V Jornadas Empresariais - "Portugal no Mundo"

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V Jornadas Empresariais - "Portugal no Mundo"
V JORNADAS AEP
SERRALVES
"Portugal no Mundo"
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FUNDACOES AEP | SERRALVES
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23 de outubro de 2014
Título
V JORNADAS AEP | SERRALVES
Edição
Fundação AEP
Pré Impressão
Débora Luz
Depósito Legal
394306/15
ISBN
978-989-98453-6-7
Porto, junho 2015
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´INDICE
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INTRODUCAO
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PROGRAMA
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COMUNICACOES
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Sessão de Abertura
11
Dr. Paulo Nunes de Almeida
11
Dra. Ana Pinho
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Palestra de Abertura
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Primeira Sessão - Moderador: Prof. Luís Valente de Oliveira
Dr. Luís Marques
Eng.º Miguel Lisboa
Dr. Ricardo Afonso
Dr. Fernando Vieira
Eng.º Carlos Alves Duarte
37
41
47
55
59
73
Segunda Sessão - Moderador: Manuel Passos Rodrigo
Eng.º Luís Mira Amaral
Dr. Jónio Reis
Dr. João Taborda
79
83
89
95
Terceira Sessão - Moderador: Eng.º Vergilio Folhadela Moreira
Dr. Sérgio Marques
Dra. Marta Maia
Dra. Luísa Duarte Dr. Bernardo Brito e Faro
105
109
117
123
129
Quarta Sessão - Moderador: Dr. Carlos Abrunhosa de Brito
Embaixador Francisco Seixas da Costa
Eng. º Vital Morgado
135
139
149
Quinta Sessão - Moderador: Dr. Manuel Cavaleiro Brandão
Eng.º José Rui Felizardo
Dr. Cláudio Sunkel
Prof. Jorge Gonçalves
161
165
173
185
197
199
201
Sessão de Encerramento
Eng.º José António Ferreira de Barros
Dr. Artur Santos Silva
5
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INTRODUCAO
´
As exportações, o investimento estrangeiro em Portugal e o investimento português em
países que nos dêem retorno assegurado parecem ser os caminhos mais promissores para
sair da crise económica que estamos a atravessar. Por isso se impõe debater estes temas
com profundidade.
Foi o que aconteceu nas V Jornadas das Fundações AEP e de Serralves realizadas no Porto
em 23 de Outubro de 2014.
Passámos em revista: as ligações de Portugal ao exterior; o investimento estrangeiro em
Portugal; a actividade e o investimento português no mundo; a organização do comércio
externo e o papel das universidades na projecção de Portugal no mundo. Nas diversas
sessões intervieram personalidades conhecedoras dos assuntos que trataram, tendo sido
unânime a opinião de que as matérias tratadas eram de manifesto interesse, merecendo a
reflexão feita e as informações transmitidas.
Neste volume reúnem-se os textos que nos foram facultados pelos oradores. Estamos
gratos a todos, não só pelas exposições que fizeram, como também pela permissão que nos
deram de prolongar o seu efeito pela disponibilidade de uma versão escrita das mesmas.
Esta ajuda a rememorar as Jornadas e a colher dados e informações que se revelaram
importantes para abordar os diferentes temas.
A todos estamos gratos.
Paulo Nunes de Almeida
Presidente da Fundação AEP
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PROGRAMA
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09:00 Rececao
dos Participantes
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09:30 Sessao
de Abertura
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Presidente do Conselho de Administracao
da Fundacao
AEP
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Dr. Paulo Nunes de Almeida
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~
Conselho de Administracao
da Fundacao
de Serralves
´
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Dra. Ana Maria Pinho Macedo Silva
09:45 Palestra de Abertura
Dr. Jaime Nogueira Pinto
~
~
10:15 Primeira sessao - As Ligacoes
de Portugal ao Exterior
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Moderador: Prof. Luís Valente de Oliveira
Dr. Luis Marques - Rangel Invest, SA
Eng.º Miguel Lisboa – TAKARGO – Transporte de Mercadorias SA
Dr. Ricardo Afonso - Transdev Portugal
Dr. Fernando Vieira - ANA - Aeroporto do Porto
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12:00 Segunda sessao - O Investimento Estrangeiro em Portugal
Moderador: Manuel Passos Rodrigo
Lingjiang Xu – Fosun
Eng.º Mira Amaral – Banco BIC
Dr. Jónio Reis – Bosch Portugal
Dr. João Taborda – EMBRAER
13:00Almoco
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^ no Mundo
14:00 Terceira Sessao
- A Atividade e o Investimento Portugues
Moderador: Eng.º Vergílio Folhadela Moreira
Dr. Sérgio Marques - Parfois SA
Dra. Marta Maia – Jerónimo Martins
Alberto Couto Alves - ACA, SA
Dr. Bernardo Brito e Faro - Sogrape Vinhos, SA
7
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23 de outubro de 2014 - Auditorio
Fundacao
de Serralves
´
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14:00 Quarta Sessao
- A Organizacao
do Comercio
Externo
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Moderador: Dr. Carlos Abrunhosa de Brito
Eng.º Vital Morgado – Administrador da AICEP
Embaixador Francisco Seixas da Costa
~
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15:10 Quinta Sessao
- As Universidades e a Projecao
de Portugal no Mundo
´
Moderador: Dr. Manuel Cavaleiro Brandão
Eng.º José Rui Felizardo - CEIIA - Centro Para a Excelência e inovação na indústria
automóvel
Dr. Cláudio Sunkel – IBMC – Instituto de Biologia Molecular
Prof. Jorge Gonçalves – Universidade do Porto
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17:00 Sessao
de Encerramento
´
Eng.º Jose´ Antonio
Ferreira de Barros
Presidente do Conselho de Curadores da Fundação AEP
Palestra de encerramento
Dr. Artur Santos Silva
Presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian
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COMUNICACOES
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SESSÃO DE ABERTURA
Presidente do Conselho de Administração da Fundação AEP
Dr. Paulo Nunes de Almeida
Administradora da Fundação de Serralves
Dra. Ana Pinho
Palestra de Abertura
Dr. Jaime Nogueira Pinto
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SESSAO DE ABERTURA
Presidente do Conselho de Administração da Fundação AEP
Dr. Paulo Nunes de Almeida
Muito bom dia!
Vamos dar início às V Jornadas Fundação AEP | Fundação de Serralves e começo por
agradecer a presença de todos os participantes.
A sessão de trabalhos será longa, pelo que temos de ser muito rigorosos com o tempo para
dar oportunidade a todos de nos transmitirem o que consideram importante sobre o tema
que vamos abordar.
Como devem estar recordados das I Jornadas realizadas em 2010, discutimos “Portugal
2020”, nas II Jornadas abordamos o tema da “Re-industrialização” e nas III Jornadas a
“Internacionalização da economia portuguesa”, no ano passado o tema foi “ o papel do
Estado no desenvolvimento” e este ano vamos discutir “ Portugal no Mundo”.
Em primeiro lugar gostaria de agradecer à Fundação de Serralves na pessoa da Dra.
Ana Pinho, estimada colega, a parceria que mais uma vez estamos a levar a cabo, para a
realização destas V Jornadas. Mais uma vez a Fundação AEP e a Fundação de Serralves
estão a dar o exemplo do que deve ser feito, privilegiando a parceria ao individualismo e
trazendo para discussão temas de relevante interesse nacional.
Uma palavra para as duas equipas, quer a da Fundação AEP quer a da Fundação de
Serralves, que trabalharam na organização das mesmas e uma palavra muito especial para
o Sr. Prof. Dr. Luís Valente de Oliveira, que tem a responsabilidade da sua organização.
Agradecemos ao nosso patrocinador exclusivo, a KPMG, que à semelhança dos anos
anteriores, patrocina e apoia estas jornadas empresariais, bem como o programa COMPETE
que nos apoia na divulgação das jornadas e dos seus resultados. Por fim, agradeço a todos
os participantes e a todos os oradores, os quais não vou referenciar agora, pois serão
apresentados à medida que cada um dos painéis se realizar, pelos respetivos moderadores.
Na Sessão de abertura e para além das palavras que vos serão dirigidas por estas duas
instituições organizadoras, vamos ter connosco o Dr. Jaime Nogueira Pinto, que dispensa
apresentações e a quem agradeço muito reconhecidamente a sua presença. Estou certo
de que o nosso convidado abordará este tema com a pertinência que o mesmo justifica e
também com a qualidade e a frontalidade que o caracteriza.
No encerramento teremos o Sr. Eng.º José António Barros, presidente do Conselho de
Curadores da Fundação AEP, e o Sr. Dr. Artur Santos Silva, que tem tido uma relação muito
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Sessao
de abertura | Dr. Paulo Nunes de Almeida
forte com estas duas fundações, co –promotoras destas iniciativas.
Porquê o tema Portugal no Mundo, pergunto. Acima de tudo pela atualidade face à
importância que no atual contexto da globalização se deve dar ao nosso posicionamento
no mundo e à grande dependência que o nosso crescimento tem e terá relativamente às
relações com o exterior. Abordar este tema, não só de uma forma genérica, mas também
centrando a análise em cinco grandes áreas:
1ª – As ligações de Portugal ao exterior,
2ª – O investimento estrangeiro em Portugal,
3ª – A atividade e o investimento português no mundo,
4ª – A organização do Comércio externo e as universidades
e
5ª - A projeção de Portugal no mundo, é com toda a certeza o melhor caminho para
podermos tirar conclusões que possam contribuir para o maior desenvolvimento do nosso
país. Esta é a missão das duas fundações promotoras deste Evento.
Começando pelas ligações de Portugal ao exterior, não podíamos deixar este tema de fora
dado a sua atualidade. O transporte de pessoas e bens, sendo por rodovia, por mar ou
pelo ar, as ligações intermodais e as tecnologias de informação e comunicação são áreas
que merecem a nossa atenção e que serão determinantes para o desenvolvimento de
Portugal e em especial a região Norte. É um tema em relação ao qual a AEP, conjuntamente
com outras associações e confederações, tem dado grande atenção, como é exemplo a
futura ligação ferroviária do nosso país à vizinha Espanha e daí para a Europa. Portugal não
deve e não pode desperdiçar a última oportunidade que advirá no novo pacote de fundos
comunitários, para definitivamente ter uma ligação rápida por ferrovia ao centro da Europa
que sirva a indústria de bens transacionáveis localizada preferencialmente nas regiões
Centro e Norte do país.
No que respeita ao investimento estrangeiro em Portugal e investimento português no
mundo, segundo e terceiro temas das Jornadas, temos hoje bons exemplos que confirmam
a importância desses assuntos. Portugal é hoje um país procurado por muitos investidores
estrangeiros e, nas apresentações que constituem o segundo painel, vamos saber porquê.
Não seremos nós a falar de nós próprios, mas ouvir outros a dizer o porquê de terem
escolhido o nosso país para investir. Fará bem com certeza à nossa auto-estima, a mesma
que alavanca investimentos de Portugal no Mundo e que no terceiro painel serão tratados
na primeira pessoa por empresas e empresários arrojados que foram pelo mundo fora
internacionalizando os seus negócios, mantendo em Portugal os centros de decisão.
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SESSAO DE ABERTURA
Chegando à quarta sessão vamos debater a organização do comércio externo, valorizando
o papel das instituições e da diplomacia económica. É constantemente referido o grande
aumento que as exportações tiveram face ao PIB, passando em poucos anos de uns
modestos 29% para uma cifra mais valorizada superior a 40%. “É muito bom”, dizem uns,
reforçando o protagonismo dos empresários, “ainda é pouco”, dizem outros, comparando
com países como a Áustria, a Bélgica e a República Checa. O que dirão os nossos convidados,
vamos ouvi-los.
Por último, mas não menos importante, as universidades e a projeção de Portugal no
Mundo. Reconhecidamente, o conhecimento e a inovação são cada vez mais os motores
das economias dinâmicas e competitivas. Esta evidência reforça a importância da ligação
entre o saber e o fazer, tornando clara a necessidade da concertação de dois mundos,
muitas das vezes com mentalidades e finalidades distintas.
Vamos ouvir três especialistas nesta área que nos vão trazer, com toda a certeza, notícias
que muitos de nós desconhecemos. Quantos estudantes e investigadores estrangeiros
temos nas nossas universidades? Muitos, com toda a certeza! E esse sentido inverso,
esses jovens portugueses que andam por esse mundo fora, concorrendo ao mais alto
nível com jovens de todo o mundo, dignificando o nosso país e o nosso sistema de ensino.
Não têm ainda, a notoriedade de um Mourinho ou de um Cristiano Ronaldo, mas um
dia, acreditem, isso vai acontecer e quando isso acontecer outros “Mourinhos” e outros
“Cristianos Ronaldos” vão aparecer.
Finalizando, gostaria de realçar que temos tentado trazer a estas Jornadas a discussão
de temas com mais profundidade e fugir um pouco do que no dia a adia se discute em
Portugal, muitas das vezes sem grandes resultados e consequências. Chega de abordagens
simplistas e pouco fundamentadas que muitas das vezes só servem para alimentar
polémicas e encher páginas dos jornais, sem se tirar daí grande benefício para o país.
Desejo a todos, umas boas Jornadas, um bom dia de trabalho e pedia à Dra. Ana Pinho que
nos fizesse a sua apresentação.
Muito obrigado!
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SESSAO DE ABERTURA
Administradora da Fundação de Serralves
Dra. Ana Pinho
Bom dia. Começo por saudar todos os presentes nesta quinta edição das Jornadas
Empresariais AEP / Serralves que decorrem neste auditório do museu, criação de um dos
nomes maiores da arquitetura mundial, Álvaro Siza, que é, indiscutivelmente, um bom
exemplo de Portugal no Mundo!
Faço esta breve intervenção de abertura em representação do Presidente da Fundação
de Serralves, o Senhor Engenheiro Luís Braga da Cruz, ausente do país por motivos
diretamente relacionados com o tópico que nos traz hoje aqui, pois encontra-se neste
momento em Luanda, no 10º Encontro de Fundações da CPLP, organizado pelo Centro
Português de Fundações, que também dirige.
Tal como ocorreu em anos anteriores, a Fundação AEP e a Fundação de Serralves decidiram
unir os seus esforços na organização destas Jornadas que, desta vez, estão subordinadas
ao tema “Portugal no Mundo”. E como se adivinha do seu Programa e das personalidades
que nele participam, a presença de Portugal no mundo será, seguramente, aqui encarada
numa perspetiva proativa de busca das melhores soluções para o nosso País.
E, neste contexto, não posso deixar de falar um pouco de “Serralves no Mundo”, enfatizando
algumas das características mais marcantes no domínio da nossa relação com o exterior.
Neste ano de 2014, Serralves celebra um duplo aniversário – os 25 anos da Fundação e
os 15 anos do seu Museu. Gostaria de destacar que a ambição internacional esteve na
génese deste projeto, refletindo a visão dos que mais diretamente estiveram ligados à sua
criação - um dos quais, o Senhor Professor Luís Valente de Oliveira, aqui hoje presente tendo sido sempre apoiada pelos seus Fundadores, Estado, Mecenas e Patronos. Desde o
início, foi objetivo desta Instituição contribuir para a projeção internacional do nosso país,
e, ao longo dos anos, Serralves foi confrontando os públicos portugueses – e o crescente
número de visitantes estrangeiros – com o diálogo permanente entre o que de melhor se
vai pensando e produzindo em Portugal e no estrangeiro.
A Visão de Serralves passa, de facto, por se afirmar, nacional e internacionalmente, como
um centro de excelência no domínio da arte contemporânea e, embora orgulhosa da sua
localização, a Fundação sempre teve no mundo o seu horizonte, como espectador e como
interlocutor.
Muito antes do crescente fluxo turístico a que assistimos nos últimos anos, e que leva
hoje a (boa) imagem da cidade do Porto a todas as geografias, Serralves já era dos nomes
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Sessao
de abertura | Dra. Ana Pinho
portugueses conhecidos e reconhecidos no estrangeiro. Para isso contribuiu o facto
de o seu Museu ter sido dirigido desde o início – com total independência do ponto de
vista artístico – por figuras de grande relevo internacional. É significativo relembrar que o
primeiro Diretor do Museu, Vicente Todoli, deixou Serralves para ir comandar um dos mais
importantes museus do mundo: o Tate Modern, em Londres e a atual Diretora do Museu,
Suzanne Cotter, tem um longo e prestigiante trajeto profissional internacional, tendo
abandonado a cidade de Nova Iorque, onde residia, e a liderança do projeto do Guggenheim
em Abu Dhabi, para vir dirigir o Museu de Serralves, na sequência de um muito concorrido
concurso internacional, com mais de 100 candidatos.
Mas é também importante referir que Serralves funciona bem no Mundo a partir de Portugal
e sem esquecer a realidade portuguesa, numa instituição onde estrangeiros trabalham,
dia a dia, em perfeita sintonia com portugueses, igualmente profissionais e com uma longa
dedicação - dos quais destaco a sua diretora-geral, aqui presente, Odete Patrício - cada um
beneficiando das experiências diversas dos outros e todos, em conjunto, contribuindo para
que Serralves seja uma “Instituição do Mundo”.
Desde sempre, Serralves trouxe a Portugal artistas que viajam e apresentam o seu
trabalho pelo mundo inteiro, que foram espalhando a surpresa de encontrarem no Porto
– nas palavras do próprios - uma das instituições museológicas onde melhor se trabalha,
onde a sua obra é exposta de forma mais cuidada, sensível e inteligente - e onde, já agora,
deram ótimos passeios, admiraram lindíssimos locais e foram muito bem recebidos. E todos
sabemos o quanto o “passa a (boa) palavra” é importante!
Também a internacionalização dos artistas portugueses tem beneficiado desta vocação
transnacional de Serralves: quer porque o seu trabalho é aqui visto pela primeira vez por
diretores de museu e curadores estrangeiros que nos visitam regularmente e que, muitas
vezes, convidam depois os nossos artistas para integrarem a programação dos seus
espaços, quer porque Serralves tem conseguido estabelecer importantes parcerias com
entidades congéneres espalhadas pelo mundo, para a organização conjunta de exposições
individuais de artistas nacionais.
A programação do Museu, hoje reconhecida como uma das mais interessantes a nível
europeu, foi aliás possível graças à colaboração frequente com legitimantes museus
estrangeiros como, entre muitos outros, o MACBA, de Barcelona, o Reina Sofia, de Madrid,
o Tate Modern e a Whitechapel Art Gallery de Londres, a Pinacoteca do Estado de São
Paulo e os Whitney Museum e Salomon R. Guggenheim Museum, de Nova Iorque.
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SESSAO DE ABERTURA
É minha convicção que é na partilha de realidades e experiências diversas e na exposição
a diferentes ideias e formas de trabalhar que as instituições se dinamizam, se enriquecem
e se superam.
Uma das exposições que apresentamos neste momento, da artista iraniana Monir
Sharoudy Farmanfarmaian, organizada em associação com o reputado Guggenheim de
Nova Iorque, onde vai estar exposta a partir de março do próximo ano, é paradigmática
do reconhecimento internacional do Museu de Serralves, que assim integra o circuito dos
museus mais prestigiados do Mundo.
Não menos significativo é o facto do Museu de Serralves estar atualmente a colaborar
com a Bienal de São Paulo na sua internacionalização, estando prevista a apresentação
desta prestigiadíssima Bienal fora do Brasil, pela primeira vez, em Serralves, no outono de
2015.
Pensamos que a Fundação de Serralves tem ajudado a promover a imagem de Portugal no
estrangeiro, posicionando-nos como um país criativo, dinâmico, rigoroso e mostrando um
Portugal moderno, empreendedor e cosmopolita. Um renovado Portugal que desta forma
vai conseguindo substituir-se à imagem de um país cinzento, estático e conservador,
pouco atrativo para turistas e para investidores.
Para concluir, e porque muito se tem discutido sobre a ligação entre os mundos empresarial
e cultural, devo aproveitar para reafirmar que Serralves, a par com muitos outros bons
exemplos, é a prova de que estes dois universos não são incompatíveis e, bem pelo
contrário, o desenvolvimento cultural tem um impacto muito benéfico na economia. Um
país sem cultura poderá até ser rico de bens materiais, mas nunca será respeitado nem
verdadeiramente relevante no mundo!
Termino agradecendo à Fundação AEP, na pessoa do seu Presidente, o Senhor Dr. Paulo
Nunes de Almeida, ter continuado a depositar em Serralves a confiança de nos ter como
instituição parceira para estas Jornadas e desejando que estas sejam, mais uma vez, um
êxito.
Muito obrigada a todos!
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SESSAO DE ABERTURA
PALESTRA DE ABERTURA
Dr. Jaime Nogueira Pinto
Vou tentar hoje destacar alguns aspectos do panorama internacional que podem
determinar a geopolítica e a geoeconomia das potências e dos grandes espaços.
Num momento de dúvidas, interrogações, riscos e ameaças, do Médio Oriente às fronteiras
da Europa, começo pelas áreas e situações que podem pôr em causa, com maior intensidade
e proximidade, a paz e a estabilidade internacionais, tentando perceber as suas causas
e consequências. Enuncio depois algumas características da actual ordem ou desordem
mundial, analisando a sua interacção com a Economia e a Cultura.
Por fim, deixo algumas considerações sobre o que nós portugueses – colectivamente,
como povo e Estado, e individualmente, nas empresas e na vida cívica e pessoal – fizemos
e podemos fazer, não apenas para sobreviver, mas para viver com a dignidade e a
independência de uma nação antiga, pioneira, experiente nas rotas do mundo, criadora e
comunicadora de tanta coisa grande e importante para a Humanidade.
OS RISCOS
^
O Estado Islamico
Desde o Verão de 2014 que as atenções mediáticas se concentram numa entidade
político-militar surpreendente e mal identificada que começou por dar pelo acrónimo
inglês de ISIS (Islamic State of Iraq and Syria) mas que, rapidamente, foi rebaptizada de
IS, Islamic State ou Estado Islâmico, talvez por intuição dos seus dirigentes, mestres nas
artes da propaganda.
Assim, sob a designação de um Estado mais vasto, uma designação simbólica e desligada
da base territorial (100.000 km2 do noroeste do Iraque e do nordeste da Síria, com cerca de
7 milhões de habitantes), a força militar comandada por Al Baghdadi assumia uma vocação
universalizante no mundo islâmico, reforçada pela referência ao califado, a tradicional
autoridade político-religiosa da Umma, a comunidade dos crentes. O exército do califa
Al Baghdadi, que se auto-intitula chefe dos fiéis, conta com uns 30.000 combatentes,
convictos, fanatizados e bem armados, graças ao material norte-americano capturado à
tropa de Bagdad. Dos quadros, uns são antigos oficiais do Exército de Saddam Hussein
e outros têm longa experiência na guerra do Afeganistão, na guerrilha antiamericana no
Iraque e na luta contra o clã Assad na Síria. A maioria são sunitas do Iraque e da Síria, em
revolta contra os respectivos governos, mas há muitos voluntários dos países islâmicos
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Sessao
de abertura | Palestra de Abertura - Dr. Jaime Nogueira Pinto
do Magrebe – tunisinos e marroquinos – e também sauditas e jovens ocidentais, alguns
aventureiros, outros (a maior parte) oriundos das comunidades muçulmanas da Europa,
das Américas e da Oceânia.
O Estado Islâmico quebrou a tradicional tolerância do Islão – não nos esqueçamos que, no
Império Otomano, viviam em relativa tranquilidade muitos milhões de cristãos e judeus,
mediante obediência civil e o pagamento de um imposto agravado. Ao contrário, estes
novos muçulmanos exterminam os infiéis que não se querem converter e proclamam uma
vontade expansionista ou de reconquista das antigas fronteiras do Islão.
Este aparecimento fulminante do Estado Islâmico, além de passar um atestado de
incompetência aos serviços de inteligência e segurança, incapazes de o prever, tem como
causa próxima a errática política ocidental, sobretudo norte-americana, em relação à
região. Depois da chamada Segunda Guerra do Golfo, a invasão do Iraque impulsionada
pelos neoconservadores da Administração George W. Bush foi uma operação militar eficaz
mas que redundou num desastre político. Depois, a política externa de Barack Obama,
quer em relação às Primaveras Árabes, quer na crise síria e na questão palestiniana, veio,
paradoxalmente, reforçar esse desastre. Há ainda as causas remotas, que vêm da partilha
do Médio Oriente, em Outubro de 1916, consagrada pelo pacto franco-britânico que
carrega o nome dos dois burocratas que o assinaram – o ex-cônsul francês em Beirute,
Charles Georges Picot, e o conselheiro para o Médio Oriente de Lord Kitchener, Mark Sykes.
Este pacto Sykes-Picot, assinado nos princípios do fim do mundo eurocêntrico, dividia o
Médio Oriente entre zonas de influência francesa e inglesa, zonas de onde se iam expulsar
os turcos. No fundo, tratava-se de estabelecer protectorados imperialistas sobre povos
antigos, com elites nacionais emergentes. Esta colonização tardia, secreta e indirecta,
pretendia usar como homens de mão ou de palha os potentados locais, que se julgavam
manipuláveis.
Assim se criou o Médio Oriente dos nossos dias, instável, mal governado e dividido, quer
em termos de regimes, quer em termos de fronteiras. Daqui também o ciclo infernal e
violento da mudança política – das monarquias hereditárias para os regimes laicos militares
e de partido único, convertidos em dinastias familiares: os Assad, os Hussein e os Mubarak.
Seguiram-se as Primaveras Árabes e os seus contraproducentes resultados, multiplicando
as linhas de inimizade na região e desencadeando uma espécie de hobbesiana guerra de
todos contra todos.
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SESSAO DE ABERTURA
Este caos não tem solução sem a compreensão das suas causas próximas e remotas, que
acabaram por convergir. E o antagonismo israelo-árabe, derivado da situação na Palestina
e de uma solução sempre adiada, mantém os países ocidentais reféns e manietados
em muitas das suas iniciativas. Mas é preciso cuidado com a abordagem simplista e
maniqueísta que extrai daqui um “perigo islâmico” global para o Ocidente, ou que preconiza
a exportação dos modelos político-sociais euroamericanos como elixir mágico e curativo
para todos os problemas. Já se viu – com a invasão do Iraque em 2003 ou a guerra da
NATO no Afeganistão – que a exportação da democracia nas asas dos bombardeiros ou
nas lagartas dos tanques é um desastre. E, com as Primaveras Árabes, talvez se tenha
percebido que nem sempre nas “eleições livres e justas” o povo escolhe os democratas, ou
aqueles que os nossos media ou opinion makers decidem apontar como os bons da fita.
Nos últimos dez anos, o Ocidente abriu, à toa, demasiadas garrafas com génios cativos,
que eram muito bons até se revelarem péssimos. Tentou depois fazê-los voltar para
dentro das respectivas garrafas, mas não teve nem a vontade nem os meios para o fazer.
As ajudas ou armas económicas tão pouco têm capacidade de resolver situações limite de
inimizade radical ou ligadas a interesses nacionais determinantes. Pense-se no retraimento
progressivo em relação às posições americanas de países aliados de Washington, como a
Turquia e a Arábia Saudita, e perceber-se-á a medida desta desconfiança. Como temos
visto nos últimos tempos, O Estado Islâmico veio para ficar e a solução mais optimista
parece ser a de o conter nos seus limites actuais.
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A nova Russia
de Putin
Outra área de risco, e esta mais próxima, é a fronteira que separa a Ucrânia e a Europa
Oriental da Rússia. Do mesmo modo que os serviços de inteligência foram incapazes de
prever a erupção do Estado Islâmico, também em relação ao líder da Rússia, Vladimir Putin,
os políticos ocidentais demonstraram grande incapacidade de análise.
Mais uma vez, por preconceito ideológico e com a arrogância que caracteriza parte das elites
políticas, burocráticas e mediáticas ocidentais, foram esquecidas a lições da História, da
Cultura e até as imposições da Geografia. Preferiu-se a retórica maniqueísta e diabolizante
ou mesmo a acção directa clandestina.
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Sessao
de abertura | Palestra de Abertura - Dr. Jaime Nogueira Pinto
Na Primavera deste ano de 2014, a União Europeia resolveu encorajar os ucranianos que
pretendiam aproximar-se da Europa a baterem-se contra a Rússia; isto depois de os ter
mantido, anos a fio, numa espécie de sala de espera humilhante.
Vladimir Putin tem um percurso pessoal e político muito interessante, um percurso que
valeria a pena estudar fora das lendas urbanas das biografias sensacionalistas. Quadro
médio do antigo KGB, Putin usa os seus anos obscuros para escrever e defender uma tese
de doutoramento sobre “a importância dos recursos energéticos para o poder nacional”.
É um homem discreto, que cresce na sombra do clownesco e corruptíssimo Boris Yeltsin,
de quem se fez, no Ocidente, um herói democrático. Putin chega ao poder a partir da
Segurança de Estado e dirige uma recuperação económica e tecnológica da economia
russa através da modernização e da reforma do sector energético. Depois, põe na ordem
os chamados oligarcas, ou os super-ricos do pós-comunismo, explicando-lhes que podem
ser ricos à vontade, desde que não se metam na política do Estado, que, essa, é com ele.
Putin não é nem um ressuscitador do comunismo soviético nem um novo Hitler, sedento
de conquista global. É um nacionalista russo, puritano, realista, que cuidou da aliança
com a Igreja Ortodoxa e de reunificar e reconciliar ideologicamente a História russa dos
últimos 200 anos, reintroduzindo a ordem no caos mafioso deixado pelo seu antecessor.
Na antecâmara do Gabinete, tem o retrato de Nicolau I, um Czar autoritário, religioso e
nacionalista; o homem da guerra da Crimeia. E na Rússia de Putin fazem-se filmes em que
generais Brancos da Guerra Civil, como o almirante Kolchak, são bem tratados.
Putin é um nacionalista histórico, realista e pragmático, que não quer perder a face perante
os compatriotas. E note-se que a alternativa são os nacionalistas radicais e ultra-ortodoxos,
inimigos do Ocidente, e não propriamente democratas centristas e humanitários. Putin
sintetizou forças diversas e a sua Rússia continua a ser o segundo poder militar da terra. Não
terá aspirações de domínio universal – como o comunismo internacional – nem a exaltação
feérica e wagneriana de Hitler, mas tem uma agenda de restauração do prestígio e do
poder nacional russo. Não pode, por isso, perder a face num ponto essencial para a alma
russa nas áreas históricas da Ucrânia e da Rússia Branca. Os estrategas e funcionários
ocidentais deviam ter percebido melhor este ponto: é que, para Putin, a Crimeia ou mesmo
a Ucrânia Oriental são muito mais importantes do que para nós.
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SESSAO DE ABERTURA
A linha de fronteira de contenção da NATO passa pela Polónia e pelos Estados Bálticos.
Nem mais nem menos. Se se tivesse dado à Ucrânia um estatuto semelhante ao da
Finlândia na Guerra Fria, tudo seria diferente.
Dito isto, a zona oriental da Europa continua a ter uma previsibilidade que nada tem que
ver com o alto risco inerente a uma área fragmentada e com protagonistas não estatais
poderosos e irracionais como é o Médio Oriente e parte do Magrebe.
Na verdade, Putin – que influencia mas que não controla os nacionalistas russófilos da
Ucrânia Oriental – procura agora uma saída airosa para a crise. Sabe que tem capacidade
militar e recursos energéticos para recuperar espaços de influência perdidos no colapso da
União Soviética e que a arma do gás natural é um elemento de pressão sobre a Ucrânia e
a União Europeia, mas sabe também que lhe está a ser altamente prejudicial e arriscado
envolver-se num confronto com os Estados Unidos e enfrentar uma escalada de sanções
económicas e financeiras que pode levar a uma ruptura da economia russa.
A Rússia – e parte substancial da sua classe dirigente – tem a experiência histórica do grande
poder, em termos militares e diplomáticos, e sabe como gerir, diplomaticamente, um mundo
que vive com ressentimento a hegemonia americana. Putin vai procurar salvaguardar, na
Europa, as boas relações com a Alemanha, com a Itália e com a França para contrabalançar
a hostilidade natural da Polónia e dos Estados Bálticos. E vai, apesar de um capital de
dificuldades históricas e culturais, progredir na aproximação à China, consolidando-se na
Eurásia, para satisfação dos seus homólogos chineses que a hostilidade norte-americana
atirou para os braços do Urso. No mesmo sentido de alargamento geoeconómico da
Eurásia, visitou a Índia em meados de Dezembro, onde foi recebido pelo primeiro-ministro
Narendra Mori. Putin e Mori falaram em aumentar o comércio bilateral (actualmente nos 10
biliões de dólares) e assinaram acordos no campo nuclear e no sector petrolífero e do gás.
Também foram assinados protocolos no âmbito da Defesa e convencionadas políticas de
entendimento na estabilização do Afeganistão, do Iraque e da Síria. São sinais claros da
reacção russa ao cerco da NATO e às consequentes sanções.
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Os dentes do dragao
Um terceiro ponto de risco é a Ásia-Pacífico, onde o poder nacional chinês pode confrontarse com vizinhos como o Japão ou o Vietname. Os Estados Unidos podem ter reforçado estas
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Sessao
de abertura | Palestra de Abertura - Dr. Jaime Nogueira Pinto
tensões e exaltadas as desconfianças de Pequim ao declarar, na revisão do seu conceito
estratégico, a prioridade da Ásia-Pacífico. Fizeram-no na qualidade de apaziguadores de
tensões regionais, a fim de proteger aliados novos e antigos, como a Índia, o Vietname, a
Indonésia, a Austrália, a Coreia do Sul e Taiwan, inquietos com o poder de Pequim. Mas os
chineses entenderam a manobra como uma acção destinada a contê-los – e não gostaram.
Para a China, como para todas as grandes e antigas nações, a História tem um peso
significativo e um sentido que se tem que levar em conta. E essa História, nos últimos
duzentos anos e até às reformas de Deng Xiau Ping, foi uma história de abusos, invasões
e humilhações impostas pelo estrangeiro, com base no poder material das armas: pelos
ingleses com as guerras do ópio; pelos europeus e americanos no rescaldo da revolta
dos Boxers; pelos japoneses numa invasão militar caracterizada por grande violência e
opressão; e até pelos soviéticos, em 1949, apesar de aliados na fraternidade comunista.
Não nos podemos esquecer que há duzentos anos a China era a primeira economia do
mundo. Deng, nacionalista e realista, percebeu o que movia o mundo contemporâneo e
quis fazer a ponte da China com esse movimento. E o que movia o mundo não eram os
slogans do marxismo-leninismo sobre produtividade, eram as realidades eternas do poder.
Assim, tratou de dotar a China de um sistema económico compatível com a mudança e os
interesses nacionais e fazer que a sua população arrancasse para o desenvolvimento e
tornasse o país poderoso, ou seja, forte economicamente para poder ser forte politicamente.
Daqui resultou um nacionalismo autoritário reformista, um capitalismo de direcção central,
em que a economia é livre, mas só dentro dos objectivos estratégicos definidos pelo poder.
A China está rodeada de um anel de países com quem os Estados Unidos mantêm relações
políticas e económicas de aliança e interesse: desde a Índia ao Japão, passando pela
Indonésia, pela Austrália, pelas Filipinas e até – quem o diria há quarenta anos? – pelo
Vietname.
Esta contenção actua face a um sistema que tem que gerir grandes equilíbrios internos
entre crescimento, urbanização, criação de classe média e manutenção da hegemonia do
Partido face a elementos centrífugos, sempre presentes.
A corrente prova de força em Hong Kong, as velhas tensões no Tibete, no Sinkiang, o
objectivo central da reintegração pacífica de Taiwan, estão sempre presentes no
pensamento estratégico do governo chinês, do qual podemos encontrar uma interessante
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SESSAO DE ABERTURA
síntese programática no estudo de um académico da Universidade de Pequim, o Prof. Wang
Jisi: Marching Westwards. The Rebalancing of China’s Geostrategy. Nesse estudo de 2012,
o Prof. Wang admite a natural ascensão do poder da China, a caminho da paridade com os
Estados Unidos. Outro interessante documento estratégico é Creative Involvement. The
Evolution of China’s Global Rule, do Prof. Yizhou.
O actual líder da China, o Presidente Xi Jinping, parece consciente destas grandes constantes
internas e internacionais e dos riscos e oportunidades implicados na possibilidade de a
China vir a assumir um papel no mundo compatível com a sua dimensão demográfica,
económica e histórica, sem que desperte uma coligação hostil na região Ásia-Pacífico,
alimentada pelos receios dos poderes locais ameaçados. A sua “via do Ressurgimento”
aponta para uma unidade de vigilância dos pontos de tensão interna – Tibete, Sinkiang,
Hong Kong – e da periferia do anel do Pacífico, a Oriente; mas também para uma grande
estratégia, a Euroasiática, assente na construção de vias de comunicação que liguem
o Império do Meio ao Ocidente europeu – de Pequim a Berlim, passando pela Rússia e
por algumas das antigas repúblicas da União Soviética. São as novas Estradas da Seda.
Xi começou já por combater o fenómeno escandaloso da corrupção dos altos cargos do
partido. Iniciou a depuração por altos dirigentes, como o ex-ministro da Segurança Zhon
Yongkang e o antigo ministro do Comércio Bo Xilai, chegando agora a quadros superiores
de multinacionais petrolíferas chinesas, como a CNPC e a CNOOC.
E O QUE FAZ O OCIDENTE?
O que faz o Ocidente, ou seja, o mundo euroamericano perante estes movimentos dos
seus ex-inimigos ideológicos da Guerra Fria, dos Estados continuadores da União Soviética
e da República Popular da China?
Numa primeira fase, nos finais do Império Soviético, dominou a política realista de George
H. Bush, que cuidou de não humilhar o vencido e promover uma “aterragem suave”, no
rescaldo da derrota e do desmembramento da União Soviética.
Mas seguiu-se-lhe a euforia ideológica americana dos anos noventa. Levou-se a NATO até
às fronteiras da Rússia e procurou-se também, como arma ideológica, impor aos vencidos
as instituições político-económicas dos vencedores. Foi a década da hegemonia americana,
os anos da Presidência Clinton, da euforia do Fim da História, em que se acreditou que, daí
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de abertura | Palestra de Abertura - Dr. Jaime Nogueira Pinto
para diante, todo o mundo, da Ásia Central às florestas do Congo, seria liberal-democrático
e viveria em paz, em estáveis economias de mercado.
Era a profecia de Francis Fukuyama do “fim da História”, reescrevendo o que Hegel afirmara
depois das guerras napoleónicas.
Alguns sinais premonitórios deviam ter alertado os mais optimistas: a década do colapso da
União Soviética e da libertação da Europa Oriental, da consolidação do “milagre económico
chinês”, da transição pacífica na África do Sul, da emergência das economias indiana e
brasileira, fora também o tempo das guerras civis nos Balcãs, do genocídio do Ruanda, das
guerras étnicas da Libéria e da Serra Leoa. Ou seja, a História podia acabar mas mesmo que
acabasse, nunca acabava para todos.
A Europa e os Estados Unidos quiseram proceder à evangelização democrática sem se
darem conta de que havia pressupostos culturais, políticos e religiosos na experiência
histórica do modelo: o Cristianismo e a Nação. E que, na ausência de Cristianismo e de
Nação, o sistema democrático não funcionava ou funcionava mal.
Os ataques da Al Qaeda, pela sua magnitude e pelos alvos escolhidos – os símbolos do
poder do país líder do mundo – foram a certidão de óbito desse optimismo. Também durou
pouco a reacção de solidariedade em volta da resposta norte-americana e das operações
no Afeganistão, que levaram ao derrube do poder dos Talibãs em Kabul, anfitriões do
terrorismo internacional e base da galáxia Bin Laden. Os planos da Administração Georges
W. Bush , ao confundirem a guerra antiterrorista com o ataque e o derrube do governo de
Bagdad, puseram-lhe fim.
Sadam Hussein podia ser – e era – um tirano da pior espécie, mas não tinha nada que
ver com os terroristas religiosos da Al Qaeda, nem possuía armas de destruição maciça
utilizáveis contra os Estados Unidos, de quem tinha um medo quase paranóico. Por isso,
a Segunda Guerra do Golfo dividiu os aliados ocidentais – com a França e a Alemanha a
oporem-se nas Nações Unidas, bem como a Arábia Saudita e a Turquia, aliados regionais
importantes. Hoje sabemos que a operação conduziu à divisão do Iraque, a uma ainda
maior fragmentação do Médio Oriente e à criação de entidades supra territoriais – como o
Estado Islâmico – bem mais difíceis de controlar, como suportes do terrorismo, que Estados
convencionais com domicílio, governo e palácio presidencial – esses sim, ao alcance das
“nossas” armas de destruição maciça.
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SESSAO DE ABERTURA
É certo que não se repetiram macro atentados contra os Estados Unidos e a Europa, o
que abona a favor da capacidade preventiva da campanha antiterrorista. No entanto, é
sobretudo à politização da Al Qaeda que se deve o abandono dos ataques apocalípticos
em favor de acções mais pensadas e, sobretudo, preferencialmente dirigidas a alvos
muçulmanos. Mas é também certo que os custos das operações no Afeganistão e no
Iraque resultaram em mais um complexo tipo Vietname, levando ao retraimento americano,
não só no Afeganistão e no Iraque, mas no próprio Médio Oriente e, em geral, no mundo.
A Administração Obama, além de se mostrar híper-cautelosa em relação a qualquer
intervenção externa – sobretudo se implicar baixas em combate – governa muito ao sabor
de sondagens de opinião. O que é preocupante num superpoder em que muitos ainda
confiam.
Isto não tem evitado escândalos de espionagem norte-americanos, como o ocorrido com
a Alemanha, que levou ao limite a cólera do ministro Schauble e as sequelas dos casos
Wikileaks e Snowden, que aumentaram a desconfiança dos aliados em relação à correcção
política do “grande irmão” americano.
É certo que a economia dos Estados Unidos recuperou mais rapidamente que a europeia
da crise financeira de 2008 e que o FED e o Tesouro responderam com plasticidade e bom
senso à crise e aos seus ónus económico-sociais, em contraste com a rigidez germânica
quanto às dívidas soberanas e à política do Euro. E que a revolução energética adivinhável
a partir do shale-gas vai alterar, não só a equação energética mundial, mas também os
próprios dados da Geopolítica e Geoeconomia convencionais. No entanto, estes progressos
energéticos aumentaram os receios de desengajamento dos EUA no Médio Oriente,
semeando grandes inquietações nos poderes locais.
A Europa e a Alemanha
A Europa e a União Europeia também não se apresentam em grande forma: a tentativa
de passagem do que era uma bem-sucedida associação económica e até financeira para
uma integração confederal-federal a caminho de um super-Estado europeu sem o cimento
histórico-cultural da nação está a redundar em fracasso. As resistências aos projectos
integradores são visíveis no progresso dos partidos eurocépticos em Estados essenciais
para a construção europeia, como a França e a Grã-Bretanha, e no correspondente
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Sessao
de abertura | Palestra de Abertura - Dr. Jaime Nogueira Pinto
crescimento do bloco soberanista no Parlamento de Estrasburgo. Mais graves ainda são as
tendências separatistas, adiadas mas não neutralizadas, em países como o Reino Unido,
com a Escócia, e a Espanha, com a Catalunha.
Esta crise permanente da União Europeia não é tão estranha se pensarmos um pouco
naquilo que faz o poder económico das nações e aquilo que os países europeus hoje
produzem. A Europa não tem recursos energéticos nem alimentares bastantes; com
excepção da Alemanha e mais duas ou três economias muito especiais, deixou de ter uma
indústria exportadora e deixou de ser a fábrica do mundo; sistemas sociais generosos, que
outrora significavam um avanço civilizacional, tornaram-se insustentáveis pelo lado dos
custos. As mudanças da demografia afectam os Estados que, como unidades produtivas
na competição económica mundial, ficam pouco atractivos para os mercados. E em países
como a França e a Suécia, a imigração não-europeia tende a desencadear uma crise de
identidade, com efeitos traumáticos em parte das populações.
A Europa, ao habituar-se a ser defendida pelos Estados Unidos e a cultivar uma cosmovisão
kantiana, para não dizer panglossiana, deixou de gastar com a Defesa e de ter poder militar
ao nível do estatuto que reclama. O que é ainda mais grave, quando economicamente
atravessa dificuldades e corre o risco de deflacção e de estagnação à japonesa.
O Velho Continente tem conseguido manter uma certa qualidade de vida, num quadro de
decadência do poder, até porque aqueles que ganham fortunas noutros continentes vêm
aqui investir no luxo, no conforto e na segurança que ainda oferece. Também no mundo
Antigo se vivia muito bem em cidades decadentes como Antioquia ou Alexandria.
A própria indefinição estratégica do país líder da Europa Continental, a Alemanha,
reunificada com coragem e à pressão por Helmut Kohl na agonia da União Soviética, é
sintomática desta indecisão. Como escreve Timothy Garton-Ash, a Alemanha não deseja
secretamente mandar na Europa por meios financeiros ou económico-financeiros, nem
se propõe vingar duas derrotas e humilhações consecutivas pagando as contas dos seus
consórcios europeus deficitários ou financeiramente débeis para os poder comandar
politicamente. Mandará se isso lhe acontecer naturalmente e sem grandes custos. De
todos os países europeus, a Alemanha é quem tem mais escolhas. Sempre teve.
Esquece-se às vezes, essa grande indecisão histórica da Alemanha, entre Ocidente e
Leste; esquece-se que, no século XIX, houve uma tensão entre a Alemanha de Frankfurt
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SESSAO DE ABERTURA
e a Prússia de Berlim. E que foi esta – a Prússia –, com o seu poder militar e a vontade do
Chanceler Bismarck, que fez a unificação. E que essa unificação do mundo germânico – em
volta da Prússia dos Hohenzolern e não do sul católico bávaro ou mesmo do Império dos
Habsburgo – teve consequências.
Drang nach Osten, a marcha para o Leste, é uma tentação e uma tradição latente nas
Alemanhas reunificadas: podendo ir da Aliança ideológica com a Rússia czarista sustentada
por Bismarck, à tentação dos nacionais-bolcheviques entre duas guerras, ou mesmo à
agressão político-militar do III Reich na campanha da Rússia e nos seus planos económicodemográficos para a Grande Planície leste-europeia.
Uma das regras da potência hegemónica é – deve ser - manter boas relações com cada
uma das suas concorrentes mais próximas, as segundas, terceiras e quartas classificadas,
a fim de que não se unam numa coligação contra ela. Assim fez a Grã-Bretanha no século
XIX e os EUA no tempo de Nixon com a URSS e a China. Ora os Estados Unidos de Obama
fizeram o contrário ao lançar uma espécie de pacto de vigilância e contenção à China por
motivos ideológicos (por deficit democrático e por desrespeito dos direitos humanos) ao
mesmo tempo que hostilizavam Putin e a Rússia, pelas mesmas razões e pelo caso da
Ucrânia.
Os Estados Unidos têm despertado a hostilidade da Alemanha, tratando-a como o
protegido do tempo da Guerra Fria e espiando os seus dirigentes. Ora a Guerra Fria acabou,
e a Alemanha, graças às reformas económicas de Schröder, recuperou a capacidade
económica e industrial. Contínua débil na defesa, como consequência de guerras mundiais
perdidas e refractária a qualquer política armamentista. Tem também fortes ligações
com a Rússia, apesar da tensão actual com Putin por causa da Ucrânia, e tem cultivado
e multiplicado as relações com a China, quer a nível cultural, quer a nível comercial e de
investimento.
Com as suas políticas hostis à Rússia, à China e até à Alemanha, não acabarão os Estados
Unidos por levá-las a uma aproximação no coração da Eurásia? É uma hipótese a ter em
conta.
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Sessao
de abertura | Palestra de Abertura - Dr. Jaime Nogueira Pinto
Uma Estranha Troika
No dia 21 de Maio do corrente ano de 2014 a China e a Rússia assinaram, em Xangai,
um contrato a trinta anos para o fornecimento de gás natural russo a Pequim. O contrato
começará em 2018 e a China vai financiar as infra-estruturas necessárias – entre elas um
gasoduto de 4.000 Km – com um empréstimo de 50 biliões de dólares. As negociações
arrastavam-se há dez anos e a aceitação por Putin indicia que, subjacente ao tratado
comercial, houve uma componente geopolítica importante. O acordo deu-se em plena crise
de confrontação russo-ocidental por causa da Ucrânia.
Não podem ficar dúvidas de que uma das razões principais do Acordo Sino-Russo tem que
ver com uma política de poderes emergentes que se sentiram objecto da contenção directa
ou indirecta dos norte-americanos. Reagiram também ao discurso político ocidental sobre
a democracia e os direitos e liberdades que podem perturbar a sua estabilidade interna e
que, com razão ou sem ela, vêem como uma ameaça.
Putin não podia deixar de reagir ao papel do Ocidente – e sobretudo de Washington – no
derrube do pró-russo Yakubovich em Kiev. Para o Kremlin, tratou-se de uma intromissão no
seu espaço vital próximo.
A resposta foi a anexação da Crimeia, onde Nicolau I se batera contra os turcos e os anglofranceses. Daí também o apoio de Putin aos elementos russófilos da Ucrânia Oriental. Um
jogo perigoso, incluindo chantagem energética, num quadro em que o presidente russo
não pode perder a face.
A ignorância das características histórico-culturais da nova Rússia e a pouca atenção a
fenómenos de convergência patriótica foi causadora de erros europeus e americanos na
aproximação a Moscovo. Não se pode nem se deve – por incompetência diplomática, rigidez
ideológica ou simples arrogância – cortar as saídas honrosas e airosas a Putin, atirando-o
para decisões radicais.
No último século, alterou-se a balança dos poderes mundiais. Dantes, os cinco grandes
eram europeus: agora são os Estados Unidos, a Europa, a China, a Rússia e a Índia.
Embora os Estados Unidos e a União Europeia se mantenham em número 1 e 2 na Economia
mundial, têm contra eles a lógica dos grandes números e as taxas de crescimento.
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SESSAO DE ABERTURA
A NOVA DESORDEM MUNDIAL
Tentarei agora sumarizar algumas características essenciais neste novo mundo:
1- Passámos de um tempo, o da Guerra Fria, em que as grandes coordenadas da
vida política e económica eram relativamente estáveis, para um tempo de grande
indeterminação e volatilidade.
Desde as categorias políticas (como as fronteiras ou as alianças interestatais e
os regimes constitucionais) até aos principais factores financeiros e económicos
(câmbios, preços da energia, das matérias primas, da comida), todas estas variáveis
passaram a ser muito mais instáveis e indeterminadas, por força da globalização
económica e financeira. Estamos a ver isso neste final de ano, com a baixa dramática
dos preços do crude. Apesar das explicações conspiratórias, a realidade é que, mais
que arranjos políticos entre os americanos e sauditas contra os russos ou de uma
ofensiva dos sauditas para tornar ruinoso o shale-gas norte-americano, é o mercado,
com toda a sua “destruição criativa” – ou simplesmente destrutiva –, que está na base
desta derrocada dos preços, que tem implicações profundas na geoeconomia e na
geopolítica mundiais.
2- As ideologias políticas hoje dominantes – nacionalismo e democracia – podem
assumir uma forte carga desestabilizadora dos Estados e dos regimes políticos, como
temos vindo a ver nos Balcãs, no Magrebe, na África Subsaariana e na Europa Oriental.
E podem mesmo, como na Escócia e na Catalunha, desencadear tensões separatistas,
por ora sob controlo, mas que vão continuar.
3- Em vez das grandes coligações de Estados da Guerra Fria, unidos por ideologias,
interesses e riscos comuns e permanentes, há hoje tendência para a particularização
e fragmentação, resultantes de uma geometria variável de políticas e acordos
bilaterais. Isto porque os interesses nacionais concretos e imediatos levam à quebra
ou transformação constante de alianças e de solidariedades estabelecidas. Esta
geometria variável tem resultados surpreendentes: face ao Estado Islâmico, a
Arábia Saudita aproximou-se do Irão xiita, enquanto, pouco tempo antes, perante o
crescimento do poder do Irão, se tinha secretamente aproximado de Israel.
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Sessao
de abertura | Palestra de Abertura - Dr. Jaime Nogueira Pinto
4-Também não se verificam entre os novos poderes emergentes algumas das
constantes da História político-social ocidental, pelo que se torna perigoso generalizar
com base nessa tradição. Assim, a emergência de uma classe média na China e na
Rússia pode não levar a uma democratização ou liberalização dos sistemas políticos.
Vê-se aí, como nas experiências europeias do século XIX e do nacionalismo autoritário
no século XX, o convívio entre a economia de mercado e o monopólio políticopartidário.
5- As tendências gerais da demografia indicam que, nos próximos 15 anos, a população
mundial, hoje de 7.100 milhões de pessoas, passará para 8.300 milhões. Neste
acentuado crescimento, há que registar algumas especificidades e discrepâncias:
● Elevado envelhecimento no mundo euro-americano e no Extremo Oriente (Japão),
com consequências económicas e políticas muito significativas, em termos de
desenvolvimento e projecção do poder nacional.
● Diminuição dos “países jovens”, isto é, daqueles em que a idade média da população
é de 25 anos ou menor. Estes países, que hoje são 80, não passarão de 50 em 2030.
● Continuação das migrações mas, ao contrário das grandes vagas do século XIX e
princípios do séc.XX, da Europa para as Américas, os novos fluxos migratórios serão
de proximidade ou até dentro das fronteiras dos Estados. Serão sobretudo ditadas
por alterações climatéricas e pela urbanização acelerada e estarão também ligadas a
trocas de especialistas e profissionais. Entretanto, outras migrações, semelhantes às
que recebem países europeus como a França e a Suécia, podem atingir a identidade
dos países-anfitriões, pela diferença cultural e pela elevada proporção dos imigrantes
em relação à população indígena, desencadeando movimentos defensivos de
características políticas etnocêntricas, geradores de conflitualidade.
● Uma palavra especial para África, que é demográfica mas que também é histórica.
Entre o século VIII e o século XX, cerca de 17 milhões de africanos da costa oriental
foram vítimas do tráfico de escravos do Oceano Índico. Entre o século XV e o século
XIX, 11 milhões foram vítimas do tráfico atlântico. Uns e outros foram, contra sua
vontade, levados para outras paragens. Talvez por isso a população de África se tenha
mantido praticamente inalterável, enquanto as populações da Europa e da China
se multiplicaram. Já não é nem será assim: a população africana cresceu sete vezes
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SESSAO DE ABERTURA
durante o século XX e pode crescer cinco vezes durante o século XXI, sendo a África
Subsaariana a região que apresenta as maiores taxas de crescimento demográfico do
mundo.
Com uma população de 180 milhões de pessoas em 1950, a África Subsaariana passou
para 639 milhões em 2000 e para 831 milhões em 2010. Prevê-se que até 2100 vá, no
mínimo, quadruplicar.
Esta população está também a urbanizar-se a um ritmo excecional. Em 1950, não existia
em África uma única cidade com um milhão de habitantes, hoje há cerca de 40, das quais
algumas, como Lagos e Kinshasa, são verdadeiros formigueiros.
Os grandes problemas dos países de África têm que ver com a sua recente, e por isso
ainda incerta, estatalidade; isto é, com a criação de Estados soberanos e a construção
de identidades nacionais a partir de antigos espaços ou territórios coloniais, agregados
muitas vezes com base em considerações oportunistas ou através de acertos de fronteiras,
decididos nas chancelarias europeias.
Neste ponto, a África Austral – e especialmente os lusófonos Angola e Moçambique
– singularizam-se por uma história política diferente, mais semelhante à das nações da
Europa e das Américas: guerras de independência e conflitos internos que decidiram o
poder, em vez de independências outorgadas ou concedidas, que deixaram que divisões
tribais e religiosas tomassem o lugar dos interesses nacionais.
E PORTUGAL?
A nossa modesta dimensão demográfica e económica actual torna-nos pequenos perante
os grandes poderes, forças e tendências que regem e movem o mundo. Mas o facto de
sermos um dos raros Estados nacionais em que as fronteiras políticas do Estado coincidem
com as fronteiras histórico-culturais da Nação também conta, sobretudo num tempo em
que a conflitualidade resulta de factores fracturantes, religiosos, étnicos ou até “regionais”,
muito mais que das diferenças de renda ou da luta de classes.
Mais do que o tamanho, o nosso problema tem a ver com a falta de futuro ditada pela
nossa visão e percepção da História. Esse mau relacionamento com a própria História vem
de duas conclusões erradas a partir de uma premissa certa.
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Sessao
de abertura | Palestra de Abertura - Dr. Jaime Nogueira Pinto
A premissa certa é a de que somos uma nação muito antiga, que demonstrou na História
e nos seus perigos, sob diversos regimes, políticas e circunstâncias internacionais, uma
grande capacidade de viver, sobreviver e guardar a independência entre vicissitudes
extremas e rupturas políticas e territoriais. Fomos os pioneiros europeus na navegação
e na descoberta de grande parte das terras do globo. Com uma população pequena, sem
grandes recursos agrícolas, aproveitámos então algumas vantagens políticas – a unidade
e centralização do poder conseguidas numa Europa cujos Estados estavam ainda nas
guerras civis e dinásticas – para tomar a dianteira numa internacionalização ditada por
razões ideológicas, políticas e de sobrevivência económica.
O Infante D. Henrique teve então – apoiado pela Coroa – a faculdade de reunir os recursos
humanos e técnicos, os capitais e os capitães necessários para a navegação, conquista
e comércio da Expansão. E o país foi capaz de manter uma presença e influência em
pontos estratégicos nos séculos XVI e XVII, do Brasil colonial às fortalezas e feitorias, que
garantiam o monopólio do comércio do Índico e as rotas marítimas da costa de África e do
Atlântico.
Mas de toda esta História tirámos conclusões erradas, geralmente por razões ideológicas:
À direita, exaltou-se e exalta-se miticamente a “gloriosa empresa”, como se fosse apenas
uma obra de fé e espada cristãs, sem interesses materiais e racionalidade estratégica.
Relegando a História portuguesa para uma impossível e inatingível grandeza, fica-se
prisioneiro do passado e recusa-se o presente. Vive-se por procuração em sonhos de
grandes feitos.
À esquerda, pelo contrário, quis-se e quer-se ver na História portuguesa um imperialismo
beato e explorador, uma decadência motivada pela influência da Igreja católica e da
fé católica no poder político, que nos retirou do número das nações progressistas e
industriosas.
Sem polémica – que é interessante mas para a qual não há aqui tempo nem espaço – acho
que falta perceber que a nossa grandeza e a sobrevivência nacional dependeram sempre
da convergência do Estado com a Nação, das elites com o povo, do sonho de pensar um
projecto com a razão fria, realista e prática de o executar; uma convergência ditada pelo
imperativo do bem comum inteligentemente identificado, sem utopias futuristas nem
mitos passadistas.
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~
SESSAO DE ABERTURA
Se formos capazes de refazer esse espírito e de lhe seguir os caminhos; se, apesar das
desgraças e degradações públicas e privadas que se têm abatido sobre o país nestes
últimos tempos e particularmente no ano que agora termina, soubermos adaptar as
grandes qualidades da nação e do povo – de coragem, de imaginação, de austeridade, de
paciência, de resistência, de plasticidade, de respeito e percepção do outro e até de um
certo sentido de humor na grande provação –, talvez possamos encarar com confiança,
esperança e até optimismo o mundo dos outros, onde sempre estivemos bem e onde
sempre soubemos encontrar uma razão de existir nacional e universal – isto é, própria e
comum – de existir. Sozinhos ou acompanhados.
Moderador - Dr. Paulo Nunes de Almeida
Queria agradecer ao Sr. Dr. Jaime Nogueira Pinto a brilhante intervenção que nos trouxe,
a abordagem global que fez, deste mundo que nós hoje vamos aqui discutir e também
os alertas e as causas, muitas das vezes, do insucesso da nossa perfeita integração no
mundo que nos rodeia. Acho que foi um excelente aperitivo para os oradores que se vão
seguir, como disse, temos de ser muito rigorosos com a gestão do tempo e por isso eu
agradeço aos meus colegas de mesa nesta sessão de inauguração e em particular ao Dr.
Jaime Nogueira Pinto por ter estado connosco e ter correspondido ao convite que lhe foi
feito pelo Sr. Prof. Valente de Oliveira em nome das duas Fundações e convidaria, desde já,
o Sr. Professor para moderar a primeira de sessão sobre as ligações de Portugal ao exterior
e os seus convidados para nos falarem sobre essas mesmas ligações que Portugal tem por
esse mundo fora. Muito obrigado.
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COMUNICACOES
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PRIMEIRA SESSÃO
AS LIGAÇÕES DE PORTUGAL AO EXTERIOR
Moderador:
Prof. Luís Valente de Oliveira
“Os transportes marítimos”
Dr. Luís Marques - Rangel Invest SA
“As ligações ferroviárias”
Eng.º Miguel Lisboa - TAKARGO – Transporte de Mercadorias SA
“As ligações intermodais”
Dr. Ricardo Afonso - Transdev Portugal
“As ligações aéreas”
Dr. Fernando Vieira - ANA - Aeroporto do Porto
“As tecnologias de informação e comunicação”
Eng.º Carlos Alves Duarte - PT Portugal Telecom
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PRIMEIRA SESSAO
AS LIGAÇÕES DE PORTUGAL AO EXTERIOR
Moderador: Prof. Luís Valente de Oliveira
A Comissão Europeia definiu uma rede transeuropeia de transportes a que dá prioridade.
Teve a coragem de definir os centros principais e os centros menos importantes, mas que
ainda o são suficientemente para merecerem atenção, e estabeleceu pela primeira vez
uma rede de nove corredores que atravessam a Europa, de lés a lés. Portugal, na sequência
daquilo que é chamada a parceria com a Comunidade Europeia, a parceria 2020, aquilo que
já foi chamado o quadro comunitário de apoio, ou o QREN, dá um enorme relevo à parte
dos transportes.
Dá também relevo à parte da educação e formação, mas a parte das ligações com o mundo
e com a Europa são muito importantes. Daí, quando nós tratamos da posição de Portugal
no mundo, quer como local de investimento, quer como local de exportação, temos de
olhar naturalmente para os transportes e para essas ligações. Nós não somos uma ilha
mas temos que ter comportamentos de ilha ou perspectivas de ilha para nos ligarmos a
todo o resto do mundo. E por isso a importância de todos os meios de transporte incluindo
o marítimo e a preocupação de dar à logística um papel muito especial. E a preocupação
de articular todos os modos de transporte, aproveitando as vantagens e as vocações de
cada um desses modos de transporte. Nós hoje vamos fazer uma revisão do que são essas
ligações: os marítimos, os aéreos, as ligações ferroviárias, as ligações intermodais, porque
a logística vive do aproveitamento da vocação de cada transporte para o trajecto, para a
carga, para o tipo de carga, para a urgência dessa carga, para o valor dessa carga e, por
isso, tudo tem que ser pensado. A logística está em crescendo, a logística é uma área
indispensável e é uma área de futuro. É evidente que nas telecomunicações também não
pode haver falhas e por isso também as tratamos. É isso que vamos fazer hoje.
O primeiro dos sectores vai ser o dos transportes marítimos. Nós conhecemos todos, em
Portugal e no Porto, em especial, a firma Rangel. Há muitos anos que ela faz bons serviços
neste domínio. Temos, para nos falar dos transportes marítimos, o Dr. Luís Marques que é o
administrador da Rangel Invest SA. Ele é professor, é doutorado em ciências empresariais,
pela Faculdade de Economia do Porto e é professor auxiliar convidado da Universidade
Católica do Porto.
Anteriormente esteve ligado aos Portos de Aveiro e da Figueira da Foz. É neste momento
membro da comissão da ESPO (European Sea Port Organization) e é vogal da Associação
de Promoção do Transporte Marítimo de Curta Distância, a que nós temos de dar muita
importância. É preciso lembrarmo-nos de que, dentro da Europa, em relação ao transporte
marítimo, ele é responsável por 40 % das ligações e com o exterior mais de 75 ou 80 %. De
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Primeira Sessao
- As ligacoes
de Portugal ao exterior | Prof. Luís Valente de Oliveira
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maneira que os transportes marítimos são um transporte do futuro em muitos aspectos.
Temos que lhe dar a maior atenção e é por ele que começamos a nossa análise.
Sr. Dr., fará o favor.
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PRIMEIRA SESSAO
“Os transportes marítimos”
Rangel Invest SA
Dr. Luís Marques
Ora, muito bom dia a todos e muito obrigado. Muito obrigado, Sr. Professor Valente de Oliveira
pelo amável convite para hoje partilharmos um pouco daquilo que é a nossa perspectiva e
experiência nos transportes marítimos. Para esta apresentação, propunha-vos seguir uma
agenda que começa com o primeiro ponto, necessariamente de diagnóstico, usando as
palavras do Sr. Professor, revisão. Revisão daquilo que é o contributo, o papel do transporte
marítimo na economia internacional, para depois irmos afunilando geograficamente pela
economia europeia até à economia portuguesa. Chegados aqui, faríamos um balanço
daquilo que é a estratégia recentemente anunciada para os transportes marítimos, muito
focada naquilo que é o contributo dos portos em Portugal, e depois passamos para um
nível de detalhe com a análise de três casos que chamaria de análise de um ponto forte e
de boas oportunidades. Finalizávamos com as conclusões.
O transporte marítimo, essencialmente desde o início da década noventa do século
passado, tem vindo a apresentar um crescimento, muito relacionado com aquilo que
é o crescimento do comércio internacional. Este crescimento do transporte marítimo
em termos quantitativos, encontra expressão num factor que multiplica por 3,6 aquilo
que é o crescimento económico mundial. Mesmo ao nível das projecções para o futuro,
estas projecções variam entre a manutenção deste factor multiplicativo 3,6 até aquilo
que é uma revisão mais recente e em baixa, ainda não consensualizada, sobretudo para
o tráfego contentorizado, deste factor multiplicativo para 1.5. Apesar de tudo, registase a continuidade do crescimento. Regista-se a continuidade, também, do contributo
para a competitividade das economias daquilo que é o transporte marítimo. Num estudo
recente, defendia-se mesmo que a contentorização é um dos drivers da globalização,
portanto o transporte marítimo aqui como um factor muito relevante da globalização
e em particular da competitividade das economias. A Europa não é excepção, pela sua
abertura ao comércio internacional, não é a excepção àquilo que é o importante papel do
transporte marítimo. Vemos nesta figura apenas os 8 pontos que têm maior expressão
naquilo que são os tráfegos para a Europa, a diversificação desses tráfegos acompanham
necessariamente no comércio internacional e vemos a estatística dos 90 % de peso do
comércio externo naquilo que é este modo de transporte. Finalmente, Portugal e aqui, se
olharmos para a estatística de movimentação de carga nos portos nacionais, acompanha
de um certo modo, embora num intervalo mais baixo, aquilo que é o crescimento do
transporte marítimo, sendo relevante para o efeito, o recente salto que terá continuidade,
estimamos, em 2014, o recente salto naquilo que é o volume total de cargas que passam
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Primeira Sessao
- Os transportes maritimos
| Dr. Luís Marques
pelos portos, obviamente não é de afastar o comportamento das exportações nacionais.
Ora, se é este o contexto que temos para o transporte marítimo em termos mundiais, um
histórico de crescimento, uma estimativa futura de continuidade desse crescimento se
tivermos em consideração o importante contributo que o transporte marítimo dá para a
competitividade das economias, qual é a estratégia de Portugal para o transporte marítimo?
Muito recentemente, no ano passado, um conjunto de stakeholders convidados pelo
governo decidiu juntar-se e reflectir sobre estas temáticas naquilo que ficou conhecido
como um plano estratégico dos transportes e infra-estruturas. Um dos capítulos de
estudo, de diagnóstico e apresentação de soluções, foi precisamente este dos transportes
marítimos. Esse conjunto de stakeholders começou um trabalho não olhando para uma
folha em branco mas olhando para aquilo que o Sr. Prof. Valente de Oliveira referiu na sua
introdução, isto é, aquilo que é o mapa das redes transeuropeias de transportes. Esta é
uma alteração de paradigma ao nível de planeamento das redes de transportes na Europa,
alteração cuja principal característica é a integração dos vários modos de transporte em
corredores europeus. Relevante para o ordenamento, relevante para aquilo que é a política
de transportes na Europa, muito relevante obviamente para um país como Portugal, que
nós vemos integrado nas redes transeuropeias e no que concerne ao transporte marítimo,
aqui integrado em duas das redes. Estas redes transeuropeias dividem-se nas redes, na
rede core e na rede comprehensive. Na rede core, temos os portos de Leixões, Lisboa e
Sines e na rede comprehensive temos, entre outros, os portos de Aveiro e de Setúbal.
Muito relevante, não só fazemos parte desta rede de transportes, muito relevante se
entendemos ao estado das finanças públicas, porque no Horizonte 2020 o financiamento
comunitário será canalizado principalmente para as infra-estruturas que tiverem inseridas
nestas redes, com uma prioridade para as infra-estruturas que estiverem inseridas na rede
core. Foi com base neste mapa e nesta vontade estratégica da Comissão Europeia que
se desenhou o plano estratégico dos transportes e das infra-estruturas e nesse plano
identificaram-se um conjunto de constrangimentos e apresentaram-se algumas soluções.
Os constrangimentos, não os vamos visitar a todos, diríamos apenas que eles estão
alinhados com aquilo que é, ou o que são, os atributos de valor na decisão dos clientes mais
directos, dos portos e aqueles que são os armadores, proprietários ou operadores de navios
de transporte marítimo, isso é identificamos como constrangimento ao desenvolvimento
do transporte marítimo em Portugal, as condições de acessibilidade marítima e a recepção
de navios e as limitações à capacidade.
Apresentam-se um conjunto de soluções de melhoria da operação e realçada a vontade
política de integrarmos todos os portos nacionais naquilo que é a rede transeuropeia de
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PRIMEIRA SESSAO
transportes. Continuamos a fazer parte de um maior número de soluções possível. Dentro
desta rede, é fundamental para nos colocarmos naquilo que são as cadeias logísticas
europeias mas também mundiais, é fundamental para acompanharmos aquilo que é a
estimativa de crescimento do transporte marítimo e acompanhamos com investimento
em infra-estruturas necessárias face aos constrangimentos que estão apontados, e uma
solução também de base tecnológica naquilo que é um Case study, aquilo que o Sr. Prof.
vai ouvindo pela sua passagem por Bruxelas, que é um Case study de sucesso dos portos e
transportes marítimos em Portugal que é a janela única portuária. Tem vindo a ser, muitas
vezes dado como exemplo pela Comissão Europeia esta solução tecnológica que procura,
não só tornar mais eficiente aquilo que é o processo documental do transporte marítimo,
mas procura congregar capacidade e oportunidades de coordenação num conjunto vasto
de actores nestas redes logísticas. Ora, estas soluções deram origem a um conjunto de
projectos, dos quais, perante estes cenários de crescimento de transportes marítimos,
realçaria a construção de novos terminais. E naquilo que concerne à contentorização, ao
transporte marítimo com base em contentores, realçava a construção de novos terminais
em Leixões, a construção também de um novo terminal que tem vindo a ser explorado
quanto à sua localização, em Lisboa e a ampliação do terminal 21 em Sines. E é sobre este
terminal 21 em Sines que passaria para análise do primeiro caso, chamando-lhe um ponto
forte e que iria procurar demonstrar o porquê desta designação, que é precisamente o
caso de Sines. E o caso de Sines, este mapa é de 2008, o caso de Sines começa desde
logo pelo seu posicionamento geográfico, não é só Sines, é toda a fachada atlântica de
Portugal, mas em particular e se segmentarmos o transporte marítimo de contentores,
naquilo que é o tráfego intercontinental, que dá origem a operações portuárias como o
transhipment, o tráfego entre diferentes continentes, aquele que é o seu posicionamento
geográfico, passo a redundância num posicionamento privilegiado nas principais rotas
de transhipment que vemos no mapa. Sines tem evoluído não só num posicionamento
geográfico mas para uma efectividade geográfica. Isto porquê? Porque ao longo de vários
anos um planeamento coerente dentro daquilo que eram e foram as políticas públicas
e aquilo que foi a iniciativa e a parceria privada, possibilitaram que Sines, hoje seja
efectivamente uma porta de ligação de Portugal ao exterior. Sines é hoje, fruto de uma
aliança estratégica entre aquele que é o maior operador mundial de contentores, a PSA,
e aquele que é o segundo maior armador mundial nestas tipologias de tráfego, a MSC,
coloca Portugal em rotas que passam por Sines, fazem operação portuária em Sines e
coloca Portugal nestas rotas de ligação a todos os continentes. É importante um caso que
chamamos de ponto forte porque se á muitos anos atrás falaríamos neste tipo de eventos,
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Primeira Sessao
- Os transportes maritimos
| Dr. Luís Marques
que Sines veria passar os navios ao largo, neste momento os navios já não passam ao
largo, já tocam neste porto, possibilitando uma distribuição geográfica intercontinental já
equilibrada e possibilitando e agora olhando para o futuro que Sines seja um dos poucos
portos que está capacitado para receber os navios que já não são os navios do futuro, já são
navios que entraram nas cadeias logísticas de transporte marítimo intercontinental, este
navio que vemos no fundo da imagem, é um navio do determinado tipo post-panamax, é
um navio que pelas suas dimensões tem vindo a ser procurado como investimento pelos
grandes armadores mundiais, ele captura as economias de escala que são necessárias
para atingir as rentabilidades pretendidas, destes armadores. É um navio que está a ser
introduzido actualmente nos tráfegos intercontinentais. Aquilo que sabemos hoje é que
muito possivelmente não ficaremos por esta tipologia de navios, hoje muito recentemente
uma prestigiada consultora desta área dos transportes marítimos, anunciou a viabilidade
técnica e económica de navios de 24000 TEUs; é a unidade de medida dos contentores o
que quer dizer que portos como Sines que estão no segmento do tráfego intercontinental
têm que se adaptar e preparar as suas sensibilidades marítimas e as suas infra-estruturas
para esta tipologia de navios.
Aqui, a boa notícia para a competitividade da nossa economia é que muito provavelmente
nós teremos acesso a esses navios precisamente devido às características infra-estruturais
e às características de fundos naturais que temos em Sines. Ora, se este é o segmento
do transhipment, tráfego intercontinental o Sr. Prof. Valente de Oliveira falava e bem,
na sua introdução que o transporte marítimo não se limita ao tráfego intercontinental.
Existe também um segmento do transporte marítimo de curta distância muito relevante
diria naquilo que é a nossa proximidade geográfica entre a Europa e norte de África. Ora,
nesse e este é o segundo caso que apresentaríamos hoje, nesse transporte marítimo de
curta distância que nós chamamos oportunidade, o que registamos, é como oportunidade,
é o potencial de crescimento de Portugal face àquilo que são os países que utilizam o
shortsea shipping, transporte marítimo de curta distância e reparem, a distância que vai
de Portugal aos países que mais utilizam esta tipologia de transporte já não se compara
apenas com aquilo que é a tradição da Europa central e da Europa nórdica se olharmos
para a utilização deste modo de transporte por Espanha e Itália, vemos que efectivamente
temos aqui um potencial de crescimento muito relevante. O que falta para capturarmos
este potencial de crescimento? Conhecimento não, não me parece que seja conhecimento.
Nós conhecemos os atributos de valor que podem ser capturados para conseguirmos com
sucesso chegarmos a uma competitividade do transporte marítimo de curta distância. Falta
de apoio de políticas públicas? Não. Temos conhecimento das auto estradas marítimas o
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PRIMEIRA SESSAO
problema Marco Pólo talvez não muito bem sucedido. Existe neste novo quadro para 2020
uma continuidade dessas políticas públicas de apoio já não numa lógica de Marco Pólo mas
numa lógica integrada transeuropeia de transportes.
Ora, se nós conhecemos os atributos de valor que nos levariam a ter sucesso e
efectivamente a conseguirmos conquistar este potencial de transporte marítimo de curta
distância porque é que continuamos a viver num paradoxo em que temos casos de sucesso
como nos países que apresentamos e casos de insucesso; ainda recentemente ouvíamos
mais uma notícia em que a linha de Riga para Nantes vai fechar e surpreendemos todos
quando sabíamos que o…. dessa linha era 70% de utilização da sua capacidade e a linha
estava com 75% de utilização. É claro que no mesmo dia, os nossos colegas do porto
de Vigo anunciaram logo que iam tentar mudar essa linha para o porto, para o porto de
Vigo; portanto continua aqui a existir uma procura forte. O que é que devemos continuar
a fazer? Devemos continuar a fazer a procura dos casos que têm todos estes atributos
de valor. Claramente aqui a lógica tem sido colocada muitas vezes na opção entre o
transporte rodoviário ou o transporte marítimo e claramente nós temos bem perto de nós
casos que têm, conseguido efectivamente ter sucesso. Veja-se por esta fotografia aqui
bem perto de nós, no porto de Leixões uma companhia que recentemente anunciou o seu
segundo serviço semanal, até um serviço bissemanal; num transporte marítimo que apesar
ainda de uma zona de conforto toca ao porto de Rotterdam e portanto têm contacto com
aquilo que é o potencial mais forte daquilo que é o transporte marítimo de curta distância;
mas apesar de tudo uma tipologia de navio adequada a este transporte, uma tipologia
de operação portuária adequada a este transporte e uma parceria com a administração
portuária que tem todas as condições para ter sucesso.
Pensamos nós que muito existe ainda para fazer para que este transporte marítimo de
curta distância consiga ter o sucesso que ambicionamos mas apesar de tudo vamos tendo
a perspectiva de casos, como este caso do porto de Leixões. Uma, e um último caso e muito
breve numa perspectiva diferente daquilo que pode ser a inter modalidade ligada com o
transporte marítimo de curta distância. Normalmente olhamos para a inter modalidade
como a conjugação e a gestão de um conjunto diferente de modos de transporte para
oferecer a solução mais eficiente possível ao cliente. Olharíamos para esta inter modalidade
de uma forma diferente e apenas sobre a dimensão comercial e aqui dar conta um pouco
da experiência da Rangel, não só da Rangel, de outros operadores logísticos obviamente
que quando assumimos a função de consultor do cliente e pomos à disponibilidade do
cliente modos alternativos de transporte aquilo que temos vindo a verificar nos últimos
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Primeira Sessao
- Os transportes maritimos
| Dr. Luís Marques
tempos é que muitas vezes o cliente face ao binómio tempo preço e na sua opção entre o
transporte rodoviário para o transporte marítimo vai, alguns clientes vão ajustando a sua
própria cadeia de produção e a sua própria cadeia de logística embora com mais tempo
mas usufruindo de condições económicas mais vantajosas no transporte marítimo. É esta
a inter modalidade talvez que falte para termos uma maior agressividade comercial de
promoção do transporte marítimo de curta distância junto dos principais utilizadores e
é esta também uma oportunidade com certeza que podemos debater mais à frente. Em
jeito de conclusões, uma oportunidade naquilo que é o segmento do tráfego marítimo
intercontinental pela nova centralidade de Sines uma possibilidade que os agentes
económicos em Portugal devem explorar a sua ligação a destinos mais longínquos, a sua
ligação em menores períodos de tempo e usufruindo claramente de preços mais vantajosos
com grande oportunidade para o tráfego marítimo intercontinental. Uma oportunidade e
um desafio para o transporte marítimo de curta distância que pode efectivamente ter
aqui um contributo relevante quando adoptamos uma postura mais comercial da inter
modalidade. Muito obrigado.
Moderador - Prof. Luís Valente de Oliveira
Para nos falar sobre o caminho-de-ferro e sobre as ligações ferroviárias, vamos ter o Sr. Dr.
Miguel Lisboa. Tem o mestrado em logística, MBA em logística e tem uma pós-graduação
em gestão empresarial. Tendo sido de base engenheiro mecânico, no ramo de produção
e construções mecânicas pelo Instituto Superior Técnico. Trabalha na TAKARGO –
transportes de mercadorias, mas já esteve, e isso é interessante porque trabalha hoje num
transportador, ligado a outros aspetos da indústria ferroviária. Trabalhou na Bombardier,
trabalhou na Adetrans e trabalhou na Sorefame. Lembram-se bem na importância que
teve a Sorefame entre nós como empresa de excelência? De maneira que temos hoje um
quadro que teve esta acumulação, este percurso e que nos vai falar seguramente com
muita propriedade sobre o transporte ferroviário.
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PRIMEIRA SESSAO
“As ligações ferroviárias”
TAKARGO – Transporte de Mercadorias SA
Eng.º Miguel Lisboa
Antes de mais um agradecimento à Fundação AEP e à Fundação de Serralves pelo convite.
Gostava, antes de mais, de fazer uma breve nota sobre a Takargo. A Takargo constituiuse como empresa ferroviária em Dezembro de 2006, já lá vão alguns anos. Essa posição
como empresa ferroviária integra-se na estratégia de diversificação do grupo Mota Engil
na parte da logística. A Takargo em 2008 constituiu-se como operador ferroviário, porque
há uma diferença entre ser uma empresa ferroviária e ser um operador ferroviária. Para
ser operador ferroviário é preciso ter um conjunto de procedimentos e certificações e nós
desde 2009/2010 que temos garantido um conjunto de operações a nível nacional e a
nível ibérico. Tendo-nos constituído como operador ferroviário em Espanha também em
2012.
A minha apresentação vai ser, acima de tudo, focada naquilo que é a minha experiência
e a experiência da Takargo, que é uma perspetiva pessoal também e é no âmbito do
transporte de mercadorias. Uma primeira nota sobre aquilo que é a rede ferroviária
portuguesa. A rede tem cerca de 2800 quilómetros, apenas 58% é eletrificada, portanto
há uma parte substancial que não é eletrificada e cerca de 40% não tem sistemas de
controlo de velocidade, nem rádio solo. Esta rede, na realidade, não é mais do que um eixo
norte-sul, chamar-lhe rede até é boa vontade. Na realidade temos um eixo norte-sul que
liga o Algarve ao Minho e depois temos três braços que nos ligam a Espanha. O Douro já
não liga a Espanha, mas temos a linha do Douro, a linha da Beira Alta e a linha de Leste.
Esta rede tem estas três ligações a Espanha, através de Elvas, Vilar Formoso e Valença e
tem ligações aos principais Portos Portugueses. Algumas ligações francamente boas e
desenvolvidas, como o Porto de Sines, o Porto de Aveiro; outras ligações muito limitadas,
como a ligação ferroviária ao Porto de Lisboa que tem muitas restrições. Do ponto de vista
de mercado, de mercadorias em Portugal, para termos uma ideia movimentaram-se por
ferrovia no ano 2012, cerca de 9,7 milhões de toneladas e repartidos por estas meia dúzia
de tipos de mercadorias. Contentores na sua maioria - 23% de tonelagem por contentores,
o cimento, o carvão, a areia e a madeira e os siderúrgicos. Estes 6 primeiros tipos de
mercadoria representam cerca de 85% de todo o volume transportado. Há 2 operadores
em Portugal: a CP Carga é o operador público e a Takargo – operador privado do grupo Mota
Engil. Há uma distribuição de cerca de 91% para a CP Carga e 9% para a Takargo. De referir
que dados já deste ano, cerca de 75% da atividade da Takargo é internacional, portanto
cruza as fronteiras portuguesas. E aquilo que temos aqui de uma forma esquemática, é
aquilo que representa o mercado nacional e aquilo que representa o mercado internacional
e as ligações ao exterior, na perspetiva ferroviária. A nível de fluxos nacionais, que não
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Primeira Sessao
- As ligacoes
ferroviarias
| Eng.º Miguel Lisboa
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saem a fronteira, temos cerca de 8,6 milhões de toneladas/ano; isto são dados de 2012.
Fluxos Portugal-Espanha, somatório importação-exportação, pouco mais de 1 milhão.
Finalmente, fluxos que tenham cruzado os Pireneus – 40 mil toneladas. Estamos a falar de
3,7% dos fluxos internacionais ferroviários e estamos a falar de cerca de 0,4% de todas
as toneladas transportadas a nível nacional. Parece-me que realmente há margem de
crescimento naquilo que possam ser as toneladas transportadas além Pireneus. Quando
vemos que movimentamos em Portugal praticamente 10 milhões de toneladas, apenas
40 mil cruzam os Pireneus. Este é um tema polémico e há muitas perspetivas e muitas
ideias sobre o tema. Este boneco acho que é interessante na perspetiva em que podemos
ver que nos somos quase ilha na realidade, mas estamos rodeados de mar por todo o
lado e estamos rodeados de Portos por todo o lado. Isso não é mau. Isso não é mau para
o comércio internacional. É bom estarmos rodeados de Portos por todos os lados para
o comércio internacional, porque o transporte marítimo é aquele que é mais eficiente e
eficaz a longa distância, portanto isso é bom para o comércio internacional. A ferrovia
não consegue competir com o transporte marítimo quando temos na origem um Porto,
portanto as origens portuguesas têm todas um Porto ao lado. Nós somos uma faixa litoral,
desde norte ao sul com Portos Atlânticos e as nossas exportações para a Europa, aquilo
que seja o Norte da Europa está rodeada de Portos, aquilo que seja o Sul da Europa está
rodeada de Portos, resta-nos para a ferrovia a Europa Central; é onde a ferrovia pode ter
alguma competitividade. Isto são dados do INE de 2012, se nós pensarmos que a ferrovia
pode ir buscar cargas ao transporte rodoviário, muito dificilmente, apesar de acontecer
também, mas muito dificilmente vai haver transferência do modo marítimo para o modo
ferroviário. A transferência natural será do modo rodoviário para o modo ferroviário. Dados
de 2012 identificam que temos cerca de 4,7 milhões de toneladas pelo modo rodoviário,
um total de importação-exportação para Alemanha e França. Um cenário otimista, sendo
otimista e vamos pensar que a rodovia vai conseguir transferir 10% deste volume, destes
4,7 milhões anuais, significaria um crescimento de 12 vezes, isto é apenas um exercício
teórico, nada mais, significaria um crescimento de 12 vezes em relação aquilo que se
fez em 2012, que foram as 40 mil toneladas, seria um crescimento fantástico. Se este
crescimento fosse feito com um comboio intermodal tipo, um comboio intermodal de caixas
móveis…há um tema importante que é o seguinte, esta transferência modal é sempre feita,
à partida, com carga geral. Nós não vamos transportar graneis, não vamos transportar
nem carvão, nem areias ou inertes de Portugal para a Alemanha. Nós vamos transportar
aquilo que os camiões transportam que é carga geral contentorizada, paletizada na maior
parte dos casos. Uma solução óbvia é o comboio intermodal tipo, com caixas móveis que
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PRIMEIRA SESSAO
nas pontas, nos last miles, nos first e last miles, tem a componente rodoviária em cada
uma das pontas. Um comboio tipo que possa transportar o equivalente a 34 camiões e
que transporte 600 toneladas por comboio. Um comboio deste tipo para dar resposta aos
10% da carga que hoje vai para a ferrovia, para a Alemanha e para França, significariam
cerca de 400 comboios ano e teríamos as tais 480 mil toneladas. Há uma nota importante
que se refere à faturação Refer, isto porque? Porque a Refer, supostamente gestor de
infraestrutura, será a Refer que irá assumir qualquer investimento que venha a ser feito
no futuro para transportar este comboio, para transportar esta carga. Temos de perceber
que hoje os operadores pagam à Refer, em valores médios, cerca de 1,5€ por quilómetro,
o que significaria que num ano normal, para fazer este transporte, a Refer iria ter uma
faturação de 390 mil euros. Portanto, valia a pena analisar o retorno do investimento
para uma faturação de 390 mil euros/ano, considerando apenas este comboio. Este
crescimento de 12 vezes em relação àquilo que temos em 2012 iria representar cerca de
5% do transporte ferroviário em Portugal e iria representar 0,6% do comércio internacional
português. Dados do INE.
Não é uma conclusão precipitada, é bastante refletida resultados da experiência que tenho
vivido. Este transporte além pireneus pode ser importante para alguns casos específicos
e para algumas indústrias muito particulares, mas não é a ligação além pireneus que vai
resolver os problemas da competitividade de Portugal, nem da competitividade logística
portuguesa, se assim não é, por onde é que devemos focar? Claramente no mercado ibérico,
é aí que a ferrovia pode crescer e é aí que nos podemos tornar muito competitivos. A
Espanha é o principal parceiro comercial de Portugal, e há muita coisa para fazer na ferrovia
a nível ibérico ou esta quase tudo para fazer na ferrovia a nível ibérico, a nível ibérico
transportam cerca de 30 milhões de toneladas de ferrovia, internamente em Espanha
movimentem cerca de 16,6 milhões alem pireneus 3,3 milhões claro que alem pireneus nos
temos aqui a Catalunha e o país basco que são 2 polos económicos importantes espanhóis,
que estão ligados a fronteira francesa a grandes fluxos do pais basco e da Catalunha, se
nos virmos os tráfegos puramente ibéricos sumamos ferroviário marítimo e ferroviário nos
falamos cerca de 23 milhões de toneladas ano por ferrovia temos apenas 1,1 milhões de
toneladas o que representa cerca de 4%. A nível ibérico a ferrovia tem espaço importante
para crescer e aí sim podemos acrescentar valor à logística das principais indústrias
portuguesas. Aquilo que seria importante do ponto de vista da rede ferroviária futura seria
garantir, não vou especificar aqui muito, mas 2 ou 3 temas importantes: a questão da
bitola. Fala-se muito da bitola, da bitola europeia e da bitola 1668; nós temos de perceber
que a bitola 1668 está espalhada por toda a rede ibérica. As fábricas todas que são
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Primeira Sessao
- As ligacoes
ferroviarias
| Eng.º Miguel Lisboa
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exportadoras têm 1668. Os Portos todos têm 1668. Todos os terminais têm 1668. Se de
repente vamos por uma linha 1435, nãos e fazem comboios, porque eu não estou a ver as
grandes fábricas exportadoras irem gastar milhões em novas infraestruturas que não tem
retorno. Portanto, nós vamos continuar a ter, durante muitos anos, uma rede convencional
1668 e uma rede 1435 que possa fazer a ligação além Pireneus. Esta mais uma vez é a
minha perspetiva pessoal. Há aqui uma ligação que é absolutamente fundamental que é
a ligação direta da zona sul a Badajoz. Hoje, para terem uma noção, para podermos ligar,
vou-vos dar um número simples, por exemplo, a zona de Andaluzia – Huelva, se quiser ligar
Huelva a Setúbal ou Lisboa por rodovia fazemos cerca de 300 quilómetros; um camião de
Huelva a Setúbal são 300 quilómetros. Eu para ir de comboio de Huelva a Setúbal preciso
de 600 quilómetros, porque eu tenho de ir ao Entroncamento para depois voltar para Sul,
porque não há ligação a Sul. Portanto esta ligação que aqui temos, esta ligação direta que
não existe, hoje a ligação é por aqui por cima, esta ligação direta é muito importante na
perspetiva ferroviária. Aquilo que é importante é percebermos que a rede convencional vai
continuar a existir, os milhares de vagões, as centenas de locomotivas e todos os parques
industriais que existem na Península Ibérica são todos em rede convencional, as origens
e os destinos de toda a mercadoria é em rede convencional e portanto isso vai continuar
a existir. Aquilo que é preciso é integrar a nova rede 1435 de uma forma inteligente e
eficiente na atual rede convencional, garantindo sempre a dupla bitola. Acho que Portugal
é um país pequeno, com recursos muito limitados para termos uma rede ou uma linha
exclusiva em 1435, porque se assim for não passam lá comboios. Vamos ter uma linha sem
comboios a passar.
Em relação à ligação além Pireneus, falei há pouco do transporte intermodal; o transporte
intermodal puro em caixa móvel. É uma solução teoricamente muito interessante, do ponto
de vista prático muito complexa e muito pouco competitiva. Nós não podemos esquecer
que não se fazem mais comboios para a Alemanha ou para França não é porque não haja
infraestrutura, infraestrutura há, não há problema nenhum, não é tema, não há é preço.
A solução intermodal não concorre com o preço do camião. Não podemos esquecer que
a tendência na Europa é para termos os mega camiões, em Espanha já se fala nas 44
toneladas por camião, em Portugal, não sei se é do conhecimento, mas desde fábricas
para Portos e Portos para fábricas já se podem fazer camiões com 60 toneladas brutas,
portanto isto é tudo a favor da ferrovia. Nós temos políticas para incentivar a ferrovia e,
em simultâneo, temos políticas para incentivar a rodovia. Portanto, as duas não casam
uma com a outra. Nós hoje em Portugal podemos ligar qualquer fábrica e recentemente
foi incluído os siderúrgicos, os produtos hortícolas, alguns químicos, algumas matérias
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PRIMEIRA SESSAO
perigosas, que também já podem transportar 60 toneladas por rodovia. Isto mata o
comboio. Nalgumas soluções em que o comboio ainda é competitivo, mata o comboio. A
solução intermodal é uma solução complexa, de uma gestão logística muito custosa e esta
maior integração através do transporte do próprio trailer e, em alguns casos, do próprio
cabeça motora no comboio é uma solução que é muito mais interessante do ponto de
vista de custo, mas exige e seria uma transferência quase imediata de uma percentagem
grande de fluxo de camiões que hoje existem por Irún, e aqui poderíamos claramente fazer
isso no futuro numa rede transeuropeia, portanto com a bitola 1435, rms, por aí fora, mas
aqui há uma questão fundamental, é que num transporte intermodal a relação entre o
transportador ferroviário é direta com o exportador, com a indústria, neste caso a relação
teria de ser com o transportador rodoviário. Tínhamos de ter uma relação de cooperação
ou de coopetição, portanto é o transportador rodoviário que coopera com o transportador
ferroviário, no sentido de criarmos uma solução única. É um paradigma diferente. Tem de
haver uma relação de cooperação entre rodovia e ferrovia. Eu acredito nesta solução, acho
que esta é uma solução de futuro para aquilo que sejam as relações além Pireneus. Mais
esta relação do que o transporte intermodal em caixa móvel.
Eu gostava também de vos falar um bocadinho sobre a nossa realidade, que não é uma
realidade muito risonha, temos muitos problemas e eu creio que grande parte de vos está
um bocadinho longe da realidade que temos hoje no nosso país, deste ponto de vista
ferroviário. A linha do Minho é uma linha que liga Portugal à Galiza, há grandes trocas
comerciais entre Portugal e Galiza. A linha do Minho é uma linha que está completamente
congestionada, não passa lá mais nenhum comboio. Aqui não falamos de comboios de
500 metros, nem de 400, é impossível fazer um comboio de mercadorias com mais de 300
metros e temos cantonamento telefónico. Não é só na linha do Minho, temos também
noutras linhas. O cantonamento telefónico é os comboios como se faziam no faroeste há
150 anos, portanto não há nenhum controlo. Não temos rádio, não há rádio solo-comboio,
não há comunicação por rádio entre o gestor de infraestrutura e o comboio; não há nenhum
sistema de controlo e de segurança ativo e portanto é um sistema que não garante
segurança, é um sistema que não garante eficiência, nem eficácia. São 90 quilómetros
entre Nine, que é perto de Braga e Valença, temos a linha nesta situação, como há 100 anos
atrás. Mas é uma linha completamente congestionada e o mercado pede comboios aqui.
Atenção o mercado pede comboios aqui, mas a linha está completamente congestionada,
tanto do lado português, como do lado espanhol. A linha da Beira Alta, a principal ligação
a Espanha que temos hoje. Na linha da Beira Alta temos condições de conservação muito
más, houve um desinvestimento total na ferrovia durante a última década. Nós hoje temos,
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Primeira Sessao
- As ligacoes
ferroviarias
| Eng.º Miguel Lisboa
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para terem ideia, na principal ligação a Espanha, temos 8 restrições de velocidade a 10
quilómetros à hora. Portanto há 8 pontos na linha, que tem 150 quilómetros, que temos de
andar a 10 quilómetros à hora e as velocidades médias de circulação na linha da Beira Alta
são de 25 quilómetros à hora. Hoje quando queremos fazer comboios para Espanha, pela
principal ligação a Espanha circulamos a 25 quilómetros à hora – velocidade média. Ainda
não estamos a falar de linhas transeuropeias, isto é a nossa realidade. É a realidade. Linha
de Leste não tem circulação. Tem um ou dois comboios por dia. Para terem uma ideia, entre
Abrantes e Elvas, que são cerca de 150 quilómetros, temos também o tal cantonamento
telefónico, não existe nada, mas mais, não há uma única estação resguardada, ou seja,
entre Abrantes e Elvas, o comboio e o maquinista está entregue a si próprio. Não há
ninguém a controlar aquilo que se passa em 150 quilómetros de infraestrutura. Acho que
é questionável do ponto de vista de segurança, do ponto de vista de controlo e de gestão
de rede, uma situação como esta. Mas mais uma vez, aquilo na linha de Elvas já não há
comboios de passageiros e os comboios de mercadorias que temos são 1 ou 2 por dia.
Uma questão fundamental que tem a ver com a integração com a rede ibérica. A ferrovia
tem de procurar sempre o caminho mais curto, porque o custo ferroviário é proporcional aos
quilómetros percorridos. Nós tínhamos, quando começou a Takargo, quando começamos
a operar, nós íamos para Madrid, tínhamos muitos comboios para Madrid, agora já não
fazemos, hoje passamos em Madrid, não paramos lá. Nós vínhamos por aqui, aqui esta
linha, por Valença de Alcântara, por aqui, Cáceres para Madrid. É o caminho mais curto.
Entroncamento para ir para Madrid é por aqui. Nós há 4 ou 5 anos íamos por Madrid por
aqui. Em Portugal esta linha foi cortada, esta ligação Valença-Alcântara deixou de estar à
exploração. Do lado Espanhol a Adif não nos permite circular por aqui. Hoje, se quiser ir para
Madrid do Entroncamento tenho de ir por aqui. Portanto, andamos a fazer investimentos
para reduzir esta distância, para depois chegarmos a Espanha e darmos a volta toda
pela Andaluzia para chegarmos a Madrid. Aquilo que ganhamos com o investimento que
fazemos em Portugal, perdemos porque em Espanha não nos deixam circular pelo caminho
mais curto. É absolutamente fundamental haver uma integração e um projeto integrado
de investimento na ferrovia a nível ibérico. Isto é um caso real, com o qual vivemos todos
os dias.
Finalmente, na Linha do Algarve não vale a pena pensar em comboios de mercadorias, não
há comboios de mercadorias na linha do Algarve, há só até Loulé. Impossível pensar em
comboios com mais de 200 metros e as locomotivas de grande porte não chegam a Vila
Real de Santo António, param em Tavira, porque a ponte não suporta comboios pesados.
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PRIMEIRA SESSAO
Esta é a realidade que nos temos hoje. É importante pensarmos nas ligações além Pireneus
e para França e para a Alemanha, mas temos de resolver estes problemas, porque um
investimento na ferrovia nãos e faz hoje e amanha está pronto. Há um projeto para fazer
alguma recuperação da Beira Alta e vai demorar 3 anos. Na ferrovia qualquer coisa demora
5 anos. Daqui a 5 anos eu não sei se cá estou. Nós temos de pensar que a situação que
temos hoje e aquilo que temos de fazer para corrigir aqueles problemas todos são temas
para uma década. Se tomarmos a decisão hoje, talvez daqui a 10 anos estes problemas
todos que aqui estão estejam resolvidos. Isto é absolutamente fundamental, porque esta
situação mata a ferrovia.
Só uma nota rápida. Temos uma liberalização do sector, é um facto. A Takargo é um
operador privado que tem de apresentar resultados ao seu acionista todos os anos e nós
temos de concorrer com operadores públicos em Portugal e em Espanha que nos 2 últimos
anos apresentaram resultados operacionais negativos de 110 milhões de euros. Não é
possível estar no mercado liberalizado e concorrencial, quando temos operadores públicos
que trabalham com preços abaixo do custo. Isto é uma nota fundamental e vou ser rápido.
A Takargo hoje, só para termos uma nota, transportamos cerca de 1 milhão de toneladas
por ano, cerca de 75% a 80% são internacionais e estamos presentes em toda a Península
Ibérica.
Uma nota final em relação à rede ferroviária de futuro, a ligação além Pireneus é importante,
não é decisiva, mas é importante para podermos ter soluções alternativas à rodovia para
Alemanha e França. Aquilo que é absolutamente fundamental é investir na rede ibérica, é
aqui que está o grande potencial de crescimento da ferrovia e o grande valor acrescentado
que a ferrovia pode trazer para a indústria, temos de ter esta rede integrada com regulação
uniforme, temos de ter gestão de tráfego uniforme; a gestão de tráfego não é integrada,
é muito difícil a comunicação entre a Adif, que é o gestor espanhol o gestor português.
Temos de ter terminais públicos de acesso franco e igual para todos os operadores. Temos
de eliminar pendentes, as pendentes são subidas e descidas que temos pela rede fora e
que limitam imenso os comboios.
A principal mensagem é que a ferrovia pode crescer a nível ibérico e aquilo que é
absolutamente fundamental na perspetiva das ligações de Portugal ao mundo, numa
perspetiva ferroviária, é garantir uma ligação 1435 em bitola europeia além Pireneus, mas
investir sobretudo nesta rede integrada ibérica. Muito obrigado.
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Primeira Sessao
- As ligacoes
ferroviarias
| Eng.º Miguel Lisboa
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Moderador - Prof. Luís Valente de Oliveira
Vamos agora ouvir falar sobre ligações intermodais. Para isso, fomos solicitar ao Dr. Ricardo
Afonso, que é licenciado em contabilidade e administração, versão gestão de empresas,
mas que está na Transdev como membro da comissão executiva, como diretor comercial
e marketing para o grupo e como gerente duma empresa participada. De maneira que ele
sabe bem o que é logística e o que são relações intermodais. É a ele que vamos pedir para
falar sobre isso…
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PRIMEIRA SESSAO
“As ligações intermodais”
Transdev Portugal
Dr. Ricardo Afonso
Muito obrigado, Sr. Professor, muito bom dia. Venho aqui falar um pouco sobre as relações
intermodais na vertente dos passageiros, que é essa a nossa especialização.
Falando um pouco sobre a Transdev. A Transdev é uma empresa multinacional, de origem
francesa, presente um pouco por todo o mundo e que opera diversos modos de transporte
que vão desde os ferrys, até ao comboio, ao metro, autocarros e inclusive bicicletas. A
Transdev em Portugal, que podemos ver aqui quais são as suas áreas de atividade (slides
2,3 e 4). Neste momento estamos concentrados apenas num modo de transporte que
é o autocarro e podemos ver que o serviço internacional aqui à direita representa cerca
de 4% do nosso volume de negócios. Isto são as atividades efetivamente para a Europa,
para França, Espanha, Alemanha e Holanda, sobretudo. São 4% da nossa atividade que
se concentra no estrangeiro. A nível interno estes são alguns dos nossos números, dos
nossos passageiros transportados e as redes que operamos em Portugal; portanto, cerca
de 25 milhões de passageiros por ano e 32 milhões de quilómetros percorridos. Indo para
a intermodalidade, o que é a intermodalidade no meu ver? Efetivamente é a integração
e a conjugação de vários modos de transporte com vista à obtenção de benefícios para
os utilizadores, nomeadamente, benefícios de coordenação tarifária, de conjugação
de ofertas de modo a propiciar um serviço eficiente. Num sentido lato intermodalidade
é também a multimodalidade, que é quando há transferência entre diferentes meios
de transporte, mas que também cabe dentro desta intermodalidade. Gostaria aqui de
apresentar um pequeno filme que foi feito por nós com uma visão daquilo que é o futuro da
intermodalidade conjugada com as novas tecnologias. O aproveitar das novas tecnologias
para integrar tudo num só produto. Está aqui e até serve para descontrair um bocadinho
porque tem música associada. (visualização do filme)
Parte destas tecnologias ou parte destas aplicações já estão ativas, não desta maneira
totalmente integrada como vimos aqui, mas elas existem e estão em funcionamento em
alguns países onde operamos.
Centrando-nos na intermodalidade. Consideramos aqui, falta aqui um meio de transporte
bastante importante que é o avião, pela simples razão que nós não operamos, mas eu irei
falar dele (slide 6). Aqui consideramos desde o modo mais pesado até ao modo mais ligeiro,
como é a bicicleta, passando pelo metro, pelo BRT (bus rapid transit), que é o autocarro
em via dedicada. Se nós repararmos neste pequeno filme, é uma geração perfeitamente
integrada com as novas tecnologias e que, beneficiando dessas tecnologias, espera uma
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Primeira Sessao
- As ligacoes
intermodais | Dr. Ricardo Afonso
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resposta pronta do sistema e que tudo esteja ao alcance de um dedo. São pessoa que
querem ir do ponto A ao ponto B, independentemente dos meios que vão utilizar, querem
é uma solução única e conjugada e de preferência que utilize também os modos ligeiros, as
bicicletas mais uma vez, já que a consciência ecológica começa a despontar cada vez mais.
São pessoas que exigem um título e transporte único, uma coordenação de horário e a tal
coordenação de meios, seja ela multimodal ou monomodal. Quais são esses fatores chave
para a intermodalidade? Para ela poder existir de um modo eficiente? Quer se aplique a uma
intermodalidade interna, quer externa. Os fatores chave são muito simples, uma entidade
coordenadora que agregue todos os meios de transporte e os coordene e crie ofertas
únicas, tarifários únicos; e sem essa entidade coordenadora vivemos, neste momento, de
algumas ligações que são feitas internamente pelas empresas ou, quando comercialmente
viável, feitas por empresas que tentam conjugar com outras, apesar dessa coordenação
efetiva às vezes não existir. Obviamente que falta a fiabilidade no sistema, derivado dessa
falta de entendimento, muitas vezes, existente entre as entidades, o que faz com que nem
sempre essa coordenação exista de uma maneira fiável. Eficiência necessária obviamente.
As pessoas esperam que quando chegam ao seu local haverá outro meio de transporte
à espera, não podem ficar retidos ou dependentes de uma descoordenação que existe,
para isso é necessário envolver todos os stakeholders, porque são eles que terão uma
palavra a dizer também no futuro desta intermodalidade e serão eles que serão muito
importantes nos hubs, que não são mais do que os terminais onde se podem conjugar
os vários meios de transporte e que, neste domínio há ainda muito por fazer. Nós temos
alguns bons exemplos. Os aeroportos são neste momento, exemplo de terminais, porque
conjugam vários meios de transportes, desde obviamente o avião, ao autocarro e ao
metro, como temos aqui no Porto, na Gare do Oriente em Lisboa. Mas muitas vezes falta a
tal informação conjugada, ou seja, quem chega a determinado destino, quer vir já do seu
ponto de partida com a informação correta de como vai chegar ao seu ponto de destino e
não ao seu ponto intermédio. Essa informação, hoje em dia, vai existindo, mas ainda não é
coordenada, nem é fiável, muitas vezes presta-se a informação apenas retirada do site de
outra empresa, mas que depois, até ao longo do tempo, perde um bocado a sua validade
e quem o colocou não se apercebe disso. Obviamente que tudo isto terá que ter, além da
oferta conjugada, tarifas conjugadas, porque só assim é que se compreenderá no futuro a
total intermodalidade, que é também a conjugação das tarifas. E quando falo da conjugação
das tarifas não é apenas o somar das tarifas de cada operador, é sim uma decisão racional,
a criação de uma tarifa que seja acessível e em que todos estejam dispostos a ceder a sua
parte para se poder conjugar com uma tecnologia, uma mais eficiente intermodalidade.
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PRIMEIRA SESSAO
Aqui apenas alguns exemplos (slides 7 a 9), não de intermodalidade internacional, já que
essa é mais difícil de obter. É mais difícil conjugar os interesses dos vários operadores
no sentido, de se obter uma conjugação que seja inter fronteiras. Estas intermodalidades
existem mais ao nível das próprias empresas que quando dominam os seus meios de
transporte e é comercialmente viável, fazem essa interligação. Só aqui 3 pequenos casos,
neste caso estamos a falar de Ruen (slide 7) em que são exploradas duas linhas de metro
ligeiro; 3 linhas de brt, (portanto brt é o bus rapid transit), que são autocarros em via
dedicada, funciona quase como o metro ligeiro; as linhas urbanas, linhas escolares, linhas
noturnas e aqui não há bicicletas, mas uma base para bicicletas, porque é outro ponto
muito importante para gerar intermodalidade. Temos que dar condições aos utentes que
chegam ao local onde vão apanhar o transporte público e que fazem o chamado first
mile, no seu transporte individual, para poderem parquear. Portanto, temos de dar também
essas condições, não pensar só no transporte em si, mas também nas condições para as
pessoas chegarem aos locais. Neste caso concreto, foi criada uma base para bicicletas. O
que é certo é que o aumento da procura nos últimos 10 anos foi de 22% e um índice de
satisfação atingido de 82%, fruto desta intermodalidade que foi criada, ou seja, existe
um passe único, existe uma conjugação e oferta, existe um fácil acesso ao sistema. Outro
caso, Montpellier. Aqui a diferença é que foi criado um park & ride, ou seja, onde o cliente, ao
adquirir o passe do sistema ao mesmo tempo tem acesso aos parques de estacionamento,
onde pode deixar a sua viatura particular. O que é certo é que os resultados foram muito
positivos com esta integração, sabendo-se que 38% do mercado envolve deslocações
particulares, deslocações em viaturas particulares, lá está, não podemos esquecer os tais
primeiros e últimos quilómetros, como é que eles são feitos e como é que as pessoas
tem acesso aos meios de transporte. Por último (slide 9), aqui um caso mais simples, mas
que tem a ver com a utilização de linhas de elétricos, portanto um modo menos poluente,
com a tal intermodalidade interna a procura aumentou 68%, reduziram-se os níveis de
reclamações e aumentou-se a fiabilidade nos horários; ou seja, tudo isto são os fatores
que conjugam para uma boa intermodalidade. Aquilo que nós temos hoje, sobretudo
em Portugal, ainda é, digamos os primórdios em muitos destes aspetos. Há conjugação,
sobretudo monomodal, existe alguma coordenação a nível internacional, podemos dizer
que a coordenação, as companhias de aviação e os aeroportos publicitam algumas das
ofertas que existem e isso já é um ponto de partida importante, ou seja, quem nos vem
visitar pode, através do site, quer da companhia de aviação, quer dos aeroportos, saber
que existem outros meios de transporte para os levar para o seu destino. Simplesmente
ainda não está feito de uma forma perfeitamente conjugada que permita ao utilizador
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Primeira Sessao
- As ligacoes
intermodais | Dr. Ricardo Afonso
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tirar apenas, por exemplo, um bilhete que lhe dá acesso a todo o sistema. Isto são pontos
que temos de considerar, pontos que temos de evoluir a nível desta intermodalidade,
uma vez que sabemos, e como vimos ali no filme, todas estas pessoas, sobretudo destas
novas gerações, pretendem que seja facilitado o serviço, pretendem um serviço único e
de preferência com algo de verde, ou seja, com transportes em modo ecológico. Este é o
ponto que temos em Portugal e ainda temos muito para trabalhar, apesar de algumas das
tecnologias estarem já disponíveis e em fase de aplicação também em Portugal.
Muito obrigado.
Moderador - Prof. Luís Valente de Oliveira
Vamos agora ouvir o Dr. Fernando Vieira sobre o aeroporto do Porto e sobre as ligações
aéreas de uma maneira geral. É economista pela Universidade do Porto e tem uma
larguíssima experiência neste sector.
Começou na ilha de Santa Maria, no aeroporto de Santa Maria, numa ocasião em que era
muito ativa ainda a instalação que lá estava, depois passou para o aeroporto de Faro,
depois veio como sub -diretor para o aeroporto Francisco Sá Carneiro e hoje é o diretor, já
lá vão 18 anos. É o diretor com os sucessos que sabemos, já duas versões do aeroporto,
classificações do aeroporto nas melhores posições, tudo isso se deve a ele, de maneira que
foi por isso que o convidei a fazer uma exposição sobre as ligações aéreas.
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PRIMEIRA SESSAO
“As ligações aéreas”
ANA - Aeroporto do Porto
Dr. Fernando Vieira
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Primeira Sessao
- As ligacoes
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| Dr. Fernando Vieira
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PRIMEIRA SESSAO
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- As ligacoes
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| Dr. Fernando Vieira
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PRIMEIRA SESSAO
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Primeira Sessao
- As ligacoes
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| Dr. Fernando Vieira
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PRIMEIRA SESSAO
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Primeira Sessao
- As ligacoes
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| Dr. Fernando Vieira
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PRIMEIRA SESSAO
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Primeira Sessao
- As ligacoes
aereas
| Dr. Fernando Vieira
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PRIMEIRA SESSAO
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Primeira Sessao
- As ligacoes
aereas
| Dr. Fernando Vieira
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PRIMEIRA SESSAO
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Primeira Sessao
- As ligacoes
aereas
| Dr. Fernando Vieira
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Moderador - Prof. Luís Valente de Oliveira
Vamos finalmente ouvir o Eng.º. Carlos Alves Duarte sobre as tecnologias de informação
e comunicação. O Eng.º Carlos Alves Duarte é administrador executivo da PT Portugal
e Presidente da Assembleia-Geral do INESC, a que a nossa escola de engenharia está
tão associada. Entrou para o grupo como administrador executivo da área de soluções
empresariais e anteriormente foi General Manager da IBM Global Services e é engenheiro
mecânico pelo Instituto Superior Técnico e com uma pós-graduação em engenharia de
soldadura e tem o Master em gestão de Marketing e Vendas. Sr. Eng.º, fará o favor…
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PRIMEIRA SESSAO
“As tecnologias de informação e comunicação”
PT Portugal Telecom
Eng.º Carlos Alves Duarte
Muito bom dia a todos!
Em primeiro lugar, gostaria de agradecer à Fundação AEP e à Fundação de Serralves o
convite para estar aqui hoje. Quero igualmente cumprimentar os meus colegas de mesa
e o Professor Valente de Oliveira e dizer-lhes que estas apresentações são para mim
sempre um enorme problema, pois existe uma dualidade tremenda quando eu peço às
minhas equipas para me produzirem estas apresentações. Se eles produzirem uma
apresentação muito interessante aquilo que acontece é que deixam de estar a consultar
os vossos telefones e a fazer tráfego, e portanto, nós PT sofremos na parte financeira.
Se a apresentação é realmente muito aborrecida, desligam da apresentação e vão para os
telemóveis. Portanto, eu nunca sei muito bem para onde dirigir estas apresentações. Mas
hoje, tendo em atenção o brilhantismo das apresentações que me antecederam, se calhar
preferia perder um bocadinho de dinheiro para a PT e garantir que tinham mais atenção à
apresentação.
Bom, esta história do “mundo em acelerada mudança” é um eufemismo. A velocidade a que
as coisas se movem nos últimos tempos é algo que sem paralelo na história da humanidade.
Aproveitando esta imagem, gostaria de aproveitar para agradecer ao embaixador Jaime
Nogueira Pinto a brilhante apresentação que efetuou e em linha com o que afirmou a
Drª Ana Pinho, dizer que o objetivo para todos nós Portugueses seria voltarmos a atingir
o que Stefan Zweig disse na sua biografia de Fernão Magalhães: “durante um breve
período de tempo, esta pequena nação foi a luz que guiou a humanidade”. Realmente
somos pequenos, continuamos a ser pequenos, mas se no passado conseguimos fazê-lo e
conseguimos liderar a humanidade, eu acho que voltamos a consegui-lo no futuro.
Uma coisa interessante, e falando de velocidade, tenho aqui alguns factos - demorava 17
meses a chegar à China, mas a Sagres hoje demora só 21 dias. No entanto, a tecnologia
é exatamente a mesma, a grande diferença entre a velocidade que se tinha antes
e a velocidade que se tem agora é o conhecimento. O conhecimento que têm hoje os
marinheiros que vão na Sagres e que não tinham os anteriores navegantes. É sempre fulcral
tomar em atenção o conhecimento, aquilo que fazemos, para onde vamos. E, claramente,
um dos temas relativos à exportação e às empresas portuguesas é muitas vezes atiraremse para temas e geografias dos quais não têm conhecimento suficiente e isso claramente
é um dos perigos e um dos grandes problemas ligados a alguns dos insucessos que alguns
empreendedores portugueses sofreram nos últimos anos.
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Primeira Sessao
- As tecnologias de informacao
e comunicacao
| Eng.º Carlos Alves Duarte
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Seguramente que estes 4 dias e meio que, por via ferroviária, se demora a chegar à China
estão relacionados com a contenção de velocidade da linha do Oeste, que mencionou há
pouco o meu colega de painel, o Engº. Miguel Lisboa. Eu estou seguro que se não houvesse
aquela contenção de velocidade, aqueles 4 dias e meio aproximar-se-iam dos 3 dias e
meio, por via terrestre. Já no que se refere à TAP, não vou fazer comentários sobre as
17 horas pois, de acordo com as minhas últimas experiências, diria são bastante mais
tendo em atenção o tempo de atraso nos voos. E depois, claramente puxando “a brasa à
minha sardinha”, menos de 1 segundo através das telecomunicações e de tecnologias de
informação.
E este slide que tenho aqui a seguir só o percebi hoje de manhã, vou ser franco, percebi-o
ao vir aqui para o Porto no carro e ouvindo a rádio pois, segundo parece, e de acordo com
um estudo efectuado, existem pessoas que tiram mais prazer de um novo smartphone do
que do sexo, como tal é perfeitamente natural que existam mais telemóveis a ser ativados
por dia, do que nasçam crianças!! Claramente as políticas de natalidade não têm de
incidir sobre a fiscalidade, têm de incidir sobre convencer a Samsung e a Apple a fazerem
equipamento um bocadinho piores.
Relativamente aos telemóveis e às pessoas, nós em Portugal já lideramos. Hoje em Portugal
temos milhões de dispositivos móveis, temos mais do que 16 milhões de dispositivos
móveis e nós Portugueses claramente somos menos de 10 milhões. Se retirarmos destes
dispositivos móveis tudo aquilo que tem a ver com tecnologia, aquilo que é tecnologia a
“conversar” com tecnologia, aqueles que fazemos voz, estamos a falar de praticamente
12 milhões, ou seja, cada um de nós tem mais do que um dispositivo de voz. Este slide
apresenta os últimos estudos, mas a única coisa que nós sabemos dos estudos é que
pecam sempre por falharem em relação ao que vem a suceder na realidade... se aqui se
fala de futuro e que em 2017/2018, cada pessoa terá entre 6 a 7 dispositivos conectados
à internet e se começarem a contar tudo o que têm, entre as carteiras das senhoras e os
nossos bolsos dos nossos casacos, se calhar já andamos pelos 3 ou 4. Se nos lembramos
que os carros agora também comunicam, se nos lembrarmos que em casa as televisões
também estão a comunicar e de que existe um conjunto de pc’s, de tablets, e outros
equipamentos conectados então os 7 ou 8, ou 9 ou 10 ou 11 do futuro estão avaliados
por baixo.
Aqui também temos outra parte muito interessante que é a velocidade de adoção.
Para aqueles que já não se lembram, o serviço móvel telefónico foi lançado em 88 em
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PRIMEIRA SESSAO
Portugal. Em 2 anos, o serviço móvel telefónico capturou 6.500 utilizadores. Nos 4 anos
seguintes capturou 600 mil! E daí para cá tem sido sempre a acelerar, pois a velocidade
de adoção é cada vez maior, o que leva também a estarmos cada vez mais dependentes
destes equipamentos na nossa Vida. Por isso é que eu dizia, se cada pessoa consulta o
seu telefone a cada 6 minutos e meio, eu tenho agora que fazer uma pequena pausa para
todos poderem consultar o telemóvel, fazer algum tráfego… e depois eu continuo!
Não, não vou nada parar! Estava a brincar...
Falando de mudanças, todos nós no mundo empresarial, sejamos executivos, empresários,
colaboradores, nós temos que ter em atenção a grande mudança dos hábitos de consumo
que a nossa sociedade está a sentir... a maneira como hoje consumimos muda radicalmente
a cada momento.
Cada vez há mais informação e cada vez há mais informação que nós não conseguimos
processar, cada vez somos mais bombardeados com informação, alguma válida, outra nem
tanto; mas esta ”enxurrada” de informação leva à criação de novos modelos de negócio.
Por exemplo, se se lembrarem de já há alguns anos, um senhor chamado John Naisbitt ter
escrito um livro e criado uma empresa de consultoria com muito sucesso... o livro chamavase MegaTrends. Foi um livro que esteve nos top’s bastante tempo. O que é que este senhor
faz? Uma coisa interessantíssima, tem uma equipa que a única coisa que faz é ler jornais
e revistas. Depois junta todas essas notícias e a partir disso descobre tendências futuras.
Portanto é uma espécie de self-fulfillment prophecy. Está ali um buraco, vou-me atirar
para dentro do buraco pois se o buraco está lá é para eu cair...
É exatamente isto que temos que evitar. É o deixarmo-nos levar por aquilo que é o passado
e o que aconteceu. Nós não podemos e, muito particularmente, nós como portugueses não
podemos guiar a olhar para o retrovisor. Nós guiarmos a olhar para o retrovisor é olhar para
onde viemos e não estarmos a olhar para onde vamos e isso é aquilo que nos falta muitas
vezes. Temos que ter em atenção todos estes novos hábitos, tudo aquilo que foi criado e
já está disponível para todos nós, toda a panóplia de equipamentos, toda a componente
de tecnologia que hoje move as empresas. Move as empresas, porque move os nossos
consumidores. Portanto, tudo o que tem a ver com mercados, tudo que tem a ver com a
evolução desses hábitos, tudo que tem a ver com o futuro tem de ser olhado de uma forma
completamente distinta e de que forma pode ser usado de forma diferenciada no futuro.
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Primeira Sessao
- As tecnologias de informacao
e comunicacao
| Eng.º Carlos Alves Duarte
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Eu agradeço a apresentação da Transdev, porque acabou por fazer exatamente isso,
eu nem preciso de falar, passo o filme de novo e todos podem rever aquilo que hoje a
tecnologia nos pode dar e aquilo que pode dar-nos no futuro próximo. O negócio que
temos aqui e que trouxe como exemplo é o do impacto das novas tecnologias e dos novos
hábitos de consumo no transporte aéreo. Não é só a desmaterialização daquilo que era
anteriormente um processo que muito complexo, vai muito além disso, o que existe aqui
é uma mudança de modelo de negócio com a desintermediação total e absoluta daquilo
que era anteriormente uma cadeia de valor bem estruturada. O negócio de transporte
aéreo era claramente aquilo que hoje está muito na moda chamar o “B2B2C”. Aquilo que
a tecnologia veio trazer é que passou a ser um negócio, ainda com algumas falhas, de
“B2C”. Porquê? Estão a ser desintermediadas as agências de viagens. No futuro há um
modelo de negócio que vai matar um conjunto de empresas. Agora, ao mesmo tempo que
se transforma, gera outras oportunidades e vejam o seguinte exemplo - quando estão a
tentar escolher uma viagem e consultam vários sites, experimentem fazer através de duas
máquinas; vão a um site e vêem o custo de uma viagem, vêem no dia seguinte e dois dias
depois. Depois, vão fazer o mesmo de uma outra máquina, e vão ver que os preços são
diferentes, porque os preços sobem se voltarem várias vezes ao mesmo site e às mesmas
consultas!. Mais, se forem recorrentes de compra no mesmo site o preço começa a piorar.
Isto tem a ver com o modelo de negócio e a capacidade que a tecnologia fornece para
auxiliar a melhorar as margens de um modelo de negócio completamente distinto do que
existia. Isto é uma atenção que tem de ser tida pelo consumidor, mas que também cria
oportunidades de negócio e lucro às empresas.
Neste slide refere-se a nova revolução da robótica avançada… é uma oportunidade e
uma ameaça brutal para as empresas portuguesas. A robotização da produção traz uma
nivelação, traz o custo de trabalho para o mesmo nível. Por um lado, podemos dizer, olhando
para a China, fantástico; por outro lado, olhando para a Alemanha, péssimo. Porquê? Porque
isto vai levar a que se o nível de inovação, o nível de sofisticação, o nível de automatização
das empresas for o mesmo, é a flexibilização e a velocidade que vão criar a diferença entre
ter sucesso ou ter insucesso. É esta área especificamente, a área da robotização, pode ser
para as empresas portuguesas uma área de oportunidades extraordinária, caso se movam
rapidamente. Mais uma vez, tecnologia, tecnologia a ditar o futuro.
Eu tinha de falar na PT, falo rapidamente, não vou maçá-los com isto, mas quero dizer que
nós já criamos as tais estradas, as tais ferrovias, os tais aeroportos deste novo mundo para
que as empresas portuguesas possam utilizá-las. Eles já cá estão!
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PRIMEIRA SESSAO
Além disso, a inovação não para nas “vias” diria que 99,9% das pessoas que está aqui não
sabem que alguns dos equipamentos que hoje a maior empresa do mundo de equipamentos
de telecomunicações, que é a CISCO, compra em Portugal e são feitos por uma empresa
da PT. E isto num mercado das telecomunicações que tem o pior de dois mundos: por um
lado parece-se com uma utility – capital intensivo, recursos humanos intensivos; por outro
lado, é uma dot.com, tudo muda para nós a cada 3 meses as nossas ferrovias e a bitola
das nossas ferrovias altera-se a cada 3 meses, os nossos portos ficam assoreados a cada
semana. Temos sempre de estar a investir, temos sempre de estar a ter formação, temos
sempre de estar a inovar. Aqui há uns tempos estive presente num congresso em que estava
presente um administrador da Bial, que é a segunda empresa portuguesa que mais investe
em investigação e desenvolvimento. Tem uma coisa interessante, é que os investimentos
da Bial dão retorno a 16 anos, 18 anos! Os nossos investimentos se não derem retorno
a 1 ano, estamos mortos. Porquê? Porque durante esse ano em que estamos a tentar
rentabilizar esse investimento, já apareceram outras coisas. Essa é a grande diferença
entre indústria baseada em tecnologia, que se move muito rapidamente, mas necessita de
grandes investimentos e outras áreas da sociedade industrial, da sociedade comercial, que
se movem de velocidades completamente distintas.
Portanto, claramente, enquanto eu falei, não sei se olharam 4 vezes para o telemóvel,
presumo que não, mas seguramente durante este tempo a PT fez muito trabalho para
todos os portugueses e para todas as empresas portuguesas.
Muito obrigado a todos, foi um prazer enorme estar aqui convosco.
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COMUNICACOES
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SEGUNDA SESSÃO
O INVESTIMENTO ESTRANGEIRO EM PORTUGAL
Moderador:
Manuel Passos Rodrigo
“O investimento Angolano”
Eng.º Mira Amaral - Banco BIC
“O investimento Europeu”
Dr. Jónio Reis - Bosch Portugal
“O investimento do Brasil”
Dr. João Taborda - Embraer
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SEGUNDA SESSAO
O INVESTIMENTO ESTRANGEIRO EM PORTUGAL
Moderador: Manuel Passos Rodrigo
Muito boa tarde para todos e muito obrigada pela presença. Vamos fazer um pequeno
esforço para nos recolocarmos no tempo, na tentativa de compensar o atraso provocado
pela derrapagem (justificada) que aconteceu com as com as intervenções do Painel que nos
antecedeu.
Com muito gosto tenho a meu lado três ilustres personalidades, cuja presença muito nos
honra e cuja participação nestas Jornadas em muito as enriquece.
Estar ao lado do Senhor Eng.º Mira Amaral é sempre um prazer. Será ele o primeiro a intervir
neste Painel e a tarefa de o apresentar revela-se fácil de desempenhar. Todos o conhecem.
Assim - e com o seu acordo — eu vou permitir-me limitar as referências a seu respeito e
a respeito do seu rico curricula a sublinhados relacionados com algumas das posições de
destaque que ele ocupou na sua carreira pública e na sua vida privada.
Actualmente é Administrador não Executivo e Presidente da Comissão de Auditoria da Nova
Base, tem passagens marcantes pelo Governo, pelo Ensino e pela Economia. Foi Presidente
do Instituto de Gestão Financeira da Segurança Social durante dois anos e Técnico Superior
do Banco de Fomento Nacional. Foi quadro superior da EDP e integrou os Quadros Superiores
da Direcção-Geral da Aeronáutica Civil.
Quanto à sua Formação Académica e só para realçar alguns dos pontos mais relevantes,
que se seguiram à sua Licenciatura em Engenharia Eletrotécnica pelo instituo Superior
Técnico de Lisboa, e de registar a sua Pós— graduação pelo Standford Executive Program
da Universidade de Stanford (E.U.A.), e o grau de Mestre em Economia da Faculdade de
Economia da Universidade Nova de Lisboa, com alta classificação.
No campo do Ensino tem tido vários desempenhos, sendo de realçar o desempenho do cargo
de Professor Catedrático Convidado do Departamento de Engenharia e Gestão do Instituto
Superior Técnico.
Quem acompanha a vida pública do Senhor Eng.º Mira Amaral sabe que, neste ambiente,
que tem frequentado, são muitas as possibilidades as contribuições para enriquecer o
conhecimento, o que muito ajuda na capacidade para emitir opiniões.
Exerce actualmente o cargo de Presidente Executivo do Banco BIC Português, cargo este a
que se junta o de Administrador da Agência Portuguesa de Inovação. Enfim, chegou a hora
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Segunda Sessao
- O investimento estrangeiro em Portugal | Manuel Passos Rodrigo
de o ouvirmos sobre o tema que vai abordar: o do Investimento Angolano em Portugal.
Os sublinhados relacionados com a rica participação do Senhor Dr. Jónio Reis, que está
hoje connosco nos para dar testemunho da sua experiência, enquanto agente directo de
iniciativas relacionadas com o Investimento Estrangeiro em Portugal, centram-se na sua
informação a propósito do método usado para avaliação das forças e das fraquezas das
Empresas nacionais para dar resposta às solicitações que Ihes sejam apresentadas.
Desde logo, é de salientar a forma como o método por ele referenciado, de avaliação das
suas forças e fraquezas perante as exigências de qualquer projecto, tem sido captado e
adoptado pelas Empresas.
E revelou, através das impressões que nos transmitiu a propósito da sua experiência no que
respeita às capacidades reveladas foram positivas. Parece, de facto, que a nossa indústria
tem capacidade de concepção e de execução para dar resposta satisfatória às solicitações
que vierem a ser-lhe colocadas.
A propósito da intervenção do Senhor Eng.º Joao Pedro Taborda, que também nos deu o
gosto de aceitar o convite que Ihe foi formulado para colaborar connosco, importa desde
logo dizer que é Licenciado em Engenharia Mecânicas e Mestre em Gestão Tecnológica,
qualificações às quais se junta um Mestrado em Politicas Públicas orientadas sobretudo para
a Inovação, resultante do seu envolvimento num Programa Conjunto levado a cabo a partir
de uma parceria entre o Instituto Superior Técnico e a Universidade de Austin (E. U.A.).
Actualmente exerce as funções de Director de Relações Exteriores da Embraer, estando
sediado em Bruxelas.
Com base na conversa que tivemos previamente, foi por ele referido que as suas duas
grandes missões consistem no acompanhamento das políticas públicas das regiões onde
a Embraer tem interesses e o estudo das cadeias de fornecimento nelas instaladas, sabido
como e que aquela Empresa tem projectos de crescimento e de desenvolvimento em várias
localizações e, portanto, precisa de saber com o que pode contar.
Anteriormente e durante bastante tempo, teve directamente sob sua responsabilidade
a coordenação de todos os projectos de pesquisa e de desenvolvimento lançados pela
Embraer no Brasil.
De destacar, ainda, que foi sob sua orientação que arrancou o projecto de instalação da
Embraer em Évora.
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SEGUNDA SESSAO
“O investimento em Angola”
BANCO BIC
Eng.º Luís Mira Amaral
Muito obrigado, começo por agradecer à AEP, na pessoa do Sr. Presidente e do meu caro
amigo Prof. Luís Valente de Oliveira, o gentil convite que me fizeram para aqui estar
convosco, o que faço com todo o gosto.
Pediram-me para vos falar do investimento angolano em Portugal, e primeiro tenho de
vos dizer que de facto, de acordo com a teoria económica, temos três fases no domínio do
comércio externo.
A primeira fase, quando uma economia se abre ao exterior começa pelos fluxos de comércio
externo (exportações e importações); a segunda fase dessa economia é a presença e o
investimento direto/físico, quer de raiz industrial quer comercial, nos mercados em que
está interessada; e a terceira fase (que algumas empresas americanas já são e algumas
portuguesas têm tentado) é ser empresas globais no mundo, em que já não se sabe bem
onde são os “headquarters”, ou sabemos onde são mas já não se confunde a empresa com
o seu sítio físico de instalação. Cada nó do segmento da cadeira de valor está num certo
sítio do mundo, e estão todos ligados em rede, em network, e isto é a chamada empresa
global.
Vejam o que acontece com a Microsoft que tem centros de investigação na China, e portanto
já não há propriamente uma ligação, nas empresas globais, entre o seu “headquarter” e a
empresa. A empresa é muito mais do que um sítio físico. E portanto isso são as três fases
do comércio.
Nós em Portugal, hoje em dia, falamos muito em internacionalização, mas é preciso dizer
que estamos na 2ª fase de um processo de internacionalização, isto é, as empresas
portuguesas que desde o tempo da EFTA se abriram à Europa (exportavam e importavam
para a Europa) passaram depois, a partir de uma certa fase, a investir directamente em
mercados para os quais antes exportavam. E quando falamos hoje em internacionalização
isto é em termos económicos a segunda fase do processo de internacionalização. Ela
começou com a abertura à EFTA e os fluxos de comércios externo e, isto, é particularmente
relevante neste momento para as empresas portuguesas em Angola, sobretudo para as
empresas de bebidas, e do âmbito alimentar, que são marcas muito apreciadas em Angola.
É um caso típico em que a qualidade percebida pelos clientes angolanos está alinhada
com a qualidade intrínseca dos nossos produtos - coisa que não acontece nos Estados
Unidos, conseguimos ter produtos excelentes mas nos Estados Unidos, somos vistos
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Segunda Sessao
- O investimento em Angola | Eng.º Luís Mira Amaral
ainda como um país produtor de bens de consumo corrente de baixa qualidade e baixo
preço, não conseguimos alinhar a nossa qualidade intrínseca com a qualidade percebida
pelos clientes: e o que interessa é a qualidade percebida pelos clientes, se não a tivermos,
esqueçam.
Em Angola isso felizmente não acontece, portanto estávamos a exportar para Angola
nestes sectores, geralmente nas bebidas, e agora Angola com a pauta aduaneira exterior
aumentou essa pauta. Para quê? Para travar exportações e obrigar estas empresas a
investir directamente e produzir a partir de Angola, senão perdem o mercado. Isto é uma
estratégia dos países emergentes que aliás os Estados unidos já fizeram em 1780 com o
Secretário de Estado do tesouro americano, Alexander Hamilton.
O Dr. Vítor Gaspar só fala da primeira parte do Alexander H. e esquece-se de falar da
segunda. O que é que o Alexander H. fez na altura? Mutualizou a dívida dos estados (é
o que chamamos fazer “eurobonds” na fase actual da construção europeia) e centralizou
isso no governo federal americano. Mas tinha consciência que não bastava assumir as
dívidas, tinha de por a economia americana a crescer para, depois de assumir as dívidas,
pagar as mesmas. Então o que fez? isto é o que o Prof. Gaspar não sabe (não estudou
essa parte do manual) e que eu vou acrescentar, é que a seguir os Estados Unidos, como
potência emergente, aumentaram a pauta alfandegária sobre o exterior e com isto fizeram
a industrialização da economia americana. Isto gerou o crescimento económico americano
e permitiu servir a dívida. Portanto, o que Angola está a fazer neste momento, é aquilo que
outros países emergentes já fizeram, o aumento da pauta alfandegária sobre o exterior
para obrigar à produção lá dentro. É isto que as nossas empresas de bebidas estão a sentir.
Em termos de comércio externo, neste momento os cinco principais clientes de economia
angolana são a China, a Índia, os Estados Unidos, Tailândia e Canadá. E aqui obviamente
que a China é o grande comprador de petróleo a Angola e portanto assume-se como
principal cliente na economia angolana.
Já no que respeita às importações, Portugal é o primeiro fornecedor da economia angolana,
seguido da China, Estados Unidos, Brasil e África do Sul, e isto tem a ver com a capacidade
dos nossos exportadores, até pelas razões que eu expliquei de fornecerem para Angola.
Parece que neste momento a China já nos terá ultrapassado, mas em todo o caso a nossa
performance para Angola é notável nesta matéria.
Passemos ao investimento direto no estrangeiro: Angola tem recebido um considerável
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SEGUNDA SESSAO
fluxo de investimento direto estrangeiro, Portugal tem sido o país que mais investiu nos
últimos anos em Angola um caso notável: como pequeno país temos estado à frente
(seguidos dos Estados Unidos da América, Reino Unido, Espanha e África do sul) mas em
contrapartida o investimento angolano no exterior ainda tem sido reduzido. O investimento
direto estrangeiro em Angola tem sido maior que o investimento angolano no exterior. Isto
é facilmente compreensível devido ao estado do desenvolvimento da economia angolana.
Angola está num processo de várias transições, teve a transição do partido único para um
regime mais multipartidário, teve a transição da guerra para a paz, e teve a transição de uma
economia centralizada para uma economia de mercado. E portanto, são várias transições
que Angola tem ao mesmo tempo. É fácil perceber na primeira fase do campeonato como
é que foi o investimento angolano em Portugal: foi feito pela empresa pública Sonangol.
Quando investe no seu core business que é a Galp pode dizer-se que está a investir como
empresa petrolífera. Quando a Sonangol investe no BCP obviamente não está a investir
no seu core business e portanto a leitura é a seguinte: o governo angolano está a usar
a Sonangol como o seu fundo soberano, que não tinha na altura, para investir fora de
Angola. E portanto, quando a Sonangol investiu no BCP a minha leitura é que a Sonangol
fez o papel de fundo soberano de Angola que não tinha (já tem, mas na altura não tinha).
Naturalmente, do ponto de vista empresarial, não havia um sector privado angolano, havia
grandes empresas públicas angolanas, como a Sonangol, investindo quer no seu core
business quer como braço do governo angolano, fazendo o papel de fundo soberano. O
investimento angolano em termos empresariais privados começou recentemente e nós
sentimos isso no Banco BIC português. É evidente que os angolanos, se estão encantados
com Portugal, compram aqui casas para a família passar férias, para os filhos estudarem,
ou para efeitos de rendimento. E eu já fui ao Dubai intencionalmente porque ouvi dizer que
os angolanos iam muito comprar ao Dubai, fui lá de propósito e fiz tudo como deve ser: fui
na primeira classe dos Emirates que, passo a propaganda, é fabulosa – alias há tipos que
me dizem que hoje vão para Luanda, vão de Lisboa ao Dubai, depois fazem Dubai-Luanda
em primeira classe da Emirates e é mais barato que na TAP em executiva, e eu acredito
que sim. Leva é mais tempo, mas quem tem tempo pode fazê-lo. Então eu fui ao Dubai e vi
que aquilo é um grande supermercado para os angolanos comprarem produtos eletrónicos
e carros. Mas se o angolano chegar a Lisboa ou ao Porto, instalar-se aqui num bom hotel
e depois descer pelas ruas (como a Av. da liberdade em Lisboa) onde há as lojas todas, há
uma diferença muito grande. Portanto a gente percebe que um angolano chega a Lisboa
e instala-se no Tivoli ou no Ritz e depois faz a Av. da liberdade isto é totalmente diferente
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Segunda Sessao
- O investimento em Angola | Eng.º Luís Mira Amaral
de ir fazer compras ao Dubai. As famílias já estão a investir há muito tempo em Portugal
no “real estate” e a fazer compras devido à qualidade de vida que temos, Lisboa, Porto,
Algarve. Nesse aspecto nós temos vantagens muito grandes.
Isto começou por aí e a seguir temos de perceber: a partir do momento em que o sector
privado angolano se comece a desenvolver, e que se comecem a construir grupos
económicos privados angolanos, é evidente que esses grupos económicos querem
internacionalizar-se, querem ir para o exterior, e então aparecem investimentos do sector
privado angolano em empresas de Portugal. Um dos sectores que obviamente foi o mais
mediático foi o sector dos média. Portanto toda a gente captou isso, porque era o sector
mais mediático.
Depois no sector da banca também tem havido investimento angolano em Portugal. O
primeiro que veio foi o BAI – Banco Angolano de Investimentos; o segundo foi o BIC que era
misto, luso-angolano com Isabel dos Santos, angolana, Fernando Teles e Américo Amorim,
portugueses: fizeram o primeiro Banco BIC em Angola e depois o Banco BIC Português;
depois outros bancos como o BPA e agora temos assistido a outros mais pequenos,
angolanos, como o BNI e o BANC a fazê-lo. Já tinha havido um, mas foi de cá para lá: foi o
Grupo BFE quando fez o Banco de Fomento em Angola, e foi um investimento de Portugal
para Angola, não foi de Angola para Portugal, no sector bancário. E agora estamos a ver
também o investimento angolano em empresas portuguesas no sector de construção
civil como tem sido visível nos jornais; e no sector da indústria talvez menos mediático,
menos visível mas também já há grupos económicos angolanos a comprar empresas. E
aqui devo dizer que o que eu gostaria de ver nesta matéria (por exemplo nos sectores
de materiais de construção) era parcerias entre empresas portuguesas e empresários
angolanos, porque os angolanos têm um ambicioso programa de habitação social, têm
os recursos naturais para fazer os materiais de construção, mas não têm o “know-how”
nem a competência que as empresas portuguesas nesses sectores têm. Portanto, se
se conseguir montar modelos em que os angolanos entrem em Portugal na empresa
portuguesa porventura aumentando o capital, e depois replica-se esta empresa em Angola
para aproveitar de facto a oportunidade de mercado (o ambicioso programa de habitação
social), o sector dos materiais de construção é o sector óbvio em que isto deve ser feito.
De facto, já começou algum investimento angolano no sector industrial, no imobiliário e
nos materiais de construção, além da construção civil. Portanto, o investimento angolano
tem seguido esta trajetória, obviamente que ainda é diminuto em termos daquele que é
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SEGUNDA SESSAO
o português em Angola, isto tem a ver com o estado de desenvolvimento das economias
e portanto o investimento em Portugal tem sido considerado uma extensão dos
projetos de internacionalização da estrutura financeira e produtiva angolana: a banca, as
telecomunicações, a energia de petróleos, a construção civil e indústria, a engenharia e a
arquitetura em que eles também estão a comprar, ou a entrar com parceiros portugueses
nesta área. Os média, a saúde, o ambiente, a indústria e o turismo, são sectores óbvios em
que Angola procura entrar em Portugal. Estes são os sectores em que eu vejo que isto
esteja a acontecer. Uma palavra final nesta primeira intervenção para chamar a atenção
como é que nós funcionamos nos Bancos BIC: temos dois bancos, o Banco BIC Português
em Portugal e o Banco BIC em Angola (que foi aliás aí que começou em 2005, o Banco BIC
Português só arrancou em 2008) e portanto temos apoiado empresários angolanos em
Portugal desta forma: eles têm ativos em Angola, dão esses ativos de garantia ao Banco BIC
em Angola e o Banco BIC em Angola emite uma garantia para nós; e na base dessa garantia
do Banco BIC em Angola nós financiamo-los em Portugal. Logo, a existência de bancos que
estão em Portugal e em Angola e podem jogar entre eles com sistemas de garantias, tem
permitido o investimento angolano em Portugal – como também, devo dizer, tem permitido
ajudar empresas portuguesas de construção civil que estão em Angola e que às vezes
têm atrasos de pagamento de Angola a Portugal, e através de garantias do Banco BIC em
Angola nós temo-los apoiado em Portugal. Se não fosse isto, a situação seria muito mais
complicada para algumas delas em Portugal. É evidente que depois no fim disto há sempre
um problema, que é o do kwanza não ser convertível. Está aqui subjacente um problema
de autorização de transferência de divisas pelo Banco Nacional de Angola, e o que nós
aqui fazemos, de acordo com a legislação cambial angolana, é agilizar o processo e poder
antecipar pagamentos ou investimentos que podem levar mais tempo porque precisam de
autorizações cambiais. É evidente que há aqui uma restrição ao investimento angolano
em Portugal, que nós felizmente esquecemos porque estamos no euro (e isto de estar
no euro é como um tipo quando tem saúde não liga à saúde, se perder saúde é que liga à
sua importância) Há aí uns cómicos que advogam a saída de Portugal do euro, não sabem
o que é ter uma moeda convertível, em que os empresários portugueses com esta moeda
facilmente investem em qualquer parte do mundo. Os angolanos ainda não têm essa moeda
convertível o que leva a mais dificuldades no investimento para Portugal ou para outros
países. Chamo-vos também a atenção que o Banco BIC Português está a transaccionar
kwanzas fora de Angola, isto é a primeira janela para uma abertura do kwanza ao mundo
e à sua convertibilidade, mas apenas para pequenas quantias para viagens e despesas
pequenas. O modelo foi feito de uma maneira muito simples: quando transaccionamos
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Segunda Sessao
- O investimento em Angola | Eng.º Luís Mira Amaral
kwanzas em Lisboa é como se transaccionássemos dólares, ou seja quem assegura, quem
corre o risco do câmbio kwanza-dólar é o Banco BIC em Angola; porque quando estamos a
transaccionar kwanzas, no nosso balanço é como se transaccionássemos dólares. Depois
corremos é em Portugal o risco euro-dolar. Nós fomos o primeiro banco a fazê-lo, agora
há outros bancos e já casas de câmbio também estão a fazê-lo. Eu tenho vindo a chamar
a atenção, que os angolanos têm o problema de uma moeda que não é convertível, nós
temos uma moeda perfeitamente convertível, há aí uns tontos que querem sair dela,
quando afinal nem precisamos de sair do euro para ajustar a balança externa – como se viu
neste período de austeridade. Nós não ajustámos foi o monstro público, portanto o Estado
não fez o trabalho de casa no período de austeridade em Portugal. Os empresários fizeram,
e não precisamos de sair do euro para ter uma balança com o exterior equilibrada. E temos
uma moeda que é convertível e com a qual facilmente investimos em qualquer parte do
mundo. Os angolanos ainda não a têm, portanto isto é uma restrição neste momento ao
investimento angolano no exterior.
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SEGUNDA SESSAO
“O investimento Europeu”
Bosch Portugal
Dr. Jónio Reis
Boa tarde a todos. Gostaria, antes de mais, de agradecer o convite da AEP na pessoa do
Prof. Valente de Oliveira e dizer que é uma honra a Bosch estar aqui representada.
Irei então falar-vos um pouco da Bosch, e um pouco de Portugal em termos de investimentos
europeus e um pouco de como aumentar a atractividade de Portugal em termos europeus.
Vou começar pela Bosch, uma grande marca mundial, um portfólio de produtos enorme. De
facto, a indústria automóvel é a base da Bosch. Facturou no último ano 46,1 mil milhões
de euros tendo atingindo já os 300 mil colaboradores e tem 225 fábricas. A Bosch honrase de continuar a querer ter fábricas ao contrário de outras marcas.
Outro dado relevante que me parece importante é o número de patentes que a Bosch
todos os dias regista e, vamos ver qual é a ligação destas patentes a Portugal que penso
ser uma ligação extremamente importante. A Bosch regista 20 patentes por dia útil.
Obviamente que as vendas ainda se centram muito no mercado europeu. A Bosch está
intimamente ligada à Europa e 55% das vendas ainda são europa apesar de, nesta altura, o
esforço de internacionalização fora da europa ser enorme, sobretudo na China. O mercado
automóvel na China cresce a muitos dígitos e, obviamente, que a Bosch quer estar presente
a acompanhar os clientes de sempre.
A Bosch Portugal em 2011 festejou o seu centésimo aniversário e não é fácil uma empresa
estar 100 anos em Portugal e com o crescimento que a Bosch tem vindo a ter.
A Bosch, apesar de nunca ter feito um investimento de raiz em Portugal. Tudo o que tem
em Portugal foi fruto de aquisições. Começou em 88 adquirindo a Vulcano, depois em 90
e com um enorme suporte do Engº Mira Amaral como Ministro da Indústria crucial para que
a Bosch comprasse parte da Grundig em Braga e, nesta altura, é a nossa maior localização,
em 2002, comprou sistemas de videovigilância à Philips em Ovar.
Nesta altura, como disse, temos 4 localizações: Braga, Ovar, Aveiro e Lisboa onde estão os
nossos serviços centrais e as vendas.
As vendas em Portugal em 2013 (e não foi record) foram de 788 milhões de euros e a
Bosch emprega cerca de 3200 colaboradores nesta altura.
O que é que faz a Bosch em Portugal? A Bosch em Portugal faz 3 segmentos de
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Segunda Sessao
- O investimento Europeu | Dr. Jónio Reis
produtos diferentes. Braga mais ligada à electrónica automóvel, desde os sistemas de
displays a sistemas de controlo da direcção do carro, navegações. Em Aveiro fazemos
Termotecnologia, seja caldeiras as gás, esquentadores a gás e painéis solares e em Ovar
fazemos sistemas de segurança. Todas as unidades fabris estão a abrir o portfólio, as
3 unidades fabris benchmarketing da Bosch em 3 divisões diferentes e todas com
crescimento registado. Nos últimos anos estas fábricas têm crescido mais de dois dígitos
ao ano, o que é extremamente importante também para nós portugueses como numa
empresa worldwide onde competimos, internamente dentro da Bosch, conseguimos em
Portugal estar a crescer sistematicamente. A crescer em termos de colaboradores mas
sobretudo, e ainda mais me honra, crescer em termos de investigação e desenvolvimento.
A Bosch é a 14ª empresa mundial a investir em termos de investigação e desenvolvimento
com 4,9 mil milhões de euros. A nº 1 é a Volkswagen com 9,5 e a Bosch Portugal já investiu,
nos últimos anos, cerca de 195 milhões de euros em investigação e desenvolvimento, 24
milhões de euros por ano. Eu insisto na investigação e desenvolvimento como sendo uma
área crucial para nós continuarmos a crescer… “nós” Bosch e “nós” portugueses.
Olhando mais para o nosso país, e esta é uma figura que eu costumo mostrar aos meus
colegas Alemães, e perdoem-me a minha imodéstia mas sou português, apesar de
pequenos somos o centro do mundo, pelo menos aos meus olhos, vejam a nossa localização
geográfica. Pode não estar correta a nível europeu mas, claramente, está correta a nível
mundial. Temos o grande continente África, que ninguém duvide nos próximos tempos
será o grande continente de crescimento e temos centenas de anos de história de lidar
com este continente e estamos geograficamente bem colocados e, não deixo de referir a
América do Sul e a própria América do Norte.
Gostava de vos contar uma história que, por vezes, nós menosprezamos. A Bosch tem
uma fábrica na costa oeste do México que é Hermosillo e nós temos um grande centro
de distribuição em Nova Iorque. Um contentor de Hermosillo para Nova Iorque custa mais
dinheiro que um contentor de Leixões para Nova Iorque. Isto é fundamental nos dias de
hoje, não são só os custos primários de produto é também este worldwide cost que nós
temos de ter em atenção.
Continuando a referir que Portugal é um ponto estratégico de plataformas e de rotas,
tem infra-estruturas modernas, podemo-nos queixar, e até com alguma propriedade, dos
excessivos governantes que temos tido mas, o que é certo, é que Portugal evoluiu muito
e é reconhecidamente um país atractivo pelo menos falando em termos da Bosch e da
91
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SEGUNDA SESSAO
Alemanha.
Queria, ainda, focalizar aqui, em termos do profissionalismo a qualidade dos nossos
recursos humanos. Esta frase não é minha mas, penso que estamos perante a geração
melhor preparada de portugueses dos últimos anos e, o que vamos fazer com ela? Vamos
só coloca-las nos aviões para irem trabalhar para outros lados? Eu penso que não, penso
que devemos aproveitar e, para realçar aqui a qualidade dos nossos recursos humanos
tenho aqui alguns dados da AICEP para ver se não nos esquecemos.
Estes dados são benchmarkings que foram efetuados entre vários países europeus e,
por exemplo, a percentagem de licenciados em ciência e engenharia em Portugal está
em ranking número 2; performance e inovação por dimensão Portugal está em número
3 com a Alemanha em primeiro lugar; inscritos no ensino superior em 13º; competências
linguísticas estamos com factor 7, olhem os nossos irmãos espanhóis com 2,60 em termos
linguísticos e, a facilidade em contactar com estrangeiros estamos no ranking número
13. Estes são dados de 2011, actuais e, por vezes nós portugueses nos esquecemos
internamente. Nós, na Bosch, como temos de lidar constantemente com os nossos colegas
estrangeiros gostamos de referir isto, para atrair mais investimento para Portugal, para
atrair mais investigação e desenvolvimento porque, desenganem-se se pensam que a
investigação e desenvolvimento é só um gabinete de engenheiros. Com investigação e
desenvolvimento é muito mais fácil atrair o restante processo produtivo. Com investigação
e desenvolvimento em Portugal é muito mais fácil o tecido industrial à volta do país ser
desenvolvido. É crucial nós sabermos aproveitar a melhor geração preparada de todos os
tempos em Portugal. Todo este esforço que foi feito, temos de acelerar a inclusão destes
jovens engenheiros e jovens licenciados que nós temos e aproveita-los ao serviço de
Portugal e das empresas em Portugal.
Passámos um período conturbadíssimo com a entrada da Troika. O sentimento de
pessimismo e desconfiança não era só em termos de estado. Em termos da Bosch
era sentida a desconfiança em relação ao nosso país e, até por vezes, em relação aos
portugueses. Quando nós pedíamos para investirem mais em Portugal durante esse
período, acreditem que o período de desconfiança e pessimismo era extremamente alto.
Apesar de tudo e de todas as manobras eu penso que saímos de uma forma positiva. A
taxa de exportação aumenta sistematicamente à 4 anos consecutivos com 5.7. e, a taxa de
desemprego está a atingir o valor mínimo desde 2008, obviamente que é tremendamente
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Segunda Sessao
- O investimento Europeu | Dr. Jónio Reis
alta mas, apesar de tudo, penso que conseguimos restaurar, como portugueses, os índices
de confiança e, hoje, quando temos uma reunião da administração da Bosch o sentimento
em relação ao nosso país e à confiança no nosso país e nos portugueses é muito maior.
Passando para o investimento directo europeu, estes são dados da AICEP de 2013 e,
95% do investimento directo em Portugal é europeu. É evidente que, infelizmente, o
investimento é tão baixo que quando existe algum investimento de monta ou de chineses
na EDP ou dos brasileiros no caso da PT, altera completamente a morfologia deste gráfico.
Este é o gráfico de 2013, penso que o de 2014 já está ligeiramente alterado e, agora, não
tenhamos dúvidas que o grande investimento directo em Portugal ainda (e infelizmente,
digo eu!), porque temos a abertura de muitos outros continentes, continua a ser europeu.
Dentro de que tipo de investimento? O retalho consome 31,9%, as fábricas e a indústria
20,5% e é aqui que a Bosch se enquadra e a parte financeira em 20,8%. Todos estes
números seriam interessantes, contudo temos de dizer claramente que no último ano o
investimento directo em Portugal decresceu significativamente. Países como a Espanha,
França decresceram na casa dos 20 e tal porcento, o Reino Unido aumentou 8,5 e a
Alemanha manteve investimentos e, a Bosch tem aqui parte da responsabilidade com
17,3%. Penso que isto reflecte também a crise e a estagnação que vivemos na Europa e
acaba por traduzir estes números para o nosso país.
Por último, como nos vamos tornar mais atractivos? Uma definição de estratégia da
promoção de Portugal, acontece-me frequentemente nas minhas viagens pelo mundo, em
termos de trabalho, ainda existirem muitas pessoas que conhecem o nome de Portugal
mas não conhecem as capacidades que nós temos. Temos de ter uma política claramente
de venda do nosso país, de mostrarmos como somos bons, como temos produtos bons e
sobretudo como temos pessoas capazes de o desenvolver, produzir e comercializar.
Relembro-me há vinte anos atrás, estava eu na universidade, do relatório do Michael Porter,
com as vantagens competitivas de Portugal. Passaram 20 anos, o contexto económico
alterou totalmente, pensar na China há 20 anos atrás e pensar hoje são realidades
completamente diferentes. O que é certo é que não temos mais nenhum approach
semelhante a dizer quais são as vantagens competitivas de Portugal de 2014. O contexto
económico alterou radicalmente e não somos capazes de nos mostrar, dizer “as nossas
vantagens competitivas agora são estas”, porque o mundo não muda de 20 em 20 anos,
muda todos os anos. E a situação de como vamos promover Portugal. Obviamente que
93
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SEGUNDA SESSAO
todos queríamos que as grandes marcas, as grandes empresas investissem em Portugal
mas, não nos podemos esquecer das médias empresas e o exemplo que eu trago aqui
é das empresas alemãs. Não é possível, nesta altura, aos custos actuais da Alemanha,
continuar a produzir na Alemanha. A Alemanha tem custos de mão-de-obra extremamente
caros sobretudo para produtos de média e baixa gama, e há imensas empresas médias
que têm que deslocalizar e Portugal, na minha opinião, tem o espaço mais que perfeito
para investir. Agora é preciso que eles saibam, criem as mesmas condições para eles e
tenham muitas dúvidas que aquelas comitivas de empresários a fazerem visitas aos
países sem focalizarmos claramente quais as empresas que querem investir em Portugal e
o que lhes vamos oferecer, o que lhes vamos mostrar para ter a confiança, penso que são
fundamentais para que nós tenhamos um approach mais pragmático a quem realmente
quer investir em Portugal e não irmos de uma forma genérica e sem focalizar.
Por último é preciso diminuir os custos de contexto e preocupamo-nos muito com os
custos salariais mas esquecemo-nos muito dos custos de contexto. Continuamos a ter
uma energia mais cara que a Alemanha e isso não é possível. E porquê? Continuamos
a ter dificuldade ao crédito, sobretudo nas pequenas e médias empresas, continuamos
com uma justiça lenta, demorada e, que de certa forma, incentiva a pouca credibilidade de
empresários investindo em Portugal. Continuamos, como o Eng.º Mira Amaral dizia, a reforma
do Estado custa a acontecer. Continuamos a ter uma máquina de Estado burocrática, lenta
e, por vezes, difícil de explicar aos nossos colegas alemães, como temos de produzir não
sei quantos relatórios, como temos de esperar meses por uma simples aprovação de uma
licença industrial, isto é difícil de dizermos aos nossos parceiros e colegas alemães.
Em resumo, a Bosch acredita em Portugal, a Bosch está a pensar continuar a investir
fortemente em Portugal, a Bosch acredita fortemente em Portugal e a prova disso é que os
administradores todos das empresas são portugueses, já não são mais alemães e a Bosch
acredita nos activos de Portugal e das pessoas. Eu penso que temos todas as condições,
enquanto país, para independentemente do tamanho de revivermos o passado e olharmos
para fora, para África ou Brasil porque não? E, obviamente, sabendo que estamos na Europa
e que somos um parceiro fiável.
Muito obrigado.
94
95
~
SEGUNDA SESSAO
“O investimento do Brasil”
EMBRAER
Dr. João Taborda1
A Embraer Portugal agradece ao Sr. Prof. Luís Valente de Oliveira e à Fundação AEP o
convite para participar neste prestigioso evento e partilhar com os participantes os
principais passos relacionados com os investimentos realizados em Portugal pela Embraer.
Desde a conclusão do processo de privatização da OGMA em 2005, até ao anúncio em
2014 do Centro de Engenharia e Tecnologia Embraer na Europa (em diante Centro de
Engenharia e Tecnologia), passando pelas duas novas fábricas em operação em Évora
desde 2012.
Este trabalho da Embraer em Portugal, relevante do ponto de vista da estratégia da
empresa num mercado globalizado e muito competitivo como a aeronáutica, junta-se a um
conjunto de iniciativas que outras multinacionais brasileiras têm desenvolvido no exterior
durante a última década e que, no caso da Embraer, se encontram focadas no objectivo de
reforçarem a sua competitividade a partir da sua base no Brasil.
´ de Multinacionais
Dias antes deste evento, a 15 de outubro de 2014, o Observatorio
Brasileiras da ESPM, escola de Comunicação, Marketing e Gestão com base em São Paulo,
divulgou dados actualizados com base num estudo realizado em 400 empresas brasileiras
e 1000 subsidiárias no exterior, e em que estima existirem hoje mais de 400 multinacionais
brasileiras com presença em 56 países2.
Num segundo estudo derivado do primeiro, a ESPM analisou 78 subsidiárias de 39 empresas
~ no caso
tendo verificado que este processo de internacionalização (hoje já de Globalizacao
´
da Embraer) corresponde a um fenómeno recente, citando que 69% dessas subsidiárias
têm menos de 10 anos de existência. Em 71% dos casos a prioridade é a produção, com
pouco ênfase ainda em áreas de investigação e desenvolvimento, com excepção das
empresas Natura e Braskem e, mais recentemente, da Embraer com os seus Centros de
Engenharia em Melbourne, Florida, e em Évora.
Acompanhando um pouco este movimento no seu sector em particular, a Embraer mantém
hoje em curso algumas iniciativas que complementam a sequência de investimentos no
Brasil que tem mantido desde a sua privatização em 1994, ao mesmo tempo que reforça
o acesso aos mercados internacionais e lhe permite aceder a novo conhecimento e a
tecnologias estratégicas para o seu futuro.
Destacam-se nesse quadro os três projectos empresariais já referidos e desenvolvidos
1
Diretor de Relações Externas, Embraer, Europa, África e Médio Oriente
www2.espm.br/pesquisa/labs/observatorio-de-multinacionais-brasileiras
3
´
´
Em diante designadas, respectivamente, de Embraer Metalicas
S.A. e Embraer Compositos
S.A.
2
96
~
Segunda Sessao
- O investimento do Brasil | Dr. João Taborda
em Portugal na última década: a privatização da OGMA em 2005 e as duas novas fábricas
em Évora anunciadas em 2008 e em operação desde 2012, Embraer Portugal Estruturas
Metálicas S.A. e Embraer Portugal Estruturas em Compósitos S.A.3 , junta-se a esta última
o Centro de Engenharia e Tecnologia anunciado em 2014 e em fase de implantação à data
da realização deste evento.
Como nota, refira-se que as duas empresas em Évora constituem as únicas fábricas da
Embraer detidas a 100% pelo grupo no exterior e que trabalham em exclusivo como
Fornecedores de Primeira Linha para a Casa–Mãe no Brasil.
Pertencendo ao grupo das principais empresas exportadoras do Brasil e reconhecida como
uma das melhoras empresas para se trabalhar na América Latina, a Embraer trabalha assim
para reunir as competências as capacidades necessárias para manter a sua competitividade
a nível global, com a base sólida de atividade no Brasil associada à sua história de 45 anos,
e afirmando-se perante os seus concorrentes nos três principais segmentos de mercado
em que atua: Aviação Comercial, Aviação Executiva, e Defesa e Segurança. A estas juntase ainda uma quarta área, a aviação agrícola onde, em 2004, a Embraer certificou para
utilizar etanol como carburante o modelo Ipanema, o primeiro avião no mundo com essa
funcionalidade.
~ da Embraer
Criacao
´
A ideia de base que levou à criação da Embraer remonta ao período após a II Guerra Mundial,
tendo-se começado a concretizar anos depois, em 1950, com a criação do Instituto
Tecnológico de Aeronáutica, ITA, em São José dos Campos, São Paulo, seguido do início da
atividade do Centro Técnico Aeroespacial, CTA, em 1954.
Mais tarde, em 1969, a Embraer iniciou a sua atividade enquanto empresa estatal, mais
tarde privatizada em 1994 quando atravessava muitas dificuldades. Concluído esse
processo, a combinação do talento já disponível na empresa com uma nova perspectiva
focada nas necessidades de mercado, em sua grande parte trazida pelo parceiro privado,
resultou a que a Embraer se viesse a posicionar nos vinte anos seguintes entre o grupo
das quatro principais construtoras de jatos comerciais do mundo4.
Para além da dinâmica de investimento mantida no Brasil, o período que se seguiu à
3
4
´
´
Em diante designadas, respectivamente, de Embraer Metalicas
S.A. e Embraer Compositos
S.A.
http://www.centrohistoricoembraer.com.br/
97
~
SEGUNDA SESSAO
privatização registou também algumas iniciativas empresariais no exterior que, para além
dos projectos em Portugal já referidos, incluíram na primeira década do século a instalação
de três fábricas fora do Brasil para produção final de aviões para mercados específicos:
uma na China (jatos executivos) e duas nos Estados Unidos (jatos executivos e aviões de
defesa).
´
´
Areas
de Negocio
Com o processo de privatização a Embraer concentrou uma parte muito importante
dos recursos disponíveis no segmento da Aviação Comercial desenvolvendo o jato
regional Embraer ERJ-145, que se tornou familiar ao mercado Português pela presença
desde a segunda metade da década de
noventa nos aeroportos nacionais dos
´
aviões da Portugalia,
um dos primeiros
clientes na Europa. Á data deste evento,
e referenciando-se os dados referentes
ao final do terceiro trimestre de 2014,
este segmento responde por 53.3% do
volume total de negócios da Embraer,
contabilizando-se mais de 1,600 aviões
em operação no mundo, distribuídos por
85 companhias aéreas em 59 países.
Em 1999, e com a família ERJ-145
registando resultados de mercado muito
encorajadores, a Embraer lançou a família
Embraer E-Jets, um dos programas que
mais depressa chegou às 1000 unidades
entregues, marco atingido em Setembro
de 2013. Nesse mesmo ano a empresa
apresentou uma nova versão deste avião,
a família Embraer E-Jets E2, com novos
motores, novas asas e nova tecnologia de
98
~
Segunda Sessao
- O investimento do Brasil | Dr. João Taborda
cockpit, e com previsão de início de operações nas companhias aéreas em 2018. 5
O E2, que conta à data com mais de duas centenas de encomendas firmes, encontra-se
em fase de desenvolvimento utilizando as capacidades disponíveis nas várias unidades da
Embraer no Brasil e no exterior, incluindo na Embraer Metálicas S.A. em Évora.
A foto, recolhida a 17 de outubro de
2014, regista alguns elementos da
administração executiva e administração
não executiva da Embraer S.A. junto da
primeira peça para o primeiro protótipo
do Embraer E-Jets E2, produzida em
Évora nesse mesmo dia.
Á data deste evento, de forma
autónoma e nas suas respectivas áreas
tecnológicas, as duas empresas da
Embraer em Évora, Embraer Metálicas
S.A. e Embraer Compósitos S.A. procuram reunir as condições que assegurem a produção
de componentes e estruturas complexas para a linha de montagem final do E2 no Brasil.
Outro segmento de mercado onde a Embraer tem mantido uma forte dinâmica de
investimento começando no Brasil, é o da Defesa e Segurança, com a Embraer Defesa e
Seguranca contando hoje com vários produtos no seu portfólio, incluindo o Super Tucano
(avião de´ treino militar) e o Embraer KC-390 (transporte), a maior aeronave que a Embraer
já projectou, e que se encontra em fase de desenvolvimento6.
No final do terceiro trimestre de 2014,
o segmento de Defesa e Segurança
respondia por 27.9% do volume de
negócios da Embraer, contando-se mais
de 50 forças armadas entre a carteira de
clientes.
A foto regista o roll-out do Embraer
KC-390 a 21 de outubro de 2014 nas
instalações da Embraer em Gavião
5
6
www.embraercommercialjets.com.br/
www.embraerds.com/portugues/content/home/
99
~
SEGUNDA SESSAO
Peixoto, Estado de São Paulo, correspondendo ao evento em que a aeronave sai do hangar
pela primeira vez. Junto com as bandeiras do Brasil, Argentina e República Checa, a bandeira
Portuguesa regista a participação do país como um dos parceiros industriais no Programa
e a contribuição das organizações locais no trabalho de concepção e desenvolvimento da
aeronave.
A mesma contribuição teve lugar em duas linhas: a que envolveu a OGMA, Empresa de
Engenharia Aeronáutica, EEA, e o centro de inovação CEIIA; e a que disse respeito ao acordo
direto entre a Casa-Mãe e cada uma das duas empresas de Évora, Embraer Metálicas S.A. e
Embraer Compósitos S.A., onde foram fabricados componentes para a aeronave com base
nas competências específicas instaladas.
Respectivamente, nessas duas empresas no Alentejo, foram também produzidas as
maiores peças em alumínio e material compósito que a Embraer produziu em qualquer das
suas unidades industriais na sua história.
Para além do produto de aviação KC-390, a Embraer Defesa e Seguranca (que integra a
OGMA na sua estrutura) tem sido também a base para alguns projectos de´diversificação de
negócio no Brasil, abrangendo áreas como aeronaves não tripuladas, espaço, tecnologias
de controlo de tráfego aéreo, radares e sistemas de vigilância de fronteiras.
A Aviação Executiva corresponde ao terceiro segmento mercado de negócio em que a
Embraer atua contando com uma gama completa de produtos, desde a família Phenom
com os seus modelos 100 e 300, até ao Lineage 1000, jato de maior porte capaz de voar
directamente entre Nova Deli e Lisboa7.
No final do terceiro trimestre de 2014, esta área da empresa respondia por 17.2% do
volume de negócios, com mais de 800 aeronaves em operação, distribuídas por mais de
50 países.
O portfolio da Embraer para este
segmento inclui ainda a gama Legacy
(450, 500, 600 e 650), todos eles
fornecidos pelas fábricas da Embraer
em Évora, e com a particularidade de o
Legacy 500 ter sido o primeiro a integrar
componentes e estruturas produzidas no
Alentejo.
7
http://www.embraerexecutivejets.com.br/
100
~
Segunda Sessao
- O investimento do Brasil | Dr. João Taborda
´
A Presenca Europeia e em Evora
´
A Embraer tem uma base de operação na Europa desde 1983, ano em que se instalou no
aeroporto de Le Bourget, em Paris, tendo expandido mais tarde a sua atividade para um
edifício na localidade de Villepinte, próxima do aeroporto Charles de Gaulle.
Desde a sua criação que esta estrutura em França visa apoiar os clientes que operam
aeronaves da Embraer na Europa, África e Médio Oriente, tendo-se agregado à mesma
equipas comerciais para angariar novas oportunidades na mesma região.
Neste período a Embraer intensificou a sua actividade com fornecedores europeus, de onde
se destacam quatro que, para além de produzirem partes e sistemas para as aeronaves,
trabalham como parceiros de risco nos principais programas da aviação comercial da
Embraer: Aernnova (Espanha), Latecoere (França), Liebherr (Alemanha) e Sonaca (Bélgica).
O enfoque na Europa como fonte de tecnologia registou novo avanço em 2005 quando a
Embraer começou a participar dos primeiros projectos financiados pelo Programa-Quadro
da Comissão Europeia, primeiro dos quais sob a coordenação de uma PME Portuguesa, a
Skysoft, hoje GMV Portugal. Isto numa fase em que se havia concretizado já a privatização
da OGMA.
O ano seguinte traria o início do trabalho com o Governo Português sob coordenação da
AICEP e que conduziu ao anúncio em 2008 das duas decisões de investimento em Évora,
´
para as quais se revelaram cruciais os apoios disponibilizados pelo Quadro Estrategico
de
^
Referencia Nacional, QREN. Com este veio assim uma nova fase da actividade da Embraer
na Europa, marcada pelo empenho e
pelo compromisso assumido de gerar
um contributo para desenvolvimento
regional de Évora e do Alentejo.
A foto apresenta uma vista aérea das
duas empresas industriais hoje instaladas
no Parque da Indústria Aeronáutica de
Évora, com a Embraer Compósitos S.A.
especializada em materiais compósitos
(componentes e estruturas complexas)
e a Embraer Metálicas S.A. em alumínio
101
~
SEGUNDA SESSAO
(também componentes e estruturas complexas).
Em vez de uma mera extensão da sua capacidade produtiva, as decisões de investimento
visaram instalar em Évora duas unidades com tecnologias muito específicas no estado-daarte, com operações industriais distintas mas integrando as melhores práticas empregues
na Casa–Mãe em matéria de gestão da produção e das cadeias de fornecedores globais
que caracterizam esta indústria. Assumindo esta missão, as duas empresas receberam
^
desde o seu anúncio da designação de Centros de Excelencia.
Ao processo iniciado em agosto de 2006 que levou ao anúncio dos investimentos em julho
de 2008, seguiram-se os programas de formação envolvendo os primeiros empregados em
Évora, as obras, a realização dos estágios no Brasil para as primeiras chefias intermédias, a
instalação dos equipamentos e a inauguração oficial em Setembro de 2012.
O bom progresso registado desde o início viabilizou as primeiras exportações para o Brasil
ainda em 2012, na circunstância um estabilizador horizontal em material compósito
com origem na Embraer Compósitos S.A. destinado à cauda do Embraer Legacy 500, e
um conjunto de duas semi-asas em material metálico a partir da Embraer Metálicas S.A.
destinado ao mesmo modelo.
No período que se seguiu as duas empresas concentraram as suas prioridades na melhoria
contínua do seu processo, formação da mão-de-obra Portuguesa e em acordos com a
Casa–Mãe tendo em vista a utilização das tecnologias instaladas em mais produtos da
Embraer.
É então que, com base na respectiva capacidade que foi ficando disponível, cada empresa
começou a trabalhar em programas como o Embraer E-Jets, Legacy 600 e, como referido
no início deste texto, o avião de transporte militar KC-390. Já em 2014, é anunciado em
fevereiro o Centro de Engenharia e Tecnologia e, em agosto, o início das actividades da
´
Embraer Metalicas
S.A. na fase de desenvolvimento do Embraer E-Jets E2.
´
´
Objectivos e Proximos
Passos em Evora
Com as suas operações industriais integradas com a Casa–Mãe e contribuindo para o
reforço da competitividade dos produtos por esta exportados e seu acesso a mercados
102
~
Segunda Sessao
- O investimento do Brasil | Dr. João Taborda
fora do Brasil, é objectivo da Embraer consolidar o papel das duas empresas de Évora na
sua cadeia Global de fornecimentos, reforçando a suas estratégias autónomas enquanto
^
Centros de Excelencia
nas respectivas tecnologias.
Estas estratégias assentarão na capacidade de cada uma das empresas em intensificar
os seus processos de geração de conhecimento nas suas áreas de especialização, quer
recorrendo aos seus quadros, quer sobretudo no âmbito de iniciativas em rede envolvendo
parceiros Portugueses e do resto da Europa como Pequenas e Médias Empresas, Centros
Tecnológicos, laboratórios especializados e universidades.
Por sua vez, e já no processo de implantação em que se encontra, o Centro de Engenharia e
Tecnologia procurará também inserir-se nessas dinâmicas, trabalhando entre necessidades
concretas das operações em Évora e os parceiros externos, e começando pelo tema de
materiais compósitos enquanto principal prioridade.
^
Por outro lado, o reforço permanente do papel dos Centros de Excelencia
assentará
também num trabalho permanente de angariação de novas atividades que mantenham a
capacidade ocupada no nível mais adequado em termos de exploração das economias de
escala desejadas.
Como seguimento às tarefas em curso relacionadas com o desenvolvimento do avião,
um exemplo é a prioridade dada à data deste evento às ações que venham a garantir a
produção em Évora de componentes e estruturas para a produção em série do Embraer
E-Jets E2.
A exemplo do que se verifica já para os produtos da Embraer fornecidos por cada uma das
empresas em Évora, manter-se-á também entre as principais prioridades o desenvolvimento
de cadeias de fornecedores nacionais, devidamente qualificados, e que possam produzir
peças e sub-conjuntos a integrar em Évora nas linhas de produção da Embraer Metálicas
S.A. e da Embraer Compósitos S.A.
Este trabalho teve início em março de 2009, mais de três anos antes da entrada em
funcionamento das fábricas, tendo a Embraer trabalhado em coordenação com a AICEP
na constituição de dois grupos de 10 empresas cada e que, entre outras atividades,
conheceram com mais detalhe as áreas da Embraer no Brasil envolvidas no processo de
subcontratação e foram acompanhadas no processo de cotação, fabrico e entrega de
exemplos de peças que podem produzir recorrendo à base tecnológica instalada.
103
~
SEGUNDA SESSAO
Da possibilidade de cada uma das duas empresas estabelecer a sua respectiva cadeia de
fornecedores, flexível, e produzindo peças a um preço competitivo dependerá também
a própria competitividade das empresas da Embraer em Évora. Tal deve-se ao fato de,
^
enquanto Centro de Excelencia,
cada uma das empresas fabricar apenas peças de grande
dimensão, muito complexas, e específicas ao setor aeronáutica, recorrendo ao mercado
para as centenas de outros componentes de que necessita para completar as estruturas
que exportam diretamente para o Brasil e que são integradas nas linhas finais de montagem
dos aviões da Embraer.
Desta forma, as atividades da Embraer em Portugal e a partir do Alentejo manter-se-ão
servindo cinco objectivos principais:
• Assegurar as dinâmicas de investimento na Embraer Metálicas S.A. e na Embraer
Compósitos S.A. (formação de pessoas e tecnologia no estado-da-arte) que lhes
^
permita manter o seu posicionamento enquanto Centros de Excelencia
dentro do
Grupo Embraer;
• Posicionar as tecnologias específicas instaladas nas duas empresas em programas
de desenvolvimento de aeronaves da Casa–Mãe, consolidando o seu papel enquanto
^
Centros de Excelencia
nas cadeias globais de fornecedores da Embraer;
• Manter a integração completa das operações industriais com as da Casa–Mãe,
partilhando e absorvendo metodologias capazes de otimizar e maximizar o valor
acrescentado associado às tecnologias e processos instalados;
• Continuar o trabalho com atuais e potenciais fornecedores Portugueses ou oriundos
de regiões vizinhas;
• Através da actividades do Centro de Engenharia, reforçar as atividades de investigação e
desenvolvimento, quer no quadro Nacional (Programa Portugal 2020), quer Comunitário
(Programa Horizonte 2020).
~ numa indústria Global por natureza, esta é assim a
No seu movimento de Globalizacao
´
dinâmica que a Embraer pretender manter em Portugal, país que, em conjunto com os
Estados Unidos, China e México forma o grupo restrito de países onde a empresa tem
investido em complemento aos seus projetos na base Brasil.
104
105
~
COMUNICACOES
´
TERCEIRA SESSÃO
A ATIVIDADE E O INVESTIMENTO PORTUGUÊS NO MUNDO
Moderador:
Eng.º Vergilio Folhadela Moreira
“O investimento em Países Europeus”
Dr. Sérgio Marques - Parfois SA
“O investimento na América do Sul”
Dra. Marta Maia - Jerónimo Martins
“O investimento em África”
Dra. Luísa Couto Alves - ACA, SA
“O investimento em outros países”
Dr. Bernardo Brito e Faro - Sogrape Vinhos, SA
106
107
~
TERCEIRA SESSAO
A ATIVIDADE E O INVESTIMENTO PORTUGUÊS NO MUNDO
Moderador: Eng.º Vergilio Folhadela Moreira
Muito boa tarde a todos!
A sala está ainda em recomposição e esperamos que se recomponha rapidamente, mas
vamos dar início à primeira sessão da tarde.
O título desta sessão é a “Atividade e o Investimento Português no Mundo”.
A atividade (e o investimento) Português no Mundo começou há muito tempo, cerca de
500 anos.
Teve muitas vicissitudes pelo meio, teve altos e baixos, infelizmente mais baixos que altos.
Tenho a impressão que estamos talvez numa fase nova, e esperemos que proveitosa e
com êxito, para darmos continuidade a essa nossa tradição de que temos andado um
pouco afastados.
Acho que haverá alguns denominadores comuns de que aqui se vai falar e que serão
comuns a várias das empresas que hoje estão aqui representadas.
Começo por dizer que, quando nós, portugueses, começamos a sério esta actividade não
tanto de investir mas mais de comerciar em todo o mundo, nós (ou quem mandava cá e era
competente), servimo-nos de ferramentas que ainda hoje são aquelas que normalmente
se utilizam.
A primeira foi Business Intelligence. Lembro que vários governantes, mesmo antes de D.
Manuel, mandaram as suas embaixadas de espiões comerciais a coberto do estatuto de
embaixadores, que foram tentar perceber o que é que se passava e quais eram as áreas
em que se podia atuar.
D. Manuel fez outra coisa notável. Nós hoje temos o Euro - e já de manhã foi referido pelo
Eng. Mira Amaral e eu corroboro o que ele disse - uma moeda com circulação mundial.
Quando Vasco da Gama foi para a Índia, partiu já convenientemente armado de uma
moeda que foi a primeira moeda global, que era o Português, os 10 cruzados de D. Manuel
I, o Português de ouro quase puro que, mais tarde, chegou a ser imitado e cunhado de uma
forma falsa e menos pura por países do Norte da Europa. Porquê? Porque realmente foi
um referencial e foi a primeira moeda que teve circulação em toda a parte. Todo o mundo
aceitava o Português como meio de pagamento.
Tivemos apoio diplomático, já referi as embaixadas e, tivemos, também, apoio militar, que,
108
~
^
Terceira Sessao
- A atividade e o investimento portugues
no mundo | Eng.º Vergilio Folhadela
Moreira
enfim, nos dias de hoje vamos admitir será menos necessário (pelo menos de uma forma
tão visível) mas que não deixa de ser importante. O apoio militar é, no fundo, o que dá
sustentabilidade à acção diplomática e assegura que a mesma pode ter êxito.
Tenho a impressão que estaremos hoje perante situações em que temos alguns factos que
são comuns com o que, no passado, fizemos bem feito e que depois fomos perdendo…e
são disso exemplo as empresas que hoje aqui vamos chamar.
Começava, seguindo a ordem, por pedir ao representante da Parfois, o Dr. Sérgio Marques,
que está mais ligado ao tema dos “dinheiros” mas é diretor executivo da marca desde há 8
anos. Portanto, capaz de nos poder contar a história do que é essa empresa, que começou
pequena e que se espalhou por lugares inusitados, por paragens onde já não íamos há
muito e muito tempo e, com êxito!
109
~
TERCEIRA SESSAO
“O investimento em Países Europeus”
Parfois SA
Dr. Sérgio Marques
Bem, antes de mais, muito boa tarde. Gostaria de agradecer o convite da AEP. Tenho muita
honra em estar aqui em representação da Parfois e espero que este “bocadinho” vos possa
ser útil.
A Parfois começou há 20 anos atrás, numa loja que fazia esquina entre a Rua de Santa
Catarina e a Rua Fernandes Tomás. A loja ainda hoje lá está e, portanto, é uma loja que
corre bem.
Ou seja, temos 20 anos de percurso enquanto marca de acessórios de moda. A Parfois
começou a crescer muito desde a altura em que foi inaugurada porque aproveitou muito
o ciclo da criação de Shoppings em Portugal e, foi uma das primeiras marcas a fazer
franchising e, portanto foi sempre subindo até este ano.
Optei por partilhar isto para que realmente se perceba que as empresas são feitas de
sucessos, de crises e, é muito importante passar essas crises.
Estes chavões de L4L significam “Like for Like” na gíria de retalho que no fundo representa
o comparativo de vendas com o período anterior, apenas para as lojas comparáveis, ou seja,
excluindo as lojas que abriram e as lojas que entretanto fecharam nesse período.
Portanto, em 2005, nós tivemos uma baixa de 7% e, em 2006 de 10%. Nesta altura, como
imaginam, a empresa estava numa crise muito grande, felizmente não numa crise financeira
mas numa crise quase existencial e obrigou-nos a ir, digamos assim, ouvir os clientes. E, foi
o que fizemos. Os clientes deram-nos algumas dicas, não que fosse novidade mas fizeramnos sentir que o que estávamos a pensar era importante. E, grosso modo, o que eles nos
disseram foi: as lojas da Parfois não são acolhedoras, nós não nos sentimos bem na loja,
gostamos muito do produto mas, quando estamos dentro da loja sentimo-nos apertados
e o produto está arrumado de uma forma complicada, demora-nos muito tempo.
Nós em sequência disso fizemos uma revisão grande ao que é a marca, uma reflexão
grande à forma da empresa trabalhar e, definimos nesta altura, uma visão de futuro que é
ainda hoje, para nós, o grande guia. Nós definimos que a Parfois deverá ser a melhor marca
de acessórios onde quer que opere. E, portanto, este é o sonho e, o que significa que todos
os dias, todas as opções que se tomam têm de ter isto em consideração. Será que esta
opção é digna de alguém que quer ser a melhor marca de acessórios no mercado onde
esteja? E, portanto, imaginem, isto ao nível da decoração, de ter uma determinada equipa
110
,
~
Terceira Sessao
- O investimento em Paises Europeus | Dr. Sérgio Marques
em loja, faz diferença.
E, como é que nós definimos os principais pontos de ataque, os principais factores críticos
para chegarmos lá? Primeiro que tudo nós definimos que devíamos estar na moda. Ou
seja, a Parfois vai “atacar” (no bom sentido) o cliente que procura moda. Ao definirmos isto,
vamos diferenciar-nos de muitas marcas que estão no mercado e que fornecem produtos
que não são de tendência. Ou seja, produtos que são permanentes, produtos que de um
ano para o outro se mantêm enquanto a Parfois segue uma linha de design de moda
tendência.
E, portanto, nessa altura também reforçamos a equipa de design da empresa e, os
produtos que vocês vêm nas lojas são desenhados todos internamente na Parfois. Temos
uma equipa de designers no Porto e outra em Barcelona. A de Barcelona é pequena
mas, nesta altura, foi um salto grande. Ou seja, nós para contratarmos um determinado
designer, na altura, vimo-nos obrigados a abrir um escritório em Barcelona porque ele
não queria vir trabalhar para o Porto apesar de gostar muito do projecto. Felizmente hoje
já conseguimos atrair gente para o Porto que na altura não era possível. O Porto hoje é
uma cidade atractiva. Só por curiosidade, outro dia estava a almoçar com uma pessoa de
Barcelona, numa sexta-feira e perguntei “então ficas no fim-de-semana?” e ela diz “fico,
vim com uma amiga minha e venho cá pelo menos um fim-de-semana por mês passar a
noite de sábado para domingo.” Portanto o Porto, neste momento é muito atractivo e, isto
facilita-nos muito esta parte dos expatriados.
Definimos também que iriamos ter muita variedade de produto, ou seja, já que somos
especialistas em acessórios temos de ter variedade. O nosso volume de negócio assenta
muito nisto: novidades em lojas todas as semanas. Porquê? Porque o preço do produto é
muito acessível, é um preço razoavelmente barato e, se não houver muito movimento em
loja, muitas transacções, obviamente que não é negócio. E, portanto, haver novidades,
juntamente com isto, com o dinamismo na loja, ou seja, nós mudamos a apresentação da
loja todas as semanas, além do produto novo e o cliente gosta de voltar à loja para ver
o que há de novo. Portanto, este é um ponto-chave no nosso modelo. Se repararem o
produto da montra todas as semanas é mudado.
E, depois, outro factor muito importante o visual merchandising é outro chavão de retalho
quer dizer a forma de expor o produto para o cliente. E, portanto, nós começamos a tratar
o produto de uma forma muito clara, para o cliente encontrar rápido o que precisa quando
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TERCEIRA SESSAO
chega à loja e ser apelativo à compra.
Por exemplo, quando fazemos uma colecção de carteiras, temos um modelo grande, um
modelo pequeno, um modelo médio, a traçar, a de ombro…porquê? Porque isso vai fazer
com que se sinta um ambiente de moda, de colecção dentro da loja, coisa que, por exemplo,
nós há 10 anos atrás fazíamos carteira a carteira e, portanto isso ao nível da exposição e
da atractividade não era tão bem feito.
Outro factor importante é o serviço ao cliente que para nós é crucial. As pessoas precisam
de ajuda quando estão em loja, as pessoas precisam de alguém que lhes dê apoio na compra
e, nós na altura, introduzimos duas situações superimportantes. Uma foi a remuneração
variável de todas as pessoas. Ou seja, aqui tratamos da parte loja, mas em toda a empresa
temos remuneração variável, incluindo pessoas do centro logístico e, em paralelo, tratamos
de ter um cliente mistério que vai de 3 em 3 meses às lojas avalia o serviço que vê na loja e
as pessoas têm também uma remuneração variável em função dessa avaliação. Portanto,
isto no final, fez com que o ciclo se fechasse e as pessoas estivessem motivadas para
tratar bem os clientes.
E, enfim, também todos os upgrades que fizemos. Mudámos muito a decoração da loja, o
produto enriqueceu muito e continuamos sem nunca mexer no preço. Ou seja, uma carteira
equivalente hoje e há 10 anos custa exactamente o mesmo preço na Parfois e, enfim, isto
inclui pelo meio subidas de IVA, foi tudo absorvido pela empresa na altura.
Definimos também valores para a empresa que para nós são importantes e são importantes
desde logo no momento do recrutamento. Ou seja, quando estamos a tratar de alguém que
vai ou não entrar para a empresa nós temos de avaliar se essas pessoas vão ou não estar
alinhadas neste género de valores. E, os dois primeiros valores, que são os que eu saliento
hoje, são os valores por norma mais fáceis de encontrar. Porquê? Porque eram valores muito
vividos pela própria accionista da empresa. Não disse logo no início, mas aproveito para
referir agora, a Parfois é detida a 100% pela Manuela Medeiros, uma empreendedora do
Porto e, portanto, tem uma accionista única com todas as características que daí advêm. E,
portanto foi muito à imagem dela a definição dos valores. O primeiro: ambição, no sentido
de dizer “eu posso fazer tão bem como qualquer outro e também eu próprio posso fazer
amanhã melhor do que o que faço hoje”. E, isto marca uma certa pauta. O seguinte valor
tem que ver com a humildade. Humildade no sentido de reconhecer que posso aprender
com quem está ao meu lado e quem está à minha frente, seja do nosso negócio ou de
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Terceira Sessao
- O investimento em Paises Europeus | Dr. Sérgio Marques
outro negócio. Isto é muito importante porque as pessoas quando se fecham numa
redoma e dizem “eu é que sei” as coisas não andam para a frente. E, portanto, este foi para
nós também um ponto fundamental.
Para quem está menos familiarizado, isto são imagens da loja da Parfois, a área que nós
mais trabalhamos é a área de 90m2, no passado trabalhávamos com áreas de 30 ou 40
m2 e, nós naquela altura, em 2007, definimos como grande objectivo em 2012 duplicar
facturação. E, como tal, dissemos “temos de crescer muito em canais próprios, naqueles
mercados que para nós são mais importantes.” Portanto aqui ditou um pouco a estratégia de
expansão. Dissemos “no mercado europeu, por exemplo, Espanha, nós queremos ir direto,
não queremos franchisar. Mas, todos aqueles países que são fora da Europa, que não são
mercados maduros, vamos optar por trabalhar em franchising. E, na altura definimos que
deveríamos trabalhar todos os mercados do Oriente, Europa Central e Europa de Leste.
E, partimos à procura desses mercados, arranjar parceiros nesses mercados e abrir lojas.
Na altura a estratégia foi esta. Foi dizer assim: esses países são menos maduros, nós se
começarmos já, vamos ter “algum ganho” do que se começarmos daqui a 5 anos. Se formos
agora para a Alemanha, por exemplo, a Alemanha já tem os centros comerciais todos
construídos, as marcas já estão lá todas, provavelmente é preferível ir para a Alemanha
quando estivermos melhor preparados e vamos ganhar massa crítica. E, portanto, no fundo,
foi o que acabou por acontecer. Só para dar uma ideia, o objectivo de 2012, praticamente,
foi atingido em 2010. A Parfois em 2005 faturava 25 milhões de euros e portanto fez
praticamente os 50 milhões em 2010. Conseguimos antecipar quase 2 anos.
Hoje em dia nós estamos em 51 países. Os que estão a encarnado são os países que nós
estamos a fazer directo. Só para dar a ideia, nós estamos em Portugal, Espanha, França,
Polónia e começamos Itália e Alemanha este ano. Portanto abrimos a primeira loja em Itália
e na Alemanha este ano e todos os outros países foram crescendo. De longe para nós o país
maior é Espanha. Hoje estamos com 125 lojas em Espanha e com um ritmo de aberturas
forte, este ano, no final do ano, deveremos ter aberto 40 lojas neste país. E, depois, não
vou maça-los a contar os países todos, mas no fundo a Europa de Leste, Europa Central
e Médio Oriente estamos praticamente em todos. Temos algumas incursões por África,
nomeadamente Marrocos, Angola e Moçambique. E, na Ásia temos um apontamento
nas Filipinas, é o único país onde estamos e, abrimos há 1 ano e meio América do Sul –
começamos na Venezuela que, não vou maça-los com as peripécias mas é um País com
algumas particularidades. Começamos na Colômbia, na República Dominicana, no Panamá
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TERCEIRA SESSAO
e mais recentemente na Guatemala, no Peru e no Brasil.
Enfim, este tem sido o crescimento da empresa desde 2010, portanto, é um crescimento
médio de 31%. Significa que as vendas de 2008 a 2013 multiplicaram por 3,5 vezes e o
peso de Portugal em 2013 foi 33%, ou seja, as vendas de Portugal em loja, ainda assim,
pesaram 33%. Este ano vão ficar muito perto de 25%. Portugal praticamente não tem
espaço para crescer, nós em Portugal temos 114 lojas e, assim sendo, não há grande
espaço para expansão. Portanto são 114 lojas num total de 525, estamos mais ou menos
com ¼ das lojas em Portugal.
Gostaria ainda de dar uma ideia, que para nós era importante em termos estratégicos, não
ter mais de metade do negócio em franchisados e, como tal, hoje em dia temos 55% do
negócio próprio e os 45% estão a ser trabalhados com franchising. Isto são números de
Dezembro, nós tínhamos 1720 pessoas no negócio direto, não contando com franchising
e, no ano passado, tínhamos contratado cerca de 400 pessoas incluindo lojas, sendo que
o grosso são lojas, este ano o ritmo de crescimento é, em termos de números de pessoas,
muito idêntico.
Há pouco não referi, no gráfico de crescimento, nós este ano estimamos crescer 26%.
Dito isto, gostava de fazer algumas reflexões: 1º é que nós nos sentimos o David a lutar
contra Golias. Nós estamos numa altura da vida em que a Parfois já não é uma empresa
pequena mas também não é uma empresa grande. Quando nós estamos no mercado
estamos a lutar contra os maiores do Mundo. Começa desde logo pela Inditex. Ou seja,
o nosso tipo de produto é um produto que está a ser trabalhado cada vez melhor pelas
marcas de roupa, portanto, a nossa concorrência, e até pela escolha que fizemos de estar
no negócio da moda, a nossa concorrência são cada vez mais as marcas especializadas
em acessório porque essas não estão a seguir o caminho, a maior parte delas, da moda.
Ou seja, com acessórios mais permanentes e acessórios que não seguem as tendências.
Agora nós, de facto, estamos a lutar contra empresas que têm meios que para nós são
inalcançáveis. A Inditex se quiser contratar os 10 melhores designers para resolver um
problema inesperado que tenham na bijuteria, contrata ao preço que for e não pensa duas
vezes e nós não podemos fazer isso; se quiser abrir uma loja na melhor rua de uma cidade
qualquer, nem pensa duas vezes, compra o edifício e abre a loja. Obviamente que nós não
temos esses meios e, portanto, temos de nos munir das armas que podemos.
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Terceira Sessao
- O investimento em Paises Europeus | Dr. Sérgio Marques
O nosso modelo de negócio foi, desde o início, pensado para poder ser replicável e escalável,
ou seja, eu tenho de conseguir abrir lojas como se fosse uma fábrica de lojas. Nós este
ano vamos abrir mais de 100 lojas e, essas lojas, como imaginam, são mais de 100 são
2 por semana em média, sendo que há semanas em que se abrem 4 e 5 e semanas em
que não se abre nenhuma…isto não é um relógio suíço, as coisas acontecem quando há
oportunidade e, portanto, a empresa tem de estar preparada para abrir lojas como quase
se de facto de uma fábrica de lojas se tratasse.
Em termos de cadeia de valor nós estamos nos pontos que para nós são de valor
acrescentado desde o primeiro dia, nomeadamente o design, a distribuição, a cadeia
logística e a marca, quando digo distribuição refiro-me às lojas propriamente ditas. Toda a
parte de produção e de transporte foi sempre subcontratada a 100%.
Não queria deixar também a oportunidade para partilhar convosco algumas reflexões.
Primeiro a Inditex, hoje em dia, é a maior marca de retalho de moda do mundo (vamos dizer
assim aqui não me refiro à moda em particular, mas digamos a vender roupa). Partem ali
de uma terrinha chamada Arteixo na Corunha. Portanto, aquilo que nós fomos ouvindo,
que nós “somos o canto da Europa, estamos na periferia, aqui não há oportunidade”…Eles
partiram de Arteixo. Arteixo, comparado com o Porto é uma aldeia mesmo! E, portanto,
depois disto não há desculpas, qualquer pessoa em qualquer parte do mundo pode fazer
qualquer coisa. E, de facto Portugal tanto pode ser periférico como pode ser central. O
mundo como é redondo dá para fazer umas brincadeiras.
Muito obrigado.
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TERCEIRA SESSAO
Moderador - Eng.º Vergilio Folhadela
Foi-nos apresentado algo que me permitiria sublinhar: havia conceitos claros e testados,
havia uma estratégia e houve uma vontade.
E de facto, uma empresa que começou por ser pequena e que hoje começa a ganhar
dimensão num canto quase esconso da Europa, fora das capitais e dos centros que ditam
as tendências do mundo da moda, foi capaz de se afirmar pelo mundo inteiro, no negócio
da moda, ou seja, não há impossíveis.
Os meus parabéns para quem realmente é capaz de fazer o que fizeram. Um bom exemplo
que podemos adotar.
Julgo que um outro bom exemplo é o que nos vai ser apresentado agora.
Alguém que estava cá em Portugal confortavelmente instalado, há uns anos atrás, e
que resolveu avançar para novos mercados. Teve uma ou outra aventura que correu mal.
Mas, às vezes, é dos erros que se recolhem alguns ensinamentos. E pode ter sido isso
que aconteceu. Refiro-me à Jerónimo Martins, aqui representada pela Dra. Marta Maia,
sua diretora de recursos humanos para Europa e para América do Sul (Colômbia neste
momento) e que, naturalmente, também nos vai dar uma visão muito ligada à dimensão
humana deste negócio. Muito obrigado pela sua presença.
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TERCEIRA SESSAO
“O investimento na América do Sul”
Jerónimo Martins
Dra. Marta Maia
Foi com muito agrado que recebemos o convite para falar do investimento do Grupo
Jerónimo Martins na América Latina.
O que gostaria de partilhar convosco para além daquilo que são os grandes indicadores
económicos, é uma visão mais personalizada, do ponto de vista de cultura e de valores, a
importância que as diferenças culturais têm na estratégia e no desenvolvimento do nosso
negócio.
Tenho tido o privilégio de acompanhar o nascimento da nossa operação na Colômbia
e, portanto, de alguma maneira, talvez possa partilhar convosco de viva voz a minha
experiência neste país da América do Sul.
Gostaria de partilhar sobretudo três grandes ideias chave:
1.º A abordagem de Jerónimo Martins à expansão e ao crescimento internacional. Como
é que nós olhamos em termos estratégicos para aquilo que são os denominadores
comuns duma expansão e de um crescimento além-fronteiras.
2.º Os nossos ensinamentos e as nossas aprendizagens na experiência da
Internacionalização. Nós temos três experiências de internacionalização, uma bemsucedida na Polónia, uma mal-sucedida no Brasil e uma que ainda é um ponto de
interrogação.
3.º O que levamos na nossa bagagem de Portugal e da Polónia quando nos
apresentamos na Colômbia e o que é que podemos esperar deste país em termos de
retorno.
~
´
Qual e´ entao
a abordagem, qual e´ o denominador comum que Jeronimo
Martins tem cada
~
~
vez que fala de expansao
ou de internacionalizacao
?
´
Em primeiro lugar, somos filhos das circunstâncias onde vivemos. Existe um código
genético fortíssimo de empreedorismo que vem da família Soares dos Santos. Há uma
vontade de crescer e a ambição de fazer mais e melhor e isso faz toda a diferença quando
uma empresa decide expandir-se internacionalmente.É um grupo que está numa família
há mais de quatro gerações, e esta vontade de crescer está sempre presente.
118
,
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Terceira Sessao
- O investimento na America do Sul | Dra. Marta Maia
Em segundo lugar é uma Companhia que aprende com os erros, tem uma memória colectiva
bastante forte e sabe transformar os erros em oportunidades e lições de aprendizagem
para o futuro.
Tendo em consideração este pequeno enquadramento os denominadores comuns do
processo de internacionalização da Jerónimo Martins são os seguintes:
• Uma abordagem de formato único, uma operação de mass market.
Não acreditamos que para o nosso tipo de actividade o nicho possa funcionar e,
neste sentido, não temos tanto uma estratégia de pulverização como a mas temos
claramente mais de crescimento e consolidação e, por isso, neste momento só
estamos, em três geografias apenas, com 80 mil colaboradores e, a distância que
temos desde o primeiro momento em que entramos num primeiro país em 95 até que
voltamos a entrar num terceiro país é de quase vinte anos. Portanto, de facto, existe
um exercício de dive in cada vez que entramos num país para montar um negócio.
• Foco no Core Business.
Não vamos diversificar, o nosso portfólio. Somos bons na distribuição alimentar. É na
distribuição alimentar que temos as nossas competências e que acreditamos, para já,
que temos as nossas forças para fazer crescer o negócio.
• O perfil de risco consistente.
Olhamos para economias relativamente emergentes com bons indicadores económicos
não tanto para economias de mercado mais maduras.
~
Quais as aprendizagens do Processo de Internacionalizacao
?
´
A primeira aprendizagem: ter uma dívida controlada cada vez que nos internacionalizamos
temos de garantir que nos alavancamos em dívida mas só até um determinado limite. Esta
foi uma aprendizagem que saiu cara ao grupo Jerónimo Martins entre 2000 e 2002 quando
passamos por um profundo processo de reestruturação; uma segunda aprendizagem:
não menosprezar as questões culturais, históricas e as questões sociais do povo onde
estamos a investir.
O Grupo entrou em 95 na Polónia e em 97 no Brasil, acabamos por estar simultaneamente
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TERCEIRA SESSAO
em dois países e a verdade é que não tínhamos nem massa crítica, nem dimensão, nem
recursos humanos para estarmos simultaneamente em duas frentes de batalha.
Seria mais fácil, à partida, acreditar que no Brasil iria correr melhor do que correu na
Polónia e foi exactamente o contrário. De algum modo as diferenças culturais foram mais
negligenciadas no Brasil do que na Polónia.
O Brasil era um país irmão, falávamos a mesma língua… ou pelo menos assim pensávamos.
De facto não falamos a mesma língua que os brasileiros. Pensávamos que trabalharíamos
do mesmo modo, de facto, não trabalhamos do mesmo modo que os brasileiros. Pensámos
até que, uma vez que estávamos a comprar uma empresa que era uma cadeia de
supermercados, teríamos o know-how que vinha do Pingo Doce, que era o nosso core
business e portanto seria mais fácil continuar a desenvolver o modelo de negócio e isso
não veio a acontecer.
No entanto, na Polónia, um país muito mais difícil que não conhecíamos, uma língua que
era um obstáculo natural a qualquer coisa que quiséssemos fazer, um país frio, um país
do ponto de vista do hábito do consumidor completamente diferente em termos de
gastronomia e um modelo de negócio que nós não conhecíamos provou ser uma boa
conquista.
Hoje olhamos para trás e vemos uma enorme história de sucesso na Polónia e uma história
menos bem-sucedida no Brasil. Aprendemos que cada país é um caso único.
^
´ ?
O que fomos encontrar na Colombia
e o que podemos esperar deste Pais
Entrámos na Colômbia de uma forma completamente inovadora, como um entrepreneur
pessoal que traz uma mochila às costas com algum dinheiro para investir mas que não
tem contactos e que não tem sequer um escritório físico. A equipa da Colômbia começou
em Novembro de 2011 numa pequena sala de 20m2 com uma mesa de reuniões para 6
pessoas. Não estávamos habituados a isto mas tivemos flexibilidade, coragem e resiliência
para perceber que tinha de ser assim. O que é que nós vendemos aos colombianos? O que
vendemos foi um sonho, uma visão e uma ambição. Depois montámos uma estratégia
muito própria, teve que ver, no fundo, com aquilo que acreditávamos que poderia ser a
nossa estratégia.
A nossa abordagem de recrutamento também foi diferenciadora. O primeiro empregado a
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Terceira Sessao
- O investimento na America do Sul | Dra. Marta Maia
recrutar na Colômbia foi o Director de Recursos Humanos. Não usamos executive search
internacional, decidimos usar executive search local precisamente porque acreditávamos
que a capacidade de network na primeira fase seria maior. Antes de convidarmos os
colombianos a fazerem parte da nossa organização convidamo-los a virem à festa de natal
em Portugal, ainda sem terem assinado um contrato porque tinham de perceber quem
eramos nós portugueses, quem era esta gente que queria fazer a diferença e ficar na
Colômbia durante muitos anos e tivemos o grato prazer de perceber depois as diferenças
entre Portugal, a Colômbia e a Polónia.
^
O que e´ que nos encontramos na Colombia
?
Na ausência do CEO do Grupo passarei a ler a Carta de Pedro Soares dos Santos aos
Colaboradores Colômbianos.
“Gostei da Colômbia desde o primeiro minuto em que numa viagem de estudo do país,
para avaliarmos a possibilidade de iniciarmos aqui a nossa actividade, pisei o seu solo.
Gostei da temperatura amena, dos sorrisos, da alegria, da atitude aberta do seu povo.
Gostei de ver muitas crianças, do sentido de família dos colombianos, do orgulho que
têm na sua pátria e em tudo o que nela nasce. Gostei de ver a imensidão das terras
agrícolas, da força da indústria da capacidade produtiva, o compromisso crescente
com a educação e a qualificação das pessoas. Sei bem que a Colômbia não é um país
perfeito. Não há países perfeitos como não há empresas perfeitas, pessoas perfeitas
ou vidas perfeitas. A perfeição é uma ilusão perigosa porque nos impede de ver e de
sentir o que é mais importante: a vontade, determinação de um povo em superar-se
e afirmar o seu país na cena mundial. Sei que a Colômbia é um país de contrastes e
contradições, que o sorriso do seu povo guarda também as mágoas e a dor de uma
história recente conturbada e de um presente que está ainda muito aquém do sonho,
que as imensas riquezas naturais não impedem que uma grande parte da população
tenha vidas muito muito difíceis e esforçadas.
Sei que apesar das maravilhas que este país encerra, o mundo habituou-se a olhar
para a Colômbia através das terríveis manchetes noticiosas, reduzindo um país aos
seus problemas, tomando uma parte da população por todo um povo.
Gosto de olhar para a Colômbia pelo lado da oportunidade e do enorme e promissor
potencial que nela vejo, da enorme vontade de vencer que nela sinto. É das mais
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TERCEIRA SESSAO
antigas Repúblicas do mundo, a democracia faz parte da sua essência. Tem uma
população jovem e em crescimento, um governo empenhado em reformas estruturais
e em conquistar para a Colômbia o seu lugar por direito próprio no mundo. Temos de
fazer parte da nova era que se abre para este país secular, queremos contribuir para o
seu crescimento investindo, criando emprego, apoiando a agro-indústria colombiana,
apoiando as comunidades envolventes das zonas onde vamos operar. Queremos, acima
de tudo, ajudar a mudar para melhor a vida do maior número possível de colombianos.
É este o desafio que quem se junta a nós aceita, é este o entusiamos que esperamos
de quem chega, é com esta missão que pretendemos que se identifique”.
Para além desta visão muito pessoal do CEO, a Colômbia é uma verdadeira democracia, é
um estado de direito há mais de 100 anos. Tem uma população de cerca de 40 milhões
de habitantes o que para nós é uma mais-valia porque precisamos de ter dimensão e
massa crítica e é um país jovem, um país em crescimento. Tem um sistema jurídico e um
sistema fiscal relativamente estáveis e tem também, um governo que quer fazer algumas
reformas estruturais. É um país que sempre cumpriu com as suas obrigações fiscais, nunca
entrou em default. É um país que é a terceira economia da América Latina com indicadores
económicos que acreditamos podem fazer deste país um país promissor.
Quando chegámos à América Latina encontrámos uma classe média pujante, muito rica
em ideias mas uma classe média milionária em expectativas. Entender isto e perceber esta
cultura é fundamental para percebermos o que temos para fazer naquele país e, perceber
que a abordagem que usamos na Polónia não é, de todo, a abordagem que vamos usar na
Colômbia. Nós encontramos ao nível do consumidor e ao nível do colaborador enormes
diferenças.
O consumidor colombiano é um consumidor muito emocional, por mais pobre que seja
compra com as emoções. O conceito de pobreza na Colômbia não é igual ao da Polónia
nem igual ao de nenhum país europeu. Na Colômbia, se eu perspectivar que posso ter
dinheiro até ao fim da próxima semana eu sou uma pessoa feliz. Na Polónia isto é o oposto,
o polaco é uma pessoa que, por todas as razões históricas é muito mais disciplinada do
ponto de vista do preço, é muito mais racional quando tem de escolher o sortido e de
aforrar algumas economias. O colombiano funciona ao contrário. Precisa de alguém que
lhe dê mais do que aquilo que ele compra. Paga pouco por um produto mas exige muito e
um elevado nível de serviço.
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Terceira Sessao
- O investimento na America do Sul | Dra. Marta Maia
Há uma série de diferenças entre os colombianos e os polacos que vão ter impacto no
desenvolvimento do nosso negócio. Para além disso, mesmo ao nível dos colaboradores,
chegamos à Polónia e encontramos um exército, de gente disciplinada, gente muito
hierárquica, de alguma maneira até fria na abordagem, gente que distingue muito bem
o que é a fronteira da vida familiar e a fronteira da vida pessoal. Na Colômbia é o oposto.
São completamente transparentes, completamente afectivos. Um expatriado que chega à
Colômbia, passado 3 dias já está a jantar em casa do colega e a conhecer toda a família. A
Polónia, é talvez o país da Europa onde existem menos expatriados e onde existem menos
estrangeiros.
Portanto, quando entramos em cada um destes países não trazemos modelos pré
formatados nem fazemos copy paste, procuramos ler a realidade envolvente do nosso
Consumidor e ajustamos a nossa Estratégia de Negócio ao local onde estamos a investir.
Na Colômbia e na América do Sul existe uma economia informal brutal que pode ser vista
como oportunidade porque, de facto, quando olhamos para o nosso sector de actividade,
para o retalho organizado, 80% do retalho na Colômbia ainda é tradicional, são as chamadas
tiendas de barrio e, nós acreditamos que existe um trabalho grande que pode ser feito ao
nível de introdução de algumas regras no retalho mas, não deixa de se perceber que a
economia informal tem imensos perigos no dia-a-dia daquele país.
Anúnciámos 400 M€ para os primeiros 5 anos de investimento. Queremos ser um business
partner considerado neste país. Queremos crescer com o país. Queremos criar emprego.
Vamos tentar ajudar a dinamizar a indústria e a agricultura local e, queremos crescer com
os fornecedores e apoiar as comunidades envolventes.
Por fim, deixo-vos apenas algumas conclusões, algumas notas que fomos retirando dos
nossos processos de internacionalização.
Em primeiro lugar olhar para as oportunidades para lá das dificuldades. Em segundo lugar
perceber que temos de ter uma capacidade grande de saber ler os mercados e as realidades
que nos rodeiam, ou seja, para lá dos indicadores macroeconómicos entender a cultura e os
valores do povo bem como a sua história e as suas convicções. Criar equipas multiculturais,
com conhecimento e disponibilidade para aprender e para desenvolver os outros. No nosso
mercado em concreto não há espaço para globalização ou cópias, somos locais e agimos
como tal e, as nossas marcas, são consideradas nacionais. Na Polónia somos polacos, na
Colômbia somos colombianos.
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TERCEIRA SESSAO
Desde já agradeço a todos, uma vez mais, o convite e agradeço a oportunidade que me
deram de estar hoje aqui presente.
Moderador - Eng.º Vergilio Folhadela
Já vimos investimentos de empresas em países europeus e bem fora dessa área, também.
Neste caso, na América do Sul. Enfim, aprendemos algo de geografias um pouco diferentes
e, de alguma forma, um tanto ou quanto inusitadas.
Vamos agora ouvir falar de um investimento num destino que nos é muito familiar, com
quem convivemos durante muito tempo, durante muitos séculos. Depois saímos de uma
maneira estranha e, agora, estamos a regressar de uma forma nova e completamente
diferente.
Vai falar-nos a Drª Luísa Duarte, que está aqui a substituir o seu marido Alberto Couto
Alves, que teve um acidente e portanto não está em condições, pelo que lhe pediu para,
sendo também membro do Conselho de Administração do grupo, fazer a apresentação
sobre a fórmula que estão a utilizar para terem sucesso em Angola.
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TERCEIRA SESSAO
“O investimento em África”
ACA, SA
Dra. Luísa Duarte
Muito boa tarde a todos. Lamentavelmente não era eu que deveria estar aqui hoje, mas as
circunstâncias não permitiram que fosse o nosso Presidente a transmitir o seu testemunho
quanto à experiência do Grupo em Angola. Agradeço a Vossa compreensão e penso que
poderei de alguma forma ajudar, uma vez que conheço o processo de Angola praticamente
desde o seu arranque e tive o privilégio de o vivenciar. Poderei, de alguma forma, transmitir
aqui aquilo que é o cunho mais pessoal deste processo.
Portanto, esta apresentação visa partilhar experiências sobre Angola. Foi o nosso primeiro
processo de internacionalização e o que tem a maior expressão em termos de atividade do
grupo. Haverá certamente aqui pessoas conhecedoras do mercado Angolano, que penso
que podem ajudar também a que esta partilha seja mais rica e, para quem queira ir e esteja
aqui à espera de colher alguma fonte de motivação, espero que possa ser útil.
A orientação desta intervenção seguirá uma lógica simples do que foi o início do processo
de internacionalização em Angola, o que estamos a fazer atualmente e onde queremos ir.
A primeira questão que se coloca é: porquê Angola? E como é que nós iniciamos este
processo?
Houve viagens a vários países, nomeadamente continente africano, continente
americano (concretamente América do Sul) e, houve numas primeiras viagens a Angola
uma percepção muito clara relativamente ao que eram os recursos do país, riquíssimos,
e à estabilidade política. Estamos a falar do início da década de 2000, sensivelmente
2002, fase em que se evidenciava, acima de tudo, uma carência de infra-estruturas brutal,
naturalmente expetável após o período longo de guerra que o país sofreu. Havia ainda
que ressaltar que a motivação do governo para apoiar o investimento privado através
de incentivos, nomeadamente à redução de carga fiscal ou mesmo isenção permitia, de
alguma forma, cativar as empresas e a dinamização do tecido empresarial. De facto foi
nessa senda, ao abrigo da Lei do Investimento Privado, que foi criada a AngolACA, uma
empresa vocacionada para o sector da construção, que foi o setor de início da atividade
do grupo e é o setor core do mesmo. Constituímos a AngolACA através da ANIP e foi com
isto que começámos.
Não querendo maçá-los muito com o passado, será todavia importante termos uma ideia do
rumo que levou a este processo. Como é que nós começámos? Começámos por identificar
126
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Terceira Sessao
- O investimento em Africa
| Dra. Luísa Duarte
Luanda como a província mais interessante sob o ponto de vista de acessibilidades, centros
de decisão, etc., para nos instalarmos inicialmente e, designadamente, para começarem a
instalar aquilo que seria necessário a montante da construção, que era o setor que nos
levava lá em primeira instância. Instalou-se o primeiro centro industrial para fabrico de
inertes, pré-fabricados, essencialmente ligados ao sector da construção. Entendeu-se
também que, dada a carência do país, para ter sucesso, o processo teria de ser verticalizado.
E foi assim que começou, desde a exploração dos inertes até à sua transformação e
posterior incorporação na construção.
Em termos de estratégia começou-se em Luanda mas, sendo o país grande como é,
tem províncias com carências enormes. Cedo percebemos que, de facto, as grandes
oportunidades em termos de construção de infra-estruturas, nomeadamente viárias,
estavam nas províncias.
Dada a situação de carência do país e a falta de oferta percebemos que tínhamos de ser
autónomos e, portanto, a estratégia foi criar centros de valências, aliás multivalências, de
suporte à operação em diferentes províncias, faseadamente. O nosso Presidente envolveuse e esteve sempre pessoalmente presente, em diversos momentos e em todas as viagens
que eram feitas nas picadas, em jipes porque não havia estradas, quando era uma aventura
realizar determinadas viagens, face à inexistência de infra-estruturas mínimas. Era para o
mesmo fundamental envolver-se no reconhecimento do que eram as necessidades locais,
na ligação com as comunidades locais, naturalmente acompanhado de uma equipa que
participou também. Ou seja, isto determinou um contacto com o terreno que pensamos
ter sido determinante para nos podermos adaptar à realidade local, desde logo porque o
modelo de negócio da construção desenvolvido aqui em Portugal não seria simplesmente
exportável para lá.
Avançámos então com indústrias de materiais de construção, montámos o que eram à
época os centros industriais que, hoje em dia, são já polos industriais inseridos em centros
de multivalências, e avançámos para a área de negócios da construção. Ao nível de
províncias havia obras lançadas pelos governos locais e pelo governo central, o que se
revelou, assim, uma aposta muito interessante.
Hoje em dia o país está, no que é a sua rede viária principal, apetrechado. Nesta sequência,
fomos implementando e consolidando a nossa posição e a relação com a província e
percebemos que, desde logo, um dos setores que merecia uma aposta era o sector das
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TERCEIRA SESSAO
águas. Havia muita carência e a água é um bem essencial. Começamos por mini sistemas
de captação de água, que estão retratados nas imagens, que vinham colmatar uma das
necessidades básicas da população. É preciso ressaltar que, cada vez que um sistema era
inaugurado e estava em funcionamento, a população fazia uma festa porque era uma
grande emoção ver a água a sair da torneira, quando antes andavam quilómetros para
conseguir ir buscá-la. Passavam a ter água potável. Esta foi e é, até ao presente, uma
área rentável. Tal como todas as áreas de atividade para as quais avançámos, esta existe
no presente mas, acima de tudo, é uma área bonita e muito estimulante em termos de
desenvolvimento da qualidade de vida da população.
Outra área fundamental, que com o contacto com as comunidades locais rapidamente se
percebeu, foi a área dos resíduos. Inicialmente e até ao presente, realizamos a atividade
de recolha e o encaminhamento para aterro (futuramente terá outros contornos, mas eu
falarei disso um pouco mais à frente).
Continuámos nesta senda de construção de polos de multivalências nas diversas províncias
sendo que, neste momento, estamos em 8; fomos avançando. Iniciámos a construção de
infra-estruturas desportivas, que não era apenas uma área interessante para o nosso
negócio, desde logo porque o próprio governo tinha fundos destinados à criação de
espaços de lazer para as populações, como inclusivamente construímos o nosso AngolACA
Campus, onde são realizados jogos regularmente. Não só os nossos colaboradores (que
são cerca de 3000 à data de hoje, em todas as áreas de negócio que temos) podem fazer
e fazem jogos regularmente, como há comunidades que nos pedem e às quais cedemos o
espaço, para poderem usufruir desta facilidade. Como área de negócio, é também bastante
interessante.
Por outro lado, quem conhece Angola sabe que os jardins estão devastados, há falta
de construção e manutenção de espaços verdes. Esta evidência e oportunidade de
intervenção surge associada à construção, na sua vertente de requalificação urbana; é
extremamente importante construir e manter espaços verdes.
Em linha com esta decisão de arranque para esta atividade, construímos nos nossos polos
multivalências os nossos showrooms (conforme exemplo projetado nas imagens que podem
ver) e é isto que nós fazemos quando requalificamos uma área urbana. Desde reconstruir a
rua, instalar infra-estruturas, arranjar os passeios, os jardins e por aí adiante. É uma área que
está em expansão e terá, certamente, muito para crescer ainda em Angola. Tudo isto que
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´
Terceira Sessao
- O investimento em Africa
| Dra. Luísa Duarte
referi até agora pressupõe a capacidade de resposta dos centros multivalências, com muita
gente para dar suporte a uma operação que está em franco crescimento. Isto começou a
ser um pouco pesado em termos de logística porque, designadamente, nós temos uma
política de alimentação de todos os nossos colaboradores, portanto, para dar suporte
às nossas cantinas começamos, e sobretudo em províncias mais carenciadas, a sentir a
necessidade de fazer chegar bens alimentares em quantidade e qualidade suficiente.
Surgiu a ideia de criar e abrir lojas de proximidade essencialmente vocacionadas para a
distribuição alimentar, mas também higiene e conforto do lar e, ao mesmo tempo, não
só servem as nossas necessidades em termos de serviços sociais como são obviamente
uma fonte de negócio, porque não existe grande oferta e abrir este tipo de unidades nas
províncias não é fácil, tendo em conta os constrangimentos logísticos.
Um pouco em cadeia e muito também por um gosto pessoal do nosso Presidente,
sentimos a necessidade de garantir o fornecimento designadamente de produtos frescos
ou hortícolas, quer às nossas lojas quer para a alimentação de todo o nosso pessoal.
Dado que felizmente espaço não falta em Angola e concretamente nos nossos centros
multivalências, iniciámos a exploração das mini-quintas de onde nos saem os produtos
frescos que, de outra forma, se calhar não conseguiríamos obter a preços competitivos e
de acordo com as nossas necessidades.
Portanto, fomos desenvolvendo gradualmente estas áreas de negócio e, agora, a
questão poderia colocar-se “vamos continuar?”, “vamos diversificar?”. Mantemos uma
preocupação grande com a questão da organização pois, quem conhece Angola e outros
países emergentes, sabe que por vezes é necessário avançar para o terreno e agarrar as
oportunidades sem que o processo de planeamento de tudo o que é o suporte funcione
na altura desejada. Portanto, encontramo-nos num processo de reorganização com vista
a dar resposta às solicitações e equacionamos consolidar tudo o que temos até à data,
diversificando sectorialmente mas também geograficamente, até porque as províncias
são bastantes e com muitas oportunidades, como já referi.
De facto, Angola tem muito para dar, consolidaremos o que temos e não descuraremos
novas oportunidades a um curto prazo. Portanto, não querendo tomar aqui muito tempo,
sei que estamos algo pressionados, posso dizer-lhes que avançaremos para o sector
industrial, designadamente com a construção de uma fábrica de metalomecânica. Isto
tudo acaba por, naturalmente, ter uma lógica. Nós temos necessidades de apoio no caso,
por exemplo, do sector das águas, à construção de etar’s e etas, temos necessidades para
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TERCEIRA SESSAO
a própria construção e designadamente construção civil, inclusivamente em projectos de
habitação social, no projecto “uma casa para todos”. Assim como o sector da água que
tem um projecto muito interessante que é “água para todos”. Entendemos que precisamos
também de apoio para construir materiais para aplicarmos nesses sectores, porquanto a
metalomecânica avançará a muito curto prazo, tendo projeto já perfeitamente estudado,
viável.
Ainda na área dos resíduos gostaríamos de expandir para criar valor para além da recolha,
designadamente pela construção de uma unidade de triagem e reciclagem de resíduos. Há
mercado, com certeza com grande potencial de crescimento e estaremos ainda atentos
a novas oportunidades, naturalmente e concretamente, no que toca à nossa experiência
na agricultura que é um sector muito caro ao nosso Presidente. Inclusivamente está a
decorrer um estudo para um projeto de grande dimensão no sector agro-pecuário.
Gostaria, em termos de ideias-chave desta apresentação deixar algumas notas: a nossa
operação começou com a construção, era o nosso core, era o que nós sabíamos fazer.
Naturalmente que é necessário chamar pessoas com as competências chave em diferentes
áreas de negócio, porque não temos habilidade de abraçá-las todas sem o devido knowhow; é isso que estamos a fazer e temos felizmente um Grupo com pessoal muito
competente. Estaremos, com certeza, abertos a candidaturas de pessoas competentes e
com vontade de participar nesta aventura que é, de facto, bastante emocionante e, acima
de tudo, que nos permite ver resultados.
Implementamos então em várias províncias iniciativas para verticalizar negócio ou, pelo
menos, garantir uma série de valências, que nos permitam não estar dependentes de
terceiros e, concretamente, daquilo que não haja ou não haja nos padrões de qualidade
que nós exigimos. Isto determina o reforço destas nossas unidades de suporte. Encaramos
o alargamento sectorial e geográfico numa lógica de cadeia, mas também de economia de
proximidade e, portanto, de aproveitamento da nossa relação já de confiança com os locais,
porque são bastantes anos de obra feita com as autoridades e comunidades locais, o que
vai despoletando negócios novos. Às vezes costumo brincar, dizendo que não convém
falar muito senão, uma semana ou outra é mais um negócio que aparece.
Para fechar ficaria a ideia que, fundamentalmente, estou convicta que seria a mensagem
que o nosso Presidente gostaria de passar. O país tem um enorme potencial, e projetos
credíveis, sustentados, são percecionados e valorizados lá. É importante o envolvimento
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Terceira Sessao
- O investimento em Africa
| Dra. Luísa Duarte
pessoal de uma equipa de liderança. Concretamente no nosso caso temos a felicidade de
acompanhar o nosso Presidente neste processo. O envolvimento pessoal e a construção
de relações de confiança com as autoridades locais é fundamental e um projeto bem
estruturado e credível será, certamente, um projeto de sucesso.
Gostaria apenas de ressaltar o valor que as autoridades dão a uma postura que assenta no
investimento a longo prazo. Podia contar uma história que tive a felicidade de presenciar
que foi uma deslocação de uma autoridade de Estado, um Governador Provincial ao nosso
centro de valências de Benguela, o qual chegou, saiu do carro, olhou e disse “sim senhor,
aqui está o exemplo de uma empresa que veio para ficar”. Valoriza-se, efetivamente, uma
empresa que vá contribuir para o desenvolvimento do país e não apenas para extrair lucros
de um negócio, que poderá ter um período mais curto ou não de maturidade.
É uma equipa competente, é uma equipa muito motivada que faz tudo isto possível
e, também, a humildade, e isto é um traço do nosso Presidente e CEO, a humildade de
perceber que vamos naturalmente ensinar (levamos competências que não existem
e entretanto serão passadas através de processos de formação), mas também temos
muito para aprender. De facto, este processo trouxe-nos muita maturidade em termos de
reestruturação organizacional.
Muito obrigada pela vossa atenção.
Moderador - Eng.º Vergilio Folhadela
Muito obrigado.
Agora vamos ter um setor tradicional, um exportador clássico - a Sogrape – que começou
a olhar para o vinho de uma forma também um pouco diferente: não produzir só cá, mas
procurar outras geografias.
Acho que é dessa experiência que o Bernardo Brito e Faro nos vai dar conta, com a sua
vivência já de muitos anos dentro da Comissão Executiva da Sogrape.
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TERCEIRA SESSAO
“O investimento em outros países”
Sogrape Vinhos, SA
Dr. Bernardo Brito e Faro
Antes de mais, muito obrigado às Fundações AEP e Serralves, na pessoa do Sr. Prof. Valente
de Oliveira e do Sr. Eng. Vergílio Folhadela.
Quando o Sr. Prof. Valente de Oliveira desafiou a Sogrape para fazer parte deste painel, era
suposto estar aqui o Dr. Salvador Guedes, CEO do Grupo ou um dos seus irmãos mas, não
tendo sido possível, encarregaram-me a mim para fazer esta apresentação.
Conto cumprir com o tempo que me foi atribuído de 20 minutos, no qual espero conseguir
apresentar de um modo sucinto a carreira de internacionalização da Sogrape.
A Sogrape é uma empresa familiar do norte de Portugal ligada ao sector vitivinícola com
uma forte presença, cada vez maior, a nível internacional e com uma estrutura verticalizada
desde as vinhas à produção, incluindo o engarrafamento, às marcas e à distribuição e com
uma aposta cada vez maior na inovação.
A Sogrape começou em 1942 com o lançamento do Mateus Rosé, principal símbolo, ainda
hoje em dia, da Sogrape no mundo e em Portugal e, cada vez mais, se vai afirmando através
não só do Mateus Rosé mas de outras marcas sobejamente conhecidas.
Com uma estratégia de desenvolvimento e internacionalização que passou primeiro
pela diversificação dentro das principais regiões vitivinícolas nacionais, posteriormente
pelo alargamento ao sector do Vinho do Porto, a que se seguiu a internacionalização da
produção e, mais tarde, a distribuição internacional através da constituição de estruturas
próprias nos destinos considerados estratégicos para o desenvolvimento das marcas da
Sogrape.
Com o Mateus nasceu uma visão, a de dar a conhecer ao mundo os vinhos portugueses,
através de um vinho rosé, associado a novas sensações e emoções e a uma imagem
inovadora face ao que naquele tempo existia. Com um conceito totalmente disruptivo, um
produto Rosé, meio seco, packaging diferenciador, que procurou semelhanças nos cantis de
água utilizados pelos militares que lutavam na segunda Grande Guerra. Com um marketing
totalmente intuitivo, teve um rápido crescimento internacional estando actualmente em
cerca de 125 países, sendo que o Mateus Rosé foi o grande motor do desenvolvimento do
grupo Sogrape.
Através do crescimento da marca Sogrape e do engrandecimento do grupo, iniciou-se a
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Terceira Sessao
- O investimento em outros paises | Dr. Bernardo Brito e Faro
diversificação para outras regiões vitivinícolas nacionais, com a aquisição de vinhas na
região dos vinhos verdes, na Bairrada, no Douro, no Dão e, mais recentemente, no Alentejo.
Posteriormente, a Sogrape avançou para a aquisição de empresas no sector do vinho do
Porto, inicialmente com a compra da Casa Ferreira (detentora da marca Porto Ferreira),
mais tarde com a aquisição da Forrester, que detinha a marca Offley e, em 2002, com a
aquisição da Sandeman.
Desde sempre e continuadamente foi dada muita importância o desenvolvimento e
lançamento de novos produtos, de forma a que a Sogrape pudesse estar permanentemente
actualizada e ir ao encontro daquilo que os consumidores procuram e, principalmente,
explorar mais e novas ocasiões de consumo.
Como dizia há pouco, o vinho gera emoções e sensações e, acima de tudo, é um produto
muito ligado à tradição, à terra, aos valores de um país, enfim a uma série de conceitos que
são caros a muitos consumidores.
Em 1997 a Sogrape avançou para a compra de uma empresa argentina, designada Finca
Flichman, também ela inteiramente verticalizada, iniciando-se então o processo de
internacionalização do Grupo. Mais tarde foi adquirida a Sandeman que incluía activos
produtivos em Jerez de la Frontera, na Andaluzia Espanhola.
Seguiu-se então, em 2008 a aquisição da Chateau Los Boldos, no Chile e, em simultâneo,
a aquisição da Framingham, na Nova Zelândia. Ou seja, de um país originário, Portugal,
a Sogrape passou a deter produção de vinho directamente em cinco países. Mais
recentemente foi adquirida, também em Espanha, a Bodegas LAN, uma empresa do norte
de Espanha, mais propriamente de Rioja, através da qual a Sogrape passou a deter a
produção nos vinhos de mesa, nomeadamente com vinhas em Rioja, e, aqui mais ao norte,
na zona de Tuy, Rías Bajas.
Entretanto foi dado início ao processo de distribuição própria internacional, tendo em
2000 sido adquirida uma distribuidora para o mercado dos Estados Unidos da América,
passando a partir daí a ter uma presença directa no mercado Norte-Americano, sendo hoje
um dos principais destinos dos vinhos da Sogrape.
Seguiu-se Angola com a constituição, em 2006, de uma participada, passando desde
então a distribuir naquele mercado os vinhos das diversas origens da Sogrape.
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TERCEIRA SESSAO
Em 2008 foi constituída uma nova participada para a região da Ásia/Pacífico, com sede em
Hong Kong, hoje em dia também já com escritório em Xangai.
Entretanto em 2011 foi adquirida uma nova participada no Reino Unido e que até então
distribuía os vinhos da Sogrape naquele mercado.
No Brasil, foi constituída em 2012 uma nova participada que ainda está a começar a
desenvolver o negócio directamente naquele mercado, onde a proximidade cultural com
Portugal permite antever um grande futuro para a distribuição dos vinhos da Sogrape.
Hoje a Sogrape tem uma presença internacional neste conjunto de países, através da
produção, das origens Portugal, Argentina, Espanha, Chile e a Nova Zelândia, países onde
também assegura a distribuição local dos vinhos do Grupo. Acresce a estes todos os outros
em que a Sogrape já tem distribuidoras próprias, sendo no resto do mundo a distribuição
assegurada através de distribuidores terceiros.
Este processo de crescimento pela internacionalização levou a que a evolução do negócio
da Sogrape revele um crescimento sustentável ao longo dos anos, verificando-se que de
1998 a 2013 as vendas praticamente duplicaram de valor. Ao nível dos resultados líquidos
e do EBITDA a evolução também tem sido crescente, sustentada e saudável.
Em termos consolidados a origem Portugal ainda representa 67% das vendas da Sogrape,
onde o vinho do Porto representa 31%, outros vinhos de Portugal 46%, onde se inclui o
Mateus Rosé com 14%, da origem Argentina 10%, de Espanha 12%, incluindo o vinho de
Jerez com 3%, e as origens da Nova Zelândia e do Chile, para já, representam no total cerca
de 3%.
O principal mercado de destino ainda continua a ser o mercado nacional, embora com
um peso cada vez menor, dada a crescente internacionalização das origens detidas
pela Sogrape. Há outros destinos que continuam a crescer cada vez mais e a aumentar
a respectiva influência, estando os Estados Unidos na segunda posição e Espanha na
terceira.
Dos resultados da internacionalização encetada pela Sogrape, constata-se a produção
vitivinícola em 5 países, através de cerca de 1400 hectares de vinhas, uma capacidade
de vinificação de cerca de 52 milhões de litros, uma capacidade de armazenagem de 167
milhões de litros e de 83,5 mil garrafas por hora de engarrafamento, com uma capacidade
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Terceira Sessao
- O investimento em outros paises | Dr. Bernardo Brito e Faro
de armazenagem de vinho engarrafado de cerca de 685 mil caixas de 9 litros, com um total
próximo dos 1000 colaboradores.
As principais conclusões que se podem retirar deste crescimento sustentado, que a
Sogrape pretende continuar e reforçar, são: A Sogrape já está directamente presente nos
5 continentes, com vendas de cerca de 77,5 milhões de garrafas/ano, o equivalente a 2,5
garrafas por segundo; Dois terços das vendas ainda são de vinhos portugueses; cerca de
31% das vendas são vinho do Porto; 14% de Mateus Rosé; 80% das vendas consolidadas
são realizadas fora de Portugal, sendo que, 64% na Europa. Os cinco principais mercados
são: Portugal, Estados Unidos, Espanha, Reino Unido e Bélgica. Mais de 50% das vendas já
são feitas através das estruturas da distribuição própria.
Ainda como resultados deste processo, constata-se o aumento do reconhecimento
nacional e internacional da Sogrape, através da constante e crescente premiação nacional
e internacional dos seus vinhos.
Hoje em dia a Sogrape tem um histórico de muitas e variadas experiências e com elas tem
aprendido para continuar a fazer mais e melhor.
A internacionalização da Sogrape trouxe um incremento da complexidade da gestão
do negócio, o que tem levado a uma permanente actualização dos processos de
acompanhamento e monitorização das distintas unidades de negócio.
A Sogrape continua atenta a novas oportunidades de crescimento e desenvolvimento
que surjam e que se mostrem interessantes. No entanto também deverá ter atenção
ao aumento da exposição a novos riscos, principalmente políticos, económicos, sociais e
financeiros. São riscos a que, no passado, a Sogrape não tinha tanta exposição.
Finalmente, gostava de endereçar uma vez mais o meu agradecimento ao Sr. Prof. Valente
de Oliveira pelo facto de, através do convite feito à Sogrape, permitir publicitar não só a
internacionalização do Grupo mas também as marcas por si detidas. Bebam muito!
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TERCEIRA SESSAO
Moderador - Eng.º Vergilio Folhadela
Apesar de já estarmos um pouco para além da hora que seria razoável, não posso deixar de
tentar enfatizar alguns denominadores comuns, porque acho que temos muito a aprender
com as empresas que aqui estiveram.
De tamanhos diferentes, com negócios diferentes e, no entanto, com muitas atitudes
comuns.
A primeira é: têm conceitos claros, sabem muito bem o que estão a fazer e o que querem
fazer. Têm uma estratégia… e dentro desses conceitos eu enfatizaria a especialização.
Todos gostam de fazer o que sabem fazer, não se metem em grandes aventuras para além
disso. Sabem fazer, fazem-no bem e com segurança, desenvolvem o conceito e avançam.
Têm uma outra característica muito importante, que é muito portuguesa, que é “be local”,
saber ser local, adaptarem-se bem às circunstâncias locais. Essa foi sempre a nossa grande
força e continua a ser e, todos estes casos são bons exemplos dessa capacidade que nós,
portugueses, temos.
Há uma outra atitude, que é a de qualquer empreendedor, homem ou mulher de negócios,
que é “aproveitar a onda”, identificar ciclos, saber quando as coisas vão crescer e é a hora
de “surfar” naquela onda.
Finalmente - e acho que não tem menos valor - tendo também muito que ver com a
nossa forma de estar, com essa ideia do “be local”, adaptabilidade, capacidade de nos
miscigenarmos e adaptarmos aos desafios que temos pela frente, que é a dimensão
“pessoas”. É, no fundo, ser capaz de saber pôr calor humano nos negócios. Acho que foi
uma atitude que também ficou aqui patente e que me parece que é um bom exemplo a
seguir, pois nos permite fazer a diferença e tirar ainda mais partido daquilo em que somos
capazes.
Muito obrigado a todos.
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COMUNICACOES
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QUARTA SESSÃO
A ORGANIZAÇÃO DO COMÉRCIO EXTERNO
Moderador:
Dr. Carlos Abrunhosa de Brito
“A diplomacia económica”
Embaixador Francisco Seixas da Costa
“O papel das instituições”
Eng.º Vital Morgado - Administrador da AICEP
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QUARTA SESSAO
A ORGANIZAÇÃO DO COMÉRCIO EXTERNO
Moderador: Dr. Carlos de Abrunhosa de Brito
Vamos então dar início ao 4º painel destas nossas Jornadas sobre o tema “A organização
do Comércio externo”.
Estamos a iniciar o nosso painel já um pouco depois da hora, em que o devíamos ter
terminado e, por isso, vou-me abster de fazer qualquer tipo de comentário e passar de
imediato à apresentação dos nossos convidados para que possamos disponibilizar todo o
tempo ainda disponível os nossos convidados.
Eu iniciaria por apresentar o Sr. Embaixador Francisco Seixas da Costa, com uma larga
experiência na área diplomática. Hoje administrador e consultor de empresas. Também,
exerceu as funções de Secretário de Estado dos Assuntos Europeus, entre 1995 e 2001.
Desde 2003 que trabalha na área empresarial.
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QUARTA SESSAO
“A diplomacia económica”
Embaixador Francisco Seixas da Costa
Começo por agradecer o convite que, através do Professor Valente de Oliveira , me foi
dirigido pela Associação Empresarial de Portugal, para estar presente nestas V Jornadas
Empresariais, organizadas com a Fundação de Serralves, neste momento do programa
que é dedicado à “Organização do Comércio Externo”, para vos falar sobre a Diplomacia
Económica.
Tenho um grande prazer em participar neste painel com o Eng.º Vital Morgado, moderado
pelo dr. Carlos Abrunhosa de Brito.
Vou tentar evitar um discurso teórico, conceptual, mas não posso nem quero fugir a uma
definição prévia, que nos permita recortar melhor aquilo de que falamos. Quando falamos
de Diplomacia Económica estamos normalmente a referir-nos ao conjunto de meios que
uma política pública, como é a política externa, coloca no terreno, no sentido de apoiar a
ação daqueles que contam com o mundo exterior para a criação de riqueza nacional.
Neste tipo de ações podem, designadamente, juntar-se a promoção comercial, a atração
do investimento produtivo estrangeiro, a criação das melhores condições possíveis para
a operação dos nossos investidores no exterior, a captação dos fluxos turísticos, as
negociação de quadros institucionais externos, de natureza bilateral ou multilateral, que
facilitem a ação dos operadores económicos portugueses, e, finalmente, a melhoria de
acesso a modelos internacionais de financiamento, para utilização por esses mesmos
agentes.
Numa perspetiva mais abrangente, temos mesmo de convir que a Diplomacia Económica não
é uma responsabilidade exclusiva da política externa, envolvendo as diversas dimensões
do Estado que se projetam na área internacional. Com efeito, se nos concentrarmos, por
exemplo, nas questões do investimento produtivo de origem externa, logo encontraremos
o conjunto tradicional de critérios de avaliação da atratividade, nomeadamente os custos
de contexto: a burocracia, o sistema de justiça, a legislação laboral, a segurança pública,
as condições de acolhimento para os expatriados (nomeadamente em termos de saúde,
educação e alojamento), as facilidades energéticas, a estabilidade fiscal, os apoios de
crédito, etc.
Quero com isto dizer que o conceito de Diplomacia Económica é muito vasto e não pode
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Quarta Sessao
- A diplomacia economica
| Embaixador Francisco Seixas da Costa
ser reduzido àquilo que o Ministério dos Negócios Estrangeiros faz, nem mesmo à ação da
estrutura de promoção comercial e de captação de investimento que é hoje a AICEP. E, claro,
daqui resulta ainda mais óbvio que a Diplomacia Económica não se esgota muito menos na
temática do Comércio Externo. Mas esse é o tema central que hoje aqui nos reune.
Portugal encontra-se inserido numa lógica de regras de comércio internacional que são
definidas pela União Europeia, negociadas pela Comissão Europeia, com base em mandatos
que lhe são conferidas pelos Estados, sentados à mesa do Conselho de Ministros. A política
comercial externa é uma competência comunitária e, por essa razão, a Comissão Europeia,
nas negociações que efetua em nome da União, tende a representar aquilo que se poderia
designar como o interesse maioritário dos seus Estados membros. Quero com isto significar
que a política comercial externa de Portugal, no tocante às regras por que se regula, é a
política da UE. E que, muitas vezes, esses interesses médios se afastam dos nossos.
Melhor do que ninguém, os empresários portugueses sentiram a dificuldade que foi
enfrentar a vaga liberalizadora que as então Comunidades Europeias empreenderam, no
movimento de globalização. A UE ganhou então vantagens em terceiros mercados, o que
permitiu neles colocar os seus produtos de maior sofisticação tecnológica. Por sua vez,
abriu os seus mercados a produtos similares àqueles que a Europa menos desenvolvida
produzia. Os consumidores dessa Europa mais rica passaram também a importar a custo
mais baixos. Nós, que não tínhamos Nokias ou Mercedes para vender aos países terceiros,
perdemos também para eles o mercado protegido que, até então, tínhamos como garantido
(nomeadamente em atéria de têxteis e calçado).
Não estou aqui a fazer um juízo crítico sobre a globalização, cuja pressão e desafios também
nos fez evoluir. Quero apenas sublinhar que a política comercial europeia não é neutra e
nela se repercutem as desigualdades de desenvolvimento dentro da própria Europa. E com
isto quero também dizer que, com custos desiguais, em especial no emprego e esforço
das empresas, o mundo europeu mudou radicalmente mas a regra de que a nossa política
externa, em matéria comercial, é uma competência europeia, essa não mudou e é preciso
dela ter consciência permanente.
E este é o primeiro ponto que gostaria de sublinhar: os empresários portugueses necessitam
de estar conscientes, como muitos já hoje estão, de que uma ação concertada com o Estado,
junto das instituições comunitárias, é um passo essencial para garantir que a especificidade
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QUARTA SESSAO
dos seus interesses é tomada em devida conta na definição das regras da política comercial
da União.
Vem aí, por exemplo, um tempo muito importante, que é a definição das bases para o novo
Acordo de Parceria entre a Europa e os Estados Unidos. Confesso ainda não ter a certeza
de que haja condições políticas, de um e do outro lado do Atlântico, para a conclusão, com
sucesso, desse megaprojeto.
Em ambos os lados, há interesses contraditórios que se defrontam. Além disso, no plano
estritamente político, começa a levantar-se na Europa uma onda algo demagógica, assente
no anti-americanismo primário que, por exemplo, pode vir a suscitar dificuldades na
aprovação final do texto no seio do Parlamento Europeu. E, mesmo aqui em Portugal, algum
populismo, a que um dos partidos do arco tradicional do poder não parece estar imune, pode
vir a ter um terreno fértil contra este acordo.
Quero com isto dizer que, quando falamos de comércio externo, temos de ter uma perspetiva
integrada e que os empresários e as suas associações devem ser capazes de forçar as
forças políticas à instituição e operacionalização, no quadro do Estado, de modelos de
representação dos seus interesses que possam ir para além de iniciativas “ad hoc”, a reboque
das questões de oportunidade, como hoje muitas vezes sucede. E quando aqui falo do
Estado, refiro- me também às instituições europeias, ao trabalho, com os seus congéneres
do continente, junto dos comités da Comissão Europeia, mas igualmente na defesa dos
nossos interesses específicos nos lóbis parlamentares, o que implica una articulação com
os deputados europeus.
A minha experiência pelos corredores do governo já é de outro tempo, mas foi há menos
tempo quer terminei um ciclo de mais de mais de quatro décadas na administração pública.
E devo confessar-vos um segredo: não obstante o Estado, na sua ação exterior, ter tido
sempre como natural finalidade e preocupação a representação, com o rigor possível, dos
interesses económicos nacionais, fê-lo sempre, a meu ver, com uma excessiva liberdade
interpretativa desses mesmos interesses, nomeadamente no juízo sobre o equilíbrio entre
eles.
Um caso muito claro, que não vou aprofundar, foi o alargamento da União Europeia. O
condicionamento externo era forte, a nossa margem de manobra era bastante estreita,
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Quarta Sessao
- A diplomacia economica
| Embaixador Francisco Seixas da Costa
mas devo dizer que senti então a máquina pública demasiado “à solta” nessa negociação. E
digo isto com toda a consciência de quem nela teve especiais responsabilidades. De quem
é a culpa? Do Estado, claro, mas também da inexistência de mecanismos de controlo e
condicionamento da política externa por parte dos agentes económicos organizados. E a
legitimidade das ações dos decisores políticos também passa muito por aqui.
Mas quero agora voltar às questões da Diplomacia Económica, na vertente específica do
Comércio Externo, passando agora à sua dimensão bilateral.Devo começar por afirmar uma
evidência: não há um modelo único de ação diplomática externa para o apoio aos agentes
empresariais e para a defesa dos respetivos interesses. A Diplomacia Económica, no que
respeita ao Comércio Externo, tem sempre de desenhar diversos perfis de intervenção, de
acordo, não apenas com a realidade nacional com que estamos a interagir, mas, igualmente,
em função do potencial, que é muito variável, das vantagens que possamos vir a extrair de
cada um desses mercados.
Não vou tipificar esses modelos, mas creio que é óbvio para todos quantos aqui estão, que
o trabalho em matéria de Diplomacia Económica junto de um país terceiro, por exemplo no
seio de uma economia emergente, não tem rigorosamente nada a ver com uma embaixada
num país membro da União Europeia.
E vou dar-lhes, precisamente, exemplos do trabalho em que estive envolvido junto de dois
países-tipo, com vista a ilustrar, de forma muito clara, o que, no meu entender, se pode
esperar da Diplomacia Económica.
O primeiro caso é Brasil. Trata-se de uma grande economia emergente, um país com uma
considerável ambição no quadro internacional, com um papel de óbvia liderança dentro
da OMC e com uma forte influência no seio do G20 e dos BRICs. No plano interno, é uma
economia muito protecionista e cheia de ideosincrasias. Porque há “muitos” Brasis. No
campo da sua ação externa, muitas das grandes empresas brasileiras só mais recentemente
voltaram o seu olhar para mercados fora do seu “near abroad”.
Os problemas que se deparam a uma embaixada de um país que aí opere em diversas áreas
económicas, como é o caso de Portugal, são muito complexos. Não existindo ainda um marco
regulatório em matéria comercial e de serviços entre a Europa e o Mercosul, tudo se passa no
quadro de um bilateralismo intenso, que se processa quer com o governo federal, quer com
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QUARTA SESSAO
os governos dos 27 Estados. Frequentemente estamos perante obstáculos de natureza
não pautal, desde discussão em torno de normativos protecionistas que discriminam
negativamente os operadores estrangeiros até atos de pura discricionariedade, de vária
natureza, que é importante tentar ultrapassar, normalmente por via política.
A especificidade das culturas, políticas e administrativas, prevalecentes dentro de cada
Estado brasileiro impõe, além disso, um trabalho muito particular e específico, que muitas
vezes passa por diligências diretamente junto dos governos regionais, outras vezes inclui
a necessidade de um forte lóbi através de senadores e deputados influentes nos Estados.
Recordo-me que passei por tudo isso e tomei nota de ter feito diligências diretas junto
de governos de 21 dos 27 Estados do Brasil, acompanhando responsáveis de empresas,
utilizando os dez consulados de carreira então existentes, alguns dos muitos consulados
honorários, bem como a totalidade das 11 Câmaras de comércio luso-brasileiras existentes,
duas das quais foram criadas nesse mesmo período.
O exercício da Diplomacia Económica objetiva-se na promoção e apresentação das nossas
empresas, na reivindicação para o cumprimento de obrigações por parte de entidades
públicas, na tentativa de influência de decisões que dependem de escolhas políticas, na
procura de soluções para impasses, sejam eles coisas tão variadas como novos”slots” para
a aviação, proteção de denominações de origem para produtos nacionais, campanhas para
evitar a tributação de produtos nacionais, facilitação de acesso a certos financiamentos
por parte de empresas com capital português, inesperadas barreiras ambientais, superação
provocadas por bloqueios de movimentos indígenas a certos investimentos, etc.
Quis apenas dar uma noção do mundo muito alargado da ação potencial num país da
dimensão do Brasil, para melhor ilustrar o que pode ser o desenvolvimento de uma
Diplomacia Económica num mercado como aquele. Mas o que referi sobre o Brasil poderá
ser adaptado a outros países onde Portugal tenha interesses de dimensão similar ou ainda
maior. Imagino que os meus colegas em Angola, nos Estados Unidos, no Japão, na Arábia
Saudita e no Golfo, na Índia e na Rússia devem ter agendas, se não tematicamente similares,
às vezes bem mais complexas e exigentes.
Faço ainda notar que esse trabalho é impossível de desenvolver sem se dispor de uma
triagem de prioridades que só uma estrutura experiente como a AICEP pode fazer.
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Quarta Sessao
- A diplomacia economica
| Embaixador Francisco Seixas da Costa
Mudemos agora de área: a França, que foi o meu último posto como embaixador. E aqui
as coisas foram muito diferentes. Naturalmente que aí me coube, a partir de certa altura,
montar iniciativas de sensibilização, no início do período de emergência financeira, com idas
à televisão ou às rádio, escrever artigos em jornais ou organizar conversas de governantes
com jornalistas, para tentar “sossegar”, tanto quanto era possível, a opinião pública,
relativamente à atitude das nossas autoridades.
Sei que vários colegas meus, nesses tempos bem difíceis para a representação externa
do Estado, desenvolveram, em outras capitais europeias, ações com objetivos similares,
adaptadas naturalmente à posição e importância desses mesmos Estados.
Hoje, olhando à distância, constato contudo que o mais importante do meu trabalho foi
menos tentar captar novos investimentos e, muito mais, trabalhar para garantir que os
investimentos franceses que por cá estão se sentiam confortáveis e não saíam do país.
Fiz isso, uma vez mais, em estreitíssima articulação com o delegado e a delegacao AICEP
e também, curiosamente, com os embaixadores franceses em Lisboa, porque os nossos
interesses eram comuns.
Lembro-me de, com ess finalidade, ter desenvolvido variadas diligências junto do gabinete
do primeiro-ministro, junto de diversos Ministérios em Lisboa, junto de CCDR’s, junto de
municípios. Pode parecer estranho que um embaixador português tenha de trabalhar assim
mas não imaginam a angústia que é percebermos que, se formos pelas vias burocráticas
regulares, as coisas demoram um tempo que não temos. Ou melhor, que esses empresários
não têm.
Naturalmente que a questão da nossa promoção comercial também esteve sempre presente.
Mas esse é um trabalho que sempre vi a diplomacia portuguesa fazer, ao longo dos tempos,
com maior ou menor sucesso, mas sempre com um empenhamento da máquina diplomática
que dependeu, muito simplesmente, das instruções políticas de que esta dispunha. E nem
sempre essa orientação existiu.
Mas há que ter a consciência - e eu não sei se essa consciência existe - de que são muito
poucas, na nossa rede externa, as embaixadas que têm uma estrutura física e meios
disponíveis para poderem montar, com dignidade e eficácia, ações de promoção comercial.
Quando ouço clamar pela abertura das nossas embaixadas aos eventos promocionais, vem-
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QUARTA SESSAO
me de imediato a ideia que muitas dessas estruturas têm apenas, como pessoal diplomático,
o próprio embaixador, que, quando vem de férias, é substituído por alguém ido de Lisboa.
Há embaixadas que são no 3º esquerdo de uma rua num bairro de segunda classe – e, digo
desde já, esse miserabilismo foi agravado nos últimos anos, por algumas decisões que não
hesito de qualificar de irresponsáveis. O embaixador dispõe muitas vezes de um pessoal,
na residência e chancelaria, que não ultrapassa meia dúzia de pessoas. Que se pode pedir a
essas pessoas, no mundo de promoção do negócio, as quais, esmagadoramente, trabalham
sem apoio local da AICEP?
Fiz parte dos privilegiados que dispunham de um razoável staff, pelo que era legítimo
exigirem-me resultados. Não não me queixo. Aos embaixadores colocados nas grandes
embaixadas – e estamos a falar de duas embaixadas na América, duas ou três em África,
seis ou sete na Europa e uma ou duas na Ásia – pode e deve pedir-se um trabalho intenso
de ajuda à promoção comercial, à captação de turismo, à promoção do investimento, a
realização de diligências sobre uma multiplicidade de situações de interesse empresarial.
Há ainda uma segunda linha de postos, com meios mais modestos que, contudo, têm ainda
uma capacidade de organizar coisas e, naturalmente, intervir de diversas formas. Mas, volto
a repetir, a esmagadora maioria dos nossos postos diplomáticos – e já nem falo na rede
consular – é de uma imensa pobreza de recursos.
Alguns dos senhores estarão a perguntar-se: mas, então, se nada podem fazer, para que
é que existe essa rede tão frágil de representação externa? E aqui, lamento se desiludo
alguém, para quero deixar claro que, se a economia é um elemento importante e decisivo
para a vida dos países, e para reescrever uma frase já clássica, há mais vida para além da
economia...
O prestígio de um país, a sustentação do seu lugar no imaginário global, a sua História,
a lembrança constante da sua língua e da sua cultura, é uma tarefa que, embora tendo
que absorver alguns recursos, garante um prestígio que está um pouco para além das
conjunturas.Somos o quarto país mais antigo do mundo, somos fiéis depositários de uma
língua de expressão universal. O facto de sermos, desde há muito, o Estado mais pobre da
Europa ocidental, numa crise financeira tremenda, não obstou a que, ainda há dois dias,
tivéssemos sido eleitos com uma das maiores votações para o Conselho dos Direitos do
Homem da ONU, que há três anos, com “troika” por cá, tivéssemos “esmagado” um país
como o Canadá na eleição para o Conselho de Segurança.
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Quarta Sessao
- A diplomacia economica
| Embaixador Francisco Seixas da Costa
Sem uma presença diplomática mínima, a nossa imagem como país passaria de frágil a
nula – e isso é que eu gostava de dizer aos senhores empresários. A Diplomacia Económica
apoia- se também nesse todo, que vai de Saramago ao prestígio criado no apoio à luta
por um Timor livre, que vai do sublinhar da aventura das Descobertas a mostrar o trabalho
de Siza Vieira, do Fado (e por isso foi importante ser Património Mundial da UNESCO) ao
Ronaldo, de Manoel de Oliveira à nossa gastronomia.
E essa imagem também depende muito da coerência de uma política externa global, de
sermos um país previsível na nossa ação externa, um país “de palavra” quando promete um
voto numa organização internacional ou com o qual, por exemplo, os países africanos sabem
que podem contar num qualquer fórum em que os seus interesses estejam em causa.
Não esqueçamos ainda que Portugal é, dentro da UE, uma espécie de “embaixador” dos
países com os quais tem especiais relações, e isso não deixa de ser muito importante para
a capacidade de manobra do país junto desses Estados. Isso é importante para a nossa
Diplomacia Económica.
E digo isto com a autoridade de alguém que, um dia, ao falar a favor da Diplomacia económica,
disse numa entrevista a um jornal, que aliás resultou num título que me não tornou mais
popular, que as Necessidades deviam tratar “mais das batatas e menos do Kosovo”.
Termino com uma nota de natureza institucional, porque isso se liga ao cerne daquilo que
aqui nos importa.
Como é sabido, o atual governo, no início do seu mandato, decidiu colocar a AICEP sob a
tutela do Ministro dos Negócios Estrangeiros. Foi uma opção que, à época, foi justificada
para garantir uma maior coerência da ação global externa. Entre nós, esse é um debate
antigo.Devo dizer, a título pessoal, que nunca vi uma grande vantagem em colocar a
AICEP (ou os seus antecessores Fundo de Fomento de Exportação, ICEP e API) numa
dependência funcional plena do nosso modelo representação político-diplomática. Tratase, a meu ver, de culturas tradicionalmente diferentes, com lógicas de inserção diversas,
quer junto da Administração Pública, quer junto da sociedade civil e, muito em especial,
junto do mundo empresarial. Trabalhei muito bem, e por bem mais de três décadas, com
esses “heterónimos” de promoção comercial externa. Fi-lo sob a direção de 21 Ministros dos
Negócios Estrangeiros (ouviram bem: 21 !) e nunca senti falta de um “merge” institucional
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QUARTA SESSAO
para quer as coisas andassem. Aprendi, ao longo desse tempo, que, desde que haja uma
orientação política clara, desde que os embaixadores sejam competentes e abertos, desde
que o pessoal que trata do Comércio Externo (e do Turismo, também) saiba com eles
articular-se, tudo pode funcionar bem.
Mas, voltando ao modelo instituído em 2011, foi decidido fazer a experiência, tanto mais
que se vivia um ambiente favorável ao “downsizing” da máquina pública. E, para lhe dar
foros de coerência total, foi determinada a extinção do “braço” económico do Ministério
dos Negócios Estrangeiros, que então se chamava Direção Geral dos Assuntos TécnicoEconómicos – uma designação bizarra o que, no governo Sócrates, havia sido possível
consensualizar para acomodar os egos da Economia e dos Negócios Estrangeiros. E as
coisas lá foram funcionando, com a AICEP a ser o novo “braço” do MNE. E, diga-se desde já,
com a AICEP então muito bem dirigida, tal como já o havia sido no anterior governo. A AICEP
é uma excelente máquina.
Tudo assim funcionou até um dia. Nesse dia, soubemos que houve uma crise política, o
ministro mudou e o antigo ministro – que antes, e denodadamente, havia defendido a lógica
anterior –, revogou a ideia que ele próprio tivera e levou consigo a AICEP.
Para a sua tutela, para uma área institucionalmente difusa, que funciona entre os aeroportos
e o Palácio das Laranjeiras, num modelo inédito de “diplomacia de vice-primeiro ministro”,
que me dizem que, por vezes, tem a sua eficácia prática no mundo dos negócios. Mas que,
reconheça-se não é um modelo institucional sustentável. Mas, até aí, tudo bem. Se as coisas
funcionam minimamente, embora de forma remendada, só nos podemos congratular.
Só que o pobre do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que agora tem uma relação
funcional algo diversa com a AICEP, perdeu entretanto, e pelo caminho, a sua dimensão
económica e vive, ao que se sabe, num casuísmo permanente. É que a temática económica
não se esgota hoje, nem naquilo que é tratado nos Assuntos Europeus, nem naquilo a que
a AICEP se dedica. Para além de questões variadas de contencioso económico que ocupam
o trabalho político-diplomático, desapareceram, por exemplo, estruturas que estavam a
constituir uma massa crítica em matéria de negociações internacionais sobre energia ou
na área ambiental.
Tudo isto é hoje tratado em modelos “ad hoc”, com mera reafectação interna dos assuntos
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Quarta Sessao
- A diplomacia economica
| Embaixador Francisco Seixas da Costa
por várias estruturas, estas mesmas cada vez com menos recursos, quer humanos, quer
financeiros.
Não é minha intenção fazer desta minha intervenção um terreno de polémica ou chicana
política. Quero apenas chamar a vossa atenção para o facto de não se poder pedir à
diplomacia um trabalho melhor e mais eficaz no terreno da Diplomacia Económica quando,
com alguma ligeireza, se debilita cada vez mais o Ministério dos Negócios Estrangeiros. Se é
no exterior que podem ser encontradas as principais respostas para o nosso crescimento, e
se é também aí que se situam os interlocutores junto dos quais, cada vez mais, é necessário
fazer valer os nossos interesses, confesso que não entendo a lógica de desbaratar uma
estrutura dedicada, com grande sentido de serviço público e que é, de longe, o Ministério
com menor gasto, abaixo de 1% do Orçamento Geral do Estado.
Muito obrigado pela vossa atenção.
Moderador - Dr. Carlos de Abrunhosa de Brito
Muito obrigado Sr. Embaixador Francisco Seixas da Costa, pela brilhante intervenção e pela
gestão do tempo.
Vamos ouvir já de seguida o Sr. Engº Vital Morgado que, desde 1987, está ligado à AICEP
com uma permanência de cerca de 9 anos em Nova Iorque e outros 8 em Madrid. Desde
2010 é administrador executivo da AICEP.
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QUARTA SESSAO
“O papel das instituições”
Administrador da AICEP
Eng.º Vital Morgado
Muito obrigado. Gostaria de, em primeiro lugar, cumprimentar todos os presentes e
agradecer o amável convite da Fundação AEP para que a AICEP estivesse presente nestas
5ª Jornadas Empresariais.
Gostaria de cumprimentar e dar um abraço ao Dr. Paulo Nunes de Almeida, cumprimentar
o Prof. Valente de Oliveira, o nosso moderador Dr. Carlos Abrunhosa de Brito e dizer que é
para mim uma honra partilhar este painel com o Embaixador Francisco Seixas da Costa por
quem tenho um grande apreço, eu trabalhei 18 anos no estrangeiro, nunca nos cruzámos,
nunca tive o prazer de trabalhar com o Embaixador Seixas da Costa mas, muitos dos
meus colegas, tiveram esse privilégio e contaram-me aquilo que fizeram durante as suas
estadias nas embaixadas e, realmente, para além de um grande diplomata o Embaixador
Seixas da Costa teve sempre uma grande sensibilidade para os assuntos económicos. Este
conceito de diplomacia económica, embora recente em termos textuais, é uma prática diária
que exercemos há muito tempo na rede externa da AICEP. No meu caso pessoal, tive a
oportunidade de o praticar durante o trabalho conjunto desenvolvido com 6 Embaixadores
diferentes durante a minha carreira profissional no estrangeiro.
Antes de começar a minha apresentação, queria também referir que o Dr. Miguel Frasquilho,
que é o Presidente do Conselho de Administração da AICEP gostaria muito de estar aqui
presente hoje, mas acontece que está em Macau, tendo-me pedido, portanto, que o
representasse e eu espero estar à altura dessa responsabilidade.
Falando do comércio externo, eu penso que não podemos falar do comércio externo
português sem antes fazermos algumas observações de contexto com o que se passa a
nível internacional.
Portanto, iria abordar os seguintes pontos na
minha intervenção:
1. As novas tendências do comércio internacional
2. O comércio externo português
3. Tipologia das empresas exportadoras
4. AICEP – A importância do apoio às empresas
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Quarta Sessao
- O papel das instituicoes
| Eng.º Vital Morgado
,
O comércio internacional teve realmente um crescimento exponencial nos últimos 30 anos
e tem sido um dos motores da globalização. Hoje o comércio global de bens e serviços
representa 1/3 da riqueza que se cria no mundo em cada ano, ultrapassando mais de 20
triliões de dólares.
Este crescimento exponencial ao longo destas últimas 3 décadas foi conseguido devido
a uma revolução tecnológica que todos conhecem, quer ao nível das telecomunicações
com o aparecimento e crescimento exponencial da Internet, quer ao nível das tecnologias
de informação. Também a revolução que se verificou ao nível dos transportes, permitiu
baixar os custos da deslocação de pessoas e os custos logísticos das empresas. Por último,
toda a abertura de política que houve nesta área permitiu um processo de integração de
mercados e de livre comércio a nível mundial. Todos estes fatores contribuíram de forma
determinante para que o comércio internacional tivesse um crescimento exponencial nas
últimas 3 décadas.
O Sr. Embaixador já referiu algumas
tendências do comércio internacional,
eu refiro aqui também algumas que me
pareceram interessantes. Assiste-se e
vem-se assistindo nas últimas décadas a
uma integração dos mercados com criação
de grandes zonas de mercado livre quer
a União Europeia quer a NAFTA, quer a
ASEAN. O Sr. Embaixador já se referiu ao
Mercosul. E agora mais recente a tentativa
dos Estados Unidos de criarem uma zona
de comércio livre quer com a Europa quer
com alguns países da zona do Pacífico e da
América Latina.
Paradoxalmente,
essa
integração
de mercados coincide com uma
fragmentação do processo de produção.
Essa fragmentação é resultante de toda
esta revolução tecnológica que já referi.
Hoje as empresas para se manterem
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QUARTA SESSAO
competitivas num ambiente global de crescente concorrência, procuram produzir cada
um dos componentes dos seus produtos nos países onde conseguem obter um melhor
preço/qualidade, independentemente da sua localização geográfica. Os especialistas em
comércio internacional chamam a este procedimento “global sourcing” que é fundamental
para manter a competitividade das empresas num mundo cada vez mais global. Portanto,
hoje as cadeias de abastecimento das empresas são cada vez mais globais. Se virem,
por exemplo, que um automóvel que há 50 anos se produzia todo no mesmo sítio, todas
as peças eram fabricadas e montadas no mesmo local, hoje o veículo da AutoEuropa,
montado em Palmela recebe componentes de mais de 50 fornecedores em mais de uma
dezena de países. Ou seja, o mundo também nesse aspeto mudou e muito. Assistimos
à implementação do trabalho em rede. Nós estamos todos ligados no dia-a-dia. Hoje é
um problema esquecermo-nos do nosso telemóvel em casa, porque ficamos desligados
do mundo, não temos acesso ao nosso mail, ficamos sem acesso á Internet. Portanto, o
trabalho em rede é cada vez mais importante e a colaboração entre as empresas é também
fundamental em termos de concorrência internacional. Hoje as grandes multinacionais
rodeiam-se de fornecedores de grande qualidade. Estava há pouco a falar de Palmela, da
Volkswagen Sharan que é montada lá. A qualidade dos automóveis são montados nessa
fábrica é o resultado de um esforço conjunto entre a empresa VW e o seu conjunto de
fornecedores. Quanto melhor for esse conjunto de fornecedores na criação de produtos
inovadores e diferenciados da concorrência, mais competitivos são os automóveis junto
dos seus potenciais compradores. Portanto não é apenas a Volkswagen mas todo um grupo
de fornecedores que essa empresa consegue criar à sua volta que a tornam competitiva
no mercado global.
Temos hoje um mundo multipolar, pelas razões políticas que todos conhecemos e
todas estas tendências contribuíram para a afirmação de novos mercados emergentes.
Assistimos ao aparecimento de novas classes médias com poder de compra, como foi
o caso do Brasil e também de alguns países africanos de língua oficial portuguesa que
representam novas oportunidades para as empresas portuguesas.
Temos assistido também a um aumento exponencial da concorrência. Hoje toda a gente
quer exportar, todos os países querem atrair investimento estrangeiro, todos querem
atrair turistas. Essa concorrência começa por se verificar no nosso mercado interno. Eu
estive 8 anos em Espanha e via o número de empresas espanholas que tentavam entrar
no mercado nacional.
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Quarta Sessao
- O papel das instituicoes
| Eng.º Vital Morgado
,
Não sei se sabem mas Portugal é o terceiro mercado mais importante para Espanha, a nível
mundial. Espanha exporta mais para Portugal do que para toda a Ásia ou América Latina,
portanto a concorrência para as empresas portuguesas começa aqui, no nosso próprio
país. Hoje mais de 17.000 empresas espanholas vendem no nosso mercado interno e
mais de 1.000 estão cá implantadas, concorrendo com as nossas empresas na procura
por clientes portugueses. As empresas portuguesas que querem crescer, têm de procurar
oportunidades de negócio também noutros mercados. Para isso, têm que ser competitivas
junto dos clientes dos mercados onde querem apostar. Podem ser competitivas
conseguindo abordar esses clientes com uma oferta de preço/qualidade melhor que os
concorrentes, ou apostar em produtos e serviços inovadores, focando a sua atuação em
segmentos do mercado onde as possibilidades de sucesso sejam maiores.
A utilização crescente das tecnologias de informação e comunicação por parte das
empresas, quer na conceção e design dos produtos e serviços, quer na sua produção
e entrega ao cliente final, faz com que o ciclo de vida dos produtos e serviços seja ada
vez menor, devido à necessidade que as empresas têm em ser inovadoras para serem
competitivas perante a sua concorrência. Por isso, a diferenciação, a inovação, a criação
de marcas são importantes para que os produtos e serviços possam ter um acesso mais
facilitado aos seus consumidores, num mundo em que o aparecimento constante de novas
propostas de valor é determinante para o sucesso das empresas.
Uma nova realidade é a crescente importância no sector dos Serviços. Os Serviços hoje
têm um potencial de crescimento enorme. As empresas de Serviços acompanharam toda a
industrialização que aconteceu nos mercados emergentes. Empresas de serviços na área
financeira, na área da consultadoria, na área jurídica e também na área da engenharia têm
encontrado nos mercados emergentes grandes oportunidades de negócio que permitiu o
seu crescimento a nível global.
Também, a crescente urbanização das populações é hoje uma realidade, designadamente
nos países asiáticos, africanos e latino-americanos. As populações tendem a concentrarse cada vez mais nas cidades, que se tornaram polos fundamentais de desenvolvido e
crescimento económico. Para a esmagadora maioria das empresas portuguesas que se
internacionalizam é nestas cidades que procuram concentrar os seus negócios, tentando
encontrar parceiros locais que as ajudem a desenvolver os seus negócios nesses países.
Relativamente ao comércio externo português, gostaria de vos mostrar aqui a evolução
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QUARTA SESSAO
das últimas duas décadas. Podem ver neste slide, a evolução das exportações portuguesas
de bens e serviços, desde 1996.
Gostaria de vos mostrar também a evolução do peso das exportações de bens e serviços
no PIB português, que passou de 28% em 2009 para 41% em 2013, confirmando assim
que as exportações têm sido um dos pilares da nossa recuperação económica.
No que se refere ao número e à tipologia das nossas empresas exportadoras, penso que
é importante ter uma ideia da sua evolução nos últimos anos. No slide que vos apresento,
está a evolução entre os anos 2000 e 2013.
Como poderão verificar o número de empresas exportadoras foi afectado pela crise
de 2009. Esta queda verificou-se essencialmente nos mercados de língua portuguesa
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Quarta Sessao
- O papel das instituicoes
| Eng.º Vital Morgado
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em África, portanto, para onde exportam muitas empresas de pequena dimensão que
perante uma situação de crise e uma dificuldade de financiamento, tiveram de abandonar
temporariamente a atividade exportadora. No entanto, como o gráfico também evidencia,
tem-se verificado, nos últimos 5 anos, uma recuperação muito significativa e que todos
esperamos que seja consistente.
Mas que tipo de abordagem fazem as nossas empresas quando querem crescer
internacionalmente e optam pela via das exportações para entrar nos mercados
internacionais?
A expansão internacional destas
empresas faz-se: 1) por proximidade
geográfica e daí o facto da Europa
significar quase 70% das nossas
exportações de bens e serviços e
Espanha representar quase 23%; 2)
por proximidade cultural e linguística e
daí a crescente importância dos países
de língua portuguesa e também
espanhola da América Latina para os
negócios das nossas empresas e 3)
empresas de base tecnológica que
baseiam o seu negócio nas tecnologias
de informação e na Internet e quando
nascem têm, desde logo, uma vocação
global.
Esta é a repartição geográfica das
nossas exportações de bens e
serviços. Como podem ver ali na União
Europeia a concentração é enorme
e é um dado que se vem verificando
com consistência nos últimos tempos.
Depois da Europa, o principal destino
das nossas exportações é África,
essencialmente porque Angola tem ali
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QUARTA SESSAO
um peso muito importante, cerca de 7% nos 11,6% que ali assinalo. Se repararem, vendemos
atualmente mais para a África do que para toda a América, desde o Canadá ao Chile.
Um gráfico para assinalar ainda com mais evidência o peso das nossas exportações para a
Europa e aquilo que a Europa representa para as empresas portuguesas que têm negócios
internacionais. A barra representada a azul escuto é relativa ao ano de 1996 e a barra
amarela ao ano de 2013. Como podem veriicar, existe uma concentração enorme dos
nossos negócios no espaço da União Europeia.
Se virmos depois ali a zona reservada a África, tem havido um crescimento significativo dos
negócios com os PALOP, algum crescimento também para o resto de África, essencialmente
nos países do Magreb.
Depois nas Américas temos visto que, infelizmente, na América do Norte temos vindo
a perder peso e que, na América do Sul, as coisas começam a melhorar. Há mercados da
América Latina que, neste momento, são muito procurados pelas empresas portuguesas,
nomeadamente a Colômbia mas também o Peru, o Chile e obviamente o Brasil com as
dificuldades que o Sr. Embaixador também já referiu, enfim, um com protecionismo difícil de
ultrapassar mas que, sendo um país de língua portuguesa e uma das maiores economias do
mundo, ele é obviamente um mercado extremamente importante. Depois, o negócio na Ásia,
onde muitas empresas estão também a tentar detectar oportunidades de negócio, onde
temos a própria AICEP aumentado a nossa presença. Abrimos um escritório na Indonésia,
temos um escritório em Singapura, temos um escritório também na Malásia. Estamos em
Macau, estamos em Shangai e estamos em Pequim, porque sentimos que cada vez mais
existe um número crescente de empresas portuguesas interessadas naquela zona do
mundo e especialmente na China.
Trouxe também um gráfico do comércio externo
português com os principais 10 mercados que
significam 65% do total do que nós exportamos.
O grande desequilíbrio, acontece nas nossas
relações comerciais com Espanha. Temos um
superavit importante com França, Angola e com
os Estados Unidos e relações comerciais mais
equilibradas com os restantes mercados.
Com a crise de 2009 e tudo aquilo que aconteceu
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Quarta Sessao
- O papel das instituicoes
| Eng.º Vital Morgado
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no mercado interno e que todos nós conhecemos, com uma redução muito significativa da
procura interna, as empresas tiveram de se virar para o exterior para diversificar os seus
negócios e isso teve os seus resultados positivos.
Como vêem neste gráfico, em 1996 o negócio das empresas fora da Europa significava
20% do total e, no ano passado, esse número aumentou 50% e já representava cerca de
31%.
Mas que tipo de empresas exportam
e qual o montante das suas
exportações?
No gráfico seguinte, podem ver
que 103 empresas portuguesas
representam quase 50% daquilo
que nós exportamos. Muitas
deles estiveram aqui ao longo do
dia. Obviamente que este tipo de
empresas tem um conjunto de
recursos, quer seja recursos humanos
ou financeiros, conhecimentos dos
mercados, capacidade técnica que
lhes permite fazer a sua expansão
internacional sem o apoio da AICEP.
Precisam pontualmente do nosso
apoio, temos trabalhado com muitas
delas e estamos sempre disponíveis
para ajudar naquilo que precisam mas
é um apoio pontual. Estas empresas
exportam por ano mais de 50 milhões
de euros, cada uma.
Depois temos um conjunto de cerca de 140 empresas que exportam no intervalo entre 25
e 50 milhões de euros/ano, cada uma, e que representam 12% do total. Depois temos outro
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QUARTA SESSAO
conjunto de cerca de 3500 empresas que exportam entre 1 e 25 milhões de euros/ano, cada
uma, que representam 35% do total. Temos depois temos um conjunto enorme de cerca de
18 mil empresas que exportam menos de 1 milhão de euros por ano, cada uma, e estas
sim, são aquelas que nós procuramos ajudar porque são empresas que têm dificuldades
quer em recursos humanos quer em capacidade financeira, quer em obter conhecimento
dos mercados e que, a AICEP procura trabalhar, ajudá-las, incentivá-las, sensibilizá-las para
a necessidade de trabalharem em conjunto para competir, tentar que elas se unam e se
associem para que possam repartir os riscos e ter uma oferta mais abrangente e uma maior
capacidade de negociação junto dos seus potenciais clientes.
Portanto, este gráfico dá um pouco a ideia da importância que a AICEP tem para o conjunto
das pequenas e médias empresas em Portugal porque, como referi, sem muitos meios e
com o incremento da concorrência a nível internacional, as empresas têm de fazer muito
bem o seu trabalho de casa e precisam muito do nosso apoio.
Tive muita pena de não estar aqui durante a manhã mas estivemos em Braga com 150
empresas na Associação Industrial do Minho, com os nossos colegas de França e de
Moçambique e estamos a fazer um road show por todo o país que vai decorrer até ao fim
do ano e durante o ano de 2015, tentando ir ao encontro das pequenas e médias empresas,
tentando capacitá-las, dar-lhes informação para que elas, quando vão para o estrangeiro
estejam melhor preparadas, vão bem capacitadas para que tenham maior possibilidade de
êxito. Ou seja, o core business do nosso trabalho passa por ajudar este tipo de empresas de
pequena e média dimensão e apoiá-las numa fase difícil do nosso mercado interno. Procurar
alternativas nos mercados externos leva estas empresas a avançar para o estrangeiro e, se
estas 18 mil conseguiram outras pequenas empresas também poderão conseguir desde
que se preparem bem e tentaremos, com o nosso apoio, que elas tenham sucesso.
Para concluir, gostaria de falar um pouco da AICEP. Somos uma empresa pública de natureza
empresarial. Temos duas missões fundamentais: uma é atrair investimento estrangeiro
para Portugal e a outra é apoiar a expansão internacional das empresas. Trabalhamos numa
lógica de proximidade ao tecido empresarial. Portanto, fazem sentido estas ações que
fazemos fora dos grandes centros urbanos indo assim ao encontro das empresas. Temos
cerca de 60 colegas nossos aqui no Porto, em Lisboa e nas 9 Lojas de Exportação nas
principais cidades do país, são gestores de clientes, que tentam resolver diariamente os
problemas das empresas de uma forma mais próxima. Todas as empresas que estiveram no
painel anterior têm um gestor de cliente na AICEP. Damos um apoio personalizado durante
160
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Quarta Sessao
- O papel das instituicoes
| Eng.º Vital Morgado
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todo o processo de internacionalização. Temos hoje, se não me engano, uma rede externa
em 48 cidades de 42 países e estamos localizados nas Embaixadas de Portugal para que,
em conjunto com os Embaixadores, possamos de uma forma mais eficiente e eficaz ajudar
as nossas empresas.
Portanto, este é o tipo de trabalho que nós fazemos. Trabalhamos com empresas ou que
já exportam e querem consolidar a sua posição nestes mercados ou eventualmente ir para
novos mercados com novos exportadores, o que fizemos hoje de manhã em Braga ou,
como já foi aqui referido, empresas que investem no exterior. Temos diversos canais de
relacionamento com as empresas. Temos os gestores de cliente, temos um site na Internet
que recebe cerca de 90 mil visitas por mês e um Contact Center.
Temos um conjunto de produtos e de oportunidades de negócio que divulgamos, mais de
5000 por ano. Fazemos ações de capacitação ao longo do País. Fornecemos às empresas
as listas de compradores internacionais, que é de longe o principal produto que as empresas
procuram quando nos contactam. Participamos nalgumas feiras, temos informação sobre
mais de 100 mercados. Somos 440 pessoas, 150 estão no estrangeiro, 70 estão aqui no
Porto, os restantes em Lisboa e em diversas cidades do País. Temos uma rede externa, como
já vos referi, e somos a entidade que gere os apoios comunitários dedicados à promoção
internacional. Estamos a encerrar o quadro comunitário entre 2007 e 2013. Apoiamos 2377
projectos individuais que tiveram, como vêm no quadro a amarelo, um incentivo público de
320 milhões de euros. Nem todos estes projectos puderam ser implementados mas, este
foi o volume dos projetos aprovados e depois temos outros projetos a nível coletivo que são
apresentados pelas associações. A AEP trabalha connosco já há algum tempo e, portanto,
destes projectos colectivos que nós apoiamos nos últimos 7 anos aprovamos 220 projectos
com incentivo público na ordem dos 210 milhões de euros. Portanto, o quadro comunitário
de apoio para ajudar as empresas a fazer promoção internacional foi na ordem dos 530
milhões de euros nos últimos 7 anos.
Vamos lançar, em breve, o novo quadro comunitário de apoio. As novas verbas destinadas
a promoção internacional vão ser reforçadas e, portanto, se quiserem contactar connosco
para obterem informação ou para vos ajudarmos a apresentar candidaturas, para quem
ainda não tem experiência nesta área, estamos completamente disponíveis para isso.
Só para terminar, dois slides sobre a questão do investimento directo estrangeiro. Nós
funcionamos como one stop shop para as empresas quer portuguesas, quer estrangeiras,
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QUARTA SESSAO
que têm projectos de investimento em Portugal acima de 25 milhões de euros. Negociamos,
quer os incentivos, quer alguns apoios à formação em nome do Estado. Algumas das
empresas que estiveram aqui hoje tiveram toda essa negociação connosco como é o caso,
por exemplo, da Embraer e, portanto deixo-vos aqui uma ideia que das empresas nos últimos
anos quer na área dos Serviços, quer na área da Indústria negociaram projetos de investimento
com a AICEP.
Muito obrigado, mais uma vez, pelo convite e foi um prazer estar aqui convosco.
Moderador - Dr. Carlos de Abrunhosa de Brito
Muito obrigado Sr. Engº Vital Morgado. Resta-me agradecer aos nossos 2 convidados as
brilhantes intervenções e que, de certeza, contribuíram para todos aqueles que hoje aqui
estão connosco nestas jornadas, a entender melhor a organização do comércio externo.
Dou assim, por encerrada esta sessão de forma a podermos avançar de imediato para a
quinta e última sessão.
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COMUNICACOES
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QUINTA SESSÃO
AS UNIVERSIDADES E A PROJEÇÃO DE PORTUGAL NO MUNDO
Moderador:
Dr. Manuel Cavaleiro Brandão
Eng.º José Rui Felizardo - CEIIA
Dr. Cláudio Sunkel | IBMC – Instituto de Biologia Molecular
Prof. Jorge Gonçalves | Universidade do Porto
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QUINTA SESSAO
Moderador: Dr. Manuel Cavaleiro Brandão
Se estiverem de acordo, vamos então dar sequência aos nossos trabalhos. Estão todos
conscientes, como a mesa está, de que houve algum deslizar nos nossos tempos e temos
alguma pressão no sentido de garantir que o vosso entusiasmo não esmorece e que,
portanto, farão o favor de nos acompanhar até ao fim.
Este último painel tem como tema as universidades e a projecção de Portugal no mundo. De
alguma forma podemos dizer que encaixa bem no final do painel anterior porque ouvimos
muito falar de exportações. Temos todos ideia da importância que as exportações têm,
admito que para qualquer país, mas em particular para Portugal, tendo em conta a situação
em que nos encontramos. Para o significado das exportações há uma parte de valorização
que tem que ver com a qualificação dos recursos humanos e temos de reconhecer que essa
é uma primeira componente que as universidades proporcionam ao colectivo nacional. Por
outro lado, tem muito que ver com o que se possa adicionar em matéria de conhecimento,
em matéria de investigação e inovação. E é um pouco sobre isso que hoje vamos aqui ouvir
falar, dado que as universidades podem e devem contribuir muito para essa dimensão da
produção nacional, em particular se a articulação e cooperação entre as universidades, o
tecido produtivo e as nossas empresas for efectivamente eficaz.
Temos connosco três pessoas que tivemos muito gosto em convidar e a quem agradeço
terem-se disponibilizado para colaborarem com as Fundações que organizam e promovem
estas Jornadas. E vou dar de imediato a palavra ao Sr. Eng.º José Rui Felizardo, que é licenciado
em engenharia mecânica pelo Instituto Superior Técnico, sendo actualmente o presidente
do conselho de administração da Inteli e mais concretamente presidente da comissão
executiva do Centro para Excelência e Inovação da Indústria Automóvel. É autor de muitos
artigos e várias publicações e contamos muito com a qualidade da sua intervenção que está
antecipadamente garantida.
Tem a palavra. Muito obrigado.
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QUINTA SESSAO
CEIIA - Centro para a Excelência e Inovação na Indústria Automóvel
Eng.º José Rui Felizardo
Muito boa tarde a todos.
Sr. Prof. Valente de Oliveira, Dr. Paulo Almeida, Dr. Cavaleiro Brandão,
É uma honra para o CEiiA poder partilhar a sua curta experiência de internacionalização.
Curta porque o CEiiA é um centro de inovação com 8 anos e, naturalmente, uma organização
com 8 anos não tem uma experiência de internacionalização como a das empresas que
vimos hoje aqui.
No entanto, o CEiiA foi criado a pensar nos mercados globais, na valorização do
conhecimento das nossas universidades, na valorização do seu conhecimento numa
dimensão internacional. E é exactamente isso que vou partilhar hoje, esta experiência, esta
trajectória que nós, nestes últimos anos, fizemos.
Já fomos referenciados aqui pela Embraer, o que naturalmente muito nos honra. Será um
dos projectos que irei comentar, nomeadamente a nossa participação no KC-390, o maior
avião da Embraer, e que foi apresentado há dois dias atrás. É um orgulho para o CEiiA e para
Portugal a participação neste projecto. O CEiiA foi responsável pelo desenvolvimento de
mais de 40% da aeroestrutura da aeronave e isso é um facto único que nos deve orgulhar a
todos, às universidades que formaram os nossos quadros, aos técnicos que têm trabalhado
e principalmente a Portugal. Pela primeira vez, um avião com esta dimensão voa com
engenharia portuguesa.
Irei partilhar um outro projecto de internacionalização que demonstra que as vantagens
competitivas portuguesas não estão só nos recursos naturais, estão essencialmente nos
recursos humanos, e que os nossos recursos humanos são realmente diferenciadores
daquilo que se pode fazer no mundo.
Esse outro projecto que irei partilhar é o nosso projecto em Curitiba. Hoje a rede de
mobilidade da cidade de Curitiba é gerida a partir de um sistema criado em Portugal, e que
está em expansão no Brasil.
Assim, o que é o CEiiA? Somos um centro de engenharia e inovação, orientado para o
desenvolvimento das indústrias da mobilidade e da aeronáutica.
Mobilidade porquê? Porque começámos no automóvel e, quando nos começámos a
especializar, tivemos de integrar todos os grandes drivers e as grandes orientações da
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Quinta Sessao
- As Universidades e a Projecao
de Portugal no Mundo | Eng.º José Rui Felizardo
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mobilidade, nomeadamente a integração dos veículos com a mobilidade de uma forma mais
geral e com os sistemas de gestão em particular.
A aeronáutica surgiu por diversificação, porque as competências que detínhamos,
nomeadamente na parte de cálculo de estruturas associado ao automóvel, puderam ser
valorizadas ao nível da indústria aeronáutica.
Essas são as razões pelas quais nós hoje abordamos especialmente estes dois mercados e
um terceiro de que irei falar mais adiante.
Como é que foi o nosso percurso entre 2006 e 2014? Começámos com uma equipa de 20
pessoas, iniciando a nossa construção de competências em engenharia e desenvolvimento
de produto essencialmente em Itália. Alguns lembrar-se-ão, há uns anos atrás, de um
projecto referido como P3 com a Pininfarina. Esse projecto esteve, de certa forma, na
génese de todo este desenvolvimento que a organização conseguiu.
Após esta fase de desenvolvimento de competências, iniciámos a sua valorização em
produtos de engenharia para mercados globais. Vendemos engenharia de Portugal para
o mundo, vendemos engenharia aeronáutica para a AgustaWestland, para a Daher Socata,
para a Embraer, e, na mobilidade trabalhamos com referências como a Maclaren, a Ferrari ou
a Volkswagen.
Esta foi a forma como evoluímos. Começámos com cerca de 20 pessoas hoje somos 260.
Somos o maior empregador de engenheiros aeronáuticos e aeroespaciais em Portugal e
esperamos crescer em 2015 para perto das 300 a 340 pessoas.
O que é que fazemos? Forçamos o limite do conhecimento, “engenharizamos” criatividade,
este é um dos valores que está no nosso ADN. Aplicámos isto, inicialmente, em três grandes
mercados: mobilidade, aeronáutica e um novo mercado de expansão que estamos a abordar,
o Oil & Gas.
A mobilidade representa, neste momento, a área de negócio mais emergente do CEiiA
porque é a área em que estamos a trabalhar em produtos e serviços próprios, em que vamos
da fase de concepção e desenvolvimento do produto até à relação com os operadores e ao
cliente final. Na mobilidade temos duas áreas perfeitamente distintas mas complementares:
a área de sistemas e a área dos devices.
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QUINTA SESSAO
Na parte de sistemas temos o sistema de gestão, centrado na Maia, a partir do qual, neste
momento, gerimos várias redes de mobilidade no Brasil (a rede de Curitiba é um desses
exemplos, mas também Brasília) e em cidades na Europa. Esperamos, em 2016, ter no
nosso sistema de mobilidade cerca de 10 milhões de transacções. Porquê? Porque tanto
integramos os devices desenvolvidos por nós como podemos desenvolver engenharia e
serviços em cima de produtos de terceiros, como acontece com os produtos da Renault.
Integramos ainda os sistemas de energia e de transportes na cidade. Hoje, os veículos da
Renault do Brasil, especialmente os eléctricos, estão conectados com o nosso sistema de
gestão de mobilidade, o que permite, nomeadamente, o cálculo de emissões em tempo real.
O nosso sistema mobi.me é a única aplicação no mundo que neste momento faz cálculo de
emissões de CO2 em tempo real, daí termos sido distinguidos com a possibilidade de fazer
uma comunicação na Conferência do Clima das Nações Unidas que decorreu em Lima, no
Peru, no final de 2014. E, ao termos os veículos todos conectados com o nosso sistema,
criámos uma nova lógica de serviços na área da mobilidade, nomeadamente a possibilidade
de um veículo poder ser pago na fatura de electricidade, ou a lógica de os seguros poderem
ser pagos em função do uso. Portanto, já não estamos a falar de PowerPoint, estamos a falar
de realidade, com integração de todos os sistemas de transporte, de pensar a mobilidade a
partir de casa. Isto é aquilo que hoje o nosso sistema permite.
Quando falamos de devices estamos a falar de veículos de quatro e de duas rodas. Sim,
sonhámos, há uns anos, desenvolver um veículo em Portugal que podia ser um veículo
inteligente. Era um sonho, fizemo-lo, desenvolvemo-lo e estamos na fase de o industrializar
no Brasil. Enfrentámos muitas dificuldades, naturalmente, todos estes processos as têm,
mas o BE, que é o nome do veículo, foi desenvolvido com engenharia portuguesa, design
português e, neste momento, está na fase dos primeiros estudos de industrialização para
o mercado brasileiro e o Mercosul.
Lançámos devices de duas rodas, estamos a criar a primeira rede de objectos de mobilidade
física. De que é que estamos a falar? De uma rede social de objectos que interagem entre
eles, interagem com o utilizador e com o próprio sistema de gestão de mobilidade. Estamos a
estudar este projecto na Califórnia por várias razões, não só pela lógica de gadget e gaming
que isto vai permitir, mas também porque há um acesso a um conjunto de tecnologias que
nós vamos usar, nomeadamente redes sociais, que implicam que estejamos próximos dos
nossos parceiros envolvidos. Fizemos a apresentação oficial deste conceito em Barcelona,
em Novembro.
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Quinta Sessao
- As Universidades e a Projecao
de Portugal no Mundo | Eng.º José Rui Felizardo
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Na área da aeronáutica, dividimos o nosso trabalho em asa fixa, asa rotativa e UAVs.
Na asa fixa, o grande emblema é a nossa participação no programa KC-390 da Embraer. A
oportunidade e a confiança que a Embraer nos deu, ao CEiiA e a Portugal, de poder participar
num projecto com estas características, permite-nos hoje estar capacitados para participar
em qualquer projecto deste tipo. Dentro desta aeronave nós fomos responsáveis, como
disse, por mais de 40% de desenvolvimento da aeroestrutura. É único. Nós internamente,
às vezes brincamos dizendo que, depois dos grandes projectos de engenharia de barragens
ou da construção civil, este é o maior projecto de engenharia em que Portugal participou.
Na asa rotativa – helicópteros – destacam-se os projectos com a AgustaWestland.
Desenvolvemos trabalho para vários helicópteros, sempre na óptica de valorizarmos
competências a vendermos serviços de engenharia.
Por fim, temos os UAVs. Naquele ciclo que mostrei inicialmente, falámos de desenvolvimento
de competências, vendas de serviços de engenharia associados às competências
adquiridas e entrada num novo ciclo que é o desenvolvimento de produtos próprios. Por
produtos próprios referimo-nos a produtos desenvolvidos no CEiiA, mas não quer dizer que
sejam produzidos no CEiiA, porque não nos concentramos na produção e temos parceiros
de produção. Na aeronáutica o nosso produto mais recente é o UAS-30, o primeiro UAV
pensado e desenvolvido para uma missão específica, e que tem que ver com a inspecção
das linhas eléctricas de alta tensão. Está na fase de testes, fez os primeiros voos, correu
tudo bastante bem e esperamos que em breve possamos ter este produto em operação
não só no mercado nacional mas também no mercado brasileiro onde as linhas eléctricas de
alta tensão são muito extensas.
Em relação ao nosso trabalho no Oil & Gas, estamos a cerca de um ano e meio de ter os
primeiros trabalhos de engenharia nesta área (geralmente fazemos as previsões a mais
longo prazo e depois acabamos por conseguir encurtar), nomeadamente no que diz respeito
ao cálculo de estruturas essencialmente ao nível de sub sea e da exploração petrolífera. E
porquê? Estamos na mesma trajectória que definimos inicialmente, ou seja, tudo o que tem
que ver com o cálculo de estruturas associadas a produtos complexos, nomeadamente ligas
entre metálicos e compósitos e que tenham aplicações em estruturas muito complexas
como são as estruturas ao nível do sub sea. Não saliento aqui nenhum dos projectos porque
são ainda muito embrionários mas, como já temos uma equipa de trabalho e investigação,
não quis deixar de o mencionar e, para além do que referi para as estruturas do sub sea
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QUINTA SESSAO
estamos a falar também dos digital oil fields que é uma das áreas em que temos procurado
reforçar.
Até agora, este caminho foi feito sempre em colaboração com universidades no âmbito
de programas que nós dinamizamos, como é o caso do programa A+, que envolve várias
universidades e empresas, nomeadamente o Instituto Superior Técnico, a FEUP, a
Universidade do Minho, ou universidades internacionais. É um programa determinante para
o CEiiA.
Chegar aqui foi uma missão possível mas, para mantermos esta posição e evoluirmos na
nossa especialização, temos de fazer um grande reforço do ponto de vista de investigação
e desenvolvimento, na qual estes programas bem como a ligação às universidades têm um
papel determinante.
Aquilo que nós vamos ter, nomeadamente no que se refere ao Oil and Gas, daqui a cerca de
4 anos, tem de começar a ser pensado hoje. Temos de introduzir as teses de doutoramento
ou as áreas específicas do ponto de vista de materiais que nos permitam futuramente ter
os equipamentos, os drivers para podermos estar neste tipo de mercados.
Portanto, quando vi o programa do evento e percebi que o CEiiA estava colocado na área
das universidades, apesar de não sermos uma universidade, achei que seria exactamente
esse o espaço onde eu colocaria o CEiiA, porque tudo isto que o CEiiA tem feito e a forma
como se está a conseguir internacionalizar assenta numa questão muito clara – a qualidade
dos nossos recursos humanos.
Nós hoje temos mais de 200 engenheiros e temos talvez das equipas de maior excelência.
Mas há 4 anos atrás o CEiiA tinha 20 engenheiros na indústria aeronáutica. Montar um
programa com as características do KC-390 teve um nível de exigência que vai para além
daquilo que eram as competências possíveis de existir numa organização como a nossa.
Claro que tivemos de criar uma equipa multinacional, nós hoje temos 7 nacionalidades dentro
do CEiiA e foi preciso ir buscar experiência internacional, reter conhecimento em Portugal.
Contudo, para que isto não seja apenas uma passagem, é preciso que a retenção deste
conhecimento possa estar muito associado às relações que nós conseguimos estabelecer,
nomeadamente com as universidades portuguesas que estão envolvidas connosco.
Como nos internacionalizamos? Com transparência, com responsabilidade e respeito pelas
pessoas e pelas diferenças.
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Quinta Sessao
- As Universidades e a Projecao
de Portugal no Mundo | Eng.º José Rui Felizardo
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Com transparência porquê? Porque quando se aborda um programa como este com a Embraer,
a confiança que se tem de passar para o lado de lá não é só uma confiança técnica, uma
confiança do empenho. Tem de existir uma confiança que permita garantir que mesmo que
se saiba que não existem os recursos todos no momento 0, nós vamos conseguir cumprir o
acordado. Hoje, podemos dizer “nós conseguimos”. E a transparência que nós tivemos para
mostrar as nossas fragilidades permitiu à Embraer ajudar-nos neste processo. Aquilo que
fizemos não é um trabalho isolado de tudo o resto, resultou da colaboração que foi possível
estabelecer directamente com a Embraer, com o processo de aprendizagem com a Embraer,
com os engenheiros da Embraer que vieram trabalhar connosco. Este trabalho permitiu
reter conhecimento em Portugal que estamos a passar para outras partes.
Portanto, independentemente de sermos pequeninos, é com grande orgulho, como
português e como engenheiro, que olhamos para o KC-390 e vemos a bandeira de Portugal
exposta pelo seu trabalho e pela engenharia que foi feita.
Acho que Portugal está de parabéns, a nossa engenharia está de parabéns, demos um
passo muito significativo na nossa afirmação na indústria aeronáutica em Portugal.
Penso que o que temos hoje no Brasil, para além do projecto de Curitiba, do projecto de
industrialização do BE e da rede social de objectos de mobilidade que estamos a desenvolver
com Itaipu mas para a Califórnia, indica que este é um percurso de internacionalização que
está numa fase inicial mas que está no bom caminho.
Não queria deixar de referenciar o apoio fundamental que tivemos no Brasil por parte da
Embaixada Brasileira e da AICEP. A confiança que foi possível transmitir aos diferentes
players com que nós interagimos no Brasil deveu-se em parte a este apoio.
Eu vou passar um vídeo para terem a percepção de como é que hoje o Brasil nos vê.
(vídeo)
Era isto que queria partilhar hoje e mostrar que, com determinação, com audácia, com
competência, é possível afirmarmos a nossa engenharia no mundo. Espero que mais
bandeiras de Portugal possam estar nos grandes projectos de engenharia.
Muito obrigado a todos.
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QUINTA SESSAO
Moderador - Dr. Manuel Cavaleiro Brandão
Sr. Eng.º muito obrigado por este magnífico depoimento e testemunho. Conforta a tal ideia
de que as universidades vão contribuindo, desde logo, com a relevantíssima requalificação
dos nossos recursos humanos.
Eu dava agora a palavra ao Sr. Prof. Cláudio Sunkel, que nasceu no Chile em 58, que se
doutorou em Sussex, na Inglaterra. É professor catedrático de biologia molecular no instituto
de ciências biomédicas de Abel Salazar e é, desde há alguns anos, director do instituto de
biologia molecular e celular da Universidade do Porto, dirigindo o laboratório de genética
molecular desse mesmo instituto. Tem-se dedicado à investigação com grandes resultados,
coordena uma instituição de natureza internacional, colabora com umas quantas, mas eu,
pelas razões que conhecem e com a aceitação do Prof. Sunkel, estou a tentar ser mais breve
nestas apresentações.
Tem a palavra.
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QUINTA SESSAO
IBMC – Instituto de Biologia Molecular
Dr. Cláudio Sunkel
Em primeiro lugar, agradecer ao Prof. Valente de Oliveira pelo convite, à AICEP, a Serralves
e, começar por dizer que no meio da sessão da manhã eu refiz toda a minha apresentação
porque percebi que o contexto era um pouco diferente. Ou seja, eu retiro 3 conceitos
fundamentais das apresentações anteriores que penso que nesta última ficaram muito
claros. A 1ª – recursos humanos, a 2ª – criatividade e a 3ª – inovação. Estes três aspetos tem
como base o desenvolvimento do sistema científico nacional que tem acontecido de forma
acelerada durante os últimos 25 anos. Portanto, eu queria fazer 3 coisas. A primeira é falar
um pouco sobre o que é o sistema científico nacional em Portugal, qual a sua composição e
qual é o seu percurso histórico. Falar um pouco sobre um caso específico que é o instituto
que eu dirijo e, depois, falar 3 minutos e mostrar um filme que, neste caso, são 90 segundos,
sobre o futuro do que nós queremos fazer.
O sistema científico em Portugal
Quando falamos da história recente do sistema científico nacional, podemos resumir a
sua produtividade (quadro n.1), que se desenvolveu com esta dimensão e com esta escala
exponencial sobretudo a partir dos anos 80. Eu cheguei a Portugal em 1987, aproveitei o
comboio da integração de Portugal na Comunidade Europeia. Portugal explodiu em termos
de produção científica a partir da década de 90. Esta produção científica tem tido um efeito
imenso na sociedade portuguesa, e vou discordar de algumas coisas que têm sido ditas não
aqui mas transmitidas pela comunicação social.
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Quinta Sessao
- As Universidades e a Projecao
de Portugal no Mundo | Dr. Cláudio Sunkel
,
O impacto do sistema científico nacional se mede pelas citações, ou seja, se as pessoas que
também trabalham na nossa área citam os trabalhos que nos publicamos. E, este, é o percurso
das citações do sistema científico nacional Português que acompanha perfeitamente o seu
desenvolvimento e, portanto, tem um impacto muito significativo (quadro n.2).
Muito resumidamente, o sistema científico nacional assenta nas Universidades onde esta
a maior parte dos grupos de investigação, mais tarde, a partir de 2000 foram criados os
laboratórios associados que alguns de vocês conhecem. As avaliações regulares do Sistema
Científico e Tecnológico Nacional começaram em 96, a segunda avaliação decorreu em
99, e mais tarde em 2003. Eu próprio coordenei a avaliação que decorreu em 2007 na
qual não houve nenhum avaliador português, foram todos estrangeiros ou portugueses a
trabalhar no estrangeiro. Foram 25 painéis, foram avaliadas 382 unidades e os resultados
são amplamente conhecidos.
O que é que permitiu esse
desenvolvimento espetacular da
ciência em Portugal? Eu acho que a
base é sempre financeira. Foi possível
porque, de facto, o investimento
em ciência e tecnologia cresceu
significativamente e acompanhou o
desenvolvimento do sistema como um
todo.
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QUINTA SESSAO
As tendências dos últimos 4 anos são complexas, são difíceis, conhecemos a crise mas, o
problema é que neste momento o financiamento dado à investigação em 2012 é menor do
que aquele que havia em 2008 (quadro n.3).
Quando agora se fala na criatividade, nos recursos humanos e na inovação como motor e
futuro da economia em Portugal, temos de compreender que a possibilidade de Portugal
participar na criação de um avião, na modernização do calçado, dos têxteis, na criação de
tecnologia na área das energias renováveis e o resultado de um trabalho que demorou
muito tempo a ser desenvolvido. O que está a acontecer atualmente, nomeadamente
na redução do financiamento para a ciência e a tecnologia é perigoso porque isto terá
repercussões relativamente significativas nos próximos anos o que vai ser, provavelmente,
difícil de recuperar.
Onde é que está Portugal em termos
do seu investimento em Ciência e
Tecnologia quando comparado com os
parceiros da EU? Está no meio, onde se
localiza o seu investimento na ciência e
tecnologia (quadro n.4), está abaixo da
média comunitária, está muito abaixo
da média prevista para o Portugal
20/20 que foi traçada na cimeira de
Lisboa.
O que é que tem acontecido com
o investimento em Ciência e
Tecnologia nos últimos 20 anos? Este
investimento criou recursos humanos
dos que hoje se falou imenso. Estos
são os recursos humanos que estão
na base da internacionalização, na
minha perspectiva, da criatividade, da
inovação e, este envolvimento de uma
parte significativa da população portuguesa na área da investigação e desenvolvimento
que se envolveu neste processo (quadro n.5).
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Quinta Sessao
- As Universidades e a Projecao
de Portugal no Mundo | Dr. Cláudio Sunkel
,
Será que atingimos um número razoável de pessoa envolvidas no sistema de Ciência
Tecnologia em Portugal? Penso que estamos perto. De facto, se olharmos para os números
e aqui calculados a mil activos da população, Portugal atualmente tem 9.2 enquanto que
na Alemanha são 12.8 portanto são duas realidades bastante semelhantes. Podemos
dizer que Portugal atingiu em termos europeus um número de investigadores relevante. O
problema está, que de facto se separarmos esses investigadores por diferentes áreas de
actividade entre as empresas, o estado, o ensino superior e as entidades privadas sem fins
lucrativos nós só temos 23% dos nossos doutorados e investigadores nas indústrias, nos
Estados Unidos são mais de 50%, e na Alemanha são 61%. De facto é necessário agora
fazer com que pelo menos uma parte dos recursos humanos que foram desenvolvidos
nos últimos anos, sejam absorvidas no tecido empresarial. È absolutamente urgente que
isso aconteça e, aqui, o apelo é deixo, as empresas e que absorvam os recursos humanos
qualificados e que vai ser importante reter para que a Economia Portuguesa se modernize
e desenvolva. Alguém falou, anteriormente, em reter os recursos humanos em Portugal e
isso é fundamental.
Podemos também perguntar se o número de licenciados e doutorados e suficiente? São
mais ou menos… o número total de doutorados que estão a ser produzidos em Portugal
anualmente é de 1200 num total de
cerca de 24 mil. Mas, se nós olharmos
um pouco para o perfil educacional
português, olhamos para a percentagem
de adultos entre 25 e 64 anos de idade
com educação secundária, Portugal
ainda continua atrás de muitos
parceiros europeus. Portugal tem 40%
com educação secundária concluída
quando Alemanha tem 86%. Se
olharmos para o número de doutorados
por 1000 habitantes continuamos a
ter menos de metade ou quase metade
do número de doutorados em Portugal
que há na Alemanha, 17% comparado
com 32%. Portanto o número que
se tem de atingir para estar perto da
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QUINTA SESSAO
média europeia esta longe e isso ainda não foi atingido.
Então qual e a performance de Portugal nas quantificações de produtividade científica?
E aqui tem surgido também na comunicação social, a ideia de que Portugal não tem uma
performance muito significativa em termos de investigação e desenvolvimento. Portugal
tem a performance que o seu investimento possibilita (quadro n.6).
Se Portugal faz um investimento que fica no meio da média da Comunidade Europeia o
seu retorno será aquele que fica no meio da Comunidade Europeia. Contudo, se olhamos
em termos totais, Portugal produz só uma pequena fracção do total da produção científica
mundial (0.73%), mais baixo que a Espanha (3.1%), significativamente mais baixo que a
Alemanha (5.9%) e, obviamente que os Estados Unidos (22.1%). Mas, como é que nós
podemos medir o impacto do se produz em Portugal e determinar se vale a pena? Uma
forma de o fazer é ver a percentagem de documentos publicados por investigadores
portugueses que são reconhecidos lá fora e, de facto, são muitos (quadro n.7).
Se vamos comparar a percentagem de documentos citados em Portugal, Alemanha,
Espanha e Estados Unidos vemos que esta percentagem e praticamente idêntica para os
quatro países. O que é que isso quer dizer? Que afinal o que se produz em Portugal é citado
na sua maioria e numa perspectiva internacional muito semelhante ao que acontece em
outros países desenvolvidos.
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Quinta Sessao
- As Universidades e a Projecao
de Portugal no Mundo | Dr. Cláudio Sunkel
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Um ponto importante em termos de performance, se vamos olhar para coisas mais ligadas
à inovação, Portugal continua a ficar a baixo da média europeia e portanto não podemos
pensar que podemos atingir lugares ainda muito superiores se não se faz um investimento
correspondente para atingir patamares mais elevados neste domínio. O que há é muitas
empresas de base universitária que foram criadas, acabamos de ver uma delas que nos
dá uma ideia muito clara do que está a acontecer mas, de facto, há muitos desafios e
problemas que temos de ultrapassar em termos de investigação em Portugal. O primeiro
ponto é definir e um consenso alargado para esta área. O país teve um consenso para
a ciência e tecnologia que durou 20 anos. Se há uma área em Portugal onde se fez um
investimento por consenso, mesmo quando mudaram as cores políticas foi a ciência e o
resultado está a vista de todos. Portanto, é preciso pensar se nós queremos voltar a ter um
consenso e voltar a ter um crescimento que continue a sustentar esta performance. Sobre
tudo è preciso estabilizar as instituições. Já que elas crescem uma base muito frágil entre
outras coisas pontuais que é preciso definir.
Qual é um dos desafios fundamentais que nós temos pela frente e o que e nós não
fizemos? Penso que aqui os investigadores têm uma quota-parte de culpa, porque não
fizeram a tradução do seu conhecimento em tecnologia e inovação ao ritmo que se devia
ter sido feito. Portanto, é necessário que a interação entre a indústria e o tecido científico
seja mais fluida. É necessário que exista uma transferência da tecnologia de uma forma
mais ágil e dinâmica. É preciso que as empresas e o tecido industrial português acredite
na criatividade dos portugueses. Como viram alguns acreditaram e tiveram imenso
sucesso. É preciso que acreditem e que procurem as soluções para os problemas que
têm com os investigadores portugueses porque de certeza que vão encontrar muitas
soluções. E, finalmente, é necessário profissionalizar a ciência portuguesa porque 98% dos
investigadores portugueses são docentes e têm de dar aulas. Eu tenho 9 horas de aulas
por semana e isso torna o processo difícil de gerir, difícil de manter e torna complexo o
seu desenvolvimento. Portanto, eu deixava-vos com uma ideia global, na minha perspectiva
Portugal teve um desenvolvimento fantástico em termos de ciência e tecnologia e ela está
a traduzir rapidamente em criatividade e inovação. E preciso agora continuar a investir e
dar tempo para que os resultados da investigação científica se traduzam em valor para a
sociedade.
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QUINTA SESSAO
O Instituto de Biologia Molecular e Celular
O que é um centro de investigação em Portugal? O IBMC e uma associação privada sem
fins lucrativos. A nossa missão é fazer investigação e, derivada da investigação temos de
treinar os investigadores a nível pós-graduado, temos de fazer transferência de tecnologia
e fazer desenvolvimento social e contacto com o público, as escolas e a sociedade em geral.
A minha visão para o chamado “contrato social da ciência” e que um instituto de investigação
devia fazer ciência ao mais alto nível, fazer treino de pós-graduação, se envolver em
programas de ciência e sociedade, e promover a transferecia de tecnologia o que pode
tomar vária formas como os serviços, a formação de empresas ou o trabalho com empresas
(quadro n.8). Não sei se será uma visão mais anglo-saxónica do meu período de 14 anos
que estive na Inglaterra mas, esta é a minha visão e é o que estamos a tentar fazer no IBMC.
O nosso instituto tem 529 colaboradores, quase 200 investigadores que vêm de 22 países
diferentes e se vamos ver outros centros de investigação em Portugal acontece o mesmo.
A ciência portuguesa internacionalizou-se completamente e, Portugal foi um país muito
atrativo para trazer investigadores.
A que é que este centro se dedica? A estudar 3 áreas especificas: áreas de infecção e
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Quinta Sessao
- As Universidades e a Projecao
de Portugal no Mundo | Dr. Cláudio Sunkel
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imunidade (não trabalhamos com ébola mas já trabalhamos com tuberculose), neurociências
e aqui essencialmente as doenças neuro degenerativas e a área de biologia molecular e
celular que é uma ciência fundamental. Mas, temos uma área de aplicação prática. Estamos
a tentar desenvolver não só o diagnóstico mas terapêutica para varias doenças.
Uma pessoa muito conhecida em Portugal que é a Prof. Maria João Saraiva descobriu a
primeira mutação que dá origem à doença dos pezinhos, paramiloidose, uma proteína que
quando agrega e forma fibras, destrói os terminais nervosos, com efeitos devastadores nos
doentes o que eventualmente leva a morte. A Prof. Maria João esta a trabalhar com uma
empresa italiana a lançar ensaios clínicos para novas drogas que poderão eventualmente
ser utilizadas numa futura terapêutica para os doentes que tem estas mutações.
Nas áreas muito mais fundamentais, posso dar como exemplo o trabalho do Prof. João
Morais Cabral, professor assistente na Universidade de Yale que em 2006 decidiu voltar
para Portugal. Dedica-se a estudar estas coisas estranhas como proteínas localizadas nas
membranas das bactérias que regulam a passagem de nutrientes. Na imagem vêm um poro
de uma membrana que deixa passar iões e, portanto, esta molécula regula o sódio que
comemos e se ele sai ou fica nas nossas células. Portanto é um problema fundamental.
Quais são as outras coisas que estes centros fazem? São plataformas tecnológicas de
muitos tipos….de análise celular, de imagem, de experimentação animal, e o que fazemos
são projectos de investigação. Temos mais de 120 projectos em curso, temos alguns
“Cristianos Ronaldos”, temos quatro, e isto é atestado a nível europeu porque ganharam
esta distinção de European Research Council. Três portugueses e um suíço. Portanto, há
“cristianos Ronaldos” mas é muito difícil fazê-los, é o resultado de 20 anos de trabalho. O
Hélder Maiato fez o doutoramento comigo em 2003 e só teve este prémio em 2009, ou
seja, teve um percurso muito longo antes de chegar a esse produto final.
Este é um perfil do nosso financiamento (quadro n.9), e como podem ver os dados do
financiamento mostra claramente como e que a crise nos atingiu. Estávamos preparados
porque tínhamos internacionalizado a nossa investigação e as nossa fontes de
financiamento, portanto, foi possível assumir este decréscimo no financiamento nacional
que tem vindo a decrescer constantemente desde 2008. Contudo o IBMC continua a
aumentar o seu financiamento, embora tivemos uma pequena queda em 2012 e 2013
que foi onde se ressentiu mais. Tenho de confessar que 2015 é uma incógnita total neste
momento.
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QUINTA SESSAO
Produzimos muitos doutorados, os nossos
doutorados estão em muitas Universidade e
Institutos no estrangeiro, desde a universidade
de Amesterdão, aos Estados Unidos e, portanto, o
“produto” português doutorado é apetecível. Nós
conseguimos colocar um doutorado português
em qualquer universidade do mundo, desde o
MIT a Stanford porque acreditam que aquilo que
nós estamos a fazer o estamos a fazer bem.
Fazemos também muito trabalho com a sociedade em termos do que são as tendências da
ciência e, temos uma clínica de aconselhamento genético, temos doentes. Desenhamos os
primeiros ensaios de diagnóstico que permitem fazer diagnóstico da paramiloidose, entre
outras.
Algum financiamento para o IBMC vem destas atividades, é uma pena que os hospitais
não nos paguem a tempo e horas porque esse é um problema complexo. Os hospitais
devem vários mil milhões de euros, nós somos uma pequena parte dessa dívida. Também
trabalhamos com muitas empresas, contudo são praticamente todas de fora de Portugal
excepto três. A ideia e que as empresas possam vir ter connosco, pedir serviços e colaborar
com os nossos investigadores em projetos de desenvolvimento e inovação.
O Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (I3S)
Qual é o futuro? E aqui um futuro muito específico do Porto porque este futuro tem que
ver com o que nós queremos fazer, e isso passa pela criação de uma grande instituição
de investigação e inovação em saúde que se chama I3S. Provavelmente já ouviram falar
muitas vezes do I3S e agora irão ficar com uma ideia mais clara.
O financiamento da construção das novas instalações vem, basicamente, da CCDR-N,
programa ON.2 e da Universidade do Porto. Isto e o resultado de uma trabalho completamente
diferente do que tem acontecido muitas vezes em Portugal. Em vez de criarmos coisas
pequeninas que cada um pudesse gerir e ficar a ser o diretor da sua instituição, os três
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Quinta Sessao
- As Universidades e a Projecao
de Portugal no Mundo | Dr. Cláudio Sunkel
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institutos fundadores do projeto, INEB, IBMC e IPATIMUP decidimos agora que vamos fundir
estas 3 instituições e criar uma grande instituição que vai ter mais de 300 investigadores.
Envolve também o hospital São João, o Centro Hospitalar do Porto, o IPO, muitas faculdades
da universidade do Porto. A ideia é criar massa crítica com a qual podemos competir
e trabalhar a uma escala de dimensão internacional. O prédio está numa fase avançada
da construção, são 14 mil metros quadrados, em frente à faculdade de economia, vai ter
350 investigadores, uma parte significativa deles são docentes universitários a outra são
investigadores contratados pelos 3 institutos. No I3S queremos trazer aqui a universidade,
a clínica, a indústria e a sociedade e encontrar todos as interfaces a partir das quais se
pode criar valor, se pode inovar com criatividade envolvendo todos investigadores. As áreas
temáticas são muito específicas. Obviamente temos no IPATIMUP a investigação do cancro,
o ibmc e o ineb colaboram nas áreas de infeção e imunidade assim como em medicina
regenerativa e na áreasdas doenças neurológicas. No cancro queremos fazer investigação
fundamental, diagnóstico e terapêutica. Nas doenças infecciosas e medicina regenerativa
queremos estudar os mecanismos infeciosos mas também a forma como e que o organismo
reage, por exemplo, quando nós recebemos um implante de titânio no colo do fémur e,
por algum motivo, aquilo cria uma infecção e uma reação imune e é preciso resolver esse
problema. Portanto, bioengenharia juntou-se a nós através do INEB e, portanto, o que
temos a fazer é compreender melhor os patogénicos mas levar este conhecimento para
as áreas de medicina regenerativa. Finalmente, na área de neurobiologia queremos fazer
diagnóstico, tratamento e obviamente reparação do tecido neuronal, nomeadamente em
situações traumáticas assim como em doenças neurodegenerativas.
O nosso instituto I3S já foi avaliado, passou para a segunda fase da avaliação da FCT,
tivemos uma visita que foi muito proveitosa ao contrário do que muita gente se queixa,
portanto não me quero queixar mas, isto é o que nós gostaríamos para o futuro.
PS: O resultado da avaliações da Unidade de Investigação I3S submetida a Fundação para
Ciência e Tecnologia foi conhecido no dia 22 de Dezembro tendo o I3S sido considerado
como uma Unidade “Excepcional” e o projeto obtido financiamento que lhe permitira
arrancar como previsto em 2015.
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QUINTA SESSAO
Moderador - Dr. Manuel Cavaleiro Brandão
Penso que não tenho o direito de captar mais do vosso tempo e da vossa paciência,
embora tivesse vontade de fazer um ou outro comentário. Julgo que o Prof. Cláudio Funel
fez a demonstração da razoabilidade de alguns comentários, mesmo a nível internacional,
nomeadamente do World and Economic Fórum a respeito do impacto de um bom
relacionamento entre a industria ou a actividade produtiva e as universidades. A solução
do Prof. Jorge Gonçalves para essa vontade de organizar é também uma indicação positiva.
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QUINTA SESSAO
Universidade do Porto
Prof. Jorge Gonçalves
Minhas senhoras e meus senhores, a todos os meus cumprimentos.
Um cumprimento especial às direções das fundações AEP e Serralves a quem agradeço o
convite para participar nesta sessão.
Aceitei o convite com ingénuo entusiasmo pois só mais tarde me apercebi da dificuldade e
do desafio que é falar sobre o papel das universidades na projeção de Portugal no mundo,
com independência e de uma forma que seja minimamente original e assertiva e que
complemente as mensagens já aqui deixadas pelos colegas de painel.
Não é uma tarefa fácil mas é uma tarefa necessária, porque a defesa da necessidade de
instituições de ensino superior e de investigação fortes em Portugal e que contribuam para
o progresso e para a projeção de Portugal no Mundo, não pode ser uma causa corporativa,
como se o que estivesse em causa fosse apenas a defesa dos interesses dos académicos
e não da importância destas instituições para a própria sociedade.
Nos cerca de 20 minutos que me disponibilizaram, procurarei trazer alguns exemplos que
ilustram o papel das universidades na projeção das comunidades onde se inserem. Irei
procurar ilustrar a minha apresentação com exemplos de hoje e do passado como forma
de trazer diversas perspetivas e criar um distanciamento critico de um sistema que eu,
enquanto académico, não posso deixar de ter.
Procurei seguir do modo mais fiel possível o tema “ As Universidades e a projeção de
Portugal no mundo”, responder ao desafio que me foi colocado e apresentar argumentos
demonstradores da importância das universidades como instrumentos de progresso e
instituições promotoras da transformação quando as sociedades tiveram que enfrentar
momentos críticos ou foram confrontadas com impasses civilizacionais.
As universidades são investimentos caros. Por isso, é bom que a sociedade conheça o
retorno desse investimento! É por isso pertinente que se analise se as universidades estão
a servir a sociedade Portuguesa e a ajudar a projetar Portugal no mundo com eficácia e
eficiência!
Sendo juiz em causa própria, a resposta terá que ser ainda mais sólida e objetiva, para ser
credível, pelo que começarei por recorrer a fontes independentes que nos comparam com
o desempenho de universidades de outros países.
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Quinta Sessao
- As Universidades e a Projecao
de Portugal no Mundo | Prof. Jorge Gonçalves
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Em 2006, tive o gosto de integrar a equipa que dirigiu a Universidade do Porto nos últimos
oito anos liderada pelo Professor Marques dos Santos. Na sua candidatura a Reitor definiu
como prioridade colocar a Universidade do Porto entre as 100 melhores universidades
europeias no ano do seu centenário (em 2011).
Este desafio mudou a forma como os rankings
eram vistos em Portugal pois, até então,
nenhuma universidade portuguesa tinha
colocado uma fasquia tão objetiva e comparável,
no seu desenvolvimento. A organização da
informação, de modo a que a Universidade se
pudesse comparar, permitiu fazer um diagnóstico
das nossas forças e fraquezas e monitorizar a
nossa evolução. No ano em que celebrou o seu
primeiro centenário, em 2011, a Universidade
do Porto estava já na meta que definiu, ou muito
próxima, dependendo dos rankings.
No presente, Portugal tem, além da Universidade do Porto, outras universidades nos
rankings, e entre as 500 melhores do mundo. Apesar de todas as vicissitudes e incertezas
de financiamento que o ensino superior tem sofrido, parece-nos que se trata de uma
classificação que prestigia Portugal.
Ter universidades nos rankings internacionais é prestigiante e credibilizador para qualquer
país por ser visto como um reflexo da qualidade da sociedade em geral. Não é por acaso
que muitos países investem tanto para ter universidades em posições de destaque nesses
rankings.
É certo que as universidades portuguesas estão longe das posições de topo. Porém, se
compararmos os orçamentos das universidades de topo, percebe-se que estamos já a falar
de realidades completamente diferentes da realidade das universidades Portuguesas. E se
tivermos em atenção que as 500 universidades de top, onde as universidades portuguesas
se colocam, representam apenas 2,5% das instituições do Ensino Superior e de Investigação
do mundo, temos uma dimensão mais real do significado da importância das universidades
portuguesas nesses rankings. Pela forma como nos medem, as universidades portuguesas
dão uma boa imagem de Portugal e são um fator credibilizador para a afirmação cientifica,
tecnológica, cultural e económica de Portugal no mundo.
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QUINTA SESSAO
Na equipa reitoral que integrei era frequente dizer-se que de pouco valia estarmos ao nível
das melhores se na envolvente à universidade não havia um desenvolvimento comparável
com as melhores. Por isso, foi sempre nossa preocupação colocar a universidade à
disposição e ao serviço do desenvolvimento da nossa sociedade.
E procuramos fazê-lo de diversas formas. A mais óbvia é através da qualidade dos recursos
humanos que formamos e pelo impacto de tais quadros no desenvolvimento das empresas
e da nossa sociedade, o que já foi aqui reconhecido por vários oradores! Mas procuramos
fazê-lo por muitas outras formas, algumas delas totalmente despercebidas.
Esta é uma fotografia vulgar de um grupo que se confundiria com
qualquer grupo de turistas, numa cidade do norte do Portugal.
Porém, o turismo que fazem é acessório do motivo principal da
sua presença em Portugal. São oradores que vieram participar
numa conferência, numa entre as centenas de eventos análogos
que todos os anos as universidades portuguesas organizam,
mostrando Portugal e o seu potencial cultural, científico e
tecnológico no centro do debate do conhecimento contemporâneo
de vanguarda.
Hoje, esses eventos são mais do que meros eventos académicos, sendo frequente que
sejam também formas de transferência desse conhecimento para a sociedade Portuguesa,
pela presença de de todo o tipo de participantes além dos académicos.
Neste caso em particular, estes cientistas vieram discutir os avanços nas tecnologias
de produção de vegetais em estufas e em fábricas vegetais. Vieram do Japão, de Israel,
da Holanda e de Espanha. As suas apresentações foram ouvidas por académicos que
trabalham na área e que, por essa partilha, poderão ensinar e investigar melhor. Mas
estiveram também presentes empresas que estão a desenvolver tecnologia portuguesa
e produtores de hortícolas e flores que estão a procurar melhorar a rentabilidade das suas
explorações.
Se Portugal não tivesse universidades credíveis e um sistema científico e tecnológico de
qualidade, não teríamos a capacidade para atrair a Portugal e à sociedade portuguesa,
muitos dos melhores especialistas mundiais em qualquer área de conhecimento.
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- As Universidades e a Projecao
de Portugal no Mundo | Prof. Jorge Gonçalves
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Isto tem um valor intrínseco extraordinário. É uma forma discreta que dificilmente
se reconhece. Mas é fundamental para integrar Portugal na sociedade global de
conhecimento e para que a nossa sociedade, incluindo as nossas empresas, possam
acompanhar a evolução das fronteiras do conhecimento e poderem aperceber-se de
novas oportunidades e ameaças no setor onde operam. E tal nunca se poderá fazer sem a
mediação das universidades!
Mas as universidades têm-se envolvido em iniciativas mais diretamente ligadas com a
valorização económica e com promoção do desenvolvimento social.
Permitam-me que fale de um projeto em que trabalhei nos últimos oito anos: o UPTEC,
sigla pela qual é conhecido o parque de ciência e tecnologia da Universidade do Porto. É
um bom exemplo para ilustrar a forma empenhada como as universidades participam na
construção de uma sociedade mais apoiada no conhecimento.
O projeto UPTEC iniciou-se em 2006. O objetivo foi criar junto das faculdades e dos
centros de investigação, condições para que as ideias de novos negócios pudessem ter
hipóteses de se concretizarem.
Como isso obrigava à existência de instalações próprias, fomos procurando ou construindo,
nos diferentes campus, locais para incubar novas empresas.
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QUINTA SESSAO
As instalações usadas para o início do projeto eram bem mais modestas que as de hoje que
muitos de vós já tiveram a oportunidade de visitar
Este mapa mostra os locais onde temos vindo a instalar polos do UPTEC. Estamos instalados
nos campi da Asprela, do Campo Alegre e do centro da cidade. Temos também um polo no
Porto de Leixões, onde está já em funcionamento mais um campus da Universidade do
Porto. Espera-se também que se possa vir a criar mais um, ligado à agricultura, em Vairão.
Os números de 2013 mostram que o UPTEC tinha já acolhido cerca de 160 projetos
empresariais baseados no conhecimento (knowledge base companies).
Estes projetos empresariais estão em fases diferentes de desenvolvimento. Há casos
em que o plano de negócios ainda está a maturar, em que os promotores estão a definir
quem são os clientes, qual o posicionamento da empresa no mercado, a avaliar a sua
sustentabilidade, quem são os parceiros tecnológicos mais importantes para poder
melhorar e viabilizar o produto. Na altura tínhamos 52 projetos neste nível de maturação.
Mas também tínhamos empresas (18) que cresceram de tal forma que tiveram de encontrar
instalações próprias fora do UPTEC.
Para além destas novas empresas, o parque funciona também como um local de acolhimento
para centros de inovação de empresas já consolidadas no mercado. A presença destes
centros de inovação no parque, junto das empresas em incubação e junto das unidades
de investigação da Universidade, foi visto como uma contribuição nuclear para a criação
de um ecossistema de inovação dentro dos campi e como uma interface para aproximar a
universidade das empresas.
Esta interface com a sociedade é um exemplo diferente da forma como a universidade
pode participar na criação de uma economia de conhecimento e na mudança do paradigma
de desenvolvimento de Portugal.
Mas poderá até ser visto como excessivo face ao entendimento mais comum sobre
o que deverá ser a intervenção das universidades. Porém, é nosso entendimento que,
sem a intervenção das universidades, muito dificilmente empresas deste género teriam
condições para surgir e crescer tal é a diversidade de áreas de negócio em que estas
empresas estão a atuar.
São áreas tão diversas que não há outro ecossistema que crie o “conforto” e o incentivo aos
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Quinta Sessao
- As Universidades e a Projecao
de Portugal no Mundo | Prof. Jorge Gonçalves
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seus promotores para estes darem o primeiro
passo nas suas iniciativas empresariais.
É a proximidade à Universidade, aos seus
laboratórios, docentes, investigadores
e estudantes que acaba por criar a rede
de conforto que qualquer ecossistema
empreendedor tão diverso acaba por
necessitar. É a proximidade à Universidade
e às suas redes de parcerias internacionais
que lhes permite o contacto com parceiros
e o conhecimento de mercados aos
quais nunca teriam acesso se atuassem
isoladamente.
Na falta dessas condições nucleares, as universidades acabam por ser instituições
muito bem posicionadas melhor posicionadas para criar as condições de acolhimento de
empresas com propostas de serviços e produtos tão diversas e cujo denominador comum
acaba por ser a base de conhecimento que a universidade reúne.
Os resultados começam a ser visíveis. Estas empresas já estão no mercado e os dados das
exportações de 2012 mostram uma presença nestes países e algumas estão já a abrir
escritórios nos Estados Unidos, no Brasil e no Reino Unido.
As empresas do UPTEC têm-se revelado também fixadoras de mão de obra qualificada
em Portugal. Com base nos dados de 2013, as empresas ainda presentes no UPTEC e
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QUINTA SESSAO
as que entretanto já concluíram o processo de incubação, já empregavam colaboradores
provenientes de 15 nacionalidades diferentes.
Não podendo afirmar que esta é a solução para anular o impacto da saída de mão de
obra qualificada do Pais, há que admitir que projetos deste tipo, credibilizados pelas
universidades, são uma forma de Portugal se vá afirmando internacionalmente também
como país de destino para mão de obra altamente qualificada.
Entende-se que se levante dúvidas se esta intervenção “extraordinária” da universidade
estará, de fato, a criar empresas competitivas ou se não será apenas um “exercício
académico” ou uma aventura despesista cujo investimento a sociedade nunca irá recuperar.
A questão da resiliência à competitividade internacional das empresas que começaram no
UPTEC ou em parques semelhantes ainda não pode ser respondida com rigor. Os sinais são
promissores . Vemos uma postura muito madura e confiante que não seria de esperar de
empresas tão jovens. Os resultados financeiros conhecidos são, para já, encorajadores, mas
só o futuro dirá qual a taxa de sobrevivência destas empresas. Há, porém, um dado que fica
desde já: o capital de experiência para a sociedade portuguesa que estas empreendedores
estão a acumular será valiosíssimo neste ou noutro projeto que possam abraçar no futuro.
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- As Universidades e a Projecao
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A questão do retorno para o Estado da contribuição pública para o projeto foi sempre
tida em linha de conta. Para não sermos juízes em causa própria, pedimos à Faculdade de
Economia da Universidade do Porto (FEP) que fizesse uma avaliação do impacto do projeto
UPTEC. O estudo mais recente que conheço foi feito com base nas contas de 2012, e
mostrou que as receitas de IRC e de IRS renderam já ao Estado cerca de 6,2 milhões de
Euros.
Lembre-se que estes dados poderão pecar por defeito porque não houve acesso às contas
de todas as empresas; porque algumas não tinham contas por estarem no seu primeiro
ano de atividade; e porque a capacidade de ocupação do UPTEC ainda estava longa da
ocupação presente uma vez que parte do Edifício Central só começou a acolher empresas
em 2014.
Apesar destas limitações, podemos afirmar que há expetativas fortes para o Estado
recuperar todo o apoio financeiro atribuído em apenas 3 anos.
O projeto UPTEC mereceu reconhecimento
público internacional. Entre outras distinções,
recebeu da Comissão Europeia, o prémio
Regiostars, na classe de desenvolvimento
inteligente. O UPTEC foi também considerado
como um bom exemplo do bom uso de fundos
comunitários e, por isso, deve ser também visto
como um exemplo para a Europa, sobre a boa
forma Portugal tem sabido aproveitar bem
ajudas que os nossos parceiros da União nos
têm concedido para Portugal se modernizar.
Felizmente este tipo de projetos não está apenas a acontecer na Universidade do Porto.
Temos outros exemplos bem sucedidos em Portugal, nomeadamente na Universidade
do Minho, na Universidade de Aveiro e na Universidade de Coimbra que constituem uma
forma das universidades promoverem bem Portugal no mundo.
Estas intervenções mais diretas das universidades Portuguesas no desenvolvimento são
muito recentes, não havendo na Europa muitos casos semelhantes. Compreendem que
tenhamos dúvidas se não estaremos a desviar a universidade para áreas estranhas à sua
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QUINTA SESSAO
missão e a violar a coerência de uma matriz que presidiu à sua criação e que foi a base para
as universidades resistirem ao longo de mais de oito séculos. Compreende-se que outros,
académicos ou não, menos envolvidos nestes projetos, possam ver nestas iniciativas
desvios à matriz fundadora das universidades e apenas uma “deriva economicista” que
apenas fragilizará a universidade.
Como universitários, estas criticas são fundamentais pois obrigam-nos a uma reflexão
constante sobre o propósito e coerência da nossa prática. No caso do envolvimento das
universidades nestas atividades de valorização económica e social do conhecimento, é
importante percebermos se estamos a resolver um problema do presente, hipotecando
a história e, através da descaracterização da missão da universidade, criar um problema
maior para o futuro.
Coloca-se, por isso, a questão de saber se este envolvimento da universidade no
desenvolvimento económico e no progresso das comunidades onde se insere, é causa
nova.
As universidades, como as conhecemos, são uma criação da Europa Ocidental. Foi aqui
que as universidades apareceram e se tornaram, a par com a igreja, a instituição mais
resiliente da história ocidental. São instituições antigas que só puderam sobreviver porque
se mantiveram fieis a uma matriz a partir da qual nortearam as adaptações necessárias
aos contextos de cada época. Será que este envolvimento das universidades no
desenvolvimento de um País ou de uma região viola ou desvirtua essa matriz fundadora?
Nos últimos minutos da minha intervenção, vamos tentar ir à história, para responder a
esta dúvida!
Para tal, permitam-me que use novamente a fotografia do grupo de turistas. Peço apenas
que ignorem os turistas do primeiro plano e reparem no segundo plano. Reconhecerão,
com certeza, o convento de São Gonçalo de Amarante!
O que é que são Gonçalo de Amarante tem a ver com as universidades? Aparentemente,
nada!! Apenas viveu num período, e teve uma experiência de vida, que o coloca com grande
proximidade com as dinâmicas que levaram à criação generalizada de universidades na
Europa.
Gonçalo viveu na segunda metade do século XIII. Era filho de uma família nobre da região
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Quinta Sessao
- As Universidades e a Projecao
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de Vizela. Inteligente, foi apoiado pelo bispo de Braga que promoveu a sua educação.
Acabou por ser ordenado sacerdote e pároco de uma freguesia próxima.
Como pároco, teria a sua carreira e subsistência garantida. Porém, o seu desejo de conhecer
os lugares santos, levou-o a deixar a paróquia entregue a um sobrinho. Como romeiro e
peregrino, visitou os túmulos dos santos em Roma e a Terra Santa.
Esta viagem que São Gonçalo realizou não era invulgar para os eruditos da época. Este foi
um período de intenso movimento de religiosos pela Europa e Palestina que viam nestas
visitas aos lugares sagrados, uma fonte inspiradora para a renovação da igreja.
Durante 14 anos Gonçalo terá viajado por toda a Europa e Médio Oriente. Bebeu todos os
ensinamentos que pôde, resultante dos contactos com as regiões por onde passou e por
uma mudança na forma como os religiosos se começavam a relacionar com uma Europa
mais urbana. O homem que regressou à sua paróquia não era o mesmo que partiu, nem o
acolhimento da pessoa a quem a confiou terá sido o que esperava. Acusado de impostor,
refugia-se num local remoto, junto às margens do Tâmega onde se dedica à pregação e
apoiar o desenvolvimento dessas terras. O feito mais famoso é o seu envolvimento na (re)
construção de uma ponte entre as duas margens do Tâmega.
Todos os milagres que a tradição lhe atribui estarão à margem da intervenção que lhe valeu
o reconhecimento na época. No local existiria uma ponte romana destruída. Possuidor de
excelentes qualidades oratórias e negociais, Gonçalo convenceu os proprietários da região
a financiar. Foi encontrando também as estratégias para manter a disciplina e encontrar o
alimento necessário para os operários irem executando a obra.
É de admitir que essa capacidade argumentativa, de liderança e de grande proximidade com
as comunidades, tenha sido adquirida por contacto com ordens religiosas mendicantes,
nomeadamente a Ordem dos Pregadores ou dos Dominicanos, já que alguns anos mais
tarde São Gonçalo acaba por a integrar.
A Ordem dos Dominicanos, como qualquer ordem mendicante, colocava-se próxima
das populações, por oposição às ordens religiosas anteriores que viviam recolhidas nos
mosteiros, longe das povoações. Os Dominicanos construíram conventos dentro das
comunidades, acreditando que dessa proximidade e partilha de um conhecimento que
até então estava enclausurado nos mosteiros, se criariam as condições para a igreja e a
sociedade se renovar. Estas ordens mendicantes, por estarem mais expostas à sociedade
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QUINTA SESSAO
e pelo seu papel evangelizador, sentiam mais a necessidade dos seus membros terem a
melhor formação possível. Sentiam também a necessidade de partilhar esse conhecimento
para que mais pudessem entender melhor a palavra de Deus.
São Gonçalo, e os seus contemporâneos, testemunharam uma transformação
extraordinária na Europa. Os Centros de Estudos, que estavam nos mosteiros, passaram
a chamar-se Estúdios Gerais, abertos também a não religiosos. Sentia-se nessa abertura,
não só a concretização de uma estratégia evangelizadora como uma contribuição para o
progresso da sociedade já que, ao contribuírem para a educação da população, se iriam
criar as “inteligências e as competências para haver um governo mais saudável e mais
sábio”.
Neste contexto e assentes num enquadramento que procurei esboçar nestes últimos
minutos, que surgiram universidades por toda a Europa a partir de finais do século XI.
Este espírito está bem patente nos documentos que enquadram a criação de algumas
universidades. Por exemplo, a Universidade de Coimbra, que resultou da fusão de um
conjunto de escolas religiosas, tinha como propósito formar homens que ajudassem a
governar o reino de uma forma mais sabedora. Na bula papal que cria a Universidade da
Colónia, é dito - “Que esta instituição sirva para acabar com as trevas e para promover o
desenvolvimento e a felicidade dos homens e da sociedade.”
O que a história nos parece mostrar é que a matriz fundadora das universidades foi,
muito provavelmente, a promoção do desenvolvimento social. Parece-nos, por isso que,
no presente, o envolvimento das universidades em formas diferentes de transferência de
conhecimento para a sociedade, como é o caso da incubação de empresas, poderá estar
bem alinhado com a matriz fundadora das universidades e ser um modo adequado de
ajustar a matriz fundacional das universidades às especificidades do nosso tempo.
Terminava dizendo que a aposta nas Universidades durante a Baixa Idade Média serviu
para abrir a sociedade europeia a uma nova fase de prosperidade, resultando dessa
abertura as extraordinárias mudanças criadas pelo Renascimento e pelos descobrimentos.
Em tempos de incerteza como os que vivemos hoje, sobre o modelo social futuro, talvez
fosse sensato aprender com o que a história nos diz, e voltássemos a apostar nas
universidades e na sua capacidade para melhorar o nosso conhecimento do mundo, como
meio para se encontrar um modelo de desenvolvimento sólido para Portugal e que o
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Quinta Sessao
- As Universidades e a Projecao
de Portugal no Mundo | Prof. Jorge Gonçalves
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projete, por boas razões, para as gerações vindouras.
Muito obrigado pela vossa atenção.
Moderador - Dr. Manuel Cavaleiro Brandão
Curiosamente, ninguém referiu um elemento que embora algo acidental, e até aleatório,
não pode deixar de ser considerado um pouco sintomático da integração plena das nossas
universidades na rede internacional do conhecimento e da investigação. Nomeadamente,
temos, ainda que eu diga acidentalmente, um europeu, nascido em Portugal, licenciado em
Portugal, que fez depois o giro do Erasmus, plenamente integrado na geração Erasmus, e
que entretanto veio assumir a responsabilidade de gerir 80 mil milhões de euros, durante os
próximos seis anos dedicados à investigação.
É um acidente feliz e admito que sintomático. Acho que pode ser retido. Portanto concluía
agradecendo a disponibilidade, o interesse e a enorme qualidade das intervenções
que ouvimos. Permito-me dirigir ainda uma palavra pessoal ao Prof. Valente Oliveira,
cumprimentando-o por mais este sucesso. Ele é, por si só, a garantia de sucesso destas
iniciativas. Julgo que passamos imediatamente ao encerramento, com o Engº. José António
Barros e o Dr. Artur Santos Silva.
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SESSAO DE ENCERRAMENTO
Eng.º José António Ferreira de Barros
Presidente do Conselho de Curadores da Fundação AEP
PALESTRA DE ENCERRAMENTO
Dr. Artur Santos Silva
Presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian
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SESSAO DE ENCERRAMENTO
Presidente do Conselho de Curadores da Fundação AEP
Eng.º José António Ferreira de Barros
Estamos a chegar ao fim desta longa jornada de trabalhos, que penso ter sido para todos
extremamente proveitosa.
Como não colaborei na sua organização estou perfeitamente à vontade, apesar de fazer
parte dos órgãos dirigentes da Fundação AEP, para felicitar o Presidente desta Fundação,
senhor Dr. Nunes de Almeida, e o senhor Professor Valente de Oliveira que, tradicionalmente
e muito bem, vem organizando estas jornadas, pelo sucesso das mesmas e pela qualidade
dos palestrantes convidados e das intervenções que nos deixaram.
Queria, ainda, agradecer ao senhor Presidente da Fundação de Serralves o seu apoio e
colaboração que permitiram a realização destas Jornadas Fundação AEP / Fundação de
Serralves, que vão já na sua quinta edição.
O tema que aqui foi hoje abordado, e debatido em vários painéis e sobre diferentes óticas,
é importantíssimo e deve motivar-nos, a todos, para uma séria reflexão sobre o mesmo.
Portugal precisa de se abrir ao mundo, Portugal precisa de voltar a abrir-se ao mundo,
e acabamos de verificar que isso é possível, como demonstraram os exemplos que hoje
foram aqui apresentados, quer pela presença dos seus protagonistas fora de Portugal quer
na atração para Portugal de operadores, operadores em todas as áreas, desde a económica
ao conhecimento, como ficou verdadeiramente comprovado. Eu diria que nós temos tanto
valor e tantas valias no conhecimento que internacionalizamos, ou que conseguimos
atrair, como nas áreas da economia.
Gostaria de deixar apenas uma pequena nota, se me permitem, um contributo. Há ainda
uma outra área que não me apercebi que hoje tivesse sido referida, onde hoje temos uma
posição geoestratégica importante e onde poderemos vir a ter um papel particularmente
relevante na Europa, que é a área da energia.
Portugal, pelas fontes naturais que tem à sua disposição, o sol, o vento e a água, pode
vir a ter na energia e no seu fornecimento, no abastecimento da Europa, com base em
energia não resultante de fontes fósseis, um papel particularmente importante. Portugal
e Espanha, a Ibéria, dispõem de condições naturais particularmente vantajosas.
O assunto está hoje a ser debatido no conselho europeu, em termos de interligações e
de redes de distribuição para a Europa, sendo hoje as exportações de energia para lá dos
Pirenéus praticamente residuais, e muito modestas as metas previstas para 2020.
202
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Sessao de Encerramento | Eng.º José António Ferreira de Barros
Ao contrário do que acontece com a maioria dos países da Europa central, as interligações
com a Península Ibérica continuam a ser reduzidas, não só pela barreira natural dos
Pirenéus como pela França e pelos seus lobbies da energia nuclear. Portugal terá que
pugnar fortemente pelo aumento das suas exportações de energia cujo papel pode ser
extremamente importante pelo seu efeito no total das exportações portuguesas, e na
nossa balança comercial, pelo elevadíssimo valor acrescentado destas exportações,
porque quer o vento, quer o sol, ainda não se pagam e, portanto, o valor acrescentado
dessas exportações seria elevadíssimo.
Queria, agora, agradecer ao senhor Dr. Artur Santos Silva, meu estimado Amigo, que se
digna encerrar estas V Jornadas Fundação AEP / Fundação de Serralves.
O senhor Dr. Artur Santos Silva não necessitaria de nenhuma apresentação, nesta
cidade e nesta Fundação onde todos o conhecemos: é hoje o presidente do conselho
de administração da Fundação Gulbenkian, é igualmente presidente do conselho de
administração do Banco BPI, que fundou, e da Partex and Gas Corporation; começou a
sua carreira em Coimbra, na Universidade de Coimbra, onde chegou a ser assistente da
Faculdade de Direito, foi docente da Universidade Católica, mais tarde passou por Stanford,
onde fez o Stanford Executive Programme.
Nessa altura já tinha o prazer de colaborar com ele, a seu pedido, no lançamento de um
projeto em que foi pioneiro e que marcou muito a sua pessoa, marcou muito a nossa cidade
e marcou muito o nosso país. Falo do lançamento da SPI, primeiro como sociedade de
investimentos, mas que viria a transformar-se na primeira instituição de crédito privada,
depois da nacionalização da banca, no 25 de Abril, o Banco Português de Investimento,
BPI.
Artur Santos Silva foi, ainda, Vice-Governador do Banco de Portugal, foi Secretário de
Estado do Tesouro mas, para além destes e muitos outros cargos nas áreas das finanças
e da economia, o senhor Dr. Santos Silva é um homem que tem dedicado um particular
carinho às áreas da cultura, e é uma das coisas que hoje também lhe devemos, essa sua
paixão e essa sua presença nas áreas culturais. Como hoje aqui foi dito, não é possível que
uma nação seja reconhecida, globalmente, se também não for culturalmente uma nação
reconhecida.
Senhor Dr. Artur Santos Silva, a palavra é sua.
203
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SESSAO DE ENCERRAMENTO
Palestra de Encerramento
Dr. Artur Santos Silva
O tema desta conferência, “Portugal no Mundo”, é tão como vasto como interessante e
muitas das suas variáveis já foram percorridas. Gostaria, no entanto, de abordar alguns
aspetos importantes que julgo que merecem ainda alguma reflexão. Refiro-me, em concreto,
aos problemas do emprego e do investimento privado, às questões da investigação e do
ensino superior e de que forma todos estes assuntos se relacionam entre si para o futuro
de Portugal.
As políticas públicas da ciência e do ensino superior no nosso país tiveram o maior
sucesso e, com estabilidade, assentaram numa visão de longo prazo que naturalmente as
Universidades assumiram como um desafio imperdível. Muito está ainda por fazer ao nível
da translação de conhecimento e da inovação, ou seja, de como a partir da investigação e da
ciência se pode transformar essa capacidade de gerar conhecimento em valor económico.
Portugal vive desde 2001 um longo tempo de declínio como há muito não conhecíamos.
Desde a entrada no Euro não só não crescemos como agravamos todos os nossos
desequilíbrios fundamentais. Decidimos integrar o grupo dos países fundadores mas não
soubemos assumir as plenas consequências desse novo estatuto. Por isso, a economia
perdeu competitividade e os desequilíbrios financeiros atingiram um nível incomportável.
Com efeito, o crescimento acumulado do PIB desde 2001 é praticamente nulo. No mesmo
período, em percentagem do PIB a dívida pública passou de 55% para - líquida dos activos
sobre o exterior – mais de 120%. A dívida externa total, incluindo entidades públicas e
privadas, aumentou de 40% para 100% (refiro-me igualmente à dívida externa líquida dos
ativos detidos sobre o exterior. Finalmente, o investimento privado anual, que representava
24% situa-se agora em apenas 14% do PIB.
Portugal, nas últimas décadas apostou, e bem, na escolarização da população jovem com
maior abertura de oportunidades no ensino superior sem termo de comparação na história
moderna do país.
Parece-me interessante recordar que nos anos 50, Portugal tinha 45% da população
analfabeta e 30% da população apenas com 3 anos de escolaridade. Em 1974, havia
20 mil alunos no ensino secundário, e havia 30 mil alunos no ensino universitário. Estes
números estão multiplicados de tal forma que, hoje, este universo estará na ordem dos
400 mil alunos, quer no secundário, quer no superior.
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Sessao de Encerramento | Palestra de Encerramento - Dr. Artur Santos Silva
Por outro lado, Portugal lançou o maior programa de formação avançada até hoje realizado
em especial nas áreas da ciência e da engenharia. É absolutamente prioritário criar empregos
e dotar os jovens de qualificações e competências que lhes permitam posicionar-se melhor
face a esta situação. A redução brusca do défice orçamental determinada pelo acordo com
a troika, que teve o apoio de 90% dos deputados dos partidos que estão representados
no parlamento, exigiu de imediato uma contracção do investimento público que se veio
somar à quebra do investimento privado, em especial nos sectores da construção civil e
obras públicas, provocando, nestes sectores, uma onda de desemprego que começou por
se traduzir num regresso de emigrantes aos seus países de origem.
A política assumida de combater o desequilíbrio orçamental aumentando as receitas
do estado e não através de um exercício bem mais exigente como é o de racionalizar a
administração pública, melhorando a eficiência da administração central e da administração
local, deu lugar a um aumento de impostos essencialmente concentrado no IVA e no IRS
com significativo impacto na contracção do consumo que contribuiu para provocar forte
crise nos sectores do comércio, de retalho tradicional e de serviços não qualificados, bem
como no comércio de bens de consumo duradouro.
Por outro lado, se considerarmos que a maioria esmagadora das empresas portuguesas
depende excessivamente do crédito, dos fornecedores, dos clientes, ou dos bancos, com
capital próprio também muitas vezes insuficiente, compreendemos como a queda da
procura, as restrições de crédito e os aumentos do IVA acabaram por provocar uma onda
de despedimentos e de falências.
Também a decisão de contrair de forma não seletiva a despesa do Estado, com sucessivas
reduções de pensões e de salários na administração pública, sem dúvida as rúbricas de
maior volume na despesa pública, contraiu ainda mais a procura interna e incentivou o
aumento da poupança.
O objectivo de redução drástica e rápida do défice corrente foi facilmente atingido,
três anos antes do que era esperado no acordo com a troika e, do meu ponto de vista,
esse era o desequilíbrio mais sério do nosso país. A racionalidade com que os agentes
económicos se ajustaram deu lugar a este resultado que não tem paralelo com nenhum
outro que eu conheça, de um país sem moeda própria. Com moeda própria é bem fácil
fazer os ajustamentos externos, mas infelizmente hoje isso não é possível com a nossa
participação no euro. De forma alguma defendo que hoje o nosso país saia do Euro mas,
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SESSAO DE ENCERRAMENTO
ao não termos moeda própria, não nos foi permitido ajustar muito mais facilmente e com
menos dor os desequilíbrios fundamentais da nossa economia, e que com inegável êxito
tínhamos conseguido em 1977/78 e 1983/85, nas duas vezes em que tivemos que
recorrer à ajuda externa (FMI) para salvar o país da bancarrota.
Assim, o desequilíbrio externo foi conseguido muito antes do esperado, à custa da quebra
da procura interna e com a reorientação da capacidade produtiva instalada nas empresas
industriais para os mercados externos mas praticamente sem investimento adicional.
E, com pouco investimento novo em sectores exigindo capital, e sem a possibilidade de
emprego no estado, o emprego dos jovens ficou muito dependente da pequena iniciativa
empresarial ou da precariedade.
Olhando para o futuro, há que ter uma perspectiva clara sobre as possíveis origens de novo
emprego na sociedade portuguesa. O crescimento sustentável da economia vai depender
de uma nova oferta dirigida ao exterior essencialmente assente no investimento em
actividades no nosso país que sejam atrativas, competitivas e que beneficiem de uma
procura crescente no comércio internacional.
E aí estamos ainda muito dependentes, como aliás todos os Países Membros, do que se
passa na União Europeia.
Esta nova vaga de exportações não pode assentar somente numa renovação da carteira
de bens industriais exportados, os serviços orientados para o exterior terão também
que crescer mais rapidamente, neles se incluindo serviços prestados à distância, de
desenvolvimento de software e de conteúdos digitais, serviços de engenharia, serviços
de saúde ou nas indústrias culturais e de lazer.
Estas atividades não são exigentes em capital físico, têm uma reduzida componente
importada e finalmente podem criar emprego jovem em larga escala a diferentes níveis de
escolarização e de qualificação.
Para que o mercado trabalhe valorize o nosso capital humano acumulado, é necessário
estimular o envolvimento das entidades empregadoras que deveriam ver reduzida a sua
tributação ou os custos sociais associados ao emprego criado.
Em Portugal o desemprego jovem é um dos mais elevados na zona euro, o que levou
o Governo e naturalmente a Comissão Europeia, porque este é um problema de toda a
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Sessao de Encerramento | Palestra de Encerramento - Dr. Artur Santos Silva
Europa e em particular nos países da Europa do Sul, a anunciar um conjunto de medidas - a
maior parte dessas medidas totalmente financiadas com recursos europeus - para facilitar
a inserção dos jovens no mercado de trabalho.
A situação de desemprego dos jovens com formação superior merece uma atenção muito
particular. Trata-se, como muitos têm dito, da geração mais qualificada de sempre em
que as famílias, o Estado, e os próprios, realizaram um investimento muito importante, e
que hoje não vê no país oportunidade de iniciar a sua trajetória profissional sendo muitas
vezes obrigada a emigrar para encontrar uma oportunidade de emprego.
Esta situação resulta também de um mais que provável desajustamento entre qualificações
escolares e dinâmica do mercado de emprego, ou seja, de um défice de competências para
transformar conhecimento adquirido em empregabilidade numa economia de mercado, no
contexto da globalização, e dos avanços tecnológicos que marcam desde já o século XXI.
Pela terceira vez, em 40 anos de democracia, não fomos capazes de resolver os nossos
problemas e tivemos de recorrer a um processo de ajuda externa em que participaram
neste caso, agora, instituições europeias e, tal como nas duas vezes anteriores, o FMI, e no
qual foi assumido o compromisso de promover reformas que conduzissem a um equilíbrio
económico e financeiro sustentável.
Cumprido esse ciclo, chegou a hora de Portugal entrar numa nova fase de progresso
que todos tanto ambicionamos. Temos de retomar o caminho de crescimento e de nos
aproximar dos outros países europeus. Gostaria de recordar que, entre 1985 e 2000, o
nosso PIB per capita medido em paridade dos poderes de compra, foi o que mais aumentou
em toda a história das comunidades europeias, porque passamos de 55% da média da
União Europeia de então, para 77%.
E, portanto, para que de novo retomemos a aproximação aos outros países europeus é
necessário o crescimento económico e é essencial o aumento do investimento privado,
variável fundamental para a criação de emprego.
Temos também de continuar a controlar o desequilíbrio externo que na década passada
foi responsável por um alarmante aumento da dívida externa que, em relação ao PIB, é das
maiores dos países da União Europeia e que, infelizmente, foi sobretudo resultado de um
aumento do consumo público e provado e não, como já disse, resultante do crescimento
do investimento privado.
207
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SESSAO DE ENCERRAMENTO
Esta é a altura de mobilizar muitos dos nossos melhores e eles estão essencialmente nas
nossas universidades e nos nossos centros de investigação, para discutir realistas mas
ambiciosas propostas para o futuro de Portugal.
O Prof. Cláudio Sunkel deu-nos uma visão muito positiva e com a qual eu totalmente me
identifico. O Prof. Jorge Gonçalves falou-nos igualmente de um caso de extraordinário
sucesso a que ele esteve intimamente ligado, a VITEC, de promoção de empreendedorismo
qualificado. Tudo o que disseram só vem reforçar o meu sentimento de que a capacidade de
formação e de geração de conhecimento das nossas Universidades tem de ser o primeiro
recurso a mobilizar para conceber todas as mudanças de que o país precisa.
Por isso mesmo, deve ser dada prioridade absoluta à valorização do nosso capital
humano e ao desenvolvimento da nossa capacidade de investigação e de translação do
conhecimento, que foi um aspeto também sublinhado em que ainda temos um inegável
défice. Com efeito, aumentamos muito a capacidade de investigação mas convertemos
muito pouco essa capacidade de gerar conhecimento em valor económico, o que é uma
fase natural num processo desta natureza. O que recomenda que sejam asseguradas
condições de financiamento ao ensino superior e às instituições de investigação. Importa
também recordar que assumimos desafios muito exigentes em relação ao ensino superior
na estratégia da Europa 2020; para cumprir tais objectivos, as nossas Universidades têm
de poder responder a um salto muito grande quanto à percentagem da população que
conclui o seu primeiro grau de ensino superior.
Em quase todos os indicadores relevantes de IDI de inovação, Portugal tem vindo a piorar
o seu posicionamento nos últimos anos, contrariando uma tendência muito positiva na
primeira década deste século.
Importa lembrar que a evolução científica e tecnológica em Portugal na última década foi
notável. Com efeito, entre 2005 e 2009, Portugal foi o país da União Europeia com a mais
elevada taxa de crescimento de intensidade de ID em percentagem do PIB. Em 5 anos
tivemos um aumento superior a 110%, ao passo que a União Europeia apenas cresceu
10%, apresentando Portugal um esforço de ID mais próximo da média da União Europeia.
Basta lembrar que em 2000, Portugal estava apenas a cerca de 35% do valor médio da
União Europeia e, em 2009, já apresentámos indicadores de ID acima de países como a
Espanha e a Itália.
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Sessao de Encerramento | Palestra de Encerramento - Dr. Artur Santos Silva
Em termos da posição no índice global de inovação, no período para que se dispõe já a
informação e que foi divulgado no Innovation Union Scoreboard 2014, Portugal passou
para a 18ª posição quando, em 2009, estava em 16º lugar no conjunto dos países da União
Europeia.
A descida para uma posição menos conveniente e este recuo no nosso progresso também
se verifica no peso da despesa de ID no PIB, que depois de ter crescido de 0,8% em 2005,
até um máximo de perto de 1,7% em 2009, se reduziu desde então e regredimos para
1.4% do PIB. A União Europeia melhorou de 1,8% para 2% do PIB.
Também o peso da despesa de ID no PIB do sector privado, que havia subido de 0.3% em
2005 para 0.8%, caiu ligeiramente, situando-se em 0.7%.
A este propósito deve ser assinalado que as despesas de ID empresarial no total das
despesas de ID realizadas, depois de um máximo atingido em 2007, e de quedas sucessivas
de 2008 a 2010, recuperaram em 2011 e em 2012, apesar do ambiente adverso, e estão
próximas do valor máximo atingido em 2007.
Comparando com outros países-membros, o peso do investimento em ID em relação ao
PIB do nosso país fica ainda aquém da média da União Europeia a 28, que é de 2%, e, claro,
muito longe dos países mais avançados como é o caso da Suécia ou da Finlândia que estão
entre 3,5% e 4%. Embora comparemos bem com os valores que registam países como a
Itália e a Espanha (1,3%).
Não resisto a recordar que, quando em 2000 foi lançada a Agenda de Lisboa, liderada pelo
Presidente do Conselho Europeu, o nosso Primeiro-Ministro António Guterres, Portugal
estava em 0,7% de ID em relação ao PIB, a União Europeia em 1,8% e assumiu-se que a
União Europeia apenas tinha elevado tal indicador, como disse, para 2%.
O nosso país em 2000, como estava muito longe, assumiu o compromisso de em termos
de ID atingir o valor de 1,8% em 2010, o que então quase atingimos (1,7%). Infelizmente, a
União Europeia não utilizou nem políticas, nem supervisão sobre a implementação desses
compromissos e, assim, a Europa não conseguiu estar na linha da frente para ser, como
ambicionara dez anos antes, o espaço mais competitivo à escala do mundo desenvolvido.
Se Portugal quer continuar a ambição de reforçar a sua competitividade, tem que estimular
e apoiar o aumento do esforço em ID e do mesmo modo as politicas públicas têm que
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SESSAO DE ENCERRAMENTO
valorizar o trabalho dos nossos investigadores em empresas ou para empresas refletindo
tal valorização nas suas carreiras.
Há que conseguir transformar grande parte desse esforço de investigação em valor
económico, transferindo-o para as empresas, para a Administração Central e Local do
Estado, para outras instituições e mesmo para outros países, sendo fundamental que o
nosso esforço de investigação tenha um maior impacto na economia.
Tem que constituir uma preocupação prioritária, como ainda recentemente foi uma vez
mais sublinhado pelo Dr. Luís Portela, numa Conferência do IPATIMUP, que a percentagem
de investigadores a trabalhar em empresas ou para empresas, medido em tempo integral,
aumente. É certo que se a percentagem de investigadores por mil habitantes ativos
em Portugal é superior à União Europeia a 15 e claramente superior à União Europeia
a 28, a percentagem de investigadores a trabalhar em empresas ou para empresas,
medida em tempo integral, é pouco superior a 20% quando a média da União Europeia é
aproximadamente 50% e de países como os Estados Unidos é 80%.
Este é um momento particularmente importante e especialmente oportuno para preparar
o futuro considerando que se encerrou o período de vigilância mais estrita e sistemática
com a troika, e se inicia um novo quadro comunitário de apoio que bem pode ser a última
grande oportunidade para utilizarmos significativamente os recursos europeus que mais
uma vez nos vão ser disponibilizados.
Portugal está sujeito naturalmente a um grande condicionamento em resultado das
políticas europeias mas espera-se, todos esperamos, que seja cumprida a prioridade
assumida pelo novo presidente da Comissão Europeia, de ser promovido, nas políticas
europeias, o crescimento económico prioritariamente através do relançamento do
investimento.
Por outro lado, com o “six pack”, o pacote fiscal que foi aprovado pelas instituições europeias,
há um aspecto que é muito pouco referido porque não tem mecanismos de ajustamento
tão eficazes quanto tem, por exemplo, o défice orçamental em relação ao PIB, os limites
do défice orçamental em relação ao PIB ou os limites da dívida pública em relação ao PIB.
Refiro-me ao controlo dos excedentes da balança corrente externa e ao facto de a
Alemanha, de acordo com tais regras, ter vindo a evidenciar um excedente na balança
corrente, superior a 6% do PIB desde 2010, sem tomar quaisquer medidas para fazer esse
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Sessao de Encerramento | Palestra de Encerramento - Dr. Artur Santos Silva
excedente descer, apoiando-se em políticas públicas, que revertam tal excedente externo
excessivo. Esta questão foi recentemente suscitada por uma jornalista portuguesa, Teresa
de Sousa, e retomada por Wolfgang Munchau no Financial Times. Enquanto a Alemanha
continua obcecada com o equilíbrio orçamental, tem infraestruturas de comunicações e
de transportes muito insuficientes e em termos de produtividade apresenta estatísticas
muito inferiores aos espaços mais competitivos do mundo, quer sejam os países nórdicos,
os Estados Unidos ou a Coreia do Sul.
E ainda é mais chocante que, num momento de grande tensão politico-militar, e conforme
recentemente foi evidenciado por um relatório apresentado no Bundestag e que suscitou
amplo debate na opinião pública alemã, a Alemanha tem 4 submarinos mas 3 estão
parados, só 70 dos 180 tanques estão em condições operacionais, e dos helicópteros de
apoio à frota marinha, que são 43, só funcionam 7. Esta inoperância da estrutura militar
fez como que 6 soldados alemães tivessem de esperar várias semanas para regressar do
Afeganistão, uma vez que só estão a operar 24 dos 56 aviões de transporte de tropas. O
controlo aéreo nos países do Báltico por parte da Alemanha, no âmbito das suas operações
na NATO, também não está a ser eficientemente cumprido.
Parece-me evidente que a Alemanha tem de alterar a sua posição em relação às políticas
europeias, sobretudo porque é a voz mais determinante. Não é possível haver uma
recuperação na Europa sem que a Alemanha contribua com as suas políticas para um
relançamento da economia.
Voltando ao terreno do crescimento do investimento privado, à excepção de dois anos, o
nosso investimento privado em relação ao PIB não parou de descer ao longo deste século.
Mesmo assim, no entanto, foi muito positiva a evolução da nossa balança tecnológica,
com as exportações de bens e serviços de média e alta intensidade tecnológica, que
representavam apenas 40% das importações em 2000 e hoje apresentamos um
confortável excedente. Trata-se pois de um extraordinário salto qualitativo do nosso
sistema produtivo, que muito deve ao talento dos empresários e ao contributo da inovação
que os centros de investigação proporcionaram às empresas.
É também muito interessante, como todos bem sabem, lembrar que o peso das exportações
totais no PIB se estima que venha a ser superior a 40% em 2014 - a previsão do Banco
de Portugal é de 40,5% - quando na década de 90 era de 26% em relação ao PIB, e neste
momento, estamos no valor médio da Europa dos 15 mais desenvolvidos, que é 41%, o que
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SESSAO DE ENCERRAMENTO
é um sinal da grande capacidade do nosso tecido exportador e da nossa competitividade.
Esta situação é tanto mais relevante se considerarmos que o nosso mais sério desequilíbrio,
o da balança corrente externa, na primeira década deste século, que chegou a atingir cerca
de 12% do PIB, tenha tido um excedente. Mesmo com uma recuperação do consumo e
do investimento privado (o que está a acontecer desde Setembro de 2013), Portugal irá
continuar a ter um excedente em 2014.
Mas para que o investimento privado possa assumir um papel decisivo no crescimento da
economia e na criação de emprego, é fundamental assegurar condições de financiamento
competitivas que eliminem os efeitos da fragmentação bancária. Neste aspeto, a união
bancária ficou muito longe do que deveria ter sido e por isso os empresários portugueses
pagam pelo crédito taxas muito superiores às de muitos outros países da Europa vistos
como um melhor risco.
Espero, portanto, que o funcionamento da estratégia do Acordo de Parceria Portugal
2020 consiga corrigir tais assimetrias, sobretudo na medida em privilegia o financiamento
e o investimento privado, não através de subsídios rembolsáveis mas em particular de
subsídios reembolsáveis, assegurando custos financeiros muito baixos para as empresas.
Contando-se igualmente com as políticas que o BCE está a lançar e a capacidade que o
BEI tem de corrigir tal fragmentação bancária, canalizando recursos através do sistema
bancário português a baixos custos financeiros.
A propósito ainda do que pode ser o investimento privado e do que deve ser o esforço
de inovação, gostava de sublinhar um projecto promovido pela Fundação Calouste
Gulbenkian que conduziu à criação da Plataforma Noroeste Global, que é uma plataforma
que integrou as Universidades do Minho, Porto, Aveiro e a Católica do Porto e os municípios
das quatro cidades onde elas têm sede: Porto, Aveiro, Braga e Guimarães. Com esta
plataforma espera-se que se criem muito melhores condições, por um lado para ajudar
as empresas em processos que suponham esforço de investigação e desenvolvimento
e a sua transformação em inovação, mais fácil acesso aos fundos europeus canalisados
através do Acordo de Parceria, mas também às instituições de investigação portuguesas,
direto acesso a fundos europeus do Programa “Horizonte 2020”, preparando melhor
projetos que suponham colaboração entre várias instituições de investigação portuguesas
e estrangeiras. Estamos a falar de fundos europeus que são de perto de 80 mil milhões
de euros. Acredito que esta estrutura, cuja preparação está a ser sabiamente liderada pelo
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Sessao de Encerramento | Palestra de Encerramento - Dr. Artur Santos Silva
Professor Jorge Gonçalves, virá a ter um grande impacto na aproximação das empresas
dos centros de investigação porque, a par de casos de grande sucesso, há também muitos
casos de défice de relacionamento. Temos, pois, casos fantásticos de sucesso em inúmeros
domínios e sobretudo temos um povo extraordinário e que merece vencer e recuperar a
auto-estima, o orgulho e a esperança.
Temos que ser mobilizados colectivamente pela verdade e pela esperança, com um
compromisso das principais forças sociais e políticas, numa estratégia de longo prazo que
transforme o nosso país numa sociedade mais moderna, mais livre e mais justa. Nunca
tivemos, na nossa história, uma geração tão próxima dos países europeus mais avançados.
Nenhum de nós perdoará um fracasso. O nosso caminho para a Índia, no século XXI, tem
de ser feito de mãos dadas pela ciência e pelas empresas, tal como aconteceu no tempo
das descobertas, entre o grande símbolo que foi a Escola de Sagres, onde se gerou
conhecimento e se tratou a informação que foi sendo recolhida da melhor forma e permitiu
planificar novas descobertas, e os nossos navegadores, agora os nossos empresários.
Artur Santos Silva
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