
As Primeiras Trombetas—A Intensificação dos Problemas Finais (8.6-12).
A Quinta Trombeta—O Primeiro Ai (9.1-12).
A Sexta Trombeta—O Segundo Ai (9.13-21).
Interlúdio—A Igreja dos Profetas e Mártires (10.1-11.13).
A Sétima Trombeta—O Reino Vem Como Salvação e Ai (11.14-19).
A Exposição das Forças Malignas (12.1-14.20).
1. Atrás das Cenas do Drama (12.1-13.18).
225
BORING, ix-xi.
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2. A Verdade Sobre a Salvação e o Julgamento (14.1-20).
E.
As Últimas Sete Pragas (15.1-16.21).
1. A Celebração de Vitória na Adoração Celestial (15.1-8).
2. As Sete Taças da Ira de Deus (16.1-21).
F.
A Queda de Babilônia e o Lamento (17.1-18.24).
1. Roma é Babilônia (17.1-18).
2. Celebração/Lamento da Queda de Babilônia (18.1-24).
III.
Deus redime a “Cidade Santa” (19.1-22.21).
A.
Coros de Aleluia Louvam a Vitória de Deus (19.1-10).
B.
Sete Visões do Fim (19.11-22.5).
1.
2.
3.
4.
5.
6.
7.
Parousia (19.11-16).
Batalha Final (19.17-21).
Satanás Amarrado (20.1-3).
Milênio (20.4-6).
Derrota de Gogue e Magogue (20.7-10).
Julgamento Final (20.11-15).
Nova Jerusalém (21.1-22.5).
C.
Conclusão da Visão (22.6-20a).
D.
Conclusão da Carta (22.20b-21).
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Apocalipse 1.1-3.22:
João confiava que as coisas que descrevia estavam prestes a acontecer226. Vale lembrar que a sua fé
enfatizava a certeza da mensagem, não o seu tempo227. Em termos de haver um cumprimento
histórico físico visível e final na terra, a confiança e espectativa de João estavam erradas. A
realidade da mensagem da profecia, no entanto, mantém sua vitalidade expressa pela preservação do
texto através dos séculos, pois quem teria guardado e reproduzido a grande custo o que não lhe
valesse nada?
A bênção referida sobre a divulgação desta profecia não compreende uma mágica auditiva, mas
refere-se aos que lêem e ouvem no sentido de colocar em prática a mensagem proferida228. Deve-se
lembrar que foi escrita para ser lida na sua íntegra em situação pública. Para quem lê a carta em sua
totalidade, a experiência e o impacto é bem diferente do que para aquele que lê apenas partes do
texto229.
Na descrição de Jesus em 1.13 a frase “filho do homem” lembra Daniel 7.12 e a autodescrição
favorita de Jesus230. Enquanto a frase pode simplesmente reflejar que Jesus apareceu em forma
humana231, era comumente compreendida como uma referência messiânica232. Cristo aparece nesta
visão expressamente para ditar as cartas para as sete igrejas, fato que delimita esta passagem como
uma unidade de pensamento233. Esta visão de Cristo, portanto, é o início e parte integral da
passagem das cartas às igrejas.
Os termos descritivos de Jesus nesta introdução servem mais do que nada para revelar a sua grandeza
e poder234. As estrelas não controlam o destino dos homens e não precisam ser temidas, pois estão na
própria mão de Cristo. Os imperadores romanos reivindicavam para si o governo do universo.
João, porém, diz que Cristo é o Soberano, não o imperador235.
É o mesmo Jesus descrito no capítulo 1 que bate à porta em Apocalipse 3.20, não o Jesus das
pinturas religosas tão comuns236. Jamais deveria-se ver aqui aquele Jesus manso, meigo e suave,
implorando com toda ternura. Cada carta a uma das igrejas individuais relembra aspectos da
descrição de Jesus oferecida no capítulo primeiro da sua identidade, seu caráter e autoridade.
As cartas às igrejas servem de um resumo da mensagem de João no livro todo. Na carta a Éfeso,
João menciona as dificuldades de testemunhar de Cristo com fidelidade. Aquele que triunfar nas
dificuldades recebirá vida com Deus. A Esmirna, João se refere às acusações contra os crentes desde
os seus enemigos. Por meio da morte em testimonio, a fidelidades do crente será premiada com
vida. A Pérgamo, João se dirige à idolatria que era exigida dos acusados ante um oficial romano.
Aos fiéis a Cristo frente a tal exigencia, se os promete a proteção de Cristo. A Tiatira, João escreve
referente ao medo do poder romano. Ao que da mais importancia a Cristo, é prometido uma reversa
226
ibid., 72-73 e ROBBINS, 29.
ROBBINS, 29-30.
228
BORING, 68 e ROBBINS, 31-32.
229
FIORENZA, 345 trata esse assunto entre os estudos e posicionamentos eruditos sobre a carta, onde também há o mesmo problema.
230
GOLDINGAY, xxvii-xxix e ROBBINS, 43.
231
REDDING, 40.
232
GOLDINGAY, 170.
233
BORING, 63.
234
ROBBINS, 45-47.
235
BORING, 84.
236
WILLIS.
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da sua dificuldade. À igreja de Sardis, João trata a questão de ser obrigado a maldizer a Cristo ante
um tribunal. Os que siguem a Cristo se promete inclusão no livro da vida. A Filadelfia, João
escreve sobre acusações de novo, mas também com a posibilidade de perder seus bens por fidelidade
a Cristo. Aos que assim sofrem, também João os anima. A Laodicéia, João trata a cuestão de mentir
sobre o compromiso de seguir a Cristo. Ao que segue abertamente em fidelidade, se os promete
reinar com Cristo.
Além dos conflitos com o governo romano, as mensagens às igrejas nos capítulos dois e três refletem
a existência de conflito entre liderança cristã como entre os cristãos e os judeus em geral237. As
cartas foram dirigidas aos santos da época. Tratam assuntos específicos dos contextos que cada igreja
enfrentava—numa cidade o templo dedicado ao Imperador, noutra a heresia dos Nicolaitas, etc. O
contexto de uma igreja atual pode ser espelhado nas dificuldades enfrentadas por uma ou outra dessas
igrejas, porém, deve-se lembrar que a associação reflete uma nova apropriação da mensagem que
fora endereçada originalmente às igrejas na Asia Menor.
O zelo da igreja de Éfeso se entrelaçava com sua preocupação pela ortodoxia. Tal se transformou
num legalismo de aceitação doutrinaria à exclusão de lembrar a obligação cristã por viver de acordo
com o amor. Para João, esa falta em amar era o equivalente à morte espiritual em meio das formas
externas da sua obervação religiosa238.
Reddish entende que o apelido “sinagoga de Satanás” em Esmirna refere-se a que os judeus se
opunham à igreja, tal que a sua assembléia era antagónica a Deus239. João menciona a “segunda
morte”, assim para animar aos fiéis com a segurança da sua vitória em Cristo. Essa “segunda
morte”, o que normalmente chamamos morte espiritual, refere-se à exclusão do reinado final de
Deus240. A indicação aquí é que os fiéis não perderão o reinado de Cristo, ainda com a morte física.
A designação “trono de Satanás”, mencionado na carta a Pérgamo, tem varias possíveis
interpretações, sendo que Pérgamo era um centro do culto imperial, era assento do governo romano
provincial, tinha um grande altar a Zeus, bem como um templo a Asclepio e um acrópolis cheio de
templos para diversos deuses e deusas241. Assim sendo, havia várias razões para a designação do
trono de Satanás estar em Pérgamo.
Apocalipse 4.1-18.24:
Nesta porção maior de Apocalipse, há uma mudança no tratamento com perspectiva de lidar com o
tema do julgamento da “Grande Cidade”. Assim, o enfoque muda desde as igrejas na Ásia para o
mundo ao seu redor. João trata a vitória já ganha junto com a vitória que está sendo antecipada,
utilizando uma série de imagens e descrições para tratar desta vitória singular242. Lembra-se que não
se trata de novos eventos, mas de múltiplas perspectivas ou retratos dos mesmos acontecimentos e das
mesmas verdades.
Em questão de cronologia, devería-se notar que João diz em 4.1, “Depois disso vi...”. A sequencia
é de visões, não de cronologia entre os conteudos das visões. O tempo das cartas nos capítulos 2-3 é
237
COLLINS, 120.
REDDISH, 54.
239
REDDISH, 56.
240
REDDISH, 57.
241
REDDISH, 59.
242
BORING, 99.
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da época de João. O tempo (si é que pode-se definir um tempo) para os capítulos 4-5 gira em torno
do sacrificio de Jesus Cristo. O tempo descrito no inicio de capítulo 12 lembra o nascimento de Jesus
e sua fuga ao Egito. Isso demonstra uma progressão cronológica regressiva, mas a cuestão é que não
existe nenhuma sequencia cronológica entre as visões. Em contrapartida, existe uma sequencia de
imagens (visões) que se sobrepõem como retoques distintos da mesma verdade.
Apocalipse 4.1-5.14:
Compreender quem é Deus é um ponto de partida referencial para compreender a necessidade e a
responsabilidade humana. O ser humano frente a Deus tem obrigação de oferecer uma certa resposta
ao Criador. A devida adoração a Deus está vinculada à necessidade humana de responder em
compromisso e ação, seguindo as implicações da identidade divina em contraste ao dever humano de
testemunhar em fidelidade. No capítulo 4, existe uma convocação para confiar na grandeza e
soberania de Deus243.
João afirma primeiramente que Deus reina supremo no cerne de tudo, pois o trono do universo não
está vazio244. Na simbologia de João, o trono representa a autoridade de Deus, e Deus estando
entronizado revela a Sua supremacia245. Deus é o soberano, governando até mesmo a história caótica
do mundo246. João não descreve a Deus, mas o trono não está vazio. Deus pode não ser visto por
João, mas a sua presença e ação estão claras nos trovões e relâmpagos ao redor do trono247.
O mar aqui tem um caráter de tranqüilidade perante Deus248. Na concepção judaica, o mar é símbolo
da ameaça contra a própria criação, um termo que aqui resume toda agência maligna249. Muitas
vezes o mar aparece num contexto de ameaça à criação e à soberania de Deus, procurando levar o
mundo de volta ao caos de Gênesis 1.2. “Os perigos das profundezas (abismo) designam a ameaça
de destruição, a perda de todo significado e a falha de não funcionar de acordo com o propósito de
Deus. Este caos é ‘sem forma e vazio’, sem a estrutura de significado e vazio de todo propósito”250.
Aqui, porém, o mar já não existe mais como uma ameaça, pois na presença de Deus está plácido que
nem um cristal251.
Deve-se levar em conta que as descrições celestiais no livro de Apocalipse não são detalhes
supérfluos no relato, mas contém teor importante para a elaboração do sentido do livro. Há quem
diga que a descrição da Nova Jerusalém, ou seja, a celestial, é a descrição culminante da obra
completa252. No mínimo, estas descrições devem indicar ao leitor a preocupação de João em
descrever a realidade suprema por detrás dos eventos na terra. É a realidade celestial que importa
para João, não as aparências terrestres.
As criaturas ao redor do trono representam toda classe de criatura que respira—animais selvagens,
animais domésticos, seres humanos e pássaros—toda a criação253. João lembra aqui as figuras de
243
ROBBINS, 82.
BORING, 102-103.
245
ROBBINS, 85.
246
RISSI, 5.
247
BORING, 104.
248
ROBBINS, 89.
249
COLLINS, 122, 124.
250
MOODY, 492.
251
BORING, 105.
252
READER, 433.
253
BORING, 107 e ROBBINS, 88.
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Ezequiel 1.10254. Estas criaturas refletem o conceito de representação simbólica conforme expressa
entre os judeus. Um midrash antigo declarava o homem como o mais elevado entre todas as
criaturas, a águia como soberana entre as aves, o touro como chefe dos animais domesticados e o
leão rei dos animais selvagens255. Estas criaturas então representam toda clase de vida. Na visão de
João, porém, estas criaturas estão cubertas de olhos, deixando-las ver tudo ao seu redor. Em todo o
tempo, expressam que Deus é santo, ou seja único e digno de todo louvor. Assim, João aponta para
o contraste entre estes seres e o imperador que reclama título divino sem enxergar a soberania e
grandeza do Criador!
O termo grego usado para expressar a grandeza de Deus, como “Todo poderoso” tem mais
literalmente o sentido de “tudo-reinando” ou “o que reina sobre tudo”256. É a mesma palavra usada
na Septuaginta para traduzir a frase hebrea tradicionalmente traducida como “Senhor dos
exércitos”257. Sendo incontestavelmente soberano, Deus compartilha o seu reinar com outros, ou
melhor, delega de sua autoridade. Deus não reina de forma unilateral e não teme por qualquer
motivo de insegurança. O seu trono e o do cordeiro são o mesmo258.
O livro na mão daquele no trono tem um emprego polivalente. É um rolo escrito em dois lados,
mesmo que a norma fosse do papiro ser escrito num só lado259, sugerindo assim que não havia mais
para ser acrescentado260. Reflete vários conceitos a uma—o livro da lei, o livro dos profetas, o rolo
dado a Ezequiel, as chamadas tábuas do destino, o livro da vida, os livros celestiais onde os feitos
dos homens são registrados para julgamento e os testamentos que eram selados com sete selos261.
Outrossim pode-se compreender este rolo como sendo a história num sentido abrangente262, o plano
redentor de Deus na história263.
João insiste no fato de que Deus é Criador de tudo que existe e de que Deus atua na criação. A
perseguição sofrida não desanima a sua fé, nem o leva a ignorar a existência dos problemas reais que
enfrenta. A sua fé no Criador o leva a uma esperança escatológica, dando-lhe uma perspectiva além
da situação constrangedora que enfrenta264.
As referências da descrição do leão digno expressam a continuidade com o trono e reinado de Davi.
Este é o herói de Deus, o Messías tão esperado265 qur executa o plano redentor divino266. A imagem
evoca claras referências de expectativas messiânicas do grande guerreiro como o próprio Davi. A
colocação referente à raiz de Davi evocava o mesmo conceito de um messias guerreiro. Tal era a
expectativa do povo de Israel referente ao messias e também o anseio escatológico do povo cristão.
João olha com toda esta expectativa ao lugar onde o Leão deve aparecer, mas o que enxerga é um
cordeiro que fora sacrificado! O que aconteceu com o leão tão esperado? O cordeiro imolado tomou
o seu lugar267.
254
ROBBINS, 89 – veja também Ezequiel 1.6, 10, 18, 22, 26; 10.12, 20 e 22.
Midrash Shemoth, R. 23 citado em BORING, 107.
256
RISSI, 5, ROBBINS, 90 e BAUER, 449, 608-609. pantokravtwr—pantos equivale a “tudo”, enquanto krator equivale a “poder” ou “reinar”.
Pelo menos deve-se pensar em “poder para reinar” quando se traduz por “todo poderoso”.
257
REDDING, 38.
258
BORING, 106.
259
HALE, 37-38.
260
ROBBINS, 92.
261
BORING, 104.
262
John R. Miles “Lamb” em FREEDMAN.
263
RISSI, 7.
264
BORING, 107.
265
O’BRIEN, 178.
266
RISSI, 6.
267
BORING, 108 e O’BRIEN, 178. Boring trata o termo ajrnivon em sentido de cordeirinho, mas BAUER (108) não aceita o diminutivo para a
época do primeiro século. O termo ajrnivon, já estava sendo usado no sentido genérico de cordeiro ou ovelha, ignorando-se a origem da forma
como expressão diminutiva.
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É necessário enxergar que João diz explicitamente que não existe nenhum Leão. Em lugar do Leão
esperado, temos o Cordeiro imolado. Amor sacrificial não era uma estratégia provisória de Jesus,
mas a sua estratégia definitiva. Não é leão para uns e cordeirinho para outros, nem leão em traje de
cordeiro268. Onipotente e onisciente, o Cordeiro reina em redenção269.
A dificuldade da visão é a mesma de João Batista ao enviar os seus discípulos a Jesus. Alí, João
Batista está encarcerado na expectativa de que Jesus se demonstrará como o guerreiro esperado. A
resposta a João, entretanto, é sanar aos emfermos, fazer caminhar aos coxos, dar vista aos cegos e
pregar o evangelho aos pobres270. Era dificil para João Batista aceitar, pois desejava ser liberto da
prisão. Assim como Jesus não lhe deu esperanza de sair da sua prisão, João em Apocalipse
tampouco da aos seus ouvintes esperança de escapar das garras dos seus acusadores. Mais bem diz
que é da forma pela cual Jesus emfrentou a morte em sacrificio a Deus que eles também terão vitória.
O Cordeiro não age no caráter de um leão feroz. João apresenta o Cordeiro de Deus, devidamente
poderoso, mas expressando a sua vitimização sobre o altar em contraste com o esperado Leão de
Judá. João profere algo no sentido de “quando a tradição diz ‘leão’, leia ‘cordeiro’”. Este cordeiro
tem pleno poder. Seu poder e autoridade são claramente visíveis nos sete chifres sobre a sua cabeça.
Mesmo assim, ele não utiliza o seu poder de acordo com a expectativa referente ao Leão271.
O Cordeiro é vencedor! Ele triunfa, porém, a sua conquista é definida por meio da morte. Vencer
para João equivalia a morrer! O amor auto-sacrificial vence sobre a força que o ser humano procura
para vencer272. A conquista vem através da morte em fidelidade, ambos para Jesus e também para o
cristão. Para o crente, a definição de vencer foi modificada pela cruz de Cristo273.
Deve-se lembrar que este cordeiro não está despido de poder, pois tem sete chifres—símbolos de
autoridade, aqui autoridade completa274. A sua autoridade não provém simplesmente do Cordeiro ser
divino, mas pela sua atuação dentro dos parâmetros da história275. Mesmo a entrega do rolo ao
Cordeiro indica algo da inseparabilidade do Cordeiro de Deus Pai276. Em especial, o contexto
simbólico do rolo vem da mão direita de Deus, a mão direita espelhando autoridade.
Mesmo assim, o poder do Cordeiro é diferente. É um poder que não se limita à força no estilo da
autoridade humana. Ser judicialmente inocentado é o sentido do termo “vencer” no contexto de
Apocalipse. Certamente é um paradoxo, pois é de se esperar que o cristão seja julgado perante o
tribunal romano e condenado, porém, tal condenação equivale a ser inocentado no tribunal
celestial277.
Baseado na redefinição apresentada, o louvor dado é um novo cântico, pois é louvor ao cordeiro
imolado, não ao leão. A redefinição causa uma mudança na própria expectativa do cristão, podendo
enxergar com olhos diferentes o plano de Deus e a sua atividade entre o seu povo. Temos aqui o
cerne da cristologia de João. A vitória de Cristo já se deu no ato histórico de sua morte, não
havendo mais necessidade de outra batalha, pois sua vitória no passado foi decisiva para sempre278.
O cordeiro é o Cristo, e sua vitória é tanto absolutamente distinta em forma, como também é mais
268
BORING, 109.
RISSI, 6.
270
Lucas 7.18-28.
271
BORING, 110.
272
ROBBINS, 94.
273
BORING, 111.
274
ROBBINS, 95.
275
RISSI, 7.
276
John R. Miles “Lamb” em FREEDMAN.
277
A. Y. Collins, O Apocalipse, citado em BORING, 111.
278
RISSI, 8.
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completa e irrevogável. A vitória do Cordeiro dita um paradigma completamente novo para a vida,
incluindo definições de poder, vitória e realidade máxima. É o mesmo tipo de mudança de
paradigma que Jesus teve que dar aos discípulos. O importante não é a estrutura política externa,
mas o reinar de Deus no interior do indivíduo.
Apocalipse 6.1-8.1:
Os eventos acompanhando a quebra dos selos espelham conceitos judaicos e cristãos referentes às
tribulações que se pensava vir para introduzir o fim279. Os quatro cavaleiros falam do juízo de Deus
sobre a arrogância e a rebelião. Eles refletem a imagem dos guerreiros partos, o único exército de
cavaleiros montados do primeiro século. O cavalo branco era a sua marca registrada280.
Os mártires mencionados seriam cristãos, não mártires pré-cristãos, como alguns têm asseverado281.
A morte desses mártires os coloca na mesma categoria do cordeiro imolado, o termo grego sendo
igual ao da descrição do cordeiro282. Havia uma idéia já no judaismo, a qual se passou ao
cristianismo primitivo, de que um número predeterminado de fiéis deveria ser morto antes que Deus
colocasse o mundo sob juízo283.
O crente chega ao céu da mesma forma que Jesus—por meio de sofrimento e morte. Mesmo assim, a
injustiça não chega a ser a palavra final, mesmo que não se compreenda a razão pela qual Deus não
termina com a injustiça de imediato. Existe, no entanto, o apelo a que Deus se revele284.
No relato dos prodígios, inclui-se um custo excessivamente elevado para os grãos, sendo que a
especificação é de um aumento aproximado de oito a dezesseis vezes o preço normal. O vinho e o
azeite não sofrem modificação, pois uma seca não necessaraiamente afeta em muito a produção
desses produtos agrícolas. As implicações da situação é de desastre para os necessitados e vida
normal para os abastecidos, pois vinho e azeite seriam artigos de consumo especial285.
A ira tratada no capítulo 6 é a ira do Cordeiro286. Esta ira espera para que o número dos salvos se
complete. Deus age em longanimidade no sentido da parábola do joio e do trigo287. Deus espera
para resgatar também a outros. Para tanto, Deus espera com paciência, pois a ira, ou seja, o juízo,
virá no tempo devido. Aqui a espera é para atingir um número pré-determinado de eleitos288.
O retirar do firmamento de acima da terra indicaria que toda a criação deveria ser destruida por uma
inundação como no diluvio de Noé. De acordo com a cosmologia da época, o firmamento mantinha
os mares celestiais fora da superficie da terra289. Existe, entretanto, uma pausa nos eventos
decorrentes do sexto selo para dar oportunidades para proteger aos fiéis com o selo do Cordeiro.
279
AUNE, B., 424.
BORING, 122.
281
AUNE, B., 424 e BORING, 122.
282
BORING, 124.
283
AUNE, B., 424.
284
BORING, 125.
285
AUNE, B., 397-398.
286
BORING, 127.
287
Mateus 13.24-30.
288
AUNE, B., 391.
289
Veja a seção Cosmologias Antiguas na página 9.
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Espera-se ver ana descrição da destruição do mundo no capítulo 7, porém o que se apresenta é a
igreja triunfante. No contexto dos cristãos da Ásia Menor, eles precisavam de uma nova perspectiva
referente à igreja, para reconhecer que eram parte de algo muito maior e mais glorisoso do que a sua
experiência ditava. Nessa nova perspectiva, os cristãos fiéis são preservados em meio a uma grande
perseguição290.
A lista das tribos de Israel nesta passagem é diferente de qualquer outra lista proveniente da época291.
João considera a igreja como sendo a continuação de Israel, especialmente considerando que já não
havia 12 tribos identificáveis na época do primeiro século292.
Onde foi a tribo de Dã? Por que a tribo de Manassés e também de José, se Manassés era filho de
José? Segundo a bênção de Jacó aos filhos de José, Manassés receberia uma porção dupla, enqanto a
tribo de Dã era vista em geral como uma tribo rebelde. A reunião das tribos dos quatro ventos
espelha uma idéia cristã do primeiro século da restauração de Israel em termos das doze tribos293.
Miríade (dez mil) e mil são os termos numéricos maiores que existem na Biblia. A idéia partilhada é
de um número vasto. A expressão 144,000 (cento e quarenta e quatro mil) seria equivalente à frase
‘uma grande multidão que não podia ser contada’. Mil também pode espelhar uma conotação militar,
gerando a idéia de um batalhão294. Este conceito militar tem apoio no uso geral do censo por motivos
militares295. Mesmo assim, o Apocalipse nunca coloca o cristão na frente da batalha. O cristão fiel é
apenas um espectador da vitória alcançada por Deus na figura do Cordeiro imolado296.
O sangue derramado pelo cordeiro é sangue de aliança. Ao banhar-se no sangue do Cordeiro (ou
seja, ao ser espargido com o sangue, o qual faz parte da apresentação do sacrifício), o individuo se
acerca para estabelecer ou aceitar a aliança proposta. Este sangue da aliança promete vitória àqueles
que se assemelham ao Cordeiro na entrega de suas vidas297. Deve-se lembrar os eventos
veterotestamentários da promulgação de alianças, essencialmente no evento do êxodo. O êxodo é
provavelmente o contexto joanino para compreender o sacrifício de Cristo. É um sacrifício de
ratificação de uma nova aliança em resgate de um povo oprimido—no caso, todos que se equivalem
ao sacrifício oferecido.
O culto na perspectiva do Apocalipse não vem a ser um evento desenvolvido para agradar ao
indivíduo que presta o culto. Culto como entretenimento, cura ou até ensino não chega ao padrão do
culto em Apocalipse, por causa do enfoque no indivíduo. O culto aqui é direcionado expressamente
a Deus, no reconhecer a distinção enorme entre o Criador e a criatura. Deve-se lembrar, neste
contexto de culto, do trono vazio no lugar santíssimo do templo de Jerusalém e também da imagem
celestial do trono vazio298. Culto aqui parece ser espontâneo, não uma formalidade, nem rotina
planejada. Essa expressão flui de um agradecimento a e reconhecimento de Deus.
É de interesse notar que o rolo não poderia ser lido até que o sétimo e último selo fosse aberto,
mesmo que alguma descrição pudesse estar visível299. É em 8.1 que esse útlimo selo é aberto.
290
BORING, 127-128.
AUNE, B., 479.
292
BORING, 129 e HALE, 8-9. O cativeiro assírio havia feito com que as tribos do norte perdessem a sua identidade e se misturassem com os
demais povos.
293
AUNE, B., 436.
294
BORING, 130-131.
295
AUNE, B., 436.
296
RISSI, 15.
297
John R. Miles “Lamb” em FREEDMAN.
298
LINDVALL, 174-175.
299
AUNE, A., xcviii.
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Chegando ao final tão esperado, encontramos apenas silêncio300. Existe toda uma expectativa, mas
João não relata nenhum detalhe referente ao fim, a não ser este. Haverá um pouco mais a ser
descrito no seguinte ciclo, mas aqui tudo acaba e há apenas meia hora de silêncio.
No culto, no templo em Jerusalém, havia silêncio especificamente na hora do sacrifício e não em
outras partes. Aqui é a única passagem do livro onde um sacrifício é feito, sendo um sacrifício de
incenso, visto que o Cordeiro já fora sacrificado e vive301. É portanto no sacrifício do Cordeiro
(imolado na cruz) que o livro se abre e pode-se ler e compreender os mistérios do rolo de sete selos.
Este é, portanto, um conceito-chave para o livro. O Leão esperado é o Cordeiro imolado. Sua é a
vitória decisiva, porém completamente distinta da expectativa judaica adotada por muitos cristãos. O
amor que se entrega em fidelidade pelos demais é invencível perante a força física ou militar. Este
tipo de amor é o cerne da “vida das eternidades”—o reinar de Deus—pregado por Jesus no Sermão
do Monte e caracterizado em seu ministério terrestre. Para João, esta forma de viver tem uma
abrangência que vai muito além da compreensão humana da realidade. Esse amor é mais poderoso
do que qualquer esforço militar, pois venceu e vence a própria morte, o próprio medo que dá
autoridade à força física.
Apocalipse 8.2-11.19:
A ótica geral de João é de que o cristão deveria prestar mais atenção para a realidade espiritual do
que para o mundo material. É no reinar de Deus na vida do indivíduo que se vê a realidade tal qual
ela é. A oração faz ponte entre o mundo presente e o eterno. As orações dos santos não resultam no
resgate das circunstâncias, mas no resgate do próprio mundo e da história humana nos confins da
inauguração do Reino. “Através do seu culto e sua oração, a igreja é ligada intimamente com o
mundo real, o mundo de Deus”302.
Em última análise, tudo procede do único e soberano Deus. Todas as pragas descritas nesta
passagem têm origem em Deus, pois tudo está sob o Seu controle. O ciclo das pragas aqui é
basicamente o mesmo de antes, porém, há uma intensificação na expressão dos eventos. Como existe
um vínculo com o evento do Êxodo do Egito (o qual teve início com um ciclo de pragas)303, pode-se
esperar que, ao final das pragas, vejamos a efetivação do Êxodo do povo do seu Egito. Este
simbolismo reafirma o conceito que o éxodo real da igreja está prestes a tomar efeito304. Depois do
Êxodo, o povo entrou na terra prometida—aqui a terra celestial da promesa.
As estrelas ou o fogo caindo do céu em 8.8 e 8.10 não espelham agência maligna, mas intervenção
divina no resgate dos justos. Deve-se notar que a atuação dos elementos celestiais aqui surge em
oposição ao mar e às águas, que são em geral símbolos de agência maligna305. Não há, portanto,
nenhuma alusão a anjos caídos no sentido popular atual, mas à atuação divina em juízo. No
300
BORING, 132.
WICK, 512-513.
302
BORING, 133.
303
AUNE, B., 499. Não há dependência aqui no texto de Êxodo, mas sim existe uma alusão pela normativa referência de pragas em sentido de
anúncio ou “abre-alas” de eventos de intervenção e juízo divino.
304
BORING, 135.
305
AUNE, B., 520-521.
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contexto, anjos teriam sido vistos como acima das nações do mundo306, portanto, poderia-se conceber
em termos de serem retirados de suas posições por juizo divino.
Os povos da época e anterior viam as estrelas como sendo deuses307. Aqui fazem parte do juízo e as
pragas de Deus—não sendo deuses, mas agentes do juízo divino. Há novamente um certo vínculo
com as pragas no Egito. Esas atacavam o poder e a autoridade de Faraó e os deuses egípcios308.
João outra vez nega não apenas a divindade do imperador, mas também a soberania dos deuses de
Roma.
Nero reclamava ter um relacionamento especial com o deus Apolo309, e Domiciano gostava de usar
para si o mesmo nome, Apolo, ao qual o termo “Apolyon” faz referencia. Apolo era importante o
suficente para Roma que, pelo menos em uma moeda dos anos 35-36 trazia a figura do templo de
Apolo310. Havia também o uso comum do gafanhoto como símbolo desse mesmo deus311. Os
gafanhotos aqui são agentes do juízo de Deus, como também ocorreu nas pragas no Egito. Fazen
referencia a Apolyon, quem era o rei sobre estes gafanhotos, mas o que consegue fazer é apenas
efetivar o juízo de Deus sobre a humanidade. Com todo o seu poder, ele é ainda agente do único
Deus.
Os cristãos tem uma segurança que não é ameaçada pela morte física. Eles são selados por uma
marca que les da o meio de permanecer fiéis, dado à proteção divina sobre as suas vidas312. Esse selo
é uma garantia de sua segurança divina, ainda que tenham que morrer313. A morte não rompe o seu
vínculo com Deus. Aquele que enfrenta a morte não sofre qualquer dano real. Todo dano que
experimenta é apenas aparente.
A oportunidade para o arrependimento frente ao anúncio de juízo é uma possibilidade em todo
contexto profético de Israel. Há sempre uma possibilidade real de modificação do juízo de Deus
manifesto na palavra do profeta se o povo se arrepender314, conforme pode-se ver no anúncio de
Jonas a Nínive e em 2a Crônicas 7.14. “Tal como os cristãos fiéis se recusam a arrependerem-se no
sentido romano, o mundo romano recusa-se a arrepender-se no sentido cristão”315. Nesse contexto, o
juízo seguramente vem.
Pode ser que em parte a descrição dos cavalos como tendo cabeças de leões retome a figura do
cristão sendo ameaçado de morte na arena com os leões, conforme prática romana já nos dias de
Nero316. Assim, a figura reflete outra vez o contraste entre o arrependimento exigido pelos pagãos e
por Deus. Deus tem a liberdade para modificar os planos de juízo estabelecidos em resposta à
criatura arrependida317. Mesmo que Deus esteja disposto a colocar em pausa o juízo, o ser humano
geralmente não se prontifica para o arrependimento. Como em Êxodo 7-14, não se espera
necessariamente que os inimigos de Deus se arrependam318, mas existe a disposição divina para
306
Veja Éxodo 18:11; Deuteronomio 7:6,14:2; 32:8-9; Salmo 82, e BLOCK, 32.
BORING, 136.
308
HOFFMEIER, 377.
309
AUNE, B., 535.
310
FIORENZA, 365.
311
BORING, 138.
312
RISSI, 14.
313
BORING, 143.
314
Veja o livro de Jonas e o contraste entre “Ninive será subvertida” e “eu sabia que és Deus compassivo e misericordioso, longânimo e grande
em benignidade, e que te arrependes do mal”, Jonas 3.4 e 4.2. Implícita está a mensagem de arrependimento ao qual o povo aderiu.
315
BORING, 138.
316
Inácio de Antioquia, citado em GONZÁLEZ, 61 e 66.
317
BORING, 141 com base em Jer. 9.5; 18.8, Jonas 3.9.
318
AUNE, B., 545.
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aceitar o arrependimento, já que o juízo reflete o amor do Cordeiro no caráter de seu sacrifício e da
sua vitória319.
YHWH (hwhy) revela tudo aquilo que é realmente necessário para o seu povo poder viver uma vida de
fé real, mas não oferece detalhes especulativos. Mesmo o profeta, aqui, não pretende saber tudo, a
não ser o que é necessário ser revelado320. Essa colocação também é coerente com uma gama de
literatura revelatória em que se guardava um elemento em segredo nos padrões de 2a Coríntios 12.4 e
Daniel 12.4, pois nem tudo deve ser revelado ao ser humano321.
O termo profetizar deve ser definido como falar e atuar por Deus322. Considera-se que o profeta dava
testemunho morrendo, mantendo-se firme nas suas declarações. Nesta passagem, portanto, os termos
“profeta” e “testemunha” são usados de forma idêntica. Os profetas/mártires representam a igreja
completa como um todo, não uma parte dela323. As duas testemunhas provavelmente relembravam os
dois ramos de oliveira de Zacarias 4.2-14324. O testemunho do cristão é dado através de seu
martírio325. A roupa das testemunhas aqui é a única indicação do conteúdo de sua profecia, esta
sendo uma mensagem de arrependimento326. Porém, a profecia não é ouvida e os profetas são
mortos. Mesmo assim, a morte das duas testemunhas não é sem significado, pois é na sua morte que
completam o seu testemunho. A última palavra não pertence à fera indomada327. Como o par de
fiéis representa mais do que nada o testemunho do povo fiel como um todo, é o seu Senhor que
triunfa sobre o sofrer e a morte328.
Por causa das conotações do termo “besta” no português, a melhor tradução do termo aqui seria
“fera”. O termo besta é usado seguindo o uso do termo em inglês, beast, historicamente sendo
sinônimo de “fera” na época de João Ferreira de Almeida. A montadora asiática, Kia, teve certos
problemas com o emprego deste mesmo termo como nome para um dos seus veículos, não
compreendendo as associações do termo feitas no Brasil. Querendo tratar do veículo simbolicamente
como animal de carga, não percebeu as associações mais fortes designando aspectos negativos do
animal selvático. No português mais arcaico, as conotações do termo equivalem mais ao uso do
grego, designando a idéia do animal selvagem indomado, porém, potente. Aparecendo o termo
“besta” nas traduções atuais do Apocalipse, portanto, leia-se “fera” ou “animal selvagem”. Esta fera
está colocada por João em contraste ao dragão. O dragão espelha a fera das águas, em contraste à
fera que atua sobre a terra.
A fera reflete conceitos das quatro feras de Daniel e, como elas, procede do mar. Reflete igualmente
os monstros das mitologias de combate do mundo antigo329, como o Mar (Yamm), Leviatã e
Tiamat330. Essa mitologia de combate provinda do Oriente Próximo Antigo era temática comum de
obras apocalípticas, retomando o conceito da criação do mundo como resultado de batalha cósmica
contra o monstro do caos aquático e relacionando a história mitológica com os eventos da história
319
RISSI, 12 e 15.
BORING, 141.
321
AUNE, B., 562-563 e 575.
322
O profeta profere ou professa a palavra de Deus, conforme os termos bíblicos que colocam o profeta como porta-voz de Deus.
323
BORING, 144-145.
324
AUNE, B., 579.
325
BORING, 153.
326
AUNE, B., 611. A roupa especificada era símbolo normal de arrependimento e contrição
327
BORING, 147.
328
AUNE, B., 603.
329
Veja HACYAN (http://bibliotecadigital.ilce.edu.mx/sites/ciencia/volumen1/ciencia2/06/html/sec_7.html) para mais discussão de cosmologia e
cosmogonia, bem como a seção Cosmologias Antigas começando na página 9 desta apostila.
330
COLLINS, 125.
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atual. As duas linhas de pensamento eram misturadas, cada qual modificando a compreensão da
outra331.
Quando soa a sétima trombeta em Apocalipse 11.15-19, o texto novamente chega ao final do mundo!
Em sentido cronológico, é impossível prosseguir adiante, pois com estas pragas finais o final chegou
por segunda vez332. O Apocalipse não está organizado de forma cronológica, mas por conceitos de
temática teológica333. A teologia é o eixo central da mensagem de João, não a cronologia334. Seus
ciclos de sete etapas se repetem três vezes, sempre com o final cataclismático chegando na sétima
etapa. No intervalo dos capítulos doze a quatorze, a luta com os inimigos de Deus é vista por ainda
outra ótica, agora sem o ciclo de sete etapas.
Em cada ciclo de imagens, a séptima figura de juizo representa a ira de Deus, e a destruição final
daqueles que destróem criação de Deus ao contrariar a vontade divina, bem como o seu muito
esperado reinado em toda sua plenitude335. O produto final deste juízo é a cena celebrativa ao redor
do trono, o reconhecimento da soberania de Deus. No soar da sétima trombeta, o reinar do mundo
foi transferido ao reinar eterno de Deus336. Não há qualquer descrição de ruína do mundo aqui, mas
uma retribuição àqueles que estavam destruindo a terra.
Apocalipse 12.1-14.20:
Os capítulos 12 a 14 são uma unidade que mantém um caráter especialmente dramático. Aqui, cada
personagem e ação tem sido exagerado em proporções maiores do que a vida337. Nos primeiros
versículos temos a apresentação dos principais personagens da peça338. Aqui se descreve dois grupos
polarizados em extremo, sem qualquer comunalidade339. Todos os personagens aqui estão postos em
contraste um ao outro, a exemplo da prostituta e da noiva340.
Comentando desde uma perspectiva judáica, Levenson defende que a nossa realidade vivida existe en
antecipação da victoria triumphal de Deus, não depois. Leviatã, o monstro do caos ainda anda em
liberdade. A soberania absoluta de Deus é ainda uma questão de esperanza por ser cumplida341. Por
outro lado, a expressão cristã é um tanto diferente. Cristo não está apenas por vir na consumação
dos séculos, mas já veio. A salvação plena é esperada pelo crente em sua expectativa escatológica,
mas já é a sua experiência no meio dos problemas que vivencia342.
Nestes capítulos, pode-se ver a vitória alcançada, enquanto está sendo aguardada343. A João é dado
ver a realidade desde outra perspectiva, como também o servo do profeta Eliseu pôde contemplar a
331
Bernard McGinn em ALTER, 568.
BORING, 150.
333
FIORENZA, 350.
334
REDDING, 33.
335
BORING, 149.
336
AUNE, B., 646.
337
BORING, 150.
338
AUNE, B., 661.
339
BORING, 152.
340
FIORENZA, 359.
341
LEVENSON, 48.
342
BORING, 33.
343
Veja em contraste com 21.1-8.
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realidade além do seu olhar amedrontado344. Sua esperança é ao mesmo tempo futura e presente,
sendo realidade por conseqüência da fidelidade da promessa de Deus.
Em Apocalipse 12.9, encontra-se menção do dragão, a serpente, o adversário (diabolos), o Satanás
(Satana", transliteração do termo hebraico para adversário, @fv), todos aparecendo com o artigo
definido. No texto grego de Apocalipse, o autor parte de regras gramaticais normativas do grego,
utilizando o artigo definido somente quando considera que o leitor/ouvinte já conhece o personagem
ou ítem referenciado. Não é utilizado, entretanto, em listas quando um mesmo referente é
indicado345. Esto indica que João não está usando estas descrições para referirse a um só
personagem, mas a varios agentes em oposição a Cristo, personagens já introduzidos no texto de
João.
O chamado Leviatã (@tywl—um monstro marinho da mitologia da criação como resultado de uma
batalha cósmica) é normalmente apresentado como sendo primordial. Jó 40-41 descreve de forma
explícita a outro monstro, Beemote, como sendo parte da obra criativa de Deus. Existe uma pasagem
muito mais amplio referindose a Leviatã, porém no hay nenhuma mênção de Leviatã pertenecer à
ordem criada de Deus346. Geralmente, ele é visto como um monstro marinho dominado por Deus na
era primeva, porém ainda reflete poder e atuação ao ser acordado ou incitado347.
Tempo no Relato da Criação em Gênesis 1
Big Bang?
Gênesis 1:1-2
Período de Caos,
Terra em Formação
Terra Ordenada por
Deus na Criação
Linha de tempo
Leviatán Presente
(Monstro do Caos)
Leviatán Restrito
pela Soberania de Deus
(Jó define Behemot como criado por Deus, mas
coloca a Leviatán como existindo no momento do
relato de criação em Gênesis)
Interpretando os personagens principais do capítulo doze em termos de respresentações de agências
centrais à mensagem e relato do evangelho, teria-se que dizer que 1) a mulher representa os servos de
Deus, seja Israel, Maria, o povo de Israel, a igreja, ou por outra agência; 2) o dragão representa
agência oponente a Deus, seja em Herodes, Satanás, Leviatã, judeus perseguidores dos cristãos,
344
2ª Reis 6.15-17.
AUNE, A., clxiii e clxv.
346
LEVENSON, 49.
347
CLINES, 86-87.
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governo Romano, ou outros personagens; 3) Miguel, do hebraico (lakym—“quem como Deus?”)
miychael348 representa Jesus junto com seus servos349.
Poderia-se tentar interpretar este capítulo num sentido futurístico, porém já existe uma corrente
interpretativa forte que restringe a referência específica aos acontescimentos do ministério de Jesus,
os quais tem implicações ainda futuras. Como a intenção específica do autor é retratar que a vitória
fora ganha em Cristo, o essencial para o cristão é apegar-se à vitória alcançada e permanecer fiel350.
Mesmo que a vitória já tenha sido ganha, a guerra continua e é necessário que o cristão se apegue a
Cristo, o vitorioso351. O combate descrito aqui é colocado como sendo consumado nos céus, mas
ainda não havendo chegado a ser finalizado na terra, em termos de obediência completa a Cristo
como vitorioso352. Os inimigos de Deus ainda atuam no mundo, mas não há razão para o cristão
ceder a vitória que foi alcançada por Cristo.
Havia, no conceito mitológico greco-romano, a lenda do nascimento do deus Apolo que se
assemelhava ao relato de João nestes capítulos. Um cidadão romano podia pensar da narração
seguindo as linhas da mulher como a deusa Roma, quem consideravan a Rainha do Céu. O filho
refletia o relato do emperador romano, matando a um dragão ameaçante. No desenredo da morte do
dragão, Roma estableceu a sua era dourada. O dragão era uma representação visível do poder da
escuridão, que os romanos descriviam como “a nossa antiga maldade”353. João, porém, toma o relato
e o retoca com novos personagens e novo simbolismo, mostrando outra perspectiva da verdadeira
realidade do contexto político-religioso romano, sendo uma polêmica contra o culto imperial
romano354.
João não indica responsabilidade a Deus pelo mal. Tampouco apresenta a Satanás como exercendo
poder independente no mundo355. Mesmo que o inimigo conquiste alguma vitória, nada pode fazer
para anular a vitória decisiva efetivada na cruz356. O inimigo utiliza como sua arma o medo da
morte, porém, o poder da morte já foi anulada pelo Cordeiro imolado que vive.
O dragão, a fera, e o profeta falso são uma unidade357. “Identificando o dragão com Satanás, o
Diabo, a antiga serpente, João mostra que ele pretende simbolizar todas as forças contra Deus desde
o Éden”358. Essa totalidade inimiga é derrotada. Em meio à história da humanidade, os inimigos de
Deus são conquistados pela redenção divina em Cristo359. Como Jesus falava do reinar de Deus já ter
inicio por ter recebido toda autoridade360, aqui João espelha essa vitória completa alcançada e
demonstrada na sua ressurreição.
Na época de João, os judeus muitas vezes comprendiam que a quarta fera de Daniel representava o
Império Romano361. Deve-se lembrar, no entanto que João não retrata o Império Romano em sua
348
lakym -- “Quem é como Deus?”, tomado na literatura judaica como defensor especial do povo judeu conforme BAUER, 524 e Harris, 68, 693 e
832. Este Miguel aparece três vezes no Antigo Testamento e duas vezes no Novo (Daniel 10.13, 21; 12.1; Judas 9; Apocalipse 12.7).
349
BORING, 152-157.
350
Apocalipse 22.5-8.
351
FIORENZA, 359.
352
COLLINS, 124.
353
Vergílio, Eclogue IV.15 em BORING, 151.
354
SCHERRER, 599.
355
BORING, 154.
356
RISSI, 9.
357
Apocalipse 16.13 e BORING, 154.
358
BORING, 155.
359
RISSI, 10.
360
Mateus 28.18.
361
BORING, 155.
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totalidade com a figura da fera, mas certos elementos da mesma, como na pessoa de Nero362. A fera
respresenta toda agência inimiga, não se limitando a Roma.
João não apresenta reversões milagrosas de intervenção divina em beneficio dos verdadeiros profetas.
O seu testemunho foi dado através do sofrimento, não por espetáculos de eventos milagrosos363. No
caso do culto imperial, havia caso do uso de sinais “milagrosos” para sustentar o suposto poder das
imagens, como trovões e relâmpagos364. A manifestação de senhais milagrosos não é ninguna base
para a fé, nem é invalidada pela sua inexistencia365. Jesus não confiava naqueles que creram por
causa dos sinais que ele operava, nem deveria o crente crer em outro por causa da operação de feitos
milagrosos366.
A Bíblia simplesmente não explica a origem de Satanás. Isaías 14 é muitas vezes colocado como
explicando a sua origem, porém Isaías não pretende mais do que dirigir a palavra de Deus ao rei da
Babilônia. É interessante notar que nesta passagem de Apocalipse não há nenhum referente em si ao
texto de Isaías 14367. O texto aqui trata que o fato da vitória de Cristo na terra efetivamente expulsa
Satanás de qualquer posição que teria no céu368. Havia relatos da expulsão de Satanás do céu entre os
judeus, mas não em textos que foram creditados com autoridade para serem incluídos na Bíblia369.
A convicção de João em Apocalipse é de que qualquer submissão ao culto romano era rendirse a um
enemigo que já estava derrotado370. Que o inimigo fora expulso reflete a vitória de Deus371. A
vitória já foi decisiva e de nenhuma forma carece de outra batalha escatológica final372. Preocupações
de uma batalha cataclismática final eram comuns na época de Jesus, mas deve-se lembrar que em
Mateus 24 ele diz que guerras e rumores de guerras não são sinais que apontam para qualquer
coisa373.
Todos levam alguma marca, seja a da fera, seja a de Deus, mas o levam sobre si de forma aberta e
óbvia374. A marca ou selo do cristão reflete a sua proteção sob o nome ou autoridade do Cordeiro375.
As marcas são formas de identificação externa tão óbvias como as estrelas de Davi que Hitler obrigou
os judeus a vestirem na época da Segunda Guerra Mundial. Aqui, ambos os lados estão designados
por símbolos externos visíveis para todos identificarem—muito diferente do que a realidade
vivenciada pelo cristão que não tem como distinguir visivelmente o fiel do infiel.
O número seis leva certos conceitos simbólicos, incluindo os de imperfeição, juízo, falta e de ser
incompleto376. A repetição tríplice do número reflete a totalidade ou nível da qualidade de
imperfeição designada. Esta é uma das formas que João tem para emfatizar a distinção de alto
contraste que faz entre o fiel e infiel. Para João, simplesmente não existe meio termo.
362
RISSI, 11.
BORING, 157.
364
SCHERRER, 607-608, 610.
365
BORING, 161; Êxodo 7.11, 22; 8.7; Deuteronômio 13.1-5; Mateus 7.21-23; Marcos 13.22; 2ª Coríntios 10-13; 2ª Tessalonicenses 2.9.
366
Mateus 16:1-4; 21:14-17; Marcos 8:11-13; Lucas 11:14-32; 17:20-21; 23:8; João 2:23-25; 3:2-3; 6:14-15, 25-34; 9:16-17; 10:40-42; 11:45-48;
e 12:37-40.
367
WATTS, 212.
368
BORING, 158 e Lucas 10:18.
369
AUNE, B., 695. Aqui, a expulsão é escatológica, enquanto na literatura judaica era em geral uma questão primordial, assim refletida em textos
como Adão e Eva 12-16, Evangelho de Bartolomeu 52-55, Qu’ran 7.11-17 e Apocalipse de Moisés 39.
370
BORING, 159.
371
AUNE, B., 699.
372
RISSI, 8 e 15.
373
Veja a discussão de Mateus23:29-24:44, na página 29.
374
BORING, 161.
375
RISSI, 14.
376
BORING, 162.
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Apocalipse 15.1-16.21:
O esquema desta passagem prepara o cenário para o lamento da queda de Babilônia a seguir,
refletindo novamente a série de pragas, aqui descritas em termos de taças da ira divina377. O lamento
retoma a linguagem e figura dos lamentos dos profetas do Antigo Testamento como Isaías e Ezequiel
que entre outros profetizaram sobre a queda de reis e nações. Como João se designa profeta, aqui o
papel de profeta é desenvolvido na linhagem dos profetas veterotestamentários.
A linguagem de João é uma linguagem de extremos. Existe o “nós” e o “eles”, mas somente estas
duas categorias, sem qualquer mistura. Em contraste com os filmes populares apocalípticos da
atualidade, a ênfase não recai sobre o que acontece com os que não pertencem a Deus. João
interessa-se mais com a condição eterna dos que pertencem ao Cordeiro378. No tratar dos ímpios, o
texto reflete a justiça de Deus na retribuição em vingança da morte dos servos de Deus379.
As pragas descritas nesta ocasião são expostas em sua intensificação suprema. Trata mais uma vez
das mesmas coisas, mas de forma ainda mais drástica380. O conceito do rio Eufrates tornar-se seco
seria em muito extraordinário, sendo o único rio do Oriente Médio que jamais secava381. A praga
descrita provavelmente deveria trazer à memoria as pragas do evento do Êxodo e a passagem do
povo pelo mar de varas ao sair do Egito.
Toda a cena de uma batalha é preparada aqui, mas não há batalha nenhuma. Faça o que quiser, o
inimigo não consegue alterar os planos redentivos de Deus382. Todas as suas tentativas, artimanhas e
planos não chegam a constituírem um desafio real ao Cordeiro e o trono celestial. Os planos do
inimigo resultam em esforço perdido.
Referente ao Armagedom (“monte de Megido”), deve-se dizer de início que nunca foi explicado de
forma satisfatória o local referido383. É interessante notar que não existe nenhum monte em Megido.
O monte mais próximo a Megido é o Monte Carmelo, mas é duvidoso que os cristãos da Ásia Menor
tivessem conhecimento disso. Alguns apontam para uma modificação mínima para associar o termo
ao “monte da congregação”, mas em realidade não há como definir com precisão um ponto
geográfico de referência. O essencial da menção de João é em termos da iminência de um grande
confronto final entre Roma e seus inimigos384. Mesmo assim, porém, a tal batalha referida não
acontece! Em lugar da batalha esperada, a sétima taça é derramada e o mundo acaba num enorme
terremoto.
Em lugar de batalha escatológica temos apenas o juízo divino. Esse juízo ou julgamento deve ser
visto espelhando outra vez o sacrifício do Cordeiro, um derramar do grande amor de Deus385. Foi
este o evento de vitória e também de juízo, tal como retratado no silêncio do sétimo selo386.
Na descrição da cena aparece em mais de uma ocasião a idéia da possibilidade de arrependimento
ignorado pela humanidade. Esse arrependimento é o alvo da ira do Cordeiro, não aniquilação e
377
AUNE, B., 903.
BORING, 173.
379
AUNE, B., 903.
380
BORING, 174-175
381
AUNE, B., 890-891.
382
RISSI, 12.
383
AUNE, B., 898.
384
BORING, 177.
385
RISSI, 12 e 15.
386
WICK, 512-513 conforme referido anteriormente, o silêncio do momento de sacrifício parece ser espelhado no silêncio aqui.
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destruição387. João se coloca aqui nos moldes das palavras de Jesus ao chorar sobre Jerusalém e a sua
eventual destruição388.
Apocalipse 17.1-18.24:
João é levado ao deserto para ver a cidade, pois o deserto é lugar de refúgio para o povo de Deus.
As imagens de João não são codificações alegóricas que podem ser decifradas com uma simples
chave. O simbolismo das imagens relaciona-se com várias coisas de uma só vez389. Lembra-se que o
pano de fundo para Apocalipse inclui o Antigo Testamento inteiro, bem como o evangelho de Jesus
Cristo, as expectativas judaicas do messias e o fim do mundo e o contexto vivido por João e as
igrejas na Ásia Menor.
A deusa romana principal, Dea Roma, era cultuada na maioria das cidades mencionadas nas cartas às
sete igrejas390. Retratando Roma, João faz referencia ao governo, às práticas religiosas, à deusa
Roma com o seu culto, ao império romano, ao culto a César, como também Nero e às lendas
referentes a ele391. Roma tinha deuses, cujos nomes não eram publicados, para que não fossem
invocados a deixar Roma e irem para outro lugar. Comumente pensava-se que o nome secreto da
deusa Dea Roma fosse Amor (Roma escrita ao inverso, retratando conceitos de Vênus/Afrodite, a
suposta mãe de Aeneas, tido como ancestral dos romanos). João trata a deusa Roma como uma
prostituta, provavelmente aproveitando conceitos vulgares da época e expondo-os em crítica392.
As reflexões de João sobre a fera e os oito reinados de sete reis reflete as colocações de Daniel 7. Há
considerável dificuldade em identificar reis específicos da cronologia Romana, mas parece ter algo a
ver com Nero de volta dos mortos393. No entanto, não há como especificar a lista de sete reis, para
que se entenda que a fera é Nero. O mais correto, provavelmente, seria aceitar o número como
designando todos os reis de Roma394. Por outro lado, é possível que João não se interesse em que
todos os imperadores romanos estejam representados, já que nem todos refletiam um caráter
impróprio em relação ao judaismo e o cristianismo. De qualquer forma, a preocupação de João era
de mostrar o caráter do imperador. Seu interesse não era dizer quem ele era, mas o que ele era395.
Apocalipse 19.1-10:
Deus derrotou o inimigo, e é por isto digno de louvor. Esta passagem é uma passagem de culto a
este grande Deus, a iminência das bodas do Cordeiro sendo o cerne deste culto 396. A fumaça tem um
vínculo com a fumaça dos altares e incenso que era oferecido como sacrifício a Deus. A norma da
387
RISSI, 12.
Mateus 23.37-38.
389
BORING, 179.
390
AUNE, C., 959.
391
BORING, 179-180.
392
AUNE, C., 926-927. Era comum entre a população romana uma distorção da lenda de Rômulo e Remo sendo por uma lupa, termo latin para
designar a fêmea do lobo, mas também usada para indicar uma prostituta (929).
393
BORING, 182 e COLLINS, 126.
394
AUNE, C., 960.
395
BORING, 183.
396
AUNE, C., 1040.
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figura é que Deus preza o cheiro suave do sacrifício, mas aqui o cheiro vem do juízo de Roma, o
qual parece ter o aspecto de cheiro suave, agradável a Deus.
Apocalipse 19.11-22.5:
Outra vez não há nenhuma necessidade de uma grande batalha escatológica, pois o inimigo já foi
derrotado. Sem qualquer ação de combate da parte de Cristo ou dos santos, toda a aglomeração
inimiga se desfaz397. Em contraste com a suposição popular de conhecer o nome secreto da deusa
Roma, ninguém sabe o nome secreto do Cordeiro, a não ser o próprio Cordeiro. Logo, ninguém tem
controle sobre a sua intervenção.
A ênfase na parousia do Cordeiro nesta passagem é em termos da função judicial do evento da
chegada de Cristo398, não de um arrebatamento do povo de Deus ao céu. A vinda de Cristo em glória
espelha o dia de prestar contas, no qual não há forma de fugir da justiça e do juízo de Deus.
“O capítulo 20 [de Apocalipse] é a continuação dos eventos de vitória relatados no capítulo 19, sendo
a parte conclusiva da visão”399. O juízo está completo, abrindo espaço para a descrição da nova
realidade da noiva, o povo do Cordeiro.
“Platão, sem a luz da Santa Escritura, mas refletindo sobre o eterno, falou de ‘a cidade cujo lar
encontra-se no ideal’, o padrão que é ‘reservado no céu para aquele que o queira contemplar e assim
contemplando constituir-se como o seu cidadão’”400. De modo bem semelhante, Agostinho trata de
duas cidades “compostas de dois amores: a cidade terrenal por amor a si, em desprezo a Deus, e a
cidade celestial pelo amor a Deus, em desprezo a si”401.
“O termo ‘abismo sem fundo’ está vinculado a idéias concernentes à forma do mundo, como se tem
mencionado neste documento402. A terra era concebida como um disco plano que flutuava por cima
de água. O abismo refere-se às profundezas imensuráveis embaixo da terra, pois pensava-se existir
uma fenda capaz de ser selada”403 . Obviamente as expressões aqui não devem ser tidas como
literais, pois é impossível e inconcebível amarrar um ser espiritual com cadeias e selar uma fenda na
terra com um cadeado. A chave para a porta do abismo designava o conceito de autoridade sobre o
abrir e fechar a fenda ao abismo404, poder sobre a morte e o mundo além túmulo.
“A figura do amarrar de Satanás é compatível com a expressão em Efésios que o nomeia como
‘príncipe do poder do ar, o espírito que agora opera nos filhos da desobediência’. Ele é restringido,
porém não destruído. Dentro de sua esfera restringida, ele ruge furiosamente (1a Pedro 5.8). Para
os cristãos, Satanás foi completamente amarrado, e eles não precisam temer a sua decepção ou o seu
poder”405. A igreja está protegida do inimigo, pois mesmo que a fera mate o cristão, a morte apenas
o conduz à presença de Deus406.
397
RISSI, 8.
AUNE, C., 1069.
399
ROBBINS, 221.
400
Platão, Republic IX, 592, tr. Shorey citado em MOODY, 576.
401
Agostinho, The City of God. XIV, 28 citado em MOODY, 576.
402
Vea-se la discusión de «Cosmologías Antiguas» en la página Error! Bookmark not defined..
403
ROBBINS, 221-222.
404
AUNE, B., 527.
405
ROBBINS, 223. Veja-se também 1ª João 4.4.
406
RISSI, 15.
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Como a chave do abismo designava autoridade sobre o mesmo, a chave das cadeias expressa
autoridade sobre a limitação do poder do dragão, refletido ao mesmo tempo pelas cadeias. O dragão
ainda pode ser forte e poderoso, mas a abrangência do seu poder tem sido reduzida407.
A vitória já foi ganha pelo Cordeiro, mesmo que o inimigo se prepare para a batalha408. “O poder
protetor de Deus é tão extraordinário que não há nem a aparência de uma batalha, quando Deus
deseja destruir as forças do mal”409. A soberania de Deus é completa, não tão pequena que
forneceria a possibilidade de uma batalha. Conforme a soberana vontade de Deus, querendo, ele
executa sua vontade, sem importar aqueles que se oponham. Sua vitória é final e absoluta—
incontrovertida e já realizada pelo Cordeiro.
Na literatura Apocalíptica, Gog e Magog são símbolos para as nações idólatras que atuam em
oposição a Deus410, sendo usados poucas vezes nessa literatura mas encontrados também em Ezequiel
38.22411. Logo, João demarca aqui a confiança de que a vitória de Cristo será revelada como
completa, até o ponto de toda agência maligna ser totalmente eliminada. Quando Gog e Magog vem
para atacar os santos, o seu exército se alinha pela extensão completa da terra, o que pareceria
indicar que o lugar de vivência dos santos não está delimitado a uma localidade geográfica. Em lugar
disso reflete de certa forma que o campo sitiado refere-se aos santos espalhados por todo âmbito da
terra. Estes santos são o acampamento dos fiéis, a própria “cidade querida” que não se limita a uma
definição local412.
“Em escritos apocalípticos, os números tem sentidos simbólicos em lugar de numéricos. O número
dez era o número de um homem completo. Mil é o cubo de dez, que simboliza um período de tempo
compreendendo toda a humanidade”413. “Neste livro de símbolos, qual é a duração de mil anos?
Todo tipo de teorias são propostas, porém nenhuma delas realmente satisfaz”414. “Não temos mais
direito de tomar os mil anos literalmente do que temos para tomar o monstro de dez cabeças e sete
chifres literalmente”415.
À luz de Apocalipse 20.6-8, obviamente “o milênio, o que quer que seja, não significa um vasto
período no qual Satanás não tem seguidores sobre a terra, pois estas hostes vastas erguem-se
imediatamente sob seu comando”416. É mais viável ver o reinar com Cristo como a colocação de
forma positiva do amarrar o inimigo417. Não há referente de localidade para o exercício deste
reino418. Reina-se com Cristo, mas o local não é especificado. Esta passagem pode referir-se tanto a
um local terreno, como também pode caracterizar o que chama-se de céu. O essencial é o aspecto de
estar junto a Cristo, o seu reinado efetivo na vida do cristão.
Quem participa da primeira ressurreição, não participa da segunda morte. O termo segunda
ressurreição, não é utilizado419. O sentido de “primeira” parece expressar a unicidade e importância
da ressurreição.
407
ROBBINS, 222.
RISSI, 15.
409
ROBBINS, 227.
410
ibid., 226.
411
AUNE, C., 1099-1100 e 1104.
412
GUNDRY, 256-257.
413
ROBBINS, 222.
414
ROBERTSON, 457.
415
Torrance citado em ROBBINS, 222.
416
ROBERTSON, 461.
417
ROBBINS, 224.
418
Swete citado em ROBERTSON, 460.
419
ROBBINS, 225.
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Na passagem de Apocalipse 20.15, não existe cogitação nenhuma para os conceitos de sono da alma,
estado intermediário, uma segunda chance após a morte, nem mesmo para uma aniquilação dos
infiéis420. O julgamento divino é decisivo, tal como a decisão do ser humano em aceitar ou rejeitar a
obra redentora do Cordeiro imolado.
A partir do capítulo 21, encontra-se uma extensa descrição da Nova Jerusalém. Esta não é figura da
localidade de vivência dos santos, mas é figura dos santos em si—“a morada de Deus nos santos, em
vez de sua morada na terra”421. A cidade é a santa422 noiva423 do Cordeiro. Deve-se tomar cuidado
para não forçar demais os símbolos descritivos, mesmo assim, fornecem detalhes importantes para a
compreensão temática do livro.
Na literatura Ugarítica424, o mar figura como um monstro. “Seus aliados, os inimigos de Baal,
incluem o dragão, a serpente tortuosa, Shilyat com sete cabeças. Aparecendo na Bíblia sob o nome
Leviatã. Lotan é o aliado da Morte. O Mar e a Morte representam forças monstruosas, hostís à raça
humana e atemorizantes à assembléia divina”425, conforme conceitos de oposição entre o mar e
YHWH (hwhy)426.
O mar no conceito hebraico era visto muitas vezes como um símbolo, ou até a personificação, de
agência maligna, em rebelião contra Deus. Este conceito encontrava-se vinculado a um combate
escatológico entre as forças do mal e YHWH. O mais próximo a um mito de combate no contexto
cristão é o que se encontra nesta passagem nos termos “de ‘um novo céu e uma nova terra’ onde ‘o
mar ja não existe’”427. Esta agência inimiga não está apenas amarrada, mas passa da existência no
novo contexto da Nova Jerusalém. Não há mais implicância da fera, do dragão, de ninguém.
Havia sido já expresso, a exemplo em Isaías 65.17-25, o conceito de que toda a criação precisava ser
transformada para que o reino eterno messiânico pudesse ter um contexto novo e perfeito428. As
descrições seguintes da nova cidade, ou da noiva, são expressamente esse novo contexto de vida no
reino eterno de união com o Cordeiro. As questões da falta de lágrimas e choro devem ser lidas em
comparação com outras passagens que apresentam o choro divino. O ensino é válido em termos de
uma mudança drástica do contexto de vida do cristão, mas não deve ser forçado ipsis literis acima de
outros textos ausentes de figuras e linguagem simbólicas429. As frases de Apocalipse 7.17 e 21.4
servem mais com o sentido de colocar a reversão do lamento e choro do povo em contraste a Tiago
4.9, nos termos de Jesus em Mateus 5.4.
As figuras de Apocalipse 21.5 retomam à linguagem de Isaías 25.8, na restauração feita pela
iniciativa de YHWH430. Tudo é novo e agora reflete em coerência o propósito original da criação.
Tudo é novo, e o reinar de Cristo tem agora um início mais real, o fiel herdando a vida como ela
deveria ser.
420
ROBERTSON, 465.
GUNDRY, 256.
422
Apocalipse 21.2.
423
Apocalipse 21.3.
424
Língua de um povo vizinho dos hebreus que exprime certos conceitos tidos em comum entre os hebreus e os seus vizinhos. O nome vem da
cidade de Ugarit, na costa mediterrânea ao noroeste de Israel. A cidade foi destruída por volta de 1650 a.C., época não muito distante da de
Abraão.
425
COLLINS, 124.
426
AUNE, C., 1119.
427
LEVENSON, 33.
428
AUNE, C., 1133.
429
Veja Mateus 23.37, onde Jesus retrata inúmeras ocasiões de estar entristecido por causa da rebeldia do povo. Deus chora assim pela falha
humana como o pai que anseia o retorno do filho, regozijando na sua volta (Lucas 15.20-32). A alegria descrita é apenas possível onde há
tristeza na separação original. Hebreus 5.7 se refere à angústia de Jesus no Getsemane.
430
WATTS, 333.
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A lista de ações pecaminosas aqui provavelmente reflete mais o conceito dos cristãos que foram
infiéis, já que os de fora têm sido categoricamente cortados da vivência no contexto da Nova
Jerusalém. A mensagem de João retrata que os de dentro que escaparam da morte por participar nos
sacrifícios oficiais do culto romano, adoraram à fera, incluindo-se na prática adúltera de prostituição
aos ídolos e com a prostituição nos templos, tiveram medo da perseguição em lugar de confiança em
Cristo, efetivamente participando da morte dos fiéis431.
O formato cúbico da cidade espelha o cubo do lugar santíssimo do templo e do tabernáculo432. Em
lugar da Nova Jerusalém ser um grande templo de Deus, ela é o lugar santíssimo da mera presença
de Deus. A igreja, a noiva do Cordeiro, está repleta da glória e da presença de Deus.
Apocalipse 22.6-21:
Adore apenas a Deus—não se deve adorar nem mesmo ao seu mensageiro, e especialmente não adore
a César! Outra vez repete-se a mensagem básica da carta—ser fiel Àquele que é digno. César
reclama culto a si, mas os próprios mensageiros celestiais (mais altos do que César) não reclamam o
direito de serem adorados. Apenas Deus é digno de adoração.
Conclusão de Apocalipse:
O livro de Apocalipse é obra de temas escatológicos, porém de alcance imediato e atual. O enfoque
não é sobre predições futurísticas, mas sobre a realidade alcançada por Cristo, o Cordeiro de Deus
que venceu por completo o inimigo. A mensagem geral do livro leva o leitor a perceber que mesmo
que o inimigo pareça governar o mundo à sua volta é Deus em Cristo Jesus que executa a Sua
vontade de forma incontrovertida. As aparências são enganosas, mas o cristão não se deve deixar ser
levado pelas aparências. A realidade é outra.
Há atuação maligna em volta do ser humano, mas a vitória do Cordeiro posiciona ao cristão fiel
como vitorioso. Há, portanto, que lembrar e colocar em prática o mandamento de Jesus, dirigido de
forma tão clara inúmeras vezes: “Quem é, pois, o servo fiel e prudente, que o senhor pôs sobre os
seus serviçais, para a tempo dar-lhes o seu sustento? Bem-aventurado aquele servo a quem o seu
senhor, quando vier, achar assim fazendo”433. Vigia e sê fiel!
431
GUNDRY, 258.
AUNE, C., 1187 e GUNDRY, 261, ambos referindo a 1a Reis 6.20.
433
Mateus 24.45-46.
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Implicações de Apocalipse com a Escatologia:
Si é verdade que o liro de Apocalipse não pretende descrever como será a destruição do mundo, a
nossa compreensão da sua importancia para a escatologia deve refletir esa compreensão. Não vai
dizernos nada referente a como e quando o mundo acabará. O que procura dizer é que a realidade
espiritual com Deus é a realidade máxima em contradição à vida terrestre. Não procura darnos
explicações concretas da realidade espiritual ou celestial (não temos nenhuma compreensão de ouro
transparente, nem esperamos ver seres de múltiplas cabeças, chifres e olhos), mas impresões da
singularidade e majestade de estar na presença e baixo da proteção de Deus.
A mensagem de João é de ánimo para que aceitemos a realidade espiritual e a vitória de Jesuscristo
por meio da morte como o caminho apropriado e seguro para o crente. Sem oferecer descrições
concretas da metafísica celestial, nos extende segurança frente ao que ha de vir.
Consequentemente, somos obrigados a retornar às palavras de Jesus no que corresponde à realidade
espiritual, a chegada do fim, o que nos passa com a morte e o juizo, etc. Obrigar o Apocalipse a
responder às nossas indagações referentes aos temas escatológicos é uma violencia ao texto.
O Apocalipse simplesmente nos diz que seguir a Jesus Cristo em fidelidade é a única forma de chegar
a desfrutar a vitória real sobre a morte e a opressão. Existe esperança real para o fiel. Existe vida
baixo a proteção de Deus no por vir. É uma realidade nova que nos espera, porém uma realidade
que vale a pena de qualquer dificuldade que podemos experimentar deste lado da morte.
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Bibliografia:
ALBRIGHT, W. F. e C. S. Mann, Anchor Bible, Matthew, The: A New Translation with Introduction and Commentary. Garden
City, New York: Doubleday & Company, 1971.
ALTER, Robert e Frank Kermode, organizadores. Guia Literário da Bíblia. Traduzido por Raul Fiker, revisado por Gilson César
Cardoso de Souza. São Paulo: UNESP, 1997. (original em inglês, 1987).
AUNE, David E. Word Biblical Commentary, Volume 52A: Revelation 1-5. Dallas, TX: Word Books, Publisher, 1997.
__________. Word Biblical Commentary, Volume 52B: Revelation 6-16. Dallas, TX: Word Books, Publisher, 1998.
__________. Word Biblical Commentary, Volume 52C: Revelation 17-22. Dallas, TX: Word Books, Publisher, 1998.
BANDSTRA, Barry L. Reading the Old Testament: An Introduction to the Hebrew Bible, Second Edition. Belmont, CA:
Wadsworth Publishing Company, 1999. (Citações traduzidas por Chrístopher B. Harbin). [O autor escreve o livro
enfatizando a necessidade de se estudar o Antigo Testamento lendo o mesmo, não fazendo um estudo apenas com respeito ao
Antigo Testamento. O autor é professor da Hope College].
BAIN, Robert. no site internet da Beachwood High School em Ohio, EUA, http://www.beachwood.k12.oh.us/bobbain/. Encontrado
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Fuller Theological Seminary, colaborando em conjunto com seis outros eruditos no campo para a formulação desta obra. O
livro reúne, portanto, de perspectiva erudita e evangélica, o melhor de estudo crítico do texto veterotestamentário, com
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Apresenta uma perspectiva de erudição sem vínculo confissional, sendo publicada por editora secular para o mercado
religioso geral. O editor é presbiteriano e professor da Union Theological Seminary em Richmond, Virginia.].
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professor da New Orleans Baptist Theological Seminary durante vinte e quatro anos. Foi Ph. D. da Southern Baptist
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