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UNIVERSIDADE FEEVALE
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM QUALIDADE AMBIENTAL
CURSO DE DOUTORADO
MARCOS VINICIUS GODECKE
A INSERÇÃO DA RECICLAGEM NOS MERCADOS DE CARBONO:
AVALIAÇÃO DA SITUAÇÃO BRASILEIRA E ESTUDO DE CASO DO MUNICÍPIO
DE PORTO ALEGRE, RIO GRANDE DO SUL
Novo Hamburgo (RS)
2013
MARCOS VINICIUS GODECKE
A INSERÇÃO DA RECICLAGEM NOS MERCADOS DE CARBONO:
AVALIAÇÃO DA SITUAÇÃO BRASILEIRA E ESTUDO DE CASO DO MUNICÍPIO
DE PORTO ALEGRE, RIO GRANDE DO SUL
Tese
apresentada
à
Coordenação
do
Programa de Pós-Graduação em Qualidade
Ambiental da Universidade FEEVALE como
requisito parcial para a obtenção do título de
Doutor em Qualidade Ambiental.
Orientador: Prof. Dr. Roberto Harb Naime
Novo Hamburgo (RS)
2013
AUTORIZADA A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO DESTE TRABALHO,
DESDE QUE CITADA A FONTE.
Universidade Feevale
Programa de Pós-Graduação em Qualidade Ambiental
Mestrado em Qualidade Ambiental
MARCOS VINICIUS GODECKE
A INSERÇÃO DA RECICLAGEM NOS MERCADOS DE CARBONO:
AVALIAÇÃO DA SITUAÇÃO BRASILEIRA E ESTUDO DE CASO DO MUNICÍPIO
DE PORTO ALEGRE, RIO GRANDE DO SUL
Tese de doutorado aprovada pela banca examinadora em 26 de agosto de 2013, conferindo ao
autor o título de doutor em Qualidade Ambiental.
Componentes da Banca Examinadora:
Prof. Dr. Roberto Harb Naime (Orientador)
Universidade Feevale
Prof. Dr. Augusto Mussi Alvim
Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
Prof. Dr. Carlos Alberto Mendes Moraes
Universidade do Vale do Rio dos Sinos
Profª. Drª. Daniela Muller de Quevedo
Universidade Feevale
Profª. Drª. Haide Maria Hupffer
Universidade Feevale
À
Vó Jacira, um ser
humano muito especial.
AGRADECIMENTOS
Ao término desta pesquisa, tenho muito a agradecer, desde professores de 1º e 2º graus,
cujos ensinamentos marcaram o caráter, até o passado recente, aos professores do mestrado, da
do curso de Economia do Desenvolvimento da PUCRS e deste doutorado em Qualidade
Ambiental, da FEEVALE.
Aos avós, já falecidos, e aos pais, Rodolfo e Jacira, pela educação.
À esposa Marli e aos filhos, Paula e Bruno, pela paciência.
Tenho a agradecer ao Banco do Brasil, empresa que acolheu-me aos 14 anos de idade e
na qual trabalhei, vivi e convivi por 35 anos.
Aos colegas da nova casa, professores do curso de Gestão Ambiental na Univeridade
Federal de Pelotas, em especial à professora Fernanda Gonçalves, pelo apoio.
Para a realização da pesquisa tive o apoio do DMLU, do qual fico particularmente grato
ao Engenheiro André Machado. Espero que este estudo possa ser útil à Prefeitura e à Porto
Alegre.
Pude contar com a boa vontade dos recicladores das Unidades de Triagem de Porto
Alegre. Espero estar contribuindo para a melhoria das suas condições de vida.
Agradeço aos colegas das disciplinas de “projeto da tese” e da “tese” da FEEVALE, em
especial ao Ilde Borella, Carlos Nascimento e Fabiano Trein, e aos professores Marco
Rodrigues e Fernando Spilki, pelas sugestões.
Aos professores da banca de qualificação e da banca de defesa da tese, Augusto Alvim,
Haide Hupffer, Daniela Quevedo e Carlos Moraes, pelas valiosas contribuições.
Por fim, o especial agradecimento ao professor Roberto Naime pelo apoio e solicitude.
A todos que contribuíram direta ou indiretamente para este trabalho, muito obrigado!
RESUMO
Os altos níveis de geração de resíduos sólidos urbanos, associados à destinação incorreta, além
de resultarem em danos à saúde humana e ao ambiente, emitem gases que contribuem para o
agravamento dos problemas decorrentes da elevação da temperatura do planeta. Um eficiente
gerenciamento de resíduos pode atuar para a minimização desta situação. A reciclagem dos
resíduos, como relevante componente desta gestão, permite conciliar os benefícios de natureza
socioeconômica aos ambientais e climáticos, gerando renda aos segmentos mais necessitados
da população. Neste contexto, receitas oriundas dos mercados de carbono seriam geradoras de
maior nível de renda e estimuladoras de incrementos e melhorias na gestão dos resíduos
sólidos. Através de pesquisa bibliográfica, documental e exploratória, este estudo avalia os
condicionantes técnicos, econômicos e sociopolíticos da reciclagem brasileira e das entidades
recicladoras da Coleta Seletiva de Porto Alegre, Brasil, para o acesso às receitas oriundas dos
mercados de carbono, sejam eles regulados ou voluntários. O estudo discute a consistência da
Economia de Baixo Carbono e contextualiza o setor de reciclagem na redução das emissões de
gases de efeito estufa, estimando as reduções atuais e potenciais propiciadas pela reciclagem no
País, no Município e pela Coleta Seletiva do Município. Em nível de País o estudo estimou
reduções de 22,7 MtCO2e pela reciclagem atual, com potencial para atingir 41,5 MtCO2e.
Nestes termos, as contribuições atual e potencial do município foram estimadas em 42,7
ktCO2e e 88,5 ktCO2e. As contribuições da Coleta Seletiva, atuais e potenciais, em 266,3 e
485,2 tCO2e anuais, respectivamente. A comercialização destas últimas nos mercados de
carbono poderiam gerar receitas anuais entre R$ 558,5 mil e 2,26 milhões. Os maiores
obstáculos encontrados são de natureza socioeconômica, relacionados à autogestão das
entidades, às práticas públicas de governança e ao contexto institucional da sociedade
brasileira.
Palavras-chave: Gestão de Resíduos Sólidos Urbanos. Reciclagem. Mudanças Climáticas.
Mercados de Carbono. Porto Alegre.
ABSTRACT
The high levels of solid waste generation attached with an incorrect destination, is responsible
for human health and environmental damages added to an increase in greenhouse gases (GHG)
emissions and, by consequence, in global warming effects. An efficient waste management can
minimize this situation. Recycling is a relevant management component and represents
socioeconomic, environmental and climate benefits. This action also can generate some income
to the poorest segments. In this context, carbon markets would be welcome to society. Through
bibliographic, documentary and exploratory research, this study evaluates technical, economic
and sociopolitical constraints for Brazilian recycling entities and entities located in Porto
Alegre (South Brazil city), the access of regulated and voluntary carbon markets. The study
discusses the low carbon economy consistency and contextualizes recycling contribution in
reducing GHG emissions. It was possible to estimate a reduction of 22.7 MtCO2e in country
levels by current recycling, with potential to reach 41.5 MtCO2e. In the same way, current and
potential contributions of recycling in city-level were estimated in 42.7 and 88.5 ktCO2e,
respectively. Estimation of GHG reduction by Coleta Seletiva service was 266.3 and 485.2
tCO2e annually. Just using the GHG reduction for Coleta Seletiva, it’s possible to estimate
profits from R$ 558,5 and 2,26 million by selling this amount in carbon markets. However, the
major issue to sale carbon credits in the green markets is attributed to socioeconomic aspects,
related entities self-management, public governance practices and institutional context of
Brazilian society.
Keywords: Municipal Solid Waste Management. Recycling. Climate Change. Carbon Markets.
Porto Alegre.
LISTA DE FIGURAS
Figura 1
A Gestão Integrada de Resíduos Sólidos Urbanos como sistema ...................
65
Figura 2
Árvore de problemas da reciclagem ................................................................
79
Figura 3
Quadro Conceitual da Teoria de Programas ....................................................
83
Figura 4
A construção da autogestão em Empreendimentos da Economia Solidária ...
87
Figura 5
Esquema genérico do ciclo de vida de um produto .........................................
89
Figura 6
Relação entre as partes da ISO 14064 .............................................................
90
Figura 7
Fases e aplicações da ACV .............................................................................
91
Figura 8
Etapas para verificação da adicionalidade de projeto CDM (MDL) ...............
92
Figura 9
Emissões e sequestros de GEE associados ao ciclo de vida dos produtos ......
98
Figura 10
Exemplo de delineamento de sistema para ACV relacionada à gestão de
resíduos ....................................................................................................
99
Figura 11
Mapa de localização de Porto Alegre .............................................................. 108
Figura 12
Elementos da fase de avaliação de impactos (ISO 14042:2000) ..................... 120
Figura 13
Cenário de linha de base e projetado da metodologia CDM AMS-III.AJ ......
122
Figura 14
Área de coleta automatizada de resíduos orgânicos em Porto Alegre ............
168
Figura 15
Sistema de contêineres em Caxias do Sul (RS) ............................................... 169
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1
Forçamento Radiativo médio anual e distribuição de probabilidades .........
32
Gráfico 2
Dados de testemunhos de gelo glaciais e interglaciais dos 650 mil anos
anteriores a 2005 ..........................................................................................
34
A evolução recente na concentração atmosférica de GEE e sua relação
com o forçamento radiativo .........................................................................
35
Gráfico 4
Evolução no forçamento radiativo comparativamente ao ano de 1750........
37
Gráfico 5
Emissões globais de gases de efeito estufa em 2010 por setor ....................
38
Gráfico 6
Medições e tendências da temperatura mundial após 1860 .........................
40
Gráfico 7
Simulações de forçantes naturais e antropogênicos relativos ao século XX
41
Gráfico 8
Cenários de concentrações de GEE até 2100 sem mitigação .......................
43
Gráfico 9
Projeções do aquecimento de superfície nas diferentes regiões do planeta
no século XXI ..............................................................................................
45
Gráfico 10
Mercados voluntários por regiões do planeta em 2010 e 2011 ....................
59
Gráfico 11
Oscilações nos preços dos EUA e CER de 2008 a novembro de 2012 ........
61
Gráfico 12
Participação dos países em projetos no CDM em fevereiro de 2013 ...........
62
Gráfico 13
Expectativa de geração de CER pelos projetos da primeira fase do CDM ..
63
Gráfico 14
Reciclagem versus incineração por tonelada de RSU misturado .................
69
Gráfico 15
Evolução real das indústrias de reciclagem e transformação .......................
73
Gráfico 16
Fatias de mercado das certificadoras nos mercados voluntários de carbono
em 2011 ........................................................................................................
96
Composição gravimétrica da comercialização da Coleta Seletiva em Porto
Alegre por tipo de reciclável ........................................................................
152
Exemplo de Aplicação da Metodologia Carbono Social nas Unidades de
Triagem de Porto Alegre ..............................................................................
178
Gráfico 3
Gráfico 17
Gráfico 18
LISTA DE QUADROS
Quadro 1
Fenômenos extremos, probabilidade de ocorrência e impactos relacionados
47
Quadro 2
Impactos das mudanças climáticas na África, Ásia e Oceania .......................
48
Quadro 3
Impactos das mudanças climáticas na Europa e América Latina ...................
49
Quadro 4
Impactos das mudanças climáticas na América do Norte, Regiões Polares e
Pequenas Ilhas ................................................................................................
50
Exemplos de pesquisas utilizando a ACV para quantificação de emissões
relacionadas à GIRS .......................................................................................
77
Quadro 6
Dados brasileiros sobre catadores ..................................................................
78
Quadro 7
Legislações do Governo Federal brasileiro para a inclusão social dos
recicladores .....................................................................................................
80
Quadro 8
A nova governança confrontada com a administração pública tradicional ....
82
Quadro 9
Disposições da Lei 12.305/2010 de incentivo à reciclagem ...........................
101
Quadro 10 Exemplos de pesquisas utilizando a ACV para quantificação de emissões
relacionadas à reciclagem ...............................................................................
102
Quadro 11 Ciclo dos projetos no CDM ............................................................................
120
Quadro 12 Parâmetros de monitoramento da metodologia AMS-III.EJ ..........................
127
Quadro 13 Símbolos indicativos de reciclabilidade de plásticos e aplicações .................
135
Quadro 14 Principais destinações dos plásticos reciclados, por tipo de plástico .............
136
Quadro 15 Comparação de custos para a indústria entre polímeros virgens e reciclados
136
Quadro 16 Informações sobre a cadeia de comercialização dos recicláveis de Porto
Alegre .............................................................................................................
156
Quadro 17 Observações da pesquisa nas Unidades de Triagem de Porto Alegre ............
172
Quadro 18 Alternativas de inserção da reciclagem nos mercados de carbono .................
175
Quadro 19 Exemplo de Aplicação da Metodologia Carbono Social nas Unidades de
Triagem de Porto Alegre ................................................................................
177
Quadro 5
LISTA DE TABELAS
Tabela 1
Variações nas concentrações e forçamento radiativo de GEE entre 1998 e
2005 ..................................................................................................................
36
Concentrações e incrementos 2010 – 2011 dos principais gases de efeito
estufa .................................................................................................................
36
Tabela 3
Estimativas de fluxos de carbono .....................................................................
39
Tabela 4
Variações esperadas na temperatura média global em 2090-2099 em relação
a 1980-1999 ......................................................................................................
44
Termos utilizados pelo IPCC para descrever as incertezas do entendimento
atual sobre as consequências do aquecimento global .......................................
46
Resumo dos volumes e valores transacionados nos mercados de carbono em
2010 e 2011 .......................................................................................................
60
Tabela 7
Reciclagem versus incineração por tipo de material .........................................
68
Tabela 8
Estimativa de resíduos sólidos urbanos coletados no Brasil em 2008 por
composição gravimétrica ..................................................................................
72
Custos associados aos projetos no CDM ..........................................................
73
Tabela 2
Tabela 5
Tabela 6
Tabela 9
Tabela 10 Estimativa dos benefícios econômicos e ambientais gerados pela reciclagem
74
Tabela 11 Municípios com serviço de Coleta Seletiva, regiões brasileiras, por área de
abrangência em 2008 ........................................................................................
75
Tabela 12 Estimativa da participação dos programas de coleta seletiva formal no Brasil
em 2008 .............................................................................................................
76
Tabela 13 Alguns programas de padronização e certificação para mercados voluntários
de carbono e seus escopos ................................................................................
95
Tabela 14 Metodologias CDM relacioanadas ao manuseio e disposição de resíduos,
vigentes em dezembro de 2012 ......................................................................... 105
Tabela 15 Taxas de perdas de materiais na reciclagem .....................................................
114
Tabela 16 Reduções de emissões pelo uso de reciclados versus insumos virgens ............
115
Tabela 17 Reduções de emissões pela redução na fonte (não geração) e a reciclagem
comparativamente ao aterramento sem queima do biogás ............................... 117
Tabela 18 Comparação de estudos sobre as reduções de emissões pela reciclagem .........
118
Tabela 19 Energia elétrica salva pela reciclagem no Brasil ..............................................
121
Tabela 20 Desempenho do setor de celulose e papel em 2011 ..........................................
139
Tabela 21 Resumo da recuperação atual e potencial de reciclados no Brasil .................... 142
Tabela 22 Comparação entre os preços internacionais dos insumos virgens e o preço
pago aos recicladores brasileiros pelos insumos reciclados ............................. 143
Tabela 23 Reduções de emissões propiciadas pela reciclagem no Brasil, atuais e
potenciais .......................................................................................................... 143
Tabela 24 Estimativa do potencial de receitas brutas pela reciclagem brasileira ..............
145
Tabela 25 Quantitativo de RSU destinados à disposição final em Porto Alegre no ano
de 2011 ..............................................................................................................
146
Tabela 26 Composição gravimétrica típica da parcela de recicláveis encontrada na
Coleta Convencional e Seletiva de Porto Alegre .............................................. 148
Tabela 27 Situação das Unidades de Triagem de Porto Alegre em fevereiro de 2012 .....
149
Tabela 28 Resumo das quantidades e preços colhidas nas UTs e UTC de Porto Alege,
relativas a janeiro de 2012 ................................................................................ 151
Tabela 29 Comparativo da gravimetria do estudo com outras fontes ...............................
153
Tabela 30 Projeção dos volumes médios mensais de comercialização do conjunto das
UTs de Porto Alegre a partir das rendas dos recicladores ................................
155
Tabela 31 Projeção da comercialização anual das UTs de Porto Alegre, por tipo de
reciclável ...........................................................................................................
156
Tabela 32 Estimativa da reciclagem em Porto Alegre .......................................................
158
Tabela 33 Estimativas da reciclagem da Coleta Seletiva e total de Porto Alegre, por tipo
de reciclável ......................................................................................................
159
Tabela 34 Reduções de emissões propiciadas pela reciclagem em Porto Alegre, atuais e
potenciais ..........................................................................................................
160
Tabela 35 Estimativa das quantidades de projeto para os recicláveis aceitos pela
metodologia AMS-III.AJ relacionados a Coleta Seletiva de Porto Alegre ....
162
Tabela 36 Estimativa das emissões de linha de base .........................................................
163
Tabela 37 Estimativa das reduções de emissões pela Coleta Seletiva de Porto Alegre
conforme a metodologia AMS-III.AJ ...............................................................
164
Tabela 38 Estimativa do potencial de receitas brutas pela comercialização de créditos
de carbono considerada a reciclagem total de Porto Alegre .............................
165
Tabela 39 Estimativa do potencial de receitas brutas pela comercialização de créditos
de carbono da Coleta Seletiva de Porto Alegre ................................................
165
Tabela 40 Estimativas de reduções e receitas pela reciclagem brasileira e portoalegrense ........................................................................................................... 186
LISTA DE SIGLAS
AAU
Assigned Amount Units
ABAL
Associação Brasileira do Alumínio
ABEAÇO
Associação Brasileira de Embalagem de Aço
ABIPLAST
Associação Brasileira da Indústria do Plástico
ABIVIDRO
Associação Técnica Brasileira da Indústria de Vidro
ABRALATAS Associação Brasileira de Fabricantes de Latas de Alta Reciclabilidade
ABRELPE
Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais
ACB
Análise Custo-Benefício
ACV
Análise do ciclo de vida (Life Cycle Assessment – LCA)
ADM
Análise de Decisão Multicritério
AGGI
Annual Greenhouse Gas Index
AND
Autoridade Nacional Designada
AOGCM
Atmosphere-Ocean General Circulation Models
APEAL
Association of European Producers of Steel for Packaging
APL
Arranjo Produtivo Local
AR4
Assessment Report - publicado em 2007 pelo IPCC
BHKP
Bleached Hardwood Kraft Pulp
BRACELPA
Associação Brasileira de Celulose e Papel
BVRIO
Bolsa Verde do Rio de Janeiro
C&C
Instrumentos de comando e controle
CAR
Climate Action Reserve
CAWDREC
Caw Durham Regional Environment Council
CCA
California Carbon Allowance
CCC
Copenhagen Consensus Center
CDM
Clean Development Mechanism (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo)
CEMPRE
Compromisso Empresarial para a Reciclagem
CER
Certified Emission Reductions
CETESB
Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (do estado de São Paulo)
CODECA
Companhia de Desenvolvimento de Caxias do Sul
COP
Conferência das Partes
DCP
Documento de Concepção de Projeto
DECOMTEC Departamento de Competitividade e Tecnologia
DEFRA
Department for Environment, Food and Rural Affairs - UK
DMLU
Departamento de Limpeza Urbana da PMPA
DMRSU
Diagnóstico do Manejo de Resíduos Sólidos Urbanos
EAI
Environmental Assessment Institute
EB
Executive Board - Comitê Executivo do CDM
EES
Empreendimentos de Economia Solidária
EMIC
Earth System Models of Intermediate Complexity
EOD
Entidade Operacional Designada
EPIC
Environment and Plastics Industry Council
ERU
Emissions Reduction Units
OSCIP
Organização da Sociedade Civil de Interesse Público
ETE
Estação de Tratamento de Esgoto
EU
European Union (União Europeia)
EU-ETS
European Union Emissions Trading System
EUA
European Union Allowances
FAO
Food and Agriculture Organization of the United Nations
FEE
Fundação de Economia e Estatística do Rio Grande do Sul
FEVE
European Container Glass Federation
FR
Forçamento radiativo
GDL
Gás do Lixo
GEE
Gases de efeito estufa (greenhouse gases)
GESPAR
Gestão Participativa para o Desenvolvimento Local
GIRS
Gestão integrada de resíduos sólidos urbanos
GWP
Global Warming Potential (Potencial de aquecimento global)
IBGE
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
INESFA
Instituto Nacional das Empresas de Sucata de Ferro e Aço
IPCC
Intergovernmental Panel on Climate Change (Painel Intergovernamental sobre
Mudanças Climáticas)
IPEA
Instituto de Pesquisas Aplicadas
IRmP
Índice de reciclagem mecânica de plásticos pós-consumo
ISO
International Organization for Standardization
ISWA
International Solid Waste Management Association
JRC
Joint Research Centre
LCI
Análise de inventário da ACV (Life Cycle Inventory)
LCIA
Avaliação de impactos da ACV (Life Cycle Impact Assessment)
LDRS
Local de disposição de resíduos sólidos
LME
London Metal Exchenge
LOSU
Level of scientific understanding
MA
Millennium Ecosystem Assessment
MCS
Metodologia do Carbono Social
NBSK
Northern Bleached Softwood Kraft
NOAA
National Oceanic and Atmospheric Administration
NZU
New Zealand Unit
ONG
Organizações não governamentais
ONU
Organização das Nações Unidas
OECD
Organisation for Economic Co-operation and Development
OP
Orçamento Participativo
OPC
Orçamento Participativo Climático
PEAD
Polietileno de alta densidade
PEBD
Polietileno de baixa densidade
PET
Politereftalato de etileno
PoA
Programme of Activities
PLASTIVIDA Instituto Sócio-Ambiental dos Plásticos
PVC
Cloreto de polivinila
PMPA
Prefeitura Municipal de Porto Alegre
PNRS
Política Nacional de Resíduos Sólidos
POP
Poluentes orgânicos persistentes
PPP
Princípio do Poluidor Pagador
PPR
Princípio do Provedor Recebedor
PQ
Protocolo de Quioto
RGGI
Regional Greenhouse Gas Initiative
RMU
Removal Unit
RSU
Resíduos sólidos urbanos
SCM
simple climate model
SCX
Santiago Climate Exchange
SEBRAE
Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas
SNSA
Secretaria Nacional de Saneamento Ambiental
UK-ILGRA
United Kingdom – Inter-departmental Liaison Group on Risk Assessment
UM
Unidade de manufatura
UNEP
United Nations Environment Programme (Programa das Nações Unidas para o
Meio Ambiente)
UNFCCC
United Nations Framework Convention on Climate Change (ConvençãoQuadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima)
USEPA
United States Environmental Protection Agency
UT
Unidade de Triagem
VCS
Verified Carbon Standard
VCU
Voluntary Carbon Units
VER
Verified Emission Reductions
WMO
World Meteorological Organization (Organização Meteorológica Mundial)
WtE
Usinas de incineração (Waste-to-energy)
SUMÁRIO
RESUMO ...................................................................................................................................... 7
ABSTRACT .................................................................................................................................. 8
LISTA DE FIGURAS ................................................................................................................... 9
LISTA DE GRÁFICOS .............................................................................................................. 10
LISTA DE QUADROS............................................................................................................... 11
LISTA DE TABELAS ................................................................................................................ 12
LISTA DE SIGLAS .................................................................................................................... 14
1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................................... 19
1.1 Problema de Pesquisa.................................................................................................................... 21
1.2 Objetivo Geral ................................................................................................................................ 22
1.3 Objetivos Específicos ..................................................................................................................... 22
1.4 Estrutura do Trabalho .................................................................................................................... 22
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA ........................................................................................... 24
2.1 Ecossistemas, serviços ambientais e a Economia de Baixo Carbono ............................................ 24
2.2 O fenômeno do aquecimento global, suas causas, consequências e tendências ......................... 29
2.2.1 O fenômeno do aquecimento global ...................................................................................... 30
2.2.2 As tendências das mudanças climáticas ................................................................................. 42
2.2.3 As consequências das mudanças climáticas ........................................................................... 46
2.3 A inserção dos problemas ambientais e climáticos na agenda política internacional .................. 52
2.4 Mercados de Carbono ................................................................................................................... 55
2.5 A Reciclagem na Gestão Brasileira de Resíduos Sólidos Urbanos ................................................. 64
2.5.1 A GIRS no Brasil ....................................................................................................................... 69
2.5.2 A reciclagem no Brasil ............................................................................................................. 72
2.5.3 A situação socioeconômica dos recicladores no Brasil .......................................................... 77
2.6 A inserção social na formulação das políticas públicas ................................................................. 81
2.7 Metodologias para a quantificação das reduções de emissões de GEE ........................................ 88
2.7.1 A Análise de Ciclo de Vida ....................................................................................................... 88
2.7.2 Metodologias para a estimativa das pegadas de carbono ..................................................... 94
2.7.3 Reduções de emissões pela Gestão Integrada de Resíduos Sólidos....................................... 97
2.7.4 Reduções de emissões pela reciclagem ................................................................................ 101
3 METODOLOGIA .................................................................................................................. 107
3.1 Metodologia de USEPA (2006)..................................................................................................... 111
3.2 Metodologia CDM AMS-III.AJ ...................................................................................................... 118
3.3 Metodologia do Carbono Social................................................................................................... 128
4 ESTUDO DE CASO: A INSERÇÃO DA RECICLAGEM BRASILEIRA E DE PORTO
ALEGRE NOS MERCADOS DE CARBONO ........................................................................ 130
4. 1 Estimativas relacionadas à reciclagem no Brasil......................................................................... 130
4.1.1 A reciclagem das embalagens de alumínio ........................................................................... 130
4.1.2 A reciclagem das embalagens de aço ................................................................................... 132
4.1.3 A reciclagem dos plásticos .................................................................................................... 133
4.1.4 A reciclagem do papel........................................................................................................... 138
4.1.5 A reciclagem do vidro ........................................................................................................... 140
4.1.6 Dimensionamento das reduções de emissões da reciclagem brasileira .............................. 141
4.1.7 Estimativas de receitas para a reciclagem brasileira nos mercados de carbono ................. 144
4.2 Estimativas relacionadas à reciclagem em Porto Alegre ............................................................. 146
4.2.1 Estimativa das reduções de emissões pela reciclagem em Porto Alegre através de fatores de
reduções ........................................................................................................................................ 157
4.2.2 Estimativa das reduções de emissões abrangidas pela metodologia CDM .......................... 160
4.2.3 Estimativas de receitas para a reciclagem de Porto Alegre nos mercados de carbono ....... 164
4.2.4 Condicionantes sociopolíticos da inserção da Coleta Seletiva de Porto Alegre nos mercados
de carbono ..................................................................................................................................... 174
5 CONCLUSÕES ..................................................................................................................... 180
6 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS................................................................................... 191
APÊNDICE A – Formulário para a Entrevista com as Unidades de Triagem Conveniadas da
Prefeitura Municipal de Porto Alegre ....................................................................................... 210
APÊNDICE B – Formulário para a Entrevista com Intermediários Comerciais ...................... 212
1 INTRODUÇÃO
Os principais modelos historicamente adotados pelos países para o crescimento
econômico vêm dando pouca atenção aos danos sociais e ambientais decorrentes da atividade
econômica, seja em decorrência da priorização do cumprimento de planos e metas concebidos
centralizadamente ou pelo estímulo ao consumo, de modo a retroalimentar os processos
produtivos, numa dinâmica onde os crescentes descartes têm desafiado a capacidade de carga
do planeta.
A situação foi agravada a partir do advento da revolução industrial, pela introdução de
tecnologias que permitiram acréscimos significativos nos volumes de produção à custa de
poluentes processos produtivos. Como agravante, aquele momento histórico coincidiu com um
vigoroso movimento de crescimento populacional e sua concentração nas cidades, resultando
em agravamento dos problemas ambientais. Somam-se a estes fatores os aumentos de consumo
provocados pelo acesso de novos estratos das populações aos produtos industrializados, muitos
de natureza supérflua, em decorrência de aumentos na renda e no poder de compra.
Aos problemas decorrentes da quantidade crescente de geração dos resíduos somam-se
outros quando a sua destinação final não ocorre de forma adequada. A falta de aproveitamento
e tratamento dos resíduos têm contribuido para a depleção ambiental, resultando em prejuízos à
qualidade dos serviços prestados pelos ecossistemas e em perda da biodiversidade. Essas
deficiências, além de reduzir diretamente o bem-estar das populações, por problemas como as
doenças transmitidas pelos vetores presentes nos ambientes contaminados ou ao acesso à água
potável, fazem-nas sofrer pela intensificação dos fenômenos climáticos decorrentes do
aquecimento do planeta, como secas e tempestades. Isto porque a decomposição da matéria
orgânica presente nos resíduos e efluentes urbanos contribui para a concentração atmosférica
dos gases responsáveis pelo fenômeno, os gases de efeito estufa.
A Gestão Integrada de Resíduos Sólidos Urbanos (GIRS) contrapõe-se a este cenário,
pela implementação de planejamentos concebidos de forma holística e sistêmica, atuando sobre
as diversas etapas de um ciclo de gestão que inicia pelos esforços para a minimização na
geração dos resíduos, passa pela racionalização dos processos de coleta e transporte; estímulo
ao reúso, reciclagem, compostagem e recuperação energética, até atingir a destinação final dos
rejeitos, assim chamada a parcela dos resíduos que restam após os esforços de aproveitamento
econômico (BRASIL, 2010c).
Como importante elemento da GIRS, a reciclagem concilia benefícios de ordem
19
ambiental, econômica e social. Em termos ambientais, sua prática implica em benefícios
decorrentes da redução na exploração das reservas naturais de matérias-primas utilizadas nos
processos industriais, bem como na energia demandada pelos processos produtivos de materiais
recicláveis como plásticos, papéis, metais e vidro, muitas vezes obtida a partir de poluentes
fontes fósseis, emissoras de gases de efeito estufa. Sob a ótica econômica, a utilização de
materiais reciclados em substituição aos insumos virgens resulta em aumento na
competitividade mercadológica das empresas, por vantagens como a facilidade de acesso e os
menores custos dos insumos reciclados; e aos governos, pela redução nos custos de aterramento
e na ampliação da vida útil dos aterros. Em última instância, as conveniências ambientais e
econômicas do uso da reciclagem são também sociais, por beneficiarem a sociedade como um
todo, além de favorecer diretamente aos catadores/recicladores pela geração de emprego e
renda, contribuindo com a redução da pobreza, principalmente nos países em desenvolvimento,
como o Brasil.
A utilização de reciclados em substituição aos insumos virgens implica em reduções
nas emissões de gases de efeito estufa que, se devidamente quantificadas e certificadas, podem
ampliar a geração de renda dos catadores/recicladores via comercialização nos mercados de
carbono. A obtenção pela reciclagem de títulos representativos destas reduções, os créditos de
carbono, ainda é incomum. Somente em 2010 foi aprovada pela Convenção-Quadro das Nações
Unidas para a Mudança do Clima (UNFCCC – United Nations Framework Convention on
Climate Change) a primeira metodologia para a certificação de reduções de emissões pela
reciclagem, pela substituição de polímeros virgens pelos reciclados nos processos produtivos de
materiais plásticos. Trata-se da metodologia AMS-III.AJ, cuja aprovação abriu caminho para
que outros recicláveis – como metais, papéis e vidro – sejam também certificados (UNFCCC,
2012a).
Projetos para certificação ao abrigo da referida metolodogia são destinados ao
Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (CDM – Clean Development Mechanism), mercado
originário do Protocolo de Quioto. Trata-se de uma importante, porém não única alternativa de
certificação ou comercialização de reduções de emissões pela reciclagem. A inserção da
reciclagem pode ocorrer por através de outras metodologias que sejam, ou venham a ser,
aceitas pelos mercados de carbono, sejam eles de natureza regulada, a exemplo do European
Union Emissions Trading System (EU-ETS) e do americano Regional Greenhouse Gas
Initiative (RGGI), ou nos diversos mercados voluntários de créditos de carbono em
funcionamento em nível mundial.
20
As iniciativas para o aumento na renda dos recicladores são relevantes, visto que a
reciclagem no Brasil ainda ocorre em níveis insatisfatórios, com muitos recicláveis sendo
destinados a lixões e aterros, deixando de transformar-se em renda para os catadores, que ainda
convivem com condições insalubres de trabalho (BRASIL, 2011). Neste sentido, além da
geração de renda pela comercialização dos créditos de carbono, a implementação de projetos
voltados aos mercados de carbono implica em melhorias na gestão da atividade pelas entidades
congregativas destes trabalhadores, com prováveis reflexos favoráveis na rentabilidade do
negócio e na qualidade de vida dos cooperativados. Além do benefício direto aos recicladores,
a evolução da reciclagem como atividade econômica aumenta as citadas vantagens para as
empresas, governos e sociedade. Todos estes benefícios, somados a outros como a contribuição
para a redução das consequências dos distúrbios climáticos, das perdas nos serviços
ecossistêmicos e na biodiversidade, ao cabo, contribuem para o convívio humano em
sociedades mais justas e sustentáveis.
A discussão sobre as possibilidades de reduções nas emissões de gases de efeito estufa
pela reciclagem está pouco presente no seio da sociedade e nos estudos acadêmicos, tanto no
Brasil como no exterior, mas mostra-se oportuna, tanto pelo ponto de vista da mitigação das
alterações climáticas, objeto da Lei 12.187/2009, que instituiu a Política Nacional sobre
Mudança do Clima (PNMC), como para a melhoria na gestão dos resíduos urbanos brasileiros,
objeto da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a Lei 12.305/2010. O aumento da
conscientização mundial sobre os problemas decorrentes do aquecimento global estimula os
investimentos em soluções que resultem em reduções nas emissões daqueles gases, fato que
pode beneficiar a reciclagem, de encontro a uma necessidade, pois a atividade carece de
incentivos econômicos para atingir patamares satisfatórios na racionalização dos recursos
naturais escassos (BRASIL, 2009; BRASIL, 2010c).
Sensível à oportunidade, este estudo discute o acesso dos recicladores organizados em
entidades associativas aos mercados de carbono, tomando como referencial o caso brasileiro de
uma forma geral e de Porto Alegre, capital do estado do Rio Grande do Sul, como estudo de
caso. O problema que deu origem à pesquisa teve a formulação apresentada a seguir.
1.1 Problema de Pesquisa
Quais são os condicionantes para o acesso dos recicladores brasileiros, e em especial os
21
porto-alegrenses, às receitas propiciadas pela comercialização de créditos de carbono, visto
que a oportunidade é real, porém não está sendo aproveitada?
A tese a ser testada é a de que, se etapas de organização social e regulatórias forem
superadas, a reciclagem poderá beneficiar-se de receitas oriundas dos mercados de carbono.
Do problema de pesquisa e da definição da tese resultou o objetivo geral do estudo,
enunciado a seguir.
1.2 Objetivo Geral
Avaliar as condições de acesso da reciclagem brasileira, e em particular da Coleta
Seletiva de Porto Alegre, às receitas oriundas dos mercados regulados e voluntários de
carbono.
Compõem o objetivo geral os objetivos específicos a seguir relacionados.
1.3 Objetivos Específicos
1. Aquilatar o grau de importância das causas antrópicas no aquecimento global e as
repercussões das suas consequências como indutoras de políticas de mitigação, como o
estímulo à reciclagem.
2. Verificar a importância do setor de reciclagem na redução das emissões de gases de
efeito estufa.
3. Conhecer e avaliar o potencial da reciclagem brasileira e porto-alegrense para as
reduções nas emissões de gases de efeito estufa.
4. Analisar a viabilidade técnica, econômica e sociopolítica para o acesso da reciclagem
brasileira, e em especial da Coleta Seletiva de Porto Alegre, às receitas provenientes dos
mercados de carbono.
1.4 Estrutura do Trabalho
Após esta introdução, no capítulo dois são resgatados referenciais bibliográficos
necessários ao desenvolvimento da tese. O capítulo três esclarece os procedimentos
22
metodológicos adotados pela pesquisa. O capítulo quatro apresenta o desenvolvimento do
estudo de caso e, por fim, o capítulo cinco traz as conclusões do estudo.
23
2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.1 Ecossistemas, serviços ambientais e a Economia de Baixo Carbono
São chamados de ecossistemas os complexos dinâmicos formados pelas populações de
seres vivos, suas interações funcionais e relações com o ambiente não vivo. Os ecossistemas
podem ser agrupados em diversas escalas, a partir da comunhão de unidades estruturais
menores até o conjunto dos ecossistemas do planeta, chamado de biosfera. É esta complexa e
dinâmica interação entre os meios bióticos – animais, plantas, microrganismos – e abióticos –
sol, água, temperatura, vento – que permite a sobrevivência das diversas populações os seres
vivos, incluídos os humanos, na chamada biodiversidade (MA, 2003).
As condições propiciadas pelos ecossistemas que permitem a sobrevivência das espécies
constituem-se nos serviços ecossitêmicos. Abrangem serviços (i) de provisão, pela
disponibilização dos produtos ambientais, como água e alimentos; (ii) de regulação, pela
atuação dos processos ecossistêmicos na recuperação e manutenção das condições de equilíbrio
ambiental, como na regulação climática e na degradação biológica de poluições; (iii) de
suporte, como a fotossíntese; e, ainda, aos seres humanos propicia serviços (iv) culturais,
recreacionais, estéticos e espirituais, como a beleza paisagística (GROOT; WILSON;
BOUMANS, 2002; MA, 2003).
Alguns autores diferenciam serviços ecossistêmicos de serviços ambientais, atribuindo
aos primeiros
aqueles serviços que ocorrem pelas condições naturais, sem a intervenção
humana, e aos segundos atribuem uma conotação mais ampla, agregando os serviços
promovidos pelo ser humano, através do manejo ativo dos ecossistemas, a exemplo das
atividades agrosilvipastoris. Pode-se ainda diferenciar serviços e produtos ambientais.
Enquanto os primeiros são intangíveis, como o conforto térmico, os segundos são tangíveis,
como água, alimentos e a madeira para construções (MURADIAN et al., 2010; BENSUSAN,
2006).
O “manejo” dos ecossistemas pelas atividades humanas (antrópicas), ao tempo em que
gera bens e serviços visando o aumento do bem-estar da sociedade, inclusive pela produção de
produtos ambientais, muitas vezes utiliza-se de forma não sustentável dos recursos, provocando
desequilíbrios nos ecossistemas. A exploração dos recursos naturais em quantidades superiores
à capacidade de recomposição natural, combinada com a geração da poluição do ar, águas e
24
solos, resulta na redução da biodiversidade e do próprio bem-estar humano. Estes efeitos
negativos das atividades humanas que afetam terceiros não envolvidos com a sua produção são
chamados de externalidades. Normalmente estes custos sociais e ambientais não são
incorporados aos preços, permitindo que o lucro das atividades econômicas permaneça privado,
enquanto as externalidades negativas delas decorrentes fiquem dispersas, afetando a sociedade
como um todo (HALL; LIEBERMAN, 2003; DERANI, 2008).
Devido à características como a não-exclusividade – impossibilidade de impedir-se o
consumo – e a não-rivalidade – onde o consumo por uns não altera a oferta para os outros – os
recursos naturais sempre foram considerados bens livres, à disposição de todos. Na medida em
que as externalidades das atividades humanas foram fazendo-se sentir, evoluíram os métodos
de valoração econômica dos recursos naturais. Por decomposição taxonômica, estes recursos
passaram a ser valorados pelo valor de uso direto; valor de uso indireto (externalidades
positivas); valor de opção, resultante das suas características intrínsecas poderem ser
demandadas no futuro em usos diretos ou indiretos; e pelo valor de existência, cuja valoração
decorre de questões morais, culturais, éticas ou altruístas. O valor econômico dos recursos
ambientais (VERA) decorre do somatório destas parcelas de valores (PAGIOLA et al., 2002;
MOTTA, 2006).
Entre as reações à depleção ambiental decorrentes das atividades econômicas está a
institucionalização de princípios no Direito Ambiental, como o Princípio do Poluidor-Pagador,
Princípio do Provedor-Recebedor e os princípios da Prevenção e da Precaução. Segundo
Harger (2001, p.16, apud Vieira, [2010]), princípios são:
...normas positivadas ou implícitas no ordenamento jurídico, com um grau de
generalidade e abstração elevado e que, em virtude disso, não possuem hipóteses de
aplicação pré-determinadas, embora exerçam um papel de preponderância em relação
às demais regras, que não podem contrariá-los, por serem as vigas mestras do
ordenamento jurídico e representarem os valores positivados fundamentais da
sociedade.
O Princípio do Poluidor-Pagador (PPP) determina que o poluidor internalize nos seus
custos os valores decorrentes das externalidades produzidas com sua atividade. A Declaração
do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, um dos resultados da Conferência das
Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), popularizada como Rio
92, no seu princípio dezesseis recomenda às autoridades nacionais a aplicação do PPP (ONU,
1992).
Atuando de forma inversa ao PPP, o Princípio do Protetor-Recebedor ou Provedor25
Recebedor (PPR) visa recompensar os agentes econômicos que preservam a natureza, como
forma de estimular essas ações e compensar eventuais perdas financeiras decorrentes da não
maximização da utilização presente dos recursos naturais, de modo a preservá-los para as
gerações futuras. É uma forma de reconhecimento aos comportamentos ambientais que
resultam na preservação dos serviços ecossistêmicos. Tanto o PPP quanto o PPR atuam visando
a proteção do meio ambiente, porém de formas diametralmente opostas: um punindo o poluidor
e o outro recompensando o protetor (FURLAN, 2008; GODECKE et al., 2013).
Quanto aos princípios de Prevenção e da Precaução, muitos doutrinadores os tratam
como sinônimos, entendendo que a prevenção é gênero das espécies precaução e cautela, no
sentido de agir antecipadamente. Porém a literatura costuma distinguí-los, chamando de
Princípio da Prevenção a adoção de medidas antes da ocorrência de dano concreto, cujas causas
sejam bem conhecidas, a fim de evitar ou minorar seus efeitos. Já o Principio da Precaução, a
adoção de medidas antes da ocorrência de dano apenas provável. O princípio quinze da
Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, de 1992, determina que não deve
ser postergada a utilização de medidas visando a prevenção dos danos ambientais, mesmo não
se tendo absoluta certeza científica da sua ocorrência: “... quando houver ameaça de danos
graves ou irreversíveis, a ausência de certeza científica absoluta não será utilizada como razão
para o adiamento de medidas economicamente viáveis para prevenir a degradação ambiental”
(ONU, 1992; UK-ILGRA, 2002; ARAUJO e CAVALLAZZI, 2008; VIEIRA, [2010]).
A formulação de métodos de precificação e a universalização de princípios de condutas
permitem o estabelecimento de uma base científica para a formulação de políticas em prol da
conservação e uso sustentável dos ecossistemas, e da responsabilização e mitigação das
externalidades ambientais. As políticas ambientais baseiam-se em três tipos de instrumentos.
Os mais comuns são os chamados instrumentos de comando e controle (C&C), de natureza
legal e coercitiva, a exemplo de legislações estabelecendo níveis máximos admissíveis para
poluições, padrões de condutas ambientais ou proibições e restrições a produtos, atividades e
tecnologias que possam resultar em externalidades negativas. Num segundo grupo estão
instrumentos de conscientização e educação, de natureza voluntária, a exemplo do
estabelecimento de acordos, criação de redes, sistemas de informação ambiental, selos
ambientais ou marketing ambiental. Num terceiro grupo estão os instrumentos econômicos
(IE), de natureza mandatória ou voluntária, com o objetivo de moldar o comportamento dos
agentes econômicos através do disciplinamento de instrumentos de mercado, taxações ou
subsídios. São exemplos de IE as taxas e tarifas (taxas sobre efluentes, taxas sobre o usuário,
26
taxas sobre produtos), subsídios (subvenções, empréstimos subsidiados, incentivos fiscais) e
licenças de poluição comercializáveis (FURLAN, 2008; LUSTOSA et al., 2010).
Os pagamentos por serviços ambientais (PSA) são exemplos de aplicação de IE e de
utilização dos princípios PPP e PPR, onde os beneficiarios de serviços ambientais, sejam
poluidores ou não, promovem pagamentos aos provedores, com o objetivo de recuperar,
preservar ou melhorar a prestação destes serviços. As formas de compensação podem ser
pagamentos em espécie, realização de infraestruturas, disponibilização de acesso a
treinamentos, concessão de direitos de uso da terra, certificação de produtos, etc. Os recursos
podem ser resultantes de doações (voluntariado); fundos, inclusive internacionais; cobrança de
impostos e taxas pagas pelos beneficiários, entre outros. As transações podem ocorrer
diretamente entre provedores e beneficiários ou contar com a interveniência de instituições e
governos (FAO, 2007; TIRADO, 2010).
Diversos mercados podem ser criados a partir dos serviços ambientais. A literatura
sobre o tema costuma relacionar quatro deles relacionados às florestas: conservação da
biodiversidade, sequestros de carbono, preservação dos mananciais hídricos e a preservação da
beleza cênica (LANDELL-MILLS e PORRAS, 2002; PÉREZ, FERNÁNDES e SAYER,
2007).
Como as florestas absorvem o dióxido de carbono (CO2) no seu crescimento e o
mantém retido durante o ciclo de vida do vegetal, presta o serviço de sequestro de carbono.
Cada tonelada (t) de CO2 retida pode ser representada por um certificado negociável nos
chamados mercados de carbono, espalhados por todo o mundo. Logo, trata-se de um exemplo
de PSA de alcance mundial. No Brasil estes certificados são popularmente chamados de
créditos de carbono. Em tese, todas as atividades que reduzem emissões de GEE podem obter
créditos de carbono.
Com relação aos serviços ambientais relacionados às reduções nas concentrações de
GEE tem-se que, no início deste capítulo os ecossistemas foram definidos como a interação
complexa e dinâmica entre os meios bióticos e abióticos. Ocorre que a energia solar tem papel
preponderante no equilíbrio – e desequilíbrio – dos fatores abióticos. Pequenas alterações na
temperatura da superfície terrestre e dos oceanos influenciam sobremaneira as massas de ar,
que por sua vez influenciam a direção e intensidade dos ventos, regimes de chuvas, correntes
marinhas, fenômenos meteorológicos como furacões e ciclones, etc. As alterações abióticas
mexem na dinâmica dos ecossistemas, provocando alterações na biodiversidade e nas
condições de bem-estar do ser humano. Nas últimas décadas vem ganhando força a tese de que
27
o planeta está aquecendo por conta da emissão de GEE pelas atividades humanas,
principalmente pela queima de combustíveis fósseis e pela derrubada de florestas. Defende-se
que, ao persistir este processo de aquecimento, a biodiversidade e a humanidade seriam
seriamente atingidas: aumento da desertificação, elevação no nível dos mares, aumento na
amplitude dos fenômenos climáticos, etc. Diante da premissa do aquecimento global por causas
antrópicas, todas as ações que impliquem em não emissão, redução e sequestro de carbono
passam a ser necessárias. Os mercados de carbono, assim como a Economia de Baixo Carbono,
surgiram como formas de mitigação do aquecimento global.
A Economia de Baixo Carbono pode ser entendida como o conjunto de atividades que
visam reduzir os níveis de emissões de GEE para a atmosfera. Incluem formas mais eficientes
de uso dos combustíveis fósseis, como a tecnologia de veículo híbrido, tecnologias de bloqueio
ou aprisionamento do CO2 e o suporte financeiro para o financiamento de atividades
economicas que resultem em reduções de emissões (LEVY, 2010).
O conceito de Economia de Baixo Carbono é abrangido pelo escopo da economia
verde. Segundo UNEP (2011, p.2), economia verde é aquela que:
... resulta na melhoria do bem-estar humano e da equidade social, ao tempo em que
reduz significantemente os riscos ambientais e a escassez ecológica. Em expressão
mais simples, a Economia Verde é de baixo carbono, usa os recursos de forma
eficiente e é socialmente inclusiva. Em uma economia verde o crescimento na renda e
no emprego deve ser buscado por meio de investimentos públicos e privados que
reduzam as emissões de carbono e a poluição, melhorem a eficiência energética e
previnam a perda de biodiversidade e dos serviços ecossistêmicos...(tradução nossa).
A relevância da Economia de Baixo Carbono está condicionada aos GEE antrópicos
estarem efetivamente provocando mudanças climáticas relevantes. A questão das emissões
somente será significativa se a Terra estiver aquecendo e se as emissões antrópicas de GEE
forem as responsáveis pelo aquecimento. Se os estudos que buscam a compreensão dos
sistemas climáticos do planeta avançarem na convicção de que há aquecimento e as causas são
antrópicas, com o progressivo aumento das externalidades negativas do fenômeno, pode-se
esperar que os países adotem, de forma crescente, medidas de mitigação e adaptação ao
problema, como o estímulo à reciclagem de resíduos sólidos. Em vista disto, a próxima seção
investiga o fenômeno do aquecimento global, suas causas, consequências e tendências.
28
2.2 O fenômeno do aquecimento global, suas causas, consequências e tendências
Não há consenso na comunidade científica sobre a natureza das causas do aquecimento
global, tampouco se de fato este aquecimento está ocorrendo. O mainstream dos cientistas
defende que a temperatura do planeta está subindo e a principal causa para este fenômeno está
no aumento das concentrações de GEE na atmosfera. Dizem que estes aumentos decorrem das
atividades humanas, baseadas na queima de combustíveis fósseis, principalmente para a
geração de energia e nos transportes, além da queima e derrubada de florestas. Ainda, preveem
que as mudanças climáticas decorrentes deste aquecimento serão crescentemente mais trágicas,
a menos que os países invistam na chamada Economia do Baixo Carbono, substituindo as
fontes energéticas baseadas na queima de hidrocarbonetos e preservando as florestas, entre
outras ações.
Por outro lado existe uma parcela de cientistas que questiona a convicção vigente de
que o planeta está aquecendo (ADAM, 2005). Outros aceitam esta condição, mas questionam a
predominância antrópica das causas do aquecimento, atribuindo-o a ciclos naturais, a exemplo
de Suguio et al. (2012). São contrários às ações de mitigação, defendendo apenas as ações de
adaptação à mudança climática. Tem, ainda, aqueles que concordam em tudo com o
mainstream, mas defendem que os recursos financeiros para a conversão ao baixo carbono, por
serem demasiadamente altos, seriam melhor aproveitados em ações sobre problemas mais
prementes, como a redução da pobreza, o acesso à água potável e ao combate às epidemias,
como a Aids e Malária. É exemplo deste posicionamento o dinamarquês Copenhagen
Consensus Center (CCC, 2012).
A disposição política para as ações – leia-se pesados investimentos – em prol da
Economia de Baixo Carbono estão intimamente relacionadas ao desfecho deste embate. Muitos
interesses econômicos estão envolvidos, tanto de um lado como de outro, de modo que a
literatura sobre o tema é prolixa em argumentos, muitas vezes com pouca base científica
(HOFFMAN, 2011). O tema é propício para estas discussões, visto que o sistema climático é
extremamente complexo e dinâmico, tornando virtualmente impossível as medições em escala
global ou a simulação de todas as variáveis em modelos computacionais. Os resultados
encontrados pelas pesquisas são necessariamente baseados em probabilidades.
Com base na literatura, num primeiro momento esta seção avalia a questão do
aquecimento do planeta e a contribuição dos GEE no fenômeno, para, num segundo momento,
verificar suas consequências.
29
2.2.1 O fenômeno do aquecimento global
A partir da constatação do aumento na concentração de GEE na atmosfera terrestre e a
preocupação com os problemas que poderiam advir da elevação antrópica da temperatura do
planeta, em 1988 o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (UNEP – United
Nations Environment Programme) – associou-se com a Organização Meteorológica Mundial –
(WMO – World Meteorological Organization) para a criação do Painel Intergovernamental
sobre Mudanças Climáticas (IPCC – Intergovernmental Panel on Climate Change), com a
finalidade de avaliar e divulgar informações científicas, técnicas e socioeconômicas relevantes
para o entendimento das mudanças climáticas decorrentes deste aquecimento.
Na Rio 92 foi assinado o tratado internacional de criação da UNFCCC, com o objetivo
de estabilizar a concentração de GEE na atmosfera. A UNFCCC passou a apoiar-se nas
pesquisas patrocinadas pelo IPCC para a obtenção de informações técnicas capazes de
instrumentalizar os encontros entre os países, chamados Conferência das Partes (COP), com
vistas à definição de limites de emissões. O principal resultado alcançado foi o Protocolo de
Quioto, assinado em 1997 na COP-3, pelo qual os países signatários comprometeram-se a, até o
final de 2012, reduzir suas emissões aos níveis de 1990 (ONU, 1997).
Apesar das limitações impostas pela complexidade do sistema climático e as múltiplas
interações que determinam seu comportamento, a evolução da simulação e análise dos
processos físicos têm promovido avanços na interpretação do passado climático e na
capacidade de projetar mudanças futuras. Desde a sua criação, o IPCC produziu quatro grandes
publicações atualizando estas avaliações – 1990, 1995, 2001 e 2007 – e está preparando um
quinto informativo, para publicação em 2014. Os cientistas climáticos estão divididos em três
grupos de trabalho: o primeiro (WGI) investiga as bases científicas; o segundo (WGII), os
impactos, adaptação e vulnerabilidade; e o terceiro (WGIII), a mitigação das mudanças
climáticas (IPCC, 2012).
O clima terrestre é resultado da energia proveniente do Sol e da capacidade da
superfície e atmosfera terrestres em absorver, emitir e refletir esta energia. Entre os fatores que
influenciam o clima estão a concentração de GEE, partículas de origem vulcânica, aerossóis,
albedos de superfície, além das condições da camada de ozônio e concentração de nuvens.
Estes fatores produzem forçamentos radiativos no sistema climático.
Segundo Solomon et al. (2007, p.21):
30
Forçamento radiativo é uma medida da influência que possui um fator para modificar
o equilíbrio da energia que entra e sai no sistema atmosférico da Terra e representa um
índice da importância de cada fator como mecanismo potencial de mudança climática.
O forçamento positivo tende a aquecer a superfície, enquanto o forçamento negativo
tende a esfriá-la. ... os valores dos forçamentos radiativos correspondem às mudanças
relacionadas com a situação industrial em 1750 e são expressos em Watts por metro
quadrado (Wm-2). A menos que se indique o contrário, referem-se a um valor médio
mundial e anual (tradução nossa).
Enquanto alguns GEE possuem origem natural e antropogênica, outros são resultado
exclusivo da atividade humana. O forçamento radiativo de cada GEE durante um período de
tempo é determinado pela sua concentração atmosférica durante o tempo considerado –
resultado líquido das emissões e eliminações – e sua efetividade em modificar o equilíbrio
radiativo. A taxa de eliminação varia em função do nível de concentração e das propriedades
atmosféricas, como a temperatura e condicionantes químicas existentes. O dióxido de carbono
(CO2), o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O) são chamados GEE de longa vida, pois são
quimicamente mais estáveis e persistem na atmosfera durante décadas ou séculos,
influenciando o clima no longo prazo. Os gases de vida curta, como o monóxido de carbono
(CO) e o dióxido de enxofre (SO2) são mais reativos em processos oxidativos. Na estratosfera o
ozônio, importante GEE, é eliminado por reações químicas com substâncias de produção
antrópica como os clorofluorcarbonetos (CFC) (SALOMON et al., 2007).
O Gráfico 1 apresenta o forçamento radiativo (FR) médio mundial e seu intervalo de
probabilidade de 90% para o ano de 2005, para vários agentes e mecanismos.
No Gráfico 1a, as colunas à direita apresentam os valores de FR diferenciados em
processos antropogênicos e naturais, além da extensão geográfica típica do forçamento e o
nível de confiança obtido pelas pesquisas científicas (LOSU – level of scientific
understanding). Os valores de CH4, N2O e hidrocarbonetos halogenados estão apresentados de
forma associada. Outros fatores de forçamento não foram incluídos no Gráfico 1a devido ao
baixo LOSU. O ozônio, enquanto na troposfera atua como GEE, na estratosfera reflete os raios
solares, atuando como redutor do FR. O uso da terra em atividades antrópicas resulta em
aumento do albedo, atuando como componente de resfriamento. Em efeito contrário, a perda da
cor branca na neve resulta em aumento do aquecimento. Nos aerossóis foram considerados os
efeitos diretos – sulfatos (SO4) e carbonos orgânicos – e o albedo das nuvens. Os aerossóis
naturais resultantes das erupções vulcânicas, resfriadores, não foram incluídos no Gráfico 1a
devido ao seu caráter esporádico. Não foram incluídos outros efeitos derivados da aviação
sobre a atmosfera além das fumaças de aviões (estelas lineales). O somatório dos efeitos –
31
antropogênicos e naturais, de resfriamento e aquecimento – resultou em 1,6 W m-2 para o ano
de 2005. Observa-se que é pequena a relevância do aquecimento decorrente do aumento nos
níveis de irradiação solar quando comparada com a ação dos GEE. O Gráfico 1b demonstra as
distribuições de probabilidades considerando-se as margens de erro de cada forçante, sendo que
os aerossóis, pelo baixo LOSU, ampliam significativamente a amplitude da distribuição
(FORSTER et al., 2007; SALOMON et al., 2007).
Gráfico 1 – Forçamento Radiativo médio anual (a) e distribuição de probabilidades (b) em 2005
Fonte: Forster et al., 2007, apud Salomon et al., 2007, p.33.
32
A relação do FR com as alterações climáticas não é simples. No caso dos GEE, além da
evolução das concentrações ao longo do tempo, também a distribuição espacial e o tempo de
vida de cada gás precisa ser considerada nas análises. A determinação do potencial de
aquecimento global (GWP – Global Warming Potential) – é uma forma de relacionar o FR de
cada GEE com o seu tempo de permanência na atmosfera, permitindo o estabelecimento de
uma relação relativa entre eles. Para esta relação foi atribuído ao GWP do CO2 o valor um (1)
e, a partir deste parâmetro, relacionados os GWP dos demais GEE. O valor do GWP de cada
gás varia acompanhando o seu ciclo de vida: por exemplo, o GWP do CH4 para 100 anos é 25.
Se o tempo considerado fosse 20 anos ou 500 anos, os resultados seriam de 72 e 7,6,
respectivamente (GOLDEMBERG, 1998; FORSTER et al., 2007).
A partir destas relações é possível o cálculo da concentração atmosférica do conjunto
dos GEE – em partes por milhão (ppm) ou partes por bilhão (ppb) – em termos da concentração
equivalente de CO2 e, por conseguinte, o FR do conjunto destes gases. Enquanto a quarta
publicação do IPCC, de 2007, utiliza preferencialmente o conceito de forçamento radiativo, o
relatório Stern Review (2006) – baseado na terceira publicação do IPCC, de 2001, e em
publicações posteriores – utiliza principalmente o conceito de CO2 equivalente – CO2e.
Segundo Stern et al. (2006) o aquecimento combinado dos seis gases contemplados pelo
Protocolo de Quioto – CO2, CH4, N2O, hidrofluorcarbonos (HFC), perfluorcarbonos (PFC) e
hexafluoreto de enxofre (SF6) – estava em 430 ppm de CO2e, com crescimento de 2,6 ppm ao
ano. Esta medida contemplava medições dos efeitos radiativos no momento da medição, sem
considerar os tempos de vida dos gases na atmosfera.
Porém, as informações pontuais sobre a situação dos forçantes climáticos num dado
momento e a importância relativa dos GEE de longa vida – entre os forçantes – para provocar
alterações no sistema climático, não são suficientes. Delas podem resultar questionamentos
sobre a importância absoluta dos GEE nas alterações climáticas, ponderados os seus níveis de
concentração atmosférica. O Gráfico 2 é particularmente sugestivo como resposta para esta
questão. Nele são apresentadas as concentrações atmosféricas dos três principais GEE,
relacionando-as aos níveis de temperatura e extensão das camadas de gelo na Terra nos últimos
650 mil anos.
As concentrações atmosféricas de CO2 (vermelho), CH4 (azul), e N2O (verde), assim
como o deutério (δD, preto) foram obtidas a partir da análise de testemunhos de gelo coletados
na Antártica e em medições atmosféricas recentes. O deutério é utilizado como proxy da
temperatura local. As variações nos níveis bentônicos de 18O (cinza) são proxy da extensão
33
das geleiras: quanto menor o nível de 18O, maior a extensão das geleiras. As barras verticais
sombreadas indicam os últimos períodos interglaciais. Observa-se que o período interglacial
atual não é incomum no contexto dos últimos 650 mil anos. As estrelinhas verde, azul e
vermelha indicam as concentrações dos respectivos GEE no ano 2000 (JANSEN et al., 2007).
Gráfico 2 – Dados de testemunhos de gelo glaciais e interglaciais dos 650 mil anos
anteriores a 2005
Fonte: Jansen et al., 2007, p.444
A forte influência dos GEE entre os forçantes climáticos, apresentada no Gráfico 1a,
combinada com a estreita correlação entre os períodos em que o planeta esteve mais quente
(períodos interglaciais) e os picos nos níveis de GEE, apresentada no Gráfico 2, permitem
estabelecer uma relação de causa e efeito entre o aumento na concentração de GEE e o
aquecimento global. O Gráfico 3 auxilia a análise ao relacionar o nível da concentração
atmosférica dos três principais GEE com os seus respectivos FR nos últimos 20.000 anos.
O Gráfico 3 combina a evolução nas concentrações de CO2, NH4 e N2O nos últimos 20
mil anos anteriores a 2005 com o correspondente forçamento radiativo, reconstituídos a partir
de testemunhos de gelo antártico – hemisfério sul (SH) – e da Groenlândia – hemisfério norte
(NH), neve granular e medições atmosféricas diretas. As barras cinza nos painéis (a), (b) e (c)
mostram os níveis de variabilidade naturais reconstruídos durante os últimos 650 mil anos. A
taxa de crescimento do FR é apresentada no painel (d) para os últimos 20 mil anos (linha preta)
34
e nos últimos 2 mil anos (linha vermelha). A idade foi calculada com dados que variam desde
aproximadamente 20 anos para sítios com grande acumulação de neve até aproximadamente
200 anos para locais com pouca acumulação. A flecha mostra qual seria o pico da taxa de
crescimento do forçamento radiativo correspondente às variabilidades naturais dos três gases
citados. O Gráfico 3 evidencia grande crescimento, num passado recente, tanto na concentração
como no forçamento radiativo dos três principais GEE.
Gráfico 3 – A evolução recente na concentração atmosférica de GEE e sua relação com o
forçamento radiativo
Fonte: Jansen et al., 2007, apud Solomon, 2007, p.25
Ainda relacionando as variações de concentrações com o forçamento radiativo, a
Tabela 1 explicita que “passado recente” é este, ao comparar os níveis de concentrações
existentes no período pré-industrial – ano de 1750 como referência – com o ano de 2005 e
ainda o crescimento recente, de 1998 a 2005.
35
Tabela 1 – Variações nas concentrações e forçamento radiativo de GEE entre 1998 e 2005
Forçamento radiativo1
Concentrações e suas variações1
Níveis pré2005
Variação
2005
Variação
Gases de
-2
industriais
desde
1998
(W
m
)
desde
1998
efeito estufa
CO2
278 ppm
379 +/- 0,65 ppm
+ 13 ppm
1,66
+ 13 (%)
CH4
715 ppb
1774 +/- 1,80 ppb
+ 11 ppb
0,48
N2O
270 ppb
319 +/- 0,12 ppb
+ 5 ppb
0,16
+ 11 (%)
Fonte: Forster et al., 2007, p. 141
Nota: (1) nível de confiança de 90%
Enquanto Forster et al. (2007) estudaram a evolução da concentração atmosférica dos
principais GEE dos níveis pré-industriais até 2005, os relatórios da WMO trazem esta
comparação até o ano de 2011. O oitavo boletim anual WMO Global Atmosphere Watch
(GAW)1, de novembro de 2011, trouxe os dados apresentados na Tabela 2, mostrando
agravamento nas concentrações em relação à Forster et al. (2007). Além das concentrações dos
três principais GEE em 2011, a Tabela 2 apresenta o percentual de incremento destas
concentrações em relação à era pré-industrial e seus incrementos absolutos e relativos entre
2010 e 2011, além da média anual dos incrementos no período de 2001 a 2011.
Tabela 2 – Concentrações e incrementos dos principais gases de efeito estufa após o ano de 1750
CO2 (ppm)
CH4 (ppb)
N20 (ppb)
Abundância global em 2011(1)
390,9 +/- 0,1 1813 +/- 2 324,2 +/- 0,1
Abundância em 2010 relativamente ao ano de 1750(2)
140%
259%
120%
Incremento absoluto 2010-2011
2
5
1
Incremento relativo 2010-2011
0,51%
0,28%
0,31%
Média anual de incremento absoluto entre 2001 e 2011
2
3,2
0,78
Fonte: WMO (2012b)
Notas: (1) Nível de confiança de 95%. (2) Para o ano de 1750 foram assumidas as concentrações de
280 ppm para o CO2, 700 ppb para o CH4 e 270 ppb para o N2O.
Segundo a OECD (2011), as concentrações acumuladas destes três gases, mais os
outros três que compõem o rol de gases controlados pelo Protocolo de Quioto – HFC, PFC e
SF6 – em 2008 atingiram 428 ppm de CO2e.
A abundância de GHG na atmosfera vem sendo acompanhada de forma abrangente pela
americana National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) desde 1979, através de
uma rede global de monitoramento2. Em 2004 a NOAA passou a divulgar a evolução conjunta
1
2
A rede do programa GAW é componente do Global Climate Observing System (GCOS), abrangendo parcerias
com 80 países para a coleta de dados sobre as mudanças naturais e antrópicas na atmosfera, coletados e
distribuídos pela agência meteorológica Japonesa (WMO, 2012a; 2012b)
As amostras de ar são coletadas através da rede de amostragem NOAA Earth System Research Laboratory
(ESRL), com amostras de cerca de 80 sites mundiais de ar limpo, incluindo medições através de postos
terrestres, rotas de navios e por aviões NOAA (2012).
36
das concentrações dos cinco principais GEE – CO2, CH4, N20, diclorodifluorcarbono (CFC-12)
e o triclorofluormetano (CFC-11) – e outros 15 gases minoritários, na maioria halogenados,
através de um único índice, o Annual Greenhouse Gas Index (AGGI). A partir do referencial
AGGI = 1 para as concentrações em 1990, o índice atingiu 1,30 em 2011, conforme demonstra
o Gráfico 4.
Gráfico 4 – Evolução no forçamento radiativo comparativamente ao ano de 1750 (linha de base)
Fonte: NOAA (2012, p.5)
No Gráfico 4 a evolução do FR dos gases que compõem o AGGI é apresentada
diferenciada em 6 agrupamentos, cujo somatório das concentrações acusa um aumento de 30%
no período de apenas 21 anos. O FR desses gases, que em 1979 era da ordem de 1,7 W m-2,
alcançou em 2011 em torno de 2,8 W m-2, sendo que a contribuição dos cinco maiores gases de
longa vida: CO2, NH4, N20, CFC-11 e CFC-12, contribuíram com mais de 96% do incremento
do FR após 1750. Devido ao maior espectro de gases desta análise e por abranger dados mais
recentes, comparativamente à OCDE (2012), as concentrações atmosféricas dos GEE
acompanhados pelo AGGI atingiram 473 ppm CO2e em 2011 (NOAA, 2012; WMO, 2012b).
Além de medir a concentração e dimensionar o FR, a ciência tem procurado
acompanhar par-a-passo, as emissões anuais mundiais de GEE. Enquanto no ano 2000 estas
emissões estavam estimadas em 42 GtCO2e (STERN et al., 2006), segundo UNEP (2012), por
37
estimativas baseadas em modelagem, em 2010 teriam atingido 49 GtCO2e ou, considerada a
margem de erro, entre 48 e 50 GtCO2e. A partir dos inventários os resultados mostraram-se
maiores, mas com maior dispersão: 50,1 GtCO2e (com um nível de confiança de 95% e uma
margem de erro entre 45,6 e 54,6 GtCO2e). O Gráfico 5 apresenta as principais contribuições
setoriais para estas emissões.
Gráfico 5 – Emissões globais de gases de efeito estufa em 2010 por setor
Fonte: JRC/EDGAR, 20123, apud UNEP, 2012, p.11.
Notas: * Geração energética e refinarias; ** inclui emissões não energéticas; *** inclui as emissões de
esgotos e efluentes
O Gráfico 5 mostra cerca de 35% das emissões de GEE controlados pelo Protocolo de
Quioto como relacionadas à energia; 18% decorrentes da atividade industrial; 13% pelos
transportes; 11% pela agricultura; 11% em função da decomposição e queima de vegetais e
turfas; 8% pelo setor da construção civil; e os restantes 4% pelo setor de resíduos sólidos e
líquidos. É preciso considerar que uma melhor GIRS, pela otimização da reciclagem,
compostagem e recuperação energética, além de reduzir as emissões do setor, atua
indiretamente para as reduções dos demais setores: indústrias, energia e transportes. Também
3
O banco de dados Emission Database for Global Atmospheric Research (EDGAR) calcula as emissões dos
gases abrangidos pelo Protocolo de Kyoto, por país e por setor (JRC, 2012).
38
com base no JRC/EDGAR, UNEP (2012) estima a participação relativa em 2010 dos seis gases
acompanhados pelo Protocolo de Quioto (PQ): CO2 (76%), CH4 (16%), N2O (6%) e os F-Gases
– PFC, HFC e SF6 (2%).
Especificamente em relação ao dióxido de carbono, parte das emissões é absorvida
pelos vegetais e oceanos. A Tabela 3 dimensiona estes fluxos. Porém, como esta capacidade de
absorção é limitada, na medida em que ocorram aumentos persistentes nas emissões de CO2
fóssil, o hiato entre as emissões e os fluxos líquidos oceano-atmosfera e terra-atmosfera tende a
aumentar.
Tabela 3 – Estimativas de fluxos de carbono, em GtCO2 ano-1
Anos 1980
Anos 1990
Período 2000-2005
12,1 +/- 0,4
1 1,7 +/- 0,4
15,0 +/- 0,4
Aumento atmosférico
19,8 +/- 1,1
23,5 +/- 1,5
26,4 +/- 1,1
Emissões de CO2 fóssil
6,6
+/2,9
8,1
+/1,5
- 8,1 +/- 1,8
Fluxo líquido oceano-atmosfera
- 1,1 +/- 3,3
- 3,7 +/- 2,2
- 3,3 +/- 2,2
Floxo líquido terra-atmosfera
Fonte: Solomon et al., 2007, p. 26, adaptada pelo Autor
Notas: valores positivos correspondem a fluxos positivos, valores negativos a fluxos negativos
(sumidouros); as emissões de 2004 e 2005 se baseiam em cálculos aproximados; devido a falta de
estudos disponíveis para o fluxo líquido terra-atmosfera, os níveis de certeza são de 65%; as emissões
de CO2 fóssil incluem as derivadas da produção, distribuição e consumo de combustíveis fósseis e a
produção de cimento.
A emissão de CO2 informada na Tabela 3 para o período 2000 – 2005 (26,4 +/- 1,1
GtCO2 ano-1) está coerente com a publicada por Stern et al. (2006), relacionada com o uso da
energia. Seu crescimento segue significativo, pois segundo OECD (2011), no ano de 2010 as
emissões do setor de energia atingiram a marca de 30,6 GtCO2, apesar dos efeitos da crise
econômica mundial ainda fazerem-se sentir naquele ano.
Paralelamente à análise dos aumentos de FR relacionados às emissões/concentrações de
GEE na atmosfera está o acompanhamento das variações na temperatura da Terra, apresentadas
no Gráfico 6.
O Gráfico 6, na parte superior, mostra as médias anuais das medições da temperatura
mundial sinalizados por pontos negros. A linha irregular azul é formada pelas variações destas
temperaturas na média móvel decenal. A faixa sombreada mostra o nível de confiança de 95%
para a média móvel decenal. As retas coloridas mostram as tendências de comportamento das
variações de temperaturas, considerados os períodos de 25, 50, 100 e 150 anos. A escala da
esquerda mostra a diferença das temperaturas em relação à variação ocorrida entre os anos de
1961 e 1990 e a escala da direita a temperatura média global observada, ambas em ºC. O
aumento total da temperatura do período de 1859 a 1899 até o período de 2001 a 2005 foi de
39
0,76ºC +/- 0,19ºc. O mapa-múndi da esquerda (Gráfico 6 inferior) mostra a variação da
temperatura na superfície e o da direita, as variações de temperatura na troposfera – 10 km de
altitude – medidas por satélites. É mostrado o incremento médio da temperatura por decênio,
entre 1979 e 2005. As áreas em cinza indicam dados incompletos. No território brasileiro, na
média decenal entre 1979 e 2005, as temperaturas teriam subido entre 0,15 e 0,35ºC
(TRENBERTH et al., 2007).
Gráfico 6 – Medições e tendências da temperatura mundial após 1860
Fonte: Trenberth et al., 2007, p.253
Mas, será que estes aumentos de temperatura não decorreram de fatores naturais como
o aumento na radiação solar? Utilizando modelos gerais de circulação atmosfera-oceanos –
40
Atmosphere-Ocean General Circulation Models (AOGCM) – em simulações com os forçantes
naturais e antropogênicos (a) e apenas naturais (b), em comparação com as anomalias das
temperaturas superficiais médias verificadas no planeta (ºC), foram obtidos os resultados
apresentados no gráfico 7.
Gráfico 7 – Simulações de forçantes naturais e antropogênicos relativos ao século XX
Fonte: Hegerl et al., 2007, p.684
No Gráfico 7 as anomalias de temperatura (escala da esquerda) guardam relação com a
média das anomalias relativas ao período de 1901 a 1950, formando a linha preta mostrada em
(a) e (b). A linha vermelha (a) é resultado da média de 58 simulações produzidas por quatorze
modelos com forçantes naturais e antropogênicos, mostrados na cor laranja. As linhas cinza na
vertical indicam os momentos das maiores atividades vulcânicas do século XX. A linha azul
em (b) mostra a média de 19 simulações produzidas por cinco modelos considerando apenas
forçantes naturais, mostradas em azul mais claro. O Gráfico 7 evidencia a importância dos
forçantes antropogênicos frente aos naturais.
41
Este estudo questiona o futuro do movimento na direção da Economia de Baixo
Carbono e supõe que esta questão estará indiretamente respondida mediante a avaliação da
importância dos GEE antropogênicos para as mudanças climáticas. As informações
apresentadas neste tópico mostram fortes indícios de que o planeta está aquecendo e com
relevante influência dos GEE. Mas, para que a análise cresça em consistência é necessária a
verificação da tendência do comportamento do clima nas próximas décadas e a amplitude
econômica, social e ambiental dessas consequências. Estes são os temas abordados nos dois
próximos tópicos: o primeiro verifica as tendências climáticas da Terra e a segundo, as
possíveis consequências de um forte aquecimento global.
2.2.2 As tendências das mudanças climáticas
Do terceiro relatório do IPCC – 2001 – para o quarto – Assessment Report (AR4), de
2007 – ocorreram avanços importantes na ciência das projeções das mudanças climáticas. O
programa World Climate Research Programme (WCRP) coordenou ampla ação global para
fornecer uma perspectiva multi-modelo das mudanças climáticas, chamada de Coupled Model
Intercomparison Project phase three (CMIP3) ou, mais comumente, de multi-model data set
(MMD). Apesar de concordar com estes avanços, Meehl et al. (2007) constataram que
diferentes métodos mostram consistências em alguns aspectos dos seus resultados, mas diferem
significativamente em outros, em função da natureza e do uso das restrições observacionais; da
natureza e design dos modelos utilizados; e das incertezas presentes nos parâmetros de entrada
dos modelos. Ao tempo em que informam que ainda não há a definição de um método
recomendado como de uso preferencial, destacam a importância das informações sobre os
pressupostos, limitações e a sensibilidade dos modelos acompanharem as publicações dos
resultados.
Os modelos utilizados apresentam três níveis de complexidade: os chamados modelos
climáticos simples – simple climate model (SCM) – foram utilizados no AR4 para emular as
projeções das futuras alterações climáticas realizadas por modelos mais complexos, permitindo
a investigação das diversas implicações das variações de temperatura e do nível do mar em
diversos cenários de emissões de GEE; de complexidade intermediária, os Earth System
Models of Intermediate Complexity (EMIC) incluem dinâmicas relacionadas com as circulações
atmosféricas e oceânicas, além de ciclos biogeoquímicos, porém possuem baixa resolução
espacial; por fim, os já referidos modelos AOGCM representam o estado-da-arte nas projeções
42
climáticas (RANDALL et al., 2007).
No AR4 as projeções das elevações de temperatura para o século XXI foram realizadas
com base em seis cenários considerados pelos pesquisadores como plausíveis, todos
desconsiderando políticas mitigatórias nas emissões de GEE. O Gráfico 8 contempla estes
cenários, cujas projeções foram construídas com a utilização de SCM combinados com 19
AOGCM, a partir da projeção de diferentes concentrações de GEE.
Gráfico 8 – Cenários de concentrações de GEE até 2100 sem mitigação
Fonte: Meehl et al., 2007, p. 803
43
O Gráfico 8 apresenta em seis cenários – A1B, A1F1,A1T, A2, B1 e B2 – as emissões
de CO2 fóssil em gigatoneladas por ano e de CH4 e dióxido de enxofre (SO2) em teragramas
por ano4; as concentrações de CO2, CH4 e N2O; o acréscimo de forçamento radiativo; e as
variações na temperatura média global por fatores antrópicos e naturais. Até o ano de 2000 são
mostrados dados ocorridos (linha preta). Após são apresentadas as projeções até o ano 2100
com suas respectivas faixas de incerteza, sendo que a variação na média global de temperatura
(global mean temperature) é calculada com base na média do período 1980-2000. A Tabela 4
mostra os valores esperados por estes cenários para a média global de temperatura no período
2090-2099 em relação ao período 1980-1999.
Tabela 4 – Variações esperadas na temperatura média global em 2090-2099 em relação a 19801999, em ºC
Cenário
Melhor cálculo
Margem de Probabilidade
Se permanecerem constantes as
0,6
0,3 – 0,9
concentrações do ano 2000
Cenário B1
1,8
1,1 – 2,9
Cenário A1T
2,4
1,4 – 3,8
Cenário B2
2,4
1,4 – 3,8
Cenário A1B
2,8
1,7 – 4,4
Cenário A2
3,4
2,0 – 5,4
Cenário A1F1
4,0
2,4 – 6,4
Fonte: Solomon et al., 2007, p. 72
Os cenários da Tabela 4 e Gráfico 8 apresentam projeções de valores médios globais,
porém os aumentos de temperatura projetados variam significativamente em função da região
geográfica, conforme demostra o Gráfico 9.
As linhas de traço contínuo à esquerda do Gráfico 9 mostram em preto o aquecimento
médio verificado até o ano 2000 em relação ao período de 1980 a 1999. A partir do ano 2000 as
linhas coloridas apresentam as variações médias de temperatura projetadas pelos cenários B1,
A1B e A2, além desta variação para o caso das concentrações de GEE permanecerem nos
níveis do ano 2000 (linha roxa). Os outros três modelos estão contemplados nas barras verticais
do centro do gráfico, que contempla o intervalo de confiança das simulações de cada cenário,
conforme a Tabela 4. Os mapas à direita contemplam a distribuição das variações de
temperatura na superfície do Planeta para duas décadas distintas – 2020-2029 e 2090-2099 –
em três cenários: o de maior elevação no aquecimento (A2), um intermediário (A1B) e o mais
otimista (B1).
4
Enquanto as emissões de CH4 apresentadas no Gráfico 8 estão quantificadas pelo peso da molécula, as concentrações de
CO2 e SO2 estão quantificadas pela massa dos átomos de carbono e de enxofre. 1 GtC corresponde a 3,67 GtCO 2.
44
Gráfico 9 – Projeções do aquecimento de superfície nas diferentes regiões do planeta no século
XXI
Fonte: IPCC, 2007, p.46
Com base nas estimativas das concentrações, emissões anuais e crescimento do FR,
apresentadas no tópico anterior, publicações recentes procuram estimar a evolução destes
parâmetros para as próximas décadas e suas repercussões no crescimento da temperatura do
planeta. Segundo OECD (2011), sem políticas ambiciosas de mitigação, as concentrações dos
gases controlados pelo PQ deverão atingir 685 ppm de CO2e em 2050 e mais de 1000 ppm em
2100, quantidades significativamente superiores aos 450 ppm necessários para estabilizar a
temperatura num crescimento limitado a 2ºC em relação a 1750, meta assumida pelos países na
COP-16 – Cancun, 2010 – para cumprimento até 2020. As previsões são de acréscimos entre 2
– 2,8ºC até 2050 e entre 3,7 e 5,6ºC até o final deste século, comparativamente aos níveis préindustriais.
Com relação às emissões anuais de GEE, o montante de 49 GtCO2e tido por UNEP
(2012) como a melhor estimativa para o ano de 2010, ficou 14% superior ao nível de emissões
desejado, de 44 GtCO2e, para que fosse atingida a meta assumida na COP-16.
No tocante às emissões de CO2, as análises de cenário de OECD (2011) permitem
estimar que sem políticas mais ambiciosas do que as vigentes, as emissões deste gás deverão
aumentar mais de 50% até 2050, impulsionadas principalmente pelo crescimento estimado em
70% destas emissões decorrentes do uso de energia fóssil.
Enquanto algumas instituições – IPCC, OECD, UNEP – procuram projetar a situação
futura, visando evidenciar a tendência de crescimento significativo da temperatura do Planeta,
acompanhando o FR resultante do aumento também significativo das concentrações
atmosféricas de GEE, outras publicações – WMO e NOAA – limitam-se a acompanhar a
evolução histórica deste crescimento. Nestes últimos, a simples projeção de gráficos como o
45
AGGI evidencia a mesma tendência encontrada pelos primeiros.
Se a temperatura do planeta está crescendo em ritmo acelerado e as medidas
mitigadoras adotadas pelos países até o momento mostram-se insuficientes, o próximo tópico
reúne informações da literatura sobre as consequências dos acréscimos na temperatura média
do planeta.
2.2.3 As consequências das mudanças climáticas
Para a avaliação das perspectivas da Economia de Baixo Carbono, reveste-se de
fundamental importância a estimação da amplitude das principais mudanças climáticas, os
impactos regionalizados e a repercussão econômica do fenômeno. Parte integrante do AR4, o
relatório “sumário para formuladores de políticas” resume as conclusões do WGII sobre os
impactos, adaptação e vulnerabilidade relacionadas ao aquecimento global. Como estes estudos
são baseados em estimativas, seus resultados são apresentados em níveis de confiança e
probabilidades de ocorrência, seguindo a terminologia apresentada na Tabela 5.
Tabela 5 – Termos utilizados pelo IPCC para descrever as incertezas do entendimento atual sobre
as consequências do aquecimento global
Terminologia
Chance
Terminologia
Probabilidade
Muito alto (***)
9 em 10
Praticamente certo
> 99%
Alto (**)
8 em 10
Muito provável
90 a 99%
Médio (*)
5 em 10
Provável
66 a 90%
Baixo
2 em 10
Improvável
10 a 33%
Muito baixo
1 em 10
Excepcionamente improvável
< 1%
Fonte: Adger et al., 2007, p.29
O atual nível de conhecimento sobre a projeção dos impactos das mudanças climáticas
abrange as alterações relacionadas com a ocorrência de eventos climáticos extremos, alterações
nos recursos hídricos, ecossistemas, produção de alimentos, fibras e produtos florestais. Inclui
os impactos nos sistemas costeiros e áreas de baixa altitude, indústria, assentamentos humanos
e sociedade, e saúde. As projeções procuram captar as transformações resultantes da interação
dinâmica das diversas variáveis climáticas – precipitação, temperatura, concentração
atmosférica de GEE, etc. – diferenciadas por região geográfica e nos efeitos, que podem
resultar como positivos, negativos ou mistos. Sendo que a amplitude dos efeitos dependerá, em
grande parte, da capacidade de mitigação e adaptação de cada país, decorrente da disposição
política para as ações, e das limitações impostas pelas suas capacidades econômicas.
Com relação aos eventos climáticos extremos, ao longo do século XXI é muito
46
provável a ocorrência de alterações nas suas frequências, áreas de abrangência e intensidades,
conforme demonstra o Quadro 1.
Quadro 1 – Fenômenos extremos, probabilidade de ocorrência e impactos relacionados
Fenômeno
Probabilidade
Principais impactos
Dias e noites mais
Praticamente certo
Aumento da produção agrícola em regiões
quentes;
mais frias e diminuição em regiões hoje já
quentes; mais insetos; derretimento de neves;
ondas de calor
redução da energia para aquecimento e
aumento para refrigeração; mais incêndios
florestais; maior demanda de água; maior
mortalidade pelo calor e menor pelo frio;
menor qualidade de vida em regiões hoje já
muito quentes
Mais chuvas extremas
Muito provável
Danos às culturas; erosão do solo;
contaminação do abastecimento de água; a
escassez de água pode ser atenuada; aumento
do risco de mortes por desastres e doenças;
perdas de infraestrutura e propriedades,
comércio, transportes
Maior área afetada pelas
secas
Provável
Degradação da terra, queda da produção
agrosilvipastoril;
incêndios
florestais;
escassez de água e alimentos; doenças;
redução do potencial de geração hidrelétrica;
migração populacional
Intensificação de ciclones
tropicais
Provável
Queda da produção agrosilvipastoril; danos
aos recifes de corais; aumento do risco de
mortes e doenças; perdas de infra-estrutura e
propriedades
Aumento da incidência
de nível extremamente
alto do mar1
Provável
Salinização de águas; aumento do risco de
mortes; custos da proteção costeira;
migrações
populacionais;
perdas
de
infraestrutura e propriedades
Fonte: adaptado de Adger et al., 2007, p.21-22
Nota: (1) O nível extremamente alto do mar depende do nível médio do mar e dos sistemas regionais de
tempo. É definido como o 1% mais elevado dos valores horários do nível do mar observados em uma
estação para um determinado período de referência.
O Quadro 2 apresenta alguns dos principais impactos esperados para as próximas
décadas nos continentes africano, asiático e na Oceania caso não ocorram ações limitadoras
das concentrações atmosféricas de GEE. Observa-se a escassez de água como um grande
impacto do aquecimento global, potencializada pelos efeitos do crescimento populacional e das
poluições redutoras da potabilidade dos mananciais hídricos.
47
Quadro 2 – Impactos das mudanças climáticas na África, Ásia e Oceania
Região
Exemplos de impactos e chances de ocorrência - muito alta (***), alta
(**) e média (*)
África
 Até 2020 projeta-se que entre 75 e 250 milhões de pessoas sejam expostas
à maior escassez de água. Se conjugada com um aumento da demanda, a
escassez afetará os meios de subsistência (**)
 Redução da área adequada à agricultura, da duração das épocas de cultivo
e do potencial de produção. Isso acentuaria os efeitos adversos na
segurança alimentar e exacerbaria a má nutrição no continente. Em alguns
países pode haver uma redução da produção da agricultura irrigada pela
chuva de até 50% até 2020 (**)
 Redução dos recursos pesqueiros em grandes lagos por causa do aumento
das temperaturas da água, o que pode ser exacerbado pela continuação do
excesso de pesca (**)
 Próximo ao final do século XXI, a elevação projetada do nível do mar
afetará áreas costeiras com grandes populações. O custo da adaptação
poderia chegar a 5 a 10% do Produto Interno Bruto (PIB) (**)
 Aumento no derretimento das geleiras no Himalaia causando inundações e
avalanches de pedras de encostas desestabilizadas e afete os recursos
hídricos nas próximas duas a três décadas. A isso se seguirá a redução dos
fluxos dos rios à medida que as geleiras diminuam (*)
Ásia
 Diminuição na disponibilidade de água doce no centro, sul, leste e
sudeste, especialmente em grandes bacias fluviais, juntamente com o
crescimento da população e crescente demanda decorrente de melhores
padrões de vida, podendo afetar mais de um bilhão de pessoas até 2050
(**)
 Aumento nas safras em até 20% no leste e sudeste, com redução de até
30% no centro e sul até meados do século XXI. Projeta-se que o risco de
fome continue muito alto em vários países em desenvolvimento (*)
Oceania
 Redução da precipitação e aumento da evaporação gerando intensificação
dos problemas de segurança da água (**)
 Perda significativa de biodiversidade até 2020 em alguns locais
ecologicamente ricos (***)
 Riscos de elevação do nível do mar e aumentos na severidade e frequência
das tempestades e inundações costeiras até 2050 (***)
 Perdas na agricultura e silvicultura até 2030 na maior parte do sul e do
leste da Austrália e em partes do leste da Nova Zelândia. Na Nova
Zelândia projetam-se benefícios iniciais na agricultura das áreas ao oeste e
ao sul e próximo aos maiores rios (**)
 Os sistemas naturais têm pouca capacidade de adaptação (**)
Fonte: adaptado de Adger et al., 2007, p.11-16
O Quadro 3 cita impactos – positivos e negativos – das mudanças climáticas no
continente europeu e na América Latina.
48
Quadro 3 – Impactos das mudanças climáticas na Europa e América Latina
Região
Exemplos de impactos e chances de ocorrência - muito alta (***), alta
(**) e média (*)
Europa
 Quase todas as regiões devem ser afetadas negativamente por alguns
impactos futuros da mudança do clima, os quais representarão desafios
para muitos setores econômicos. Entre os impactos negativos estão a
retração das geleiras, redução da cobertura de neve e do turismo no
inverno, e extensas perdas de biodiversidade (***)
 No sul da Europa projeta-se pioras nas altas temperaturas e secas,
reduzindo a disponibilidade de água, o potencial de geração hidrelétrica, o
turismo no verão e a produtividade agrícola. (**)
 No centro e leste da Europa, projeta-se que a precipitação no verão
diminua, provocando maiores tensões relacionadas com o abastecimento
de água. (**)
 No norte projeta-se efeitos mistos: benefícios como a redução da demanda
de aquecimento, aumento das safras e aumento do crescimento florestal.
Entretanto, à medida que a mudança do clima continue, é provável que os
impactos negativos superem os benefícios (**)
América Latina
 Até meados do século, substituição gradual da floresta tropical por savana
no leste da Amazônia. A vegetação semiárida tenderá a ser substituída por
vegetação de terras áridas. Risco de perda significativa de biodiversidade
(**)
 Nas áreas mais secas, salinização e desertificação das terras agrícolas.
Diminuição da produtividade de algumas culturas importantes e da
pecuária, com consequências para a segurança alimentar. Nas zonas
temperadas projeta-se um aumento das safras de soja (**)
 Mudanças nos padrões de precipitação e desaparecimento das geleiras
podem afetar de forma significativa a disponibilidade de água para o
consumo humano, a agricultura e a geração de energia (**)
Fonte: adaptado de Adger et al., 2007, p.11-16
O Quadro 4 relaciona algumas das consequências das mudanças climáticas para a
América do Norte, regiões polares e pequenas ilhas.
Segundo OECD (2011), pesquisas recentes sugerem que os impactos das mudanças
climáticas podem ser maiores do que as estimadas pelo AR4. Cita como exemplo as pesquisas
de Oppenheimer et al. (2007) e Rahmstorf (2007) sobre maiores níveis de elevação dos mares;
a perda acelerada das camadas de gelo da Groenlândia e geleiras de montanhas que, segundo o
Programa de Avaliação de Monitoramento do Ártico - Arctic Monitoring Assessment
Programme (AMAP, 2009, apud OECD, 2011), podem elevar o nível dos mares em 0,9 a 1,6
metros. Cita, também, as pesquisas sobre as emissões extras de metano pelo descongelamento
do permafrost, decorrentes do aumento das temperaturas do polo Ártico, como a de Shaefer et
al. (2011), e as conclusões de que a sensibilidade climática é maior do que a estimada no AR4,
de modo que os aumentos de concentração de GEE poderiam elevar a temperatura mais do que
49
anteriormente previsto. O impacto do derretimento do permafrost pode ser muito significativo,
haja vista a pesquisa de Schuur e Abbott (2011) ter concluido que as terras do Ártico contêm
1,7 bilhão de tCO2e, cerca de quatro vezes o carbono emitido pelas atividades humanas nos
tempos modernos e o dobro do que a atmosfera contém atualmente.
Quadro 4 – Impactos das mudanças climáticas na América do Norte, Regiões Polares e Pequenas
Ilhas
Região
Exemplos de impactos e chances de ocorrência - muito alta (***), alta (**) e
média (*)
América do Norte  Redução da camada de neve, mais inundações no inverno e uma redução dos
fluxos no verão, exacerbando a competição por recursos hídricos já usados em
excesso (***)
 Aumento de 5 a 20% na produção agrícola nas primeiras décadas do século das
culturas irrigadas pela chuva, mas com uma variabilidade importante entre as
regiões. Riscos para as culturas que estejam próximo ao limite máximo de
calor adequado à sua espécie ou que dependam de uso intensivo de recursos
hídricos (**)
 Comunidades e habitats costeiros sofrerão pelos impactos do clima interagindo
com o desenvolvimento e a poluição. O crescimento populacional e o valor
cada vez mais alto da infraestrutura nas áreas costeiras aumentam a
vulnerabilidade pelas tempestades tropicais (***)
Regiões polares
 Reduções na espessura e extensão das geleiras e mantos de gelo e mudanças
nos ecossistemas naturais com efeitos deletérios em muitos organismos. No
Ártico, são impactos adicionais as reduções na extensão do gelo marinho e do
permafrost, o aumento da erosão costeira e um aumento da profundidade do
derretimento sazonal do permafrost (**)
 Para as comunidades humanas no Ártico projeta-se impactos mistos. Entre os
impactos prejudiciais estariam os que afetam a infraestrutura e as formas de
vida indígenas tradicionais (**). Entre os impactos benéficos estariam a
redução dos custos do aquecimento e mais rotas navegáveis no mar do norte
(*)
Pequenas ilhas
 Tanto nos trópicos como em latitudes mais altas, são especialmente vulneráveis
à elevação do nível do mar e dos eventos extremos (***)
 Deterioração das condições costeiras, com erosão das praias e branqueamento
dos corais, afetando os recursos locais, como os criatórios de peixes, e
reduzindo o valor desses locais para o turismo (**)
 Até meados do século, redução dos recursos hídricos em muitas ilhas
pequenas, como no Caribe e no Pacífico, até o ponto em que se tornem
insuficientes para atender a demanda durante os períodos de pouca chuva (***)
Fonte: adaptado de Adger et al., 2007, p.11-16
As pesquisas científicas sobre os efeitos do aquecimento global, resumidas no relatório
de Adger et al., 2007, permitem uma visão bastante abrangente dos possíveis impactos do
aquecimento global. Outro relatório de publicação à época, Stern et al. (2006), na sua parte II:
50
The Impacts of Climate Change on Growth and Development (Tabela 3.1, p.56 daquele
relatório), apresenta os possíveis impactos relacionados à água, alimentos, saúde, ocupação
territorial, ambiente e eventos climáticos extremos – considerando diversos níveis de
intensidade, relacionados com cada grau (ºC) de elevação na temperatura média mundial,
enriquecendo em detalhamentos algumas das informações apresentadas sucintamente nos
quadros anteriores, porém sem alterar a sua essência.
Um forte argumento utilizado pelos céticos refere-se às vantagens do crescimento dos
vegetais em atmosferas mais carregadas de CO2. Stern et al. (2006), no seu box 3.4 (p.70),
analisa os benefícios decorrentes desta maior concentração e cita a pesquisa de Long et al.
(2006), sobre a simulação da duplicação nos níveis de CO2, mantidas as demais variáveis
climáticas próximas às reais. Aquela pesquisa encontrou vantagens de apenas 8 a 15% no
crescimento para culturas que respondem diretamente ao aumento de CO2 – como trigo, arroz,
soja – e nenhum efeito significativo para as espécies não responsivas, como o sorgo e milho.
Por outro lado, Stern et al. (2006) mostra a pesquisa de Parry et al. (2004), que encontrou
significativo decréscimo na produtividade mundial de cereais pelo incremento da temperatura
mundial combinada com pequenos aumentos na concentração de carbono.
O relatório OECD (2011), ao adotar as conclusões do AR4 com relação aos impactos
do aquecimento global, destaca que os impactos mais significativos serão sentidos nos países
em desenvolvimento, em função das já difíceis condições climáticas em que se encontram; a
composição setorial de suas economias, muito dependente dos produtos primários; e sua
limitada capacidade econômica para as ações de adaptação. Aprofundando esta percepção,
Correa e Comim (2008) estudaram as relações entre as perturbações climáticas e o
desenvolvimento humano, encontrando que os choques climáticos afetam e limitam os meios
para a expansão do bem-estar das pessoas, além de limitar o exercício da escolha dos estilos de
vida por influências de decisões de outros, relacionadas às medidas de mitigação. Também, da
preocupação dos cidadãos com as incertezas sobre os impactos futuros das mudanças climáticas
nas suas vidas e de seus descendentes. Aqueles Autores observam que, como os componentes
do bem-estar humano estão inter-relacionados, o efeito da mudança climática sobre um
componente reduz a qualidade do outro, causando retrocesso no bem-estar humano como um
todo e a diminuição do desenvolvimento humano, principalmente nos países em
desenvolvimento, em função das suas localizações geográficas e das condições de
vulnerabilidade pré-existentes, como a dependência de recursos naturais e capacidade limitada
de adaptação, em face dos níveis de pobreza, baixo acesso a serviços básicos e incipiente nível
51
das instituições.
A produção do relatório Economia do Clima no Brasil, elaborado em 2010, reuniu uma
equipe interdisciplinar de diversas instituições com o objetivo de analisar, sob o ponto de vista
econômico, os impactos das mudanças climáticas e o custo das medidas de mitigação e
adaptação. O estudo apontou as regiões Nordeste e Amazônica como as mais vulneráveis, com
projeção de perdas entre R$ 719 bilhões e R$ 3,6 trilhões em 2050, caso não ocorram ações de
mitigação. Na Amazônia, estima-se que as mudanças climáticas resultariam na redução de 40%
da cobertura florestal na região, substituída pelo bioma savana. No Nordeste, a redução das
chuvas causariam perdas agrícolas em todos os estados da região, reduzindo em 25% a
bovinocultura de corte, entre outras consequências (MARCOVITCH et al. 2010) .
As preocupações internacionais com as mudanças climáticas somaram na percepção da
necessidade do desenvolvimento econômico conciliar a conservação ambiental. A próxima
seção resgata historicamente esta evolução.
2.3 A inserção dos problemas ambientais e climáticos na agenda política internacional
Embora ainda com poucos resultados práticos, a preocupação internacional com a
finitude dos recursos naturais e suas consequências para o bem-estar humano vem crescendo
nas últimas décadas. A revisão histórica desta evolução costuma trazer a publicação “Primavera
Silenciosa” (Silent Spring), editada em 1962 pela bióloga americana Rachel Carson, cujo título
faz referência à mortandade de pássaros pela contaminação com agrotóxicos, como ponto de
partida para o desenvolvimento do movimento ambientalista.
Em 1968 o artigo “A Tragédia dos Comuns”, escrito pelo também biólogo americano
Garret Hardin, chamou a atenção para as causas das externalidades ambientais. Aquele Autor
atribuiu à propriedade comum dos recursos naturais a causa dos problemas ambientais.
Afirmava que sem propriedade definida não havia quem se preocupasse com a manutenção de
bens comuns, como a camada de ozônio. Como consequência, quem se utilizava dos recursos
“comuns” não tinha incorporado nos seus custos o ônus da manutenção ou reparação dos
serviços ambientais (COSTA, 2005).
Em 1972, a publicação “Os Limites do Crescimento” (The Limits to Growth) teve
grande repercussão mundial, alertando para os limites do planeta diante das pressões do
crescimento populacional e da poluição sobre os recursos naturais e energéticos (MEADOWS
52
et al., 1973).
A visibilidade dos conflitos entre desenvolvimento e meio ambiente foi ampliada a
partir da atuação de organismos internacionais. A 15ª conferência da Organização das Nações
Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), realizada em Paris (1968) culminou
com a criação do programa Reservas Mundiais da Biosfera, visando a definição de áreas
terrestres ou costeiras onde o uso sustentável dos recursos naturais permita a conservação da
biodiversidade. Ainda no âmbito da ONU, em Estocolmo (1972) ocorreu a Conferência das
Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, que resultou na Declaração de Estocolmo –
documento com princípios voltados à preservação e melhoria do meio ambiente – e na criação
do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), agência do Sistema ONU
responsável por catalisar as ações internacionais para a proteção do meio ambiente no contexto
do desenvolvimento sustentável.
Outros marcos evolutivos da defesa ambiental foram a Convenção de Viena (1985) e o
Protocolo de Montreal (1987), que levaram os países signatários a se comprometerem com a
substituição das substâncias redutoras da “camada de ozônio” na parte superior da estratosfera.
Também em 1987 ocorreu a divulgação do relatório “Nosso Futuro Comum”, também
conhecido como “Relátorio Brundtland”, publicado pela Comissão Mundial sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento da ONU, propondo a integração da questão ambiental e do
desenvolvimento econômico através do desenvolvimento sustentável.
Como mencionado no tópico 2.2.1, em 1988 a ONU instituiu o IPCC visando obter
informações científicas sobre as mudanças climáticas decorrentes do aquecimento terrestre.
Na sequência de marcos históricos temos a Conferência das Nações Unidas para o Meio
Ambiente e o Desenvolvimento, no Rio de Janeiro (1992), conhecida como Rio92, valiosa pela
participação internacional – reuniu cerca de 180 chefes de estado – e pela produção de
documentos, como a Carta da Terra, a Agenda 21, a Declaração do Rio sobre Ambiente e
Desenvolvimento, a Declaração de Princípios sobre as Florestas, além de três convenções:
biodiversidade, desertificação e mudanças climáticas. Foi a Convenção sobre Mudanças
Climáticas da Rio92 que instituiu a UNFCCC e as COP, referidas no tópico 2.2.1, visando o
controle nas emissões internacionais de GEE.
Ao tempo em que as discussões internacionais visando à preservação do meio ambiente
seguiram avançando através das Cúpulas Mundiais sobre Desenvolvimento Sustentável,
ocorridas em Johanesburgo (2002) e no Rio de Janeiro (2012), a partir da Rio92 as discussões
relativas às mudanças climáticas passaram a ocorrer no âmbito das COP, apoiadas pela
53
UNFCCC e IPCC. Na primeira COP (COP-1), ocorrida em Berlim (1995), foi estabelecido o
“Mandato de Berlim”, que teve como foco principal o consenso de todos os países em se tomar
ações mais enérgicas quanto à mitigação do efeito estufa. Foi constituído o grupo Ad Hoc sobre
o Mandato de Berlim (AGBM) encarregado de propor ações que impedissem o agravamento do
aquecimento global provocado pela interferência humana. Surgiu então um esboço de acordo
que culminou com a definição do PQ, em 1997, na COP-3.
Pelo PQ, 37 países industrializados e a UE foram relacionados no Anexo 1 do
documento e receberam metas para redução de emissões nos seis GEE abrangidos pelo
Protocolo: CO2, CH4, N2O, HFCs, PFCs e SF6, que, conjuntamente, representavam uma
redução de 5,2% em relação aos níveis de 1990, para atingimento no período entre 2008 e
2012. O PQ entrou em vigor em 2005, quando da adesão da Rússia, atingindo 55% das
reduções contempladas pelo Protocolo.
Com relação aos resultados obtidos pelos países relacionados no Anexo I, no geral
houve mais sucessos do que fracassos, haja vista que, ao final de 2010, as emissões destes
países estavam reduzidas em 14,6% comparativamente aos níveis de 1990, com destaque para a
Rússia, entre os países de maior porte. Entre os piores resultados estavam a Nova Zelândia e o
Canadá. No entanto, as emissões no resto do mundo cresceram significativamente, com
destaque para a China, com emissões de 7.189 GtCO2e no período (ONU, 1997; UNFCCC,
2013b; 2013c).
Na COP-18 (Doha, 2012), com a participação de representantes de 193 países, foi
estabelecido um segundo período de compromisso, de 2013 a 2020, nos moldes do acordo
original, desta feita para a redução de 18% das emissões, comparativamente ao ano de 1990.
Por diferentes motivos, Canadá, Japão e Nova Zelândia optaram por não fazer prte do novo
período, juntando-se aos Estados Unidos. Compõem a lista de países que se comprometeram a
fazer parte do novo período a Austrália, Reino Unido, Noruega, Suíça, Ucrânia e os integrantes
da União Europeia. Durante a vigência do novo período serão discutidos novos compromissos,
provavelmente abrangendo um maior número de países, para vigorarem a partir de 2020
(CETESB, 2013).
Sem metas de reduções pelo PQ, o Brasil assumiu o compromisso voluntário de reduzir
entre 36,1% e 38,9% suas emissões projetadas até 2020, tendo por base o Segundo Inventário
Brasileiro de Emissões Antrópicas por Fontes e Remoções por Sumidouros de Gases de Efeito
Estufa Não-controlados pelo Protocolo de Montreal, concluído em 2010. O compromisso
integra a Política Nacional sobre a Mudança do Clima (PNMC), instituída pela Lei
54
12.187/2009. O Decreto 7.390/2010, que regulamentou a Lei, desmembrou a meta de reduções
por setores e formalizou critérios para a elaboração do Plano Nacional sobre Mudança do
Clima e suas revisões posteriores. As reduções necessárias para o atingimento do compromisso
voluntário foram estimadas em 3.236 milhões tCO2e, cabendo aos processos industriais e ao
tratamento de resíduos a parcela de 234 milhões tCO2e (BRASIL, 2009; 2010a).
O Plano Nacional sobre Mudança do Clima havia se antecipado a esta legislação, pois
fora publicado em 2008, como produto do Decreto 6.263/2007, que instituiu o Comitê
Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM), responsabilizando-o pela elaboração,
implementação, monitoramento e avaliação do Plano. Com relação à reciclagem, o Plano
propôs esforços para elevar a reciclagem a 20% até o ano de 2015 5, através do estímulo aos
programas de Coleta Seletiva (BRASIL, 2007; 2008).
As iniciativas internacionais visando o controle das emissões de GEE, dentro ou fora do
âmbito da ONU, utilizam-se primordialmente de instrumentos econômicos, operacionalizados
através dos mercados de carbono, como demonstra a seção a seguir.
2.4 Mercados de Carbono
A ameaça à sustentabilidade representada pelas poluições – aí incluídas as emissões de
GEE – podem ser vistas como resultado de falhas de mercado, decorrentes da inexistência ou
deficiência dos instrumentos de políticas para a proteção ambiental. Na origem está a questão
do direito de propriedade: o fato de ninguém ser dono dos recursos naturais resultou em
ineficiência na precificação dos recursos naturais e, em decorrência, dos instrumentos de
mercado visando a correção das externalidades negativas resultantes da ação antrópica sobre o
meio ambiente (THOMAS; CALLAN, 2010; LUSTOSA at al., 2010).
Para que ocorra a internalização das externalidades via mercado, as teorias econômicas
propõem a valoração monetária dos recursos ambientais e das suas externalidades, sejam
positivas ou negativas, de modo a atingir-se o equilíbrio entre os níveis de poluição (e
emissões) e o bem-estar social. Referenciam-se nos estudos de Pigou e Coase. Em 1920, no
livro “A Economia do Bem-estar” (The Economics of Welfare), Arthur Cecil Pigou alertava
para a necessidade da cobrança de taxas, conhecidas como “taxas pigouvinas” de modo que os
5
Esta meta foi proposta com base no “Diagnóstico Analítico da Gestão de Resíduos Sólidos no Brasil”, que
estimou em 5,44% a participação da reciclagem e compostagem sobre os resíduos coletados (OPAS, 2003,
apud BRASIL, 2008c)
55
poluidores arcassem como custos gerados à sociedade pelas externalidades das suas atividades,
obtidas por negociação entre as indústrias e a sociedade (PIGOU, 1920). Partindo desta análise,
Ronald H. Coase formulou o chamado “Teorema de Coase”, publicado em 1960 no artigo “O
Problema do Custo Social” (The Problem of Social Cost), onde demonstrou que o equilíbrio
entre os custos privados e sociais pode ocorrer sem a intervenção direta do Estado, desde que
ocorram duas condições: as partes negociem sem custos de transação e os bens e serviços
ambientais sejam abrangidos por direitos de propriedade, estabelecidos pelo Estado (COASE,
1960).
No mesmo ano da publicação da “Tragédia dos Comuns” – 1968 – J. H. Dales
publicava “Pollution, property & Prices”. Ao discutir a questão das poluições, direitos de
propriedade e preços, propunha três principais estratégias de políticas: regulação, subsídios e a
implementação de mercados para o comércio de direitos de poluição, fornecendo bases teóricas
para os atuais mercados de carbono (DALES, 1968).
A partir desta fundamentação teórica, instrumentos de mercado para a proteção
ambiental começaram a ser utilizados: a legislação federal americana de controle da poluição
do ar (Clean Act Air), em 1977, incluiu o comércio de certificados como mecanismo de
compensação para o não atingimento de limites de emissões e a sua atualização, de 1990,
introduziu o primeiro sistema de limites e comércio (cap-and-trade) como parte do programa
de controle das chuvas ácidas (US Acid Rain Program). A experiência serviu de referência para
a implementação das políticas climáticas globais, como o PQ, e para a constituição dos
mercados de carbono (VOSS, 2007).
Paralelamente às ações internacionais, o relatório OECD Environmental Outlook to
2050, divulgado no final de 2011, aponta as ações nacionais como essenciais para limitar os
riscos climáticos locais e globais, além do atingimento do objetivo de conter a elevação da
temperatura média do planeta em 2ºC, afirmando que as economias precisarão passar por
profundas transformações relacionadas aos padrões de produção de energia, consumo,
transporte e agricultura. Afirma que a transição para a Economia de Baixo Carbono,
climaticamente mais resiliente, vai depender de investimentos, e, num contexto de orçamentos
apertados, considera fundamental a busca de soluções de menor custo e o envolvimento do
setor privado para financiar a transição. Considera essencial a intervenção dos governos para
superar as barreiras e criar condições de mercado adequadas aos investimentos “verdes”
(OECD, 2011).
Aquele relatório sugere uma combinação de instrumentos políticos para o corte eficaz
56
das emissões de GEE e o enfrentamento das múltiplas falhas de mercado causadoras das
mudanças climáticas. Na ausência de uma receita única para uma bem sucedida política
climática, cita cinco elementos-chave para a combinação de políticas de menor custo: (i) as
estratégias nacionais de mudanças climáticas; (ii) os instrumentos econômicos, como
mecanismos cap-and-trade, impostos de carbono e a remoção de subsídios aos combustíveis
fósseis; (iii) instrumentos C&C; (iv) políticas de apoio à tecnologia, incluindo pesquisa e
desenvolvimento (P&D); e (v) abordagens voluntárias, campanhas de conscientização pública e
instrumentos de informação. Estas últimas, embora não substituam as políticas coercitivas de
mitigação, normalmente apresentam menor dificuldade de implantação frente aos instrumentos
obrigatórios, além de ajudarem na conscientização sobre as mudanças climáticas.
Alicerçados nos instrumentos econômicos, os mercados de carbono negociam
certificados representativos de reduções nas emissões de GEE, geralmente dos seis gases
incluidos no PQ, em unidades equivalentes ao CO2, com base no GWP. Os certificados podem
ser originários de reduções resultantes de um projeto específico (project-based transactions) ou
de permissões de emissões (allowance-based transactions) originadas por mecanismos capand-trade. Neste caso a autoridade regulatória fixa limites de emissões, permitindo às empresas
que tiveram suas emissões abaixo do limite fixado, a comercialização de licenças de poluição
(allowances) com outras empresas cujas emissões ficaram acima do limite. Os mercados de
carbono podem ser separados em duas grandes categorias: os originários de disposições
regulatórias e os mercados voluntários. Enquanto existem mercados regulados baseados em
projetos e em permissões, os mercados voluntários negociam apenas reduções originárias de
projetos (BAYON et al., 2007).
São muitos os mercados de carbono em funcionamento em nível mundial. Entre os
regulados, três foram instituídos pelo PQ como mecanismos de auxílio para o atingimento das
metas de reduções: o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (Clean Development Mechanism
– CDM); a Implementação Conjunta (Joint Implementation – JI); e o Comércio Internacional
de Emissões (International Emissions Trading – IET). Outro importante mercado é constituído
pelo European Union Emission Trading Scheme (EU ETS), criado pela UE em 2000. Os
Estados Unidos e a Austrália foram muito ativos na estruturação de mercados de carbono, a
exemplo do Regional Greenhouse Gas Iniciative (RGGI), desenvolvido por oito estados da
costa leste americana e o Califórnia Climate Action Registry (CCAR) lançado pelo estado da
Califórnia. Em 2003 o estado australiano de New South Wales lançou o NSW Greenhouse Gas
Abatement Scheme e em 2006 nove estados daquele País propuseram a National Emissions
57
Trading Scheme (NETS). Entre os diversos mercados regulados podem ser citados como
exemplo o The National Allocation Plan for Malta e o National Allocation Plan for the United
Kingdom, postos em funcionamento pelos governos de Malta e Reino Unido, respectivamente.
Em termos de mercados voluntários, o primeiro surgiu em 1989, quando a AES Corporation,
companhia americana de eletricidade, investiu em projeto agroflorestal na Guatemala. À
exceção do Chicago Climate Exchange (CCX), mercado voluntário que funcionou até 2010 e
teve destaque internacional, os mercados voluntários normalmente possuem baixa visibilidade,
por serem muitos, dispersos e as negociações ocorrerem em ambiente de balcão (over the
counter – OTC). Neles atuam diversos tipos de participantes impulsionados por diferentes
motivações, seja para a compra ou venda dos créditos de carbono, desenvolvimento de projetos
e de metodologias para padronização, verificação, certificação, etc. (LABATT; WHITE, 2007;
BAYON et al., 2007).
O CDM – artigo 12 do PQ – foi criado para auxiliar os países relacionados no Anexo B
a atingir suas metas de reduções através da aquisição de Reduções Certificadas de Emissões
(Certificated Emissions Reducions – CER) oferecidas por projetos de reduções de emissões
estabelecidos em países não relacionados naquele Anexo. A JI – instituída pelo artigo 6 –
possibilita compensações de emissões entre os países do Anexo B, via comercialização de
certificados que neste mercado são chamadas de Emissions Reduction Units (ERU). Ainda o
PQ, no artigo 17, faculta aos países do Anexo B a negociar allowances entre si, em nível
governamental e em caráter suplementar às ações domésticas, visando o atingimento das metas
acordadas. Os créditos de carbono negociados neste mercado – IET – são chamados de
Assigned Amount Units (AAU) (HASHMI, 2008; UNFCCC, 2013c).
Sempre representativos de reduções equivalentes a uma tonelada de CO2, as diferentes
denominações adotadas pelos mercados relacionados ao PQ mostram que os créditos de
carbono recebem nomes diferentes em função dos mercados onde são negociados. O EU ETS,
mercado onde os certificados são chamados de European Union Allowances (EUA), teve
origem em 1991, quando a Comissão Europeia tomou iniciativas visando limitar as emissões de
GEE e melhorar a eficiência energética. A implantação do mecanismo cap-and-trade iniciou
em 2005, de acordo com a Diretiva 2003/87/CE, visando o atingimento das metas do PQ e do
European Climate Change Program (ECCP). Na ocasião os países da UE foram obrigados a
estabelecer o regime de comércio de emissões em quatro grandes setores: energia; siderurgia;
minerais (cimento, vidro, cerâmica); e celulose e papel. O programa foi implementado em
fases: a primeira, de 2005 a 2007, e a segunda, de 2008 a 2012, acompanhando o período de
58
cumprimento do PQ. A terceira etapa, 2013 a 2020, também acompanha o PQ e abrange 11 mil
plantas de geração energética, indústrias e companhias de aviação em 31 países – 27 membros
da UE mais Islândia, Liechtenstein, Noruega e Croácia. O EU ETS foi interligado ao CDM em
2005 e ao JI em 2008: dentro de limites definidos, os EUA podem ser negociados com os CER,
ERU e em mercados de outros países, como nos Estados Unidos e Japão (WEISHAAR, 2007;
HASHMI, 2008; EU ETS, 2013).
A principal distinção entre os sistemas mandatórios e voluntários de carbono reside na
natureza da demanda para a redução de emissões de GEE. Enquanto, nos primeiros é
compulsória, nos segundos é gerada pela ação voluntária de um emissor de GEE que deseja se
apresentar perante seus stakeholders com emissões menores ou nulas. Nestes mercados,
especialmente nos Estados Unidos, os papéis representativos das reduções são chamados de
Verified Emission Reductions (VER). São chamados de Voluntary Carbon Units (VCU)
quando os projetos utilizam a padronização da VCS. Por estarem fora do âmbito da UNFCCC,
os projetos, normalmente de pequeno porte, podem não estar sujeitos a regras como de
adicionalidade e leakage (HASHMI, 2008).
O Gráfico 10 compara os mercados voluntários por região, em termos de volumes de
reduções e valores transacionados, nos anos de 2010 e 2011. Observa-se que a maioria dos
negócios envolvendo estes mercados ocorre na América do Norte e Asia. Em 2011 a
participaçao da América Latina reduziu-se em termos de volumes transacionados, igualando-a à
Africa neste aspecto. Por conta do forte mercado regulado, a participação da UE neste mercado
é bastante reduzida.
Gráfico 10 – Mercados voluntários por regiões do planeta em 2010 e 2011, em volumes (MtCO2e)
e valores (US$ milhões)
Fonte: Peters-Stanley e Hamilton, 2012, p.v
59
Muitos negócios nos mercados voluntários decorrem da aquisição de certificados pelas
empresas visando a obtenção de “selos” indicativos de situações de neutralização de emissões,
estabelecidos por diferentes critérios, em geral voltados para uso no mercado de consumo de
bens, serviços e eventos. Bom exemplo neste sentido é a Santiago Climate Exchange – SCX
(Chile) e seu selo SCX CO2 Neutral (SCX, 2013).
Os negócios com créditos de carbono ocorrem tanto nos mercados à vista como a
termo, além dos mercados de derivativos, em contratos de mercados futuros, mercados de
opções e em operações de swap. A Tabela 6 apresenta os volumes e valores transacionados nos
principais mercados de carbono nos anos de 2010 e 2011, por informações coletadas pelo
Banco Mundial.
Tabela 6 – Resumo dos volumes e valores transacionados nos mercados de carbono em 2010 e
2011
2010
2011
Volume (MtCO2e)
Valor (US$ milhões)
Volume (MtCO2e)
Valor (US$ milhões)
Mercados de allowances
EUA (EU ETS)
6.789
133.598
7.853
147.848
AAU
62
626
47
318
RMU
4
12
NZU
7
101
27
351
RGGI
210
458
120
249
CCA
4
63
Outros
94
151
26
40
Subtotal
7.162
134.935
8.081
148.881
Mercados de emissões à vista (secundários)
sCER
1.260
20.453
1.734
22.333
sERU
6
94
76
780
Outros
10
90
12
137
Subtotal
1.275
20.637
1.822
23.250
Mercados Futuros (primários) baseados em projetos
pCER pré-2013
124
1.458
91
990
pCER post-2012
100
1.217
173
1.990
pERU
41
530
28
339
Voluntários
69
414
87
569
Subtotal
334
3.620
378
3.889
Total
8.772
159.191
10.281
176.020
Fonte: Kossoy et al., 2012, p.10, tradução nossa
Notas: RMU (Removal Unit), relacionadas com reduções decorrentes do uso da terra: land use, land use
change, and forestry (LULUCF); NZU (New Zealand Unit); CCA (California Carbon Allowance).
O cruzamento dos totais das quantidades e valores transacionados permite o cálculo dos
preços médios gerais de comercialização de cada tonelada de redução, a US$ 18.15 em 2010 e
US$ 17.12 em 2011, com grande discrepância nos preços dos mercados regulados para os
60
mercados voluntários, visto que nestes últimos os valores médios de comercialização ficaram
em US$ 6.00 e 6.54 nos anos de 2010 e 2011, respectivamente. A Tabela 6 mostra, também, a
ascenção dos mercados da Nova Zelândia e do estado americano da Califórnia. As negociações
com EUA tendem a superar as transações com CER e ERU, tanto em termos de quantidades
como de valores.
As operações nos mercados de carbono foram significativamente impactadas pelas
crises econômicas mundiais ocorridas a partir de 2008 e pelas incertezas decorrentes das
negociações relativas à continuação do PQ a partir de 2013. Estes dois momentos críticos
podem ser visualizados no Gráfico 11, que mostra as variações dos preços, em euros, nos
mercados de EUA e CER, durante a segunda fase do EU ETS.
Gráfico 11 – Oscilações nos preços dos EUA e CER de 2008 a novembro de 2012
Fonte: Haita, 2013, p. 2.
O mercado EU ETS começou o segundo período de comércio (início de 2008) com
preços muito baixos, de alguns centavos por tonelada, em função do excesso de oferta de
licenças no final da primeira fase (2005-2007). Em meados de 2008 o mercado atingiu o ápice,
ao preço de cerca de € 30/t. Após esta data, o preço dos EUA experimentou uma grande queda
pela chegada da crise econômica mundial, chegando ao nível de € 8-9/EUA. A grande queda no
preço do carbono ocorreu no início de fevereiro de 2009, revelando os efeitos concretos da
crise. Posteriormente, durante cerca de dois anos, o preço estabilizou-se em torno de € 12-14 e
61
caiu para cerca de 7 € no início de 2012. Durante 2012 o preço do carbono oscilou entre € 6 e
9/t, terminando a segunda fase do sistema a um nível próximo de € 6,5/t (HAITA, 2013).
A participação brasileira somente é significativa no CDM, mesmo assim em patamar
bastante inferior ao chinês e indiano, conforme demonstra o Gráfico 12, numa posição de 28 de
fevereiro de 2013, sínteses dos 7.750 projetos que entraram na UNFCCC para validação até
aquela data.
Gráfico 12 – Participação dos países em projetos no CDM em fevereiro de 2013
Fonte: UNFCCC, 2013a
Estes projetos resultaram na emissão de 2,211 bilhões de CER até o final da primeira
fase do CDM, encerrada em dezembro de 2012. Em função da vida útil dos projetos espera-se
que o total de CER em circulação no mercado secundário, no final de 2015, atinja 4,750 bilhões
e no final de 2020, a quantidade de 7,632 bilhões de CER, numa evolução demonstrada pela
faixa em azul claro no Gráfico 13. Como a expectativa de oferta de papéis para negociação no
CDM tende a ser significativa nos próximos anos, o preço de mercado dependerá muito do
volume de demanda.
O Brasil apresenta grande potencial para crescimento no mercado de créditos de
carbono, porém apresenta entraves como a falta de linhas de crédito especiais, demora na
concessão das licenças ambientais, falta de divulgação do mecanismo de Quioto e demora da
AND brasileira na análise dos projetos (ALVIM, 2007).
O principal mercado de carbono em funcionamento no Brasil ocorre na
BM&FBOVESPA, onde são negociados tanto CER como créditos gerados por projetos no
âmbito do mercado voluntário. As operações são realizadas por meio de leilões eletrônicos,
62
mediante agendamento prévio. Aquela Bolsa de Valores mantém um Banco de Projetos, para
divulgação de projetos certificados e registros de intenções de compra. Em novembro de 2010
foram publicados estudos, disponíveis na homepage institucional da BM&FBOVESPA,
relativos ao Projeto Fortalecimento das Instituições e Infraestrutura do Mercado de Carbono no
Brasil, sobre os temas: levantamento de oportunidades de MDL no Brasil; levantamento de
barreiras e do potencial de MDL programático no Brasil; guia de atuação do setor público no
MDL e no mercado de carbono; regulamentação dos ativos ambientais no Brasil; e organização
do mercado de crédito de carbono no Brasil. Este último propõe a criação de um sistema
privado e autorregulatório, de adesão voluntária, denominado Sistema Brasileiro de Controle de
Carbono (SBCC), a partir da adoção de metas de redução de emissões do tipo cap-and-trade
(BM&FBOVESPA, 2013b).
Gráfico 13 – Expectativa de geração de CER pelos projetos da primeira fase do CDM
Fonte: UNFCCC, 2013a
Uma parceria entre a BM&FBOVESPA e o Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) criou um novo índice de mercado, o Índice Carbono Eficiente
(ICO2), composto pelas ações das companhias participantes do índice Índice Brasil 50
(IBrX50)6 que aceitaram participar da iniciativa, através da adoção de práticas transparentes
com relação às suas emissões. Os objetivos do Índice são o incentivo às empresas para atuar na
Economia de Baixo Carbono e prover o mercado de um indicador que incorpore as questões
relacionadas às mudanças climáticas (BM&FBOVESPA, 2013a).
6
O índice IBrX50 mede a rentabilidade das 50 ações de maior liquidez entre as mais negociadas na
BM&FBOVESPA.
63
Em 2011 o Governo Federal brasileiro firmou um acordo com o Banco Mundial para a
inclusão do País no Partnernship for Market Readiness, programa para apoio técnico e
financeiro a países com interesse na criação de um mercado de carbono nacional. Também o
governo do Estado do Rio de Janeiro, através do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), está
(em 2013) elaborando um sistema de comércio de reduções do tipo cap-and-trade para o setor
industrial daquele Estado, chamado Sistema de Comércio de Carbono (BVRIO, 2013).
Quanto à disposição a pagar dos empresários como compensação pelas emissões,
Goularte (2011) pesquisou o posicionamento de 90 das maiores empresas do Rio Grande do Sul
em setores com potencial poluidor – a maior parte nos segmentos de alimentos e bebidas,
metalurgia e automotivo – sobre a compensação das suas emissões via aquisição de créditos de
carbono. Os resultados apontaram 56 empresas (62%) com interesse de participar do mercado e
disposição a pagar em torno de R$ 34,00 por tCO2e, concluindo que há um mercado potencial
para a negociação de créditos de carbono naquele Estado que, segundo aquele Autor, poderia
ser explorado mediante regulamentação e difusão de informações sobre as mudanças
climáticas.
Esta seção buscou contextualizar os mercados regulados e voluntários de carbono em
nível mundial e as iniciativas para a institucionalização destes mercados no Brasil como
fundamento para a discussão sobre a inserção da reciclagem nestes mercados. Enquanto a
revisão bibliográfica até então empreendida esteve voltada para a gestão das mudanças
climáticas, as próximas seções procuram contextualizar a reciclagem na gestão de resíduos
sólidos no Brasil.
2.5 A Reciclagem na Gestão Brasileira de Resíduos Sólidos Urbanos
A legislação brasileira diferencia resíduos sólidos de rejeitos. Segundo a Lei nº 12.305,
de 2 de agosto de 2010, que instituiu a PNRS, caracteriza-se como resíduo sólido:
material, substância, objeto ou bem descartado, resultante de atividades humanas em
sociedade, a cuja destinação final se procede, se propõe proceder ou se está obrigado a
proceder, nos estados sólido ou semissólido, bem como gases contidos em recipientes
e líquidos cujas particularidades tornem inviável o seu lançamento na rede pública de
esgotos ou em corpos d’água, ou exijam para isso soluções técnica ou
economicamente inviáveis em face da melhor tecnologia disponível (BRASIL, 2010c,
Art.3º, inciso XVI).
Por sua vez, somente serão considerados como rejeitos os resíduos sólidos que “depois
64
de esgotadas todas as possibilidades de tratamento e recuperação por processos tecnológicos
disponíveis e economicamente viáveis, não apresentem outra possibilidade que não a
disposição final ambientalmente adequada” (BRASIL, 2010c, Art.3º, inciso XV).
A mesma legislação conceitua “gerenciamento de resíduos sólidos” como o “conjunto
de ações exercidas, direta ou indiretamente, nas etapas de coleta, transporte, transbordo,
tratamento e destinação final ambientalmente adequada dos resíduos sólidos e disposição final
ambientalmente adequada dos rejeitos...” (BRASIL, 2010c, Art.3º, inciso XV). Ainda, como
“gestão integrada de resíduos sólidos” (GIRS), considera-se o conjunto de ações voltadas para a
busca de soluções para os resíduos sólidos, de forma a considerar as dimensões política,
econômica, ambiental, cultural e social, com controle social e sob a premissa do
desenvolvimento sustentável.
De forma sistêmica e holística, a GIRS pode ser vista como um sistema aberto, onde os
diversos atores envolvidos, os stakeholders, interagem com aos “elementos do sistema” sob
diversos aspectos: técnicos, ambientais, econômicos, etc, conforme ilustra a Figura 1.
Figura 1 – A Gestão Integrada de Resíduos Sólidos Urbanos como sistema
Fonte: adaptado pelo Autor de Klundert e Anschiitz, 2000, p.3
65
Os elementos do sistema compõem a forma de se atuar sobre os resíduos urbanos, nas
diversas etapas do seu ciclo de vida. O “tempo”, apresentado na Figura 1, sinaliza que a
interação dos stakeholders com os elementos do sistema, nos diversos aspectos, ocorre de
forma dinâmica, variável ao longo do tempo. Estas interações podem ser planejadas em
diferentes escalas, desde a municipal até a nacional ou mesmo internacional, como no caso da
União Europeia. Por fim, a Figura 1 lembra que o gerenciamento verdadeiramente integrado
dos RSU deve interagir com outros sistemas, como de resíduos especiais, esgotos, efluentes,
drenagem pluvial, paisagismo, etc. na busca da reacionalidade e sinergia das ações nestes
diversos planejamentos (KLUNDERT; ANSCHIITZ, 2000).
O planejamento da GIRS é estruturado sob a hierarquia dos “4R” – redução, reúso,
reciclagem e recuperação energética. As legislações nacionais costumam trazer esta hierarquia
posta no corpo das leis, nos princípios disciplinadores das políticas voltadas para a prevenção e
gestão dos resíduos, a exemplo do artigo 4º da Directiva 2008/98/CE da União Europeia e do
artigo 9º da Lei 12.305/2010. Ambas estabelecem a seguinte hierarquia: não geração, redução,
reutilização, reciclagem e tratamento dos resíduos sólidos – a exemplo da valorização
energética – destinando a disposição final ambientalmente adequada apenas da parcela de
rejeitos (UNIÃO EUROPEIA, 2008; BRASIL, 2010c).
Uma vez cumpridas todas as medidas visando a não geração, através de ações como o
estímulo ao consumo consciente; a redução, com ações como a racionalização no uso de
embalagens para os produtos; e anteriormente à destinação para recuperação energética, a
exemplo da incineração, tem-se o reúso, a reciclagem e a compostagem. Estas, numa visão
abrangente, podem ser vistas como formas de minimização e de recuperação energética. O
reúso e a reciclagem, pelo reaproveitamento das matérias-primas utilizadas nos processos de
fabricação, reduzem a pressão exploratória sobre as reservas naturais. Da mesma maneira, os
compostos resultantes da compostagem substituem a demanda por fertilizantes industriais,
evitando a extração dos nutrientes utilizados na sua fabricação. Como os processos industriais
de produção dos recicláveis e fertilizantes demandam energia, a redução das suas produções
resulta em significativa economia energética, muitas vezes obtida à custa de poluentes fontes
fósseis. O que diferencia o reúso da reciclagem é o numero de utilizações: enquanto uma
garrafa pode ser envasada pela indústria inúmeras vezes, sua trituração para reciclagem dos
cacos implica em novo processo de fabricação do vasilhame. Portanto, a economia de energia
pelo reúso é maior, comparativamente à reciclagem.
Segundo Grippi (2006, p.35), a reciclagem “é o resultado de uma série de atividades
66
através das quais materiais que se tornariam lixo ou estão no lixo, são desviados, sendo
coletados, separados e processados, para serem usados como matéria-prima na manufatura de
outros bens, feitos anteriormente apenas com matéria-prima virgem”. A reciclagem pode ser:
primária, quando emprega o resíduo de um produto para a sua própria produção; secundária,
que utiliza do resíduo de um produto para a confecção de outro, distinto, como o plástico
transformado em fibra de tecido; e terciária, que recupera produtos químicos ou energia dos
resíduos. Nesse enfoque, as reciclagens primária e secundária são aquelas comumente
chamadas de reciclagem. A terciária abrange a compostagem (recupera os produtos químicos
dos restos orgânicos) e as rotas de recuperação energética, como a incineração, recuperação dos
gases de aterros, digestão anaeróbia, pirólise, entre outras (CETESB, 2006).
O aproveitamento de reciclados é uma realidade em todo o mundo. Quase todo tipo de
resíduo está sendo utilizado no processo de reciclagem – celulose, vidros, plásticos, metais,
embalagens longa vida, pneus, equipamentos eletrônicos e óleos comestíveis, entre outros. A
cadeia produtiva de produtos reciclados pode ser vista em três etapas: (i) coleta e triagem dos
resíduos, de acordo com os diferentes tipos e as diversas fontes (industrial, comercial,
hospitalar, domiciliar etc); (ii) processo de beneficiamento, através da moagem, prensagem,
lavagem e secagem; e (iii) reutilização, em diferentes segmentos produtivos, como de indústrias
de embalagem, material plástico, papel e papelão, vidro, metalurgia e construção civil
(SEBRAE, 2008).
O estímulo econômico para o desenvolvimento da reciclagem provém da aquisição pela
indústria. Somente são recuperados nas plantas de segregação, e na catação de rua, os materiais
com condições de mercado para a comercialização. Os demais, mesmo teoricamente passiveis
de reaproveitamento, são descartados pelos catadores. O estímulo à catação não é de natureza
ambiental, mas financeira. Na maioria das vezes são segregados: papéis e papelões; plásticos
(PVC, PEAD, PET, PEBD, etc.7); vidros; metais ferrosos (ferro e aço); e metais não ferrosos
(alumínio, cobre, chumbo, níquel e zinco) (NAIME, 2004; GRIPPI, 2006; MONTEIRO et al.,
2008).
A prática da reciclagem resulta em aumento na vida útil dos aterros, pela redução no
volume de resíduos aterrados; na geração de emprego e renda, justamente para a camada mais
necessitada da população; e na redução da poluição gerada pelos processos produtivos –
resíduos, efluentes e emissões – pelo aproveitamento de reciclados e da energia recuperada dos
resíduos. Por outro lado, avaliações do ponto de vista econômico e ambiental devem considerar
7
PVC: cloreto de polivinila; PEAD: polietileno de alta densidade; PET: politereftalato de etileno; e PEBD:
polietileno de baixa densidade.
67
os dispêndios energéticos e poluições decorrentes dos processos de reciclagem e recuperação
energética (IPEA, 2010). Além das vantagens mencionadas, Calderoni (2003) cita aspectos
relacionados aos custos: custos crescentes para a obtenção das matérias-primas; custos
crescentes dos aterros sanitários; custos crescentes de transporte, na medida em que aumentam
as distâncias entre os pontos de coleta e os aterros sanitários; e a redução nos custos de
produção: energia, matéria-prima e transporte. Com relação a energia, cita reduções de 71%
pela produção a partir de papel reciclado; 78,7% pelo uso do plástico reciclado; e 95%, 74% e
13% para o alumínio, aço e vidro reciclados, respectivamente.
Dijkgraaf e Vollebergh (2004 apud EAI, 2005) realizaram avaliações econômicas
comparando rotas de destinação dos RSU. Encontraram a reciclagem como preferível em
relação à incineração e disposição em aterro. Porém, segundo aqueles Autores, outros estudos
econômicos sugerem que os custos líquidos de reciclagem superam, em muito, os benefícios.
Concluiram, então, que a reciclagem não é sempre a melhor solução, tal como as hierarquias de
destinação dos RSU estabelecidas em legislações como a da UE – a mesma adotada pelo Brasil.
Contudo, advertem que é necessário cuidado ao interpretar os resultados desses estudos, uma
vez que diferem na metodologia. Consideraram que condições locais, tais como densidade
populacional, são vitais para o sucesso de um sistema de reciclagem.
A comparação entre duas rotas de destinação dos RSU, reciclagem e incineração,
mostra a reciclagem de papéis economizando de 2,4 a 7 vezes a energia obtida a partir da
combustão e a reciclagem de plásticos, de 10 a 26 vezes. Os resultados estão apresentados na
Tabela 7.
Tabela 7 – Reciclagem versus incineração por tipo de material
Material
Energia salva pela Energia recuperada
reciclagem
pela incineração
(GJ/t)
(GJ/t)
Jornais
6,33
2,62
Papel fino
15,87
2,23
Papelão
8,56
2,31
PEAD
64,27
6,30
PET
85,16
3,22
Fonte: CAWDREC, [2005?], não paginado, tradução nossa
Reciclagem
x
incineração
2,4
7,1
3,7
10,2
26,4
O Gráfico 14 também compara a recuperação energética entre as rotas tecnológicas da
reciclagem e incineração, neste caso considerando uma tonelada de RSU misturados –
recicláveis e orgânicos – e três alternativas de tratamento térmico: apenas calor, apenas
eletricidade e calor e eletricidade combinados, com base em dados de eficientes instalações
68
waste-to-energy (WtE) europeias. A conclusão foi de que a economia de energia pela
reciclagem pode superar de 1,6 a 5,4 vezes as demais alternativas.
Gráfico 14 – Reciclagem versus incineração por tonelada de RSU misturado
Fonte: CAWDREC, [2005?], não paginado, tradução nossa
Uma adequada GIRS, em todas as suas etapas, resulta em economias na redução das
emissões de GEE, tanto direta como indiretamente. Conforme pode ser observado no Gráfico 5
(página 38), os resíduos sólidos e líquidos urbanos foram responsáveis por 4% das emissões de
GEE em 2010. Trata-se de uma contribuição direta, decorrente da decomposição dos resíduos
orgânicos, com emissões de dióxido de carbono e metano. Porém uma eficiente GIRS, além de
reduzir sobremaneira estas emissões diretas, pela virtual eliminação das emissões de metano,
permite a redução das emissões apresentadas no Gráfico 5 relativas ao setor energético,
indústrias, transportes e agricultura.
A partir desta revisão bibliográfica de cunho geral, o tópico a seguir particulariza a
análise para o caso do Brasil.
2.5.1 A GIRS no Brasil
Pelo menos três pesquisas vêm procurando responder questionamentos relacionados aos
montantes e ritmo de crescimento da geração de resíduos sólidos urbanos no Brasil: os
levantamentos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE); as
informações anuais coletadas pelo Ministério das Cidades junto aos municípios, através do
Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), publicadas no relatório
69
Diagnóstico do Manejo de Resíduos Sólidos urbanos (DMRSU); e a publicação anual
Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza
Pública e Resíduos Especiais (ABRELPE). Em cumprimento à PNRS (Lei 12.305/2010), o
Ministério do Meio Ambiente (MMA) está preparando a implantação do Sistema Nacional de
Informações sobre a Gestão dos Resíduos Sólidos (SINIR), que pretende centralizar as
informações sobre os RSU no âmbito do Governo Federal, visando o acompanhamento do
cumprimento daquela legislação (BRASIL, 2013b).
Os levantamentos censitários nacionais de RSU foram realizados pelo IBGE nos anos
de 1974, 1977, 1989, 2000 e 2008. Embora relevantes para diagnósticos da gestão de resíduos
brasileira, os levantamentos não apresentaram padronização metodológica, dificultando a
construção de comparações diretas acerca da evolução na geração de RSU no Brasil. Também,
por resultarem do somatório de informações fornecidas em caráter declaratório pelas
prefeituras municipais e órgãos/empresas atuantes no segmento de saneamento básico, podem
apresentar imprecisões. A exemplo das Tabelas 90 e 93 da Pesquisa Nacional de Saneamento
Básico de 2008 (IBGE, 2010), que informam 183.488 t como a quantidade diária de resíduos
domiciliares e/ou públicos coletados e 259.547 t como a quantidade diária de resíduos
domiciliares e/ou públicos coletados e/ou recebidos, por unidade de destino final. Esta última
estatística especifica a destinação: 167.636 (64,59%) eram destinados a aterros sanitários,
40.695 (15,68%) para aterros controlados e 45.710 (17,61%) jogados em vazadouros a céu
aberto (lixões). Por causas não clarificadas, as quantidades recebidas pelos locais de deposição
superaram significativamente as quantidades coletadas.
A amostra da nona edição do DMRSU, referente ao ano de 2010, contemplou 2.070 dos
5.565 municípios brasileiros. Embora ainda sem representatividade estatística, a amplitude da
amostra (37,2%) confere boa segurança para as análises. No tocante às quantidades de resíduos
domiciliares e públicos, o estudo obteve 1.066 municípios com respostas aproveitadas, cuja
soma da população urbana correspondia a 82,9 milhões de habitantes – 52% da população
urbana do País. Neles, a quantidade anual de resíduos somou 25.767.764 t, sendo 74,9%
direcionadas para aterros sanitários, 17,7% para aterros controlados e 5,1% para lixões. O
cruzamento das informações fornecidas naquele relatório, também baseado em declarações,
demonstra a necessidade de cautela no trato científico, a exemplo da informação sobre a massa
per capita coletada, cujo indicador médio da amostra resultou em 1,40 kg diários por habitante,
bastante superior aos 0,79 kg informados pela média dos municípios da Região Sul, onde se
esperaria que este indicador estivesse pelo menos próximo à média nacional (BRASIL, 2012).
70
De caráter estimativo, porém com padronização metodológica e representatividade
estatística, as publicações anuais da ABRELPE relativas aos anos de 2009 a 2011 mostram a
evolução da geração de 53 milhões de toneladas em 2008 para 57 milhões em 2009 (7,5%),
avançando para 60,8 milhões em 2010 (6,7%) e chegando a 61,9 em 2011 (1,81%) 8, num
crescimento de cerca de 17% em apenas quatro anos, embora as taxas mostrem-se decrescentes.
Pelas referidas publicações, a geração média diária por habitante situa-se em torno de um
quilograma. (ABRELPE, 2009, 2010 e 2011). Este crescimento mostra-se bastante superior ao
crescimento populacional brasileiro, da ordem de 0,83% anuais, consideradas as estimativas do
IBGE para a população brasileira, de 192,3 milhões em julho de 2011 e 193,9 em julho de 2012
(IBGE, 2013). Porém apresenta-se compatível com a evolução do Produto Interno Bruto (PIB)
brasileiro, que evoluiu de 1.849 bilhões de dólares no final de 2007 para 2.324 bilhões no final
de 2011, mostrando um incremento de 25,69% (INDEXMUNDI, 2013). Tal crescimento é
coerente com a situação internacional, onde a geração de RSU tende a acompanhar o
crescimento dos PIBs, segundo conclusão de Sjöstöm e Östblom (2010), ao constatarem
incrementos de 29% na América do Norte, 35% nos países membros da OECD e 54% na União
Europeia–15, em pesquisa relativa ao período de 1980 a 2005.
A expressiva e crescente geração de RSU pelos brasileiros, combinada com a relevante
parcela das destinações ambientalmente inadequadas – aterros controlados e lixões – mostram a
precariedade da GIRS no País. Sob o ponto de vista ambiental as principais consequências são
as poluições do solo e da água – pelo chorume proveniente da decomposição da parcela
orgânica dos RSU – e do ar, pela emissão de GEE, também decorrentes da decomposição da
parcela orgânica, principalmente o gás metano. Uma vez afetado o ambiente natural, os
impactos são transpostos para a biodiversidade e à saúde humana, seja de forma direta, nos
danos à fauna, flora e saúde humana, ou de forma indireta, pela contribuição ao aquecimento
global, com as consequências expostas no terceiro capítulo deste estudo.
Do ponto de vista econômico representa grande desperdício, pois toda a riqueza contida
nos RSU, tanto da parcela orgânica como dos recicláveis, além de não aproveitada, implica em
ônus à sociedade, pelos custos de transporte, aterramento, controle do chorume e emissões,
estes últimos durante várias décadas após o fechamento dos aterros sanitários (GODECKE,
2010). Com relação às perdas econômicas da parcela de recicláveis contidas no lixo, Calderoni
(2003) já chamava a atenção para os “bilhões perdidos no lixo”. Em valores de 2007, IPEA
(2010) estimou as perdas pela não reciclagem na ordem de R$ 8 bilhões anuais.
8
As estimativas de RSU foram obtidas por métodos estatísticos a partir de informações coletadas junto a uma
amostra de 400 municípios, representativos de 51% da população urbana do país (ABRELPE, 2011).
71
Quanto maior a parcela de recicláveis presentes nos descartes urbanos, maiores são as
perdas econômicas decorrentes da não reciclagem. A proporção entre a parcela de materiais
orgânicos e recicláveis contida nos RSU costuma variar em função das características de cada
país ou região, com tendência à maior proporção de orgânicos naqueles de menor PIB per
capita e de recicláveis onde a população possui maior poder aquisitivo. Enquanto nos primeiros
a proporção de recicláveis varia de 20 a 50% do total em peso, nos países ricos esta proporção
fica entre 60 a 80% (ABRELPE, 2007).
A versão preliminar do Plano Nacional de Resíduos Sólidos (BRASIL, 2011)
apresentou estimativa da composição gravimétrica dos RSU coletados no Brasil em 2008,
elaborada pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (IPEA) a partir da média de
informações contidas em IBGE (2010), do DMRSU e de outros 93 estudos de caracterização
física, realizados entre 1995 e 2008. Os resultados estão apresentados na Tabela 8.
Embora se enquadrando no primeiro grupo de países na classificação de ABRELPE
(2007), a Tabela 8 mostra significativa parcela de materiais recicláveis na composição dos
resíduos sólidos brasileiros – 31,9% – correspondente a cerca de 58 mil t/dia ou 18 milhões de
t/ano.
Tabela 8 – Estimativa de resíduos sólidos urbanos coletados no Brasil em 2008 por composição
gravimétrica
Resíduos
Participação
Entre os
Quantidade
Quantidade
(%)
recicláveis
coletada
coletada (mil
(%)
(t/dia)
t/ano)1
Materiais recicláveis
31,9
58.527,40
18.436,13
Alumínio
0,6
1.079,90
340,17
1,9
Aço
2,3
4.213,70
1.327,32
7,2
Plástico total
13,5
24.847,90
7.827,09
42,3
Papel, papelão e tetrapak
13,1
23.997,40
7.559,18
41,1
Vidro
2,4
4.388,60
1.382,41
7,5
Matéria Orgânica
51,4
94.335,10
29.715,56
Outros
16,7
30.618,90
9.644,95
Total
100,0
100,0
183.481,50
57.796,67
Fonte: IPEA, 2012, p.4, com a quantidade de coleta anual projetada pelo Autor.
Notas: (1) A quantidade anual foi estimada pelo Autor considerando as informações diárias de IPEA
(2011) e 315 dias de coleta ao ano (seis coletas semanais).
2.5.2 A reciclagem no Brasil
A reciclagem é uma atividade emergente no Brasil, ocupando uma parte importante das
matérias-primas de vários segmentos industriais. As tecnologias e processos têm sido
aprimorados visando o reaproveitamento e a reciclagem dos insumos, resultando em redução
72
nos impactos ambientais e climáticos, conjugados com a melhoria no desempenho das
empresas. Sebrae (2008) observou maior evolução da indústria de reciclados comparativamente
ao conjunto das indústrias de transformação, conforme demonstra o Gráfico 15.
Gráfico 15 – Evolução real das indústrias de reciclagem e transformação (1996=100)
Fonte: Sebrae, 2008, p.15
A energia elétrica salva pela reciclagem, em dados levantados na indústria brasileira,
estão apresentados na Tabela 9.
Tabela 9 – Energia elétrica salva pela reciclagem no Brasil
Tipo de reciclável Produção a partir
Decorrente das
de material virgem
operações de
(MWh/t)
reciclagem
Alumínio
17,6
0,70
Plástico
6,74
1,44
Papel
4,98
1,47
Ferro
6,84
1,78
Vidro
4,83
4,19
Fonte: elaboração do Autor a partir de Calderoni, 2003
Energia salva
(MWh/t)
(%)
16,9
5,3
3,51
5,06
0,64
96,00
78,63
70,48
74,97
13,25
Considerando a geração de recicláveis e os consumos de energia elétrica – Tabela 9 –
como variáveis exógenas, na hipótese de aproveitamento de 100% dos recicláveis brasileiros,
Pimenteira et al. (2004) estimaram em 29,91 TWh o consumo de energia elétrica poderia ter
sido evitado em 1996. Naquela hipótese, os Autores estimaram que, durante os anos de 2000 a
2007, de 18,3 a 28,4 Mt de CO2 poderiam ter sido poupados, dependendo da matriz de energia
73
elétrica no período, de maior ou menor uso da hidroeletricidade.
Por sua vez, o Plano Decenal de Expansão de Energia 2008/2017, produzido pela
Empresa de Pesquisa Energética (EPE) estimou como de 7.700 MW o potencial da energia
elétrica que poderia ser economizada caso a reciclagem fosse plenamente praticada no Brasil.
Equivaleria à energia assegurada proporcionada por 14.000 MW em usinas hidrelétricas ou
ainda 9.600 MW em termelétricas convencionais, operando com 80% de fator de capacidade
(BRASIL, 2008b).
Considerando o mercado brasileiro de recicláveis como um todo e fatores de natureza
econômica, Calderoni (2003) estimou a economia potencial da reciclagem em R$ 5,8 bilhões
para o ano de 1996, onde R$ 1,2 bilhão eram recuperados pelo nível de reciclagem da época e a
perda pela não reciclagem era da ordem de R$ 4,6 bilhões. Estimativa mais recente foi
apresentada por IPEA (2010) ao quantificar financeiramente os benefícios sociais e econômicos
de cinco reciclaveis – aço, alumínio, papel, plástico e vidro – com vistas a estabelecer
considerações sobre uma política de pagamentos por serviços ambientais urbanos no Brasil. A
Tabela 10 resume os resultados obtidos, que culminaram com a quantificação de R$ 8 bilhões
anuais, em valores de 2007, considerando fatores ambientais e econômicos, caso a reciclagem
fosse plena. Para a reciclagem nos níveis de 2007 estimaram esses benefícios entre R$ 1,4 e R$
3,3 bilhões anuais, resultando uma perda para o país entre R$ 4,7 e 6,6 bilhões.
Tabela 10 – Estimativa dos benefícios econômicos e ambientais gerados pela reciclagem(1)
Materiais
Benefícios relacionados
Benefícios (custos)
Benefício Quantidade Benefício
ao processo produtivo
associados à GIRS
por
disponível potencial
(R$/t)
(R$/t)
Tonelada
nos
total
(R$/t)
resíduos
(R$
Benefícios
Benefícios
Coleta Disposição
coletados
mil/ano)
econômicos ambientais(2)
final
(t/ano)
Aço
127
74
(136)
23
88
1.014
89.232
Alumínio
2.715
339
2.941
166
488.206
Celulose
330
24
241
6.934 1.671.094
Plástico
1.164
56
1.107
5.263 5.826.141
Vidro
120
11
18
1.110
19.980
Total
8.094.653
Fonte: IPEA (2010)
Notas: (1) Segundo IPEA (2010), trata-se de estimativas a serem utilizadas com cautela. (2) os
benefícios econômicos aparecem de forma relativamente mais significativa do que os benefícios
ambientais, principalmente pela limitação de dados específicos para a valoração ambiental de vários
impactos ambientais.
Pode-se dizer que a reciclagem ocorre por três vias: a pré-consumo, onde os rejeitos dos
processos produtivos são reaproveitados sem terem resultado em produtos, e a reciclagem pós74
consumo, esta dividida entre o resultado da Coleta Seletiva, onde os reciclaveis são
encaminhados para entidades de catadores conveniadas pelas prefeituras municipais, e a coleta
informal, presente nas ruas das cidades e nos locais de disposição final – aterros e lixões.
As informações relativas à Coleta Seletiva no Brasil precisam ser tomadas com cautela,
como mostra a comparação entre as informações fornecidas pelo IBGE, Cempre e Abrelpe. De
acordo com a Tabela 11, IBGE (2010) levantou 994 municípios praticando Coleta Seletiva em
2008, com 411 praticando-a em toda a área urbana da sede municipal.
Tabela 11 – Municípios com serviço de Coleta Seletiva, regiões brasileiras, por
abrangência, em 2008
Total
Todo o
Toda a área Exclusivamente
Bairros
município
urbana da
alguns bairros
selecionados
sede
da área urbana
municipal
da sede
municipal
377
411
96
113
Brasil
994
1
10
5
5
Norte
21
30
24
8
18
Nordeste
90
132
171
53
48
Sudeste
408
209
191
17
35
Sul
454
5
15
3
7
Centro-Oeste
31
Fonte: adaptado de IBGE (2010), Tabela 105
área de
Outros
43
1
9
16
15
2
A pesquisa Ciclosoft (CEMPRE, 2012) apurou a existência de coleta seletiva em 766
municípios brasileiros em 2012, cerca de 14% do total. Destes, 52% estão na Região Sudeste e
34% na Região Sul, com a penetração da coleta seletiva nas regiões Nordeste, Centro-Oeste,
Norte, de 10%, 2% e 2%, respectivamente. Por sua vez, Abrelpe (2011) levantou 3.263
municípios com alguma iniciativa de Coleta Seletiva – Postos de Entrega Voluntária (PEV) ou
convênios com cooperativas de catadores – chegando a 58% dos municípios brasileiros.
Segundo Cempre (2012), o serviço alcançou 27 milhões de pessoas – 14% da
população brasileira. A pesquisa constatou que os municípios conciliam mais de um método de
promoção da Coleta Celetiva: 88% realizam a coleta de porta em porta; 53% oferecem PEV; e
72% apoiam entidades de catadores como parte integrante do processo. Em 48% dos
municípios encontrou a Coleta Seletiva sendo realizada pela própria prefeitura, em 26% dos
casos, por empresas particulares contratadas e em 65% delas as cooperativas de catadores estão
envolvidas com a coleta, total ou parcialmente.
Em resumo, entre alguma iniciativa e a Coleta Seletiva regular, porta a porta,
abrangendo toda a população urbana, existem situações intermediárias difíceis de serem
captadas pelas estatísticas. O fato é que a prática da Coleta Seletiva ainda é insatisfatória no
75
País. Contribui para esta situação o seu elevado custo: Cempre (2010) estimou o custo médio
da coleta seletiva nas grandes cidades em US$ 212.00/t (R$ 424,00 na paridade US$ 1,00 = R$
2,00), cerca de 4,5 vezes superior ao da Coleta Convencional, cujo valor médio foi de US$
47,50/t (R$ 95,00)9. Estratégias adotadas pelas prefeituras como a contratação e capacitação de
Cooperativas para a realização da Coleta Seletiva podem resultar em redução de custos para as
prefeituras e aumento na eficiência do serviço, como mostrado por Godecke et al. (2012) no
estudo de caso do município de Canoas.
Apesar dos significativos custos para as prefeituras municipais – em última análise, da
sociedade como um todo – quando sopesada a contribuição dos programas de Coleta Seletiva
em relação ao que é reciclado no país, observa-se, pelos dados apresentados na Tabela 12, que
a participação dos resíduos recuperados por estes programas é muito pequena, indicando que as
maiores contribuições estão na reciclagem pré-consumo e na coleta informal pós-consumo
(BRASIL, 2011).
Tabela 12 – Estimativa da participação dos programas de coleta seletiva formal no Brasil em 2008
Recicláveis
Quantidade de resíduos
Quantidade recuperada Participação da coleta
reciclados no país (mil
por programas oficiais
seletiva formal na
t/ano)
de Coleta Seletiva (mil
reciclagem total
t/ano)
9.817,8
72,3
0,7%
Metais
962,0 (1)
170,3
17,7%
Plástico
3.827,9
285,7
7,5%
Papel/papelão
489,0
50,9
10,4%
Vidro
Fonte: BRASIL, 2011
Nota: (1) Dado de 2007
A PNRS – Lei 12.305/2010 – busca estimular a reciclagem através de diversas
disposições inseridas no corpo da Lei, conforme demostra o Quadro 5.
O Decreto 7404/2010, que regulamentou a referida Lei, dedica o Capítulo II à Coleta
Seletiva, classificando-a como instrumento essencial para o atingimento da meta de disposição
final ambientalmente adequada dos rejeitos (Artigo 54º da Lei 12.305). Determina a priorização
das entidades associativas constituídas por pessoas físicas de baixa renda no serviço. Estabelece
que o sistema de Coleta Seletiva seja implantado pelo titular do serviço público de limpeza
urbana e manejo de RSU com, no mínimo, a separação de resíduos secos e úmidos e,
progressivamente, estendida à separação dos resíduos secos em suas parcelas específicas,
segundo metas estabelecidas nos respectivos planos (BRASIL, 2010b).
9
O custo da Coleta Seletiva em relação à convencional vem reduzindo ao longo do tempo: de dez vezes em 1994
para 4,5 vezes em 2012 (CEMPRE, 2012).
76
Quadro 5 – Disposições da Lei 12.305/2010 de incentivo à reciclagem
Dispositivo
Conteúdo
Inclui a reciclagem e o incentivo à indústria da reciclagem entre os objetivos da lei
Artigo 7º
Coloca como instrumento o estabelecimento de cooperação técnica e financeira entre
Artigo 8º
os setores público e privado para o desenvolvimento de pesquisas de novos produtos,
métodos, processos e tecnologias de gestão visando à reciclagem
Estabelece a hierarquia da gestão de resíduos sólidos, colocando a reciclagem logo
Artigo 9º
após a não geração, redução e reutilização
Artigo 15º Determina que o Plano Nacional de Resíduos Sólidos estabeleça metas para a
reciclagem
O primeiro estabelece a obrigatoriedade dos estados elaborarem seus Planos Estaduais
Artigos
de Resíduos Sólidos para terem acesso aos recursos da União, o segundo exige que os
16º e 17º
Estados estabeleçam metas e soluções integradas que incluam a reciclagem
Artigo 18º Estabelece a obrigatoriedade dos municípios eleborarem seus Planos Municipais de
Resíduos Sólidos para terem acesso aos recursos da União e prioriza o acesso a estes
recursos aos municípios que implantarem a coleta seletiva com a participação de
entidades de catadores
Artigo 19º Estabelece como conteúdo mínimo, que os Planos Municipais de Resíduos Sólidos
estabeleçam metas e programas de reciclagem
O primeiro obriga os geradores de resíduos (definidos na lei) a elaborem Planos de
Artigos
Gerenciamento de Resíduos e o segundo a estabelecerem metas de reciclagem
20º e 21º
Artigo 30º Institui a responsabilidade compartilhada pelo ciclo de vida dos produtos, abrangendo
fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes, os consumidores e os titulares
dos serviços públicos de limpeza urbana e de manejo de resíduos sólidos
Artigo 31º Determina que fabricantes, importadores, distribuidores e comerciantes invistam no
desenvolvimento de produtos que estejam aptos à reciclagem
Artigo 32º Determina que sejam utilizadas embalagens que propiciem a reciclagem
Artigo 33º Obriga a logística reversa de embalagens de agrotóxicos, pilhas e baterias, pneus,
lampadas fluorescentes e equipamentos eletroeletrônicos
Artigo 44º Estabelece que os governos, em seus âmbitos, instituam normas com o objetivo de
conceder incentivos fiscais, financeiros ou creditícios para indústrias e entidades
dedicadas à reciclagem
Fonte: elaboração do Autor a partir de Brasil, 2010c.
Não obstante os esforços governamentais para a evolução da reciclagem, a situação dos
recicladores brasileiros é insatisfatória, conforme demonstra o próximo tópico.
2.5.3 A situação socioeconômica dos recicladores no Brasil
Segundo Brasil (2006), em 2005 foram identificados 14,9 mil EES espalhados por 41%
dos municípios brasileiros, envolvendo mais de 1,25 milhões de pessoas. A forma
predominante de organização era a associação (54%), seguida de grupos informais (33%) e
cooperativas (11%). As maiores dificuldades apontadas pelas EES estavam a comercialização
(61%), a obtençao de crédito (49%) e ao apoio de assistência técnica (27%). Deste universo de
77
empreendimentos, 370 – fração de 2,5% – dedicava-se à coleta e reciclagem de resíduos
sólidos. O IBGE, na Pesquisa Nacional de Saneamento Básico 2008, obteve a informação de
70.449 catadores nas áreas urbanas brasileiras (IBGE, 2010).
Uma quantidade maior destes trabalhadores foi encontrada quando da elaboração da
versão preliminar do Plano Nacional de Resíduos Sólidos, em 2011, ocasião em que foi
realizada uma pesquisa abrangente, com levantamento, crítica e conciliação das informações
disponibilizadas nos bancos de dados de institutos de pesquisa, entidades de classe e órgãos da
administração pública, pesquisa de dados secundários, revisão bibliográfica, consultas a
especialistas do governo e da sociedade civil, além de entrevistas com atores relevantes. Alguns
dos resultados obtidos são apresentados no Quadro 6.
Quadro 6 – Dados brasileiros sobre catadores
Aspecto
Número de Catadores
Número de organizações coletivas de catadores
Catadores que participam de alguma organização coletiva
Municípios que declararam conhecimento da atuação de
catadores em unidades de destinação final de resíduos
Municípios que declararam conhecimento da atuação de
catadores nas áreas urbanas
Nível de eficiência das organizações coletivas de
recicladores
Renda média dos catadores
Faixa de instrução mais observada
Resultado
Entre 400 mil e 600 mil
Ao menos 1.100
Entre 40 e 60 mil
27%
50%
Cerca de 60% estão nos níveis mais
baixos
Entre R$ 420,00 e R$ 520,00
Entre 5ª e 8ª série
Fonte: Brasil, 2011, p.26-27
Estes trabalhadores – catadores de materiais recicláveis de lixões e usinas de reciclagem
– transitam entre as zonas de vulnerabilidade e de exclusão social. Vivenciam a precariedade
do trabalho e da renda, reduzida devido à profusão de intermediários comerciais que se
abastecem desta atividade (GONÇALVES-DIAS, 2009). Ao aprofundar a análise da condição
social dos catadores, Ipea (2010) organizaou uma “árvore” de problemas vivenciados pela
atividade, apresentada na Figura 2.
A Figura 2 permite uma ampla visão das relações entre as causas e consequências dos
problemas vivenciados pelos recicladores. O escopo deste estudo – a remuneração pelos
mercados de carbono – atua nos dois fluxos que resultam na situação de vulnerabilidade:
diretamente pela melhoria na remuneração pelos serviços ambientais (climáticos) e
indiretamente, em função da implementação dos projetos de reduções de emissões implicarem
78
em melhorias na gestão destas EES e no estímulo à formação de redes de comercialização,
resultando em aumento na barganha comercial, além de capacitar para o exercício da
governança junto ao poder público para a formulação de políticas que atuem positivamente
neste cenário.
Figura 2 – Árvore de problemas da reciclagem
Fonte: IPEA, 2010, p.33.
Não obstante, Brasil (2011) cita ações de inclusão social dos catadores por parte do
Governo brasileiro, como a criação, em 2003, do Comitê Interministerial de Inclusão dos
Catadores de Materiais Recicláveis (CIISC) e a liberação de mais de R$ 280 milhões para
ações de inclusão dos catadores no período entre os anos de 2003 e 2010. Além dos estímulos
à reciclagem previstos na Lei 12.305/2010, citados no Quadro 5, o Governo Federal vem
79
buscando a inclusão social por intermédio de diversas legislações, como as relacionadas no
Quadro 7, onde algumas alcançaram resultados concretos e outras, como o Decreto 7.404/2010,
estão ainda em implementação (BRASIL, 2010b).
Quadro 7 – Legislações do Governo Federal brasileiro para a inclusão social dos recicladores
Legislação
Objeto
Decreto
Institui a separação dos resíduos recicláveis descartados pelos órgãos e entidades
5.940/2006
da Administração Pública Federal e a sua destinação às associações e cooperativas
dos catadores de materiais recicláveis
Lei
Dispensa de licitação a contratação de cooperativas de catadores para a coleta,
11.445/2007
processamento e comercialização de RSU recicláveis ou reutilizáveis
Instrução
Dispõe sobre os critérios de sustentabilidade ambiental na aquisição de bens e na
Normativa
contratação de serviços ou obras pela Administração Pública Federal
MPOG 1/2010
Lei
12.375/2010
Decreto
7.404/2010
Decreto
7.405/2010
Estabelece incentivos fiscais às indústrias pela aquisição de recicláveis em
substituição a insumos virgens utilizados em processos produtivos (Art. 5º e 6º)
Regulamenta os acordos setoriais para a implantação de sistemas de logística
reversa, priorizando a participação de entidades de catadores; coloca os
Pagamentos por Serviços Ambientais entre os instrumentos econômicos da PNRS
Institui o Programa Pró-Catador, com a finalidade de integrar e articular as ações
do Governo Federal voltadas ao apoio e ao fomento à organização produtiva dos
catadores
Fonte: adaptado de Brasil, 2011, p.27
Na esfera estadual merece menção a Lei 19.823/2011, pela qual o Estado de Minas
Gerais instituiu mecanismo de incentivo financeiro às entidades congregativas de catadores,
através da Bolsa Reciclagem. De acordo com esta legislação as remunerações aos catadores
são pecuniárias, com periodicidade trimestral, onde pelo menos 90% dos valores repassados às
entidades deverão ser distribuidos entre os associados. A origem dos recursos será por repasses
do orçamento do Estado. O escopo desta Lei foi “a reintrodução de materiais recicláveis em
processos produtivos, com vistas à redução da utilização de recursos naturais e insumos
energéticos, com inclusão social de catadores de materiais recicláveis” (MINAS GERAIS,
2011, Artigo 2º).
Como as iniciativas de políticas públicas brasileiras para a reversão da situação social
dos catadores ainda são insuficientes para significativa reversão dos problemas sintetizados na
Figura 2, a próxima seção visa resgatar na literatura formas de atuação para a evolução deste
cenário.
80
2.6 A inserção social na formulação das políticas públicas
Segundo Gelinski e Seibel (2008, p. 238), “as políticas públicas são ações
governamentais dirigidas a resolver determinadas necessidades publicas” e resultam de uma
complexa interação entre as instituições governamentais e as arenas sociais (policy netwoks)
(SANTOS, [2009]).
As instituições ocupam um papel central no desenvolvimento das sociedades modernas,
ao desempenharem funções necessárias para o equilíbrio e coesão sociais. Na medida em que
as sociedades tornam-se mais complexas, aumentam as interações entre as instituições, onde as
organizações, verticalizadas, interagem com as outras horizontalmente, formando redes. Este
aspecto está presente na formulação de políticas públicas, através das consultas e negociações
sociais empreendidas previamente às suas implementações. Além das relações institucionais, as
arenas sociais congregam relações informais, vínculos e trocas que se estabelecem entre
entidades, grupos de especialistas e indivíduos, baseadas na confiança, com uma estrutura
horizontal de competências e densidade comunicativa entre seus membros (SANTOS, [2009]).
A existência de múltiplos níveis de concepção e efetivação de políticas públicas muitas
vezes implica em barreiras, ao invés de estímulos, para o alcance dos resultados efetivos ou na
democratização dos benefícios destes resultados. Seguidamente tal fato decorre de situações
como a dificuldade dos atores entenderem e desempenharem seu papel no processo; falta de
integração entre as diversas hierarquias e competências envolvidas na mudança; baixa
compreensão dos pressupostos da política; além da não visualização, pelo setor privado, da
consistência e segurança jurídica das ações propostas. A concertação social para a superação
destas barreiras não depende apenas de aparato legal ou da atribuição de competências, mas do
diálogo contínuo entre as esferas do poder público e instituições representativas da sociedade
(ROSSETTO et al., 2009).
Por outro lado, estimulados em reverter frustrações da população com a baixa eficácia
da gestão pública ou pela crença em diferentes teorias econômicas, os governos procuram se
reinventar: reduzir, privatizar, delegar, descentralizar e desregulamentar se tornaram palavras
de ordem, assim como a deliberada submissão a testes de desempenho. Ainda, ao invés da
dependência exclusiva dos governos para a solução de problemas, grupos sociais politicamente
independentes estão tomando a iniciativa para a implementação das políticas públicas, muitas
vezes em complexas parcerias com os governos. Neste cenário, as noções tradicionais de
responsabilidades públicas e privadas estão sendo transformadas e as concepções tradicionais
81
da atuação da administração pública, em grande parte, estão se tornando obsoletas
(SALAMON, 2000).
Salamon (2000) entende que esta evolução abriga-se no conceito de nova governança
(new governance), que abriga a ampla gama de ferramentas utilizadas para a gestão pública e o
acionamento de um diversificado conjunto de atores sociais e instituições. Neste processo as
técnicas simples de gestão usadas no passado deixam de serem suficientes, aumentando a
nececidade de habilidades e capacitações para a concertação das interdependências resultantes
do processo de mudança. A nova governança, ao invés de simplificar as tarefas de gestão de
políticas, acresce dificuldades a ela, pois se trata de um processo em evolução, onde a plena
exploração das oportunidades resultantes da nova governança demanda um maior
conhecimento das inovações trazidas pelas novas ferramentas da ação pública.
Confrontada com a administração tradicional, a nova governança se diferencia pela
mudança de paradigmas como os apresentados no Quadro 8.
Quadro 8 – A nova governança confrontada com a administração pública tradicional
Administração Pública Clássica
Nova Governança
Foco no programa/agência
Foco na ferramenta/instrumento
Hierarquia
Rede
Público versus privado
Público & privado
Comando e controle
Negociação e persuasão
Habilidades gerenciais
Capacitações
Fonte: Adaptado de Salamon, 2000, p. 1624
O Quadro 8 evidencia as diferenças entre a forma tradicional da construção de políticas
públicas e a percepção mais moderna, que dá a sociedade um real protagonismo na construção
das políticas públicas. Ponto importante na construção de Salamon (2000) é a mudança de foco:
enquanto a administração pública clássica enfatiza os órgãos ou programas públicos, como
esforço do governo para lidar com as deficiências de mercado, na nova governança a ênfase
ocorre nos instrumentos pelos quais os fins públicos possam ser atingidos.
A diferenciação trazida por Salamon (2000) pode ser mais bem percebida através da
compreensão do quadro conceitual da teoria de programas apresentado por Chen (2005),
apresentado na Figura 3, onde dois modelos, o modelo de mudança e o modelo de ação, se
interrelacionam inseridos num dado contexto social, econômico e político.
O esquema proposto por Chen (2005) se aplica tanto à administração pública
tradicional como para a nova governança. A diferença está na forma de implementação e na
qualidade dos resultados. Enquanto a governança tradicional atua através de instrumentos de
82
comando e controle, estabelecidos de forma verticalizada e impostos à sociedade, demandando
dos gestores públicos apenas habilidades para fazer valer junto à sociedade as mudanças
propostas, a nova governança tem como determinantes (determinants) para o sucesso das ações
a concertação social, parceria não hierárquica entre os órgãos públicos e os stakeholders
envolvidos no processo de mudança, através do uso de capacitações propiciadoras da
negociação e persuasão. Para o adequado funcionamento deste modelo há necessidade do
empoderamento das instituições e das comunidades (implementing organizations e community).
O modelo sistêmico apresentado na Figura 3 serve para os diversos tipos de políticas
públicas, sejam eles de natureza social (saúde, assistência, habitação, educação, emprego, renda
ou previdência); macroeconômica (fiscal, monetaria, cambial, industrial) ou outras (científica,
tecnológica, cultural, agrícola e agrária). Neste universo incluem-se as políticas e programas
relacionados com a Economia de Baixo Carbono, inclusive a reciclagem e os mercados de
carbono. Segundo Gelinski e Seibel (2008), usualmente o ciclo de implementação dos
programas e políticas públicas se caracteriza por um processo com as etapas de formulação,
implementação e avaliação.
Figura 3 – Quadro Conceitual da Teoria de Programas
Fonte: Chen, 2005, p.31
83
Para a avaliação da eficácia da gestão pública, governança e atuação da sociedade na
formulação das políticas públicas, podem ser utilizadas metodologias como a pesquisa de
população por amostragem, análise de dados agregados, análise de conteúdo e observação
participante, dependendo do objetivo da avaliação. A percepção do nível de sucesso ou fracasso
de uma política social pode resultar da verificação do impacto da ação planejada sobre a
situação e da adequação dos objetivos definidos para o enfrentamento do problema objeto da
ação, ao estabelecer-se o grau de efetividade pela comparação entre o antes (ex-ante) e o depois
(pos-facto) (FAGUNDES; MOURA, 2009).
A nova governança pode ser utilizada, por exemplo, na atuação dos governos visando a
identificação e organização dos agentes econômicos para a estruturação de arranjos produtivos
locais (APL). Estes programas têm, em primeiro plano, o desenvolvimento econômico regional,
porém, subsidiariamente, podem induzir e favorecer o empoderamento social, na medida em
que utilizam como determinante do processo de mudança e para a implementação do processo
de ação, a concertação social e a estruturação e capacitação gerencial de forma abrangente nas
comunidades-alvo
(target
populations).
O
desenvolvimento
de
APLs
implica
no
aprofundamento das relações entre governos, empresas (ou entidades) e os diversos
stakeholders intervenientes no processo; depende do conhecimento e atuação sobre os fluxos de
conhecimentos e das bases dos processos de aprendizado para as capacitações produtivas,
organizacionais e inovativas; além da delimitação de áreas geográficas de abrangência e do
aproveitamento da identidade histórica, institucional, social e cultural como fontes de
diversidade e de vantagens competitivas (CASSIOLATO; LASTRES, 2003). Pelas suas
características, a cadeia da reciclagem presta-se à organização sob o prisma de APL.
Tendência mundial, a nova governança vem fazendo-se sentir no Brasil, embora
timidamente. Exemplo de política pública que resultou em empoderamento da sociedade civil
foi a adoção da prática do Orçamento Participativo (OP) por diversos municípios brasileiros.
Através dele as comunidades passaram a influir mais direta e ativamente nos investimentos
públicos locais, pela discussão das prioridades de alocação dos recursos públicos. Baiocchi
(1999) destaca a experiência bem sucedida do OP em Porto Alegre, frente à experiências mais
limitadas, como as ocorridas em Montevidéo (Uruguai) e Córdoba (Argentina). O modelo
utilizado no OP, de concertação social, pode ser aplicado a diversas políticas e programas
públicos, inclusive para a estruturação de mercados de carbono.
Outro exemplo de iniciativa visando o empoderamento social foi a disseminação da
metodologia chamada Gestão Participativa para o Desenvolvimento Local (Gespar) em
84
diversos municípios brasileiros. A essência desta prática de educação de adultos pode ser
depreendida pelas orientações constantes em Arns et al., [199-?], p.22.
A lógica da ação capacitadora no desenvolvimento institucional, assim como em todas
as ações da Gespar, caracteriza-se por uma ação pedagógica focada na sensibilização,
na formação e na construção da autonomia dos atores locais. É uma ação pedagógica
que facilita a auto-intervenção, provocando mudanças na cultura institucional, de
acordo com os objetivos dos sujeitos da capacitação e do propósito da instituição,
realizada de forma cooperada (entre os facilitadores, funcionários e dirigentes), crítica,
criativa e consciente sobre a realidade da instituição. Deve ser desenvolvida através de
eventos (ambiente-oficina, seminários-oficina, oficinas, seminários, jornadas e ciclos
de campo, entre outros).
A Metodologia Gespar é uma metodologia de capacitação, onde a capacitação é
entendida como: “um processo educativo e formativo de troca e produção de conhecimentos,
voltado para o trabalho e para a prática social cidadã” (GONI, 1999, p.7). Metodologias de
empoderamento social, como a Gespar, podem ser utilizadas para o desenvolvimento e
estímulo à atuação cidadã, inclusive junto às entidades congregativas de catadores.
Outro marco evolutivo na direção do fortalecimento da atuação da sociedade como
agente ativo na nova governança, agora no ambiente de comando e controle, foi a promulgação
da Lei 9.790/1999, com a finalidade de fortalecer iniciativas da sociedade civil de finalidade
pública através da qualificação das OSCIPs. O papel das OSCIPs é facilitar as parcerias entre
os governos e a sociedade civil, fazer avançar a influência da sociedade sobre as políticas
públicas e a ampliação do controle social (SILVA, 2001). Porém, a prática da implementação
da Lei 9.790/1999 apresenta problemas, a exemplo dos mostrados em pesquisa realizada junto
às OSCIPs do Estado de São Paulo por Silva (2001). Aquele estudo avaliou os processos de
governança institucional daquelas entidades, verificando que seus conselhos gestores eram
permeados por tensões advindas da participação de diferentes atores em posições diversificadas
de autoridade, responsabilidade, interesses e maturidade. Situação corroborada por Pinho
(2010), ao criticar a qualidade da participação dos representantes dos governos nestas
entidades. Aquele Autor minimiza o problema ao destacar que o processo é recente frente à
tradição histórica brasileira, implicando em aprendizado do Estado em se abrir para a sociedade
e esta em se instrumentalizar para forçar a efetividade do diálogo. Percebe a educação como
peça chave para esta evolução, ponderando que a entrada do cidadão no mundo moderno exige
conhecimentos básicos, sem os quais fica à margem do processo.
A abordagem de Pinho (2010) evidencia a importância dos dois tipos de educação, a
formal, referida pelo Autor e a informal, desenvolvida por instituições como OSCIPs e
85
Organizações Não Governamentais (ONGs), entre outras, através do uso de metodologias como
a Gespar, chamada de educação dialógica. Ambos os tipos de educação são fundamentais para
o empoderamento da sociedade – inclusive os recicladores – em dois níveis, no nível externo,
como abordado por Salamon (2000), Chen (2005) e Gelinski e Seibel (2008), mas também
internamente às entidades congregativas de trabalhadores da chamada economia solidária. A
Secretaria Nacional de Economia Solidária (SENAES), vinculada ao Ministério do Trabalho e
Emprego, através do relátorio Atlas da Economia Solidáriano Brasil 2005, define Economia
Solidária como “o conjunto de atividades econômicas – de produção, distribuição, consumo,
poupança e crédito – organizadas e realizadas solidariamente por trabalhadores e trabalhadoras
sob a forma coletiva e autogestionária” (BRASIL, 2006, p.11).
Os Empreendimentos de Economia Solidária (EES) caracterizam-se pela união de
esforços e de recursos financeiros dos seus membros, para, através de práticas participativas de
autogestão, obterem resultados distribuidos de forma justa. A prática da autogestão opõe-se ao
sistema de heterogestão típicos das sociedades capitalistas, baseadas na divisão burocrática de
trabalho e nas cadeias hierárquicas de comando e controle. Associadas à estas formas de gestão
estão os níveis de consciência dos trabalhadores. Cançado (2008) lança mão dos ensinamentos
do educador Paulo Freire para caracterizar três níveis de consiência: semi-intransitiva,
transitivo-ingênua e consciência crítica. As duas primeiras associadas ao sistema de
heterogestão e esta última, necessária para a implementação da autogesão nas EES.
Na consciência semi-intransitiva o ser humano possui quase total aderência ao status
quo ao qual está imerso, sentindo-se incapaz de autogerir-se. A consciência transitivo-ingênua
representa um nível de maior percepção social, mas onde as pessoas podem ser manipuladas
mais facilmente. A evolução para o nível de consciência crítica, onde os oprimidos constroem
uma classe para si, ocorre através da educação dialógica e da práxis, conforme mostra a Figura
4.
A educação dialógica atua sobre a forma como os indivíduos veem a realidade,
estimulando a mudança de nível de consciência. A práxis surge da reflexão e do aprendizado do
indivíduo sobre suas ações, numa dinâmica ação-reflexão-ação. A educação dialógica e a práxis
são complementares e diferenciadas: na primeira o ponto de partida ocorre pela ação do
educador, externo ao empreendimento e aos indivíduos que fazem parte dele (a exemplo da
capacitação pela metodologia Gespar); na segunda o processo é interno aos indivíduos.
Portanto, a educação pode estimular à ação, porém cada indivíduo tem o seu próprio processo
de construção da práxis (CANÇADO, 2008).
86
Figura 4 – A construção da autogestão em Empreendimentos da Economia Solidária
Heterogestão
Consciência semi-intransitiva
Educação Formal
Educação dialógica
Heterogestão
Consciência intransitivo-ingênua
Práxis
Autogestão
Consciência crítica
Fonte: adaptado com alterações de Cançado, 2008, p. 110
Os conceitos até aqui colocados de forma genérica aplicam-se interiramente à
construção de políticas públicas aplicadas ao escopo deste estudo, pois, se a inserção da
reciclagem nos mercados de carbono passa pela evolução e continuidade destes mercados nos
próximos anos, estimulados pelas ações de mitigação ao aquecimento global combinadas com o
desenvolvimento do cenário institucional, público e privado, para a valorização aos serviços
climáticos propiciados por esta atividade econômica, então exige a evolução do macroambiente
no qual a gestão de resíduos está inserida, para o surgimento de uma concertação social –
pública, privada ou pela combinação de ambas – que abrigue este propósito. Porém, a teoria
sobre autogestão e empoderamento social mostra que a simples adequação do ambiente externo
não é suficiente. É necessária a evolução da gestão administrativa da atividade de reciclagem,
de modo a capacitar os projetos para as exigências técnicas das metodologias que servem de
referência aos mercados de carbono.
O desenvolver desta seção mostrou que estes dois aspectos – externos e internos à
reciglagem – na verdade são interdependentes, visto que a evolução institucional no ambiente
externo, bem como a adequação das políticas públicas, depende da qualidade das influências
oriundas da sociedade. No outro sentido, a capacitação e o empoderamento da sociedade civil
também necessitam de um ambiente externo favorável para as suas evoluções.
Esta seção resgatou aspectos conceituais e metodológicos visando a sustentação teórica
da análise dos condicionantes sociopolíticos para a inserção da reciclagem nos mercados de
carbono. A próxima seçao verifica requisitos técnicos para a referida inserção.
87
2.7 Metodologias para a quantificação das reduções de emissões de GEE
2.7.1 A Análise de Ciclo de Vida
No planejamento da GIRS são utilizadas metodologias como a Análise Custo-Benefício
(ACB), a Análise de Decisão Multicritério (ADM)10 e a análise do ciclo de vida (ACV), muitas
vezes apoiadas por softwares computacionais e normas internacionais, a exemplo das séries
14000 da International Organization for Standardization (ISO).
A ACV é uma metodologia utilizada na avaliação dos impactos ambientais de um
produto, processo ou atividade ao longo de todo o seu ciclo de vida. Para tanto, inventaria as
entradas e saídas de energia, matérias-primas e emissões, e quantifica a geração de resíduos,
valorando-as, de modo a subsidiar tomadas de decisão. Com a utilização desta ferramenta
torna-se possível a otimização dos processos industriais, considerando aspectos como emissões,
escassez de recursos, danos à saúde humana e ao ambiente, e a racionalização no uso de
energia. Pode ser usada, por exemplo, para comparar o impacto ambiental de diferentes tipos de
tratamento de resíduos ou de diferentes destinos para um determinado resíduo (LIMA et al.,
2010).
A metodologia ACV teve origem na década de 1960, como resultado da busca de
energias alternativas frente a crise do petróleo e para o embasamento científico de legislações
em face do crescente uso de embalagens descartáveis. No final daquela década, o Midwest
Research Institute (MRI) utilizou a metodologia Resource and Environmental Profile Analysis
(REPA) para realizar um estudo financiado pela Coca-Cola com o objetivo de analisar
diferentes tipos de embalagens de refrigerantes e determinar qual apresentava menores índices
de emissões de poluentes e melhor desempenho com relação à preservação dos recursos
naturais. Posteriormente esta metodologia foi aprimorada pelo MRI a pedido da USEPA
(LIMA et al. 2010).
A Figura 5 apresenta uma representação genérica do ciclo de vida de um produto, onde
as linhas pontilhadas representam fluxos de informações e as linhas cheias representam fluxos
de materiais e energia.
A Figura 5 começa com a identificação de necessidades e desejos de consumo da
população (needs) como subsídio para o direcionamento da produção industrial (production).
Para cada etapa do ciclo, a metodologia ACV analisa a entrada de insumos primários (primary
10
Uma análise da ACB e ADM relacionada à GIRS pode ser encontrada em Morrissey e Browne (2004).
88
resources) – matérias-primas e energia – e a saída de resíduos e emissões (waste/emissions). Na
sequência do círculo está o uso/satisfação das necessidades e desejos (use/fulfillment of needs)
e o descarte pós-consumo. O esquema mostra o inter-relacionamento deste ciclo de vida com as
etapas da GIRS: coleta, separação, reciclagem, reuso, tratamento (recuperação energética) e
disposição final em aterro (landfill) da parcela de rejeitos.
Figura 5 – Esquema genérico do ciclo de vida de um produto
Fonte: Rebitzer et al., 2004, p.702
As orientações contidas nas séries ISO 14000 fornecem um quadro de consenso para a
ACV: a ISO 14040:1997 trata de princípios e enquadramento; a ISO 14041:1998 sobre
definições de metas, escopos e análise de inventário; a ISO 14042:2000 sobre as avaliações de
impacto dos ciclos; a ISO 14043:2000 das interpretações dos resultados; além da padronização
da aplicação da ACV para fins de design, a ISO 14062:2000. Mais recentemente a ISO
publicou as ISO 14064:2006, 14065:2007 e 14066:2007, um integrado conjunto de normas e
ferramentas direcionadas à quantificação dos GEE (REBITZER et al., 2004; ISO, 2010).
A ISO 14064 é dividida em três partes: a parte 1 especifica princípios e requisitos para
a quantificação e elaboração dos relatórios de GEE e remoções. Inclui requisitos para a
concepção, desenvolvimento, gestão, informação e verificação de inventário de GEE, tudo em
nível de empresa (organização); a parte 2, especificações e normatizações em nível de projeto;
e a parte 3, fornecimento de orientações para quem conduzir ou gerenciar a validação e/ou
89
verificação das quantificações dimensionadas nos projetos. A Figura 6 mostra a inter-relação
entre as três partes da ISO 14064.
Figura 6 – Relação entre as partes da ISO 14064
Fonte: Antunes e Qualharini, 2008, p.9
Em 2007 foram desenvolvidas as ISO 14065 e ISO/DIS 14066, direcionadas a órgãos
de verificação/validação/auditoria. À época desta pesquisa (2012) estavam em desenvolvimento
a ISO 14067, para o cálculo da pegada de carbono de produtos, incluindo embalagens, em duas
partes, a primeira voltada para a quantificação e a segunda para a comunicação; e a ISO 14069,
para o cálculo da pegada de carbono em nível organizacional, seguindo o guia de aplicação da
ISO 14064-1 (ISO, 2010).
Distinguem-se quatro componentes metodológicos na ACV: definição de escopo,
análise de inventário, avaliação de impactos e interpretação dos resultados, conforme
demonstra a Figura 7.
Na definição dos objetivos e escopo é realizada uma descrição do sistema de produção
e escolhida uma unidade funcional. A análise de inventário – life cycle inventory (LCI) – é uma
metodologia para estimar o consumo de recursos e os fluxos de resíduos e emissões atribuíveis
ao ciclo de vida dos produtos analisados. A avaliação de impactos – life cycle impact
assessment (LCIA) – fornece indicadores e a base para a análise do potencial de impactos
90
relativos a diversas categorias, tais como as alterações climáticas, stress toxicológico, uso da
terra e ruídos, relativos aos inputs e outputs do produto ou processo estudado, durante o ciclo
de vida. Conforme demonstra a Figura 7, as interpretações ocorrem ao longo e ao final da
aplicação da metodologia.
Figura 7 – Fases e aplicações da ACV
Fonte: ABNT, 2013, p.8
Na década de 1990, a Society for the Promotion of Life Cycle Assessment Development
(SPOLD) iniciou o desenvolvimento da formatação para os dados da LCI, organizando os
fornecedores de software e iniciando a formação de bancos de dados visando contemplar os
diversos processos e serviços. Em 2001, a ISO 14048 especificou o formato dos dados para a
LCI, que devem ser estruturados em três áreas: processo – descrição, inputs e outputs;
modelagem e validação; e informação administrativa. Existem diferentes estratégias para a
simplificação da análise de inventário, dependendo do objetivo e escopo do estudo – aplicação
específica ou decisão a ser tomada – nível de detalhe requerido – informações sobre um único
processo tecnológico ou processos agregados – o nível aceitável de incerteza e os recursos
disponíveis (tempo, recursos humanos, know-how e orçamento). As abordagens podem ser:
qualitativas – metodologia ABC, matrizes representando os estágios do ciclo de vida e
estressores, checklists e painéis de peritos; semiquantitativas – avaliação ABC/XYZ e método
91
de detecção de falhas ambientais, o Environment-Failure Mode Effect Analysis (EnvironmentFMEA); e quantitativas – Input–output ACV (ACV I/O), avaliação de substâncias-chave,
cálculo de demanda de energia acumulada e ACV baseada em dados facilmente disponíveis.
São possíveis também abordagens híbridas, conjugando, por exemplo, ACV baseadas em
processos com a ACV I/O, de análise mais macroeconômica, visando conjugar os benefícios de
ambas (REBITZER et al., 2004).
Na etapa LCIA são cruzados os potenciais impactos atribuíveis ao produto ou processo
em estudo, relativos aos resíduos, emissões e recursos consumidos. A LCIA é formada por
elementos obrigatórios e opcionais, conforme demonstra a Figura 8, utilizados com vista a
identificar impactos em três áreas de proteção: recursos naturais, saúde humana e ecossistemas
(PENNINGTON et al., 2004).
Figura 8 – Elementos da fase de avaliação de impactos (ISO 14042:2000)
Elementos obrigatórios:
Fonte: das
Pennington
et al.,
2004, p.722
Seleção
categorias
de impacto,
das
categorias de indicadores e caracterização
dos modelos
Atribuição dos resultados de
inventário (LCI)
Cálculo dos indicadores de
impactos por categoria
Avaliação dos resultados dos indicadores de
impacto (LCIA)
(LCIA)




Elementos opcionais:
Cálculo da magnitude dos impactos
comparativamente com as informações
de referência
Agrupamento
Atribuição de pesos relativos
Análise da qualidade dos dados
Fonte: Adaptado de Pennington et al., 2004, p.722
92
Segundo a ISO 14042 é obrigatória a seleção das categorias de impacto (caracterização)
e os indicadores de interesse para cada categoria de impacto selecionada, relacionados com a
metodologia adotada. Após, a atribuição dos dados de inventário para as categorias de impacto
escolhidas e, finalmente, o cálculo dos resultados dos indicadores. Segundo a norma, é opcional
a comparação dos resultados com valores de referência, agrupamentos, ponderações dos
resultados e análise da qualidade dos dados. Esta última é obrigatória quando as comparações
são tornadas públicas.
Conforme demonstra a Figura 7, a interpretação os resultados permeia todo o processo,
consistindo na identificação e análise dos resultados obtidos nas fases de inventários e
impactos, de acordo com o objetivo e escopo previamente definidos. Dos resultados desta fase
podem ser tiradas as conclusões e recomendações aos tomadores de decisão, relativas ao
desenvolvimento de produtos, planejamento estratégico, políticas públicas, marketing, etc.
De modo geral, as ferramentas existentes para a GIRS apresentam limitações como a
dificuldade para abranger todo o ciclo de gestão de resíduos, a incapacidade para considerar
com profundidade e simultaneidade as diversas dimensões: social, ambiental e econômica,
além da falta de alcance para abranger nos modelos todos os agentes envolvidos
(MORRISSEY; BROWNE, 2004). Segundo aqueles Autores, as limitações da ACV estão no
fato da técnica não ser capaz de levar em consideração quando, onde e como os resíduos são
libertados no ambiente; os resultados obtidos com a aplicação da ferramenta apresentarem
divergências, mesmo na investigação de um mesmo produto; e estar mais restrita à análise de
impactos ambientais, sem a incorporação da avaliação financeira.
Entre as vantagens da ACV, Hong at al. (2009) colocam-na como capaz de identificar,
quantificar e avaliar os impactos da energia, dos materiais utilizados e dos resíduos liberados
para o ambiente, além de identificar e avaliar as oportunidades de melhorias ambientais. A
exemplo da Figura 7, aqueles Autores relacionam aplicações como políticas governamentais,
planejamento estratégico, marketing, educação do consumidor, processos de melhoria de
produtos e design. Segundo Wittmaier et al. (2009), a metodologia ACV é um instrumento
adequado para a comparação de diferentes sistemas de gestão de resíduos (processos e
combinações de processos) em relação ao seu impacto ambiental, porém os resultados
dependem fortemente dos pressupostos assumidos na modelagem, o que limita a generalização
dos resultados. Lima et al. (2010) avaliam tratar-se de técnica de extrema utilidade para a
gestão ambiental, que poderá ser melhor difundida e utilizada quando ocorrer a consolidação
dos bancos de dados de inventário no Brasil.
93
Este tópico buscou promover uma breve revisão da metodologia ACV como
fundamentação teórica para o próximo tópico, que busca responder a uma questão fundamental
para este estudo: até que ponto a utilização de reciclados em substituição a insumos virgens nos
processos produtivos implica em reduções de emissões de GEE.
2.7.2 Metodologias para a estimativa das pegadas de carbono
O tópico anterior abordou a ACV de uma forma genérica e teórica. Este específica as
metodologias ACV direcionadas ao objeto desta pesquisa, que consiste em quantificar as
economias de emissões proporcionadas pela reciclagem. Numa aproximação a este objetivo,
num primeiro momento são apresentadas as metodologias ACV desenvolvidas especificamente
para a quantificação de emissões. Um segundo tópico discute estudos e metodologias voltadas
às quantificações relacionadas à GIRS como um todo. Por fim, o terceiro tópico analisa com
mais profundidade as metodologias que possuem como escopo as emissões relacionadas
especificamente à reciclagem.
A pegada de carbono (carbon footprint) de um produto, serviço, pessoa, empresa,
evento, etc. é a quantidade resultante de emissões por unidade de tempo. A pegada de carbono
da raça humana é a quantidade de emissões pelo somatório das atividades humanas. Muitas
corporações e instituições vêm desenvolvendo sistemas para calcular e reduzir suas pegadas de
carbono, usando estas iniciativas, muitas vezes, como diferencial de marketing. Um dos
problemas é a falta de padronização dos cálculos, de modo que a estandarização precisa ser
desenvolvidada e disseminada. As consultorias especializadas proporcionam importante
assistência para os cálculos, porém há necessidade da formação de banco de dados consistente,
oriundo de fontes conhecidas e confiáveis (HASHMI, 2008).
Os protocolos relacionados às emissões de GEE procuram regrar e padronizar o
dimensinamento das emissões, proporcionando ferramentas de apoio à decisão e bancos de
dados para os levantamentos. A escolha da metodologia mais adequada para o tipo de
dimensionamento desejado é crucial para a qualidade da estimação. Hashmi (2008) cita dois
protocolos de maior aceitação: (i) o protocolo desenvolvido pela ISO, o ISO 14064:2006,
explicado na seção anterior; e (ii) o GHG Protocol – desenvolvido pelo World Resource
Institute (WRI) em conjunto com o World Business Council of Sustainable Development
(WBCSD) e publicado em 2001. Este protocolo possui metodologias estandarizadas voltadas
para as organizações, sendo empregado por 63% das 500 maiores empresas americanas. Em
94
2007, durante a COP 13, as três instituições – WRI, WBCSD e ISO – firmaram protocolo de
cooperação para o desenvolvimento conjunto de ambos os protocolos.
O GHG Protocol Iniciative compreende dois documentos inter-relacionados: o GHG
Protocol Corporate Accounting and Reporting Standard (2004), que proporciona um guia para
as empresas quantificarem e divulgarem suas emissões, e o GHG Protocol Project
Quantification Standard (2005), visando a quantificação das reduções através de projetos de
mitigação (GHG PROTOCOL, 2012).
Hashmi (2008) cita, ainda, a Carbon Trust11, instituição baseada no Reino Unido que
auxilia organizações e governos a quantificar suas pegadas de carbono. A Carbon Trust, por
sua vez, utiliza os fatores de conversão produzidos pelos Department of Energy and Climate
Change (DECC) e o Department for Environment, Food and Rural Affairs (Defra),
subordinados ao governo do Reino Unido (CARBON TRUST, 2012; DEFRA, 2012). Merecem
referência a Verified Carbon Standard (VCS) e a Climate Action Reserve, instituições
americanas que atuam na normatização para a execução de projetos, regulação da qualidade e
quantificação das reduções de emissões de projetos que visam à obtenção de créditos em
mercados voluntários de carbono (VCS, 2012; CAR, 2012). Entre as principais certificadoras
e padronizadoras relacionadas aos mercados voluntários de compensação de carbono estão,
ainda, a Climate, Community e Biodiversity Alliance (CCBA), a Green-e e a Climate Neutral
Network. A Tabela 13 relaciona as certificadoras citadas com os seus escopos de atuação.
Tabela 13 – Alguns programas de padronização e certificação para mercados voluntários de
carbono e seus escopos
Entidade
Site
Escopo
CCBA
http://www.climate-standards.org/
Uso do solo, comunidades
locais e biodiversidade
Climate Neutral Network http://www.climateneutral.com/about.html Híbrida entre consultoria e
certificadora
Green-e
http://www.green-e.org/
Energia
Gold Standard
http://www.cdmgoldstandard.org/
Energia
VCS
http://v-c-s.org/
Certificação e padronização
Climate Action Reserve
http://www.climateactionreserve.org/
Certificação e padronização
WRI/WBCSD Protocol
http://www.ghgprotocol.org/
Fonte: o Autor, baseado em Bayon et al., 2007, p.23.
11
Certificação e padronização
As informações sobre a metodologia adotada pela Carbon Trust podem ser encontradas no seu relatório anual,
chamado Performance Assessment Methodology (CARBON TRUST, 2012).
95
Com relação à predominância de uso das diversas metodologias nos mercados
voluntários de carbono, as 946 observações realizadas pela empresa Ecosystem Marketplace no
ano de 2011 mostraram os resultados apresentados no Gráfico 16, onde fica evidenciada a
predominância da VCS, seguida pela CAR e Gold Standard.
Gráfico 16 – Fatias de mercado das certificadoras nos mercados voluntários de carbono em 2011
Verified Carbon Standard (VCS) (58%)
Climate Action Reserve (CAR) (12%)
Gold Standard (12%)
American Carbon Registry (ACR) (6%)
ISO 14064 (4%)
Chicago Climate Exchange (CCX) (3%)
Standards privados (3%)
Plan Vivo (1%)
CDM/JI (0,3%)
Outros (0,7%)
Fonte: Peters-Stanley e Hamilton, 2012, p.vii
Os protocolos de emissões até aqui referidos são voltados para empresas, produtos,
serviços e processos. Estas quantificações em nível de país vêm sendo objeto de pesquisas e
publicações no âmbito do IPCC. A última publicação abrangente neste sentido foi a “2006
IPCC Guidelines for National Greenhouse Gas Inventories", visando orientar os países para a
realização de inventários nacionais de GEE. A publicação é composta por cinco volumes: (i)
guia geral; (ii) energia; (iii) processos industriais e uso de produtos; (iv) agricultura, florestas e
outros usos da terra; e (v) resíduos. O quinto volume (resíduos) abrange as emissões
relacionadas à disposição final, tratamento biológico, incineração, tratamento e disposição final
de esgotos e efluentes (IPCC, 2006).
Ainda no âmbito da ONU, o Clean Development Mechanism (CDM) requer a aplicação
de metodologias para a quantificação da linha de base, adicionalidade e monitoramento das
reduções de emissões dos GEE cobertos pelo PQ, de modo a determinar a quantidade de
Certified Emission Reductions (CER) gerados pela mitigação resultante dos projetos CDM.
96
Estas metodologias frequentemente referem-se a ferramentas metodológicas dirigidas a
aspectos específicos das atividades de projeto, como emissões relacionadas à fontes específicas.
A publicação “CDM Methodology Booklet” sumariza estas metodologias, apresentando
informações relevantes como o tipo de projeto onde são aplicáveis, os tipos de gases atingidos,
condicionantes de aplicação, parâmetros-chave e descrição visual dos cenários. A íntegra das
metodologias CDM está disponibilizada no site da UNFCCC (UNFCCC, 2012c).
Sem o intuito de esgotar o assunto, este tópico apresentou importantes metodologias de
uso corrente para o cálculo das pegadas de carbono. Embora muitas vezes construídas visando
usos direcionados, a exemplo da metodologia GHG Protocol para as empresas ou a
metodologia IPCC (2006) para macroquantificações nacionais, por fundamentarem-se na ACV
podem ser adaptadas para quantificações envolvendo as mais variadas estimativas relacionadas
às pegadas de carbono. Visando o atingimento do objetivo deste estudo, o próximo tópico
estreita o espectro desta análise para as metodologias e estudos aplicados à quantificação das
emissões de GEE relacionados à GIRS.
2.7.3 Reduções de emissões pela Gestão Integrada de Resíduos Sólidos
O gerenciamento dos resíduos sólidos municipais pode contribuir através de diversas
formas para as reduções das emissões de GEE, sendo que a ACV é cada vez mais utilizada para
quantificar estas reduções (USEPA, 2006). Este tópico apresenta metodologias destinadas à
quantificação destas contribuições e publicações de pesquisas sobre o tema.
Ocorre que os rejeitos representam a sobra economicamente não aproveitável ao final
de uma série de etapas que incluem: a (1) extração e processamento de matérias-primas; a (2)
fabricação dos produtos; o (3) transporte de materiais e produtos para os mercados; o (4) uso
pelos consumidores; e (5) as etapas de processamento dos resíduos após o descarte,
compreendidas pela GIRS.
Todas as etapas deste "ciclo de vida" resultam em emissões, sendo que a GIRS, além
das suas próprias emissões, pode alterar as emissões das demais etapas citadas. As ACV
relacionadas à GIRS implicam em contabilizar as emissões de GEE relacionadas com: (i) os
impactos da redução e reciclagem quanto ao consumo de energia (especificamente a queima de
combustíveis fósseis), associada à produção, transporte, uso e descarte do produto ou material
que se torna resíduo; (ii) as emissões não energéticas relacionadas ao processo de fabricação, a
exemplo do CO2 liberado quando o calcário é convertido em cal na produção do aço; (iii) as
97
emissões de CH4 de aterros onde os resíduos são dispostos; (iv) o CO2 e N2O emitidos quando
da incineração de resíduos; (v) o sequestro de carbono atmosférico pelo uso de celulose
reciclada, evitando o desmatamento para a produção de celulose virgem; e (vi) as emissões
decorrentes do transporte dos resíduos por longas distâncias (ACKERMANN, 2000; USEPA,
2006).
A Figura 9 ilustra a influência da GIRS nas emissões relacionadas ao ciclo de vida dos
produtos, relacionando aumentos e reduções nas emissões de GEE.
Figura 9 – Emissões e sequestros de GEE associados ao ciclo de vida dos produtos
Fonte: USEPA, 2006, p. ES-11
A Figura 9 relaciona as etapas do ciclo de vida de um produto genérico (life cycle
stage) aos momentos do ciclo onde há o uso de matérias primas e energia (virgin inputs) e às
emissões relacionadas ao processo de produção e gestão dos resíduos (GHG emissions). À
direita estão ilustrados os resultados das alternativas de gestão em termos de aumentos e
diminuições nas emissões (sinks & emission offsets). Mostra a reciclagem evitando o uso de
combustíveis fósseis e incrementando o sequestro de carbono pelas florestas. Porém ilustra
apenas algumas das relações envolvendo materiais, energia e emissões. No caso da reciclagem
podem ser quantificados ainda: (i) as reduções de emissões relacionadas à extração e o
transporte das matérias primas até as indústrias, pelo uso de reciclados em substituição aos
98
insumos virgens; (ii) as reduções de emissões decorrentes do transporte dos rejeitos para o
aterro e da decomposição dos materiais celulósicos nesses locais, pela redução na quantidade
enviada em função da reciclagem; (iii) no caso da incineração, a redução nas emissões de N2O
e CO2 pela parcela de recicláveis não enviadas às usinas waste-to-energy (WtE); (iv) assim
como as emissões decorrentes do consumo de energia e de transporte produzidas pelo próprio
processo de reciclagem.
A estimativa dos aumentos e diminuições nas emissões decorrentes da GIRS pode ser
levantada através de softwares computacionais construídos com base na metodologia ACV.
Nestes casos, a estrutura de análise é formatada em função dos objetivos delineados pela
pesquisa, considerando-se os impactos que se pretenda medir. Esses programas costumam estar
alimentados com os inventários – bancos de dados de fatores de emissões. Se não for utilizado
programa computacional, é necessária a busca de dados em inventários e/ou utilização de
fatores e coeficientes de conversão obtidos externamente. Algumas publicações do gênero
ilustram o delineamento adotado para a análise, a do estudo de Zhao et al. (2009), apresentado
na Figura 10.
Figura 10 – Exemplo de delineamento de sistema para ACV relacionada à gestão de resíduos
Fonte: Zhao et al., 2009, p.1520
99
O exemplo apresentado na Figura 10 mostra impactos restritos à GIRS, excluindo
análises à montante, relacionadas à manufatura e ao uso dos produtos. A partir da coleta e
transporte dos RSU – municipal sólid waste (MSW) – analisa sete cenários: (i) situação atual
(linha de base), onde parte é incinerada (MSW-to-Energy) e parte indo diretamente para aterro
sem aproveitamento energético (landfill without LFG utilization); (ii) todos os RSU passam a
ser encaminhados para aterramento; (iii) em relação à linha de base, a parte aterrada passa a ter
aproveitamento energético do gás de aterro – landfill gás (LFG); (iv) inclui a reciclagem –
material recycle facility (MRF); (v) inclui a compostagem; (vi) inclui a digestão anaeróbia –
anaerobic digestion; (vii) situação de sistema integrado, mantendo a parcela direcionada à
incineração e incluindo conjuntamente a reciclagem, digestão anaeróbia e o aproveitamento do
LFG. Aqueles Autores estabeleceram dois planos de análise: o sistema em primeiro plano
(foreground system) considera apenas os processos relacionados diretamente à GIRS: coleta,
transporte, alternativas de tratamento e disposição final; o segundo plano (background system)
considera os resultados indiretos: produção de energia, de recicláveis e de compostos
resultantes da digestão anaeróbica e compostagem. Em primeiro plano são consideradas apenas
as emissões de GEE e no segundo, além das emissões, também as produções de energia,
recicláveis e fertilizantes. Para a realização da pesquisa, Zhao e coolaboradores utilizaram
dados de emissões fornecidos pelas usinas WtE e o software Ecoinvent Data 2.0 (2007),
adquirido do Ecoinvent Centre (Swiss Centre for Life Cycle Inventories).
A pesquisa de Zhao et al.(2009) ilustra as possibilidades de uso da ACV para as
análises no âmbito da GIRS. O Quadro 9 amplia a percepção dos potenciais destas pesquisas,
pelo resgate na literatura de outras publicações recentes sobre o tema.
O Quadro 9 mostra diversas opções de pesquisa relacionadas à utilização da ACV no
âmbito da GIRS. Delas, cinco estudos – Chen e Lin (2008), Mohareb, Warith e Diaz (2008),
Spies et al. ([2010]), Zhao et al. (2009) e Chang et al. (2011) testaram, à luz da ACV,
alternativas de destinação para os RSU, sendo que o último – Chang et al. (2011) – cruzou os
resultados com outra ferramenta, a ACB. Numa abordagem mais ampla, Ackermann (2000)
analisou estratégias de GIRS para dois países. Já Friedrich e Trois (2011) compararam os
resultados das emissões relacionadas à GIRS encontrados por diferentes publicações.
100
Quadro 9 – Exemplos de pesquisas utilizando a ACV para quantificação de emissões relacionadas
à GIRS
Publicação
Escopo/Abrangência
Impactos
Fontes
avaliados
Chen e Lin,
Estratégias de GIRS Emissões
 ORWARE (ORganic WAste
2008
município
REsearch) (3) (Eriksson et al.,
2002)
 WASTED Model (Diaz e Warith,
2006)
Mohareb,
Estratégias de GIRS Emissões
 IWMM (EPIC/CSR, 2004) (4)
Warith e Diaz,
município
2008
Spies et al.,
Estratégias de GIRS Emissões
 SWM GHG Calculator (5)
[2010]
município
 IPCC, 2006
Zhao et al.,
2009
Estratégias de GIRS município
Chang et al.,
2011
Estratégias de GIRS município, combinada
com análise custobenefício
Estratégias de GIRS - 2
países
Estimativas de
emissões pela GIRS –
revisão comparativa
Ackermann,
2000
Friedrich e
Trois, 2011
ACV restrita ao  Dados obtidos localmente, mais
âmbito da GIRS  Ecoinvent Data 2.0, 2007 (6)
Emissões,
 Gabi 4.3 (PE International) (2)
custos e receitas  Lingo 10.0 (LINDO Systems) (2)
no âmbito da
GIRS
Emissões
 USEPA, 1998 e 1999(1)
Emissões
 Smith et al., 2001
 USEPA, 2006
 Merrild et al., 2009 (papel);
Astrup et al., 2009 (plásticos);
Larsen et al., 2009 (vidro);
Damgaard et al., 2009 (metais)
Fonte: elaboração do Autor
Notas: (1) Publicações atualizadas por USEPA (2006); (2) Software pago; (3) Disponível em:
http://www.ima.kth.se/im/orware/; (4) Disponível em: http://www.iwm-model.uwaterloo.ca/; (5) O
manual está disponível em: http://www.kfwentwicklungsbank.de/EN_Home/Sectors/Waste_management/Solid_Waste_Management_Greenhouse_
Gas_Calculator/Klimarechner_Feb2010.pdf e o software em
http://www.ifeu.org/english/index.php?bereich=abf&seite=klimarechner; (6) Disponível em:
http://www.ecoinvent.org/. Os dados de inventário são disponibilizados mediante pagamento.
2.7.4 Reduções de emissões pela reciclagem
Diferentemente dos estudos relacionados no Quadro 5, voltados para a GIRS como um
todo, as pesquisas relacionadas no Quadro 10 estão voltados para apenas um dos segmentos da
GIRS, a reciclagem.
101
Quadro 10 – Exemplos de pesquisas utilizando a ACV para quantificação de emissões
relacionadas à reciclagem
Publicação
Escopo/Abrangência Impactos
Fontes
avaliados
Altay et al., 2011 Estratégias GIRS para Energia e
 Bergmann et al., 2007
a reciclagem de metais emissões –
de veículos sucateados alumínio e ferro
- país
Apisitpuvakul et
Estratégias GIRS para ACV completa  PRe Consultants - SimaPro 6.0
al., 2008
a reciclagem de
(emissões,
demo version 2005
lâmpada fluorescente - energia,
 USEPA, 1998(2)
país
materiais,
poluentes)
Counsell e
Estratégias GIRS para Energia e
 USEPA, 2002(1)
Allwood, 2007
de papéis de escritório emissões
 DEFRA
- genérico
 EIPPCB (3)
Shen, Worrell e
Estratégias GIRS para ACV completa  ISO 14040 e 14044
Patel, 2010
a reciclagem de PET
 LCI: PlasticsEurope, 2009
como fibra têxtil e
comparativo com
outras fibras- genérico
Chen et al., 2011 Estratégias GIRS para Emissões e
 ACV adaptada por Fujita et al.,
a reciclagem de
combustíveis
2007 (publicação japonesa)
plástico - município
 JCPRA, 2007 (publicação
japonesa)
 Dados obtidos localmente
Pimenteira et
Reciclagem em nível
Energia e
 Calderoni, 1997
al.,2004
de país - Brasil
emissões
Fonte: elaboração do Autor
Notas: (1) Publicação atualizada por USEPA (2006); (2) USEPA, 1998 (mercúrio):
http://www.epa.gov/osw/hazard/wastetypes/universal/merc-emi/merc-pgs/emmrpt.pdf; (3) Reference
Document on Best Available Techniques in the Pulp and Paper Industry, disponível em:
http://eippcb.jrc.es/reference/BREF/ppm_bref_1201.pdf
Os cinco primeiros exemplos apresentados no Quadro 10 - Altay et al. (2011),
Apisitpuvakul et al. (2008), Counsell e Allwood (2007), Shen, Worrell e Patel (2010) e Chen et
al. (2011) – trazem análises comparativas envolvendo alternativas de reciclagem (geralmente a
não reciclagem como linha de base) para tipos pontuais de recicláveis, relacionados a um
município ou país, ou em análises genéricas, variando a amplitude dos impactos considerados:
desde só emissões até uma ACV mais completa. A pesquisa de Pimenteira et al. (2004)
diferencia-se das anteriores por olhar a reciclagem como um todo.
A análise das fontes utilizadas pelos diversos autores mostra as variadas alternativas
para a obtenção dos subsídios quantitativos (dados, fatores, inventários) para os impactos
escolhidos e os objetivos de cada estudo. A forma mais agregada e simples é a utilização direta
102
de fatores: a exemplo de Altay et al. (2011), Pimenteira et al. (2004), Ackerman (2000) e
Friedrich e Trois (2011). Alternativa é o uso da vasta gama de softwares disponíveis, alguns
pagos e outros de acesso gratuito, a exemplo de Chang et al. (2011), Mohareb, Warith e Diaz
(2008) e Spies et al. ([2010]). Outros autores, para atingir seus objetivos, lançaram mão de
soluções mistas, utilizando-se de mais de uma fonte de informações: programas
computacionais, fatores e dados locais. Nesta situação estão Apisitpuvakul et al. (2008),
Counsell e Allwood (2007), Shen, Worrell e Patel (2010), Chen et al. (2011) e Zhao et al.
(2009).
Enquanto no tópico anterior foram apresentadas as metodologias utilizadas para a
quantificação da pegada de carbono de uma forma geral, este tópico voltou-se para as
ferramentas voltadas às quantificações de emissões direcionadas à GIRS. Neste sentido, alguns
autores utilizaram-se diretamente da ISO 14040 e 14044, além de IPCC (2006). Quatro
publicações utilizaram-se de pesquisas da USEPA publicadas em momentos distintos –
Ackermann (2000), Apisitpuvakul et al. (2008), Counsell e Allwood (2007) e Friedrich e Trois
(2011).
Neste estudo não foram encontradas publicações que tenham utilizado ferramentas
disponibilizadas gratuitamente na internet, como a Waste Reduction Model (WARM), the
Recycled Content (ReCon) Tool e a Durable Goods Calculator (DGC), desenvolvidas pela
parceria entre USEPA e a ICF International. A WARM é direcionada à avaliação das práticas
de gestão de resíduos, construída de forma consistente com as normas internacionais e seguindo
as diretrizes de inventários do IPCC para a contabilização dos GEE. A ReCon visa auxiliar
empresas e indivíduos a estimar as emissões e impactos no consumo energético pela compra
e/ou manufatura de materiais com variados níveis de recicláveis no resíduo pós-consumo. A
DGC permite aos usuários calcular as implicações em emissões e energia para diversos tipos de
bens duráveis em três opções da gestão de resíduos: reciclagem, aterro sanitário e incineração
(USEPA, 2006).
USEPA (2006) cita, ainda, as ferramentas ICLEI Cities for Climate Protection (CCP), a
MSW Decision Support Tool (DST) e a Tool for Environmental Analysis and Management
(TEAM). A ferramenta CCP é orientada para uso pelos governos municipais para análise das
emissões em nível local. Um módulo é voltado para as quantificações da comunidade e outro
para as operações do próprio governo, além facilitar decisões que envolvam outros poluentes
do ar e consumo de energia. A metodologia DST é baseada em uma abordagem multimídia de
um conjunto amplo de emissões (ar, água e resíduos) associadas à GIRS. A TEAM simula
103
operações associadas com design de produto, processos e atividades associadas a diversos
setores industriais. O modelo considera o consumo de energia, consumo de material, transporte,
gestão de resíduos e de outros fatores em sua avaliação de impactos ambientais.
Outro software gratuito que merece referência é o Chain Management by Life Cycle
Assessment (CMLCA)12, disponibilizado pelo Institute of Environmental Sciences (CML) da
holandesa Leiden University.
A VCS não possui, atualmente, metodologias próprias voltadas ao setor de resíduos. No
entanto aceita a proposição de novas metodologias. Os projetos relacionados à GIRS em seu
âmbito podem ser desenvolvidos utilizando-se os protocolos da CAR e todas as metodologias
aceitas pelo CDM. Entre os protocolos oferecidos pela certificadora CAR, os relacionados com
a GIRS abrangiam, à época desta pesquisa, apenas as emissões de aterros e a digestão de
resíduos orgânicos (VCS, 2012; CAR, 2012).
A Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) brasileira Instituto
Ecológica desenvolveu a metodologia Socialcarbon para a aplicação conjugada às
metodologias das certificadoras (VCS, CAR, CDM), visando o acompanhamento dos projetos
sob a ótica da sustentabilidade. O acompanhamento de indicadores relacionados aos recursos
sociais, humanos, financeiros, naturais, biodiversidade e manejo do carbono social, permite
demonstrar a evolução destes recursos ao longo do tempo de vida do projeto, a partir da
situação inicial, chamada de marco zero. A metodologia do Carbono Social surgiu da
necessidade de acompanhamento dos projetos de reduções de emissões de uma forma mais
ampla, que captasse as principais dimensões da sustentabilidade – social, econômica e
ambiental (SANTOS, 2008; SOCIALCARBON, 2011).
Este estudo não encontrou, na literatura pesquisada, publicações que tenham utilizado
metodologias certificadas pelo CDM. A submissão de projetos à UNFCCC implica na
utilização de metodologias para determinação da linha de base, adicionalidade e
monitoramento. Pode-se adotar metodologias já aprovadas pelo Executive Board (EB) – órgão
executivo do CDM – ou propor-lhe novas metodologias que, uma vez aprovadas, comporão o
rol das metodologias referendadas. Na nomenclatura adotada pela UNFCCC as metodologias
aprovadas de linha de base e monitoramento são numeradas com a caracterização “AM”, as
metodologias aprovadas e consolidadas, numeradas com a caracterização “ACM” e as
metodologias de pequena escala são precedidas de “AMS”. Além das metodologias, o EB
12
Disponível em: http://cml.leiden.edu/software/software-cmlca.html. Acesso em: 05 dez. 2012.
104
aprova ferramentas metodológicas que combinam metodologias e adicionalidade. A Tabela 14
apresenta as 22 metodologias relacionadas ao 13º setor, relativo ao manuseio e disposição de
resíduos, associando-as com o número de projetos que utilizaram-nas, numa posição de
dezembro de 2012 (UNFCCC, 2012b).
Tabela 14 – Metodologias CDM relacionadas ao manuseio e disposição de resíduos, vigentes em
dezembro de 2012
Metodologia Escopo
Nº de projetos(1)
ACM0001
Queima ou uso de gas de aterro
194
ACM0010
Sistemas de gerenciamento de estercos
8
ACM0014
Tratamento de esgotos
11
ACM0022
Processos alternativos de tratamento de resíduos
0
AM0057
Aproveitamento da celulose de podas
1
AM0073
Coleta e tratamento centralizado de estercos
0
AM0080
Tratamento aeróbio de esgotos
0
AM0083
Aeração em aterros
1
AM0093
Aeração passiva em aterros
0
AMS-III.AF Compostagem
0
AMS-III.AJ Reciclagem
0
AMS-III.AO Digestão anaeróbia
0
AMS-III.AX Oxidação do metano de aterros
0
AMS-III.BA Reciclagem de E-waste
0
AMS-III.BE Tratamento aeróbio de biomassa de cana-de-açúcar
0
AMS-III. E
Refuse Derived Fuel (RDF)
34
AMS-III.F
Recuperação de metano de aterros
44
AMS-III.G
Recuperação de mentano em esgotos
37
AMS-III.H
Reduções de emissões em esgotos
188
AMS-III.I
Reduções em esgotos pela substituição de processos anaeróbios
8
AMS-III. L
Pirólise
0
AMS-III.Y
Tratamento de estercos por separação de sólidos e líquidos
1
(1)
Total
527
Fonte: o Autor, a partir de UNFCCC, 2012b
Nota: (1) O total de projetos relacionados ao manuseio e disposição de resíduos somava 769 na data do
levantamento. A diferença (242) corresponde a metodologias substituídas.
A título de discussão sobre o uso destas metodologias, Unnikrishnan e Singh (2010)
analisaram os projetos CDM envolvendo a recuperação energética pelos RSU. Verificaram, à
época, que dos 119 projetos daquele tipo, 88 utilizavam a metodologia ACM0001 para a
quantificação das reduções de emissões pela captura e aproveitamento do gás de aterro na
geração de eletricidade. O Brasil possuía o maior número daqueles projetos (25), seguido da
China (16), Índia (16), Chile (10), México (10) e Argentina (8). Os demais países contemplados
pelo CDM possuíam no máximo três projetos cada.
No âmbito do CDM, as metodologias que vêm ao encontro do escopo deste estudo são
a AMS-III.AJ e a AMS-III-BA. Como este estudo restringe-se à reciclagem das embalagens de
105
alumínio e aço, papéis, plásticos e vidro, a metodologia AMS-III-BA não é contemplada pela
pesquisa.
Os estudos e metodologias destinadas ao dimensionamento das reduções de emissões
no âmbito da GIRS – discutidos nesta seção – permitiram a aproximação para a quantificação
das economias de emissões proporcionadas pela reciclagem brasileira e porto-alegrense, cuja
metodologia de estimativa é descrita no próximo capítulo.
106
3 METODOLOGIA
O município de Porto Alegre é a capital do Rio Grande do Sul (RS), Estado situado no
extremo sul do Brasil, limitado ao Norte por Santa Catarina, ao Sul pelo Uruguai, a Leste pelo
Oceano Atlântico e a Oeste pela Argentina. Em 2009 o Produto Interno Bruto (PIB) dos
gaúchos – assim popularmente chamada a população do RS – atingiu o valor de R$ 206,8
bilhões, correspondente a 6,5% do PIB brasileiro. A renda per capita dos gaúchos foi de R$
18,9 mil, um pouco superior à média do País, de R$ 16,4 mil. A população do RS atingiu
10.187,8 mil habitantes no censo de 2010, mostrando ritmo de crescimento inferior ao nacional.
Cerca de 85% dos gaúchos vivem em zonas urbanas. O Índice de Desenvolvimento
Socioeconômico (Idese) em 2007 foi de 0,770, enquadrando o Estado como de médio
desenvolvimento. A taxa de analfabetismo, de 3,6%, apresenta-se bastante inferior à média
nacional, de 9,7% (FEE, 2011).
O PIB de Porto Alegre, considerado o ano de 2009 e tomado a preços de mercado, foi
de R$ 37,8 bilhões, cerca de 8% do PIB do RS e 1,2% do PIB brasileiro, resultando em uma
renda per capita de R$ 26,3 mil, superior à média estadual. Em 2010 a economia portoalegrense evoluiu para R$ 43 bilhões, equivalente a 1,17% do PIB nacional, de R$ 3.675
bilhões. A população do Município vem crescendo em ritmo inferior à estadual: os 1.409,3 mil
habitantes levantados em 2010 representaram 13,2% da população gaúcha, inferior aos 13,4%
em 2000. O crescimento populacional foi de 3,6% entre 2000 e 2010, correspondendo a apenas
49,3 mil pessoas. O Município possui área de 497 km2 e reduzida área rural, resultando numa
densidade demográfica de 2,8 mil habitantes/km2. Em 2007 apresentou o terceiro maior Idese
do RS, de 0,835. Em 2010 a taxa de analfabetismo, composta por pessoas com 15 anos ou mais,
estava em 2,28 % (FEE, 2011; IBGE, 2012).
O mapa da Figura 11 mostra a localização geográfica do município de Porto Alegre,
cujas coordenadas geográficas são 30º01’59”S e 51º13’48”W.
Os serviços de limpeza urbana de Porto Alegre são executados pela Prefeitura
Municipal de Porto Alegre (PMPA) através do seu Departamento Municipal de Limpeza
Urbana (DMLU). Entre as atribuições do DMLU estão a coleta – convencional e seletiva – e a
destinação final dos RSU, inclusive daqueles descartados pela população nos chamados focos
de lixo, os gerados pela varrição e capina das vias públicas e os produzidos pelo próprio
DMLU e outros departamentos da Prefeitura.
107
Figura 11 – Mapa de localização de Porto Alegre
Fonte: Google Maps
A Coleta Convencional (regular) é levada para uma estação de transbordo situada no
bairro Lomba do Pinheiro, Zona Leste do Município, onde o lixo é carregado em caminhões de
maior porte e transportado para um aterro sanitário no município de Minas do Leão (RS),
situado a uma distância de 113 km da Capital. A Coleta Seletiva não passa pela estação de
transbordo, pois os materiais coletados são imediatamente distribuidos entre as UTs
conveniadas com a PMPA.
Os serviços de limpeza urbana de Porto Alegre são executados pela Prefeitura
Municipal de Porto Alegre (PMPA) através do seu Departamento Municipal de Limpeza
Urbana (DMLU). Entre as atribuições do DMLU estão a coleta – convencional e seletiva – e a
destinação final dos RSU, inclusive daqueles descartados pela população nos chamados focos
de lixo, os gerados pela varrição e capina das vias públicas e os produzidos pelo próprio
DMLU e outros departamentos da Prefeitura.
A Coleta Convencional (regular) é levada para uma estação de transbordo situada no
bairro Lomba do Pinheiro, Zona Leste do Município, onde o lixo é carregado em caminhões de
maior porte e transportado para um aterro sanitário no município de Minas do Leão (RS),
situado a uma distância de 113 km da Capital. A Coleta Seletiva não passa pela estação de
transbordo, pois os materiais coletados são imediatamente distribuidos entre as UTs
conveniadas com a PMPA.
108
A escolha de Porto Alegre para o teste de hipótese levou em consideração o porte e o
nível de organização da atividade recicladora no município. O porte da atividade no município
é relevante, pois tem como insumo os descartes de resíduos sólidos urbanos produzidos por um
contingente populacional da ordem de 1,4 milhões de habitantes. Trata-se de uma situação
desejável, pois propicia ganhos de escala importantes para a viabilidade econômica de projetos
destinados aos mercados de carbono. O nível de organização da atividade recicladora é fator
relevante para esta pesquisa devido às exigências de controle e monitoramento presentes em
projetos envolvendo créditos de carbono. Porto Alegre tende a satisfazer este quesito, em face
do seu serviço de Coleta Seletiva, bem como pela atuação das entidades recicladoras
conveniadas, ocorrerem de forma organizada desde o ano de 1990 (IBGE, 2012; PMPA,
2012a).
O desenvolvimento da tese apresenta natureza aplicada, pois procura produzir
conhecimentos de aplicação prática, direcionados à solução do problema de pesquisa, de como
viabilizar o acesso dos recicladores às receitas propiciadas pelos mercados de carbono. A
construção
das
análises
inicialmente
segue
um
caminho
dedutivo,
partindo
de
contextualizações gerais para os casos particulares, trabalhados em nível nacional e local (Porto
Alegre). Após estas particularizações, são procurados elementos aplicáveis de forma mais
ampla, num processo indutivo. A dialética está presente no trabalho, em especial no capítulo
três, quando é questionado o fenômeno do aquecimento global, assim como a sua natureza
antrópica. O fenômeno não é tomado como certo e a pesquisa busca conhecer o pensamento
dos contrários, os chamados “céticos climáticos” (PRODANOV; FREITAS, 2009).
A pesquisa apresenta caráter exploratório, em face da sua originalidade frente a estudos
prévios ou referenciais bibliográficos existentes. O problema de pesquisa traz em seu escopo
um universo complexo de elementos, visto que não se restringe a análises parciais, limitadas a
determinados aspectos – técnicos, econômicos, políticos ou sociais – mas busca uma visão
holística, sistêmica e integrada da questão nestas dimensões. Também não se contenta com o
estudo de um ou outro reciclável, mas compreende os principais materiais recicláveis presentes
nas unidades de triagem: embalagens de alumínio, embalagens de aço, plásticos, papéis e
vidros. Diante da abrangência da pesquisa, tanto a revisão bibliográfica como o detalhamento
das metodologias serão apresentadas na medida da sua necessidade, como subsídio teórico,
conceitual e metodológico necessários para o atingimento dos objetivos específicos, na medida
em que forem trabalhados.
Como consequência da amplitude de escopo, além da imprescindível pesquisa
109
bibliográfica e documental, será utilizada a pesquisa de campo, com entrevistas em
profundidade e coleta de dados, aplicada ao estudo de caso local. A investigação sobre o
fenômeno do aquecimento global, nível de convicção científica de sua existência, natureza
antrópica e dimensão das consequências futuras, caso suas causas não sejam mitigadas, está
apresentada no capítulo de fundamentação teórica, realizada a partir de diversificada gama de
publicações, em especial aquelas que compõem o Quarto Relatório de Avaliação do Painel
Intergovernamental sobre Mudança do Clima, publicadas em 2007.
A estimativa das reduções de emissões no âmbito da GIRS, em especial da reciclagem,
implicou na pesquisa de ferramentas – metodologias e softwares – e publicações sobre o tema,
apresentados na fundamentação teórica. Entre as metodologias, duas são destacadas para este
estudo, apresentadas nas seções 3.1 e 3.2 deste capítulo: a primeira, desenvolvida pela United
States Environmental Protection Agency (USEPA) e escolhida em face da sua qualidade,
confiabilidade e pertinência ante o objetivo do estudo, pois, dentre as metodologias
previamente pesquisadas, foi a que melhor se adequou às análises em nível de País; a segunda,
a metodologia AMS-III.AJ, é certificada pelo CDM e será utilizada para análise em nível
local, por constituir-se numa real oportunidade de acesso da reciclagem àquele importante
mercado (PETERSON; GODIN, [2009]).
O estudo das reduções de emissões pela reciclagem em nível de Brasil exige a reunião
de estimativas sobre os níveis atuais e potenciais da reciclagem dos principais materiais
reciclados no País, disponíveis apenas em fontes esparsas, na maioria das vezes em publicações
de entidades de classe das indústrias, obtidas por procedimentos metodológicos diferenciados e
pouco transparentes, demandando cautela para o uso científico, de modo que as conclusões
quantitativas deste estudo têm caráter meramente estimativo.
As estimativas das reduções de emissões pela reciclagem relacionadas ao município de
Porto Alegre são realizadas em dois níveis: o estudo da reciclagem do Município como um
todo e da parcela comercializada pelas Unidades de Triagem (UT) conveniadas com o serviço
de Coleta Seletiva. A análise em termos de Município ficará restrita à metodologia USEPA
(2006), onde, diante da inexistência de estatísticas locais, será adotada a relação entre os
Produtos Internos Brutos (PIB) nacional e local como proxy para as estimativas relativas à
reciclagem. Com relação à Coleta Seletiva, além de USEPA (2006), será aplicada a
metodologia AMS-III.AJ (UNFCCC, 2012a).
Como o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) – órgão responsável
pelo serviço no Município – não possui a estimativa das quantidades mensais de
110
comercialização do conjunto das unidades de triagem, informação necessária para a aplicação
da metodologia AMS-III.AJ, os dados serão coletados em pesquisa de campo, mediante o
preenchimento do formulário constante do Apêndice A. A abrangência da pesquisa será
populacional, de modo que as 18 UT conveniadas serão visitadas. Também, como a aplicação
da referida metodologia implica no conhecimento da cadeia de comercialização, serão
entrevistados empresários que atuem como intermediários comerciais, sendo que a quantidade
de entrevistas será a necessária para abranger os recicláveis estudados. O formulário constante
do Apêndice B será utilizado como referência para estas entrevistas.
Além das informações sobre quantidades e preços, o formulário para as entrevistas com
as UTs inclui aspectos socioeconômicos, visando a contextualização da atividade, necessária
frente ao escopo do estudo; e o formulário para as entrevistas com os intermediários comerciais
inclui informações sobre o destino dos recicláveis, como subsídio para a aplicação da
metodologia AMS-III.AJ. As informações de caráter mais geral sobre a Coleta Seletiva, não
obtidas na pesquisa de campo, serão solicitadas ao DMLU.
Para as análises de ordem econômica, em nível nacional serão utilizados dados
secundários obtidos em diversificado referencial bibliográfico e documental. Para a análise
local, além do aproveitamento de estudos anteriores, como de Meyer et al. (2009) e Marcondes
(2012), serão utilizados dados coletados na pesquisa de campo.
As análises de ordem sociopolítica baseiam-se no referencial teórico destacado na
fundamentação teórica e na Metodologia do Carbono Social, explicada na seção 3.3.
3.1 Metodologia de USEPA (2006)
A metodologia USEPA (2006) foi adotada no estudo por conciliar quatro aspectos
positivos: (i) a credibilidade daquela instituição; (ii) a qualidade técnica e didática da
publicação de referência; (iii) a experiência adquirida ao longo dos anos, pois esta é a terceira
publicação sobre o tema, agregando evoluções; (iv) e por trazer os resultados das ACV em
forma de fatores, o que facilita a sua aplicação nos estudos de caso, como demonstrou
Ackermann (2000).
As primeiras pesquisas da USEPA sobre as emissões relacionadas à GIRS datam de
1994, com as principais publicações ocorrendo em 1998, 2002 e 2006. Os fatores de emissões
resultantes de USEPA (2006) podem ser encontrados na planilha Waste Reduction Model
111
(WARM)13 e são consistentes com as metodologias de IPCC (2006).
USEPA (2006), com base em critérios como a proporção da quantidade de geração e a
demanda de energia para a manufatura do produto novo, realizou análises de ciclo de vida
relacionadas às emissões de 21 diferentes tipos de materiais recicláveis, incluídos os
recicláveis objeto desta pesquisa: embalagens de alumínio; embalagens de aço; três tipos de
plásticos: PEAD, PEBD e PET; quatro tipos de resíduos celulósicos: papelão, papel de
escritório, revistas, jornais; e embalagens de vidro. Além de análises isoladas de cada tipo de
material, para os plásticos e papéis também foram realizadas análises dos materiais agrupados.
No caso dos plásticos, foram calculadas as reduções de emissões para um mix composto dos
três tipos citados, com base na proporção encontrada em análises gravimétricas americanas de
2003; no caso dos papéis, foram formados três misturas em função da origem: um conjunto
amplo, um conjunto típico de escritório e outro típico de residências unifamiliares.
A análise ACV aplicada por USEPA (2006) não foi completa, mas voltada para a
contabilização das emissões. O inventário de ACV de cada material selecionado foi construído
de modo a contemplar os aspectos do ciclo de vida com importância para emissões. O ponto de
referência para a análise ACV foi o momento de descarte, consideradas as emissões à montante
e à jusante desta etapa do ciclo de vida. O normal seria a análise ACV partir da extração das
matérias-primas e evoluir até a disposição final. Porém USEPA (2006) preferiu seguir a
orientação de peritos e, a partir da segunda edição, passou a apresentar a perspectiva do ciclo de
vida a partir do momento em que o material é descartado, visando tornar a abordagem mais útil
e compreensível.
No caso da reciclagem, a metodologia USEPA computou as emissões relacionadas com
o uso da energia e transportes, além das não energéticas, comparando as emissões decorrentes
do uso de insumos virgens em relação aos insumos reciclados. No caso do papel, considerou o
carbono sequestrado pelas florestas poupadas de corte em decorrência do uso de celulose
reciclada em substituição à virgem.
As emissões de energia de processo consistem principalmente de CO2 proveniente da
queima de combustíveis utilizados na extração e processamento das matérias-primas e no
processo de fabricação. As emissões de CO2 provenientes da queima de biomassa, pela origem
biogênica, não são contabilizadas como emissões de GEE. A maioria das emissões dos
processos resulta da combustão direta, a exemplo da operação de equipamentos de mineração
ou alimentação de alto-fornos. Os combustíveis também são necessários para a extração do
13
A planilha WARM é disponibilizada pela U.S. EPA (http://epa.gov/epawaste/conserve/tools/warm/index.html).
112
petróleo ou do carvão usados para a produção de energia. Para a estimativa da energia de
processo, primeiramente é estimada a quantidade total de energia do processo utilizado para a
produção de uma tonelada de produto, os tipos e a quantidade de combustíveis consumidos.
Após, os fatores de emissão de cada tipo de combustível são utilizados para converter o
consumo em emissões.
A maioria dos materiais considerados na metodologia USEPA (2006) foi modelada sob
a premissa do ciclo fechado, onde o material do produto descartado é utilizado para a produção
de um mesmo produto, como a embalagem PET utilizada para a produção de outra embalagem
PET. Somente alguns tipos de materiais celulósicos tiveram análise em ciclo aberto. Esta
premissa resultou em uma limitação para os resultados, pois diversos recicláveis são utilizados
em ciclo aberto.
As estimativas das emissões relativas aos transportes das matérias-primas e produtos
prontos foram baseadas nas: (i) quantidades de matérias-primas e produtos intermediários
utilizados na fabricação de uma tonelada de cada material; (ii) a distância média de transporte
de cada matéria-prima ou produto intermediário de fabricação e o transporte do produto
acabado até o varejista; (iii) os meios de transporte e os combustíveis utilizados em cada caso; e
as emissões relacionadas com cada tipo de combustível utilizado.
As estimativas das emissões associadas com a energia (de processo e transportes) foram
baseadas no mix americano de fontes de energia. No entanto, por conservadorismo, as emissões
atribuíveis à reciclagem (processo e transportes) foram consideradas como de fontes fósseis.
As emissões não energéticas decorrem de três fontes adicionais de GEE nos processos
de fabricação: (i) a conversão de calcário (CaCO3) em cal (CaO) resulta na emissão de CO2. A
cal é utilizada na produção de alumínio, aço e, em menor grau, no papel de escritório; (ii)
emissões de CH4 pelos dutos e no processamento do gás natural estão associadas à fabricação
de produtos plásticos; e (iii) PFCs (CF4 e C2F6) são emitidos durante a fundição do alumínio.
Para estimar as emissões, USEPA (2006) utiliza dois cálculos: num considera as
emissões das matérias-primas com a manufatura utilizando 100% de insumos virgens e 100%
de insumos reciclados; em outro, pondera os níveis à época (2003) de uso de materiais
recicláveis pelas indústrias americanas, visando obter a situação de linha de base.
Exemplificando: para o caso das latas de alumínio, a indústria americana utilizava 51% de
insumos reciclados e 49% de insumos virgens. A análise encontrou 3,53 TMCE/Ton14 para as
14
A TMCE (tonelada métrica de carbono equivalente) considera apenas a massa de carbono das moléculas CO 2.
Equivale a 12/44 ou 0,27) da TMCO2e. Ton – utilizado por USEPA – corresponde à medida tonelada curta short ton - que equivale a 907,18474 kg.
113
emissões decorrentes de consumo de energia e geradas pelos transportes pelo uso de 100% de
insumos virgens e de 0,28 TMCE/Ton emitidos, para as mesmas condições, pelo uso de 100%
de insumos reciclados. Para as emissões não energéticas do processo de fabricação, estimou em
0,73 TMCE/Ton para insumos 100% virgens e 0,02 TMCE/Ton para insumos 100% reciclados.
Portanto as estimativas das emissões totais da produção do alumínio foram de 4,27 TMCE/Ton
se utilizados 100% de insumos virgens e 0,30 TMCE/Ton se utilizados 100% de insumos
reciclados; e de 2,24 TMCE/ton pelo nível de uso de recicláveis à época15.
Quando o material é recuperado para reciclagem, uma parte é perdida durante o
processo de reciclagem e outra posteriormente, no processo de manufatura. Geralmente menos
de uma tonelada de material novo é feita a partir de uma tonelada de material descartado. A
Tabela 15 apresenta estas perdas, em forma de taxas, para os recicláveis de interesse deste
estudo e mostra suas participações, em proporção, na composição de uma tonelada de produto
comercializável.
Tabela 15 – Taxas de perdas de materiais na reciclagem
Reciclável
Parcela aproveitada
Tonelada de
na reciclagem (a)
produto produzido
por tonelada de
reciclável (b)
Latas de alumínio
100
0,93
Latas de aço
100
0,98
Mix de plásticos
90
0,86
Papéis Papelões
100
0,93
Revistas
95
0,71
Jornais
95
0,94
Papel de escritório
91
0,66
Vidros
90
0,98
Fonte: USEPA, 2006, p. 36, adaptado pelo Autor
Tonelada de produto
produzido por
tonelada descartada
(c = a * b)
0,93
0,98
0,78
0,93
0,67
0,90
0,60
0,88
As reduções de emissões associadas à manufatura pela utilização de insumos reciclados
são apresentadas pela diferença entre as emissões da fabricação utilizando insumos virgens e a
mesma produção a partir de insumos reciclados. As emissões associadas ao transporte e
beneficiamento dos recicláveis nas UTs são contadas na etapa de manufatura. Os resultados da
análise de USEPA (2006) estão apresentados na Tabela 16.
A Tabela 16 apresenta a diferença nas emissões pelo uso de 100% de insumos
virgens e de 100% de insumos reciclados, consideradas quatro fontes de reduções: energia,
transportes, emissões não energéticas e o sequestro de carbono pelas florestas. Os resultados
15
As estimativas de linha de base adotadas por USEPA (2006), por referirem-se às condições americanas, não
são destacadas neste estudo.
114
apresentados estão ponderados pelas taxas de perdas com o uso dos reciclados, conforme a
Tabela 15. A título de exemplificação, tomando-se novamente o caso das latas de alumínio e os
valores em TMCE/Ton, tem-se que USEPA (2006) havia encontrado 4,27 para as emissões
utilizando-se 100% de insumos virgens e 0,30 com 100% de insumos reciclados. Esta diferença
(3,97) deduzida da taxa de perda (93%), resulta nos 3,7016 informados na Tabela 11. O misto de
papéis apresentado na Tabela 11 pode ser tanto o amplo como o residencial, pois os valores
encontrados foram os mesmos. No caso do misto de escritório o resultado (não exposto na
Tabela 11) foi menor – total de -0,93 TMCE/Ton – porque a produção de papéis de escritório a
partir de reciclados é mais intensiva em energia do que a produção com celulose virgem,
resultando em diferença positiva (+ 0,06).
Tabela 16 – Reduções de emissões pelo uso de reciclados versus insumos virgens
Material
Reduções na Reduções na
Reduções
Sequestro
Total
energia de
energia dos
pelas
de carbono (a + b + c + d)
processo
transportes
emissões
pelas
(a)
(b)
não
florestas
energéticas
(d)
(c)
MTCE
/Ton
tCO2e
/t
MTCE
/Ton
tCO2e
/t
MTCE
/Ton
tCO2e
/t
MTCE
/Ton
tCO2e
/t
MTCE
/Ton
tCO2e
/t
-2,92 -11,92 -0,12 -0,49 -0,66 -2,69 0,00 0,00 -3,70 -15,11
L. alumínio
-0,48
-1,96 -0,01 -0,04 0,00 0,00 0,00 0,00 -0,49
-2,00
L. aço
-0,34
-1,39 0,00 0,00 -0,04 -0,16 0,00 0,00 -0,38
-1,55
PEAD
-0,42
-1,71 0,00 0,00 -0,04 -0,16 0,00 0,00 -0,46
-1,88
PEBD
-0,40
-1,63 0,00 0,00 -0,02 -0,08 0,00 0,00 -0,42
-1,71
PET
0,00
0,00 -0,01 -0,04 0,00 0,00 -0,83 -3,39 -0,85
-3,47
Papelões
00,0
0,00 0,00 0,00 0,00 0,00 -0,83 -3,39 -0,84
-3,43
Revistas
-0,20
-0,82 -0,01 -0,04 0,00 0,00 -0,55 -2,25 -0,76
-3,10
Jornais
0,06
0,24 0,00 0,00 0,00 0,00 -0,83 -3,39 -0,78
-3,18
P. escritório
-0,41 -0,03 -0,12 0,00 0,00 -0,83 -3,39 -0,96
-3,92
Misto de papéis -0,10
-0,03
-0,12 0,00 0,00 -0,04 -0,16 0,00 0,00 -0,08
-0,33
Vidros
Fonte: adaptado de USEPA, 2006, p.46
Nota: a conversão de MTCE/Ton para tCO2e/t foi realizada pelo Autor: tCO2e/t = MTCE/Ton / 0,27 *
(1000 / 907,18474 )
Os valores apresentados na Tabela 16 relativos ao sequestro de carbono pelas florestas
(d) resultaram das estimativas do efeito incremental da reciclagem sobre a preservação das
florestas e suas consequências no estoque florestal de carbono, obtidos através de um modelo
chamado FORCARB II. USEPA (2006) encontrou que o aumento da reciclagem dos produtos
de papel implicou em armazenamento adicional de carbono pelas florestas de cerca de 0,55
MTCE/Ton no caso das fibras recuperadas por processos mecânicos e de 0,83 MTCE/Ton no
16
Não exatamente em função dos arredondamentos nos cálculos.
115
caso das fibras recuperadas por processos químicos. Apesar das limitações e incertezas
relacionadas à modelagem, expostas naquele estudo, aqueles autores concluiram que o
resultado obtido fornece uma aproximação razoável dos efeitos que o aumento na recuperação
de papéis teria sobre estoques florestais de carbono.
USEPA (2006) relacionou algumas das limitações da sua metodologia: (i) uso de
diversas abordagens analíticas e fontes de dados, cada uma com suas próprias limitações; (ii) a
própria USEPA concebeu e aplicou suas hipóteses de análise; e (iii) os dados de entrada e de
saída da análise são apresentados como pontuais, sem tratamento estatístico da incerteza.
Considera que, por estas limitações, seria inadequado o emprego dos resultados da pesquisa em
mercados mandatórios, mas acredita que os resultados são suficientemente confiáveis para uso
em programas de voluntariado.
Além destas limitações, USEPA (2006) cita outras para o caso da reciclagem: (i) a não
inclusão na análise dos impactos nas emissões decorrentes dos resíduos industriais,
particularmente do lodo produzido na fabricação do papel; (ii) as diferenças nas taxas de perda
em função das variações na eficiência dos processos de beneficiamento dos recicláveis nas
UTs; (iii) a não consideração no estudo dos aumentos nas demandas dos produtos pela redução
dos preços em decorrência da maior participação de reciclados na manufatura; (iv) e a já
mencionada questão da modelagem ter assumido como de ciclo fechado a reciclagem de todos
os materiais, exceto papel misto, não refletindo plenamente a prevalência e diversidade da
reciclagem em ciclo aberto.
Os fatores apresentados por USEPA (2006) podem ser utilizados de forma comparativa
entre alternativas da GIRS. Por exemplo, a não utilização da reciclagem implica em maior
utilização de aterros, com as emissões decorrentes desta condição. A Tabela 17 apresenta o
resultado das reduções de emissões para a hipótese dos recicláveis serem direcionados a aterros
sem captura e queima do gás do aterro. Mostra também as diferenças de emissões entre gerar o
resíduo e após reciclá-lo, e a não geração, também comparativamente à disposição em aterro
sem captura e queima de gás.
Observa-se que as emissões na coluna (c) mostraram-se pouco relevantes para revistas e
negativas para jornais. Tal fato decorre do balanço de carbono do aterro: (i) teor inicial de
carbono; saídas de carbono nos gases e lixiviados; e o carbono residual armazenado no aterro 17.
Nos casos citados a parcela de carbono residual é mais relevante.
17
A parcela de celulose que se decompõe varia com as condições do aterro.
116
Tabela 17 – Reduções de emissões pela redução na fonte (não geração) e a reciclagem
comparativamente ao aterramento sem queima do biogás
Material
Redução na
Fonte
(100%
de insumos
virgens)
(a)
MTCE
/Ton
tCO2e
/t
Uso de
reciclados
versus insumos
virgens
(b)
Emissões
pelos aterros
sem captura
de gás(*)
(c)
MTCE
/Ton
MTCE
/Wet
Ton
tCO2e
/t
tCO2e
/t
úmida
Redução na
fonte
versus
aterramento
(a – c)
MTCE
/Ton
tCO2e
/t
Reciclagem
versus
aterramento
(b- c)
MTCE
/Ton
tCO2e
/t
-4,28 -17,47 -3,70 -15,11 0,01 0,04 -4,29 -17,51 -3,71 -15,15
L. alumínio
-1,02
-4,16 -0,49
-2,00 0,01 0,04 -1,03
-4,21
-0,5
-2,04
L. aço
-0,55
-2,25 -0,38
-1,55 0,01 0,04 -0,56
-2,29 -0,39
-1,59
PEAD
-0,65
-2,65 -0,46
-1,88 0,01 0,04 -0,66
-2,69 -0,47
-1,92
PEBD
-0,60
-2,45 -0,42
-1,71 0,01 0,04 -0,61
-2,49 -0,43
-1,76
PET
-2,32
-9,47 -0,85
-3,47 0,41 1,67 -2,73 -11,15 -1,26
-5,14
Papelões
-2,36
-9,64 -0,84
-3,43 0,04 0,16
-2,4
-9,80 -0,88
-3,59
Revistas
-1,39
-5,67 -0,76
-3,10 -0,13 -0,53 -1,26
-5,14 -0,63
-2,57
Jornais
-2,79 -11,39 -0,78
-3,18 1,05 4,29 -3,84 -15,68 -1,83
-7,47
P. escritório
-0,19
-0,78
-0,08
-0,33
0,01
0,04
-0,2
-0,82
-0,09
-0,37
Vidros
Fonte: USEPA, 2006, p.46, adaptado pelo Autor
Notas: a conversão de MTCE/Ton para tCO2e/t foi realizada pelo Autor: tCO2e/t = MTCE/Ton / 0,27
* (1000 / 907,18474 ). (*) Inclui o transporte, as emissões de gás de aterro e lixiviados e a parcela de
carbono que fica sequestrada no aterro.
A revisão da literatura permite confrontar os resultados de USEPA (2006) com outras
publicações. Smith et al. (2001) realizaram estudo para a Comissão Europeia avaliando os
impactos das opções de gestão de RSU para as mudanças climáticas, abrangendo quinze
estados membros e o horizonte de tempo dos anos entre 2000 e 2020, utilizando bancos de
dados disponibilizados por BUWAL 250 Data Set (1998), EEA (1999) e Environment
Agency/Chem Systems life cycle inventory (1997). Sintetizaram os resultados da comparação
das reduções de emissões pelo uso de insumos virgens e reciclados em forma de fatores. Estes
fatores estão informados na Tabela 18, de forma comparativa com USEPA (2006).
Em quatro artigos publicados pelo periódico Waste Management & Research, em 2009,
pesquisadores dinamarqueses utilizaram diversas fontes secundárias, inclusive USEPA (2006) e
Smith et al. (2001), para avaliar a contribuição da reciclagem de embalagens de metais,
plásticos, papéis e vidros para a redução do aquecimento global. Também aqueles resultados
estão expostos na Tabela 18 de forma comparativa com USEPA (2006).
A Tabela 18 mostra, à montante, as emissões relativas à coleta e transporte dos
recicláveis; nas UTs, pelas atividades de separação e beneficiamento18 dos materiais para envio
18
Nos estudos dinamarqueses as operações de beneficiamento realizadas pelas UTs incluem a limpeza e
beneficiamento dos materiais recicláveis de modo que possam ser prontamente utilizados pela indústria. No
caso dos plásticos inclui a extrusão e pelletização.
117
à indústria; à jusante, as emissões decorrentes da substituição dos insumos virgens por
reciclados. As emissões à montente e nas UTs, expostas em kgCO2e/t, são significativamente
modestas quando comparadas às reduções decorrentes da substituição dos insumos, expostas
em tCO2e/t. No geral, encontraram dificuldades nas comparações em função da ampla variação
nas emissões decorrentes das diferenças nas tecnologias empregadas, resultando em
divergências nos dados de produção; diversidade de fontes de energia e combustíveis utilizados
nas etapas da ACV consideradas na análise; e os parâmetros de modelamento da ACV
escolhidos. Especialmente no caso dos papéis, os resultados são altamente dependentes dos
dados de energia utilizados e dos cálculos do carbono sequestrado pelas florestas. Conforme
destaca Marrild et al. (2009), é necessário avaliar cuidadosamente a aplicabilidade dos dados
encontrados para o sistema específico no qual serão utilizados.
Tabela 18 – Comparação de estudos sobre as reduções de emissões pela reciclagem
Reciclável
Smith et al. USEPA(2006)
Diversos (1)
(2001)
(tCO2e/t)
À montante
UTs
À jusante
(tCO2e/t)
(kgCO2e/t)
(kgCO2e/t)
(tCO2e/t)
L. Alumínio
-9,07
-15,11
6 a 45,8
6,8
-5,04 a -19,34
L. Aço
-1,49
-2,00
6 a 45,8
6,8
-0,56 a -2,36
PEAD
-0,49
-1,55
2,5 a 548
0 a 60
-1,05 a -1,57 (2)
-0,84 a -1,26 (3)
PEBD
n.d.
-1,88
n.d.
n.d.
n.d.
PET
-1,76
-1,71
n.d.
n.d.
n.d.
Papéis
-0,60
-3,92
1,3 a 29
2,7 a 29
-1,85 a - 4,39
Vidros
-0,25
-0,33
1 a 19
0 a 10
-0,44 a -0,51
Fonte: elaboração do Autor
Notas: n.d. = dados não disponibilizados. (1) metais: Damgaard et al.(2009); plásticos: Astrup et
al.(2009); papéis: Merrild et al.(2009); e vidros: Larsen et al.(2009). (2) com 0% de perda de material
por falta de qualidade. (3) com 20% de perda de material por falta de qualidade.
Os fatores de reduções de emissões de GEE pela reciclagem apresentados na Tabela 16
serão utilizados nas estimativas deste estudo, tanto em nível nacional como local.
3.2 Metodologia CDM AMS-III.AJ
A metodologia CDM AMS-III.AJ foi escolhida pelos seus componentes analíticos e
mercadológicos. Ao tempo em que permite um maior contato com a construção de
metodologias de medição de emissões, enseja a possibilidade concreta da elaboração de projeto
118
CDM visando créditos de carbono. Como as metodologias CDM são aceitas em outras
certificadoras, como a VCS, abre-se a possibilidade de acesso dos recicladores a outros
mercados de carbono além do CDM.
O desenvolvimento de metodologias visando quantificar as reduções de emissões pelo
aproveitamento de reciclados é um processo complexo, para o qual são úteis os princípios da
ACV. Um elemento comum a todas as metodologias é a necessidade de definir um cenário de
referência ou base, normalmente a situação atual, ou seja, as emissões que estão ocorrendo na
ausência das melhorias de projeto. Para projetos de reciclagem, a linha de base é a taxa de
recuperação dos materiais-alvo sob as condições existentes. A adicionalidade constitui-se num
segundo elemento básico e visa mostrar a contribuição do novo projeto em relação à situação
pré-existente (PETERSON; GODIN, [2009]).
Em 2009 o Banco Mundial propos à UNFCCC uma nova metodologia com o objetivo
de embasar projeto visando a obtenção de Certified Emission Reductions (CERs) pelos serviços
ambientais relativos às reduções de emissões proporcionadas pela argentina Coordinación
Ecológica Area Metropolitana Sociedad del Estado (CEAMSE), empresa com oito plantas de
reciclagem em Buenos Ayres. Em 2010 o EB aprovou a metodologia AMS-III.AJ, entitulada:
recuperação e reciclagem de materiais provenientes de resíduos sólidos. Este tópico analisa os
aspectos técnicos da metodologia na sua versão 4, válida a partir de 7 de dezembro de 2012
(UNFCCC, 2012a).
Inicialmente, para que a submissão do projeto ao CDM tenha sucesso, é necessária a
demonstração da adicionalidade da atividade de projeto. A ferramenta proposta pelo CDM para
esta demonstração é do tipo passo-a-passo, podendo ser aplicada em ampla gama de projetos,
com ajustes para contemplar as peculiaridades de cada situação individual. A Figura 12 mostra
os passos comuns utilizados para esta demonstração.
Em última análise, o objetivo da ferramenta de adicionalidade é demonstrar a
relevância das receitas do mercado de carbono para a viabilidade do projeto em estudo, no
sentido da redução dos obstáculos financeiros (Etapa 2) ou de outras barreiras (Etapa 3). A
adicionalidade é pré-requisito para a aprovação dos projetos. Caso satisfeita a adicionalidade,
os projetos podem ser elaborados e encaminhados para a análise da Autoridade Nacional
Designada (AND), papel desempenhado no Brasil pela Comissão Interministerial de Mudança
Global do Clima (CIMGC), vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação
(MCTI). As fases percorridas pelos projetos até a obtenção dos CERs estão descritas no Quadro
11.
119
Figura 12 – Etapas para verificação da adicionalidade de projeto CDM (MDL)
Fonte: Japão, 2006, p.58.
Quadro 11 – Ciclo dos projetos no CDM
Fase
Descrição
1 Elaboração do
Além da justificativa para a adicionalidade, o DCP deve incluir a descrição
documento de
das atividades de projeto; os participantes da atividade; a metodologia da
concepção de
linha de base; as metodologias para cálculo das reduções de emissões; o
projeto (DCP)
plano de monitoramento; a definição do período de obtenção dos CERs; o
relatório de impactos ambientais; comentários dos atores; e informações
quanto à utilização de fontes adicionais de financiamento
2
Validação
Corresponde ao processo de avaliação do DCP pela AND
3
Aprovação
As ANDs das partes envolvidas confirmam a participação voluntária e a AND
do país onde serão implementadas as atividades de projeto atesta que a
atividade contribui para o desenvolvimento sustentável daquele país. No
Brasil esta contribuição é analisada segundo critérios de distribuição de
renda, sustentabilidade ambiental local, condições de trabalho e geração de
emprego, capacitação e desenvolvimento tecnológico, integração e
articulação regional
4
Registro
É aceitação formal do projeto pelo CDM
5
Monitoramento
Inclui o recolhimento e armazenamento de todos os dados necessários para o
cálculo das reduções, de acordo com a metodologia estabelecida no DCP
6
Verificação/
certificação
É o processo periódico de auditoria para revisar os cálculos acerca das
reduções, com o intuito de verificar quais efetivamente ocorreram
7
Emissão dos
CER
Os CER são emitidos pelo CDM e creditados aos participantes de uma
atividade de projeto na proporção por eles definida
Fonte: elaboração do Autor a partir de BRASIL, 2008a.
120
Para a obtenção dos CERs, na última etapa do ciclo do DCP, a AND envia à
UNFCCC/CDM o relatório de certificação, que autoriza a emissão dos CERs equivalentes às
reduções de GEE certificadas. A partir de então, as posses, transferências e aquisições dos
certificados serão acompanhadas e registradas por meio de sistemas computadorizados de
registro, no país de origem e no International Transaction Log (ITL) da UNFCCC. O tempo de
validade de um CER pode ser de dez anos corridos ou sete anos, renováveis duas vezes,
totalizando até vinte e um anos, conforme estabelecido no PQ, ponderadas as características de
cada projeto (UNFCCC, 2011).
A metodologia AMS-III.AJ é simplificada, utilizada em projetos classificados como de
pequena escala, assim enquadrados os projetos que preveem reduções de até 60 ktCO2e ano-1.
As metodologias simplificadas normalmente são menos trabalhosas e mais fáceis de aplicar,
resultando na redução dos custos de transação. A Tabela 19 apresenta estimativas de custos
incidentes sobre projetos de grande e pequena escala.
Tabela 19 – Custos associados aos projetos no CDM, em US$
Natureza
Pequena escala
Grande escala
Seleção e avaliação de
De 3.000 a 21.000
De 3.000 a 29.000
um projeto
Desenvolvimento do
De 3.800 a 25.000
De 6.500 a 120.000
DCP
Aprovação pelo país
Normalmente não é cobrada
anfitrião
Negociação de contrato
De 1.500 a 26.000
De 5.000 a 63.700
e custos jurídicos
Validação
De 3.800 a 20.000
De 6.000 a 80.000
Registro
Equivale à parcela das receitas relativa à média anual esperada de redução
de emissões da atividade do projeto ao longo do período de obtenção de
créditos (máximo de US$ 350.000)
Verificação/certificação
De 3.800 a 23.000
De 10.000 a 50.000
Emissão de CER
 Parcela das receitas para cobrir os custos de adaptação: 2% dos CER
emitidos
 Parcela das receitas para cobrir as despesas administrativas:
a. US$ 0,10 por CER referente as primeiras 15.000 t CO2e cuja emissão
seja solicitada em um determinado ano civil
b. US$ 0,20 por CER referente a qualquer quantidade acima de 15.000 t
CO2e cuja emissão seja solicitada em um determinado ano civil
Fonte: JAPÃO, 2006, p.26
A ponderação de custos é relevante, especialmente se considerado que a metodologia
em estudo contempla apenas os materiais plásticos constituídos de PEAD, PEBD, PET e PP,
reciclados a partir dos RSU e transformados em novos produtos; e considera apenas a redução
de energia pela utilização de polímeros reciclados em substituição aos polímeros virgens. Pode
121
contemplar também as emissões evitadas na geração de metano em aterros por conta do
reaproveitamento de papéis e papelões pela reciclagem, se a prática corrente (etapa 4 da
adicionalidade) for o aterramento (UNFCCC, 2012a).
O CDM aceita que uma política local/regional/nacional possa ser apresentada como
uma atividade de projeto no âmbito do programa de atividades chamado Programme of
Activities (PoA). Pelo PoA pode ser registrado no CDM um único projeto, desde que aprovada
a linha de base, monitoramento e respeitados os demais normativos. O PoA funciona como um
projeto “guarda-chuva”: uma vez registrado o PoA, um número ilimitado de atividades de
novos projetos de mesmo escopo podem ser anexados a ele. Sob um PoA é possível o registro
de ações voluntárias e coordenadas de implementação de políticas que levem à redução de
emissões, a exemplo da reciclagem. Comparada aos projetos normais, a abordagem
programática tem muitos benefícios, especialmente para os países menos desenvolvidos, pela
simplificação no fluxo dos projetos e redução nos custos de transação. Segundo a UNFCCC,
desde o lançamento, em 2007, estão ocorrendo ajustes no PoA para atender necessidades
específicas dos participantes (BRASIL, 2013a).
Conforme demonstrou a Tabela 14 (pg. 105), até dezembro de 2012 nenhum projeto
relativo à metodologia AMS-III.AJ foi aprovado, nem mesmo o proposto pelo Banco Mundial,
que deu origem à metodologia. A Figura 13 demonstra esquematicamente o cenário de linha de
base e o cenário projetado da metodologia.
Figura 9 – Cenário de linha de base e projetado da metodologia CDM AMS-III.AJ
(a) Cenário de Linha de Base
122
(b) Cenário projetado
Fonte: UNFCCC, 2012c, p.219
Na parte (a), a Figura 13 ilustra o cenário de linha de base, onde os RSU são dispostos
em aterros e as indústrias de artefatos de plástico utilizam combustíveis, energia elétrica e
matérias-primas derivadas do petróleo (feedstock) utilizados na produção dos polímeros virgens
abrangidos pela metodologia: PEAD, PEBD, PET e PP, resultando em emissões de CO2. A
parte (b) mostra o cenário de projeto, onde os produtos contendo plásticos são reciclados e
aproveitados pela indústria manufatureira em substituição aos polímeros virgens, resultando em
menores emissões.
Esta seção contempla aspectos técnicos genéricos da metodologia. Os aspectos relativos
às condições de aplicabilidade e monitoramento serão discutidos quando da sua aplicação ao
estudo de caso, no capítulo 4.
A metodologia AMS-III.AJ pode ser aplicada em duas situações: na primeira (Caso A)
a Unidade de Triagem (UT)19 é operada pelo setor informal de recicladores e na segunda (Caso
B) a UT é operada pelo setor formal – empresas que visam lucro. Estão incluídas neste caso as
empresas que compram reciclaveis do setor informal e não permitem a participação do setor
informal na sua organização e gestão. Esta análise prioriza os aspectos normativos direcionados
ao Caso A – setor informal – devido ao estudo estar voltado ao setor informal (UNFCCC,
2012a).
A metodologia de linha de base esta formatada em cinco partes: (1) limites físicos e
19
Pela metodologia AMS-III.AJ – Caso A – o beneficiamento dos recicláveis plásticos – separação por tipo,
lavagem, peletização, etc. – deve ser realizado na própria UT ou sob seu controle direto.
123
geográficos; (2) emissões de linha de base; (3) leakage; (4) emissões da atividade de projeto;
(5) cálculo das reduções de emissões (UNFCCC, 2012a).
Os limites físicos e geográficos são: (i) os pontos de coleta de resíduos (por exemplo,
coleta
porta-a-porta);
(ii)
a
unidade
de
triagem
(UT);
(iii)
a
instalação
de
manufatura/fabricação; (iv) os polímeros virgens; (v) o local de aterramento.
As emissões de linha de base da metodologia incluem as emissões associadas com o
consumo energético para a produção de polímeros virgens e podem incluir as emissões
associadas com a digestão anaeróbica dos papéis e papelões em aterros. Caso estas reduções
sejam reivindicadas, o CDM orienta a aplicar a ferramenta “Emissions from solid waste
disposal sites” (UNFCCC, 2012a).
As emissões de linha de base para a produção de polímeros virgens de um tipo genérico
i são calculadas a partir da Equação 1.
BE y  [Qi,y x Li x ( SEC Bl,i x EFel , y  SFC Bl,i x EFFF ,CO2 )]
(1)
i
Onde:
BEy
Emissões de linha de base em um ano (tCO2e/ano)
i
i = 1,2,3,4 (1=PEAD, 2=PEBD, 3=PET, 4=PP)
Qi,y
Quantidade de plástico do tipo i reciclado em um ano (t/ano)
Li
Estabelecido fator de 0,75 como ajuste para cobrir a degradação na qualidade do
material e perda de material no processo de produção pela utilização de material
reciclado
SECBl,i
Consumo específico de eletricidade para a produção de i (MWh/t): considera-se,
conservadoramente, que o consumo elétrico para a polimerização é de 0.83 MWh/t
(3 GJ/t) e 1.67 MWh/t (6 GJ/t) para o PEAD e PEBD, respectivamente; 1.11
MWh/t (4.0 GJ/t) para o PET e 0.56 MWh/t (2.0 GJ/t) para o PP.
EFel,i
Fator de emissão da matriz de geração elétrica (tCO2/MWh): calculado utilizandose a versão mais recente de “tool to calculate emission factor for an electricity
system”(UNFCCC, 2013d).
SFCBl,i
Consumo de combustível para a produção de material virgem tipo i (GJ/t):
considera-se que o craqueamento térmico utiliza gás natural, com consumo
energético de 15 GJ/t para o PEAD, PEBD e PET; e 11.6 GJ/t de PP.
EFFF,CO2 Fator de emissão do combustível fóssil (tCO2/GJ)
O fator de emissão da matriz de geração elétrica (EFel,i) é calculado em nível de país e
determina o fator médio de emissão de CO2 pelo sistema de usinas de geração elétrica, para
cada MWh gerado. Seu valor resulta da combinação dos fatores de emissão das usinas
existentes e das que ainda estão em construção. Este estudo adota o valor encontrado pelo
124
projeto CDM de Usina Eolica Acaraú I, da empresa Energimp S.A., de 0,3941 tCO2e/MWh
(ENERGIMP, 2012).
Com relação ao fator de emissão de combustível fóssil (EFFF,CO2), este estudo usa o
default adotado por 2006 IPCC Guidelines for National Greenhouse Gas Inventories para o
diesel, combustível largamente utilizado nos transportes de carga brasileiros, de 0,0741
tCO2/GJ (IPCC, 2006).
As reduções de emissões (ER) obtidas pela atividade do projeto resultam da diferença
entre emissões de linha de base (BE) em relação às emissões do projeto (PE) e leakage (LE),
conforme a Equação 2 (UNFCCC, 2012a).
(2)
Onde:
ERy
Reduções de emissões em um ano (tCO2e)
BEy
Emissões de linha de base em um ano (tCO2e)
PEy
Emissões do projeto em um ano (tCO2e)
LEy
Emissões de leakage em um ano (tCO2e)
Leakage são as emissões associadas com a atividade de projeto que ocorrem fora dos
limites do projeto. Caso não estejam previstas emissões nestas condições a parcela de leakage
(LE) é nula.
As emissões de projeto (PE) incluem emissões pelo uso de energia na UT. As emissões
associadas ao transporte de materiais reciclaveis é considerada equivalente às emissões pelo
transporte de materiais virgens, sendo desconsideradas pela metodologia. Para os projetos do
Caso B as emissões do projeto são calculadas a partir da Equação 3, devendo o consumo de
eletricidade e combustíveis líquidos ser monitorado diretamente (UNFCCC, 2012a).
PE y   Qi , j x ( ECi , y x EFel , y  FCi , y x NCVFF x EFFF ,CO2 )
i
(3)
Onde:
Qi,y
Quantidade de cada tipo de plástico reciclada em um ano(t/ano)
EC i , y
Consumo de Energia da UT por tipo de plástico (MWh/t) em um ano
FCi , y
Consumo de combustível da UT por tipo de plástico (unidade de massa ou
volume/t) em um ano
125
NCVFF
Calor específico dos combustíveis utilizados na UT em um ano (GJ/unidade de
massa ou volume)
EFFF ,CO2
Fator local ou nacional de emissão de CO2 do combustível utilizado na UT
(tCO2/GJ) ou o valor default do IPCC
No caso de atividades do Caso A, quando as emissões do projeto forem calculadas
usando a Equação 3, as emissões pelo consumo de eletricidade e combustíveis líquidos (EC e
FC) podem ser estimadas com base nas especificações dos equipamentos, ponderado o tempo
médio de operação para cada reciclável. O consumo de eletricidade pode ainda ser baseado nas
medições das companhias de energia elétrica sob condições típicas de operação.
Alternativamente, pode ser utilizada a Equação 4 (UNFCCC, 2012a).
PE y   (Qi,y  SEC rec  EFel , y )
i
(4)
Onde:
SEC rec
Consumo de energia elétrica por tipo de polímero: 0,83 MWh/t (3 GJ/t) para
HDPE/LDPE/PET/PP
As emissões do projeto podem ser alocadas por unidade de massa de material
segregado pela UT, oportunizando a ponderação das emissões pelos preços de mercado dos
diversos tipos de plásticos, metais, materiais orgânicos, vidros, papéis, etc. Os preços de
mercado podem ser monitorados ex-post ou determinados uma vez para o período de crédito.
Esta regra pode ser aplicada somente se a informação dos preços for transparente e confiável.
Alternativamente, como uma abordagem conservadora, todas as emissões do projeto podem ser
distribuídas por plástico reciclado.
As Equações 5 e 6 podem ser usadas para alocar as emissões de projeto por unidade de
massa de cada material segregado (s) relativamente aos seus preços de comercialização
(UNFCCC, 2012a).
EC i , y  EC y 
Qi , y  $i , y
 [Q
s,y
 $s, y ]
s
FC i , y  FC y 
Qi , y  $i , y
 [Q
s,y
 $s, y ]
s
Onde:
S
(5)
(6)
Cada um dos materiais segregados na UT por tipo
126
EC y
Total consumido de eletricidade na UT no ano (MWh/ano)
FC y
Total de combustiveis fósseis consumidos na UT por ano (unidade de massa
ou volume/ano)
Qs,y
Quantidade de material por tipo s segregado na UT em um ano (t/ano)
$i, y
Preço de venda de cada tipo de plástico i em um ano
$ s, y
Preço de venda de cada tipo de material segregado na UT, incluindo plásticos,
em um ano
O protocolo de monitoramento é utilizado para o acompanhamento do desempenho do
projeto CDM. O pagamento das reduções de emissões ocorre com base nos resultados
verificados nas atividades de monitoramento, de modo que os projetos necessitam ser
criteriosos na coleta e armazenamento destes dados (PETERSON; GODIN, [2009]).
Os parâmetros objeto de monitoramento são os constantes do Quadro 12.
Quadro 12 – Parâmetros de monitoramento da metodologia AMS-III.EJ
Nº Parametro
Descrição
Unidade
Frequência de
monitoramento
1
2
Qs,y e Qi,y
3
ECy
4
FCy
5
$i,y e $s,y
6
RSU
t/ano
anual
Quantidade de cada
um dos materiais
segregados com
preço de mercado,
incluindo plásticos
tipo i e outros itens
comercializáveis,
como os orgânicos,
vidros, etc
Consumo de
eletricidade pela UT
no ano
Consumo de
combustível pela UT
no ano
Preço de venda do
plastico tipo i ou
material s no ano
t/ano
Registros na
hora do envio de
cada remessa
para a unidade
de manufatura
(UM)
MWh
Medição
contínua
Viscosidade
intrínsica do PET
MJ
$
Decilitros
/grama
(dL/g)
Conforme
informado nos
parágrafos
anteriores
Cada lote de
polimerização
Métodos e
procedimentos de
mensuração
Quantidade e distância de
transporte
Pesagem direta e registro
do peso, do cruzamento
com os registros da UM,
a exemplo de faturas.
Para o caso de plásticos
do tipo i, cruzar com a
massa de produtos
utilizados nas UM
Conforme informado nos
parágrafos anteriores
Peso ou volume &
densidade e valor
calorífico
Checagem das faturas
com o recebimento pelas
UM
Teste de acordo com a
ASTM D 4603 “Standard
test method for
determining Viscosity of
Polyethylene
Terephthalate”
Fonte: elaborado pelo Autor a partir de UNFCCC (2012a)
127
Esta seção analisou a versão de dezembro de 2012 (4.0) relativa à única metodologia
atualmente aceita pelo CDM (e por certificadoras de outros mercados que aceitam as
metodologias CDM) ao alcance do setor informal de reciclagem. A discussão da ferramenta
será enriquecida quando da sua utilização no estudo de caso, no capítulo 4. Não obstante, em
face das limitações de escopo da metodologia analisada, pode-se perceber que há espaço para a
inclusão de outros recicláveis – como alumínio, aço e vidros, além do uso de papéis em
substituição à celulose virgem – de modo a ampliar o pagamento pelos serviços climáticos
proporcionados pela atividade de reciclagem.
Tanto as metodologias USEPA (2006) como UNFCCC (2012a) consideram apenas os
aspectos técnicos relacionados às estimativas de reduções de emissões de GEE pela reciclagem.
A metodologia Carbono Social, apresentada na próxima seção, possibilita o acompanhamento
dos impactos sociais relacionados à implementação de projetos voltados aos mercados de
carbono.
3.3 Metodologia do Carbono Social
A Metodologia do Carbono Social (MCS) foi desenvolvida pelo Instituto Ecológica
como forma de acompanhar a evolução social de projetos relacionados a créditos de carbono
(SANTOS, 2008). Sua aplicação em projetos de créditos de carbono relacionados à reciclagem
exige adaptações, pois sua formatação está voltada para o acompanhamento das repercussões,
nas pequenas comunidades rurais, da implantação de projetos de florestamento, haja vista a
origem em projeto socioambiental realizado na Ilha do Bananal, no Estado do Tocantins
(REZENDE; MERLIN, 2003).
A MCS pode ser aplicada conjuntamente ao projeto de reduções de emissões pela
reciclagem registrado nos mercados de carbono, regulados ou voluntários, onde o controle da
destinação dos recursos pode ser um dos componentes do monitoramento da evolução do
processo como um todo.
A construção de indicadores ao abrigo dos conceitos presentes na Metodologia do
Carbono Social (MCS) permite o acompanhamento da evolução socioeconômica (interna) de
atividades locais – incluída a reciclagem – pois, entre as suas características estão: a
valorização do potencial e dos recursos das pessoas; ser participativa, holística, dinâmica e
128
flexível; ser voltada para a solução de problemas e a busca da sustentabilidade; buscar a
inclusão social e reconhecer as relações de poder e o contexto político (SANTOS, 2008).
Rezende e Merlin (2003) destacam duas virtudes da MCS como ferramenta para avaliar
os benefícios sociais de projetos de mudança climática: o uso de técnicas participativas e por
propiciar a conexão analítica entre os capitais naturais e sociais, além de permitir a avaliação de
políticas públicas. Apesar de ter sido idealizada para projetos de florestamento (sequestro de
carbono), a MCS pode ser aplicada em outras áreas e setores pois, além de indicadores de
sustentabilidade para os referidos projetos, possui aprovados parâmetros de acompanhamento
relacionados às indústrias de cerâmica, aterros sanitários, usinas hidrelétricas, eficiência
energética, compostagem e troca de combustível (SOCIALCARBON, 2013). A MCS pode ser
adaptada para a utilização no acompanhamento de programas ou políticas públicas relacionadas
à inserção da reciclagem nos mercados de carbono.
A MCS prevê inicialmente a identificação dos “recursos de sustentabilidade” mais
abrangentes. Sugere seis: o humano, o social, o natural, a biodiversidade, o financeiro e o
carbono. Pela metodologia, para cada um destes recursos (que sejam aplicáveis ao caso) são
escolhidas variáveis representativas, partindo-se da situação mais precária – uso insustentável
do recurso – até a mais adequada, estabelecendo-se pontos intermediários de controle. A
situação inicial é chamada de marco zero, e, na medida em que o projeto é implementado,
novas medições vão sendo chamadas de marco um, marco dois, e assim por diante. A evolução
é apresentada através de gráfico do tipo polar ou radar (SANTOS, 2008).
Esta metodologia será aplicada de forma exemplificativa ao estudo de caso, no próximo
capítulo, tópico 4.2.4.
129
4 ESTUDO DE CASO: A INSERÇÃO DA RECICLAGEM BRASILEIRA E DE PORTO
ALEGRE NOS MERCADOS DE CARBONO
Este capítulo visa conhecer e avaliar o potencial da reciclagem brasileira e portoalegrense para as reduções nas emissões de gases de efeito estufa e analisar a viabilidade
técnica, econômica e sociopolítica para o acesso da reciclagem brasileira, e em especial da
Coleta Seletiva de Porto Alegre, às receitas provenientes dos mercados de carbono.
4. 1 Estimativas relacionadas à reciclagem no Brasil
A partir de aspectos produtivos e mercadológicos relativos aos recicláveis abrangidos
por este estudo, esta seção procura estimar o alcance da reciclagem, atual e potencial, em nível
de País. As reduções de emissões são estimadas pela utilização da metodologia USEPA (2006)
e as avaliações econômicas com base em cenários.
4.1.1 A reciclagem das embalagens de alumínio
A importância da reciclagem do alumínio ganha força quando se olha para o árduo
fluxo de transformação do minério de bauxita em lingotes de alumínio primário, envolvendo
diversas etapas nas fases de mineração, beneficiamento, refinaria – fase do processo que
transforma a bauxita em alumina calcinada – e redução, que consiste na transformação da
alumina em alumínio metálico. Além da bauxita, o processo de refinaria utiliza cal, soda
cáustica, vapor, óleo combustível, floculante sintético, energia elétrica e água. O processo de
redução demanda alumina, criolita, fluoreto de alumínio, coque de petróleo, piche, óleo
combustível e energia elétrica. As sucatas – classificadas em vinte tipos diferentes – através de
processo de fundição e transformação em lingotes, podem ser reutilizadas infinitas vezes sem
que ocorra perda em suas características. No caso das latas de alumínio a reciclagem é
particularmente importante em face do curto ciclo consumo/reciclagem/novo consumo, da
ordem de 42 dias (ABAL, 2013a).
A partir de estatísticas e estimativas de consumo aparente 20, reciclagem pré-consumo,
reciclagem pós-consumo e mateiral aterrado, Brasil (2011) estimou em cerca da terça parte a
20
O consumo aparente é dado pelo somatório da produção com as importações, deduzidas as exportações.
130
quantidade de alumínio não descartado, correspondente à parcela do material utilizado em
produtos de ciclo de vida mais longo, como as esquadrias usadas na construção civil e nas
peças de automóveis. Esta parcela (terça parte) aproxima-se da parcela reciclada e da parcela
aterrada, também de uma terça parte cada.
Segundo IPEA (2010), a produção de uma tonelada de alumínio a partir de reciclados
resulta em uma economia de energia elétrica de 14,93 MWh. Com relação às matérias-primas,
implica na redução de 18,69 m3 de água, 10 toneladas de bauxita, além de outras como coque,
soda cáustica e piche. Evita também as poluições decorrentes do processo de fabricação:
cinzas e inertes, poluição da água e do ar.
No tocante às emissões de GEE, a Associação Brasileira do Alumínio (ABAL) e a
Fundação Espaço Eco encontraram na indústria brasileira uma “pegada de carbono” de 4,2
tCO2e por tonelada produzida de alumínio. Segundo aquela fonte, trata-se de um resultado
bastante inferior à média mundial, de 9,7 tCO2e, divulgada pelo International Aluminium
Institute (IAI). Segundo aqueles autores, a menor pegada de carbono brasileira é consequência
da matriz elétrica, pouco poluidora por ser predominantemente hídrica, e da utilização pela
indústria de modernos equipamentos de produção, além da significativa taxa de aproveitamento
de reciclados (ABAL, 2010).
O Brasil é o sétimo maior produtor de alumínio primário, precedido pela China, Rússia,
Canadá, Austrália, Estados Unidos e Índia. O setor apresentou, em 2011, o faturamento de US$
18,4 bilhões, equivalente a 0,7% do PIB brasileiro. Naquele ano a produção atingiu 1.440 mil t
de alumínio primário, com o consumo doméstico de transformados de alumínio situando-se em
1.452 mil t. Naquele ano foram exportadas 656 mil t e importadas 412 mil t do metal (ABAL,
2012a). Em parte, estas tonelagens foram viabilizadas pela recuperação das sucatas, que em
2011 foi de 511 mil t, representando 35,2% do consumo doméstico, superior à média mundial
de 28,3% (base 2010). Na reciclagem de latas de alumínio para bebidas, naquele ano o País
reciclou 248,7 mil t, equivalente a 98,3% da produção. Este desempenho é o melhor entre
países selecionados, superando mercados como o Japão (92,6%21), Estados Unidos (65,1%) e a
média europeia (66,7%22) (ABAL, 2013b; ABRALATAS, 2013).
Por tratar-se de setor intensivo no uso de capital, os segmentos deste mercado no Brasil
apresentam-se concentrados em poucas empresas, tanto na ponta inicial da cadeia, onde se
encontram as empresas extratoras e beneficiadoras da bauxita, produtoras de alumina e de
alumínio primário, como no segmento das empresas compradoras da sucata para a reciclagem.
21
22
Dado de 2010.
Dado de 2010.
131
Esta concentração de compradores se reflete no preço pago aos sucateiros: enquanto, na
segunda semana de agosto de 2012 a indústria de reciclagem pagava R$ 2.770,00 por tonelada
de latas de alumínio catadas (ABAL, 2012b), a tonelada do metal na London Metal Exchange
(LME) era cotada em US$ 1,820.00, equivalentes a R$ 3.640,00 na paridade cambial à época
(LME, 2012). Esta significativa diferença permite depreender que a indústria tem margem
negocial para melhorar a remuneração ao setor sucateiro, se exigida negocialmente.
4.1.2 A reciclagem das embalagens de aço
No processo de produção do aço, composto por uma liga de ferro e carbono, a primeira
etapa é chamada de redução, onde o minério de ferro é liquefeito em combinação com carvão
mineral ou vegetal, dando origem ao ferro gusa. A etapa seguinte, de refino, ocorre em fornos
de aciarias, pela transformação do ferro gusa em aço. A terceira fase é a da laminação em
chapas, bobinas, vergalhões, etc (INSTITUTO AÇO BRASIL, 2012b).
Em 2011 o parque produtor de aço no Brasil estava composto por 29 usinas
administradas por 11 grupos empresariais, com produção de 35,2 milhões t para uma
capacidade instalada de 47,8 milhões t/ano. O consumo aparente foi de 25,0 milhões de t.
Naquele ano o Brasil foi o 12º exportador mundial e o 5º se consideradas as exportações
líquidas. A construção civil, o setor automotivo e o setor de bens de capital têm participação
expressiva no consumo de produtos siderúrgicos. Dados de 2010 indicam que estes setores
representaram, juntos, mais de 79% do consumo total de aço. A participação do setor de
embalagens situava-se em 3,6% (em peso) do total (INSTITUTO AÇO BRASIL, 2012a e
2012b).
A exemplo do alumínio e vidro, o aço pode ser reciclado indefinidamente sem sofrer
degradação. Para tanto, as sucatas são levadas diretamente aos fornos das aciarias, com
múltiplas vantagens em relação ao uso do ferro gusa: redução em 85% da poluição do ar, 76%
na poluição da água e 40% no consumo de água; eliminação dos impactos das atividades de
mineração do ferro e do carvão; eliminação da queima do carvão vegetal; etc. (INESFA, 2012;
CALDERONI, 2003).
Brasil (2011) verificou que a maior parte do aço consumido não é descartada, mas
incorporada pela sociedade em bens de vida longa, como na construção civil e na indústria
automobilística. A proporção de aço aterrada é pequena em termos relativos, correspondendo a
uma parcela inferior a 10% do consumo aparente. Em termos absolutos é grande, pois a
132
quantidade de aço aterrada é equivalente à produção de alumínio no país, em peso. Apesar
disso, a taxa de reciclagem de aço é relevante: tomando-se como exemplo o ano de 2008, para a
produção das 33,8 milhões de toneladas de aço bruto no País foram utilizadas cerca de 10,2
milhões de toneladas de sucatas, correspondendo a 30,1% do total (ABEAÇO, 2012).
Considerando-se especificamente as embalagens de aço esta relação melhora devido ao
seu menor ciclo de vida em relação a outros usos, como na construção civil e indústria
automobilística, e a maior facilidade de coleta e envio para a reciclagem. Com base no ano de
2008, das 33,8 milhões de toneladas de aço produzidas no País, 575 mil foram destinadas à
produção de folhas de aço para embalagens. Sobre esta parcela o índice de reciclagem foi de
47% (ABEAÇO, 2012).
O nível brasileiro na reciclagem de embalagens de aço possui significativa margem
para evolução, pois a taxa média desta reciclagem na Europa em 2008 foi de 71%, elevando-se
para 72% em 2010, com países como Bélgica, Alemanha e Holanda reciclando 98%, 94% e
88%, respectivamente (APEAL, 2013).
Assim como a indústria do alumínio, o reduzido número de aciarias e siderúrguicas em
nível nacional caracterizam estruturas oligopolistas de mercado. Esta característica se reflete
em perda de barganha por preços pelos sucateiros. Esta situação fica evidenciada quando se
compara os preços praticados no mercado nacional com a cotação do aço no mercado
internacional: na segunda semana de agosto de 2012 os catadores estavam recebendo valores
entre R$ 140,00 e R$ 370,00 por tonelada de sucata, enquanto a mesma quantidade do metal
estava cotada em US$ 345.00 na LME, equivalentes a R$ 690,00 pela paridade cambial à época
(CEMPRE, 2012c; LME, 2012).
4.1.3 A reciclagem dos plásticos
A crescente utilização dos plásticos decorrente da frequente preferência de uso pelos
agentes econômicos, tanto de produção como consumo, em face das suas características, que
muitas vezes concilia aspectos como leveza, resistência, durabilidade, beleza e preço. A maior
produção e consumo faz com que sua particicipação na gravimetria dos RSU seja relevante,
apesar da menor densidade frente aos metais, papéis e vidros. Por outro lado, a produção dos
polímeros plásticos demanda elevado consumo energético; utilização de recursos naturais não
renováveis; além da emissão, tanto para produção como na decomposição, de substâncias com
propriedades cancerígenas. Sua demorada decomposição resulta em danos ao meio ambiente,
133
com prejuízos à fauna terrestre e aquática. No mar, as embalagens plásticas acompanham as
correntes marinhas e acumulam-se, formando ilhas. Provocam danos à fauna marinha,
principalmente pela ingestão (NUCCI, 2010).
A produção de polímeros plásticos tem como matéria-prima essencial as resinas
oriundas do petróleo. O setor de transformação de plásticos é parte integrante da cadeia
industrial petroquímica, composta por três gerações: a primeira geração é formada pelas
centrais petroquímicas, que produzem os produtos petroquímicos básicos, provenientes da nafta
e do etano, onde os principais são os monômeros de eteno, propeno, butadieno, benzeno,
tolueno e xileno. A segunda geração é formada pelas indústrias produtoras de resinas
termoplásticas: polietileno (PE), polipropileno (PP), poliestireno (PS), PVC, PET, etc. A
terceira geração é formada pelas empresas que transformam as resinas nos mais diversos tipos
de produtos acabados (DECOMTEC, 2009).
O consumo aparente de resinas termoplásticas no Brasil em 2011 atingiu 6.502 mil t,
com a participação do PP (25%), PEAD (21%), PVC (16%), PEBD (14,5%), PEBDL23 (8%),
PET (7%), PS (6%), EVA24 (2%), EPS25 (0,5%). Destas, 50,2% foram utilizadas em plásticos
de vida curta e 49,8% em plásticos de vida longa. Naquele ano as importações destas resinas,
de 1.771 mil t, superaram as exportações, de 1.433 mil t. Com base nestes parâmetros, a
produção brasileira de resinas em 2011 pode ser estimada em 6.164 mil t (ABIPLAST, 2011;
PLASTIVIDA, 2012).
A reciclagem de polímeros pode ser classificada em quatro categorias: primária,
secundária, terciária e quaternária. A reciclagem primária é pré-consumo, pela reintrodução do
polímero no processo industrial sem mistura com outros polímeros. A secundária é a
recuperação pós-consumo de polímeros, misturados ou não, entre os mais de 40 existentes no
mercado. Estas reciclagens ocorrem por processos mecânicos, onde os transformados são
classificados e moidos até a formação de grânulos. A reciclagem terciária ou química promove
a ruptura dos polímeros em níveis diferenciados: na decomposição back to oligomer os
polímeros ainda mantêm algum nível de cadeias atômicas; a decomposição back to monomer
promove a desagregação total dos polímeros dos recicláveis. A reciclagem quaternária ou
energética é o processo tecnológico de recuperação da energia de resíduos poliméricos por
incineração controlada (BROGNOLI, 2006; CEMPRE, 2012a).
Determinadas misturas de polímeros reciclados podem resultar incompatíveis entre si,
23
24
25
PEBDL: Polietileno de Baixa Densidade Linear
EVA: Etileno Vinil Acetato
EPS: Poliestileno Expansível (isopor)
134
ocasionando produtos de baixa qualidade. Para a diferenciação e classificação dos polímeros
recuperados podem ser utilizados testes de queima, cheiro da fumaça, aparência da chama,
temperatura de fusão e solubilidade ou pela interpretação de símbolos gravados durante o
processo de fabricação dos artefatos plásticos. A partir da introdução nos Estados Unidos em
1988, essas simbologias, apresentadas no Quadro 13, vêm sendo adotadas em diversos países, a
exemplo da UE, pela diretiva 94/62/EC (BROGNOLI, 2006; UNIÃO EUROPEIA, 1994).
Quadro 13 - Símbolos indicativos de reciclabilidade de plásticos e aplicações
Simbologia Material
Aplicações
PET
Frascos e garrafas para uso alimentício/hospitalar, cosméticos, bandejas
para microondas, filmes para áudio e vídeo, fibras têxteis
PEAD
PVC
PEBD
Embalagens para detergentes e óleos automotivos, sacolas de
supermercados, garrafeiras, tampas, tambores para tintas, potes, utilidades
domésticas
Embalagens para água mineral, óleos comestíveis, maioneses e sucos,
perfis para janelas, tubulações de água e esgotos, mangueiras, embalagens
para remédios, brinquedos, bolsas de sangue, material hospitalar
Sacolas, filmes para embalar leite e outros alimentos, sacaria industrial,
filmes para fraldas descartáveis, bolsa para soro medicinal, sacos de lixo
PP
Filmes para embalagens e alimentos, embalagens industriais, cordas, tubos
para água quente, fios e cabos, frascos, caixas de bebidas, autopeças, fibras
para tapetes, utilidades domésticas, potes, fraldas e seringas descartáveis
PS
Potes para iogurtes, sorvetes, doces, frascos, bandejas de supermercados,
geladeiras (parte interna da porta), pratos, tampas, aparelhos de barbear
descartáveis, brinquedos
Outros (1) Solados, autopeças, chinelos, pneus, acessórios esportivos e náuticos,
plásticos especiais e de engenharia, CDs, eletrodomésticos, corpos de
computadores
Fonte: Brognoli, 2006, p.7-8
Notas: (1) EVA, Acrilonitrilabutadieno-estireno (ABS), Poliacetato de Vinila (PVA), Poliamidas
(Nylon), Policarbonato, Teflon, etc.
Enquanto o Quadro 13 apresenta os principais usos relacionados aos polímeros virgens,
o Quadro 14 complementa o anterior, ao relacionar os principais usos dos polímeros reciclados,
segundo Plastivida (2012).
Além das vantagens relacionadas com a economia de petróleo, insumo para a produção
das resinas, o uso de plástico reciclado proporciona redução no dispêndio de energia elétrica de
6,74 MWh/t para 1,44 MWh/t, segundo Calderoni (2003). Como a geração de energia implica
em aumento nas emissões de GEE, a reciclagem de plásticos, ao economizá-la, está
contribuindo para a redução do aquecimento global.
135
Quadro 14 – Principais destinações dos plásticos reciclados, por tipo de plástico
Tipo de Plástico
Uso predominante
PET
Indústria textil
PEBD/PEBDL
Agropecuária e construção civil
EPS
Construção civil (lajes, telhas isolantes, preencimento de pisos)
PS
Peças de eletrodomésticos e eletroeletrônicos
PEAD
Embalagens industriais e descartáveis (sacolas)
Plásticos de engenharia
Setor automobilístico e eletroeletrônico
PVC
Tubulações da construção civil e infraestrutura
PP
Utilidades domésticas (baldes, bacias)
Fonte: PLASTIVIDA, 2012, p.24
Visando a quantificação de ganhos econômicos pela reciclagem de plásticos, IPEA
(2010) comparou os custos dos insumos para a produção de uma tonelada de polímeros virgens
com a mesma quantidade de reciclados. A metodologia e os resultados obtidos, relativos à
análise econômica, estão apresentados no Quadro 15.
Quadro 15 – Comparação de custos para a industria entre polímeros virgens e reciclados
Custos gerados pela produção de polímeros virgens (por tonelada):
foram identificadas as principais matérias-primas utilizadas, a quantidade consumida de energia e
água, bem como os resíduos sólidos, líquidos e gasosos gerados. Sempre que possível foram
utilizados coeficientes de eficiência relativos à realidade da indústria brasileira. Estes coeficientes
foram convertidos em valores, utilizando-se estimativas de preço médio dos insumos calculados na
Pesquisa Industrial Anual (PIA), elaborada pelo IBGE, e o preço médio da eletricidade industrial pelo
Balanço Energético Nacional de 2008. Estes custos foram contabilizados somente até a produção de
um determinado bem intermediário, o qual foi identificado como aquele que poderia ser substituído
diretamente por um material reciclado, no caso, a resina plástica – esta reinserção evitaria os impactos
ambientais a montante do ponto de reinserção. Os custos da produção primária foram estimados a
partir de dados da Matriz de Insumo-Produto (MIP) e da PIA, divulgados pelo IBGE. Devido ao nível
de agregação desses documentos, somente foi possível calcular os custos da produção de um “plástico
teórico”, referente à soma de insumos e produtos do setor. Para a estimativa do consumo de água
utilizada na produção foi utilizada a pesquisa de Valt (2004) para o PET, de 1,95 m3/t. Além da água,
a MIP relacionou os seguintes recursos naturais evitados a partir da reciclagem do plástico: cloro e
álcalis, elastômeros, eteno, gas encanado, gases industriais, gasoálcool, nafta para petroquímica,
PEAD e PEBD, produtos intermediários para resinas e fibras, propeno, PS, PVC, outras resinas,
outros produtos do refino de petróleo, outros produtos petroquímicos báasicos, outros produtos
químicos inorgânicos, outros produtos químicos orgânicos, energia elétrica, óleo combustível e óleo
diesel.
Custos gerados pela produção de polímeros reciclados (por tonelada):
foi considerada a utilização de 1,50 m3 de água, por estimativa de Valt (2004). Para a energia elétrica
a informação de Calderoni (2003) e para o custo para a obtenção dos recicláveis a estimativa de
Cempre (2007), de R$ 602,37.
Resultados:
Produção de resinas virgens: R$ 1.790,00
Produção de reciclados:
R$ 626,00
Análise:
A preços do mercado brasileiro, a economia pelo aproveitamento de uma tonelada de plástico
reciclado versus o polímero virgem foi de R$ 1.164,00.
Apesar das limitações de cálculo, a comparação do custo obtido para a produção primária (R$ 1.790),
com o preço de mercado do produto virgem (entre R$ 2.186 e 3.516) e o preço da sucata (entre R$
440 a 750) mostra que os valores apresentam algum grau de consistência.
Fonte: elaboração do Autor a partir de IPEA, 2010.
136
Na pesquisa IPEA (2010) os autores encontraram grande dificuldade em calcular um
valor para a geração de emissões ligadas ao plástico. Adotaram como metodologia as emissões
da produção de PET (resina virgem), conforme calculadas por Fabi (2004). E as emissões
geradas pelo consumo de energia na reciclagem, a partir de dados informados por Calderoni
(2003), obtidos por dados de literatura. Utilizaram €15,4 – com paridade equivalente a R$
33,42 – como preço para a tonelada de CO2e evitada. Para as emissões decorrentes da energia
elétrica, utilizaram-se de uma média do fator de emissão divulgado pelo Sistema Interligado
Nacional, calculada em 0,034 t CO2/MWh. Obtiveram 1,94 t CO2e/t para a produção de
polímeros e 0,41 t CO2e/t para a reciclagem de plásticos. O benefício líquido de 1,53 t CO2e/t
equivaleu a R$ 51,13 por tonelada.
As reciclagens terciária e quaternária de plásticos ainda não são realizadas no Brasil.
Em 2011 a reciclagem secundária era realizada por 815 indústrias concentradas na região
Sudeste e Sul. Essas indústrias reciclaram 1.077 mil t em 2011, sendo que 32% foram oriundos
de aparas da indústria e 68% da reciclagem pós-consumo. Daí pode-se calcular que a
quantidade de plásticos pós-consumo processadas pela indústria da reciclagem naquele ano foi
de 732 mil t. O índice de reciclagem mecânica de plásticos pós-consumo (IRmP) – estabelecido
pela proporção entre a quantidade de plásticos pós-consumo recicladas e a quantidade de
plásticos pós-consumo geradas – foi de 21,7% para o ano de 2011, num crescimento de 12%
sobre o ano de 2010, quando o IRmP foi de 19,4%. Embora Plastivida (2012) não traga
diretamente a informação, os dados daquele relatório permitem estimar a quantidade de
plásticos pós-consumo geradas como de 3.373 mil t. Naquele mesmo ano, no contexto mundial,
países como Suécia, Alemanha e Noruega apresentam IRmP de 35,0%, 33% e 33%
respectivamente, mostrando que há espaço para o crescimento desta reciclagem no Brasil
(CEMPRE, 2012a; PLASTIVIDA, 2012).
Dentre os plásticos, o PET possui o melhor preço de mercado e se apresenta como o
tipo mais reciclado no país, destacando-se dos demais. O seu IRmP evoluiu de 26,3% em 2000
para 55,6% em 2009, alcançando 262 mil t. Este desempenho vem permitindo um
posicionamento satisfatório da reciclagem do PET no Brasil, comparativamente a outros paises:
inferior ao Japão (77,9%), mas superior à Europa (48,4%) e Estados Unidos (28%)26
(ABRELPE, 2011).
Em agosto de 2012, Cempre (2012c) informava as cotações do mercado de reciclagem
para o PET, plástico rígido (PEAD/PEBD/PP) e plástico filme (PEAD/PEBD/PP) em diversos
26
Dados de 2009, à exceção do Japão (2008).
137
municípios brasileiros. Em Porto Alegre a tonelada era comercializada aos preços de R$ 1.620,
R$ 650 e R$ 300, respectivamente. Tomando-se o caso do plástico filme como exemplo, no
mercado internacional, Platts (2012) informava como cotação de fechamento de julho/2012 os
preços de US$ 1.289/t de PEBD e US$ 1.136/t de PP (polímeros virgens), equivalentes a cerca
de R$ 2.578 e R$ 2.272, respectivamente, pela paridade cambial à época. Embora seja natural o
preço inferior para os reciclaveis, dada a perda de qualidade do material no processo de
reciclagem, a grande diferença de preços permite supor que existe margem para a melhoria dos
preços pagos aos catadores.
4.1.4 A reciclagem do papel
Na produção do papel pode ser utilizada celulose de fibra longa ou de fibra curta. A
fibra longa é extraída principalmente do pinus e utilizada na fabricação de papéis que
demandam resistência, como embalagens e papel jornal. A fibra curta é retirada principalmente
do eucalipto e utilizada para a produção de papéis de impressão e de fins sanitários. Além das
fibras, o setor produz pastas de alto rendimento (PAR). Os papéis são classificados pela sua
finalidade: escrita e impressão; embalagens (inclui diversos papéis, como o ondulado e o seda
papel); papelcartão; sanitários e os ditos especiais (autoadesivos, decorativos, crepados, etc.).
No processo produtivo a celulose chega à fábrica em placas, que são transformadas em polpa
através de um processo de adição de água e trituração, num equipamento chamado hidrapulper.
Após, segue para a maquinaria de produção dos diversos tipos de papéis. No final do processo
os papéis resultam enrolados em bobinas (BRACELPA, 2012c).
O processo de reciclagem do papel é semelhante ao da celulose virgem: mistura com
água e trituração (hidrapulper), formando uma pasta de celulose. No caso do reciclável há
necessidade de outras operações, como peneiramento, limpeza química, refinamento e
branqueamento, previamente à produção do papel. Segundo Calderoni (2003), o uso de
reciclados resulta em ganhos energéticos – de 4,98 MWh/t para 1,47 MWh/t – e de consumo de
água: redução de de 29.202 l/t.
Ora enquadrada entre os papéis, ora considerada um reciclável à parte, temos o caso da
embalagem longa vida, também chamada de cartonada ou multicamadas. Esta embalagem é
formada por várias camadas de papel, PEBD e alumínio. No seu processo de reciclagem o
papel é separado usando-se equipamento chamado “hidrapulper”, onde cada tonelada de
embalagens gera aproximadamente 680 quilos de papel kraft. A outra parte, mistura de plástico
138
e alumínio, segue para fábricas de processamento de plásticos, onde é triturada e utilizada na
produção de peças plásticas, chapas, telhas, etc. O índice desta reciclagem em 2010 foi de 25%,
totalizando mais de 50 mil toneladas (ROTADARECICLAGEM, 2012; CEMPRE, 2012a).
Segundo Bracelpa (2012b), o Brasil possui uma área de floresta plantada de 7 milhões
de hectares, onde 2,2 milhões são florestas de eucalipto e pinus destinadas à produção de
celulose e papel. O Brasil é o quarto maior produtor mundial de celulose, atrás dos Estados
Unidos, China e Canada, e o décimo maior produtor de papel, onde se destacam a China e os
Estados Unidos. São 220 empresas em atividade no país com atividade em 540 municípios,
localizados em 18 estados.
A Tabela 20 mostra os dados de produção de celulose e papel relativos ao ano de 2011.
Tabela 20 – Desempenho do setor de celulose e papel em 2011, em mil t
Produção Importações Exportações Consumo Recuperação
aparente
de aparas
Taxa (%) de
recuperação
Celulose
13.922
392
8.478
5.856
-
-
Papel
10.159
1.455
2.052
9.562
4.351
45,5
Fonte: Bracelpa, 2012a
O índice de reciclagem brasileiro, obtido pela proporção entre os papéis recuperáveis
consumidos num período com a quantidade efetivamente reciclada, em 2011 foi de 45,5%,
bastante inferior aos índices apresentados em 2010 por países como Coreia do Sul (91,6%),
Alemanha (84,8%), Japão (79,3%) e de países em desenvolvimento, como Indonésia (53,4%) e
México (48,8%), demonstrando que há espaço para a evolução dessa reciclagem no País
(BRACELPA, 2012a).
Embora o número de indústrias seja significativo, o setor apresenta concentração, com
poucas empresas respondendo pela maior parte do mercado. Atuam em regime de oligopólio
em relação aos consumidores e de oligopsônio em relação aos elos da cadeia de reciclagem,
que abrange aparistas, depositários, sucateiros, carrinheiros e catadores (CALDERONI, 2003).
Os grupos empresariais apresentam variado grau de integração vertical e diferenciam-se pelo
tipo de fibra. A celulose de fibra curta é uma commodity negociada internacionalmente pela
sigla BHKP (Bleached Hardwood Kraft Pulp), assim como a fibra longa, NBSK (Northern
Bleached Softwood Kraft).
O acompanhamento dos preços no mercado interno de reciclaveis e a cotação
internacional das fibras permite observar grande diferença entre os preços, a exemplo das
cotações de 21 de agosto de 2012. Naquele dia a BHKP estava cotada na Europa a US$ 765/t e
139
a NBSK a US$ 780/t (FOEX, 2012). Convertidos em reais, equivaliam a R$ 1530 e 1560. Por
outro lado, no mercado de Porto Alegre os recicladores eram remunerados em R$ 450/t do
papel branco (fibra curta), R$ 290/t do papelão (fibra longa) e R$ 150/t das embalagens longa
vida (CEMPRE, 2012c). Embora esta comparação direta não seja tecnicamente adequada, serve
como parâmetro relativo de preços, sinalizando que existe margem para melhoria nos preços
pagos pela indústria aos recicladores.
4.1.5 A reciclagem do vidro
A fabricação de vidro decorre de operações sobre a massa fundida de vidro – obtida
através da fusão da sílica combinada com outros materiais fundentes, estabilizantes, afinantes e
corantes – para conformá-la no artigo desejado: chapas, garrafas, pratos, fibras, etc.
(AKERMAN, 2000a e 2000b).
O setor vidreiro do Brasil, composto pelos segmentos de embalagem, utensílios
domésticos, vidros técnicos e vidros planos, atingiu em 2008 a capacidade instalada de 3.002
mil t. Com relação ao segmento de embalagens, que concentra amplamente a reciclagem pósconsumo, a capacidade instalada era de 1.292 mil t e o consumo aparente: 1.041 mil t
(ABRELPE, 2011; BRASIL, 2011).
O vidro pode ser reciclado infinitas vezes sem perda de propriedades e mantida
integralmente a equivalência de densidade entre os cacos e os novos produtos. Porém há
necessidade da retirada de impurezas que possam contaminar o vidro a ser produzido, como
rótulos e tampas de embalagens. Os cacos de vidros planos não podem ser misturados aos de
embalagens (ABIVIDRO, 2013).
O uso de cacos como matéria-prima requer menos energia para a fusão do que uma
nova composição, pois necessita apenas do aquecimento, sem as reações químicas que ocorrem
na transformação da composição em vidro. Tem papel estratégico, pois pode ser enfornado em
substituição às matérias-primas no caso de falta delas ou pane no sistema de produção da
composição (AKERMAN, 2000a).
A produção de uma tonelada de vidro demanda areia (720 kg), barrilha (198 kg),
calcário (115 kg), dolomita (36 kg) e feldspato (20 kg). Destes, a barrilha tem um custo maior:
a proporção citada corresponde a um dispêndio da ordem de R$ 136/t para a indústria (IPEA,
2010). Em agosto de 2012 Cempre (2012c) informava preços pagos aos recicladores pela
tonelada de vidro incolor entre R$ 40 a tonelada em Aracaju (SE) e R$ 265 em Itabira (MG).
140
São valores que não cobrem sequer a coleta seletiva – R$ 424 (CEMPRE, 2012b). A baixa
remuneração dos recicladores pode estar relacionada com os mecanismos de mercado, pois,
enquanto prevalece uma situação de oligopólio na produção de vidros para embalagens e de
oligopsônio na compra dos cacos, os sucateiros são numerosos e pouco organizados
(CALDERONI, 2003). Se a indústria de vidros gasta R$ 136 para a aquisição da barrilha, para
citar apenas um dos componentes usados na produção de uma tonelada de vidro, porque a
remuneração do catador é tão baixa?
Apesar do evidente desestímulo resultante dos baixos preços, em 2007 a parcela
reciclada dos vidros de embalagens atingiu 47%. Estima-se que outra parcela, de 33%, ficou
retida nas residências para algum tipo de reúso, com os 20% restantes sendo descartados junto
com o lixo domiciliar (ABRELPE, 2011). Diferentemente dos outros recicláveis estudados, esta
pesquisa não localizou estatísticas de anos mais recentes, fato que sinaliza a baixa disposição
para a disponibilização pública de informações sobre a reciclagem no setor.
Esta reciclagem vem apresentando evolução, visto que em 2000 o índice era de 41%
(ABRELPE, 2011). Pode-se presumir que a parcela reciclada continue a evoluir, não só pela
redução do descarte no lixo comum, mas também pela redução do reúso, na medida em que
aumenta o poder aquisitivo da população. Na UE o índice desta reciclagem tem se mantido
estável em 68% (FEVE, 2012).
4.1.6 Dimensionamento das reduções de emissões da reciclagem brasileira
A Tabela 21 resume as informações coletadas em diversas fontes relativas ao consumo
aparente dos recicláveis abrangidos neste estudo (A) e a quantificação da parcela reciclada (C).
A reciclagem potencial (B) informa os volumes que poderiam estar sendo reciclados caso o
Brasil atingisse os melhores desempenhos apresentados pelos países selecionados. O potencial
de incremento resulta da diferença entre a quantidade atualmente reciclada (C) e a reciclagem
potencial (B). No caso das embalagens de alumínio, como o Brasil lidera o ranking desta
reciclagem, o potencial de incremento foi considerado zero.
Os resultados expostos na Tabela 21 servem como estimativas da situação atual
brasileira da geração dos recicláveis deste estudo e do potencial de incremento até os níveis dos
melhores desempenhos mundiais. O fato das informações contemplarem anos diferentes não
chega a prejudicar a análise, por tratar-se de estimativas abrangendo anos próximos (2008 a
2011) e a evolução nos índices de reciclagem mostrar-se gradual nos países analisados.
141
Tabela 21 – Resumo da recuperação atual e potencial de reciclados no Brasil, em mil t
Reciclável/ano(1)
Consumo
Reciclagem potencial
Reciclagem
Incremento
Aparente
(B)
atual
Potencial
(A)
(C)
(B-C)
253
249 (Brasil – 98,3%)
249
0
Latas de Alumínio (2010)
575
563 (Bélgica – 98%)
270 (47,0%)
293
Latas de Aço (2008)
3.373
1.181 (Suécia – 35%)
732 (21,7%)
449
Plásticos (2011)
9.562
8.759 (Coreia – 91,6%) 4.351 (45,5%)
4.408
Papéis/papelões (2011)
1.041
708
(UE – 68%)
489 (47,0%)
219
Vidros (2008)
14.804
11.460
6.091
5.369
Totais
100%
77,4%
53,15%/B
46,85%/B
Fonte: elaboração do Autor a partir de Abralatas (2013), Abeaço (2012), Bracelpa (2012a), Plastivida
(2012), Abrelpe (2011) e Brasil (2011).
Nota: (1) foi utilizado o ano de referência mais recente encontrado na literatura.
Tomado o consumo aparente como base, os melhores desempenhos, transpostos para o
Brasil, resultariam num aproveitamento de 77,4% dos materiais. Se considerado este patamar
como referência, a reciclagem atual situa-se num nível de 53,15% e há margem para
crescimento da ordem de 46,85%. Existe um potencial para evolução abrangendo cerca da terça
parte do atual consumo aparente. Em termos de tonelagens, das 11,4 milhões ao alcance da
reciclagem, o atual aproveitamento está limitado a 6,1 milhões de toneladas. Porém os
resultados devem ser tomados com cautela, por basearem-se em dados secundários fornecidos
por diversas fontes, sem evidências de rigor científico na apuração das informações publicadas.
A Tabela 22 resume e compara as informações relacionadas aos preços internacionais
dos insumos virgens comparativamente aos preços internos pagos aos recicladores por tonelada
de material recuperado. Sopesadas as impropriedades relacionadas à comparação direta, a
grande amplitude no diferencial de preços sinaliza claramente para a existência de margem de
negociação por parte das unidades de triagem. A Tabela 22 se relaciona com a anterior ao
tomar o incremento potencial em peso dos recicláveis para a estimativa do incremento, também
potencial, no faturamento anual do setor, calculado a partir dos atuais preços médios pagos aos
catadores, resultando numa estimativa próxima a R$ 2 bilhões anuais.
Os atuais níveis da reciclagem brasileira e seu potencial de evolução até o alcance dos
melhores desempenhos identificados na literatura, sumarizadas na Tabela 21, se ponderados
pelos fatores de reduções de emissões obtidos por USEPA (2006), constantes da Tabela 16
(página 115), resultam nas estimativas de reduções de emissões apresentadas na Tabela 23.
142
Tabela 22 – Comparação entre os preços internacionais dos insumos virgens e o preço pago aos
recicladores brasileiros pelos insumos reciclados (paridade US$ 1.00 = R$ 2,00)
Reciclável/ano(1)
Preço
Preço interno Diferença
Incremento
Incremento
internacional
para os
nos preços
Potencial
Potencial
da commodity (1) catadores (1)
(em mil t)
(em milhões
médios
(R$/t)
(R$/t)
(R$/t)
de R$)
3.640
2.770
870
0
0
Alumínio
690
140 a 370
435
293
74,7
Aço
2.272 a 2.578
300 a 650
1950
449
213,3
PEAD/PEBD/PP
1.530 a 1.560
290 a 450
1175
4.408
1631,0
Celulose
–
40 a 265(2)
219
33,4
Vidro
–
–
5.369
1952,3
Total
Fonte: elaboração do Autor a partir de ABAL (2012b); LME (2012); Cempre (2012c); Platts (2012);
FOEX (2012); Ipea (2010).
Nota: (1) os preços foram apurados em agosto de 2012. (2) somente a barrilha, um dos componentes
usados na fabricação do vidro, custa R$ 136 à indústria para a produção de uma tonelada do material.
Tabela 23 – Reduções de emissões propiciadas pela reciclagem no Brasil, atuais e potenciais, em
mil tCO2e ao ano
Reciclável
Fator de redução
Potencial de
Reduções
Potencial de
de emissões
reduções de
atuais
incremento
(tCO2e/t de
emissões
(C)
(B-C)
reciclável)
(B)
15,11
3.762
3.762
0
Embalagens de Alumínio
2,00
1.126
540
586
Embalagens de Aço
1,71
2.020
1.252
768
Plásticos1
3,92
34.335
17.056
17.279
Mix de Papéis
0,33
234
161
72
Vidros
41.477
22.771
18.705
Totais
Fonte: elaboração do Autor a partir de USEPA (2006) e dados secundários sobre índices de reciclagem
Nota: (1) Utilizada para plásticos a média aritmética dos fatores de USEPA (2006) para PEAD, PEBD e
PET, que casualmente é igual ao fator do PET.
Apesar da necessidade de serem tomados com cautela, principalmente em face da
utilização de fatores obtidos para a realidade dos Estados Unidos e a imprecisão das
informações sobre o mercado brasileiro de recicláveis, os resultados da Tabela 23 permitem a
macrovisão dos serviços ambientais da reciclagem brasileira no tocante às reduções na emissão
de GEE. O agregamento das informações relativas a cada reciclável resultou em 22,8 MtCO2e
as economias decorrentes da reciclagem atual e a perspectiva do atingimento de 41,5 MtCO2e,
com base nos atuais níveis de consumo aparente, caso o País atinja os melhores níveis mundiais
de reciclagem.
Como o Brasil é o país que apresenta o melhor índice de reaproveitamento das
embalagens de alumínio, não houve adição de potencial para evolução neste reciclável, embora
haja, assim como nos outros países que servem de referência mundial, perspectivas para
melhoramentos nos desempenhos, apesar dos incrementos mostrarem-se sucessivamente
143
menores, até uma teórica situação de equilíbrio final.
A análise dos resultados mostra a importância e o potencial existente no Brasil para a
reciclagem da celulose. O potencial de incremento nesta reciclagem, considerada isoladamente,
representa 92% do potencial de incremento nas reduções de emissões de GEE brasileiros pela
reciclagem, tomada a metodologia USEPA (2006) como referência. Fica evidenciada, desde já,
a importância da inclusão deste reciclável em projetos que visem receitas para a reciclagem
através dos mercados de carbono.
4.1.7 Estimativas de receitas para a reciclagem brasileira nos mercados de carbono
Este tópico tem o objetivo de traduzir em unidades monetárias os resultados
apresentados na Tabela 22, expressos em toneladas equivalentes de dióxido de carbono, a partir
de cenários.
Se consideradas as quantidades e os valores de comercialização praticados em 2011 nos
mercados baseados em projetos, nas negociações à vista, apresentados na Tabela 6 (página 60),
obtém-se o preço médio de US$ 12.76. Aquela Tabela permite, também, a obtenção do preço
médio US$ 6.54 para as toneladas de carbono negociadas nos mercados voluntários,
considerada a comercialização ocorrida em 2011. Naquele ano, Goularte (2011) encontrou,
pelas empresas emissoras no estado do Rio Grande do Sul, a disposição a pagar de R$ 34,00
por tonelada de emissões. A conversão em reais das citadas cifras em dólares americanos pela
paridade cambial vigente na época da realização deste estudo, de R$ 2,00, permite a definição
de preços referenciais para estimativas: de R$ 13,08; R$ 25,52 e R$ 34,00, para o preço do
crédito de carbono em mercados voluntários, mercados regulados e mercados voluntários
locais, respectivamente. Cabe ressaltar que estes valores têm função meramente referencial
para a análise, pois os preços dos mercados de carbono, altamente voláteis, dependem dos
volumes ofertados e demandados, além da capacidade de negociação das partes, entre outros
fatores.
A Tabela 24 resulta da aplicação destes preços sobre as quantidades de reduções, atuais
e potenciais, em nível de País, disponibilizadas na Tabela 23.
A partir das premissas construídas ao longo da análise, as reduções de emissões
propiciadas pela reciclagem brasileira equivaleriam, anualmente, a R$ 542,5 milhões em
mercados voluntários, R$ 1,058 bilhões em mercados regulados e R$ 1,410 bilhões em
mercados voluntários locais, considerada apenas a remuneração pelos serviços climáticos da
144
atividade.
Tabela 24 – Estimativa do potencial de receitas brutas pela reciclagem brasileira, em R$
milhões/ano
Reciclável
Sobre o Potencial total
Sobre as Reduções
Sobre o potencial de
atuais
incremento
13,08 25,52 34,00 13,08 25,52 34,00 13,08 25,52 34,00
49,2
96,0 127,9
49,2
96,0 127,9
0,0
0,0
0,0
Emb. de Alumínio
14,7
28,7
38,3
7,1
13,8
18,4
7,7
15,0
19,9
Emb. de Aço
26,4
51,6
68,7
16,4
32,0
42,6
10,0
19,6
26,1
Plásticos
449,1 876,2 1167,4 223,1 435,3 579,9 226,0 441,0 587,5
Misto de Papéis
3,1
6,0
8,0
2,1
4,1
5,5
0,9
1,8
2,4
Vidros
Totais
542,5 1058,5 1410,2 297,8 581,1 774,2 244,7 477,4 636,0
Fonte: elaboração do Autor
IPEA (2012) informa, em termos de políticas públicas, que a constituição do Comitê
Interministerial de Inclusão dos Catadores de materiais Recicláveis (CIISC) resultou na
destinação de cerca de R$ 280 milhões para ações de inclusão social, entre os anos de 2003 e
2010. Portanto, aproximadamente R$ 35 milhões ao ano ou cerca de 6,4% do valor ora
estimado para os mercados voluntários.
O Atlas de Saneamento 2011 (IBGE, 2011a) cita a existência, em 2008, de
aproximadamente 30 mil catadores ligados às cooperativas e associações no País 27. Num
cálculo simples, as receitas anuais oriundas de mercados de carbono, se computada apenas as
reduções de projeto, a um preço de comercialização de R$ 13,08 por crédito de carbono,
resultaria numa renda mensal de R$ 680 por reciclador ou, aproximadamente, um salário
mínimo nacional. Porém o universo de catadores, incluídos os autônomos, é muito maior,
atingindo, segundo Peterson e Godin ([2009]), de 1 a 2% das populações dos países em
desenvolvimento. Neste caso a receita, agora em termos anuais, dividida entre 200 mil a 400
mil catadores, ficaria entre R$ 610,00 a R$ 1.220,00 por catador, ainda significativa em face da
situação de extrema pobreza vivenciada por esta parcela da população. Segundo Brasil (2011),
a quantidade de pessoas vivendo da catação é maior, situando-se entre 400 mil e 600 mil.
Mesmo assim a remuneração per capita se situaria entre R$ 406,00 e R$ 610,00 anuais.
27
Destes, quase 20 mil encontravam-se nas Regiões Sul e Sudeste, onde ocorre também um predomínio de
cooperativas de catadores. Dos 674 municípios brasileiros que possuem cooperativas de catadores catalogadas,
508 estão nas Regiões Sul e Sudeste que, juntas, concentram 851 das 1.175 cooperativas existentes no País
(IBGE, 2011a).
145
4.2 Estimativas relacionadas à reciclagem em Porto Alegre
A partir de dados relacionados à geração dos recicláveis abrangidos por este estudo,
esta seção procura estimar o alcance da reciclagem, atual e potencial, no município de Porto
Alegre. As reduções de emissões são estimadas pela utilização das metodologias USEPA
(2006) e AMS-III.AJ, e as avaliações econômicas com base em cenários.
O DMLU disponibiliza na internet os dados mensais sobre os montantes recolhidos na
Coleta Convencional, quantificados por origem: domiciliares, comerciais, públicos e especiais
(resíduos de saúde e da construção civil). Estão incluídos nos dados da coleta domiciliar a
coleta em zonas de difícil acesso e os rejeitos das UTs. São classificadas como comerciais as
coletas pontuais praticadas pela Prefeitura junto às empresas comerciais de grande porte. Estão
quantificados como resíduos públicos as coletas dos resíduos gerados pelo próprio DMLU –
capina, varrição, podas, etc. – e por outros órgãos, como a Secretaria Municipal de Meio
Ambiente (SMAM), o Departamento de Esgotos Pluviais (DEP) e o Departamento Municipal
de Águas e Esgotos (DMAE). A Coleta Convencional é realizada de segunda a sábado,
totalizando 313 coletas anuais (PMPA, 2012a).
Neste estudo, foram utilizados para o dimensionamento da Coleta Convencional as
tonelagens relativas ao ano de 2011, conforme exposto na Tabela 25. Naquele ano a quantidade
coletada de resíduos sólidos domiciliares, comerciais e públicos somou 535 mil t, com uma
média diária de coleta de 1.708 t, sendo 1.046 t oriundas da coleta domiciliar, 121 t coletadas
junto a estabelecimentos comerciais e 540 t resultantes dos serviços públicos (PMPA, 2013b).
Tabela 25 – Quantitativo de RSU destinados à disposição final em Porto Alegre no ano de 2011,
em t
Mês
Dias de Domiciliares Comerciais
Públicos
Totais
Média
Coleta
Mensais
diária
Janeiro
26
26.508
2.763
12.046
41.317
1.589
Fevereiro
24
23.872
2.686
12.280
38.838
1.618
Março
27
26.725
3.013
14.220
43.958
1.628
Abril
26
26.409
3.220
13.362
42.990
1.653
Maio
26
27.121
3.067
16.305
46.493
1.788
Junho
26
26.506
2.953
14.917
44.376
1.707
Julho
26
27.247
3.211
13.839
44.298
1.704
Agosto
27
29.161
3.365
13.885
46.411
1.719
Setembro
26
27.364
3.301
14.596
45.261
1.741
Outubro
26
28.618
3.258
15.147
47.024
1.809
Novembro
26
27.962
3.316
13.391
44.670
1.718
Dezembro
27
30.027
3.699
15.172
48.897
1.811
Totais anuais
313
327.521
37.853
169.159
534.532
Média diária
1.046
121
540
1.708
Fonte: elaboração do Autor, a partir de PMPA (2013b)
146
Se consideradas apenas as parcelas de resíduos domiciliares e comerciais, a geração
diária por habitante foi de 0,83 kg em 2011. Somente quando computada a coleta pública, na
maioria composta por podas de árvores, a média diária atinge 1,22 kg por habitante. Estes
valores estão compatíveis com as médias nacionais (ABRELPE, 2011).
Por sua vez, a Coleta Seletiva é realizada desde 1990. A partir de abril de 2008 passou a
abranger todos os bairros do Município em duas coletas semanais. Os recicláveis são
distribuídos entre 17 UTs e a Unidade de Triagem e Compostagem (UTC), a maior delas e a
única que, além da reciclagem, realiza também a compostagem. Cada UT e UTC estão
entregues a uma entidade congregativa de catadores, sendo a relação da PMPA com as
entidades recicladoras formalizada por convênio, onde a Prefeitura fornece o local, a
infraestrutura inicial para a atividade e ajuda financeira, que em fevereiro de 2012 era de R$ 2,5
mil mensais para as UTs e de R$ 6 mil para a UTC. Há exigências contratuais restringindo o
uso desta verba à cobertura das despesas da atividade, como aquisição de cordas para amarrar
os fardos de recicláveis, pagamento de energia elétrica, aquisição e manutenção de
equipamentos, etc. A liberação da verba ocorre somente após a apresentação das notas fiscais
relativas aos gastos enquadráveis no contrato. A entidade tem obrigação contratual de
apresentar os certificados de negativas de débitos, sob pena de não ter a verba liberada. A
gestão da atividade dentro de cada UT, incluindo a comercialização e o rateio das receitas entre
os associados, ocorre autonomamente por cada entidade, à exceção de uma UT (chamada de
Unidade de Triagem Hospitalar – UTH – por reciclar resíduos não perigosos de origem
hospitalar) e da UTC, ambas situadas dentro da Estação de Transbordo e cuja administração
tem a interveniência do DMLU (PMPA, 2013a).
Visando a contextualização e quantificação do serviço de coleta e destinação final dos
resíduos urbanos, especialmente da parcela de recicláveis, em janeiro de 2012 foram realizadas
entrevistas em profundidade com técnicos do DMLU, complementadas por informações
adicionais gentilmente fornecidas através de mensagens eletrônicas, sempre que solicitadas.
Segundo aquele Departamento a Coleta Seletiva vem apresentando crescimento – de 70
t/dia em 2008 para 100 t/dia no final de 2011. Desta quantidade, uma parcela média de 20%
não é aproveitada pelas UTs, sendo encaminhada por aquelas Unidades à Coleta Convencional.
A significativa parcela de orgânicos decorre da deficiência na segregação dos resíduos pelas
residências, principalmente em algumas regiões da Cidade. Para “distribuir” de forma
equânime os recicláveis entre as UTs, a Prefeitura procura rodiziar as zonas de coleta para
entrega às Unidades. A presença de orgânicos, além de desagradável e insalubre para os
147
recicladores, frequentemente resulta em acidentes, principalmente por corte nas mãos. Como
estes trabalhadores precisam de tato para a triagem, trabalham com as mãos descobertas ou
com frágeis luvas de material têxtil ou plástico, aumentando a exposição ao risco (PMPA,
2012b).
Esporadicamente, uma pequena parte da Coleta Convencional domiciliar é entregue à
UTC para separação e pesagem da parcela orgânica e dos recicláveis, visando à análise
gravimétrica, a exemplo da ocorrida em outubro de 2011, onde esta triagem abrangeu 316 t. A
partir desses levantamentos, o DMLU estima que cerca de 15% da coleta domiciliar é composta
por recicláveis, misturados ao lixo comum no descarte pela população, e, portanto, direcionadas
para o aterro sanitário de Minas do Leão. Nos resíduos da denominada coleta pública – varrição
e capina – o teor de recicláveis é considerado pelo DMLU como desprezível. Na coleta
comercial, proveniente de grandes geradores, não há separação das frações reciclável e
orgânica. Segundo o DMLU, a estimativa da fração de recicláveis na coleta comercial é de 10%
(PMPA, 2012b; PMPA, 2013a).
A composição gravimétrica média dos recicláveis encontrados nas triagens de lixo
convencional e a obtida na Coleta Seletiva, segundo o DMLU, são as apresentadas na Tabela
26. Em ambos os casos predominam papéis/papelões e plásticos. A participação dos demais
recicláveis – alumínio, aço e vidro – juntas, representam menos de 10% do total.
Tabela 26 – Composição gravimétrica típica da parcela de recicláveis encontrada na Coleta
Convencional e Seletiva de Porto Alegre
Reciclável
Coleta Convencional (%)
Coleta Seletiva (%)
0,5
0,5
Embalagens de Alumínio
1
3,5
Embalagens de Aço
45,5
43
Plástico
48
48
Papel/papelão
5
5
Vidro
100
100
Total
Fonte: PMPA, 2012b
O DMLU não possui quantificações relativas aos trabalhos das UTs, pois, segundo
aquele Departamento, o fornecimento de informações pelas entidades é deficiente e não há
disponibilidade de tempo no quadro técnico para esse acompanhamento. A falta destas
informações resultou na necessidade do levantamento direto das informações junto às UTs.
Após a obtenção, no DMLU, de autorização para as visitações e informações de caráter geral
sobre as Unidades – endereços, nomes e telefones de contato – em janeiro e fevereiro de 2012
todas as UTs e UTC foram visitadas.
148
Na pesquisa de campo foram realizadas entrevistas em profundidade, estruturadas com
base no roteiro apresentado do Apêndice A, para a coleta de dados socioeconômicos dos
recicladores e sobre a atividade. As informações quantitativas foram obtidas por declaração do
entrevistado e, em alguns casos, também por acesso a planilhas de controles comerciais e
comprovantes de vendas. Em um único caso (da UTH) as informações obtidas no local foram
complementadas por telefone e mensagem eletrônica.
Os dados coletados permitiram a construção de planilhas eletrônicas onde foram
registradas as observações de caráter geral e as informações quantitativas obtidas em cada
local, incluindo as quantidades e preços de comercialização por tipo de reciclável; identificação
dos compradores; enquadramento legal da entidade; quantidade e renda dos associados;
montante da ajuda financeira da PMPA; e o relato das principais dificuldades enfrentadas, na
opinião do entrevistado. A Tabela 27 sintetiza parcialmente estas informações, sendo que
outras serão abordadas no decorrer deste estudo.
Tabela 27 - Situação das Unidades de Triagem de Porto Alegre em fevereiro de 2012
Entidade
Tipo Nível
Periodi
Nº
Renda
Receita
Verba
(1)
de
cidade médio
média
líquida
da
Gestã
de
de
mensal
média
PMPA
(5)
o (3)
pagame associ
por
mensal (4)
(2)
nto
ados
associado
A
R
S
30
600
18.000
2.500
1 - Reciclando pela Vida
A
R
S
20
500
10.000
2.500
2 - Anjos da ecologia
A
F
S
38
300
11.400
Não
3 - Santíssima Trindade
A
MB
M
49
550
26.950
2.500
4 - HPSP
A
R
M
30
566
16.980
2.500
5 - Rubem Berta
A
R
Q
23
550
12.650
2.500
6 - Ilha Grande
A
R
Q
28
540
15.120
2.500
7 - Aterro Norte
A
F
S
25
440
11.000
Não
8 - Restinga
A
F
M
25
800
20.000
2.500
9 - UTH
A
B
M
30
725
21.750
Não
10 - Campo da Tuca
A/ C
B
Q
38
900
34.200
2.500
11 - Cavalhada
A
R
S
25
620
15.500
2.500
12 - Profetas da Ecologia
A
R
Q
35
470
16.450
2.500
13 - Padre Cacique
A
R
S
18
680
12.240
2.500
14 - Mãos Dadas
A
MB
Q
42
600
25.200
2.500
15 - Vila Pinto
A
B
M
93
700
65.100
6.000
16 - UTC
A
MB
Q
28
530
14.840
2.500
17 - Novo Chocolatão
C
B
S
36
640
23.040
Não
18 - CEAR
Total/média
613
604
370.420
38.500
Fonte: elaboração do Autor
Notas: (1) A - Associação e C – Cooperativa; (2) Frequência de pagamento aos associados: S - semanal,
Q – quinzenal e M – mensal; (3) O nível de gestão foi estabelecido a partir de observações relacionadas
a organização e gestão, como (MB) muito bom, B (bom), R (regular) e F (fraco); (4) A renda líquida foi
estimada a partir das informações de renda e número de associados; (5) Algumas entidades não estavam
recebendo a ajuda financeira pela falta da apresentação de certidões negativas de débitos.
149
Com relação ao tipo de sociedade, a grande maioria das UTs estava enquadrada como
associação. A entidade do Bairro Cavalhada optou por formar entidades dos dois tipos,
associação e cooperativa, como forma de melhor habilitar-se na busca de recursos. A
periodicidade da distribuição das receitas da atividade entre os associados das Unidades variava
bastante: ocorria tanto semanal, como quinzenal ou mensalmente, sem predomínio significativo
de nenhuma delas. O nível de gestão apresentado na Tabela 27 foi atribuído a partir da
entrevista e da observação da organização administrativa e de gestão de cada UT. Variava
enormemente, com entidades bem organizadas e outras trabalhando, e sendo geridas, de forma
sofrível.
Quanto à quantidade de trabalhadores, foi perguntada a quantidade média de
trabalhadores e não a quantidade que estava trabalhando no momento da visita. O somatório
das informações resultou em 613 trabalhadores vinculados aos 18 pontos de reciclagem.
Excluindo-se a UTC, que possuía 93 associados, a média das demais situava-se em 30
trabalhadores. A quantidade de trabalhadores no momento das visitas não foi medida, mas
pode-se observar, no geral, uma quantidade inferior à informada. Segundo as entidades,
enquanto uma parte do contingente de recicladores é relativamente assídua no trabalho, outra
flutua significativamente, por questões internas e externas às entidades, como o surgimento de
oportunidades temporárias de melhor remuneração ou pela oscilação na quantidade de
reciclável a ser triado. Quando a quantidade de recicláveis é grande, trabalham até mais tarde e
aos sábados. Quando tem pouco material, procuram reduzir as jornadas e a quantidade de
recicladores. Ficou a suspeita, não abrangida pelas entrevistas, que parte dos recicladores em
atividade não tinha vínculo formal com as entidades. A renda média apurada ficou próxima ao
salário mínimo brasileiro à época, de R$ 622,00, mas com diferenças significativas. Por
exemplo, enquanto a UT Cavalhada informou valor médio de R$ 900, a UT Santíssima
Trindade mencionou R$ 300.
A partir das rendas individuais e do número de trabalhadores foi possível estimar o
faturamento líquido mensal do conjunto das UTs como de aproximadamente R$ 370 mil.
A Tabela 28 apresenta os resultados encontrados na pesquisa de campo em termos de
preços e quantidades. As quantidades de comercialização foram transpostas para a
periodicidade mensal, visto que ocorriam com pouca regularidade. À exceção dos recicláveis
mais comuns – PET, PEAD, PEBD e papéis/papelões – normalmente comercializados
semanalmente, as demais ocorriam somente quando a quantidade acumulada justificasse o
transporte, a exemplo do vidro e sucatas, muitas vezes acumulados por diversas semanas.
150
Tabela 28 - Resumo das quantidades e preços colhidas nas UT e UTC de Porto Alege, relativos a janeiro de
2012
Reciclável
Quantid
%
%
Pre Preço % Preço Faturam
%
%
ade (kg) Mass Mass
ço
Máxi Pre Médi
ento
Fat. Fat.
(A)
a
a por Mí
mo
o
(A*E)
(F) por
ços
(B)
Tipo nim
(E)
tipo
(D)
(C)
o
(G)
5.519
0,79
2,60
30
2,37
13.080
5,7 5,7
Alumínio Latinha
0,8 2,00
34.950
5,01
0,18
80
0,14
4.893
2,1
Ferro (Sucata)
5 0,10
2,1
16.915
2,42
0,80
1,40
75
1,08
18.268
8,0
Leitoso (PEAD)
13.123
1,88
0,15
0,90 500
0,56
7.349
3,2
Coloridos (PEAD)
28.095
4,02
0,08
0,40 400
0,27
7.586
3,3
Sacos (PEBD)
13.159
1,88
0,40
1,00 150
0,69
9.080
4,0
Cristal (PEBD)
32.103
4,6
0,60
1,50 150
1,30
41.734 18,2
PET Branco
11.472
1,64
0,60
1,15
92
0,98
11.243
4,9
PET Verde
3.988
0,57
0,10
0,60 500
0,34
1.356
0,6
Azeite (PET)
6.649
0,95
0,70
1,30
86
1,08
7.181
3,1
Mineral (PP)
3.668
0,53
0,20
0,60 200
0,39
1.431
0,6
Margarina (PP)
2.251
0,32
0,45
1,00 122
0,83
1.868
0,8
Tampinhas (PP)
3.858
0,55
0,20
0,65 225
0,38
1.466
0,6
Balde e Bacia (PP)
1.350
0,19
0,10
0,40 300
0,26
351
0,2
PVC
1.100
0,16
0,10
0,40 300
0,23
253
0,1
Copinhos (PS)
0
0
0,10
0,10
0
0,10
0
0,0
Estralantes
400
0,06
0,40
0
0,40
160
0,1 47,8
Isopor
19,8 0,40
22.174
3,18
0,10
0,20 100
0,13
2.883
1,3
Longa Vida
75.609 10,83
0,20
0,30
50
0,25
18.902
8,3
Papelão 1ª
18.768
2,69
0,09
0,20 122
0,17
3.191
1,4
Papelão 2ª (Colorido)
21.720
3,11
0,19
0,28
47
0,23
4.996
2,2
Papelão misturado
70.623 10,12
0,08
0,16 100
0,10
7.062
3,1
Papel Misto
15.000
2,15
0,42
0,42
0
0,42
6.300
2,8
Papelão 2ª + p. misto
89.400 12,81
0,30
0,47
57
0,39
34.866 15,2
Papel Branco
436
0,06
0,85
0,85
0
0,85
371
0,2
Aparas Brancas
50.853
7,28
0,10
0,18
80
0,15
7.628
3,3
Jornais
17.750
2,54
0,10
0,18
80
0,14
2.485
1,1
Revistas
29.668
4,25
0,13
8
0,13
3.857
1,7 40,4
Jornais + revistas
59,0 0,12
105.657 15,15
0,06 100
0,04
4.226
1,9
Vidro
15,2 0,03
1,9
228
0,03
2,00
2,80
40
2,37
540
0,2
Alumínio Chapa
75
0,01
2,00
2,90
45
2,66
200
0,1
Alumínio Perfil
588
0,08
2,40
2,40
0
2,40
1.411
0,6
Alumínio Misturado
72
0,01
8,50 12,00
41 10,17
732
0,3
Cobre Queimado
0
0
6,50 11,00
69
9,13
0
0,0
Cobre Descascado
310
0,04
3,00
3,00
0
3,00
930
0,4
Cobre c/capa plástica
60
0,01
4,50
4,50
0
4,50
270
0,1
Cobre (misturado)
0
0
6,50
6,50
0
6,50
0
0,0
Bronze
365
0,05
0,30
2,00 567
1,08
394
0,2
Inox
175
0,03
1,50
0
1,50
263
0,1
Metais+alum.(- latas)
0,2 1,50
2,1
Totais
698.131
100
100
228.804 100 100
Fonte: elaboração do Autor
Nota: Preços em R$/Kg.
A ponderação da participação de cada reciclável na composição das 698 t informadas
pelas UTs permitiram o detalhamento gravimétrico da parcela recebida pela Coleta Seletiva que
é efetivamente comercializada, apresentado na coluna B. A coluna C agrega a gravimetria por
tipo de reciclável. Alguns recicláveis entregues pela Coleta Seletiva são pouco comercializados
151
por falta de comprador, como no caso do isopor, comercializado por apenas uma das UT. O
isopor recebido pelas demais UTs eram descartados via Coleta Convencional. Outros
recicláveis eram descartados porque o preço oferecido pelos compradores estava sendo
considerado muito baixo pelos recicladores, não compensando financeiramente a separação. Os
principais exemplos neste caso eram as embalagens chamadas de “estralantes” – pela
sonoridade gerada quando do seu aperto com as mãos – como as embalagens de salgadinhos,
descartados em todas as UT, e os copos descartáveis de PS, abandonados na triagem por
diversas recicladoras.
O Gráfico 17 destaca a composição gravimétrica da comercialização de recicláveis
pelas UTs, agregados por tipo. Diferentemente da Tabela 26, que apresentou a gravimetria da
Coleta Seletiva a partir das observações do DMLU sobre o que poderia ser reciclado, o Gráfico
17 mostra a parcela efetivamente retida pelas UTs para comercialização, com base na pesquisa
de campo.
Gráfico 17 – Composição gravimétrica da comercialização da Coleta Seletiva em Porto Alegre,
por tipo de reciclável
Papéis, papelões e
tetrapak (59%)
Plásticos (19,8%)
Vidros (15,2%)
Sucata de ferro (5%)
L. Alumínio (0,8%)
Outros metais (0,2%)
Fonte: elaboração do Autor
A Tabela 29 compara a gravimetria da comercialização, obtida na pesquisa, com as
informações do DMLU (Tabela 26) e as calculadas por IPEA (2011) pela média dos resultados
de diversas publicações – Tabela 8 (página 72). As principais variações da pesquisa em relação
às demais fontes foram a menor proporção de plásticos, onde uma parte era descartada nas UTs
de Porto Alegre por falta de preço/comprador, e na maior participação dos papéis e vidros,
talvez em decorrência disso.
152
Tabela 29 – Comparação da gravimetria do estudo com outras fontes, em percentual
Reciclável
DMLU
IPEA (2011)
Esta Pesquisa
(Tabela 26)
(Tabela 8)
(Tabela 28)
Coleta
Coleta
Diversos estudos Gravimetria da
Convencional
Seletiva
Comercialização
0,5
0,5
1,9
0,9
Embalagens de Alumínio
1
3,5
7,2
5
Embalagens de Aço
45,5
43
42,3
19,8
Plástico
48
48
41,1
59
Papel/papelão
5
5
7,5
15,2
Vidro
0,1
Outros Metais
100
100
100
100
Total
Fonte: elaboração do Autor
A partir das quantidades (A) e dos preços médios (E) levantados na Tabela 28 pode ser
projetado o faturamento bruto mensal de comercialização pelas UTs, de aproximadamente R$
229 mil. A decomposição percentual permite a estimativa da participação de cada reciclável na
composição do faturamento total (F) e agrupada por tipo (G). Este faturamento deveria ser
superior ao líquido, obtido a partir das rendas informadas, de R$ 370 mil. Além do fato de
tratar-se de estimativas baseadas em valores médios, contribuem para a explicação desta
disparidade de aspectos como: (i) a imprecisão do método de pesquisa, baseado em
declarações; (ii) a renda foi estimada a partir da média das respostas a duas perguntas: quando
recebe cada catador, em média, quando a venda é fraca? Quanto recebe cada catador, em
média, quando a venda é ótima? Resultando em uma renda média superior à encontrada no mês
da pesquisa, visto que as quantidades foram levantadas num período de férias escolares, quando
boa parte dos porto-alegrenses aproveita para viajar, reduzindo a quantidade de recicláveis
disponibilizados para a Coleta Seletiva; (iii) a quantidade de trabalhadores foi estimada a partir
da média das respostas a duas perguntas: quando tem bastante gente trabalhando, quantos
trabalham? Quando tem pouca gente trabalhando, quantos trabalham? No período da entrevista,
visivelmente tinha menos trabalhadores do que o registrado como valor médio; (iv) a existência
de recicláveis que agregam no faturamento que não foram contempladas na pesquisa, como
cartuchos de impressoras, embalagens plásticas de água, chapas de raio-x e garrafas
comercializadas por unidade; (v) observou-se a omissão da informação de quantidades em
alguns casos, quando o entrevistado entendia que as quantidades recicladas eram muito baixas,
a exemplo dos metais.
Devido a estas limitações, os resultados expostos devem ser vistos com cautela. Se
tomado como provável o faturamento médio líquido de R$ 370, e considerada a ajuda
financeira da Prefeitura como insuficiente para a cobertura de todos os custos operacionais,
153
conforme relatado nas visitas, é presumível que o faturamento médio bruto das UTs situe-se em
torno de R$ 400 mil ao mês.
A Tabela 30 refaz a estimativa das quantidades de comercialização, a partir da
participação de cada reciclável no faturamento (F), para a estimativa de faturamento de R$ 400
mil. Neste caso, a quantidade de recicláveis comercializada pelas UTs sobe para cerca 1,2 mil t
mensais, mantida a gravimetria (B) obtida na pesquisa.
Por sua vez, a Tabela 31, ao tempo em que leva as quantidades mensais da Tabela 30
para a periodicidade anual, agrega-as por tipo de reciclável.
As visitas às UTs e UTC permitiram identificar seus principais compradores. Alguns são
conhecidos pelos próprios nomes ou apelidos, outros por nome de empresas28. Pode-se observar
o seguinte:

os compradores costumam atuar em um ou dois mercados: apenas alumínio ou alumínio e
sucata; apenas vidro ou vidro e sucata; apenas plásticos ou papéis e plásticos mais papéis;

as empresas que apareceram como compradoras costumam atuar em um só ramo: plásticos
ou papéis;

alguns compradores apareceram com frequência: um mesmo empresário constou como
comprador de vidro em oito das UTs. Além dele, neste segmento foram citados apenas dois
outros; outro apareceu com frequência como comprador de alumínio (3 UTs, mais uma
como comprador de sucata); nos mercados de papéis, plásticos e sucatas foi citada uma
variedade maior de compradores: nove, sete e nove, respectivamente;

empresas como compradoras apareceram com maior frequência nas entidades melhor
organizadas;

no geral, os preços de comercialização junto às empresas recicladores mostraram-se
melhores do ponto de vista dos recicladores.
Foram realizadas entrevistas em profundidade, estruturadas a partir do formulário
constante no Apêndice B, com três comerciantes. O primeiro deles foi identificado como
comprador de plásticos e papéis em quatro UTs. Por indicação daquele comerciante foi visitado
um segundo, especializado em metais, mas que não tinha as UTs como clientes. O terceiro foi
identificado como o principal comprador de cacos de vidro junto às UTs e que atua, em menor
escala, comprando sucatas de ferro. O objetivo dessas visitas foi conhecer a cadeia dos
recicláveis e identificar os locais de destinação, visando o dimensionamento das distâncias de
transporte, informação relevante para análises de ciclo de vida. Os principais resultados estão
28
Este estudo evita a identificação direta dos comerciantes como forma de resguardar as relações comerciais.
154
apresentados no Quadro 16.
Tabela 30 – Projeção dos volumes médios mensais de comercialização do conjunto das UTs de
Porto Alegre a partir das rendas dos recicladores
Reciclável
Particip
ação em
massa
(%)
(B)
0,79
5,01
2,42
1,88
4,02
1,88
4,6
1,64
0,57
0,95
0,53
0,32
0,55
0,19
0,16
0
0,06
3,18
10,83
2,69
3,11
10,12
2,15
12,81
0,06
7,28
2,54
4,25
15,15
0,03
0,01
0,08
0,01
0
0,04
0,01
0
0,05
0,03
100
Fonte: elaboração do Autor
Alumínio Latinha
Ferro (Sucata)
Leitoso (PEAD)
Coloridos (PEAD)
Sacos (PEBD)
Cristal (PEBD)
PET Branco
PET Verde
Azeite (PET)
Mineral (PP)
Margarina (PP)
Tampinhas (PP)
Balde e Bacia (PP)
PVC
Copinhos (PS)
Estralantes
Isopor
Longa Vida
Papelão 1ª
Papelão 2ª (Colorido)
Papelão misturado
Papel Misto
Papelão 2ª + p. misto
Papel Branco
Aparas Brancas
Jornais
Revistas
Jornais + revistas
Vidro
Alumínio Chapa
Alumínio Perfil
Alumínio Misturado
Cobre Queimado
Cobre Descascado
Cobre c/capa plástica
Cobre (misturado)
Bronze
Inox
Metais+alum.(- latas)
Totais
Pesquisa de Campo
Preço
Participação
médio
no
por kg
faturamento
($)
($)
(E)
2,37
0,14
1,08
0,56
0,27
0,69
1,30
0,98
0,34
1,08
0,39
0,83
0,38
0,26
0,23
0,10
0,40
0,13
0,25
0,17
0,23
0,10
0,42
0,39
0,85
0,15
0,14
0,13
0,04
2,37
2,66
2,40
10,17
9,13
3,00
4,50
6,50
1,08
1,50
13.080
4.893
18.268
7.349
7.586
9.080
41.734
11.243
1.356
7.181
1.431
1.868
1.466
351
253
0
160
2.883
18.902
3.191
4.996
7.062
6.300
34.866
371
7.628
2.485
3.857
4.226
540
200
1.411
732
0
930
270
0
394
263
228.804
Particip
ação no
faturam
ento
(%)
(F)
5,7
2,1
8,0
3,2
3,3
4,0
18,2
4,9
0,6
3,1
0,6
0,8
0,6
0,2
0,1
0,0
0,1
1,3
8,3
1,4
2,2
3,1
2,8
15,2
0,2
3,3
1,1
1,7
1,9
0,2
0,1
0,6
0,3
0,0
0,4
0,1
0,0
0,2
0,1
100
Projeção
Participação
Quantidade
no
mensal
faturamento
(kg)
($)
(H)
22.800
8.400
32.000
12.800
13.200
16.000
72.800
19.600
2.400
12.400
2.400
3.200
2.400
800
400
0
400
5.200
33.200
5.600
8.800
12.400
11.200
60.800
800
13.200
4.400
6.800
7.600
800
400
2.400
1.200
0
1.600
400
0
800
400
400.000
9.620
60.000
29.630
22.857
48.889
23.188
56.000
20.000
7.059
11.481
6.154
3.855
6.316
3.077
1.739
0
1.000
40.000
132.800
32.941
38.261
124.000
26.667
155.897
941
88.000
31.429
52.308
190.000
338
150
1.000
118
0
533
89
0
741
267
1.227.345
155
Tabela 31 – Projeção da comercialização anual das UTs de Porto Alegre, por tipo de reciclável
Reciclável
Comercialização anual (mil t)
0,1
Latas de Alumínio
0,7
Latas de Aço
2,9
Plásticos
8,7
Papéis/papelão/Longa Vida
2,3
Vidros
14,7
Total
Fonte: elaboração do Autor
Quadro 16 – Informações sobre a cadeia de comercialização dos recicláveis de Porto Alegre
Reciclável Informações (empresa – estado – preço de venda)
Alumínio Imbra Metais – (SP); Alcicla – (SP); Aleris – (SP); Latasa – (SP) – R$ 2,40/kg
Gerdau – (RS) – R$ 240 a 250/t
Sucata
Recicla Brasil – PET – São Paulo (SP) – R$ 1,60
Plásticos
AZ Plast e Ecocicle – PEBDC – Santa Catarina (SC) – R$ 1,00
Mundo Limpo Recicladora – PEAD – (SC) – R$ 0,80
Outras: Fercata – Terra de Areia (RS); Filipet – Porto Alegre; Sulpet – Caxias do Sul
(RS)
Adami – (SC); Astória – Gravatai (RS) – papelão de 1ª – R$ 0,25/kg; papel branco – R$
Papéis
0,45/kg
Recividro – Sapucaia do Sul (RS) – R$ 85/t
Vidro
Fonte: elaboração do Autor. Notas: SC – Estado de Santa Catarina; SP – Estado de São Paulo
Na comparação dos preços declarados como pagos pelos comerciantes com os preços
declarados como recebidos pelos sucateiros pode-se perceber que apenas o terceiro comerciante
(de vidro e sucatas) teria reais margens de ganho – de 80% a 110%. Os preços declarados como
recebidos, relacionados ao alumínio, plásticos e papés, reserva uma pequena margem de lucro
aos comerciantes, circunstância que põe em dúvida a veracidade das informações. Outra
conclusão foi de que, dos cinco recicláveis estudados, quatro (exceto alumínio) encontram
compradores com distâncias de transporte inferiores a 200 km, embora os maiores compradores
de plásticos estejam nos estados de SC e SP.
Diante da constatação de que as UTs e os compradores visitados não realizam
beneficiamento dos recicláveis, foi visitada uma empresa recicladora de PEAD em
funcionamento no município de São Leopoldo (RS), visando a obtenção de informações
complementares sobre esta cadeia de reciclagem, com ênfase nas distâncias de transporte e
dispêndio energético. Com relação aos fornecedores da recicladora, a maioria está a menos de
100 km, embora receba resíduos plásticos vindos do Uruguai (mais de 500 km). Seus principais
compradores estão num raio entre 100 km – Caxias do Sul (RS) e 300 km – Pelotas e Santa
Maria (RS). Para a produção de cerca de 22 t/mês de pellets, a recicladora visitada utiliza cerca
de 8 mil litros de água e 16 mil kW de energia elétrica. A produção de um kg de pellet
156
demanda R$ 0,35 a 0,40 em energia elétrica.
Os dois próximos tópicos utilizam-se das informações descritas na metodologia e as
obtidas na pesquisa de campo para o dimensionamento das reduções de emissões de GEE
propiciadas pela reciclagem em Porto Alegre. A próxima, de caráter mais abrangente, pela
aplicação dos fatores de USEPA (2006) e a seguinte, específica para os plásticos da Coleta
Seletiva, pela aplicação da metodologia CDM AMS-III.AJ.
4.2.1 Estimativa das reduções de emissões pela reciclagem em Porto Alegre através de
fatores de reduções
De forma análoga às avaliações em nível de Brasil, este tópico estima as reduções de
GEE propiciadas pela reciclagem em Porto Alegre, atuais e potenciais, considerada a atividade
no Município como um todo e especificamente pelas UTs associadas à Coleta Seletiva.
A reciclagem no Município ocorre por intermédio da Coleta Seletiva e pelos catadores
autônomos, cuja atuação abrange desde os carrinheiros e carroceiros, até empresas organizadas,
que utilizam caminhões para a coleta, sendo que estas últimas costumam circular pelos bairros
antecipando-se ao recolhimento oficial, provocando reduções nos volumes recolhidos pela
Coleta Seletiva.
Com relação à quantidade coletada pela Coleta Seletiva, o DMLU tem presente a
evolução de 70 t/dia em 2007, quando ainda não abrangia todos os bairros duas vezes por
semana, para 100 t/dia após a ampliação do serviço, em 2008. Esta estatística, mensalizada,
equivale a 2600 t, considerados os 26 dias de coleta no mês. Deduzida a parcela orgânica,
estimada em 20% pelo DMLU – há relatos de recicladores de que pode chegar a 40% – restam
2080 t. Destas, precisam ser retirados os recicláveis descartados pelas UT por falta de preço ou
de comprador, como isopor e estralantes. Porém as quantidades estimadas com base na renda
dos recicladores e nos preços de comercialização – de 1227 t/mês – mostra-se
significativamente inferior. Qual é a explicação para esta diferença, visto não poder ser
atribuída integralmente aos descartes das UTs? Diversos fatores podem estar influindo, desde
as limitações deste estudo, já mencionadas, como a subavaliação da parcela de orgânicos
contidos na coleta e/ou o desperdício de recicláveis nas UT. Ainda, a possibilidade de
superavaliação da quantidade coletada, pois não há pesagem. O serviço é contratado por roteiro
e a descarga, distribuída em 18 locais diferentes. Questionado a respeito da ausência de
pesagem, o DMLU informou que utiliza como parâmetro a ocupação da carroceria do
157
caminhão (tipo boiadeiro), tendo como parâmetro – obtido por amostragem – de 1500 Kg
quando cheia, sendo que a conversão em peso dos recicláveis quando as carrocerias são semiocupadas ocorre por estimativa visual (PMPA, 2013a). Diante da inexistência de quantificações
mais acuradas, este estudo optou por considerar como a reciclagem atual da Coleta Seletiva a
projeção da comercialização, obtida através das rendas médias auferidas pelos recicladores.
Uma vez quantificada a parcela da reciclagem abrangida pela Coleta Seletiva, surge o
questionamento sobre a dimensão total da atividade do Município. Diante da inexistência de
estatísticas que contemplem esta informação, devido ao caráter informal pelo qual a atividade
de reciclagem é predominantemente exercida, este estudo utiliza o PIB como proxy, na
suposição de que o consumo aparente e a reciclagem de Porto Alegre, em relação ao Brasil,
mantêm, aproximadamente, a mesma proporção existente entre as economias do Município e
do País. Considerando-se o ano de 2010, último disponibilizado pelo IBGE no momento da
elaboração deste estudo, tem-se que a economia porto-alegrense, de R$ 43 bilhões, representou
1,17% do PIB nacional, de R$ 3.675 bilhões, em proporção aproximada à de 1,20%, relativa ao
ano de 2009 (IBGE, 2011; IBGE, 2012).
A Tabela 32 estima o consumo aparente, a reciclagem atual e a reciclagem potencial de
Porto Alegre, a partir das estimativas em nível de País, sumarizadas na Tabela 21 (página 142).
A exemplo do caso brasileiro, foram considerados como reciclagem potencial os atuais
melhores desempenhos em nível mundial, disponibilizados pela literatura.
Tabela 32 – Estimativa da reciclagem em Porto Alegre, em mil t
Reciclável/ano
Brasil
Porto Alegre1
Consu
Recicla Recicla
Consu
Recicla Recicla
mo
gem
gem
mo
gem
gem
Aparen Potenci
atual
Aparen Potenci
atual
te
al
(C)
te
al
(F)
(A)
(B)
(D)
(E)
253
249
249
3,0
2,9
2,9
L.Alumínio (2010)
575
563
270
6,7
6,6
3,2
L.Aço (2008)
3.373
1.181
732
39,5
13,8
8,6
Plásticos (2011)
9.562
8.759
4.351
111,9
102,5
50,9
Celulose (2011)
1.041
708
489
12,2
8,3
5,7
Vidros (2008)
14.804
11.460
6.091
173,2
134,1
71,3
Totais
Fonte: elaboração do Autor
Nota: (1) foi utilizada como proxy a relação entre os PIBs de 2010.
Potencial de
Incremento
G=(E – F)
0,0
3,4
5,3
51,6
2,6
62,8
As estimativas apresentadas na Tabela 32 permitem dimensionar a participação da
Coleta Seletiva com relação ao universo da reciclagem no Município. Enquanto a primeira foi
estimada em 14,7 mil t (Tabela 31), a segunda pode ter atingido 71,3 mil t. Por esta avaliação, a
158
taxa de participação da coleta formal representa apenas 21% da coleta total, considerados os
cinco principais recicláveis de origem domiciliar. Esta estimativa corrobora a conclusão de
Brasil (2011), apresentada na Tabela 12 (página 76), da menor participação das coletas
seletivas em relação às reciclagens pré-consumo e informal.
Com relação à Coleta Convencional, os técnicos do DMLU têm presente, por análises
gravimétricas, que cerca de 15% da Coleta Domiciliar e 10% da Coleta Comercial – realizada
junto a grandes geradores – é composta por recicláveis, descartados junto com o lixo orgânico e
sem separação. Estes percentuais, aplicados sobre os montantes da coleta domiciliar e
comercial de 2011, apresentados na Tabela 25 (página 146), resultam em 52,9 mil t, aterradas
pelo Município por falta de separação na origem. Este resultado guarda coerência com o obtido
na coluna G da Tabela 32, de 62,8 mil t.
A Tabela 33 resume as estimativas da reciclagem pela Coleta Seletiva e do Município
como um todo, tanto atuais como potenciais. O potencial da Coleta Seletiva foi estimado a
partir do potencial da reciclagem total de Porto Alegre, mantida a proporção atual, de 21%.
Para a reciclagem atual da Coleta Seletiva foi considerada a estimativa de comercialização
baseada na gravimetria obtida na pesquisa de campo, combinada com a renda dos recicladores
(Tabela 29).
Tabela 33 – Estimativas da reciclagem da Coleta Seletiva e total de Porto Alegre, por tipo de
reciclável, em mil t/ano.
Reciclável
Município
Coleta Seletiva
Potencial
Atual
Potencial de Potencial Atual
Potencial
(E)
(F)
incremento
(H)
(I)
de
G = (E – F)
incremento
J = (H –I)
2,9
2,9
0,0
0,1
0,1
0,0
Latas de Alumínio
6,6
3,2
3,4
1,4
0,7
0,7
Latas de Aço
13,8
8,6
5,3
4,0
2,9
1,1
Plásticos
102,5
50,9
51,6
19,5
8,7
10,8
Papéis/papelão/Tetrapek
8,3
5,7
2,6
2,8
2,3
0,5
Vidros
Total
134,1
71,3
62,8
27,9
14,7
13,2
Fonte: elaboração do Autor
Os montantes da reciclagem de Porto Alegre constantes da Tabela 33, ponderados pelos
fatores de reduções de emissões de GEE estimados por USEPA (2006) para a reciclagem,
resultam nas estimativas constantes da Tabela 34, onde o atual nível da Coleta Seletiva em
Porto Alegre representa reduções anuais de 42,7 ktCO2e. Se aproveitada para reciclagem a
parcela de recicláveis que atualmente não é separada pela população, mantida a
159
proporcionalidade atual entre a coleta formal e informal, as economias de emissões podem
chegar a 88,5 ktCO2e ao ano. Estas reduções, para o Município visto como um todo, equivalem
a 266,3 e 485,2 ktCO2e, respectivamente.
Tabela 34 – Reduções de emissões propiciadas pela reciclagem em Porto Alegre, atuais e
potenciais, em mil tCO2e ao ano
Reciclável
Fator de
Município
Coleta Seletiva
redução de Potenci Atual
Potencial
Potenci Atual
Potencial
emissões (1)
al
(F)
de
al
(I)
de
(tCO2e/t
(E)
increment
(H)
increment
de
o
o
reciclável)
G = (E – F)
J = (H –I)
Emb.de Alumínio
43,8
43,8
0,0
1,5
1,5
15,11
0,0
2,00
13,2
6,4
6,8
2,8
1,4
1,4
Emb. de Aço
1,71
23,6
14,7
9,1
6,8
5,0
1,9
Plásticos
3,92
401,8
199,5
202,3
76,4
34,1
42,3
Misto de papéis
0,33
2,7
1,9
0,9
0,9
0,8
0,2
Vidros
Totais
485,2
266,3
219,0
88,5
42,7
45,8
Fonte: elaboração do Autor
Nota: (1) Utilizada para plásticos a média aritmética dos fatores de USEPA (2006) para PEAD, PEBD e
PET, casualmente equivalente ao fator do PET.
As estimativas vistas neste tópico resultaram da aplicação dos fatores de emissões
calculados por USEPA (2006). No próximo tópico é aplicada a metodologia AMS-III.AJ para a
avaliação das reduções propiciadas pela reciclagem de plásticos na Coleta Seletiva.
4.2.2 Estimativa das reduções de emissões abrangidas pela metodologia CDM
A metodologia AMS-III.AJ reveste-se de importância impar para este estudo, pois
constitui-se na única alternativa ao alcance dos recicláveis abrangidos por este estudo para o
acesso ao CDM, como mostrou a Tabela 14 (página 105). Descrita no capítulo 3, esta
metodologia é agora resgatada visando à análise da sua aplicabilidade, sob o ponto de vista
técnico, ao caso de Porto Alegre.
Para o caso A de aplicabilidade – quando a UT é operada pelo setor informal – a
metodologia relaciona oito condições de aplicabilidade:
(1) a UT pode ser já existente ou recém-implementada;
(2) a possibilidade da medição direta e registro por massa (em base seca) dos materiais que
saem da instalação de reciclagem;
(3) a comercialização direta com o usuário final ou com uma cadeia identificada de
intermediários até a entrega ao usuário final;
160
(4) o DCP deve explicar os procedimentos adotados para garantir que não ocorra dupla
contagem das reduções de emissões, tais como acordos contratuais com os usuários finais;
(5) as reduções de emissões podem ser reivindicadas para a diferença de consumo de energia
para a produção de produtos à base de PEAD/PEBD/PET/PP em substituição aos insumos
virgens. No caso de papel ou papelão, podem ser reivindicadas as reduções decorrentes da não
formação de metano, quando o cenário de referência for a disposição em aterro sem a
recuperação do metano;
(6) o proponente do projeto deve ser capaz de demonstrar, usando três anos de dados históricos
(dados de mercado, estatísticas oficiais, etc.), que o plástico utilizado nos produtos plásticos
objeto da reciclagem foram fabricados usando resinas plásticas produzidas no país ou de outro
não participante do Anexo 1 do PQ;
(7) são elegíveis no âmbito da metodologia apenas os recicláveis comprovadamente oriundos
das coletas formais. Resíduos obtidos de fontes desconhecidas não podem ser computados;
(8) por tratar-se de projeto de pequena escala, estão contempladas apenas as reduções anuais
inferiores a 60ktCO2e.
No caso de Porto Alegre as condições de aplicabilidade são passíveis de serem
atingidas, à exceção das condições (5) e (6). Esta última pelo fato da parcela não reciclada
relativa a papéis e papelões ser disposta em aterro sanitário, onde é realizada a queima do
metano (SIL, 2013).
A condição (5), embora coerente à lógica do CDM, representa um
severo limitante à viabilidade destes projetos, devido à ausência de monitoramento da origem
dos plásticos reciclados e às importações, inclusive de países signatários do Anexo 1 do PQ.
Segundo a Abiplast, em 2011 as importações de resinas (1.771 mil t) superaram as exportações
(1.433 mil t) (ABIPLAST, 2011).
Na sequência de etapas previstas na metodologia para a determinação da linha de base,
a primeira diz respeito aos limites físicos e geográficos. Como o município em estudo possui
um sistema consolidado de Coleta Seletiva e as UTs estão estruturadas, o projeto pode
contemplar a situação existente. Porém a metodologia, na versão 4.0, coloca como parte
essencial da atividade a lavagem dos plásticos com água quente para a remoção das impurezas,
de modo que o projeto precisaria prever a implementação deste procedimento sob a
operacionalização do setor informal (UNFCCC, 2012a).
Como o CDM aceita apenas as contribuições futuras de reduções de emissões,
decorrentes da instalação da atividade de projeto e chamadas de reduções de projeto, a Tabela
35 demonstra a estimativa das quantidades dos plásticos abrangidos pela metodologia AMS161
III.AJ – PEAD, PEBD, PET e PP, passíveis de incremento pela Coleta Seletiva até o
atingimento da quantidade potencial, estimadada em 1,1 mil t/ano, conforme mostra a linha
destacada em cinza claro na Tabela 33.
Tabela 35 – Estimativa das quantidades de projeto para os recicláveis aceitos pela metodologia
AMS-III.AJ relacionados a Coleta Seletiva de Porto Alegre
Tipo
Participação
Participação
Quantidade por
Quantidade por
Absoluta (%)
relativa (%)
separação
tipo (t/ano)
(t/ano)
Leitoso (PEAD)
2,42
12,2
134,6
Coloridos (PEAD)
1,88
9,5
104,6
239,3
Sacos (PEBD)
4,02
20,3
223,7
Cristal (PEBD)
1,88
9,5
104,6
328,3
PET Branco
4,6
23,3
255,9
PET Verde
1,64
8,3
91,2
Azeite (PET)
0,57
2,9
31,7
378,9
Mineral (PP)
0,95
4,8
52,9
Margarina (PP)
0,53
2,7
29,5
Tampinhas (PP)
0,32
1,6
17,8
Balde e Bacia (PP)
0,55
2,8
30,6
130,8
(1)
PVC
0,19
1,0
10,6
Copinhos (PS) (1)
0,16
0,8
8,9
Estralantes (1)
0
0,0
0,0
(1)
Isopor
0,06
0,3
3,3
1.100,0
1.077,2
Totais
19,77
100
Fonte: elaboração do Autor
Nota: (1) plástico não enquadrado pela metodologia
As quantidades estimadas na Tabela 35, uma vez recicladas, evitam a produção de
insumos virgens e suas emissões relacionadas. A Tabela 36 estima estas economias, que
resultam nas emissões de linha de base (BE), pela aplicação da Equação 1, apresentada no
terceiro capítulo: BE y  [Qi,y x Li x ( SEC Bl,i x EFel , y  SFC Bl,i x EFFF ,CO2 )] , onde:
i
BEy
são as emissões de linha de base, que ocorreriam pela produção de material virgem
(tCO2/ano);
i
tipo de plastico: i = 1,2,3,4 (1=PEAD, 2=PEBD, 3=PET, 4=PP);
Qi,y
quantidade de plástico do tipo i reciclado em um ano: estimadas conforme a Tabela
33 (t/ano);
Li
fator de ajuste para cobrir a degradação na qualidade do material e perda de
material no processo de produção pela utilização de material reciclado: 0,75;
SECBl,i
consumo de eletricidade para a produção do insumo virgem i (MWh/t);
EFel,i
fator de emissão da matriz de geração elétrica do Brasil (tCO2/MWh), calculado
com base na versão mais recente da ferramenta “tool to calculate emission factor
for an electricity system” (UNFCCC, 2012a): utilizado o fator 0,3941
162
tCO2e/MWh, obtido por Energimp (2013);
SFCBl,i
consumo de combustível para a produção de material virgem tipo i (GJ/t): usado o
consumo energético do gás natural para o craqueamento térmico, por imposição da
metodologia; e
EFFF,CO2 fator de emissão do combustível fóssil: foi utilizado o fator do óleo diesel, pelo
uso predominante no Brasil, publicado por 2006 IPCC Guidelines for National
Greenhouse Gas Inventories, de 0,0741 tCO2/GJ (WALDRON et al., 2006).
Tabela 36 – Estimativa das emissões de linha de base, em tCO2e/ano
Material Qi,y
Li
SECBl,i
EFel,i
SFCBl,i
Quant Fator Consumo de Fator de
Consumo
idade
de
eletricidade Emissão
de
(t)
ajuste (MWh/t)
Matriz
Combustí
Elétrica
vel
(tCO2e/MWh) (GJ/t)
239,3
0,75
0,83
0,3941
15
PEAD
328,3
0,75
1,67
0,3941
15
PEBD
378,9
0,75
1,11
0,3941
15
PET
130,8
0,75
0.56
0,3941
11,6
PP
1077,3
Total
Fonte: elaboração do Autor
EFFF,CO2
BEy
Fator
do (tCO2e/
Combustível ano)
(tCO2e/GJ)
0,0741
0,0741
0,0741
0,0741
258
436
440
106
1240
As reduções de emissões obtidas pela atividade do projeto resultam da diferença entre
emissões de linha de base – Tabela 36 – deduzidas as emissões do projeto e leakage, conforme
a equação 2, detalhada na metodologia: ERy = BEy – PEy – LEy. Como não estão previstas
emissões associadas à atividade de projeto ocorrendo fora dos seus limites, a parcela de leakage
(LEy) é nula.
As emissões de projeto (PEy) consideram apenas o uso de energia nas UTs, pois as
emissões associadas ao transporte de materiais recicláveis são consideradas equivalentes às
emissões pelo transporte de materiais virgens e, portanto, ignoradas pela metodologia. Para as
atividades do caso A as emissões do projeto podem ser calculadas a partir da equação 4:
PE y   (Qi,y  SEC rec  EFel , y ) , onde SECrec é o consumo de energia elétrica por tipo de
i
polímero, fixada pela metodologia em 0,83 MWh/t (3 GJ/t) para todos os tipos de plásticos. A
Tabela 37 apresenta estas quantificações para o caso da Coleta Seletiva de Porto Alegre.
A metodologia prevê a alocação das emissões do projeto, relacionadas à energia elétrica
e combustíveis, distribuidas entre os diversos recicláveis operados pela recicladora, utilizando
suas participações relativas na comercialização como proxy. E, ainda, as atividades de
monitoramento, que incluem o controle das quantidades de todos os recicláveis (inclusive
materiais orgânicos, vidros, metais, etc.) recebidos e comercializados pela recicladora, o
163
consumo de energia elétrica e combustíveis líquidos, o controle financeiro da comercialização e
a viscosidade dos polímeros de PET e PP, conforme explicado no Quadro 12 (página 127).
Tabela 37 – Estimativa das reduções de emissões pela Coleta Seletiva de Porto Alegre conforme a
metodologia AMS-III.AJ
Material BEy
Qi,y
SECrec
EFel,y
PEy
LEy
ERy
(tCO2e/ Quantidade (MWh/t) (tCO2e/ (tCO2e/ano) (tCO2e/ (tCO2e/ano)
ano)
(t)
MWh)
ano)
258
239,3
0,83
0,3941
78,3
0
179,7
PEAD
436
328,3
0,83
0,3941
107,4
0
328,6
PEBD
440
378,9
0,83
0,3941
123,9
0
316,1
PET
106
130,8
0,83
0,3941
42,8
0
63,2
PP
1240
1077,3
352,4
0
Total
887,6
Fonte: elaboração do Autor
A estimativa das reduções líquidas de emissões pela metodologia AMS-III.AJ, aplicada
à Coleta Seletiva de Porto Alegre, resultaram em apenas 887,6 tCO2e anuais.
4.2.3 Estimativas de receitas para a reciclagem de Porto Alegre nos mercados de carbono
A atual prática de acesso aos mercados de carbono demanda rigorosos
acompanhamentos para a quantificação da efetiva contribuição das atividades de projeto nas
reduções. Esta situação dificulta sobremaneira a inserção da reciclagem em mercados de
carbono quando tomada em nível de País. Neste sentido, é justificável o estudo das reduções de
emissões para o caso de um município de grande porte, como Porto Alegre, onde um projeto
deste gênero apresenta-se mais exequível.
Enquanto, em nível de País, as quantificações de reduções pela reciclagem foram
dimensionadas com base nos fatores de USEPA (2006), para o caso de Porto Alegre foram
realizadas duas análises: por USEPA (2006), aplicada aos cinco recicláveis deste estudo em
dois níveis – Coleta Seletiva e município como um todo; e pela metodologia CDM AMS.IIIAJ, aplicada apenas à comercialização de plásticos pela Coleta Seletiva.
Nas quantificações das reduções de emissões pela reciclagem do Município,
apresentadas na Tabela 32, foi estimado em 62,8 mil t anuais o potencial de incremento da
reciclagem, por materiais que atualmente são direcionadas para aterro sanitário. A reciclagem
destes materiais, além das as vantagens sociais e ambientais, poderiam resultar numa economia
anual da ordem de R$ 5 milhões a Porto Alegre, se considerados os custos de transporte e
aterramento, em torno de R$ 80,00 por tonelada (PMPA, 2012b).
164
As quantificações de reduções apresentadas na Tabela 34 e as estimativas de preços dos
mercados de carbono permitem a construção das Tabelas 38 e 39, com as estimativas do
potencial de receitas brutas pela comercialização de créditos de carbono quando considerado o
Município como um todo (Tabela 38) e pela reciclagem da Coleta Seletiva (Tabela 39), em
ambos os casos consideradas três situações: a reciclagem atual, a reciclagem potencial e a
reciclagem adicional, a partir dos níveis atuais até o atingimento dos níveis ideais.
Tabela 38 – Estimativa do potencial de receitas brutas pela comercialização de créditos de
carbono considerada a reciclagem total de Porto Alegre, em R$ mil/ano
Reciclável
Sobre o Potencial total
Sobre as Reduções
Sobre o potencial de
atuais
incremento
Preços em diferentes
Preços em diferentes
Preços em diferentes
cenários
cenários
cenários
13,08
25,52
34,00
13,08 25,52 34,00 13,08 25,52 34,00
572,9 1117,8 1489,2 572,9 1117,8 1489,2
0,0
0,0
0,0
Emb. Alumínio
172,7
336,9
448,8
83,7 163,3 217,6
88,9 173,5 231,2
Emb. de Aço
308,7
602,3
802,4 192,3 375,1 499,8 119,0 232,2 309,4
Plásticos
Misto de Papéis 5255,5 10253,9 13661,2 2609,5 5091,2 6783,0 2646,1 5162,7 6878,2
35,3
68,9
91,8
24,9
48,5
64,6
11,8
23,0
30,6
Vidros
Totais
6346,4 12382,3 16496,8 3483,2 6796,0 9054,2 2864,5 5588,9 7446,0
Fonte: elaboração do Autor
Tabela 39 – Estimativa do potencial de receitas brutas pela comercialização de créditos de
carbono da Coleta Seletiva de Porto Alegre, em R$ mil/ano
Reciclável
Sobre o Potencial total
Sobre as Reduções
Sobre o potencial de
atuais
incremento
Preços em diferentes
Preços em diferentes
Preços em diferentes
cenários
cenários
cenários
13,08 25,52 34,00 13,08 25,52 34,00 13,08 25,52 34,00
19,6
38,3
51,0
19,6
38,3
51,0
0,0
0,0
0,0
Emb. de Alumínio
36,6
71,5
95,2
18,3
35,7
47,6
18,3
35,7
47,6
Emb. de Aço
88,9 173,5 231,2
65,4 127,6 170,0
24,9
48,5
64,6
Plásticos
999,3 1949,7 2597,6 446,0 870,2 1159,4 553,3 1079,5 1438,2
Misto de Papéis
11,8
23,0
30,6
10,5
20,4
27,2
2,6
5,1
6,8
Vidros
Totais
1157,6 2258,5 3009,0 558,5 1089,7 1451,8 599,1 1168,8 1557,2
Fonte: elaboração do Autor
Conforme a Tabela 38, os serviços climáticos realizados pela reciclagem do Município
equivalem a valores entre R$ 3,5 e 9 milhões anuais, sendo que poderiam atingir R$ 16,5
milhões, caso ocorressem ações no sentido de aproveitar os recicláveis atualmente aterrados. Se
consideradas somente as reduções adicionais, um virtual projeto que conseguisse envolver todo
o município poderia resultar em receitas brutas entre R$ 2,9 e 7,4 milhões anuais. São valores
que devem ser considerados quando do desenvolvimento de políticas públicas voltadas a este
165
segmento da população, de acordo com o princípio PPR.
No universo da reciclagem de Porto Alegre, a parcela resultante da comercialização de
recicláveis pelas UTs mostra-se modesta, mas é preciso considerar que representa o trabalho de
um contingente de cerca de 630 trabalhadores, reduzido frente à quantidade de porto-alegrenses
que vivem da catação, de 14 a 28 mil pessoas, se transportadas para o município as cifras
citadas por apresentadas por Peterson e Godin ([2009]), ou de 28 mil a 42 mil, conforme Brasil
(2011). Se remunerados a preços de mercado, os cooperativados da Coleta Seletiva poderiam
ratear valores entre R$ 558 mil e R$ 1,45 milhões anuais, considerada a prestação atual do
serviço e, se considerada apenas a perspectiva de adicionalidade, de R$ 599 mil a R$ 1,557
milhões. Na situação onde a reciclagem do município atinja os níveis das atuais melhores
práticas mundiais, valores entre R$ 1,158 milhões e 3,009 milhões. Se considerada apenas a
adicionalidade e o menor nível de preços, a receita da comercialização de créditos de carbono
pela Coleta Seletiva – de R$ 599,1 mil – superaria a ajuda financeira da PMPA ao conjunto das
UTs, em torno de 462 mil anuais. Esta mesma receita poderia representar cerca de R$ 951 de
incremento na renda anual de cada reciclador.
A aplicação do fator de USEPA (2006) para os parâmetros do estudo relativos à
adicionalidade da Coleta Seletiva de plásticos resultou em receita bruta entre R$ 24,9 mil e R$
64,6 mil (valores destacados em cinza claro na Tabela 39). Este resultado pode ser comparado
com o obtido na aplicação da metodologia AMS-III.AJ, Tabela 37, quando a estimativa das
reduções líquidas de emissões por esta metodologia, aplicada à Coleta Seletiva de Porto Alegre,
resultou em 887,6 tCO2e anuais. Traduzida em receitas nos mercados de carbono, na hipótese
de preço assumido pelo estudo para o mercado de CER, em R$ 22,6 mil, valor insuficiente para
compensar os custos de tramitação do projeto no CDM, expostos na Tabela 19 (página 121).
Este resultado sinaliza para a inviabilidade econômica de projetos ao amparo da
metodologia AMS-III.AJ pelos parâmetros da atual versão (4.0), cuja evolução em relação às
versões anteriores mostra-se insuficiente para viabilizar a inserção da reciclagem no CDM.
Corroborando esta constatação está a inexistência de projetos ao abrigo desta metodologia sob
a apreciação da UNFCCC. Sequer tramitou o projeto que deu origem à metodologia – visando
créditos de carbono para a argentina Coordinación Ecológica Area Metropolitana Sociedad del
Estado (CEAMSE). Tal situação já se desenhava em março de 2011, quando a metodologia foi
colocada em discussão pela UNFCCC, haja vista a contribuição de Mariel Vilella,
representando a entidade Global Alliance for Incinerator Alternatives (GAIA):
... os benefícios econômicos desta metodologia estão suscetíveis de serem
166
extremamente pequenos. O projeto inicial, de Buenos Aires, estimou uma redução
anual de 239 toneladas de CO2e de todas as oito cooperativas, no valor de cerca de €
2.900, a preços atuais do carbono. Por outro lado, os projetos de resíduos utilizando a
metodologia AM00025 geram, em média, reduções anuais de 114 mil toneladas, no
valor de cerca de € 1,368 milhões ... (VILELLA, 2011, p.2, tradução nossa).
Em outra contribuição, Gareth Phillips, representando a entidade Project Developer
Forum, destaca que a metodologia é desnecessariamente restritiva em muitos aspectos.
Relacionava: o controle da fonte dos materiais a serem reciclados; o fato da metodologia ser
aplicável a apenas alguns tipos de materiais; e a limitação em 200 km nas distâncias de
transporte (PHILLIPS, 2011).
Outro aspecto desnecessariamente limitador está no fato da metodologia aceitar apenas
quantificação do metano evitado pela reciclagem da celulose versus sua deposição em aterro.
Ocorre que tal dispositivo torna-se inócuo na medida em que a evolução da indústria da
reciclagem evita que o papel chegue ao aterro. Melhor seria a metodologia abrigar as reduções
resultantes da substituição, nos processos industriais, da celulose virgem pela reciclada,
considerado o ganho do sequestro de carbono pela floresta viva.
O contato com os recicladores da Coleta Seletiva de Porto Alegre alertou para a
necessidade da discussão de uma novidade que está afetando a atividade: a redução da
quantidade de recicláveis recebidas nas UTs decorrente da implantação, em julho de 2011, de
contêineres para o recebimento dos resíduos orgânicos na região central e mais quatro bairros
próximos. Embora a medida visasse ganhos de limpeza pública, higiene e na circulação
automotiva, pela redução do número de caminhões de coleta, e a população fosse orientada a
manter inalterada sua rotina com relação à Coleta Seletiva, os moradores também estão
utilizando o contêiner para descartar o lixo seco. Como consequência, os catadores de rua
passam revirando o lixo dos contêineres, com parte dele jogada na calçada, e uma parcela
maior de recicláveis acaba não aproveitada, acompahando o lixo orgânico para aterramento
(TATSCH, 2011).
Ocorre que são pontos fundamentais para a rentabilidade das UTs a quantidade de
recicláveis recebidos da Coleta Seletiva – insumo básico – e os preços de comercialização dos
recicláveis. Com relação aos preços, a pesquisa de campo detectou que as UTs possuem baixa
barganha de negociação. Procuram estabelecer relações de parceria e confiança com os
compradores, pondo-se à mercê dos preços por eles estabelecidos. Percebeu-se que atuam de
forma individualizada e conversam pouco entre si. Procuram não alertar as outras sobre os
melhores compradores com receio de perdê-los. Sem barganha com relação aos preços de
comercialização, resta às UTs a esperança de receberem da Coleta Seletiva uma quantidade de
167
recicláveis que permita um volume de comercialização suficiente para a geração de renda aos
associados em níveis satisfatórios, tornando delicada a questão dos contêineres.
Embora a PMPA tenha adotado ações educativas para combater o descarte de
recicláveis nos contêineres, observa que o problema continua e tende a aumentar quando
ocorrer a ampliação desta coleta, planejada para ocorrer em 2013, de modo a abranger a região
marcada em vermelho no mapa da Figura 14 (ELY, 2012). São áreas que concentram uma
população de maior poder aquisitivo, cujos descartes são “ricos” em recicláveis. Se as UTs
estão sofrendo com a implantação da conteinerização, ressentirão ainda mais na medida em que
a prática for ampliada.
Figura 14 – Área de coleta automatizada de resíduos orgânicos em Porto Alegre
Fonte: Ely, 2012
Minimiza o problema no tocante à mistura e disposição dos recicláveis com a parte
orgânica está na colocação de dois contêineres, um para os recicláveis e outro para os
orgânicos. Esta alternativa, adotada por municípios como Caxias do Sul (RS), conforme mostra
a Figura 15, por facilitar e racionalizar o trabalho de descarte pela população, estimula a prática
168
da segregação do lixo doméstico.
Figura 15 – Sistema de contêineres em Caxias do Sul (RS)
Fonte: CODECA, 2008
A organização e união das UTs do Município, ao tempo em que teria maior capacidade
de diálogo com a PMPA, de modo a discutir políticas públicas como a questão dos contêineres,
criaria condições de base para uma melhor negociação de preços de comercialização e na
gestão geral do negócio, necessária para o aproveitamento das oportunidades propiciadas pelos
mercados de carbono.
As ações da esfera federal, somadas com as iniciativas nas esferas estaduais e
municipais, além da atuação das OSCIPs, ONGs e outras instituições públicas e privadas, por
um lado mostram sensibilidade e desejo de melhoria no atual cenário no qual estão inseridos os
catadores, apresentado no Quadro 6, mas, por outro, deixam transparecer um longo caminho
evolutivo até a superação da árvore de vulnerabilidades construída por Ipea (2010), apresentada
na Figura 2 (página 79).
A organização da reciclagem como um APL parece fundamental para a viabilização de
projetos voltados aos mercados de carbono. E a centralização da comercialização dos
reciclaveis mostra-se desejável tanto sob aspectos econômicos, visando ganhos de escala e
barganhas de comercialização, como para a facilitação das atividades de controle, necessárias
em projetos voltados aos mercados de carbono. Com relação às barganhas de comercialização,
é ilustrativo o estudo de Aquino et al. (2009) abrangendo as associações de catadores da região
metropolitana de Florianópolis, estado de Santa Catarina, ao concluirem que a organização em
rede das entidades estudadas viabilizaria a negociação direta com as indústrias recicladoras,
agregando cerca de 32% aos preços dos produtos comercializados.
O perfil apresentado no Quadro 6 (página 78), de abrangência nacional, coaduna-se
com a situação vigente na cidade de Porto Alegre, conforme mostra a pesquisa de Meyer et al.
169
(2009), sobre o perfil socioeconômico dos catadores/recicladores conveniados com a Prefeitura
Municipal de Porto Alegre. Aqueles Autores estudaram uma amostra de 30% da população de
trabalhadores das UTs, com a aplicação de questionários, entrevistas e a observação direta da
gestão daquelas unidades. Entre suas verificações estão a elevada rotatividade no trabalho, a
falta de identidade de grupo e a não identificação com o trabalho que desenvolvem, aspectos
que dificultam a evolução das UTs na direção da autogestão. Aqueles pesquisadores
observaram grande dificuldade dos gestores das UTs pesquisadas em informar a quantidade de
resíduos comercializada, além de contradições entre o que diziam os gestores e a realidade
verificada “in loco” com relação ao uso de equipamentos de proteção individual (EPI):
enquanto os gestores daquelas Unidades afirmavam o uso, a visita de campo mostrou sua baixa
utilização.
Muitas das conclusões daqueles Autores foram corroboradas pela pesquisa de
Marcondes (2012), realizada mediante a aplicação de 225 questionários com perguntas
fechadas, respondidas por 64,8% dos associados das UTs conveniadas com o DMLU. Entre
suas conclusões estão: a falta de controle sobre a produção realizada individualmente pelos
membros das associações; o baixo envolvimento dos associados com a administração das
entidades (40,4% dos associados não sabiam para quem era vendido o material reciclado);
desconhecimento das quantidades produzidas e falta de informação sobre os preços de venda
dos materias reciclados.
Se, por um lado, as respostas dos trabalhadores das UTs de Porto Alegre aos
questionamentos daquele Autor reportam para um estágio de heterogestão em nível de
consciência semi-intransitiva, conforme a classificação trazida por Cançado (2008), por outro,
suas lideranças apresentam as características negativas comuns às OSCIPs, identificadas por
Silva (2001) e Pinho (2010), relacionadas à maturidade, autoridade, responsabilidade e
interesses.
Deficiências sociopolíticas de gestão também foram percebidas pela pesquisa de
Carrion (2009), sobre as razões para o insucesso da tentativa de implantação de uma central
para a comercialização coletiva de resíduos sólidos na Região Metropolitana de Porto Alegre,
entre os anos de 2004 e 2006. A Autora narra que, pela teoria das redes, aquele projeto reunia
condições para o sucesso, pois contava com uma significativa e qualificada rede de instituições
apoiadoras; (ii) sua construção fora participativa; (iii) havia recursos financeiros para o
empreendimento; e (iv) as UTs estavam recebendo capacitação técnica e de autogestão. E todas
as partes envolvidas obteriam vantagens com a instalação da referida Central. Apesar da
170
complexidade dos fenômenos sociais, a análise permitiu idenficar as principais causas para o
insucesso da empreitada como de natureza política, envolvendo a disputa entre facções dos
movimentos de catadores, agravadas pelos posicionamentos e a forma de condução do processo
pela PMPA. Ao cabo, o processo de implantação da Central caminhou para o esgotamento,
solapado pelo crescente clima de desconfiança, combinado com o direcionamento da atenção
dos gestores públicos para as campanhas eleitorais que se avizinhavam.
Se, por um lado a PMPA demonstrou incapacidade para a organização das UTs em
torno de uma central de comercialização de recicláveis, por outro lado, Cohen (2012) cita a
experiência bem sucedida da implantação do OP no Município, colocando-a como pioneira,
ainda na década de 1980. Uas a experiência de Porto Alegre como referencial para a
proposicção do “Orçamento Participativo de Emissões” (Participatory Emissions Budgeting PEB) como forma de atuação governamental para a superação do atual impasse relacionado à
questão do aquecimento global, provocado pela falta de ação pelas autoridades locais,
combinada com a resistência à mudança por parte dos cidadãos. Defende que o PEB pode
evitar as armadilhas das intervenções ortodoxas, impostas verticalmente à sociedade (próprias
da administração pública clássica), evitando ressentimentos entre os cidadãos. A prática do
PEB criaria um processo mais colaborativo, baseado no diálogo, onde a sociedade teria fórum
para discutir os problemas ambientais e as autoridades poderiam obter maior aceitação popular
para medidas pró-ambiente, além de incentivar mudanças pró-ambientais individuais.
A complexidade da concertação social fica evidenciada quando se observa que um
mesmo município, ao tempo em que possui prática de política social servindo de referência
internacional e de inspiração a um autor inglês – Tom Cohen – ao ponto de propor a sua
extensão para a implantação local de políticas climáticas, não tenha conseguido unir as
lideranças locais dos catadores em torno da instalação da central de comercialização de
reciclagem (COHEN, 2012; CARRION, 2009).
O desfecho da tentativa de instalação da Central foi lamentável, pois a comercialização
coletiva dos recicláveis provavelmente traria melhorias na situação socioeconômica dos
trabalhadores das UTs, visto que a situação da reciclagem em Porto Alegre assemelha-se a
estudada por Aquino et al. (2009) em Florianópolis. Daí presume-se que, caso a Central tivesse
entrado em funcionamento, os resultados encontrados nas pesquisas de Meyer et al. (2009) e
Marcondes (2012) teriam sido melhores, assim como as observações da pesquisa de campo
empreendida neste estudo.
As visitas às UTs para a coleta das informações constantes do Apêndice A permitiram o
171
contato com uma realidade complexa, de interesse para a investigação científica sob diversos
prismas. O Quadro 17 resume as observações sobre particularidades da operacionailização da
atividade relacionadas ao escopo do estudo – econômicas e de gestão mercadológica.
Quadro 17 – Observações da pesquisa nas Unidades de Triagem de Porto Alegre, em 2012
Natureza
Observação
Operacional/
As UTs e UTC de Porto Alegre não fazem nenhum tipo de beneficiamento nos
recicláveis recebidos na coleta seletiva. Apenas separam por tipo, prensam e
mercadológico
amarram em fardos
Operacional/
Algumas entidades separam as tampas das garrafas PET, outras não. Em termos
financeiros não compensa a separação, pois exige mão-de-obra para desrrosquear as
mercadológico
tampas e o valor de comercialização é inferior ao do PET
Operacional/
Algumas entidades separam o papelão de 1ª e o de 2ª (colorido), outras os vendem
misturados. Os preços não evidenciaram reconhecimento pelo esforço de separação
mercadológico
Operacional/
Uma única UT separa a parte sem impressão dos papéis brancos (aparas brancas),
obtendo um preço diferenciado
mercadológico
Operacional/
Algumas UTs separam jornais e revistas, outras os vendem misturados. Os preços
não evidenciaram reconhecimento pelo esforço de separação
mercadológico
Mercadológico
A baixa quantidade de latas de alumínio mostra a força da coleta por catadores
autônomos, haja vista este ser o reciclável mais procurado
Operacional/
As vendas de metais e vidros ocorrem com uma frequência bastante inferior aos
plásticos e papéis. Excluindo-se as latas de alumínio, representam 20,4% do peso
mercadológico
dos recicláveis e apenas 4,9% da receita de comercialização, com base na pesquisa
de campo
Gestão/
As variações entre os preços mínimos e máximos informados mostraram-se muito
grandes, a exemplo do PET branco, com os preços oscilando entre R$ 0,60 e R$
mercadológico
1,50, numa variação de 150%
Gestão/
A maioria das UTs possui compradores definidos, numa relação de parceria. Os
compradores ditam os preços. Em apenas uma UT foi identificada a prática de cotar
mercadológico
com dois ou três compradores a cada venda
Gestão/
Uma entidade que se negou a informar os valores de comercialização por acreditar
mercadológico
que são concessões do comprador, fruto de negociação que não poderia ser
extendida às demais UTs; em outras duas os preços de comercialização deixaram de
ser consultados devido à indisponibilidade de tempo dos entrevistados
Ambiental/
Algumas (poucas) UTs praticam a queima do cobre com capa plástica para vender
mercadológico
como cobre queimado, de melhor valor de mercado, apesar dos danos ambientais e
à saúde humana desta prática
Gestão
Algumas UTs deixam os recicladores reterem para si alguns recicláveis, como
cartuchos de impressoras, chapas de raio-x, garrafas de comercialização por
unidade, etc. e outras não
Infraestrutura
A maioria das UTs ocupa áreas de propriedade do município, sendo que duas delas
estão instaladas embaixo de viadutos. Em alguns casos a água e luz são pagas pela
Prefeitura, pois não existem medidores independentes. A qualidade das instalações
varia enormemente: algumas (poucas) estão bem instaladas, mas a maioria convive
com ambientes deteriorados e insalubres
Fonte: elaboração do Autor
172
Entre as dificuldades relatadas pelas entidades estavam:

os baixos preços de comercialização;

as quantidades insatisfatórias de recicláveis para a triagem;

a excessiva proporção de orgânicos na coleta seletiva;

a precariedade de instalações físicas (calor, goteiras, luminosidade, falta de local para
refeições, falta de espaço, lay-out inadequado, problemas no piso, falta de cesto29, cesto
danificado);

a precariedade dos equipamentos (prensas velhas, prensas pequenas, muito gasto com
manutenção);

o não recebimento da ajuda financeira da prefeitura por falta de certidões negativas;

o endividamento;

os problemas sociais (associados drogados, negociação com traficantes); e

as ocorrências de gestão fraudulenta.
As conversas sobre as dificuldades enfrentadas por cada UT trouxeram à tona o
contexto socioeconômico em que estão inseridas, com situações de trabalho de extrema
insalubridade e algumas em sérias dificuldades financeiras. De maneira geral as entidades se
ressentem da falta de uma maior aproximação da Prefeitura no sentido de auxiliá-las em
aspectos ligados à gestão e assistência social. As UTs que não estavam recebendo ajuda
financeira da Prefeitura passavam por sérias dificuldades financeiras, remunerando de forma
insuficiente os trabalhadores e se endividando junto aos fornecedores.
Enquanto a literatura resgatada neste estudo aponta caminhos a seguir, através de
práticas como a nova governança e da educação dialógica combinada com a práxis, este
capítulo contextualiza a situação atual da atividade de reciclagem no cenário nacional e de
Porto Alegre, mostrando a necessidade de uma grande evolução institucional, tanto no
ambiente interno como externo às entidades, para o alcance prático daqueles conceitos. A
discussão prosegue no próximo tópico, enfocando os instrumentos de políticas públicas
passíveis de uso para a redução do hiato existente entre a situação real e a adequada, necessária
para o alinhamento da reciclagem na direção das receitas provenientes dos mercados de
carbono.
29
Os recicladores chamam de “cesto” o cercado que recebe a descarga dos caminhões e de onde os
recicladores puxam os sacos de recicláveis para a triagem.
173
4.2.4 Condicionantes sociopolíticos da inserção da Coleta Seletiva de Porto Alegre nos
mercados de carbono
Tópicos anteriores deste estudo trataram de aspectos técnicos relacionados à inserção
da reciclagem brasileira e, mais particularmente, da reciclagem porto-alegrense, nos mercados
de carbono. A inserção pela via de mercado pode ocorrer tanto em mercados mandatórios como
em mercados voluntários, através da implantação de políticas cap-and-trade ou pela
certificação de projetos. Para qualquer uma destas possibilidades ficou evidenciada a
necessidade de organização das EES em um nível tal que permita o controle das reduções de
emissões de GEE proporcionadas pelos projetos. Sem a clara medição e acompanhamento dos
benefícios climáticos o acesso aos mercados de carbono fica significativamente prejudicado.
A organização da atividade na forma de um APL, além de dar condições basais para a
referida inserção, provavelmente resulta em ganhos econômicos diretos, pela melhor gestão –
racionalização de despesas e organização do trabalho – e pelos ganhos de comercialização,
como mostrado por Aquino et al. (2009). Este estudo, assim como os de Meyer et al. (2009) e
Marcondes (2012), mostra que a organização administrativa e a situação social em que se
encontram as UTs da Coleta Seletiva de Porto Alegre estão distantes deste ideal. Por outro
lado, existem fatores favoráveis à inserção, dos quais destacamos: (i) o porte da geração de
resíduos no município, com suas 1,7 mil toneladas diárias de RSU geradas em 2011, fato que
propicia ganhos de escala para os projetos no âmbito da reciclagem; (ii) embora ainda longe da
ideal, a Coleta Seletiva esta consolidada (realizada desde 1990) e organizada no Município,
com as entidades estabelecidas e atuantes, fato que facilita as ações de governança; e (iii) a
também sedimentada prática do OP no Município, em uso desde 1989 e destacada por Cohen
(2012), que, sob aspectos culturais e institucionais, favorece a concertação social para a
reciclagem; (iv) apesar de mal sucedida, a tentativa recente (2006) da criação da Central de
Comercialização, pode ser tida como fator favorável, pois somou em experiência às diversas
partes que participaram daquele processo.
Considerados os atuais níveis de inação dos governos locais quanto às políticas
climáticas, combinados com o desinteresse – e até ceticismo – da população frente às
consequências do aquecimento global, bem percebidas por Cohen (2012), a sugestão daquele
Autor para a criação do Orçamento Participativo de Emissões – que poderia ser chamado de
Orçamento Participativo Climático (OPC) – mostra-se extremamente oportuno e exequível em
Porto Alegre, ainda mais se considerada a pesquisa de Goularte (2011) e a disposição a pagar
do empresariado gaúcho para a compensação das suas emissões de GEE.
174
Este caminho de inserção é reforçado quando se olha para as quatro alternativas de
soluções em nível de mercado anteriormente citadas – mercados obrigatórios ou voluntários,
por cap-and-trade ou projetos – cujas condições de inserção pela reciclagem são apresentadas
no Quadro 18.
Quadro 18 – Alternativas de inserção da reciclagem nos mercados de carbono
Mercado/
Condição atual
Condição futura
mecanismo
Este
mercado teoricamente
está Poderá tornar-se factível para a reciclagem
Regulado/
disponível (mercado CDM), porém as na medida da inclusão de novos recicláveis
Projetos
limitações de escopo e as exigências na metodologia, combinada com a
técnicas tem impedido a submissão de flexibilização nas exigências técnicas
projetos de reciclagem
A reciclagem é uma atividade que tem Pode tornar-se factível para a reciclagem o
Regulado/
cap-and-trade ficado fora dos segmentos abrangidos acesso a estes mercados caso decidam, nas
pelas políticas cap-and-trade, embora suas normatizações, aceitar os certificados
estes mercados (como o EU ETS) oriundos de projetos de reciclagem para a
aceitem marginalmente certificados de composição dos limites de emissões, pelas
outros mercados (CDM, JI) para o empresas poluidoras
enquadramento aos limites de emissões
Teoricamente
é
possível
o Via de regra, os mercados voluntários têm
Voluntário/
cap-and-trade estabelecimento de regras do tipo cap- se baseado em projetos. Mas a inclusão de
and-trade em mercados voluntários, mas regras
do
tipo
cap-and-trade
é
demanda níveis altos de conscientização teoricamente viável, desde que o setor
e concertação social e empresarial
privado, comprador das allowances, aceite
submeter-se a elas. Assim poderá tornar-se
factível o acesso da reciclagem
Dado o apelo de inclusão social da Por enquanto as partes – mercados
Voluntário/
remuneração pelos serviços ambientais, voluntários e entidades recicladoras – não
Projetos
a reciclagem tem forte potencial de estão dialogando, mas este estudo
aceitação por parte destes mercados, demonstra que há grande possibilidade
inclusive no sentido da flexibilização desta ocorrência num futuro próximo, na
das regras de projeto e monitoramento
medida que as consequências negativas do
aquecimento global se fizerem sentir
Fonte: elaboração do Autor
O incipiente desenvolvimento de metodologias relacionadas à reciclagem e voltadas aos
mercados de carbono resulta da combinação de dois fatores, a complexidade e a motivação
econômica. A discussão da metodologia CDM AMS-III.AJ mostrou o quanto se torna
complexa a quantificação das reduções de emissões pela reciclagem. A inclusão de outros
recicláveis aumentaria significativamente suas complexidades, principalmente se forem
quantificadas as economias decorrentes do sequestro de carbono pelas florestas poupadas em
função do uso de celulose reciclada, haja vista a divergência nos resultados das análises
discutidas neste estudo, como Smith et al. (2001), USEPA (2006) e Merrild et al. (2009). E os
aspectos econômicos, pois é bem mais motivadora a elaboração de projetos que resultem em
175
milhões de certificados de reduções como projetos relacionados à energia e florestamento, do
que projetos que rendam (apenas) milhares destes certificados, como é o caso da reciclagem.
A evolução dos projetos envolvendo a reciclagem e direcionados aos mercados de
carbono depende de iniciativas institucionais. Se as empresas privadas, que vivem da venda dos
projetos de reduções, não têm motivação econômica para tal e os beneficiários diretos não
possuem a plena consciência dos serviços climáticos que realizam, nem o empoderamento
social necessário para estimular as políticas públicas de valorização dos seus serviços
ambientais, resta este papel aos segmentos mais esclarecidos das instituições, como as
universidades, ONGs e OSCIPs, desde que encontrem receptividade em gestores públicos
enquadráveis na “nova governança” descrita por Salamon (2000), através de iniciativas como o
OPC. Uma vez iniciada a concertação social para a inclusão da reciclagem nos mercados de
carbono, a evolução das metodologias e o interesse por este tipo de projeto tendem a ocorrer
naturalmente como resposta da iniciativa privada às ações de governança.
Iniciativas deste tipo também tendem a ganhar força na medida em que as
consequências adversas do aquecimento global se fizerem notar de forma mais aguda,
acompanhadas pela evolução da pesquisa climática capitaneada pelo IPCC. Virão como parte
das ações de mitigação climática no contexto da Economia de Baixo Carbono. Neste cenário
crescerão em importância os instrumentos econômicos via soluções de mercado, resultando em
fortalecimento dos mercados de carbono. De forma conjugada, a atuação das certificadoras,
como a VCS, também serão fundamentais para organizar, padronizar e dar confiabilidade aos
mercados, especialmente os voluntários, onde o nível de transparência e visibilidade das
transações é menor.
À medida que a concertação social para a inclusão da reciclagem nos mercados de
carbono evolui, como garantir que as receitas provenientes destes mercados resultem em
efetivas melhorias sociais, de modo a evitar-se indevidas apropriações por outros
intervenientes, como os governos, e como medir a evolução deste processo? Em países como o
Brasil, onde as instituições estão em processo de desenvolvimento, o risco da primeira
ocorrência é grande. Embora o País tenha poucos casos de negociações em mercados de
carbono decorrentes de processos de governança, a pouca experiência existente aponta para o
problema. É o caso da destinação dos créditos de carbono recebidos pela prefeitura do
município de São Paulo, em função da comercialização das reduções de emissões pelo
aproveitamento energético dos gases provenientes dos aterros sanitários Bandeirantes e São
João. Inicialmente previstos para benfeitorias nas regiões do entorno dos referidos aterros,
176
acabaram não sendo destinados ao segmento de resíduos sólidos (CRUZ; PAULINO, 2011).
Aquelas Autoras advertem para a necessidade de transparência e participação social na
destinação dos recursos oriundos dos mercados de carbono. Este acompanhamento pode ser
construído através da metodologia do carbono social.
Aplicando-se a MCS no caso da reciclagem de Porto Alegre, os indicadores
relacionados aos recursos naturais e biodiversidade ficam prejudicados, visto tratar-se de uma
atividade urbana. Por outro lado poderia ser incluído o recurso gestão, dada a sua relevância
para o caso em estudo. O Quadro 19 relaciona um exemplo de indicadores e níveis (a
metodologia chama de variáveis) para cada recurso.
Quadro 19 – Exemplo de Aplicação da Metodologia Carbono Social nas Unidades de Triagem de
Porto Alegre
Recurso/Indicador
Nível 1
Nivel 2
Nível 3
Nível 4
Nível 5
Nível 6
Humano/percentual de (-) de
+ de 40% + de 60% + de 70% + de 80% + de 90%
trabalhadores usando
40%
EPI
Social/nível de
(-) de
+ de 40% + de 60% + de 70% + de 80% + de 90%
informações sobre o
40%
negócio
Financeiro/renda
(-) de
+ de 80% + de 90% + de
+ de
+ de150%
média mensal
80% SM
SM
SM
100% SM 125% SM SM
Gestão/aproveitamento (-) de
+ de 70% + de 80% + de 85% + de 90% + de 95%
dos recicláveis na
70%
triagem
Carbono/toneladas
(-) de 5,8
+ de 5,8
+ de 6,4 (*) + de 7
+ de 7,5
+ de 8
mensais de redução
mil tCO2e
Fonte: elaboração do Autor
Notas: EPI – Equipamentos de proteção individual; SM – valor do salário mínimo brasileiro; as células
em cinza claro apresentam a situação hipotética no Marco Zero e as células em cinza escuro a situação
hipotética no Marco Um; (*) indicador sem alteração entre os marcos Zero e Um.
O Quadro 19, construído como forma de exemplificação, tomou apenas um indicador
para cada recurso. Na prática pode-se adotar apenas um indicador, se este for suficiente para
permitir o acompanhamento da evolução do recurso ao longo do tempo, a exemplo do
indicador carbono, onde o acompanhamento mensal das reduções de emissões proporcionadas
pela atividade pode ser suficiente, pois a sua determinação exige a mensuração de todos os
recicláveis processados no período de análise. A mesma reflexão é válida para o indicador
financeiro, se acompanhada a evolução da renda média mensal dos trabalhadores,
comparativamente a um indicador financeiro, como o salário mínimo nacional (SM), utilizado
no exemplo. No caso do recurso humano foi utilizada a proporção de trabalhadores vestindo
efetivamente os equipamentos de proteção individual (EPI). Poderiam ter sido adotados outros
177
indicadores, como a evolução do nível de escolaridade e/ou a redução de ausências por motivos
de doenças. Como Marcondes (2012) constatou que o nível de informação sobre o negócio é
baixo entre os recicladores das UTs, um bom indicador social poderia ser o levantamento
amostral da evolução deste parâmetro entre os trabalhadores, pois a evolução somente ocorrerá
mediante reuniões para a discussão do negócio ou outras ações de divulgação. Outros
indicadores sociais poderiam ser usados, como a qualidade das creches, escolas e postos de
saúde disponibilizados para esta população. Por fim, as medidas de gestão evitando o
desperdício de recicláveis durante o processo de triagem são passíveis de medição, por
amostragem, e contribuem para outros recursos, como o financeiro e o carbono. Também neste
caso outros indicadores de gestão poderiam ser acionados, como o acompanhamento dos preços
obtidos na comercialização, comparativamente com os praticados pelo mercado.
No Quadro 19 foram destacadas em cinza claro as células representativas de uma
possível situação “marco zero” e em cinza escuro uma suposta evolução para o marco um,
permitindo a construção do Gráfico 18, apresentado como exemplo ilustrativo.
Gráfico 18 – Exemplo de Aplicação da Metodologia Carbono Social nas Unidades de Triagem de
Porto Alegre
Humano
6
5
4
3
2
Carbono
Social
1
Marco Zero
0
Gestão
Marco Um
Financei
ro
Fonte: elaboração do Autor
Como destacado na seção anterior os condicionantes sociais para a inclusão dos
recicladores nos mercados de carbono são tanto internos como externos. No âmbito interno está
a evolução da consciência crítica destes trabalhadores, sendo que este desenvimento, conforme
mostra Cançado (2008), decorre do estímulo ao diálogo e à ação reflexiva. Trata-se de um
178
processo lento, em grande parte devido ao nível de amadurecimento político das instituições
congregativas destes trabalhadores e dos governos municipais. Infelizmente o uso político de
concertações sociais como a trazida por Carrion (2009) não são exceções. Justamente as
instituições mais próximas dos recicladores, que poderiam estimular as suas autogestões e seu
empoderamento social, por razões distantes do interesse público acabam por dificultar este
processo.
As mesmas limitações inibem a evolução no front externo às UTs, pois se espera destes
mesmos governos locais, carentes de amadurecimento político, a implementação de
concertações sociais relacionadas às mudanças climáticas, como o Orçamento Participativo
Climático. São circunstâncias que atrasam a evolução do processo, irreversível diante das
consequências do aquecimento global.
179
5 CONCLUSÕES
Quais são os condicionantes para a inserção da reciclagem nos mercados de carbono?
Se, por um lado, este acesso é extremamente bem-vindo, por servir como oportunidade para a
melhoria das condições socioeconômicas dos catadores, e, por outro, os mercados de carbono
não podem ser considerados como novidade, pois acumulam mais de uma década de
organização e experiência, por que esta inserção não ocorre? A partir deste questionamento foi
definido o objetivo geral da pesquisa, de avaliar as condições de acesso da reciclagem
brasileira, e em particular da Coleta Seletiva de Porto Alegre, às receitas oriundas dos mercados
regulados e voluntários de carbono.
O primeiro objetivo específico do estudo, de aquilatar o grau de importância das causas
antrópicas no aquecimento global e as repercussões das suas consequências como indutoras de
políticas de mitigação, como o estímulo à reciclagem, visou, em caráter preliminar ao objetivo
geral do estudo, vislumbrar o futuro da
Economia de Baixo Carbono. Trata-se de um
condicionante básico à inserção da reciclagem nos mercados de carbono, pois de nada
adiantaria o esforço de aproximação desta atividade econômica aos mercados, regulados e
voluntários, de carbono, caso o aquecimento global não esteja efetivamente ocorrendo ou as
principais causas do aquecimento não sejam de natureza antrópica, ou, ainda, as consequências
do fenômeno não justifiquem o esforço mundial na direção da redução de emissões de GEE.
A busca desta avaliação resultou da lógica de que a amplitude das ações de adaptação e
mitigação às mudanças climáticas, das quais depende o futuro da valorização econômica da
reciclagem nos mercados de carbono, decorrerá da extensão do problema. Como consequência,
o foco inicial da fundamentação teórica foi no sentido da avaliação técnica do chamado
“aquecimento global”. Até porque os resultados das pesquisas relacionadas com o sistema
climático são de natureza probabilística e as projeções, sujeitas às limitações de modelos que
procuram simular as complexas relações do sistema climático terrestre. Também, porque não
há consenso na comunidade científica sobre a existência do fenômeno.
Forma três as correntes “céticas” de pensamento citadas na fundamentação teórica:
negativa da existência do aquecimento terrestre; concordância com o aquecimento, mas
negativa quanto à causa antrópica; e a concordância com ambos os aspectos, mas discordância
quanto à priorização de investimentos para esta mitigação/adaptação. Destas, a terceira linha de
pensamento não representa ameaça para a consistência da Economia de Baixo Carbono, pois
apenas defende maior inteligência na alocação dos investimentos financeiros nas ações de
180
mitigação e adaptação ao aquecimento global, de modo a possibilitar a canalização de recursos
para outras necessidades, mais prementes, como o combate à fome. Este pensamento vem ao
encontro à proposta da pesquisa, no sentido da racionalização da GIRS e no fortalecimento dos
instrumentos de mercado, providências que resultam em racionalização econômica com
benefícios sociais.
Com relação às duas primeiras correntes citadas, pode-se depreender que ficaram
prejudicadas diante ao conjunto de evidências trazido pelas publicações resgatadas no
referencial teórico, em especial os relatórios do IPCC. O referencial teórico apresentou
resultados de pesquisas sobre a ocorrência do aquecimento, onde o estudo da relação entre os
forçantes radiativos evidencia que o aquecimento verificado a partir da revolução industrial,
embora tenha a contribuição de uma maior atividade solar, deve-se primordialmente aos GEE.
A partir das evidências obtidas no acompanhamento da evolução histórica do fenômeno, foi
avaliada a manutenção da tendência e a amplitude do aquecimento previsto para as próximas
décadas, onde as publicações sobre o tema deixam clara a manutenção da tendência, de
amplitude variada nas diferentes regiões do planeta, se mantida a atual tendência de
concentração dos GEE na atmosfera terrestre.
Na avaliação da amplitude das consequências do aquecimento global, embora regiões
hoje frias possam obter algumas vantagens com o aquecimento, a literatura estudada enfatiza
que, numa visão geral, as perdas superam em larga escala estas vantagens, especialmente nos
países em desenvolvimento, onde o aquecimento global tende a piorar significativamente as
condições de vida, pelo agravamento das condições de acesso à água e alimentos, entre outras
consequências negativas.
Se, por um lado, as conclusões apresentadas assentam-se em bases probabilísticas, por
outro lado está o Princípio da Precaução, que fornece sustentação legal para as ações na direção
da Economia de Baixo Carbono. De acordo com este Princípio, e consideradas as evidências
sobre a magnitude das consequências do aquecimento global, todas as ações que resultam em
menores emissões de GEE apresentam-se como urgentes e imprescindíveis, nas quais o setor de
resíduos tem papel de destaque, pois atualmente representa cerca de 4% das atuais emissões
diretas (UNEP, 2012). A GIRS, além de permitir a redução nesta indesejada contribuição, pode
contribuir com as emissões de outros setores, como energético, transportes e uso da terra, pela
otimização da valorização econômica dos resíduos sólidos urbanos, através das ações voltadas
à minimização, reúso, reciclagem e recuperação energética.
Se, tomada como premissa a real existência, a natureza antrópica e a magnitude das
181
consequências negativas associadas ao aquecimento global, é de supor-se que a evolução deste
cenário resulte em valorização das atividades econômicas que atuam como mitigadoras das
emissões, acompanhadas da atuação mais firme dos governos frente às atividades emissoras.
Deste cenário resultam fortalecidos os mercados de carbono e enfraquecidas as resistências à
implantação dos instrumentos de políticas mitigadoras. A preocupação com as consequências
do aquecimento tende a atingir o nível local e introjetar-se na mente do cidadão comum.
A exemplo do primeiro objetivo específico, o segundo pode ser desenvolvido através da
pesquisa bibliográfica e documental. Verificou a importância do setor de reciclagem na redução
das emissões de gases de efeito estufa. A abordagem partiu da revisão da literatura sobre a
metodologia ACV em sua abordagem ampla e evoluiu para o resgate das ferramentas e estudos
relacionados à quantificação das pegadas de carbono. O processo de particularização do uso da
AVC passou pelos estudos relacionados s quantificações voltadas às reduções de emissões de
GEE no âmbito da GIRS, até enfocar os estudos e metodologias aplicados especificamente às
reduções de emissões pela reciclagem.
Dentro do universo de métodos aplicáveis ao escopo deste estudo, foi aprofundada a
investigação sobre as metodologias USEPA (2006), pelo nível de profundidade e transparência
mostrados no manuseio dos inventários que culminaram com os resultados apresentados na
Tabela 16, e a metodologia CDM AMS-III.AJ, por representar uma oportunidade real de
obtenção de créditos de carbono pela atividade informal da reciclagem, disponibilizada pelo
Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Quioto.
A revisão da literatura evidenciou as limitações da metodologia ACV diante da
complexidade do objeto de análise, bem identificadas por Morrissey e Browne (2004), de modo
que a aplicação da ferramenta, seja através de planilhas, programas computacionais ou pela
aplicação direta de fatores de reduções, demandam o claro delineamento dos escopos e
objetivos assumidos pelos estudos, com os resultados tomados como estimativas.
No caso de USEPA (2006), além das limitações relatadas pela própria metodologia,
surge outra, decorrente da transposição simples dos resultados para a realidade brasileira. Não
obstante, a revisão bibliográfica permitiu a conclusão de que a substituição de insumos virgens
por reciclados nos processos industriais promove reduções emissões de GEE, resultando em
contribuição efetiva para a redução das concentrações daqueles gases na atmosfera, de modo
que o fomento da atividade de reciclagem presta efetivos serviços climáticos, na medida em
que reduz as pegadas de carbono nas sociedades onde é praticada, devendo compor o universo
das ações de mitigação englobadas na Economia de Baixo Carbono.
182
Satisfeitos os dois primeiros objetivos, no capítulo quatro foi trabalhado o terceiro
objetivo específico, do conhecimento e avaliação do potencial da reciclagem brasileira e portoalegrense para as reduções nas emissões de gases de efeito estufa. A coleta de informações em
diversificadas fontes bibliográficas permitiu a estimativa dos montantes atuais e potenciais da
reciclagem brasileira, expressos em unidades de massa e na equivalência em dióxido de
carbono. Os resultados da primeira abordagem estão expostos na Tabela 21 (página 142):
consumo aparente de 14,8 milhões t anuais; reciclagem potencial de 11,5 milhões t; reciclagem
atual de 6,1 milhões t; e potencial de incremento de 5,4 milhões t. A segunda abordagem,
sintetizada na Tabela 23 (página 143), mostra que o atual nível da reciclagem brasileira, entre
os serviços ambientais que proporciona, é responsável pela redução de cerca de 22,7 milhões de
toneladas equivalentes de dióxido de carbono na atmosfera. Avaliou-se, ainda, que o País tem
potencial para elevar esta contribuição em mais 18,7 Mt CO2e, caso atinja o atual nível das
melhores práticas de reciclagem em nível mundial, com base na literatura consultada,
resultando na contribuição potencial do setor para 41,5 MtCO2e anuais.
Se, por um lado, o País vem evoluindo na reciclagem, a exemplo das embalagens de
alumínio, onde serve de referência mundial, por outro, a comparação com os melhores
desempenhos entre países selecionados indicou a possibilidade de significativa evolução, a
exemplo das embalagens de aço, papéis, plásticos e vidros.
Os mercados dos materiais recicláveis objeto do estudo, vistos em nível de País,
mostram-se oligopolizados, onde os preços praticados no elo inicial da cadeia mercadológica
apresentam-se significativamente inferiores aos praticados no outro extremo, recebidos pelas
indústrias na venda dos materiais recuperados. O caso do vidro é emblemático: na pesquisa de
campo para a realização do estudo foi constatado que a remuneração usual recebida pelas UTs
de Porto Alegre em janeiro/fevereiro de 2012 era de R$ 40,00 a tonelada. Entrevistado, o
intermediário comercial que comprava o vidro das UTs informou que recebia R$ 85,00 pelo
material entregue nas instalações da indústria. Por outro lado IPEA (2010), ao listar os insumos
utilizados pela indústria cita a barrilha, cujos 20 kg utilizados na produção de uma tonelada de
vidro custavam, à época, R$ 136,00. Se o uso dos cacos evita o uso de insumos como a barrilha
e ainda tem papel estratégico, como garantia de continuidade nas linhas de produção, conforme
mostra Akerman (2000a), por que a indústria paga tão pouco pelo reciclado? Se considerarmos
que a Coleta Seletiva de uma tonelada de vidro custa, em média, R$ 424,00 aos governos
municipais (CEMPRE, 2013b) e, em última instância, à sociedade como um todo, pode-se
concluir que a indústria está sendo altamente subsidiada. O Princípio do Poluidor-Pagador
183
(PPP) e o artigo 30º da PNRS (BRASIL, 2010c) mostram que a situação deveria ser diversa,
com a indústria arcando com o ônus da sua parcela de responsabilidade sobre os resíduos
resultantes dos produtos que fabrica.
A reunião de recicladores para a comercialização tende a aumentar a barganha junto à
indústria, reduzindo a necessidade de pressão sobre os governos em busca de complementos de
renda. Por sua vez, os governos costumam assumir integralmente o ônus da destinação
adequada dos recicláveis, pouco pressionando as indústrias para a assunção das suas
responsabilidades. A situação atual pode ser melhor equacionada quando os governos, EES e
indústrias intensificarem o diálogo, tendo presente os aspectos relacionados aos custos e preços
dos serviços relacionados ao ciclo de vida dos materiais recicláveis. Espera-se que os acordos
setoriais para a implementação da responsabilidade compartilhada, em curso no País para a
implementação da logística reversa, possam auxiliar na evolução desta situação.
O quarto objetivo específico foi a análise da viabilidade técnica, econômica e
sociopolítica do acesso da reciclagem brasileira, e em especial da Coleta Seletiva de Porto
Alegre, às receitas provenientes dos mercados de carbono. A discussão, até então apresentada
de forma teórica ou em nível macroeconômico, foi estendida para a esfera municipal, instância
responsável pelos serviços da gestão dos resíduos urbanos no Brasil. A reciclagem em Porto
Alegre foi tomada com base em duas dimensões, a atividade total do município e a
desenvolvida pela Coleta Seletiva.
O estudo do caso mostrou os níveis atuais de coleta ainda distantes dos potenciais,
apesar do longo tempo de prática da Coleta Seletiva no Município (23 anos), visto que este
estudo estimou em 14,7 mil t/ano a quantidade atualmente comercializada pelas UTs, ante o
potencial da ordem de 27,9 mil t/ano. A diferença – 13,2 mil t/ano – estima-se que seja
descartada pela população junto ao lixo comum e encaminhada para aterramento. Nesta mesma
relação, o Município visto como um todo recicla 71,3 mil t/ano, ante um potencial de 134,1 mil
t/ano (Tabela 33, página 159).
Em termos de reduções de emissões foram realizadas duas análises, a primeira seguindo
a mesma metodologia utilizada na análise em nível de País (USEPA, 2006) e a segunda pela
aplicação da metodologia CDM AMS-III.AJ. Enquanto a primeira buscou estimar a
contribuição da reciclagem do município como um todo, e particularmente a Coleta Seletiva,
em termos de serviços ambientais (climáticos); a segunda quantificou a expectativa de
adicionalidade na reciclagem de quatro tipos de plásticos – PET, PEAD, PEBD e PP – pelas
UTs do Município.
184
A aplicação dos fatores de reduções de USEPA (2006) mostra que a distância entre as
reduções atuais, tanto em nível do Município como da Coleta Seletiva, precisam ser duplicadas
para atingirem as estimativas das reduções potenciais. A Coleta Seletiva tem margem para
evoluir das atuais 42,7 para 88,5 mil tCO2e/ano. O município, de 266,3 para 485,2 tCO2e/ano
(Tabela 34, página 160). São resultados que, por um lado, precisam ser tomados com cautela
devido às imprecisões metodológicas, mas, por outro, mostram um longo caminho de evolução
a ser trilhado.
A aplicação da metodologia CDM, em face da limitação de escopo e das exigências da
metodologia, resultou em reduções anuais de apenas 887,6 tCO2e (Tabela 37, página 164), com
perspectiva de redução se aplicada a exigência de segregação pela origem dos insumos
utilizados na produção dos manufaturados recebidos para triagem, restritos aos países não
relacionados no Anexo 1 do PQ. Não obstante, ficou demonstrada a necessidade de maior
organização da atividade no Município para fazer frente aos mecanismos de controle impostos
pela metodologia.
Com relação aos aspectos econômicos da inserção da reciclagem nos mercados de
carbono foram considerados três cenários, correspondentes a preços correspondentes aos
mercados voluntários, mercados regulados e pela disposição a pagar no Rio Grande do Sul.
Considerada a hipótese de menor preço, dos mercados voluntários em 2011, ao preço de R$
13,08 por crédito de carbono, equivalente a redução de uma tonelada de CO2e, as reduções em
nível de País corresponderiam a valores anuais da ordem de R$ 297,8 e 542,5 milhões, para a
reciclagem atual e potencial, respectivamente (Tabela 24, página 145).
As estimativas de receitas em nível do Município foram estimadas em R$ 3,48 milhões
e R$ 6,35 milhões anuais, para as reduções atuais e potenciais, respectivamente, aos preços dos
mercados voluntários (Tabela 38, página 165). Nestes mesmos termos, as reduções atuais e
potenciais propiciadas pela reciclagem da Coleta Seletiva poderiam gerar receitas de R$ 558,5
mil e R$ 1,16 milhões anuais, respectivamente, considerado o preço médio praticado pelos
mercados voluntários (Tabela 39, página 165). É interessante observar que o incremento na
reciclagem resultaria na redução dos materiais enviados para aterramento, implicando em uma
economia na ordem de R$ 5 milhões ao erário municipal, decorrente dos atuais gastos com o
transporte e aterramento destes materiais.
A Tabela 40 resume os principais resultados quantitativos obtidos pelo estudo,
relacionados às reduções de emissões de GEE pela reciclagem e as receitas teóricas, com base
na estimativa de R$ 13,08 para a comercialização dos créditos de carbono.
185
Tabela 40 – Estimativas de reduções e receitas pela reciclagem brasileira e porto-alegrense, ao ano
Brasil
Porto Alegre
Coleta Seletiva PA
Reduções
Receitas
Reduções
Receitas
Reduções
Receitas
mil tCO2e
R$ milhões mil tCO2e
R$ mil
mil tCO2e
R$ mil
41477
542,5
134,1
6346,4
27,9
1157,6
Potencial
22771
297,8
71,3
3483,2
14,7
558,5
Situação atual
18705
244,7
62,8
2864,5
13,2
599,1
Adicionalidade
Fonte: elaboração do Autor
O estudo evidenciou que os serviços ambientais proporcionados pela reciclagem não
vêm sendo adequadamente remunerados pelos mercados de carbono ou devidamente
valorizados pelas políticas públicas. A metodologia disponibilizada pelo CDM para este fim –
AMS-III.AJ – mostrou-se bastante restritiva tanto em termos de escopo, por quantificar apenas
as reduções relativas aos plásticos, como pelas exigências para enquadramento, como o
controle da procedência dos materiais reciclados, limitando sobremaneira sua aplicabilidade.
Entretanto, a inclusão das reduções de emissões propiciadas pelo uso de outros insumos
reciclados, em substituição aos insumos virgens, como as embalagens de aço, papel, alumínio e
vidro, poderia viabilizar economicamente esta metodologia.
Porém, o CDM não é a única alternativa de inserção da reciclagem nos mercados de
carbono. A característica de descentralização da atividade, combinada com sua importância
socioambiental, torna-a propícia como objeto de negociações nos mercados voluntários.
De todo modo, a inserção dos setores informais da reciclagem nos mercados de carbono
demanda elevado nível de organização gerencial, ainda pouco presente nas entidades
congregadoras destes trabalhadores no Brasil. Uma melhor organização e qualificação das
entidades de recicladores pode resultar em benefícios como a possiblidade de verticalização das
suas atividades, no sentido da ampliação das operações de beneficiamento dos recicláveis e
aproximação com a indústria manufatureira, propiciando a ampliação das margens de lucro, ao
tempo em que se habilitam às oportunidades proporcionadas pelos mercados de carbono.
Na análise sociopolítica o estudo passou da esfera quantitativa para a qualitativa. A
fundamentação teórica resgatou conceitos e ferramentas pertinentes à evolução institucional
nos ambientes sociopolíticos externos e internos às entidades de economia solidária, aí
incluídas as usinas de triagem de recicláveis. Foi resgatada a situação atual dos recicladores em
duas dimensões, brasileira e porto-alegrense, sendo que no caso local foram utilizadas, além da
revisão bibliográfica, as informações coletadas durante a pesquisa de campo deste estudo. O
186
confrontamento da situação desejável – prática da nova governança e da educação dialética –
frente à atual situação socioeconômica dos recicladores, mostra a premente necessidade de
evolução, visto que este contingente humano ainda padece de direitos sociais fundamentais,
constantes do sexto artigo da Constituição Federal, como o direito à educação, saúde, renda de
salário mínimo, seguro-desemprego, fundo de garantia por tempo de serviço, etc. (BRASIL,
1988).
A análise das barreiras para a inserção da reciclagem nos mercados de carbono,
incluídas aquelas de natureza técnica, econômica e sociopolítica, fez parecer que a chave para a
evolução está na qualidade da governança, sendo esta dependente da passagem da governança
tradicional para a nova governança. Não obstante, a análise mais acurada da situação social
socioeconômica dos recicladores indicou causas mais profundas, visto que os governos estão
inseridos em um arcabouço institucional mais amplo, que reflete os valores éticos vigentes na
sociedade, como o nível de valorização das questões relacionadas à sustentabilidade
intergeracional e ao aquecimento global.
Diante das barreiras sociopolíticas, os obstáculos de natureza técnica, como a falta ou
limitação de escopo de metodologias de estimação das reduções de emissões propiciadas pela
reciclagem, e os obstáculos de natureza econômica, como a necessidade de ganhos de escala na
atividade, parecem mais facilmente superáveis. Nesta hierarquização de causas, as barreiras de
natureza econômica resultam dependentes da superação de limitações de natureza técnica, pois
decorrem da insipiente evolução das metodologias, que não conseguem contemplar toda a
dimensão dos benefícios climáticos proporcionados pela reciclagem; e das deficiências nos
mercados de carbono, que por sua vez dependem da qualidade dos instrumentos econômicos
implementados pelos governos (mercados regulados) ou da valorização dos problemas
climáticos (mercados voluntários), sendo estes últimos dependentes da eficácia dos
instrumentos de comunicação proporcionados pelos governos, no sentido da educação
ambiental e climática.
De forma resumida pode-se dizer que os aspectos culturais e éticos da sociedade
formam a base para o funcionamento das instituições, incluída a gestão pública, elemento
chave para a evolução das barreiras técnicas e econômicas da desejada inserção da reciclagem
nos mercados de carbono. Porém, a evolução na atuação das instituições na direção de práticas
como a nova governança e educação dialética tem a propriedade de atuar sobre os aspectos
culturais e éticos, provocando a gradual evolução na direção da sustentabilidade e da Economia
de Baixo Carbono. Nesta discussão, por conta de problemas de experiências brasileiras
187
resgatadas na literatura, ficou evidenciado o oportunismo e alcance do uso de metodologias,
como a MCS, como instrumentos para o acompanhamento da evolução social propiciada por
projetos deste tipo.
Não obstante as atuais barreiras existentes em todas as dimensões, técnicas,
mercadológicas e sociopolíticas, pode-se concluir, a partir do Quadro 18, pela teórica
viabilidade da inclusão da reciclagem nos mercados de carbono, com graus variados de
dificuldade, em função dos tipos de mercado e dos mecanismos de comercialização dos
créditos de carbono que forem adotados. A evolução esta condicionada, ainda, ao grau de
valorização social das ações no âmbito da Economia de Baixo Carbono e à significativa
evolução na autogestão da EES, que, por envolver profundos aspectos culturais, não é tarefa de
curto prazo.
A revisão bibliográfica mostrou que, atualmente, são poucas e insatisfatórias as
metodologias para a quantificação das reduções de emissões de GEE pela reciclagem nos
mercados de carbono. Porém a evolução de cenário, nos moldes aqui preconizados, permite a
suposição de que este limitador tende a ser superado. Assim, a análise empreendida neste estudo
permitiu a identificação de quatro fatores básicos para a inserção da reciclagem nos mercados de
carbono:

o associativismo dos recicladores em escala suficiente para viabilizar economicamente
os projetos;

a evolução da gestão de modo a viabilizar o monitoramento das reduções de emissões;

o empoderamento sociopolítico destes trabalhadores para a autogestão; e

a evolução das práticas da gestão pública na direção da nova governança.
Os dois primeiros fatores mencionados decorrem de necessidades técnicas e
econômicas. A escala da atividade se reflete diretamente na quantidade de reduções e,
consequente, na quantidade de créditos de carbono para comercialização. Reduzida quantidade
destes créditos provavelmente não cobra os custos de elaboração, registro e monitoramento do
projeto, inviabilizando financeiramente os projetos. As quantificações propiciadas pelo estudo
mostram que as entidades de recicladores não produzem benefícios climáticos suficientes para
se habilitarem, isoladamente, aos mercados de carbono. Há necessidade de unirem-se em nível
local, nos municípios de grande porte como Porto Alegre, ou regionalmente. O segundo fator
decorre da natureza dos processos de certificação, por demandarem controles rígidos que
perpassam toda a atividade, abrangendo quantidades, procedência e destinação dos diversos
188
recicláveis e exigindo um nível incomum de controle operacional dos negócios, ainda muito
apegados a informalismos. A empresa auditora externa contratada para o monitoramento da
atividade precisa estar certa sobre o montante das reduções, à luz da metodologia aprovada pelo
mercado de carbono – regulado ou voluntário – para ter condições técnicas de prestar a sua
certificação.
Os dois últimos limitadores estão inter-relacionados e representam maior desafio em
relação aos anteriores para a rápida inserção da reciclagem nos mercados de carbono. Tanto a
evolução sociopolítica interna da atividade como das práticas públicas de governça estão
inseridas e dependentes do contexto institucional da sociedade, sendo que os indicadores
apresentados no capítulo oito sinalizam para um longo caminho evolutivo, tanto em nível
nacional como local, até o atingimento das melhores práticas. Na esfera política a evolução não
é linear, mas composta por avanços e recuos, a exemplo da experiência relatada por Carrion
(2009). Nas entidades a evolução social ocorre endogenamente, a partir da práxis, num
processo de natureza lenta e irregular.
O desenvolvimento do estudo mostrou como viável a tese da inserção da reciclagem
nos mercados de carbono, desde que os cenários técnico, econômico e sociopolítico no qual a
atividade está inserida, evoluam de modo a atender aos fatores básicos anteriormente citados.
O caráter exploratório e inédito deste estudo, além do abrangente escopo, abre
possibilidades para novas pesquisas, como a exploração da metodologia CDM AMS-III-BA,
que permite o registro de projetos relacionados à reciclagem de equipamentos eletroeletrônicos.
Também, foram levantados na literatura diversos programas computacionais e metodologias,
não utilizados na pesquisa, adequados para novos estudos relacionados às reduções de emissões
no âmbito da GIRS.
O tema desta pesquisa tende a crescer em importância na medida da evolução conjunta
de fatores como: (i) o crescimento da conscientização mundial para a necessidade de medidas
mitigatórias das mudanças climáticas, resultando em fortalecimento da Economia de Baixo
Carbono e dos mercados de carbono; (ii) a evolução do pensamento político, e da sociedade em
geral, na direção da nova governança, resultando em evolução na qualidade das políticas
públicas e no empoderamento social; (iii) a busca de maior equidade social, resultando na
valorização social, política e econômica dos serviços ambientais e climáticos propiciados pelos
recicladores; (iv) a evolução nas metodologias de quantificação das reduções de emissões pela
GIRS, resultando em maior viabilidade econômica dos projetos; e (v) a evolução na autogestão
das EES, permitindo-lhes maior representatividade política, capacidade de gestão e barganha
189
econômica. Como os fatores relacionados representam efetivas tendências, pode-se prever que
a inserção da reciclagem nos mercados de carbono é só uma questão de tempo. Neste sentido,
espera-se que esta pesquisa possa contribuir para o abreviamento do lapso temporal entre a
situação atual e a desejada.
190
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209
APÊNDICE A – Formulário para a Entrevista com as Unidades de Triagem Conveniadas
da Prefeitura Municipal de Porto Alegre
Entrevista com Entidade Recicladora
ENTIDADE:
Endereço:
Contato:
Fone:
Nº Associados:
Renda:
Equipamentos:
Energia elétrica/mês:
Água/mês:
Compradores:
Dificuldades:
Reciclável
Alumínio Latinha
Ferro (Sucata)
Leitoso (PEAD)
Coloridos (PEAD)
Sacos (PEBD)
Cristal (PEBD)
PET Branco
PET Verde
Azeite (PET)
Mineral (PP)
Margarina (PP)
Tampinhas (PP)
Balde e Bacia (PP)
PVC
PS (copinhos brancos)
Estralante
Isopor
Tetrapak
Papelão 1ª
Papelão 2ª (Colorido)
Papelão misturado
Papel Misto
Papelão 2ª + papel misto
Papel Branco
Aparas Brancas
Jornais
Revistas
Jornais + revistas
Alumínio Chapa
Alumínio Perfil
Outras informações:
Kg/mês
R$ p/Kg
210
Alumínio Total
Cobre Queimado
Cobre Descascado
Cobre com Capa Plástica
Cobre (não especificado)
Bronze
Inox
Metais + alumínio (- latinhas)
Vidro
211
APÊNDICE B – Formulário para a Entrevista com Intermediários Comerciais
Entrevista com Intermediários Comerciais
Estabelecimento:
Contato e Telefone:
Recicláveis que comercializa:
RECICLÁVEL
PREÇO
Alumínio Latinha
Lata Ferro (Sucata)
Leitoso (PEAD)
Coloridos (PEAD)
Sacos (PEBD)
Cristal (PEBD)
PET Branco
PET Verde
Azeite (PET)
Mineral (PP)
Margarina (PP)
Tampinhas
Balde e Bacia (PVC)
PVC
Copinhos (PS)
Isopor
Tetrapack
Papelão 1ª
Papelão 2ª (Colorido)
Papel Misto
Papel Branco
Aparas Brancas
Jornais + revistas
Alumínio Chapa
Alumínio Perfil
Cobre Queimado
Cobre Descascado
Cobre com Capa Plástica
Bronze
Inox
Vidro
CLIENTE
Outras informações:
Distâncias de transporte:
212

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