Edição 52 –

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Edição 52 –
REVISTA DA ACADEMIA
DE LETRAS DA BAHIA
REVISTA DA ACADEMIA
DE LETRAS DA BAHIA
Março de 2014 — Número 52
ISSN 1518-1766
Copyright © by Academia de Letras da Bahia, 2014
ACADEMIA DE LETRAS DA BAHIA
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40050-000 – Salvador, Bahia, Brasil
Telefax (71) 3321-4308
www.academiadeletrasdabahia.org.br
[email protected]
Revista Anual de Literatura, Artes e Ideias
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52. mar. 2014
Salvador: Academia de Letras da Bahia, 2014.
512 p.
Anual
ISSN 1518-1766
1. Literatura brasileira -- Periódicos
–
CDU 860.0(05)
Nesta revista optou-se pela flexibilização de normas de atualização e
padronização de nomes próprios, acatando-se até mais de uma grafia de nomes
de personalidades e instituições citadas, a critério do autor de cada texto, daí a
ocorrência de Ruy Barbosa, Rui Barbosa, Gregório de Mattos, Gregório de Matos,
école lacanienne de psychanalyse, Liga Bahiana contra o Analfabetismo etc.
Esta edição segue a grafia do novo
Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa
IMPRESSO NO BRASIL
SUMÁRIO
11
EDITORIAL
A Revista da Academia de Letras da Bahia
Aramis Ribeiro Costa
ARTIGOS E ENSAIOS
15
A MORTE NA VIDA E NA POESIA
DE CASTRO ALVES
Aramis Ribeiro Costa
39
OS GERAIS SÃO SEM TAMANHO
Cartografias do sertão rosiano
Evelina Hoisel
57
AS VIAGENS DE ST. BRENDAN —
A ILHA BRASIL
Waldir Freitas Oliveira
73
BREVE REFLEXÃO SOBRE OS HINOS ÓRFICOS
Ordep Serra
93
O PODER ERÓTICO
Diário e cartas de Cristina Vasa, rainha da Suécia,
e do padre Antonio Vieira
Gloria Kaiser
105
POR QUE O MENINO MOZART BRINCAVA
COM OS SONS?
Urania Tourinho Peres
123
128 TWITTERS SOBRE MOZART, MÚSICA
E PSICANÁLISE
Uma resposta experimental ao texto de Urania
Tourinho Peres
Paulo Costa Lima
139
A POÉTICA DA CIDADE
Paulo Ormindo de Azevedo
145
QUATRO AUTORES E UMA CIDADE
Imagens de Salvador no conto baiano do século XXI
Carlos Ribeiro
161
AS MOTIVAÇÕES HUMANAS DESNUDADAS
NO CONTO DE HÉLIO PÓLVORA
Gerana Damulakis
169
CARLOS NELSON COUTINHO (1943 – 2012)
Um pensador cosmopolita
Florisvaldo Mattos
179
CARLOS NELSON COUTINHO
A empreitada intelectual de um comunista reformista
Paulo Fábio Dantas Neto
187
MAJOR COSME DE FARIAS
Um educador popular
João Eurico Matta
195
DORIVAL CAYMMI (1914 – 2008)
Joaci Góes
201
A BIBLIOTECA JORGE AMADO
Comemorando o centenário do acadêmico
Edivaldo M. Boaventura
209
215
POESIA, MANJAR DO DEMÔNIO
Três poetas no cenário baiano
João Carlos Teixeira Gomes
UM GRANDE POETA: AFFONSO MANTA (1939 – 2003)
Ruy Espinheira Filho
POESIA
225
TRÊS SONETOS
Clóvis Lima
229
CINCO POEMAS EM HOMENAGEM
Florisvaldo Mattos
235
CINCO SONETOS
Myriam Fraga
241
A QUE PARTIU HÁ POUCO
& QUATRO SONETOS
Ruy Espinheira Filho
249
TRÊS SONETOS
Gláucia Lemos
253
CINCO SONETOS
Luís Antonio Cajazeira Ramos
259
TRÊS POETAS BRETÕES / TROIS POÈTES
BRETONS
Dossiê bilíngue
Dominique Stoenesco (Org.)
260
Jean-Albert Guénégan
267
274
Jean-Claude Tardif
Olivier Cousin
FICÇÃO
285
O RETRATO NA PAREDE
Hélio Pólvora
299
O CAVALO
Rinaldo de Fernandes
305
NO TEMPO EM QUE O RIO TINHA PEIXE
Cyro de Mattos
317
A CASA DOS BAÚS
Carlos Barbosa
325
TUPAC AMARU
Gláucia Lemos
DISCURSOS
331
DISCURSO DE POSSE NA CADEIRA
NÚMERO 33
Mãe Stella de Oxóssi
351
MÃE STELLA DE OXÓSSI — ODÉ KAIODÊ
Saudação à acadêmica
Myriam Fraga
363
ARQUIABADE DOM EMANUEL D’ABLE
DO AMARAL, OSB
Saudação ao acadêmico
Fernando da Rocha Peres
371
AFRÂNIO COUTINHO E A BAHIA
Centenário do acadêmico
Consuelo Pondé de Sena
387
ANTÔNIO LOUREIRO DE SOUZA
Centenário do acadêmico
Edivaldo M. Boaventura
399
RUBEM NOGUEIRA
Centenário do acadêmico
Luís Antonio Cajazeira Ramos
409
DISCURSO DOUTOR HONORIS CAUSA
Moniz Bandeira
427
MONIZ BANDEIRA
Saudação ao doutor honoris causa da UFBA
Ubiratan Castro
437
ANTONIO CARLOS MAGALHÃES
E A CULTURA
Uma relação intuitiva e apaixonada
Geraldo Machado
457
CLÁUDIO VEIGA
As letras por destino
Aleilton Fonseca
DIVERSOS
471
489
501
Efemérides 2013
Quadro social da ALB
Endereços dos acadêmicos
EDITORIAL
A Revista da Academia de Letras da Bahia
A Academia de Letras da Bahia foi fundada em sete de
março de 1917. Em 16 de março daquele ano, antes mesmo da
pomposa instalação a 10 de abril, publicava seus primeiros estatutos, e neles manifestava a intenção de uma revista.
A instituição iniciava-se de forma privilegiada: constituída
por nomes do maior prestígio; apoiada pelo Governo da Bahia,
cujo governador, Antonio Moniz, era um dos fundadores; e transformada, logo em seguida, em três de julho, em instituição de utilidade pública pela Lei Estadual nº 1.198, com a promessa do governo, posta na redação dessa mesma lei, de conceder-lhe instalação
permanente em um dos edifícios públicos. Entretanto, apesar de
tudo isso, nas primeiras décadas não teve sede própria e enfrentou
dificuldades financeiras. Em consequência, embora fosse um empenho dos fundadores, só em 1930, na presidência do historiador
Braz do Amaral, é que pôde editar o primeiro número de sua ambicionada revista. Um volume de duzentas e quatorze páginas, impresso na Imprensa Oficial do Estado, que, àquele tempo, funcionava na Rua da Misericórdia, número 1, e trazendo na quarta capa
propagandas dos prováveis patrocinadores: a Livraria Científica, a
Livraria Progresso, Galdino Loureiro & Cia. (livreiros e editores),
Papelaria e Livraria Econômica, e mais o anúncio de dois livros
da época, um de Altamirando Requião e outro de Manoel Galvez,
tradução de Gonçalo Moniz. No editorial desse primeiro número,
que hoje é uma raridade bibliográfica até para a própria Academia
de Letras da Bahia, consignava-se a grande aspiração que ali se
concretizava, bem como a necessidade e a importância da revista
para a instituição e para a própria cultura baiana.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
De lá para cá, a história repetiu-se cinquenta e duas vezes.
Sempre as dificuldades, sempre o grande trabalho e o enorme
esforço para a edição, sempre a consciência da importância deste periódico para a instituição e para a cultura baiana, e sempre,
ao final, a satisfação do dever altamente cumprido. Há oitenta e
quatro anos, daquele distante 1930, do primeiro número, a esta
parte, a Revista da Academia de Letras da Bahia, com progressivas e visíveis melhoras gráficas, vem registrando não só a vida
acadêmica da instituição que representa, por meio do quadro
social, das efemérides, dos discursos, das comunicações das sessões ordinárias, como também perpetuando trabalhos literários
ou de valor literário, como preconizam seus estatutos, no exercício da nobre e honrosa função de promover, difundir e preservar a cultura, em particular a literatura, na Bahia. Atualmente,
além de impressa, a Revista da Academia de Letras da Bahia tem
sido disponibilizada também em nossa página da internet, o que
a coloca no mundo. Naturalmente, como no passado, revelamos,
na quarta capa, o patrocinador, o Governo da Bahia.
Este número, que, esperamos, se apresenta com a qualidade gráfica e o elevado nível de conteúdo que já se constituem
uma tradição irreversível do periódico, além de contar com um
diretor que é um dos emblemas do jornalismo baiano, o acadêmico Florisvaldo Mattos, contou com a assessoria abalizada
do acadêmico Aleilton Fonseca e, na revisão — esse trabalho
tantas vezes ingrato e hercúleo, mas necessário —, com o extraordinário esforço e não menor competência do acadêmico Luís
Antonio Cajazeira Ramos.
Desta forma, também na Revista da ALB, cumprimos a
meta dos fundadores, de “servir à pátria honrando as letras”.
Aramis Ribeiro Costa
Presidente
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ARTIGOS
E ENSAIOS
A MORTE NA VIDA E NA POESIA
DE CASTRO ALVES
Aramis Ribeiro Costa
T
endo vivido tão pouco, a morte acompanhou a vida e a poesia de Castro Alves. Não aconteceu apenas com ele. Álvares
de Azevedo morreu aos vinte anos; Fagundes Varela, aos trinta
e três; Casimiro de Abreu, aos vinte; e Junqueira Freire, aos vinte e dois. É preciso lembrar que falamos de meados do século
XIX, uma época em que a medicina, essencialmente empírica,
se encontrava muitas décadas distante dos conhecimentos e dos
recursos dos nossos dias. Não havia antibiótico nem vacina.
Morria-se com facilidade. E não apenas nas grandes epidemias,
que, uma vez iniciadas, se alastravam com rapidez e descontrole,
ceifando vidas aos milhares, ante a impotência angustiante dos
poderes públicos e dos médicos, ambos desarmados. Morria-se
por tudo. Morria-se de parto, de pneumonia, de desidratação, de
pequenas infecções ou inflamações que não podiam ser debeladas. Morria-se a morte lenta e dolorosa da sífilis. E morria-se
de tuberculose, fantasma soturno que acompanhava os indivíduos de forma silenciosa e persistente, seguindo, como sombra
apavorante, em particular os desnutridos e os moços boêmios
em seus prazerosos excessos. Na verdade, convivia-se cotidianamente, diuturnamente com a morte, e nem mesmo a realidade
destruidora da violência urbana dos grandes centros contemporâneos, dos assaltos, dos acidentes de tráfego, das drogas, das
doenças degenerativas e das síndromes imunológicas de nossos
dias podem dar uma ideia desse convívio macabro.
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A suavizar a triste realidade daquela época, talvez apenas
o hoje inacreditável sentimento excessivamente romântico que
tornava belo morrer de tuberculose na mocidade, com tosses persistentes, hemoptises profusas, os olhos grandes e encovados, a
palidez cadavérica, o corpo descarnado. A tísica ia aos poucos minando o físico, enquanto, por algum tempo, permanecia a chama
da alma acesa, ansiosa por viver, porém a arder com desespero,
como a pequena labareda de um toco de vela, que teima em iluminar antes de desaparecer por completo. Por incrível que pareça
isso inspirava, e não foram poucas as “damas das camélias” que
despertaram paixões avassaladoras, como não foram poucos os
moços boêmios, poetas ou não, que incendiaram as imaginações
românticas com sua aparência e fraqueza de tísicos. É esse o quadro terrível de um tempo e de uma sociedade na qual aos quarenta
anos era-se velho; aos sessenta, velhíssimo; aos oitenta, um fenômeno de longevidade. É esse o tempo e a sociedade em que nasce,
vive e escreve o moço baiano Antônio de Castro Alves.
Mas não era só isso. Como se não bastassem as circunstâncias da época, outras de ordem familiar ajudavam a trazer para
dentro de casa a presença macabra. Catedrático de clínica interna
da Faculdade de Medicina da Bahia, cirurgião, médico do Hospital
de Caridade, o doutor Antônio José Alves, pai de Castro Alves,
fazia de suas residências um misto de moradia e hospital, onde
atendia e internava pessoas livres e escravas, e é de crer que ali
se morresse bem mais que em outras casas, das outras famílias.
Escaparam dessa dupla condição a bucólica Fazenda Cabaceiras e
também a primeira residência da família em Salvador, na Rua do
Rosário de João Pereira, número um. Mas essa última era povoada
por uma lembrança trágica, a história romântica de um tresloucado amor, ainda mais romantizada pela imaginação do povo, e que
iria se associar para sempre à história do poeta. Ali, o professor
João Estanislau da Silva Lisboa matara — dizia o povo que com
uma bala de ouro, o que seguramente não corresponde à verdade,
pois era uma bala comum — a sua amada Júlia Fetal. E a história,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
contada e repetida por toda a gente com enfeites e emoção, há de
ter impressionado o jovem Cecéu.
O misto de moradia e hospital deu-se já na residência seguinte, na Rua do Passo, número 47, próxima ao Largo do Pelourinho. E ampliou-se na espaçosa Quinta da Boa Vista, em
Brotas, casarão de elevada torre encimada por campanário e amplo terreno arborizado à volta, para onde o doutor Alves levou
o seu ambicioso sonho de instalar um hospital modelo. Ali, inevitavelmente, teriam morrido vários enfermos, acometidos de
doenças diversas, a tuberculose predominando.
Não é de estranhar, portanto, que a poesia de Castro Alves, como quase toda a poesia da época, fosse impregnada do
tema e do espírito da morte, mais do que isso, da inspiração
obsessiva da morte. Morte e amor. Tânatos e Eros, os deuses
opostos e tantas vezes convergentes na vida e na arte. Como se
fosse tão curta a existência, que fosse preciso amar intensamente — como se fosse tão intenso o amor, que matasse. Mas uma
coisa são circunstâncias e sentimentos de época, e cada época os
tem exacerbados e muitas vezes incompreensíveis para as épocas posteriores; uma coisa também as circunstâncias profissionais do pai médico e sua obstinação em servir aos enfermos, em
particular aos desvalidos e escravos; e outra, bem outra, a dor
cruel da perda muito próxima, a morte ferindo fundo, como
dardo envenenado, o próprio mundo. Castro Alves conheceu
esse dardo muito cedo. Tinha doze anos de idade em 10 de abril
de 1859, quando a mãe, Clélia Brasília da Silva Castro, morreu
tuberculosa aos trinta e quatro anos.
Voltamos à doença romântica e terrível. Tanto quanto a sífilis — esta sem o caixilho da poesia, pelo contrário, emoldurada
pela marca infame da promiscuidade —, um estigma do tempo.
O doutor Robert Koch ainda não havia descoberto o bacilo que
levaria o seu nome, o que só ocorreria em 1882. Não havia sequer a certeza da transmissibilidade da doença de pessoa para
pessoa. A ignorância da época sobre contágio, e não apenas no
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que se refere à tuberculose, era absoluta, tanto que o doutor Alves, um afamado médico e professor da Faculdade de Medicina,
que havia se destacado pouco antes no combate a uma epidemia
de cólera na Bahia, fazia da própria residência um lugar para tratamento de pacientes graves. É claro que, entre esses pacientes,
havia portadores de doenças infectocontagiosas, incluindo a tuberculose em fase de transmissão, e é dedutível que, estando tão
próximos, ainda que num andar inferior, como ocorreu na Rua
do Passo, os enfermos punham em risco a sua família.
Nesse ambiente naturalmente insalubre, convivendo, com
a maior naturalidade, sem os cuidados atuais de prevenção de
contágio, com pessoas que deviam estar afastadas do convívio
social, é provável que aquele dedicado médico não se tenha preocupado, aos primeiros sintomas e sinais, em tomar medidas
para o isolamento de Clélia, de modo que os filhos e ele próprio
não fossem afetados.
Quanto a ele, tinha a saúde comprometida desde antes
do casamento. Estivera, em pelo menos três ocasiões, bastante enfraquecido e preocupado consigo próprio. Uma delas, um
ano antes da formatura, quando foi ao sertão e conheceu Clélia
Brasília. Outra, já formado, ao retornar da Europa, aonde fora
especializar-se em cirurgia, e já se encontrava em pleno exercício
profissional, tendo, mais uma vez, interrompido suas atividades
para buscar nos ares sertanejos o restabelecimento da saúde. E
a terceira, já casado, entre o nascimento do primeiro filho, José
Antônio, e o do segundo, Antônio. Verdade que não se descreve,
a seu respeito, um quadro de tuberculose, deixando-se sempre
em dúvida a origem de sua enfermidade, ou desse “enfraquecimento”, que o fazia interromper tudo e partir em busca de
ares puros, havendo apenas quem mencione certa “doença dos
pulmões” ou “coração cansado”.
Houvesse, desde essa época, um quadro instalado de tuberculose no pai do poeta, e é de crer que a progressão da doença fosse inevitável, com sinais e sintomas patognomônicos.
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De qualquer forma, na distância do tempo e sem registros esclarecedores, numa sociedade em que a própria diagnose primava por desconhecimento e falta de comprovação científica,
torna-se muito difícil estabelecer um diagnóstico de nomenclatura atual, sabendo-se apenas que, passada a debilitação dos
primeiros anos após o casamento, ele se atirou ao exercício da
profissão sem mais apresentar sinais de enfermidade ou fadiga,
ao menos por um bom tempo. Quanto aos filhos, deviam ter
sido protegidos desde o início da doença da mãe. E, ao menos
aparentemente, não houve o isolamento materno.
Se não se sabia sobre contágio, sobre o qual havia apenas uma suspeição, sabia-se perfeitamente a progressão e o fim
daquela doença avassaladora, cujo quadro clínico, tão repetido
em tantos clientes, era bastante conhecido, e o doutor Alves colocou, em 22 de julho de 1857, um anúncio no Jornal da Bahia
à procura de “uma senhora de alguma educação” que se quisesse “encarregar de tomar conta de meninos e da direção de
uma casa de família”. Dois anos antes de sua morte, portanto,
Clélia Brasília já era portadora de tuberculose avançada, com sinais e sintomas evidentes e assustadores, fraca a ponto de não
poder tomar conta de sua casa e de seus filhos, e o marido e
médico tinha plena consciência do que seria dali por diante. Há
um daguerreótipo do último ou penúltimo ano de sua vida em
que Clélia — contrastando com outra foto em que se apresenta
moça e saudável — se encontra envelhecida, com faces encovadas, os olhos grandes e tristes, numa antevisão da própria morte.
Aqui cabe uma reflexão. O fato de a tuberculose matar
lentamente acabava criando, em torno do enfermo, a expectativa
do inevitável desenlace. Teria o doutor Alves prevenido os filhos
da perda iminente? Teriam eles próprios, ao menos os mais velhos, pressentido o desaparecimento inevitável e breve da mãe?
Eram seis irmãos (pois o segundo, João, morrera alguns
dias após o nascimento): José Antônio, com treze anos; Antônio
Frederico (o nome Frederico raramente aparece na denominação
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de Castro Alves, porque ele o detestava e logo o aboliu), com
doze; Guilherme, com sete; Elisa, com seis; Adelaide, com cinco; e Amélia, faltando um mês para completar quatro anos. Dos
seis, o que apresentou sinais exteriores de maior abalo com a
perda da mãe foi o mais velho, José Antônio.
Era um rapaz fisicamente belo, de temperamento ardente e apaixonado, mas também retraído e sombrio. E era poeta.
Hoje não se conhece a sua poesia, porque ele próprio a destruiu,
lançando-a ao fogo num momento de alucinação. Mas, naquele
tempo, aos treze anos de idade, embora o irmão mais moço,
com doze anos, já ensaiasse os primeiros versos, era o poeta da
família, cujo talento todos louvavam. O próprio Antônio tinhalhe grande admiração.
A morte da mãe fez com que o jovem José Antônio tentasse o suicídio, atirando-se de uma janela à rua, o que além do
grande susto causado à família deve ter provocado uma forte
impressão em todos, inclusive no irmão mais moço. Ao partirem
ambos para o Recife em janeiro de 1862 na intenção de cursarem direito, José Antônio a completar em fevereiro dezesseis
anos de idade, e Antônio, em março, quinze anos, foram morar
primeiro no Convento de São Francisco, depois numa república
de estudantes na Rua do Hospício. Ali, segundo depoimentos,
são evidentes as diferenças de personalidade dos dois irmãos
poetas. Antônio, expansivo e animado, divertia-se a jogar bilhar,
a desenhar (que era um de seus gostos, incentivado pelo pai, um
apreciador das artes visuais) e a fazer versos, que já vinham com
a fama dos outeiros do colégio de Abílio César Borges, na Bahia.
Enquanto isso, José Antônio passava os dias à janela, melancólico, a ler os versos românticos de Álvares de Azevedo, que havia
morrido aos vinte anos de idade dez anos antes, ou em longas
conversas com os loucos do hospício vizinho, a demonstrar uma
mórbida afinidade com seus interlocutores.
Com eles havia outro jovem baiano, grande amigo de Antônio, e que mais tarde, após a morte do poeta, se casaria com
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
sua irmã Adelaide: Augusto Álvares Guimarães. Dali os três
foram juntos morar num arrabalde do Recife, próximo ao Rio
Capibaribe, o que devia ser bom, inclusive, porque afastava José
Antônio da companhia dos loucos do hospício. Mas a diferença
de comportamento entre os irmãos acentuou-se. Ao passo que
Antônio, eufórico, experimentava os primeiros namoros, fazia
amizades, era chamado a recitar e até se deixava vaidosamente
retratar para uma publicação em jornal, envolvendo-se na agitada vida acadêmica, literária e boêmia do belo Recife, tão rico
de todas as tentações para a juventude daquele tempo, José Antônio afundava numa tristeza soturna, mantendo-se taciturno e
arredio, a beber conhaque, ler e escrever poesia.
Assim passou todo aquele ano de 1862 e entrou por 1863.
Mas a situação agravava-se. Com o aprofundamento do estado
depressivo e da conduta estranha do irmão, Antônio viu-se obrigado a notificar o pai, que mandou chamar a Salvador o filho
mais velho. Tudo leva a crer que, embora grandemente preocupado, o doutor Alves não tenha percebido toda a gravidade
dos distúrbios de comportamento de José Antônio; pelo menos,
como médico, não fez nenhum diagnóstico ou prognóstico de
risco, pois, vendo nisto uma solução para o filho — mais uma,
enviá-lo a estudar em Recife fora a primeira —, mandou-o dessa
vez, em outubro, para o Rio de Janeiro, uma cidade ainda maior,
para tentar a Escola Nacional de Engenharia.
Foi pior. Regressou no mês seguinte, acompanhado do
primo Dionísio Cerqueira, que viajara com ele e fora seu companheiro nos exames de admissão à escola, e do procurador do
doutor Alves, Augusto César de Melo. Agora não parecia haver
dúvidas: José Antônio enlouquecera. Aqui também não há um
diagnóstico, e a palavra leiga é a única explicação para o desequilíbrio do rapaz. Mas tudo leva a crer numa depressão profunda.
Ou seria uma crise psicótica? Levaram-no para Curralinho, na esperança de que os ares sertanejos, que, na concepção geral, eram
benfazejos para tudo que se referisse à saúde, lhe trouxessem as
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melhoras. Porém, bastou que o deixassem sozinho um único dia,
nove de fevereiro de 1864, para que o rapaz se matasse, ingerindo um remédio qualquer que encontrou. Tinha apenas dezoito
anos de idade.
Qual teria sido a impressão, qual o sentimento causado
em Castro Alves, pela notícia, em Recife, às vésperas de sua matrícula na faculdade, dessa morte trágica do irmão mais velho e
companheiro, do mano poeta que lhe havia cunhado, quando
nasceu, o carinhoso apelido de Cecéu?
A impressão que deixam os biógrafos mais remotos, aqueles que mais transcrevem os depoimentos de familiares e dos
companheiros de mocidade do poeta, é que a trajetória de Castro Alves parecia tão solidamente traçada, que nada, nem mesmo
os mais cruéis revezes, a perturbava. Não o abalara, por exemplo — a ponto de fazê-lo retornar à Bahia ou abandonar a vida
que levava —, a forte hemoptise que tivera em meados do ano
anterior, 1863, o que se sabe pelo testemunho do seu amigo e
companheiro de república Luís Cornélio dos Santos. Abatera-se
ao lançar as golfadas de sangue, deixara-se ficar, sozinho, de olhos
fechados, deitado na rede onde o foram encontrar os companheiros de hospedagem, a segurar uma toalha ensanguentada à mão,
a rede e a camisa também ensopadas de sangue. Mas o episódio
fora superado. Não lhe interessava a faculdade, que ele parecia
apenas cumprir para satisfazer aos desejos do pai e às exigências
burguesas da época. Talvez jamais se visse com o anel de rubi
no dedo, ainda que isso lhe desse conhecimento e legitimidade
para defender injustiçados de toda ordem. Mas interessava-lhe, e
muito, além de viver intensamente, voltado principalmente para
os amores das mulheres que a ele prazerosamente se entregavam,
a nomeada da sua poesia, que, mais e mais, o empolgava, fazendo-se o objetivo principal da sua vida. Seria por ela, pela poesia,
pelo fulgor e veemência dos seus versos, pelos rasgos de ousadia
diante das rígidas estruturas sociais da época, pelos conceitos
emitidos, de forma direta ou metafórica, e não pela legitimidade
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
do diploma, que defenderia a justiça e a liberdade e que também
alcançaria a notoriedade, a glória, a imortalidade.
Como ocorreu com a morte da mãe, não há uma única
produção poética de Castro Alves, pelo menos que tenha ficado
e esteja incluída em sua obra completa, que se refira à morte do
irmão. O poeta tinha o hábito de datar seus versos, portanto
torna-se fácil acompanhar a sua produção por períodos e em
razão de circunstâncias, ao menos na poesia publicada e hoje
conhecida. De 1864, incluídos em Espumas flutuantes, seu único
livro publicado em vida, há apenas dois poemas. O primeiro é
“Mocidade e morte”, uma elegia cuja maior preocupação é a
própria morte, contraposta à afirmação eloquente do desejo de
viver. É nele que se encontra o verso famoso que retrata toda a
vaidade e também toda a confiança do jovem de dezessete anos
de idade no próprio talento:
Eu sinto em mim o borbulhar do gênio.
Mas, ao lado do otimismo (“vejo além um futuro radiante”), a certeza do breve fim:
Mas uma voz responde-me sombria:
Terás o sono sob a lájea fria.
A convicção é expressa de forma ainda mais objetiva:
E eu sei que vou morrer... dentro em meu peito
Um mal terrível me devora a vida.
Sente-se morrendo:
E eu morro, ó Deus! na aurora da existência,
Quando a sede e o desejo em nós palpita...*
* N. do R.: Assim no original.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
O outro poema de 1864, sem indicação de mês, em Espumas flutuantes, “Dalila”, como num arrependimento do pensamento da morte, fala de um amor, em versos que sugerem
o sentimento já inteiramente voltado para aquela que seria o
grande amor da sua vida: Eugênia. E nada mais há com data de
1864 nesse livro.
No conjunto de poemas de conotação social libertária que
mais tarde, após a sua morte, foram publicados em volume sob o
título Os escravos, não há um único poema com data de 1864. Nas
poesias coligidas, que incluem originais, traduções, fragmentos e
mais duas categorias denominadas pelo organizador da obra de
“litigiosa” e “colegiais”, há, com data de 1864, apenas um soneto, “Ao Dois de Julho”, um poema lírico, “Recordações”, com
o subtítulo “Recitativo para piano”, e um pequeno poema que
recebeu o título de “Fragmento”, talvez por não possuir título,
este último tendo como tema o sentimento de solidão.
Não há, portanto, uma única menção, por mais leve que
seja, ao irmão suicida, na sua poesia. Também não há nas poucas crônicas que escreveu para jornais, nem na correspondência,
publicada e conhecida, para a família e os amigos. Entretanto,
deve ter havido alguma correspondência escrita entre a família e
ele sobre esse assunto, pois de que outra forma a notícia lhe teria
chegado à então distante capital de Pernambuco?
O poema “Mocidade e morte”, inicialmente intitulado “O
tísico”, foi nitidamente motivado por seus próprios males físicos.
Talvez já estivesse infectado desde os doze anos de idade pela
mãe, ou tenha sido contaminado pouco mais adiante por outra
pessoa qualquer, afinal havia muita gente tuberculosa circulando
sem qualquer resguardo, sem sequer diagnóstico, tanto em Salvador quanto em Recife. O fato é que Castro Alves já estava doente
por esse tempo, como atestava a hemoptise do ano anterior. Além
disso, andava pálido e magro, tossia muito, sentia fortes dores no
peito. Após escrever “O tísico”, finalmente apreensivo com o
próprio estado de saúde, largou as aulas da faculdade, mesmo
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
sabendo que, com isso, perdia o ano por faltas, e viajou apressado para a Bahia em busca da ajuda do pai médico, um tristíssimo
pai, que não se conformava com o suicídio do filho mais velho.
O doutor Alves, sempre acreditando nos efeitos milagrosos dos
ares do sertão, mandou-o descansar em Curralinho e, na volta,
tranquilizou-o. Podia retornar aos estudos em Recife. Foi o que
fez o poeta, mas o ano já estava perdido.
As férias de fim de ano de 1865 para 1866, passadas na
Bahia, marcariam um insuspeitado encontro do poeta com a morte. Do pai, que ele admirava. Nascido em 16 de março de 1818, o
doutor Antônio José Alves contava quarenta e sete anos de idade.
Desde o suicídio do primogênito, não mais tivera saúde. Continuara a trabalhar; empenhara-se particularmente nas onerosas obras
da Boa Vista e do seu pretendido e, à época, quase impossível hospital modelo (porque, além de muito onerosos, hospitais não eram
bem vistos pela sociedade, as pessoas de posse fazendo questão
de ser tratadas em residência); fundara, com os doutores Faria e
Ludgero Rodrigues Ferreira, a Sociedade Bahiana de Beneficência
Médica; tivera um novo filho do segundo casamento, com dona
Maria Ramos Guimarães Alves, o Cassiano. Mas seu gosto pela
vida e suas forças esvaíram-se. Em novembro deixou de sair de
casa, mergulhado numa tristeza profunda.
A chegada de Antônio, alto, belo, encantador, com os
ânimos e os sonhos da mocidade, a irradiar o fulgor de um
talento incomum, alentou-o um pouco, mas não o suficiente.
Foram dois meses de enfermidade, acompanhado de perto por
seus colegas e amigos, Antônio Pacífico Pereira, Antônio de
Cerqueira Pinto, Franco Meireles e Salustiano Ferreira Souto,
ocorrendo a morte no dia 23 de janeiro de 1866. Pensou-se
em beribéri, que grassava na Bahia, a filha Adelaide acreditava
nisso, mas o diagnóstico do doutor Pacífico Pereira para a causa mortis foi o coração. Diagnóstico clínico, sem comprovação
nem explicação fundamentada e convincente, como todos os
da época.
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Perder, aos dezenove anos de idade, um pai que apenas
tinha quarenta e sete, um pai que ele amava, respeitava e admirava, podia significar uma tragédia pessoal irresgatável. Entretanto, afora todo o sofrimento que a perda lhe possa ter ocasionado, não há como identificar, na história conhecida do poeta,
um grande abalo pelo acontecimento. O que lhe fica, bem mais,
desse período de férias na Bahia, na sua quase lendária história
de vida, é a corte, recheada de romantismo e poesia, às três irmãs
judias que moravam em frente. Escreve “Hebreia”. Pura poesia,
puro desejo de conquista. Sem morte alguma. Como aconteceu
com a mãe e o irmão, não deixou registros escritos de seu sentimento pela morte do pai.
Sempre ficará a pergunta: por quê? Teria sido, tanto quanto as outras duas perdas, a dor tão funda que inibiu a inspiração? Ou uma determinação estética de não expor na poesia
um sentimento tão íntimo e tão particular, embora tivesse feito
isso sempre, quando se tratava de amores? Quem sabe, ainda, a
morte dos entes queridos não o inspirava poeticamente, e preferia mesmo não falar do assunto? Será, também, que a perda de
familiares ainda moços era tão banal e tão comum, à época, que
não fosse relevante? O fato é que abstraiu o acontecimento de
sua arte, assumiu uma atitude de força e seguiu adiante — com o
mesmo vigor, a mesma confiança e o ímpeto inesgotável do seu
talento — o caminho que traçara para si próprio.
A coragem pessoal no enfrentamento das adversidades,
ainda que graves e irreversíveis, teve, como prova decisiva, o
acidente que o vitimou em 11 de novembro de 1868. Aquele
ano havia sido, até ali, o ponto mais alto de sua produção e de
seu nome de poeta. Pode-se dizer que seus grandes poemas, os
que mais fizeram a sua nomeada para a época e para os tempos
seguintes, vêm desse ano, que corresponde aos seus vinte e um
anos de idade. Em 1868 escreveu “O navio negreiro”, “Vozes
d’África”, “O laço de fita”, “Ahasvérus e o gênio”, “O ‘adeus’
de Teresa”, “Boa noite”, “Adormecida” e “Ode ao Dous de
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Julho”, entre outros de menor repercussão. Poemas que bastariam para imortalizá-lo. Tinham sido daquele ano as famosas
cartas, publicadas em jornal, de José de Alencar e Machado de
Assis, que equivaliam a uma consagração nacional e definitiva. O
drama Gonzaga ou A Revolução de Minas, que estreara com grande
êxito na Bahia no ano anterior, repetiu plateias lotadas, aplausos
entusiasmados e boas críticas em duas apresentações naquele
ano, em São Paulo. Os novos poetas já procuravam imitá-lo, nos
versos e nas maneiras. Ele era uma celebridade, e não apenas
no meio acadêmico. Até conseguira, naquele ano magnífico, a
aprovação de ano na faculdade com um “plenamente”, o que o
habilitava à matrícula no quarto ano.
A destoar desses sucessos, o insucesso do amor com Eugênia, que vinha aos tropeços dos ciúmes, tédios da parte dela e
desentendimentos, querem alguns até infidelidades, também da
parte dela, desde Salvador. Ao longo de 1868, o relacionamento
segurava-se já quase que exclusivamente por meio das motivações do Gonzaga. Até que ela, um dia, irada, o pôs para fora,
atirando-lhe pela janela os pertences. Ele foi hospedar-se numa
república de estudantes na Ladeira da Conceição, onde já estava
seu conterrâneo e também acadêmico de direito Ruy Barbosa.
O desgosto do poeta foi grande. Não será exagero dizer
que parece ter sido maior que aqueles causados pela morte da
mãe, do irmão e do pai, os três juntos. Não era apenas a perda,
mas também o amor-próprio ferido. A morte do amor, a decepção, a morte da alma em festa. O luto dos prazeres perdidos. Foi
esse apartamento intempestivo, destruidor, que o levou a passar
uma quarta-feira no arrabalde do Brás e, solitário e triste, passear
de espingarda ao ombro pelos campos, menos para caçar perdizes do que para buscar a si próprio.
A história é bem conhecida: levava a espingarda com o
cano voltado para baixo; ao saltar uma vala, onde haveria um córrego, com o movimento brusco a arma disparou, descarregando todo o chumbo no seu calcanhar esquerdo. Caiu para diante
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com a bota dilacerada, sangrando muito; arrastou-se como pôde
até uma casa próxima e pediu que o levassem à sua república,
onde o foi acudir, a seu chamado, um seu amigo, o médico baiano Luís Lopes Batista dos Anjos, que considerou de pronto a
gravidade do caso. O chumbo lesara ossos e cartilagens, e nada
se podia fazer para sarar a ampla ferida, além dos curativos. Note-se que sequer se podia imaginar que, um dia, existiria uma
arma terapêutica do poder extraordinário de um simples antibiótico. Além disso, havia a conhecida “fraqueza pulmonar”, que,
o médico acreditava, podia se agravar com a imobilidade forçada
de uma longa convalescença. O médico prestou-lhe os primeiros
socorros e o transferiu imediatamente para outra república, em
frente à sua casa, na Rua do Imperador, onde podia lhe dar melhor assistência. Ali, com a ajuda profissional do cirurgião e presidente da província Cândido Borges Monteiro, Barão de Itaúna,
retirou-lhe vários grãos de chumbo, fez os curativos necessários,
dedicou-se inteiramente à batalha da cura.
O desastre ganhou o noticiário, comoveu a academia e a
sociedade. A república na qual o poeta ocupava um quarto individual e amplo, em que havia uma cama larga com muitos travesseiros em que pudesse recostar-se, encheu-se. Sofrendo as dores do ferimento e do curativo, muito pálido, prostrado, viu-se
confortado pelos amigos e admiradores, pelos mimos das flores e
das gulodices, particularmente a cocada, o doce da moda, que lhe
mandavam. Ao seu lado estavam, com assiduidade e palavras de
ânimo, Carlos Ferreira, Rubino de Oliveira, Américo de Campos,
Ferreira Menezes, Brasílio Machado, Campos Carvalho, Aureliano
Coutinho, José Felizardo, o padre Francisco de Paula Rodrigues e,
naturalmente, o doutor Lopes dos Anjos. A própria Eugênia Câmara, comovida, foi vê-lo. A filha do médico, Maria Amália Lopes
dos Anjos, a Sinhazinha, que já lhe havia inspirado, pouco antes
do rompimento com Eugênia, o famoso “O laço de fita”, desdobrava-se em cuidados, era a sua principal enfermeira, um bálsamo
platônico e romântico para os seus sofrimentos.
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Apesar da extensão e do agravamento da ferida, que infectava, havia ainda o otimismo de um bom desfecho — quando
sobreveio a febre, constante e alta. Seria essa hipertermia persistente, provavelmente não mensurada, causada pela infecção do
pé, mas é difícil dizer, pois o poeta também tossia, respirava com
dificuldade, tinha hemoptises, sentia-se exausto. Também se encontrava debilitado e exposto a viroses. Confirmando a previsão
do doutor Lopes dos Anjos, a imobilidade prolongada acentuara
a enfermidade pulmonar. Entre 30 de março e 1º de abril, esteve
à morte, ardendo em febre, quase ao delírio, num sofrimento
intenso. Certo de que se despedia da vida, escreveu o comovente
“Quando eu morrer”. Era um adeus e um pedido:
Quando eu morrer... não lancem meu cadáver
No fosso de um sombrio cemitério...
Odeio o mausoléu que espera o morto
Como o viajante desse hotel funéreo.
Dez estrofes, dez quartetos de versos decassílabos que lhe
devem ter saído de um jato, no impulso dos tremores da febre,
a pena molhada de suor entre os dedos magros, no resvalar inconformado “para as plagas sem fim do outro mundo”. Mas não
concluiu, não disse onde queria que lhe pusessem seu cadáver.
Ao incluir o poema em Espumas flutuantes, com uma significativa
epígrafe retirada de seu conterrâneo Junqueira Freire, acompanhou-o de uma nota:
Estes versos foram escritos quando julgava o autor repousar em terra estranha.
A febre e o sofrimento fizeram que eles ficassem truncados. Completá-los mais tarde seria de alguma sorte tirarlhes o único mérito, que por acaso têm.
O quadro deve ter sido assustador. E, de certa forma, prolongou-se pelos dias seguintes, por todo o mês de abril, início de
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maio. Eram já seis meses de sofrimento, prostrado num leito, a
padecer dores atrozes e aguardar uma cura espontânea que, agora, se afigurava distante ou inalcançável. Os doutores Lopes dos
Anjos e Cândido Borges Monteiro reuniram-se em conferência
para discutir o caso. Temiam, ao mesmo tempo, a gangrena e a
tuberculose. A perspectiva da amputação do pé já lhes parecia
inevitável. São Paulo, além de muito fria, o que incomodava o
quadro pulmonar, era uma cidade pequena e sem recursos, e o
jeito era transferi-lo para a corte. No Rio de Janeiro estava o
seu ex-companheiro de república no Recife e bom amigo Luís
Cornélio dos Santos, com quem o poeta se correspondia e que
o chamava para a sua casa.
Não cabia hesitação. Conduzido da república numa marquesa para um vagão especial, foi levado com grande sacrifício
para o porto de Santos, onde, na tarde de 19 de maio, depois de
comovida despedida dos amigos, o vento trazendo do mar um
frio cortante e triste, embarcou em companhia do colega e amigo
José Rubino de Oliveira. A viagem foi dolorosa. O navio jogava
muito, o pé doía terrivelmente, ele sentia-se muito fraco. Desembarcou no Rio de Janeiro às duas horas da tarde do dia 21, e o desembarque também foi muito doloroso. Foi carregado de bordo
para o trapiche, colocado numa carreta preparada para isso por
José Rubino, e dessa forma pôde vencer a longa ponte de desembarque. Depois foi posto num veículo que todos à época denominavam “carro”, mas que não foi descrito, e transportado para
a casa de Luís Cornélio, na Rua Silva Manuel, número três, uma
viagem que durou duas horas. Retornava ao Rio de Janeiro numa
situação bem diversa daquela do início do ano anterior, quando ali
fora para ser consagrado por Alencar e Machado.
Os cirurgiões Andrade Pertence e Mateus de Andrade
examinaram-no, fizeram a avaliação da ferida e os curativos necessários e deram-lhe esperanças de salvar o pé. Após alguns
dias, no aconchego e no conforto da casa de Luís Cornélio, cuja
família o tratava como a um parente querido, sentiu-se melhor,
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tanto da ferida quanto do peito. Não teve febre nem hemoptise,
melhorou da tosse e até conseguiu deitar-se sobre o lado esquerdo, o que já não conseguia. Apenas surgiu-lhe um abscesso
no pé atingido, que ele mesmo drenou. Escreveu uma carta aos
amigos de São Paulo, mais animado.
Em princípio de junho, os doutores Pertence e Mateus
de Andrade submeteram-no a uma intervenção, na qual encontraram ainda trinta e sete grãos de chumbo, fragmentos de osso
e, o que era pior, um comprometimento da estrutura óssea e
de toda a área atingida, indicando o início da gangrena. Diante
disso, não ousaram esperar mais e determinaram a amputação
imediata do pé. O poeta resignou-se. O seu estado de fraqueza
não admitia a cloroformização, única anestesia da época, e a
cirurgia foi realizada sem qualquer anestésico ou analgésico,
o que significava uma grande dor, um enorme sofrimento. O
bisturi e a serra daqueles hábeis cirurgiões encontraram, entretanto, um paciente corajoso. Ao ver que o doutor Mateus de
Andrade o olhava penalizado, sorriu, enfrentando a dor física e
moral da mutilação com o sarcasmo, pronunciando uma frase
que se tornou famosa:
— Corte-o, corte-o, doutor. Ficarei com menos matéria
que o resto da humanidade.
O pé foi separado em golpes rápidos no terço inferior da
tíbia, sem que se saiba o quanto da tíbia e do perônio foi retirado, durando, porém, a cirurgia apenas alguns minutos. Um ato
cirúrgico verdadeiramente magistral, que resultou na eliminação
da incipiente gangrena e na salvação não apenas da perna, mas
da própria vida. Tudo isso, dos curativos à cirurgia, foi realizado
na casa de Luís Cornélio, pois, como já acentuamos linhas atrás,
não era de uso que pessoas de bom nível social e que tivessem
quem lhes cuidasse fossem levadas para o hospital.
Já no final do mês ele sentia-se melhor até do próprio
peito. À falta de Eugênia, como acontecera à filha de Lopes dos
Anjos, atirava olhares e versos românticos às jovens da casa,
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uma cunhada de Luís Cornélio e duas outras, próximas da família. Descarnado e pálido, mutilado no corpo e na alma, era ainda
o poeta dos olhos vivos, da chama do gênio no olhar em fogo, da
voz cheia e sonora, dos gestos expressivos, da palavra envolvente e sedutora. E as moças que o cercavam alvoroçaram-se, deixaram o coração bater mais rápido, sorriram os sorrisos juvenis
dos sonhos e das esperanças. Mas ele sentia-se ainda magoado
por Eugênia e sentia, sobretudo, dentro do peito “o germe cruel
de um mal terrível”. Tentou escrever um drama que se igualasse
ao Gonzaga, que talvez o superasse, intitulou-o Don Juan, inspirou-se nas admiradoras enleadas à sua volta, queria esquecer o
inverno, tornar à primavera. Mas não enganava ninguém. A todas, ao mundo e a si próprio afirmou:
... Eu sei que morro...
É tarde! É muito tarde!...
Afinal, com a ferida completamente cicatrizada, amparado em longas muletas de ébano, mas profundamente magoado,
levantou-se da cama com um pé falso, foi ao teatro ver Eugênia,
escreveu versos para ela, os últimos.
Após seis meses na casa de Luís Cornélio, precisava atender ao chamado da família e retornar à Bahia. Francisco Lopes
Guimarães, o Chico, filho de sua madrasta e seu cunhado, casado com sua irmã Elisa, foi quem o foi buscar e acompanhá-lo na
viagem de volta. Em 25 de novembro, o poeta embarcou para a
Bahia. Como acontecera com a volta ao Rio de Janeiro, esse retorno era bem diverso do anterior, quando, ao lado do seu grande amor, desafiando os preconceitos e os juízos da sociedade,
mas cercado de aplausos e triunfos, confiante no seu gênio e
no drama que ia apresentar aos baianos, buscava com altivez
o reconhecimento da sua terra. Agora, alquebrado, sozinho,
triste, sonhando apenas com a edição do seu primeiro livro,
Espumas flutuantes, que deixaria como lembrança aos amigos,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
apenas buscava, na sua terra e ao lado dos seus, a cura definitiva
ou a morte. Trazia um desejo, além do livro: queria repousar.
Na Bahia, no casarão do Sodré, foi acolhido com muito
carinho pela família e pelos amigos, uma alegria mesclada com
a preocupação de vê-lo tão abatido e tão triste. Adelaide e Guilherme, particularmente, foram os irmãos que mais dele se aproximaram. Mas, já no início do ano seguinte, em 26 de janeiro,
por determinação de seu médico na Bahia, o doutor Salustiano
Ferreira Souto, amigo da família e padrinho de Adelaide, por
sinal que também tuberculoso desde moço, partiu para o sertão,
em busca dos famosos ares que lhe poderiam melhorar a doença
do pulmão. A princípio em Curralinho, depois na Fazenda de
Santa Isabel, no Rosário do Orobó, tentou repousar e refazer-se,
embora não abandonasse a sensação de estar diante da morte,
como demonstra em “Coup d’étrier”:
E se eu devo espirar... se a fibra morta
Reviver já não pode a tanto alento...
Companheiro! Uma cruz na selva corta
E planta-a no meu tosco monumento!...
Reviu parentes, amigos, escreveu muito. Os amores, seus
persistentes desejos de homem e de poeta, percorreram, como
sombras ou anjos da meia-noite, a lembrança de sua existência
gloriosa, sofrida e curta — tão curta. Concluiu “A Cachoeira de
Paulo Afonso”, com a qual pretendia pôr fecho ao projetado
Os escravos, livro que não veria editado. Em 16 de setembro de
1870, pouco mais de sete meses passados, regressou a Salvador.
Sentia-se melhor, mas podia ser uma sensação ilusória. Em novembro, graças à colaboração da irmã Adelaide, a copiar com
dedicação os originais, ao assessoramento a distância de Luís
Cornélio e, principalmente, ao empenho de Augusto Guimarães,
teve o seu livro finalmente editado na Bahia pela Typographia de
Camillo de Lellis Masson & C. Publisher, o editor de Junqueira
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Freire. Os mil e quinhentos exemplares custaram setecentos réis
só para imprimir; porém, com o material, mais de um conto de
réis. O volume in octavo de papel linhas d’água, primeira qualidade, tipo miúdo, alcançara duzentas e dezoito páginas, e trazia
uma dedicatória:
À Memória
de
Meu Pai, de Minha Mãe e de Meu Irmão
O. D. C.
Seria este talvez o único registro da dor do poeta por essas
três perdas.
Com seu retorno, o Sodré voltou a encher-se de amigos,
festas íntimas, reuniões, saraus, a tampa do piano foi mantida
permanentemente aberta para os dedos de Adelaide e de quem
mais quisesse tocá-lo. Tentou viver mais um amor, o último, mas
o objeto de seu desejo, mesmo seduzida, o que confessaria mais
tarde, fugiu de suas investidas. O pé de borracha enfiado na bota,
o poeta passeou a cavalo; foi ao teatro, chegando sempre muito
cedo, antes de todos, acomodando-se ao camarote para que não
o vissem amparado em muletas ao andar; querem os indícios
que se meteu em aventuras que aplacassem seu ardor sexual;
rigorosamente trajado de preto, como costumava vestir-se, subiu
a cavalo as escadarias da Associação Comercial da Bahia para
declamar; autografou para amigos e pessoas ilustres exemplares
de Espumas flutuantes; mandou-o a Alencar, com uma dedicatória;
tentou manter a chama da alma acesa, a iluminar com desespero
antes da escuridão total.
Daquele final de novembro de 1869, em que retornou mutilado e sofrido à Bahia, até junho de 1871, além da conclusão de
“A Cachoeira de Paulo Afonso” e uma quantidade considerável
de traduções escreveu cerca de cinquenta poemas, dezoito deles
fazendo parte dos cinquenta e quatro de Espumas flutuantes e dois
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que integrariam Os escravos. Acalentava um projeto sobre a República dos Palmares, não se sabe se um longo poema, como “A
Cachoeira...”, um drama, como Gonzaga e o abortado Don Juan,
ou um romance, como declarou Augusto Guimarães. Mas, como
ele mesmo afirmou, quando ainda lançava olhares de amor à
volta e era também desejado, era tarde, era muito tarde. Estava,
de fato, muito doente. A febre, a tosse, as hemoptises, as dores
no peito, os suores, a fraqueza não o deixavam. Mostrava-se extremamente magro e exausto.
O doutor Salustiano Ferreira Souto já não escondia seu
desânimo diante daquela tuberculose gravíssima e sem tratamento. Nada mais podia fazer, nada podia fazer a própria medicina,
fosse da Bahia ou de qualquer parte. Ao final de maio, fraco,
abatido, tomado de extremo desalento, sem conseguir trabalhar
a poesia, ele passou a esquivar-se de tudo. Recolheu-se ao casarão do Sodré, apegou-se ao piano de Adelaide. Nos intervalos da
tosse cantarolava baixinho, com tristeza, acompanhando fragmentos de árias, romanzas e fadinhos, como se a música pudesse
suavizar-lhe um pouco o sofrimento do corpo e da alma.
No dia 22 de junho teimou em ir ao teatro. Na noite do dia
seguinte, véspera de São João, festejada ruidosamente nas casas
e nas ruas de Salvador com muito foguete e muita fumaça, quis
chegar à janela para apreciar um pouco a festa, mas não conseguiu. Com a fumaça que entrava das fogueiras e dos fogos, tossiu muito, recuou, sem poder se aguentar nas muletas, deixou-se
abater sobre o sofá, arquejando. Adelaide, que ele e a família
chamavam Sinhá, aproximou-se, ouviu-o murmurar o primeiro
quarteto de um famoso poema de Álvares de Azevedo:
Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria,
Se eu morresse amanhã!
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Sinhá viu que lhe corria uma lágrima dos olhos infinitamente tristes.
Cinco dias depois, 29 de junho, já não pôde se erguer do
leito. Pediu aos irmãos que lhe transportassem a cama para a sala
de visitas, diante da janela de onde costumava olhar a rua. Dali
podia ver os telhados do Convento de Santa Tereza embaixo,
uma faixa de mar e, principalmente, o céu. Explicou que queria
morrer olhando o infinito azul. E pediu que, a não ser os irmãos
e os dois amigos mais íntimos, Augusto e Chico, ninguém mais
o visse. Agnese Trinci Murri, a última paixão, que se esquivara,
pediu, em prantos e com insistência, que a deixassem vê-lo. Adelaide comoveu-se, fez o pedido. Mas ele, com os olhos iluminados de lágrimas, tomou-lhe as mãos e implorou:
— Não! Não a deixe entrar... Ela, mais do que ninguém,
não deve guardar de mim uma lembrança de ruína. Que me recorde como sempre me viu, como me conheceu... Não! Não a
deixe entrar...
Os dias que se seguiram foram de sofrimentos atrozes,
intervalados por breves momentos de alívio. À meia-noite de
cinco para seis de julho, quis saber que horas eram. Ao ser informado, suspirou, dizendo:
— Será possível, meu Deus, ainda um dia de dor?...
Tinha a mão fina e fria nas mãos de Adelaide. Era tanta
a sua aflição, que a irmã, comovida, deixou cair uma lágrima.
Ao sentir pingar a lágrima em sua mão, o poeta apertou-a e
murmurou:
— As contas quentes senti...
Poeta, sempre poeta, reportava-se a um de seus últimos
poemas, “Virgem dos últimos amores”:
Por que derrubas as gotas
Do cacho do ouricuri?
São tuas miçangas rotas
Que rolam na minha frente?
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Teu colar estava quente...
As contas quentes senti!
Na manhã seguinte, seis de julho de 1871, pelas dez horas
da manhã, o padre Turíbio Tertuliano Fiúza, amigo da família,
chegou ao casarão para administrar-lhe os últimos sacramentos.
Ele estava, entretanto, perfeitamente lúcido. Numa das ocasiões
em que Sinhá, angustiada, lhe passava o lenço pela fronte umedecida, ele, com voz quase extinta, mas repassada de meiguice,
murmurou-lhe:
— Guarda este lenço... Com ele enxugaste o suor da minha agonia...
Na cama, diante da grande janela e do infinito azul, como
ele queria, imóvel, os olhos fixos na amplidão, a luz do olhar
foi-se desfazendo, até se extinguir completamente às três e meia
da tarde.
O saimento deu-se no dia imediato, sete de julho, às nove
horas da manhã. Do casarão ao alto da Rua do Sodré, o esquife
foi levado à mão. Daí até o Cemitério do Campo Santo, de carro.
À beira do túmulo, João de Brito recitou um poema, Rozendo
Muniz fez um discurso em nome da Sociedade Libertadora Sete
de Setembro.
É no mínimo estranho que, contemporaneamente, médicos
falem numa suposta diabete de Castro Alves, responsável por sua
morte, como se não tivesse bastado a tuberculose em estado avançado e sem qualquer tratamento. Por que mais esse inútil diagnóstico, feito a distância e sem nenhuma comprovação?
O corpo do poeta, contrariando o desejo expresso nos
versos febris e inacabados de “Quando eu morrer”, foi lançado
“no fosso de um sombrio cemitério”. Mas, cem anos depois,
quando se aproximava o centenário da morte daquele moço de
vinte e quatro anos de idade que se tornara o maior poeta da sua
terra, seus restos mortais foram retirados, postos numa urna e
levados do foyer do Teatro Castro Alves a pé, nos braços do povo,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
uma multidão em silêncio e reverente, pelas ruas da cidade, para
serem depositados na cripta construída sob seu monumento, na
praça que leva seu nome em Salvador.
O gênio vencera a morte.
REFERÊNCIAS
ALVES, Castro. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.
CALMON, Pedro. História de Castro Alves. Rio de Janeiro: José Olympio, 1947.
COSTA, Aramis Ribeiro. Amores e musas de Castro Alves. Revista da
Academia de Letras da Bahia, Salvador, n. 46, set. 2004.
COSTA E SILVA, Alberto da. Castro Alves. São Paulo: Companhia das
Letras, 2006. (Perfis Brasileiros).
MARQUES, Xavier. Vida de Castro Alves. 3. ed. revista e comentada.
Rio de Janeiro: Topbooks; Salvador: Universidade Católica do Salvador; Academia de Letras da Bahia, 1997.
PEIXOTO, Afrânio. Castro Alves: o poeta e o poema. Rio de Janeiro:
W. M. Jackson, 1944.**
Aramis Ribeiro Costa é médico, também graduado em letras. É escritor,
autor de mais de uma dezena de livros de ficção e de poesia, entre eles
Episódio em Curicica (2001), Baú dos inventados (2003), Reportagem urbana
(2008) e Contos reunidos (2011). Presidiu a Academia de Letras da Bahia
na gestão 2011-2013, sendo reeleito para o período 2013-2015. Desde
1999 ocupa a Cadeira nº 12 da ALB.
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OS GERAIS SÃO SEM TAMANHO
Cartografias do sertão rosiano
Evelina Hoisel
D
esde que apareceu na cena cultural brasileira, a vasta produção literária de João Guimarães Rosa tem suscitado uma
série de indagações que perpassa diversos campos do conhecimento e contempla as interpretações mais díspares e antagônicas. Isso se deve à própria configuração paradoxal desses textos,
em que “tudo é e não é”, pois “este mundo é muito misturado”,
como afirma o narrador protagonista de Grande sertão: veredas
(1967), Riobaldo Tatarana.
Elegendo o sertão como cenário para as suas narrativas
ficcionais, é com o texto monumental de Grande sertão: veredas
que João Guimarães Rosa traça uma geografia física, social e
política do Brasil a partir do sertão, périplo das aventuras do
personagem-narrador, o jagunço Riobaldo.
Sob o aparente pretexto de informar a seu visitante, o senhor
instruído e culto, sobre a geografia física e social da região, Riobaldo começa a mapear a geografia do sertão com precisão e minúcia
de quem efetivamente conhece o objeto de sua narração e se põe
também a delinear a sua cartografia interior, mapear as diversas zonas de sua subjetividade, buscando decifrar e interpretar os dados
retidos na memória. No discurso de Grande sertão: veredas, sujeito e
objeto se entrelaçam, pois é impossível para Riobaldo falar de sua
travessia pelo sertão, estabelecer os limites físicos, geográficos e
culturais da região, sem delimitar as zonas do seu eu. Temos assim,
desde o início da epopeia, a possibilidade de traçar múltiplas cartografias, sejam elas reais, imaginárias, objetivas, subjetivas e afetivas.
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No Grande sertão, é a chegada do senhor-interlocutor que
deflagra o diálogo-monólogo que constitui a narrativa de Riobaldo. Todavia, é a figura de Diadorim que a sustenta e a fundamenta. Riobaldo não pode falar sobre o sertão sem atravessar o
corpo polissêmico de Diadorim, pois seus rastros estão inscritos
na geografia física, social, cultural e mítica do sertão, recuperados pelas reminiscências de Riobaldo. A teia de acontecimentos
da travessia do jagunço Riobaldo converge para a figura de Diadorim, e é a partir dela que ele terá que devassar um “mar de
territórios, para sortimento de conferir o que existe” (ROSA,
1967, p. 25). Os rastros de Diadorim estão no corpo físico de
Riobaldo, na sua memória e na topografia do sertão — “Diadorim me pôs o rastro dele para sempre em todas essas quisquilhas
da natureza” (ROSA, 1967, p. 25). A aprendizagem de Riobaldo
consiste em um processo de interpretação de si e do seu pertencimento ao bando de jagunços na travessia pelo sertão, e, nesse
processo, ele está constantemente cartografando as diversas paisagens e convidando o leitor a se adentrar pelas suas trilhas para
também mapear as suas veredas.
O conceito-metáfora de cartografia traduz uma apropriação, uma travessia literária por um território disciplinar um
tanto incomum no panorama dos discursos sobre a literatura
em sua relação com os demais saberes, ou seja, a geografia.
Cartografar não significa a efetiva elaboração de cartas geográficas sobre os textos literários, embora elas também existam. Cartografar refere-se a uma configuração conceitual que
pressupõe o estabelecimento de territorialidades literárias, comunidades imaginárias postas a dialogar e a se relacionarem,
a partir de territorialidades linguísticas e culturais semelhantes ou divergentes. Cartografar pressupõe o delineamento de
espacialidades, de fronteiras, a demarcação dos limites, reais
ou virtuais, objetivos ou subjetivos, simbólicos ou alegóricos.
Assim, falar de cartografias do sertão rosiano implica estabelecer
limites, demarcar fronteiras, estabelecer percursos, aproximações
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e distanciamentos entre os espaços físicos e geográficos do sertão, ou interpretar as marcas dos espaços subjetivos dos personagens conforme configurados no texto de João Guimarães
Rosa, o Grande sertão: veredas.
O sertão rosiano é diverso e variado, possibilitando o delineamento de uma multiplicidade de cartografias e mantendo sempre uma relação ambivalente com a geografia física do sertão brasileiro. Se por um lado Rosa apoia-se na topografia do sertão, por
outro lado inventa o espaço de acordo com seu projeto ficcional.
O estabelecimento das cartografias do sertão rosiano ultrapassa
o aspecto particularmente geográfico, transbordando para outras
esferas, como a do mapeamento dos signos do amor de Riobaldo, a partir das relações do jagunço-protagonista-narrador com
as mulheres. Existe ainda uma geografia para se compreender a
problemática do bem e do mal, vez que o mal se inscreve na prosa
do mundo, constitui a topografia do sertão, possibilitando a marcação de outros desenhos cartográficos. Nesta leitura, interessa
assinalar como em Grande sertão: veredas a constituição de uma cartografia do sertão tal como aparece nos mapas do Brasil comporta
várias significações simbólicas e várias possibilidades de leitura.
Alan Viggiano foi dos primeiros estudiosos a mapear o
“itinerário de Riobaldo Tatarana” (título do seu livro, publicado em 1974), procurando demonstrar que, das quase 230 localidades citadas no romance — cidades, vilas, povoados, rios,
córregos, serras, acidentes geográficos —, mais de 180 podem
ser localizadas no mapa e são fruto de pesquisas que Guimarães
Rosa realizou, estudando a região, percorrendo muitas léguas a
cavalo, acompanhando boiadas com os vaqueiros Zito e Mariano. É esse o sertão físico, origem do escritor, no qual existem
laços sanguíneos e consanguíneos, mantidos e preservados, mas
que também serão vivenciados em outro nível da realidade delimitada simbolicamente pela linguagem.
O objetivo do estudo de Alan Viggiano é estabelecer o
itinerário físico de Riobaldo Tatarana desde o momento em que
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ele se encontrou com Diadorim, e então começa a sua vida de
jagunço, até o dia em que, no combate final com os judas, morre
Diadorim, e ele, Riobaldo, deixa o cangaço. Entretanto, o próprio Viggiano salienta que é possível situar as localidades por
onde andou Riobaldo antes de chegar ao Córrego do Batistério,
que deságua no Rio das Velhas, à altura do município de Várzea
da Palma, pouco abaixo da cidade de Pirapora. É nesse local que
começa a sua vida de jagunço e também o drama amoroso que
o acompanhará no cangaço.
Viggiano valoriza o que se pode considerar uma espécie
de fidelidade de João Guimarães Rosa à cartografia do sertão
brasileiro, conforme disseminado nos mapas convencionais,
como se depreende da citação abaixo:
Levando-se em conta a imperfeição, ou melhor, o caráter
incompleto dos trabalhos cartográficos — notoriamente
justificáveis, de resto — e se se lembrar de que os lugares
mudam constantemente de nome, circunstância contra a
qual o próprio Riobaldo se insurge em um determinado
trecho da narrativa, pode-se afirmar, sem receio de contestação, que Guimarães Rosa não inventou sequer um daqueles nomes. Todos foram tirados do seu caderninho de
notas. (VIGGIANO, 1974.)
Em 2004, Willi Bolle, em sua abordagem grandesertão.br,
procura definir o Grande sertão como um retrato do Brasil e como
um romance de formação, retomando o estudo de Alan Viggiano e reconhecendo o valor pioneiro dos mapas desenhados no
Itinerário de Riobaldo Tatarana.
Contudo, denuncia e procura corrigir alguns equívocos do
estudo de Viggiano, no sentido de não sobrevalorizar a geografia
factual em detrimento do imaginário e da imprecisão estratégica
da narrativa, que faz parte do projeto literário de João Guimarães Rosa. A partir do conceito de sertão como “um labirinto,
lugar por excelência do se perder e do errar”, Willi Bolle afirma
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que, em Grande sertão: veredas, “apagam-se todas as referências, a
cartografia chega ao limite e se desfaz” (BOLLE, 2004, p. 65),
demonstrando como, sintomaticamente, no mapa de Viggiano
não aparece nenhuma indicação topográfica em uma longa passagem do romance de quase cem páginas.
Willi Bolle chama atenção para o trecho em que Riobaldo
atravessa o Ribeirão do Galho da Vida e chega ao Córrego Sucuriu e, nessa trajetória, Viggiano suprime a errância e deslocamento do jagunço para o sul, onde se localiza o povoado de Sucruiú,
que, na expressão de Bolle, “não tem nada a ver com o referido
córrego [ou seja, o Córrego do Sucuriu]” (BOLLE, 2004, p. 66).
A passagem por Sucruiú é um dos episódios mais marcantes de
Grande sertão: veredas e também uma cena de denúncia política e
social dos ermos dos sertões, do fundo sem fundo do sertão, e
representa também a passagem pela peste, e essa experiência faz
parte do périplo do protagonista-narrador.
Outro dado criticado por Willi Bolle na cartografia de
Viggiano diz respeito ao fato de esse autor, no seu anseio de
equacionar a paisagem ficcional à paisagem real, associar o Liso
da Campina com o Liso do Sussuarão. Para Bolle, relacionar
esses locais significa uma “tremenda redução” (BOLLE, 2004,
p. 70), pois o Liso da Campina pode ser percorrido em poucas
horas a pé, ao passo que o Sussuarão é, nas palavras de Riobaldo,
“o raso pior havente”, numa extensão de cinquenta léguas de
fundo e quase trinta de largura.
Willi Bolle apoia-se ainda nos mapas de Marcelo de Almeida Toledo (1982), que ele considera mais bem realizados graficamente e mais exatos do que os de Viggiano, e nos mapas de
Poty, que fizeram parte das primeiras edições do romance. Nos
de Poty, observa-se o uso livre dos dados geográficos, misturando elementos da cartografia convencional (rios, montanhas,
cidades) com desenhos ilustrativos (vegetação, animais, homens,
objetos), figuração de seres fabulosos (demônios, monstros), em
um processo de desrealização da paisagem física.
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Dos diversos mapas que constam de grandesertão.br, temos
as seguintes descrições: Mapa 1 (BOLLE, 2004, p. 50-51), “Os
sertões do Brasil em Euclides da Cunha e em João Guimarães
Rosa”. Mapa 3 (BOLLE, 2004, p. 60-61), retraça “o cenário de
Grande sertão: veredas segundo Poty”, mostrando como as linhas
de latitude e longitude sugerem a coexistência da geografia real
com a imaginária. Mapa 4 (BOLLE, 2004, p. 68-69), “Introdução à topografia real e fictícia do Grande sertão: veredas”, está
basedo nos mapas de Alan Viggiano e Poty, para configurar as
geografias reais e imaginárias desenhadas pelo autor de grandesertão.br. Nesse mapa, Bolle assinala como lugares-chave da história
de Riobaldo, como as fazendas São Gregório, Santa Catarina,
Sempre-Verde, o povoado do Sucruiú, as Veredas-Mortas e o
Liso do Sussuarão, são inventados. Por outro lado, lugares como
a Serra das Araras, a Serra e Mata da Jaíba, o Rio do Sono, o
Paredão e a Lagoa Sussuarana ancoram a história na geografia
real do sertão. Mapa 5 (BOLLE, 2004, p. 102-103), “Topografia
da jagunçagem — In media res”, Mapa 6 (BOLLE, 2004, p. 106107), “Topografia da jagunçagem — Iniciação de Riobaldo”, e
Mapa 7 (BOLLE, 2004, p. 114-115), “Topografia da jagunçagem
— Chefia de Riobaldo”, atêm-se, conforme esclarece o autor, às
referências geográficas reais.
Deve-se salientar que o livro de Willi Bolle resulta de longos anos de pesquisa. Nesse período, o autor percorreu diversas
vezes o itinerário de Riobaldo, confrontando os mapas existentes e comparando a geografia literária com a geografia do sertão.
Dessa comparação, pôde observar tanto as transformações ecológicas ocorridas do tempo da publicação do Grande sertão para
cá, constatando a existência de “uma paisagem tecnicizada e industrial” (BOLLE, 2004, p. 71), como também pôde compreender os mecanismos de funcionamento da escrita de Guimarães
Rosa no sentido de superpor a geografia do sertão à geografia
imaginária. É assim que Bolle interpreta os procedimentos ficcionais do Grande sertão:
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O trabalho de campo nos leva, portanto, a verificar empiricamente quais são os principais procedimentos de uso ficcional da geografia por parte do romancista: as técnicas de
fragmentação, desmontagem, deslocamento, condensação
e remontagem. O narrador retira pedaços do sertão real e
os recompõe livremente — de maneira análoga aos mapas
mentais, que nascem da memória afetiva, de lembranças
encobridoras, de pedaços de sonhos e fantasias, medos e
desejos. (BOLLE, 2004, p. 71.)
Interessa essa colocação do autor de grandesertão.br, pois
ela está confirmando o caráter paradoxal do sertão rosiano, exposto desde a primeira página do romance: o sertão é um espaço
simultaneamente real e imaginário, factual e ficcional, objetivo e
subjetivo e, de maneira mais ampla, concreto e metafísico. Desse
modo, são múltiplas as cartografias que podem ser estabelecidas
no itinerário de cada leitura, dependendo do recorte efetuado
por cada leitor. Assim, pode-se entender a fala de Riobaldo no
início do romance:
O senhor tolere, isto é o sertão. Uns querem que não seja:
que situado sertão é por os campos-gerais a fora a dentro,
eles dizem, fim de rumo, terras altas, demais do Urucuia.
Toleima. Para os de Corinto e do Curvelo, então o aqui
não é dito sertão? Ah, que tem maior! Lugar sertão se divulga: é onde os pastos carecem de fecho; onde um pode
torar dez, quinze léguas, sem topar com casa de morador; e
onde criminoso vive seu cristo-jesus, arredado do arrocho
de autoridade. O Urucuia vem dos montões oestes. Mas,
hoje, que na beira dele tudo dá — fazendões de fazenda,
almargem de vargens de bom render, as vazantes; culturas
que vão de mata em mata; madeiras de grossura, até ainda
virgens dessas lá há. O gerais corre em volta. Esses gerais
são sem tamanho. Enfim, cada um o que quer aprova, o
senhor sabe: pão ou pães é questão de opiniões... O sertão
está em toda parte. (ROSA, 1967, p. 9.)
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Riobaldo estará durante o fluir da sua narrativa tentando
organizar a paisagem brasileira, assumindo assim o papel de
cartógrafo. Willi Bolle registra essa interação entre o narrador
e o cartógrafo, afirmando que ela faz parte dos procedimentos
de construção da paisagem, e compara os procedimentos utilizados pelo narrador de Grande sertão: veredas com aqueles encontrados em Os sertões, de Euclides da Cunha, estabelecendo
também as diferenças:
Euclides apresenta o sertão através de uma visão de cima.
Seu livro inicia-se com um sobrevoo do Brasil... (BOLLE,
2004, p. 53.)
O olhar de Guimarães Rosa sobre o sertão é o exato oposto das vistas euclidianas do alto: é uma perspectiva rasteira.
Enquanto o ensaísta-engenheiro sobrevoa o sertão como
num aeroplano, o romancista caminha por ele como por
uma estrada-texto. Ou então ele atravessa o sertão como
um rio. (BOLLE, 2004, p. 76.)
Em termos gerais, pode-se adiantar que o narrador de Os
sertões tem uma autonomia menor em relação à cartografia
que o de Grande sertão: veredas. (BOLLE, 2004, p. 58.)
A cartografia desenhada pelo grandesertão.br é norteada
pela tese de seu autor, que pode ser sintetizada com as afirmações encontradas nas páginas 122 e 125 do livro:
Assim, o projeto de Guimarães Rosa consiste em revelar o
funcionamento do sistema real do poder no país, mostrando inclusive como determinadas utopias são manipuladas
pela retórica dominante. (BOLLE, 2004, p. 122.)
Ao focalizar o sistema de jagunço, Guimarães Rosa não
retrata um poder paralelo, mas o “poder”. (BOLLE,
2004, p. 125.)
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Além disso, as reflexões de Bolle se orientam, como já
foi salientado anteriormente, no sentido de afirmar Grande sertão
como “o romance de formação do Brasil” (que é o subtítulo do
livro) e também como um retrato do Brasil, exibindo as questões
políticas e sociais do país — que são ainda bastante atuais, estão
quotidianamente na nossa mídia — e expondo com exuberância
e riqueza de detalhes a sua fauna e a sua flora, minuciosamente
descritas pela fala de Riobaldo, esse narrador-cartógrafo. Como
exemplo da importância do estudo da topografia do romance para
se pensarem as questões que fundamentam a tese do autor, retomo aqui o trecho em que Bolle, ao tratar da jagunçagem como
“sistema retórico”, demonstra que, em Grande sertão, a localização
do sistema de jagunço “numa região limítrofe com os centros do
poder, incluindo o território do Distrito Federal, confere ao texto
o caráter de um retrato alegórico do Brasil” (BOLLE, 2004, p.
117). E, logo em seguida, ele se indaga e acrescenta:
O que significa essa encenação de bandos organizando o
crime e exercendo o poder no planalto central? O sistema
de jagunço, enquanto instituição situada ao mesmo tempo na esfera da lei e do crime, deixa de ser um fenômeno regional e datado, para tornar-se uma representação
do funcionamento atual da estrutura do país. (BOLLE,
2004, p. 117.)
Diferentemente de Guimarães Rosa, o enfoque topográfico em outros autores, como Euclides da Cunha, ou
em estudiosos como Rui Facó e Maria Isaura Pereira de
Queiroz, mostra os jagunços e os cangaceiros como um
fenômeno do Nordeste, não estando assim tão vinculados ao poder central como aparece em Guimarães Rosa.
(BOLLE, 2004, p. 116.)
Ora, toda leitura é interessada, diz do sujeito que lê, mas ela
é potencializada pela capacidade que tem o tecido textual de mobilizar várias interpretações, por mais antagônicas que sejam. Willi
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Bolle demonstra na sua arrojada leitura do grandesertão.br como a
falta de entendimento entre a classe dominante e as classes subalternas constitui um obstáculo para a emancipação do país. Sua
abordagem atravessa o território da geografia social, da história,
da política e da estética. Por sua vez, o título do livro grandesertão.br
faz alusão à comunicação contemporânea, remetendo à noção de
hipertexto e internet, mapeando a rede de relações entre Grande
sertão: veredas e outros ensaios de interpretação do Brasil — Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior, Darcy Ribeiro. Com esse procedimento,
Bolle está afirmando uma perspectiva teórico-crítica plenamente de acordo com determinados ingredientes textuais que ele
encontra no romance, tendo como objetivo o mapeamento de
questões políticas e sociais, utilizando como ferramenta interpretativa os dados topográficos — reais e imaginários — registrados
na fala de Riobaldo. A leitura de Willi Bolle insere-se na vertente
teórico-interpretativa da contemporaneidade, ao verificar as relações texto-contexto a partir da rede de discursos que ele coloca
em diálogo — os discursos da história, da sociologia, da antropologia etc. — para pensar um dado efetivo: Grande sertão como um
retrato do Brasil.
Todavia, o sertão rosiano é, também, um sertão metafísico, espaço-tempo da intemporalidade e da atopia, da ausência de
espaço, pois “o sertão está em toda parte”, “o sertão é dentro da
gente”, é “o gerais.” Esse aspecto está explicitado no conjunto
da obra poética de João Guimarães Rosa, porém encontra-se
claramente delineado como projeto literário no diálogo com o
crítico e tradutor Günter Lorenz. Ao participar do Congresso de
Escritores Latino-Americanos, em Gênova, em janeiro de 1965,
dois anos antes da sua morte e quase dez anos depois da publicação de Grande sertão: veredas, Rosa deixa um de seus depoimentos
mais longos em uma entrevista concedida a Günter Lorenz, que
está publicada com o título de “Diálogo com Günter Lorenz”
(COUTINHO, 1983, p. 62-97).
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Conforme abordagem que realizei em Grande sertão: veredas: uma escritura biográfica (2006), no “Diálogo” o sertão mineiro é percebido através das diversas vertentes da escrita literária, principalmente Grande sertão: veredas, e é a essa obra que
Guimarães recorre para cartografar o seu projeto sobre o sertão.
Algumas metáforas utilizadas definem simultaneamente esse espaço como situado e dessituado geograficamente, de valor físico
e metafísico. Uma metáfora que revela a mobilidade que têm os
signos e as imagens de conotarem diversos significados está, por
exemplo, na metáfora do vaqueiro, através da qual Guimarães
Rosa se representa e constrói sua própria mitologia:
Isto pode surpreendê-lo, mas sou meio vaqueiro, e como
você [isto é, o interlocutor G. Lorenz] também é algo parecido com isto, compreenderá certamente o que quero
dizer. [...] Eu queria que o mundo fosse habitado apenas
por vaqueiros. Então tudo andaria melhor. (COUTINHO,
1983, p. 67-68.)
O vaqueiro, como o sertanejo, é uma imagem que simboliza e desvela um modo de ser e de estar no sertão-mundo, no
qual Guimarães se situa, situa seu interlocutor e todos aqueles
personagens que constituem sua estirpe literária: Goethe, Dostoiévski, Tolstói, Flaubert, Balzac. O que define aquilo que Guimarães denomina de parentesco anímico é a relação que cada
um desses escritores mantém com a sua linguagem — a sua
língua — a partir de uma determinada forma de configurar a
realidade. Depois de declarar a Günter Lorenz “levo o sertão
dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão”
(COUTINHO, 1983, p. 85), Rosa prossegue:
Goethe nasceu no sertão, assim como Dostoiévski, Tolstói, Flaubert, Balzac; ele era, como os outros que eu admiro, um moralista, um homem que vivia com a língua e
pensava no infinito. Acho que Goethe foi, em resumo, o
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único grande poeta da literatura mundial que não escrevia
para o dia, mas para o infinito. Era um sertanejo. (COUTINHO, 1983, p. 85.)
E, logo depois, reconsidera essa afirmação do seguinte
modo:
Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico
e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe,
Dostoiévski, Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão, onde o interior e o exterior já não podem ser separados. (COUTINHO, 1983, p. 86.)
De espaço geográfico e mundo físico, essa geografia não
ficcional transforma-se em ficção, em realidade simbólica, alegórica e mitológica que não mais se desprega da não ficcional,
e passa até a fornecer os parâmetros através dos quais ela pode
ser pensada e experimentada, isto é, cartografada. Se a mineiridade está “inteiriça no romance”, como afirma Letícia Malard
em seu artigo “Minas Gerais em Guimarães Rosa” (MALARD,
1993, p. 36), ela aparece como pretexto para instalar essa outra dimensão tão perseguida por Rosa, tanto do ponto de vista
da produção poética quanto do diálogo com Günter Lorenz: o
sertão como não espaço e vivência do não circunstancial, (não)
lugar do atemporal e do eterno. E é nessa acepção que Guimarães pode repetir no diálogo alguma coisa que aprendeu com seu
personagem no Grande sertão: veredas: “levo o sertão dentro de
mim”, fazendo ecoar “o sertão é dentro da gente”, de Riobaldo
Tatarana, o Urutu Branco.
O valor metafísico do sertão tem sido também objeto de
abordagem da crítica rosiana. Heloisa Vilhena de Araujo dedicou dois trabalhos ao tema, nos livros intitulados O roteiro de Deus
(1996) e O espelho (1998). Francis Utéza elabora um estudo minucioso sobre a problemática da metafísica do Grande sertão, na
obra Metafísica do grande sertão (1994). Sem negar a autenticidade da
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realidade brasileira, Utéza propõe-se a cartografar a paisagem que
subjaz a essa geografia de superfície, desentranhando daí as grandes tradições esotéricas do Oriente e do Ocidente que pautaram o
comportamento das personagens na travessia pelo sertão, que ele
traduz como Ser Tao — caminho da aprendizagem e de busca do
conhecimento. Assim Utéza sintetiza e define o sertão metafísico:
Incomensurável, esse espaço contém tudo — gerais. Fora e
dentro, margem esquerda e margem direita, singular e plural,
montanha e vale, fértil e deserto, vazio e cheio, o sertãogerais nada mais tem a ver com a geografia de Minas. [...]
O termo sertão recobre o conceito metafísico da unidade
caótica, plena de todos os possíveis, manifestados ou não: o
Ser Tao engloba “o” Gerais. (UTÉZA, 1994, p. 66.)
Destaca-se essa afirmação como uma espécie de síntese
das definições do sertão rosiano, porque expõe seu caráter de
indecidível paradoxo. Há aqui uma tautologia, já que o paradoxo
é por sua própria constituição um elemento indecidível, pois é
regido pela combinação dos contrários e das aberrantes dicotomias. Todavia, essa colocação se justifica pela exuberância da
construção linguística e literária de João Guimarães Rosa, que
transgride os limites estabelecidos e regidos pela racionalidade
que sustenta o pensamento e as ações cotidianas, marcada pelos
dualismos e pelas dicotomias.
O livro de Francis Utéza é de 1994 e adota uma perspectiva esotérica, mas para isso procura compreender o sertão,
mapeando aquilo que ele denomina a “geografia do sagrado”
(UTÉZA, 1994, p. 23). Ou seja, procura localizar as marcas das
tradições esotéricas do Oriente e do Ocidente inscritas na aventura de Riobaldo. Utéza, logo no início do seu livro — na parte
II, “O pórtico do labirinto” —, analisa as ilustrações de Poty
para a edição do romance, comparando o primeiro projeto do
desenho das orelhas do livro com a versão definitiva, que aparecerá na segunda edição de Grande sertão: veredas. No desenho de
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Poty, feito por sugestão do próprio Guimarães Rosa, interessa a
Utéza ler os dados esotéricos que se superpõem ao traçado da
geografia de Minas, pois é nessa direção que se encaminha a sua
abordagem, e, segundo ele, os desenhos de Poty são a primeira
pista mais evidente para o esoterismo do romance. Cito uma
passagem esclarecedora do seu interesse pela geografia e pelo
estabelecimento de outras possibilidades cartográficas:
O filão metafísico que pudemos evidenciar se encontra submerso sob uma tal acumulação de dados geográficos, culturais, linguísticos e narrativos, que só um paciente trabalho
de análise, fora do alcance do leitor não advertido, pode facultar a entrada nesse domínio. Solicitado, sobretudo, pelo
superestrato folclórico e pelas premissas da narração de uma
aventura heroica e de suspense, o leitor médio já tem suficientes dificuldades de reencontrar-se nele, e assim nem
mesmo ser tentado a interessar-se por aquilo que lhe foi cuidadosamente escondido. (UTÉZA, 1994, p. 77.)
Logo no capítulo seguinte, intitulado “III. Realismo e
transcendência”, Utéza observa que os trabalhos que procuraram seguir a trajetória dos jagunços através de mapas que o
Exército fez do Centro-Oeste brasileiro provaram que a metafísica do Grande sertão “repousa sobre dados geográficos concretos” (UTÉZA, 1994, p. 79), estabelecendo ao mesmo tempo os
limites desse tipo de pesquisa, já que “os signos do nada são perceptíveis até no meio ambiente: pode-se assimilá-lo ao Vão do
Buraco, topônimo arquétipo do vazio” (UTÉZA, 1994, p. 83).
As reflexões de Utéza partem também do trabalho cartográfico de Alan Viggiano (1974), que ele considera “modesto”,
e do álbum de fotos que ilustra um conjunto de mapas detalhados, publicado por Marcelo de Almeida Toledo, no seu Grande
sertão: veredas: as trilhas de amor e guerra de Riobaldo Tatarana
(1982), afirmando que o maior número de localizações geográficas resulta desses cotejos. Entretanto, interessa a Francis Utéza
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desentranhar a realidade que subjaz a essa geografia aparente, corroborando uma declaração de Guimarães Rosa a F. Camacho,
em uma entrevista: “quanto mais realista sou, você desconfie. Aí
é que está o degrau para a ascensão, o trampolim para o salto”
(UTÉZA, 1994, p. 82-83).
Nesse aspecto, muitos lugares do Grande sertão são evocados de modo que o leitor não possa relacioná-los a nenhum dado
geográfico identificado nos mapas. Assim é o Liso do Sussuarão,
as Veredas Mortas e muitos outros locais atravessados pelo narrador-jagunço. Apoiando-se nas falas de Riobaldo que definem o
Liso do Sussuarão como um lugar que “não concedia passagem a
gente viva, era o raso pior havente, era um escampo dos infernos.
[...] Que nem o Vão do Buraco [...]. Esse Liso é o mais longe —
pra lá, pra lá, nos ermos. Se emenda com si mesmo”, e analisando
as duas tentativas de travessia pelo Liso, onde ele aparece inicialmente como inferno e, posteriormente, como um oásis hospitaleiro, Utéza conclui da seguinte forma:
O Liso do Sussuarão não é apenas um deserto nos confins de Minas e Bahia, que audaciosos guerreiros tentaram em vão atravessar: é uma boca de sombra que devora
suas vítimas, uma Vagina Dentada para a qual Medeiro
Vaz arrasta seus jagunços sem que eles tenham regressado ao estado embrionário. Dessa garganta infernal ressurgem homens metafisicamente regenerados pela provação. (UTÉZA, 1994, p. 91.)
A abordagem metafísica de Utéza, baseando-se em símbolos da alquimia, do taoísmo e do zen presentes na narrativa
de Riobaldo, engloba a travessia das veredas a partir do nada —
nonada, primeira palavra do discurso — até o infinito, último
hieróglifo do texto. Nesse percurso de decifração desses signos,
compreende a travessia de Riobaldo pelo sertão-mundo como
um processo iniciático do Ser em direção ao Tao, ao conhecimento, percurso que já está contido na palavra sertão, pois o
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termo sertão “recobre o conceito metafísico de unidade caótica,
plena de todos os possíveis, manifestados ou não: o Ser Tao engloba ‘o’ Gerais” (UTÉZA, 1994, p. 66).
Não é necessário continuar percorrendo a leitura de Utéza,
pois ela é trazida aqui para atestar a capacidade que tem o texto
rosiano de traçar múltiplas cartografias, até as mais excludentes. Se o sertão pode ser o retrato geográfico, social, histórico
e político do Brasil, ele é também o Gerais, e “esses gerais são
sem tamanho” e nada têm a ver com a geografia de Minas ou
do Brasil. Apontam para uma caminhada ascensional, para uma
transcendência, a travessia do homem para o infinito, como afirma o final da narrativa.
Através das palavras, Rosa constrói um mundo excessivo e
excepcional, isto é, criador de exceções, em que a norma se espelha em seu contrário, e onde cada palavra fulgura como se fosse
pronunciada pela primeira vez. Na sua concepção, explicitada
também no diálogo com Günter Lorenz, a palavra é a única porta para o infinito, e o homem vive em constante travessia para o
infinito. Esse é o término da narrativa do Grande sertão: veredas: a
palavra Travessia, seguida pelo símbolo do infinito, a lemniscata.
Dessa perspectiva, só é possível falar de cartografias do sertão
rosiano, sem jamais se fixar em um mapa ou uma paisagem previamente estabelecida. Qualquer cartografia será móvel, instável,
provisória e precária. Afinal, no sertão rosiano “tudo é e não é”.
REFERÊNCIAS
BOLLE, Willi. grandesertão.br: o romance de formação do Brasil. São
Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2004. (Coleção Espírito Crítico).
HOISEL, Evelina. Grande sertão: veredas: uma escritura biográfica. Salvador: Academia de Letras da Bahia; Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, 2006.
_______. Sobre cartografias literárias e culturais. In: MESSINA, Lea;
BITENCOURT, Gilda N.; SCHIMIDT, Rita Terezinha. Geografias
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
literárias e culturais: espaços e temporalidades. Porto Alegre: Editora da
UFRGS, 2004, p. 149-156.
MALARD, Letícia. Minas Gerais em Guimarães Rosa. In: O espaço
geográfico no romance brasileiro. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado,
1993, p. 33-50. (Casa de Palavras).
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 5. ed. Rio de Janeiro:
José Olympio, 1967.
_______. Diálogo com Günter Lorenz. In: COUTINHO, Eduardo
F. Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL,
1983. (Fortuna Crítica 6).
TOLEDO, Marcelo de Almeida. Grande sertão: veredas: as trilhas de
amor e guerra de Riobaldo Tatarana. São Paulo: Massao Ohno, 1982.
UTÉZA, Francis. JGR: metafísica do grande sertão. Trad. José Carlos
Garbulio. São Paulo: Edusp, 1994.
VIGGIANO, Alan. Itinerário de Riobaldo Tatarana. Belo Horizonte: Comunicação; Brasília: INL, 1974.*
Evelina Hoisel é ensaísta, pesquisadora do CNPq, professora titular
da Universidade Federal da Bahia, mestre em letras pela Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro e doutora em teoria da
literatura e literatura comparada pela Universidade de São Paulo,
já tendo publicado diversos livros, bem como artigos em jornais e
revistas. Desde 2005 ocupa a Cadeira nº 34 da ALB.
Palestra proferida em sessão ordinária da Academia de Letras da
Bahia, na Sala de Reuniões, em 16 de maio de 2013.
►► 55
AS VIAGENS DE ST. BRENDAN
— A ILHA BRASIL
Waldir Freitas Oliveira
S
abemos muito pouco, no Brasil, sobre a história da Irlanda.
E mesmo nos dias atuais, levando-se em conta o progresso
das comunicações, reconhecemos continuarem os nossos conhecimentos sobre aquele país sendo escassos, pelo que, como
resultado da precariedade dos registros disponíveis, poder soar
aos nossos ouvidos com estranheza a notícia de ali haver vivido
um São Brendan, que alguns historiadores insistem em “aportuguesar” para Brandão, tanto quanto a da existência de uma ilha
chamada “Brasil”, situada em pleno oceano, a oeste daquele país,
que teria sido por esse santo visitada em tempos anteriores aos
das viagens de Colombo e Cabral, realizadas em 1492 e 1500.
São Brendan, também conhecido como St. Brendan, the
Navigator, existiu de fato, havendo nascido, provavelmente, no
último quartel do século V da Era Cristã, 484, na Irlanda, em
Tralee, no condado de Kerry.
Tornou-se um clérigo merecedor de alto respeito pelos
que com ele conviveram, tendo fundado em seu país vários mosteiros e viajado muito pelas terras e mares da Inglaterra, Irlanda,
Escócia e País de Gales, havendo chegado às costas da Bretanha,
no continente, onde passou a contar, para sua ação missionária,
com um discípulo, de longa tradição até hoje na França — Saint
Malo (Mac Law, em gaélico). Teria sido ainda abade no mosteiro
de Clonfort, no País de Gales, localizado em Galway, situado,
como tantos outros, à margem dos mares orientais irlandeses.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Tendo um dia tomado a decisão de navegar na direção
do oeste em busca da Terra Prometida dos Santos (Terra Repromissionis Sanctorum), da qual lhe teriam falado, preparou uma
viagem, em companhia de catorze outros monges, para ir visitá-la. E navegou, então, realizando-a durante quarenta dias
sobre o oceano.
Deixou-nos, felizmente, a descrição de uma das suas viagens, em um precioso documento, mais tarde intitulado Navigatio sancti Brendani abbatis, no qual mencionou, uma por uma, as
ilhas por ele visitadas, entre as quais estaria, provavelmente, a de
“Hy-Brasil” (devendo esclarecer-se que esse nome já era dado,
havia muito, a uma ilha que nada tinha a ver com o Brasil “descoberto” em 1500 pelos portugueses, que desse modo passaram
a denominar aquela “nova” terra, em razão de nela terem encontrado árvores das cascas das quais poderiam obter uma tintura
vermelha, com cor semelhante a uma brasa de fogo), ainda que
representasse a expressão Hy-Brasil, na narrativa de São Brendan, somente uma corruptela de O’Brasil, Isle of the Blest (Ilha da
Bem-Aventurança), expressa em língua gaélica.1
Segundo nos informa Samuel Eliot Morison, ninguém
cuidara, até quando escreveu ele a sua obra, de reconstituir-lhe
a história. Mas acentua que a presença dessa ilha é constante na
tradição oral dos irlandeses, herdada, por certo, dos celtas, sendo por eles considerada uma espécie de “campos elísios”, onde
ficam as almas à espera do momento em que irão ingressar no
reino dos céus, imaginando-a, pois, como uma ilha encantada,
onde reinam a paz e a tranquilidade.
Acreditam, no entanto, que nenhum ser humano jamais
haja posto nela os pés, existindo, porém, a tradição de que, se
alguém chegar a dela aproximar-se a ponto de poder avistar as
fogueiras acesas em suas praias, não será hostilizado. E um poeta
irlandês, Gerald Griffin (1803 – 1840), escreveu sobre ela um
poema que começa com os seguintes versos:
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
On the ocean that hollows the rocks where ye dwell,
A shadowy land has appeared, as they tell;
Men thought it a region of sunshine and rest,
And they called it Hy-Brasail, the isle of the blest.
E mesmo sendo essa ilha considerada um lugar sagrado,
foram muitos os homens de altos negócios instalados em Bristol
que se dispuseram a financiar viagens buscando encontrá-la, havendo figurado entre os navegadores que partiram à sua procura
o famoso João Caboto, em viagem empreendida em direção ao
oeste, realizada em 1497. Nunca, porém, a ilha de Hy-Brasil foi
encontrada, sendo grande, no entanto, a literatura que a ela se
refere, surgida no decurso dos séculos XIX e XX.
Buscando identificar os mapas e as cartas geográficas onde
ela então apareceu, seguimos o texto de Samuel Eliot Morison e
nele a encontramos, registrada essa sua presença em sequência
cronológica, inicialmente na carta de Bartolomeo Pareto, desenhada em 1455 e reproduzida no Atlas de Kretschmer (1892),
onde surge uma insula de Brazil, situada a oeste da península ibérica, em pleno Oceano Atlântico, localizada entre as ilhas de San
Zorzo (São George), a de Ventura e a de Colombi (pombos), ao
norte, e as de Capraria (bodes) e do Louo (lobo), ao sul, todas
elas ali denominadas insulle fortunate sãct Brandawy.2
Essas ilhas de São Brendan figuraram também no primeiro globo terrestre, construído em 1492 pelo alemão Martin
Behaim, nele aparecendo com o nome de Sand Branden, o que
nos faz constatar o fato de haverem estado elas presentes nos
mapas e cartas existentes antes da descoberta da América, ainda
que hajam, a partir de então, neles aparecido cada vez com menor frequência, embora tenham ainda figurado no célebre mapa
de Ortelius, desenhado no século XV.
Quanto à ilha Hy-Brasil, que, por sinal, nunca foi encontrada, começou a partir do século XVI a ser mencionada como
situada cada vez mais a oeste, em relação ao ponto onde antes
comumente figurara, e foi com a denominação de Brasil Rock que
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
apareceu no Jeffrey´s American Atlas, editado em Londres, em 1776,
nele localizada a 51º de latitude norte e 17º14´ de longitude oeste,
acompanhada, porém, da advertência de ser uma ilha “imaginária”; e também na Memorie descriptive and explanatory of the North
Atlantic Ocean, obra organizada por A. G. Findlay, publicada em
1853, nela tendo figurado como situada a 51º10´ de latitude norte
e 16º de longitude oeste, afirmando, contudo, esse autor não haver sido ainda comprovada a sua existência e esclarecendo haver
ali incluído a Brasil Rock tomando por base informações colhidas
entre os integrantes da tripulação do navio Bristowe, que afirmaram havê-la avistado em viagem realizada no ano de 1791. Foram,
porém, tão numerosas as dúvidas surgidas sobre existir ou não a
referida ilha, que o próprio A. G. Findlay decidiu não mais apresentá-la na edição de 1865 do seu trabalho.3
Retornemos, então, à fonte de onde manaram as primeiras
informações sobre essas misteriosas ilhas — o texto da Navigatio
sancti Brendani abbatis —, dele constando haver o abade Brendan
recebido, certo dia, a visita de outro abade, chamado Barynth,
que lhe contou como o seu filho, de nome Mermoc, viajando na
direção do oeste, descobrira uma “deliciosa ilha”, habitada por
monges, a que chamou de Terra Promissiones Sanctorum, havendo
a seguir o levado até lá para que a conhecesse, tendo afinal convencido Brendan a também ir até aquela ilha em companhia de
outros monges.
Tratou então Brendan de escolher quatorze ou quinze companheiros para acompanhá-lo nessa viagem. Eles começaram a
construir o barco que até lá os levaria, estando pronta a embarcação ao fim de quarenta dias, com o seu casco feito com varas de
vime unidas umas às outras de forma muito justa e revestido, a seguir, “com couro de vaca curtido com óleo vegetal e com suas frestas tomadas com alcatrão”, nele tendo sido colocadas “provisões
para quarenta dias de viagem e gordura suficiente tanto para untar
o couro do casco, como para a proteção, contra o sol, dos monges
e dos objetos que iriam ser por eles utilizados durante a viagem”.4
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Samuel Eliot Morison afirma ser muito boa a descrição,
feita nesse texto, de um determinado tipo de barco de pequeno
tamanho, usado ainda em nossos dias pelos pescadores irlandeses, por eles chamado curragh, havendo sido essa embarcação,
provavelmente, uma invenção dos celtas, assinalando ser o seu
casco coberto por couro e não sendo, portanto, inteiramente
construído em madeira, em razão de não ser abundante a madeira na Irlanda e de ali existirem, à epoca da referida viagem,
rebanhos numerosos de bovinos. Informa, concluindo o seu comentário, ser o curragh uma embarcação segura, mesmo tendo de
enfrentar mares bravios.
Da narrativa de St. Brendan consta, ainda, que dezoito
monges (três ou quatro além dos inicialmente previstos) nele
partiram na direção do poente e que, após quarenta dias de viagem, quando as provisões já estavam a findar-se, avistaram uma
ilha rochosa, com montes cujas encostas mergulhavam, abruptamente, no mar em torno, onde não encontraram lugar seguro
para ancorar seu barco; e que, enquanto os monges entravam,
por isso, em desespero, Brendan lhes assegurou que o Senhor
Deus Todo Poderoso lhes mostraria, em três dias, o ponto onde
poderiam aportar, o que, de fato, veio a acontecer. E quando
afinal o encontraram, logo depois de ali terem chegado e desembarcado, lhes apareceu um cão que se pôs a festejá-los. Pelo
que os monges decidiram segui-lo, agradecendo ao Senhor Deus
Todo Poderoso por havê-lo enviado.
O cão então os conduziu para uma cidade (town), onde o
principal edifício era um grande castelo, tendo as paredes dos
seus salões cobertas por objetos fabricados com metais variados,
entre eles aparecendo arreios e trompas com engastes de prata,
ali havendo sido preparada e servida aos monges uma farta refeição, com pães e peixes para todos eles.
Um dos monges, contudo, um dos que haviam pedido a
Brendan, na hora da partida, que os levasse em sua viagem, roubou um dos arreios de prata presos às paredes. E Brendan viu
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
surgir à sua frente, quando todos dormiam, um demônio, que
assumiu a forma de um anão negro, mostrando nas mãos os
arreios roubados e apontando na direção de quem os furtara, havendo, a seguir, Brendan os retirado do capuz onde o monge ladrão os escondera. Mas, tendo o monge, na manhã seguinte, ao
ver que seu roubo havia sido descoberto, lhe implorado perdão,
Brendan absolveu-o. Então o demônio voltou a aparecer-lhe,
dirigindo-lhe ásperas palavras e demonstrando sua insatisfação
pela absolvição que ele concedera, o que o impedia de levar a
alma do monge ladrão para o inferno. E aconteceu que, naquela
mesma noite, morreu o monge que furtara os arreios de prata,
havendo a sua alma sido conduzida por anjos para o paraíso.
Continuaram os monges visitantes a explorar a ilha, havendo nela encontrado um jovem que carregava grandes cestos
com pães e uma ânfora com água para servir os viajantes, que
ali permaneceram por vários dias, sendo sempre bem tratados
pelo responsável pelos negócios do mosteiro, que passou a lhes
fornecer os alimentos necessários à sobrevivência.
Dessa primeira ilha seguiram dois dias depois para outra,
que denominaram “Ilha dos Carneiros”, onde comemoraram
a Páscoa, dela havendo passado para outra, que chamaram de
“Paraíso dos Pássaros”, onde as aves por eles encontradas falavam e cantavam em latim, dela tendo eles partido em uma
nova viagem, que durou três meses, durante a qual somente
viram céu e mar, chegando então à “Ilha dos Frutos”, que era
povoada por grifos e gigantes, donde seguiram para a “Ilha da
Abadia da Eterna Juventude e do Silêncio”, onde se demoraram por alguns dias.
Foram muitas, portanto, as ilhas por eles visitadas. E numa
delas Brendan e seus companheiros encontraram um homem
fortememente amarrado a um rochedo, com o seu corpo a ser
atingido de modo incessante pelas ondas do mar em fúria. E,
quando os monges lhe perguntaram quem ele era, ele lhes respondeu ser Judas, “o mais depravado de todos os criminosos”,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
e reconheceu merecer o castigo que lhe estava sendo aplicado.
Mas Brendan pediu, então, ao Senhor Deus Todo Poderoso que
libertasse aquele homem durante um único dia, sendo por Ele
atendido, suscitando essa curta suspensão da pena que fora imposta ao homem a fúria dos demônios que o guardavam.
Muito tempo ainda estiveram os monges a navegar naqueles mares e entre aquelas ilhas, havendo eles chegado finalmente
à Terra Repromissionis Sanctorum, à Terra da Promissão dos Santos,
repleta de árvores frutíferas, nela havendo permanecido durante
três dias, que se sucediam sem que fossem separados por noites.
E antes de regressar à Irlanda visitaram, ainda, a “Ilha das Delícias”, onde vivia Mermoc, o filho do abade Barynth.
Não surge contado do mesmo modo, nas várias descrições
existentes desssas viagens, no que se refere à sua duração, o tempo que os monges gastaram em cada uma dessas ilhas, variando
ele em cada uma das versões consultadas, registrando-se o fato
de serem elas numerosas, e ainda o fato de nem sempre surgirem
idênticas as narrativas sobre o que nelas viram os viajantes.
A narrativa termina, contudo, em todas elas, de modo
repentino, informando o regresso de Brendan e seus companheiros ao seu mosteiro, na Irlanda, havendo então os monges
agradecido ao Senhor Deus Todo Poderoso o feliz retorno dessa
sua longa viagem. E em certa versão da Navigatio encontra-se a
informação de a morte de Brendan haver ocorrido em 577 ou
583 A. D., havendo sido ele, após o seu falecimento, canonizado,
passando a figurar entre os santos irlandeses, em quarto lugar
quanto à hierarquia, no culto e na aceitação, somente ficando
abaixo de St. Patrick, Santa Brígida e São Columba.
Sendo este um rápido resumo de uma das viagens de St.
Brendan, contendo a sua narrativa as descrições das numerosas
passagens com as cenas de encontro dos monges com animais
fantásticos que tentaram devorá-los, de todos eles havendo os
monges escapado graças à ajuda que lhes deu, de modo permanente durante a viagem, o Senhor Deus Todo Poderoso.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Perguntamos, então, o que haverá de verdade nesse longo
relato de uma viagem fantástica, sem que tenhamos resposta adequada para a nossa pergunta. E aqui realçamos o fato de haver
essa narrativa se tornado na Irlanda tão conhecida e relembrada
quanto as que contam as aventuras do rei Artur e dos cavaleiros
da Távola Redonda na Inglaterra; e o de essas ilhas, que ficaram
ali conhecidas como Insulae Sancti Brendani, possuírem, sem dúvida, na memória popular dos irlandeses, uma existência “real”.
***
Vários autores já comentaram a narrativa dessa viagem mágica, e dentre os que o fizeram, em anos relativamente recentes,
deverá destacar-se, pela excelência do seu trabalho, Carl Selmer,
que analisou 17 manuscritos distintos, traduziu-os, após longo estudo comparativo, do latim para o inglês e propiciou-nos, em obra
hoje rara, o conhecimento de um texto que é por muitos considerado o melhor trabalho já efetuado sobre o tema.5
Sem que tivéssemos, contudo, obtido acesso a tal publicação, limitamo-nos, graças à prodigiosa ajuda da internet,
à leitura da tradução do texto da narrativa, efetuada em 1893
por Denis O’Donoghue, em edição patrocinada pelo arcebispo
P. F. Moran e divulgada por The Celtic Christianity e-Library;
bem como à consulta a uma recente edição crítica de excepcional valor sobre essa narrativa, organizada sob a direção de Glyn
Burgess, professor da Universidade de Liverpool6; e, finalmente, à leitura dos comentários feitos por Guillermo Giucci em
seu livro Viajantes do maravilhoso acerca do que foi escrito por
Carl Selmer, entre os quais realçamos a sua afirmativa de haver Carl Selmer destacado, na introduction por ele escrita para a
Navigatio, “a importância de dois tópicos do relato hagiográfico
que estruturariam a forma da narrativa, o primeiro tendo a ver
com a busca da terra prometida, o segundo, com a visão do
paraíso”7. Havendo comentado, logo adiante, e acentuado com
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
propriedade que “revelação, prodígio e experiência pessoal fundem-se na Navigatio”. E mais ainda que
[...] a fusão destes elementos transforma a narração da
viagem num testemunho alegórico da mediação divina, e
esta mediação diminui a problemática do sofrimento dos
santos em seu caminho rumo ao páraíso, pois que a insere
no itinerário da vitória da fé sobre os obstáculos naturais.8
Dessa maneira, segundo afirma, nela torna-se Deus “o
leme da nau”. Sendo Ele, portanto, quem “sopra as velas e inevitavelmente guia o peregrino à meta desejada”.
Prossegue, afirmando que “a visão do paraíso que coroa o
quadro das maravilhas do recôndito se inscreve no texto como
o elemento consolidador, por excelência, do maravilhoso hagiográfico”. E, reforçando essa sua ideia, acrescenta:
Engastadas na enorme muralha que protege o acesso à terra
prometida, refulgem pedras preciosas, crisólitos como gotas de ouro, topázios amarelos, jaspes com ametistas, ônix,
ágatas e esmeraldas. E se a muralha deslumbra com suas
riquezas, dentro do recinto murado as maravilhas são indescritíveis. Bosques floridos, rios de leite, frutas perfumadas,
montanhas de ouro, pedras preciosas; a visão paradisíaca
recapitula, com suas imagens de abundância, valor, disponibilidade e utilidade, as virtudes de regiões extraordinárias
que parecem existir à espera do viajante europeu.9
Conclui, então, que, na narrativa de São Brendan, “o maravilhoso transforma-se em intocável, num artifício dos deuses, numa
fabricação lúdica de cuja estrutura não se pode retirar mais que
um tijolo minúsculo sem evitar seu desmoronamento completo”.10
Levando-se agora em conta o que escreveram sobre a
“ilha Brasil” autores brasileiros, iremos referir-nos, assinalando sua condição de pioneiro, a Capistrano de Abreu, quando
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
informou haver sido de uso comum o nome Brasil em tempos
anteriores à viagem do “descobrimento” de Cabral, quando, em
1907, afirmou, em Capítulos de história colonial (1500-1800), que
[...] o nome do Brasil já era bem conhecido e figurado em
portulanos anteriores às descobertas dos portugueses; havia um nome à procura de aplicação, exatamente como o
de Antilha, e isto explicaria a rapidez com que se introduziu e vulgarizou, suplantando outras denominações, como
Terra dos Papagaios, Vera Cruz, ou Santa Cruz, se a abundância de uma apreciada madeira de tinturaria até então
recebida por via do Levante, e o comércio sobre ela fundado desde o começo, não colaborassem na propaganda, e
talvez com maior eficácia.11
Anos depois, o jornalista e historiador Francisco de Assis Cintra publicou, em 1921, em edição da Companhia Melhoramentos de São Paulo, o livro Nossa primeira história (a de
Gandavo) e, no capítulo inicial desse seu trabalho, intitulado “O
precursor de Cabral”, buscando identificar a “ilha” descoberta
por Pedro Álvares Cabral com a “ilha Brasil” presente na tradição oral irlandesa, criou a figura de Sancho Brandão, que teria
integrado a armada do rei de Portugal Afonso IV, que reinou
de 1325 a 1357, havendo descoberto o Brasil antes, portanto,
de Cabral, tendo, ao regressar a Portugal, oferecido a ilha que
“achara” à coroa portuguesa, passando ela a ser conhecida, desde então, como “ilha do Brasil” ou “ilha de Brandão”.
Revelando-se esse autor, com sua afirmativa, bem mais um
ficcionista que um historiador, por não haver sido comprovada,
em qualquer tempo, a existência desse Sancho Brandão, nem ter
sido registrado qualquer descobrimento no Oceano Atlântico
durante o reinado de Afonso IV, estando ele a apoiar-se, em
defesa de sua afirmativa, em carta enviada ao papa Clemente VI
por esse rei português, a 12 de fevereiro de 1343, na qual, em
sinal de protesto por haver o pontífice reconhecido as chamadas
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
“Ilhas Afortunadas” (as atuais Ilhas Canárias) como pertencentes ao Reino de Castela, alegava terem sido “os nossos naturais os primeiros que acharam as mencionadas ilhas ocidentais”,
ilhas, aliás, onde teriam chegado, em data muito antiga, porém
incerta, os cartagineses, mas que somente acabaram sendo efetivamente ocupadas por europeus em 1402, quando da viagem
feita pelos normandos Jean de Béthencourt e Gadifer de la Salle,
navegando a serviço da Espanha.12
Muitos anos depois, em 1942, após haver publicado, em
1930, Aquém da Atlântida, no qual se referiu a esse assunto, Gustavo Barroso (1888 – 1959) abordou de modo decisivo esse tema
em seu livro O Brasil na lenda e na cartografia antiga, livro que contou
com uma segunda edição em 2000, sendo essa uma obra na qual
demonstrou possuir uma vasta erudição, muito havendo informado sobre as “ilhas de São Brandão”, tomando por base ampla
bibliografia, sem cometer os enganos de Assis Cintra, havendo
insistido, ao final do seu texto, em relacionar o nome “Brasil”
ao termo gaélico brasil, este com a significação de bless (bem-aventurança), afirmando, afinal, que, “em face da documentação
apresentada, é impossível deixar de reconhecer que a palavra brasil
foi, antes de tudo, aplicada para denominar uma ilha do Oceano
Atlântico, tendo sido utilizada, no dizer de Latino Coelho, para
designar “regiões geograficamente desconhecidas ou figuradas ao
sabor da fantasia dos cartógrafos”13. Havendo acrescentado que
“as origens e o processo de formação do nome Brasil não podem
ser outros”, indo a seguir comentar, a respeito da expressão,
[...] não haver quem não prefira que o apelido do seu torrão
natal signifique “terra abençoada”, “terra dos afortunados”,
“terra dos bem-aventurados”, of the blest, do que recorde tão
somente o utilitário e vulgar comércio do pau de tinta, exercido, nos primeiros tempos da conquista, não por portugueses idealistas que a realizaram, mas pelos cristãos-novos Loronhas e Bixordas, que tiravam real proveito da sua audácia,
colhendo tranquilamente os frutos do seu destemor.14
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Vale, então, o registro feito aqui, com justiça, da qualidade
do verbete constante do Dicionário do Brasil Colonial (1500-1808),
editado em 2000, organizado por Ronaldo Vainfas, no qual conseguiu esse historiador resumir, de modo perfeito, tudo o que se
conhece a respeito do assunto, relembrando o que antes dissera
a respeito Capistrano de Abreu e citando, com propriedade, o
historiador português Jaime Cortesão, quando sugeriu haver a
ideia de uma “ilha Brasil” ter sido concebida pelos portugueses
sob a forma de um “mito geopolítico”.15
Havendo assumido recentemente a mesma posição proposta por Latino Coelho, Capistrano de Abreu e Jaime Cortesão,
referendada, como informamos, por Ronaldo Vainfas, a historiadora Laura de Melo Souza, em artigo publicado em Nossa
História sob o título “O nome do Brasil”, quando afirmou que,
“entre 1351 e 1500, os mapas europeus mostram o nome ‘Brasil’, bem como variantes dele — Bracir, Bracil, Brazille, Bersil,
Braxili, Bruxil, Bresilge —, designando, em lugares diferentes, uma
ilha ou até três, expressando um horizonte geográfico ainda mítico, como o das Ilhas Afortunadas e tantas outras miragens que
a prática navegadora e a experiência acabariam por dissipar”.
Donde haver ela concluído que “primeiro houve o nome, depois
o lugar que foi nomeado”.16
Naquele mesmo ano de 2004, foi publicado no Rio de Janeiro o livro do jornalista Geraldo Cantarino Uma ilha chamada
Brasil: o paraíso irlandês no passado brasileiro17, devendo-se a
seu respeito registrar haver ele recebido severas críticas de vários
historiadores brasileiros, que nele apontaram graves erros de expressão e interpretação dos fatos narrados, figurando entre os que
mais o criticaram a professora doutora Luciana de Campos, da
Unesp de São José do Rio Preto, São Paulo, integrante do Grupo
de Estudos Celtas e Germânicos daquela universidade, que divulgou sua opinião a respeito desse livro em artigo na internet sob o
título “As raízes celtas do Brasil”, nele havendo reprovado o autor não apenas por haver usado impropriamente uma “linguagem
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
extremamente coloquial”, como por não haver dado ao seu texto
uma “seriedade documental” e, ainda mais, por ter ele insistido
em transformar seu livro em claro “apelo esotérico e fantasioso”.
E ela declarou, afinal, de modo impiedoso, “esperar que os estudantes universitários que ora iniciam suas pesquisas nos estudos
celtas [que segundo alguns somente poucos escolhidos merecem
realizá-los, o que, a nosso ver, é um erro] não se inspirem nessa
obra e, muito menos, a tomem como referência”.18
Quanto a nós, aceitamos o livro de Geraldo Cantarino
como sendo uma contribuição válida para a abordagem do seu
tema específico: o da origem do nome Brasil. Apesar de reconhecermos terem sido justas as críticas que lhe foram feitas, especialmente quando não evitou deixar-se conduzir por hipóteses
fantasiosas, chegando mesmo a admitir uma suposta presença,
em tempo ignorado, dos fenícios em terras do Brasil, e por não
possuir o autor uma formação de historiador, não havendo apresentado sua argumentação enquadrada nos rigorosos moldes
cuja utilização se tornou costume exigir-se desses profissionais,
consideramos que Uma ilha chamada Brasil concorreu para que
um assunto pouco tratado na área da historiografia brasileira
voltasse a ser discutido como antes o fora, nos inícios do século passado, sendo louvável o esforço realizado pelo seu autor
para reunir e apresentar aos seus leitores uma vasta e oportuna
bibliografia a respeito do assunto por ele tratado. Não havendo,
portanto, a nosso ver, as críticas feitas ao seu livro se mostrado
capazes de invalidar a importância da sua publicação, tendo ele
merecido, pouco depois do seu lançamento, ser citado como referência pela prestigiosa Revista de História da Biblioteca Nacional (Ano II, n. 15, dezembro 2006), em apoio ao texto nela publicado sob o título “Todos os nomes do Brasil”, de autoria de
José Murilo de Carvalho. Merecendo, ainda, Geraldo Cantarino
os nossos aplausos por haver tentado retirar do esquecimento a
figura do irlandês Roger Casement, cujo nome e atuação em seu
tempo a singularizaram, tornando-o, inclusive, em tempos de
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
agora, personagem central de um dos mais recentes romances
do escritor peruano Mario Vargas Llosa, Prêmio Nobel de Literatura, El sueño del celta (Buenos Aires: Alfaguara, 2010).
E voltando a falar de São Brendan, assinalemos que a
maioria dos historiadores modernos admite existir na lenda de
sua viagem um fundo de verdade, ainda que não exista a possibilidade de descobrir-se a real identidade dessa “Terra Prometida” ou dessa “Ilha de São Brendan”, como a chamavam os
historiadores medievais, alguns aceitando a ideia de a figura de
São Brendan haver sido formada com base nas descrições de
várias viagens realizadas por pessoas diversas, em épocas várias,
desse modo explicando-se a longa duração daquela que foi descrita na Navigatio com tantos preciosos detalhes, enriquecendo,
sobremodo, a literatura frequente nos tempos medievais sobre
ilhas imaginárias que se achavam perdidas no oceano, impossíveis, dada a sua condição de ideia pura, de vir a ser encontradas.
REFERÊNCIAS E NOTAS
MORISON, Samuel Eliot. The european discovery of America: the
northern voyages. A. D. 500-1600. New York: Oxford University
Press, 1971, p. 103.
2
Idem.
3
Ibidem, p. 104.
4
Navigatio sancti Brendani abbatis. Trad. (para o inglês) de Denis
O’Donoghue. In: Brendaniana. Archbishop P. F. Moran, 1893.
5
SELMER, Carl. Navigatio sancti Brendani abbatis from early latin manuscripts. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 1959.
(Medieval Studies, XVI).
6
BURGESS, Glyn. The voyage of saint Brendan: representative versions
of the legend in english translation, with indexes of themes and motifs from the stories. Exeter: University of Exeter Press, 2005.
7
GIUCCI, Guillermo. Viajantes do maravilhoso: o Novo Mundo. São
Paulo: Companhia das Letras, 1992, p. 36.
8
Ibidem, p. 37
1
70 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Ibidem, p. 37-38.
Idem.
11
ABREU, Capistrano de. Capítulos de história colonial (1500-1800). 4. ed.
Rio de Janeiro: Livraria Briguiet, 1954, p. 78.
12
ASSIS CINTRA. Nossa primeira história. São Paulo: Companhia Melhoramentos de São Paulo, 1922.
13
COELHO, Latino. Vasco da Gama. Porto: 1882.
14
BARROSO, Gustavo. O Brasil na lenda e na cartografia antiga. 2. ed. São
Paulo: Edições GRD, 2000, p. 149-153.
15
VAINFAS, Ronaldo. Dicionário do Brasil colonial (1500-1808). Rio de
Janeiro: Objetiva, 2000.
16
SOUZA, Laura de Melo. “O nome do Brasil”. In: Nossa História. Rio
de Janeiro, ano I, n. 6, 2004.
17
CANTARINO, Geraldo. Uma ilha chamada Brasil: o paraíso irlandês
no passado brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.
18
CAMPOS, Luciana de. “As raízes celtas do Brasil”. Disponível in:
www.brathair.com.*
9
10
Waldir Freitas Oliveira é historiador, ensaísta e conferencista,
professor da Universidade Federal da Bahia, com vários artigos e
livros publicados. Dirigiu diversas instituições, como o Conselho de
Cultura do Estado da Bahia e o Centro de Estudos Afro-Orientais da
UFBA. É sócio remido do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.
Desde 1987 ocupa a Cadeira nº 18 da ALB.
Palestra proferida em sessão extraordinária da Academia de Letras da
Bahia, na Sala Pedro Calmon, em cinco de dezembro de 2013.
►► 71
BREVE REFLEXÃO
SOBRE OS HINOS ÓRFICOS
Ordep Serra
C
omeçarei agradecendo a honra que me fez a egrégia Academia de Letras da Bahia, ao convidar-me para pronunciar
aqui uma palestra. Esta casa reúne muitas pessoas que admiro e nela tenho amigos caríssimos. De um modo especial sou
grato a seu presidente, Aramis Ribeiro Costa, e ao poeta Luís
Antonio Cajazeira Ramos, que me propiciaram a oportunidade
de falar de Orfeu a seus pares, gente de Orfeu. A esta honra
se soma a alegria: como baiano, orgulhoso de minha terra e
de sua inteligência, fico feliz por fazer no cenáculo das nossas
letras o anúncio de minha tradução ainda inédita — a primeira
para a língua portuguesa — da totalidade dos famosos hinos
órficos (ou seja, da syllogé completa) a partir do grego antigo.
Eu a concluí recentemente. Labuto ainda na revisão do texto e
dos comentários, mas em breve devo encaminhá-la a uma editora paulista, a Odysseus. Confesso que estava sentindo falta
de uma avant-première em minha terra: de uma conversa sobre
os hinos órficos com poetas baianos de todas as artes. Orfeu é
símbolo do fazer criativo, que os gregos chamavam de poîesis,
fonte da produção artística em todas as esferas da imaginação. Vê-se bem por que sua imagem atravessa os tempos e
ressurge inúmeras vezes, na literatura, na música, no teatro, na
dança, nas artes plásticas, na filosofia, no cinema. A invenção
de Orfeu não acaba nunca: é infinita e ubíqua, segundo bem
nos mostrou o nosso poeta Jorge de Lima. Vejo aqui, à minha
volta, pessoas que se empenham em continuá-la, de diferentes
►► 73
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
modos. O lugar é propício, portanto: esta casa abriga a presença do herói misterioso que revive em sua gente.
Convém explicar: Orfeu é misterioso no sentido original
do termo, que remete a mistérios, a cultos de mistério. O adjetivo
“místico” tem a mesma raiz: fala do silêncio em que se envolvia
essa modalidade de culto. Ambas as palavras se viram empobrecidas, a rigor amesquinhadas, com a redução do misterioso ao enigmático, do místico ao vago e obscuro. O culto de mistérios envolvia iniciação, alentada pela esperança de comunicação direta com a
divindade, promessa de uma ligação radical com deuses a um tempo queridos e temidos. A iniciação constituía um rito de passagem.
Esse rito, segundo podemos vislumbrar através de testemunhos
sempre incompletos, evocava a angústia da morte e sugeria um renascimento espantoso, capaz de estender-se para além dos limites
da existência humana, das fronteiras que separam vida e morte.
Repensando a noção segundo me sugerem os signos da
experiência mística na poesia dos órficos, ouso propor uma
aproximação: mistério deve chamar-se o que só o silêncio sabe
dizer. Mas escutem: esse silêncio não é mudo. Canta. Deriva da
música de Orfeu, música de imagens, atos dramáticos e vozes a
comunicar o divino: deikhnúmena, drómena, legómena. Não há como
fazer pouco da força inspiradora desses ritos: recorde-se que, segundo Paul Friedman, Platão em sua inesgotável obra filosófica
fez uma transposição intelectual dos mistérios.
Orfeu é um revelador que se oculta profundamente. Ele não
é mencionado nos poemas de Homero nem nas obras de Hesíodo.
A primeira referência a seu nome que chegou até nós se encontra
no fragmento 26 do poeta Íbico de Régio, de inícios do século VI
a. C. Segundo a sumária sentença de Íbico, Orfeu era um poeta de
grande nomeada, portanto já consagrado naquela altura. As obras
do vate assim aclamado podem ter sido compostas no século VII.
Mas por que o silêncio precedente? Afinal, quem era mesmo esse
grande poeta que a primeira notícia nos revela famoso? Terá ele
existido como um de nós, um homem de carne e osso?
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Os gregos antigos acreditavam que sim. A maioria dos
modernos sustenta que não. Pois a figura de Orfeu tem inegáveis contornos míticos. Seja como for, não se pode negar realidade histórica à fonte primeira dos poemas órficos — fonte,
pelo visto, bem antiga, embora difícil de localizar no tempo, de
assinalar no espaço.
Entenda-se: várias obras foram atribuídas a Orfeu em textos que se distribuem ao longo de um milênio, pelo menos. Atribuídas, digo, de duas maneiras. Na mais simples, um determinado
autor cita uma teogonia, um hino, uma sentença, um preceito ou
um ensinamento de Orfeu. Às vezes, porém, sucede coisa diferente: apresenta-se como Orfeu um autor que de outro modo não
se dá a conhecer, mas pode ser situado no tempo, em geral a uma
distância considerável das mais antigas obras em que se lê o nome
e se proclama a autoria do herói-poeta. Quem assim se apresenta
situa-se, pois, bem longe do que chamei de “fonte primeira” das
criações “órficas”, isto é, de remotas obras declaradas órficas pela
tradição. O hinário de que trato acha-se nesse último caso.
Além de oitenta e sete hinos dedicados a divindades, esse
corpus encerra um proêmio, que seu título define como uma fala
de Orfeu ao discípulo Museu. O título cifra-se em um endereçamento, similar ao que se faz no cabeçalho de uma carta:
De Orfeu a Museu: Sê feliz, amigo!
Os dois primeiros versos desdobram o apelo:
Aprende, ó Museu, do rito de sagração
A prece principal, de todas a mais sublime.
O que o mestre ensina a seguir é uma ladainha. Museu
nada diz, permanece silencioso. Um silêncio de página escrita, se
é que me entendem.
Mestre e discípulo comungam um traço perturbador: tanto quanto Orfeu, Museu se afigura, a nós, modernos, menos real
►► 75
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
que suas obras. Delas nos chegaram apenas fragmentos, citações
esparsas. Mas não as podemos ignorar.
Não é só o título-endereço do proêmio que atribui o texto
a Orfeu. Alguns dos hinos sugerem ser Orfeu quem neles fala.
A rigor, insinua-se que é sempre o divino poeta quem se dirige
aos deuses celebrados, em todas as composições do hinário. Sugerem-no diferentes passagens: se não é ele o místico Boiadeiro
(Boukólos) que se apresenta no Hino a Hécate (HO 2) e no Hino
aos Curetes (HO 31), não pode ser outro o filho de Calíope que
saúda sua mãe tanto no Hino às nereidas (HO 23) como no Hino
às musas (HO 76).
Mas voltemos ao proêmio. O autor dos hinos órficos inicia seu trabalho lírico de modo dramático: pondo em cena o
poeta a quem os atribui. E vestindo sua máscara. Essa atribuição
vem a ser o invento fundador de sua poesia.
Do ponto de vista histórico-filológico, ele produziu um
apócrifo. No entanto, seria injusto considerar seu procedimento
uma simples falsificação. Logo se vê o problema: que significa
falar de falsificação da obra de um autor mítico? E, se mítico não
era, onde encontrar o verdadeiro Orfeu?
Seja como for, é inegável que o hinário em apreço constitui um apócrifo. Um apócrifo é, por assim dizer, um plágio às
avessas. Ora, cá está o problema: em princípio, todas as obras ditas de Orfeu podem ser se não classificadas como apócrifas pelo
menos suspeitas disso. A um cético que peça provas da alegada
autoria delas, ninguém poderá satisfazer. No caso de Orfeu, não
dá para identificar as produções “autênticas”.
Nada tem de incomum a produção de apócrifos ou pseudoepígrafos na Antiguidade, quando a autoria era bem menos
considerada do que hoje e valer-se do nome de um escritor ilustre
era um meio de garantir-se a atenção de um público difícil. Temos diálogos “de Platão” que o mestre da Academia certamente
não escreveu. Temos um pseudo-Aristóteles que o trabalho dos
filólogos permitiu diferenciar do estagirita. Mas temos obras de
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Aristóteles e de Platão que a crítica histórico-filológica nos garante serem autênticas. No caso de Orfeu, nenhum filólogo, nenhum
historiador ousa falar de autenticidade nos mesmos termos. Apenas sabemos com certeza, pela evidência do anacronismo, que
certas obras creditadas a Orfeu não podem ser desse personagem
remoto, sempre longínquo, por mais que a gente se aproxime dele.
O escritor dos hinos órficos — o tardio poeta postulado
por nós, seus leitores de agora — não deixa muitas pistas, não dá
sinais que efetivamente o identifiquem ou permitam inferir com
plena segurança a sua localização no mundo antigo. Sim, poderíamos chamá-lo de “pseudo-Orfeu”. Mas vê-se logo que esse redator (ou redatores?) não visava a pseudonímia como algum de nós
poderia fazer: Orfeu não é um nome qualquer, passível de escolha
entre outros. Envolve uma pessoa especial, que nosso poeta não
inventou, isto é, não industriou do mesmo modo como Pessoa
terá criado seus heterônimos. Se excluirmos Orfeu, o poeta fica
anônimo. Mais ainda, fica nu de pessoa — e seus versos perdem
o sentido. De algum modo, ele incorpora o herói cantor, ou seja,
encarna o objeto de sua crença, que sua crença recria. Oculto na
clareira dos hinos, o poeta ignoto assume a persona e a autoridade
de Orfeu porque lhe dá o crédito da origem última de sua invenção
— e porque, ao realizá-la “de novo” (com os versos que lhe escreve), misticamente se identifica com essa impalpável pessoa sagrada: identifica-se com o mestre do mistério, o poeta por excelência.
Há mais. Nosso escritor — quem quer que ele tenha sido
—, no belo jogo fictício no qual assim se envolve verdadeiramente, faz-se também Museu: identifica-se com o receptor inspirado
do discurso mítico, procede como ele e retransmite a lição do
mistério. No processo, esse poeta oculto sem dúvida se apropria
também do tesouro de diferentes hinos órficos anteriores a sua
lavra. O nome que ele assume lhe dá esse direito.
Em seu tempo já existia uma vasta literatura creditada a
Orfeu e Museu, personagens que eram ligados a uma época muito remota, para além do registro histórico.
►► 77
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
O escritor dos hinos se revela oculto por um espelho ambíguo, refletido em duas figuras. É a um tempo Orfeu e Museu,
pois assume ambas as imagens, ambas as pessoas: o santo poeta
que recita, o poeta santo que escuta.
A saudação inicial de Orfeu a Museu faz pensar no texto
como uma espécie de epístola mística, uma instrução e um legado. Mas não há distância alguma entre a lição e sua prática. No
redator que supomos se confundem o remetente e o destinatário. E com isso ele já está nos dizendo que para fazer-se órfico é
preciso seguir-lhe o exemplo: tornar-se Orfeu. E Museu, é claro.
O discurso do proêmio tem caráter mistagógico: nele a
voz do mestre inicia o excelente discípulo no conhecimento de
uma praxe mística. A litania do exórdio vem a ser a “prece principal”, porque ela introduz ao rito onidivino: um rito que envolve todos os deuses. O fluxo das jaculatórias sugere o percurso
de um panteão. Os numes evocados entre os versos terceiro e
sexto, no que pode chamar-se de moldura da litania, presentificam domínios do mundo: Terra (Gê), Céu (Zeus, Astros), Mar
(Posídon) e o Reino Subterrâneo (Perséfone, Deméter). Já quase
no fim da litania, no verso quadragésimo terceiro, a invocação de
Princípio e Termo consuma a referência a um conjunto divino
envolvente, a um cosmo sagrado. A prece augusta mostra-se assim panteológica, tal como o rito a que introduz. Nos hinos, esse
rito é marcado pela invocação de oitenta e sete figuras divinas,
propiciadas com incensório.
Passo agora a falar brevemente do pouco que se sabe, ou
melhor, se conjetura, a respeito da época e do local de redação dos
hinos órficos. Muitas e diferentes datações já foram propostas,
mas hoje há razoável consenso entre os estudiosos a esse respeito:
tudo indica que o hinário em apreço terá sido composto entre o
II e o V séculos de nossa era: segundo penso, mais provavelmente
no segundo, ou, no máximo, no terceiro século. O vocabulário é
típico do grego culto do período imperial e mostra coincidências
significativas com a linguagem dos hinos mágicos, mas também
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
com o léxico da epopeia Dionisíacas, de Nono de Panópolis. O
teor dos hinos, a forma de sua construção, o modo como eles se
intitulam e seu encadeamento na syllogé sugerem a adequação a
uma liturgia mística. Eles dão testemunho de uma piedade pagã
que o cristianismo ainda não conseguira estancar, nem absorver.
Algumas das divindades menos conhecidas evocadas nos hinos e
o material epigráfico que a elas faz referência, assinalando seus lugares de culto, mostram com suficiente clareza que eles devem ter
sido compostos na Ásia Menor, em uma cidade grega da Anatólia.
O sábio Otto Kern, extraordinário filólogo, a quem devemos a
compilação monumental dos Orphicorum fragmenta, formulou uma
hipótese que considero muito digna de acatamento. Kern sugeriu
que a composição desse hinário se deu em Pérgamo, no círculo
místico ligado ao santuário de Deméter.
(No ano passado, numa viagem que fiz à Turquia, estive nas
proximidades de Pérgamo, mas não pude ir até lá. Tenho agora
muitas saudades do sítio que não conheci, pois ele povoa minhas
lembranças de estudioso do sonho órfico e das riquezas do pensamento helenístico. Espero em breve caminhar pelas ruínas da
cidade sábia e já me sinto emocionado com o encontro impossível
de vestígios poéticos numa biblioteca vazia, inteiramente destruída, cujas pedras imantam minha imaginação.)
Aqui me falta tempo para defender meu ponto de vista,
mas estou convencido de que o hinário a cuja apresentação me
dedico é obra de um só autor, um homem culto e religioso, quase
certamente um iniciado em mistérios órfeo-báquicos, quiçá um
sacerdote de seu círculo místico. A unidade estilística e o arranjo
das composições em um todo coerente me convencem de que
todos os poemas dessa syllogé foram escritos por um único vate.
Não me parece impossível que ele portasse o título misterioso
de Boukólos (Boiadeiro) com que se identifica a voz enunciadora
do Hino a Hécate.
Esse poeta, além de conhecer bem a literatura órfica, era
evidentemente versado em filosofia, em particular na estoica, de
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
que tirou muita inspiração. Erudito, com certeza. Mas de modo
algum um puro retórico. Não estava interessado apenas na performance da escritura: hoje está superada a tese de Lobeck, que viu
nos hinos órficos o exercício literário de um diletante, destinado
a um pequeno círculo cultivado. Chegou-se a crer que algumas
das divindades celebradas nos hinos (deuses pouco conhecidos,
a exemplo de Mise, Melínoe e Hipta) fossem frutos da imaginação do poeta. Mas a arqueologia e a epigrafia comprovaram que
essas divindades eram efetivamente cultuadas na Ásia Menor.
Como Dieterich já sustentava, e como hoje autoridades do porte
de Fritz Graf e Anne-Frances Morand reafirmam, o hinário em
questão por certo se compôs para servir de instrumento a uma
liturgia mística. A sábia francesa se empenhou na abordagem da
ideologia do grupo religioso que se valia desses hinos, sem dar
muito crédito à tese da autoria única (de que, por minha parte,
estou convencido). Graf, num artigo precioso, partindo do insight de Dieterich, procurou avançar, buscando na ordem dos
poemas os indicativos do processo litúrgico. É uma tese sedutora, embora me pareça que haja lacunas na sua demonstração.
Tudo leva a crer que nosso escritor oculto era um religioso
sincero. Há fervor em seus hinos, e de sua leitura se deduz facilmente que ele tinha especial devoção por Dioniso. Seus poemas
revelam interesse de teólogo, inspirado na tradição mística do
orfismo, mas também em obras filosóficas. É bem possível que
fosse um aristocrata de Pérgamo, vivendo na época em que Roma
já desfrutava da herança dos atálidas e a cidade ostentava em sua
acrópole o magnífico altar hoje conservado no Pergamonmuseum
de Berlim. Talvez o cristianismo já se aproximasse, mas não era
influente, podia ser de todo ignorado naquele meio.
Não basta falar desse escriba desconhecido para caracterizar o autor dos hinos órficos. É preciso que se considere o poeta
com quem ele se identificou. Impõe-se estudar-lhe a máscara
sagrada, a intangível pessoa de Orfeu. Eu já disse que bem
poucos estudiosos o consideram um personagem da história.
80 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
O mito prevalece na formação de sua imagem. De acordo com
a tradição, ele seria um trácio, filho do desconhecido Eagro,
ou, antes (segundo acreditava a maioria dos helenos), filho do
deus Apolo. Acreditava-se que sua mãe era uma das nove musas.
Nos hinos de que falo, essa musa é claramente identificada: Calíope, a Bela Voz. Mas havia quem sustentasse que foi Polínia dos
muitos cantares quem o pariu.
Tocamos aqui uma contradição original: esse herói grego
era trácio, ou seja, um bárbaro. Só para lembrar: a Trácia corresponde a uma região histórica do sudeste da Europa, cujo território
hoje se divide entre Grécia, Turquia e Bulgária. Ao leste, confina
com o Mar Negro e o Bósforo; a sudeste tem por limites o estreito de Dardanelos e o Mar de Mármara; ao sul banha-se no Egeu.
Todo o seu território tornou-se Macedônia quando Felipe II nela
estabeleceu a hegemonia de seu povo balcânico, derrotando os
súditos de Cersobleptes. Esses trácios já se achavam na área a que
deram nome antes da invasão dos chamados citas: uma área atravessada na proto-história pelos helenos em ondas sucessivas no
seu avanço para o Mediterrâneo, rumo ao Egeu e à Anatólia. Pelo
mesmo corredor passaram, ao longo dos séculos, diferentes povos, entre os quais os hititas, os frígios e (bem mais tarde) os celtas.
Pois bem: na visão dos gregos antigos, os primitivos trácios eram selvagens desumanos, de costumes bestiais. Cruéis,
sanguinários, brutos, são alguns dos títulos que lhes davam. No
entanto, os helenos também afirmavam que o seu poeta semidivino, seu santo músico, procedia desses terríveis bárbaros de duvidosa humanidade, ou pelo menos com eles convivia. Podemos
contemplar abundantes imagens de Orfeu na pintura cerâmica
grega. Algumas delas mostram o poeta das melodias irresistíveis
cercado por feras que o ouvem placidamente. Outras pinturas
de vasos mostram Orfeu muito sereno a tocar sua lira, rodeado por guerreiros trácios armados, facilmente reconhecíveis por
suas vestes características (enquanto o poeta se distingue por sua
roupagem grega). A analogia se impõe.
►► 81
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
A esse mundo bárbaro os helenos costumavam ligar ainda o deus Dioniso, embora também o considerassem grego. A
Dioniso devotou-se Orfeu, o filho de Apolo. Na tensão entre os
dois irmãos divinos, muito próximos e, todavia, opostos, desenhou-se a tragédia do poeta.
Antes de falar dessa tragédia, farei uma aproximação que
pode soar muito ousada. Aproximarei Orfeu de outro vate trácio,
também mítico, que até pode ser-lhe oposto. Refiro-me a Tamíris.
Peço-lhes que voltem por um momento a atenção para
uma pintura desaparecida. Graças a um viajante muito atento,
ela pode ainda ser contemplada — melhor dizendo, imaginada.
Refiro-me a uma obra famosa de Polignoto, a Nekuyia, por ele
pintada em um edifício conhecido como o Parlatório Délfico,
uma oferenda dos cnídios ao deus oracular. Pausânias, no décimo livro de sua obra (10. 25,1 – 10.30, 9), descreveu esse mural
em que o famoso artista figurou o reino dos mortos. No Hades
pintado de Polignoto, entre outras personagens heroicas via-se
Orfeu, com trajes gregos, sentado em uma espécie de colina,
com a harpa em uma das mãos e a outra a tocar os ramos de um
salgueiro. O lugar assim representado, diz o periegeta, era evidentemente o Bosque de Perséfone. Do outro lado do salgueiro,
um personagem vagamente identificado como Promedon parecia escutá-lo embevecido. Não longe, ainda na mesma seção do
mural, via-se Tamíris, cego, com expressão de profundo abatimento, longa barba desgrenhada, a lira quebrada a seus pés.
A imagem se reporta a um trecho da Ilíada (Canto II, versos 594-600), em que Homero evoca o desatino e a miséria do
músico soberbo: convencido de sua excelência na música, Tamíris desafiou as musas. Narram outras fontes que Tamíris queria como prêmio (se vencesse, como esperava) possuir todas as
nove deusas canoras. Segundo Homero, as filhas de Zeus que
brindam aos mortais tanto a verdade quanto o engano, tanto a
memória quanto o esquecimento, venceram o atrevido e o privaram de sua arte, deixando-o leso, perós. A palavra perós pode
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
traduzir a mudez do cantor e de sua lira, mas também outros
tipos de lesão: qualifica o cego (Polignoto e Sófocles representaram Tamíris cego) e também o impotente. Duro castigo, com
certeza. Mas correspondia a um tremendo sacrilégio.
O pintor da Nekuyia délfica aproximou para contrastá-los
o poeta santo e o sacrílego. Dá-se, porém, que o contraste, nos
mitos, sempre traduz parentesco, por vezes identidade. Tal como
Orfeu, Tamíris era considerado filho de musa, ou senão de uma
ninfa cujo nome, Argíope, também era dado a Eurídice. Tamíris
empenhou-se de modo infeliz num duelo canoro com deusas.
Orfeu, segundo Apolônio de Rodes, se envolveu numa espécie
de combate musical com fêmeas sobre-humanas, as sereias. (A
diferença é que Orfeu foi vitorioso.)
Outra semelhança entre os opostos tem colorido trágico:
Tamíris foi mutilado por deusas, damas sacrossantas; Orfeu foi
dilacerado por damas consagradas, as bacantes.
Devo ainda acrescentar outro traço comum aos dois poetas, por certo inesperado. Certas variantes de sua história mítica
apresentam Orfeu também como sacrílego.
Qual foi o sacrilégio desse semideus? Segundo Pausânias
(IX, 30, 6), Zeus o fulminou porque o santo citaredo ousou revelar aos homens os mistérios, o culto dos mistérios. Entendase: inaugurando ritos que prometiam franquear aos humanos a
beatitude, uma felicidade duradoura e lúcida nos infernos, Orfeu
violou limites zelosamente guardados pelos deuses. Certas variantes também atribuem a essa façanha a sua morte terrível às
mãos das mênades.
Permitam-me os amigos volver a um ensaio que recentemente publiquei e citá-lo com alguma liberdade. Orfeu era
considerado filho de Apolo, o senhor da medida, mas não se
pode negar que o excesso o acompanhava. Quando ele cantava
(reza Simônides no fragmento 27), as aves do céu voavam em
bandos à volta de sua cabeça, e os peixes saltavam a seu encontro desde os abismos do mar. Bestas do campo e feras da
►► 83
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
selva seguiam-lhe os passos, mansamente, fascinadas pelo som
de sua lira, pelo esplendor de sua voz, que comovia pedras e
árvores, atraindo até mesmo os seres inertes.
São imagens de beleza onírica, mas é evidente que essas
façanhas desafiam a ordem do mundo, que a subvertem. Ora,
para o pensamento religioso dos helenos é sagrada essa ordem,
chamada kósmos na sua língua. E dá-se que Orfeu ainda foi mais
longe no desafio às leis do Universo: desceu vivo aos infernos em
busca da amada, para tentar-lhe o resgate. Poetas latinos como
Virgílio, Horácio e Sêneca deleitaram-se em evocar essa passagem
tremenda. Segundo eles poetaram, enquanto Orfeu cantava diante
de Plutão e Proserpina, logrando comover os inexoráveis a ponto
de arrancar-lhes o retorno da defunta, Cérbero, o cão medonho,
se calou, a roda de Íxion ficou parada, o abutre deixou intacto o
fígado de Títio, as danaides interromperam seu louco trabalho,
Sísifo descansou, as Fúrias ficaram serenas, e os impassíveis juízes dos mortos choraram. Em suma, naquele mágico momento a
morte se deu por vencida. Mas a esse triunfo espantoso do herói
seguiu-se a frustração de uma derrota miserável, pois Orfeu rompeu o compromisso assumido com os deuses das profundezas de
não olhar para trás durante a ascensão.
É sacrilégio violar as leis dos infernos. O homem divino
foi castigado: como Tamíris, perdeu a visão... de sua amada
(não há homem apaixonado que não tema essa forma de cegueira); ficou para sempre mutilado de Eurídice. E por conta
dessa perda, que um sentimento de culpa multiplicou por dores
atrozes, tornou-se indiferente ao amor das mulheres — coisa
que equivale à impotência.
Em suma, pode-se dizer que Orfeu vivenciou um cúmulo do sagrado, abraçando os sentidos opostos que essa noção
assumia no pensamento dos antigos. Foi, a um tempo, santo
e sacrílego. Como acima lembrei, havia quem dissesse que seu
sacrilégio consistiu justamente na sua obra mística, ou seja, na
criação dos mistérios.
84 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Ora, existe uma relação profunda entre as maiores proezas
de Orfeu: sua catábase e sua invenção religiosa. De tudo quanto
podemos vislumbrar a respeito da iniciação eleusina, depreende-se que o percurso noturno do neófito rumo à experiência da
epopteia imitava, ou simulava, uma passagem pelo reino infernal,
culminando com a visão a um tempo tremenda e gratificante da
soberana dos mortos, ou do fruto de suas terríveis bodas. Por
outras palavras, algo como une saison en enfer.
Explorei temerariamente a relação entre Orfeu e Tamíris,
que Polignoto contrastou na sua Nekuya. Devo agora voltar-me
para outro vate que a tradição aproximou efetivamente de Orfeu: o seu silencioso ouvinte do proêmio dos hinos órficos. O
nome de Museu já o relaciona com as musas. A tradição fez dele
um profeta, atribuiu-lhe oráculos: um perito na mântica, nas artes de Apolo.
Museu era geralmente considerado discípulo de Orfeu, às
vezes dito seu filho e herdeiro de sua lira. Também se acreditava
que ele descendia de Selene, a deusa Lua, e tinha por pai Antiofemo. A grande maioria dos estudiosos modernos se inclina a
negar sua existência histórica, mas sua figura se fez bem viva na
memória dos gregos, ganhou realidade na poesia e na religião
dos helenos. Talvez em sua pessoa legendária se tenham combinado traços míticos a lembranças de um grande vate, perdido
nas sombras da história.
Os nomes de Orfeu e Museu frequentemente apareciam
ligados em teogonias que circulavam em Atenas no século VI
em meio a grupos místicos. A partir do século V, suas míticas
personalidades chegaram praticamente a confundir-se. Os atenienses relacionaram Museu aos seus mais excelsos mistérios:
acreditava-se que ele foi hierofante em Elêusis, e havia quem o
dissesse eleusino, embora a maioria dos testemunhos lhe atribua
a mesma pátria de Orfeu, ou seja, a Trácia. De acordo com o
mármore de Paros, Eumolpo, filho de Museu iniciado por Orfeu, instituiu os mistérios de Elêusis.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Segundo observou com muita perspicácia Roxana B.
Martínez-Nieto (2000, p. 142), “la pareja Orfeo-Museo presenta múltiples elementos en común y, al mismo tiempo, notables
diferencias. Uno y otro parecen representar a Dioniso y Apolo,
respectivamente. Mientras a Orfeo se le atribuye caracteres dionisíacos, Museo goza de los dones apolíneos”.
Essa dualidade que sua ligação com Museu traduz marca
a figura de Orfeu indelevelmente. O filho de Apolo não podia
afastar-se de Dioniso.
Escutando o que acabo de dizer, meus ilustres ouvintes
por certo se lembraram logo de Nietzsche e de sua famosa tese
segundo a qual é justamente na tensão entre o apolíneo e o dionisíaco que se desenha o espaço da tragédia. Ora, se é assim, não
há figura mais trágica do que Orfeu, o modelo eterno dos líricos.
Para comprová-lo, evocarei um drama de Ésquilo, intitulado Bassárides, peça cujo entrecho renomados filólogos se empenharam
em reconstituir com base em uma citação de Eratóstenes em
seu livro Catasterismos. Segundo essa reconstituição, de volta dos
infernos Orfeu passou a dedicar-se unicamente ao culto do Sol,
que chamava de Apolo. Mergulhado nessa devoção, acabou por
esquecer Dioniso. Por isso as mênades trácias o despedaçaram.
Ora, basta lembrar o mito da dilaceração do menino Dioniso pelos titãs para dar-se conta de que Orfeu, assim como Penteu, vivenciou a paixão do deus. Dizia-se que a cabeça de Orfeu
esquartejado foi atirada às águas pelas bacantes, mas continuou a
cantar. Segundo o poeta elegíaco Fánocles, ela chegou flutuando
a Lesbos, onde foi enterrada no templo de Dioniso, enquanto a
lira era guardada no santuário de Apolo. Eratóstenes acrescenta
que as musas recompuseram o corpo de Orfeu, reuniram seus
disjecta membra. Ele foi, portanto, reconstituído pelas filhas da Memória: reMembered, como Tom Hare diz de Osíris.
Dioniso é a figura central do hinário, a divindade mais
celebrada nele. De um modo geral, as teogonias órficas dão destaque a esse deus, e é constante a ligação de ritos dionisíacos
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
com os preceitos e as crenças relacionados à figura de Orfeu. É
patente o acordo entre o acervo assim constituído e o background
mítico-litúrgico do hinário. Mas faltam referências antigas a essa
obra singular.
Explicando melhor: em textos antigos abundam referências a várias obras atribuídas ao poeta sagrado. Em muitos textos
da era clássica e da Antiguidade tardia aparecem alusões a hinos
de Orfeu, por vezes citados em maior ou menor extensão. Mas
não encontramos na literatura dessa época nenhuma referência
ao conjunto aqui abordado. Só no século XII, na obra do diácono João Galeno, aparece uma alusão suficientemente clara a essa
coletânea. Como tudo indica, o diácono a consultou de forma
direta num documento que teve à mão.
O texto hoje disponível transmitiu-se através de vários
manuscritos, de que a maioria encerra também os hinos homéricos, os de Calímaco e os de Proclo. Os trinta e sete códices
conservados se distribuem no tempo entre 1450 e 1550. Muitos
derivam de um códice hoje perdido, levado de Constantinopla
para Veneza por Giovanni Arispa, por volta de 1423. Segundo se
conjetura, no documento de que esse códice derivou o filósofo
neoplatônico Proclo (410 – 485) teria registrado, ou feito registrar, hinos de sua autoria junto aos homéricos, aos de Calímaco,
à argonáutica órfica e, por fim, aos hinos órficos de que lhes falo.
João Galeno, ao referir-se ao que chamamos de hinos homéricos, fala em “aromas” e “incensórios”. Ele tinha razão: quase todos os hinos da coletânea em apreço são intitulados assim:
Aroma de Céu, Aroma de Noite, Aroma de Protógono, Aroma de Pan.
Ou seja, eles trazem no título a indicação de uma oferenda a ser
feita com recurso ao turíbulo. Especifica-se em cada caso qual o
elemento que deve ser queimado para produzir o perfume conveniente ao deus: o olíbano, que para nós é o incenso tout court, às vezes em grãos, às vezes em polvilho, a mirra, o estoraque, a papoula, a resina do açafrão, favas e ervas aromáticas eram utilizadas de
acordo com o cânone. A julgar pelos títulos, algumas divindades
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
não eram propiciadas assim (as infernais, de um modo geral).
Essa oferenda turiferária devia acompanhar o cântico.
Com efeito, tudo indica que os hinos órficos eram cantados, provavelmente com acompanhamento de lira e de flauta, ou de um desses instrumentos, pelo menos. De sua música,
não temos registro algum. Resta-nos a musicalidade dos versos,
escritos em hexâmetros dactílicos (o metro da epopeia, da teogonia hesiódica, dos hinos homéricos). O hexâmetro presta-se
bem à narrativa, mas os poemas em questão não são narrativos.
São hinos cléticos compostos de jaculatórias.
De um modo geral, eles são de fácil leitura para quem
conhece o grego clássico. Os embaraços surgem em passagens
em que a tradição manuscrita não é confiável, em que é preciso
uma análise filológica antes de decidir pela interpretação mais
provável. Naturalmente, para compreender de fato esses hinos,
lendo-os na língua em que foram escritos, deve-se estar bem
informado sobre a religião grega, de um modo geral, e em particular sobre os cultos de mistério da Antiguidade. Convém que
o leitor, além de competente em grego, não ignore a filosofia
antiga, nem se ache desinformado em matéria de orfismo. Ajuda
muito se tiver algum conhecimento histórico sobre o mundo
greco-romano. Saiba ou não grego, o leigo nesses assuntos precisará recorrer a obras eruditas. A versão moderna, se se quer
dar acesso aos poemas a quem ignora o idioma helênico, não
pode dispensar comentários e notas.
Mais uma vez certifico: quem sabe o grego clássico lê facilmente os hinos órficos. A sintaxe não oferece problemas, a construção é paratática e simples. O vocabulário é rico, mas não embaraçoso, apesar da abundância de hápax legómena, isto é, de palavras
que, em toda a literatura grega, só ocorrem nesses textos. Dá-se
que elas, na maioria, são nomes compostos cujos termos formadores quem domina a língua clássica dos helenos logo reconhece.
Mesmo um hápax legómenon não composto quase sempre pode ser
logo identificado por sua raiz, pela evocação de seus cognatos.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Eu disse e repeti que quem conhece o grego clássico lê os
hinos órficos com certa facilidade. Mas, como sabem os amigos,
ler é uma coisa, traduzir é outra. Se não estiver preparado para
a compreensão das questões filológicas envolvidas no estabelecimento do texto, se não puder ter acesso ao aparato crítico de
boas edições, o tradutor fará um trabalho precário, indigno de
confiança. Se não tiver bom conhecimento do acervo geral da
matéria órfica, com certeza fracassará, será vítima de grandes
mal-entendidos. Caso não esteja munido de informação suficiente sobre a cultura religiosa e filosófica da Antiguidade tardia,
do mundo greco-romano e de sua faixa anatólica, perderá nuances e cometerá enganos graves. Não pode ser ingênuo no que
toca à literatura desse período. E precisará de habilidade para
transpor as diferenças entre códigos semânticos, moldes categoriais e esquemas cognitivos distintos, como são os imanentes às
línguas entre as quais tem de navegar.
Nesse caso específico, é um grande desafio transpor os jogos estilísticos do original, de textos em que abundam anáforas,
aliterações e assonâncias, em cuja construção o procedimento
cumulativo, assindético, de justaposição de epítetos tem um valor
quase mágico; em que a base métrica cria efeitos musicais difíceis
de transpor; em que a sutileza dos engastes míticos nem sempre
se deixa decalcar. No português, não temos a mesma facilidade
que em outros idiomas para formar compostos, mas sempre podemos recorrer à rica base latina do nosso vocabulário. E nossa
língua nos oferece vantagens preciosas: ela tem — sobretudo na
forma como a falamos no Brasil — uma rica base vocálica, um
tesouro de sonoridades que permite aproximação com o grego
solene dos hinos: rica em paroxítonos e proparoxítonos, é uma
língua que se presta a enunciados lapidares, mas também permite
leveza, consegue tornar-se hierática sem se enrijecer. Isso facilita
muito. Mas sabemos que esse belo instrumento precisa ser bem
manipulado, e que toda a tradução envolve esforços quase desesperados para aproximar diferentes mundos.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Além do trabalho da tradução, é preciso acudir os leitores
com comentários e notas que lhe permitam melhor fruição do
texto. Nisso estou empenhado há mais de um ano, e aqui só Regina sabe o quanto ele pode tornar delirante uma criatura. Esse
trabalho também me impõe viagens: de vez em quando tenho
de ir a São Paulo para consultar, nas bibliotecas uspianas, o Roscher, o LIMC, a Pauly-Wissowa, o acervo do MAE. Da Europa,
minha filha Marina me tem acudido copiando textos na Biblioteca de Oslo, a que fiz mais uma breve, mas proveitosa, visita na
minha última viagem àquele continente. Graças também a Marina, ano passado estive na antiga Jônia e me embebi das cores
mágicas do Egeu. A embriaguez dessas lembranças ajudou-me a
clarear a tradução, a enriquecer os comentários.
Vou contar-lhes agora, caros amigos, uma ideia maluca
que me veio. Penso que o corpo místico de Orfeu é formado
por todos os poetas do mundo. Através deles as musas tentam
recompor o herói amado. Em vista disso, é a vocês que me dirijo, quando agora lhes digo, concluindo: — Que viva Orfeu!
Três poemas órficos traduzidos
HO 3. Hino à Noite
(Fumigação com tochas)
Eu cantarei a Noite, mãe dos deuses e dos homens
(Noite de tudo origem, que Cípria também chamamos).
Ouve, deusa venturosa, de escura luz, constelada,
Que te comprazes, serena, em solitudes sopóreas,
Ó plácida, doce amante do transnoitar, mãe dos sonhos,
Tu que as angústias apagas e adormeces as dores,
Amiga de todos, dadora do sono, auriga
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Crepúscula, a retornar intérmina, revolvente,
Terrestre e célia de novo, de vultos em leda caça,
Que lanças a luz na terra e volves à profundeza
Do Hades — pois tudo rege rigor de Necessidade.
Ouve, propícia, a voz de quem te suplica
E tenebrilhante tange pra longe de nós os medos.
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HO 31. Hino às nuvens
(Incensório de esmirna)
Aéreas nuvens, celestiais, frutíferas,
Ó geradoras das chuvas, que ao vento correis o mundo,
Ó turbulentas, tonantes, fogosas, em vias d’água,
Que em atroada nos ares criais um tremendo estrondo
A repercutir o ímpeto em convulsão dos ventos,
Rogo-vos, mana-rocios, brandas ao sopro das auras:
Vertei sobre a madre Terra vossas frutíferas chuvas.
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HO 38. Aroma dos Curetes
(Incensório de olíbano)
Curetes dos címbalos brônzeos e de marciais couraças,
Celestes, terrestres, marinhos, dadores de rica fortuna,
Fecundos sopros de vida, ó salvadores do mundo,
Ilustres, no solo sacro da Samotrácia presentes,
Que apartais os perigos dos homens no mar vagantes,
Vós por primeiro aos humanos mostrastes santos mistérios,
Ó imorredouros Curetes de marciais couraças.
O oceano agitais, e os mares, e os arvoredos.
Como atroais percutindo a terra com lépidos passos,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Ao choque de rútilas armas, todas as bestas fogem
Do pavoroso estrondo que sobe ao céu, e nuvem
De pó que os pés suscitam no impulso de vossa dança
Cresce; e no turbilhão todas as plantas florescem.
Sois vós imortais demônios, nutrícios e estruidores
Pois quando sobre os humanos vos abateis irados
A vida lhes arruinais e os bens, e a eles próprios,
Por guerra acesa — e o mar profundo soluça
E árvores de alta copa tombam desenraizadas,
Com o ímpeto a esfolhar-se do raio do céu rompante.
Ó coribantes Curetes, potentes e soberanos,
Que em Samotrácia reinais, com os Dióscuros junto,
Ó sopros inextinguíveis, das almas alento, aéreos,
Que no Olimpo sois chamados também de gêmeos celestes,
Inspiradores, serenos, propícios e salvadores,
Das horas mestres, soprai-nos, frutíferos reis, favônios.*
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Ordep Serra é antropólogo, pesquisador, professor, escritor e tradutor,
graduado em letras e mestre em antropologia social pela Universidade
de Brasília, doutor em antropologia pela Universidade de São Paulo.
Estuda teoria antropológica, etnobotânica, antropologia da religião e
antropologia das sociedades clássicas. Publica obras de ficção, pelo
que tem obtido premiações nacionais.
Palestra proferida em sessão ordinária da Academia de Letras da
Bahia, na Sala de Reuniões, em seis de junho de 2013.
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O PODER ERÓTICO
Diário e cartas de Cristina Vasa, rainha da Suécia,
e do padre Antonio Vieira
Gloria Kaiser
D
e início, quero falar sobre “um livro para uma cidade”. Em
algumas cidades, como, por exemplo, em Chicago e em
Berlim, existe uma iniciativa chamada “uma cidade lê um livro”.
Para que um livro seja merecedor desse título de honra, é necessário que atenda a dois requisitos: o tema principal do livro tem
de girar em torno da respectiva cidade (o herói ou o personagem
principal precisa ter uma conexão com a cidade) e, mais importante, o autor do livro tem de ser de fora da cidade. O que se pretende é que alguém com o olhar de fora conte sobre as pessoas,
a cultura e a história de uma cidade em particular.
No meu livro O poder erótico, todos esses requisitos encontram-se atendidos. Meu livro trata do padre Antonio Vieira e do
ano de 1689. Nessa época Antonio Vieira tinha 81 anos de idade
e vivia em Salvador, na Quinta do Tanque. Estava trabalhando
nos seus famosos sermões e vivia recordando (no meu texto) os
cinco anos que passou em Roma (1669-1675), assim como a sua
amizade com Cristina da Suécia. Uma amizade que uniu dois seres
iluminados da história. A essa amizade devemos vasta correspondência, que com certeza contém algum grau de colorido erótico
— o quanto, isto fica por conta da interpretação do leitor.
Quanto a mim, essa obra representa um momento muito
importante da minha vida profissional como pesquisadora de
história, como escritora. Nesse livro eu finalmente dei vazão ao
meu amor pelo Brasil, ao meu amor por Salvador. Em janeiro
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
de 1988 eu vim ao Brasil pela primeira vez, vim a Salvador pela
primeira vez. Apesar de tê-la visto e vivenciado pela primeira
vez, tanto a cidade quanto as pessoas me foram muito familiares.
A minha afeição logo foi correspondida. Além disso, o céu me
mandou de presente um conselheiro espiritual, um interlocutor
muito especial — o padre Antonio Vieira.
Ao começar a pesquisar sobre Antonio Vieira, eu iniciei
um diálogo com ele. E trata-se de um diálogo sem fim, já que
toda uma vida não é suficiente para ler, interpretar, decodificar e,
quem sabe, entender toda a sua obra. Vieira nasceu em Lisboa,
no dia seis de fevereiro de 1608. Aos seis anos veio para Salvador, onde frequentou o Colégio dos Jesuítas. Tornou-se teólogo,
missionário, diplomata. Em dezembro de 1667 foi condenado
pela Inquisição de Coimbra. A sentença determinou que ele fosse privado da liberdade de falar em público e de pregar, além de
ser banido para Roma por cinco anos.
Em Roma vivia Cristina Vasa, rainha da Suécia. Cristina
era uma mulher que guardava em si os extremos. Ela é apresentada como uma mulher que, através de seus atos irresponsáveis,
conduziu a nação inteira ao caos. Por outro lado, é admirada
como cientista, gênio linguístico e filósofa, o que, entre outras
coisas, levou René Descartes a Estocolmo.
Até mesmo a sua aparência é descrita de forma dúbia.
Fala-se apaixonadamente de uma bela nórdica de lábios carnudos, cabelo castanho-avermelhado e olhos verdes; porém,
também, de uma mulher masculinizada, de voz grossa e ombros aleijados.
Conta-se que Cristina nasceu em 1626 e que teria sido preparada para sua função de rainha da Suécia através de uma educação baseada em princípios protestantes e patriarcais. Cresceu
falando oito línguas e dominava os cálculos astronômicos mais
complicados. Era formada em retórica e foi literalmente treinada a conduzir negociações diplomáticas de forma polida. Era
destemida nas artes do tiro e da esgrima. Esperava-se dela que
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
assumisse o trono, tivesse filhos e conduzisse a grandiosidade da
Suécia de então à geração seguinte.
Entretanto, todos se enganaram com Cristina, pois diversas experiências traumáticas fizeram com que ela se distanciasse
interiormente de seus mestres e procurasse o seu próprio caminho. As limitações desmedidas e as lições impostas a ela eram
compensadas interiormente pelo oposto: liberação, liberdade,
libertinagem foram conceitos que se imprimiram na sua alma
e no seu espírito e que se tornaram o fio condutor de sua vida,
conferindo-lhe forças quase titânicas.
Quando ela tinha seis anos, seu amado pai, o rei Gustavo
II Adolfo, morreu na guerra. Aos oito anos, Cristina conviveu
com a loucura da mãe, Eleonora de Brandemburgo, que, em
seu amor idolatrado e doentio pelo marido, insistia em não se
separar do cadáver. Por essa razão, ele foi enterrado somente um
ano e meio após a morte. No quarto ao lado do de Eleonora, no
Palácio de Stegeborg, ficava o caixão com o cadáver de Gustavo
Adolfo. Cristina era obrigada a cumprimentar o pai morto todos
os dias, num ritual cruel. Gustavo Adolfo foi finalmente enterrado, mas Eleonora exigiu que lhe extirpassem o coração, que
foi colocado em uma cápsula de ouro, a qual Eleonora mantinha
pendurada no dossel de seu quarto. Nessa época Cristina dormia
na cama da mãe. Imagine-se a cena: uma menina de oito anos, na
cama, em um ambiente escuro, frio, e, suspenso sobre a cama, o
coração do pai. Cristina ficou traumatizada.
Outro trauma: a guerra devastadora que também levara
seu pai não terminava. A matança recíproca de católicos e de
protestantes espalhava-se por toda a Europa. Sabemos hoje que
Cristina definitivamente influenciou o final da Guerra dos 30
Anos, que afinal terminou em 1648.
Na vida particular, Cristina manteve uma amizade especialmente significativa com Ebba Sparre e decepcionou-se amargamente com o jovem diplomata francês Gabriel de Gardier.
Depois dessa decepção, Cristina decidiu que jamais se casaria:
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
“Jamais serei um campo para um homem arar! E nunca me casarei!” Além disso, decidiu converter-se à fé católica, por encontrar mais espaço para a liberdade espiritual na igreja católica,
pois encontrou ali tanto pecadores quanto santos, um Michelangelo e uma Maria Madalena.
Para Cristina não havia nenhuma incongruência entre
“crer” e “saber”. Ela queria ser uma filha obediente da igreja
católica e, simultaneamente, continuar suas atividades como
cientista. Apesar de muitas intrigas e resistências, ela realmente
traçou o seu próprio caminho. Em 1654, aos 28 anos, abdicou
do trono, convertendo-se à fé católica em novembro de 1655,
em Innsbruck, na Áustria. Trata-se de um ato inimaginável, um
ato único na história da Europa. Fata viam invenient (o destino encontra seus meios e seus caminhos): este era o seu lema — e ela
o transformou em realidade. Após a sua conversão, viajou para
Roma, onde passou a viver até a morte, ausentando-se somente
para algumas viagens.
Em 1657, Cristina experimentou a maior crise de sua vida,
uma verdadeira catástrofe pessoal. Envolvera-se em uma intriga
política, que culminou na sua reinvindicação do trono de Nápoles, e viajara a Paris em 1656 para negociar com Giulio Mazarin.
Em Paris, acabou tendo um breve caso de amor com o conde
Giovani Monaldesco, o que rapidamente se transformou num
relacionamento de dependência do qual somente conseguiu libertar-se com o fracasso da sua missão política napolitana. O
final trágico desse relacionamento foi a ordem de execução do
conde, dada por Cristina, em novembro de 1657, no Palácio de
Fontainebleu. Ninguém na Europa reagiu, ela nunca foi julgada
por isso. E devia viver com a lembrança dessa horrível ação.
Quando Antonio Vieira chegou a Roma em 1669, Cristina contava com 43 anos. Vieira contava 61 anos. Ela estava
firmemente integrada ao tecido social de Roma, havendo sido
fundadora da Accademia Reale e cofundadora do Sqadrone Volante (uma associação em defesa da eleição livre do papa), além
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
de dar apoio a artistas, como, por exemplo, Gianlorenzo Bernini.
Interiormente, Cristina era um ser dividido, que não tinha um
interlocutor com quem pudesse discutir no mesmo nível.
Algumas folhas de papel com cópias de sermões do padre
Antonio Vieira eram o vade-mécum de Cristina, e, quando ela
ouviu que esse padre teria vindo parar em Roma, imediatamente
manifestou ao papa Clemente o seu desejo de que Vieira viesse
a ser o seu pregador pessoal. O papa não pôde preencher o seu
desejo, mas — fata viam invenient — encontrou os meios e um caminho. Na escuridão da noite, o padre Antonio Vieira passeava
do Palácio dos Anjos ao Palazzo Riario, onde aprendia italiano
com Cristina e onde eles conduziam as suas discussões.
A correspondência entre eles retrata dois seres humanos
em sofrimento, ambos tentando vencer as suas próprias batalhas interiores. Antonio Vieira tinha em mente viver uma vida
de obediência, servir obedientemente à sua ordem, entretanto
não conseguia de forma alguma calar-se diante de injustiças, de
exploração, de decadência moral. Por essa razão a Inquisição
“fechou-lhe a boca”. Cristina queria viver uma vida de cientista,
livre e só. No entanto, subestimou a força do poder erótico. Foi
só através do caso Monaldesco que ela se deu conta de quão
intensa e elementar pode ser a ação do poder erótico.
O padre Antonio Vieira definiu o poder erótico (a força, o
elemento vital que Cristina subestimou):
Quando sondamos até as últimas consequências tudo aquilo que nos desviou de nosso caminho, nós nos vemos nus
e descobertos; então devemos refletir sobre todas as besteiras de nossa amoralidade. Nós devemos sempre ponderar: a luta contra o poder erótico não pode ser vencida,
pois dessa forma estaremos lutando contra a própria vida.
Quando nos rendemos a um poder assim — e isto nunca
acontece sem a nossa vontade — temos de aprender essa
difícil lição. Temos de lutar contra o nosso orgulho, pois ele
bloqueia todos os caminhos para o nosso eu verdadeiro. O
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
poder erótico só pode ser domesticado pelo espírito. Nós
temos de rezar e lutar para que o poder erótico se transforme em força para nosso espírito.
Ou ainda:
Nada resta para tais pessoas durante o tempo de purificação senão sua voz interior. É preciso encontrar as palavras.
Nós sabemos que por meio das palavras podemos superar
tudo; com palavras nós vencemos qualquer escuridão, pois
nada é mais forte e poderoso que a palavra. Nós podemos
confiar que atrás da escuridão moram a luz e o amor. Para
tanto, primeiro é necessário atravessar o inferno, e nós não
podemos criar um atalho para esse caminho. Temos de
atravessar cada uma das câmaras do nosso inferno interior
e devemos permanecer em silêncio; silenciar até que tenhamos superado a escuridão.
Dirigindo-se a Cristina:
Minha querida Cristina, uma cama jamais deve ser mais
larga do que três palmos; além disso, durante o sono, devemos manter nosso corpo reto e todas as nossas forças
se deslocam para a nossa alma, para o nosso espírito, que
acendem uma luz dentro de nós. Ela nos indicará o caminho. Mas é claro que eu não estou lhe escrevendo para
censurar a sua cama. Eu quero dar o valor exato para o
nosso abraço de ontem. “Às vezes me faz falta o cheiro
de pele”— disse-me você — posso tratá-la de você, não
é? — e tem razão. Se nos foi ordenado caminhar pela treva, devemos então, apesar disso, aceitar o reconforto de
sentirmos um outro por alguns momentos. Uma segunda pessoa ameniza todo sofrimento. Que benção nos foi
concedida, Cristina, pois sabemos que a nossa amizade foi
selada com nosso abraço.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Cristina responde:
Antonio, eu não quero fazer nada que possa abalar a nossa
amizade. Na nossa amizade não existe aquele que manda
e aquele que serve; o que existe é uma unidade: em nossas
conversas, em nosso silêncio, em nosso abraço. Quaisquer
que sejam os acontecimentos e abalos que estejam por vir,
eu persistirei e me manterei firme, pois a graça da nossa
amizade e do nosso amor não me foi vetada; eu apenas a
testemunho e assim me fortaleço por tudo o que ainda está
por vir. Sempre sua, Cristina.
Outros trechos das correspondências remetem ao assunto:
Cristina, ambos estamos confusos — provavelmente permanecemos muito tempo em silêncio, de tal modo que finalmente nossos corpos tomaram a palavra e com isso,
por momentos, fomos resgatados da solidão. Mas nós dois
sabemos que é nosso destino caminharmos sozinhos.
Cristina, nós sabemos agora que o céu não nos privou de
nada e, portanto, a paz deve nos envolver.
Querida Cristina — às vezes você quer fugir. Para onde?
Não existe distensão e esquivamento, nós temos de cuidar
de nossa missão, e sua missão é Roma. Para a nossa alma
restam imagens de lugares de refúgio para respirar. Quando em minha cela, com o frio, o sangue para de correr, eu
me refugio no céu tropical da Bahia e afundo o meu olhar
no azul; ali permaneço por vezes durante horas, até que no
meu céu tropical cintilem estrelas. Com isto eu abrando
minha saudade.
Querido Antonio, você me ajudou a aceitar a mim mesma.
Você me ajudou nas palavras; você me ajudou a contar
tudo sobre minha sombra. Eu vivo como culpada entre
não tonsurados, eu vivo como culpada entre não culpados.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Você me explicava: o meu horror se tornaria maior ao longo
dos anos; por conseguinte, a minha verdade iria me livrar
do juízo arrogante e leviano sobre outros.
Como eu a compreendo bem, Cristina! Também eu, às vezes, formulo perguntas: por que justamente agora, depois
de ter findado a sexta década de minha vida? E agora —
você percebe em minha caligrafia que eu interrompi esta
carta por algumas horas — eu me esforço para encontrar
as palavras certas: jamais desejamos cair em uma paixão
destrutiva. A paixão transforma-se muito rapidamente em
fogo-fátuo.
Antonio Vieira também se manifestou em relação às circunstâncias reinantes em Roma — escreveu um discurso que foi
traduzido para o italiano por Cristina:
Em meu discurso sobre São Roque, este santo especial, que
curou e consolou os doentes da peste, eu não citei dois aspectos da peste moral: pouca fé — pusilanimidade — e
muita fé, confiança excessiva. A peste, a pior desgraça para
os homens. No entanto, a peste é uma epidemia que não só
arrebata corpos. A peste se move sorrateiramente em uma
comunidade, em uma cidade, em um país; ela infecta tudo e
mata todos. Quando o governo, a ciência, a religião, o conceito de moral são infectados pelo germe da peste, isso pode
conduzir ao declínio dos homens. Peste significa catástrofe,
significa decisões errôneas, catastróficas, que se disseminam
como uma doença contagiosa, como uma epidemia. Saiamos e curemos — disseminar o bem pelo contágio!
E Antonio Vieira sempre lembra:
Nós sabemos que com palavras superamos tudo, com palavras podemos vencer qualquer escuridão, pois nada é tão
forte e poderoso quanto a palavra.
100 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Isso me faz pensar em Sigmund Freud, que 230 anos depois de Vieira, em 1890, iluminou o fundo das almas com as
suas análises de palavras. Tanto Antonio Vieira quanto Sigmund
Freud procuraram impiedosamente a verdade. A comparação é
audaciosa, eu sei disso, mas trata-se aqui de ciência e de assistência espiritual, que andam de mãos dadas, e vemos, antes de tudo,
quão limitada a ciência é quando o assunto são os problemas e
as angústias que moram no fundo da alma de cada um de nós,
“pois nada tem tanta força quanto a palavra”, isto é certo.
Entretanto, a análise fria e científica não nos ajuda a desatar os nossos nós interiores — como sofrimento, culpa, solidão. Para tanto, nós precisamos de consolo, de esperança, o
que encontramos em Antonio Vieira, “pois atrás da escuridão
encontra-se a luz”. Os textos de Sigmund Freud eu conheço
bastante bem, eu admiro Freud como escritor, no entanto o meu
conselheiro e filósofo pessoal, o meu consolador e mestre é e
continuará sendo Antonio Vieira.
Volto a Antonio Vieira e Cristina Vasa. Em maio de 1675,
o padre Antonio Vieira definiu num discurso na Accademia Reale sua posição em relação a Cristina:
Santidade, confesso minha amizade com Cristina Vasa da
Suécia, confesso que a atenção dada por mim a essa mulher não diminuiu minha atenção dada a Deus, e que ao
contrário a fortaleceu. Reconheço igualmente que sem a
atenção de Cristina eu não teria sobrevivido os cinco anos
passados sem danos à alma e ao espírito.
Essa manifestação chocou o papa, que imediatamente
mandou que Vieira silenciasse sobre o assunto. Não se falou
mais sobre a amizade de Antonio Vieira e Cristina, e todas as
provas foram trancadas em caixas. Poucos dias depois da confissão de amizade por Cristina, em maio de 1675, o papa Clemente
IX libertou o padre Antonio Vieira pessoalmente de toda a culpa e da proibição de pregação e de trocar ideias.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Ainda em maio de 1675, antes da partida de Roma, Vieira
escreveu:
Querida Cristina, Única! Silenciar e apagar são o que eles
tentarão fazer. Eles farão tudo para silenciar e ocultar para
a posteridade o que vivenciamos juntos no período de quase seis anos. Eles não conseguirão fazer isto, jamais.
Em abril de 1689, catorze anos depois da sua partida de
Roma, Antonio Vieira recebe uma carta de Cristina:
Querido Antonio. É dezembro de 1688, um dezembro
ameno em Roma, e nestes dias do ano de 1688 eu completei 62 anos de idade. Você conhece a minha profunda
aversão à perda das forças, ao processo de envelhecimento.
Agora estou justamente aprendendo esta lição.
Algumas semanas atrás o papa Inocêncio XI visitou-me
em Riario; e ele formulou um convite: “O padre jesuíta
Antonio Vieira está convidado para vir a Roma! Padre Antonio morará por um ano na Companhia dos Jesuítas em
Roma como padre livre, pregará na igreja, discursará nos
círculos científicos.”
Querido Antonio, venha para Roma!
E Antonio Vieira responde:
Querida Cristina, Única, eu lhe agradeço pelo gesto magnânimo do convite. Cristina, eu poderia ir e viajar, em
sua ou em qualquer outra direção do céu, contudo eu
não vou fazer isto. Cristina, nós sabemos que em nós
a melancolia inestancável está vinculada com o fato de
ser aceito — por outro, por uma comunidade. Você só
desejava pertencer a si mesma, e eu desejava pertencer
somente ao céu (somente a Deus). Nos anos em que se
era mais jovem, a renúncia à vida em comunidade era
mais fácil. No entanto, com o passar dos anos, com o
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
enfraquecimento físico, a necessidade de ser aceito torna-se mais forte.
Quando retornei a Salvador, em maio de 1681, triste e
abandonado, eu estava convencido de que se repetiria
em mim o destino de São Roque. Através de orações, eu
já havia me preparado para conformar-me em receber
o golpe inflexível — “quem é você, nós não o conhecemos”. Contudo, para mim, algo diverso estava previsto,
pois em Salvador as pessoas diziam para mim: “Você está
aí, padre Antonio, venha, nós o conhecemos!”
Com a minha chegada em Salvador, com o fato de ser
aceito pelas pessoas de Salvador, aos 73 anos de idade,
eu experimentei todas as graças da minha missão de vida:
consolo, benevolência, serenidade, paz e confiança. Eu
nunca mais deixarei esta cidade — Salvador — e seus habitantes. E isto eu faço espontaneamente, pois ninguém
me tolhe o caminho, não importa para onde eu queira
me dirigir.
O que pesa mais em nossa etapa de vida avançada —
amor por uma pessoa ou amor por um lugar? Qual dor é
a mais suportável? Não conseguimos fazer uma opção a
este respeito, nós podemos apenas nos deixar dirigir pelo
céu. E eu fiz isto. A saudade me atormentará, eu sofrerei
enquanto viver, mas para mim não há outro caminho —
eu fico aqui em Salvador.
E agora, nem mais uma palavra, tudo é muito doloroso.
Em gratidão e amor infinitos, seu Antonio.
Contudo, em uma previdência sábia, quando partiu de
Roma, em maio de 1675, Antonio Vieira deixara uma carta ao
papa com um pedido:
Quando Cristina Vasa vier a falecer, ela deveria ser sepultada na Basílica de São Pedro, na Grotte Vecchie, entre os
papas. Esta mulher extraordinária, que para mim significa
muito mais do que a justiça terrena me concede, estaria
deste modo próxima à imortalidade.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Cristina faleceu no dia 19 de abril de 1689, com 63 anos.
Antonio faleceu no dia 18 de julho de 1697, com 90 anos.
Antonio Vieira e Cristina Vasa da Suécia, uma amizade
inigualável. Dois seres iluminados, cujas chamas continuam com
o mesmo vigor até os dias de hoje.*
Gloria Kaiser, austríaca, é historiadora e escritora brasilianista,
havendo publicado diversos livros sobre temas da história do Brasil,
como Dona Leopoldina: uma Habsburgo no trono brasileiro, e Pedro II
do Brasil: filho da Princesa de Habsburgo. É membro correspondente
da Academia de Letras da Bahia, do Instituto Geográfico e Histórico
da Bahia e do Instituto Genealógico da Bahia.
Palestra proferida em sessão ordinária da Academia de Letras da
Bahia, na Sala de Reuniões, em 27 de novembro de 2012, seguida
do lançamento do livro O poder erótico: diário e cartas de Cristina
Vasa, rainha da Suécia, e do padre Antonio Vieira (Rio de Janeiro:
Reler, 2012).
104 ◄◄
POR QUE O MENINO MOZART
BRINCAVA COM OS SONS?
Urania Tourinho Peres
H
á 250 anos, em 27 de janeiro de 1756, nasceu em Salzburg
o menino Mozart. Uma criança cujo brinquedo preferido, ao que tudo indica, era jogar com os sons. Ao contrário de
outras crianças, que também gostam de brincar com os sons, o
menino Mozart acabava por produzir, sem que intenção tivesse,
é o que supomos ao menos inicialmente, peças para violino e
cravo, ainda aos cinco anos de idade. É bem verdade que seu
pai, Leopold Mozart, era músico e, muito cedo, quando o filho
contava quatro anos de idade, o fez aprender a tocar cravo. A
criança tornou-se o que chamamos criança prodígio.
O menino tocava com grande mestria e, segundo dizem
os biógrafos, até com o teclado coberto, mas se um gato aparecia na sala, animal de sua predileção, era capaz de abandonar o
teclado e sair a saltar com o pequeno animal. Podia igualmente, como é comum entre as crianças, transformar um pedaço
de pau em cavalo e ficar galopando, enquanto o instrumento
musical o aguardava (BARRINGTON apud SOLLERS, 2001,
p. 54).
A presença da música, todavia, lhe era indispensável, mesmo quando brincava. Segundo relato de Schachtner, trompetista
da corte, se não havia um instrumento para acompanhá-lo nos
jogos ele pedia que houvesse o canto. “Quando levávamos os
brinquedos de um quarto para o outro, aquele de nós que não
carregava nada tinha de cantar uma marcha ou tocar uma flauta”
(ELIAS, 1991, p. 70). Procurar as terças no piano era um grande
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
divertimento e “nada o fazia mais feliz do que quando encontrava um acorde harmonioso” (STENDHAL, 1815, p. 14).
A criança prodígio surge frequentemente na música, o
que nos leva a interrogar por que a precocidade se apresenta
especialmente nesse domínio. Também encontramos na matemática essa precocidade, mas a relação entre a música e a
matemática é estreita. A produção musical, no entanto, não
contém a pureza da abstração matemática, ou seja, é sempre
um campo aberto para que possamos projetar sentimentos e
pensamentos. A música chama à significação. É um polo de
atração para as fantasias, ainda que não seja essa a sua intenção.
A música instrumental, não acompanhada de um recitativo, carece de significação.
A análise do fenômeno musical pode nos fornecer informações preciosas sobre a relação da criança com os sons, um
enriquecimento para a compreensão da maneira como a entrada
no mundo simbólico se efetua, com a presença e a prevalência
da pulsão invocante.
É verdade que Salvador Dalí, ainda bem pequeno, desenhava figuras de animais, retirando a pintura de uma mesa, chamando a atenção da mãe para a sua habilidade com o desenho,
contudo suas produções desse período não se transformaram
em obras de arte. Na música, a presença da precocidade do talento, sobretudo no intérprete, não é incomum. A irmã de Mozart também gozou dessa excepcionalidade como intérprete, e
dizem que nessa categoria foi melhor que ele. A diferença entre
o intérprete e o criador é bastante acentuada. A dinâmica psíquica, bastante distinta.
Aos oito anos de idade, Mozart viaja para a Inglaterra e
surpreende de tal maneira, que o magistrado inglês Daines Barrington se empenha em investigá-lo. Comunica-se com Salzburg
para ter certeza de sua data de nascimento e elabora um relatório
que envia à Sociedade Real de Londres. Wolfgang causa admiração pela rapidez com que lê partituras à primeira vista.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Apenas põe a partitura sobre a carteira, ataca o prelúdio
como um maestro, fiel à intenção do compositor no andamento e no estilo. [...] Sua voz tem um timbre fraco de
uma criança, mas canta de maneira magistral e inigualável.
Seu pai, que faz a voz grave, desafina uma ou duas vezes,
ainda que esta não seja mais difícil do que a voz aguda. O
menino demonstra, então, certo descontentamento, aponta os erros com a mão e ajuda seu pai a encontrar o caminho [...]. Ao terminar o exercício, aplaude a si próprio em
razão de seu êxito e pergunta com vivacidade se não tenho
outras partituras. (SOLLERS, 2001, p. 53.)
O que entusiasma Barrington é a capacidade do menino
ler, a rapidez com que efetua pela primeira vez a leitura de uma
partitura.
No nono capítulo de A proposição do fundamento: da physis à
razão pura, Martin Heidegger fala de Mozart e introduz a seguinte
citação, que diz ter sido retirada de uma carta do músico:
Enquanto viajo, por exemplo, de carruagem, ou após
uma boa refeição, enquanto passeio, ou à noite, quando não consigo dormir, é quando me vêm as melhores
ideias, quando elas brotam em balbúrdia. Guardo comigo
aquelas de que gosto e não as deixo de cantarolar para
mim, ao menos se acreditamos no que dizem os outros.
Quando as tenho de cor, o resto vem rápido, uma coisa
atrás da outra; penso onde poderia utilizar o fragmento
para fazer uma composição completa, seguindo as regras
do contraponto, os timbres dos diversos instrumentos
etc. Minha alma, então, se excita, ao menos quando não
sou interrompido. A ideia cresce, eu a desenvolvo, tudo
se torna cada vez mais claro, e o fragmento está quase
concluído na minha cabeça, mesmo que amplo, de modo
que, em seguida, posso de uma só vez vê-lo em minha
imaginação como um belo quadro ou uma bela escultura.
Quero dizer que, na minha cabeça, eu não escuto uma
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
parte atrás da outra na ordem em que elas deveriam encadear-se; eu as escuto todas juntas, ao mesmo tempo! Instantes deliciosos! A descoberta e a colocação em prática
ocorrem em mim como num belo sonho, com muita clareza. Porém, o mais belo é ouvir tudo ao mesmo tempo.
(HEIDEGGER apud SOLLERS, 2001, p. 40.)
Heidegger diz citar essa passagem para afirmar que ouvir
é ver. “Ver o todo de uma só vez” e “ouvir tudo ao mesmo tempo” são um mesmo ato. Essa constatação nos conduz ao intricar
pulsional entre escutar e ver, bem como nos envia à dimensão de
leitura da escuta psicanalítica.
É interessante, por exemplo, compararmos essa afirmativa de Mozart com o que escreve Leonardo da Vinci, outro
gênio, em seu livro de anotações sobre a pintura e a música:
[...] tudo o que existe no Universo, em essência, aparência, e na imaginação, o pintor tem primeiro na mente e
depois na mão, e todas as coisas são de tal excelência, que
podem apresentar uma visão proporcionada e harmoniosa do todo, podendo ser vista simultaneamente, de uma
só vez, assim como as coisas na natureza. [...] A música
pode ser chamada de irmã da pintura, pois ela é dependente da audição, o sentido que vem em segundo lugar,
e sua harmonia é composta da união de suas partes proporcionais soadas simultaneamente, subindo e descendo
em um ou mais ritmos harmônicos. (Da VINCI, 2004, p.
164-165, nota 460.)
Tanto o músico quanto o pintor falam de uma antecipação — na cabeça, para Mozart; na mente, para Leonardo — e
de uma percepção do todo, a partir do qual o processo criativo
se desenvolve, ou, ainda, que essa capacidade de captação da totalidade já é o próprio ato de criação. Para Mozart, nem sempre
era necessário passar de imediato para o papel. O que ele criava
podia simplesmente ser guardado na cabeça. Também a simples
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
audição, num só golpe, sem ler a partitura, mas fazendo a leitura
da escuta, não o impedia de tocar com exatidão o que havia sido
escutado. Às vezes, contudo, necessitava do teclado para traduzir o que já estava escrito em seu pensamento.
É dele esta afirmação:
Não posso escrever um poema: não sou poeta. Não posso
arrumar minhas frases artisticamente, de modo que disseminem a sombra ou a luz: não sou pintor. Tampouco posso expressar, por meio de gestos e pantomimas, minhas
ideias e meus sentimentos: não sou bailarino. Mas posso
fazê-lo graças aos sons: sou músico, Musikus. (MOZART
apud SOLLERS, 2001, p. 60.)
A sua relação com os sons é o que se encontra em jogo.
Trata-se, portanto, do que nos interessa: uma escritura que não
joga com o alfabeto. A nota musical produz leitura de som; na
sua relação com outras notas musicais, frases se constituem obedecendo a leis, porém a leitura dessas frases não nos conduz,
necessariamente, como na literatura, a enquadrá-las num imaginário. Como na pintura abstrata, somos exigidos a um exercício de contemplação sem suporte do imaginário, mas de estreita
vinculação entre o simbólico e o real.
A questão que nos propomos é menos a de compreender
o fenômeno da genialidade do que a de tirar dele algumas informações e conclusões importantes para o campo psicanalítico. Assim sendo, não somos nós que interpretaremos Mozart;
na verdade, partimos da certeza de que a precocidade desse
menino traz algo de enigmático e que escapa à nossa compreensão. Uma entrada no universo simbólico por um caminho
que é vedado à maioria. Não me agrada recorrer à psicopatologia para encontrar explicações que, eventualmente, poderiam
ser plausíveis, mas seguramente enganosas. Nada é mais redutor da condição humana que os clichês diagnósticos. Norbert
Elias, em seu livro Mozart: sociologia de um gênio, menciona
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
um diagnóstico de psicose maníaco-depressiva para entender o
genial Amadeus, mas o que, de fato, nos diz essa etiqueta sobre
o seu talento criador? Nada.
Se formos à sua biografia, encontraremos um pai que,
para alguns, portava algo de ditador; para outros, era amoroso e
entusiasmado com o filho; e para outros, ainda, não passava de
um empresário em busca da própria realização, não apenas de
músico como também financeira, por meio de Wolfgang. Uma
mãe linda e zelosa, porém pouco atuante, que o acompanhou
em sua viagem a Paris, onde faleceu, e produziu no filho um trabalho de luto que resultou na fantástica K310. E ainda uma irmã
talentosa, intérprete, que o acompanhou em muitas tournées. As
suas paixões, seu casamento, as disputas com o arcebispo, a luta
pela independência como músico, sua alegria e suas diabruras,
sua ânsia de reconhecimento e amor, que o levava a interrogar
repetidas vezes se era amado, sua alma sensível, enfim, uma história de vida que é fascinante, mas, de fato, não nos responde
sobre o porquê de sua genialidade.
Com efeito, as biografias são muitas e cada biógrafo tenta reconstruir o seu próprio personagem, seu próprio Mozart,
inspirado em fragmentos da vida ou numa extensa correspondência em que ele fala de sua genialidade, sua força criativa,
mas nada revela de por que ele se tornaria o que foi. Ele próprio constata seu espanto em face disso. Segundo Stendhal,
autor de uma pequena biografia sobre o músico, “o jovem Mozart acreditava firmemente que executar um concerto e fazer
um milagre eram a mesma coisa” (STENDHAL, 1815, p. 16).
São especulações válidas, pois necessitamos sempre preencher
a novela de cada um, ocupar o vazio do enigma. Ao entrar em
contato com a música, Mozart quase abandonou todos os outros divertimentos. Também os números o fascinaram e, “enquanto aprendia a fazer contas, as mesas, cadeiras, paredes e
até o chão ficavam cobertos de números que escrevia a giz”
(STENDHAL, 1815, p. 16).
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Sobre o homem Mozart sabemos alguma coisa, porém sobre o fenômeno Mozart é difícil saber... Mas o homem desapareceu tão completamente, que mesmo a certeza de um lugar onde
repousariam seus restos mortais lhe foi negada. Onde há uma lápide, um nome e uma data que marcam a existência vivida, vê-se
uma construção arbitrária, mais dirigida à genialidade do que ao
simplesmente homem. Mozart foi enterrado numa vala pública.
Seu túmulo é um tributo à imortalidade, que lhe foi conferida
por sua força criativa. Sua música permanecerá sempre viva e
nos entusiasmará sempre e cada vez mais.
Freud falou pouco sobre a música, sendo explorada, excessivamente, uma suposta aversão de sua parte a essa manifestação
artística, o que não cremos. O que ele nos disse, e creio ser essa
uma afirmativa importante, é que a música constituía-se para ele
num enigma que o afetava demasiadamente pelo fato de não poder
dominá-la pela razão. Falou com sabedoria. Somos informados
por seu filho Ernest, contudo, de que Mozart era o seu preferido.
Se Freud apreciava Mozart, é porque ele sabia sobre música, apenas nada disse, e, quem sabe, por trazer a sabedoria de que sobre
a música não há dizer a ser dito. Não existe uma música que possa
dizer o que é a música, e as palavras, em sua tentativa, fracassam.
Em carta de 16 de junho de 1931, Stefan Zweig escreve a
Freud e lhe envia cartas de Mozart:
Enquanto “conhecedor dos altos e baixos”, o senhor não
considera totalmente supérflua, eu espero, a tiragem fora
de comércio em anexo, que eu só transmito a um círculo
dos mais restritos: as nove cartas de Mozart com 21 anos,
das quais eu publico uma aqui in extenso, esclarecem com
uma luz muito particular, no plano psicológico, a sua vida
erótica, que mostra mais infantilismo e paixão pela coprolalia do que em qualquer outro grande homem. De fato,
haveria aí um estudo interessante para um de seus alunos,
pois todas as cartas sem exceção giram em torno do mesmo assunto. (FREUD & ZWEIG, 1991, p. 82.)
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Freud responde 19 dias depois:
Obrigado pela tiragem fora de comércio! O fato de que
Mozart apreciava e cultivava o “som das porcarias” me
era conhecido, não sei mais de onde. Não há nada a opor
à explicação que você dá. Observei, analisando vários
músicos, um particular interesse, e que remonta à sua
infância, pelos barulhos que se produzem com os intestinos. Será que se trata de um dos aspectos de seu interesse geral pelo mundo sonoro, ou será preciso pensar que
entra no dom pela música (que nos é desconhecido) um
forte componente anal? Deixo a questão em suspenso.
(FREUD & ZWEIG, 1991, p. 82-83.)
Cartas preciosas para um psicanalista. É interessante
lembrar também que foi por intermédio de Zweig que Salvador Dalí encontrou-se com Freud, que dizia não poder compreender o fervor que os surrealistas lhe devotavam. Ainda que
Freud não tenha analisado as cartas, como pretendia Zweig,
ele não deixou de fazer uma importante observação, ao situar
nos ruídos do corpo o interesse pelos sons e, posteriormente,
pela música.
A psicanálise, por meio de sua teoria das pulsões, em especial o desenvolvimento que lhe foi dado por Jacques Lacan,
que acrescentou às pulsões destacadas por Freud a escópica e a
invocante, assinalando ser esta a mais próxima do inconsciente,
permite-nos desenvolver algumas hipóteses1.
Arriscamo-nos, então, a afirmar que a música é das construções humanas a que maior proximidade mantém com o inconsciente, e talvez por essa razão seja tão enigmática no efeito
que produz. Se em nossa fala manejamos com significantes que
mantêm uma relação preestabelecida com o significado, em sua
remissão a um referente, na música os sons gozam de absoluta liberdade, enquanto puro som. Talvez possamos afirmar um
estado nascente do significante antes da domesticação da língua
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
materna. Para Stravinsky: “Se, como é quase sempre o caso, a
música parece exprimir algo, é apenas uma ilusão e não uma
realidade” (STRAVINSKY, 1936, p. 70). Quanto a isso, vale lembrar que a música está presente entre os animais, pois os pássaros cantam, porém deixaremos de lado essa questão. Os animais
cantam, mas não possuem voz.
O primeiro contato do embrião com o mundo externo
se realiza pelos sons, em especial os da fala materna. A sonoridade da voz materna, a “sonata materna”, favorece, já de
maneira decisiva, a entrada do bebê num mundo de harmonia significativo da presença de uma lei que posteriormente se
configurará como a submissão às leis do simbólico, ao universo da linguagem. Essa harmonia, contudo, também pode faltar
e produzir seus efeitos.
Assim sendo, é provável que a proximidade do inconsciente e a sua característica de ser o veículo de primeiro contato com o mundo externo justifiquem que a precocidade da
criança se apresente na música, no manejo dos sons que envolvem o embrião. Todos acompanham o desenvolvimento do
balbucio de um bebê e percebem o caráter lúdico que ele desempenha em seu desenvolvimento, assim como a possibilidade da emissão de todos os sons. Está provado, pelas pesquisas
psicológicas, que nascemos com aptidão para qualquer língua.
Mas o que levaria alguns a conservar, mais ou menos, essa riqueza na emissão sonora, assim como a excelência de captação
e a possibilidade de reprodução dos sons ouvidos? A ideia que
nos surge é que algo acontece que tapa nossas bocas e fecha
nossos ouvidos.
Mozart sabia distinguir, e indicar, as menores diferenças
entre os sons; e qualquer som errado, ou apenas rude e
não doce produzido por algum acorde, era uma tortura
para ele. Foi por isso que, durante sua primeira infância, e
mesmo até a idade de dez anos, teve um horror invencível ao trompete, que servia unicamente para acompanhar
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
uma peça musical; quando o instrumento lhe foi mostrado, teve quase a mesma sensação que, em outras crianças,
provoca uma pistola carregada que se vira contra ela. O
pai acreditou poder curá-lo desse horror fazendo o trompete soar em sua presença, apesar dos pedidos do jovem
Mozart para que não o fizesse; ao primeiro som ele empalideceu, caiu no chão e, visivelmente, teria tido convulsões, se o pai não tivesse parado de tocar. (STENDHAL,
1815, p. 21.)
A criança prodígio vê acrescentarem-se ao seu jogo musical os qualificativos de obra de arte ou de grande intérprete.
É o Outro que lhe confere esse estatuto. Mas não lhe confere
ao acaso. A sua produção insere-se já numa categoria que lhe
dá esse estatuto. E, seguramente, por certa particularidade no
funcionamento pulsional.
Para a psicanálise, o conceito que procura uma compreensão do fenômeno artístico é o de sublimação. Pouco explorado na obra publicada de Freud, que teve um texto inteiramente
dedicado a desenvolvê-lo, mas foi perdido, recebeu da parte de
Lacan atenção especial. Enquanto Freud acentuou o caráter
de desvio da pulsão sexual para outros fins, Lacan centrou a
leitura desse conceito em torno do vazio e, consequentemente,
de um real impossível de ser dito pelo simbólico. Um vazio
que o mundo das representações não preenche, mas é constitutivo da nossa condição de humanos e nos estrutura. Fruto de
uma precoce relação com a mãe, marcada por um excesso ou
uma carência, contudo sempre impossibilitado de ser traduzido pelo universo da linguagem. Lacan denominou esse vazio,
que sempre nos compele a preenchê-lo, de das Ding, a Coisa.
Um espaço ou lugar permanentemente projetado, mas nunca
alcançado. E é nessa direção que Lacan situa o impulso criador
e a arte. Uma transformação do objeto, exemplificada por ele
mediante o objeto do colecionador, que pode ser simplesmente uma caixa de fósforos, ou ainda pelo amor cortês, no qual
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
a mulher é tida como inatingível e sublime. Há, portanto, uma
“elevação” do objeto, e daí a definição da sublimação como a
elevação do objeto à dignidade da Coisa. Tal leitura da sublimação fica muito evidente nas chamadas artes visuais, em que
acompanhamos, por exemplo, Marcel Duchamp transformar
um urinol em objeto de contemplação em museu.
A música enquanto manifestação artística introduz uma
complexidade, parece-me, que toma outro caminho, outra via na
compreensão da sublimação, e talvez por isso ela seja considerada
a mais sublime das artes. O fenômeno é de outra espécie. Olhar ou
pintar um quadro, ler ou escrever um romance, ouvir ou compor
uma música marcam diferenças no circuito das pulsões escópica
e invocante. Na música, o que está em jogo é, sobretudo, a invocação: o som e sua escuta. Existe, não obstante, o que é chamado
de “ouvido absoluto”, um ouvido que não apenas escuta, mas, ao
mesmo tempo, faz a leitura da partitura, conformando, portanto,
uma escuta que implica o intricar pulsional escópico e invocante.
Uma escuta que contém uma leitura, efetuada pela escuta. De volta a Heidegger: ver o todo, ouvir a totalidade, uma mesma coisa.
A poesia mantém proximidade com a música. A poesia,
em verdade, é uma escrita, um uso da palavra em que a sonoridade segue na frente da significação. A significação importa pouco
ao poeta, uma vez que ele cria sentidos novos, ou simplesmente
ignora os já convencionados. Ainda no ato de escrever poesia,
cremos que a invocação predomina, pois ela está intimamente ligada à música. Do poeta pode ser dito que é um músico aprisionado pela palavra, que luta com a palavra, que maltrata a palavra
em sua ânsia de dizer o indizível.
A música, como já dissemos, está fora da significação e,
exatamente por isso, não apenas porta um enigma, como é o
próprio enigma. Situa-se num mais além, numa transcendência.
Somos nós, os ouvintes, que a carregamos de sentido.
A verdade é que poucos psicanalistas se aventuraram a
falar sobre a música, tendo preferido manter a ideia de que
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
psicanálise e música nada têm em comum, como François Perrier, brilhante psicanalista da geração de discípulos de Lacan.
Daniel Sibony, no entanto, procura explicar esse afastamento:
Sabemos que a psicanálise e a música não se entendem
bem juntas. O grande mal-entendido tem a ver com o fato
de que o “psi” escuta a música como um discurso: ele se irrita então com toda essa sedução, esses impulsos narcísicos
que não soltam “significantes”, e gozam de nos submergir
e de se submergirem. (SIBONY, 1995, p. 308.)
De tal procura do discursivo é exatamente o que o psicanalista deveria abster-se, e, assim, permanecer na dimensão
musical, mas isso é difícil.
A dimensão fora do discursivo é claramente expressa por
Igor Stravinsky:
Considero a música, por sua essência, impotente para expressar o que quer que seja: um sentimento, uma atitude,
um estado psicológico, um fenômeno da natureza etc. A
expressão nunca foi a propriedade imanente da música...
Se, como é quase sempre o caso, a música parece expressar algo, é apenas uma ilusão, e não uma realidade. É
simplesmente um elemento adicional que, por uma convenção tácita e inveterada, nós lhe emprestamos [...] e que
chegamos a confundir com a sua essência. (STRAVINSKY,
1936, p. 70.)
Talvez esteja aí o insuportável para o psicanalista, essa
abolição do imaginário, já que ele lida permanentemente com
a força e a fragilidade da palavra, abolindo seu sentido, mas em
busca de novos sentidos.
Didier-Weill faz uma chamada para a relação direta da música com o real. A música não é uma metáfora, será? A música,
é possível supor, está próxima de “lalíngua”, neologismo criado
por Lacan para nos dizer desse remanescente do balbucio, desse
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
som corporal abandonado quando da domesticação pela língua
materna, dessa expressão singular de cada um, murmúrio visceral, fala do corpo perdida para o corpo falante ou sobre a qual
uma surdez se instala.
Stravinsky nos ajuda nessa direção: “Assim, uma das primeiras impressões sonoras de que eu me lembro pode parecer
bastante bizarra.” Ele relata que, quando pequeno, no verão,
passava férias no campo. Descreve um camponês e o estranho
ruído que provocava:
Ele era mudo, mas estalava com muito barulho a língua,
e as crianças tinham medo dele. Eu também. A gente se
aproximava dele para divertir as crianças, e ele se punha
a cantar. Esse canto — eram duas sílabas, as únicas que
ele podia pronunciar, desprovidas de qualquer sentido,
mas que ele fazia alternar com uma destreza incrível, num
movimento muito vivo. Ele acompanhava esse cacarejo da
seguinte maneira: colava a palma de sua mão direita sob a
axila esquerda, depois, com um gesto rápido, fazia o braço
esquerdo mexer apoiando-o na mão direita. Fazia sair assim de debaixo de sua camisa uma sequência de sons bem
suspeitos, mas bem ritmados, e que por eufemismo se poderiam qualificar como “beijos de babás”. Isso me divertia
loucamente e, em casa, eu me punha a imitar essa música
com muito zelo. (STRAVINSKY, 1936, p. 11-12.)
Reproduzir o som estranho do camponês e o canto em
uníssono de mulheres de um vilarejo vizinho, nesse mesmo verão em férias, indicou-lhe a “justeza” de seu ouvido. E ele acrescenta: “Foi a partir desse momento que tomei consciência de
mim mesmo como músico” (STRAVINSKY, 1936, p. 12).
Voltemos a nossa pergunta inicial: por que o menino Mozart brincava com os sons e produzia obras de arte?
Freud, na carta em que responde a Zweig, chama a atenção para a escuta dos ruídos corporais e estabelece uma relação
com a pulsão anal. Podemos também arguir a correspondência
►► 117
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
de Mozart, sobretudo as cartas enviadas a Constanze, sua noiva,
em que um erotismo anal se manifesta em toda sua pujança.
Ocorre-nos também lembrar o relato que Robert Craft, em seu
livro Stravinsky: crônica de uma amizade, faz dos cafés da manhã
em que o compositor, além de gostar de relatar seus sonhos,
fazia uma descrição do seu funcionamento intestinal, mencionando forma e textura, “tipo minestrone ou tipo consomé”, e até
mesmo o aroma, se sulfuroso ou acre. Ainda é Craft quem diz:
Igor Sravinsky encaixa-se perfeitamente no que Freud descreveu como a personalidade anal: o hábito de catalogar,
poupar, acumular, reter, estocar [...], a exatidão, a precisão,
a pontualidade, e também o rigor, a severidade, a exigência,
a ordem e o asseio. (CRAFT, 1994, p. 39-46.)
O que, todavia, nos chama a atenção no comentário de
Freud é, sobretudo, a ênfase dada à escuta dos ruídos do corpo.
Uma fala corporal e sua escuta.
Em outro texto, levantei a hipótese de uma especularidade sonora que anteciparia a especularidade imaginária. E,
quando nos detemos na descrição que Mozart faz de seu processo criativo — “na minha cabeça, eu não escuto uma parte
atrás da outra na ordem em que elas deveriam encadear-se;
eu as escuto todas juntas, ao mesmo tempo! Instantes deliciosos! A descoberta e a colocação em prática ocorrem em mim
como num belo sonho, com muita clareza. Porém, o mais belo
é ouvir tudo ao mesmo tempo” —, não podemos deixar de
nos lembrar do júbilo da criança ao contemplar sua imagem
unificada no espelho.
Poderemos levantar, para responder a nossa pergunta inicial, a hipótese de um predomínio do especular sonoro, em que
simbólico e real ganham força sobre o imaginário do sentido.
A música não se propõe a um sentido, mas pode estar aberta a
qualquer sentido. A música, assim como a pulsão invocante, fala
de uma proximidade maior com o inconsciente. Como interpretar
118 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
essa proximidade senão dando-lhe o lugar originário dos primeiros sons escutados, “a relação mais primordial do sujeito com o
Outro”, como nos diz Alain Didier-Weill, em que o sujeito, antes
de receber a palavra, recebe uma raiz, uma base sobre a qual esta
germinará. Tempo não memorável, mas comemorável, traço unário, nome primeiro, nota escandida, intraduzível, pois ainda não
assumida pela palavra.
“A música é o único domínio em que o homem realiza
o presente. Pela imperfeição de sua natureza, ele está fadado a
sofrer o escoamento do tempo — de suas categorias de passado e de futuro — sem jamais poder tornar real e, portanto, estável a do presente”, disse Stravinsky (1936), marcando assim
o “grande mistério da música”, que consiste, ainda no dizer de
Didier-Weill, na ausência de diacronia com o Outro e no estabelecimento de uma sincronia absoluta.
Antes de concluir, gostaria ainda de levantar esta questão:
acaso a escuta dos ruídos corporais, a placenta e seu líquido em
ondas permanentes, não antecederia a escuta da voz materna?
Salvador Dalí, em seu diário Vida secreta, no capítulo intitulado
“Lembranças intrauterinas”, apresenta a seguinte descrição: “o
paraíso intrauterino tinha a cor do inferno, isto é, vermelho,
alaranjado, amarelo e azulado, a cor das chamas, do fogo; era
sobretudo doce. Imóvel, quente, inacabado, duplo, pegajoso.
Naquele tempo, todo prazer, todo encanto estava, para mim,
em meus olhos” (DALÍ, 1942, p. 285-286).
Se o menino Mozart nos trouxesse, como Dalí, uma recordação dessa fase inaugural de sua vida, será que não nos falaria de uma profusão sonora, uma sinfonia que o embalava, para
então concluir que, desde aquele tempo, todo o prazer e todo o
encanto lhe chegavam pelos ouvidos?
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
NOTA
Freud chama a atenção para o fato de que, ao entrarmos no mundo
humano, no universo da linguagem, e, portanto, tornarmo-nos seres
falantes, perdemos a possibilidade de ser guiados pelo modelo instintivo que domina nas espécies animais. Trouxe, então, o conceito de
pulsão para ocupar esse lugar do instinto perdido. Assim, passamos
a ser comandados pelos circuitos pulsionais, que, originando-se dos
orifícios corporais, tendem sempre a objetos parciais, na medida em
que não existe uma única pulsão. Freud nomeou três: oral, anal e fálica. Lacan acrescentou outras duas: escópica e invocante. Da última
destacou duas particularidades: ser a mais próxima do inconsciente e
dirigir-se a um objeto total e não parcial, a voz. Um orifício corporal:
o ouvido; um objeto: a voz, enquanto pura sonoridade.
1
REFERÊNCIAS
CASAS, Lincoln Maiztegui. Mozart por trás da máscara. São Paulo: Planeta, 2006.
CINGRIA, Charles-Albert. Correspondance avec Igor Stravinsky.
In: Nouvelles correspondances de Charles-Albert Cingria. Lausanne: L’Age
d’Homme, 2001.
CRAFT, Robert. Conversas com Igor Stravinsky. São Paulo: Perspectiva,
2004.
__________. Stravinsky: crônica de uma amizade. Rio de Janeiro: Difel,
2002.
DA VINCI, Leonardo. Anotações de Da Vinci por ele mesmo. São Paulo:
Madras, 2004.
DALÍ, Salvador. La vida secreta de Salvador Dalí. Barcelona: Empuries,
1993.
DIDIER-WEILL, Alain. Os três tempos da lei: o mandamento siderante,
a injunção do supereu e a invocação musical. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 1997.
ELIAS, Norbert. Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge
Zahar Editor, 1994.
FREUD, Sigmund & ZWEIG, Stefan. Correspondance. Paris: Rivages,
1991.
120 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
GAY, Peter. Mozart. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999.
HILDESHEIMER, Wolfgang. Mozart. Barcelona: Destino, 2005.
MOZART, Wolfgang Amadeus. Cartas vienenses. São Paulo: Veredas,
2004.
__________. Mozart: sua vida em cartas. Rio de Janeiro: Reler Editora,
2006.
SOLLERS, Philippe. Misterioso Mozart. Ciudad del México: Fondo de
Cultura Económica, 2003.
SIBONY, Daniel. Le corps et sa danse. Paris: Seuil, 1995.
STENDHAL [Henri-Marie Beyle]. A vida de Mozart. Rio de Janeiro:
Revan, 1991.
STRAVINSKY, Igor. Chroniques de ma vie. Paris: Denoël, 2000.*
Urania Tourinho Peres é psicanalista e escritora. Fundou e dirige o
Colégio de Psicanálise da Bahia. É membro da école lacanienne de
psychanalyse, membro correspondente da Association Insistence,
ambas de Paris, e A. E. pela Escuela Freudiana de Buenos Aires.
Publicou Mosaico de letras e Depressão e melancolia, organizou coletâneas
e assina artigos em livros e revistas especializadas.
Palestra proferida em sessão ordinária da Academia de Letras da
Bahia, na Sala de Reuniões, em 18 de abril de 2013.
►► 121
128 TWITTERS SOBRE MOZART,
MÚSICA E PSICANÁLISE
Uma resposta experimental
ao texto de Urania Tourinho Peres*
Paulo Costa Lima
Quem quer que tenha descoberto Mozart, mesmo apenas um pouquinho,
e tente falar algo sobre ele, cai logo num tipo de gagueira bastante visível.
Karl Barth
A música tem gênero. Mas não tem genitais. Pelo menos, se a ela tivesse
que ser dado um falo, teria que ser construído sob a forma de discurso.
Daniel Chua
Eis aqui som puro, em conformidade com um cosmos sem
gravidade, triunfante sobre toda essa terrenidade caótica.
Alfred Einstein
1. Começo rendendo homenagem à autora, sua visão e estratégias discursivas.
* N. do A.: Experimental no sentido da forma. O que acontece quando
o discurso se twitteriza? Como devemos lidar com a impossibilidade
pós-moderna de atenção a mais do que uma linha? Sigo aqui brincando
e experimentando com essa arte de concisão forçada, tecendo
outros caminhos de elaboração e desenvolvimento, oscilando entre
a percepção de completude da síntese e a provisoriedade do esboço.
Não esquecer que se trata de oralidade, uma performance falada, em que
cada item pede exemplos e demonstrações que aqui não estão.
►► 123
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
2. Isso porque há poucos temas tão espinhosos como o que ela
aborda.
3. A propósito: não é apenas um texto sobre Mozart, e sim
sobre a experiência música.
4. A “experiência música” vis a vis a “experiência do inconsciente” — Mozart entra como caso exemplar.
5. E quem tem bom ouvido já sabe da polissonância contida
nos dois sintagmas.
6. A experiência música é algo que dificilmente aceita tal nome
de síntese.
7. Quem nos dá o direito de unificar aquilo que pigmeus e japoneses fazem com os sons, ou com o tempo?
8. Existem músicas em todos os lugares e culturas, e em todos
os tempos.
9. Em algumas culturas nem existe a necessidade de uma palavra para designar isso.
10. Os índios suyá, da Amazônia, não têm canções próprias, tomam de empréstimo nos encontros.
11. Na Grécia Antiga surge uma teoria do ritmo com Aristoxenus e o seu ritiminomezon.
12. É o conceito de todos os campos ritmizáveis — fala, melodia, dança. Estamos há 2500 anos.
13. Alguns lembram que a relação entre música e sons não é
necessária — som é apenas material.
14. A relação fundamental é com o tempo, não existiria música
sem tempo (até que alguém faça uma).
A ideia de que música é algo inerente ao campo sonoro é
relativamente recente.
Está em Rameau (1727).
Só no século 18 é que música torna-se apenas o que pode
ser ouvido.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
15. Como disse Urania: a música é um campo aberto.
16. E como diz Bohlman: música pode ser o que a gente pensa
que seja — e pode não ser.
17. Pode ser sentimento e sensualidade; pode não ter nada a ver
com emoção e sensação.
18. Pode ser algo para o qual se dança, reza ou faz amor; mas
não é sempre o caso.
19. Sendo assim, qualquer metafísica da música separa um tempo e lugar do resto todo.
20. Um tempo e lugar pensado como próprio.
21. Pensar sobre música acaba sendo uma tentativa de controle,
de pertencimento.
22. O outro sintagma: a experiência do inconsciente. Como assim experiência, se é só-depois?
23. Inconsciente que carrega a marca de uma estranheza de si,
de um outro em nós.
24. Uma relação de aturdimento, de um não saber pensar sobre
o que se passa.
25. E especialmente de um não poder falar sobre, de uma falta
em algo.
26. E aí uma relação multifacetada com a música que também
aciona o não falável.
27. Seeger teve a visão de propor categorias distintas de conhecer: speech knowledge e music knowledge.
28. Ora, o não falável pode ser algo tão concreto quanto o universo do tato para o instrumentista.
29. Não estaria a música envolvida com tudo que não é música,
como a fala com tudo que não é fala?
30. No meio desses sintagmas imponderáveis, uma montanha
chamada música e psicanálise.
31. Uma montanha que precisa ser escalada, ou escavada por
túneis de vários lados distintos.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Em que sentido a psicanálise oferece interesse para a teoria
da música?
Em princípio porque questiona justamente o chamado paradigma estrutural-organicista.
Empurra o discurso sobre música na direção da própria
experiência, se alia à fenomenologia.
E nesse sentido tem um papel de fazer emergir “estruturas
de prazer” — as cadências, por exemplo.
O prazer, que nunca aparece de forma explícita na tradicional teoria da música.
Mas ninguém pergunta impunemente pelo prazer.
Isso porque não se percebe com clareza as linhas de transição para algo bem mais desafiador: o gozo.
32. Em 1995, com a ajuda do Freud Museum de Londres, recolhi uma bibliografia de 110 artigos sobre isso.
33. Hoje, seguramente, essa quantidade duplicou ou triplicou.
O início do meu interesse pelo tema, em 1991: um musicólogo inglês visitando a Bahia (Keith Swanwick).
Perguntaram a ele pela relação entre música e orgasmo. Ele
pigarreou e disse que responderia a seguir.
Voltou do almoço e disse: “já tenho a resposta, depende
do dedilhado”.
Todos riram. A resposta foi muito boa e muito inglesa ao
esconder o assunto: nada se pode dizer sobre isso.
Não do ponto de vista da educação musical, inspirada pela
cognição.
Mas o vermezinho ficou em minha cabeça. A vanguarda
não pode silenciar sobre o prazer da música.
Nessa história da relação entre música e psicanálise há
artigos marcados pela teoria da libido, pela teoria do narcisismo (Teller), pelas etapas do desenvolvimento infantil
(Sterba), pela noção de compulsão à repetição, pela noção de agressividade já com um pé nas ideias de Mellanie
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Klein, pela psicanálise do ego (Kohut) e pela psicanálise
lacaniana (especialmente a pulsão invocante). E sobre
três funções: a catarse dos desejos reprimidos, o jogo
de domínio sobre as ameaças traumáticas e a submissão
prazerosa ao jogo de estabelecimento de regras (LIMA,
1995).
34. Tudo isso, não sendo montanha, poderia ser enorme moinho de vento a exigir a presença de algum Quixote.
35. E aqui volto à degustação do texto de Urania — nada mais
longe do quixotismo vulgar.
36. Nada de sair correndo em linha reta na direção do obstáculo.
É mais uma dança de véus.
37. Uma outra espécie de heroísmo, alguns diriam feminino, outros diriam psicanalítico.
38. Então, não é verdade que a psicanálise foi criada por uma
limpadora de chaminés?
39. O que quer de mim esse seu texto, Urania?
40. Como reinventar o papel de Sancho Pança no delicado contexto dessa dança de véus?
41. Os temas e personagens vão sendo tecidos por um fio suave
de associação e inferência.
42. O menino Mozart, seu pai, sua mestria aos cinco anos, seu
gato, suas terças no piano.
43. Tudo isso com referências biográficas de boa estirpe. Além
de uma ciranda de nobres pensadores.
44. De repente, o magma: “a música chama à significação, é um
polo de atração para as fantasias”.
45. O primeiro escrito sobre música e psicanálise já tocava na
tecla da fantasia: Frieda Teller, 1917-19.
46. Urania vai além: a entrada no mundo simbólico com a presença e prevalência da pulsão invocante.
►► 127
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
47. Esse será um dos polos conceituais estruturantes do texto.
48. Qual Sancho Pança orgulhoso e destemido, grifo 25 umbigos temáticos oferecidos pelo texto:
i. Por que a precocidade se apresenta especialmente
em música?
ii. A música como campo aberto para a projeção de
sentimentos e pensamentos.
iii. A complexa relação entre música e significação (música está fora da significação?).
iv. A complexa relação entre música e fantasia.
v. A pulsão invocante e a entrada no mundo simbólico.
vi. As diferenças entre intérpretes e criadores.
vii. O emaranhado pulsional entre escutar e ver.
viii. A percepção do todo, a captação da totalidade.
ix. A relação entre música e linguagem (gozam de absoluta liberdade, puro som).
x. Música e pintura abstrata: exercícios de contemplação sem suporte do imaginário.
xi. O trabalho de luto da Sonata K310 para piano solo.
xii. O Mozart de cada biógrafo.
xiii. Freud falou pouco sobre a música (apreciava Mozart).
xiv. Música e componente anal.
xv. Os balbucios de um bebê — o real e “lalíngua”.
xvi. Música e sublimação, vazio e das Ding — elevação à
dignidade da “Coisa”.
xvii. Música e poesia.
xviii. Música incapaz de expressar qualquer coisa (Stravinsky).
xix. Música e abolição do imaginário (relação direta com
o real, não é metáfora, será?).
xx. A escuta dos ruídos do corpo.
xxi. Uma especularidade sonora que anteciparia a especularidade imaginária...
xxii. Predomínio do especular sonoro: simbólico e real
ganham força sobre imaginário do sentido.
xxiii. As lembranças intrauterinas.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
xxiv. O enigma de Mozart.
xxv. E acrescento eu: o enigma de sua música.
49. O que fazer, se cada umbigo poderia ser uma palestra ou
mesmo um livro de per si?
50. Reconheço a legitimidade de todos esses temas e realçarei
alguns deles em busca de diálogo.1
51. Talvez caiba aqui um pequeno salto na direção do material
sonoro, da vivência musical.
52. Na verdade uma situação musical muito distinta do mundo
de Mozart: o candomblé.
53. Gostaria de chamar a atenção para o celebrado toque dedicado a Xangô, o Alujá.
54. Quando concedemos alguma atenção analítica ao padrão
que se repete, há nuances mil.
55. Trata-se de uma estrutura de doze pulsos, número de Xangô;
abriga sete batidas do agogô.
56. Como é possível um grau tão elevado de repetição e redundância sem perda de interesse?
57. A resposta: o delicioso conflito entre expectativa métrica (6
+ 6) e realidade rítmica (5 + 7).
58. O conflito garante o movimento perpétuo, uma frase com
estabilidade e desequilíbrio.
59. Por que estamos abordando o candomblé? Porque achamos
que o transe é um modelo importante.
60. Traz de saída a lembrança de veios temáticos que estão nos
textos de Freud sobre “hipnose e estar amando”, mas também Totem e tabu...
61. Um alabê me disse: “eu só faço empurrar a pessoa para a
beira do precipício, mas ela cai sozinha”.
62. Como se “levar até a beira do precipício” não fosse algo
decisivo, função precípua da música?
►► 129
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
63. Na verdade ela não cai sozinha, ela cai no Outro, impulsionada pelo “supereu manda gozar”.
64. A relação entre esse conflito-precipício e a convocação de
pertencimento do corpo.
65. Pertencimento ao chamado rítmico (o nosso rebolado), pertencimento à ordem divina.
66. Aproximação de uma situação de gozo absoluto, mediada
pelos orixás e supervisionada.
67. Vale lembrar o papel de Olorum, pai criador primitivo, que
permanece inacessível.
68. “Se Deus não existe tudo é permitido”, falso, diz Lacan: nada
é permitido — aqui, Olorum autoriza.
69. Estamos em pleno espaço da pulsão invocante; e tal como
colocado por Urania.
70. “A música toma outro caminho, outra via na compreensão
da sublimação — a invocação”.
71. Essa atitude dispensa dezenas de pseudotextos que tratam a
música como sintoma.
72. Sem, portanto, levar em conta a distinção entre sintoma e
sublimação, muito bem explicada, aliás.
73. Não custa enfatizar, compartilhamos a admiração por Didier
-Weill e sua recriação lacaniana.
74. A vocação de um sujeito — como responderá à voz que lhe
pergunta: onde está você?
75. Na medida em que é “tocado”... descobrirá que de fato não
é você que escuta.
76. A música é que o escuta, que escuta uma presença cuja existência foi esquecida...
77. Se essa presença lhe é dada é que você não pode oferecê-la
a si mesmo...
78. Ela está à disposição soberana do Outro.2
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
79. E mais: a revelação é surpreendente; a surpresa é dispensadora de alegria.
80. O sujeito encontra aí a possibilidade de se fincar na fé de que
a música é a Coisa.
81. O candomblé permite lembrar o papel de racionalidade universal da música no mundo antigo.
82. A ilustração secular — Utriusque cosmi — apresenta a ordem
divina como relações sonoras: a mão de Deus afinando esse
monocórdio celeste.3
83. Na modernidade, a música precisa atravessar um processo
de desencantamento (vide Weber).
84. A ressistematização da música em novas bases (acústicas,
científicas) é parte desse processo.
85. Mas o desencantamento empurra a música em novas direções (ópera, harmonia, Bach... Mozart).
86. Aliás, registra-se aí uma duplicidade: a tentativa de recantar
(reencantar) o mundo (ópera) e a música instrumental.
Registro curioso: quando penso em Smetak, não posso
deixar de lembrar da afinação celeste.
Como se ao apontar para o futuro Smetak trouxesse toda
a ancestralidade de Boécio de volta.
Com sua música “mundana”, “humana” e instrumentalis.
87. Aqui se insere algo relativo à longa duração: todos aceitamos
com facilidade a noção de “episteme”.
88. A proposta de Foucault de que há uma conformação para
aquilo que uma época pode saber.
89. Mas Terry Eagleton diversifica essa questão em três perguntas:
i. o que podemos saber (epistemologia e cognição)
ii. o que devemos fazer (ética e política)
iii. e o que nos atrai (o estético-libidinal)
►► 131
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
90. Então haveria algo semelhante à episteme no campo do que
“nos atrai”, o campo estético-libidinal?
91. Aliás, só a decisão de fundir estética e libido já é algo bastante instigante.
92. Não consigo achar o nome para esse conceito ou noção —
essa “libideme”.
93. Vejo que Joel Birman fala em “destinos do gozo” ao lidar
com o problema da longa duração.
94. Lembra que do paradigma da salvação passamos ao paradigma da cura (e da medicalização).
95. Qual seria o paralelo com o mundo do conhecimento de arte
— de que espécie de cura ou remédio?
96. A música do pré-desencantamento respondendo a coisas
bem distintas do que a música de hoje.
Um belo exemplo seria ouvir aqui o Kyrie de Machaut.
97. A música de uma época onde a histeria é muito importante
versus uma época que tende à perversão.
98. São questões que a relação com o Outro, no campo da música, parece autorizar.
99. A catedral gótica versus o corpo de Michael Jackson.
100. A catedral gótica versus o Alujá de Xangô.
101. A catedral gótica versus o shopping center — e Mozart como
ponto intermediário na série.
102. A construção do sujeito da individualidade: a interioridade
e o heroísmo cuidadosamente embalados em forma dramática, em forma sonata... (McClary).
103. Até que ponto o “modelo” do candomblé não teria uma série
de coisas aplicáveis a diversos outros contextos musicais?
104. Até que ponto poderíamos falar num terreiro mozartiano?
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
105. Perfeição, pureza, graça, inocência, revelação e redenção:
são palavras sempre associadas a Mozart.
106. Como se a sua música pairasse por sobre o Mal, sem exposição do conflito, ao contrário de Beethoven.
107. Como entender esse desafio de construção da experiência
música como graça que transcende?
Acaba de ser lançado pela Princeton University Press o
livro Mozart’s grace, de Scott Burnham (2013).
Resultado de 30 anos de estudos, pretende apreender a
qualidade da beleza em Mozart. (Será?)
108. Beleza que parece pairar como feito acima de mãos humanas, diz o autor.
109. E que tem menos a ver com “unidade” do que com separação (apartness, untouched, untouchable).
i. Sonoridade; a expressividade concentrada da linha.
ii. Não é incomum descrever alguns desses efeitos com
a linguagem do prazer físico, especialmente quando
uma nota cromática cria um frisson isolado no âmbito de um contexto diatônico (diz Burnham!).
iii. Melodia: elegância expansiva e dissonância expressiva.
iv. O ideal de graça funde-se com a realidade dos sentidos.
v. Mozart consegue transformar situações expressivas
de sofrimento e terror em algo que choca como voluptuoso (citando Charles Rosen).
vi. Os encontros com o supernatural, o demoníaco, o divino e o mais pessoal possível.
vii. Saber “de dentro” da existência do que está “lá
fora”. Nos melhores momentos Mozart consegue
que esse espaço (exterior) reverbere no domínio interior (sublinhando dessa forma esse limite criado
pela subjetividade moderna)... Essa alteridade inconhecível pode até ser convocada, mas apenas tocada
en passant, nunca possuída.
►► 133
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
viii. Um sentido de inocência reconquistada — o abraço
da inocência.
ix. O gostar de si mesmo na presença da beleza (mozartiana).
x. A beleza que resulta é tão real quanto um arco-íris.
xi. A mobilidade da consciência, sua fluidez, como
meio humano.
xii. Parece que estamos suspensos em um momento kantiano — em que o mundo externo foi separado de
nós, ficando do lado de lá da consciência; ao mesmo
tempo, a consciência fica imponderada para criar sua
própria realidade.
xiii. A ironia da autoconsciência — não mais como emanação do Universo ou do divino.
110. E eis aí uma possível interpretação do enigma: caracterizamos com essa paráfrase do texto de Burnham a
natureza desse ponto da construção de subjetividade
que a música de Mozart representa. Um entrelugar
que jamais será recuperado!
111. Sobre a sensação de pureza, de música pura, ou música
absoluta — a força dessa ideia.
112. Todavia, temos que registrar que a tradicional relação entre
música e palavra mudou.
113. Nas últimas duas décadas, com a new musicology, a ideia de
música absoluta virou alvo.
114. Portanto, temos que relativizar nossa crença na independência estrutural dos sons.
115. A crença arraigada na ideia proposta por Hanslick de que
a música são “formas moventes” cedeu muito. Temos que
admitir as inúmeras formas de inserção sutil de discursos
entre os sons, conformando a música.
116. Para Daniel Chua, foram os românticos que deram vida à
ideia de música pura, música absoluta.
117. Trata-se de uma música que foi emancipada da linguagem
pela linguagem.
134 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
118. Ou seja: toda a pureza que passou a ser projetada sobre essa
música foi construída por discurso.
119. E, assim, uma história da música absoluta não poderá ser
uma história da música, e sim de discursos.
120. Etapas do processo:
i. O surgimento da música absoluta no século XIX
acaba sendo um sintoma do desencantamento.
ii. A sinfonia do Universo (Novalis) é pura nostalgia de
encantamento num mundo em nada para encantar.
iii. A unidade analógica criada por um sistema de semelhanças é substituída por sistema de representação.
iv. A divisão entre música vocal e instrumental — o silêncio da música ritual por Zwingli.
v. Só a palavra era espiritual (Calvino), a música é apenas sensual, para o prazer do ouvido.
vi. O surgimento da ópera como esforço concentrado
de reencantamento (inicialmente pastoral, idílico).
vii. A ópera como manifestação do olhar do rei (sovereign
eye), que tudo controla e busca reencantar.
viii. O olhar soberano migra da ópera para a partitura —
organizada para que um ego a veja, sem ser visto.
ix. Esse poder pan-óptico vai desaguar na figura do maestro, que vê tudo, com sua batuta de hipnotizador.
Comentário sobre suposta confissão de Mozart
de sua capacidade de ver o todo musical inteiro e
estático. [Parece haver um consenso hoje de que
a carta cuja autoria foi atribuída a Mozart foi de
fato uma falsificação. Sendo assim, Mozart nunca teria dito o que ali aparece e que influenciou e
muito uma série de textos posteriores. O artigo de
Peter Kivy analisa o sentido da adoção irrestrita
que o pseudo-Mozart teve — e segue uma linha
bastante parecida com a de Chua.]
x. A sonata (no barroco) livre da harmonia das esferas,
permite que suas melodias fluam livres nas correntes
do desejo (vontade) retórico.
►► 135
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
xi. A partitura no barroco não é a obra — cada execução é diferente, a marca do intérprete, o estilo é o
homem.
xii. A profusão de estilos leva à ideia de combinar estilos
— glückliche Melange, gemischter Goût — e é essa confusão que desemboca no estilo clássico.
xiii. Para William Jones, a música de Mozart era temperada demais, poderia estragar o paladar, não tinha unidade!!!!
xiv. Na virada do século XIX a música instrumental já
tinha existência garantida.
xv. Sem os recursos do encantamento e sem o poder de
representação da linguagem, a música acaba sendo
empurrada para a região dos sentidos, da sensibilidade, a Empfindsamkeit.
xvi. Enquanto Bach ainda morava numa residência ancestral do contraponto, cheio das inhanhas encantadas, o seu filho Carl Philipp escrevia uma música que
migrava para as profundezas erráticas da psyche.
xvii. A construção da perspectiva do herói, da Eroica de
Beethoven — o herói da consciência histórica, e da
crise, que projeta sua sombra sobre o modernismo.
121. Na música de Mozart está em pleno vigor a presença de
uma instância ficcional que detém o suposto saber / suposto gozar da obra — o protagonista composicional desse
entrelugar entre subjetividade e heroísmo.
122. Metáfora e pensamento musical.
123. A cognição, o movimento e os esquemas imagéticos — o
texto de Hassler sobre música e psicanálise.
124. Enquanto isso: a neuromusicologia e a música em pílulas (o
futuro que virá...).
125. A curiosa série de Didier-Weill: torne-se, retorne, retorne-se...
126. A crítica a Didier-Weill e sua fixação na perspectiva da recepção — afinal, o Outro que escuta precisa ser composto.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
127. Trata-se, portanto, de refletir sobre composição e inconsciente, e não sobre a recepção, sobre o “ser tomado” pela
música — o ergreifen freudiano.
128. A construção da Sonata K310 de Mozart e os seus espinhos
cromáticos de trágica dramaticidade em movimento.
NOTAS
Reconheço também a importância de conectá-los numa única narrativa como o texto faz.
2
Podemos ancorar aqui uma das poucas observações de Freud sobre
música, Moisés de Michelangelo.
3
Favor conferir na rede mundial de computadores.
1
REFERÊNCIAS
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1956.
BIRMAN, Joel. A biopolítica na genealogia da psicanálise: da salvação
à cura. In: PEREIRA DA SILVA, José Antonio (Org.). Modalidades
do gozo. Salvador: Associação Científica Campo Psicanalítico, 2007, p.
13-35.
BOHLMAN, Philip. Ontologies of music. In: COOK, Nicholas;
EVERIST, Mark (Eds.). Rethinking music. Oxford: Oxford University
Press, 1999, p. 18-34.
BURNHAM, Scott. Mozart’s grace. Princeton: Princeton University
Press, 2013.
CHUA. Daniel. Absolute music and theconstruction of meaning. Cambridge:
Cambridge University Press, 1999.
DIDIER-WEILL, Alan. Os três tempos da lei. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editora, 1997.
EINSTEIN, Alfred. Mozart, his character, his work. New York: Oxford
University Press, 1962.
KIVY, Peter. The fine art of repetition: essays in the philosophy of music.
Cambridge: Cambridge University Press, 1993.
►► 137
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
LIMA, Paulo Costa. Música, um paraíso familiar e inacessível: uma
serenata em oito movimentos. Percurso. São Paulo, n. 15, fev. 1995, p.
55-64.
__________. Música e psicanálise: uma bibliografia preliminar com
100 trabalhos de referência. ART023. Salvador, n. 23, dez. 1995, p.
39-52.
NOVAES, Luis Henrique Milan. Há o inconsciente. In: nucleotavola.
com.br/milannovaes.
SEEGER, Charles. Studies in musicology 1935-1975. Los Angeles: University of California Press, 1977.
SOLOMON, Maynard. Mozart: a life. New York: Harper Collins
Publishers, 1995.**
Paulo Costa Lima é músico, pesquisador, escritor e professor. Foi diretor
da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, pró-reitor da
UFBA e presidente da Fundação Gregório de Mattos. Publicou cinco
livros e vários artigos e ensaios. É membro da Academia Brasileira
de Música e da Academia de Ciências da Bahia. Desde 2009 ocupa a
Cadeira nº 8 da ALB.
Comentários-palestra sobre a palestra proferida pela doutora Urania
Tourinho Peres com o tema “Por que o menino Mozart brincava
com os sons?”, ilustrados com demonstrações musicais, em sessão
ordinária da Academia de Letras da Bahia, na Sala de Reuniões, em 18
de abril de 2013.
138 ◄◄
A POÉTICA DA CIDADE
Paulo Ormindo de Azevedo
A
poética da cidade que vou aqui tentar descrever não é a poesia escrita que retrata vivências da infância em determinadas
cidades, de que a língua portuguesa é tão rica. Basta citar Pessoa,
sob o pseudônimo de Alberto Caeiro, em “O Tejo é mais belo
que o rio que corre pela minha aldeia”, e Bandeira em sua notável
“Evocação do Recife”. Senão a própria poética da cidade, que se
confunde com a arte, ou até mesmo com a natureza, como bem
compreendeu Mário de Andrade no seu anteprojeto do SPHAN:
“são também sujeitos a tombamento os monumentos naturais,
bem como os sítios e paisagens que importe preservar e proteger
pela feição notável com que tenham sido dotados pela natureza
ou agenciados pela indústria humana”.
No caso dos monumentos naturais, sua poesia decorre
menos do acidente geográfico em si, que dos significados que
coletiva ou individualmente associamos a esses elementos e que
muitas vezes se refletem na sua toponímia: Gávea, Pão de Açúcar, Corcovado, Dedo de Deus. Grande parte da poesia da cidade do Rio de Janeiro está associada a seus acidentes naturais:
praias, lagoas, montanhas, florestas e cascatas.
Mas sua poesia não se esgota nesses acidentes. Compreende também seu patrimônio material, arquitetônico e urbanístico, sua cultura imaterial, incluindo o modo como seus
habitantes se relacionam com seus espaços. Copacabana não é
apenas a praia que foi cantada em prosa e verso por Rubem
Braga, João de Barros, Caymmi, Vinicius e Tom Jobim, é também sua paisagem construída e habitantes. O mesmo se diga de
►► 139
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
bairros carentes de tudo, como os morros cariocas cantados por
Orestes Barbosa, Herivelto Martins, Zé Kéti e outros. Foi essa
associação que permitiu ao Rio de Janeiro ser classificada pela
Unesco como uma paisagem cultural universal.
Quero entender a poesia que antecede e inspirou o “Tejo é
mais belo”, “Evolução do Recife” ou “As cidades invisíveis” de
Ítalo Calvino, esta uma reflexão poética sobre a cidade, a utopia
e a fantasia humana. Em primeiro lugar, é preciso compreender
que a cidade é uma obra coletiva e aberta, na conceituação de
Umberto Eco. Ao contrário da poesia como gênero literário, só
em raros casos uma cidade é obra autoral. Aliás, o Brasil é rico
nessa modalidade, com Salvador de Miguel de Arruda e Luís
Dias, Belo Horizonte de Arão Reis, Goiânia de Atílio Correia
Lima e Brasília de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.
Mesmo assim, elas vão sendo transformadas pelas gerações que sucederam a seus riscadores, porque as cidades estão
sempre se modificando e nunca podem ser consideradas acabadas. Essa dinâmica faz parte de sua poesia. Um dos grandes
atrativos das cidades é que em cada oportunidade que as visitamos há sempre algo novo, uma névoa especial, árvores peladas
ou floridas, uma festa popular, um teatro de rua ou uma nova
galeria. Algumas cidades, ainda quando não se transformam fisicamente, sempre revelam detalhes novos que não havíamos
percebido nas primeiras visitas, como os bons poemas.
Nesse sentido, são particularmente interessantes as cidades islâmicas, medievais e barrocas, não sujeitas a cânones
formais e métricas limitadoras. Como é linda a complexa geometria das casas, becos e escadarias de Alfama, o que restou da
Lisboa islâmica e as cidades brancas de Andaluzia. Mais ao sul,
no Marrocos, podemos nos perder no labirinto de barracas dos
souks, situados nas almadinas de suas cidades, com encantadores de serpentes, artesãos de couro, madeira e bronze, ourives,
vendedores de frutas secas e especiarias, perfumistas, tecelões
e tintureiros. Estes geralmente instalados na parte mais baixa
140 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
do souk, junto ao rio ou a uma fonte, onde lavam seus coloridos véus e tapetes.
Na Turquia e na Síria, o equivalente dos souks marroquinos
são os bazares, verdadeiras cidades abobadadas com pequenas
claraboias de onde jorra a luz. Esses espaços de sociabilidade
são uma festa para os sentidos: as batidas ritmadas das bigornas
dos artesãos, a melodia da flauta de um encantador de serpente,
o apito e as espirais de vapor que exalam dos samovares, o perfume das especiarias e essências, os sabores das frutas secas e sementes oferecidas pelos vendedores, as cores vibrantes dos véus
dos tintureiros e o caminhar macio sobre alcatifas e alfombras
que precisam ser amaciadas. Protegidas por muxarabies e véus,
que permitem ver sem ser visto, mulheres espreitam os turistas e
locais. Tenho medo que essas sutilezas se acabem com a invasão
bárbara da cultura ocidental.
Mais difícil é imaginar as cidades medievais em seu tempo. Nada restou do feudalismo, por sorte. A vida nessas cidades
não devia ser muito diferente da das cidades islâmicas, com a
rígida separação da cidade do campo ou do deserto. Aquele
amontoado de casas sem reboco, aparentemente caótico, em
que paredes e telhados cor de barro se confundem, localizadas
no topo das elevações e se derramando pelas encostas, esconde
soluções urbanísticas e arquitetônicas surpreendentes. São rampas-escadarias em leque, sottopassaggi por onde mal passava um
cavaleiro com sua lança, janelas indiscretas que vigiam todos os
movimentos das ruas, sem que percebamos que estamos sendo
seguidos. Torres e muralhas nos fazem sentir mais pertencentes.
Sou especialmente cativo de uma cidade toscana, Siena,
com sua praça em anfiteatro, tendo como fundo o palácio da
senhoria com sua torre imensa. Tive a sorte de podê-la ver
durante o Palio d’Assunta, com ginetes com imensas bandeiras
coloridas simulando um torneio medieval entre Gibelinos locais e Guelfos de Florença. Vivi durante quase dois meses numa
outra cidade medieval, Jesi, em Le Marche, perto do Adriático.
►► 141
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
No final da tarde, depois do trabalho, durante aqueles tramonti
infindáveis, era um prazer sentar numa mesa em um costado
da piazza e encontrar amigos e conhecidos, saboreando uma
pasta asciuta regada por um verdicchio honesto, observando o
enxame de andorinhas na torre do domo. Tudo ali transcorria
num ritmo medieval.
Gostaria de falar de uma cidade especialíssima, Veneza,
misteriosa e única, encontro do Ocidente com o Oriente, onde
os caminhos de terra se cruzam com os caminhos da água em
ágeis pontes, mostrando quão felizes seríamos se não tivesse
sido inventado o automóvel. Como o Rio de Janeiro ou Ouro
Preto, impossível separá-la da natureza, daquela Laguna Sereníssima em que se espelha. Quem a viu em noite escura ou enluarada, especialmente durante a festa do Redentor com seus
fogos de artifício, nunca a olvida. Mas é impossível falar de seus
mistérios nos limites destas linhas. Limito-me a citar o espanto
de Napoleão Bonaparte ao desembarcar na Praça de São Marcos: “Esta é a sala de visitas da Europa!”
Há ainda as cidades barrocas. Vielas que desembocam
em largos com imensas fontes que mal cabem em seus espaços,
pontes que nos conduzem a partes insuspeitas da cidade. Portadas que escondem pátios singelos ou monumentais, mas sempre
úmidos, com uma fonte gemendo em um canto e a hera subindo
por suas paredes. Nenhum traçado prévio, senão reformas e intervenções pequenas ou grandes, mas com um senso cenográfico refinado. Temos belíssimas cidades barrocas em Minas Gerais
e no Nordeste, mas nem as nossas, nem as fantásticas cidades do
leste europeu superam Roma sob a luz dourada mediterrânea.
Se quisermos captar a poética das cidades temos que seguir o conselho de Bandeira, vê-las sem história nem literatura, sem mais nada. Palmilhar essas cidades é a única forma de
apreendê-las. As urbes islâmicas, medievais e barrocas provam
na prática o que a física moderna só veio descobrir no início do
século XX, que não se pode separar o espaço do tempo.
142 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Qual é a poesia e beleza dessas cidades? Creio que
Baudelaire é quem melhor explicou, ao dizer que a surpresa e o
espanto são atributos fundamentais da obra de arte. Niemeyer
gostava de citar essa máxima para explicar suas formas nunca repetidas. Quão monótonas são as cidades iluministas, do
absolutismo, da racionalidade e da ordem, em que vista uma
parte não é preciso conhecer o resto.
Mas para nós, arquitetos e urbanistas, é difícil ver a cidade
contemporânea, caótica, engarrafada e violenta sem um olhar
crítico, embora a poesia urbana não tenha ficado apenas no passado ou na memória. Há poesia também nas metrópoles contemporâneas, como procura resgatar a jornalista Jane Jacobs em
“Morte e vida das grandes cidades norte-americanas”, ou mesmo
no avesso, do avesso, do avesso paulistano, como descobriu Caetano Veloso, ao cruzar a Ipiranga e a Avenida São João.
Há uma diferença fundamental na prática criativa de um
poeta e do arquiteto e urbanista. Enquanto o primeiro sublima a realidade construindo um mundo ideal, o arquiteto faz o
percurso inverso. Parte de uma ideia pura para construir uma
realidade concreta. Isso foi muito bem descrito por um poeta
em 1921. Paul Valéry, em “Eupalinos ou o arquiteto”, simula um
diálogo entre Sócrates e Eupalinos de Megara, “o construtor do
templo”, de quem se torna amigo. Para este a beleza não estava
apenas na ideia platônica, senão na sua materialidade.
Valéry desenvolve a confrontação desses dois modos de
olhar o urbanismo e a arquitetura de forma lapidar. Como um
discípulo de Eupalinos, posso afirmar que não há sensação mais
prazerosa do que ver o projeto se transformar em construção:
circular nos espaços apenas concebidos, conferir a luz que penetra por um lanternim e o enquadramento de uma paisagem por
uma janela e sentir a brisa que vem de uma abertura, sentir a cor,
o cheiro e a textura da pedra, do concreto, do tijolo e da madeira.
Mas a poesia da arquitetura não se limita aos materiais,
senão fundamentalmente à geometria, como esses elementos
►► 143
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
são ordenados. Essa geometria é geralmente menos esquemática
e racional que a euclidiana. A arquitetura de Le Corbusier, que
fazia a apologia da reta e do ângulo reto, pode ser sábia, mas não
tem para mim poesia. Já a de seu discípulo Niemeyer, que reproduz as montanhas cariocas e o gingado da mulher brasileira em
sua arquitetura, é pura poesia.
Os materiais apenas adjetivam a arquitetura e o urbanismo. Catorze séculos antes de Cristo, o poeta e filósofo chinês
Lao Tsé dizia: “A realidade de um edifício não consiste nas
quatro paredes e no teto, senão no espaço fechado onde se
vive.” No século III d. C., Plotino, um também poeta e filósofo
nascido no Egito, sentenciava: “Tirai os andaimes, o saibro, a
caliça, a pedra, a massa e a argamassa, fica a forma.” Podemos
dizer o mesmo da cidade. A realidade de uma urbe não está
necessariamente nos seus prédios, belos ou feios, nas calçadas
desenhadas, na arborização, ou na sua paisagem de fundo, mas
no espaço humanizado e aberto em que vivemos, circulamos
e nos relacionamos. Essa é a poética da cidade e quem a faz
somos nós, seus cidadãos.*
Paulo Ormindo de Azevedo é arquiteto, ensaísta e professor da UFBA.
É membro do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil e
consultor da Unesco. Presidiu o Instituto dos Arquitetos do Brasil na
Bahia e integrou o Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional e o Conselho Nacional de Política
Cultural. Desde 1991 ocupa a Cadeira nº 2 da ALB.
Palestra proferida na mesa-redonda “A poética da cidade”, dentro da
programação dos Seminários Arte e Pensamento — Transformações
da Cultura no Século XXI, no Salão Nobre da Academia de Letras da
Bahia, em 24 de setembro de 2013.
144 ◄◄
QUATRO AUTORES E UMA CIDADE
Imagens de Salvador no conto baiano
Carlos Ribeiro
E
m diversos contos de autores baianos da segunda metade
do século 20, fixados, por exemplo, na antologia Panorama do conto baiano, organizada em 1959 por Nelson de Araújo
e Vasconcelos Maia, encontram-se frequentemente elementos
relacionados aos conflitos, muitas vezes brutais, ocorridos em
regiões distantes da capital, a exemplo de tragédias envolvendo
índios, jagunços e tropeiros, retratadas por Adonias Filho em
“O brabo e sua índia”, e a inevitável presença dos coronéis, para
os quais a vida de míseros agricultores “de corpo amarelo e inchado” valia menos do que a das onças caçadas nas matas do Sul
baiano, como em “A caçada do coronel”, de Camillo de Jesus
Lima. Encontram-se, também, marcas vívidas de um tempo presente, numa selva urbana cuja selvageria traduzia-se no arbítrio
da repressão política e da censura, na qual a caça passava a ser o
homem comum, perseguido por policiais e delegados soturnos,
como no Ariovaldo Matos de “A dura lei dos homens”.
Há, com não pouca frequência, na citada antologia, inofensivas vacas mugindo em currais, moleques de fazenda espertos
e bajuladores, serpentes traiçoeiras, emboscadas e rezas bravas;
mulheres que rezavam e falavam da vida dos outros, porque não
havia mais nada a fazer; intrigas mesquinhas e pecados ocultos,
numa sufocante atmosfera religiosa do catolicismo predominante;
mulheres sonsas e sirigaitas, que dão muito o que falar; praças e
retretas, velhos pescadores na luta incansável com o mar; galos
►► 145
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
cantando na madrugada; flertes e lutos; relógios na sala, pessoas
circunspectas tomando café na sala de visitas, mulheres com pernas inchadas, suspeitas de gravidezes indesejadas; lanços de escada, cheiro forte de maresia, cardumes de chicharros e pinaúnas,
galos cantando nos poleiros, aragens frescas nas manhãs, folguedos, xilindrós e até “um crime de morte que abalava a cidade”.
Dez anos depois, em Doze contistas da Bahia, com seleção e
prefácio de Antonio Olinto, verifica-se a tendência, bem mais visível, para uma renovação no terreno ficcional, marcado, conforme observa o próprio Olinto, por uma linguagem direta, objetiva, ausência de metáforas e contenção no uso de adjetivos, além
de um marcante viés social. Continua presente, nessa antologia,
a prepotência do dono de terras e o constrangimento do preso,
comum ou político, na prisão, no conto “A morte em tempo de
estio na encruzilhada do Desterro”, de Olney São Paulo.
As narrativas — fortes, duras, às vezes brutais — ganham
nova roupagem, na qual são bem mais frequentes as subversões
sintáticas, entre outras transgressões linguísticas. Tendências que
ganhariam, nos anos seguintes, forte acento intimista, alegórico
e impressionista, com o conto de tensão interiorizada e o de tensão transfigurada pela recriação do código linguístico, conforme
assinala Valdomiro Santana noutra importante antologia, O conto
baiano contemporâneo, de 1995. Aspectos, estes, todos verificáveis,
com maior facilidade, na Antologia panorâmica do conto baiano —
Século XX, de 2004, organizada por Gerana Damulakis.
Nela pode-se verificar desde a prosa de autores pré-modernistas, como Xavier Marques, Afrânio Peixoto, Amélia Rodrigues
e Almáquio Diniz, na qual abundavam expressões elegantes e rebuscadas, incluindo, não raramente, vocábulos franceses, como
chantage, croupier, flirt, èglantines e mademoiselles, aos contemporâneos,
nos quais se verifica uma forte presença de um estilo mais jornalístico — direto, objetivo, sem rebuscamentos, sem “firulas”.
Lá estão expressões como “o convite mudo para o grande
amor sem reservas”, encontrado no conto “Um simples farol no
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
mar”, de Dias da Costa, mas também “notei apenas que olhava,
depois, curiosa, o filete de sangue que lhe escorria pela coxa sempre aberta”, do conto “O rabo da sereia”, de Ildásio Tavares.
Mas, certamente, a grande inflexão, formal e temática,
seria identificada na antologia Oitenta: poesia & prosa, edição
comemorativa dos 15 anos da Coleção dos Novos, lançada em
1996, organizada por Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro. Inflexão que aponta, pela primeira vez, para uma característica do
conto feito por autores que surgiram nos anos 80, 90 e no século
XXI: a marcante diversidade de estilos, de visões de mundo e de
concepções sobre o próprio fazer literário, formando um mosaico que resiste a uma definição unificadora.
Nela estão presentes as referências cada vez mais frequentes ao universo midiático, a filmes, a ícones do cinema, da TV
e da música pop, que inundam o cotidiano das personagens,
com forte acento intimista. O espaço ficcional — as ruas, becos, praias, casarões e casebres de Salvador — torna-se uma espécie de usina simbólica, geradora de sentidos não poucas vezes conflituosos e contraditórios, na qual o público e o privado
mesclam-se numa geleia geral, para usarmos aqui uma expressão tropicalista, cujas referências são cada vez mais indistintas.
Elementos oníricos invadem o “mundo real”, a perversão insinua-se até mesmo no território até então preservado da infância;
estados psicóticos sobrepõem-se a uma suposta normalidade. O
sexo em suas diversas facetas, com ênfase cada vez maior no homoerotismo, apresenta-se sem meias palavras, explicitando-se. A
violência política reflui, cedendo espaço para a violência urbana,
que se instala no cotidiano, torna-se banal. Já vai longe, definitivamente, o tempo em que um crime de morte abalava a cidade...
Oitenta, antologia pouco conhecida e, até onde sei, ainda
não estudada, adianta algumas pistas da literatura que hoje prolifera na mídia eletrônica e invade os espaços mais nobres do
establishment literário — as grandes editoras, as bienais do livro,
os festivais literários, os simpósios e congressos acadêmicos.
►► 147
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Apresentarei, a seguir, uma rápida amostra do conto que
é feito ao longo do primeiro decênio do século XXI em nosso
estado e cuja ação ocorre em um único cenário: a cidade de Salvador. Para isto, escolhi quatro livros, três deles frutos do Prêmio Copene de Cultura e Arte (que depois passaria a chamar-se
Braskem): Vidas de rua, do escritor mexicano, então radicado em
Salvador, Alejandro Reyes, lançado em 1997; Aflitos, do jornalista, ex-BBB e atual deputado federal Jean Wyllys, lançado em
2001; e Urbanos (2001), da ficcionista, professora e doutora em
literatura Alessandra Leila, que passaria logo depois a adotar o
nome de Állex Leilla. O outro livro é Cada dia sobre a terra, do poeta, ficcionista, professor e doutor em literatura Marcus Vinícius
Rodrigues, lançado em 2010.
Composto por quatro contos — “A promessa de Onorina”, “Mariana”, “Manduca do Forte” e “A caridade” —, Vidas de
rua, de Alejandro Reyes, traz o olhar de um estrangeiro não sobre
a Salvador turística, vendida pela propaganda oficial, mas sobre
a cidade “oculta”, dos desvalidos, configurada no território que
abrange o Centro Histórico (Pelourinho, Terreiro de Jesus, Ladeira da Conceição da Praia, Santo Antônio Além do Carmo), até a
Cidade Baixa, o Forte de Santo Antônio e o Porto da Barra.
Suas personagens:
A anciã Onorina, que vende doces de coco num tabuleiro,
mergulhada na saudade, na esperança e na fantasia do reencontro
com o filho Prudêncio, ausente desde os 16 anos, e que lhe pedira, num bilhete, para não morrer antes de ele voltar. Seu precário
equilíbrio psicológico, emocional e existencial sustenta-se sobre
essa promessa e por uma rotina marcada por pequenos, mas significativos, gestos. Rotina que seria alterada, violentamente, pelo
processo de desapropriação de sua miserável moradia e ulterior
ação de despejo, movidos pelo governo do estado.
A menina Mariana, cuja única alegria era a boneca Julie,
de cabelos loiros, pele rosada e olhos azuis, mas suja, com vestido rasgado e cabelo emaranhado, da qual lhe fora arrancado
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
um braço. Oriunda de uma casa, na roça, onde o pai, bêbado,
espancava a mãe e os seus irmãos, mas para a qual sonhava
retornar, a garota fora vendida e prostituída, violentada continuamente por homens “de sorriso guloso e repugnante”, para os
quais abria as pernas, fechava os olhos e rezava a Deus para que
a deixasse morrer.
Manduca do Forte, o velho Manduca, exímio tocador de
berimbau, capoeirista famoso, amado e respeitado por mendigos, ladrões, traficantes, guardadores de carros e vendedores de
amendoim (único personagem, dentre todos dessa mostra, que
guarda alguma similitude com os personagens amadianos). Pai
adotivo de todas as crianças desamparadas, cuja história pregressa de malandro é aos poucos desvelada, com seus segredos e
culpas terríveis.
O menino Robertinho, órfão, morador de rua, guardador
de carros, que recebe a promessa de ser adotado por uma bela
e rica mulher; promessa não cumprida, que lhe acende uma esperança luminosa, que logo se transforma em revolta. A alegria
transbordante cede ao terror desmesurado, ao ódio e ao pavor de
quem se vê definitivamente condenado à miséria e ao crime.
[...] e desejou com toda a alma que a morte o salvasse de
volta a esse mundo do qual acreditava ter fugido e agora o
engolia em sua negra perdição, e xingou ao Deus ausente
que o havia enganado, e jurou que nunca mais escutaria
vozes de esperança, humanas ou celestes, e perdeu-se pelas
ruas miseráveis do vício, da imundícia e do desespero... e
nunca mais se soube dessa criança que, com cândida alegria, havia colhido, naquele dia, uma rosa para dá-la a sua
bela benfeitora. (REYES, p. 93.)
Para Alejandro Reyes, as ruas de Salvador, exuberantes de
vida, lânguidas, com um savoir-vivre inimitável, ou inundadas de
uma alegria febril e por uns momentos desesperada, são, sobretudo, “ruas de miséria, de exploração, de sofrimento, desolação
►► 149
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
e horror”, embora nelas haja também misticismo, amor, paixão,
ternura e uma magia indefinível. Nas páginas do seu livro, a humanidade encontra-se no paradoxo do amor e do vício, entre
aqueles que caminham na linha que separa a pobreza, na qual
há dignidade, do abismo da miséria e do desamparo, onde toda
a esperança termina sendo negada. Fora disso, somente a alienação das classes mais privilegiadas e os implacáveis interesses
dos poderosos. Sujeira, decadência, velhice, miséria, solidão e
exploração econômica e sexual, mas também esperança, solidariedade e bravura são os ingredientes dessa baianidade, que tem
um pé na visão marxista (Alejandro é um militante socialista do
chamado Terceiro Mundo) e um quê da obra amadiana.
O mesmo não ocorre com boa parte dos 39 contos e minicontos de Aflitos, de Jean Wyllys, nos quais se descortina um
cenário de extrema violência, em bairros populares e periferia de
Salvador, protagonizados por policiais e bandidos, integrantes
de grupos de extermínio, com nomes hollywoodianos: Conan,
Mike, Rambo, Van Damme. Aqui, tal como na tradição do cinema noir, embora sem a sua necessária sutileza, nenhuma boa
intenção subsiste ao cinismo, à amoralidade e aos interesses de
grupos organizados. De um assalto a um ônibus, no qual um dos
assaltantes, sem qualquer motivo, introduz um cano de calibre
38 na boca de um passageiro e dispara, à invasão de uma casa
por três homens, na qual um deles executa um homem com um
fuzil AR-15 deixando destroços humanos sobre o chão, não há
hesitações ou crises de consciência: o executor em um conto é
o executado no seguinte; o parceiro de agora é o adversário de
logo mais, que precisa ser eliminado — e tudo está nos conformes, desde que as vítimas pertençam à grande faixa dos desvalidos, dos “invisíveis”, conforme mostra o seguinte diálogo do
conto “Cinema sem tela III — O juízo final”:
Clint (nervoso): Você cagou tudo, cara! Não posso mais
livrar tua cara. A imprensa não sai de cima e as passeatas
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parecem que não vão acabar nunca...
Rambo: Por que não pode me livrar?! Você sempre conseguiu fazer isso. Eu matava um cara desses por semana e
não tinha problema nenhum. Você sempre dava um jeito
de arquivar o caso, mesmo quando existia alguma prova...
Também não sei por que essa gente está tão ofendida!
Todo dia morre gente no Nordeste, na Palestina, nas Malvinas, no Beiru, e ninguém se importa...
Clint: Acontece que o cara que você matou morava na
Graça! Quantas vezes vou ter que lhe dizer que você matou o filho de um desembargador? Ainda por cima branco? (WYLLYS, p. 17.)
Talvez o conto mais representativo dessa atmosfera de cinismo e amoralidade seja “O fundo do coração”. Dividido em
três partes (três depoimentos prestados ao delegado de polícia,
relativos ao assassinato de “um homem gordo que sua durante
a noite e arrota uísque”). No primeiro depoimento, a própria
mulher da vítima confessa ter encomendado a sua morte; no
segundo, o criminoso, latrocida, estuprador e posterior amante
de sua contratante declara ter matado o homem numa estrada
do CIA; no terceiro (a verdade dos fatos), ficamos sabendo ser o
delegado o verdadeiro criminoso. Trama sintetizada numa frase
pichada no muro em frente à delegacia: “O fundo do coração é
um depósito de lixo.”
Outros contos que compõem o volume, muitos deles em
forma de cartas íntimas, substituem a linguagem crua dos relatos
policiais pelo registro lírico de experiências amorosas, em geral
homoeróticas, pontuadas por referências a canções, filmes, cantores populares, compositores, cineastas e obras literárias. Acentuam-se, aqui, elementos marcantes na ficção pós-moderna: a
do olhar mediado por câmeras de cinema ou da TV; das cenas
da vida marcadas por uma trilha sonora. “Será que foram os
filmes, principalmente os de Hollywood, que reeducaram nossa
forma de ver a vida? Ou eles são o resultado da forma como os
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
homens percebem o mundo? Não sei, a verdade é que sempre
estou sob um fundo musical, mesmo que nenhum aparelho de
som esteja ligado”, diz o narrador de “Preciso de trilha para viver” (WYLLYS, p. 27).
O espaço urbano — as ruas, praças, monumentos e o
sempre presente Centro de Salvador — não é agora o território
da violência exacerbada, mas da solidão, do tédio, da culpa, da
volúpia e do desejo de seres que vivem à deriva. O esquema,
entretanto, guarda similaridades: continua havendo a caça e o
caçador. Em lugar do criminoso e da vítima nos bairros da
periferia, surgem os caçadores de sexo em boates, banheiros
públicos e cinemas de quinta categoria. “Trata-se de um assédio mudo, baseado apenas nos gestos e olhares. [...] Circulamos
como baratas e ratos no escuro, à procura de comida, em meio
à imundície e o mofo. Ratos e baratas que, à menor réstia de
luz, recolhem-se ao seu buraco” (do conto “Amor sem palavras, cinema mudo”, WYLLYS, p. 35).
Também encontramos algo desse “desencontro radical”
em Urbanos, de Alessandra Leila. Aqui, entretanto, as tonalidades
sombrias do submundo dão lugar a uma paisagem solar de prazeres e desprazeres que explodem, de forma fragmentária, num
amplo espectro de cores, que vão do incolor ao fosco, passando
pelo “amarelo-ouro”, pelo “bege”, pelo “vinho” e pelo “verde-hortelã”, aliás, títulos da maioria dos 38 contos desse livro
instigante e intrigante.
A utilização frequente da metonímia, através da qual pessoas são, sem nome e sem identidade, identificadas por suas
partes (cabelos, joelhos, bocas e boquinhas, peles, pelos e, sobretudo, virilhas), a descontinuidade e a fragmentação do discurso, recursos da ficção experimental, conferem aos contos e
minicontos de Alessandra Leila uma adequação às vezes até surpreendente (para um livro de estreia) com seu universo temático: uma Salvador contemporânea (pós-moderna, pode-se dizer),
transfigurada, cuja identidade exigirá, doravante, a montagem de
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um complexo quebra-cabeça. A cidade como palco de influências, na qual as relações e as histórias perdem o fio de continuidade e os signos exigem um esforço de decifração.
Que cidade é essa? Quais são os seus personagens? Que
voz(es) constrói(em) as subjetividades aqui expostas? Difícil dizer. Lá estão, página após página, seus pontos de referência, sobejamente conhecidos: o Largo 2 de Julho, o Vale do Canela, as
avenidas Sete de Setembro, Contorno, Ademar de Barros, Oceânica, o Corredor da Vitória, a Rua da Graça, a Miguel Calmon,
a Direita da Piedade, Pelourinho, Ondina, Pituba, a Praia de
Stella Maris..., aos quais acrescentam-se, como numa lente que
se fecha em detalhes minimalistas, seus prédios comerciais, Santa Cruz, Oxaguian, entre outros, entre tantos; suas barraquinhas
de cigarros, goma de mascar e cachorro-quente; seus espaços
culturais, a Sala Walter da Silveira, do circuito de cinema de arte,
o MAM, o Baiano de Tênis; os colégios Integral, Águia, Ideia; o
Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia, os outdoors,
o TCA, as linhas de ônibus, Santa Mônica, Vale das Pedrinhas,
Daniel Lisboa-Barra 2, São Cristóvão, Praça da Sé, Doron R1,
Mussurunga, Itinga, Pirajá.
A cidade vista pelas janelas dos prédios, pelas janelas
dos ônibus, pelas lentes das máquinas fotográficas, pela tela
do cinema, pelas páginas dos jornais, devoradas por um olhar
faminto, irônico, crítico, que raras vezes se envolve, limitandose a registrar:
Depois dos desmoronamentos das favelas das áreas de risco, as famílias se abrigam em escolas públicas ou voltam pra
morrer nas próximas chuvas. A Barra anda extremamente
vazia após o coronelismo, que fez do Pelô prato caro e
digerível. Brancos desconscientizados e negros idem agora
se sentem muito melhor, idem os gringos, tanto lá quanto
na Vitória, dentro de jeans malcheirosos, pouco respeito e
x dollars. (Do conto “Laranja”, LEILA, p. 26.)
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Ou:
Passavam com tamanha incompetência pela Ademar de
Barros, tanta roda de carro, meu Deus!, muito mais por
causa das condições da pista — buracos, bocas de lobo minando, excesso de pernas querendo atravessar, sinais com
defeito — do que, diríamos, dentro de nossa maravilhosa
inclinação para nos mostrar no espelho mais bonitinhos e
calorosos, o povo mais cordial do planeta, minha gente!,
do que, do que... hum... má vontade dos motoristas, dos
pedestres, da prefeitura, do sítio da cidade, essa escolha
equivocada dos portugueses, oh! Da chuva, de Deus?
Vá-se-entender-um-modo-de-vida-assim! (Do conto “Rosa”,
LEILA, p. 27.)
Ou:
E o jornal caído de suas mãos só falava do delegado da
polícia civil suspeito de promover chacinas nas periferias e
invasões da cidade, de um homem que matara a esposa a
pauladas, das famílias que morreram no desabamento das
encostas, da greve do funcionalismo público, do discurso
do governo tão antigo, tão barato. (Do conto “Verde-hortelã”, LEILA, p. 53.)
Diversamente de Alejandro e Jean Wyllys, Alessandra pouco se arrisca, nesse livro, pelas camadas mais pobres da sociedade,
e, embora a voz narradora transite com certa frequência entre os
registros masculinos e femininos, nota-se certa uniformidade no
tom e no seu universo de interesses. Uniformidade essa que nos
permite supor um forte acento pessoal, memorialístico, nas referências culturais, inclusive ao ambiente estudantil do curso de
letras e a Bom Jesus da Lapa, terra natal da autora. Mas é evidente
a identificação com os dois autores acima referidos, no que diz
respeito à precariedade da vida da população, cuja desesperança
se deve, em grande parte, à negligência dos poderes constituídos,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
estratificados, envelhecidos, que não acompanham a dinâmica da
sociedade contemporânea, indefinível nas suas múltiplas faces.
Os sete contos do livro Cada dia sobre a terra, de Marcus Vinícius Rodrigues, lançado em 2010, parecem reafirmar os aspectos acima referidos, embora sejam estes bem diversos no estilo
sóbrio da narrativa, com períodos mais longos, marcados por
uma duração que lhe permite uma sondagem psicológica mais
prolongada dos seus personagens.
No primeiro conto do livro, “Segunda-feira”, essa sondagem adquire o sentido de uma crítica cultural da nossa sociedade
mediatizada e globalizada, através dos devaneios de uma jornalista de meia-idade, num táxi, entre o Jardim de Nazaré, no bairro central de mesmo nome, e o Largo de São Lázaro. O trajeto,
descrito passo a passo pelo narrador, pontua um interminável
discurso da personagem. Ela despeja sobre o motorista um rosário de queixas que traduz, em última instância, um profundo
sentimento de inadequação e estranhamento, aliás bastante familiar para quem está hoje na casa dos 50 anos. Como se pode
ver no seguinte trecho em que ela observa algumas pichações no
muro do Hospital das Clínicas.
— Aqui tinha sempre uma pichação: fora Sarney, fora
Collor, fora FHC... Eles só mudavam o nome, o “fora” era
o mesmo. Eles estão todos lá agora. Não tem mais luta,
moço, agora é cada um por si. Eu tô cuidando de mim.
Vou lá ajeitar a minha matéria, cortar tudo bem obediente.
Não posso ficar sem trabalhar. Ai, ai. Sou um dinossauro.
Se saio da linha, eles me notam e me mandam embora.
(RODRIGUES, p. 15-16.)
E continua:
— Tem muita gente nova por aí. Todo mundo conectado
na internet. Eu que não me cuide. O que eles não sabem é
escrever, mas são superdescolados. Lá na redação tem uma
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
novinha, toda antenada, a cadelinha. Tatuagem, roupinha
descolada, magrinha, ela. Aposto que minha matéria vai
abrir espaço para um perfil que ela vai fazer de uma banda
de rock, ou sei lá o quê, que nem disco tem. Eles lançam as
músicas na net, ela falou, toda elétrica. Uma bobagem. Eu
ouvi. Uma música que não anda, toda cortada. Não gosto
disso, não. Minha filha deve gostar. (RODRIGUES, p. 16.)
O engarrafamento, a lentidão do trânsito, o calor intenso
contribuem para uma espécie de catarse verbal, através da qual
ela despeja, sobre o motorista anônimo e impessoal, toda uma
carga acumulada de frustrações, a decadência econômica (“Já
tive apartamento na Graça. Vendi. Muita conta, o condomínio
era muito alto”), o fracasso conjugal, a dispersão da família, as
regras coercitivas (“Aqui não pode fumar, né? Não pode fumar
em canto nenhum desta cidade. Meu médico mandou parar.
Disse que cigarro mata. Ah, se eu tivesse certeza disso?”), a violência crescente.
Esse trânsito! São essas faculdades. Todo dia é isso. Antes
tivessem deixado o jornal na Paralela. Pra que mudar? A
gente só muda pra pior. E agora é cortar e cortar. Eu tô
ficando sem espaço, eu e a cultura desta cidade. Agora é a
violência, o crime, o crack... Bandido tem mais destaque
que artista. Antes, era uma página pros bandidos e o jornal
livre para outras notícias. Agora é só sangue. E é em todo
canto, não tem mais jornal que não fale de crime. Até no
horário nobre da televisão é assim. Olha só, era aqui que eu
vinha comprar flores. (RODRIGUES, p. 17.)
Confusa, insegura, a jornalista do conto de Marcus Vinícius encontra-se perdida na selva urbana, buscando referências
para uma saída. Referências que não se traduzem mais em certezas, nem mesmo num ato de fé, ainda que more numa cidade
caracterizada por um forte misticismo.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Diversamente dos outros três autores aqui referidos,
Marcus Vinícius traz, na grande maioria dos seus contos, algum vestígio de esperança, seja em um jovem estudante que,
em confronto com a tropa de choque da PM, numa manifestação estudantil em protesto contra o aumento das passagens de
ônibus, cumpre um ritual de passagem; seja no dilema de uma
jovem mãe solteira abandonada pelo namorado, numa narrativa
de tempos alternados, que se estende do cartório da Estação
Iguatemi até áreas do Subúrbio Ferroviário, história de desencantamento amoroso com final feliz; seja na menina esquecida
pela mãe num shopping, cujo retorno para casa proporciona ao
leitor um suspense atroz — não pelo que diz o narrador, mas
pelo que acrescentamos dos nossos próprios medos à narrativa;
ou no percurso trágico de um menino para a adolescência e as
circunstâncias que o levam ao crime — e a uma possível redenção, num final que não se deixa decifrar.
A única exceção, talvez, seja o conto “Quinta-feira”, no
qual retrata o tormento e a falta de perspectiva de Jorge, um cobrador de ônibus desempregado cuja única distração é apreciar,
pela janela do barraco onde mora com a mulher e dois filhos, as
águas e os orixás do Dique do Tororó — e os ônibus, lá embaixo, em fila para a Estação da Lapa, “numa romaria de gigantes”.
Pareciam os dinossauros daquele filme, todos enfileirados e
burros, como gado a caminho do matadouro. Iam se enfiar
nos buracos da estação e despachar do estômago as vísceras,
os passageiros e suas vidas corridas e ocupadas.
Via de longe, apenas, da janela do seu quarto, todos os dias,
da manhã até a noite, toda a noite às vezes, quando ficava
acordado, sem sono, sem um amanhã esperando, sem hora
de levantar e sair para o trabalho. Apenas observava lá de
cima o Dique e tudo que em torno dele girava, vivo e veloz,
lento e constante. Era como se toda a cidade passasse por ali.
Ele, em sua janela, olhava e sentia que não fazia parte daquilo tudo. Nada lhe dizia respeito. (RODRIGUES, p. 47-49.)
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Distanciado do mundo, do qual se afastara e no qual permanecia apenas como um observador, Jorge vê o seu sonho
de reintegração social (um emprego de despachante numa empresa de ônibus urbanos) ser subitamente interrompido por
um crime. Ironicamente, a sua reintegração se dará — assim
podemos supor, já que o final permanece em aberto — pela
via da tragédia e da violência: a única que o faz sentir-se vivo:
“Uma flecha certeira e caçadora que uma vez lançada só pode
ser parada pelo alvo fatal.”
Numa conferência proferida na Fundação Casa de Jorge
Amado, em 15 de maio de 2003, na abertura do curso A Cidade
de Salvador na Literatura, o escritor Antônio Torres referiu-se
à Salvador retratada nos contos de três autores baianos — Aramis Ribeiro Costa, Jean Wyllys e Carlos Ribeiro — como “uma
Salvador sem farofa e sem dendê”. Podemos dizer o mesmo dos
demais contistas aqui analisados, intérpretes de uma cidade que,
embora perfeitamente identificada nas suas ruas, ladeiras, praças
e shoppings, nos seus monumentos, clubes, colégios e até barraquinhas de cigarros e cachorro-quente, recusam enfaticamente
os estereótipos da Bahia pitoresca vendida pelas agências de turismo. Em vez disso, escancaram suas dores e delícias num caleidoscópio de anseios, carências, desejos, sonhos (quase sempre
desfeitos), taras, ódio, mas também generosidade e grandeza,
que nos inclui (a todos nós, seus leitores) num esforço de autodecifração e de testemunho do complexo tempo que vivemos.
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, Nelson de; MAIA, Vasconcelos (Sel. e prefácio). Panorama
do conto baiano. Salvador: Livraria Progresso Editora; Imprensa Oficial
da Bahia, 1959.
DAMULAKIS, Gerana (Org. e introdução). Antologia panorâmica do conto baiano — Século XX. Ilhéus: Editus, 2004.
FONSECA, Aleilton; RIBEIRO, Carlos (Org.). Oitenta: poesia e prosa
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
— Coletânea comemorativa dos 15 anos da Coleção dos Novos. Salvador: BDA Bahia, 1996.
LEILA, Alessandra. Urbanos. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 2001. Prêmio Copene de Cultura e Arte. (Casa de Palavras).
OLINTO, Antonio (Sel. e prefácio); TAVARES, Ednalva Marques
(Org.). Doze contistas da Bahia. Rio de Janeiro: Record, 1969.
REYES, Alejandro. Vidas de rua. Salvador: Fundação Casa de Jorge
Amados, 1997. Prêmio Copene de Cultura e Arte. (Casa de Palavras).
RODRIGUES, Marcus Vinícius. Cada dia sobre a terra. Ilust. de Fernando Oberlaender. Salvador: EPP Publicações e Publicidade; Banco
Capital, 2010.
SANTANA, Valdomiro (Sel., org., prefácio e notas biográficas). O conto baiano contemporâneo. Salvador: Empresa Gráfica da Bahia, 1995.
WYLLYS, Jean. Aflitos. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado,
2001. Prêmio Copene de Cultura e Arte. (Casa de Palavras).*
Carlos Ribeiro é jornalista, escritor, pesquisador, ensaísta e professor do
curso de jornalismo da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.
Tem diversos artigos, ensaios, reportagens e livros publicados, dentre
os quais Lunaris (romance) e Rubem Braga: um escritor combativo — A
outra face do cronista lírico (ensaio). Desde 2007 ocupa a Cadeira nº
5 da ALB.
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AS MOTIVAÇÕES HUMANAS
DESNUDADAS NO CONTO
DE HÉLIO PÓLVORA
Gerana Damulakis
A
literatura baiana tem força, tem vigor e qualidade para figurar sem favor no cenário da literatura brasileira. Para deixar
os compêndios da história da literatura e voltar a circular entre
leitores e estudiosos é sempre preciso haver reedições dos livros
esgotados. A Coleção Mestres da Literatura Baiana, publicação
conjunta da Academia de Letras da Bahia e da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, pretende justamente fazer o regaste
necessário das nossas obras de valor indiscutível, já consagradas
outrora, merecedoras de marcar presença no século XXI.
Assim, deixando de constar apenas como uma referência
histórica, para alcançar o momento presente e ter sua importância
reafirmada, a Coleção Mestres da Literatura Baiana iniciou-se com
a coletânea de crônicas sobre os costumes e o registro social da
Bahia da primeira metade do século XX, de Hildegardes Vianna,
com o título A Bahia já foi assim, título bastante sugestivo da pretensão e de um dos critérios a que os volumes devem atender.
Nem por isso as obras publicadas na coleção serão de autores já
falecidos, pois não visa resgatar autores que já se foram, mas o
reaparecimento de obras que não estão mais no mercado editorial.
Os tomos seguintes, de números 2 e 3, são Contos e novelas escolhidos do ficcionista Hélio Pólvora. Dos seus 120 textos
de ficção curta, Pólvora selecionou 55, sem perseguir a linha
do tempo — ele iniciou sua carreira literária em 1958 com o
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
livro Os galos da aurora —, embora traga amostras mais recentes, como os contos de 2007. Portanto, a seleção segue suas
preferências, compondo uma antologia pessoal ao modo de
Jorge Luis Borges.
A seleção, sendo vasta, abarca as duas vertentes da contística de Hélio Pólvora, seja a sertanista, seja a urbana. Contudo,
independentemente do ambiente, são as motivações psicológicas
que dão o tom de cada história. A vertente sertanista, marcada
por memórias primeiras, deve-se ao pertencimento do autor ao
Sul baiano, tendo nascido em fazenda de cacau e vivido ali, além
de testemunhado, uma riqueza de histórias. A vertente urbana
é tirada de outro armazém da memória, dos tempos passados
como estudante em Salvador e também como estudante no Rio
de Janeiro, onde atuou como jornalista e crítico literário.
Situado, pois, o mais relevante, no entanto, nos exemplos
da obra de Hélio Pólvora, está no que se dá em suas linhas e nas
suas entrelinhas, quando entram em perfeita harmonia a memória — já em si invenção, como dizia Saramago — e a literatura, companheira constante, paixão que, contrariando a regra
das paixões, não findou desde que as mãos infantis pegavam os
folhetins que sua mãe recebia de longe e regularmente, encantando o menino. É possível, então, entrever o estado de espírito
que levou o garoto leitor à escrita, mas também é possível entrever bem mais do que isso, porque os temas já começavam a
acompanhar o futuro escritor desde o início de sua formação.
O elemento autobiográfico é um dos componentes fundamentais da feitura do conto polvoriano, como já apontava
Aramis Ribeiro Costa no texto “O caminho da eterna aurora”,
estudo introdutório presente no livro Os galos da aurora & outros
contos1. A memória, então, sob a técnica refinada do autor, encontra outro componente importante, a literatura.
Detendo-se na técnica, Aramis Ribeiro Costa mostra
como o autor de Contos da noite fechada2 amplia o fechado círculo
narrativo do conto ao usar a superposição das tramas — talvez
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
como produtos de memórias que puxam outras memórias ligadas pelo fio do inconsciente:
Ou seja: chegado ao limite máximo de extensão permitido
pelo gênero — o horizontal — sem desfigurá-lo, transformando-o em novela, o autor ampliou-o verticalmente,
superpondo tramas e conflitos que se cruzam e se completam como as malhas de uma mesma rede, ou espirais que
sobem e descem, na expansão e no aprofundamento do
próprio universo ficcional: uma história dentro da outra
história, dentro da outra história, e todas na vastidão interminável das hipóteses.
Naturalmente que, nessa atitude, está aquele desejo da busca da verdade “nas curvas de um acontecimento”, expresso pelo
personagem-narrador do conto “Meu compadre Tirésio” e permanentemente demonstrado pelo autor. Vale repetir: “muitas vezes a verdade está escondida nas curvas de um acontecimento”.
Trabalhar a memória, inventá-la ou reinventá-la, atravessando a obra de forma constante, marcante, artisticamente elaborada: eis o trabalho de Hélio Pólvora com a ficção. André
Seffrin, no texto “Momentos singulares”, prefácio do livro Melhores contos3, analisa assim: “a inflexão autobiográfica presidida
pela memória de infância, uma infância invadida pela violência
das grandes e inevitáveis descobertas, arco da vertigem humana
que vai do alvorecer (os galos da aurora) ao crepúsculo (noite
fechada). Talvez aí esteja um dos principais eixos (de tema e
contratema) desse contista extraordinário, que alcançou a estrada real da ficção contemporânea ao dispensar ramais e caminhos
duvidosos e geralmente trilhados por legião de epígonos”.
A memória do que foi vivido e a memória do que foi lido
são fiéis constantes nos contos e novelas do autor. É difícil crer
que um escritor possa não ser um leitor. No caso de Hélio Pólvora, um grande leitor, pois a importância da arte literária na vida
cotidiana atinge tão alto patamar, que se faz bastante presente na
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
literatura que ele cria. Não se pode esquecer que, por vezes, a
música aparece, chegando a intitular um conto como “Für Elise”,
além de ser citada em muitas narrativas. Mas é ela, a literatura,
que, soberana, é citada, é contada, sendo base para paralelos e
reflexões. O escritor argentino Ricardo Piglia, em O laboratório do
escritor4, afirma que toda ficção é a soma de tudo que seu autor
viu, ouviu e leu.
As admirações de Pólvora se expressam nas suas linhas,
quer seja a linha tchekhoviana e, por consequência, a linha
mansfieldiana, quer seja a linha faulkneriana, e por tais linhas
ele compõe narrativas iluminadas por vários faróis. Tantas são
as narrativas que, decomponíveis, tal como “Mar de Azov” é
extensível em “Pai e filho” — como também foi notado por
Seffrin —, acabam por formar um universo polvoriano.
Assim se dá igualmente com certos personagens. A respeito dessa peculiaridade, nas palavras do próprio Hélio Pólvora, na introdução de sua antologia pessoal, lê-se: “O Surdo, por
exemplo, passou de pai aflito do conto ‘Adamastor’ para exilado,
na alegoria ‘O demônio do vale’, e tentou, por fim, abrir caminhos a um vizinho taciturno e recluso, em ‘Aquela casa branca
na colina’.” Temas e personagens recorrentes, como diz Pólvora,
e também situações abrangendo “as fatias da vida e instantes
cruciais que o fascinaram” são marcas que denunciam a paixão
pela literatura, criando-a e afirmando-a sempre. Como aproveitamento do tema temos, por exemplo, “O desconhecido”, “O
demônio do vale”.
Quem faz a leitura literal por entretenimento lê a história. Quem aprecia os recursos literários e seu uso em uma
narrativa lê a arte ali contida. Quem guarda a leitura e carrega
dentro de si tudo o que leu forma seu cabedal de lembranças,
e é assim que se encontram o escritor e o leitor Hélio Pólvora
e sua bagagem literária.
Para exemplificar como a música também se faz presente
nos contos de Pólvora, a lista encontrada na narrativa intitulada
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
“Moldávia”, do livro Noites vivas5, dá conta do personagem sonhando com uma vitrola para ouvir Smetana (Bedřich Smetana,
compositor checo cuja obra mais famosa é justamente “O Moldava”, do poema sinfônico Minha pátria), a seguir cita “Für Elise” (que mais adiante intitularia outro conto de Pólvora), assim
como os concertos de Shostakowsky, os alto-falantes transmitindo dobrados e peças do repertório de Glenn Miller (músico
de jazz estadunidense e bandleader na era do swing), e logo aparece
um menino de boina a assobiar “Il ragazzo cativo” e o barbeiro
que canta umas modinhas cujos versos estão no corpo do texto.
O cinema também é uma arte do gosto de Hélio Pólvora
e, portanto, volta e meia se faz presente nos textos. No conto
em questão, “Moldávia”, é o filme Gilda, com Rita Hayworth e
Glenn Ford, que será assistido pelo narrador e seu pai.
Mas é a literatura que inaugura o primeiro parágrafo do
conto, quando o narrador faz referência ao náufrago Robinson
Crusoé, de Daniel Defoe, depois discute sobre o personagem
Amaro, do romance Clarissa, de Érico Veríssimo. A seguir, o
personagem, entre outros possíveis entretenimentos, pensa em
entrar na biblioteca para retomar — vale reparar que se trata de
retomar, e não de tomar — as leituras programadas de ficção
norte-americana, e continua olhando os títulos de livros expostos nas montras das três livrarias. Ainda há outra referência, dessa feita ao cinema Jandaia, que acolheu em sarau literopolítico
uma figura ilustre, o poeta Pablo Neruda.
A complexidade psicológica dá o sabor agridoce, e a variedade de tratamento e de tom faz da leitura de cada uma dessas narrativas uma incursão no inesperado. O modo de ver dos
personagens rechaça clichês, porque eles seguem seus instintos e
suas motivações, afastados dos ditames erguidos pela vida e pela
sociedade. As motivações são sempre circunstanciais. O contista
é um observador sutil das estratégias, das heroicas às mesquinhas, sem sentimentalismos, diria, mas também sem cinismo;
enfim, o que há é a ousadia ao medir o que é mais importante
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ou mais digno. Em suma, o autor insiste na psicologia do personagem e, sem ser indulgente, chega a admirar suas obsessões e
flagrar pessoas no ato involuntário de serem elas mesmas.
A leitura do conto “Chuva”, de O rei dos surubins6, é exemplar como amostragem da movimentação no interior dos personagens de Pólvora.
No conto em questão, o autor desnuda sem piedade a motivação da velha imóvel no galpão com os braços abertos como
asas postas a secar, mãe teimosa, opiniática, que desmanchou os
galpões feitos pelo filho e refez erradamente o mesmo galpão de
criar aves, só para não receber orientação do dito filho. Abrir os
braços sobre o parapeito, como se fossem asas molhadas, sentada à porta desse pequeno galpão, é emblemático da intenção
maior que rege a literatura de Hélio Pólvora: a de considerar indivíduos específicos — personagens — como figuras representativas das motivações humanas. Ainda no mesmo conto, “Chuva”, o dono da fazenda, o pai, no auge de uma seca histórica,
mandara cavar na pastagem em busca de água. Quando a água
minou, ele tapou a nascente, de modo a que brotasse apenas um
mísero filete — o suficiente para as necessidades de água da fazenda. Não queria dividir a água com os vizinhos. Mas a história
secreta está concentrada na alusão, pois é o narrador que “acha”
que ouviu um baque como o de um corpo que caiu na represa:
seria o da velha? A história secreta é contada de modo elusivo.
E, seguindo com Piglia mais uma vez, a história secreta é a chave
da forma do conto e suas variantes.
Sendo assim, como está supracitado, o conto de Pólvora
traz duas histórias como se fossem uma só, como se dá nos
contos de Tchekhov, de Mansfield, de Sherwood Anderson e
do Joyce de Dublinenses, trabalhando tensões, as tais motivações
humanas, construindo uma segunda história com o que não é
dito — e aqui vale lembrar que tudo isso faz parte da teoria do
iceberg de Ernest Hemingway: o importante nunca se conta, a
história secreta fica subentendida. Nos pontos de cruzamento
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das histórias que estão no mesmo conto, o alicerce da sua elaboração é a memória, consciente muitas vezes, inconsciente em
outras ocasiões. O narrador literário tem a mente examinadora,
tem seus juízos e seu ritmo para refletir. A memória, em Hélio
Pólvora, se faz ato literário, ficção vivida e escrita com a excelência de um grande talento.
NOTAS
PÓLVORA, Hélio. Os galos da aurora & outros contos. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 2002.
2
Pólvora, Hélio. Contos da noite fechada. Ilhéus: Editus, 2004.
3
Pólvora, Hélio. Melhores contos. Sel. de André Seffrin. São Paulo: Global, 2011. (Coleção Melhores Contos).
4
Piglia, Ricardo. O laboratório do escritor. Trad. Josely Vianna Baptista.
São Paulo: Iluminuras, 1994.
5
Pólvora, Hélio. Noites vivas. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura,
1972; 2. ed. Rio de Janeiro: Antares; Brasília: Instituto Nacional do
Livro, 1978.
6
Pólvora, Hélio. O rei dos surubins & outros contos. Rio de Janeiro: Imago; Salvador: Fundação Cultural do Estado da Bahia, 2000.*
1
Gerana Damulakis é crítica e ensaísta. Publicou O guardador de mitos
(poesia), Sosígenes Costa: o poeta grego da Bahia, e O rio e a ponte: à
margem de leituras escolhidas. Organizou a Antologia panorâmica do
conto baiano — Século XX. É colaboradora de revistas de cultura e de
jornais, tendo assinado as colunas “Leitora crítica”, no jornal A Tarde,
e “Olho crítico”, na Tribuna da Bahia.
►► 167
CARLOS NELSON COUTINHO
(1943 – 2012)
Um pensador cosmopolita
Florisvaldo Mattos
S
olidária e acolhedora, em gesto de humanismo pleno, a
Academia de Letras da Bahia presta, em sessão especial,
sentida e merecida homenagem ao saudoso escritor, cientista
político, professor e pensador baiano Carlos Nelson Coutinho.
Por me faltarem fundamentos de teor filosófico e confiáveis
habilidades verbais, transfiro a outros mais competentes a felicidade de discorrer sobre alguém unanimemente enaltecido
como um brilhante e raro intelectual, reservando-me apenas a
uma evocação afetiva, como seu amigo e, por um bom tempo,
seu cunhado.
Em verdade, nestes rabiscos optei por lembrar o jovem de
elevada estatura, tez clara, cabelos ruivos encaracolados, olhos
castanho-claros, rosto pacato e voz pausada, nos prelúdios de
sua caminhada para se tornar um iluminado e fecundo operário
das ideias. Embora não confie em datas, creio que o conheci por
volta de 1960, ele ainda um estudante que se preparava para o
vestibular de filosofia na então Universidade da Bahia, mas já
assumindo posturas de analista crítico e contestador de aspectos
da realidade com que seu espírito juvenil perspicaz então se deparava, em nada coincidentes com a quietude civilizada de seu
ambiente familiar, um oásis de calma e sensatez governado por
dois símbolos: o pai, Nathan Coutinho, homem sereno e reservado, em cuja pacata imagem mesclava a figura de um político
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
pertencente a um partido de matriz conservadora com a de um
poeta forjado na tradição parnasiano-simbolista, elogiado como
tradutor primoroso de Baudelaire, e sua diligente mãe, Elza
Coutinho, modelo de beleza, elegância e senso prático; enfim,
um manso lugar que em nada lhe travava as primeiras elucubrações intelectuais.
Durante certo tempo formamos um grupo de convivência em ambiente cordial de franca camaradagem, além de mim
composto por ele e por Amélia Rosa Maia, depois Amélia Rosa
Maia Coutinho, Fernando da Rocha Peres, Urania Tourinho, depois Urania Tourinho Peres, Roberto Gabriel Dias, Isnaia Santana, depois Isnaia Santana Dias, e Sônia, irmã dele, depois Sônia
Coutinho de Mattos, alvos todos das lufadas gentis de um vento
casamenteiro. Os anos se sucediam como um alvorecer, coroando um período para nós promissor de vertiginoso pós-guerra,
no bojo da guerra fria travada entre as duas principais potências, Estados Unidos e União Soviética, que por aqui, na Cidade
do Salvador de então, se traduzia em arroubos de confiança e
crédulo fervor, inebriante atmosfera a que o jovem, que na intimidade do convívio todos carinhosamente chamávamos pelo
diminutivo Carlito, alegremente se associava.
Por outro lado, também vivíamos uma quase romântica
euforia suscitada pelo que haviam sido os chamados Anos JK,
os dinâmicos cinco anos do governo Juscelino Kubitschek, que
ele, presidente, prometia convicto valerem por 50, operando
mudanças sensíveis na ordem econômica e social — e por que
não também cultural? — em todo o país. E desenhava-se um cenário baiano de futuro imediato promissor, se não de epifanias.
As razões se deviam a fatores diversos, tais como: o impulso
advindo da produção e refino de petróleo, exigindo intervenções
modernizadoras nas estruturas urbanas, especialmente metropolitanas, que repercutiam no crescimento da população e na
demanda de mão de obra ativa; as aspirações que levavam a um
emergente processo industrial e à reconfiguração das atividades
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
de comércio; a plena vigência do regime democrático com os
eleitos Juracy Magalhães, para governar o estado, e Heitor Dias,
prefeito com planos de melhorar a cidade e, com isso, a vida de
seus munícipes, que sempre reclamam; as ações de uma Geração Mapa a pleno vapor, com projetos inovadores em literatura,
teatro, artes plásticas, cinema e até jornalismo, tanto quanto a
presença das novas escolas de arte e institutos da Universidade
da Bahia, sob o criativo reitorado de Edgar Santos; até mesmo o
surgimento do Jornal da Bahia, uma novidade no ainda acanhado âmbito da imprensa local.
Nessa esperançosa atmosfera de mudanças, o novo cenário só favorecia a ciência, as artes, o pensamento e, com ele, a
criação e a reflexão. A tal estado de ânimo se ajustariam perfeitamente os versos iniciais de um poema de Yeats, “Velejando
para Bizâncio”: “terra aquela que não serve para anciãos,/ os
moços a abraçar-se, aves a cantar/ nas árvores...”. É esse o panorama com que se defronta o espírito do jovem Carlito, logo
ao se diplomar em filosofia, trazendo consigo os fluidos do amadurecimento cultural que a vida universitária costuma agregar,
benéfico a um projeto intelectual desde cedo nutrido e destinado
a cumprir-se com sucesso mais adiante.
Convivi por alguns anos com esse jovem sereno que muito
estudava e a muito aspirava, leitor assíduo de filosofia, de crítica
sociocultural e de romances, abraçado a ideias e princípios que
priorizava, alimentando o desejo de vê-los concretizados. Jornalista de antenas voltadas para a atualidade, acompanhei de perto
esse fecundo trajeto, seja como um interlocutor de temas sociopolíticos em debate, seja como poeta, envolvido com literatura e
escrita, inclusive como testemunha de seu visível interesse pela
obra de grandes romancistas, em que se revelavam flagrantes conflitos em sociedades surgidas com a revolução burguesa. Falava de
autores, romances, ações e personagens com naturalidade, numa
perspectiva de realismo crítico de inspiração marxista, que era o
cosmos de ideias por onde navegava o seu espírito.
►► 171
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Se era o século 19, não poderiam faltar nomes e obras de
três grandes do romance: de Stendhal, as peripécias e audácias
de Julien Sorel em O vermelho e o negro, ou do Fabrício del Dongo
de A cartuxa de Parma; de Balzac, as aspirações e artimanhas do
Lucien de Rubempré de Ilusões perdidas, numa Paris de aglomerado urbano que a complicava, impelido pela revolução industrial;
já em Flaubert, atraíam-no os rombos que as angústias de Emma
Bovary assestavam na muralhada moral burguesa. Interesse semelhante se manifestava quando os romancistas eram Tolstói,
com seus Guerra e paz e Anna Karênina, para logo chegar ao perturbado Raskholnikof no Crime e castigo de Dostoiévski, ou ao
Nicolai Gogol de O inspetor geral e Almas mortas.
No mesmo diapasão, se o foco era o século 20 não podiam
faltar o Thomas Mann de Os Buddenbroock, A montanha mágica e
Morte em Veneza, como ainda O leopardo, do italiano Giuseppe
de Lampedusa. Em sendo o assunto teatro, fatalmente surgiam
nas conversas peças a que não faltava o recorte social, como A
morte de Danton, de Georg Buchner, ou A ópera dos três tostões e
Mãe coragem, de Brecht. Recordo o ar folgazão com que ele, para
priorizar a eficácia da narrativa literária, se referia a uma frase
de Stendhal em O vermelho e o negro, ao advertir que “política no
romance é como um tiro no meio de um concerto”. Recordo
também o tom hilário de suas alusões a uma célebre cena de O
leopardo, quando o príncipe de Salina aconselha o filho a se alistar
nos exércitos revolucionários para que as coisas continuassem
como estavam.
Nessas tertúlias cordiais, eu, pouco enfronhado com filosofia e outras ciências humanas, conseguia perceber autores e
obras cuja leitura varava suas tardes, noites e até madrugadas. Tinham presença obrigatória, além dos gregos Platão, Aristóteles e
Epicuro, os sofistas e os estoicos, também Rousseau e Diderot,
mas principalmente Kant, Hegel, Marx, Engels e, por fim, entre
muitos outros, o italiano Antonio Gramsci, de cujas teses ele se
tornaria o maior conhecedor e propagador na América Latina,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
sem esquecer os nomes da Escola de Frankfurt, sendo que foi
pelas mãos dele e de Amélia, sua mulher, que vim a descobrir e
ler, na época, o famoso ensaio de Walter Benjamin “A obra de
arte na época de sua reprodutibilidade técnica”, um ícone da
crítica cultural dos anos 60 e 70.
Neste ponto, por este rápido e incompleto esboço, me
vejo com a comichão de usar um vocábulo, correndo o risco de
parecer um juiz apressado, senão trôpego: penso em “sabedoria” como a palavra que mais define o destino do gênio de Carlos Nelson Coutinho, por sua atividade e pela obra de pensador
consciente, reflexivo e claro que legou a seus leitores e admiradores. Ele era um sábio.
Cerca de cinquenta anos depois, quase nada me ficou de
suas preferências quanto ao que não se tratasse de filosofia e
ficção literária. Lembro apenas que, em relação à poesia, embora
não menosprezasse o estro simbolista, chegando a recitar com
entonação peculiar, às vezes jocosa, sonetos do pai, Nathan,
lembro-me de sua propensão em eleger obras de poetas cuja
imaginação criadora mais se inclinasse para as questões sociais,
sem, todavia, abominar o lirismo. Talvez por isso, ou por circunstâncias outras, inclusa a sua admiração pelo modernismo,
posso dizer que me senti um felizardo, pois a poesia que eu ousava engendrar na época, com versos que pareciam insinuar utopias telúricas, cantando campos, labutas rurais e heróis rústicos,
sóis benfazejos e águas redentoras a moverem rumos, parecia
deslizar por remansos, no caudal de sua generosa preferência.
Sentia-me lisonjeado ao vê-lo ler ou recitar, em voz alta, versos
ou estrofes de poemas que mais adiante iriam compor Reverdor,
meu primeiro livro, lançado pelas Edições Macunaíma em 1965.
Tracei antes, a propósito desses anos de convivência com
esse sereno e pacato rapaz, um retrato da Bahia em plena azáfama desenvolvimentista para livrar-se de sua incômoda carapaça provinciana. Pois bem, vivia-se esse clima saudável em várias
frentes, quando de repente, para invocar um verso paradigmático
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
do nicaraguense Rubén Darío, “un gran vuelo de cuervos mancha
el azul celeste” (traduzindo, “um grande voo de corvos mancha o
céu azul”), isso mesmo, de repente um imenso manto de sombra
passou a cobrir nosso éden de esperanças, com o golpe militar de
1964, com seu imediato arrastão de suspeitas e violências contra
tudo e contra todos os que aspiravam e lutavam por um Brasil
melhor e mais feliz. Nessa avalanche de cangas discricionárias, sofrendo coações e constrangimentos inquisitoriais, mais por consciência, palavras e pensamento em defesa das liberdades públicas
do que por má conduta ou delito tipificado, nosso filósofo, arauto
das ideias socialistas, viu-se obrigado a transferir-se para o Rio de
Janeiro, creio que em começos de 1965, ante a ameaça de perseguições e inquéritos militares.
Não me tomem por presunçoso, mas estamos diante de um
caso que somente os fados explicam. Como aconteceu e aconteceria a outros que viveram semelhantes vexames na ocasião, forçados a deixar a sua terra e os seus para viver em outras plagas, com
outras gentes, penso em outra palavra que se encaixa perfeitamente na biografia desse nosso pensador: longe de um ser condenado
a fatalidades da vida provinciana, como outros, Carlos Nelson era
um “cosmopolita”, sempre o foi, desde o cotidiano infanto-juvenil dos bancos escolares. Cosmopolita, esta palavra que hoje
mais reflete gozos e prazeres da modernidade, sugerindo viagens,
turismo e comodidades urbanas, na verdade sempre despertou a
curiosidade de etimólogos, desde que, dizem, há mais de dois mil
anos foi inventada pelos estoicos, na antiga Grécia, incomodados
com o fato de as pessoas trazerem no nome, como identidade
pátria, um rastro de sua origem geográfica. Isso mesmo, na Grécia
a pátria era a cidade onde alguém nascia. Daí os Thales de Mileto,
Zenão de Eleia, Heráclito de Éfeso, Apolônio de Rodes e até Aristóteles de Esmirna, que povoaram mentes e livros.
Assim, a meu ver, não foram os esbirros da ditadura que
forçaram Carlos Nelson Coutinho a mudar-se, a ir-se embora
daqui, pois sua vocação era a de um cosmopolita, um cidadão do
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
mundo, do cosmos, para seguir a convicção dos estoicos. Desde jovem, jamais ele poderia ser identificado como Carlito da
Bahia, rótulo mais apropriado a designar sambistas, capoeiristas
ou poetas de cordel, não a um pensador de alta estirpe. A ele
dediquei um poema, escrito no calor de horas rudes, açoitadas
pelo guante ditatorial nos anos 1970, e que se encontra em meu
livro Fábula civil, de 1975, mas publicado antes, em 1968, num
caderno semanal de cultura do jornal Tribuna da Bahia, coordenado por Bisa Junqueira Ayres, saudoso ícone intelectual da
afirmação feminina entre nós, que todos aqui presentes agora
ouvirão, dividindo comigo o íntimo orgulho de recordá-lo em
memória do nosso ilustre homenageado:
Café matinal
A Carlos Nelson Coutinho
Agora podemos saber o que é pior:
a mente desconexa, a fome a navalhadas.
Mesmo que nos reste a ferida dos signos,
roto lábio sobre espigas de fel,
nada nos salvará, nada será pior.
A luz está no caos celebrando vontades
durando nos espaços matutinos.
No exato momento, ao deus
que nos valeu somos gratos — e mudos
nem mesmo reparamos que se fende
o universo da ilusão.
À lição de modéstia que renova
o passado dos gestos preferimos
o som metálico das vozes — ou apenas
nos rendemos ao peso do silêncio.
►► 175
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
II
De meu querer me liberto. Agora vejo:
a verdade resiste a meu próprio consumo.
E sendo credo e coisa, permaneço
longe de mim e perto da verdade,
canto civil engendrado nas perfídias
do tempo, inscrito no muro do sono.
Agora vejo claramente: a luz
rompe o surdo planalto de bandeiras,
favorecida pelo inédito de
tudo. Desce e inaugura para sempre
o instante anônimo da verdade —
o súbito clarão das coisas simples.
A luz está no caos. Acorde e veja.
Dados biobibliográficos de Carlos Nelson Coutinho
Carlos Nelson Coutinho nasceu na cidade de Itabuna,
no Sul da Bahia, em 28 de junho de 1943, e faleceu no Rio de
Janeiro em 20 de setembro de 2012. Graduou-se em filosofia
pela Universidade Federal da Bahia em 1965, ano em que se
transferiu para o Rio de Janeiro, onde se dedicou inicialmente
à crítica literária e, a partir de 1967, à publicação de livros pela
editora Civilização Brasileira. Militante desde jovem do Partido
Comunista Brasileiro (PCB), o Partidão, e da crítica cultural,
entre os anos 1960 e 1970, dedicou-se ao estudo e à divulgação
das obras de Georg Lukács e Antonio Gramsci, dos quais traduziu e publicou obras também pela editora de Ênio Silveira,
de quem foi amigo.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Sendo um dos mais destacados pensadores marxistas brasileiros, nos anos 1970 foi obrigado a exilar-se em Bolonha, na
Itália, e depois em Paris, cumprindo em ambas as cidades cursos
de pós-graduação. Entre os livros que traduziu para o português,
encontra-se o célebre O capital, de Karl Marx. A partir de 1986,
tornou-se professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
aposentando-se em abril de 2012, ano em que recebeu o título
de professor emérito pela UFRJ. Coutinho veio a falecer meses
depois, aos 69 anos.
Construída a partir de meados dos anos 1960, a bibliografia de Carlos Nelson Coutinho consta das seguintes obras:
De Rousseau a Gramsci: ensaios de teoria política, 2011; Contra a
corrente, 2008; Intervenções: o marxismo na batalha das ideias, 2006;
Cultura e sociedade no Brasil, 2005; Lukács, Proust e Kafka, 2005; Ler
Gramsci: entender a realidade, 2003; Gramsci: um estudo sobre o
seu pensamento político, 1999; Gramsci e América Latina, 1998;
Marxismo e política, 1994; Democracia e socialismo, 1992; Introducción
a Gramsci, México, 1986; Literatura e ideologia en Brasil, Havana,
1986; A dualidade de poderes, 1985; A democracia como valor universal,
1984; Gramsci, 1981; O estruturalismo e a miséria da razão, 2010;
Georg Lukács: marxismo e teoria da literatura, 1968; Literatura e
humanismo, 1967.*
Florisvaldo Mattos é poeta, jornalista e ensaísta, bacharel em direito e
mestre em ciências sociais pela Universidade Federal da Bahia. Presidiu
a Fundação Cultural do Estado da Bahia. Foi redator-chefe de A
Tarde. Publicou diversos livros, como Travessia de oásis: a sensualidade
na poesia de Sosígenes Costa, e Poesia reunida e inéditos. Desde 1995
ocupa a Cadeira nº 31 da ALB.
Palestra proferida em sessão especial da Academia de Letras da Bahia,
em homenagem à memória de Carlos Nelson Coutinho, na Sala de
Reuniões, em 17 de outubro de 2012.
►► 177
CARLOS NELSON COUTINHO
A empreitada intelectual
de um comunista reformista
Paulo Fábio Dantas Neto
M
uitos são os ângulos a partir dos quais se poderia enfocar
o intelectual Carlos Nelson Coutinho. Se a escolha fosse
o ponto de vista da trajetória acadêmica, ter-se-iam que percorrer caminhos que iriam da filosofia ao serviço social, passando
pela ciência política, pois ele os percorreu, como professor,
pesquisador e organizador institucional, combinando respeito
rigoroso aos aspectos disciplinares de cada qual desses caminhos, mas com abrangência de conhecimento e atitude epistemológica que o tornavam afeito, sem afetação de modas, a uma
perspectiva genuinamente interdisciplinar. Ou melhor, a uma
perspectiva universal, de permanente busca de compreensão
da totalidade dialética, tal como definida por Georg Lukács,
seu berço filosófico jamais renegado como porta de acesso e
metro que o orientou na aproximação informada ao pensamento de Antonio Gramsci e, de um modo geral, ao tipo de
marxismo crítico que orientou sua atividade intelectual, acadêmica ou não.
Se a perspectiva escolhida fosse a do seu posicionamento
político e social, ter-se-ia que englobar na análise as inúmeras
nuances contidas na pluralidade intrínseca às noções e às experiências históricas do socialismo e da democracia; e mais nuances
ainda decorrentes da intersecção desses dois conceitos e realidades históricas que, juntos ou separadamente, embasaram e emularam, a partir da modernidade, significativas tradições de práxis
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
política e social. Esse terreno adubado pela práxis foi visitado
incansavelmente por Carlos Nelson, ao longo da sua vida, seja
como militante político, seja como ensaísta fortemente dedicado
às controvérsias próprias à atividade publicística, seja como tradutor, organizador e divulgador de obras e autores significativos
para o seu posicionamento.
Um terceiro enfoque poderia ser o da sua inserção no
debate sobre a cultura brasileira, no qual pôde aliar mais livremente talento ensaístico e o pendor para a polêmica à sua
ampla e refinada formação intelectual nos campos da literatura
e das artes. Também por aí o caminho seria exaustivo, pois
são vários os enquadramentos possíveis de suas intervenções,
pela diversidade de contextos e conjunturas em que interveio,
desde o rescaldo dos movimentos de 1968, até mais recentes
perplexidades de socialistas e marxistas ante a cultura de massas, passando pelas discussões estéticas sobre ou no âmbito de
movimentos culturais contemporâneos à ditadura e à transição
democrática.
Incapaz de me aprofundar a contento em qualquer dessas
compridas veredas, escolhi realçar, como ponto de reflexão e
talvez de problematização, a avaliação que suponho ter sido feita
pelo próprio Carlos Nelson a respeito do sentido da sua existência profissional, política e social. Suponho — e não só a partir
do título de um dos seus livros — que ele se considerava um
intelectual “contra a corrente”. Ousarei argumentar que ele foi
mais do que isso: querer remar contra marés não foi impedimento, ao contrário, ajudou a que ele fosse (precisasse ser) também
um intelectual de pensamento apolíneo, cujo poder de síntese
fazia mentes paralisadas por dicotomias vislumbrarem novas
harmonias; cujo método sóbrio sugeria equilíbrio a quem se via
desesperado nas derrotas; cuja profundidade analítica incutia razão em quem se perdia nos desvãos do irracional; e cuja simplicidade expositiva punha ordem em cabeças confusas, ainda que
a pretensão fosse a de arrumá-las para desarrumar o mundo.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Foi assim que pude captá-lo aos poucos, mansa e processualmente, como pregava o seu incorrigível reformismo. Mesmo quando a esse reformismo o pensador acrescentava o teimoso adjetivo “revolucionário”, era o substantivo que reluzia
nos seus textos. Quem se limitou a ouvi-lo, ao mesmo tempo
didático e inflamado, cheio de superlativos, em palestras, conferências e debates, não acharia depois, na sua palavra escrita,
um raciocínio redutor e simplista para transformar a fala em
panfleto. Era forte, de modo algum aguada ou conformada, a
chama ideológica que emanava da fala e do texto do reformador, mas jamais ela ameaçou queimar navios que pudessem
fazer o desejo contrário à corrente navegar em mar possível.
Queria reformas, mesmo que não resultassem, como também
queria, em revolução; e não cria em revoluções que renegassem
e revogassem reformas obtidas na paciente luta política dentro
da antiga ordem.
Por inspiração de Carlos Nelson e de outros intelectuais
renovadores do PCB, palavras e expressões como “via prussiana”, “transições pelo alto”, “revolução progressiva” e, principalmente, democracia tornaram-se frequentes no repertório de
fala de comunistas, antes emparedado pelo vocabulário dual e
meramente denotativo da luta de classes.
Face à sua recentíssima e sentida ausência, talvez não
seja muito educado apropriar-me assim da sua obra, a partir
da influência que ela exerceu sobre mim. Mas, paciência! Não
posso falar de Carlos Nelson Coutinho sem denunciar esse
amante inconfesso do equilíbrio e da moderação, que terminou
a vida nas fileiras do PSOL. Minha percepção é de que não há
nisso contradição, embora pudesse haver, como em suas duas
outras opções partidárias, engano. Pois em seu otimismo de
vontade buscou sempre encontrar — diria mesmo perseguir
— um partido que, diferenciando-se do centro político, fosse
capaz de desafiar esse centro, não, porém, para fazer do desafio
ação permanente e apocalíptica, e sim para fundar um novo
►► 181
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
centro, que produzisse nova harmonia, novo equilíbrio e nova
ordem, mais racional, mais justa, mais democrática, originária,
por sua vez, de novos e fecundos conflitos. Nessa dimensão ele
foi contra a corrente que historicamente vem condenando os
partidos políticos ao veredicto antecipado pela lei de bronze da
oligarquia, de Robert Michels.
A democracia como valor universal, um ensaio de Carlos
Nelson bastante conhecido no âmbito da esquerda brasileira,
data de 1979, tempo em que ele ainda militava no PCB. Nele
está presente a atitude intelectual a que me refiro, ou seja, o
compromisso simultâneo com a mais acesa polêmica e com a
sua conversão em novos e amplos consensos. Criticava ainda
timidamente a tradição da Terceira Internacional e o marxismo-leninismo, seu produto conspícuo. Mas o fazia — e talvez
daí proviesse a timidez — de uma perspectiva que incluía a esperança, que se revelou frustrada, de renovar a política de um
partido extensa e intensamente marcado por aquela tradição.
Esse limite não escapou ao agudo senso crítico liberal de José
Guilherme Merquior, que o acusou de querer obter a quadratura do círculo ao tentar democratizar Lenin. Ao reconhecer,
em 1999, validade parcial a essa crítica, Carlos Nelson não só
rendeu créditos a um liberal que respeitava, mas antes de tudo
expôs sua sensibilidade autocrítica, capaz de facilitar a construção — a partir, em torno ou em oposição a suas ideias — de
consensos nada óbvios, sem que haja neles facilidade eclética
ou adesão oportunista.
Admitir, em 1999, a pouca profundidade de sua crítica,
de 1979, ao marxismo-leninismo — e, mais ainda, reconhecer
a pertinência desse limite ao contexto da sua inserção no PCB
— não o faria, contudo, descuidar da crítica simétrica que seu
senso de equilíbrio também dirigira, na versão original do texto,
à perspectiva liberal sobre democracia. Os vínculos entre democracia e socialismo eram para ele de tal ordem, que punham
sua reflexão teórica em certa dependência da possibilidade de
182 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
encontrar realização empírica na ação de um partido político
de nítido perfil socialista.
Em 1984, já desencantado com o PCB, mas ainda lhe
dirigindo o esperançoso respeito de não considerar definitivo o seu fracasso histórico, Carlos Nelson deixava claro que
a republicação de A democracia como valor universal tinha como
objetivo contribuir para vencer o desafio de cobrir aquilo que,
cinco anos após a fundação do PT, ele ainda considerava ser
uma lacuna:
Alguns partidos comunistas foram capazes de empreender uma profunda renovação interna que os afastou da
tradição esclerosada da Terceira Internacional. [...] Não
foi infelizmente, pelo menos até agora, o caso do PCB.
[...] A modernidade brasileira exige a criação de um partido socialista, laico, democrático e de massas, capaz de
recolher o que há de válido na herança do comunismo
brasileiro, mas, ao mesmo tempo, de incorporar as novas
correntes socialistas que provêm de diferentes horizontes políticos e ideológicos. [...] Se aceitei o convite [...]
para publicar esta nova edição ampliada do meu livro foi
por ter a esperança de que ele possa contribuir para ajudar alguns dos seus eventuais leitores a compreender a
importância dessa tarefa: a de imaginar e construir um
partido que, abandonando qualquer veleidade golpista ou
vanguardista, assuma como parâmetro fundamental de
sua organização interna e de sua linha política a aceitação
do valor estratégico da democracia pluralista na luta pela
transformação socialista de nosso país.
Parece ter sido, pois, sem maiores ilusões que um pouco
depois CNC iria se filiar ao PT, assim se mantendo por mais de
duas décadas. Sem ilusões quanto à distância entre a realidade
material daquele partido e o ideal revelado pelo texto acima,
mas pleno, mais uma vez, de modéstia e de ímpeto de perseguição ao consenso, marca de sua conduta pública, cultivada
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
como se fosse quase um valor estético. Apostava em instrumento existente num setor majoritário da esquerda real, representativo de um tipo de esquerda que lhe era até certo ponto
filosoficamente estranha, mas que lhe parecia socialmente relevante e, portanto, mais capaz de produzir novo centro. A aposta revelou, posteriormente, seu pouco rendimento, exatamente
na medida do sucesso político e eleitoral do referido partido
no constituir-se em centro político, porém de uma ordem conservada, que o esforço de consenso buscava mudar. Por aí se
pode entender sua passagem ao PSOL: nela se revela a mesma
busca, a mesma aposta, cujo rendimento talvez ele ainda achasse cedo para avaliar ou talvez avaliasse como indicativo de que
ainda era cedo para desistir. Como sempre, persistiu testando
seus limites, até que agora, com a morte, o limite lhe chegasse
de modo definitivo.
No caso de Carlos Nelson, não apenas o ser político maduro foi, além de um intelectual contra a corrente, um perseguidor de equilíbrios novos por meio de uma razão dialética
que produz consensos ao operar num debate livre de ideias
conflitantes. Também assim já o fora, na juventude, o estudioso da filosofia, autor de O estruturalismo e a miséria da razão. Ao
defender a razão dialética a partir do Lukács maduro, Carlos
Nelson lançou mão de sua verve apolínea para interpelar, simultaneamente, o formalismo estruturalista e com ele toda a
sorte de agnosticismos filosóficos, bem como formulações romanticamente humanistas ou existencialistas que, a pretexto de
recusar a unilateralidade formalista, teriam incorrido, segundo
a bússola dialética do nosso autor, em unilateralidade contrária,
mas simétrica. Na crítica lukacsiana à destruição da razão pelos
segundos, ele achou inspiração para denunciar uma “miséria da
razão”, a que se chegava adotando o caminho trilhado pelos
primeiros. Assim, mais do que contra a corrente, esmerava-se
o jovem autor como um propositor de um tertius entre duas
poderosas correntes concorrentes naquela passagem dos anos
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
60 aos 70: a do existencialismo e a do estruturalismo, com seus
respectivos aliados e derivados.
A atitude intelectual de explorar ao limite as possibilidades polêmicas de um tema e ao mesmo tempo divisar terrenos
de diluição de dicotomias e de construção de novos “centros”
poderá ser encontrada também em várias intervenções de
Carlos Nelson em torno do tema da cultura brasileira. Além
de no conhecido ensaio Cultura e democracia no Brasil, mais ou
menos contemporâneo de A democracia como valor universal, há,
por exemplo, suas reflexões publicadas em 1986 pela revista
Presença sobre a Escola de Frankfurt e a cultura brasileira,
além de outros momentos em que, no trato de temas afins, se
mostra sua obsessão pela construção dialética de um tertius,
termo em torno do qual, à moda de um centro político, pudessem surgir consensos geradores de novos focos de debate e de
reforma intelectual e moral. Foi assim quando usou Gramsci
para, por meio de formulações de “bom senso”, para além do
senso comum, diluir a dicotomia entre “alta cultura” e “cultura
popular”, que reduzia essa última à condição de folclore. Cuidava, porém, que a diluição não se tornasse empreendimento
popularesco. Formava decididamente entre os que salientavam
a dignidade e a nobreza da alta cultura, crendo, ao mesmo tempo, na possibilidade e na propriedade de levá-la às massas, para
elevá-las.
Esse ânimo estético e político permitiu-lhe transitar de
modo ao mesmo tempo crítico e simpático por temas dados a
polaridades extremadas — como o tropicalismo e as telenovelas — e a apresentar de forma inteligente e não sectária até
suas compreensões carregadas de sentido doutrinário, como o
seu apego um tanto tradicional à ideia de construção de uma
cultura nacional-popular. Mesmo aí seu pensar não entrava em
contradição com sua cultura e com seu pendor cosmopolitas.
Em suma, falar do perfil intelectual de Carlos Nelson Coutinho é discorrer sobre a empreitada intelectual de um comunista
►► 185
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
reformista, crítico radical da política e político obcecado pelo centro, que executou esses seus dois desideratos com alegria e vigor
de revolucionário e rigor metódico espartano. Essa é uma dimensão da saudade que ele nos deixou como complemento do
seu legado.*
Paulo Fábio Dantas Neto é bacharel em ciências econômicas pela
Universidade Federal da Bahia, mestre em administração pela UFBA
e doutor em ciências humanas (ciência política) pelo Instituto
Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro. Vincula-se à UFBA como
professor associado e pesquisador do centro de recursos humanos da
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas.
Palestra proferida em sessão especial da Academia de Letras da Bahia,
em homenagem à memória de Carlos Nelson Coutinho, na Sala de
Reuniões, em 17 de outubro de 2012.
186 ◄◄
MAJOR COSME DE FARIAS
Um educador popular
João Eurico Matta
N
o jornal A Tarde de 14 de março de 1970, ano em que completava 95 anos de idade o então venerado e venerando
Cosme de Farias — jornalista atuante desde 1894, rábula autorizado a advogar naquele mesmo 1894, poeta publicado desde 1896,
fundador, em 1915, liderando um grupo de cidadãos idealistas, da
Liga Bahiana contra o Analfabetismo, vereador eleito do município de Salvador (em 1915, 1917, 1919, 1921 e 1970) e deputado
estadual eleito em 1972 —, um artigo intitulado “O Major foi à
Hora da Criança”, do professor Adroaldo Ribeiro Costa — famoso jornalista, criptônimo ARCO, e radialista, animador do programa radiofônico, desde os anos 1940, Hora da Criança —, revelava
que foi em 1888 que o adolescente Cosme de Farias, aos 13 anos,
começou a discursar em público. Se não tivesse falecido em 1972,
ainda lúcido e cidadão ativo, aos 97 anos de idade, e pudesse ter vivido até os 107 anos (pois não é que o grande arquiteto e urbanista
brasileiro Oscar Niemeyer faleceu recentemente, ainda lúcido e
cidadão ativo, aos 104 anos?!), provavelmente, se não certamente,
o Rábula do Povo — como o chamou o romancista Jorge Amado
numa de suas obras-primas, Tenda dos milagres, transfigurando o
Major Cosme de Farias no personagem Damião de Souza, um
notável mulato autodidata, à semelhança de outro personagem
daquele romance, Pedro Archanjo, metamorfose do baiano Manuel Querino da história real — teria sido, em setembro de 1982,
o décimo dos nove mestres que constituíram, nessa data de
1982, o grupo de fundadores da Academia Baiana de Educação,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
a saber: os de saudosíssima memória professores Hermano José
de Almeida Gouveia, reconhecido historicamente como “o líder
da iniciativa”, Raimundo Nonato de Almeida Gouveia, Adroaldo
Ribeiro Costa, Antonino de Oliveira Dias, Antônio Pithon Pinto,
Raymundo José da Matta, associados aos educadores, hoje plenamente lúcidos e cidadãos ativos, o cearense José Newton Alves
de Souza, nos seus 91 anos, e os septuagenários Edivaldo Machado Boaventura e Remy Pompílio de Souza. Ficou então historicamente associado o nome do baiano Cosme de Farias, nascido
em dois de abril de 1875, à Academia Baiana de Educação como
patrono de sua cadeira acadêmica nº 15, da qual é primeiro titular
o professor João Eurico Matta, autor deste registro.
Por ter concluído apenas quatro anos letivos do curso primário, num educandário de seu rincão natal, a suburbana São
Tomé de Paripe, das cercanias de São Salvador da Bahia, aquele
adolescente que aos 13 anos, em 1888, fez seu primeiro “discurso
em público” não pôde diplomar-se professor ou bacharelar-se advogado, mas se tornou escritor como redator de imprensa e poeta
aos 25 anos, publicando em 1900 duas coletâneas de poemas ou
poesias intituladas Singellas e Lilazes; uma terceira em 1902, sob o
título Lira do coração; uma quarta, sem data no impresso, coleção
de Trovas e quadras; e em 1933, nos seus 58 anos de idade, o opúsculo Estrophes. A partir de 1915, e por cinco décadas, até os anos
1960, Cosme de Farias publicou o opúsculo intitulado (na edição
de 1968 da Imprensa Oficial da Bahia, com 47 páginas) Carta de
ABC, da Liga Bahiana contra o Analfabetismo, para as crianças proletárias
— Distribuição gratuita, com a epígrafe ou mote “A cartilha do ABC
é a chave da sabedoria”, e prefaciada com a seguinte carta:
Professor Amigo:
Tenha Paciência com a criança que apresentar esta CARTA.
Ajude-a. Será um relevante serviço à Pátria.
Muito grato,
Cosme de Farias.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Como um de seus traços de personalidade — de que dou
testemunho por tê-lo conhecido pessoalmente, de perto, nos
anos 1950, 60 e 70, como jornalista, rábula (especialmente na
tribuna do júri, desde 1930 ao lado dos penalistas Edgard Matta,
meu pai, de quem era compadre por ter batizado, em 1932, meu
saudoso irmão Paulo Matta, e Dorival Passos, que foi secretário
da educação e cultura no governo Régis Pacheco, 1951-1955),
ou como militante do assistencialismo humanitário (visitei-o e
à sua consorte de tantas décadas, a bondosa D. Semíramis, num
de seus escritórios no Terreiro de Jesus) e militante parlamentar,
bem como assíduo participante, anualmente, por décadas, do
festivo desfile patriótico do 2 de Julho na Bahia, em carro aberto
e segurando a trêmula bandeira da Liga Bahiana contra o Analfabetismo — foi sempre o cultivo do humor espirituoso e de
risonha esperança, que expressava até com seu modo de trajar
solene — colarinho, peitilho e punhos engomados (“para esconder a falta da camisa”, segundo sua primeira e melhor biógrafa,
Mônica Celestino) e gravata borboleta, terno completo, ainda que
surrado, e chapéu formal de palhinha, até quando pôde usá-lo —,
realizou dois feitos editoriais, dotados desse humor esperançoso,
nas edições de sua Cartilha do ABC das décadas de 1950 e 1960
(acompanhadas de dois cadernos anexos, o de exercício de “Caligrafia” e o de “Tabuada”, assim intitulados), para os quais se
chama a atenção, a seguir.
Primeiramente, o Major Cosme fez preceder a essas edições
anuais a transcrição de um alegre “Hino da campanha do ABC”,
de sua autoria e datado de Salvador, dois de abril de 1950 (dia de
seu nascimento em 1875), em sete quadras, a segunda e a sétima
ditas estribilhos, todas em redondilhas maiores, transcritas a seguir:
Pelo bem de nossa Pátria,
Florão Gentil do Civismo,
Moços e velhos erguei-vos
Contra o Analfabetismo!
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
(Estribilho)
Desfruta muitos prazeres,
Uma alegria sem par,
Toda pessoa que sabe
Ler, escrever e contar!
O gérmen da Ignorância
Diversos males produz,
Mate-se, pois, esse “bicho”
Dentro de um jorro de LUZ!
A Ciência é um Tesouro,
Tesouro de Alto valor,
Quem dedicar-se aos estudos
Pode ser dele o senhor!
O Brasil será maior,
Oh! Que Nação respeitada!
Quando toda a sua gente
For uma gente letrada!
Corações grandes e nobres,
Vinde, sorrindo, ajudar
A meritória Campanha
Da Instrução Popular!
(Estribilho)
Desfruta muitos prazeres,
Uma alegria sem par,
Toda pessoa que sabe
Ler, escrever e contar!
Em segundo lugar, o autor dessa originalíssima Carta de
ABC, Cosme de Farias (em dois de abril de 2014 faria 139 anos
de nascido!), acrescentou, como apêndice, nas edições da década
190 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
de 1960, um bem-humorado texto jornalístico daquele seu amigo, o professor Adroaldo Ribeiro Costa, assinado por ARCO,
enunciando 19 chistosamente ditas “Verdades engraçadas”
sobre as seguintes “profissões”: barbeiro, dentista, engraxate,
advogado, alfaiate, médico, político, pedreiro, astrônomo, carpinteiro, engenheiro, datilógrafo, enfermeira, agrônomo, açougueiro, professor, carteiro, garçom e negociante (assim mesmo,
enunciando “datilógrafo” — obviamente sem alusão ao digitador de teclado computacional ou eletrônico — e “enfermeira”
no feminino!). Como o Major Cosme, ao inserir esses dezenove
dísticos humorísticos de Adroaldo Ribeiro Costa nas páginas
44 a 46 de sua Cartilha, assume uma espécie de coautoria dos
mesmos — aliás, redigidos, comicamente, com o verbo ser e outras formas verbais em tempo pretérito —, há espaço aqui para
transcrever não todas as dezenove expressões, mas oito delas,
selecionadas pelo critério de que algumas definem “profissões”
que o próprio Cosme de Farias “praticou”, a saber:
Não era turbulento mas só vivia nos barulhos dos outros.
Era advogado.
Não era religioso mas só vivia fazendo promessas. Era político.
Não era vaidoso mas só falava quando todos os presentes
ficavam em silêncio. Era professor.
Não era indiscreto mas só vivia dentro dos quartos alheios.
Era médico.
Não era gênio mas quando trabalhava os outros ficavam de
boca aberta. Era dentista.
Não era ébrio mas só vivia riscando. Era engenheiro.
Não era padre mas tinha freguesia. Era negociante.
Não era despersonalizado mas só vivia copiando o que os
outros faziam. Era datilógrafo.
Todos os dezenove dizeres comunicam a profunda simpatia, eminentemente pedagógica e andragógica, e patriótica, do
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Major Cosme por tudo o que é humano ou as atividades humanas. A partir da página 19 da edição definitiva de sua Carta
de ABC, ele relaciona nomes de “brasileiros notáveis” que ele
considerava músicos notáveis (D. Pedro I encabeça uma lista
de 19 nomes); militares (nessa lista de 28 nomes figuram o corneteiro Luiz Lopes e a mulher e alferes Maria Quitéria de Jesus
Medeiros); oradores sacros (o padre Antônio Vieira encabeça
a lista de 22 nomes, entre os quais estão os do cônego Cupertino de Lacerda, do monsenhor Francisco de Paiva Marques e
dos padres Antônio Cabral e Gaspar Sadoc da Natividade); oradores (18 nomes, a partir de Ruy Barbosa); jornalistas (50 nomes); poetas (50 nomes, entre eles Luís de Camões e Antônio de
Castro Alves); estadistas (30 nomes, de Tomé de Sousa e dona
Isabel de Bragança a Getúlio Vargas e outros presidentes do
Brasil e governadores do estado da Bahia); e numerosas listas de
ilustres magistrados, médicos populares, engenheiros distintos,
“homens de grande coração”, marujos, “professores primários
brilhantes” e professoras primárias distintas. A seguir, publicamse quatorze quadrinhas intituladas “Versos à infância”, escritos
por Cosme nos seus 45 anos, porquanto datados “Bahia, dois de
julho de 1920”, e mais uma lista de quinze nomes sob o título
“Preito de justiça aos grandes amigos da campanha do ABC na
Bahia” e as letras dos seguintes hinos, nomeados seus autores,
letra e música: “Hino Nacional Brasileiro”, “Hino ao 2 de Julho”, “Hino à Bandeira Nacional”, “Hino da Proclamação da
República” e “Hino da Independência do Brasil”, este com as
indicações “Rio de Janeiro, 1822; música de D. Pedro I; letra do
jornalista Evaristo da Veiga”. Na contracapa Cosme de Farias
assina o seguinte texto: “Homenagem da Liga Bahiana contra
o Analfabetismo ao grande patriota Oscar Salvador Cordeiro, o
bravo descobridor do petróleo do Lobato.”
Ainda em vida, já nonagenário, o Major Cosme de Farias
recebeu duas homenagens muito expressivas da excelência de sua
biografia de cidadão ilustre e educador popular. Primeiramente, a
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Câmara de Vereadores de Salvador deliberou, à unanimidade, dar
o nome de Cosme de Farias ao salão nobre de reuniões plenárias
da assembleia do poder legislativo municipal. E em novembro de
1967 foi o grande salão do Tribunal do Júri Popular, no Fórum
Ruy Barbosa, no Campo da Pólvora, em Salvador, que recebeu,
solenemente, o nome de Cosme de Farias. Salão lotado, presentes
altas autoridades do poder executivo estadual e municipal, do poder judiciário e do ministério público, Cosme de Farias, 92 anos,
foi homenageado por vários oradores, entre estes o presidente do
Tribunal, desembargador Nicolau Calmon, e o advogado e professor Edgard Matta, falando em nome dos advogados e educadores baianos, como, entre tantos presentes, Dorival Passos. Disse Edgard, arrancando lágrimas do homenageado: “Cosme não
poderia alcançar plena realização humana, como patriota, orador
e amigo do povo, sem a compreensão e a personalidade de D.
Semíramis, sua companheira de longos anos, que, na morada do
casal, à Rua São Francisco, abrigava loucos, pessoas em desgraça
e os que, absolvidos no júri pelo marido, saíam da prisão sem
destino e sem perspectiva.” Esse registro está no noticiário do
Diário de Notícias de 11 de novembro de 1967, onde se lê que
a peroração do discurso de homenagem partiu da lembrança da
frase “O Brasil é uma eternidade”, que Edgard ouvira em 1945
de um exilado francês, foragido do nazismo, em Campinas, São
Paulo, para afirmar, exclamando: “Cosme de Farias não sabe que
um povo e a sua cidade, Salvador, não poderiam ter a eternidade
que têm se não houvessem sido beneficiados com a vida de um
homem eterno — everlasting man — por sua grandeza, a um tempo
um mito e um símbolo!”
A professora universitária Mônica Celestino, jornalista e
doutora em história social pela Universidade Federal da Bahia,
publicou em 2006 sua tese/biografia intitulada Cosme de Farias,
e em 2012, no volume Personalidades negras: trajetórias e estratégias políticas, publicado pela Academia de Letras da Bahia, com
prefácio do acadêmico, então presidente, Edivaldo Boaventura,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
uma conferência sob o título “O Major Cosme de Farias, anjo
da guarda dos excluídos de Salvador (BA)”, na qual podemos ler
excertos que sumariam, com brilhante objetividade, a vida do
educador do povo Cosme de Farias, a seguir transcritos:
Cosme de Farias nasceu em dois de abril de 1875, na localidade de São Tomé de Paripe, então uma área longínqua
do centro de Salvador. Tinha um irmão gêmeo (Cícero),
que morreu na mais tenra idade. Filho do comerciante de
madeira Paulino Manuel e de Júlia Cândida de Farias, o
menino magricelo cursou apenas o ensino primário e começou sua vida laboral junto com o pai, com a venda de
madeira, no final da adolescência. Depois, solidificou uma
carreira profícua como rábula e jornalista, tornou-se referência em assistencialismo na Bahia, participou da vida
política e cultural da cidade e conquistou fama graças à sua
singular forma de vida... O jeito simples e a extensa obra
assistencial motivaram uma homenagem em 1909: um grupo o presenteou com a patente de tenente R-2 da Guarda
Nacional, surgindo então o codinome de Major Cosme...
No dia 15 de março de 1972, morreu em Salvador.
Estava a dezessete dias de celebrar os seus 97 anos de
idade. Quase um século de existência de um cidadão do povo,
educador popular.*
João Eurico Matta é bacharel em direito, administrador, professor
emérito da Universidade Federal da Bahia, crítico e ensaísta. Foi
membro do Conselho de Cultura do Estado da Bahia. Dirigiu
várias instituições públicas e privadas, como o Conselho Regional
de Administração da Bahia. É membro do Instituto Geográfico e
Histórico da Bahia. Desde 1989 ocupa a Cadeira nº 16 da ALB.
194 ◄◄
DORIVAL CAYMMI (1914 – 2008)
Joaci Góes
C
aymmi nasceu em Salvador, a 30 de abril de 1914, e morreu
no Rio de Janeiro, em 16 de agosto de 2008, aos 94 anos,
três meses e 16 dias de idade, em casa, às seis horas da manhã,
vitimado por uma crise de insuficiência renal e falência múltipla
dos órgãos, em consequência de um câncer renal que o perseguia há nove anos. Desde dezembro de 2007, encontrava-se sob
permanentes cuidados médicos na própria casa.
Seus pais foram Durval Henrique Caymmi e Aurelina Soares Caymmi. Descendente de italianos pelo lado paterno, seu
bisavô Caimmi, sem o y, chegou ao Brasil para trabalhar na recuperação do Elevador Lacerda, em Salvador.
O gosto de Dorival pela música nasceu dentro de casa, ao
ouvir parentes ao piano. Seu pai, nas horas de folga do serviço
público, tocava violão, piano e bandolim, enquanto a mãe, mestiça de africana com português, cantava durante as ocupações
do lar. Sucessivamente, o fonógrafo e a vitrola estimularam-no a
compor. Ainda pequeno, participava, como baixo-cantante, em
coro de igreja. Aos treze anos, interrompeu os estudos para trabalhar como office boy no jornal O Imparcial. Dois anos depois,
com o fechamento do jornal, passa a vender bebidas. Com a
música no sangue e na alma, compõe a primeira canção, “No
sertão”, aos dezesseis anos. A estreia, como cantor e violonista,
ocorreu na Rádio Clube da Bahia, aos vinte anos. No ano seguinte, 1935, assumiu a apresentação de um programa musical
denominado “Caymmi e suas canções praieiras”. Em 1936, ganhou o concurso de músicas de carnaval com o samba “A Bahia
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
também dá”. Ao completar vinte e quatro anos, segue o conselho de Gilberto Martins, diretor da rádio, e vai para o Rio, com
o propósito de trabalhar como jornalista e cursar direito. Nos
Diários Associados, conheceu muita gente, inclusive Carlos Lacerda e Samuel Wainer. Logo começou a cantar na Rádio Tupi,
duas vezes por semana, onde interpretou, pela primeira vez, o
legendário “O que é que a baiana tem?”, canção com que Carmen Miranda, a Pequena Notável, vestida de baiana estilizada,
alcançou o estrelato com o filme Banana da terra, de 1938.
Do casamento com a cantora mineira Stella Maris (nome
artístico de Adelaide Tostes) nasceram os filhos Dori, Danilo e
Nana, todos artistas e Caymmi, como ele.
A linguagem corporal de Caymmi é expressadora de
grande tranquilidade. Na sua voz persuasiva, a morte no mar,
que ele tanto amou, aparece como uma ocorrência natural,
simples, suave, doce. Sua obra está impregnada da vida a um
tempo romântica e trágica dos pescadores negros, como se vê
em “É doce morrer no mar”, “Canoeiro”, “Pescaria”, “A jangada voltou só”, “Histórias de pescadores”, “O mar” e muitas outras composições. Com “Oração de Mãe Menininha”,
de quem era filho espiritual, composta em 1972, rendeu sua
homenagem maior ao candomblé.
O violão foi o instrumento que acompanhou sua voz forte e calorosa, desde o início de sua vida profissional, aos vinte
anos, até o alento derradeiro, setenta e quatro anos depois, na
composição e execução de um cancioneiro que o imortalizou
como cultor do samba e da bossa nova. Caymmi enriqueceu sua
biografia artística também como pintor e ator.
Os hábitos, costumes e tradições do povo baiano foram a
fonte primária de sua inspiração, tendo a música negra exercido
forte influência sobre ele, levando-o a desenvolver um estilo inconfundível de compor e cantar, como destacou Chico Buarque,
valorizando a espontaneidade, a sensualidade e a riqueza melódica
dos seus ritmos e versos. Nenhum outro compositor brasileiro
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
produziu tantas obras fixadas na memória popular, a exemplo de
“Saudade da Bahia”, “Rosa morena”, “Maracangalha”, “O dengo
que a nega tem”, “Samba da minha terra”, “Doralice”, “Marina”,
“Modinha para Gabriela”, “Saudade de Itapuã”.
Homenageando o grande cantor do mar que, despedindose do pai e da mãe, pegou o “Ita no Norte e foi pro Rio morar”,
Gilberto Gil, amigo e ex-genro, disse, cantando, que “Dorival é
ímpar, Dorival é um Buda nagô”. Caetano Veloso foi mais longe: “Eu escrevi 400 canções e Dorival Caymmi, 70. Mas ele tem
70 canções perfeitas, e eu não.”
Na verdade, Caymmi deixou em torno de cem canções,
em seus 94 anos. Explica-se essa produção numericamente pequena, relativamente à sua longevidade, porque seu método de
compor oscilava entre a produção de um só impulso criativo
e um burilar intermitente, que poderia levar anos em torno de
apenas uma composição. O resultado, porém, é o que todos conhecemos: obras-primas.
Tom Jobim, por sua vez, disse: “O Dorival é um gênio.
Se eu pensar em música brasileira, eu vou sempre pensar em
Dorival Caymmi. Ele é uma pessoa incrivelmente sensível, uma
criação incrível. Isso sem falar no pintor, porque o Dorival também é um grande pintor.”
Dos teóricos, apegados ao gosto de estereótipos, que tentaram enxergar na sua criação certas motivações ideológicas,
Caymmi se ria, porque sua inspiração fundamental nasceu da experiência sensitiva, sua memória das pessoas da rua e da beira da
praia, com quem conviveu intensamente até os 24 anos de idade,
quando se mudou para o Rio. Pode-se dizer que esses primeiros
anos foram a matriz inspiradora de todo seu rico processo criativo, imune às modas e às diferentes correntes partidárias ou
ideológicas que tentaram atraí-lo para seu campo de influência.
Nem as frequentes alusões aos negros, ao ritmo, à comida e ao
candomblé de origem africana representaram qualquer tipo de
engajamento. Sua motivação foi sempre de natureza afetiva,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
espiritual, amorosamente poética, como quando se vinculou
aos terreiros de Casa Branca e Ilê Axé Opó Afonjá e quando
compôs “Oração de Mãe Menininha”.
Em várias canções, como em “Maracangalha”, de 1956, e
“Saudade da Bahia”, de 1957, a Bahia aparece como um lugar
cheio de exotismo e magia, conforme se encontra em muitos
textos entre a última década do século XIX e as três primeiras
do século XX, em que são frequentes as referências a elementos
da cultura africana, como a religião, o vestuário, o ritmo, as danças e a comida, com um rico universo de ingredientes e iguarias,
como o dendê, o acarajé, o efó, o vatapá, a farofa, componentes
básicos do famoso caruru.
A canção “O que é que a baiana tem?”, além de catapultar Carmen Miranda para a fama (foi dele a sugestão para que
ela, vestida de baiana estilizada, incorporasse e projetasse internacionalmente o perfil da mulher baiana como a expressão
máxima de dengosa feminilidade), exerceu grande influência na
música popular brasileira, sendo imitada por vários compositores, como Pedro Caetano, Joel de Almeida e Raul Torres. Sem
dúvida, não há quem possa rivalizar com Caymmi na fixação da
boa imagem da Bahia mundo afora, ao lado de Jorge Amado no
campo das letras.
Os que atribuem a Caymmi a responsabilidade pela formação da imagem do baiano como preguiçoso, avesso ao trabalho,
equivocam-se. Em primeiro lugar porque essa imagem é anterior
a ele. Em segundo porque a valorização hedonística que faz de
certos requisitos fisiológicos, como o sono, o bem comer, o amor
e a alegria de viver, não exclui a dureza da vida, como se vê na perigosa labuta dos pescadores, que vão perigosamente ao mar. Seu
personagem masculino mais conhecido, João Valentão, só descansa depois de cumpridos os deveres de assegurar o ganha-pão.
A afetuosa relação de Caymmi com a terra natal não foi
afetada por certo ressentimento que alimentou relativamente aos
seus governantes. Queixava-se de não ter na terra natal, que tanto
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
amava e projetou através de suas canções, o reconhecimento que
lhe era tributado em outros estados. A venda, porém, da casa no
Rio Vermelho, que recebera da Bahia durante o governo Luís
Viana Filho na década de 1970, nada teve a ver com esse ruído afetivo, como foi propagado. Ocorreu pela combinação de
dois fatores: seus compromissos profissionais estarem sediados
no Rio e a família da mulher, Stella, que não viajava de avião,
viver em Minas Gerais. Diante da impossibilidade de conciliar
os compromissos no triângulo Rio-Salvador-Belo Horizonte,
Caymmi optou pela venda.
Coube à neta Stella Caymmi escrever o melhor trabalho
existente sobre o ilustre avô.
Cancioneiro por ordem alfabética
« A jangada voltou só — A lenda do Abaeté — A preta
do acarajé — A vizinha do lado — Acaçá — Acalanto — Acontece que eu sou baiano — Adalgisa — Adeus — Adeus da esposa — Afoxé — Alegre menina — Aruanda — Balada do rei
das sereias — Caminhos do mar (rainha do mar) — Canção da
partida — Coqueiro de Itapuã — Das rosas — De onde vens
— Desafio — Desde ontem — Desenredo — Dois de fevereiro
— Dora — Doralice — É doce morrer no mar — Eu cheguei
lá — Eu não tenho onde morar — Festa de rua — Fiz uma viagem — Francisca Santos das Flores — História pro sinhozinho
— Horas — João Valentão — Lá vem a baiana — Maracangalha — Maricotinha — Marina — Milagre — Modinha para
Gabriela — Modinha para Teresa Batista — Morena do mar
— Na Baixa do Sapateiro — Na cancela — Na ribeira desse rio
— Não tem solução — Navio negreiro — Nem eu — No tabuleiro da baiana — Noite de temporal — Nunca mais — O bem
do mar — O cantador — O dengo que a nega tem — O mar
— O que é que a baiana tem? — O vento — Oração de Mãe
►► 199
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Menininha — Peguei um Ita no Norte — Pescaria — Promessa
de pescador — Quem vem pra beira do mar — Rainha do mar
— Requebre que eu dou um doce — Retirantes — Roda pião
— Rosa morena — Sábado em Copacabana — Samba da minha
terra — Santa Clara clareou — São Salvador — Sargaço mar —
Saudade — Saudade da Bahia — Saudades de Itapuã — Severo
do Pão — Só louco — Sodade matadeira — Suíte do pescador
— Tão só — Temporal — Tia Nastácia — Trezentas e sessenta
e cinco igrejas — Tu — Um vestido de bolero — Vamos falar de
Tereza — Vatapá — Velório — Versos escritos n’água — Vida
de negro — Você já foi à Bahia? — Você não sabe amar »
REFERÊNCIAS
CARVALHO, Marielson. Acontece que eu sou baiano: identidade e memória cultural no cancioneiro de Dorival Caymmi. Salvador: Eduneb,
2009.
CAYMMI, Stella. Dorival Caymmi: o mar e o tempo. São Paulo: Editora
34, 2001.
RISÉRIO, Antônio. Caymmi: uma utopia de lugar. São Paulo: Perspectiva, 1993.*
Joaci Góes é bacharel em direito, escritor, orador, político, empresário
e consultor educacional. Foi deputado federal constituinte em 1988,
tendo sido o relator do Código de Defesa do Consumidor. Publicou
A inveja nossa de cada dia: como lidar com ela, Anatomia do ódio e A força
da vocação para o desenvolvimento das pessoas e dos povos. Desde 2009 ocupa
a Cadeira nº 7 da ALB.
200 ◄◄
A BIBLIOTECA JORGE AMADO
Comemorando o centenário do acadêmico
Edivaldo M. Boaventura
N
o ciclo do centenário de Jorge Amado, aberto em 10 de
agosto, estudiosos intensificaram a pesquisa da obra do
grande romancista. Ao mesmo tempo, quem o conheceu mais
de perto recorda o homem atencioso, educado, simples no trato
e generoso no acolhimento.
As comemorações dos cem anos recompõem momentos
inesquecíveis, como a vinda do ministro da cultura da França, Jack
Lang. Juntos, programamos a visita. Jorge ofereceu-lhe um democrático almoço no Restaurante Maria de São Pedro, no Mercado
Modelo. Encarreguei-me da parte oficial, da visita ao governador,
que recebeu do ministro uma bela porcelana azul-marinho com
frisos dourados da Manufatura Oficial de Sèvres. No almoço, no
Iate Clube, o ministro revelou-me que o governo francês outorgara a Jorge a distintíssima Ordem da Legião de Honra. Fui o
primeiro a saber e pronto: comuniquei aos presentes.
Voltando a morar em Salvador, na casa do Rio Vermelho, no início dos anos sessenta do século XX, Jorge Amado
se reintegrou à vida da cidade e de sua gente. Com amigos de
sua geração na Academia de Letras, era lógico que se cogitasse
de sua entrada. Todavia, declinou, inicialmente, do convite e
indicou o contista Vasconcelos Maia, que tomou posse sem
discurso formal, apenas leu um conto. Jorge havia sucedido a
Otávio Mangabeira, na Academia Brasileira, em 1961.
Passado algum tempo, os acadêmicos insistiram pelo seu ingresso na Casa de Arlindo Fragoso. Jorge concordou em suceder
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
a Estácio de Lima. Para a posse, submeteu-se a usar um quente
e desconfortável smoking que o fez suar bastante quando lia a sua
bem lançada fala. Deu total atenção à cerimônia de posse. Seguiu o ritual. Trouxe toda a família e a coorte de amigos de São
Paulo e do Rio de Janeiro. A noite de sete de março de 1985 foi
bela e transfigurada.
Começando pelo patrono da Cadeira, Francisco Bonifácio de Abreu, Barão da Vila da Barra, tradutor da Divina comédia
de Dante, preferiu evocá-lo como o romancista de Teresina e
Palmira ou A ceguinha brasileira. Seguindo a tradição, procedeu
ao elogio de Estácio, com destaque para a ficção de A aeromoça e outras... O procedimento elegante com os antecessores
confirma que uma cadeira acadêmica é um monumento pelo
que acumula de cultura e conhecimento. Prolongando aquele
momento solar, falei inaugurando o seu busto, obra de Celita
Vacanti, no Jardim das Esculturas.
Fora do meio acadêmico, era o mesmo Jorge atencioso
com os mais simples nos encontros pela vida. Às vezes em que
nos deu a honra de almoçar conosco, no final não só agradecia
a Solange, como ia até a cozinha cumprimentar a cozinheira.
Enviou para a nossa Maria José um livro com dedicatória. Posso
dizer que foi o primeiro comensal que vi cumprimentar, regularmente, a chefe da cozinha com naturalidade e afeição.
Sempre que viajava, mandava-me cartão postal. Sabendo
da minha opção pelo ensino, regressando de uma viagem a Cuba
trouxe-me uma caixa de livros sobre a educação cubana.
Quando lhe outorguei a Medalha Castro Alves, recordei
a sua única experiência docente, pois foi professor visitante da
muito querida Universidade do Estado da Pennsylvania. Com o
erudito doutor Gerald Moser, Jorge criou o Clube do Bate-Papo.
Qual não foi a forte emoção que me possuiu totalmente
quando o curador de obras raras da Pattee Library mostrou-me
os seus romances autografados e zelosamente guardados ao lado
de requintada edição de Os lusíadas e de livros italianos dos séculos
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
XVI e XVII. Tive, então, a sensação e o orgulho de encontrar um
brasileiro ombreado entre os maiores escritores da humanidade!
Quando o abracei, já com a Medalha Castro Alves no lado esquerdo do peito, ele me disse: “Você me emocionou.”
Perto de deixar o cargo de secretário, deu-me a Medalha
Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras.
Comemorar o centenário é relembrar leituras, passagens
e encontros, incentivos para novas ponderações. No conjunto,
Jorge Amado escreveu uma rapsódia com o colorido vibrante
dos capitães de areia, dos coronéis, dos matadores por causa
de terra, das prostitutas e dos vagabundos, das tocaias e dos
feitiços. Concebeu a Bahia na sua plenitude social. A Bahia com
todo o seu imponderável está em sua obra. Capitães da areia é a
antevisão pioneira, humana e extraordinária dos meninos de rua.
A cultura do cacau, centrada nos problemas da terra, na
peleja da vida e da morte. A vinda dos sergipanos e dos árabes,
sírios e libaneses, que chamávamos de turcos. Turcos, entendase, por causa do passaporte do antigo Império Otomano. Como
filho de sergipano, sentiu bem profundamente a luta do pai, desbravando a mata para plantar cacau.
Anos depois, morou em Estância, Sergipe, confinado pelo
Estado Novo. A ditadura Vargas não brincava com ninguém,
principalmente com os membros do Partido Comunista; depois,
prendeu também os integralistas.
Seguem-se os grandes romances urbanos dos personagens com os quais convivemos. Tipos que encontramos no nosso cotidiano. O Vadinho é o mais conhecido de todos. Baiano
criado em Salvador sem maiores compromissos, a não ser com a
sua própria vida. Tieta, a mulher do agreste, que fez vida em São
Paulo, ganhou dinheiro e voltou. O agreste ou o sertão baiano
não podia estar ausente na geografia temática do escritor.
Jorge conheceu bem Salvador na juventude. Veio para a
Bahia para os estudos, no Colégio Antônio Vieira, como muitos dos filhos da lavoura. Conheceu a liderança do padre Luiz
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Gonzaga Cabral, que descobriu muito cedo o seu talento de
escritor numa composição sobre o mar. O jesuíta o introduziu
na literatura mundial. Mas um dia o menino grapiúna fugiu,
libertou-se do internato e refugiou-se em casa dos avós paternos em Sergipe. O tio Álvaro foi buscá-lo. Retornou e estudou
no Ipiranga. Segue o seu destino de jovem e adulto. Passa pelo
jornal O Imparcial, como muitos da sua geração. Vai para o
Rio. Milita no Partido Comunista. Enfim, dá volta pelo Brasil
e pelo mundo.
Pelos anos sessenta, voltou para ficar, na casa acolhedora
do Rio Vermelho. Viver na Bahia com todas as misturas. Campo
extraordinário de observação e percepção aguda e profunda, pátria das suas maravilhosas personagens. Há um Jorge de Ilhéus
e há um Jorge da Cidade da Bahia. Por isso, há nele toda a complexa Bahia, das misturas, às vezes difícil de ser entendida por
outros. Ele ajudou a entender o Brasil como um país tropical
e mestiço, para tanto parte e termina na Bahia, um lugar onde
há povo sofrido e alegre, como bem demonstrou. Toda a sua
obra é uma tese sobre a Bahia, sua gente, seu comportamento
e seus procedimentos.
Vivendo na Cidade da Bahia, convive com todos. Registra
tudo, não, recria. Acho sumamente importante como captou o
proceder baiano. A trama de mexidos e de fuxicos, das conversas e dos ditos graciosos e picantes. Dona Flor é uma citadina
possuidora de receitas de doces, que todos nós conhecemos.
Gabriela é outra criação monumental. É a própria natureza indomável. Poderosa e portentosa. Em matéria de Gabriela, prefiro a languidez morena de Sônia Braga. Como Jorge captou o
gosto médio de nossa gente!
Para lembrar o centenário, reli de um jato O menino grapiúna. A vida de tantos outros meninos que viveram quando
criança a saga do cacau. Com a vitória dos pais, vieram depois
estudar na Bahia. Tive vários colegas que no colégio me contaram histórias semelhantes.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Para comemorar os cem anos, revejo o cancioneiro do poeta, o ABC de Castro Alves. É a biografia do nosso poeta mais difundida no mundo. Ao terminar a sua leitura, faz um bom tempo, mandei-lhe uma carta. Gentilmente, me respondeu: “Castro
Alves e Rui Barbosa são os dois polos da cultura baiana.”
Enfim, da casa do Rio Vermelho passou à Casa de Góes
Calmon. Juntou-se aos amigos na convivência acadêmica. Fincamos o seu busto no chão da Academia e, neste centenário, o
patrocínio da biblioteca.
Recordando esse inusitado encontro de Jorge na Pattee Library, propus que a biblioteca da Academia de Letras da Bahia
fosse por ele titulada. A minha indicação no ano pretérito, 2011,
visualizava o seu centenário, em 10 de agosto de 2012. A proposta
foi aceita por unanimidade. E mais, o dedicado presidente da Academia, escritor Aramis Ribeiro Costa, efetivou a sugestão, denominando-a, oficialmente, de Biblioteca Jorge Amado, no festejado
mês de agosto de 2012. A Academia seguiu, assim, o exemplo da
Biblioteca Ruy Barbosa do Instituto Geográfico e Histórico da
Bahia, da Biblioteca Anísio Teixeira da Faculdade de Educação
da UFBA. Mais recentemente, o Instituto Cervantes homenageou
Nélida Piñon pondo o seu nome na biblioteca.
O pequeno acervo de livros da Academia, originário da
antiga sede no Terreiro de Jesus, foi crescendo pelas doações
individuais e, sobretudo, pela agregação de coleções e bibliotecas. Integrou a valiosa biblioteca de Odorico Tavares, rica
em livros com dedicatórias, como as de Carlos Drummond de
Andrade. As coleções de Waldir de Oliveira e Souza e de Álvaro Nascimento enriqueceram o acervo da Academia. Em vida,
o próprio Jorge Amado muito contribuiu, enviando frequentemente caixas e mais caixas de livros para a biblioteca que
hoje tem o seu nome. Essas obras não somente aumentaram
o acervo, como também possibilitaram reunir autores baianos.
Biblioteca aberta ao público, ela tem suscitado constantes consultas de estudiosos e de alunos.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
A denominação da biblioteca com o nome de Jorge Amado, posta assim sob sua proteção, não é tão somente uma maneira de assinalar o centenário. A designação quer ser mais do
que uma comemoração passageira. É expressão maior do reconhecimento por sua grande obra e também pelo nosso afeto. Manifestamos, assim, a convivência, a amizade e o carinho
com o querido confrade Jorge Amado. Com Jorge e com Zélia,
que se uniram, na mesma Cadeira de número 21, pela continuidade da sucessão.
Jorge nomeia a biblioteca cem anos depois de nascido.
Antes, o perpetuamos nos jardins da Academia. Recordemos,
emblematicamente, com os gregos “nos jardins de Academo”,
primeira referência ao prestigioso vocábulo. Pois bem, a Academia de Letras da Bahia, honrosamente, acresceu, entre os mais
altos títulos de honorificência, o de acadêmico titular da Cadeira
de número 21, na memorável noite de sete de março de 1985.
Desejávamos, porém, que, entre os títulos e prêmios, ficasse fincado no chão da Academia outro tributo que, solarmente, testemunhasse a nossa admiração e o nosso culto votivo e
afetivo pelo legado de sua obra, engrandecedora que é de nossa
terra e de nossa gente. Os seus personagens são parceiros do
nosso cotidiano.
Na Academia, o nosso pacto de amor e louvação, pelo excesso de beleza e lição de liberdade que recebemos desde as páginas inaugurais do País do Carnaval às derradeiras linhas da poderosa Navegação de cabotagem. O nosso pacto de amor e louvação, pelo
busto, esculpido e tocado de perpetuidade pelas mãos de Celita
Vacanti. O busto abre a galeria no Jardim das Esculturas. Seguiram-se para lhe fazer companhia Arlindo Fragoso, fundador do
sodalício, Otávio Mangabeira, a quem Jorge sucedeu na Academia
Brasileira, Pedro Calmon, Cervantes, Jorge Calmon e Góes Calmon, construtor do Solar do Caquende que nos alberga.
Jorge não se encontra tão somente no jardim e na biblioteca, mas na nossa lembrança aquecida de amizade.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
REFERÊNCIAS
AMADO, Jorge. Discurso de posse do escritor Jorge Amado. Revista
da Academia de Letras da Bahia, Salvador, v. 33, p. 231-240, 1985.
BOAVENTURA, Edivaldo M. A segunda casa. Rio de Janeiro: Tempo
Brasileiro, 1984.
__________. Jorge Amado. In: ______ Gente da Bahia. Rio de Janeiro:
Tempo Brasileiro, 1990, p. 117-118.
__________. Machado de Assis. In: ______ Gente da Bahia. Rio de
Janeiro: Tempo Brasileiro, 1990, p. 149-159.*
Edivaldo M. Boaventura é ensaísta, pesquisador, professor emérito
da UFBA, autor de diversos livros de ensaios, sócio de inúmeras
instituições culturais no Brasil e no exterior. Foi secretário de
educação e cultura do estado da Bahia, diretor-geral do jornal A Tarde
e presidente da Academia de Letras da Bahia, da qual é membro
benfeitor. Desde 1971 ocupa a Cadeira nº 39 da ALB.
Palestra proferida em sessão especial da Academia de Letras da Bahia,
na cerimônia de inauguração da Biblioteca Jorge Amado, em oito de
setembro de 2012.
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POESIA, MANJAR DO DEMÔNIO
Três poetas no cenário baiano
João Carlos Teixeira Gomes
A
Bahia é terra pródiga em poetas, não fosse baiano o maior
de todos eles, o moço Castro Alves. Em nossas plagas
ninguém parece ter dado maior importância à opinião de um
beato da igreja para o qual “as obras dos poetas são o manjar
do demônio”.
Conversava eu outro dia com o acadêmico Joaci Góes e
concordamos em que a maior apóstrofe da literatura universal
é da autoria de Castro Alves, quando, em “O navio negreiro”,
dirigindo-se ao Senhor do Universo, indaga, desafiadoramente:
“Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?” Soberba frase
de moço petulante! Bem podemos conceber o efeito que versos
de tal força causariam em plateias arrebatadas pela voz abaritonada do belo jovem, compostas não só pela legião das donzelas
apaixonadas, mas também pela presença carrancuda dos donos
de escravos que aquela poesia afrontava.
Não estou escrevendo estas linhas, porém, para falar de
Castro Alves. Quero hoje ocupar-me de três lançamentos ocorridos em Salvador no ano findo, 2013, dando curso à saudável
mania baiana de divulgar poesias. Refiro-me, pela ordem de publicação, aos volumes Estação infinita, de Ruy Espinheira Filho,
Horta de poesia, de Fernando da Rocha Peres, e Antologia poética,
de Affonso Manta.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Ruy Espinheira Filho
Desde o momento em que ganhou o concurso nacional
Cruz e Sousa, Ruy Espinheira Filho tem sido um dos autores baianos mais pródigos e mais editados. Sabe cuidar com
grande determinação do seu acervo poético, já bastante denso, pois, como ele próprio confessa num dos seus versos, Ruy
costuma acordar “ouvindo a máquina de escrever/ trabalhando nítida/ cinquenta anos atrás”. Hoje um saudável setentão,
Ruy trocou a máquina de escrever pelo computador, que sabe
manipular como mestre e com o qual mantém diálogo permanente com poetas de todo o Brasil. A sua veia de comunicador
está naturalmente condicionada pela sua vocação de jornalista
e cronista do quotidiano.
Do ponto de vista formal, Ruy Espinheira Filho potencializa a sua expressão poética pelo uso do verso curto, mas é também hábil no manejo do decassílabo, tanto assim que publicou
um Livro de sonetos. O decassílabo costurou o prestígio do soneto
na poesia brasileira.
A temática do poeta é rica e variada, sempre marcada pelo sopro lírico que o torna um intérprete habitual dos
estados de alma, dos legados da boemia e da alegria da noite desfrutada com intensidade, das reações emotivas, das recordações que ajudam a sedimentar no texto o patrimônio da
vida, unida pelos polos extremos do fluir do tempo, como ele
expressa nesta “Canção de aniversário”:
De novo o Tempo me traz
a este porto de dezembro
que é sempre o mesmo e sempre outro
em tudo que em mim relembro.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Fernando da Rocha Peres
Embora seja também um poeta lírico, diversos foram os
caminhos buscados pelo poeta Rocha Peres. Tendo-se dedicado
à pesquisa histórica e aos estudos eruditos do passado colonial
baiano, de que é exemplo maior o seu minucioso levantamento
da vida obscura do poeta Gregório de Mattos, Fernando da Rocha Peres foi progressivamente partindo da mensagem confessional para a elaboração de uma poesia marcada pela densidade
cultural da matriz luso-baiana. Não por acaso, de longa data, o
poeta se dedicou igualmente ao estudo do patrimônio urbano de
Salvador, apontando, com acidez de crítico atento, as desfigurações históricas por esse patrimônio sofridas, tal como lemos no
livro Memória da Sé.
Em seu mais recente livro de poemas, com o belo título de Horta de poesia, Fernando da Rocha Peres confessadamente cultiva “a circunstância e a cultura portuguesas”, buscando
homenagear “a minha permanente afeição aos patrícios que
descobriram o Brasil”. Esse objetivo é bastante compreensível
num autor que nasceu naquela que é considerada a mais lusitana
das cidades brasileiras, Salvador, em função de cuja integridade
histórica, bastante desfigurada por sucessivas administrações, o
autor desenvolveu uma cruzada, não tendo sido por acaso que
chegou a dirigir o IPHAN na Bahia. O poeta criou um neologismo — a palavra “Salvadolores” — para ironizar a decadência do
acervo colonial de Salvador.
No que tange à poesia recente de Fernando Peres, ele
próprio confessa o desejo de ser lido e entendido pelos seus
amados lusitanos:
Não sei se levo este livro
ao Mercado do Bolhão
para vender com os vinhos
que chegam no rio Douro
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
ao porto de Vilmara Peres
ou se vou apregoá-los
após a missa ao domingo
na praça Almeida Garret.
Com certeza, pois, poesia que cabe muito bem com um
bom bacalhau regado ao excelente tinto do Douro. Resta dizer
que a esmerada edição de Horta de poesia levou, como é comum
nas edições dos livros artesanais de Fernando Peres, o carimbo
do esmero gráfico da editora que ele ajudou a fundar, nos anos
50, com Glauber Rocha e Calasans Neto, a Macunaíma.
Affonso Manta
Quanto ao último dos poetas citados, Affonso Manta,
digamos em primeiro lugar que a edição da sua Antologia foi o
prêmio de 2013 para os leitores da boa poesia. Foi através desse livro que ficamos enfim avaliando a densidade lírica desse
estranho e criativo poeta, cuja vida se desenrolou quase sempre
obscura e marginalizada. Bem mais que um poeta maldito, foi,
sobretudo, um poeta desconhecido. Isto se deveu em parte às
imperfeitas edições dos seus pequenos livros, impressos em
tiragens muito limitadas por gráficas interioranas, às custas do
poeta, e enviadas a uma reduzido círculo de amigos. Por essas deficientes e truncadas edições jamais teríamos percebido
a importância da poesia de Affonso Manta, agora publicada
com dignidade, iniciativa emérita que ficamos devendo a Ruy
Espinheira Filho, como organizador, ao patrocínio de Aramis
Ribeiro Costa, presidente da Academia de Letras da Bahia, e ao
deputado Marcelo Nilo, presidente da Assembleia Legislativa
do Estado da Bahia, premiando o excelente trabalho dos editores Paulo Bina e Délio Pinheiro.
A poesia original de Affonso Manta oscila entre a demência
onírica de um visionário e um profeta das antevisões projetadas
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
do inconsciente freudiano, repletas de versos insólitos e surpreendentes. Embora os seus amigos o indiquem como um homem
lido e culto, patrimônio abafado por uma existência de vagabundo
disperso, o que percebemos é uma criatividade poderosa, que parece ter-se afirmado sem dívidas intertextuais. O poeta, que levava
“uma luz dentro da cabeça”, era capaz “de trancar o meu soluço
na gaveta”, hábil metáfora da contenção emocional de uma personalidade fragmentada. No seu magnífico soneto “O rei Affonso”,
ele se confessa “restaurador do Império Agonizante” da sua vida,
e todas as naus que ainda pode vislumbrar são apenas “as naus
febris de um sonho morto”, desesperançado. Em o “Realejo de
vinho” se confessa “um homem aos frangalhos” e “sem crédito
na praça”, ou seja, um despojado na emoção interior e no bolso.
O poeta sente que “tem uma coroa de alumínio sobre o crânio”,
mas acrescenta:
Com estrelas na testa de rapaz,
Com uma sede enorme na garganta,
Lá vai, lá vai Affonso Manta,
Pela rua lilás.
É também “o rei da extravagância, o sem maldade, o campeão da originalidade, o peregrino astral”.
A leitura da poesia de Manta provoca sempre forte impacto. Mesmo quando parece ter assimilado conquistas criativas
da tradição cultural, é sempre ele mesmo, como nesses versos
que só exteriormente se inserem na tradição surrealista, pois são
muito típicos do discurso do “rei Affonso”:
Enlouqueci, um girassol nasceu na minha boca.
Os pássaros já estão fazendo ninho
Atrás da minha orelha.
Trata-se de uma poesia assinalada também por certa compulsão da alienação e da loucura (“O louco” é o título do poema
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
acima transcrito, no qual Manta confessa que “não há quem não
ache graça/ do meu aspecto excessivo de profeta”).
Muito mais haveria que dizer, é preciso porém ler Affonso
Manta, bem maior do que um simples comentário poderia abarcá-lo. Uma reafirmação, enfim, do poder da poesia baiana, ou
mais uma prova de que “as obras dos poetas (pelo menos dos
poetas atormentados) são, realmente, o manjar do demônio”.*
João Carlos Teixeira Gomes é poeta, ficcionista, ensaísta, jornalista
e professor da Universidade Federal da Bahia. Tem diversos livros
publicados, como A esfinge contemplada e outros poemas, O telefone dos
mortos (contos), Gregório de Mattos: o Boca de Brasa, Camões contestador
e outros ensaios, Glauber Rocha: esse vulcão, e Memórias das trevas. Desde
1989 ocupa a Cadeira nº 15 da ALB.
214 ◄◄
UM GRANDE POETA:
AFFONSO MANTA (1939 – 2003)
Ruy Espinheira Filho
ome completo: Affonso Manta Alves Dias. Filho de Ary
Alves Dias, médico falecido em 1980, e de Olinda Manta Dias, nasceu em Salvador, Bahia, a 23 de agosto de 1939,
na Rua da Poeira, 57. Com três a quatro meses de idade, porém, passou a residir em Iguaí, onde permaneceu até janeiro
de 1950, quando a família se transferiu para Poções, cidade do
Sudoeste baiano.
De volta a Salvador para concluir seus estudos, o poeta
frequentou o curso de ciências sociais na Universidade Federal da Bahia, acabando por abandoná-lo. Trabalhou, em seguida, como guia do Museu de Arte Sacra e repórter do Diário de
Notícias. Aprovado em concurso para inspetor da Empresa de
Correios e Telégrafos, especializou-se durante nove meses no
Centro do Treinamento da ECT, na Tijuca, Rio de Janeiro. Diplomado, trabalhou na diretoria regional da Guanabara como
inspetor da seção de reclamações, que chefiou, e depois como
inspetor da seção de fiscalização. Enfermo, e após internamento
na Casa de Saúde Dr. Eiras, retornou a Poções, onde voltou a
viver desde novembro de 1974, aposentado da ECT.
Affonso Manta publicou os seguintes livros de poemas: A
cidade mística, O colibri, A cidade mística e outros poemas (1980), O retrato de um poeta (1983), No meio da estrada (1991), Canção da Rua da
Poeira e outros poemas (1994), O falso crente, A princesa nua, O pássaro
e o poeta e O estranho na Terra (1995). Por parte de pai, o poeta
N
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
é primo em quarto grau de Castro Alves, devido à sua descedência, por linha direta, de João José Alves, o alferes, irmão do
médico Antonio José Alves, pai do Poeta dos Escravos.
Minha amizade com Affonso Manta começou na juventude: eu com treze ou catorze anos, ele com dezesseis ou dezessete. Todas as tardes nos sentávamos no coreto do jardim de
Poções, ao lado da velha matriz, perto da qual ele viveu grande
parte da vida, e conversávamos até depois do crepúsculo. Ou,
mais exatamente, ele falava e eu escutava — maravilhado com
aquele rapaz que já tinha lido tanto e se referia desenvoltamente
a ficcionistas, filósofos, sobretudo a poetas e poesia.
Nossos contatos se intensificaram a partir de 1961, quando vim estudar em Salvador, onde ele já se encontrava. Poeta
respeitado, boêmio impenitente, foi quem me apresentou a pessoas brilhantes da literatura e das artes — como Carlos Anísio
Melhor, Fred Souza Castro, Jehová de Carvalho e Ângelo Roberto, entre outros. Quando nos separamos — ele foi morar
no Rio, depois voltou para Poções — mantivemos constante
correspondência, a qual (ao menos da parte dele) repousa hoje
numa pasta dos meus arquivos.
Poeta de densa poesia, conhecedor como poucos da arte
do verso, Affonso não teve oportunidade de grande projeção.
Mas, quando sua obra for bem editada e distribuída (e aqui já
começamos essa viagem, pois a maior parte da edição será destinada às bibliotecas públicas), sem dúvida figurará entre as melhores produzidas no Brasil na segunda metade do século XX.
Ele foi essencialmente poeta, como raros o são. João Guimarães Rosa dizia que as pessoas não morrem: ficam encantadas.
Affonso Manta não esperou morrer para se encantar: foi um
encantado a vida inteira.
Certa vez ele me disse que, se um dia eu quisesse publicar
a sua poesia, teria carta branca para agir. Num bilhete enviado de
Poções, datado de 27 de setembro de 1973, escreveu-me:
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Meu prezado amigo Ruy:
Segue para você um exemplar de Conclusões, conforme lhe
prometi.
Como lhe disse por telefone, Leonel Nunes, uma espécie
de secretário de cultura daqui, está empenhado em publicar minhas obras completas. Lembrei-me de você para escrever um “prefácio geral”, digamos assim. Você aceita,
não é? Então, meu irmão, mãos à obra.
E o tempo se foi, sem que eu tivesse como cuidar da obra
do poeta. Até que, em 2011, soube das publicações que seriam
feitas em convênio da Academia de Letras da Bahia com a Assembleia Legislativa da Bahia, uma coleção intitulada Mestres
da Literatura Baiana. De imediato, dirigi-me ao presidente da
ALB, Aramis Ribeiro Costa, comunicando-lhe que estava muito
interessado em participar do projeto — não com obra minha,
mas organizando uma antologia de Affonso Manta. Aceita a
proposta, tratei logo de pôr mãos à obra, atendendo, por fim, à
convocação do poeta.
Meu objetivo era repor a poesia de Affonso Manta nas
mãos dos leitores — e tentar abrir espaço para um reconhecimento nacional, o que ele mais do que merece. Assim, logo que
recebi os primeiros exemplares, enviados por Délio Pinheiro,
um dos coordenadores editorais do convênio, iniciei o envio do
volume a poetas, críticos, ensaístas, historiadores da literatura,
ficcionistas e jornalistas de diversas regiões do país. Um sucesso,
como eu previa, com muito espanto e admiração pela descoberta, por esses destinatários (gente como Ivan Junqueira, Miguel
Sanches Neto, André Seffrin, Alexei Bueno, Roniwalter Jatobá,
Carlos Machado, Sérgio de Castro Pinto, entre outros), de um
poeta que sem dúvida deve figurar entre os melhores da segunda
metade do século XX no Brasil.
Enfim, no dia 28 de novembro de 2013, a Antologia poética foi lançada, com muito sucesso, na ALB. E agora, por sugestão
do poeta Florisvaldo Mattos, diretor desta revista, apresento uma
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
breve seleção de poemas de Affonso Manta, autor que encanta
sempre por seu rigor estilístico, densa emoção e cintilante lirismo.
Poemas de Affonso Manta
O realejo de vinho
Para Solon Barreto
Para quem me queira ouvir:
Sou um homem aos frangalhos.
Parte por culpa de tudo.
Parte por culpa de nada.
E digo mais ao casual
Ouvinte deste relato:
Não sendo herdeiro nem rico,
Não tenho crédito na praça.
Amo as japonas escuras,
De mangas e tudo vasto.
E os colarinhos puídos
Uso desabotoados.
Ao pôr a minha gravata,
Fabrico um laço bem largo.
E acho triste andar com ela.
E, mais tristes, as gravatas.
Eu nunca faço questão
Que uma roupa seja cara.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Mas, ampla: e, sendo possível,
Com certo ar desesperado.
Eu prefiro, aos bons charutos,
Um velho e forte cigarro.
E odeio fumar cachimbo.
Pois sou muito angustiado.
No mais: um vento me agita,
Interior e largado,
E me devasta os cabelos,
Rosto, sorriso e palavra.
Lá vai Affonso Manta
Com estrelas na testa de rapaz,
Com uma sede enorme na garganta,
Lá vai, lá vai, lá vai Affonso Manta
Pela rua lilás.
Coroa de alumínio sobre o crânio,
Lapelas enfeitadas de gerânios
E flechas no carcás.
Manto florido de madapolão,
Bengala marchetada de latão,
Desfila o marechal,
O rei da extravagância, o sem maldade,
O campeão da originalidade,
O peregrino astral.
►► 219
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Relâmpagos
Para Garbogini Quaglia
Lembrar-me do que fui nunca me cansa.
Cansa-me andar no centro do Destino.
Eu sou feliz porque já sou menino.
Menino não precisa de esperança.
Eu revirei a vida pelo avesso.
Eu encontrei o fio da meada.
Eu dei no mundo muita cabeçada.
Eu sei onde é o fim e onde o começo.
Quem me dera estar santo de uma vez.
E enlouquecer de luzes de repente.
Mas conservando toda a lucidez.
Viver sem o limite, em plena graça,
Na paz de uma razão incandescente
Capaz de dar relâmpagos na praça.
Pêndulo
Para Iêda Machado
Conduza meu carneiro cor de vinho
Para pastar os lírios brancos do ar.
Guarde meu coração devagarinho
Na cômoda da sala de jantar.
Tire do gaiolim meu passarinho.
Ele gosta do sol e de voar.
220 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Ponha no armário verde, com carinho,
A roupa que eu vesti para brincar.
Seja um anjo, meu anjo, de bondade.
Não zombe do meu passo hesitante.
Não moteje da minha enfermidade.
Eu sou algo indeciso, eu vacilo,
Eu cambaleio sem razão bastante
E, lento como um pêndulo, eu oscilo.
Porão
Estarmos separados e distantes
É, para mim, um triste e amargo vinho.
E não ter mais agora o teu carinho
São-me agonias lentas e constantes.
Teus olhos, que me foram diamantes
E iluminavam todo o meu caminho,
Não querem ver como eu estou sozinho
E me abandonam todos os instantes.
Tu que eras o repouso do guerreiro,
Sem pena do teu pobre companheiro,
Foste embora, indomável coração.
E a minha fome de ternura e afeto
Ficou assim como qualquer objeto
Esquecido no fundo de um porão.
►► 221
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
O rei Affonso
Para Fred Souza Castro
Aqui, o rei Affonso, o Derradeiro,
Vê naus que não são mais as naus do porto.
São já as naus febris do sonho morto
No mar tão vasto como traiçoeiro.
Aqui, o mesmo rei, também chamado
Restaurador do Império Agonizante,
Perde para o inimigo, doravante,
O reino duramente conquistado.
O rei, flor-de-lis santa e vulnerável,
Ferido pela dor inevitável,
Perdoa a punhalada do assassino.
E morre sem palavra de desgosto,
Mostrando paz até o fim no rosto,
A mesma paz dos tempos de menino...*
Ruy Espinheira Filho é escritor, jornalista e professor da Universidade
Federal da Bahia, graduado em jornalismo, mestre em ciências sociais
e doutor em letras pela UFBA, autor de dezenas de livros de poesia,
ficção e ensaios, com diversos prêmios nacionais. Recentemente
lançou Estação infinita e outras estações, que reúne toda a sua poesia.
Desde 2000 ocupa a Cadeira nº 17 da ALB.
222 ◄◄
POESIA
TRÊS SONETOS
Homenagem da Revista da Academia de Letras da Bahia
ao centenário do acadêmico em 11 de março de 2014
Clóvis Lima
Orfeu
A Ivan Americano
Quieta-se em Trácia tudo no momento
em que Orfeu, lira em punho, amargurado
pela saudade, tange, compassado,
as cordas do seu mágico instrumento.
E aos sons da lira, antes revolto, o vento
transmuda-se num tom doce e magoado,
os leões se abrandam, vêm ficar-lhe ao lado
compungidos daquele sofrimento.
Eurídice! — soluça o pobre Orfeu.
E dizendo este nome estremecido,
chora toda a ventura que perdeu.
E assim chorando o desgraçado amor,
doma os leões, doma o vento enfurecido,
mas não pode domar tamanha dor.
►► 225
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Soneto dotrefoá
Para Lourdes
Que falamos enfim? Nada de mais.
Nosso assunto varia de momento.
Presos embora ao mesmo pensamento,
sempre temos assuntos desiguais.
Olhas o mar. Que tem o mar? O vento
conturba as velas, e ondas colossais
avolumam-se e vêm, de encontro ao cais,
desmanchar-se num ímpeto violento.
Mas contrastando com o furor do mar,
cai sobre a terra a esplêndida brandura
da tardinha que desce devagar.
O céu, então azul, muda de cor.
E olhas-me lentamente... Que doçura
têm os teus lindos olhos, meu amor.
226 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
O velho relógio
A meu irmão Newton,
com a maior saudade.
Sempre o olhei sem o ver e a indiferença
com que o olhava se transmuda agora
numa curiosidade que me arvora
o desejo de ouvir o que ele pensa.
Nada lhe influi porém minha presença,
pois o velho relógio, como outrora,
continua a embalar-se à voz sonora,
oscilando o seu gesto de descrença.
Com o mesmo ritmo vai, quase cem anos,
desfiando desta vida os desenganos
de horas incertas na sua hora certa.
Meus pais lembrando e meus irmãos lembrando,
continua impassível trabalhando
sem saber as saudades que desperta.*
Clóvis Lima é poeta, tradutor de poesia francesa e de poesia de baianos
para o francês. Colaborou com A Tarde durante anos como cronista.
Poesia publicada: Apóstolos do sonho (polianteia organizada por Flávio de
Paula, 1952), A poesia de Clóvis Lima (organizada por Antônio Loureiro
de Souza, 1975), Figurações do Natal (coroa de sonetos, 1976), Poesia
avulsa (selecionada por Cláudio Veiga, 1994) e em diversos números da
Revista da ALB. Desde 1980 ocupa a Cadeira nº 22 da ALB.
►► 227
CINCO POEMAS EM HOMENAGEM
Florisvaldo Mattos
Memórias de boi esfolado
Soltei o livro. Olhei pela janela,
espesso azul e nuvens, e lembrei:
faz setenta anos que morreu Soutine
de uma úlcera rompida nas entranhas,
como as do boi esfolado da pintura,
um retrato convulso de sua arte.
De novo olho a paisagem; ainda o céu
de cores baças, sons da rua larga,
prédios e casas, em frente à varanda,
sem pasto ou campo, só distantes verdes,
que suplicam o olhar de voz opaca.
E eu aqui a pensar em Chaïm Soutine,
pintando, dia e noite adentro, pensos
quartos de boi comprados nos açougues.
(Salvador, setembro/2013)
►► 229
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Tarde na várzea com chuva
A João Ubaldo Ribeiro
(“Não existe poesia sem infância”, ele disse)
A chuva há de passar... De quando em quando,
Um alarido vem pelo ar, fugidio.
Na tarde bruxuleante, além do rio,
Teles e Caboclinho estão jogando.
Não posso ver; a chuva me atrapalha.
Vestindo sedas, clamo aos ares, rogo.
Avanço a rua. Minha tia ralha
(Nada me ajuda): “Pare aí, é só um jogo!”
Raiva. Bato três vezes na madeira.
Será que vai chover a tarde inteira?
Digam como lá estão os litigantes.
É agosto, sim, e chove sem parar.
Dentro, o menino quer comemorar
Logo. Atlanta e Palestra, dois gigantes.
230 ◄◄
(Salvador, manhã de 10 de novembro de 2012)
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Retratos
A todos que, na adolescência,
se encantaram com o Futebol
Como vemos os times do passado.
Se eles são todos sombras que se movem,
São retratos em céu desamparado
De sol em que na mente tardes chovem?
Foram só todos distração de instantes
De sonhos que perduram na memória,
Na minha e na geral dos habitantes,
Que por imagens contam sua história,
Quando se sabe que passou a voga
Dos triunfos, e não mais o albor da trama
E a alegria de um jovem quando joga
Em campos de terra ou bendita grama.
Mudas paredes nos devolvem dias
Semelhantes a certas melodias.
(Salvador, manhã de 27 de dezembro de 2013)
►► 231
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Foi-se uma antimedeia
À memória de dona Lúcia Rocha,
mãe de Glauber Rocha
A matriarca dos Rocha, dona Lúcia,
Na vida uma guerreira com voz de ave,
Ardor por juventudes e minúcia,
Com um filho de talento e rosto grave,
Que se foi como um sopro em plena glória,
Como o nome da mãe de luz vestido;
A quem ergueu um Templo de memória,
Obra de quem viveu por céus ungido,
Resolveu percorrer entre as estrelas
O rastro de quem foi um bem precioso,
Estática tão só de ouvir e vê-las
Saudar-lhe a forma do tecer bondoso:
Só com cabeça e câmera na mão,
Ela o filho do mundo fez irmão.
232 ◄◄
(Salvador, manhã de sábado, 4 de janeiro de 2014)
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Íntimos caminhos
A Antônio Guerra Lima
Não sei para onde vou — Sei que não vou por aí!
José Régio: “Cântico negro”,
in Poemas de Deus e do Diabo, 1925
Não. Nada de penhascos irreais,
Tampouco de florestas invisíveis!
Por aqui tudo fala à sensação,
Ao olhar, ao aroma, à língua, ao tato,
Ao som. Feliz de quem os tem. Ó vós,
Que ditais pelos montes de onde venho,
Por trás de sombras como que vazias?
Enquanto me desfaço de meus fardos
Ancestrais, meu cabedal de fadigas,
Lábios trazem clarões de frescas auras,
Meus pés sibilam sobre sendas rudes,
Mas com promessa de horizontes novos.
Se me pedes que siga o teu caminho,
Descansa. Sei que não vou por aí!
(Salvador, 1º de maio de 2013)*
Florisvaldo Mattos é poeta, jornalista e ensaísta, bacharel em direito e
mestre em ciências sociais pela Universidade Federal da Bahia. Presidiu
a Fundação Cultural do Estado da Bahia. Foi redator-chefe de A
Tarde. Publicou diversos livros, como Travessia de oásis: a sensualidade
na poesia de Sosígenes Costa, e Poesia reunida e inéditos. Desde 1995
ocupa a Cadeira nº 31 da ALB.
►► 233
CINCO SONETOS
Myriam Fraga
Provérbio
Não adianta chorar o leite derramado,
Pois o que já passou nunca mais voltará.
Na ciranda da vida, esse é o nosso destino,
Viageiros sem rumo numa incerta jornada.
Se o caminho foi longo, ao longo da estrada
Fomos deixando amores, dores, sofrimentos,
Que esquecidos ficaram, como se encantados,
A dormir, para sempre, nas ruínas do tempo.
Até que de repente, num breve momento,
Ressurgem outra vez no coração aflito,
Acendendo mágoas, reinventando segredos,
E novamente vivos, de novo despertos,
A renascer das cinzas, voltam como espectros,
Assustadoramente, a assombrar nossos dias.
►► 235
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Ocaso
A luz que amadurece em meus cabelos
Põe reflexos de cobre nos espelhos
Onde a tarde se alonga como um rio
A escorrer suas águas nos vazios
De um passado distante que perdura
Além de todo além e onde se escuta
Um som de antiga flauta murmurante
A despertar momentos esquecidos.
No mais tudo é silêncio, tudo assombro,
Ante o esplendor do sol que se apagando
Deixa apenas um risco no horizonte,
Como um rastro de luz que se divide
Entre o esplendor do dia que se esconde
E a escuridão que aos poucos se insinua.
236 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
O rio
Devagar, devagar, desço ao mais fundo
Precipício que avisto além do escuro
Patamar debruçado sobre o abismo
Que é o ponto terminal desta jornada.
Nesta escura descida tão funesta,
Às vezes, como pássaros furtivos,
Vão despontando os sonhos que ficaram
Esquecidos ao longo do caminho.
De degrau em degrau, na longa escada,
Vou vencendo a distância que me resta
Enquanto o sol se apaga no horizonte
E o mundo em volta rápido escurece,
Até que, finalmente, avisto o rio
E o barqueiro no leme à minha espera.
►► 237
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Poente em Mar Grande
Vista da ilha, ao longe, a cidade é como um sáurio,
Um dragão multicor, a dormir embalado
Pelas ondas do mar que docemente o afagam,
Na volúpia das águas que nunca se acalmam.
Na praia a alongar-se a maré mansa se espraia,
Ao sabor da enchente, no estertor da vazante,
À sombra dos coqueiros que esgarçam suas palmas
No sopro dos ventos de um verão que se acaba.
Na barra os recifes desenham um mandala
Cujo centro é a ilha, santuário encantado,
De uma esfinge ancestral a devorar a tarde.
O sol, com seu pincel, incendeia as vidraças,
Mas a chama de ouro pouco a pouco se apaga
E atrás da amendoeira a luz da lua se espalha.
238 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Mandala
Aos poucos, devagar, chego ao abismo,
Ao fundo de mim mesma, ao precipício
Onde dormem desejos impossíveis,
No escondido dos sonhos mais secretos.
Aos poucos vou cumprindo e desenhando,
Na medida das pontas do compasso,
O círculo imperfeito desta vida,
Do tempo inicial do nascimento
Ao centro do mistério que atravesso
Sem saber onde leva a correnteza
Das águas desse rio que me arrasta,
Cuja foz é a nascente que adivinho
E onde se encontra o fim e o recomeço
No arremate das linhas que desfaço.*
Myriam Fraga é poeta, diretora-executiva da Fundação Casa de Jorge
Amado, conferencista no Brasil e no exterior. Publicou, dentre outros,
Sesmaria (Prê­mio Arthur de Sales), Femina e Poesia reunida, o ensaio
Leonídia: a musa infeliz do poeta Castro Alves, e obras infanto-juvenis
sobre vultos como Castro Alves, Carybé e Jorge Amado. Desde 1985
ocupa a Cadeira nº 13 da ALB.
►► 239
A QUE PARTIU HÁ POUCO
& QUATRO SONETOS
Ruy Espinheira Filho
A que partiu há pouco
A Sonia Coutinho
in memoriam
A que partiu há pouco
há muito vinha partindo
com os amigos mortos
os pais mortos
o irmão morto
os namorados e maridos que começavam a morrer
os livros que lera e escrevera
morrendo nas estantes
(que estalavam no meio da noite
suspirando em suas mais lentas
mortes)
com sonhos mortos
e lembranças da juventude há muito morta
lembranças
principalmente de Paris
à qual planejava voltar em breve.
►► 241
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
A que partiu há pouco
há muito procurava
de certa maneira inconsciente
o que pudesse fazer para enganar
ao menos em parte
o que se adensava com tantas mortes.
Continuava ela a respirar
a se mover
a tecer alguns sonhos
e olhava a vida e pouco a reconhecia
nada mais tinha a ver com as pessoas
as ruas
e então voava de regresso à cidade antiga
mas descobria logo que ela estava também cheia de mortos
mesmo alguns que continuavam
respirando e se movendo
porque já não passavam de fantasmas
para os quais ela era uma aparição
que os assustava
pois trazia consigo um cortejo de mortos
e eles pensavam que ela também fazia parte dele
e por isso entre ela e eles não poderia haver mais nada
que justificasse o retorno à cidade antiga.
E então ela voava em sentido contrário
e permanecia na cidade maior
com seu cortejo de mortos
e de novo voava à cidade antiga
indo e voltando
voltando e indo e
principalmente
pensando em Paris.
242 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
E um dia disse a uma velha amiga
que voltaria de vez à cidade antiga
onde ficaria com mais sossego
e não mais sentindo
(esperava)
os vazios que iam crescendo em seu íntimo.
Antes porém iria rever Paris
e pela mais bela cidade andaria longamente
embora não mais aguentasse longas caminhadas
ah
Paris
seu recanto mais cintilante
da memória.
E então o telefone chamava inutilmente hora após hora
noite e dia
e por fim foram até lá
abriram a porta
e ela certamente já partira
na tão sonhada viagem
porque ali só encontraram um corpo frio
e murcho como os livros das estantes.
Esta a história que posso contar
da que partiu há pouco e há muito vinha partindo
como todos nós que temos igualmente nossos cortejos
de mortos
e um dia ocuparemos o nosso lugar e também partiremos
em definitivo
rumo a
espero eu
Paris.
►► 243
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Soneto à sombra de Orfeu
Ó meninos, ó noites, ó sobrados!
Jorge de Lima
Luas iluminavam cabeleiras
de moças, debruçadas nos sobrados,
que acordavam em nós fundas olheiras
onde sonhavam sonhos assustados.
Ó meninos, ó noites, ó sobrados!
Esperanças de Gatas Borralheiras,
Belas Adormecidas... Constelados,
queimávamos em íntimas fogueiras.
Ó luares, sobrados, cabeleiras
descendo docemente em cachoeiras
sobre os que não sabiam que, encantados,
ainda iriam arder vidas inteiras
nas chamas de enluaradas cabeleiras...
Ó meninos, ó noites, ó sobrados!
244 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Soneto da luminosa ronda
ou Uma visita a Mário Quintana
A Sérgio de Castro Pinto
E eis de volta a Memória, a de onde emana
a imagem da ruazinha sossegada,
já tão longe... Mas bela, enluarada,
como se fosse um verso de Quintana.
Como se fosse a alma de Quintana,
que meu pai revelou-me: emocionada
leitura; éramos jovens; constelada
a vida na poesia de Quintana.
E um dia apresentaram-me ao Poeta,
mas já o bem conhecia pela ronda
de aventuras vividas em discreta
cumplicidade. A luminosa ronda
em que ainda sigo meu pai e o Poeta
pelo vago País de Trebizonda...
►► 245
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Soneto da alma como um rio
Penso sempre tua alma como um rio
em que de mim não se reflete nada
agora. Antes, talvez uma apagada
sombra se percebesse, mas um frio
vento soprou o tempo, e eis que um vazio
se fez. E então já não restou mais nada,
a escassa sombra foi-se, dissipada,
e tudo se apagou de mim no rio.
Contou-se um conto e agora já mais nada
se reflete de mim. Só há o frio
cantando uma esperança naufragada.
Não tem culpa tua alma desse frio
lembrando-me que sou água passada,
pois, como rio, é sempre outro rio...
246 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Soneto do fulgor Sempre estará em mim esta lembrança
de que mal sei falar, pois que é magia
de luar, de sol, de mar, de fantasia
de purezas antigas de criança.
Quem foi você? Quem é? Uma esperança
outrora, sim. Depois, densa agonia,
brisa de asas de anjo, poesia.
E tudo de você. Nunca me cansa
lembrar-me. Que é sonhar de novo o sonho
que você foi. E é. E noite e dia,
dormindo ou acordado, o mesmo sonho.
Que sonho e sou. E vivo, imensamente,
na dor suave e na áspera alegria
de fulgurar em mim secretamente.*
Ruy Espinheira Filho é escritor, jornalista e professor da Universidade
Federal da Bahia, graduado em jornalismo, mestre em ciências sociais
e doutor em letras pela UFBA, autor de dezenas de livros de poesia,
ficção e ensaios, com diversos prêmios nacionais. Recentemente
lançou Estação infinita e outras estações, que reúne toda a sua poesia.
Desde 2000 ocupa a Cadeira nº 17 da ALB.
►► 247
TRÊS SONETOS
Gláucia Lemos
Bicho estranho
Repara neste mundo diferente!
Já não se sabe mais o que é saudade.
Sentir saudade é crime que condena,
e ri de quem a sente toda gente.
Vê como a alma da pedra embrutecida,
dentro, na alma das gentes, faz abrigo.
E o homem, lobo do homem, incomovível,
como um fardo, sem fé, carrega a vida.
Mas eu sou estrangeira neste espaço.
Olhe pra mim! Eu sou um bicho estranho que
conhece o prazer e a dor da dor.
E moro numa bolha de saudade
que se abriga escondida atrás dos olhos,
e carrego comigo pra onde vou.
►► 249
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Soneto do girassol
Dorme, mulher, tuas noites não têm lua.
Rolam os carros no rolar da rua,
rolam teus sonhos no rolar do sono,
e a noite é qual um teto ao abandono.
A madrugada logo se avizinha
vagueias no teu sono onde caminha
a sombra espectral dos teus enganos
a desfazer imagens dos teus sonos.
A noite ri do mundo em lampadários,
o tempo esvai-se, morrem calendários.
Esquecem-se os prazeres malvividos!
Treme em teu sono o frio dos desertos.
Mas no teu peito um girassol aberto
esconde o espinho que te tem ferido.
250 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Claro-escuro
A luz da tarde a entrar pela janela
é o sol vindo visitar a sala.
Caminha na parede a sombra rala
das nesgas da cortina de flanela.
Meus olhos passam lentos nessa escala
de claro-escuro, sombra e luz de vela.
E então eu penso — reparando nela —
na oscilação de alguém de quem não falo.
Às vezes pode ser como a vidraça,
deixar passar a luz. E a luz que passa
aquecer e clarear inteira a sala.
Vezes outras prefere ser cortina
e, se envolvendo em nesgas pequeninas,
vai reduzir-se à mera sombra rala.*
Gláucia Lemos é bacharel em direito, crítica de arte, poeta, contista
e romancista. É autora de mais de trinta livros de literatura adulta e
infanto-juvenil, com destaque para o livro As aventuras do marujo verde.
Recebeu diversos prêmios nacionais, como o II Prêmio de Literatura
UBE/Scortecci 2007 pelo romance Bichos de conchas. Desde 2010 ocupa
a Cadeira nº 14 da ALB.
►► 251
CINCO SONETOS
Luís Antonio Cajazeira Ramos
Soneto-catástrofe
Sequer adormecer porque me agarro
à imagem que de ti em vão persigo.
Ivan Junqueira
Que remédio aplicar à incurável lembrança,
se ela é acne que trato e logo recidiva
em meu rosto, esta máscara de temperança
cuja pele é refém da ruína invasiva?
Como opor ao desejo uma força contrária
e, no embate, uma nova paixão ser urdida,
se este mar de saudade não é água vária,
mas um lago parado, isolado e sem vida?
Como um totem-tabu te fincaste em meu peito,
totem de adoração, tabu pelo interdito
da ausência que me rasga o coração sem jeito.
Não há sol que degele esta dor frigorífica.
Ó lágrimas, jorrai dos abismos que habito
um tsunami de amor nesta ilhota pacífica.
►► 253
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Não dá mais pra segurar
Não acredites, mãe, eu não sou triste.
Isso é conversa de quem não me entende.
Só por isso, porque meus versos choram
tanta tristeza? É tudo fingimento!
Esta saudade que me dói, de quem?
Qual solidão, se eu tenho a ti e a tantos?
Esta lágrima impressa na garganta?
Que nada, mãe, teu filho é puro encanto.
Não percebes a aurora em meu sorriso?
Não te gabas a quantos meus talentos?
Não sou o amor que tu pariste um dia?
Deixa pra lá, mamãe, tapa os ouvidos.
Fecha teus olhos, vê minha alegria.
Dá-me teu colo, que eu preciso tanto.
254 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Danação
No dia em que me deres não e o troco
por toda a angústia a que te condenei,
nesse dia, meu Deus, estarei louco
de feliz, como quem depõe um rei.
Isso mesmo! Eu mereço até o soco
e o pontapé de teu desprezo. Eu sei
que a alegria virá enquanto eu sofro,
e essa esperança tomarei por lei.
Querias me beijar, eu dava o rosto.
Querias me abraçar, eu dava a mão.
Querias mais, eu sempre dava o pouco.
Mas teu ódio há de impor maior vingança.
Mais forte! Não me basta a solidão.
É preciso matar minha esperança.
►► 255
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Aonde irá meu pensamento
Lá fora é Carnaval. Estou feliz.
Numa corrente elétrica, a alegria
imanta-se nos corpos, irradia
e arranca as solidões pela raiz.
Imune às emergências, sou feliz
sem me contaminar pela folia.
A mim basta a nudez azul do dia
cobrindo-se da noite. Por um triz,
a calma me devora. E estou atento
à mágica explosão deste momento:
a vida escorre, sempre a acontecer
de tudo ser de novo. As ruas ardem
paixão e fantasia. E nunca é tarde. Em
quase leveza, eu durmo. O amanhecer.
256 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Soneto da salvação
Você, que se perdeu de ser feliz
ao procurar desvios retilíneos,
quando devia sempre, por um triz,
flanar as incertezas dos caminhos,
você, que foi um crédulo servil
das verdades beatíficas dos líderes
e dos cientistas com teorias mil
em benfazejas fábricas de crimes,
eu sei, o chão não mais lhe doa lírios,
eu sei, o céu de estrelas não lhe banha,
mas seu trem ainda pode errar os trilhos
na overdose epifânica do mantra
de ternuras, delícias e delírios
da voz uníssona de Affonso Manta.*
Luís Antonio Cajazeira Ramos é poeta, analista do Banco Central do
Brasil e advogado. Publicou cinco livros de poesia, além da participação
em antologias. Recebeu o Prêmio Nacional Gregório de Mattos da
ALB em 2000. É sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e
sócio fundador da Associação Amigos do Teatro Castro Alves. Desde
2012 ocupa a Cadeira nº 35 da ALB.
►► 257
TRÊS POETAS BRETÕES
TROIS POÈTES BRETONS
Dossiê bilíngue
Jean-Albert Guénégan
Jean-Claude Tardif
Olivier Cousin
Organização/Organisation Dominique Stoenesco*
Tradução/Traduction
Dominique Stoenesco & Odette Branco
Dominique Stoenesco é francês, professor de português como opção
de língua estrangeira na França. É ensaísta, editor e tradutor. Coedita
a revista Latitudes — Cahiers Lusophones, dedicada à divulgação das
culturas lusófonas na França. Já publicou diversas entrevistas e artigos,
notadamente sobre escritores brasileiros. Desde 2009 é membro
correspondente da ALB.
Odette Branco é francesa, de famíla de origem portuguesa. É
escritora, teatróloga e tradutora. Publicou o romance O canto das
sereias (2005). Escreveu e montou em francês a peça de teatro Florbela,
la soeur du rêve (2013), inspirada na obra poética de Florbela Espanca.
Colabora em revistas literárias como tradutora de poesia nas línguas
francesa e portuguesa.
►► 259
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Jean-Albert Guénégan
Jean-Albert Guénégan nasceu em Morlaix, em 1954. Autor de vários livros de poesia, contos, memórias de infância
e livros de artista. É traduzido em língua bretã, portuguesa e
italiana. Mencionado em diversas revistas, como Avel IX ou À
l’Index, e em antologias como Poètes de Bretagne, de Charles Le
Quintrec (2008), e Nous, la multitude (2011). Participa todos os
anos no Printemps des Poètes, apresenta saraus de leitura em
bibliotecas ou centros culturais e também intervém nas escolas.
Seus dois últimos livros de poesia são Trois espaces de liberté (2011)
e Sans adresse, l’automne (2012), publicados pela editora Editinter.
Os poemas de Jean-Albert Guénégan que selecionamos
são excertos do seu último livro, organizado em forma de tríptico. Na primeira parte, o autor aborda humildemente o caráter
efêmero da vida, partindo do choque emocional sentido na morte de seus pais. A segunda parte, sem qualquer intenção necrófila,
mescla prosa e poesia para evocar alguns ilustres poetas ligados
à terra bretã. Enfim, inspirado no Homem caminhando, de Alberto
Giacometti, Jean-Albert Guénégan exprime a fragilidade do ser
humano quando certas pragas existenciais de ordem moral ou
social o encerram num estatuto incômodo. São os excluídos de
uma sociedade que por vezes se esbarram com a intolerância e
são empurrados para a mais profunda das solidões.
Demain tu partiras
libre de tes chaînes.
Rien ne s’oubliera
de ce moment ultime.
Ton âme ouvrira la route
à la quiétude de l’autre rive,
je m’habillerai de noir
260 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
et passerai par la rue des souvenirs.
L’instant givrera mes lèvres
l’heure sera seule
le ciel nu, hagard peut-être.
J’aurai la terre sous les paupières
le cœur penché sur les roses rouges
fraîchement cueillies
et mes vers en cercle
ne seront que lunes d’ennui.
Sans but, ficelé de mots engourdis
je suivrai tes premiers instants de résignation.
Je serai le point
entre la vie l’inconnu
et le droit d’asile.
Parmi les fleurs déjà flétries
pris dans le voile du long sommeil
retiré dans les charmes
de ce triste automne,
père et mère
je vous nourrirai d’amour.
Amanhã partirás
liberto de tuas correntes.
Nada será esquecido
deste derradeiro momento.
Tua alma trilhará o caminho
para a quietude da outra margem,
me cobrirei de luto
e passarei pela rua das lembranças.
O instante gelará meus lábios
a hora será solitária
o céu nu, atordoado talvez.
►► 261
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Terei terra sob as pálpebras
o coração inclinado sobre as rosas vermelhas
recentemente colhidas
e meus versos em círculo
serão apenas luas de tédio.
Sem destino, atado com palavras entorpecidas
seguirei teus primeiros instantes de resignação.
Serei aquele ponto
entre a vida o desconhecido
e o direito de asilo.
Por entre as flores já murchas
preso no véu do infinito sono
exilado nos encantos
de um triste outono,
pai e mãe
nutrirei-vos de amor.
à John-Antoine Nau (1860-1918)
cimetière marin de Tréboul
À bout d’outremer et d’Amériques
par la mer tu as traîné
tes forces jusqu’à Tréboul.
Mon regard marin auréole de ton étoile
ou portemanteau du dernier soupir
ici joue à pile ou face.
Au port des messes basses
les songes prennent en pitié
le saint des saints
des familles.
La mer n’est qu’un crucifix
le ciel croit en son état de grâce
262 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
à chaque vague qui meurt.
Les âmes d’ici héritières d’éternel
comme de la souveraine pensée,
les vieilles feuilles et les fleurs
béquilles de l’automne chaque matin
se nouent à ton lit de pierre.
Ne tourne pas le dos
à tes voisins et voisines. Plus haut l’ami Georges
joue sa mélodie en sous-sol :
«Salut poète, t’es là depuis longtemps?
— Ça commence à compter. Et toi?
— Depuis le temps que je bâille ! Cela devient fatigant à la fin. Le
pire est que je ne suis qu’au début.
— Tu as fait le plus gros!
— C’est quoi le plus gros pour toi?
— Le temps de s’habituer à cet endroit particulièrement étroit.
— C’est vrai mais il y a aussi le pire qui se renouvèle d’année en
année. Le notaire
ne doit pas être en possession de mon dossier.
— Les hommes de loi se foutent bien des poètes. Avec ça, ils ne son pas
dérangeants. De toute façon, la poésie semble morte, pour nous du
moins.
— Va savoir. Sûr qu’elle vit encore.
— Ma Doué! Mal en point alors. Ils te connaissaient
quand tu étais à la surface ?
— Gast! Timidement ils m’ont donné le prix Bretagne.
— C’est qui, ils?
— Les bien-pensants de la littérature. Ceux qui ont le savoir le
pouvoir de lire
et tirer les ficelles de l’Évangile, les esthètes quoi. Et toi?
— Moi? Le premier prix Goncourt et l’illustration de mes poésies
antillaises
en 1945-53 par Henri Matisse.»
►► 263
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
a John-Antoine Nau (1860-1918)
cemitério marinho de Tréboul
Cansado do além-mar e das Américas
pelo mar arrastaste
tuas forças até Tréboul.
Meu olhar marinho sentinela de tua estrela
ou amparo do último suspiro
agora joga cara ou coroa.
No porto dos murmúrios
os sonhos têm piedade
do sacrossanto cadinho
das famílias.
O mar é apenas um crucifixo
o céu crê em seu estado de graça
em cada onda que morre.
As almas daqui são herdeiras do eterno
como do soberano pensamento,
as folhas velhas e as flores
muletas do outono em cada manhã
se prendem a teu leito de pedra.
Não vira as costas
para teus vizinhos. Mais acima o amigo Georges
toca uma melodia em subsolo:
« — Salve, poeta, estás aí há muito tempo?
— Já perdi a conta. E tu?
— Bocejando, há tanto tempo! Torna-se cansativo afinal.
O pior é que estou apenas no começo.
— Fizeste o mais difícil!
— O que é o mais difícil para ti?
— O tempo necessário para se acostumar com este lugar
tão parco.
— É verdade, mas também tem algo pior que acontece
todos os anos.
264 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Acho que o notário desconhece meu dossiê.
— Os homens de lei estão se lixando com os poetas. Isso
não lhes preocupa.
De qualquer forma, a poesia parece que morreu, pelo me
nos para nós.
— Quem sabe. Tenho a certeza que ainda vive.
— Nossa ! A coisa está ruim mesmo. Eles te conheciam quando ainda estavas na superfície?
— Porra! Timidamente me deram o prêmio Bretanha.
— “Eles” quem?
— Os bem-pensantes da literatura. Os que têm o saber,
o poder
de ler e de puxar os cordelinhos do Evangelho, enfim os
estetas. E tu?
— Eu? O primeiro prêmio Goncourt e a ilustração de meus poemas antilheses
em 1945-53 por Henri Matisse. »
Debout, l’homme !
d’après «Homme qui marche», d’Alberto Giacometti
(extraits)
Serge quitte le bar
pour la ville trou
et les ternes artères,
la rue est son chez lui.
Dans le caniveau
coule son âme
qu’un mal de vivre défigure.
Anarchiste d’un soir
il ne sait pas
sur quel pied danser.
►► 265
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Pleur slow du rire?
Une main levée en signe d’existence
comme une balise de détresse
il s’arrête repart vers personne
se déhanche
ajoutant la cadence
à son mambo.
Il bave jusqu’à terre
écrase ses châteaux dans les poings et
à la face du monde il ricane désabusé
adresse un juron aux femmes
qui lui font un flair d’amitié.
Il soliloque adverbes et adjectifs
confond impératif subjonctif
et trop de choses vues vécues
rejetées comme un torrent,
mâche le chewing-gum des étoiles
qui lui tirent la langue.
De pé, homem!
Segundo Homem caminhando, de Alberto Giacometti
(excertos)
Serge sai do bar
vai para a baixa da cidade
artérias bacentas,
a rua é seu domicílio.
Na vala
escorre sua alma
que um mal-viver desfigura.
Anarquista de uma noite só
ele não sabe
266 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
em que pé dançar.
Lamento slow riso?
A mão erguida em sinal de existência
como uma boia de perigo
ele para e se dirige para ninguém
bamboleia
dando o compasso
a seu mambo.
Baba até o chão
esmagando seus castelos com os punhos e
à face do mundo troça desenganado
manda um palavrão às mulheres
que lhe acenam um jeito de amizade.
Vai dizendo advérbios e adjetivos
confundindo imperativo conjuntivo
e tantas coisas vistas e vividas
arremessadas como uma torrente,
vai mascando o chiclete das estrelas
que lhe fazem caretas.
Jean-Claude Tardif
Jean-Claude Tardif nasceu em 1963, em Rennes, numa família de operários. Vive atualmente num povoado da Normandia, não longe de Le Havre. Poeta, novelista e contista, apresenta
há mais de 10 anos o evento Rencontres du Livre à Dire, em
Montivilliers, onde acolhe autores franceses e estrangeiros. Desde 1999, dirige a revista À l’Index. Colaborou em diversas antologias dedicadas à poesia contemporânea e alguns textos seus
foram traduzidos em alemão, espanhol, italiano, farsi e lingala.
Também é autor de Ordinaire et alentours, poesia (ed. Editinter,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
2009), La nada, contos (ed. Le temps qu’il fait, 2009), Le bestiaire
improbable, poesia (ed. Editinter, 2011), com ilustrações de Claudine Goux, e La pension Candela, romance (ed. Editinter, 2012).
Os poemas de Jean-Claude Tardif que aqui apresentamos são inéditos, são poemas que ressoam como uma oração a
céu aberto, através da qual o poeta manifesta sua admiração de
criança face ao mundo animal, perpetuando assim a tradição do
bestiário poético. Existe algo parecido com a prestidigitação na
escrita mágica e intensa de J-C. Tardif. A cada instante sentimos
o ritmo harmonioso e o canto que se eleva de seus versos.
Les oiseaux
L’oiseau bleu pleure des larmes pâles
le rouge a l’air cardinal
dans sa cage tranquille et serein
de l’aube il attend le matin.
L’oiseau vert passe d’arbre en arbre
de Zanzibar aux Canaries
Il a si peur de la nuit
qu’il en oublie son chant, ses fables.
L’oiseau blanc a goût de chagrin
celui de la corde et de l’usure du chêne
Son œil gauche porte le ciel
le droit est mort après minuit.
L’oiseau noir a la tête dans ses plumes,
il y cherche une étoile effondrée
qui lui ressemblerait
avant son dernier chant.
268 ◄◄
le 8.1.2013
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Os pássaros
O pássaro azul chora lágrimas pálidas
o encarnado parece um cardeal
em sua gaiola tranquilo e calmo
do alvorecer ele espera a manhã.
O pássaro verde vai de árvore em árvore
de Zanzibar até as Canárias
Tem tanto medo da noite
que esquece seu canto, suas fábulas.
O pássaro branco tem gosto de tristeza
o gosto da corda e do carvalho envelhecido
Seu olho esquerdo carrega o céu
o direito morreu depois da meia-noite.
O pássaro negro tem a cabeça enfiada nas penas
procurando uma estrela cadente
que parecesse com ele
antes de seu último canto.
8.1.2013
Les oiseaux attendaient la neige,
leurs yeux blancs sous le ciel gris.
Je marchais dans le parc
la veille des hommes y avaient coupé du bois.
Un vieux chêne avait perdu son âme
«Trop sec!» avaient-ils murmuré
convaincus qu’ils étaient
d’y connaître quelque chose.
Mais qui sait le cœur des arbres?
►► 269
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Les oiseaux attendaient la neige,
un chat les guignait de ses yeux vairons.
Il ne monterait plus dans l’arbre,
jamais plus il n’y trouverait de nid;
de cache pour ses mauvais instincts, ses contes
que jamais on ne donne aux enfants
de peur qu’ils ne l’aiment que davantage
le savait-il déjà?
Les oiseaux attendaient la neige.
le 13.1.2013
Os pássaros esperavam a neve
com olhos brancos sob um céu cinzento.
Eu caminhava no parque
na véspera uns homens tinham cortado árvores.
Um velho carvalho perdera sua alma
“Seco demais!” murmuraram
convencidos de que
sabiam o que diziam.
Mas quem sabe do coração das árvores?
Os pássaros esperavam a neve,
um gato de olho ímpar olhava de soslaio.
Nunca mais iria trepar naquela árvore,
nem iria ver o ninho,
nem encontrar esconderijo para seus maus instintos,
seus contos que nunca são dados às crianças
com medo que elas gostem dele ainda mais
será que ele já sabia disso?
Os pássaros esperavam a neve.
13.1.2013
270 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Sept poèmes au goût d’oiseau
Quand la neige durcit sur
le bois il vient
l’oiseau avec son monde
bruit ténu vers le Nord
noir comme toile de Hièronymus Van Alen
ombre de soie en voyage
où s’endorment la rose et le poivrier
Respire-t-il
quand l’herbe couvre les mirabelles
pour l’amour d’un songe
ce corps tendre de tubéreuse
qui frôle jusqu’à la cendre
le bleu du miroir
l’aile de sa mémoire
Ses yeux sont les nerfs du vent
pays lointain des grands chagrins
le pavot y bruisse et fleurit
en des jardins patients.
L’essaim y materne la nuit
et le lombric la romance
avant que la terre ne le fuit.
L’oiseau est une larme qui vole
l’osselet léger de la fleur
et sa vertu de douce absence
qui fait de chaque mot un leurre.
Le croiser nous donne à vieillir
du silence fane les couleurs
prenons garde aux tristes rumeurs.
►► 271
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Si l’oiseau niche dans la poche
peut-être te saluera-t-il
corps et âme comme les voleurs.
Douce chanson du voyageur
quand le sable s’entête fossile
à faire vieillir le bonheur
dans l’ombre blême de Dieu qui triche.
Donne-lui le nom de la sauge
il y fera dormir les anges
nichée après nichée.
Apprends-lui l’odeur de la pierre
il y gravera son cri.
Montre-lui l’oeil bleu de l’enfance,
et il y puisera sa nuit.
Si tu croises un oiseau enfin,
donne-lui le vin du jour
ce lac que tu gardais pour toi.
Ne tourne pas la tête
salue simplement pour qu’il te reconnaisse
te nomme par ton nom.
Ainsi soit-il!
Sete poemas com gosto de pássaro
Quando a neve endurece na
madeira ele vem
o pássaro com seu mundo
de sons leves do Norte
negro como uma tela de Hieronymus Van Alen
sombra de seda em viagem
onde adormecem a rosa e a pimenteira.
272 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Será que ele respira quando as ervas cobrem as mirabelas
pelo amor de um sonho
este corpo tenro de tuberosa
que toca de leve até a cinza
o azul do espelho
a asa da memória.
Seus olhos são os nervos do vento
terra longínqua das grandes amarguras
onde a papoila floresce e murmura
em jardins pacientes.
Aqui o enxame aconchega a noite
e a minhoca romanceia-a
antes que a terra não a abandone.
O pássaro é uma lágrima que voa
o ossículo leve da flor
e sua virtude de doce ausência
que faz de cada palavra um logro.
Cruzá-lo nos traz a velhice
do silêncio murcham as cores
atenção aos tristes rumores.
Se o pássaro se aninhar no bolso
talvez ele te saudará
de corpo e alma como os ladrões.
Doce canção do viajante
quando a areia fóssil teima
em envelhecer a felicidade
na sombra pálida de Deus que engana.
Dá-lhe o nome da salva
e nela os anjos dormirão
►► 273
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
ninhada após ninhada.
Ensina-lhe o cheiro da pedra
e ele gravará o grito.
Mostra-lhe o olho azul da infância,
e ele conceberá a noite.
Se cruzares um pássaro enfim,
dá-lhe o vinho do dia
o lago que guardavas para ti.
Não vires a cabeça
saúda-o apenas para que ele te reconheça
te nomeie pelo teu nome.
Assim seja!
Olivier Cousin
Olivier Cousin nasceu em 1972, no departamento do
Finistère-Nord, onde leciona na área das letras. Dedica o seu
tempo de escrita principalmente ao romance e à poesia, mas
também escreve contos e traduz. Traduziu recentemente o poeta inglês Roy Eales. Publicou Les enchaînés de Landouzan, romance (Liv’Éditions, 2009), Dans nos vies à bascule, contos (ed.
CheminFaisant, 2013) e livros de poesia, entre os quais os mais
recentes são Sous um ciel sans paupière (ed. La Part Commune,
2010), 77 poèmes et des poussières (ed. La Part Commune, 2012) e
Étranges estrans (Les Armoricaines éditions, 2013).
Nos dois primeiros poemas, excertos do livro Sous un ciel
sans paupière, Olivier Cousin nos convida a umas escalas mediterrânicas, principalmente gregas, durante as quais ele quis “se
despojar dos fantasmas desta Grécia multissecular”. Os outros
274 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
poemas são excertos do seu último livro, no qual a viagem continua em forma de busca de suas raízes bretãs e mediterrânicas,
mas também enquanto viagem existencial, num tom irônico e
numa linguagem liberta do peso das convenções.
La théorie du Minotaure
En théorie
mon enthousiasme
même s’il monte au ciel
ne va jamais aux idoles
Est-ce alors le soleil de Knossos
qui me frappe la théière ?
À moins que ce ne soit quelque dieu
d’un panthéon ensoleillé
qui me thermo-dynamise ?
Ici à Knossos je ferais bien un
avec le cosmos
À la rigueur
si Ovide ne se prêtait plus au jeu
des métamorphoses
je dirais comme Jorge de Sena :
«Mais, si un jour j’oublie tout,
j’espère pouvoir vieillir
en prenant un café en Crète
avec le Minotaure,
sous le regard des dieux sans vergogne».
►► 275
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
A teoria do Minotauro
Na teoria
meu entusiasmo
mesmo que se eleve até o céu
nunca se dirige aos ídolos
Será então a culpa deste sol de Knossos
que me bate na cabeça?
A menos que não seja um deus qualquer
de um panteão ensolarado
que me termodinamiza?
Aqui em Knossos quero ser um
com o cosmos
A rigor
se Ovídio não se prestasse mais ao jogo
das metamorfoses
eu diria como Jorge de Sena:
“Mas se um dia me esquecer de tudo,
espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha”.
Captif de Vénus
J’étais venu faire régime
dégraisser mes phantasmes
de cette Grèce archi-séculaire
aux valises farcies de mythes
aux mille yeux intimidants
C’était sans compter sur toi
276 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Cachant mal tes courbes rusées
le jean est chypriote
les bretelles du caraco italiennes
— et détendues —
Chaque once de sensualité est la tienne
J’ai failli rouler dans le précipice
en effleurant le grain de ta peau
Joues en quête sur tes cuisses fermes
d’une odeur musquée n’appartenant qu’à toi
ma Vénus nue parmi si peu d’autres
Dévorer ta pulpe comme une olive confite
et je partirai avec une nouvelle recette
pour jouir partout d’humaine intempérance
Cativo de Vênus
Vim para fazer dieta
me despojar dos fantasmas
desta Grécia multissecular
com malas abarrotadas de mitos
de mil olhos intimidantes
Era não contar com você
Disfarçando mal suas curvas maliciosas
a calça jeans é cipriota
as alças do corpete italianas
— e afrouxadas —
Cada onça de ouro de sensualidade é a sua
►► 277
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Quase desabei no precipício
aflorando o grão de sua pele
Rosto procurando em suas coxas rijas
um odor almiscarado que lhe pertence
minha Vênus nua entre tão poucas outras
Devoro sua polpa como uma azeitona recheada
e partirei com uma nova receita
para gozar em toda parte a humana intemperança
Séparation de corps
J’admire la salamandre
qui perd sa queue sans se démonter
Au moment de mourir
je ne vivrai pas d’exuvie
Saurai-je me laisser dépouiller
sans faire d’histoire ?
Un jour il faudra tout perdre
en gardant son flegme
Un jour je manquerai au rendez-vous
je m’en irai faire corps avec le vent
Je serai sans moi
et personne n’oubliera de m’oublier
Combien de temps avant d’être
intégralement gommé
même pour les siens ?
278 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Separação de corpos
Admiro a salamandra
que perde a cauda e nem se assusta
Na hora de morrer
não vou viver de exúvia
Aceitarei que me esfolem
sem reclamar?
Um dia teremos que deixar tudo
com fleuma
Um dia faltarei ao encontro
irei me incorporar ao vento
Estarei sem mim
e ninguém esquecerá de me esquecer
Quanto tempo até
sumir integralmente
mesmo para seus entes ?
Tricheur de temps
Le jour les secondes paraissent vulnérables
interminable colonne de fourmis
se jetant une à une dans le précipice
Elles n’on rien de vampiresque
et pourraient passer pour des bestioles
qui fractionnent doucement l’existence
entre chatouilles et papouilles
►► 279
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
La nuit les trotteuses de ma montre
possèdent une phosphorescence rassurante
terriblement inquiétante
Mais dans leur minutieux décompte
à soubresauts métronomiques
elles font autant de ravages
que n’importe quelle arme
De jour comme de nuit
le temps nous leurre
sans mesure ni retenue
De jour comme de nuit
règne un tricheur
qui ne fait pas de cadeau
Trapaceiro de tempo
De dia os segundos parecem vulneráveis
interminável coluna de formigas
se atirando uma por uma no precipício
Não têm nada de vampírico
e poderiam passar por bichinhos
que fracionam calmamente a existência
entre cócegas e carícias
De noite os ponteiros do meu relógio
possuem uma fosforescência tranquilizadora
terrivelmente inquietante
Mas no minucioso desconto das horas
em sobressaltos metronômicos
eles causam tantos danos
quanto qualquer arma
280 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
De dia como de noite
o tempo nos engana
sem dó nem piedade
De dia como de noite
reina um trapaceiro
que não poupa ninguém
Ancrage
Une flotte complète a sombré
à l’aplomb de mon existence
Depuis ma naissance
mes souvenirs gisent à l’ancre
au fond d’un océan immémorial
D’autres surnagent
scintillant encore de quelques feux
entre deux eaux
D’autres s’étagent
en partie perdus à des profondeurs différentes
Une tâche éprouvante
parfois m’est assignée
rattacher ces souvenirs
comme des balises
à la surface d’aujourd’hui
Ancoragem
Uma frota inteira naufragou
bem no prumo da minha existência
Desde meu nascimento
►► 281
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
minhas lembranças jazem ancoradas
no fundo de um oceano imemorial
Outras flutuam
cintilando ainda algumas luzes
entre duas correntes
Outras se sobrepõem
em parte perdidas nas diversas profundezas
Uma tarefa penosa
por vezes é-me atribuída
atar estas lembranças
como balizas
à superfície de hoje
282 ◄◄
FICÇÃO
O RETRATO NA PAREDE
Hélio Pólvora
Para Ático Vilas-Boas da Mota
A
té hoje não sei explicar bem por que tio Angélico, que me
acolheu desde a morte dos meus pais, insistiu para que o
hóspede, o rábula Francisco Conde, ocupasse a cabeceira da mesa.
Era costume, e ainda é em certas casas senhoriais, principalmente
no interior, reservar-se o assento da cabeceira ao chefe da família,
que dele tem absoluta exclusividade. Ninguém, mesmo por imitação jocosa, ousava ocupar aquele assento de madeira, alto e reto,
que seria um trono não fora o incômodo causado às costas. Aquela
cadeira sem abas para descanso dos braços exigia pose ereta, ombros levantados, atitudes rígidas. Exclusiva do meu avô Cesário,
estava agora vazia em sua homenagem. Quando ele, que alcancei
bem idoso, pousava a mão sobre a mesa, ao lado do guardanapo
em prendedor de prata e dos talheres também de prata alinhados à direita, e se esticava todo, de olhos postos nos pratos e nos
convivas, era sempre o comandante no leme do barco. Ninguém,
nem mesmo sua mulher legítima, que não ousou suceder-lhe muito tempo aqui na terra, punha-se à mesa antes que ele entrasse,
em geral de camisa fechada nos punhos, colete e colarinho duro
com abotoadura de ouro. Um criado reverente, bem escanhoado
e de luvas, afastava então a cadeira e a sustinha, aproximando-a da
mesa no instante exato em que o patriarca baixava as nádegas. O
criado retornava logo às dependências da cozinha, e o senhor da
cabeceira, depois de um olhar perscrutador à família, avançava a
mão para o cálice de aguardente que abria o apetite.
►► 285
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Em seguida, antes de atacar o prato de sopa, cofiava as pontas retorcidas do grosso bigode. Era o sinal para que os seus familiares, dispersos nas imediações em curtos diálogos a meia-voz
ou em silêncio, se aproximassem e tomassem quase sem fazer ruído seus respectivos lugares. Nenhum deles, pelo que me lembro,
arrastava a cadeira. A essa altura os cicios e sussurros cessavam,
porque à mesa a iniciativa da conversa cabia ao homem da cabeceira — o anfitrião de todos os dias, chefe e provedor de todos
nós. Eu era pequeno, de uns oito anos talvez, e confesso que demorei a suportar o peso do silêncio. Raramente as vozes cruzavam
a mesa, de um lado a outro, da cabeceira sem assento ao espaldar
do meu avô. Mastigava-se com o cuidado de não emitir ruídos
de trituração ou silvos de quem suga. Não se ouviam talheres a
trincar e tampouco a esgrima de frases. O avô Cesário comia devagar, sem dar mostras de fome, com uma compostura que eu,
amigo dos bichos no pomar, observava nos gatos. Esses animais
não se atiravam, famélicos e grosseiros, como os cães, ao alimento
que lhes davam; acercavam-se de modo esquivo, cheiravam, reviravam a comida com uma pata, voltavam a cheirar, engoliam um
bocado com um esgar que me parecia de nojo, recuavam. Pois
bem, meu avô tinha à mesa a formalidade, esquivança e delicadeza
dos gatos. Mastigava uma pequena porção, limpava a boca com
o guardanapo, pousava garfo e faca, olhava-nos. Às vezes fazia
perguntas a um e outro. O mais normal era lançar, em voz mansa
que denotava certeza, um comentário sobre assunto recente, da
véspera, ou as colheitas, ou o tempo. Ouvíamos com sinais evidentes de respeito, de cabeça inclinada e murmúrios de aprovação.
Raramente ria — e quando lhe vinha o riso em borbotão, fruto de
uma frase que parecia chistosa, e se prolongava em gargalhada, ele
então percebia, assim eu imagino, que se excedera, e recompunha
o semblante, e um tanto contrafeito alisava a negra barba cerrada.
Costumava dizer que assuntos graves, penosos, deviam ser evitados à mesa, em proveito de uma digestão tranquila. E conviria
também não levá-los ao leito: a hora de dormir, nunca depois das
286 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
nove da noite, para que se despertasse cedo e com forças para
ganhar o pão, fora reservada às bênçãos e ao repouso reparador.
Agonias, peripécias, dúvidas ficavam para o dia seguinte, à luz meridiana do Sol, quando os espíritos, imunes ao assédio das trevas,
se iluminam, banem os receios, pensam com acerto.
“Há pessoas condenadas à insônia”, dizia ele. “Está no
Eclesiastes. De tanto ler e pensar no assunto, até decorei o
versículo.”
Fazia uma pausa para criar expectativa. Com o garfo e a
faca espetados no ar em inútil lance de esgrima, aguardávamos
o desfecho.
“Capítulo 8, versículo 16”, prosseguia. “Diz assim, sem
tirar nem pôr: ‘E apliquei o meu coração a conhecer a sabedoria
e a notar a distração que vagueia na Terra; homem há que nem
de dia nem de noite concilia sono a seus olhos’.”
Dito o quê ele pregava os olhos no prato, e nós o imitávamos em gesto mecânico de robôs. Atrás da cadeira de espaldar
reto perfilava-se o criado impassível.
Aquela era a casa — ou casarão — dos retratos a óleo e
dos pesados reposteiros de pano. As paredes, principalmente no
corredor que desembocava no salão de jantar e na sala de estar,
ao lado (era o fumoir do meu avô, com seus charutos perfumados
em caixas de cedro, e agora de tio Angélico), cobriam-se de telas.
Nada de paisagens, somente retratos. Predominavam os cavalheiros graves, de cenho carregado, peitilho engomado, barbas
veneráveis e trajes negros. Estavam mortos, eu sabia. A poeira de
um ou dois séculos, não satisfeita de lhes aprisionar na terra os
velhos ossos, entrava pelos janelões, soprada das ruas no verão,
e sobre eles espalhava leve pátina. Ainda assim, semivelados, nos
espiavam, talvez nos espionassem, talvez nos seguissem com os
olhos, quando passávamos. Por isso eu passava correndo.
Havia censura naqueles semblantes severos, e, como é notório, está para nascer aquele menino imune a queixas e acusações. Eu corria, pois, sentindo nas costas a ardência de olhares
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
punitivos. Havia também retratos de damas empertigadas, de pé
ou reclinadas em poltronas, também vestidas de negro, também
austeras à moda antiga. Todas de busto coberto, gargantilhas e
penteados altos ou bandós. Nenhuma com tranças ou de cabelos corridos. O que esperar delas? Não sei por que, mas me
pareciam mais impenitentes que os cavalheiros, sem vislumbres
de um possível perdão.
Os tons desses retratos a óleo, de uma nitidez fotográfica,
eram escuros, salvo o branco imaculado das camisas e rendas e o
habitual vermelho ou escarlate de reposteiros e canapés. Eu entrava correndo, como disse, ou a passo apressado por aquela galeria
de vultos de um passado faustoso e cobrador. Mas não creio que
os adultos, meus tios e primos, lhes dessem importância. Menos,
naturalmente, o meu tio Angélico. E creio que também sua esposa, a tia Benigna, que ele, somente ele, chamava Beni.
Na sala de jantar, na parede atrás da vazia cabeceira da
mesa após a morte do meu avô, vazia em louvor de sua lembrança, porque somente ele poderia ocupá-la, pendia um alto retrato
a óleo do falecido. De fraque, colete branco e gravata, pousava
a mão direita no espaldar da cadeira, a sua cadeira na grande
mesa de refeições. Conduzia uma assembleia de lugares vazios
e mesa nua. O pintor concentrara toda a sua atenção e talento
no retrato, que era, de fato, impressionante, transmitindo uma
certeza instantânea de poder imperial. Mais que um barão, meu
avô era um condottieri. Mesa posta, convivas ao redor, por pouco
ele não saía da moldura para sentar-se à cabeceira e empunhar os
talheres à guisa de floretes, lanças.
Certa manhã tio Angélico comunicou-nos a chegada do
rábula.
“Quem?”, perguntou sua mulher Benigna.
“Você não conhece. Francisco Conde.”
E depois de curta pausa:
“Ofereci-lhe hospedagem aqui.”
“Aqui em casa?”, admirou-se a mulher.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
“E por que não? Temos quartos de sobra. Escolha um.”
“Fica por muito tempo?”
“Não sei. Até alugar casa. Uns quinze dias, talvez.”
“Ah, vem para morar... E quando chega?”
“Amanhã. Prepare tudo.”
“Traz família?”
“Está sozinho, por enquanto.”
“Ah.”
Tia Benigna não me pareceu satisfeita. Tinha temperamento arredio, algo esquivo. Não era muito de pagar visitas e menos
ainda recebê-las. Nisso ela destoava de todos os moradores de
Macaúbas, cidade pequena encravada num vale cercado de montes
que se aproximavam como que para montar guarda. Mas as mulheres, especialmente as casadas, primavam naquela época, ainda
que a contragosto, pela submissão. O marido mandava, a palavra
do marido era a lei maior na casa e nos negócios, que ele tocava
a seu bel-prazer, sem dever satisfações e pedir aconselhamento.
Um primo atilado lembrou mais tarde, em conversa vaga
na calçada, que não havia advogado na cidade. Nenhum, sequer
para remédio. Essa observação deu o que pensar: houve estalos
no mecanismo das deduções e não tardou a brotar a insinuação,
logo considerada certeza absoluta, de que tio Angélico trazia o
rábula para desatar o nó do inventário e outros negócios emperrados. Estava explicada sua viagem a Livramento, duas semanas
atrás, a cavalo.
Ignoro se as mulheres da família temiam, como eu, aqueles
retratos sombrios nas paredes da mansão — ou se, reverentes a
exemplo de tio Angélico e tia Benigna, paravam às vezes diante
deles, em muda contemplação. O que pensariam em tais instantes? O que o mergulho súbito no passado poderia significar?
Talvez resíduos de um sentimento de culpa, bastante compreensível, aliás (fosse esse o caso), porque, por mais que se faça o bem
a uma pessoa, restará sempre pequena margem de expectativa
insatisfeita de ambas as partes, beneficiado e autor das benesses.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
A vida ensina que a dádiva, mesmo constante e altruísta, provoca
às vezes reações de inconformismo, uns achando que poderiam
dar mais, e se sobrecarregando assim com o sentimento de culpa, outros que poderiam receber mais, ainda que o provimento
lhes deixasse gosto amargo na boca. Mas eu penso também que
a reverência ocasional a austeros retratos a óleo de antepassados ilustres, fato raro hoje em dia, talvez seja fruto do orgulho.
Orgulho, primeiro, de pertencer àquela cepa e ser o novo guia
da jornada. Orgulho, depois, de se sentir mais completo, mais
realizado, e diante do retrato, que o fita de olhos severos, ponderar então: “Está vendo? Semeei mais, colhi mais, não sou o
indivíduo apático que o senhor (ou senhora) imaginava.” Mas,
se não olhava fixamente os retratos, e com eles confabulava, tia
Benigna os limpava de quando em quando. Espanada a fímbria
de poeira, a barba ficava mais negra, os olhos duros fuzilavam.
O bigode luzia, negro como azeviche, apesar da vaga tonalidade
cinérea do cabelo escurecido sem dúvida com tinturas.
As cunhadas não se importavam. Ocasionalmente fariam
referências ao pai, que as governara com mão de ferro, e ao irmão, que seguia a receita. Nenhuma se casara, em parte porque a
soberba do patriarca espantara possíveis pretendentes; em parte
porque elas, de vontade mole, se haviam sujeitado a depender
dele, da sua palavra e do conforto material que lhes dava. Tinham casa, tinham lugar à mesa, delas não se exigia trabalho
caseiro pesado. Viviam para os bordados, as rendas, as missas, os
convites para aniversários e batizados, dois ou três vestidos por
ano, conversas sobre medicina caseira, o posto de vigilância nas
janelas quando arrefecia o calor da tarde e os primeiros sinais do
anoitecer se desenhavam ao longe no colorido das nuvens.
Perguntas tímidas que, a princípio, arriscavam sobre a partilha dos bens do falecido esmoreceram e acabaram na gaveta
da memória, cobertas de pó, furadas pelas traças e com odor a
mofo. Ainda não houvera partilha, ignorava-se a existência de
testamento e se o irmão, tio Angélico, fora de fato designado
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
inventariante, como dizia. Talvez agora as cogitações tivessem
resposta com a chegada de Francisco Conde e as providências
que decerto tomaria.
“Pelo visto é gente importante”, comentou Cinira.
“Tem de ser. Angélico trouxe-o a cavalo, de Livramento”,
concordou a irmã Ambrósia. “Levou cavalo aparelhado, de arreio e tudo. Fez as despesas.”
“Para deduzir depois”, volveu a irmã com um risinho de
mofa.
“Deduzir do quê?”, indagou a outra, distraída.
“Ora, deduzir dos haveres alheios, sua tonta.”
Ambrósia suspendeu o trabalho de agulha. Baços, como
que de vidro fosco, seus olhos erraram no vazio próximo. Mais
longe não ousavam ir, na administração dos venenos sutis. Caladas ficaram as duas mulheres, uma com panos, agulha e linha esquecidos no colo, a outra diligente, na cadeira de vime, as mãos
ainda firmes ocupadas na faina de alinhavar.
Tia Benigna aproximou-se, fatigada.
“É hoje”, anunciou.
“A novena?”, perguntou Ambrósia, a emergir do devaneio.
“Não, criatura. O hóspede.”
“Está chegando, é?”
“A qualquer instante. Forrei a cama com um lençol branco de linho e uma colcha de matelassê. Deixei água fresca na
moringa, espanei o reposteiro e bati o tapete de couro de boi.
Pus também uma Bíblia no criado-mudo. Talvez o rábula seja
homem de devoção.”
“Você deixou a Bíblia aberta ou fechada?”
“Fechada. Por que pergunta?”
“Em geral deixamos aberta, nos Salmos”, disse Cinira.
“Ele que escolha o Livro e a parábola”, disse Benigna, não
sem certo desdém.
Calaram, pois Ana Cláudia, cozinheira e faxineira a um só
tempo, chegava com uma bandeja de limonadas. As mulheres
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
tomaram um sorvo cerimonioso e suspiraram. Uma lufada de
vento derrubou carambolas maduras no pomar. Uma ave grande
e escura, talvez gavião, planou certeira por cima da casa e desapareceu, miúda, atrás do monte.
“Ui”, gemeu Ambrósia.
“O que foi?”, acudiram as duas.
“Para mim era coruja.”
“Coruja a esta hora do dia?”, estranhou Benigna.
“Pois é”, secundou Cinira. “Rasga-mortalha só aparece à
noite.”
“Sei não...”, disse Ambrósia, e deixou a frase no ar.
O resto da tarde foi consumido nos preparativos de cada
um: o que vestir, o que calçar, o penteado, as unhas brunidas.
Isso em relação às mulheres, que vieram ao mundo, como é sabido, vaidosas, presas à tirania da boa aparência. E por que não?
Nem todas são belas de rosto, de gestos, de intenções. Mas o
Criador as brindou com um corpo diferente do nosso, nas escarpas, sinuosidades e meandros, por menos dotadas que sejam.
Quem nasceu para espelho, modelo e retrato ao mesmo tempo,
obriga-se a manter limpa e nítida e atraente a superfície espelhante. Mulheres sempre enchem os olhos e cedo aprendem a
seduzir com aqueles artifícios sobrepostos ao talento natural dos
predadores. Quanto aos homens, ah, muitos poderiam e até desejariam, se possível, voltar às cavernas.
Pratos tiniram. Louças e talheres reservados a ocasiões
solenes (quase tudo legado do velho Cesário) saíam de armários e gavetões. Terrinas, bandejas, cálices e copos, compotas
e licores, baixelas e banho-maria, bules e jarros. Na cozinha,
onde tia Benigna entrava de vez em quando para vistoriar, Ana
Cláudia se estafava e se estabanava. Felizmente as postas de
peixe — salmão importado do Chile — chegaram aparadas,
prontas para receber o tempero. E a sopa de legumes estava
cortada. Tive de subir à mesa para encaixar mais duas lâmpadas no candelabro. Por fim as mulheres se meteram em cálidos
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
banhos de sais. O gluglu da água espalhava-se no casarão, refluía dos umbrais.
“Esse rábula Francisco Conde está me saindo mais caro
que a encomenda”, queixou-se tia Benigna.
“Pois espere só. Muita água ainda vai rolar”, comentou
Cinira.
“Afinal, para que vem?”
“Ora, filha, para legitimar.”
“Legitimar... Legitimar o quê?”
“As decisões já tomadas por vosso marido.”
Cinira acentuou o vosso com uma ponta de arrelia. A vagar pela casa, mas distante do corredor, que já àquela hora estaria imerso em penumbra quebrada apenas pelos carvões rubros
dos olhos das damas e cavalheiros dos retratos, eu escutava, eu
me perguntava onde andariam os primos. Pergunta ociosa, decerto, porque Danúbio teria desaguado na mesa de bilhar e Nilo,
o rapaz caçula, entrara com certeza no estuário da rapariga sua
amante, mantida em pensão com alguns requintes de fidalguia
bancados ninguém sabia como.
Entardecia. Os estalos das rodas de ferro da charrete nas
pedras irregulares do calçamento nos levaram aos janelões. A
chegada de um visitante, rábula ou simples mortal, sempre fora
um acontecimento. Tio Angélico, enfarpelado e de chapéu branco com cinta preta, desceu e ajudou o rábula a apear. O cocheiro,
que assim chamo por fidelidade aos romances antigos, mas que
para nós não passava de Manuel da Bodega, suou para abraçar a
canastra e, aos tropeções, deixá-la à entrada do corredor.
“Uma canastra pesada”, observou Nilo, que havia chegado pouco antes na companhia do irmão. Era dado a verificações óbvias.
“O que contém? Mármore azul?”, especulou Danúbio.
“Só se ele furtou dos gringos italianos”, disse Nilo.
“Tanta roupa é que não é”, concluiu o mestre nas tacadas
de bilhar.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
“Talvez livros jurídicos, embora ele não traga somente a
roupa do corpo”, emendou o outro.
O rábula era homem pequeno e franzino. Batia a cabeça no
ombro maciço de tio Angélico. Parecia um serventuário humilde,
pois trazia sob a axila uma pasta preta, sem dúvida atulhada de
papéis de suma importância, que teria de vigiar o tempo inteiro.
Espetava no queixo magro um cavanhaque pontudo e algo eriçado e trajava roupa simples. No entanto, andava de paletó fechado, passo ligeiro e atitude empertigada. Em tudo um rábula. As
mulheres desinteressaram-se: tanto enfeite à toa! Mas, se não se
impunha pelo talhe, Francisco Conde exibia modos educados, de
etiqueta. Cumprimentou as senhoras com afetada inclinação do
busto, um sorriso rápido, que parecia mecânico, e a simulação de
um beijo na mão. Se não tinha dotes semelhantes aos dos galãs do
cinema (Errol Flynn e Clark Gable estavam no auge), teria, ao menos, miolos na cabeça, do contrário o patriarca Angélico não lhe
iria ao encalço e muito menos se daria ao exagero de hospedá-lo.
Fizeram-no sentar na sala, serviram-lhe um aperitivo com
que se recobrar das fadigas da viagem. De passagem pelo corredor, o rábula reduziu o passo, deteve-se aqui e ali diante de um
quadro nas paredes. Quem era a dama, quem era o cavalheiro. Elogiou as pinturas, referiu-se a “essas famílias de nobre estirpe que
são o esteio da nacionalidade”. Agradou. Após o cálice de licor foi
guiado ao quarto para o cochilo reparador, o banho e a muda de
roupa antes do jantar, que ali, apesar da hora adiantada, chamavam
ceia. Por onde passava, Francisco Conde tinha exclamações admirativas; teria chegado a dizer, conforme depoimento de Cinira,
emitido, porém, em tom de mofa: “Nota-se em cada pormenor o
gosto zeloso, a mão fina da esposa prendada.” Agradou muito, o
que não o impediu de ser questionado logo mais à mesa. Danúbio
e Nilo continuavam a especular sobre o conteúdo da canastra.
“Livros”, alvitrou Nilo, em tom de quem dá a pendência
por encerrada. Manuais de direito civil, penal e, sobretudo, processual. Códigos, vade-mécuns.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
O irmão sorria incrédulo.
“E para o quê, se a esperteza do nosso pai vence qualquer
tratado jurídico?”
Ficaram nisso, hesitantes e incertos, enquanto nos dias seguintes, e nas semanas subsequentes, anfitrião e hóspede, afinados, punham em dia os atrasados. Emancipados pela idade, que
se aproximava dos improdutivos trinta anos, e à vista de dinheiro
vivo pela primeira vez na vida, Danúbio e Nilo passaram recibos
de quitação de suas porções no futuro legado. Nilo viajou com a
amante para São Paulo e até hoje deve notícias de seu paradeiro;
talvez esteja sepultado em cova rasa, ou então foi queimado vivo
por assaltantes em busca de altas quantias, ou abatido por pistoleiro em crime de mando. O outro, Danúbio, de curso emotivo
menos caudaloso, deixou-se ficar no burgo, entregue às partidas
de bilhar apostadas; gastou tudo, acabou expulso de casa e trabalhou na extração de minério estratégico em Caetité. Dizem que
se contaminou e morreu. É claro que a cidade comentou tudo
isso, de boca em boca, de porta em porta, nas barbearias, nos
bares, na feira livre, nos salões de sinuca, nos prostíbulos — e
ainda hoje, passados anos, ainda há quem fale.
O acerto com Cinira e Ambrósia, por exemplo. O acerto
de contas com meu pai enfermo. No caso das irmãs, foi mais
rápido e fácil: já moravam há anos com o patriarca, tinham
cama e mesa, roupa e sapato — o básico, em suma. Havia lançamentos no “deve” e “haver” de cada uma, incluindo diárias de
hospedagem, como nos hotéis. Feitos os cálculos pelo rábula,
as mulheres eram devedoras; tio Angélico alegou “comunhão
fraterna” e renovou o acolhimento, doravante a fundo perdido;
mas, por amor à contabilidade, guardou os recibos de quitação
da herança. No caso do meu pai viúvo, proprietário da Fazenda
Futurosa, seiscentos alqueires, a pendência arrastou-se. É que o
velho, de pele amarelada, olheiras fundas, reumatismo crônico e
outras misérias físicas, demorava a morrer. Assim que soube do
progresso das mazelas, que já então prendiam o desafortunado
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
vizinho ao leito, Angélico visitou-o, acompanhado do inseparável Francisco Conde, que apenas observava, sem falar, ocupado
que estava em beber palavras alheias. A princípio, forneceu-lhe
dinheiro para a feira semanal, as diárias de pequenos serviços;
depois, para consultas médicas, remédios, transporte. Os males
agravaram-se, tio Angélico transferiu o doente para o burgo, alugou casa para ele, contratou enfermeiro, cozinheira.
Antes do óbito, que era questão de semanas ou dias, a
escritura fora lavrada, firmada, registrada. Estava, assim, mais
do que justificada a presença do rábula, o trabalho de ir buscá-lo
pessoalmente em Livramento e deixá-lo, de charrete e com a
sua canastra, à porta do casarão, hospedá-lo durante semanas,
antes que alugasse casa para trazer a família, e dar-lhe o melhor
aposento — que outro não era senão o do meu avô Cesário, até
ali resguardado e impoluto, tal e qual ele o deixara, os janelões
abertos sobre o pomar, os ramos das mangueiras a sussurrar nas
noites calmas: “Ergue-te e anda, Cesário.” Ou então: “Acorda,
Cesário, que a Lua já vai alta no firmamento.”
Vejo que entrei em atalhos. Voltemos ao dia da chegada.
O rábula desceu a escada em caracol. Estava de roupa mudada
e ainda mais solene; trocara o pó das estradas, na pele, por uma
rosada tez oleosa. Trescalava leve perfume, talvez lavanda. O cavanhaque parecia como que encerado. Se envergasse fraque seria
no mínimo mestre de cerimônias. Beijou, sem roçar os lábios, as
mãos das senhoras. Curvou-se diante dos cavalheiros. E ei-lo,
cerimonioso, porém atento, a entretecer conversas banais enquanto a ceia não era anunciada. Velas em castiçais de dois e três
braços começaram a arder no centro da mesa; alguém desligou
o candelabro. Tia Benigna dirigiu-se ao marido.
“A ceia está pronta.”
“Então”, disse Angélico, erguendo-se da poltrona e abrangendo a assembleia, “vamos à mesa, como convém”.
Os convivas acercaram-se e pararam. Decerto aguardavam
o prosseguimento do ritual. Tio Angélico encarou o hóspede.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
“Sente-se à cabeceira”, apontou.
O rábula enrubesceu.
“É honra que não faço por merecer.”
“Sente-se, eu insisto.”
O atônito criado, também herança de Cesário, recuou
a cadeira de espaldar alto e aproximou-a no instante certo.
Os demais ocuparam sem bulha os seus lugares, eram pássaros que pousam para repouso em fios telegráficos nas migrações. Tia Benigna precedeu o cortejo oriundo dos confins da
cozinha. Portava com galhardia uma terrina de sopa da qual
escapavam volutas de vapor. Ao ver Francisco Conde à cabeceira da mesa, naquele assento privilegiado, até então vazio
por não haver, na família e fora da família, autoridade digna
de ocupá-lo, diminuiu o passo e contraiu o rosto. De repente,
na superfície lisa e macia do semblante, ainda imune, apesar
da meia-idade, à comichão das rugas e bolsas, formou-se uma
máscara dolorosa. E eu, no meu canto encolhido, tive a impressão, suponho que falsa, de que os cabelos dela se arrepiavam como as penas das galinhas chocas — pelo menos os
da crista. Em seguida, a dor daquela máscara, por enquanto
contida, encheu-se de fúria.
Avançou decidida, pousou a terrina com um baque que
espadanou pingos na toalha rendada e bradou para o rábula:
“Seu lugar é outro!”
Vi — todos viram perfeitamente, apesar da penumbra —
as mãos da mulher subir ao queixo, quase cerradas, mas com os
polegares e indicadores livres. E estes, passando do queixo ao lábio superior, no espaço até a base do nariz, entraram a cofiar, em
gestos sacudidos, as pontas eriçadas de um grosso bigode. Mas ela
não tinha bigode de homem. Sequer tinha um maltraçado buço.
Assim foi, assim esteve a mulher, durante quase um minuto, a
torcer, a retorcer as guias enroladas do bigode. Ninguém falava.
As mãos desceram, então, sendo que a direita, transformada em
punho cerrado, manopla ou martelo, estrondou sobre a mesa, em
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
porretada que fez tinir as baixelas, enquanto os olhos chamejavam
na direção do rábula.
“Seu lugar é outro!”
Soaram as horas no grande relógio de parede. Sete precisas, sonoras, espaçadas badaladas. Calmo, sereno, sem levantar a
voz, tio Angélico dirigiu-se a Francisco Conde.
“Desculpe o equívoco. Troque de lugar comigo.”
Os convivas entreolharam-se. A refeição começou assim
que tia Benigna, refeita do ataque de cólera, foi deitando colheradas da rica sopa nos pratos que lhe eram passados, a partir do
marido. Nesse instante, houve um rangido e baque estrondoso. O retrato de Cesário resvalara do pino enferrujado para o
parquet, com o natural espalhafato. Quase todos se soergueram.
Ambrósia engasgou-se, Cinira desatou uma risada em que havia
toque histérico. O rábula passou o guardanapo na boca, olhou o
homem na cabeceira e quis levantar-se.
“Deixe”, comandou Angélico, contendo-lhe o ímpeto
com uma pesada mão no ombro. “Antônio cuida disso.”
A tela se despregara da moldura. Um assustado Antônio
mostrou-a. Estava vazia, estava em branco. O retrato fora apagado — ou se apagara sem que percebessem, no lento fluxo do
tempo. Sem se voltar na cadeira de alto encosto reto, o provedor
Angélico levou à boca as mãos em forma de concha. Polegares e
indicadores recurvos torceram então pela primeira vez as pontas
do espesso bigode escuro. *
Salvador, 20-25 de julho de 2013.
Hélio Pólvora é jornalista, crítico literário, ensaísta, cronista, tradutor
e, principalmente, ficcionista, com dezenas de livros publicados, dentre
os quais os romances Inúteis luas obscenas e Don Solidon e a coletânea
Contos e novelas escolhidos, em dois volumes. Possui diversos prêmios
nacionais, como o Prêmio Nestlê de 1982 e de 1986. Desde 1994
ocupa a Cadeira nº 29 da ALB.
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O CAVALO
Rinaldo de Fernandes
1
C
om a insônia, me levantei, fui até a cozinha, bebi um copo
d’água. Atravessei a sala, aproximei-me da varanda do apartamento, fiquei olhando a noite. O mar, a uns oitocentos metros,
atirando-se nas areias alvas. A luz do poste refletindo nas palhas da
palmeira no pátio do prédio, o fundo azulado da piscina tremendo. A rua deserta, arborizada, o asfalto comido em alguns trechos.
Notei que de um terreno baldio, perto de outro onde estão erguendo um edifício, saiu um cavalo do meio de alguns
arbustos, veio andando na direção do meu prédio, os passos calmos, a cabeça, vez por outra, sondando ao redor. Achei que o
dono de alguma carroça — as casas humildes do outro lado da
avenida, não muito distante — largou-o na noite para um devido
descanso. Um cavalo altivo, avermelhado.
Batia um vento bom e, de repente, na esquina, apontou
um carro vindo dos lados da praia, entrou na rua. O cavalo, na
calçada, dobrou o pescoço, observou o carro passar com velocidade, uma leve poeira partindo dos pneus.
O homem parou diante do portão de uma das casas da rua
(já moro aqui há três anos, após me aposentar como advogado,
mas não havia reparado no belo jardim da casa), acionou o portão
eletrônico, que foi abrindo lentamente. Em pouco tempo o homem entrou com o carro na garagem. Olhei a nuvem arroxeada
se aproximando da fatia de lua, lá adiante, sobre o mar. O cavalo
vinha andando pela rua, apagando-se nas sombras, sempre lento.
►► 299
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
O homem demorou a sair do carro e a fechar o portão. Após
alguns minutos, finalmente deixou a garagem escura e, esquecendo
que o portão se encontrava aberto, ficou no terraço tentando abrir
devagar a porta principal da casa. Pareceu não ter meios, em certo
momento, de penetrar na casa, saiu para o jardim, sentou-se na
cadeira de ferro, perto de um anjo alto, pôs o rosto entre as mãos.
Vez por outra olhava para o primeiro andar da casa, esquecido
de vez de fechar o portão da garagem, parecendo também que
poderia, a qualquer momento, sair de novo para a rua. Por que
não chamava alguém? Deixou a pasta (vinha do escritório?) sobre
a mesinha de centro do jardim, encoberta por algumas ramas, saiu
arrodeando a casa. Enquanto o homem pesquisava ali as janelas, o
cavalo veio, passou pelo portão, baixou a boca, foi arrancando tufos da grama do jardim. O homem agora estava lá nos fundos, empurrando portas, espreitando paredes. O cavalo raspou outra vez a
boca no chão, apanhou mais grama e foi para debaixo da sombra
da pequena árvore no canto mais escuro do jardim. O homem
afinal encontrou uma janela aberta, entrou na casa, veio, abriu a
porta principal, pegou a pasta na mesinha do jardim e acionou
novamente o portão eletrônico, que começou a fechar com ruído.
O cavalo ali na sombra, imóvel. O vento atiçando as folhas da árvore.
Achei engraçado que o cavalo tivesse ficado no interior da
casa. Até que, solto na rua, correndo risco de atropelamento, ele
merecia mesmo um recanto mais isolado, aprazível, seu. Achei
também que ele não incomodaria, pois parecia mesmo cansado,
entorpecido.
O homem ligou uma luz no andar superior (estava no
banho?) e, após alguns segundos, vi que outra luz da casa se
acendeu. Então ouvi um barulho, movimentos bruscos, objetos
sendo atirados, a luz do terraço também foi acesa. Percebi logo
a briga, era pois esse o receio, a indecisão de chamar alguém, ele
tinha chegado muito tarde. Um sapato partiu uma vidraça.
Os olhos do cavalo brilharam embaixo da árvore.
300 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
2
O casal pulou para a grama do jardim, ele ameaçando ela,
ela acertando-lhe o ombro com a perna de um móvel. Ele pedindo calma, ela gritando-lhe palavrões, patife, peste, e o mais incrível
é que, talvez pela hora (duas e vinte da madrugada), nenhuma luz
de quarto foi acesa na rua. Ela plantando-lhe a perna do móvel
nas coxas, nos braços, ele se firmando nas colunas, cadeiras, rodopiando na grama. De repente, e depois de receber um golpe firme,
com as duas mãos, ele agarrou o pescoço da mulher, derrubou-a
na grama, apertou-lhe a garganta, depois a socou com força, socou-a mais, até ela ficar imóvel, estendida perto do anjo. Ele aí
entrou na casa, ficou três ou quatro minutos, saiu de calça e camisa
trocadas, veio, abriu o portão da garagem, pegou novamente o
carro. Na rua ficou um pouco da poeira.
A mulher continuava estendida na grama, a casa e o portão da garagem abertos. Nada se mexia — só as folhas mais altas
da árvore. O porteiro do meu prédio parecia dormir. Eu também tive vontade de ir me deitar. De repente, o cavalo deixou a
sombra, deu alguns passos, coçou o pescoço na coluna, olhou
calmo para a mulher caída, desgrenhada. Veio, pisou na roseira
ao pé do anjo, dobrou-se, cheirou os cabelos da mulher, que
continuava imóvel. O cavalo ficou ali, ameno, ao lado da mulher.
Voltou a cheirar-lhe os cabelos, a orelha. Aí assoprou forte, bateu com o casco no chão. Ia partir? A mulher se moveu um pouco. Isto me aliviou. O cavalo levantou um pouco o pescoço, mas
em seguida girou, foi, deitou de leve a boca nos pés da mulher,
no tornozelo, e, quando olhou para o portão aberto, a mulher se
ergueu, sentou-se na cadeira, as mãos nos olhos. Soluçou, deu
pancadas na mesinha de centro, procurou com a mão o braço
do anjo: “Porra! Patife!” O cavalo ali, observando-a. E ouvindo
a mulher gritar: “Tu me paga, cretino!”
O cavalo se assustou com os palavrões da mulher, deu
cabeçadas, mas depois ficou quieto, parece que indeciso se saía
►► 301
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
de vez ou se voltava para a sombra. Foi então que a mulher o
observou. Teve um susto, saltou para o terraço, atenta nos movimentos do bicho. Mas ele a olhou com calma, torceu um pouco
o pescoço, dando-lhe alguma certeza. Ela, contudo, ficou parada. Gritou: “Cachorro! Viado!” O cavalo a olhava como quem
queria lamber-lhe os cabelos.
A mulher afinal percebeu que o cavalo não estava ali para
incomodar — e se interessou por ele, inventou um caminho
por entre algumas plantas para se aproximar do animal. Sorriulhe, talvez agora com algum receio, tentando agradá-lo. Quis
espantá-lo, mas ele apenas rodou sobre si próprio, voltando a
observá-la com serenidade. Ela se aproximou. O cavalo mordeu
a roseira como quem quer arrancar uma flor.
A mulher se aproximou de vez do animal. Ele, num gesto
breve, baixou a cabeça, roçou o pescoço no anjo. Ela então lhe
passou a mão temerosa na testa, alisou-lhe as costas. Ele ficou
parado, acolhedor. A mulher, de repente, abraçou-se ao pescoço
do cavalo, apertou-o firme — e começou a chorar, os dedos prendendo-lhe as crinas: “Demônio! Patife!” O cavalo lambeu o anjo.
Agora a mulher soluçava ainda mais alto, dando gemidos,
a cabeça amparada no cavalo. Teve um momento em que ela,
num movimento de ida e vinda agarrada ao pescoço do animal,
pareceu que ia entrar com ele na casa. Mas, num passo brusco,
ágil, ela subiu na cadeira e, erguendo-se com ímpeto, montou no
cavalo, que a aceitou prontamente nas costas. Ela se segurou nas
crinas e, batendo de leve na barriga do animal, foi indo na direção do portão. Saiu para a rua e, em poucos minutos, ainda montada, atravessava alguns quarteirões, antes de ir dar, um pouco
distante, na avenida da praia, vazia às três da manhã. Por entre
dois edifícios vi-a cavalgando no calçadão da orla, as sombras
ao fundo. Seguiu, muito corajosa, para a outra ponta da praia, os
prédios agora me impedindo um pouco de vê-la. Desapareceu
entre as palhas girando dos últimos coqueiros, a luz fraca de
um poste tremendo antes da curva. A casa toda aberta, um gato
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
preto chegou, parou no portão, lambeu o ferro do ferrolho, não
quis entrar. Tive vontade de rir.
Dia seguinte, viajei para o Rio de Janeiro, fui visitar meu
neto. De volta, soube da notícia do desaparecimento da mulher
do médico. Vi-o dando entrevista na tevê, o rosto rosado. Dizia ao
repórter que a polícia tinha que ser mais ágil, que a mulher tinha
sido vítima de um sequestro relâmpago, mas que já não era mais
tão relâmpago assim, pois já tinham se passado oito dias. Queria
sua mulher de volta. Era a coisa mais importante de sua vida. E
chorava diante da câmara: “Achem minha mulher, por favor!”
Observei, na manhã seguinte, do alto da minha varanda,
que um carro da polícia ficava parado permanentemente na porta da casa, sempre fechada. Deu vontade de descer, de dizer para
um policial, olha, posso parecer um velho imbecil, que vive ali
sozinho, mas a mulher não foi sequestrada coisa nenhuma, ela
fugiu montada num cavalo. Mas eu tinha receio de os policiais
(tinha um gordinho alegre entre eles, sempre rindo) zombarem
de mim. Aí eu ri, eu ri comigo mesmo. E resolvi que não ia me
meter nisso, pra quê? Quero é meu sossego.
Alguns meses depois, a mulher ainda sumida, soube pelo
jornal que deram o caso por encerrado. A casa permanece ali
trancada. A grama alta. O anjo, antes branco, agora amarelecido.
Nas noites, olho para a árvore no canto do jardim.
O cavalo me assopra ali da sombra.*
Rinaldo de Fernandes, maranhense radicado em João Pessoa, é
doutor em letras pela Universidade Estadual de Campinas, professor
da Universidade Federal da Paraíba, articulista fixo do jornal
literário Rascunho, do Paraná, antologista e escritor. Dentre outros
livros, publicou O professor de piano (contos) e Rita no pomar (romance
finalista do Prêmio São Paulo de Literatura).
►► 303
NO TEMPO EM QUE O RIO
TINHA PEIXE
Cyro de Mattos
E
dizer que esse rio já forneceu água de suas fontes puríssimas para que todos matassem a sede no bebedouro da vida.
Isso foi há muito tempo, a cidade tinha uma população pequena.
Talvez nem chegasse a trinta mil habitantes. Ainda não havia
sido instalado o sistema de abastecimento de água encanada para
servir à população. O aguadeiro trazia a água do rio nos carotes,
pequenos barris feitos com madeira de putumuju, que eram carregados pelos jumentos. Cada jumento carregava quatro carotes,
dois de cada lado, pendurados na cangalha. O homem anunciava
na rua: “Água do Mutucugê! Água boa do Mutucugê! Água fresca do Mutucugê! Quem vai querer?”
O rio tinha muita gente que vivia de sua bondade. Lavadeiras, aguadeiros, pescadores e tiradores de areia, usada nas
construções residenciais, armazéns e lojas do comércio. Uma
gente das camadas pobres da cidade tirava o sustento da família
com o que o rio lhe fornecia, de janeiro a janeiro. O rio era chamado de pai dos pobres.
Antes de ser construída perto da Ponte Velha a represa,
que submergiu as inúmeras pedras pretas, espalhadas em muitos
trechos do rio, o velho Cachoeira tinha um visual para agradar
a quem visse. Baronesas não ficavam entulhadas no lençol de
água que passou a cobrir toda a extensão do rio. Desde o bairro
da Burundanga até lá onde o rio faz uma curva e se despede da
cidade, conversando de dia com o sol, à noite com a lua, por
entre as pedras pretas, rumo ao mar de Ilhéus.
►► 305
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Homens e meninos retiravam a areia do rio com a pá,
que ia e vinha no esforço do dia. Tempo bom para a areia ser
retirada era nos meses de verão. A cidade toda sabia que pelas
mãos do areeiro a argamassa da casa era feita de fibra específica:
calo, suor e areia. O homem passava pelas ruas, a taca silvando
o ar. Caminhava apressado, tangendo os jumentos carregados
de areia nas latas. Um poeta da cidade resumiu em versos que as
casas cochichavam nesse momento em que o homem passava.
Comentavam que a areia sem a pá não seria dádiva. Nada seria
a pá sem a areia. Ajoelhando as fachadas, as casas tomavam a
bênção ao velho rio. E agradeciam ao tirador de areia.
A lavadeira tinha as mãos grossas de calo de tanto bater
roupa na correnteza de águas límpidas. Durante a semana descia
o caminho pelo barranco com a trouxa de roupas sujas na cabeça. Quando chegava à beira do rio, colocava a trouxa de roupas
em uma pedra grande, junto ao areal. Não demorava e começava
a tirar as roupas da trouxa. Molhava, ensaboava, esfregava, lavava e torcia. Estendia as roupas nas pedras pretas para secar ao
sol. De repente as pedras pretas, cobertas de roupas estendidas,
apareciam coloridas naquele trecho do rio.
O rio tinha muitos peixes. Robalo, pratibu, carapeba, piau
e bagre. E outros pescados: pitu, camarão e acari. Para não falar
nos peixes miúdos, piaba, moreia, jundiá e beré. Pela manhã, o
pescador passava com as fieiras de peixe, batia na porta e oferecia os pescados à dona da casa. “Peixe fresco do Rio Cachoeira!”
Na semana, de casa em casa a cena se repetia. Na feira, aos sábados, o litro cheio de camarões era vendido por um preço barato
na banca de peixe do pescador mais velho do Rio Cachoeira.
Um preto magro, a cabeça branca, o nariz achatado, os lábios
grossos: o rosto com rugas marcava na pele crestada que o sol
havia passado por ali durante muitos anos. Vendia também pitu
e acari, que ficavam expostos nas fieiras sobre o balcão da barraca. Era quem mais conhecia histórias de pescador e casos de
gente afogada que o Rio Cachoeira havia levado na cheia.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
***
Gosta de remar na canoa assim que a manhã desperta
radiante, soprada por esse vento morno. O treinamento que
faz na semana requer determinação, esforço e sacrifício. Pretende ganhar massa muscular nos membros e tronco, firmeza
nos braços e pernas. E com o corpo de atleta ser admirado
pelas moças quando o virem desfilar, portando uma aparência
saudável, misto de beleza e força. Pensa que o corpo de atleta a
se exibir com superioridade é o ideal para que se torne o rapaz
mais atraente da cidade. O perfil do galã fatal tem no pimpão
penteado com esmero, alisado com brilhantina, um dos pontos
salientes do desfile pelo passeio da rua do comércio ou jardim
da prefeitura.
As moças suspiram quando ele chega com o peito estufado ao jardim da beira-rio, em tardes de domingo. Quando acaba
a sessão da matinê no Cine Itabuna, é costume as moças descerem em grupos alegres para o desfile no passeio do jardim. Os
rapazes permanecem parados em pontos estratégicos do passeio
largo. Alguns aventuram a piscada de olho para a moça, que responde com um sorriso tímido ao sinal indicativo de afeto em um
rosto jovem. O amor começa a esboçar seus primeiros riscos no
rosto ingênuo de adolescente para que assim, nas verdes pulsações do coração, o namoro tenha começo.
Durante a semana, cada vez mais obstinado rema na canoa, nesse ritual que se move, aos poucos, de uma margem à
outra do rio. Certo prazer toma conta do corpo molhado de
suor, gotejando no rosto. O coração bate forte na esperança
de que será recompensado pelo esforço desprendido no treinamento, durante a semana. Nesse dia de neblina, que esvoaça
das águas negras do Poço do Pau d’Alho, impregnadas com o
vento do amanhecer, mal começa a remar na canoa quando é
surpreendido com o salto do peixe que pula para fora d’água
►► 307
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
e abocanha o louva-a-deus. Cai dentro da canoa, onde fica se
esbatendo nos costados, tentando voltar para a água. Robalo é
o peixe que o pai mais gosta quando preparado na moqueca.
As postas da iguaria nas tigelas recendem seu aroma ativo no
caldo misturado com o dendê e o leite de coco, no tempero
feito por quem sabe, com cebola, tomate e coentro. O aroma
ativo do peixe na moqueca dá-lhe água na boca, vindo lá de
dentro da cozinha e chegando até a mesa onde todos esperam
em silêncio que a iguaria seja servida. Nada é melhor na refeição do almoço do que a moqueca de robalo, o pai não cansa de
elogiar, melhor só mesmo no céu.
O robalo que caiu na canoa é o melhor presente que está
levando para o pai nessa manhã de verão em que o firmamento
derrama sua luz nas águas mansas do rio. O pai acha engraçado
ao saber do filho como o robalo foi cair dentro da canoa. O peixe ainda fresco, os olhos vítreos como se estivessem com vida
por entre a liquidez das águas, as escamas cor de prata brilhando
no dorso.
Da janela do sobrado, o pai costuma acompanhar o pescador remando na canoa pelo entardecer. As mãos do homem
de rosto rosado manipulam o remo com habilidade, cortando
as águas em movimentos harmoniosos. O corpo disposto em
cada remada, acostumado com os movimentos constantes que
o homem faz para levar a canoa a uma das margens do rio. Dali,
uma das pontas do fio grosso transportado na canoa será amarrada ao mourão fincado no pé do barranco. O fio será esticado
sobre a superfície das águas, estendido até ser amarrado ao outro
mourão fincado na ilhota do meio do rio. No fio esticado são
instaladas as linhas com o anzol e a isca, que descem até o fundo
do poço. O pai tem prazer em ficar na janela do sobrado, vendo
o robalo fisgado em uma das linhas da grozeira, debatendo-se,
pulando para fora da água na tentativa de se livrar do anzol.
O pescador recolhe os peixes fisgados em cada linha, perto do
amanhecer. Depois de concluir o trabalho de recolher o peixe
308 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
fisgado, sobe o barranco carregando o cesto pesado, cheio de
robalos e piaus. O primeiro freguês a quem vai oferecer o peixe
fresco é o homem do sobrado, que sempre escolhe o robalo
mais pesado. O peixe conserva os olhos abertos como se ainda
estivesse dentro d`água, o sangue mostra-se vermelho na guelra.
O pai não havia amputado uma das pernas, nem tinha
sido atacado pela catarata, quando o filho, um adolescente com
ares de namorador, não tirava da cabeça aquela ideia de ter o
corpo de atleta. Quando perdeu uma das pernas, em razão da
diabete, teve dificuldade de se acostumar a andar com as muletas. Com esforço, resmungando, ia até a janela e dali ficava
vendo os robalos debatendo-se na grozeira, saltando para se
livrar do anzol iscado que engolira. As vistas foram anuviando,
a catarata impedindo que enxergasse com nitidez o visual que o
rio apresentava em cada estação. O filho, como o pai, aprendera
a nadar e a pescar naquele rio, que descia manso em tempo de
estio, enfurecido na cheia.
***
Sempre preferiu ler primeiro as notícias da política local
no jornal diário. Muito curioso, quer saber se o prefeito está administrando bem a cidade. Pertence ao partido da situação, fundado pelo pai, que foi seu presidente durante anos. Ao folhear o
jornal, nessa manhã de verão soprando pequenas ondas de um
vento fresco, como se fossem gotas de alivio sobre o peito velho
abafado de calor, coberto com alguns fios brancos de cabelo, a
certa altura descobre a manchete na última página do segundo
caderno. A manchete na parte de cima da folha do jornal está
sinalizando sobre um poeta da terra, que escreveu uns versos
doloridos para expressar seu inconformismo ante o estado lastimável em que se encontra o rio.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Agonia do rio
Cyro Lunardo
Eu não me canso de dizer que estou morrendo,
Gente, dê-me a mão, antes tarde do que nunca.
Tenho sede, tenho fome, tenho de tudo
Saudade, do tempo que fugiu da música
Sempre bonita, das estações temperadas
Com sol e chuva. Peixes que ofertei a tantas
Bocas, água, areia de minhas moradas,
Do sonho quando a lua derramava prata.
Na triste descida que dia e noite faço,
Em viscosas mágoas, pesadas de vômitos
Que me jogam, nesse volume de detritos
Contaminando-me a todo instante, no raso
E no fundo, lembro, sem saber pra onde vou,
Manhãs e tardes naquelas vagas do amor.
A leitura do jornal prossegue com o comentário que faz o
jornalista e poeta consagrado Florisvaldo Mattos sobre o poema
de Cyro Lunardo: “Só eu e uns poucos mais, talvez sobreviventes, estaríamos à altura de ler este seu soneto marcado de
forte ânimo sensível e fazer as devidas ilações de alma que ele
suscita, como depoimento de memória sentida, mas no fundo
revoltada, indignada, pois foi nesse venerável Rio Cachoeira que
passei saudáveis horas de minha adolescência primeira, entre os
13 e os 17 anos, nadando com irmãos e diletos amigos, seja no
Poço da Pedra do Gelo, em frente à futura Praça Camacã (não
sei que nome tem hoje), seja nos poços da antiga pinguela de
acesso ao Bairro da Conceição, defronte à balaustrada da Praça
Olinto Leone, onde ficava a sede antiga da prefeitura. Lembrando daquele rio heroico e sentindo o canto amargo e lamurioso
310 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
de seu soneto, na forma clássica, mas sem rimas, vejo que ele,
o venerável Rio Cachoeira, caminha para o mesmo destino do
Rio Mucambo, de Uruçuca, justamente antiga Água Preta do
Mucambo, onde aprendi a nadar, nos idos da longínqua infância,
hoje um triste curso de fedorento esgoto. Mas é isso, amigo, é
no mais dos casos viver para sofrer... Vai o meu abraço de sentimento solidário.”
O Rio Cachoeira nas cheias descia feito um réptil sem tamanho, espumando e invadindo as ruas ribeirinhas, até mesmo
a do comércio, que ficava distante de uma das margens. Descia
como se fosse um bicho do outro mundo, levando no lombo
toro de pau, bicho morto, porta e janela. Algumas dessas enchentes ficaram na memória do povo. Um poeta popular registrou em versos a zanga do valente rio, que cresceu de repente
com as chuvas fortes que caíram na cabeceira, durante a noite.
O poeta popular dizia:
As casas comerciais,
Assim que o dono chegava,
A que tinha ainda porta
Quando ele a destrancava,
A sua mercadoria
Coberta de lama achava.
Tinha gente que acordava
Naquele grande alvoroço,
A água levando tudo,
Fazendo o maior destroço,
O pobre salvava a vida
Com água pelo pescoço.
E saber hoje que o rio está morrendo de sede, completamente abandonado ao sabor de uma realidade triste impressa na
nódoa que envergonha. Nada pode fazer para pelo menos atenuar essa situação que causa ferimentos e luto no que antigamente
►► 311
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
tinha as cores que impressionavam sob o sol brilhante e, à noite,
quando a lua clareava as águas. O rio virou um grande esgoto a
céu aberto. Não existe mais peixe. Borboletas nos barrancos. Os
sons das manhãs e tardes na linguagem formada pelos pássaros.
O grande espelho deslizando no dorso, o murmúrio entre as
pedras polidas em carícia de água. A areia, a pedra preta, cantigas de lavadeira, casos de pescador. Ninguém se atreve a tomar
banho no rio.
De madrugada ia tomar banho com o pai nas águas frescas do rio. Quando a cheia acabava, ficava aquele grande areal
em uma das margens, nas proximidades da Ilha do Jegue. Lá,
jogava futebol com os queridos amigos. Parecia que as partidas
disputadas no campo de areia eram mais acirradas do que as que
costumava jogar no campinho da beira do rio.
Mostra-se indignado com o que lê na malha fina do jornal,
chamando a atenção para a falta de compromisso de vereadores
na votação das contas do prefeito, em seu último ano de gestão.
Elas foram aprovadas sem a menor preocupação com o dinheiro
público, o cidadão, a cidade. Uma situação vexatória para um
partido cujo lema era trabalho e honestidade, o que sempre foi
seguido à risca pelos que ocupavam cargos importantes na administração municipal. Não é à toa que esses vereadores depois
foram derrotados na eleição. As contas do prefeito foram aprovadas por eles nos últimos dias antes que eles deixassem o cargo, embora condenadas pelo Tribunal de Contas do Estado por
desvio (roubo), falta de licitação e compras criminosas.
Entre os motivos que pesaram para a aprovação das contas do prefeito, estavam os empregos de mulher e filhos, arranjados na prefeitura, além de dinheiro gordo que correu para o
bolso de cada vereador. O ex-opositor do prefeito, vereador que
é também radialista com um programa de grande audiência, disse que votou a favor porque sua análise é simplesmente política.
Não importa se houve roubo e má gestão. Política para ele é não
ligar para a falta de competência e responsabilidade do prefeito.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Muito menos se importar com a situação de um pobre rio, que
se mostra com o corpo moribundo na água viscosa, soltando
miasmas das veias gangrenadas, clamando na putrefação constante: “SOS, cidade, antes tarde do que nunca.”
Sem medir esforço, entrara de corpo e alma na campanha
para eleger aquele prefeito como candidato do partido da situação. Como um dos membros da diretoria, seguindo os passos
do pai, que pautava pelos princípios éticos na arte de governar
o município, até colocara dinheiro grande na campanha para seu
partido eleger um prefeito corrupto. Que decepção!
***
Certamente o rio era uma canção de noite e dia. De uns
tempos para cá foi forçado a esconder a face clara de antigamente nas camadas obscuras de hoje. Essa face oculta do rio vai se
aclarando mentalmente nessa tarde em que novamente um sol
não logra extrair com seus raios fortes algum brilho das águas.
A face obscura amplifica-se aos poucos com as cores e barulhos
chegados de longe, do tempo que se foi na paisagem cheia de
ondas alegres. Espumas levadas pelas correntezas contornam
as pedras cobertas de roupas coloridas. O céu transluz aquele
azul forte por onde trafegam nuvens como grandes almofadas.
Então, no areal deixado pela cheia, avista aquele menino gaiato
saltando e dando cambalhotas. Menino que um dia engoliu uma
piaba para aprender a nadar depressa e ter o fôlego forte. Aquele
menino que sente na flor das baronesas a proposta livre da vida.
Magro, esperto, traquino, dava saltos perfeitos sobre as águas
para receber em troca nada mais do que o amor do velho rio,
entremeado de sensações surpreendentes, sustos esplêndidos. E
isso era exatamente o que lhe bastava, durante as estações temperadas com sol e chuva, ofertando todas as manhãs do mundo.
►► 313
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Nas relações naturais desse menino e o rio, nada era melhor: os dias nunca passam lá fora porque perduram intrépidos
com os amantes, a cada dia que passa com mais uma aventura
prazerosa da vida pelas águas. Não há lugar para as dúvidas, nem
certezas, que serão trazidas anos depois pelo mundo dos adultos.
Infelizmente, a paisagem luminosa, esbatendo-se nas coisas que
são postas no mundo para que sejam alcançadas, um dia sai de
cena. O menino sob a roupagem do sonho, tecido de amor pelas
horas deliciosas da vida, saberá depois como todos aqueles dias
soltos no voo, delineando com sobras momentos alegres do viver, terão o sabor de fruta que acaba. Será muito triste ver os dias
cheios de brilho substituídos por ares sombrios e pegajosos, que
irão cobrir sem remorso aquela ilha em definitivo, tão dele, lá no
meio do rio, com o seu tesouro guardado por almas de pirata.
Tesouro com bastante ouro e prata, que jamais seria descoberto,
por mais que ele e os amigos vasculhem todos os cantos da ilha.
Nessa manhã de banho ausente, não há sustos nos poços, correntezas e remansos. O sol não se admira nos espelhos
que costuma espalhar pelas águas. Somente a amargura, nada
mais, acompanhando seus passos como uma coisa oleosa, sem
desgrudar da alma, permanecendo nessa atitude invariável onde
justamente o silêncio faz sua morada. A tristeza consiste no seu
testemunho adquirido sob o transtorno da sujeira, que lhe corta
o coração em suas pulsações agudas, bate nos olhos com suas
visões opacas. Vê o espetáculo nada agradável nesse volumoso
entulho de baronesas, que a princípio se movem devagar quando as chuvas grossas caírem nas cabeceiras, inchando assim o
curso de rios e afluentes. Quando seu curso ficar cheio, revolto,
o velho rio vem empurrando as águas para que levem tudo que
encontrem pela frente. Sem as cheias normais de outrora, o rio
permanece encalhado no tempo cor de sombras. Dorme o sono
pesado de avantajado paquiderme. Transpira e geme porque não
consegue se libertar do impiedoso fardo que os humanos diariamente vêm despejando em suas águas.
314 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Esse é o preço que o velho rio paga por ter a cidade crescido sem controle, chegando hoje a mais de 250 mil habitantes,
comentam os moradores. Afoga-se na agonia pelo descaso dos
que se submetem à paisagem invariável, formada por bocas que
despejam o que não presta. Cachoeira é o nome de um rio que
chora água: anoitece e amanhece sem que nada seja feito para
liberar seu pesadelo ou pelo menos amenizar essa agonia.
Na bruma que atrás se esfuma, encontra um menino que
esvoaça de dentro da neblina sobre as águas. Quando o brilho
do verão afasta as névoas do amanhecer, tomando forma de toalhas e lençóis, o firmamento banhado de luz envolve esse menino, que, decidido, vence os desafios sérios e inúteis. Acumula
incríveis conquistas na capanga entupida de indescritíveis horas.
Numa coroa sem crivo de infante rei, há raios de sol que resvalam, penetram e vasculham certas águas doces. Nos remansos,
ecos do céu ressurgem das vagas tão dele conhecidas, durante
o verão, ora como espelho do sol, ora como uma lente enorme
que tira fotos da lua.
Com sua prata que derrama na rua, uma lua íntima do
menino participa de brincadeiras e folguedos com a turma. Brilha no muro e na frente das casas. Desliza sobre a superfície das
águas como ave branca sem ser fria. Ouvidos atentos aos ruídos
das correntezas escutam risos, entre balões e cantos, soltos na
crônica que os dias sem fadiga escrevem intensos de curtição
pura. Sempre o rosto respingado de suor no entardecer quando retorna para casa. O coração sente nesse ponto do retorno
acordes daquela música que pulsa suas notas ardentes por todas
as partes do corpo. Convencido e contente, ele sabe que a mentira alimenta o pequeno coração como verdade honesta, quando
os gestos inauguram a vida feita de impulsos e asneiras. Cada
amanhecer acena ao menino com tudo que é posto no rio para
que seja conquistado e alimente líquidos segredos da natureza
em transformação, enquanto dure a aventura das estações que
brotam dos verdes e sabem da queda dos maduros.
►► 315
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
A cidade pequena vive sua infância tropeçando nas ruas
enlameadas quando é chegado o tempo de chuva pesada. Lateja
nas veias a vontade visível de quem quer crescer através do trabalho de seu povo. Move-se com a riqueza de poucos abastados
e o esforço da maioria pobre, mas sem miséria. É visível que
se trata de uma cidade ainda acanhada nos gestos e nas coisas,
há pouco movimento de carro na rua, os primeiros sobrados
começam a ser erguidos no local onde moram as famílias ricas.
Caminha sem hesitar nos passos que não cansam, tornozelos e
pulsos no esforço dos que levantam coisas pesadas. Mãos rústicas arrumam maxixes, quiabos e pimentões sobre a tábua rústica
da mesa armada na feira, atrás da desativada estação ferroviária.
O verdureiro carrega o tabuleiro na cabeça mercando pelas ruas
couve, alface e coentro, alardeando o verde na semana, feito de
verduras e legumes, batido pelos raios de sol, quando o verão
aquece todas as coisas através do seu brilho trazido do infinito
e que se reflete pelas pedras irregulares das ruas estreitas. A pequena cidade esbanja ardor por entre os azuis do céu e os verdes
que vicejam nos barrancos do rio.
Podia haver dia melhor para tomar banho com os amigos
nas águas do Poço da Pedra do Gelo? O rosto agitado, os gritos
rasgando fendas no silêncio da natureza. Era quando mais sorria.
No tempo em que o rio tinha peixe em abundância.*
Cyro de Mattos é contista, novelista, ensaísta, poeta, cronista e
autor de livros infanto-juvenis. Possui mais de 40 prêmios, como o
Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras, o Prêmio
da Associação Paulista dos Críticos de Arte e o Prêmio Internacional
de Poesia Maestrale Marengo d’Oro, de Gênova, na Itália. É membro
correspondente da ALB.
316 ◄◄
A CASA DOS BAÚS
Carlos Barbosa
D
o corpo não afirmo com certeza nada. Se estava de bunda pra cima, em posição fetal, com alguma picada ou
orifício estranho ao natural, não sei. Só posso dizer o que a
respeito ouvi. Aqui me contaram que o velho foi encontrado
deitado em um colchão de espuma. O colchão, curioso, estava
colocado sobre uma armação composta de duas portas, dessas de compensado, empilhadas uma sobre a outra, a porta do
banheiro e a da cozinha, constatou-se depois. Uma estranha
cama, qualquer um acharia. Ainda mais para uma cama de doutor. Pois o velho era advogado, Dr. Mário Afonso de Oliveira
Fragoso. Dotô Fonsin, como era chamado o causídico aposentado, como bem já sabia a senhora.
Cheirava mal, exalando secreções de morto passado da vez
de enterrar. Exsudações amareladas escorrendo da carne roxa,
o que me foi dito. Também, custaram a invadir a casa... O velho
não era chegado a amizades conviventes. Mais de cinquenta anos
no lugar e não se contavam amigos próximos nem distantes. Só
uns contraparentes, esses que acabaram por arrebentar fechaduras e entrar na casa. Isso, cinco dias passados sem que o velho
fosse almoçar na pensão de Anita, a mesma em que repouso
por esses dias. Comida de lá tem pouco gosto, atesto, mas de
aparência boa, sem nódoas ou ranços. Voltando... Cinco dias,
tempo em que se achou justo bater em portas e janelas, gritar
muitas vezes “Dotô Fonsin!”, “ô de casa!”, e só depois arrombar a porta da frente. No fundo, no fundo, percebo que tinham
mais medo de encontrar o velho vivo do que morto. Então, lá
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
estava o corpo largado sobre o tal colchão, naquela trempe, em
abandono de tempos, teias e fluidos fedorentos.
Morte natural, concluíram. E mais não se perguntou à
época, nem perguntei por agora. Na verdade, o velho era muito velho mesmo, e o que chamou a atenção de todos não foi
bem a morte dele, foram os baús e as caixas. O corpo, bem,
enrolaram no lençol e num piscar de olhos já estava de óbito
passado, devidamente encomendado e enterrado. As atenções
se voltaram então para a casa do Dotô Fonsin e o que nela se
encontrava. Até a sua, nessas lonjuras paulistas, não é mesmo,
minha dona?
Aí é que é preciso reparar bem. Não minto nem gosto
de desperdiçar meu tempo, a senhora sabe. Pois, continuando,
todos se voltaram para o que se encontrou e para o que não
se encontrou na casa. Digo que o espanto foi muito e demorado. Nada de nenhum móvel! Geladeira, fogão, armários, penteadeira, cama, mesa, cadeiras, guarda-roupa, rádio, televisão,
quadros na parede, chapeleira, espelhos..., pergunte outro...,
qualquer mobília a casa não tinha! Tinha, sim, como já disse
antes, baús e caixas de madeira e de papelão. Muitos e muitas,
dezenas, ocupando os cômodos da casa. Tinha, também, um
cheiro ativo de DDT, BHC, sei lá o quê, que ninguém sabia o
porquê, até que pacotes foram abertos e os livros, manuseados.
Era um pó químico, desses para impedimentos de cupins, conservação de papel.
Morava sozinho com as caixas e os baús, não precisava
dizer, mas digo para ajudar no entendimento do caso. A mulher do Dotô Fonsin é falecida de muitos anos. E, anos antes
de seu passamento, já havia deixado o casamento para trás.
Teria dito que não dava mais para suportar a convivência com
o marido, recolhido que vivia em esquisitices. Esquisitices que
ela dizia existir, mas desconhecidas do povo do lugar. O fato
é que dona Lenora fez a trouxa, deu “até logo!” para a vizinha
e se mudou para casa de parentes no Goiás. Mesmo lugar em
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
que veio a falecer, se soube depois, pois nada neste mundo se
esconde por muito tempo.
O homem vivia trancado na casa que construiu em redor dele. Soube que se apostava por aqui onde ele guardava o
ouro — os que acreditavam que tinha ele ainda ouros; onde
havia gastado todo o ouro — os que acreditavam que o doutor era somente aquilo que aparentava: um velho abandonado
na miséria, depois de viver uma vida inteira e muito longa na
abastança e na gastança. Não sei como é que a senhora foi dar
importância pra isso. Nem os parentes davam...
Minha dona, estou aqui ainda. Escutar, escutei; ver, vi.
Parece que nada lhe interessou dessas coisas que escutei, vi
e lhe contei. Não é meu papel indagar do seu interesse pelo
velho advogado, nada vou perguntar. Então, dou os esclarecimentos que parecem importantes à senhora. Os livros eram
muitos, de línguas estrangeiras quase todos. Coleções completas, capas duras, letras douradas. Livros da profissão jurídica
dele em variadas línguas: espanhola, inglesa, italiana, alemã e
latina. O povo daqui diz que o finado lia e falava essas línguas
todas, embora falar, falar mesmo, ninguém nunca ouviu. Livros
da arte de cinema e também de aventuras, de capa e espada,
biografias de grandes vultos da história. E caixas e mais caixas
de uma besteirada de revistas, almanaques e folhetins daqui e
do estrangeiro. Os nomes todos desses livros, almanaques e
revistas é trabalho para outro tipo de encarregado que não eu,
pouco letrado que sou. Ademais, minha dona, desculpe lembrar, nem mesmo sei por que a senhora insiste que eu lhe conte, que eu conto tudo e nada serve.
O que não contei ainda, por achar coisa feia, demencial,
sem serventia, maléfica a Deus, apenas por sua insistência narro agora: a maioria das caixas tinha guardados pacotes e mais
pacotes de diversos tamanhos. “O ouro! As joias! As moedas,
os patacões! Os diamantes! Os dólares!”, foi o que se pensou.
Os aparentados expulsaram o povo espião e interesseiro da
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
casa, taparam os narizes e se trancaram lá dentro por muitos
dias, abrindo pacotes. Se for por isso que minha dona esperava,
fique triste. Fique triste, pois quando se abriram os pacotes,
nada de pepitas, diamantes, joias, dinheiro, nada absolutamente
de valor no mundo capital. Os pacotes todos muito bem feitos,
bem dobrados e amarrados com cordões resistentes, às vezes
um dentro do outro, continham — segundo o que se conta e
que eu anotei aqui — restos de sabonete, palitos de fósforo
queimados, botões, pregos tortos e sem cabeça e enferrujados,
lenços puídos, gravatas cortadas, chaves imensas, cadeados inúteis, penas quebradas, espinhos de laranjeira ressequidos, cinco
dentes (um canino, dois incisivos e dois molares deformados,
esclareço), tufos de cabelos lisos, tufos de cabelos encaracolados, lascas de pratos, asas de xícaras, palmos de rendas, um bilro, cinco bolas de gude, três armações de óculos, dezesseis lentes de óculos quebradas, um minibinóculo, caixas de fósforo
vazias, tocos de velas, dúzias de calendários de bolso, folhetos
da campanha de Jânio para presidente, agulhas de gramofone,
tampas de garrafa, pacotes de selos, pó de café usado, cápsulas
de remédio vazias, conta-gotas de pontas curvas e de pontas
retas, seringas de injeção, termômetros, pedras de açúcar mascavo, pedras diversas (de rolamento, cascalho duro, rugosas,
lisas, coloridas), palitos de dentes novos e usados, folhas secas,
punhados de areia, pedaços de gengibre, porções de sal grosso,
cascas de arroz, sementes de melancia, espinhas de peixe, seis
rabinhos de coelho, um tijolo, uma caixa de sapato vazia, um
salto alto branco, um bilhete de loteria federal extração de São
João, pentes de diversos tamanhos e formatos, um vidro com
formol contendo tecido tumoral, um jogo pega-varetas, doze
peças de dominó, camisas de vênus usadas, mais ou menos
limpas, meias furadas, meias cerzidas, sapatinhos infantis (uns
seis pés diferentes entre eles), bilhetes de passagens da Panair
e de outras companhias aéreas nacionais e internacionais, certificado de vacinação contra febre amarela, carteira de sócio
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
do Clube Internacional de Cinema em Super 8, folhas de papel
em branco dobradas três vezes, calcinhas, alfinetes, esponjas de
banho esgarçadas, bolinhos de cera, bolos de lã natural, anzóis,
ganchos de rede, mata-borrões, cadernetas de anotações financeiras ininteligíveis, caroços de jaca, dois estilingues, dois pares
de sandálias de couro com as tiras rompidas, percevejos enferrujados, uma lupa pequena, duas lupas maiores, cinco gorros,
cento e vinte e cinco chaveiros.
Minha dona, eu me canso e a senhora se irrita comigo.
Teria muito mais para enumerar dos bagulhos, restos, trastes e
toda sorte de imprestabilidade encontrada nos pacotes. Nada
que possa interessar a nenhum vivente, muito menos à senhora, imagino eu. Essas coisas ficaram expostas uns dias lá, pelo
chão da casa e quintal. Os herdeiros tocaram fogo em tudo, envergonhados. Envergonhados, todos aqui acham isso, e não foi
para menos uma herança de tal quilate. Os trastes e a loucura
denunciada do Dotô Fonsin, nunca suspeitada a esse ponto. O
fogo tudo queima e a tudo deve ter queimado. Os livros foram
vendidos a livreiros de fora. Não, nenhum álbum de fotografias. E aqui estou, minha dona, pronto para partir sem nenhum
móvel ou quadro, as antiguidades pretendidas, e a senhora querendo mais detalhes das coisas do velho. Não que eu me interesse em saber, nem vou perguntar, já disse. No entanto, seria
mais fácil saber, para guiar meu caminho na conversação.
A como? Não, minha dona, não vou insistir mais, conto o
que falta ainda, mesmo sendo assunto indevido para uma dama.
Pois bem, estive na casa de um sobrinho do Dotô Fonsin. Esse rapaz retirou umas coisas para ele, rejeitadas com
veemência pelos outros, principalmente pelas mulheres, ao saberem do conteúdo. Esse material ele guarda com muito gosto
e mostra aos amigos às gargalhadas.
Minha dona, não vejo por que explicar melhor... O dinheiro que eu trouxe para adquirir antiguidades que porventura o velho possuísse de nada serviu, tudo foi queimado por
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
imprestável e nojento. O que restou, minha dona, é uma safadeza só, e à senhora nada deve interessar, não é verdade?
Então... Pois bem... Que Deus me perdoe... Acontece que
o Dotô Fonsin, não se sabia, agora se comenta por todo canto,
era sujeito dado a conchamblanças com mulheres mais jovens,
bem mais jovens. Possuía uma maquininha de filmagem que usava, e muito, quando usufruía posses e grandezas de nome e linhagem. Viajava bastante, dizem. Esteve no exterior, até. Aí pra
São Paulo, para o Rio de Janeiro, viajou e passou muitas temporadas, sempre sozinho — foi o que me contou aquele sobrinho
— onde deve ter rodado esses filmes, bem longe da terrinha sertaneja dele. A maquininha de filmar não existe mais. Sobraram
os filmes, alguns inteiros, outros aos pedaços, filmes curtos e
meio embaçados, riscados — minha dona me obriga a confessar
tal coisa, que não faria não fosse por sua insistência. Vi, sim, os
filmes. É muita sujeira entre homens e mulheres, coisa que o
sobrinho dele, se rindo, me explicou se tratar de sexo explícito,
sexo grupal, e que para a época o velho era muito do adiantado.
Eu acho que ele era muito do sem-vergonha, mas pouco importa a minha opinião. Ficar se amostrando assim, se filmar assim,
nu, mais uma, duas mulheres, às vezes com outros homens junto, fazendo coisas que Deus reservou para os altos desígnios da
povoação do mundo, de um jeito espantoso, com umas moças
bonitas, muito novas, que poderiam ser até filhas dele...
Ah, as moças... É de dar pena, minha dona, tão bonitas,
de aparência tão decente, que uma delas, reparando bem, se
poderia dizer, sem pretender ofender, uma moça com qualidades para ser filha é da senhora, de tão semelhante que se
apresentava nos traços e na fidalguia. Mas essas coisas, como
já disse, não devem interessar à senhora. Por aqui correm de
mão em mão os pedaços de filme, nos bares, nas calçadas, nos
pátios das escolas, farra de rapazes. Um comércio sujo, do qual
quero distância. Negócio sem importância para uma dama feito a senhora, como se vê.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Portanto, daqui parto, ainda hoje, sem nada levar das antiguidades que a senhora tanto queria, e que me impressiona
demais da conta ter chegado ao seu conhecimento e, mais ainda, da senhora ter acreditado que o finado velho pudesse possuir, nesse fim de mundo, algo que valesse a pena esta minha
viagem. Sigo pra Brasília, minha dona, pra posse. Lá, eu lhe
presto contas mais apuradamente.*
Carlos Barbosa é jornalista graduado pela Universidade Federal da
Bahia e escritor. Publicou Água de cacimba (poesia), Matalotagem e outros
poemas da viagem e os romances A dama do Velho Chico e Beira de rio,
correnteza, além da participação em antologias. Em 2001, foi premiado
pelo Ministério da Cultura no Concurso de Desenvolvimento de
Roteiros com o roteiro de A dama do Velho Chico.
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TUPAC AMARU
Gláucia Lemos
E
stavas lá, meu soberano, rodeado pela corte. A tudo eu assisti, oculta entre a folhagem. Soubesse o estrangeiro ser eu
a tua amante, me sacrificaria sem cuidados. Mas assim pude ver,
e tudo vi.
O guarda anunciou, ele estava chegando. Um só guarda
existia observando os caminhos. Era longe o tempo em que em
cada ayllu havia uma sentinela, e um homem expectante em cada
posto, para a troca de mensagens nas lonjuras das viagens entre
as cidades do império.
Há muito o estrangeiro dominara os teus avós, poucos
fiéis restavam a teu redor. Mas o rei eras tu. E eu, a tua amante.
Menos que tua coya — a tua estrela. Menos até que as tuas concubinas. Era eu a tua amante que deslizava em silêncio entre as
pedras das paredes de pedras, a que dormia te esperando entre
os mais sombrios canyons, a que te visitava cautelosa nas tendas
das viagens, como mera índia serviçal.
Mas, retirado o lattu — meu rei, meu Inca, meu senhor —,
eras meu homem! Descansado teu cetro, ou tua clava encimada
por estrelas de ouro puro, era eu a descalçar as tuas sandálias
de branca lã, a desatar o galão que cingia o teu tornozelo. Era
eu a te retirar a uncu que te cobria até as rijas panturrilhas. A te
desamarrar do tronco a longa capa e te tocar o peito branco à
luz bruxuleante. Teu peito que a ninguém era dado contemplar.
Era eu a te beijar tua pele de leite e atender minha sede bebendo
o teu suor. Era eu a te sentir como filho, como feto, pulsando na
quentura úmida do meu ninho — o mais íntimo de mim. Era eu
tua serva, a tua secreta rainha. Mais que tua estrela, tua mulher!
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Ocultei-me entre os que iam, e te vi. Eu que, te tendo mais
que todos, ali só te retinha nos meus olhos.
Era urgente que partisse a caravana carregando a tua fé,
que aprendi e que ensinaste a meu povo na adoração ao Sol. E
nos ombros dos servos, teus tesouros e tua liteira ornamentada, onde a cabeça altiva do meu soberano, batida à ventania,
desenrolava os teus cabelos claros, os teus cabelos longos, que
faziam a minha glória só de beijá-los. O grande rei fugia. Fugia
o “grande e poderoso Sapa-Inca”, desterrado do teu reino pela
justiça feita a Titu Cusi. Contigo, à parte do teu séquito, fiel, fugia disfarçada a tua amante, tua cadela, aquela que se teria feito
pó, por escolha, sob os teus pés, mesmo se não fosses tão gentil,
se não fosses tão nobre em teu amor.
Alcançou-te, porém, o estrangeiro. Mãos opressoras te arrancaram, injustas, do trono da liteira. E eu vi, horrorizada, vi
cordas atando os pulsos que eu beijava. Teus tesouros, teu deus,
a múmia do teu irmão assassinado, arrebatados dos ombros dos
teus guardas, passados para os homens de outro rei.
Implorei a Viracocha me cegasse para não te testemunhar
na humilhação diante da tua coya, diante do olhar das tuas concubinas e dos teus filhos. Diante dos guardas que te serviam. Para
não ver pisando o chão imundo, das estradas que todos pisavam,
os teus pés de alabastro que eu perfumava com essências de ervas em vasos de prata.
Mas vi.
Fizeram-te adentrar a cidade sagrada com mãos amarradas em cordas malditas, para o teu povo te ver ofendido e infeliz.
E a cabeça, desnudada do lattu, eu vi quando forçaram sob as
águas de um estranho batismo em outra fé que nunca foi a tua.
Que tu desconhecias, e não podias ter, porque não era aquela a
da tua mãe e a da tua raça. Roubaram-te, meu rei, também o teu
próprio deus.
Em desespero, meus vestidos rasguei para com trapos
amordaçar-me a boca, pois já não suportava assistir, ferido e
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
desonrado, ao meu soberano, meu homem, meu motivo. Jogueime até o chão a me arrastar pedinte, ao pé do estrangeiro, para
implorar em dor e aflição pela vida do imperador, que era a minha causa, mais que todas. Mas só tive, sob o couro pesado que
guardava o pé do teu adversário, a ponta do meu manto, o cuspo
que atirou, humilhante e cruel.
Então te conduziram ao cepo do sacrifício.
Eu vi.
Teus cabelos de seda espalharam-se pelas espáduas nuas,
nas quais, ainda ontem, as mãos e os lábios quentes do meu carinho chamavam impacientes os teus desejos. E ante o clamor
surpreso e agoniado, e aflito, do teu povo, a lâmina perversa do
ódio opressor, de um só golpe, alcançou tua nuca.
O povo estendeu, sofrido, o choro clamoroso, que ecoou
longamente, até muito além do Titicaca.
E eu vi o teu rosto cor da lua caindo na poeira. Tombando
com olhos semicerrados. O teu tronco — invencível rocha do
Atacama — abatido, imóvel. Outra vez contemplei o encanto
viril que te fazia o mais belo dos homens de tua raça. Os cabelos
revoltos espalhados eram como o ouro da terra na sujeira do
chão. Até que a mão do estrangeiro, desgraçadamente vitoriosa,
te agarrou os cabelos para te expor, erguendo diante da turba em
desespero o teu rosto vencido, a tua face morta.
E então morri.
Mas a dor que se avolumou dentro do meu corpo, em
partículas de mim, explodiu sangrenta por todo o mundo, e permanece para sempre ecoando pelos picos dos Andes e pelas paredes de todos os canyons.
Ainda hoje a minha essência vaga, viajando pelas infinitas
longitudes do Universo, na tentativa de reconhecer em cada face,
em cada arrogante coragem de varão com a qual se defronta, a
nova imagem em que foste plasmado. Para a nossa reunião definitiva, Tupac Amaru.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
GLOSSÁRIO QUITCHOA
Ayllu: Comunidades que existiam dentro do mesmo império. Em
cada ayllu havia uma estação de nome chucla, na qual um mensageiro
(chasqui) fazia as vezes de correio postal. A cada mensagem a ser transmitida ao rei, o chasqui saía a correr por quilômetros, até o próximo
ayllu, onde transmitia a mensagem ao chasqui daquela estação, que, por
sua vez, saía também a correr até o ayllu seguinte, assim por diante, até
a mensagem chegar ao Sapa-Inca. Os autores variam quanto ao tempo que esse correio boca a boca levava até chegar ao destino. E eram
muitos e muitos quilômetros.
Coya: Estrela. Era como se intitulava a esposa do Sapa-Inca, escolhida por ele entre as próprias irmãs, para não abastardar o sangue da
linhagem real, que se acreditava descender em linha direta do Sol.
Lattu: Franja vermelha que pendia da mascapaicha.
Mascapaicha: Trança colorida que cingia a cabeça do imperador,
símbolo do poder que só o Sapa-Inca podia usar.
Sapa-Inca: O imperador. O termo significa “chefe único”, “muito
grande e poderoso senhor”.
Uncu: Túnica usada pelo Sapa-Inca.*
Gláucia Lemos é bacharel em direito, crítica de arte, poeta, contista
e romancista. É autora de mais de trinta livros de literatura adulta e
infanto-juvenil, com destaque para o livro As aventuras do marujo verde.
Recebeu diversos prêmios nacionais, como o II Prêmio de Literatura
UBE/Scortecci 2007 pelo romance Bichos de conchas. Desde 2010 ocupa
a Cadeira nº 14 da ALB.
328 ◄◄
DISCURSOS
DISCURSO DE POSSE NA CADEIRA 33
Mãe Stella de Oxóssi
G
ostaria muito de iniciar meu discurso de posse nesta venerável Academia de Letras dirigindo-me a todos, indistintamente, chamando-os de amigos. Entretanto, fui educada
por uma religião que tem na hierarquia a sua base de resistência, o que coincide com a tradicionalidade desta Academia.
Sendo assim, inicio este discurso saudando as autoridades presentes ou representadas, sentindo que estou saudando a todos
que aqui vieram para engrandecer esta cerimônia.
Em 1910, Mãe Aninha fundou, em Salvador, na Bahia, o
terreiro de candomblé Ilé Àÿç Opo Afonjá, hoje mundialmente
conhecido e respeitado. Mulher com a cabeça muito além de
seu tempo, ela costumava dizer que queria ver seus filhos com
anel no dedo servindo a ßàngó, oríÿa para quem consagrou sua
cabeça e patrono da casa de culto aos oríÿa que criou, mas que
deixou de herança para todos nós, seus descendentes espirituais. Se a cabeça de Mãe Aninha foi consagrada, sua língua
ganhou axé, ganhou força. Sua fala é uma sentença que seus
filhos espirituais procuram obedecer e cumprir, como manda
a sabedoria ancestral. Foi isso que também eu fiz, tanto que
hoje me encontro aqui, na ilustre Academia de Letras da Bahia,
para ser empossada na Cadeira 33. A sentença de Mãe Aninha
é mais profunda do que normalmente se costuma interpretar:
receber um anel é símbolo de aceitação de um compromisso. A
vanguardista senhora desejava que seus descendentes se comprometessem com as causas sociais e espirituais, desejo de Mãe
Aninha que se tornou de todas as iyáloríÿa que a sucederam.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Esse também é meu desejo: comprometer-me com tudo que
assumo, seja no âmbito social, seja no âmbito espiritual.
Quando fui iniciada para o oríÿa Õÿösi pelas mãos de
Mãe Senhora, uma das filhas diletas de Mãe Aninha, eu tinha
apenas catorze anos de idade. Em 1939, uma pessoa com essa
idade era uma criança, que apenas obedecia a ordens, sem
questionar o que lhe mandavam fazer. Se minha cabeça física
sentia tudo aquilo como uma grande brincadeira, minha cabeça
espiritual entendia que eu estava me comprometendo com algo
muito sério. Ao ser iniciada, consagrei-me a Õÿösi. Tinha, então, compromisso com essa divindade, com minha mãe de santo, de saudosa memória, e com toda a família Opo Afonjá.
Meu compromisso não foi selado com um anel. Ele foi selado
com correntes fininhas, que simbolizam elos de uma grande
corrente que une o Àiyé e o Õrun, os homens e os deuses, o
profano e o sagrado. Eu carregava elos de todas as cores: um
arco-íris, uma ponte que me fazia transitar, ir e vir, da Terra ao
Céu e do Céu à Terra. Em minha inocência, eu não entendia
que aquelas correntes fininhas comunicavam aos deuses que eu
era ainda um elo frágil, que precisava de energia, de àÿç, para
me tornar um elo forte, capaz de segurar muitos outros elos.
Foi assim que, aos 51 anos de idade, fui escolhida pelos
búzios, consequentemente pelos deuses, para ser iyáloríÿa —
mãe de oríÿa, aquela que dá nascimento à essência sagrada de
algumas pessoas. Minhas guias fininhas foram substituídas por
grossas, grossíssimas guias. Eu já não tinha a inocência dos catorze anos e pude compreender que eu passava a ser um forte
elo, do qual se esperava que fosse capaz de segurar e apoiar
todos aqueles que buscassem força para atingir degraus mais
elevados na existência humana. Uma mãe, no colo de quem
muitos buscam conforto, consolo e encantamentos, porque
não dizer feitiços, para facilitar a caminhada por este planeta. Ninguém é empossada iyáloríÿa antes de sentar na cadeira
especialmente preparada para esse mister. Corrente e cadeira,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
objetos de grande valor simbólico, tanto para a religião que
pratico, o candomblé, quanto para a Academia de Letras, na
qual agora sou empossada.
Hoje, aos oitenta e oito anos de idade, estou eu recebendo, outra vez, uma corrente, que segura uma linda medalha, e
também mais uma cadeira. A medalha me faz lembrar quão
honrosa devo procurar fazer minha caminhada; a corrente, o
sustentáculo dessa medalha, demonstra o pacto agora firmado
com os objetivos da Academia de Letras da Bahia; a cadeira
deixa de ser apenas um lugar de assento, para se transformar
em um trono simbólico, onde ilustres cidadãos se imortalizaram. Sou agora mais um elo dessa corrente, que me liga aos outros elos, meus confrades e confreiras, estejam eles presentes
em vida ou em obra. Analisando a palavra cadeira, descubro
que esta vem do latim cathedra, significando cadeira de braços,
que confere uma imponência a quem nela se senta. Dessa palavra também deriva o termo catedral, local onde se encontra
instalada uma autoridade religiosa. Quando se diz que alguém
conhece um assunto “de cathedra”, sobre este se deseja afirmar
que ele tem um domínio sobre o tema em voga.
Não sou uma literata de cathedra, não conheço com profundidade as nuanças da língua portuguesa. O que conheço da
nobre língua vem dos estudos escolares e do hábito prazeroso
de ler. Sou uma literata por necessidade. Tenho uma mente
formada pela língua portuguesa e pela língua yorùbá. Sou bisneta do povo lusitano e do povo africano. Não sou branca,
não sou negra. Sou marrom. Carrego em mim todas as cores. Sou brasileira. Sou baiana. A sabedoria ancestral do povo
africano, que a mim foi transmitida pelos “meus mais velhos”
de maneira oral, não pode ser perdida, precisa ser registrada.
Não me canso de repetir: o que não se registra o tempo leva.
É por isso e para isso que escrevo. “Compromisso” continua
sendo a palavra de ordem. Ela foi sentenciada por Mãe Aninha
e eu a acato com devoção. Em um dos artigos que escrevi, eu
►► 333
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
digo: comprometer-se é obrigar-se a cumprir um pacto feito,
tenha sido ele escrito ou não. O verbo obrigar, que tem origem
no latim obligare, significa unir. Portanto, quando dizemos um
“muito obrigado”, estamos sugerindo a alguém que nos fez um
favor que a ele estaremos ligados, em virtude do favor que nos
foi prestado. Obrigação é uma das palavras chaves do candomblé: aquela que abre muitas portas. Fazer uma obrigação, ou a
obrigação, fica sendo, então, uma forma de estar cada vez mais
unido aos oríÿa. Se minha parte branca estuda as origens latinas
da língua portuguesa, minha parte negra estuda a língua africana de que fazemos uso no candomblé: o yorùbá arcaico. Nessa
língua, comprometer-se é wulewu, palavra que tem a seguinte
análise: a raiz wù (agradar), a mesma que forma a palavra wúlò,
que significa útil; e lé, que é traduzida como seguir em frente,
procurando não ser mais um na multidão. Para o povo yorùbá e,
consequentemente, para os brasileiros que se guiam pela religião nagô, uma pessoa comprometida é aquela que é útil, pois
cumpre a função que lhe foi destinada e, por isso, pode seguir
em frente, distinguindo-se da massa uniforme; uma pessoa
comprometida é especial, pois já encontrou sua especificidade,
tornando-se, assim, imortal.
É considerado imortal todo aquele que fez ou faz de sua
vida uma obra a ser lida, a ser internalizada. É objetivo da Academia de Letras da Bahia manter viva, na memória de todos, a
contribuição que ilustres homens e mulheres deram, no sentido de colaborar para o aperfeiçoamento da sociedade e da humanidade. Se um dia, no Ilé Àÿç Opo Afonjá, eu recebi grossas correntes que simbolizam elos de união com os oríÿa, com
meus ancestrais e meus descendentes espirituais, hoje recebo
uma corrente que me une a todos que um dia pertenceram e
os que ainda pertencem a esta nobre instituição. Honrada estou por ter sido escolhida para sentar na Cadeira 33, que tem
como patrono um ser tão especial quanto Castro Alves e que
foi ocupada pelos imortais Francisco Xavier Ferreira Marques,
334 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Heitor Praguer Fróes, Waldemar Magalhães Mattos e Ubiratan
Castro de Araújo.
Se meu discurso tem como base o comprometimento,
sigo rememorando os primeiros acadêmicos que ocuparam a
Cadeira 33.
Francisco Xavier Ferreira Marques foi a pedra fundamental da Cadeira 33. Imortal também pela Academia Brasileira de Letras, onde foi o segundo ocupante da Cadeira 21. No
prefácio de sua obra O feiticeiro, é citada uma fala do advogado
sergipano Jackson Figueredo, através da qual se pode sentir a
imortalidade desse homem da política, que era autodidata em
literatura: “Xavier Marques merecerá o amor de todo o povo
brasileiro, na proporção em que for crescendo a nossa consciência nacional. Tê-lo-á todo, quando levarmos não só à pompa dos programas, mas às escolas, o culto do nosso passado.
Quando os nossos homens públicos se derem a esta obra, com
menos frases e mais seriedade, os livros de Xavier Marques
irão parar às mãos da infância e educá-la para a formação da
alma brasileira.” Xavier Marques foi um jornalista e político
que nasceu em três de dezembro de 1861, na prazerosa Ilha de
Itaparica, o que contribuiu para que sua literatura encontrasse
nos temas praieiros uma fonte de inspiração. Escrever era sua
grande paixão. Poeta, romancista e ensaísta, foi com a novela
Jana e Joel que a crítica o consagrou.
A imortalidade de uma pessoa pode estar em sua vida,
em sua obra, em sua descendência. Xavier Marques partiu do
planeta em que vivemos em 30 de outubro de 1942, mas aqui
deixou seu neto, o músico Celso Xavier Marques, hoje com 71
anos, o qual vem dedicando grande parte de sua vida e de sua
obra musical à memória do avô, a quem chama carinhosamente
de “meu velho escritor itaparicano”. O neto não teve o prazer
e a alegria de conhecer o avô na vida física, o que não impediu que entre eles fosse firmada uma bonita ligação espiritual.
Foi, provavelmente, essa ligação que inspirou o neto de Xavier
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Marques a escrever um hino em tributo a seu avô, o qual se
constitui uma verdadeira biografia sobre o mesmo. A arte musical de Celso Xavier Marques contribui, assim, para tornar a
obra de Francisco Xavier Ferreira Marques ainda mais imortal.
Celso Xavier Marques traz na letra um elenco dos títulos dos
livros publicados por Francisco Xavier Ferreira Marques, os
quais são seus trabalhos mais conhecidos, lidos e apreciados: A
cidade encantada, A arte de escrever, As voltas da estrada, Jana e Joel, O
feiticeiro, Holocausto, Os praieiros, Mar azul, A boa madrasta, Maria
Rosa, O arpoador, Sargento Pedro, Insulares, Terras mortas, Pindorama, Terra das palmeiras. Onde estiver, o grande político e escritor
baiano há de escutar seu neto cantar: “Deus criou, tão sublime,
a sua pena magistral. Fez Xavier Marques, imortal.”
O imortal Xavier Marques deixou sua Cadeira para ser
ocupada por Heitor Praguer Fróes. Filho da histórica e cultural cidade de Cachoeira, nascido no dia 25 de setembro de
1900, Praguer Fróes foi poeta, tradutor, médico e professor.
Foi membro não apenas da Academia de Letras da Bahia, mas
também de inúmeras outras instituições científicas e culturais,
como a Academia de Medicina da Bahia.
Praguer Fróes escrevia com sacrifício. Eu faço uso dessa
palavra não no sentido comum que ela possui, como sinônimo de dificuldade, mas em seu sentido original. Escrever para
Praguer Fróes era um ofício sagrado, sobre o qual ele dizia:
“Quem escreve um livro e o revê e publica passa pelo paraíso
e pelo inferno: pelo paraíso, quando compõe; pelo purgatório,
quando retoca; pelo inferno, quando imprime. Pelo paraíso,
quando compõe, porque nada é mais agradável do que criar;
pelo purgatório, quando retoca, porque nada é tão fastidioso
quanto modificar; pelo inferno, quando imprime, porque nada
é mais enervante que estar interminavelmente a corrigir.” E foi
pensando e sentindo assim que Praguer Fróes somou em sua biografia livros de poemas, contos, contrafábulas e inúmeras obras
científicas. Sacralizar um ofício é um comportamento típico de
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
quem se preocupa e se ocupa com a humanidade. Tanto que
Praguer Fróes chegou a abdicar dos direitos autorais de seu livro
Lições de medicina tropical em benefício do então futuro Hospital
das Clínicas. Praguer Fróes era um humanista nato, pois herdou
de seus pais a consciência cidadã.
Não se pode nem se deve falar de Heitor Praguer Fróes sem
falar de sua família. Pai, mãe e filho, todos eles médicos que dedicaram a vida a salvar vidas. Sua mãe, Francisca Praguer Fróes, foi
uma das primeiras mulheres formadas em medicina, pioneira em
todas as áreas em que atuou, principalmente na defesa dos direitos
femininos. Ela dizia: “Eu sou feminista por herança e convicção.
A inferioridade da mulher não é fisiológica, nem psicológica: ela é
social. Sua escravidão sexual determina sua dependência econômica.” O pai de Heitor Praguer Fróes, João Américo Garcez Fróes,
foi tão “singular figura humana”, que, quando precisava interferir
no comportamento de um estudante de medicina, de modo a impedir que este fizesse o doente sofrer desnecessariamente, delicadamente dizia em latim: Non vi, sed arte! (não pela força, sim pela
arte!). O que nosso confrade o jornalista Jorge Calmon diz sobre
o pai de Heitor Praguer Fróes é o princípio que faz de um membro da Academia de Letras da Bahia um imortal, é o principio
que faz de qualquer pessoa, letrada ou não, um imortal. Ele diz:
“Efetivamente, há homens que se tornam instituições. São poucos. Constituem exceções. A regra geral é o bitolamento medíocre
dos inumeráveis componentes do rebanho humano, que a lei da
vida vai tangendo, em marcha, entre o nascimento e a morte. Nessa indistinta mediania, as inteligências não brilham, o esforço não
avulta, o caráter não logra atingir forma, consistência. É a grande
planície dos homens comuns. Vez por outra, desse solo rasteiro
sobressai uma eminência. O talento, a virtude, o mérito rompem a
vulgaridade e projetam de entre a massa os indivíduos bem dotados, ou que a si mesmos se dotam, e cuja ascensão proclama as
faculdades superiores da pessoa humana. Foi Garcez Fróes um
desses raros indivíduos.”
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Em 25 de outubro de 1987, Heitor Praguer Fróes seguiu
seu caminho rumo ao reino divinal, para encontrar essa linda
família que deixou para todos nós um exemplo de vida registrado em livros.
Seguindo a lei da vida, Heitor Praguer Fróes deixou sua
Cadeira para ser ocupada por Waldemar Magalhães Mattos, que
nasceu na cidade de Entre Rios, em 13 de setembro de 1917,
e viveu na Terra por 86 anos. Era homem de números e letras.
Bacharel em ciências contábeis, ingressou na carreira literária
em 1940 pelo caminho jornalístico. O conjunto de sua obra é
de um valor histórico imprescindível para a compreensão da
Bahia e, consequentemente, do Brasil do século XIX. Tanto
que em 2011, século XXI, portanto, dois de seus livros foram
reeditados: Panorama econômico da Bahia e O palácio da Associação
Comercial da Bahia, no qual Waldemar Mattos narra o baile que
comemorou, em 1911, o centenário da Associação Comercial
da Bahia, fundada em 15 de julho de 1811: “Suntuoso no seu
deslumbramento inexcedível, cheio de encantadora poesia
e fulgurante pompa. Sem contestação, foi uma cerimônia de
destaque excepcional, cujas impressões os anais das crônicas
baianas guardarão para sempre.”
Waldemar Mattos também escreveu o livro A Bahia de
Castro Alves, e foi na sede da Associação Comercial da Bahia
que o conclamado Poeta dos Escravos, na verdade poeta dos
fracos e oprimidos, fez sua última declamação pública. Na tarde do dia 10 de fevereiro de 1871, apenas cinco meses antes de
deixar esta vida, Castro Alves recitou o poema “No meeting du
Comité du Pain” durante uma reunião filantrópica promovida
pela colônia francesa em benefício das crianças desvalidas da
Guerra Franco-Prussiana.
Waldemar Mattos ligou-se ao patrono da Cadeira 33 ao
escrever o livro A Bahia de Castro Alves. E ligou-se a mim, atual
ocupante desta honrosa Cadeira, por ter ele escrito sobre dona
Francisca de Sande, a primeira enfermeira do Brasil. Afinal,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
eu hoje sou Mãe Stella, uma iyáloríÿa que orienta as pessoas no
sentido de cuidarem do espírito, mas um dia fui Maria Stella
de Azevedo Santos, uma enfermeira que orientava sobre os
cuidados com o corpo físico.
Deixei para falar por último sobre meu antecessor, Ubiratan Castro de Araújo — Bira Gordo —, e sobre o patrono da
Cadeira que hora ocupo — Castro Alves, o Poeta dos Escravos
—, pelos laços que nos unem. Cada um de nós lutando por
honrar e glorificar um povo que, mesmo chegando escravizado
ao Brasil, soube fazer história, ajudando na formação de nosso
país em todas as áreas. Cada um de nós lutando por esse ideal
de acordo com a época em que viveu e com os dons que recebeu do Deus Supremo. A alma poética de Castro Alves gritou
clamando pela liberdade física dos negros; Bira Gordo, com
sua capacidade única de contar a história e estórias, tudo fez
para mostrar a contribuição indiscutível deste povo; eu, como
cultuadora de divindades, rogando sempre para que o orgulho
que agora estou sentindo não faça com que minha jornada espiritual seja maculada, sigo esforçando-me no sentido de fazer
com que a religião trazida pelo povo africano para o Brasil seja
mais bem compreendida e, assim, mais respeitada.
Em um discurso tão longo, tudo fiz para não cansar os
ouvintes. Não sei se estou conseguindo, mas, em respeito a
meu grande amigo e antecessor na Cadeira 33, o historiador
Ubiratan Castro de Araújo, tentei alcançar esse feito procurando construir meu discurso de posse narrando fatos de modo
histórico, mas com a leveza de uma contadora de “causos”.
Como disse anteriormente, Bira Gordo foi um grande contador da história e de estórias. Nascido em Salvador, em 22
de dezembro de 1948, o professor doutor Ubiratan Castro de
Araújo foi graduado em história pela Universidade Católica do
Salvador e em direito pela Universidade Federal da Bahia. Um
estudioso por natureza, fez mestrado em história na Université
de Paris X, Nanterre, e doutorado em história na Université
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
de Paris IV (Paris-Sorbonne). O fato de ter recebido o Troféu
Clementina de Jesus, da União dos Negros pela Igualdade, e a
Medalha Zumbi dos Palmares, da Câmara Municipal de Salvador, mostra o reconhecimento pelo empenho de Bira Gordo
contra a discriminação racial. Foram inúmeras as vezes que nos
encontramos em seminários e outros encontros de ordem semelhante, para reafirmar a grandeza histórica do povo negro
e sua sabedoria ancestral, que é capaz de orientar qualquer um
que dela se aposse. Afinal, sabedoria não tem cor e não pertence a nenhuma raça específica.
A frágil saúde de Bira Gordo, como gostava de ser chamado, não o impediu de dar uma grande contribuição ao mundo
intelectual e de transmitir alegria por onde passava e para todos com quem convivia. Sua prestimosidade era incontestável!
Nunca se negava a participar de nenhum evento para o qual
fosse convidado a contribuir com sua forma única de estoriar a
história. Intelectual cinco estrelas, contador de “causos” de estrelas incontáveis. Bira registrou pouco seu vasto conhecimento.
Foram apenas três os livros por ele escritos: A guerra da Bahia,
Salvador era assim: memórias da cidade, e Sete histórias de negro. Editou pouco, mas falou muito, muito, muito... E era uma fala deliciosa de ser ouvida. Em seu único livro de ficção, Sete histórias
de negro, ele conseguiu reunir muito do que era, sabia e lutava.
Para dizer o que Bira era, sabia e lutava, tomarei emprestado o
que seu amigo, o jornalista e escritor Emiliano Queiroz, disse
sobre ele: “Quando a barra pesava, quando algum problema o
atormentava, Bira punha-se a cantarolar como a se convencer
de que os orixás pudessem socorrê-lo, ou simplesmente como
uma maneira de afastar os maus-olhados e buscar socorro na
poesia, que ela sempre ajuda — quanto mais quando a alma não
é pequena, e a dele era do tamanho do mundo.” Concordo, por
experiência própria, com a opinião de Emiliano Queiroz sobre
Bira: “O mestre que compartilhava sua erudição como quem
contasse histórias à beira da fogueira.”
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Um exemplo claro dessa capacidade que tinha Ubiratan
Castro, um intelectual do povo, é a última história escrita em
seu livro Sete histórias de negro. Intitulada “O protesto do poeta”,
a referida história é muito adequada para este discurso, uma
vez que narra uma conversa que acontece em uma sessão espírita entre Castro Alves e um grupo de pessoas. Como bom
piadista que era, não escapou da mente criativa de Bira Gordo
nem o patrono da Cadeira que ocupava na Academia de Letras
da Bahia. Para Bira, a vida parecia ser uma piada; e a piada, uma
coisa muito séria. Condensada de maneira irônica no “causo”
do protesto do poeta, Bira conta a trajetória da libertação dos
escravos no Brasil ocorrida no passado, alertando para a necessidade constante por uma luta pela liberdade, pois as correntes
de ferro, antes visíveis, são, no presente, correntes imperceptíveis, que marginalizam e excluem.
Bira Gordo nos deixou há pouco tempo, em três de janeiro do ano em curso. Se hoje ainda estivesse conosco, digo,
fisicamente, é provável que buscasse na poesia de Castro Alves a força de que precisamos para continuar enaltecendo um
povo guerreiro, ao mesmo tempo pacífico e afetuoso, que soube amar e amamentar quem o escravizou.
Muitas pessoas, no passado e no presente, lutaram para
que hoje eu pudesse, de maneira natural, fazer parte desta Academia. Uma delas foi o patrono da Cadeira onde me firmo. Antônio Frederico de Castro Alves entoou gritos poéticos na tentativa de despertar a sociedade brasileira para a mais cruel de
todas as atitudes humanas: a privação da liberdade. Em 1868,
através de seu poema “Vozes d’África”, ele clamou:
Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé!...
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé...
Se minha bisavó chegou ao Brasil presa a muitos outros
negros africanos, amarrada por correntes que lhe tiraram o maior
de todos os bens que pode ter qualquer ser vivo — a liberdade —,
hoje aqui me encontro acorrentada por um adorno que me une a
todos os baianos, brasileiros, humanos, letrados ou não letrados.
O Poeta dos Escravos desejava ver todos os homens tratados com
igualdade de condições: queria ver desacorrentados os negros escravizados. Por isso, Castro Alves escreveu um dos mais conhecidos poemas da literatura brasileira, “O navio negreiro”, no qual
denunciava as atrocidades sofridas pelos africanos na travessia
oceânica a que foram obrigados a se submeter:
Era um sonho dantesco... O tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho,
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros... estalar do açoite...
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar...
Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das mães;
Outras, moças... mas nuas, espantadas,
No turbilhão de espectros arrastadas,
Em ânsia e mágoa vãs.
E ri-se a orquestra, irônica, estridente...
E da ronda fantástica a serpente
Faz doudas espirais...
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Se o velho arqueja... se no chão resvala,
Ouvem-se gritos... o chicote estala.
E voam mais e mais...
Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidão faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
................................
Um de raiva delira, outro enlouquece...
Outro, que martírios embrutece,
Cantando, geme e ri!
O baiano Castro Alves nasceu em 14 de março de 1847
na Fazenda Cabaceiras, antiga freguesia de Muritiba, que é hoje
a cidade de Castro Alves. Era dotado de uma constituição física
frágil, mas de uma forte alma humanizada, que contestava as
barbaridades típicas da época em que viveu — o século XIX.
Foi corajoso o suficiente para que, com apenas 21 anos de idade,
obrigasse os fazendeiros donos de escravos a escutá-lo recitar
“O navio negreiro”, pois estando todos em uma comemoração
cívica não seria politicamente correto retirar-se do recinto.
A poesia de caráter social de Castro Alves era típica da
terceira geração do romantismo brasileiro, chamada condoreira, pois o condor é uma ave símbolo de liberdade. Representante da burguesia liberal, Castro Alves foi o último grande poeta da geração condoreira, que, por meio da literatura, instigava
o povo para exigir a abolição da escravidão e a proclamação
da república, aproximando, assim, o romantismo do gênero
literário seguinte — o realismo.
Se as causas sociais eram o ideal de Castro Alves, o amor
era sua fonte de inspiração. E como são lindos seus poemas
de amor. Escutemos com a alma seu poema “A duas flores”,
que, na Escola Nossa Senhora Auxiliadora, de propriedade da
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
professora Anfrísia Santiago, eu costumava recitar para minhas
colegas no horário de recreio.
São duas flores unidas,
São duas rosas nascidas
Talvez do mesmo arrebol,
Vivendo no mesmo galho,
Da mesma gota de orvalho,
Do mesmo raio de sol.
Unidas, bem como as penas
Das duas asas pequenas
De um passarinho do céu...
Como um casal de rolinhas,
Como a tribo de andorinhas
Da tarde no frouxo véu.
Unidas, bem como os prantos,
Que em parelha descem tantos
Das profundezas do olhar...
Como o suspiro e o desgosto,
Como as covinhas do rosto,
Como as estrelas do mar.
Unidas... Ai quem pudera
Numa eterna primavera
Viver, qual vive esta flor.
Juntar as rosas da vida
Na rama verde e florida,
Na verde rama do amor!
Intensamente viveu Castro Alves a sua curta vida de 24
anos. Em seis de julho de 1871 ele não pôde mais sentir na carne
os prazeres do amor. Também não pôde ver os escravos desacorrentados, não pôde assistir a seu ideal concretizado. Mas sua
curta vida é longa. Estamos hoje, aqui, nos deleitando com seus
versos. Uma senhora de 96 anos, falando sobre seu primo Castro
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Alves, um dia me disse: “Por amor ele viveu, por amor ele morreu. Mas quem morre por amor não morre: torna-se imortal.”
Eu sou o quinto elo da corrente que forma a cadeia de
iyáloríÿa do Ilé Àÿç Opo Afonjá. Eu sou a quinta pessoa a ocupar a Cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia. O número
cinco é meu guia. Há setenta e quatro anos, nesta mesma data,
eu fui iniciada para o oríÿa caçador — Õÿösi. Hoje é uma quinta-feira, dia consagrado a meu oríÿa. Nada disso foi programado, nada disso é coincidência. É magia e destino!
Na Cadeira 33, e em todas as outras que compõem esta
nobre instituição, cabem pessoas de todas as profissões, cores,
religiões, estilos literários... Na Cadeira 33, e em todas as outras
desta instituição, só não cabe vaidade, nem modéstia. Não sendo vaidosa, digo que, com certeza, não fui escolhida para ser
uma acadêmica pelo fato de escrever livros com sofisticação
gramatical. Não sendo modesta, tenho a convicção de que se
hoje aqui estou é por escrever minhas experiências de modo
a cumprir meu compromisso sacerdotal. Não se esqueçam de
que compromisso e união são as bases em que meu discurso
foi fundamentado. Sentar-me na Cadeira 33 da Academia de
Letras da Bahia era meu destino.
O que escreveu meu confrade Paulo Costa Lima, quando
fui escolhida para esta confraria, transmite com perfeição meus
pensamentos sobre esse novo envolvimento em minha vida. Ele
assim pensou e escreveu: “Hoje, 25 de abril, a Academia de Letras da Bahia jogou os búzios e o nome que apareceu foi o de
Mãe Stella de Oxóssi, para ocupar a Cadeira cujo patrono é Castro Alves, sendo o grande historiador baiano Ubiratan Castro
o último ocupante. A escolhida se fez presente logo após a votação para o abraço e a manifestação do compromisso. Foi uma
bela cena, e muito rara. Um encontro de erudições da África e da
Europa. Na verdade, um gesto inovador que não pode deixar de
ser levado em conta como paradigma de abertura de horizontes e
de convivência das diferenças... na luta de afirmação da tradição
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
afro-brasileira e, portanto, pelo respeito aos direitos à alteridade
e identidade própria. Diante da contribuição civilizatória que a
África trouxe ao Brasil, alguns preferem calar, outros reconhecem, mas acentuam a natureza oral dos conhecimentos e saberes. Mãe Stella rompeu essas barreiras (entre tantas) e passou
a defender uma representação mais sintonizada com os novos
tempos, conectando oralidade e manifestações letradas...”
Como já disse, sou bisneta de portugueses e africanos.
Essas duas descendências não são somente minhas. São do
Brasil. Quantas e quantas vezes estamos falando palavras de
origem africana, pensando estar falando em português? Tôrô é
chuva, görô é cachaça, gògó é garganta, todas elas palavras da língua yorùbá, que precisam ser preservadas em sua origem. Talvez
muitos tenham estranhado, em alguns momentos do discurso,
ser falado os oríÿa, as iyáloríÿa. Não é erro. É que na língua
yorùbá as flexões gramaticais, no que se refere a número, são
construídas de maneira diferente da língua portuguesa. Essa
herança faz com que muitas vezes o povo fale uma mistura de
português com yorùbá. Sobre os dialetos africanos, a confreira
Yeda Pessoa de Castro conhece o assunto de cathedra. Escrevo
com a intenção maior de salvaguardar a língua e a sabedoria de
meus ancestrais africanos, pois tendo sido este povo ignorado
por séculos seus conhecimentos correm o risco de ser esquecidos ou transmitidos de maneira deturpada.
Ser iniciada aos catorze anos de idade fez com que eu
tivesse a vantagem da inocência. Sem saber da responsabilidade que me esperava, eu brincava de caçador. Afinal, fui consagrada para o oríÿa Õÿösi — a divindade caçadora. Na minha
mocidade, pude conciliar a profissão com a religião, cuidando
do ser humano como enfermeira sanitarista durante trinta e
cinco anos, quando então me aposentei, ao tempo em que servia também aos deuses. Curiosamente, alguns mais velhos insistiam em me repassar os conhecimentos que possuíam sobre
os fundamentos do candomblé. Em uma época em que nossa
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
tradição era transmitida apenas oralmente, Bida de Iyemanjá,
por exemplo, contrariava o costume e de maneira obstinada
mandava que eu anotasse nossas conversas. Muito tímida e
respeitosa, não era fácil fazer o que ela mandava. Com o passar do tempo, entendi que os mais velhos queriam munir-me
de conhecimentos, pois cada dia eu recebia mais informações.
Só em dezenove de março de mil novecentos e setenta e sete,
quando fui escolhida iyáloríÿa do terreiro de candomblé onde
fui iniciada — o Ilé Àÿç Opo Afonjá, na Bahia —, é que pude
enfim compreender o porquê de toda aquela atenção para comigo. Nos anos que se seguiram, não apenas os mais velhos,
mas também pessoas mais novas me enviavam importantes
materiais de pesquisa sobre a religião que nos foi legada pelos africanos. As minhas atividades como iyáloríÿa são muitas
e nunca me permitiram organizar tudo que eu recebia por revelação divina ou por gentileza dos homens, o que muito me
preocupava.
Como iniciada que sou, tenho tendência a resguardar
os mistérios, evitando retirar os véus que os encobrem. Por
isso, não foi uma decisão nada fácil fazer uso da tradição escrita para registrar os conhecimentos que adquiri através da
tradição oral. A ousadia veio da necessidade, mas a coragem
veio da permissão dos oríÿa. Diante da modernidade, essa ficou sendo minha única alternativa para evitar deturpações da
essência de uma religião milenar. Não sou uma escritora! Sou
uma iyáloríÿa que escreve! Sou uma iyáloríÿa que escreve com
o objetivo primeiro de não deixar perder a valiosa herança de
nossos ancestrais. Assim foi que optei por oferecer a todos, indistintamente, a riqueza da filosofia yorùbá, de maneira escrita,
porém respeitosa, evitando expor fundamentos que interessam
apenas aos sacerdotes, por serem eles responsáveis pela execução de rituais. A busca pela ampliação do conhecimento deve
ter como interesse principal o aprimoramento pessoal, visando
uma amplificação das capacidades enquanto ser humano.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Se eu chamo meus colegas de Academia de confrades e
confreiras, é porque estamos juntos na mesma confraria. No
Ilé Àÿç Opo Afonjá, cumprimentamos uns aos outros chamando-nos de irmãos, estamos em uma irmandade. Confraria,
irmandade, comunidade... Elos unidos formando uma corrente por um objetivo comum. Na Academia de Letras da Bahia,
o objetivo é cultuar para preservar a tradição escrita. No Ilé
Àÿç Opo Afonjá, o objetivo é cultuar para preservar a tradição
oral. Sou uma acadêmica oriunda da família Opo Afonjá, que
tem como Iyá Nlá — a Grande Mãe — Ôba Biyi, Mãe Aninha,
que no início do século XX escreveu um adurá (uma reza), na
língua yorùbá, pedindo bênçãos para a construção do terreiro
de candomblé que tem como patrono o oríÿa ßàngó, seu élédá,
o dono de sua cabeça.
Mãe Aninha assim rezava em yorùbá:
Ôba Kawoo
Ôba Kawoo Kabiesile
Kö möèsi kunlè
Ôba Kawoo
Ôba Kawoo Kabiesile
Çkùn
Esse adurá, em tradução, quer dizer: “Xangô, Rei Leopardo, cuja decisão e ação ninguém poderá questionar. Dême como resposta a construção completa desta casa.” Através
dessa reza em forma de cântico, Mãe Aninha pediu condições
para construir o Ilé Àÿç Opo Afonjá. Ainda hoje, nós, seus descendentes espirituais, continuamos entoando sua oração, todas
as quartas-feiras, na “casa de candomblé” construída por ela,
pedindo forças para nos mantermos firmes em nossas decisões;
pedindo humildade para mudar as ações que nos sejam questionadas, apenas quando elas forem justas. Somos descendentes de
Mãe Aninha! Somos filhos de ßàngó! Somos filhos da justiça!
Somos educados, polidos e firmes. Somos filhos da resistência!
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Se Mãe Aninha pediu a seu oríÿa, ßàngó, forças para
construir seu terreiro de candomblé, eu peço a meu oríÿa, Õÿösi, que dê força, saúde e prosperidade a mim e a todos aqui
presentes, principalmente aqueles cujos corações são puros.
[Mãe Stella puxa o cântico em homenagem a seu oríÿa.]
Olówo mo npe mi ô iye iye
Ôdç mo pe mi olùbö ai pè
Mo npe mi ô iye iye
Ôdç mo pe mi olùbö ai pè
Mo npe ni ná së ni dé na*
Mãe Stella de Oxóssi (Maria Stella de Azevedo Santos, Odé Kayode)
é a quinta ialorixá do Ilê Axé Opó Afonjá. É enfermeira e escritora,
com vários livros publicados, como Meu tempo é agora, Epé laiyé, Opinião
e Ofún. É doutora honoris causa pela Universidade Federal da Bahia e
pela Universidade do Estado da Bahia e articulista do jornal A Tarde.
Desde 2013 ocupa a Cadeira nº 33 da ALB.
Discurso de posse da acadêmica Mãe Stella de Oxóssi na Cadeira nº
33 da Academia de Letras da Bahia, em sessão solene, no Salão Nobre
da ALB, em 12 de setembro de 2013.
►► 349
MÃE STELLA DE OXÓSSI
— ODÉ KAIODÊ
Saudação à acadêmica
Myriam Fraga
E
sta é mais uma dessas noites extraordinárias em que esta
casa parece reverberar iluminada pelo brilho da alegria,
pelo entusiasmo da celebração.
Recebemos hoje em nossa confraria não apenas mais um
membro eleito pelo reconhecimento de seus méritos, mas alguém
cuja presença tornará ainda mais enriquecedor o nosso convívio e
mais instigante o desdobramento de nossas afinidades.
Porque esta é uma casa onde a convivência será sempre um
passo a mais no mundo do conhecimento, uma página a ser escrita no livro da sabedoria, constituída pela diversidade, pelas trocas,
pelas revelações, pela aceitação do múltiplo, pela gentileza que não
prescinde da crítica, onde as divergências resolvem-se não na disputa, mas na conciliação. Porque esta Academia, antes de ser uma
casa de iguais, configura-se numa união firmada no enriquecimento que se completa na soma das diferenças.
E esta é também uma casa da memória, porque nela estão
guardadas as reminiscências, os documentos, os escritos, as propostas e as referências que seguirão pelos tempos afora a marcar
o nome e o perfil dos que nela um dia se assentaram, tornandose imortais na obrigação de seus sucessores, encarregados de
preservá-los na lembrança e no reconhecimento de suas virtudes e de sua história.
Na tradição que rege as ações desta Academia, ao preservarmos o culto e o respeito aos nossos antecessores temos
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
a certeza de que, se um dia também fizermos jus à pretendida
imortalidade, será tão somente por aceitarmos a máxima, tão
celebrada pelos gregos, de que um homem é imortal enquanto
seu nome for lembrado.
Alegrias e tristezas fazem parte da existência e completam
a liturgia desta casa. A cada despedida de um confrade que se
afasta, levado pelos rios da eternidade, abre-se um novo caminho, apresenta-se uma nova oportunidade, para que o fluxo da
existência se renove e permaneça sempre atuante na construção
de uma diversa possibilidade.
Cumprido o ritual das despedidas, é preciso celebrar-se o
tempo da renovação e da alegria, e para isso aqui estamos reunidos, para celebrar não apenas a posse de mais um novo membro
em nossa confraria, mas a chegada de um nome que vem projetar neste sodalício mais que a luz de uma estrela, a marca de uma
sabedoria já muitas vezes proclamada.
Recebida com a pompa e a circunstância que ditam as
normas desta Academia, acolhida pelo respeitoso carinho dos
confrades, no exemplo dos antecessores, Maria Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxóssi, Odé Kaiodê, assume hoje seu
lugar nesta confraria amparada no exemplo de uma vida dignificada nos preceitos que apontam para o caminho da revelação e
dos deveres que competem aos que são escolhidos pelos deuses,
pelo destino, ou por sua própria inerente vocação, para atender
aos seus semelhantes no caminho das virtudes que definem o ser
humano em sua trajetória.
Vinda de uma linhagem de mulheres predestinadas, ou
seja, condutoras de destinos, abnegadas sacerdotisas de uma
religião que teimava em sobreviver às aparentemente inflexíveis regras que apontavam para a submissão e o aniquilamento
de crenças ancestrais, Stella de Oxóssi construiu o seu percurso amparada nos ensinamentos que a fizeram, ao longo de sua
abençoada e frutífera existência, construir um porto seguro para
as dúvidas e as ansiedades de sua gente.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Seu caminho vem de longe, suas origens remetem a muitos
anos de resistência em defesa de uma cultura que, embora discriminada pelo preconceito, firmou-se como uma herança que nos
cabe resguardar, pela importância de que se fez merecedora na
construção de uma identidade cultural brasileira, notadamente na
Bahia, berço da preservação de um saber que muito nos dignifica.
Em livro hoje considerado clássico, a antropóloga Ruth
Landes, que aqui esteve em estudos e pesquisas na década de
quarenta, batizou Salvador como “a cidade das mulheres”, assinalando com admiração o poder extraordinário das mães de
santo na defesa das tradições e costumes de seu povo.
Na condução de um dos mais afamados terreiros da Bahia,
o Ilê Axé Opó Afonjá, da matriz da Casa Branca do Engenho Velho da Federação, primeiro terreiro de culto nagô no Brasil, Mãe
Stella confirma essa tradição de liderança ocupando o lugar que
já pertencera, anteriormente, a figuras míticas da cultura baiana,
como as ialorixás Eugênia Anna dos Santos, Mãe Aninha, e sua
sucessora, Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, guardiãs da casa de Xangô e do culto de Yá, a mais velha Mãe das Águas.
Nascida no seio de uma numerosa família no dia dois de
maio de 1925, na cidade de Salvador, na Bahia, Maria Stella de
Azevedo Santos é a quarta filha de Esmeraldo Antigno dos Santos e de Thomásia de Azevedo Santos.
Tendo estudado no colégio Nossa Senhora Auxiliadora,
dirigido pela professora Anfrísia Santiago, notável educadora,
formou-se em seguida pela Escola de Enfermagem e Saúde
Pública, exercendo a função de visitadora sanitária por mais de
trinta anos. Mas seu destino não era cuidar do corpo, mas tratar
das almas. Aos treze anos recebeu o chamado e iniciou seu caminho rumo ao Axé.
A princípio, tudo levava a crer que seria iniciada no Terreiro
do Gantois, onde imperava Maria Escolástica Conceição Nazaré,
Mãe Menininha, uma das mais famosas e respeitadas ialorixás da
Bahia, mas não era esse o desígnio dos orixás, e seu odu inclinou-se
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
para que fosse recebida no Ilê Axé Opó Afonjá, local igualmente
respeitado, fundado em 1910 por Eugênia Anna dos Santos, a lendária Mãe Aninha, na Estrada Velha de São Gonçalo do Retiro, no
bairro do Cabula, em uma fazenda que se tornou, com o passar
dos anos e o abnegado trabalho de seus veneráveis, num verdadeiro sítio ecológico, local de preservação da natureza no culto ao
sagrado e às crenças de seus antepassados.
No dia 25 de dezembro de 1937, ainda adolescente, Maria
Stella foi apresentada a Mãe Aninha, que a entregou aos cuidados de Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, para que
a instruísse nos segredos e mistérios do candomblé.
Com a morte de Mãe Aninha, em 1938, após um breve
intervalo em que o terreiro esteve sob o comando de Mãe Bada
de Oxalá, uma das fundadoras do Axé, que já muito idosa e
doente faleceria logo em seguida, Mãe Senhora, após o tempo
regulamentar, assumiu o trono no Ilê Axé Opó Afonjá.
No ano seguinte, aos 14 anos, Maria Stella começou sua
iniciação, orientada por Mãe Senhora, recebendo o nome de
Stella de Oxóssi — Odé Kaiodê —, como era da tradição. Assim, ao tempo em que concluía seus estudos regulares, ia sendo
introduzida no conhecimento de tudo que se relacionasse ao
culto, aos rituais e às origens da crença dos ancestrais.
Com a morte de Mãe Senhora em 22 de janeiro de 1967,
esperava-se que, por seus altos méritos e pela vontade expressada muitas vezes por sua antecessora, Mãe Stella fosse designada
para sucedê-la. Mas, feito o jogo dos búzios, contrariando as expectativas, a escolhida foi Ondina Valéria Pimentel, Mãe Ondina, também conhecida como Mãezinha, que passou a conduzir
o Axé, durante sete anos, com muita dedicação. Com a sua morte procedeu-se novamente o ritual de consulta ao orixá, através
dos búzios, e dessa vez Stella de Oxóssi foi eleita e confirmada,
cumprindo-se finalmente o desejo de sua querida Mãe Senhora.
Sobre esses fatos temos o testemunho de dois importantes documentos. A morte de Mãe Senhora e o ritual para escolha
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
de sua sucessora foram narrados pelo escritor Jorge Amado, ogã
do Axé Opó Afonjá, no livro Bahia de Todos-os-Santos, em páginas
de muita emoção.
No mesmo capítulo, narra também a escolha de Mãe
Stella, a quem se refere como “minha irmã”, quando anos depois foi, finalmente, eleita para ocupar o trono de Xangô.
Esses episódios, a morte e o enterro de Mãe Senhora, estão descritos no conto do mesmo autor intitulado “O enterro da
iyalorixá”, publicado no livro Cinco histórias pela Fundação Casa
de Jorge Amado.
O segundo documento a que nos referimos é a transcrição
da ata registrada no dia 19 de março de 1976 do livro de atas do
Conselho Religioso, reunido sob a presidência de Hector Bernabó (Otun Obá Onasokum), mais conhecido como Carybé,
mestre famoso das artes na Bahia, grande amigo e protetor do
Ilê Axé Opó Afonjá.
A consagração de Mãe Stella deu novos rumos à congregação. Passado o primeiro impacto, refeita da emoção de se ver
como fiadora não só da continuidade e preservação de uma cultura, mas igualmente da administração de uma comunidade que
dependia de cuidados materiais para sua sobrevivência, sentiu
abater-se sobre seus ombros o peso da responsabilidade.
Ainda jovem, teria de abdicar da liberdade pessoal, da simplicidade de uma vida sem maiores pretensões, das viagens que
tanto apreciava, para dedicar-se inteiramente ao serviço e aos
preceitos de uma crença que lhe cumpria resguardar, fazendo retornar os dias de grandeza do Terreiro de Xangô, quando a fama
da pureza de seu ritual e da imponência de suas festas atraía para
a Bahia estudiosos e adeptos do mundo inteiro.
Porque a administração de um terreiro com a importância
e a extensão do que lhe fora dado a dirigir, não só espiritualmente, mas com todas as prerrogativas de administração de bens e
haveres daí decorrentes, com a função de exercer políticas de
convivência não apenas com a comunidade que o frequenta,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
mas igualmente com o entorno que o cerca, de prover as necessidades básicas que garantam a continuidade dos rituais e a presença do sagrado, que é a força que alimenta as almas e assegura
sua permanência, exige dedicação constante e integral doação.
Mas não se deixou intimidar, porque para isso fora feita e
preparada. Anos de estudo e de permanente convívio com Mãe
Senhora, que desde o princípio se encarregara de conduzi-la para
o que adivinhava ser o seu verdadeiro caminho rumo ao Axé.
A tarefa era árdua. Com a força do comando e a clarividência adquirida na convivência com as regras e os ensinamentos dos preceitos, Mãe Stella sentia-se confiante para iniciar a
grande empreitada de recuperar a energia que nos últimos anos,
com a saúde delicada de Mãe Ondina, parecia ter arrefecido.
Para isso, além de contar com a dedicação de seus filhos e filhas
de santo e a colaboração dos familiares, teve ainda a confiança e
a amizade de Mãe Menininha e de suas filhas Cleusa, já falecida,
e Carmem, atualmente ialorixá do afamado Terreiro do Gantois.
Desse modo, com muita firmeza, sempre procurando ser
justa sem ser intolerante, Mãe Stella começava a pavimentar a
longa estrada que a conduziria ao respeito e à veneração de que
vem desfrutando, não só por parte dos filhos e filhas de sua comunidade, mas igualmente de todos que reconhecem a sua seriedade, não apenas no trato das coisas da religião, mas igualmente
no esforço pelo fortalecimento da imagem do local como um
centro de referência da cultura de raízes africanas e no amparo
dispensado a tantos que a procuram em busca de um conselho,
de um ensinamento, de um consolo em suas aflições.
Ao mesmo tempo, contando com o total apoio dos obás
na administração da casa e nas reformas que aos poucos foi
realizando, tratava da parte material, cuidando das edificações,
construindo novas casas para os orixás, murando os limites
da roça, na preservação de um espaço de quase quarenta mil
metros quadrados, melhorando a rede elétrica e o acesso ao
centro do terreiro.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Em 1981, após uma viagem à Nigéria, onde visitou templos e casas de orixás, sendo acolhida com grande emoção, apesar das barreiras linguísticas, fazendo amigos e recebendo homenagens, voltou disposta a montar um museu onde ficassem
expostos objetos de valor que faziam parte da memória do Axé.
Assim, foi criado o Ilê Ohun Lailai.
Sua visita deixou tão boa impressão que, em 1983, o
professor Wande Abimbola, à época reitor da Universidade de
Ile-Ifé, fez questão de que a II Conferência da Tradição dos
Orixá e Cultura, que se realizou de 17 a 23 de julho de 1983,
acontecesse em Salvador.
Foi nessa ocasião que Mãe Stella fez seu primeiro pronunciamento público defendendo ideias originais sobre o sincretismo religioso, assunto que a absorvia e ao qual dedicava suas
atenções. Ela também teve participação destacada na III Conferência da Tradição dos Orixá e Cultura, em 1986, em Nova
Iorque, nos Estados Unidos.
Sempre procurando divulgar e difundir o trabalho realizado em favor da história, da crença e da importância dos orixás na
cultura brasileira, no ano seguinte Mãe Stella integrou a comitiva
organizada por Pierre Verger para as comemorações durante a
Semana Brasileira na República do Benin, onde foi recebida com
honras de líder religiosa.
Enquanto isso, sempre preocupada com a educação, principalmente de crianças e adolescentes, dedicava-se à criação de
oficinas complementares ao ensino básico, buscando principalmente manter uma ocupação que os afastasse das tentações e
dos desvios de conduta. Essas oficinas, que já receberam centenas de alunos, complementam as atividades da Escola Fundamental Eugênia Anna dos Santos, considerada referência pela
Prefeitura Municipal de Salvador.
Coroando seu trabalho como gestora de um espaço que
abriga tantas atividades, uma nação diferenciada em seus segmentos, exemplo de organização e de eficiência em seu propósito de
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
criar um território onde a convivência com o mistério e com o
sagrado não sofram interferências que possam perturbar a paz
tão necessária a seus propósitos, em 1999 Mãe Stella conseguiu
o tombamento do Ilê Axé Opó Afonjá pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão ligado ao
Ministério da Cultura.
Tantas e tão significativas realizações vem atraindo a admiração e o respeito não só de sua comunidade, mas do povo
da Bahia, que, pela mão de seus representantes, a tem cumulado
de prêmios e honrarias pelo muito realizado e pela imagem que
construiu ao longo dos anos e que a credencia como uma das
mais distinguidas lideranças de sua terra.
Desde 2001, quando ganhou o prêmio jornalístico Estadão,
pelo jornal O Estado de S. Paulo, na condição de fomentadora da
cultura, seguiu-se uma significativa lista de prêmios e honrarias:
Medalha Maria Quitéria, pela Comuna de Salvador; Ordem do
Mérito da Bahia, no grau de cavaleiro, pelo governo do estado;
Comenda do Mérito Cultural, pelo Ministério da Cultura.
Acrescentem-se os doutorados honoris causa, pela Universidade Federal da Bahia, em 2005, e pela Universidade do Estado
da Bahia, em 2009, títulos que atestam sua qualificação e seu
reconhecimento pela comunidade intelectual que a acolhe neste
momento como um expoente da cultura baiana.
Convencida de que religião é cultura, procurava manter
viva a chama do conhecimento através de palestras, debates, oficinas e outros eventos que pudessem, segundo ela, “sacudir” o
povo do candomblé, fazendo-o compreender que a sobrevivência de sua crença dependia de reflexão, estudos e entrosamento
com as novas formas de convivência demandados pelos costumes dos novos tempos.
Compreendendo que apenas a tradição oral não poderia
atender à demanda de orientação e à necessidade de agregar novos conhecimentos ao seu povo, decidiu-se a superar a tradicional oralidade africana, passando a registrar através de seus
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
escritos o conhecimento que herdara de seus ancestrais, iniciando uma série de publicações que, por sua importância e objetividade, veio a tornar-se uma referência nos estudos e na pesquisa
de quantos se interessem pelo conhecimento das práticas, dos
ritos e, principalmente, dos mitos referentes à religião dos orixás.
Entre suas várias publicações destacamos dois livros que
consideramos da maior importância em sua bibliografia: Meu
tempo é agora, já em segunda edição, pela Assembleia Legislativa
da Bahia, e Oxóssi, o caçador de alegrias, editado pela Fundação
Pedro Calmon, sob a presidência do saudoso confrade Ubiratan Castro, a quem viria a suceder, numa merecida coincidência,
ocupando seu lugar na Cadeira de número 33, que por outra
feliz coincidência tem como patrono o poeta Castro Alves.
Fundamental sob vários ângulos, Meu tempo é agora reúne
informações preciosas sobre vários aspectos ligados à organização do candomblé: não apenas os espaços físicos, mas as obrigações e preceitos que envolvem os ocupantes dos cargos, o
calendário das festas e dos rituais.
Contém ainda esclarecimentos sobre os mitos mais significativos, uma descrição detalhada sobre os modos e costumes, a hierarquia nas relações, vestuários e alimentação apropriados, atribuições e características principais de cada orixá,
entre outros assuntos de relevância para a compreensão dos
costumes da casa, o que o credencia como um verdadeiro guia
das atividades aí exercidas.
Sempre enfatizando a importância de suas antecessoras
na preservação dos espaços sagrados e na observância das tradições, não se esquiva, todavia, de abordar alguns assuntos polêmicos na formulação de novas formas de relacionamento com a
sociedade e novas políticas de divulgação de seus ensinamentos.
Oxóssi, o caçador de alegrias é um livro encantador. Nele, ao
tempo em que narra itans, ou histórias de Oxóssi, orixá de sua
cabeça, Mãe Stella divulga seu pensamento em relação à religiosidade negra, criando um texto de grande beleza, no qual,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
a par dos conceitos e referências aos dogmas e às revelações
que formam o complexo mundo de relações entre o Orum e o
Ayê, entre o sagrado e o humano, aborda importantes questões
referentes aos mitos iorubas e ao valor dos símbolos como expressões do inconsciente.
Os mitos da criação do mundo, ligados ao Gênese, nos
quais estão presentes Olorum, o pai supremo, que delegou a
Orisanlá, o grande orixá da criação, a tarefa de criar o planeta
Terra e todos os viventes que o habitam — homens, animais,
plantas —, além de Iya Mi Àgba — a “grande mãe ancestral”,
única divindade feminina envolvida nas narrativas de origem,
que, ao receber de Olorum o poder da gestação, tornou-se a
“mãe de todas as criaturas da Terra”, responsável pela criação
das leis da natureza e por manter o equilíbrio ecológico que garantisse a continuidade da vida em nosso planeta.
É impressionante a riqueza dos símbolos e das metáforas
ligadas à vida humana, à morte e à ressurreição. Assim, quando
Olorum deixa a cargo de Orisanlá a criação do corpo físico dos
seres humanos a partir da lama fornecida pelo orixá Nana, este
só permite o emprego do material sob a condição de que lhe
seria devolvido após certo tempo de uso, estabelecendo a regra
básica da existência: tudo que vive, nasce e morre um dia regressará à sua essência.
Inúmeros são os ensinamentos encontrados nesse livro
mágico, mas certamente uma das mais belas passagens é quando é descrito o ritual da caça e seu significado mítico na trilogia
Exu-Ogun-Oxóssi. Exu simboliza o movimento; Ogun, a busca; e
Oxóssi, o encontro final. Assim, com rara sensibilidade é recriado
o momento inicial da humanidade, a aurora do conhecimento.
Neste momento não posso resistir à tentação de reproduzir
um pequeno trecho sobre esse tema, num parágrafo que me parece extremamente instigante: “Durante a caçada, Exu é o instinto
de sobrevivência; Ogun, o caminho percorrido pela caça em fuga,
pelo caçador na perseguição, assim como o projétil ao encontro
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
do alvo; Oxóssi é o animal que foge, o caçador que persegue, a
flecha, o projétil lançado, assim como é o resultado final do ato.”
Sabendo-se que a arte da caça é uma das mais antigas da
humanidade, guardando uma estreita relação com as atividades
inerentes à sobrevivência do grupo nas comunidades primitivas
ao alvorecer da humanidade, quando as dificuldades enfrentadas
e a precariedade da vida faziam da existência uma perigosa travessia, é preciso reconhecer que é nos mitos que se encontra a
chave desse momento de compreensão de um universo que vai
se desvelando aos poucos, na revelação de seus mistérios.
Contar histórias talvez tenha sido um das primeiras tentativas da humanidade na busca pela preservação do passado
através da memória. Da experiência compartilhada à fantasia de
aventuras inventadas pela imaginação, teceram-se as mais mirabolantes narrativas, marcando os roteiros percorridos pelos habitantes deste planeta misterioso que se chama Terra.
E assim fomos tecendo nossa história, processando e inventando sonhos, realidades e experiências que nos confortam
com a ilusão da imortalidade. Mas apenas alguns espíritos privilegiados, marcados pelo destino — a moira, os fados, o odu —
recebem de seus ancestrais essa dádiva, esse privilégio de fazer
da palavra o pão da sabedoria: são os mestres, os sacerdotes, os
videntes, os que aceitam o peso dessa responsabilidade como
uma verdadeira missão.
Das muitas contribuições ao conhecimento e à divulgação
da sabedoria de seus ancestrais que devemos a Mãe Stella, à veneranda Stella de Oxóssi, soma-se o livro que reúne as crônicas publicadas semanalmente no jornal A Tarde, sob o título de Opinião,
em que generosamente ela divide com o público uma parte de seu
conhecimento e de sua vivência, adquiridos através de uma longa
e devotada existência à missão para a qual foi um dia destinada.
Conheci Stella de Oxóssi através de Jorge Amado, nos
idos de 1968, quando então se implantava no Pelourinho esse
outro templo de saberes, a Fundação Casa de Jorge Amado, que,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
segundo o desejo do escritor, deveria ser uma casa do povo e da
cultura da Bahia.
E assim, antes dos papéis e das cerimônias, das obras e
adaptações que se fizeram no grande sobrado do Largo do Pelourinho, para que nele ficassem eternizados os livros, os escritos e os documentos, preservados para o futuro, foi implantada,
bem na frente da casa, no alto das escadarias em frente ao largo,
com a bênção e a autoridade de Mãe Stella, a imagem de Exu,
como guardião da memória sagrada desta cidade tantas vezes
proclamada de Oxum pelos seus artistas e admiradores.
Muitas coisas eu aprendi com Jorge Amado, uma delas,
das que mais prezo, é o respeito e a amizade dedicados a Stella
de Oxóssi, Mãe Stella, por ele proclamada como uma irmã, a
quem devotou sempre um afeto e uma admiração partilhados
por quantos, como ele, tiveram o privilégio da convivência com
essa verdadeira guardiã dos mistérios da Cidade da Bahia.
Na lembrança de Jorge Amado, obá de Xangô, ogã do Ilê
Axé Opó Afonjá, eu vos saúdo, Maria Stella de Azevedo Santos,
Mãe Stella de Oxóssi — Odé Kaiodê, a estrela brilhante na preservação das crenças de seu povo, intelectual atenta na guarda
dos mistérios e na renovação da cultura.
Em nome dos confrades, que, neste dia exponencial de
vossa biografia, me outorgaram a honra de saudá-la, eu vos recebo com alegria: sede bem vinda, a casa é vossa. Axé. Assim seja.*
Myriam Fraga é poeta, diretora-executiva da Fundação Casa de Jorge
Amado, conferencista no Brasil e no exterior. Publicou, dentre outros,
Sesmaria (Prê­mio Arthur de Sales), Femina e Poesia reunida, o ensaio
Leonídia: a musa infeliz do poeta Castro Alves, e obras infanto-juvenis
sobre vultos como Castro Alves, Carybé e Jorge Amado. Desde 1985
ocupa a Cadeira nº 13 da ALB.
Discurso de saudação à acadêmica Mãe Stella de Oxóssi pela posse na
Cadeira nº 33 da Academia de Letras da Bahia, em sessão solene, no
Salão Nobre da ALB, em 12 de setembro de 2013.
362 ◄◄
ARQUIABADE DOM EMANUEL
D’ABLE DO AMARAL, OSB
Saudação ao acadêmico
Fernando da Rocha Peres
C
om muita honra recebemos Vossa Paternidade, Dom Emanuel d’Able do Amaral, arquiabade do Mosteiro de São
Bento da Bahia de Todos-os-Santos, como membro da Academia de Letras da Bahia.
Insisto e repito que me sinto honrado, pois neste momento, com as lembranças e a palavra escrita, reporto-me ao claustro
do mosteiro, nos idos de 1945, com meu pai, Octávio Peres, que
aos sábados cumpria sua conversa confessional. E, ainda mais,
quando nos veraneios da infância, em Ponta do Humaitá, aos
domingos, assistia à missa na Igreja de Nossa Senhora de MontSerrat, a moreneta, ministrada por monges beneditinos alemães.
E, desde sempre, quando criança, em nossa casa de Nazaré, conheci Dom Clemente Maria da Silva Nigra e, como adulto, fui
seu colega docente na Universidade Federal da Bahia (UFBA),
com quem muito aprendi sobre arte baiana, no Museu de Arte
Sacra. Em 1964, Dom Clemente, no dia 11 de dezembro, na
Igreja de Nossa Senhora da Graça, também beneditina, casoume com Urania Tourinho. Ao depois, foram os monges Dom
Jerônimo Cavalcante e Dom Gregório Paixão que batizaram, na
Graça, o meu filho Daniel e minha neta Paula.
Este retorno ao passado revela a minha amizade, respeito e admiração para com os beneditinos, e, por isso mesmo,
dediquei-me à eleição do arquiabade Dom Emanuel para esta
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Academia, reconhecedor que sou dos seus méritos religiosos e
culturais e do seu devotamento para com a Ordem de São Bento.
Benedetto ou Bento da Nórcia nasceu em 480 d. C., na
região de Úmbria, Itália central, no dia 11 de julho. De família
com nobilitação e recursos, foi enviado a Roma para estudar,
no ano 500, de onde foge, inconformado com a vida mundana
e decadente da cidade, e torna-se um ermitão, vivendo em uma
caverna nas cercanias de Subiaco, no Lácio, quando tinha cerca
de 20 anos. Solitário e meditativo, Bento da Nórcia elabora suas
ideias e depois a sua Regra, e começa a atrair adeptos, dando, assim, início à criação de doze pequenas comunidades monásticas,
estabelecendo-se em Monte Cassino, em 529. No mosteiro que
vai sendo erigido sob sua orientação e obediência, Bento dará
sentido ao monaquismo cristão do século IV de grupos eremitas
dispersos e retirados no deserto egípcio em busca da purificação
e “perfeição”. São Bento dá um corpo a esses anseios originários
dos embates interiores, orientando-os com sua Regra para a “escola do trabalho para o Senhor, em cujo desempenho esperamos
não exigir nada de muito pesado ou muito rigoroso”.
O que se conhece sobre a vida de Bento está perpetuado
em um texto do papa Gregório I, Diálogos de São Gregório Magno,
que acentua o traço miraculoso do beneditino, que morre em
Monte Cassino, em 547, de pé e apoiado por seus discípulos,
recebendo a comunhão e sendo sepultado no túmulo familiar,
onde também jaz sua irmã gêmea, Santa Escolástica.
A Ordem Beneditina expandiu-se na Europa, chegando à
Península Ibérica, em Portugal, no século XI, propagando-se a
sua Regra no Concílio de Coyança, a partir de 1050, como nos
ensina documentadamente Fortunado de Almeida na sua História da igreja em Portugal. Um grande número de mosteiros onde
se recolhiam os fiéis em Cristo, para conviverem e fugirem das
adversidades e do pecado, em busca do exemplo, adota a Regra
de São Bento (Benedicti regant statuta), em Alcobaça, Lorvão, Vacariça, Tibães, Pombeiro, dentre outros.
364 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Na segunda metade do século XVI, os beneditinos portugueses passaram a ter os olhos voltados para o Brasil e a cidade
do Salvador. Em 1584, aqui chegaram nove monges pioneiros,
que se instalaram nas proximidades da cidade, fora do seu muro,
onde estava erigida uma simples capela com a invocação de São
Sebastião, o mesmo lugar e sítio no qual permanecem há quatrocentos e dezesseis anos até os dias de hoje.
O Dietário (1582-1815) do Mosteiro de São Bento da Bahia,
livro recente publicado pela Ordem de São Bento e a Editora
da UFBA, de grande interesse historiográfico e linguístico, nos
ensina e aponta o nome dos nove monges que atravessaram o
oceano para que “nesta quarta parte do mundo se entregassem
nos exercícios de virtude e piedade, assim como estavam fazendo em toda a Europa na sucessão de tantos séculos, com grande
utilidade da Igreja Católica...: Fr. Antonio Ventura, o fundador
nomeado, por provisão real e seus súditos; Fr. Pedro Ferraz, Fr.
João Porcalho, Fr. Plácido da Esperança, Fr. Manuel de Mesquita, Fr. José, um corista subdiácono Fr. Francisco e dois donatos,
Fr. João e Fr. Bento, todos dotados de prendas com que servissem a Deus e à religião, correndo o ano de 1584”.
Hoje, no dia de São Germano de Paris, fundador da
Abadia de Saint-Germain-Des-Prés no século VI, aqui estamos, na Academia de Letras da Bahia, para acolher um jovem
abade, nascido no Rio de Janeiro, no bairro histórico de Santa
Tereza, em 1957, filho de Joaquim Dias do Amaral e Catarina
Lúcia d’Able do Amaral, 373 anos depois da chegada dos monges pioneiros, com uma carreira eclesiástica que se inicia como
postulante no Mosteiro de São Paulo, em 1978, com profissão
solene em 1984, ordenação como diácono em 1984 e sacerdote
em 1985. O menino foi batizado, em 1958, com o nome do pai,
Joaquim Augusto. Quando ingressa na Ordem de São Bento,
assume a identidade de Emanuel.
Joaquim Augusto tem uma vida normal como criança
brincalhona e traquina, apesar dos rigores de sua família paterna
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
com tradição na Marinha de Guerra brasileira. Seu pai, Joaquim
Dias do Amaral, faleceu quando o garoto tinha 11 anos. Seus
tios, em princípio, pensaram que o varãozinho poderia também
aprender a arte da marinhagem. Porém, na pacata e respirável
cidadezinha de Paulo de Frontin, no Rio, o menino “Gugu” e
seu irmão Clemente Orlando vivem na rua, com outros companheiros, andando a cavalo, tomando banho de lago, nadando
na piscina, colecionando gibis e figurinhas. Por estas e outras,
sua mãe, ouvido e concílio familiar, resolve interná-lo em um
colégio de Valença.
Já na adolescência, entra no regime do semi-internato no
Colégio dos Irmãos Maristas, de muito rigor, estudo e esporte,
onde abre seus olhos para a leitura e a religião e torna-se um
bravo ponta-direita nas peladas, aprende a fumar escondido e
tem um namorico romântico e suave — coisa dos tempos idos
— com a menina Mercedes, sorveteando na praça.
Nos deveres e sabatinas, Joaquim Augusto entra em contato com a literatura brasileira contida na Antologia da língua portuguesa, de Segalla, com o fichamento de um livro por semana
e a declamação decorada de poemas. Em seguida, lê Raquel de
Queiroz e Carlos Drummond de Andrade, tendo aprendido a
declamar o seu antológico “José”.
Aos 20 anos, como já sabemos, a Ordem de São Bento
recebe Joaquim e nasce Emanuel, hoje arquiabade e acadêmico.
Como apontamos acima, em sete anos Dom Emanuel estava apto para o exercício do sacerdócio na sua Ordem de São
Bento e segue para Roma com o objetivo de estudar teologia
bíblica na Pontifícia Universidade Gregoriana, reduto jesuíta,
onde se doutorou.
O caminho religioso e intelectual de Dom Emanuel, em
verdade, está alicerçado na sua família, com ascendência nordestina, em União dos Palmares, Alagoas, e, especialmente, com o
desvelo e atenção de sua querida mãe, dona Catarina Lúcia, recentemente falecida, que teve a alegria de saber o seu filho eleito
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
o 79º abade do Mosteiro de São Bento da Bahia, em 22 de junho
de 1994, e membro da Academia de Letras da Bahia, em 20 de
novembro de 2008.
O arquiabade Dom Emanuel, presidente da Congregação
Beneditina do Brasil, passa a conviver conosco na Cadeira nº 37,
cujo terceiro e último ocupante foi o senador Antônio Carlos
Magalhães e que tem como patrono Castro Rebelo, Almáquio
Diniz como fundador e Edith Mendes da Gama e Abreu como
segunda titular e primeira mulher a entrar na Academia — não
sem o protesto de vários confrades.
A eleição de uma dignidade eclesiástica para esta Academia, em assentos de personalidades notáveis da vida religiosa,
já ocorreu quando monsenhor Manuel Barbosa, o cardeal Dom
Avelar Brandão Vilela e o cardeal Dom Lucas Moreira Neves
aqui estiveram por muitos anos, e como permanece até hoje
monsenhor Gaspar Sadoc, aos 93 anos, dando exemplo de assiduidade e interesse.
Não é somente por ser um religioso e abade de um mosteiro com raízes na história do Brasil e da Bahia que Dom Emanuel d’Able do Amaral está entre nós, mas principalmente por
uma expressiva vontade acadêmica que o elegeu nosso confrade,
tendo em vista a vigência na vida social e cultural da cidade de
Salvador, que lhe conferiu galardões e atributos que não podem
ser esquecidos:
1. Continuidade da revitalização física e administrativa
do mosteiro, com a participação da Organização Odebrecht e do Governo do Estado da Bahia;
2. Inauguração do novo Colégio de São Bento;
3. Restauração da Basílica Abacial de São Sebastião;
4. Abertura da Biblioteca e do Museu São Bento;
5. Recepção da Medalha Thomé de Souza, conferida
pela Câmara Municipal de Salvador;
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
6. Eleito “personalidade de destaque no meio cultural da
Bahia” pelo Conselho Estadual de Cultura;
7. Grão-chanceler da Faculdade São Bento da Bahia;
8. Título de “cidadão baiano”, conferido pela Assembleia
Legislativa do Estado da Bahia;
9. Membro da Irmandade do Santíssimo Sacramento e
de Nossa Senhora da Conceição da Praia;
10.Membro teólogo do comitê de ética em pesquisa do
Centro de Pesquisas Gonçalo Muniz, da Fundação
Oswaldo Cruz.
Dom Emanuel exerceu a docência até 1994, quando foi
eleito arquiabade e assumiu obrigações gerenciais e outras, que
o obrigaram a viajar constantemente como visitador apostólico
pelo Brasil e exterior. Mesmo assim, nosso confrade encontrou
fôlego para fundar o Instituto Teológico São Bento e a revista
Análise & síntese, de teologia e filosofia, já no número décimo.
Sob suas gestões, a biblioteca do mosteiro vem recebendo
doações de livros, haja vista o acervo de Pedro Moacir Maia, nosso saudoso confrade, assim como a edição de publicações como
A administração dos bens temporais do Mosteiro de São Bento da Bahia,
de Maria Hermínia Oliveira Hernandez, o Dietário (1582-1815),
uma edição diplomática, trabalho de Alícia Duhá Lose e Dom
Gregório Paixão (OSB) e das estudantes Anna Paula Sandes de
Oliveira e Gérsica Alves Sanches, e o Sermões do frei Domingos da
Transfiguração Machado — o restaurador da Congregação Beneditina Brasileira —, coordenado por Alícia Duhá Lose, todos em
coedição com a Edufba.
Como docente, Dom Emanuel escreveu o livro Introdução
à história monástica, Edições São Bento, 2006, resultante de suas
aulas de história do monaquismo, desde as suas origens até o
século XIX, única em português, que veio preencher uma lacuna
e é adotado nos mosteiros e em cursos de teologia.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
O livro, com 31 capítulos, é uma introdução erudita e bem
escrita, compreendendo as primeiras formas de vida consagrada ao cristianismo, as “virgens” e os “ascetas”, o monaquismo
e sua evolução histórica, sinalizando o autor, evidentemente, a
importância de São Bento e sua contribuição para o contexto
medieval europeu ocidental, com os mosteiros como “[...] centro de luz e vida, em meio a um mundo estático e bárbaro. Os
monges difundiram a cultura e a espiritualidade antigas. O mosteiro tornou-se peça importante na sociedade e na economia”. É
consabido que muitos registros da alta cultura antiga foram retransmitidos e preservados graças aos hábeis copistas medievais
dos diversos mosteiros existentes na Europa Ocidental.
Sem mais delongas, quero finalizar acentuando que nesta breve saudação procurei revelar o percurso de uma personalidade visivelmente atuante em nosso meio intelectual, com o
reconhecimento merecido, e que passará a conviver com seus
pares, acadêmicos e acadêmicas, e poderá, com certeza, contribuir também para o engrandecimento cultural e espiritual desta
Academia.
Seja bem-vindo, arquiabade Dom Emanuel d’Able do
Amaral, e que Deus nos proteja.*
Fernando da Rocha Peres é escritor, historiador e professor da
Universidade Federal da Bahia. Foi um dos criadores das Jogralescas,
da Revista Mapa, das Edições Macunaíma e da Iemanjá Filmes. É
autor de vários livros, como o ensaio Gregório de Mattos: o Boca de
Brasa, e os de poesia Febre terçã, Bula pro nobis e Horta de poesia (poemas
portugueses). Desde 1988 ocupa a Cadeira nº 25 da ALB.
Discurso de saudação ao acadêmico Dom Emanuel d’Able do Amaral
pela posse na Cadeira nº 37 da Academia de Letras da Bahia, em sessão
solene, no Salão Nobre da ALB, em 28 de maio de 2009. O discurso
de posse de Dom Emanuel d’Able do Amaral foi publicado na edição
nº 51 da Revista da Academia de Letras da Bahia (2013).
►► 369
AFRÂNIO COUTINHO E A BAHIA
Centenário do acadêmico
Consuelo Pondé de Sena
C
om um atraso relativamente grande para a importância e
significação do homenageado, aqui estou para, modestamente, louvar a vida e a obra de um notável baiano. Refiro-me
ao conterrâneo Afrânio Santos Coutinho, cujo centenário de
nascimento ocorreu a 15 de março de 2011.
Ensaísta, crítico literário, professor e jornalista, Afrânio
era filho do engenheiro Eurico da Costa Coutinho e de dona
Adalgisa Pinheiro dos Santos Coutinho. Diplomou-se em medicina em 1931, mas nunca exerceu a profissão, passando depois
de graduado a trabalhar, como bibliotecário, na biblioteca da
própria Faculdade de Medicina da Bahia.
Em 1931, transferiu-se para o Rio de Janeiro, passando a
exercer o jornalismo, como anteriormente fizera em Salvador.
No Rio, onde passou a maior parte de sua vida, trabalhou intensamente, tendo falecido aos 89 anos de idade, a cinco de agosto
de 2000. Em 2011 recebeu da terra que o adotara as homenagens de que era merecedor.
Por isso, por menos que minha fala despretensiosa possa
aqui significar, fica registrada a reverência da Academia de Letras da Bahia ao ilustre escritor, ao renovador da crítica literária no país, ao professor universitário, ao doutor honoris causa da
Universidade Federal da Bahia, ao ilustre membro da Academia
Brasileira de Letras.
Não me intimida a grandeza do consagrado patrício,
muito menos as palavras certamente eruditas que poderiam ser
►► 371
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
proferidas pelos escritores desta casa. Estou nesta condição
porque me dispus a fazer um depoimento afetivo. Não sendo
um profissional das letras, tive o privilégio de manter um convívio amigável e amistoso com o saudoso conterrâneo.
As primeiras referências acerca de Afrânio Coutinho chegaram-me ao conhecimento por intermédio de meu pai, Edístio Pondé, que com ele convivera na Faculdade de Medicina da
Bahia e cujo desvio profissional, de médico para cultor da literatura, causara certa estranheza na provinciana Cidade do Salvador. Isto porque a expectativa em torno daquele que se formava
em medicina era exercer a profissão nos hospitais de Salvador
ou do interior do estado.
Muitos anos decorridos e assisti ao concurso de Francisco Herón de Alencar na Faculdade de Filosofia, Ciências
e Letras da Bahia, de cuja banca examinadora fazia parte o
ilustre conterrâneo, já consagrado em todo o país. Estranha
curiosidade os aproximava: ambos eram médicos diplomados
pela Faculdade da Bahia e ambos jamais exerceram a profissão.
Deixaram a ciência de Hipócrates pelo cultivo da literatura.
Ao propor-me a escrever esta oração, privilegiei fazer alguns recortes dos depoimentos de Afrânio Coutinho sobre a
sua Bahia. Entretanto, achei pertinente destacar alguns textos,
pouco conhecidos, sobre o ilustre conterrâneo.
Infância e mocidade
Assim, valho-me, inicialmente, do depoimento de Péricles
Madureira de Pinho, publicado no livro Miscelânea de estudos literários (1984) e originalmente no Jornal do Comércio, do Rio de
Janeiro (12.4.1961), para repassar fatos da infância e da mocidade de Afrânio Coutinho. Esse é um dos poucos artigos, senão o
único, que narra episódios dessa fase da vida do baiano ilustre,
escrita por um colega do Colégio dos Maristas desde 1920.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Afrânio era mais moço do que quase todos seus colegas,
magrinho, franzino, bem tratado, destacava-se no meio daquela confusa pequena multidão. Ali dominavam os alunos internos, filhos do sertão, com as agrestes rebeldias
dos campos de que provinham. Grupos de irmãos como
os Prados de Nova Boipeba, os Dantas de Alagoinhas, os
Catunda de Faria, do Ceará, eram respeitados e temidos.
Rapazes fisicamente fortes e ásperos, bons colegas, desde que não houvesse divergência com eles. Ai de nós se
disputássemos uma das saborosas mangas que caíam das
árvores e das quais se julgavam donos. O interessante é
que os externos, meninos da cidade, íamos ao colégio de
calça curta e camisa esporte, alguns com a inefável gravata
borboleta. Os internos, meninos do meio rural, trajavam
como pequeninos “coronéis”, imitando os adultos do seu
ambiente: calça comprida, gravata e, não raro, colete.
Não havia naquele menino franzino, mais moço que os colegas, qualquer vestígio ainda do homem vigoroso, do polemista excitante, do defensor entusiasmado das próprias
ideias. Já aparecia como estudante caprichoso e consciente
de responsabilidades, distinguido por aqueles excelentes
irmãos, nossos mestres, que adivinhavam a qualidade da
inteligência e do caráter com que lidavam.
Afrânio fez todos os preparatórios entre 12 e 14 anos. Parecia impossível que um menino tão pequeno desse conta
de tarefas difíceis mesmo para nós outros, mais velhos e desenvolvidos fisicamente. E naquele ambiente de reprovação
em massa, em que de distinções não se cogitava e um “plenamente” era um galardão, Afrânio atravessara vitorioso as
“trincheiras” e aos 15 anos já está na Faculdade de Medicina.
Vale lembrar que, àquela altura, a Faculdade de Medicina
da Bahia era o grande celeiro da inteligência e da cultura
em nosso meio. Além do mais, a tradição e o respeito que
a instituição despertava na juventude baiana e na de todo
o Norte e Nordeste do Brasil reafirmava o seu prestígio,
sendo o seu acesso uma recomendação para os jovens que
aspiravam ao sucesso profissional.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Na Faculdade de Medicina, onde Afrânio Coutinho matriculou-se em 1926, o jovem estudante revelou interesse
pelo curso, tendo integrado uma das mais destacadas turmas de quantas que por ali passaram. Foi, nos anos iniciais,
um aluno exemplar, embora nos dois anos finais houvesse
se desinteressado inteiramente da carreira médica. Concluído o quarto ano, sentiu-se desmotivado para exercer
a profissão. Já fora seduzido pela literatura, lendo sofregamente as obras clássicas universais que lhes caíam às mãos.
Não que lhe faltassem os livros das ciências, pois o pai os
fornecia largamente. Economizava, contudo, as mesadas
para adquirir obras literárias. Pouco a pouco foi formando
as coleções de Machado de Assis e Eça de Queirós, início
da grande biblioteca que ia, aos poucos, constituindo.
Apesar do desinteresse pela profissão médica, foi escolhido pelos colegas orador ao paraninfo, quando pronunciou
elegante discurso, revelador da sua inclinação para as letras.
O curioso é que esse gosto pela literatura foi de “geração
espontânea”. Tampouco frequentou Afrânio rodas literárias, e até 1932, quando veio a conhecer Eugênio Gomes
— que iria ser seu maior amigo literário e a maior influência de escritor sobre sua formação intelectual —, não teve
grandes contatos com outros escritores. (MADUREIRA
DE PINHO, p. 427.)
Passo a seguir a sublinhar trechos significativos da fala do
nosso conterrâneo, que, embora tenha passado a maior parte de
sua vida fora de Salvador, sempre se refere com carinho sobre a
terra não esquecida.
Afrânio e a Bahia
Do seu discurso de posse na Academia Brasileira de Letras extraio trecho em que se refere, amorosamente, ao seu estado natal.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Venho de longe, senhores acadêmicos, venho da Bahia, a
terra dadivosa e boa que tanto bem tem feito ao Brasil. Lá
formei o espírito e o caráter, lá reuni a seiva que venho gastando pelos caminhos. Como me faz falta a minha Bahia!
Tenho dela uma saudade indizível. Guardo na retentiva a
imagem daquela cidade super-realista, com as suas ladeirinhas grimpando pelos morros, o encanto de seus telhados
amontoados, as ruas esconsas de cheiro colonial, as igrejas majestosas, os conventos montados nas encostas, a sua
colina sagrada do Senhor do Bonfim, as praias de sargaço
e areia branca, as restingas, os mangais e as ilhas, as suas
árvores — oh! mangueiras e cajazeiras de minha terra! —,
as suas frutas capitosas, as suas comidas e doces, os seus
peixes e mariscos, as tradições populares e festas feéricas de
arraial, a sinfonia multicolorida de seus poentes e o infinito
prateado de seus luares, a música fantástica de suas noites
misteriosas, a alma encantadora e mágica de sua gente, alma
aristocrática acalentada ao som misterioso de seu mar a bater caprichoso à beira das verdes praias, o palácio de cristal
das mães-d’água!
O texto que se segue é um trecho do discurso de recepção
do acadêmico Levy Carneiro ao acadêmico Afrânio Coutinho,
comentário precioso sobre o que o conhecido crítico brasileiro
deixava transparecer sobre seu amor à terra natal: “Na oração
conceituosa e eloquente que acabais de proferir, fizestes crítica
literária de alto quilate, evocastes, com emoção, as duas cidades
bem amadas, falastes de vossa própria vida.”
Doutor honoris causa da UFBA
Mais tarde, em 26 de março de 1981, recebe das mãos do
reitor Luiz Fernando Seixas de Macedo Costa o título de doutor
honoris causa, no Salão Nobre da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, no Terreiro de Jesus. Do reitor mag►► 375
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
nífico escuta as seguintes palavras: “Mestre Afrânio Coutinho
retorna à Bahia, depois de glorificado lá fora, para receber da
Universidade Federal a láurea maior: doutor honoris causa. A sua
terra natal, orgulhosa dos méritos que o consagram, agradece-lhe
os triunfos que também a exaltam, estreita-o afetuosa e envaidecida, agradecendo-lhe a bênção deste título honroso. A partir desta
cerimônia os triunfos serão comuns, porque à Universidade também pertencerão os aplausos a seu eminente doutor.”
Trecho do discurso de saudação do professor David Salles
Não direi que seja uma honra saudá-lo, senhor professor
doutor Afrânio Coutinho, por ser mais o prazer — por
testemunhar maior o dever de fazê-lo. Sua presença, aqui,
postado em lugar de honra, que me obriga justamente a
altear os olhos para vê-lo, condiz com o regozijo de todos
nós em tê-lo de volta — regozijo também meu, discípulo
seu de uma terceira geração de críticos literários brasileiros, que ouviram as suas lições por uma crítica centrada na
obra literária.
Vê-lo aí nesse lugar é como se estivéssemos a reviver a
parábola do filho pródigo, reescrita, em verdade, de um
modo novo e generoso, como sói acontecer a um filho
da Bahia e deste centro humanista de saber universitário.
Nesta hora, senhor professor, são mormente suas as recordações. O jovem Afrânio Coutinho daqui partiu cheio
de riquezas, pois era, como antigamente se dizia, doutor
da Bahia. Mais ainda era doutor em Bahia. Formado pela
Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, por um lado.
E também, seguramente, pós-graduado em sensibilidade
artística, saber adquirido com a pátina das ruas e monumentos barrocos da cidade secular, cultura adquirida com
o povo, esse povo baiano pleno de sabedoria humana, da
qual, aliás, e muito bem, já falou em seus romances um seu
companheiro de geração, Jorge Amado, também doutor
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
(sabemos) e, quem sabe?, seu companheiro de andanças e
aprendizado sensível, por aqueles tempos.
Longe está o ano de 1942, quando o jovem Afrânio partiu
para dispersar, lá fora, as riquezas que levava da casa paterna, tal como na parábola do filho pródigo. Mas disto
não tenhamos censuras. A retórica apaixonada de algumas
de suas polêmicas, a destreza inteligente de sua trajetória
humana e intelectual, o temperamento aberto e caloroso,
são marcas vitais que comprovam a dadivosa dispersão das
graças que a Bahia lhe entregou, mas nunca dará aos incrédulos dessa condição mágica e no entanto tão real: a condição da baianidade. E baiano, claro está, Afrânio Coutinho
sempre soube ser.
No que diz respeito à crítica literária, a ação de Afrânio
Coutinho equivaleu à de um desbravador, de um combatente incansável, procurando retirar a consciência crítica
dos literatos do impressionismo, da superficialidade, da dependência subserviente às demais ciências. Por isso mesmo, o professor, o scholar, o homem de letras e de front
jornalístico, numa palavra o aguerrido e atualizado Afrânio
Coutinho foi o primeiro crítico a levantar mais veementemente, no Brasil, a bandeira de uma crítica universitária
adulta, em que o estudo do texto, da retórica literária, das
formas compositivas da obra, aparecessem como “o objeto capital da função crítica”, no dizer de Alceu Amoroso Lima em seu balanço sobre a crítica literária no Brasil,
em palavras escritas no fim da década de 50. Acrescentava
então Amoroso Lima: “Com isto deslocou-se de novo a
crítica no sentido do objeto, o que marca uma tendência
decidida no sentido do abandono crítico por uma prática
profissional, mais cuidada, dessa atividade.”
É vasto, sem dúvida, o trabalho de Afrânio Coutinho,
como é avultado o número de seus livros. Numa bibliografia recente, organizada por ele próprio, são citados 28
livros, reveladores de sua trajetória intelectual.
Foi nesse pequeno ensaio que Coutinho diz palavras,
em meu entender, de uma formidável clarividência para
►► 377
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
a articulação dos postulados estéticos com a consciência
crítica, que não devemos perder, de que somos brasileiros.
Somos brasileiros por uma específica formação, por uma específica tradição, por uma inconfundível inflexão ideológica
que nos faz diversos dos padrões europeus e coloniais de
nossa formação. A respeito dessa diferenciação, diz Afrânio
Coutinho no ensaio “Por uma crítica brasileira”: “Por que
não procuramos apurar o que de brasileiro existe em nossas letras e artes? Quando começaremos a compreender o
grito de José de Alencar e o de Mário de Andrade em favor
de nossa originalidade, de nossa capacidade de fazer arte e
literatura realmente brasileiras? E quando os nossos críticos
resolverão encarar a nossa literatura pelo que ela possui de
brasileira, e não de repetição de padrões estrangeiros?”
Há uma linguagem brasileira que atravessa os nossos quatro séculos, desde Anchieta a Gregório de Mattos, buscando incorporação temática brasileira e propondo projetos
literários de essência nacional. Essa linhagem exige valorização crítica [...]. Resta conscientizarmos essa atitude. E,
sobretudo, torná-la consciência crítica.
Discurso de agradecimento de Afrânio Coutinho
A vida, que é mãe e madrasta a um tempo, como diria
Machado de Assis, cumulou-me de afagos, como a querer
compensar-me pela ferida, ainda sangrando, que abriu em
meu coração.
São mil benesses que me põem atônito.
Primeira de todas, fez-me nascer nesta terra, e de gente
amorável. E não é em vão que se vem à vida neste recanto
paradisíaco, nesta cidade altamente civilizada e de fecundo
poder civilizatório.
Em seguida, foi uma série de prêmios: capacidade, estímulo, tenacidade, gosto do estudo. Proporcionou-me grandes
amigos, uns que me deram uns empurrões para a caminhada, outros que me embeberam do doce leite da ternura
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
humana, pois a amizade e o amor são os maiores prêmios
que podemos ter.
Deu-me uma vocação e uma carreira, colocando-me na
boa trilha, com excelentes oportunidades. E como me
ensinaram que a oportunidade só tem um fio de cabelo,
aprendi também a agarrar-me a ele com dobrada fúria.
Compreensível, agindo na qualidade de mãe, ela foi assim
acumulando em mim, uma após outras, dádivas e vitórias.
Concedeu-me duas cátedras de literatura — no Colégio
Pedro II e na Faculdade de Letras da Universidade Federal
do Rio de Janeiro. Premiou minha atuação nestes postos
com a nobreza da emerência nessas duas instituições. Deume alento para criar aquela Faculdade de Letras. Antes já
me havia integrado no corpo docente da Faculdade de Filosofia da nossa Bahia.
Elevou-me à mais alta honraria a que pode aspirar um puro
homem de letras — a Academia Brasileira. Por acréscimo
me propiciou a congênere instituição de minha terra. Recentemente, ainda me proporcionou ser membro do mais
elevado tribunal do ensino entre nós, o Conselho Federal
de Educação.
Fez-me viajar pelo mundo, sem que jamais suspeitasse essa
possibilidade, baldo de recursos como somos os trabalhadores intelectuais. Forneceu-me um jardinzinho para cultivar, e nele vi germinarem e crescerem duas plantas raras e
preciosas ao aconchego de um grande amor.
Um dia saí desta amada gleba e, ao meditar de mim para
comigo, não consigo vislumbrar as razões que levam a migrar. Força do destino? Ânsia intelectual? Ímpeto para luta
em arenas mais amplas? Ninguém saberá jamais decifrar o
enigma. E eu saí. Não me faltaram desejos de voltar. Mas
não se volta uma vez partido. We can´t go home again, disse
o romancista americano. Fica-me o travo de haver partido.
Um dia juntei os trapos e pus-me a caminho. Fui para longes terras, chamado por aquele grande brasileiro e grande
baiano — Otávio Mangabeira —, a quem rendo neste instante o preito de admiração e saudade.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Estudei, estudei, estudei. Ganhei experiência, e nada melhor do que o estrangeiro para fazer-nos perder a ingenuidade e a timidez. A personalidade se consolida.
De regresso, em doze anos era admitido na Academia Brasileira de Letras.
Foi intensa a atividade intelectual.
Todavia, aqui a puridade vos digo, meus caros conterrâneos e amigos. Tudo que consegui fora, todos os postos e
prêmios, não foram obtidos gratuitamente.
As cátedras, a Academia, eu as conquistei porque quis.
Não me foram dadas. Eu as arranquei à força. Com a seiva
forte de minha baianidade, que daqui levei.
Por isso dou valia a este prêmio que me concedeis agora.
É que ele partiu de um movimento exclusivo do coração.
É uma dádiva de amor, de amizade, de fraternidade, um
ato espontâneo de baianidade. São os baianos os meus
companheiros e colegas que visam premiar o baiano, que
se orgulha de viver baianamente.
E esse gesto puro é feito com sutileza de cálida amizade pela voz desta vitoriosa Universidade Federal da Bahia,
na qual comecei minha carreira no magistério superior. E
com ainda maior sutil significação da parte do reitor Luís
Fernando Macedo Costa, ao realizar esta festa neste augusto salão, onde assisti a alguns dos mais belos prélios do
espírito, e de onde saí com o meu anel de esmeralda.
Que posso dizer-vos para testemunhar-vos minha gratidão? De logo, afiançar-vos que não esqueço a Bahia. Ela
vive no meu coração, no meu cérebro, nas minhas veias, no
meu sangue, na minha memória. A Bahia é mágica.
Conheço esta vetusta e sempre nova, esta espetacular Cidade do Salvador, como a palma da minha mão. Amo-a
de todo coração. De longe, revejo em espírito as suas belezas naturais, a sua esplêndida paisagem, os seus recantos, os seus crepúsculos, as suas árvores, as suas calçadas,
a sua viração gostosa, as suas praças, ah! o Campo Grande, onde nasci e que atravessei anos a fio em busca do
Colégio dos Maristas. Como sinto os perfumes e ouço os
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
pregões antigos de nossa terra tão rica de espiritualidade.
A tudo aqui minha alma é sensível. Só com esta declaração de amor filial é que posso traduzir a emoção de estar
entre vós recebendo das mãos do magnífico reitor Luís
Fernando Macedo Costa e do egrégio Conselho Universitário a enobrecedora comenda de doutor honoris causa
que o Instituto de Letras decidiu prender ao meu peito.
Em Luís Fernando Macedo Costa, como um símbolo de
todos vós, eu centralizo minha gratidão. E a David Sales,
que interpretou o sentimento amigo, não menor agradecimento. Do fundo de minha baianidade comovida, eu
vos agradeço.
Trecho do discurso de Afrânio Coutinho ao receber Eduardo Portella na Academia Brasileira de Letras em 18 de
agosto de 1981
Sr. Eduardo Portella,
Nascestes na Bahia, naquela Salvador barroca, cidade encantada e misteriosa, altamente civilizada e civilizadora,
da qual recebestes o gosto da conversa amável e culta, da
convivência gentil, das boas maneiras, da sociabilidade, do
convívio familiar, da arte de bem receber e da boa mesa.
Dela deriva a vossa tendência à composição sem capitulação. É que, civilização humanística a da Bahia, procura
resolver os contrastes políticos e sociais pela conciliação e
pelo diálogo, pela miscigenação e hibridismo, detestando
os sectarismos e as posições extremas. Estou a ouvir a música celestial de seus milhares de campanários dobrando
as ave-marias! Ainda escuto o batuque de seus atabaques,
subindo do fundo dos vales e enchendo as suas noites de
sonho e mistério. Bahia mágica!
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
O baiano Afrânio Coutinho
Assim intitulou seu artigo o escritor Jorge Amado, em texto publicado no Diário de Notícias, do Rio de Janeiro, a 19 de
março de 1961, quando Afrânio completou 50 anos.
Conta-se de uma profunda e acirrada discussão entre marxistas sobre o problema seguinte: pode-se já considerar o
Brasil uma “nação” dentro da conceituação marxista, ou
ainda não se completaram por inteiro os elementos caracterizadores desse fenômeno? Divididos estavam os contendores, e exaltados. Num canto silencioso, sem participar, um
intelectual de certa nomeada. Solicitaram-lhe os polemistas
a opinião, fosse ele o juiz: era ou não era o Brasil uma nação?
Com voz mansa, o interrogado, culto baiano cujo nome já
se fazia conhecido no país, respondeu:
— O Brasil eu não sei não... Agora, a Bahia, ah! A Bahia
eu posso afirmar, sem sombra de dúvida, é uma nação...
Tão de novo, homem que virou pelo avesso os conceitos
da crítica e da história literária do Brasil, tão polêmico e
obstinado, que, em certos momentos, até dá a impressão
de ser paulista ou pernambucano. Mas só por um rápido
instante, pois logo depois é o baiano mais baiano, escancarando-se na arte (tão baiana) de admirar, de estimar, de
louvar. Não fora ele baiano e sua obra de renovador da
crítica não poderia ganhar a amplitude a que chegou, não
se tornaria obra coletiva. Essa capacidade do coletivo é
extremamente baiana. O nosso samba é o samba de roda,
dança coletiva (enquanto é individual o samba carioca e
individual o frevo pernambucano, mesmo quando dançado por milhares de pessoas), nossa luta capoeira, também
coletiva, sua A literatura no Brasil é obra de vários e importantes homens de letras. Mas é também a sua obra resultado de sua obstinada vontade. O clima de polêmica que
o cerca, a esse baiano Afrânio Coutinho não chega jamais,
no entanto, ao desconhecimento da importância real de
seu trabalho e de sua influência.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Como é minha intenção dar a palavra ao homenageado de
hoje, reproduzo aqui, ipsis literis, o que escreveu sob o título de Minha Bahia, publicado no livro Afrânio Coutinho, da Fundação Casa
de Jorge Amado, em 2003, após o falecimento do ilustre imortal.
Minha Bahia
A data é propícia à recordação.
Ela não me sai da alma. Tudo me faz lembrá-la com emoção, com saudade infinda, minha Bahia amada, a cidade
mágica encantada. Então dir-se-á, por que você saiu, por
que foi embora? Sim, parti um dia. Mas foi para melhor
recordar. Para sentir mais. Para enxergar melhor. Dentro,
no dia a dia, as coisas esmaecem, não se dá atenção, importância, acostuma-se. Longe, valores, belezas, costumes,
crescem, ficam vivos na memória, avultam, tornam-se carne da carne. Passam a viver a toda hora, nos vários lugares,
em toda a parte. A gente vê melhor.
Não me saem da memória as ruas, as casas, os casarões
seculares, as ladeiras, esta esplêndida baía, os seus esplendorosos crepúsculos, com o Sol morrendo aceso por cima
da Ilha de Itaparica. Até as pedras das ruas estão presentes, as pedras do caminho para os Maristas, pelo Campo
Grande e Canela. Até os tiquins que caíam das árvores no
Canela e que serviam para o jogo de gude nos recreios.
Até as figuras da rua, como o velho Dr. Raiz, que um dia
quase me acertou uma pedrada dirigida contra um moleque provocador. E a Baixa do Canela, caminho alternativo
de volta para casa. Até os pregões de rua, como o da preta
que percorria a cidade com uma tigela na cabeça cheia de
carnes frescas a mercar “Figuê!”, ou o vendedor gritando
“Geleia de araçá!”. Ou a do acarajé!
Minha Bahia de meus amigos de infância, o querido Jones
Seabra, o mais antigo, e os Madureiras, o Tude. E, depois,
os colegas da faculdade, o Catão, o José Dias, o Galeno,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
o Prisco, o Novis, José Silveira, Adriano Pondé, Claudelino Sepúlveda, e as caminhadas pela Rua do Colégio, ao
tempo em que estava de pé a velha Sé, antes da criminosa
derrubada, a que assistimos chorando. E os longos papos
na Praça do Palácio, com o saudoso e grande Eugênio Gomes, papos literários infinitos, quando ele me despertou
para a literatura e crítica inglesas. E o colégio da grande
Anfrísia Santiago, que me iniciou no magistério. Antes,
porém, já me havia familiarizado com a língua francesa,
a ponto de poder dominar os manuais de medicina. Que
curso secundário nós todos recebíamos!
A Bahia de meu pai, que tanto lhe serviu em obras de engenharia e arquitetura, como a antiga Biblioteca Pública
e a Secretaria de Educação na Vitória, obras públicas e
particulares, ruas e avenidas, tudo trabalhado com amor
e dedicação, sem merecer o final sofrido e injusto, pelos
homens maus, que quase o levaram ao desespero, tal como
testemunhei em nossa casa do Farol da Barra, cena que
ainda me amargura.
Em compensação, a minha Bahia, a minha Barra, me presentearam generosamente com a felicidade que encontrei
no 541 do Porto da Barra, a dádiva do amor fecundo e
angelical, numa família amorável.
Minha Bahia! É mentira. Não parti, lá estou para sempre,
respirando a maresia de suas lindas praias, absorvendo a
luz maravilhosa do seu céu, luz especialmente criada para
os pintores, olhando de cima, com olhares perdidos, o
fundo de sua baía, subindo as suas ladeiras calçadas de
cabeça de negro, percorrendo as suas igrejas mais lindas
do mundo; esta Bahia do Senhor do Bonfim na colina
altaneira a proteger-nos; esta Bahia barroca, da arte barroca mais fantástica, sem igual, verdadeiro sonho; esta
Bahia mulata, de alma cheia da mais bela música mestiça, de um ritmo único, que lhe deu a acoplagem com
a raça trazida nos navios negreiros; esta Bahia de meus
antepassados senhores de engenho; esta Bahia do Campo Grande magnífico, onde nasci, na casa do meu avô
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Romualdo, da Livraria Catilina; esta Bahia da convivência amável; nela adquiri o hábito de estudar 12, 14 horas
por dia, e a regra de não perder tempo; esta Bahia de
cujo humanismo recebi minha norma de independência
de espírito: intelectual, política e ideológica; foi ela que
me deu a inspiração e o élan para decidir de mim para
comigo, naquela manhã na praia, sozinho, que iria fazer
alguma coisa pela literatura brasileira; esta Bahia de suave
lirismo interior, meigo, traduzido pela palavra de poetas;
esta Bahia de nosso Castro Alves, o cantor magnífico de
nossa gente, de nossa alma; esta Bahia mágica, lânguida,
gostosa, dengosa, tranquila, sem pressa, porque já chegou. Chegou a um tipo de civilização e cultura própria,
peculiar, que não tem que mudar. Esta Bahia, que todos,
seus filhos, amamos com Deus no coração.
A três amigos devo indicações preciosas, sem as quais não
poderia escrever este texto. Zilma Parente de Barros indicou-me
a publicação da UFBA na qual estão as palavras do reitor Macedo Costa, o discurso de saudação feito pelo professor David
Sales e o agradecimento do homenageado por ocasião da outorga do título de doutor honoris causa da UFBA, publicação só
obtida com sacrifício na Biblioteca Frederico Edelweiss, depois
de paciente busca feita pela bibliotecária Zelinda Lopes. O amigo acadêmico Edivaldo Boaventura emprestou-me Miscelânea de
estudos literários, o livro do qual extraí o depoimento de Péricles
Madureira de Pinho e o texto de Dr. Eduardo Coutinho “Afrânio Coutinho: um Quixote das letras no Brasil”. Por último, João
Eurico Matta, que, com sua conhecida generosidade, cedeu-me,
esta semana, Afrânio Coutinho, publicado pela Fundação Casa de
Jorge Amado, 2003, que li com imensa satisfação, não apenas
pelos artigos que nele se encontram, mas pelo texto escrito pelo
próprio João Eurico, “Trajetória intelectual de Afrânio Coutinho”, e o da acadêmica Myriam Fraga, dois magistrais trabalhos
sobre o saudoso conterrâneo.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Meu trabalho consistiu, apenas, em reunir estudos primorosos da lavra de consagrados escritores e do próprio homenageado. Minha intenção centrou-se, principalmente, em
permitir que se conheça a “baianidade” de Afrânio, a fim de
que seus conterrâneos saibam da sua imensa ternura por esta
terra, que é de todos nós, pela qual devemos sempre nutrir o
mais desvelado orgulho.*
REFERÊNCIAS
COUTINHO, Graça et al. Afrânio Coutinho. Salvador: Fundação Casa
de Jorge Amado, 2003. (Casa de Palavras. Série Bahianos).
LIMA, Alceu Amoroso et al. Miscelânea de estudos literários. Homenagem
a Afrânio Coutinho. Rio de Janeiro: Pallas, 1984.
Consuelo Pondé de Sena é historiadora e ensaísta, especialista em
língua tupi e etnologia geral e do Brasil e mestre em ciências sociais pela
Universidade Federal da Bahia. É presidente do Instituto Geográfico
e Histórico da Bahia e sócia correspondente do Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História. Desde
2002 ocupa a Cadeira nº 28 da ALB.
Discurso proferido em sessão ordinária da Academia de Letras da
Bahia, na Sala de Reuniões, em 27 de setembro de 2012.
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ANTÔNIO LOUREIRO DE SOUZA
Centenário do acadêmico
Edivaldo M. Boaventura
O
antonino dia de junho de 2013, a Academia de Letras da
Bahia consagrou-o inteiramente à memória do confrade
Antônio Loureiro de Souza, comemorando juntamente com a família os seus cem anos. A convivência na Academia e na Universidade Federal da Bahia possibilitou-me não somente conhecê-lo,
como também admirar a dedicação a Cachoeira e o seu contributo
à crônica literária, à história e ao ensino do jornalismo.
Cachoeira a Salvador, passando por Castro Alves
Antônio Loureiro de Souza nasceu em 13 de junho de
1913 na cidade “da Cachoeira”, como dizem os naturais daquela histórica cidade. A contração da preposição com o artigo dá
mais força patronímica, telúrica, psicológica e verbal, semelhante à expressão “do Recife”. “Sou da Cachoeira” é uma relação
possessiva, diria mesmo genitiva, gera, engendra, faz nascer,
marca a origem, o nascimento.
O professor Sérgio Mattos (2013) complementa: “Loureiro era um cachoeirano típico, que tinha orgulho de suas origens,
que não perdia oportunidade para falar de sua terra natal.” Pois
bem, por três vezes Antônio Loureiro de Souza foi homenageado, no dia 25 de junho, pela colenda Câmara Municipal da sua
cidade, informa o advogado e jornalista Romário Costa Gomes.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
É uma alta distinção reservada aos seus filhos ilustres. São as
filigranas afetivas das interioridades.
Muito cedo manifestou a inclinação para o jornal. Ainda
na infância, foi com a família morar na cidade de Castro Alves,
depois se mudou para Salvador, onde estudou no Ginásio Carneiro Ribeiro. Retornou a Castro Alves como gerente do Banco
de Administração e fundou o semanário O Tempo, noticioso,
político e literário. Mais tarde, volvendo à sua terra, dirigiu O
Social. Depois dessas incursões jornalísticas, que duraram seis
anos, aceitou o desafio de enfrentar a imprensa na capital. Em
1939, Jorge Calmon publicou o seu primeiro artigo em A Tarde. Passou a colaborar com O Imparcial e com o Jornal da Ala,
dirigido pelo prestigiadíssimo Carlos Chiacchio, um dos nossos.
Trabalhou, então, no Diário da Bahia como redator.
Até que alcançou A Tarde, ainda no tempo de Ernesto Simões Filho. Primeiramente serviu como subsecretário e, depois,
como redator-secretário. Por vários anos permaneceu na redação sem, todavia, deixar a colaboração assinada, mantendo uma
seção de crítica literária, intitulada “Autores e livros”. Uma parte
desses ensaios e artigos formou o livro Perfis literários (SOUZA,
1977), publicação da Gráfica Universitária da Universidade Federal da Bahia. O secretário da redação de A Tarde manifestou
sua inclinação para as letras, concomitantemente com o exercício do jornalismo. Muito jovem, perpetrou o soneto ainda em
sua cidade natal e se decidiu pelo jornal como um meio profissional e literário.
Ao entrar para esta companhia, confessou que a sua vocação foi ser jornalista: “Na imprensa do interior e na desta capital, trabalhei os melhores anos de minha vida. Sem medo, sem
receio, sem curvar-me jamais, digo-o com desvanecido orgulho
— identificando-me com o povo a quem servia através do jornal
onde militava.”
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
O pioneiro curso de jornalismo
Entretanto, uma inovação absolutamente pioneira alterou
a sua vida e de outros jornalistas. O profissional formado longamente em serviço, na prática cotidiana da redação, como era
a aprendizagem na época, ingressou no primeiro curso superior
de jornalismo, instituído pela Faculdade de Filosofia, Ciências e
Letras da UFBA em 1950. A gestão inovadora do reitor Edgard
Santos, que criara os cursos na área das artes — música, teatro
e dança — e novos cursos em geologia e administração, atingiu
também a formação universitária em jornalismo. Assim, começou pelo jornalismo o ensino da comunicação na UFBA.
O curso de jornalismo foi pioneiro na Bahia e no Nordeste, comprovadamente iniciado na Universidade Federal da
Bahia. Sérgio Mattos (2009, p. 295) comprova documentalmente com a aprovação do regimento da Faculdade de Filosofia da
UFBA, pela sessão do Conselho Universitário de 28 de abril de
1949, nele inserido o curso de jornalismo, instalado no ano de
1950, com afluência de candidatos. Os primeiros bacharéis colaram grau em 1952, em número de 64, dos quase 120 ingressos.
Segundo Germano Machado, que foi indicado para fazer o
curso pelo jornal A Semana Católica, contava com mais de cem
alunos. O curso foi instituído pelo então ministro da educação
e saúde, Clemente Mariani, fundador dos cursos de jornalismo
no Brasil. Em reconhecimento, foi o paraninfo (CUNHA, 1989).
Para Germano Machado (1999, p. 255), o curso foi uma “invasão
de bárbaros” na antiga Faculdade de Filosofia, criada e dirigida
por Isaías Alves. Até então a Faculdade de Filosofia era predominantemente feminina, os homens pesavam pouco. Com a instalação do curso de jornalismo, começou a guerra fria de direita e
esquerda, luta pelo diretório acadêmico e política estudantil.
O professor Jorge Calmon, catedrático de história das
Américas, ministrou técnica do jornal e recebeu a homenagem
especial. Acreditou na criação, instalação e diplomação do curso,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
defendeu-o, inspirando-se em Rui Barbosa, pela liberdade de imprensa. Enfim, Mário Figueiredo Barbosa (2009), o orador oficial
da turma, eleito por unanimidade, destaca a participação de Jorge
Calmon nesse curso pioneiro de 1950-1952.
Mas o pioneirismo do ensino do jornalismo, do qual participou Antônio Loureiro de Souza como aluno, não teve continuidade imediata. Anos depois, em 1962, consta que o reitor
Albérico Fraga convidou Jorge Calmon, professor e jornalista
profissional com anos de serviço prestado em A Tarde, para
organizar o bacharelado em jornalismo, conforme Mônica Celestino (2000, p. 4).
Conjecturo que, dentre os professores selecionados por
Jorge Calmon, estava Antônio Loureiro de Souza. Para a oficialização desse curso pelo Ministério da Educação, houve problemas: considere-se que o Departamento de Administração
e Serviço Público (DASP) enquadrou os seus docentes como
professores secundários, com veemente protesto do jornalista e
professor Zitelmann de Oliva.
Com a reestruturação da UFBA, o curso de jornalismo
não mais ficou na Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas.
Jornalismo e biblioteconomia, pela afinidade comunicativa,
constituíram a Escola de Biblioteconomia e Comunicação, em
1968. Nela Antônio Loureiro ensinou história da imprensa, história do livro e história da comunicação, foi vice-diretor e diretor
de 1976 a 1979 (Cinquentenário, 1992, p. 39). A propósito, colhi o
depoimento do professor Sérgio Mattos (2013), jornalista diplomado, mestre e doutor em comunicação, aluno e depois colega
de departamento de Antônio Loureiro:
Como professor, sempre disponibilizava o acesso a sua
rica biblioteca a seus alunos, principalmente aqueles que
ele identificava possuir algum potencial ou que eram ligados a ele por estarem interessados em leituras que também lhe despertavam o mesmo interesse. Em suas aulas
de história da imprensa, dava o seu show particular de co-
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
nhecimento, gesticulando para enfatizar ainda mais suas
palavras, fazendo com que seus alunos prestassem atenção ao que dizia. Seu método de ensino lhe era próprio,
quando na área de conhecimento que dominava. Era uma
verdadeira biblioteca ambulante, respondendo de pronto
a todo e qualquer questionamento. Como professor de
história geral e de história da imprensa, membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, deixou contribuições valiosas para estudiosos da história da imprensa da
Bahia, pois seus artigos são hoje verdadeiros roteiros para
pesquisas a serem desenvolvidas. Deixou o caminho das
pedras para que outros se aventurem no levantamento
dos dados para escrever a história da imprensa da Bahia.
A partir de 1985 até 1987, houve a separação da Escola
de Biblioteconomia e Comunicação. A comunicação constituiu a
Faculdade de Comunicação, enquanto biblioteconomia e arquivologia formaram o Instituto da Ciência da Informação da UFBA.
O escritor, a crítica literária em jornal e a história
Ao ingressar nesta companhia, Antônio Loureiro se autodefiniu como escritor: “Dediquei-me um pouco à história, um
pouco à síntese biográfica, um pouco à crítica literária. Contista
bissexto, poeta na juventude, continuo perlustrando o áspero
caminho, cheio, no entanto, de muito encantamento, que suaviza
os dissabores, porque é uma atividade que vem do sonho, criando beleza.” (SOUZA, 1973-1974, p. 68.)
Observando a sua atividade de jornalista, percebe-se que
é claramente concomitante com a literária. Comecemos pela
história, nas suas duas variantes: a da Cachoeira e a sua contribuição para a história da imprensa baiana, em seguida a contribuição literária.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
História da Cachoeira e da imprensa baiana
O grande interesse era a história da Cachoeira. Exercitouse em variados textos. Como livro, publicou Notícia histórica da
Cachoeira (SOUZA, 1977), que saiu na coleção Estudos Baianos,
da Universidade Federal da Bahia. Ocupou-se das igrejas, minas
de cobre do Iguape, Belém, relacionamento com a independência e pequenas biografias de cachoeiranos famosos, que não são
poucos. A vila de Belém ocupa um destacado lugar. Na Revista
do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), do qual
era sócio, buscou as origens, o padroeiro, o seminário fundado
pelo padre jesuíta Alexandre de Gusmão, anexou planta do prédio, tratou das experiências do padre Bartolomeu de Gusmão, o
Padre Voador (SOUZA, 1975, p. 63-77). Assinalou, anos depois,
o tricentenário da igreja de Belém da Cachoeira (SOUZA, 1990,
p. 57-68). Há outros registros na Revista do IGHB (SOUZA,
1973, 1978 e 1991).
Quanto à investigação histórica da imprensa, cada vez mais
se valoriza o seu contributo. Luís Guilherme Pontes Tavares, cultor dessa matéria entre nós, tem chamado a atenção para os estudos de Loureiro, em especial “Apontamentos para a história da
imprensa na Bahia”, que começa afirmando: “A partir de 1911,
até a época atual, nada existe sobre a história da imprensa baiana, senão artigos esparsos, enfocando alguns aspectos isolados”
(SOUZA, 1972, p. 161-174). Está publicado na revista Universitas, números 12-13. O levantamento a partir de 1911 até a data da
publicação é exaustivo, relacionando jornais existentes e extintos e
os principais eventos, como a Revolução de 1930. A importância
do contributo de Loureiro se justifica por cobrir um tempo, de
1911 a 1970, que não se encontra inventariado. O ensino da história da imprensa deve ter-lhe estimulado a pesquisar a imprensa escrita. Loureiro é, pois, um pioneiro da história da imprensa baiana.
É bem de ver que a história da imprensa vem sendo trabalhada por Cibele de Ipanema, seguindo as sendas de seu marido,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Marcelo de Ipanema, e outros no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). Do seu lado, o Museu Nacional da
Imprensa, Jornais e Artes Gráficas, sediado na cidade do Porto,
dirigido pelo professor Luís Humberto Marcos, tem linha de
pesquisas e publicações sobre a história da mídia impressa.
A síntese biográfica e a crítica literária em jornal
A síntese biográfica tem destaque na obra de Antônio
Loureiro de Souza com o livro que recebeu o prêmio Carlos de
Laert, em 1950, da Academia Brasileira de Letras, Baianos ilustres
1564-1925. Vale destacar a escolha das 100 e depois das 150 personalidades. Livro para consultas imediatas. Como sócio do Instituto Genealógico da Bahia, do IGHB e da nossa Academia, há
mais perfis nas suas revistas: Severino Vieira, Visconde do Rio
Vermelho, Frederico de Castro Rebelo, Humberto de Campos,
Augusto dos Anjos (SOUZA, 1950 e 1972).
Antônio Loureiro defendeu a crítica literária no jornal. Na
Bahia, foi expoente desse tipo de abordagem Carlos Chiacchio.
Em A Tarde, manteve a atividade de redação concomitantemente com a seção “Autores e livros”. Naquela época era comum e
aceita. Era o tempo da crítica literária em jornal, hoje praticamente desaparecida. O seu livro Perfis literários (SOUZA, 1977)
cobre um largo período do século XX.
Antônio Loureiro (1950 e 1988) fez a reunião dos poemas
de Pedro Barros em dois livros. Impressionado com esse poeta
de Castro Alves desde a infância, resgatou o que dele encontrou
e o editou. Com o poeta amigo Nathan Coutinho, fez o mesmo, produziu uma coletânea de sua poesia (SOUZA, 1978). Ao
saudar Ivan Americano da Costa e Clóvis Lima, colocou bastantes poemas (SOUZA, 1980 e 1981). A Revista da Academia se
enriqueceu com suas contribuições. Por fim, tem estudo sobre
Gregório de Mattos (1950).
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Como cidadão prestante, Antônio Loureiro de Souza
compôs o Conselho Estadual de Cultura, a Associação Baiana
de Imprensa, o Sindicato dos Jornalistas da Bahia, foi correspondente do Instituto Histórico de São Paulo, membro da Academia de Letras e Artes Mater Salvatoris e da Associação Brasileira
de Escritores. Além da participação colegiada, dirigiu o Arquivo
Histórico Municipal de Salvador, o Departamento Municipal de
Turismo, a Superintendência da Difusão Cultural da Bahia e a
Federação das Indústrias do Estado da Bahia.
Para concluir, o ingresso de Antônio Loureiro de Souza
na Academia.
A consagração do jornalista escritor
O jornalista bem sucedido, com obras publicadas, e o professor experiente aproximaram-se da Academia. Possuía as condições tacitamente aceitas para postular o sodalício: personalidade
de líder e aceita pela comunidade, bom currículo, com passagens
pelos órgãos de cultura, e publicações. Começou a cumprir o ritual das visitas formais aos acadêmicos (a mudança do estatuto
terminou com essa prática tão usual na vida acadêmica).
Dessa maneira, recebemos em nossa casa Antônio Loureiro de Souza, postulando a sucessão de Jayme Junqueira Aires,
professor de direito, advogado e jurista. Trouxe-nos o seu bem
premiado livro Baianos ilustres. A sua candidatura teve a adesão
do grande eleitor, Jorge Calmon, de Edith Mendes da Gama e
Abreu, do presidente, monsenhor Manoel de Aquino Barbosa,
e o apoio firme do amigo Jayme de Sá Menezes. Obteve uma
expressiva votação.
Antônio Loureiro de Souza nasceu para a Academia em 28
de novembro de 1973, quando foi saudado por Jayme de Sá Menezes. Tomou posse na sede deste grêmio no Terreiro de Jesus,
reformada na presidência de José Calasans com a ajuda financeira
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
e sergipana de Mamede Paes Mendonça. Loureiro de Souza fora
eleito naquele mesmo ano e mês, em oito de novembro, sucedendo a Jayme Junqueira Aires. Com ele havia concorrido em 1953,
portanto vinte anos depois o sucederia. Antes, em 1965, disputara
à sucessão do doutor Afonso de Castro Rebelo Filho, mas na Cadeira do poeta Péthion de Villar, de número 13. Na correspondência para suceder a Castro Rebelo, encontrei anexo o curriculum
vitae que arrola as suas atividades até aquela época.
De 1973 a 1989, a Cadeira de número 27 pertenceu plenamente a Antônio Loureiro de Souza. É patrocinada pelo
médico Francisco Rodrigues Silva, fundada por Frederico de
Castro Rebelo, da ilustre dinastia de intelectuais baianos, médicos, juristas e poetas, e ilustrada por Antônio Viana. Loureiro
de Souza teve uma escolha consagradora, com 33 votos, praticamente a totalidade dos acadêmicos votantes. A sua eleição
confirmou antigo desejo gregário, em plena maturidade intelectual dos 60 anos.
Com presença assídua, exerceu com eficiência a secretaria
deste sodalício, como atesta a correspondência oficial. Recepcionou os poetas Ivan Americano da Costa e Clóvis Lima, componentes daquele grupo de poetas e intelectuais amigos: Jayme de
Sá Menezes, Ivan Americano da Costa, Clóvis Lima, Fernando
Diniz, Mário Cabral, Humberto Lírio e Nathan Coutinho, político de sucesso, deputado estadual, presidente da Assembleia
Legislativa da Bahia, pai da escritora Sônia Coutinho e do professor Nelson Coutinho, recentemente falecido. Grupo identificado pelo presidente Aramis Ribeiro Costa.
Antônio Loureiro de Souza deixou a lembrança de sua
presença assídua e de sua fala expressiva e vibrante. Recordemos a sua Cachoeira, que revive hoje com a presença colorida e
movimentada de universitários, e nos lembremos das coletâneas
de poetas esquecidos. Uma de suas principais contribuições foi
ter aberto veredas para o estudo da história da imprensa baiana.
O nosso homenageado partiu em 29 de abril de 1989.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
A vida profissional de Antônio Loureiro de Souza demonstra a lenta passagem da aprendizagem do jornalismo em serviço
para a formação em curso regular universitário de jornalismo.
Em 26 de abril de 1990, o escritor James Amado recolheu
a sucessão do confrade Antônio Loureiro de Souza. E em 13 de
junho de 2013 arredondamos com as nossas recordações o seu
primeiro centenário.
REFERÊNCIAS
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Quarteto; IGHB, 2009, p. 38-40.
CASTRO, Renato B. de. Breviário da Academia de Letras da Bahia: 19171994. 2. ed. Salvador: Conselho Estadual de Cultura, 1994.
CELESTINO, Mônica. Notas sobre a formação superior em jornalismo
na Bahia: do curso pioneiro à explosão da oferta nos anos 2000. XII Encontro Nacional de Professores de Jornalismo. Belo Horizonte: 2009. (Anais...
Brasília: Fórum Nacional de Professores de Jornalismo, v. 1, 2009. In:
www.fnpj.org.br/soac/ocs/viewabstract.php?id=486&cf=18).
CUNHA, João F. da. Lembrança de Antônio Loureiro. A Tarde, Salvador, 4 maio 1989.
MACHADO, Germano. Invasão de bárbaros. In: BOAVENTURA,
Edivaldo M. (Org.). UFBA: trajetória de uma universidade 1946-1996.
Salvador: EGBA, 1999, p. 255-257.
MATTOS, Sérgio. O contexto midiático. Salvador: IGHB, 2009.
SOUZA, Antônio Loureiro de. A poesia emocional de Pedro Barros. Castro Alves (BA): Prefeitura Municipal de Castro Alves; Academia de
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__________. Perfis literários: ensaios. Salvador: Gráfica Universitária,
1977.
__________. Gregório de Matos e outros ensaios. Salvador: Livraria Progresso Editora, [1950?]. (Cadernos da UBE).
__________. A poesia de Nathan Coutinho. Salvador: Empresa Gráfica
da Bahia, 1978.
396 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
__________. A poesia de Clovis Lima. Revista da Academia de Letras da
Bahia, Salvador, v. 28, p. 77-83, 1980. (Discurso de recepção).
__________. A poesia de Ivan Americano da Costa. Revista da Academia de Letras da Bahia, Salvador, v. 29, p. 85-96, 1981. (Discurso de
recepção).
__________. Apontamentos para a história da imprensa na Bahia.
Universitas: Revista de Cultura da UFBA, Salvador, v. 12-13, p. 161-174,
1972.
__________. Baianos ilustres: 1564-1925. 2. ed. Salvador: Beneditina,
1973. (Edição comemorativa do sesquicentenário do Dois de Julho).
__________. Belém da Cachoeira. Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, Salvador, v. 85, p. 63-77, 1975.
__________. Discurso de posse. Revista da Academia de Letras da Bahia,
Salvador, v. 23, p. 58-79, 1973/1974.
__________. Notícia histórica da Cachoeira. Salvador: Universidade Federal da Bahia, 1972. (Coleção Estudos Baianos, n. 5).
__________. Pedro Barros: esquecido poeta baiano. Salvador [s.n]:
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__________. Severino Vieira. Revista do Instituto Genealógico da Bahia.
Salvador, v. 5, p. 129-130, 1950.
__________. Tricentenário da igreja de Belém da Cachoeira (16861986). Revista da Academia de Letras da Bahia, Salvador, v. 36, p. 57-68,
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__________.Visconde do Rio Vermelho: os nobres do Rio Vermelho.
Revista do Instituto Genealógico da Bahia, Salvador, v. 18, p. 221-227, 1972.
UNIVERSIDADE FEDERAL BAHIA. Escola de Biblioteconomia
e Documentação. Cinquentenário da Escola de Biblioteconomia e Documentação. Salvador: Gráfica Universitária, 1992.
DOCUMENTOS
Biografia Antônio Loureiro de Souza 1913-1989. Academia de Letras
da Bahia, Pasta Cad. 27. Antônio Loureiro de Souza 4º titular. Arquivo.
MATTOS, Sérgio. Antônio Loureiro de Souza foi um historiador nato.
Salvador, maio de 2013. Depoimento. Academia de Letras da Bahia,
Pasta Cad.27, Antônio Loureiro de Souza 4º titular.
►► 397
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
SOUZA, Antônio Loureiro de. Carta, Salvador, oito de julho de
1965, solicita voto a acadêmico para suceder ao doutor Castro Rebelo, na Academia de Letras da Bahia, anexa curriculum vitae. Academia de Letras da Bahia, Pasta Cad.27, Antônio Loureiro de Souza,
4º titular.*
Edivaldo M. Boaventura é ensaísta, pesquisador, professor emérito
da UFBA, autor de diversos livros de ensaios, sócio de inúmeras
instituições culturais no Brasil e no exterior. Foi secretário de
educação e cultura do estado da Bahia, diretor-geral do jornal A Tarde
e presidente da Academia de Letras da Bahia, da qual é membro
benfeitor. Desde 1971 ocupa a Cadeira nº 39 da ALB.
Discurso proferido em sessão especial da Academia de Letras da
Bahia, em homenagem ao centenário de nascimento do acadêmico
Antônio Loureiro de Souza, no Salão Nobre, em 13 de junho de 2013.
398 ◄◄
RUBEM NOGUEIRA
Centenário do acadêmico
Luís Antonio Cajazeira Ramos
H
á cem anos, em 13 de setembro de 1913, em Serrinha, cidade baiana surgida de uma fazenda de mesmo nome fundada por Bernardo da Silva no século XVIII, um descendente
do fundador nasceu e foi batizado de Rubem. Como era comum
até meados do século XX, ele cresceu em uma família numerosa.
Era o quinto dos onze filhos de Luís Osório Rodrigues Nogueira
e de Áurea Hermínia Ribeiro Nogueira. Os pais tinham sobrenomes tradicionais, porém adversários, vinculados a grupos de
poder opostos na política municipal. O casal apaixonado, como
se fora um Romeu e Julieta sertanejo, terminou por contradizer
a tragédia shakespeariana com um casamento de mais de meio
século. O Sr. Luís Nogueira abraçou inicialmente a atividade de
comerciante, rapidamente bem sucedida, e por duas vezes seria
um operoso e prestigiado intendente municipal, vindo a aposentar-se como fiscal do consumo após mais de vinte anos no
exercício do cargo. Já dona Áurea Nogueira não se resignou à
vida doméstica: primeira serrinhense a ser diplomada professora
primária, manteve no maior cômodo da ampla residência, a qual
até hoje se destaca na praça da cidade, uma escola para meninos,
onde mais de uma geração de pequenos varões conheceu as letras e cursou o ensino básico.
O menino Rubem passou a infância em sua terra natal.
Aprendeu a ler e a escrever com a própria mãe, que àquela altura
chegava aos últimos anos de magistério primário. Mas, nos escritos de reminiscências que o hoje centenário Rubem nos legou,
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ele afirma categoricamente que foi a professora Astrogilda Paiva
Guimarães quem lhe proporcionou os primeiros e decisivos estímulos para que viesse a desenvolver seu amor às letras, ao tempo
em que inoculava em seu espírito infantil uma admiração biográfica por grandes vultos históricos brasileiros, como Duque de
Caxias, Santos Dumont, Osvaldo Cruz e, muito acima de todos,
Rui Barbosa, o grande político baiano, jurista maior do Brasil
e membro da dinastia dos imperadores da língua portuguesa,
de quem Rubem viria a ser um fecundo estudioso. Foi também
essa querida professora quem lhe proporcionou a primeira manifestação de júbilo intelectual, ao conceder um prêmio literário
escolar à sua incipiente e promissora trajetória de escritor pela
composição “Um batalhão em marcha”, texto que viria a ser publicado na edição dominical do jornal O Serrinhense, trazendo
orgulho e alegria para seus pais e marcando de forma inesquecível os anos escolares.
Mas a infância não se faz apenas no manuseio do lápis, do
caderno, da cartilha e da tabuada. Foi o próprio Rubem Nogueira que, ao completar a oitava década de vida, disse lembrar-se de
ter sido desde a mais tenra idade, desde sempre, um menino feliz
e ter feito “tudo que uma criança costuma e deve fazer, sob pena
de quando adulto sentir nostalgia das coisas próprias da idade
que não foram feitas”. E o que não faltava era divertimento infantil em uma cidade interiorana do sertão baiano, com seus dias
de sol tórrido e céu sempre azul, com suas noites esfriadas e silenciosas, com suas matas retorcidas e suas águas barrentas, suas
árvores frutíferas e seus pequenos animais de caça, seus pastos
catingueiros e seus currais, suas roças rasteiras e seus chãos batidos, sua arquitetura simples e sua vida pacata, suas brincadeiras
de bola e corrida e suas festas comunitárias, suas histórias fantasiosas e suas assombrações. Nem mesmo a asma tiraria a alegria
desses anos que não passaram nunca. Noites de crise asmática
eram, sim, intermináveis, insones, sofridas, mas o dia se alternava entre a sala de aula e os jogos e piculas, entre as lições de
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
gramática e os banhos na fonte, entre as operações de aritmética
e os pulos sobre muros alheios à cata de diversão.
Tudo se transformou em 1928, quando o jovem Rubem
Nogueira veio a se mudar para Salvador, a capital do estado, a Cidade da Bahia, a fim de fazer o curso ginasial no Colégio Antônio
Vieira em regime de internato. Até a asma acabou, talvez devido
aos banhos frios logo de manhã cedo, aos quais se viu obrigado diariamente. E foram muitas as obrigações na rotina escolar
jesuítica. Havia hora para acordar, hora para tomar banho, para
fazer refeições, para assistir às aulas, para estudar, para brincar,
para conversar, para fazer silêncio, para dormir. Se, para alguns,
principalmente hoje em dia, isso tudo poderia ser um imenso sacrifício e grande sofrimento, para nosso ilustre serrinhense foi um
precioso aprendizado de hábitos de disciplina e um benefício para
sua vida inteira, contribuindo para sedimentar sua personalidade,
que já vinha talhada pelo caráter. Assim como Rubem Nogueira,
muitos se beneficiaram do sistema educacional dessa secular instituição católica de ensino. Só de sua turma, ele mesmo destaca as
figuras de José Antônio do Prado Valadares, Fernando Jatobá da
Silva Teles, Dermival Costalima, Jorge Calmon, Newton Vacarezza
Cordeiro de Almeida e Mário Risério Leite.
“Um batalhão em marcha” foi a composição de sua autoria que marcara os anos impúberes com os brios de escritor e
o ingresso precoce no mundo editorial, mas outros dois textos
gravaram sentimentos que se opunham e eram igualmente intensos no coração ainda adolescente. Um deles, “Descrição do
Farol da Barra”, foi elaborado na prova de português do exame
de admissão ao ginásio. O concursando seria reprovado, porque
na redação teria iniciado com a letra cê a palavra “quociente”, a
qual, naquela época, admitia grafia única, com a letra quê. Mas
tal palavra, com cê ou com quê, não havia sido usada pelo jovem
Rubem no texto que escrevera. Assim, com a mesma determinação que o acompanharia por toda a vida, ele foi reclamar perante o diretor do Ginásio da Bahia, o doutor Aristides Maltez,
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e reverteu a situação vexatória, vendo seu nome publicado no
dia seguinte na lista dos aprovados. O outro texto marcante foi
“Almanaque”, redigido em uma prova mensal de português, no
terceiro ano ginasial, na classe do professor Guilherme Azevedo. Ao devolver as provas aos alunos, o jesuíta sacou a redação
de Rubem e leu-a em voz alta para todos como exemplo de texto
de qualidade na forma e no conteúdo.
Em 1933, Rubem Nogueira ingressou na Faculdade de
Direito da Bahia, na qual iria dar vazão e leito ao manancial de
sua vocação, para trilhar pelos caminhos da advocacia, do magistério, do ministério público e da política. Seu espírito de liderança rapidamente se pronunciou no meio acadêmico. Já no
primeiro ano letivo, em nome da turma, juntamente com Nelson
de Sousa Sampaio, foi o orador da saudação de despedida ao
professor de introdução à ciência do direito, Aloísio de Carvalho
Filho, que havia sido eleito para a Assembleia Constituinte. Ainda naquele ano, nas férias juninas, em companhia de estudantes
veteranos, como Agostinho Pinheiro, Nathan Coutinho, Ulisses
Brito e Rômulo Almeida, ele foi um representante dos calouros nas excursões realizadas pelo interior da Bahia em busca de
donativos para uma almejada estátua de Rui Barbosa. E logo
formou com José Mariani, Oldegar Franco Vieira, José Calasans,
Reginaldo Santana e outros colegas um grupo atuante no debate
político. Nos anos seguintes, enquanto absorvia os fundamentos
da ciência jurídica nas aulas da faculdade, nos códigos de leis e
nos livros doutos, crescia em sua consciência crítica um modo
próprio de ver e de compreender as relações sociais e as ideias
políticas do mundo de seu tempo.
E o mundo de seu tempo de estudante de direito era
um admirável mundo novo, contraditório, aturdido com a velocidade das mudanças políticas, econômicas e sociais, com
a revolução científica, tecnológica e industrial, com as transformações no comportamento, no entretenimento e nas artes, com a imensa onda da virada cultural em voga. Os Estados
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Unidos mergulhavam na Grande Depressão, da qual emergiriam
como a mais rica e poderosa potência mundial. E a Europa
via naufragar a utopia da Liga das Nações, enquanto utopias à
direita e à esquerda marchavam para o totalitarismo. No Brasil, a República Velha estava morta. O golpe militar de 1930
veio entornar a política café com leite de paulistas e mineiros e
trazer ao poder o gaúcho Getúlio Vargas, que iria consolidarse ditador após derrotar os revoltosos de 1932 e abortar os
ventos liberais constitucionalistas. À Bahia, Getúlio impôs o
tenente cearense Juraci Magalhães. Mesmo naquela Salvador
provinciana, a explosão urbana e a cultura de massa tinham
pressa de chegar. A poesia, a literatura e as artes assumiam sua
modernidade. A música popular das estações de rádio invadia
todos os lares. Estrelas do cinema americano ditavam modas,
gestos, caras, bocas e sentimentos. As beldades desfilavam de
maiô. O futebol lotava os estádios. A nova cidade de concreto
armado derrubava a igreja da sé. E as propagandas comerciais
começavam a ser veiculadas para as multidões.
O menino de boa família do interior, o adolescente do
colégio interno de padres jesuítas e o acadêmico de direito
permaneceram unidos e inseparáveis naquele mundo em turbilhão. A maioria de seus contemporâneos foi sendo cooptada por valores burgueses, pelas locações familiares e pela vida
comum. Alguns outros, indignados com as injustiças sociais
e a disparidade entre os privilégios da classe dominante e o
sofrimento do povo, aderiram ao marxismo em suas variantes
socialistas e comunistas. Os horizontes de Rubem Nogueira
descortinaram-se em outra direção. Formado numa disciplina
severa, senhor de uma personalidade austera e grave e de um
caráter firme e honrado, desde aqueles tempos da juventude
assumiu suas convicções políticas, seus valores éticos, suas
ideias sobre o homem, a família, a sociedade, o estado, a religião e os mais diversos aspectos da vida humana dentro da ordem social, sob um prisma civilizatório de cunho nacionalista,
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que encontrou seu porto seguro no pensamento e na ação do
movimento integralista.
Seu contato inicial com o integralismo foi ainda no primeiro ano do curso de direito. Plínio Salgado, líder nacional do movimento, tinha vindo à Bahia em meados de 1933 para divulgar
suas ideias, mas Rubem Nogueira estava em caravana pelo interior
do estado em prol da estátua de Rui Barbosa. No final do ano, ele
pôde ouvir as palestras de outros integralistas na sede da Associação Universitária da Bahia. As palavras de Miguel Reale, Gustavo
Barroso, José Loureiro Júnior e Aristóbulo Soriano de Melo ressoaram no íntimo do jovem de vinte anos. No início de 1934, leu
o “Manifesto de Outubro de 1932”, texto basilar do integralismo,
que o influenciou por toda a vida. Sabia de cor seu conteúdo e
admirava sobremaneira alguns trechos, que diziam da criação de
uma cultura brasileira genuína e de um governo de garantia da
unidade federal e da harmonia das classes sociais, do incentivo às
iniciativas individuais e da construção nacional, sob o primado de
Deus, que dirigia o destino dos povos. Ainda em 1934, filiou-se à
Ação Integralista Brasileira, de que foi um militante entusiasmado
até 1937, quando o golpe getulista tornou proscritos os partidos e
implantou a década de totalitarismo personalista do Estado Novo.
Na vida adulta, Rubem Nogueira se destacou em diversas áreas, sendo reconhecido notadamente por três ângulos de
seu multifacetado perfil: o jurista, o político e o escritor. Iniciou
a carreira de advogado antes mesmo de receber o diploma de
bacharel, inscrevendo-se na Ordem dos Advogados do Brasil
como solicitador acadêmico, entrando para a atividade forense
desde o penúltimo ano do curso, em 1936. Advogado brilhante e
respeitado pelo saber jurídico e pela cultura geral, exerceu a profissão durante a vida inteira, inclusive no cargo de procurador
efetivo do município de Salvador, chegando a procurador-geral.
Em 1951, foi nomeado procurador-geral da justiça durante o governo de Régis Pacheco, destacando-se pela independência em
relação ao executivo e pela promoção do 1º Congresso Estadual
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
do Ministério Público. Abraçou a docência em 1956, dedicando-se à introdução à ciência do direito, tendo sido um dos fundadores da Faculdade Católica de Direito da Bahia, da qual se
formou a Universidade Católica do Salvador. Em 1979, assumiu
o cargo de consultor jurídico do Ministério da Justiça, a convite de Petrônio Portela, tendo chefiado uma delegação brasileira
que foi a Paris negociar cooperações na área jurídica. Depois, até
aposentar-se, retornou à advocacia e ao magistério.
Sua carreira política, abortada pelo golpe de 1937, deslanchou em 1945, após a queda da ditadura Vargas, que não se
sustentaria no novo cenário do pós-guerra. Ao lado de velhos
parceiros integralistas, lutou pela organização do Partido de Representação Popular no território baiano. Em 1947, foi eleito para
a Assembleia Legislativa Constituinte, na qual votou duramente
pela cassação dos deputados do Partido Comunista do Brasil e fez
um mandato em defesa do ensino público, da criação de ginásios
estaduais e da formação de uma polícia civil. Após quatro anos no
Ministério Público, voltou à legislatura estadual em 1955, tendo,
então, as iniciativas da criação das escolas normais e técnico-profissionais e da estruturação da carreira do magistério primário. Em
1959, foi o segundo suplente à Câmara Federal em sua coligação
partidária. Assumiu o cargo de deputado federal em 1961, sendo
eleito para mandatos sucessivos até 1971. Esses foram anos de
crise política e institucional: a renúncia de Jânio Quadros, a deposição de João Goulart, o golpe militar de 1964, a promulgação
do Ato Institucional nº 5, a cassação de mandatos e partidos e a
perseguição feroz aos opositores do regime. O experiente parlamentar, que a vida tratara de calejar e amaciar a tolerância, não somente buscou viabilizar conquistas para Serrinha e outras cidades
da Bahia, mas também se revelou um audacioso e firme defensor
da legalidade e dos direitos e garantias constitucionais.
O escritor Rubem Nogueira, inescapavelmente, terminaria
por denunciar em seus textos a erudição de sua formação filosófica, científica e técnica e seu conhecimento jurídico, político e
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
literário. Trouxe à luz artigos, ensaios e livros de assuntos diversos, com ênfase na teoria geral do direito, em tópicos de direito
civil e, sobretudo, em direito constitucional, com destaque para
o Curso de introdução ao estudo do direito. Exímio memorialista, seu
livro O homem e o muro percorre a história política brasileira do
século XX. Como biógrafo, traçou o perfil de autores e personalidades da história do Brasil. De sua dedicação ao estudo da
vida e da obra de Rui Barbosa, surgiu sua maior contribuição à
história, ao direito e às letras nacionais. Na saudação pela posse
de Rubem Nogueira neste silogeu, Nelson de Sousa Sampaio
comparou o estudo da atividade de Rui traçado por Rubem em
O advogado Rui Barbosa ao imenso fôlego biográfico de Luís Viana Filho e à profundidade investigatória de Pinto de Aguiar sobre o pensamento econômico do Águia de Haia.
Nas diversas áreas em que decidiu atuar, Rubem Nogueira
acumulou vários títulos científicos, associativos e honoríficos.
Bacharel pela Faculdade de Direito da Bahia e professor catedrático da Universidade Católica do Salvador, foi membro da
Ordem dos Advogados do Brasil, do Instituto dos Advogados
da Bahia e do Instituto Bahiano do Direito do Trabalho. Foi
membro fundador do Instituto dos Advogados Brasileiros, honraria que Gérson Pereira dos Santos, no laudatio em celebração
à passagem dos oitenta anos de idade do confrade, chamou de
consagração, pois se tratava do mais alto órgão cultural da classe.
Pela produção intelectual em ciências do direito, foi eleito para a
Academia de Letras Jurídicas da Bahia. E por toda sua produção
literária de inquestionável valor e de amplo alcance, bem como
por sua estatura de homem notável, foi conduzido à Cadeira 35
desta Academia de Letras da Bahia.
Este é o esboço aligeirado e canhestro que me vejo capaz de fazer da vida pública de Rubem Nogueira. De sua vida
privada, sei muito pouco. Do primeiro casamento, na juventude, nasceu o primogênito, mas foi precoce a viuvez. Em 1948,
veio o casamento definitivo com sua Gilka, a quem chamou de
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
“metade verdadeiramente cara e essencial de minha vida”. E
mais seis filhos e os netos e os bisnetos. E nada mais sei. Não
nos conhecíamos. Em 1997, o saudoso poeta Gerardo Mello
Mourão veio a Salvador para uma récita e convidou-me para um
drinque na varanda do hotel. Lá estavam também dois de seus
ilustres amigos baianos: Oldegar Franco Vieira e Rubem Nogueira. O afável Oldegar veio a ser aquele amigo mais velho que
a gente visita em fins de semana. Já Rubem Nogueira, porte ereto, gestos contidos, sorriso discreto, olhar seletivo, eu não creio
que ele tenha notado minha presença. Agora, calhou de sermos
ambos imortais e ocupantes da mesma cátedra neste sodalício,
sentados lado a lado na Cadeira 35, mirando o vazio do horizonte, vendo secar tudo a que chamávamos de mãe, vendo ruir tudo
a que chamávamos de pai. Não há como contornar a evidência
de que somos irmãos, com a eternidade para chegarmos a um
acordo. Haverá o dia em que, às escondidas e cúmplices, escaparemos deste orfanato para ganhar o mundo, mergulhar nas águas
salobras da fonte, correr pelas ruas sem atentar à poeira grudando na pele úmida e, furtivamente, pular o muro da vizinhança
para roubar mangas-rosas.
Muito obrigado.*
Luís Antonio Cajazeira Ramos é poeta, analista do Banco Central do
Brasil e advogado. Publicou cinco livros de poesia, além da participação
em antologias. Recebeu o Prêmio Nacional Gregório de Mattos da
ALB em 2000. É sócio do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia e
sócio fundador da Associação Amigos do Teatro Castro Alves. Desde
2012 ocupa a Cadeira nº 35 da ALB.
Discurso proferido em sessão especial da Academia de Letras da
Bahia, em homenagem ao centenário de nascimento do acadêmico
Rubem Nogueira, no Salão Nobre, em 16 de setembro de 2013.
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DISCURSO DOUTOR HONORIS CAUSA
Moniz Bandeira
C
om muita emoção, aqui agradeço, antes de dizer quaisquer
outras palavras, a generosidade dos colegas e amigos que
propuseram, apoiaram e impulsionaram a iniciativa para que a
Universidade Federal da Bahia me outorgasse o título de doutor honoris causa. Dirijo-me, particularmente, aos membros da
congregação da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas,
entre os quais os professores Maria Hilda Baqueiro Paraíso, então coordenadora do programa de pós-graduação em história,
Muniz Ferreira, Lina Maria Brandão de Aras, então diretora da
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Daniel Tourinho
Peres, relator do processo, e os membros da comissão de títulos
honoríficos do Conselho Universitário, presidida pelo professor
Arthur de Matos Neto, do departamento de física. Não posso,
evidentemente, citar todos os nomes dos professores aos quais
sou muito agradecido. Seria cansativo para os ouvintes. Mas não
posso deixar de lembrar o nome de alguns amigos, os professores José Góes de Araújo, Ubiratan de Castro Araújo, João Augusto Lima Rocha e Consuelo Novais Sampaio, que também se
empenharam para que me fosse prestada esta homenagem.
O título de doutor honoris causa, pela UFBA, reveste-se de
especial relevância para mim e muito me reconforta, posto que
me é conferido por uma importante universidade do meu estado
natal, onde nasci e me criei, até os 18, 19 anos de idade, e onde
dei meus primeiros passos na vida acadêmica. Aqui na Bahia recebi uma educação humanística, desde o Colégio da Bahia, onde
fui aluno de excelentes mestres — meu saudoso amigo Milton
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Santos, Luís Henrique Dias Tavares, Acácio Ferreira, Gelásio
Farias e Sócrates Marback —, até o primeiro ano na Faculdade
de Direito, no Portão da Piedade, onde tive eminentes professores, entre eles Nelson Sampaio e Josaphat Marinho, que ensinavam teoria geral do estado e introdução à ciência do direito,
minhas disciplinas preferidas.
Esta cidade, Salvador, fundada por Tomé de Sousa e cujo
primeiro alcaide-mor, nomeado em 1554, foi Diogo Moniz
Barreto, meu antepassado, era a Bahia histórica, a Bahia que
sempre cultivou a cultura e deu ao Brasil grandes escritores,
poetas, romancistas e também homens de ciência. Na minha
adolescência, início da década de 1950, aqui viviam importantes intelectuais, como o historiador Wanderley de Araújo Pinho, o criminalista Edgard Matta, o professor (e epigramista)
Lafayete Spínola, o antropólogo Thales de Azevedo, entre outros, assim como artistas do porte de Presciliano Silva, Pancetti,
Genaro de Carvalho, Carybé, Carlos Bastos, Sante Scaldaferri,
Mário Cravo e Genner Augusto. Outros estavam a emergir. E a
vida cultural era intensa. O jornal A Tarde, o mais importante
de Salvador, publicava excelente suplemento literário. Havia no
Cabeça um bar, o Anjo Azul, decorado com murais de Carlos
Bastos, e lá intelectuais e artistas se reuniam, conversavam e
sorviam “xixi de anjo”, uma bebida alcoólica produzida pela
casa. A Galeria Oxumaré, no Passeio Público, estava sempre a
expor obras de artistas baianos. Alexandrina Ramalho, cantora
lírica aposentada, dirigia a Sociedade de Cultura Artística da
Bahia, que promovia no Instituto Normal, no Barbalho, concertos de artistas famosos, entre os quais o pianista Arthur Rubinstein, a grande pianista brasileira Magdalena Tagliaferro, os
cantores Elizabeth Schwarzkopf e Todd Duncan e o Coro dos
Meninos Cantores de Viena. O advogado Walter da Silveira
dirigia o Clube de Cinema da Bahia e exibia películas clássicas e
de arte, aos sábados, no cinema Liceu. E o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia convidava escritores de outros estados,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
que visitavam a Bahia para dar conferências no seu auditório. A
esses eventos, João Eurico Matta, Paulo Fernando de Moraes
Farias, meus dois grandes e diletos amigos de infância, hoje
eminentes professores que engrandecem o nome da Bahia, e
eu, ainda adolescentes, sempre juntos assistíamos.
Àquela época, com 14, 15 anos de idade, comecei a escrever poemas, e submetia-os à rigorosa crítica de minha muito
querida prima Isa Moniz de Aragão, que foi para mim como
uma irmã mais velha. Foi ela que me iniciou no jornalismo, dando-me a tarefa de escrever uma coluna, “Letras & artes”, publicada no Diário da Bahia, e incentivou minha vocação para a
literatura. Aqui a recordo com saudade. E, uma vez que estou
a reviver a juventude, o tempo que morei em Salvador, lembrome de Arthur de Salles sentado na Biblioteca Pública, onde me
aconselhou a ler Garcia Lorca e os surrealistas franceses, Paul
Éluard e Louis Aragon, embora fosse ele consagrado poeta
simbolista. Interessei-me assim pela poesia moderna, da qual os
expoentes na Bahia eram José Luís de Carvalho Filho, Camillo
de Jesus Lima, Sosígenes Costa e Wilson Rocha. Porém, com
Elpídio Bastos e João Moniz Barreto de Aragão, este meu parente, aprendi o artesanato do verso, a virtuosidade parnasiana
do soneto, o que me valeu até para os próprios versos livres e,
inclusive, os textos em prosa, os livros acadêmicos que escrevi.
E, no Rio de Janeiro, completei não só o curso jurídico, como
também minha formação literária e filosófica, com Edmundo
Ferrão Moniz de Aragão, meu tio, meu mestre, a quem estive
sempre vinculado por laços de estreita amizade e afinidade de
ideias, durante tantos anos de convívio, até o fim de sua existência, em 1997.
Não obstante haver morado desde os 20 anos em várias
cidades e países, sempre conservei o amor pela Bahia, e suas
tradições humanísticas pautaram todas as minhas atividades ao
longo de minha vida. A Bahia é muito peculiar, entre os estados
brasileiros. Aqui foi construída a primeira cidade — Salvador —
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
planejada, politicamente, para promover e sustentar o processo
de colonização da terra novamente descoberta por Pedro Álvares Cabral e ameaçada pelo assédio dos corsários franceses, que
buscavam o pau-brasil a fim de suprir as tinturarias de Flandres.
E foi na Bahia que se consolidou a independência do Brasil, com
a expulsão das tropas portuguesas comandadas pelo general Inácio Luís Madeira de Melo, em dois de julho de 1823. Esse dia —
dois de julho de 1823 — é que pode ser considerado, realmente,
a data nacional do Brasil, a data em que o grito do Ipiranga se
efetivou. Não fosse a vitória da campanha militar, desencadeada a partir do Recôncavo, com o suporte da Casa da Torre de
Garcia d’Ávila, o Brasil se despedaçaria em diversas repúblicas,
como ocorreu com a América Espanhola. Daí que estranho e
lamento — uma vergonha para a Bahia – que o nome do Aeroporto Internacional Dois de Julho, em Salvador, tenha sido
mudado para Aeroporto Internacional Deputado Luís Eduardo
Magalhães, nome de um político, ainda que respeitável. É doloroso ver que assim se apaga a memória histórica da Bahia, que
sofreu, em 1933, um dano irreparável com a demolição da igreja
da sé, a mais antiga do Brasil, construída em 1553, nos primórdios da colonização. E a memória histórica é a alma do povo, o
fundamento de sua identidade, a argamassa de sua cultura, a essência da civilização. O conhecimento do passado — os marcos
históricos — dá à comunidade a consciência do que ela é, no
presente, e do seu destino, no futuro. Como escreveu o grande
poeta T. S. Eliot:
Time present and time past
Are both perhaps present in time future,
And time future contained in time past.1
Esses versos de T. S. Eliot refletem a concepção de tempo na mitologia germânico-nórdica, na qual três mulheres —
die Nornen — personificam as deusas (die Schicksalgottheiten) que
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
tecem o destino dos filhos dos homens, embaixo de um freixo,
Yggdrasil, conforme aparecem em Völuspá (Predição da vidente),
de Edda Mayor, coletânea de poemas escandinavos escritos
por volta dos séculos X e XI. Urd ou Wyrd2 é a Norn do que foi,
de tudo o que passou e está a passar, e condiciona o “devenir”,
o destino; Verðandi ou Verdandi, “tornando-se”, é a Norn do
que é, que representa o presente, o momento de mudança, da
transformação; e Skuld é a Norn do que deverá ser, o devenir,
a possibilidade. Essas três Nornen não representam, esquematicamente, o passado, o presente e o futuro, como às vezes
são interpretadas. O tempo, na mitologia germânico-nórdica,
é indivisível. É uno. O passado continua no presente, como
poderosa realidade, que permanentemente modifica o futuro,
o que está para acontecer. Assim, a determinação do destino
do mundo, o fim, ocorreu na sua criação.
Não se pode estudar uma sociedade e um estado sem conhecer suas origens, sem saber como surgiram, como se desenvolveram ao longo da história. O médico, quando vai examinar
um paciente, logo pergunta pelo seu histórico pessoal, as doenças que teve, e também o histórico familiar, a fim de verificar se
seu problema de saúde também decorre de fatores genéticos. Da
mesma forma, o meio mais eficaz para a compreensão de um
fenômeno político é saber como começou. Os fenômenos políticos, quando se manifestam, resultam de transformações quantitativas e qualitativas de tendências históricas, razão pela qual
devem ser estudados e compreendidos em seu encadeamento
mediato, em sua condicionalidade essencial e em seu constante
devenir. A compreensão do acontecimento, que flui, e do seu
desdobramento, no futuro, requer o conhecimento do passado
como substância real do presente, em que possibilidades e contingências se esboçam, suprimindo (aufheben) e, ao mesmo tempo, conservando e elevando a uma síntese superior (aufheben/
aufbewahren) as contradições intrínsecas do “processo” histórico.
A ciência política, portanto, necessita da história, com a qual se
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
deve identificar, para alcançar e conhecer a natureza íntima do
fenômeno que se pretende estudar.
Uma teoria é necessária, decerto, “para ligar os fatos observados e poder fazer novas observações”, assim ensinou o filósofo Antônio Ferrão Moniz de Aragão, meu antepassado, na
sua obra Elementos de mathemáticas, publicada em 1858.3 Mas, do
mesmo modo que os acontecimentos históricos não podem ser
julgados segundo valores e critérios do presente, também não se
podem aplicar integralmente teorias e conceitos elaborados em
épocas antigas para analisar e estudar o que ocorre na atualidade.
As relações econômicas e sociais do passado não se conservam
iguais, modificaram-se, as ideias e instituições modernas são diferentes das que outrora existiram, e as contradições econômicas, as relações sociais e as lutas políticas são inteiramente distintas das que ocorreram no século XIX ou nas primeiras décadas
do século XX. Assim, cada época tem de ser avaliada segundo
sua própria medida, seus próprios valores, determinados pela
evolução das forças produtivas.
O desenvolvimento científico e tecnológico dos meios
de comunicação e das ferramentas eletrônicas, aumentando a
produtividade do trabalho e impulsionando ainda mais a internacionalização/globalização da economia, produziu profunda
mutação no sistema capitalista mundial, na estrutura social das
potências industriais e no caráter da própria classe operária, o
qual não mais corresponde ao da classe operária ainda concebido, abstrata e teoricamente, por algumas tendências políticas.
No curso da segunda metade do século XX, após a grande guerra de 1939-1945, capitais dos Estados Unidos e das potências industriais da Europa, buscando fatores mais baratos de produção,
emigraram, em larga medida, para países da Ásia e da América
Latina, bem como para os países do leste europeu, depois do
colapso da União Soviética e do bloco socialista em 1989-1991.
Tais países, com um terço da população mundial, adotaram a
economia de mercado. E sobretudo na China e na Índia, onde
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
encontraram condições de investimentos mais seguras, estáveis
e lucrativas, as grandes corporações instalaram suas plantas industriais e passaram a exportar a produção para os mercados das
próprias potências econômicas das quais haviam emigrado.
A consequência, agravada pela automação da indústria
com a crescente utilização de microchips (robôs industriais), foi o
aumento do desemprego, que bateu um recorde histórico, atingindo 195 milhões e duzentas mil pessoas em 2006, de acordo
com os dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A existência de poderoso exército industrial de reserva debilitou
o poder de negociação dos sindicatos, cuja articulação política,
restrita aos limites de seus respectivos estados nacionais, não
acompanhou o desenvolvimento da organização transnacional
capitalista, que permite às grandes corporações, com subsidiárias nos novos países industrializados, contar com amplos recursos para resistir às pressões e minimizar os efeitos de qualquer
paralisação do trabalho. O deslocamento da produção para os
países com níveis salariais mais baixos, as diferenças de condições sociais e políticas, bem como dos níveis de organização,
obstaculizam, por exemplo, o êxito da coordenação internacional de uma greve com o objetivo de paralisar, simultaneamente,
todas as unidades de produção da mesma empresa espalhadas
por diversos países. E o poder dos sindicatos foi ainda mais enfraquecido pela expansão do mercado global de trabalho, com o
aparecimento de um bilhão e duzentos milhões de novos trabalhadores e de outros milhões dispostos a trabalhar por qualquer
salário para ter um meio de subsistência.
Outrossim, a política imperialista de competição armada
entre as potências industriais, visando a reproduzir as relações
de produção e impor seu domínio sobre vastas regiões do planeta, evoluiu, após duas ruinosas guerras mundiais (1914-1918
e 1939-1945), para o ultraimperialismo, com a formação de uma
espécie de cartel dos grandes estados capitalistas, com a adesão de outros menores. Esse cartel é conduzido pelos Estados
►► 415
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Unidos, como potência hegemônica, com alta capacidade estratégica de modelar a vontade das outras potências industriais e
conduzir a política internacional de acordo com seus interesses,
exportando suas ameaças para os aliados e levando-os a movimentar-se e agir em função do que pensam ser seus autênticos
interesses geoestratégicos, quando, na realidade, são interesses
estrangeiros.4 E a expressão militar do cartel é a Organização do
Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que oferece garantias mútuas de não agressão e prevê a cooperação na área de segurança,
bem como ajuda mútua no caso de uma agressão por terceiros
países, coletivizando a defesa, para que ela não se torne assunto
nacional, e sim de interesse do sistema global capitalista.
A dissolução dos regimes comunistas nos países do leste
europeu, a derrubada do Muro de Berlim e a reunificação da
Alemanha, juntamente com a desintegração da União Soviética
em quinze outros estados independentes e a adesão da China à
economia de mercado e à globalização, assinalaram o começo de
nova época histórica e impulsionaram o processo de internacionalização/globalização da economia, acentuando a organização
transnacional da produção e a expansão do consumo, em contradição com as formas nacionais de constituição das sociedades
e dos estados. Tais fatores econômicos e sociais produziram, sobretudo nas potências industriais, certo esvaecimento das contradições políticas e ideológicas entre os partidos políticos, cujas
iniciativas, no governo, não muito discrepam, na Alemanha, na
França, na Inglaterra, muito menos nos Estados Unidos, onde
o Partido Democrata e o Partido Republicano, essencialmente, pouco se diferenciam. Com razão, o grande historiador Eric
Hobsbawm claramente declarou em entrevista à agência de notícias Telam, da Argentina, que “já não existe esquerda tal como
era”, seja socialdemocrata ou comunista. Ou está fragmentada
ou desapareceu.5 Não há contraste, não há virtualmente oposição. As diferenças consistem somente no matiz dos partidos.
Não se pode dizer, portanto, que o regime democrático haja
416 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
avançado. Pelo contrário, tende a convergir, nos mais diversos
países, com os regimes totalitários, na medida em que o estado
de exceção torna-se a norma, tendência esta que se acentuou,
sobretudo, após os atentados terroristas contra as torres gêmeas
do World Trade Center, nos Estados Unidos, em 11 de setembro
de 2001. O papel da sociedade civil torna-se cada vez mais irrelevante. Apesar da oposição, os governos dos Estados Unidos e
de alguns países da União Europeia deflagraram a guerra, e suas
tropas continuam a combater no Iraque e no Afeganistão.
O desenvolvimento da tecnologia, mais e mais sofisticada,
dá aos governos das potências industriais meios de controlar
ainda mais a população, ameaçando as liberdades civis. O Vchip, veículo de espionagem que facilita o monitoramento das
pessoas, integra os novos sistemas de televisão, computadores,
telefones etc.; o PKI electronic intelligence permite, por meio de tecnologia digital, monitorar qualquer meio de comunicação eletrônica, como GSM, fax, telefone, internet e outros; os semáforos
de tráfego contêm câmeras, security camera surveillance equipment,
que acompanham qualquer movimento do individuo; câmaras
de vigilância CCTV, instaladas nos mais diversos ambientes com
objetivo de segurança, possibilitam a invasão da privacidade das
pessoas; e também os governos intentam armazenar o tráfico de
chamadas telefônicas e do uso de internet, a pretexto do combate ao terrorismo.
Esse elevado desenvolvimento tecnológico também favoreceu a concentração de riqueza e de poder, e as disparidades sociais aumentaram ainda mais nos países da periferia do sistema
capitalista, alimentando o fundamentalismo religioso, em meio
à instabilidade política que se produziu no sistema internacional após o colapso da União Soviética e do bloco socialista. Os
Estados Unidos tornaram-se o único polo de poder, tanto econômico quanto político, cultural e tecnológico, com um poderio
militar capaz de intervir, imediata e efetivamente, em qualquer
região do mundo. Sua capacidade de destruição é incomparável,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
não tem paralelo na história. Contudo, diferentemente de outras
potências industriais, os Estados Unidos deixaram de ser exportadores líquidos de capitais e não mais lideram as compras ou o
estabelecimento de firmas em outros países. Com enormes déficits comercial e fiscal, bem como na conta corrente do balanço
de pagamento, converteram-se em potência devedora, sem condições de pagar sua dívida externa. Os bancos centrais de outros
países detêm reservas da ordem de mais de quatro trilhões de
dólares. Somente a China possui reservas que ultrapassam dois
trilhões de dólares e detém um quarto da dívida pública dos Estados Unidos, cujo poderio militar, baseado, sobretudo, nas armas nucleares e nos mísseis de longa distância, mais do que nas
tropas terrestres, já não pode garantir-lhes a hegemonia política.
Econômica e financeiramente, será difícil sustentar, por muitas
décadas, ao longo de todo o século XXI, um império com cerca
909 bases militares, ostensivas e secretas, instaladas em 46 países
e territórios6, e duas guerras — Iraque e Afeganistão —, cujos
custos totais sobem de dois trilhões e setecentos bilhões de dólares, em termos estritamente orçamentários, para um montante
de cinco trilhões de dólares em termos econômicos, segundo os
cálculos de Joseph E. Stiglitz.7
O colapso do sistema financeiro internacional, que estava previsto desde 2006, e em 2007 eclodiu, aprofundou-se na
segunda metade de 2008 com a bancarrota dos maiores bancos
de investimentos, Lehman Brothers e Merril Lynch, bem como
das seguradoras American International Group (AIG), a maior
dos Estados Unidos e do mundo, Fannie Mae e Freddie Mac,
entre outras corporações. Até dezembro de 2008, o governo dos
Estados Unidos teve de investir cerca de cinco trilhões de dólares para evitar o colapso de todo o sistema financeiro.8 E já no
primeiro semestre de 2009 seu déficit orçamentário superou o
montante de um trilhão de dólares. A previsão é de que alcance
a cifra de um trilhão e seiscentos bilhões de dólares até o fim
do segundo semestre, e o Congressional Budget Office estimou
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
que, dentro de dez anos, o déficit orçamentário estará entre nove
e dez trilhões de dólares.9 A dívida federal, que corresponde a 33
por cento do PIB dos Estados Unidos, em 2009, poderá saltar
para 68 por cento por volta de 2019, o que representará cerca
de 5,1 por cento do PIB calculado para a década, um percentual
extremamente alto.10 Essa tendência não pode continuar indefinidamente. Haverá um momento em que a quantidade há de
gerar uma nova qualidade, provavelmente em meio a uma crise
ainda muito mais grave, muito mais profunda, sem precedente
na história.
O colapso do sistema financeiro, que entre 2007 e 2009
abalou a economia mundial e compeliu igualmente os governos
do Reino Unido, da Alemanha e de outros países a aplicar trilhões de dólares em operações de resgate e estatização parcial
dos bancos e outras empresas, desfechou forte golpe no fundamentalismo de mercado, similar ao que atingiu o comunismo
stalinista com o desmoronamento do Muro de Berlim e dos regimes instalados pela União Soviética nos países do leste europeu. A mudança na arquitetura política internacional, devido
ao deslocamento do centro da produção industrial para a Ásia,
acelerou-se. E o grupo de estados ricos do Hemisfério Norte
(Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, França, Itália, Japão,
Rússia e Canadá), o G-8, que pretendia constituir um sistema
global de poder e decidir sobre todas as questões, tanto econômicas quanto políticas, ecológicas e outras, já não mais pode
fazê-lo sem a participação de potências emergentes, como a
China, a Índia e o Brasil. Também se torna inevitável o descongelamento do sistema de governança mundial. O Conselho de
Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), constituído ao término da Segunda Guerra Mundial, está obsoleto.
Com apenas cinco membros permanentes (as grandes potências) com direito a veto e dez membros não permanentes sem
direito a veto, não tem representatividade para aplicar sanções
contra um país (embargos comerciais, financeiros, de armas etc.)
►► 419
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
ou determinar uma intervenção militar com base em um julgamento político sobre situações de guerra ou de ameaça à paz.
O Brasil opõe-se ao congelamento da estrutura do poder
mundial, configurado pelo Conselho de Segurança da ONU, e
por isso demanda sua reforma, juntamente com a Alemanha,
a Índia e o Japão, importante passo para o estabelecimento de
uma ordem internacional multipolar. Como disse o embaixador
João Augusto de Araújo Castro, falando aos estagiários da Escola Superior de Guerra em 1971, “o Brasil está condenado à grandeza”, condenado por sua extensão territorial, por sua massa
demográfica, por sua composição étnica, pelo seu ordenamento
socioeconômico e, sobretudo, por sua incontida vontade de desenvolvimento e progresso. O Brasil não é imperialista, não possui bases militares em nenhum outro país, mas tem de enfrentar
e vencer todos os fatores externos, superar todos os obstáculos
que possam conter seu poder nacional e impedir que desempenhe um papel de maior relevância, como um global player, sem
arrogância nas relações com os países mais fracos e menores e
sem humildade e submissão aos desígnios das grandes potências. E daí porque o governo do presidente Luiz Inácio Lula da
Silva, tendo os embaixadores Celso Amorim como chanceler e
Samuel Pinheiro Guimarães como secretário-geral de relações
exteriores, tratou de expandir as fronteiras diplomáticas do Brasil. Entre 2003 e 2008, criou 35 novos postos no exterior, e o número de embaixadas subiu para 111, das quais 15 foram abertas
ou reabertas na África. Destarte, com um total de 203 representações diplomáticas, o Brasil afirma sua presença em todas as
regiões do mundo, inclusive nos países ricos em petróleo e gás
— Cazaquistão, Azerbaijão, Catar e Omã — e no centro das
questões sobre a estabilidade política e a paz no Oriente Médio
e na Ásia Central. Um dos principais objetivos é diversificar
os parceiros e ampliar os mercados para as suas exportações e
investimentos, sobretudo nos setores de mineração, petróleo,
agricultura e infraestrutura.
420 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
É necessário, entretanto, que o povo tenha consciência
da projeção internacional do Brasil, da dimensão econômica e
política que conquistou na comunidade das nações e da importância da política exterior como instrumento de afirmação do
poder nacional, na medida em que preserva sua autonomia e
independência. A Fundação Alexandre de Gusmão (FUNAG)
e o Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI), órgãos do Ministério de Relações Exteriores e dirigidos pelos embaixadores Jerônimo Moscardo e Carlos Henrique Cardim, respectivamente, estão empenhados na promoção de seminários e
publicação de livros, divulgando a relevância da política exterior
e o conhecimento sobre diversos países com os quais o Brasil
desenvolve significativas relações econômicas, comerciais, políticas e culturais. Entretanto, a massa crítica existente ainda é
precária, e as universidades podem contribuir para aumentá-la,
incentivando a pesquisa e o estudo de outros países, tal como
ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e França.
No Brasil, em diversos estados da federação, já funcionam 84 cursos de graduação em relações internacionais, 36 por
cento dos quais (a maioria) em São Paulo, 11 por cento no Rio
de Janeiro e quatro por cento na Bahia. Também existem cerca
ou um pouco mais de quinze centros de estudos dedicados ao
estudo de política internacional e de algumas regiões, sobretudo
a África, área em que a Universidade Federal da Bahia foi pioneira. Em setembro de 1959, exatamente há 50 anos, foi fundado,
durante a gestão do reitor Edgard Santos, o Centro de Estudos
Afro-Orientais (CEAO), sob a direção do professor português
Agostinho da Silva. Esse foi o primeiro centro de estudos afro
-orientais criado em uma universidade brasileira, refletindo os
interesses econômicos e estratégicos, determinados pelo desenvolvimento industrial do Brasil, que no final dos anos 1950
já estava necessitando abrir mercados para suas exportações
de manufaturas. Um dos membros da primeira geração desse
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Centro de Estudos Afro-Orientais foi Paulo Fernando de Moraes Farias, que teve de sair da Bahia quando ocorreu o golpe
militar de 1964 e exilou-se na África e, depois, na Inglaterra.
Como professor da Universidade de Birmingham, tornou-se
um dos mais importantes africanólogos do Reino Unido, e a ele
a African Studies Association, dos Estados Unidos, concedeu
em 2005 o Prêmio Paul Hair, pela sua obra sobre as inscrições
árabes medievais e a história da República de Mali, publicada
pela Universidade de Oxford e a Academia Britânica.
Outrossim, devo aqui evocar a memória de dois grandes
vultos da diplomacia brasileira que nasceram na Bahia: José Maria da Silva Paranhos, Visconde do Rio Branco, e Rui Barbosa.
José Maria da Silva Paranhos, pai do Barão do Rio Branco, o patrono da diplomacia brasileira, desempenhou importante papel
nos países da bacia do Prata, onde, como secretário do Marquês
de Paraná, Honório Hermeto Carneiro Leão, negociou o tratado
com o Uruguai, o Paraguai e as províncias argentinas Corrientes
e Entre Rios contra o governo de Buenos Aires sob a chefia de
Juan Manuel de Rosas, que o general Justo José Urquiza, presidente da Confederação Argentina, derrotou, com o suporte do
Brasil, na batalha de Caseros, em 1852. O outro foi Rui Barbosa.
Nos anos 1890, apoiando Eduardo Prado, ele denunciou a “ilusão americana”, o expansionismo encapado pela Doutrina Monroe, no uso diplomático, com o objetivo de reservar o continente
americano aos empreendimentos futuros dos Estados Unidos,
combinando “um modus vivendi adaptável à política imperialista
da Casa Branca”, e previu que a Europa solicitaria necessariamente sua anulação ou modificação11. Rui Barbosa, conforme
assinalou o chanceler Celso Amorim, “foi um pioneiro da diplomacia multilateral no Brasil” e “inaugurou uma linha de atuação
que perdura até hoje: a defesa da igualdade entre os estados e da
democratização das relações internacionais”12. “O novo sentido
da política externa brasileira” — acentuou o embaixador Carlos
Henrique Cardim — “afirma-se com o pensamento e a ação
422 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
de Rui Barbosa”, ao defender o princípio da igualdade entre os
estados, na Assembleia de Haia, em 190713. Lá, ele combateu
firmemente o projeto dos Estados Unidos, que propunha a criação de uma corte permanente de arbitragem, que privilegiava as
grandes potências em detrimento dos países mais fracos. E, ao
defender a igualdade dos estados soberanos, proclamou que “la
souveraineté est la grande muraille de la patrie”.14
Sim, a soberania é a muralha da pátria. No entanto, conforme o próprio Rui Barbosa observou, não se toma a sério a lei
das nações, senão entre as potências cujas forças se equilibram.
Essa lição deve pautar a estratégia de segurança e defesa do Brasil, sobretudo quando os Estados Unidos ampliam e instalam
outras bases militares na Colômbia, penetrando a Amazônia, e
a IV Frota navega no Atlântico Sul, à margem das enormes jazidas de petróleo descobertas nas camadas Pré-Sal, em águas
profundas, entre o Espírito Santo e Santa Catarina. Essas descobertas ao longo da costa inseriram o Brasil no mapa geopolítico
do petróleo. E as ameaças existem, conquanto possam parecer
remotas. O perigo que representa uma grande potência, tecnologicamente superior, mas com enormes carências, sobretudo
de energia, pode ser muito maior quando ela está a perder a
preeminência e quer mantê-la, do que quando expande seu império. Não duvido de que a intenção do presidente Barack Obama seja, sinceramente, renovar a política internacional dos Estados Unidos e aliviar as tensões geradas pelas iniciativas bélicas,
agressivas, unilaterais do seu antecessor, o presidente George W.
Bush. Contudo, incoercíveis interesses econômicos alimentam
poderosas forças políticas que o presidente Barack Obama não
tem como controlar e até podem, eventualmente, eliminá-lo. O
Brasil, portanto, deve estar preparado para enfrentar, no mar
e em terra, os imensos desafios que se configuram no século
XXI, a “era dos gigantes”, como o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães denominou essa era em que os grandes espaços
econômicos e geopolíticos serão os principais atores da política
►► 423
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
internacional. Si vis pacem, para bellum (se queres a paz, prepara-te
para a guerra). É o passado, a história, que está presente, condicionando o futuro.
NOTAS
ELIOT, T. S. Four quartets. London: Faber & Faber, 1972, p. 13.
Urðr e Verðandi, forma substantiva de verða (germânico: werden; anglo-saxão: weorðan), tornar-se. A forma corresponde ao particípio passado, vorðinn, ou orðinn, completado. Wyrd era, como Urðr, o fado ou
destino. Dela derivou o termo weird na língua inglesa e deu origem ao
verbo auxiliar werden (alemão moderno), que significa ser em transformação. A outra Norn é o particípio presente, verðandi, tornando-se,
acontecendo. Skuld provém de skuld, o particípio passado de skulu
(sueco: skola; anglo-saxão: sculon); presente: skal (sueco: skall; dinamarquês: skal; anglo-saxão: sceal; inglês: shall); passado: skyldi (sueco: skulle;
dinamarquês: skulde; anglo-saxão: sceolde; inglês: should). O nome também significa dever, obrigação (dinamarquês: skyld) e denota o caráter
da deusa da morte.
3
MONIZ DE ARAGÃO, Antônio Ferrão. Elementos de mathemáticas.
Bahia: Typ. e Livraria Pedroza, 1858, p. xvii.
4
GÓES, Guilherme Sandoval. O geodireito e os centros mundiais
de poder. In: VII Encontro Nacional de Estudos Estratégicos. Gabinete de
Segurança Institucional da Presidência da República, Brasília, 6 a 8
nov. 2007.
5
Entrevista de Eric Hobsbawm a Martin Granovsky, presidente da
agência de notícias Télam. Página 12, Buenos Aires, 29 mar. 2009.
6
LUTZ, Catherine (Ed.). The bases of empire: the global struggle against
U.S. military posts. London: Pluto Press, 2009, p. 1.
7
STIGLITZ, Joseph E.; BILMES, Linda J. The three trillion dollar war:
the true cost the Iraq conflict. New York: W. W. Norton, 2008.
8
MOYER, Elizabeth. Financial crisis: Washington’s $5 trillion tab.
Forbes.com.
9
CALMES, Jackie. Estimate for 10-year deficit raised to $9 trillion. The
New York Times, 26 ago. 2009.
10
Idem.
1
2
424 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
BARBOSA, Rui Barbosa. O continente enfermo. A Imprensa, 3 maio
1899. In: BARBOSA de Oliveira, Rui. Obras seletas. vol. 8. www.bn.br/
bibvirtual/acervo.
12
AMORIM, Celso. A diplomacia multilateral do Brasil: um tributo
a Rui Barbosa. II Conferência Nacional de Política Externa e Política Internacional — O Brasil e o mundo que vem aí. Rio de Janeiro, Palácio
Itamaraty, 5 nov. 2007. Brasília: Ministério das Relações Exteriores;
Fundação Alexandre de Gusmão; Instituto de Pesquisa de Relações
Internacionais, 2007, p. 5.
13
CARDIM, Carlos Henrique. A raiz das coisas: Rui Barbosa: o Brasil
no mundo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, p. 90-91.
14
BARBOSA, Rui A segunda conferência de paz. Obras Completas. vol.
XXXIV, 1907, tomo II. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura, 1966, p. 256-257.*
11
Moniz Bandeira é historiador, cientista político, escritor, conferencista
e professor da Universidade de Brasília, especialista em política exterior
do Brasil e suas relações internacionais, com vasta obra publicada. Foi
adido cultural no Consulado-Geral do Brasil em Frankfurt e é cônsulhonorário do Brasil em Heidelberg. Reside na Alemanha desde 1996.
É membro correspondente da ALB.
Discurso proferido na cerimônia de recebimento do título de doutor
honoris causa da Universidade Federal da Bahia, na Sala dos Conselhos
da Reitoria da UFBA, em 16 de setembro de 2009.
►► 425
MONIZ BANDEIRA
Saudação ao doutor honoris causa da UFBA
Ubiratan Castro
S
into-me mui honrado com a missão que me foi conferida
por meu diretor, professor doutor João Carlos Salles Pires da
Silva, diretor da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da
Universidade Federal da Bahia, de saudar o professor Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira nesta cerimônia de outorga do
título de doutor honoris causa da Universidade Federal da Bahia.
O homenageado, por sua própria biografia, é um exemplo
de excelência em tudo o que experimentou.
O homem
Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, formado em
direito, é doutor em ciência política pela Universidade de São
Paulo e professor titular de história da política exterior do Brasil,
no departamento de história da Universidade de Brasília (aposentado). Em 2006, recebeu o título de doutor honoris causa das
Faculdades Integradas do Brasil (UniBrasil), de Curitiba, Paraná,
e foi eleito pela União Brasileira de Escritores (UBE), por aclamação, intelectual do ano de 2005, com o Troféu Juca Pato, por
causa de sua obra Formação do império americano: da guerra contra
a Espanha à guerra no Iraque.
Sua vida foi profundamente marcada pelo golpe militar
que derrubou o governo do presidente João Goulart, em 1964.
Perseguido devido à sua participação na resistência, teve de
►► 427
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
exilar-se no Uruguai (1964-1965), de onde regressou ao Brasil
e viveu clandestinamente em São Paulo até quase o final de
1967. Depois, passou dois anos (1969-1970 e 1973) preso pela
Marinha de Guerra, e somente em 1974 pôde retomar as atividades acadêmicas, assumindo a função de professor na Escola de
Sociologia e Política de São Paulo.
Moniz Bandeira, na segunda metade dos anos 1970, morou algum tempo nos Estados Unidos e na Europa, com uma
bolsa pós-doutoral do Social Science Research Council e Joint
Committee on Latin-American Studies of the American Council of Learned Societies, e, ao retornar definitivamente ao Brasil,
em 1979, foi professor na Pontifícia Universidade Católica do
Rio de Janeiro, no Instituto Metodista Bennet e na Universidade
Estadual do Rio de Janeiro, de onde passou para a Universidade
de Brasília. Posteriormente foi professor visitante nas Universidades de Heidelberg, Colônia, Estocolmo, Buenos Aires, Nacional de Córdoba (Argentina) e Técnica de Lisboa, entre outras,
e também conferencista em diversas universidades, no Brasil e
em vários países, na América do Sul, Europa e Estados Unidos.
É autor de mais de 20 obras, como Presença dos Estados
Unidos no Brasil: dois séculos de história, e O governo João Goulart:
as lutas sociais no Brasil, 1961-1964, que foram best-sellers, bem
como de A expansão do Brasil e a formação dos estados na bacia do
Prata; O feudo — A Casa da Torre de Garcia d’Ávila: da conquista
dos sertões à independência do Brasil; De Martí a Fidel: a revolução cubana e a América Latina; Fórmula para o caos: a derrubada
de Salvador Allende, 1970-1973. Algumas de suas obras foram
publicadas na Rússia, Alemanha, Argentina, Chile e Portugal.
Luiz Alberto Moniz Bandeira é grande oficial da Ordem
de Rio Branco (Brasil), comendador da Ordem do Mérito Cultural (Brasil), comendador da Ordem de Mayo (Argentina) e
condecorado com a Cruz da República Federal da Alemanha, 1ª
Classe (Das Verdienstkreuz — 1 Klasse — Das Verdienstorden
der Budesrepublik Deutschland). Casado com Margot Bender,
428 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
há muitos anos reside na Alemanha, onde foi adido cultural no
Consulado-Geral do Brasil em Frankfurt (1996-2002) e atualmente exerce a função de cônsul-honorário em Heidelberg, com
jurisdição sobre o distrito governamental de Karlsruhe, norte de
Baden-Württemberg.
Um aristocrata de esquerda
Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira é descendente
das principais famílias baianas, desde a fundação da Cidade do
Salvador, em 1549. Nele convergem as prestigiosas linhagens
dos Monizes, dos Pires de Carvalho e Albuquerque, dos Ferrão, dos Aragão e dos Bandeiras. Elas povoaram a Bahia de negociantes, senhores de engenho, condes, viscondes e barões no
tempo do Império. Na República, muitos foram parlamentares,
governadores, ministros e secretários de estado. A sua filiação
a essa “nobreza da terra”, no entanto, não o fez um conservador, parasitário do prestígio familiar, proprietário de instituições
públicas ou beneficiário das prebendas e mimos do estado. Sua
estrada foi calçada inteiramente pela excelência do seu trabalho
intelectual, social e político. Suas ideias, longe de representarem
os interesses das elites dominantes, pautaram-se sempre em uma
das tradições dos Monizes, do amor à liberdade. Esse compromisso com a liberdade e com as causas populares lhe rendeu
perseguição, prisão e exílio. Mas constituiu uma referência maior
para a construção de um Brasil democrático e moderno.
Seu amor à liberdade inviabiliza qualquer classificação do
seu pensamento em categorias ideológicas estanques. Foi socialista, foi trabalhista, foi socialdemocrata, mas acima de tudo foi
um patriota que lutou por um Brasil generoso, lugar de felicidade de todos os brasileiros. Apesar da aparente contradição nominal, é Moniz um exemplo mais eloquente na história da Bahia
de um “aristocrata de esquerda”.
►► 429
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
O sábio cientista
O cientista Moniz Bandeira é uma das referências intelectuais do Brasil. Além da produtividade do seu trabalho intelectual, que se traduz no seu extenso currículo, sua produção intelectual destaca-se como um exemplo de excelência acadêmica.
Praticou os métodos e as técnicas de várias ciências humanas,
sem, contudo, incorrer nos equívocos de uma interdisciplinaridade aleatória, verdadeira salada das interpretações. Sua liberdade metodológica está firmemente ancorada no método dialético
de conhecimento da realidade. Compreender a complexidade do
social em contínuo movimento de transformação, este é o seu
grande desafio. Presente, passado e futuro formam um continuum
inseparável. Para conhecê-lo, recorremos aos conselhos do poeta José Carlos Capinan em seus poemas dialéticos: “Quis conhecer o Rio. Tornei-me navegador.”
Moniz Bandeira enfrentou o desafio de compreender os
fenômenos políticos e, para tanto, assumiu integralmente a teoria e a prática da política. Para cada tempo de sua observação,
uma disciplina acadêmica específica, com os seus respectivos
repertórios. Para o presente, a ciência política e, dentro dela, as
relações internacionais, ou seja, a política entre os estados nacionais em um mundo interdependente e conflituoso.
Em toda a sua vasta bibliografia, em seu magistério e
em sua atuação como consultor, assessor e conferencista qualificado, contribui decisivamente para a sistematização de uma
massa crítica que orienta a política externa brasileira na busca
de solidariedades de nações não hegemônicas, principalmente
no sentido Sul-Sul. Constitui-se hoje, com a liderança brasileira, um bloco sul-americano capaz de negociar sem subserviência com o grande Império do Norte. Participa também o
Brasil das articulações com os países emergentes: África do
Sul, Índia, China e Rússia, conhecidos hoje como BRICS. A teoria política produzida por Moniz Bandeira alimenta esse novo
430 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
processo de cooperação internacional, libertado das amarras
ideológicas que agrupavam em blocos artificiais os chamados
não alinhados, os subdesenvolvidos, os terceiros-mundos. Os
novos agrupamentos são baseados nos interesses bilaterais,
objetivos e não exclusivos, respeitada a soberania de cada estado nacional.
Na ciência política de Moniz Bandeira, o conceito de soberania nacional é fundamental. Sem ela, a interdependência
e a cooperação conduzem necessariamente ao subdesenvolvimento e ao empobrecimento das populações. Por isso, assume
com entusiasmo a implantação de um sistema de defesa nacional que funcione como um verdadeiro “escudo” protetor
do desenvolvimento nacional e das riquezas muitas deste paíscontinente Brasil. É preciso ter os meios tecnológicos e militares para desestimular as invejosas pretensões internacionais
sobre as nossas riquezas: a Amazônia Verde, a Amazônia Azul,
o Pré-Sal e o Aquífero Guarani, dentre outras. Hoje, o sábio
Moniz Bandeira tem a coragem e vitalidade de levantar sua voz
em defesa da soberania nacional.
A luta do presente está indissoluvelmente ligada aos projetos de futuro, projetado mediante os métodos de uma outra
disciplina, a geopolítica. É indispensável que as lideranças políticas e intelectuais do país estabeleçam as estratégias de desenvolvimento do Brasil para o século XXI. Nossas potencialidades
naturais devem ser corretamente estimadas. Nossa capacidade
científica e tecnológica deve ser sistematicamente ampliada em
um padrão internacionalmente competitivo. Nossa capacidade
de defesa deve ser suficientemente dissuasiva de pretensões hostis. Nossa população deve ser massivamente educada para tomar
em suas mãos a defesa de nossa soberania e o aperfeiçoamento
de nossa democracia. Os cientistas e sábios brasileiros, como
Moniz Bandeira, são os nossos guias na projeção de um futuro
auspicioso para nosso país.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
O historiador
O politicólogo e geopolítico Moniz Bandeira consolidou
a sua visão da sociedade brasileira a partir da produção de uma
historiografia voltada para os fenômenos políticos no Brasil.
Assim, da ciência política e da geopolítica, Moniz Bandeira
desenvolveu, em padrão de excelência, uma renovada história
política do Brasil.
Nos anos 50 do século passado, a emergência da escola
dita dos Annales, de matriz francesa, deslocou da vanguarda da
historiografia a tradicional história dos fatos políticos, conceituados como événements, acontecimentos singulares encadeados
por uma narrativa descritiva, disciplinada pelo positivismo. Essa
passou a ser une petite histoire, desprestigiada pelos grandes historiadores. Pouco a pouco, operou-se uma consistente história
política, não mais descritiva, impulsionada pelas questões postas
pela ciência política e seus desafios relativos ao conhecimento
do “poder”, seu exercício, a gestão das sociedades e, acima de
tudo, a compreensão das mudanças sociais, econômicas e culturais e suas consequências políticas. A recuperação da história
política implicou também a descoberta de um novo lugar “metodológico”, que o historiador francês René Remond chama de
carrefour (em bom baianês, a “encruzilhada”). No domínio da política, da luta pelo poder, todos os aspectos sociais, econômicos,
religiosos, regionais e culturais atuam de maneira complexa na
gestão das sociedades. Não se trata mais de buscar as determinações econômicas da política como superestrutura, e sim ter na
história política um observatório da sociedade em movimento.
Ainda no domínio da história política, o estudo das revoluções
e das rupturas dos ritmos habituais de transformação das sociedades possibilita aos novos historiadores a percepção do todo
social que se revela nos momentos de crise. Jules Michelet foi o
primeiro a constatar as conjunturas revolucionárias como reveladoras da história de toda a sociedade francesa em movimento.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Ele diz textualmente que, na revolução de 1830, ele viu toda a
França nas ruas!
No Brasil, Luiz Alberto Moniz Bandeira, pelo observatório da história política, propicia, com uma visão da totalidade
em movimento, a compreensão de um Brasil que lutava desesperadamente pelo desenvolvimento nos anos 60. O governo João
Goulart: as lutas sociais no Brasil, 1961-1964, além de reconstituir a história do golpe de 64, é também uma obra reveladora dos impasses do desenvolvimentismo brasileiro. Do mesmo
modo podemos afirmar que o estudo de processos de ruptura
da ordem em vários países, empreendido por Moniz Bandeira,
ilustra essa boa história política: a queda de Allende, a revolução
cubana, a queda do Muro de Berlim e a reunificação alemã. A
todas essas obras clássicas, soma-se seu maior best-seller, Formação
do império americano, de recorte mais ambicioso, posto que estuda
a cristalização de um sistema hegemônico mundial, centrado nos
Estados Unidos da América. Esse foi o grande feito metodológico, um todo mundial em movimento, o grande desafio para a
dialética de Moniz Bandeira.
Um ato de justiça
A Universidade Federal da Bahia acerta ao distinguir
com a sua maior honraria um cientista exemplar, que produz
um conhecimento avançado de qualidade mundialmente reconhecida, cuja influência e orientação devem operar um salto de
qualidade no ensino e na pesquisa praticada nesta instituição.
Suas ideias deverão ser difundidas através da extensão universitária, de modo a melhor instrumentar os cidadãos brasileiros
na luta pela consolidação da democracia e pela afirmação da
necessária soberania brasileira.
Esse grande cientista traz à tona uma sólida formação
humanística e uma rara habilidade no uso das palavras, não
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
somente em sua obra de historiador, mas também em sua obra
literária. Esse gênio se revela desde os tempos juvenis do Central, até hoje, com a publicação da sua Poética. À razão, sua principal ferramenta de conhecimento do mundo, soma-se a paixão,
pela qual vive no mundo. Sua paixão política é muito explícita
no seu poema “Che”, escrito em 1967, ainda sob o impacto do
fuzilamento de Ernesto Guevara na Bolívia:
Guerreiro andante
Sem armadura
Por entre montes
Por entre escarpas
Guerreiro ou monge
A ti resignas
Em luta e povo
Numa só pátria
Bolívia e Congo
Guerreiro andante
Noites dispersas
Vermelho o campo
No teu escudo
Nas tuas armas
Guerreiro ou monge
Outros te seguem
Pelos caminhos
Sangue e manhã
Do teu martírio
Sua paixão é lírica e conjugal no terno poema “Uma coroa
para Margot”, sua esposa:
Entre o castelo e a neve na montanha,
Vi tua imagem de manhã madura,
O azul vertendo sobre tua alvura,
À luz do sol que os campos brancos banha.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
A cicatriz dos tempos lá perdura
E tua imagem a paisagem entranha
Contrastando a beleza morta e estranha
Que o castelo arruinado configura.
Sobre ti resvalei e assim, depois,
O intenso amor, que mesmo ao frio se ergue,
Desvaneceu o espaço entre nós dois.
Que meu corpo, que sobre o seu se vergue,
Viva entre o teu ventre para sempre, pois
Perdi meu coração em Heidelberg.
Feliz é a Universidade Federal da Bahia, que pode contar
no seu quadro de doutores honoris causa o grande baiano Luiz
Alberto Moniz Bandeira.*
Ubiratan Castro (1948 – 2013), historiador, gestor cultural, escritor
e professor, graduado em direito na UFBA e em história na
UCSAL, mestre pela Universidade de Paris (Nanterre) e doutor pela
Universidade de Paris (Paris-Sorbonne). Dirigiu o Centro de Estudos
Afro-Orientais da UFBA, a Fundação Cultural Palmares e a Fundação
Pedro Calmon. É imortal da ALB na Cadeira nº 33.
Discurso de saudação a Moniz Bandeira, membro correspondente da
ALB, proferido na cerimônia de entrega ao homenageado do título
de doutor honoris causa da Universidade Federal da Bahia, na Sala dos
Conselhos da Reitoria da UFBA, em 16 de setembro de 2009.
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ANTÔNIO CARLOS MAGALHÃES
E A CULTURA
Uma relação intuitiva e apaixonada
Geraldo Machado
Só pode bem governar a Bahia quem tenha uma intimidade e uma
perfeita identidade e compreensão do povo e da sua cultura.
Antônio Carlos Magalhães
A
gradeço o amável convite do Instituto ACM para falar esta
noite sobre o tema “Cultura e baianidade”, ao tempo em
que destaco o senso de oportunidade pela escolha do novo direcionamento estratégico do instituto, centrado doravante na área
cultural, e que terá como missão o fomento de estudos, análises
e discussões aprofundadas sobre o setor. É importante, um trabalho necessário, que o acervo de realizações de Antônio Carlos
Magalhães seja recuperado e difundido. Louvo o conjunto de
iniciativas para a comemoração da passagem deste quatro de setembro, data que marca seu aniversário, que teve início com a
abertura de uma exposição, sob a curadoria de Paulo Gaudenzi,
cujo tema percorre e pontua a imensa contribuição das gestões
de ACM à cultura baiana. Nosso encontro, hoje — bem ao estilo
do homenageado —, se faz como uma alegre celebração da vida.
Festeiros somos nós, os baianos — e quem mais radicalmente
baiano que ACM?
Um exame profundo das relações de ACM com a cultura
e com o conceito de baianidade — uma obra em progresso —
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
exigiria, para uma compreensão mais apurada do tema, estudos
transdisciplinares, algumas alentadas teses de doutorado, tal a
dimensão e complexidade dessa interação. Não sou expert ou
acadêmico na matéria. Aceitei o convite, entretanto, a despeito
de minhas evidentes limitações, por encará-lo como uma oportunidade para compartilhar apenas uma visão pessoal. Um apanhado de reflexões que venho acumulando ao longo do tempo
em torno do tema. E, sobretudo, por alguns motivos de ordem
pessoal: o primeiro deles, nossa longa amizade — convivi com
ACM desde criança, na casa de meus pais; o segundo, pela admiração que ele me despertou como gestor e homem público;
e mais, por gratidão e reconhecimento face a sua demonstração
de confiança ao me convocar para cargos de governo de grande
responsabilidade, que representaram algumas das minhas principais oportunidades profissionais e um aprendizado constante: o
universo da política — um campo de uma vastidão vertiginosa
— toca e articula tudo e a todos.
Quando ainda muito jovem, fui seu oficial de gabinete na
Prefeitura Municipal do Salvador. Mais adiante, estive à frente da Fundação Cultural do Estado, quando esta equivalia, em
sua representatividade institucional e em suas atribuições, a uma
secretaria de cultura. Sucessivamente, reestruturei e dirigi o Promo-Centro Internacional de Negócios. Participei diretamente do
processo de implantação da Fundação Luís Eduardo Magalhães,
de que fui o superintendente-geral durante oito anos. Também
exerci por um período a função de secretário da indústria e comércio da Bahia.
Meu depoimento é, portanto, forçosamente afetivo, subjetivo, fragmentado. Um compartilhamento que mistura reminiscências históricas e lembranças pessoais, resultando por formular
aqui e ali algumas hipóteses e considerações, ainda que desprovidas de qualquer rigor analítico, pelo menos por enquanto.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Memória coletiva
Vamos retroceder ao final da década de 60, quando já
era manifesta e declarada a paixão do então prefeito Antônio
Carlos pela Bahia e, mais especificamente, pela cultura baiana.
Repetidas vezes o ouvi afirmar que a permanência do nome
de um homem público no imaginário coletivo seria tanto mais
longeva quanto mais estivesse sua obra associada a uma atuação que resultasse em um legado cultural. Ele tinha já a perfeita
compreensão de que a memória afetiva popular perpetua os
artistas e aqueles que promovem a consolidação e o enriquecimento da cultura local.
O coração do povo preferia escancaradamente os artistas,
os trabalhadores da cultura e seus mecenas aos meros construtores de fortunas, fábricas ou pontes. Coisa que se repete e se
comprova (pelo menos) desde a Babilônia, passando pela constituição do Egito como projeto de nação no trabalho árduo de
construção da Esfinge, seu imenso orgulho, e das Pirâmides; por
Atenas, de Péricles e do Partenon, cujo ethos tanto era guerreiro
quanto cultural; e, num salto no tempo, pelos Médicis e o esplendor artístico de Florença. ACM tinha razão, são constantes
os exemplos na história!
Convivialidade
Fui testemunha à época de como o jovem prefeito ACM
encantou-se pelas ideias de um expert francês da Unesco, Michel Parent, que lhe foram apresentadas pelo saudoso Vivaldo
da Costa Lima. Parent foi provavelmente um dos primeiros
especialistas em cultura a elaborar um relatório para a Unesco no qual reconhecia a especificidade da Bahia, enaltecendo
sua riqueza identitária e singularidade cultural. Afirmava ele
que a Bahia, um tesouro sociocultural, pertenceria à ordem do
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
que há de mais valioso entre patrimônio material e patrimônio imaterial mundial. Recomendava um trabalho exaustivo de
levantamento e preservação, sobretudo no núcleo do Centro
Histórico de Salvador, conjunto arquitetônico de beleza rara
e harmonia invulgar. Para arrematar, Parent aconselhava também — e foi a primeira vez que eu ouvi essa palavra — que
os governos estimulassem a convivialidade como suporte de
atração de visitantes, vale dizer, propunha uma relação direta
de convivência e de integração deles no dia a dia da população.
Em sua opinião, a despeito das visíveis sequelas e mazelas da
pobreza da cidade, Salvador abrigava uma sociedade extremamente original, calorosa e acolhedora, detentora de incontáveis
trunfos culturais.
Suas recomendações eram, portanto, no sentido de que
deveríamos promover a imersão dos visitantes no cotidiano da
cidade, deixá-los maravilharem-se com a qualidade humana da
gente da Bahia, mergulhados no que seria uma cultura viva e interativa, ao invés de se criar uma vitrine artificial para exibir nossa cultura na qualidade de um adorno. Importante assinalar que
aqui já se lidava com um conceito amplo e moderno de cultura,
e não mais um cercadinho meio parnasiano dedicado às “artes”.
Mais adiante, retomaremos alguns dos gatilhos iniciais
do grande interesse despertado pela Bahia no cenário da intelligentzia internacional. Impossível não suspirar, com muita
saudade, ao falar da calorosa cordialidade de nossa gente e de
uma Bahia com características e ritmos mais originais, criativos, humanos e hospitaleiros.
Recortes
Falar concisamente de ACM e de sua relação com a vida
cultural da Bahia exige, é claro, alguns recortes. Para que se
percebam suas grandezas e contradições, é preciso, obviamente,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
que ele seja situado, contrastado, compreendido a partir — e
no contexto — de suas relações com o tempo em que viveu.
Perceber, grosso modo, que efeitos as coordenadas daquele
tempo histórico tiveram sobre ele, como interagiram, e, por
sua vez, quais foram as inflexões que ele imprimiu sobre seu
tempo. E mais: o que sobreviria a ele e o que sobreviveria
depois dele?
Para um estudo mais acurado se faria necessário, portanto, um preâmbulo crítico que pudesse esboçar o contexto histórico,
sociocultural, econômico e político da época. No caso particular
de ACM, esse contexto corresponderia a várias fases distintas:
à de prefeito, às três como governador e àquelas atinentes aos
seus mandatos como senador.
Como sabemos, a cultura é um permanente vir a ser; um
lento e complexo processo de construção coletiva, influenciada e revolvida por múltiplos atores e fatores das mais diversas
ordens. Tanto corresponde, quanto, ela mesma, influencia e imprime seu próprio ritmo às mudanças da sociedade. Costuma-se
dizer: “a cobra morde o próprio rabo”. Seus paradigmas e políticas tanto são alterados pelas constantes reorganizações sociais e
urbanas, como eles próprios alteram, por sua vez, os movimentos da sociedade, numa via de mão dupla.
Quais seriam, portanto, os anseios, os mitologemas do
imaginário coletivo de como Salvador e Bahia se viam e seriam
vistas pelo resto do país e do mundo? Para onde a destinaria o
seu passado histórico internacional como capital brasileira e, enquanto cidade-porto, a mais importante das Américas?
Salvador, do ponto de vista dos tempos de percurso da
época, estava a um passo do burburinho das cortes de Lisboa,
consequentemente da Europa, e do tráfico e comércio com a
África e a Ásia. Sua capital e seu Recôncavo atraíam a cobiça de
franceses e holandeses, expulsos daqui a pau, pedra e arcabuzes.
Todos os ventos e correntes marítimas traziam para cá barcos e
caravelas a caminho do Oriente e do continente africano. Que
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
transportes da história ela pôde então alcançar a tempo? Quais
deles ela perdeu? Quais suas fomes, quais seus transbordos?
Após alguns séculos de esplendor e importância como o
maior centro do Hemisfério Sul, Salvador perdeu o seu posto
de capital da colônia para o Rio de Janeiro e, aos poucos, foi-se
tornando uma cidade isolada. Por um período conseguiu manter
ainda seu lugar de destaque nas rotas de comércio internacional.
Desde as primeiras capitanias, as rixas nordestinas já se
delineavam, secundadas mais tarde pelas rivalidades com o Sul
do país, os centros auríferos e a nova capital. A bela adormecida,
a pacata e modorrenta Salvador foi, pouco a pouco, ficando para
trás, a cada dia perdendo o lustro das folhas de ouro de seus
altares, como uma rainha destronada, coberta de teias de aranha
e pela poeira dos séculos.
Com a invenção do navio a vapor, a abertura dos canais
de Suez e do Panamá e os desvios das rotas, Salvador tornou-se
então completamente superada e esquecida. Essa passagem histórica foi exaustivamente estudada pelo professor Cid Teixeira.
A baianidade
Apeada do poder, durante quase um século nossa cidade
viveu estanque, no marasmo, fechada em si mesma, envolta em
nostalgias do seu passado de antiga capital do Brasil Colônia.
Obrigada a voltar-se para seu próprio umbigo, foi uma guardiã
zelosa de seus ritos e tradições e, qual uma estufa, conseguiu
decantar e sintetizar uma forte memória coletiva.
Segundo vários estudiosos, durante esse período ela foi
digerindo e metabolizando suas entranhas, terminando por
forjar assim uma identidade autorreferente, uma forma particular de tecido social, a matriz de um jeito de ser e de estar que
viria a definir muitos dos elementos comportamentais básicos
que permitem, ainda hoje, que sejamos reconhecidos como
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
baianos, com traços identitários muito singulares. Gerações sucessivas de filhos de portugueses — entre esses, um bom
contingente de cristãos-novos — com nativas aculturadas foram-se misturando à resiliência da seiva africana. Nostalgias
de Lisboa, suspiros europeus misturavam-se a meninos que
se indianizavam levando o gado pelo sertão, longe da Salvador desenhada como a Lisboa dos Trópicos, a salvo de olhares
controladores. Tudo isso percutido e ritmado na batida maciça
da presença africana — pura ou mesclada aos portugueses e
nativos. Segundo Jorge Amado, com muito bom humor, a África nos teria salvado da melancolia portuguesa.
Esse cadinho fermentava, o caldo cultural engrossava, se
bem que ainda meio talhado. Perto de completar “cem anos de
solidão”, o isolamento e a estagnação permitiram que a Bahia
mantivesse e exacerbasse características únicas de hábitos e costumes, preservando uma relação forte e viva com seu passado
colonial e um apaixonado culto às tradições. Portanto, o que
perdemos em oxigênio, ganhamos em condensação.
Os búzios foram jogados, as sortes estavam lançadas. A
Bahia, por conta de suas misturas e amálgamas — aromas, sabores, temperos, dengos e magias —, foi gradativamente acumulando prestígio no exterior, ocupando no imaginário internacional um lugar especial como uma das terras legendárias, míticas e
mágicas do planeta.
A grande virada
Fazemos agora uma elipse, transportando-nos aos anos
cinquenta. Só com a abertura da estrada Rio-Bahia, ligando o
país de norte a sul, o isolamento da Bahia é rompido e se inicia
um processo de reabertura e religação com o mundo. A Bahia é,
por assim dizer, redescoberta. É nessa década que, apoiado nesse lastro histórico de baianidade, um personagem-chave imagina
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
e impulsiona o que viria a ser a grande virada cultural baiana:
o reitor Edgard Santos. Ele traz para Salvador artistas e pensadores de cultura, todos de grande quilate, e provoca assim uma
revolução na universidade e na vida cultural baiana.
Salvador, com aproximadamente 500 mil habitantes, era
então uma cidade provinciana, com anacronismos empolados,
reconhecidos pela elite social como a equivalência de uma vida
cultural que, no pior sentido, se poderia chamar de afrancesada ou bacharelesca. Então reitor da UFBA, Edgar Santos criou,
num gesto visionário, magistral, as primeiras faculdades voltadas
para as formações de música, teatro e dança. Para dirigi-las, trouxe de fora personalidades inovadoras, como Martim Gonçalves,
Swanka e Koellreutter.
Essa grande obra do reitor atraiu para a Bahia um contingente de professores talentosos, altamente qualificados, como
Ernest Widmer, Walter Smetak, Rolf Gelewski, Lina Bo Bardi,
Piero Bastianelli, entre muitos outros. A vida cultural de Salvador começava a fervilhar, tornava-se intensa, de grande qualidade. Nada se esgotava em si mesmo, tudo dava origem a mais coisas e ainda tantas outras. Os resultados desse trabalho se fizeram
sentir em todos os movimentos artísticos importantes e de vanguardas, acontecidos aqui na Bahia e no Brasil, nesse período e
adiante, com ecos que nos chegam até os dias de hoje. A Bahia
entrou assim em combustão — uma fissão cultural de grande
envergadura, (re)imaginando sua rica herança identitária com a
trepidação criativa dos novos tempos e injunções.
A transversalidade da atuação de Edgard Santos siderou
Antônio Carlos Magalhães. Já mencionamos, antes, que a política é algo que permeia tudo. O mesmo ocorre com a cultura. Não
há cultura sem política e vice-versa. E Antônio Carlos Magalhães toma para si esse modelo e, nesse sentido, sempre tentará
emular Edgard Santos.
ACM teve a influência de várias pessoas que o inspiraram a priorizar o vetor cultural: seu pai Magalhães Netto e os
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
incontáveis amigos ligados à cultura, a exemplo de Odorico
Tavares, Vivaldo da Costa Lima, Emanuel Araújo, entre muitos
outros. Edgard Santos, no entanto, permaneceu como o seu
maior inspirador.
Muito por conta da celebridade do escritor Jorge Amado
— no exílio no início dos anos 50 — e da força de sua literatura que então contava com o suporte da propaganda internacional comunista, não foi por acaso que a cultura da Bahia começou a atrair as atenções da intelligentzia europeia, em especial
a francesa.
Fomos revalorizados, cuidadosamente observados por
cientistas sociais, etnólogos e antropólogos, como Roger Bastide, Levy-Strauss, Pierre Verger e tantos outros. Olhavam Salvador e viam nela uma cidade feminina. Escreviam, imaginavam
novas maneiras de se habitar esse universo que se estendia como
uma ponte entre a matéria e o espírito, onde se alimentam os
orixás todos os dias com o nosso axé e também com deliciosas iguarias. Bahia, um holograma, um estado de espírito, uma
nação que existe em muitos planos paralelos e convergentes,
superando todas as suas contradições. Uma Bahia misteriosa,
surpreendente e sedutora, sincrética, onde Nossa Senhora mora
no mar e às vezes atende pelo nome de Oxum ou de Yemanjá.
Território sagrado e profano, onde a fé e a festa acasalavam-se
harmoniosamente. A celebração de uma vida, ao mesmo tempo
real e mítica, em dimensões que se interpenetram, trazendo as
divindades para bem perto de nós. Uma terra encantada... Uma
terra em que “não se precisa dormir pra sonhar”, no dito genial
de Dorival Caymmi.
O olhar estrangeiro foi para nós muito importante, estruturante, por seu distanciamento crítico, por perceber melhor
as coisas do lugar sem que sua visão fosse atrapalhada por uma
proximidade excessiva ou por comprometimentos míopes. Nos
fez acessar e reavaliar muitos pontos, cegos para nós mesmos,
nos ensinaram a nos perceber, a estimular nossa capacidade de
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
autorreconhecimento, deixando um saldo de valorização de todo
o nosso rico patrimônio artístico e cultural, de todo esse patrimônio imaterial ou simbólico singular, tornando patente o consenso
de que a Bahia é, inequivocamente, um tesouro muito especial.
Nenhum olhar é completamente inocente, é claro. Mas
a visão possibilitada por certo recuo amplia seu escopo, facilita uma melhor observação da grande cena. Permite descobrir
inter-relações e intenções. Quando a Bahia se reabre para o
mundo, isso se faz mediado exatamente pela cultura, sua mais
poderosa força de expressão.
Ressaltamos uma faceta importante da cultura baiana daquela época: todas as atividades artísticas, desde o período do
Brasil Colônia, concentravam-se rigorosamente em Salvador (segundo o mestre José Calasans, vivíamos uma cultura do tipo “capitalista”, pois era absolutamente cativa da capital!). Além disso, a
única possibilidade de financiamento das artes e da cultura residia
no mecenato estatal. Infelizmente, isso ocorre até hoje, salvo raríssimas exceções. A Bahia nunca contou com um empresariado
capaz de cumprir com a sua parte na responsabilidade social de
amparar e ajudar a qualificar a vida cultural da cidade.
Indo na esteira do “choque tectônico” provocado pelas
inovações culturais de Edgar Santos, que trouxe inspiração e
energia intelectual de alta voltagem para a então velha província,
a Bahia liderou inúmeros movimentos de vanguarda que passaram desde então a vicejar no Brasil: o tropicalismo, com Gil
e Caetano; o cinema novo, com Glauber Rocha; o movimento
música nova com Ernst Widmer e o Grupo de Compositores da
Bahia; a bossa nova, com João Gilberto; a literatura, com João
Ubaldo, entre tantos e tantos outros. Foram tempos propícios à
explosão de novos talentos. Inspirados assim na atuação exemplar de Edgar Santos, sucessivos governos estaduais passaram a
garantir apoio privilegiado ao setor cultural.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Revival
Nos anos 80 e 90, a Bahia viveu um verdadeiro revival cultural. “Terra Prometida” das artes, ela passou a ser invejada por
artistas e produtores de outros estados brasileiros, que fizeram
daqui a sua destinação preferida. Virou pouso natural da maioria
dos grandes nomes nacionais, que vinham saber o porquê de
tanto talento concentrado, de tamanha criatividade. Pela primeira vez se rompeu o colonialismo cultural legitimador do Sudeste
e foi interrompida a histórica migração de baianos talentosos
que deixavam o nosso estado por não encontrar aqui ambiente
favorável para desenvolverem sua arte enquanto também atividade sustentável.
Para orgulho de todos nós, a Bahia passou a ser uma
espécie de pátria cultural mítica. Sem qualquer bairrismo, o
termo baiano correspondia a uma distinção, a uma grife de
inteligência, grande probabilidade de um talento criador. Foi o
apogeu da nossa autoestima. Passamos a ser objeto de admiração na imprensa brasileira, com nosso jeito único de ser, nossa
forma dengosa e sedutora, nossa maneira de falar, de festejar...
Nesse momento a Bahia é reconhecida como o mito fundador
do Brasil.
O legado
Retomamos aqui o ingresso de Antônio Carlos na prefeitura ao final dos sessentas. Durante toda a sua vida pública,
ACM irá retrabalhar esse legado: a Bahia foi sua matriz, sua amada, seu projeto de vida, o principal objeto de sua libido. ACM, do
menino brigão do Campo da Pólvora ao estudante na tradicional
Faculdade de Medicina do Terreiro de Jesus, teve sua identidade
inteiramente moldada pela Bahia. Ele viveu permanentemente
movido por uma visão apaixonada por esta terra e sua gente,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
consciente dos valores e da riqueza cultural que a distinguem. E
com perfeita consciência do prestígio nacional e internacional de
que ela desfrutava.
Para entendê-lo, é preciso compreender bem a Bahia.
ACM desejava ser como uma ponte entre o sonho grandioso de
uma Bahia que não negava suas origens e tradições, de modo a
cumprir seu ideal. Abria-se com coragem para abraçar sua destinação de futuro, sem refugos diante do desconhecido. Junte-se a
isso uma personalidade forte, muitas vezes autoritária, centralizadora, polêmica, diretiva, complexa e visionária. Dotado de um
talento excepcional e ainda de um faro e energia política rara, ele
alcançou os mais altos postos da República, provocando muitas
paixões, mas também muitos desafetos. Mas, como observou
Nelson Rodrigues, “toda unanimidade é burra!”.
ACM foi um herdeiro direto de tudo isso. Registre-se, de
passagem, que grande parte dos colaboradores nos seus sucessivos governos sempre foi composta por mulheres e homens
engajados na militância de esquerda, escolhidos por mérito profissional. A propósito, cabe aqui uma observação reveladora da
sua personalidade: em todos os postos executivos que ocupei,
ACM nunca me pediu um só cargo. Pude escolher livremente
os meus auxiliares, baseado apenas em valor e competência, sem
qualquer distinção de gênero, religião, origem étnica, filiação
partidária, sindical e/ou ideológica.
Jorge Amado, Caymmi, Carybé e Verger
Uma conjugação cósmica configura o quarteto singular —
eu diria, mágico — que desenharia o “núcleo duro” de nossa
baianidade: Jorge Amado, Caymmi, Carybé e Verger. São eles
os verdadeiros pais fundadores de uma certa ideia de Bahia, ao
conseguirem, com precisão, filtrar nosso DNA cultural da realidade das ruas, mares e campos baianos. Apaixonados, amantes,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
sonharam, idealizaram, cantaram, escreveram, fotografaram e
pintaram as tantas Bahias que são uma só, dividindo entre si a
musa com cordialidade fraterna. E a amada devolvia e se entregava a cada dia mais parecida com o sonho, cada dia mais
Bahia. Reinventava-se, tecendo uma narrativa ininterrupta sobre
si mesma, uma fabulação contínua, “repetindo para fazer diferente”, secretando de seu ventre uma teia trançada de passados,
presentes e futuros, toda azeitada a dendê. Seu dorso arrepiado,
seu Pelourinho ruindo aos pedaços, a ferida da miséria em contraste indecente com a beleza elegante e a alegria de seu povo.
Para sonhar, nenhum deles negou essa realidade ou escondeu
a dureza das contradições de nossa terra. Suas narrativas espelharam — e traduzem — o que há de universal e grandioso nas
tramas do cotidiano popular da Bahia. Aspecto esse que permitiu que nós nos reconhecêssemos nesse espelho. E ACM intuía
perfeitamente, na carne e no coração, o que era essa Bahia, o que
significava e significa “baianidade”.
A gestão da cultura nos anos ACM
A política não pode ser feita somente com discursos finamente elaborados, negociações intermináveis que pouco fazem
e, via de regra, estacionam na estagnação. Todo discurso que não
sabe encontrar o caminho da ação esgota sua sabedoria, justiça
ou avanço, por não saber encontrar a prática. Por caminhos insondáveis, muitas vezes o “fazer acontecer” vem pelas mãos do
colérico; o gesto exato e preciso chega pela impaciência.
Serve-me de epígrafe esta frase de ACM: “Só pode bem
governar a Bahia quem tenha uma intimidade e uma perfeita
identidade e compreensão do povo e da sua cultura.”
Vale dizer: só pode bem governar a Bahia quem, por amor,
tenha com ela perfeita identidade e intimidade, quem esteja de
peito aberto a lutar por ela como um leão, apto e devotado à sua
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paixão, sobretudo através de atos. Uma paixão tão grande que
não cabe em uma só vida, só cabe no sonho sonhado por muitos, que só sabe encontrar sua voz na arte.
ACM aproveitou muito bem esse período áureo da Bahia,
perfeitamente sintonizado com seu tempo. Nenhum político
baiano, talvez, tenha conseguido, de modo tão intuitivo, afinar
essa sintonia e ouvir a canção do seu tempo.
Fui testemunha de que, enquanto governador, ele apoiou
praticamente todos os setores artísticos, todos os segmentos e
linguagens culturais, sem exceção. Para comprovar a extensão e
o valor da sua imensa contribuição à cultura baiana, basta uma
simples leitura das suas realizações, na exposição do Instituto
ACM. Como poucos homens públicos, ele criou condições de
desenvolvimento às artes, de estímulo e fortalecimento aos processos socioculturais e de valorização/preservação do grande
patrimônio histórico, artístico e monumental da Bahia. Nesse
contexto, deu suporte às instituições culturais públicas e privadas, criou inúmeros novos espaços artísticos, recuperou outros
tantos e apoiou, sistematicamente, os eventos da cidade e manifestações populares as mais diversas. Lembremos também da
criação, no seu primeiro governo, de duas instituições que tiveram papel importantíssimo para o desenvolvimento do setor:
o IPAC e a Fundação Cultural. Não tenho o menor registro de
crises ou de que no seu tempo tenham faltado verbas para a
cultura. Em geral, todos os grupos culturais floresceram e amadureceram nos períodos em que ele governou o estado. A Bahia
assistiu a uma gradual, saudável e inédita profissionalização dos
seus artistas, com espetáculos de crescente qualidade que passaram a percorrer o Brasil. Com a qualidade das produções, o
público cresceu e novas plateias foram fidelizadas.
Ao longo de sua vida, ACM fez da aproximação dos artistas baianos, eruditos ou populares, uma rotina. Era visto por
todos como um grande catalisador, que acolhia e viabilizava as
boas propostas. Os artistas confiavam nele e no “fazer acontecer”
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
que lhe era muito próprio. A partir dessa relação e confiança,
multiplicaram-se as iniciativas culturais na Bahia.
Nos seus últimos anos de vida, já sentindo o peso da idade e sua saúde se fragilizar, ele manifestou, cada vez com maior
frequência, a sua intensa paixão por sua terra. Uma paixão que
acabou marcando indiretamente sua forma de fazer política. Virou sua principal marca registrada proclamar — reiteradas vezes,
como um mantra — o seu imenso amor pela Bahia: “Esta terra é
a razão da minha vida!” Acentuava, dessa maneira, o valor político implícito que esse amor comportava, pois só quem o vivesse
com tamanha intensidade seria capaz de bem defender os interesses da nossa terra. Jorge Amado repetia que, mesmo com inúmeras diferenças políticas, só ACM amava tanto a Bahia quanto
ele. No entanto, quem o conheceu de perto sabia que não se
tratava de um amor calculista, racional, ou de marketing eleitoral.
Esse seu amor era como uma respiração para ele: o seu ar.
ACM teve visões e atitudes de estadista. Para implementá-las, ele se envolveu em sucessivas lutas, duras, por vezes ferozes, porém com a fibra de um guerreiro destemido, sempre
defendendo e afirmando, em alto e bom som, para todo o país
ouvir, o interesse maior da Bahia. Foram muitas as suas batalhas
vitoriosas: a conquista do Oeste, a integração do Sul da Bahia, as
avenidas de vale em Salvador, o Centro Administrativo da Bahia,
o Polo Petroquímico de Camaçari, a Ford, entre tantas outras.
Nunca permitiria, porém, que a Bahia, sob pretextos desenvolvimentistas, hipotecasse e matasse a “galinha dos ovos de ouro”,
ou seja, sacrificasse sua própria alma.
Ele nunca permitiria — como não permitiu —, por exemplo, que nosso patrimônio histórico e cultural fosse arruinado.
Muito pelo contrário. Através do IPAC, foram feitas três diferentes intervenções para a recuperação do Pelourinho — uma
em cada mandato como governador — que valem como provas
da centralidade e da seriedade de seu compromisso e amor à
nossa terra. Mesmo que alguns erros conceituais tenham sido
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
cometidos nas complexas intervenções ligadas à revitalização do
Centro Histórico, pelo menos ele fez, ele ousou, empenhou-se a
fundo, e acabou realizando coisas grandiosas. Não só ACM elegeu esse desafio como prioridade do governo, alocando recursos
próprios, como também agiu com máxima firmeza e audácia,
liderando pessoalmente as estratégias e, sobretudo, exigindo resultados. Aplicou, assim, toda energia governamental necessária
ao resgate do símbolo maior de Salvador. Para a alegria e encantamento dos baianos, os resultados foram surpreendentes, e o
Pelourinho foi redescoberto em seu esplendor. A recuperação
do Teatro Castro Alves foi outro exemplo emblemático dessa
sua postura de respeito ao nosso patrimônio.
Para aquilatar o apreço de ACM pela cultura, cito, de passagem, algumas das principais realizações quando estive à frente
da Fundação Cultural do Estado. Foram realizações pioneiras,
que refletiram um conceito abrangente de cultura, dentro de
uma visão sistêmica e estruturante de política cultural, levando
em conta as artes e as humanidades de uma Bahia multifacetada,
orgânica, plena, no contexto das diversidades que lhe são próprias e que definem sua identidade singular.
De 1979 a 1983, quando da minha gestão à frente da Fundação Cultural, ocorre um fato raro no estado: o orçamento cultural foi aquele que, proporcionalmente, registrou o aumento
mais expressivo entre todos os setores de governo. Esse aporte
substancial de recursos permitiu inúmeros avanços significativos. A título de ilustração, registro aqui apenas alguns exemplos
do muito que foi realizado naquele período:
— Orquestra Sinfônica e Balé do TCA — criação desses
dois corpos estáveis na estrutura do Teatro Castro Alves, colocando a Bahia numa posição de destaque no cenário nacional
e internacional.
— Centros de cultura no interior do estado — formulação
pioneira do projeto de criação dos primeiros sete CCIs na Bahia;
captação de recursos específicos/aprovação de financiamento
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
pela Caixa Econômica Federal; doação dos terrenos e início do
seu processo de construção.
— Museu de Arte da Bahia (MAB) — instalação do MAB
em nova sede no Corredor da Vitória, o que lhe permitiu redimensionamento e ampliação do acervo e intensificação do programa de dinamização.
— Academia de Letras da Bahia — nova sede em bases
qualificadas, com sua instalação no prédio Solar Góes Calmon,
no bairro de Nazaré.
— Museu de Arte Moderna da Bahia (MAMB) — reordenação/recuperação dos espaços; ampliação dos equipamentos
e instalações; ampliação/desenvolvimento de programas socioculturais e de atividades artístico-pedagógicas através das oficinas de arte em série; implementação dos processos de dinamização e de difusão artística e cultural.
— Cinema de Arte da Bahia — novo equipamento de
difusão cultural instalado no prédio da Biblioteca Central do Estado, com programação seletiva de exibição de filmes de arte e
de vanguarda.
— Literatura e edições — amplo programa de criação de
linhas editoriais, com destaque para a Coleção dos Novos (no
total, 57 títulos foram editados no período, entre eles a obra
seminal de Carybé, Iconografia dos deuses do candomblé da Bahia);
gravação e lançamento de discos emblemáticos de compositores e artistas da Bahia, como Elomar, Smetak, Sexteto do
Beco etc.
— Programa de dinamização artística e sociocultural —
forte apoio sistemático a eventos e produções realizados por
terceiros em Salvador, a exemplo da Oficina Nacional de Dança
Contemporânea, Jornada de Curta Metragem, Foto Bahia, Festival de Música Instrumental, todos de grande prestígio nacional.
— Sala do Coro do TCA — instalação desse novo espaço
cultural como suporte às produções artísticas de pequeno e médio portes, internas e externas, do Teatro Castro Alves.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
— Grandes temporadas e eventos — foram atraídos para
a Bahia praticamente todos os principais eventos, shows e espetáculos internacionais que chegavam ao Brasil.
— Homenagens especiais e grandes produções — a principal foi a Exposição Comemorativa dos 70 Anos de Jorge Amado — reunindo fotos, textos e documentos referenciais diversos,
utilizando-se principalmente memória das capas de todas as traduções de sua obra mundo afora — dentro de uma programação itinerante apresentada no Ceará, em Brasília e, como destaque, na Bienal do Livro em São Paulo. Essa ação da Fundação
Cultural acabou servindo de inspiração à criação, anos depois,
da Fundação Casa de Jorge Amado.
— Editais de coprodução — implantação das primeiras
políticas públicas de democratização voltadas à distribuição de
verbas a projetos culturais na Bahia através dos editais de coprodução, destinados a artistas profissionais.
Concluindo...
O conjunto de nossas realizações à frente da Fundação Cultural, constato hoje de um ponto de vista já distanciado e enriquecido por muitas experiências com as quais posso
contrastá-lo, significou um divisor de águas, um salto expressivo em termos de gestão cultural frente a seu tempo. Não
fizemos uma política de varejo, nem restrita às elites, como era
praxe. Redesenhamos o aparato institucional e ampliamos suas
atribuições e suas interfaces com a sociedade, em um crescimento exponencial da qualidade e do número de atividades e
um grande avanço em termos de espaços e equipamentos recuperados e/ou inaugurados. Sobretudo, destaco, formulamos
os fundamentos de um novo cenário institucional, incorporando inovação conceitual na concepção das políticas públicas, ancoradas por uma visão de caráter mais antropológico,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
e não circunscrita a aspectos meramente artísticos da cultura,
pontuais e/ou espetaculares. Com um extenso leque de ações
socioculturais comunitárias, até então pioneiras, no interior e
nas periferias, ensaiavam-se, então, em nosso estado, no início
dos anos 80, de forma ainda experimental, os primeiros passos
de uma descentralização espacial e da inclusão na sua dinâmica
cultural de novos sujeitos — que, aliás, estavam ausentes do
jogo das pressões por verbas públicas —, a exemplo dos grupos afrodescendentes, então arredios a qualquer proximidade
e/ou interação com o estado. Esses movimentos de descentralização territorial foram, evidentemente, muito acentuados,
alguns anos depois, pelo movimento de democratização que
varreu o Brasil após 1988 e pela subsequente explosão de novas políticas públicas, criadas pari passu ao reconhecimento dos
direitos sociais dos diversos extratos da sociedade brasileira.
Tudo isso, é claro, viria a transformar, radicalmente, os cânones da gestão cultural em nosso país.
Esse depoimento, como disse logo no início, corresponde
apenas a um esboço temporal, mas declara, ao final, uma ambição. A de registrar a importância das ações de um homem público que engrandeceu a cultura da sua terra. No estado democrático, as administrações se sucedem. Infelizmente, ainda não
chegamos a um patamar de equanimidade e civilidade que permita o reconhecimento tranquilo do papel histórico de pessoas
tidas como adversários políticos. Procura-se sistematicamente
fazer com que caiam no esquecimento, principalmente por relegarem-se ao desabrigo as áreas onde desenvolveu excelência,
coisa que se pode constatar, infelizmente, em muitos períodos
da nossa história.
Sejam quais forem os futuros governantes, caso levem
adiante, a contento, sua relação com a cultura baiana, se algum
sentido de baianidade cultivarem em si mesmos, estarão lidando, a gosto ou a contragosto, com o legado de Antônio Carlos
Magalhães.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
O legado de um homem que, acima de tudo, contra tudo
e apesar de tudo, amou, como um leão, a Bahia acima de todas
as coisas.*
Geraldo Machado é engenheiro, mestre em gestão social e
desenvolvimento pela UFBA. Foi secretário da indústria e comércio
do estado da Bahia. Dirigiu instituições públicas e privadas, sendo o
atual superintendente do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural da
Bahia. É cavaleiro na Ordem das Artes e das Letras da França. Desde
2003 ocupa a Cadeira nº 4 da ALB.
Discurso proferido em evento do Instituto ACM nas homenagens
pelo aniversário de nascimento do acadêmico Antônio Carlos
Magalhães, no auditório do Sheraton da Bahia Hotel, em quatro de
setembro de 2013.
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CLÁUDIO VEIGA
As letras por destino
Aleilton Fonseca
S
r. presidente Aramis Ribeiro Costa, senhoras acadêmicas,
senhores acadêmicos, familiares do professor Cláudio de
Andrade Veiga e seus amigos, senhoras e senhores.
O professor e acadêmico Cláudio de Andrade Veiga teve
as letras por destino — a seiva de sua vida, a glória de sua
existência. Em memória, estamos mais uma vez em convívio
com o nosso saudoso e inesquecível presidente, para homenageá-lo e para celebrar os seus laços afetivos e eternos com
esta casa. O seu nome atribuído à sala da presidência e o seu
retrato a invocar sua presença no recinto solene são ícones
marcantes de sua obra ímpar, construída ao longo de quase
30 anos de imortalidade acadêmica, 26 dos quais no exercício
pleno da presidência desta agremiação.
Nascido em Salvador, em 28 de maio de 1927, Cláudio
de Andrade Veiga nos deixou, aos 84 anos, em 29 de março
de 2011. Com sua partida repentina, ficamos todos um tanto academicamente órfãos e ciosos do dever de continuar sua
obra maior — que se traduz pela existência fértil e notável da
Academia de Letras da Bahia. Assim como se foi, assim é que
o percebemos tão presente entre nós, alvo de nossas homenagens, assunto de nossas conversas e referências constantes,
uma presença simbólica em essência. Como cabe a um imortal,
continua vivo na memória da cultura baiana e da sua amada
Academia. E agora encantado — é ainda mais forte a sua presença, com seu nome e sua imagem nos inspirando na sala da
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
presidência, onde exerceu seu mister por tantos anos, com o
amor do sacerdócio.
Três bases firmes em sua vida: a família — tendo como pilar sua esposa, a saudosa Sra. Meire Veiga —, a cultura francesa e
a Academia de Letras da Bahia. A essas três entidades consagrou
toda a sua vida, as suas energias, a vitalidade de sua inteligência
— e o seu amor incondicional.
A formação e a trajetória intelectual do professor Cláudio Veiga são exemplares, pela riqueza de sua titulação, pela
produção de obras relevantes, pelo exercício seminal da docência e da administração institucional. Seus feitos estão muito
bem registrados em dois discursos de homenagem, aquele proferido por sua ex-aluna, e depois colega, a professora Denise
Lavalée, e o artigo do seu sucessor na presidência da ALB,
professor Edivaldo M. Boaventura, ambos publicados na revista da Academia.
Desde cedo determinado, Cláudio Veiga descobriu sua
vocação e gosto pelos estudos clássicos, já no Seminário da
Bahia, e elegeu a cultura literária francesa como base de sua
sólida formação intelectual e humanista. Muito jovem, foi realizar os seus estudos na França, tendo-se formado na eficiente
École de Préparation et de Perfectionnement des Professeurs
de Français à l’Étranger, na secularmente prestigiosa Sorbonne
Université de Paris; e aprofundou sua formação profissional
no consagrado Institut de Philologie Romane, na cidade de
Estrasburgo. Sua aventura estudantil na França está registrada
magistralmente no livro de memórias Um estudante em Paris, publicado em 2004.
Formado pelos mestres franceses, desenvolveu uma carreira brilhante de professor de francês e literatura francesa no
famoso Colégio da Bahia, do qual foi diretor-geral. Por muitos
anos, até se aposentar, foi professor titular de literatura francesa
do fértil Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia,
ajudando-o a tornar-se o grande centro de formação em letras
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
que é hoje. No final dos anos setenta, foi diretor do Instituto de
Letras da UFBA, tendo exercido interinamente o cargo de reitor
em algumas ocasiões. Por sua imensa contribuição como professor e diretor, recebeu a homenagem mais alta, sendo consagrado
professor emérito da UFBA, título que veio coroar sua brilhante
carreira universitária.
Envolvido com sonhos e projetos, presidiu a Associação
Brasileira dos Professores Universitários de Francês. Sempre
pronto a colaborar, foi membro do Conselho Estadual de Cultura. E abraçou a vida acadêmica na ALB, com raro senso de
entrega e doação, desde 1978, quando tomou posse, depois de
eleito no ano anterior. Tornou-se seu presidente em 1981 e, com
o apoio constante e efetivo de seu grande amigo e inspirador
Jorge Calmon, exerceu o cargo até o ano de 2007, perfazendo
26 anos de trabalho, de dedicação e de construção de uma Academia cada vez mais sólida, operante e prestigiada nos meios
intelectuais no país e no exterior.
Apesar da trabalhosa missão na docência e na administração institucional, nunca deixou de pesquisar e produzir artigos e ensaios. Como bem destacou Denise Lavalée em seu
discurso de homenagem ao mestre: “O perfil do homenageado
se inscreve sob múltiplas vertentes. Mergulhado na secularidade de um espaço social ambíguo, ele se pautou sobre uma formação clássica cujos fundamentos filosóficos, ancorados na
tradição, transpareciam em seus trabalhos, norteando o criterioso reexame dos textos selecionados, em permanente busca
de autenticidade e de apuro técnico, presentes nas obras que
publicou.”
De fato, suas obras refletem os saberes do estudioso de
cultura francesa e o tirocínio do docente e, em seguida, traduzem a perícia do ensaísta e tradutor. Inicialmente, publicou trabalhos como Das pequenas cartas de Pascal (1954); A comparação e as
provinciais (1957); Aspecto de Pascal escritor (1959). E logo aparece
a produção do estudioso da língua e da gramática, refletindo a
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
experiência acumulada no ensino e na pesquisa. Então publicou a Gramática nova do francês (1965), obra didática que ensinou
as estruturas e a semântica francesas a diversas gerações. Já o
ensaísta se afirma definitivamente com os livros Castro Alves:
guia da catedral (1966); Textos franceses (1966); Camões e Ronsard (1972); Miniantologia da poesia francesa (1972); Ode ao Dois de
Julho: a liberdade guiando o povo (1973); Um brasileiro soldado
de Napoleão (1979); Aproximações: estudos de literatura comparada (1979); Sete tons de uma poesia maior (1984); Um retrato da
Bahia em 1904 (1986); Antologia da poesia francesa: do século IX
ao século XX (1991); Atravessando um século (1993); Morte de alguém (1995), uma tradução do romance Mort de quelqu’un (1911),
de Jules Romains; Um brasilianista francês (1988) e Um estudante
em Paris (2004), entre outros. A sua antologia da poesia francesa teve mais de uma edição e recebeu aplausos e prêmios no
Brasil e na França, pela abrangência, pelo tirocínio da tradução,
pela divulgação da poesia francesa em nosso país.
O seu livro Um brasileiro soldado de Napoleão (1979) é uma
magnífica biografia do escritor brasileiro Caetano Lopes de
Moura, radicado na França, que foi médico militar nas guerras
napoleônicas. Esse livro sai agora (2013) em belíssima segunda
edição, como uma homenagem da ALB e da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia.
Eis uma obra, uma contribuição intelectual extensa e extraordinária, de grande originalidade e erudição, um legado de
um grande mestre. Um trabalho de tal valor merece aplausos
e reconhecimento. E eles vieram porque, mesmo num mundo
de vis indiferenças, persistem ainda os meios de se fazer justiça
aos homens de boa vontade. Cláudio Veiga recebeu honras e
títulos, entre os quais o Palmes Académiques e o Chevalier e
Officier de Lettres (ambos na França) e também a Ordem de
Instrução Pública no grau de comendador (de Portugal). Foi
consagrado pelo Grand Prix du Rayonnement de la Langue
Française e recebeu a consagradora Médaille de Vermeil da
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Academia Francesa, assim como o Troféu Francisco Igreja, da
União Brasileira dos Escritores, e o Prêmio Nacional de Ensaio da Academia Brasileira de Letras.
Cláudio Veiga é a imagem do intelectual de formação
clássica e atitude humanista, dotado de uma cordialidade
exemplar, aberto ao diálogo pacífico, sempre com voz mansa e
coração leve. Ao mesmo tempo, era um homem prático e objetivo, cioso de suas ideias e dos seus valores, que sabia ouvir e
discordar com paciência e, sobretudo, uma elegância rara nos
dias de hoje. Seu estilo de conversação encantava os interlocutores. Uma vez professor, sempre um mestre. Se com ele
o interlocutor concordava, numa conversa intelectual, ouvia
palavras de afirmação, exemplos, citações de autores e obras,
datas, dados e relatos de situações históricas que abonavam
os seus pontos de vista. Esses momentos eram aulas-primas
de erudição, memória e gosto literário. Se, noutras ocasiões, o
interlocutor dele discordava, via-se instado a buscar as palavras
certas para um debate amistoso, tentando preencher seu silêncio altivo com argumentos que o fizessem considerar outras
proposições. Convicto em suas ideias, no entanto sabia ouvir
os contrários — e deixava claras suas divergências, com lisura
e respeito, concluindo a tertúlia com a mesma tranquilidade,
sorriso claro e comedido, com a sua clássica cordialidade.
E quando o mais difícil acontecia, ou seja, se ele cedia aos argumentos do interlocutor, o fazia com inicial parcimônia, mas logo dava sinais de que acatava as ideias, passando a abraçá-las com convicção. Quantas e quantas ideias e
projetos tramitaram nesta casa e passaram assim por seu juízo
crítico e, uma vez aprovadas, tiveram dele as ações mais afirmativas e entusiasmadas.
Não me furto a vos dar um exemplo, porque é algo muito
marcante para mim. A seu convite organizei o Curso Castro Alves
de 2004, quando era apenas um colaborador assíduo da Academia
e nem pensava em me tornar acadêmico. Em 2006, novamente
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
convidado a coordenar o evento, e então recém-empossado como
acadêmico, propus a ampliação do modelo clássico do Curso Castro Alves — ampliando-o do formato de mesa de palestras plenárias, formadas por especialistas convidados, para um Colóquio
de Literatura Baiana, evento aberto a palestras de estudiosos e a
apresentação de trabalhos de estudantes, professores e pesquisadores de letras e áreas afins. A ideia precisou ser debatida em plenário, tal o seu grau de inovação. De fato, apresentei o projeto em
reunião plenária e colhi apoios imediatos de alguns acadêmicos. O
então presidente Cláudio Veiga, embora já me conhecesse de outras atividades na casa, foi reticente e cuidadoso diante da proposta de inovação. E até se posicionou pela manutenção do modelo
clássico e consagrado. Uma vez aprovada a ideia, solicitei-lhe uma
audiência para explicar os detalhes e os propósitos do colóquio,
pedindo-lhe a chance de experimentar. Ele marcou dia e hora e
me recebeu com alegria em seu gabinete, quando externou suas
dúvidas a respeito da mudança. E depois, atento e silencioso, me
ouviu explanar os detalhes e objetivos do projeto. Creio que minha convicção e meu entusiasmo o convenceram. Eu lhe garanti:
“Professor, se não der certo voltaremos a fazer o modelo antigo.”
E ele então me declarou: “Está bem, Aleilton, organize o colóquio
conforme sua proposta. Vai dar certo.” E eu saí da reunião exultante, com a autoestima no céu, convicto de que o presidente daria
espaço para que o meu entusiasmo de jovem acadêmico viesse a
se tornar ação em benefício da casa.
De fato, o Curso Castro Alves, acrescido do Colóquio de
Literatura Baiana, foi um sucesso já em 2006, com cerca de 30
trabalhos apresentados, além das sessões de palestras dos convidados. E teve neste ano de 2013 sua oitava edição, com a apresentação de mais de 60 trabalhos de estudantes e professores
da capital e de vários outros municípios, além de palestrantes
convidados de outros países.
Entretanto, o que desejo salientar é que a sua resistência
inicial à ideia cedeu lugar, após a conversa, a um apoio sólido e
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
constante nos anos seguintes. O professor Cláudio Veiga compareceu sempre aos três dias do colóquio, e era dos primeiros
a chegar, e presidia as mesas plenárias, e convivia em meio aos
jovens estudantes de letras, posava para muitas fotos ao lado dos
participantes que o abordavam com vivo interesse e veneração,
o que manifestavam ao serem apresentados por mim a ninguém
menos que “o professor Cláudio Veiga, o presidente da Academia”. Em 2006, após o evento, outra vez o presidente me chamou ao seu gabinete. E ali, muito satisfeito, reconheceu o acerto
da ideia, elogiou o colóquio e o meu trabalho. E após os elogios,
por fim me disse: “Parabéns, Aleilton. Você inovou e deu certo.
De agora em diante, pode fazer dessa maneira. Você agora é o
coordenador oficial do Curso Castro Alves.” Como sabem os
acadêmicos, esse “decreto” do saudoso presidente continua em
vigor. Até hoje exerço esse “cargo” de coordenador do Curso
Castro Alves que ele confiou a mim.
Assim era o presidente Cláudio Veiga que conheci mais de
perto, no convívio acadêmico, nas conversas de um professor
com o aluno, de um acadêmico mais experiente com o neófito em quem enxergava o potencial e a disposição necessários
ao trabalho coletivo da Academia. Com este relato, quero tão
somente registrar a generosidade intelectual de Cláudio Veiga,
sua preocupação incessante com o futuro da ALB e a continuidade de seus eventos e projetos e a sua aposta no trabalho dos
acadêmicos para o crescimento das atividades da casa.
Mas eu o conheci antes, nos corredores do antigo Instituto de Letras da UFBA, prédio aqui vizinho, cuja fachada se
mantém preservada e seu interior reconstruído para abrigar o
Ministério Público, nesta tradicional Avenida Joana Angélica.
Ele era o diretor do Instituto de Letras. Eu era então um estudante de letras vernáculas, que havia vindo da cidade de Ilhéus,
terra da Gabriela de Jorge Amado, para estudar na capital.
Um dia, creio que em 1983, o professor Cláudio Veiga,
em seu indefectível terno branco, com passos leves e notável
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
presença de espírito, me abordou no saguão do Instituto de
Letras e me apontou o outro lado da rua. Convidava-me a ir
visitar a nova sede da Academia de Letras da Bahia e me falou
ligeiramente do Curso Castro Alves. Eu atendi ao chamado do
mestre. Atravessei a rua e entrei nesta casa, quando nela a Academia estava ainda começando a ser instalada. E algum tempo
depois me inscrevi no curso Castro Alves, como ouvinte, e
mereci o primeiro certificado que a ALB me outorgou e que
guardo como relíquia, com sua afável assinatura.
Durante aqueles anos, sempre fui recebido com a atenção
que um mestre devota ao aluno, em quem aposta nos êxitos do
futuro. De certa forma, ele sempre acompanhou meus passos,
minha formação, meus livros, minhas viagens. E aqui estive,
aos 28 anos, em 1977, já professor da Universidade Estadual
do Sudoeste da Bahia, de Vitória da Conquista, para propor o
lançamento da antologia poética de Camillo de Jesus Lima. Fui
levado ao seu gabinete pelo saudoso poeta Carlos Cunha. E
ele acolheu a proposta. E a ALB promoveu o lançamento com
brilho, sendo orador o notável acadêmico Clóvis Lima. Naquele dia, ao me receber o professor Cláudio Veiga pilheriou:
“Veio apresentar seu nome para entrar para a Academia?” Ao
que, na altura, respondi: “Ora, quem sou eu, professor...” E ele
sorriu comedido, como sempre. E depois quis saber de meus
estudos, meu trabalho, meus escritos. Sempre educado e atencioso, trazia nos olhos a bondade de quem incentiva o aluno a
progredir nos estudos e na profissão, demonstrando interesse
pelos resultados. E, indiretamente, dava conselhos e apontava
caminhos.
Anos mais tarde, já acadêmico, continuei recebendo dele
o incentivo de sempre. Ele me perguntava: “Tem ido à França?” Ou: “Quando retorna à França?” E ele dizia: “É preciso
sempre ir à França.” Certamente seu incentivo constante me
fez intensificar minhas andanças e ações na pátria de Charles Baudelaire, tendo hoje três livros publicados em francês e
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
tendo-me tornado amigo de alguns professores e escritores de
língua francesa na França, na Bélgica e no Quebéc e feito palestras em seis universidades francesas, ao cabo de nove viagens
até aqui. E tudo isso devo muito ao incentivo constante do
professor Cláudio Veiga.
Portanto, não é demais declarar que, sobretudo a partir
de sua falta em nosso convívio, percebi cada vez mais agudamente que tenho no professor Cláudio Veiga uma importante
referência acadêmica e intelectual. Indiretamente, ele orientou,
em parte, a minha trajetória, e, por suas mãos, ainda que de forma espontânea e jamais premeditada, eu caminhei até esta Casa
de Arlindo Fragoso, seu fundador, e, doravante, Casa de Cláudio Veiga, seu mais cioso refundador. Arlindo Fragoso fundou
a casa. Claudio Veiga refundou a Academia. A fim de abonar
minhas considerações, cito o acadêmico Edivaldo M. Boaventura, para quem a gestão do nosso homenageado na ALB “foi
paciente e sábia na agregação de pessoas, de livros e de bens móveis”. E afirmou sabiamente o professor Edivaldo M. Boaventura: “Na gestão de Cláudio Veiga, procedeu-se à transferência da
sede da Academia do Terreiro de Jesus para o nobre solar Góes
Calmon. A solenidade de sete de março de 1983, aniversário do
sodalício, selou a chegada ao bairro de Nazaré. A partir daquele momento, a Academia passou a ter acentuado desempenho,
com a realização de atividades colegiadas e de eventos marcantes a serviço das demandas literárias e das ofertas crescentes da
produção do conhecimento e de sua disseminação. Cláudio liderou a organização do novo espaço acadêmico, ambientando-o
às funções dos serviços acadêmicos. Mas, do ponto de vista da
manutenção, a nova bela sede foi uma preocupação constante
do presidente Cláudio Veiga.”
De fato, a ALB tornou-se uma verdadeira casa de cultura. Com a inestimável colaboração do saudoso poeta Carlos Cunha, seu braço direito muitas vezes e durante anos, de
dona Maria do Carmo Moscovits, secretária dileta de todas as
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
atividades e providências, e, por um bom tempo, de Tereza
Veiga e demais funcionários, ele pôde transformar a Academia
numa usina de eventos e ações, com cursos, palestras, visitas,
seminários e concursos literários. Manteve cursos como o Castro Alves e o Colóquio de Literatura Baiana, instituiu o Curso
de Folclore. Criou e fortaleceu o Prêmio Nacional Academia
de Letras da Bahia, hoje uma referência no país. Passou a promover diversos lançamentos, palestras de estudiosos nacionais
e estrangeiros, organizou exposições, praticamente regularizou
as edições da revista da Academia, promoveu diversas publicações, dinamizou a biblioteca, aguçou a solenidade das posses e estabeleceu parcerias com instituições culturais, como os
convênios com a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia e
com a Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, parcerias
indispensáveis para a manutenção da casa em atividade. E tudo
isso transformou a Academia num espaço aberto a alunos,
professores, escritores e leitores, movimentando assim a nossa vida cultural. Como bem acentuou o professor Edivaldo
M. Boaventura: “Com o nosso confrade homenageado, manteve-se a linha de erudição que converte o grêmio em uma
entidade cimeira da cultura baiana.”
Cabe, como um dever, aos pósteros, render as justas e
devidas homenagens àqueles que se dedicaram à construção do
presente e do futuro, através de seu trabalho na educação e formação das novas gerações, na produção e divulgação da cultura,
na administração dos bens simbólicos e no zelo das instituições.
Esse foi o mister, esse foi o prazer do professor Cláudio Veiga.
Sua trajetória e sua dedicação constituem um exemplo, um marco e um horizonte no qual nos mirarmos, para a continuação
de seu ideal acadêmico, mantendo este sodalício nos rumos que
ele inaugurou e pelos quais lutou incansavelmente, enfrentando
e vencendo todas as dificuldades possíveis, para que fôssemos
hoje, como deveras somos, uma das mais prolíficas e respeitadas
academias do Brasil.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Nossas homenagens eternas e nosso profundo agradecimento ao homem de letras, professor emérito, pai prestimoso,
acadêmico exemplar — o verdadeiramente imortal presidente
Cláudio de Andrade Veiga. Que vossos aplausos, ao final deste
discurso, sejam dirigidos não a minhas palavras, mas sim à sua
memória.
Muito obrigado.*
Aleilton Fonseca é escritor, com livros e textos traduzidos em vários
países e idiomas. É professor pleno de literatura na Universidade
Estadual de Feira de Santana. Publicou, dentre outros, O arlequim da
Pauliceia (ensaio), Nhô Guimarães e O pêndulo de Euclides (romances), Les
marques du feu (na França) e La femme de rêve (no Canadá). Desde 2005
ocupa a Cadeira nº 20 da ALB.
Discurso proferido em sessão especial da Academia de Letras da
Bahia, na inauguração da Sala Presidente Cláudio Veiga e do retrato a
óleo do homenageado, em 24 de outubro de 2013.
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DIVERSOS
Efemérides 2013
Março
07 — Sessão especial de abertura do novo ano acadêmico, com
a presença do secretário de cultura do estado da Bahia, Antônio
Albino Canelas Rubim, compreendendo a solenidade: 1) Apresentação pelo presidente da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa, do relatório da gestão 2011-2013. 2) Posse da
nova diretoria 2013-2015, assim constituída: presidente: Aramis
Ribeiro Costa; vice-presidente: João Eurico Matta; 1ª secretária:
Evelina Hoisel; 2ª secretária: Gláucia Lemos; 1º tesoureiro: Paulo Ormindo de Azevedo; 2º tesoureiro: Luís Antonio Cajazeira
Ramos; diretor da revista: Florisvaldo Mattos; diretor da biblioteca: Dom Emanuel d’Able do Amaral; diretor do arquivo: Joaci
Góes; diretor de informática: Carlos Ribeiro; conselho editorial:
Fernando da Rocha Peres, Myriam Fraga, Ruy Espinheira Filho;
conselho de contas e patrimônio: Aleilton Fonseca, Paulo Costa
Lima, Waldir Freitas Oliveira.
14 — Sessão especial de homenagem póstuma ao acadêmico
Ubiratan Castro (1948 – 2013), sendo orador o acadêmico Edivaldo M. Boaventura. Na ocasião, agradeceu em nome da família o senhor Felipe Machado de Araújo, filho do acadêmico
homenageado. O presidente Aramis Ribeiro Costa, cumprindo
o regimento, declarou vaga a Cadeira nº 33, cujo patrono é Antônio de Castro Alves e cujo último ocupante era o acadêmico
Ubiratan Castro.
19 — Palestra “Biblioteconomia e educação na sociedade do
conhecimento”, ministrada pela bibliotecária Bárbara Coelho
em comemoração ao dia do bibliotecário e em cumprimento ao
programa do Ponto de Cultura da Academia de Letras da Bahia.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Abril
04 — Sessão ordinária a que compareceram os acadêmicos Aramis Ribeiro Costa (presidente), Aleilton Fonseca, Carlos Ribeiro, Fernando da Rocha Peres, João Eurico Matta, José Carlos
Capinan, Luís Antonio Cajazeira Ramos, Myriam Fraga e Paulo
Costa Lima. Pauta: discutir nomes a serem indicados para a vaga
do acadêmico Ubiratan Castro, Cadeira nº 33.
18 — Sessão ordinária a que compareceram os acadêmicos Aramis Ribeiro Costa (presidente), Carlos Ribeiro, Edivaldo M. Boaventura, Evelina Hoisel, Fernando da Rocha Peres, Florisvaldo
Mattos, Geraldo Machado, Gláucia Lemos, Joaci Góes, João Eurico Matta, Luís Antonio Cajazeira Ramos, Myriam Fraga, Paulo
Costa Lima, Roberto Santos e Waldir Freitas Oliveira. Palestras do
acadêmico Paulo Costa Lima e da doutora Urania Tourinho Peres
com o tema “Por que o menino Mozart brincava com os sons?”.
As palestras foram ilustradas com demonstrações musicais do
professor, compositor e acadêmico Paulo Costa Lima ao teclado.
25 — Sessão ordinária a que compareceram os acadêmicos Aramis Ribeiro Costa (presidente), Aleilton Fonseca, Carlos Ribeiro, Consuelo Pondé de Sena, Dom Emanuel d’Able do Amaral,
Edivaldo M. Boaventura, Evelina Hoisel, Fernando da Rocha
Peres, Florisvaldo Mattos, Francisco Senna, Geraldo Machado,
Gláucia Lemos, Hélio Pólvora, João Eurico Matta, José Carlos
Capinan, Luís Antonio Cajazeira Ramos, Luís Henrique Dias
Tavares, Myriam Fraga, Paulo Costa Lima, Paulo Ormindo de
Azevedo, Samuel Celestino, Waldir Freitas Oliveira e Yeda Pessoa de Castro, para indicação de candidatos à vaga na Cadeira nº
33, de que foi o último ocupante o acadêmico Ubiratan Castro,
tendo sido eleita, por obter 22 votos, Maria Stella de Azevedo
Santos, ialorixá Mãe Stella de Oxóssi. A eleita compareceu à sede
da Academia e declarou aceitar a eleição.
30 — Visita guiada de alunos do Colégio Monsenhor Neiva,
seguida de círculo de leitura com o professor e acadêmico
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Aleilton Fonseca, para roda de conversa sobre a sua obra Desterro dos mortos, em cumprimento ao programa do Ponto de
Cultura da Academia de Letras da Bahia.
Maio
09 — Sessão ordinária a que compareceram os acadêmicos Aramis Ribeiro Costa (presidente), Aleilton Fonseca, Carlos Ribeiro,
Edivaldo M. Boaventura, Evelina Hoisel, Hélio Pólvora, Joaci
Góes, João Eurico Matta, Luís Antonio Cajazeira Ramos, Paulo
Costa Lima e Roberto Santos, também presentes proprietários,
diretores e repórteres do jornal A Tarde, além de convidados,
para as palestras dos acadêmicos Carlos Ribeiro e Edivaldo M.
Boaventura com o tema “Jornal A Tarde: um século de história”,
tendo sido a sessão registrada pelos repórteres do jornal A Tarde
e amplamente noticiada naquele jornal no dia seguinte.
14 — Gravação do programa Soterópolis, da TV Educativa da
Bahia, constando de entrevista com os acadêmicos Aleilton Fonseca e Hélio Pólvora, na sede da Academia de Letras da Bahia.
16 — Sessão ordinária a que compareceram os acadêmicos Aramis Ribeiro Costa (presidente), Aleilton Fonseca, Carlos Ribeiro,
Edivaldo M. Boaventura, Evelina Hoisel, Gláucia Lemos, João
Eurico Matta, Luís Antonio Cajazeira Ramos, Myriam Fraga e
Paulo Costa Lima, além de convidados, para a palestra “Os Gerais são sem tamanho: cartografias do sertão rosiano”, da acadêmica Evelina Hoisel.
17 — Gravação do programa Aprovado, da TV Bahia, na sede
da Academia de Letras da Bahia, com o ator e apresentador
Jackson Costa.
28 — Entrega do Prêmio Nacional Braskem/Academia de Letras da Bahia — Conto 2012, ao escritor Evaldo Balbino, seguida de lançamento do livro Amores oblíquos, ganhador do prêmio. Formaram a comissão julgadora do prêmio os acadêmicos
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Aleilton Fonseca e Carlos Ribeiro e a crítica literária e ensaísta
Gerana Damulakis.
Junho
06 — Sessão ordinária a que compareceram os acadêmicos Aramis Ribeiro Costa (presidente), Edivaldo M. Boaventura, Gláucia Lemos, João Eurico Matta, Luís Antonio Cajazeira Ramos e
Myriam Fraga, além de convidados, para a palestra “Breve reflexão sobre os hinos órficos”, do escritor e professor Ordep Serra.
13 — Sessão especial de homenagem ao centenário de nascimento do acadêmico Antônio Loureiro de Souza, sendo orador
o acadêmico Edivaldo M. Boaventura.
Julho
04 — Sessão ordinária a que compareceram os acadêmicos Aramis Ribeiro Costa (presidente), Aleilton Fonseca, Carlos Ribeiro,
Consuelo Pondé de Sena, Edivaldo M. Boaventura, Fernando da
Rocha Peres, Florisvaldo Mattos, Gláucia Lemos, Luís Antonio
Cajazeira Ramos, Myriam Fraga, Roberto Santos e Ruy Espinheira Filho, além de convidados. Mesa-redonda “Rubem Braga:
escritor múltiplo”, em homenagem ao centenário de nascimento
do cronista mineiro Rubem Braga, com participação do acadêmico Carlos Ribeiro e da professora doutora Antônia Herrera.
O evento contou ainda com o lançamento do livro Rubem Braga:
um escritor combativo — a outra face do cronista lírico, de autoria do escritor e acadêmico Carlos Ribeiro.
11 — Sessão ordinária a que compareceram os acadêmicos
Aramis Ribeiro Costa (presidente), Fernando da Rocha Peres,
Florisvaldo Mattos, Francisco Senna, Joaci Góes, João Eurico
Matta, Luís Antonio Cajazeira Ramos e Roberto Santos, além
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
de convidados, como o professor e restaurador José Dirson Argolo, a diretora do Museu de Arte da Bahia, Sylvia Athayde, a
secretária municipal de ordem pública, Rosemma Maluf, o presidente da Fundação Gregório de Mattos, Fernando Guerreiro,
o gerente de operações da Guarda Municipal, João Neto e o
ex-prefeito de Salvador Manoel Castro, contando ainda com a
presença de uma repórter do jornal A Tarde, Cátia Lima, para
discutir o grave problema da falta de segurança no bairro de
Nazaré, vítima de depredação de monumentos históricos nos
dias anteriores. Fala inicial do presidente Aramis Ribeiro Costa,
expondo o motivo e a importância da sessão. Fala do acadêmico
Francisco Senna, “Vandalismo aos monumentos do bairro de
Nazaré”, seguida de ampla discussão sobre a segurança dos monumentos no bairro de Nazaré e na própria Academia. A sessão
foi registrada e dada a conhecimento público no dia seguinte
pela repórter de A Tarde, em ampla reportagem naquele jornal,
ilustrada com fotos, sob o título “Acadêmicos reagem à depredação de monumentos”. A sessão foi registrada, igualmente no
dia seguinte, pelo jornal Tribuna da Bahia.
11 — Registro histórico: em decorrência do vandalismo no
bairro de Nazaré, debatido na sessão acima registrada, a placa
histórica de bronze esculpido, que identificava a Academia de
Letras da Bahia no muro externo da atual sede e que pertencera
à antiga sede no Terreiro de Jesus, foi retirada da entrada, por
motivo de segurança, e afixada na Sala dos Presidentes, no interior da sede. Na parte externa, foi afixada nova placa sem o valor
histórico, sentimental e comercial da primeira, porém com mais
visibilidade, mandada confeccionar para esse fim.
16 — Lançamento do livro Sosígenes Costa: melhores poemas,
seleção de Aleilton Fonseca, da Coleção Melhores Poemas, da
Global Editora.
18 — Sessão ordinária a que compareceram os acadêmicos Aramis Ribeiro Costa (presidente), Aleilton Fonseca, Carlos Ribeiro,
Evelina Hoisel, Fernando da Rocha Peres, Florisvaldo Mattos,
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Gláucia Lemos, Luís Antonio Cajazeira Ramos, Myriam Fraga e
Roberto Santos, além de convidados. Fala do acadêmico Fernando da Rocha Peres: “Meus poemas portugueses”.
25 — Seminários Arte e Pensamento — Transformações da Cultura no Século XXI, evento coordenado pelos acadêmicos Luís
Antonio Cajazeira Ramos e Paulo Costa Lima, dentro da programação do Ponto de Cultura da Academia de Letras da Bahia,
com apoio e transmissão direta para o público pelo Instituto
de Radiodifusão Educativa da Bahia e apoio da Faculdade de
Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia.
Mesa-redonda: “O corpo e suas cartografias”. Participaram da
mesa a professora, dramaturga e acadêmica Cleise Mendes, o
artista plástico Vauluizo Bezerra e o filósofo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro Guilherme Castelo Branco,
sendo mediadora a professora e acadêmica Evelina Hoisel.
29 — Abertura do curso Festival Gèlèdé: Origem, Iconografia e
Significado, coordenado pela professora e acadêmica Yeda Pessoa de Castro. Conferência “The dawn of existence: uma introdução à história ioruba”, cultura, cosmologia, arte e estética, bem
como as funções das máscaras em sua cultura, ministrada pelo
professor doutor Babatunde Lawal, da Virginia Commonwealth
University, dos Estados Unidos da América, com tradução simultânea da professora Ana Pessoa de Castro. Encerramento com a
publicação n° 4 da Revista Científica Africanias.com Digital, do
Núcleo de Estudos Africanos e Afro-Brasileiros em Línguas e
Culturas da Universidade do Estado da Bahia.
30 — Curso Festival Gèlèdé: Origem, Iconografia e Significado.
Origem do gèlèdé (ìpilèsè gèlèdé). Um exame das tradições orais e
relatos históricos sobre os primórdios da gèlèdé e sua transformação a partir de uma dança ritual por mulheres em um desempenho mascarado pelos homens. Ênfase nos contextos sociais e
ritual do festival anual (odun gèlèdé).
31 — Curso Festival Gèlèdé: Origem, Iconografia e Significado.
Traje da estética e iconografia (ìdira gèlèdé). Análises formais e
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
contextuais dos principais motivos sobre o traje gèlèdé com relação ao sexo e significado ritual.
Agosto
1º — Curso Festival Gèlèdé: Origem, Iconografia e Significado.
Mensagens esculpidas sobre cocares (igba gèlèdé), tipologia e iconografia dos principais motivos sobre cocares.
1º — Lançamento da Revista da Academia de Letras da Bahia
nº 51.
02 — Curso Festival Gèlèdé: Origem, Iconografia e Significado.
Continuidade e mudança nas gèlèdé. O impacto do comércio de
escravos, o islamismo, o cristianismo, o colonialismo europeu,
a educação ocidental moderna e tecnologia no espetáculo gèlèdé,
bem como os fatores de facilitar a preservação de alguns aspectos da gèlèdé nas Américas, mais especialmente no Brasil.
06 — Visita guiada dos alunos do curso de arquivologia da Universidade Federal da Bahia, Instituto de Ciências da Informação,
no âmbito da disciplina arquivos de engenharia, com a professora Bárbara Coelho, em cumprimento à programação do Ponto
de Cultura da Academia de Letras da Bahia.
08 — Reunião da diretoria a que compareceram os acadêmicos Aramis Ribeiro Costa (presidente), Carlos Ribeiro, Edivaldo
M. Boaventura, Fernando da Rocha Peres, Florisvaldo Mattos,
Gláucia Lemos, João Eurico Matta, Luís Antonio Cajazeira Ramos e Myriam Fraga, com a seguinte pauta: segurança e proteção da sede (roubo e incêndio); acesso à entrada da sede; pintura
externa da sede e obtenção de mais recursos financeiros.
12 — Abertura oficial do Curso Jorge Amado 2013 — III Colóquio Internacional de Literatura Brasileira, curso anual da programação da Academia de Letras da Bahia em parceria com a
Fundação Casa de Jorge Amado, neste ano encerrando o calendário oficial das homenagens em torno do centenário do escritor
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
e acadêmico Jorge Amado, iniciadas em 2012, e em homenagem
aos 80 anos do romance Cacau. Título geral do curso e do colóquio: “Cacau — A volta ao mundo em 80 anos”. Palavras iniciais
do presidente da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro
Costa. Conferência do escritor e acadêmico Hélio Pólvora: “Jorge
Amado e o romance na Bahia”. Lançamento do livro Jorge Amado: 100 anos escrevendo o Brasil, organizado pelos acadêmicos
Aleilton Fonseca, Evelina Hoisel e Myriam Fraga. No lançamento do livro, além de palavras do presidente Aramis Ribeiro Costa
e da acadêmica Myriam Fraga, discursou o acadêmico Edivaldo
M. Boaventura.
13 — Curso Jorge Amado 2013 — III Colóquio Internacional
de Literatura Brasileira. 14h30 — Sessões de comunicações 1 e
2. 17h — Depoimento: Josélia Aguiar (USP), “Como contar a
história do maior contador de histórias: um caminho percorrido
e os vários a percorrer”. 17h40 — Mesa-redonda: Márcia Rios
(UNEB), “Confissões de leitores de Jorge Amado”; Myriam Fraga (FCJA/ALB), “Pelourinho: trilhas, tramas e travessias”; Rita
Godet (Université Rennes/ALB), “A matriz ética e cultural invisível no universo mestiço do romance amadiano”. Coordenação
da mesa: Cássia Lopes (UFBA). Lançamento do livro A alteridade
ameríndia na ficção contemporânea das Américas, de Rita Olivieri Godet.
14 — Curso Jorge Amado 2013 — III Colóquio Internacional
de Literatura Brasileira. 14h30 — Sessões de comunicações 3 e 4.
17h — Conferência: Lilia Schwarcz (USP), “Tenda dos Milagres
e as suas dimensões da justiça”. 17h40 — Mesa-redonda: Stella
Caymmi (PUC-Rio), “A amizade de Amado e Caymmi”; Edilene
Mattos (UFBA), “A literatura de cordel na obra de Jorge Amado:
vozes em ficção”; Ordep Serra (UFBA), “A religião de Jorge Amado”. Coordenação da mesa: Ana Rosa Ramos (UFBA). Relançamento do livro Sosígenes Costa, da Global Editora, organizado por
Aleilton Fonseca para a Coleção Melhores Poemas.
15 — Curso Jorge Amado 2013 — III Colóquio Internacional
de Literatura Brasileira. 14h30 — Sessões de comunicações 5
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
e 6. 17h40 — Mesa-redonda: Antonia Herrera (UFBA), “Rua
e liberdade, a utopia de um lugar em Capitães da areia de Jorge
Amado”; Evelina Hoisel (UFBA/ALB), “A potência do múltiplo romance amadiano”; Lígia Telles (UFBA), “Pedro Arcanjo/
Ojuobá: saberes em trânsito em Tenda dos Milagres”; Biagio D’
Angelo (PUC-RS), “Cacau, o furor poético de Jorge Amado”.
Coordenação da mesa: Carlos Ribeiro (ALB). Lançamento do livro Cacau: vozes e orixás na escrita de Jorge Amado, organizado
por Biagio D’ Angelo e Márcia Rios.
16 — Curso Jorge Amado 2013 — III Colóquio Internacional
de Literatura Brasileira. 17h — Cerimônia de encerramento na
Fundação Casa de Jorge Amado, com palavras da organizadora
do curso e diretora-executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, poeta e acadêmica Myriam Fraga. Coquetel e lançamento do
livro O que é que a baiana tem?, de autoria de Stella Caymmi.
22 — Seminários Arte e Pensamento — Transformações da Cultura no Século XXI, evento coordenado pelos acadêmicos Luís
Antonio Cajazeira Ramos e Paulo Costa Lima, dentro da programação do Ponto de Cultura da Academia de Letras da Bahia,
com apoio e transmissão direta para o público pelo Instituto
de Radiodifusão Educativa da Bahia e apoio da Faculdade de
Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia.
Conferência “A paz perpétua em Antonio Vieira: perspectiva e
atualidade”, do filósofo e professor português Pedro Calafate,
da Universidade de Lisboa, com palavras iniciais e mediação do
presidente Aramis Ribeiro Costa.
26 — Encontro com o acadêmico e escritor Aramis Ribeiro
Costa, na programação do Ponto de Cultura, para roda de conversa com alunos do Colégio Impacto sobre o seu romance Uma
varanda para o jardim. Em seguida, visita guiada dos alunos à sede
da Academia de Letras da Bahia.
28 — Oficina de cordel, com Antonio Carlos Barreto, em cumprimento à programação do Ponto de Cultura da Academia de
Letras da Bahia.
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
29 — Sessão ordinária a que compareceram os acadêmicos: Aramis Ribeiro Costa (presidente), Carlos Ribeiro, Consuelo Pondé de Sena, Edivaldo M. Boaventura, Luís Antonio Cajazeira
Ramos e Roberto Santos, além de convidados, para a fala do
acadêmico Edivaldo M. Boaventura com o tema “Professores
portugueses na Bahia na segunda metade do século XX”.
30 — Oficina de poética baiana, com Norma Alves, em cumprimento à programação do Ponto de Cultura da Academia de
Letras da Bahia.
31 — Registro histórico: a sede da Academia de Letras da Bahia
é assaltada durante a madrugada e são levados dois bustos de
bronze de seu jardim de esculturas: o busto do fundador, engenheiro Arlindo Fragoso, e o busto do membro correspondente
e historiador Pedro Calmon. Os criminosos driblaram a vigilância, as câmeras de segurança e a rede eletrificada, e o roubo teve
grande repercussão na imprensa e na opinião pública.
Setembro
02 — Visita guiada dos alunos do curso de biblioteconomia da
Universidade Federal da Bahia, Instituto de Ciências da Informação, da disciplina bibliotecas universitárias e especializadas, ministrada pela professora Bárbara Coelho. A visita constou da programação do Ponto de Cultura da Academia de Letras da Bahia.
02 — Encontro com o acadêmico e poeta Florisvaldo Mattos
para roda de conversa sobre sua obra Sonetos elementais, seguida
de visita guiada com os alunos do Colégio Impacto, ambos, o
encontro e a visita, em cumprimento à programação do Ponto
de Cultura da Academia de Letras da Bahia.
05 — Sessão especial para inauguração do retrato a óleo e armário, na Sala dos Presidentes, com troféus, placas, medalhas e
condecorações do ex-presidente acadêmico José Calasans, tendo como oradores, além do presidente Aramis Ribeiro Costa, os
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
acadêmicos Edivaldo M. Boaventura e Consuelo Pondé de Sena.
A ocasião contou ainda com o lançamento da 2ª edição do livro
Quase biografia de jagunços: o séquito de Antônio Conselheiro, de
José Calasans, com prefácio de Fernando da Rocha Peres, editado
pela Universidade Federal da Bahia para a Coleção Nordestina.
Discursaram no ato do lançamento, além do presidente Aramis
Ribeiro Costa, o acadêmico Fernando da Rocha Peres e a diretora
da Editora da Universidade Federal da Bahia, professora Flávia
Garcia Rosa. Agradeceu em nome da família a senhora Madalena Calasans, filha do homenageado.
12 — Sessão especial e solene de posse da ialorixá Mãe Stella de
Oxóssi na Cadeira número 33, de que foi o último ocupante o
acadêmico Ubiratan Castro e que tem como patrono o poeta Castro Alves. O discurso de posse da nova acadêmica foi lido, em
presença da mesma, pelo acadêmico José Carlos Capinan, sendo a
nova acadêmica saudada pela confreira Myriam Fraga. Estiveram
presentes à solenidade, compondo a mesa alta ao lado do presidente da Academia, o senhor governador do estado da Bahia, Jaques Wagner, a senhora ministra da igualdade racial, Luíza Bairros,
o senhor presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, Marcelo
Nilo, e o senhor prefeito da cidade de Salvador, Antônio Carlos
Magalhães Neto. Compareceram ainda inúmeras outras autoridades e numeroso público.
16 — Oficina de dramaturgia, com Abílio de Mendonça, dentro do programa do Ponto de Cultura da Academia de Letras
da Bahia.
16 — Visita guiada dos alunos do Colégio Helena Matheus,
dentro do programa do Ponto de Cultura da Academia de Letras da Bahia.
17 — Abertura oficial do Curso Castro Alves 2013 — VIII Colóquio de Literatura Baiana, evento anual da Academia de Letras
da Bahia, coordenado pelo acadêmico Aleilton Fonseca. 14h30
às 17h — Sessões de comunicações: estudos sobre temas e obras
da literatura baiana. 17h — Palavra do presidente da Academia
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa. 17h10 — Comunicações, com a coordenação do presidente Aramis Ribeiro Costa:
“João Augusto, Jorge Amado e a paternidade de Quincas Berro
d’Água: por uma historia de textos”, pela professora doutora
Rosa Borges dos Santos (UFBA); “Jorge Amado e os correspondentes de guerra”, pelo professor doutor Benedito José de Araújo Veiga (UEFS). 17h45 — Conferência: “A mulata nas obras de
Jorge Amado, Juan Manuel Marcos e Rubém Sapena Brugada”,
pelo professor doutor Alain Saint-Saens (Universidad del Norte-Paraguai), coordenação de mesa da acadêmica Myriam Fraga
(FCJA/ALB). 18h30 — Lançamento do livro Um rio en los ojos
(Um rio nos olhos), do escritor e acadêmico Aleilton Fonseca.
18 — Curso Castro Alves 2013 — VIII Colóquio de Literatura
Baiana. 14h30 às 17h — Sessões de comunicações: estudos sobre
temas e obras da literatura baiana. 17h — Comunicações, com
coordenação de mesa do acadêmico Edivaldo M. Boaventura
(UFBA/ALB): “Os magros e a telúrica de Euclides Neto”, pelo
professor doutor Victor Hugo Fernandes Martins (UNEB); “As
filhas de Jorge: representações femininas na obra As baianas”, pelo
professor Joabson Lima Figueiredo (UNEB). 17h45 — Conferência: “Las voces de las memorias en la poesia de Myriam Fraga”,
pela professora doutora Maria Pugliese (Universidad de Luján Argentina) , com coordenação de mesa do acadêmico Carlos Ribeiro
(UFRB/ALB). 18h30 — Lançamento dos livros Rubem Braga: melhores crônicas, seleção e organização de Carlos Ribeiro, e Aromas
de fêmea (poesias), de Cléberton Santos.
19 — Curso Castro Alves 2013 — VIII Colóquio de Literatura
Baiana. 14h30 às 17h — Sessões de comunicações: estudos sobre
temas e obras da literatura baiana. 17h — Comunicações, com a
coordenação de mesa do professor e acadêmico Aleilton Fonseca
(UEFS/ALB): “Os poetas baianos e os crimes passionais: paixões
e honra na poesia dos juristas Sales Barbosa e Castro Alves”, pela
professora Cíntia Portugal de Almeida (UEFS); “A negritude em
Sosígens Costa e Castro Alves”, pela professora Mariana Barbosa
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Batista (UEFS). 17h45 — Conferência: “A poética ‘sertaneja’ castroalvina: um olhar local sobre a Cachoeira de Paulo Afonso”, pelo
professor Marcos José de Souza (UNEB), com coordenação de
mesa do acadêmico Luís Antonio Cajazeira Ramos (ALB). 18h45
— Encerramento do curso e do colóquio, com palavras do coordenador Aleilton Fonseca e do presidente Aramis Ribeiro Costa.
23 — Oficina de jornalismo cultural , com José Carlos, dentro do
programa do Ponto de Cultura da Academia de Letras da Bahia.
24 — Seminários Arte e Pensamento — Transformações da
Cultura no Século XXI, evento coordenado pelos acadêmicos
Luís Antonio Cajazeira Ramos e Paulo Costa Lima, dentro da
programação do Ponto de Cultura da Academia de Letras da
Bahia, com apoio e transmissão direta para o público pelo Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia e apoio da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da
Bahia. Mesa-redonda: “A poética da cidade”. Participaram da
mesa o poeta e ensaísta Alexei Bueno, o arquiteto, professor e
acadêmico Paulo Ormindo de Azevedo e o cineasta e diretor do
Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia Pola Ribeiro, com
mediação do professor e acadêmico Fernando da Rocha Peres.
26 — Sessão especial de homenagem ao centenário de nascimento do acadêmico Rubem Nogueira, sendo orador o poeta e
acadêmico Luís Antonio Cajazeira Ramos.
27 — Encontro poético na ALB, com celebração poética entre
os noivos Gabriel Oliveira Morais e Ananda Calvalcante Muniz,
ocasião em que foram oradores o vice-presidente João Eurico
Matta e o acadêmico Aleilton Fonseca.
Outubro
03 — Lançamento dos volumes 2 e 3 da Coleção Mestres da
Literatura Baiana, parceria editorial da Assembleia Legislativa
da Bahia com a Academia de Letras da Bahia: Contos e novelas
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
escolhidos I e Contos e novelas escolhidos II, de Hélio Pólvora. Na ocasião, discursaram o presidente da Academia de Letras da Bahia,
Aramis Ribeiro Costa, o assessor para assuntos de cultura da
Assembleia Legislativa da Bahia, professor Délio Pinheiro, e o
escritor Hélio Pólvora.
04 — Visita guiada com alunos da Universidade do Estado da
Bahia de Irecê, do curso de pedagogia e letras, acompanhados
pelo professor Joabson Lima Figueiredo.
08 — Oficina de literatura baiana, com Pedro Alaim, dentro do
programa do Ponto de Cultura da Academia de Letras da Bahia.
10 — Sessão ordinária em homenagem ao centenário de nascimento do poeta Vinicius de Moraes a que compareceram os acadêmicos Aramis Ribeiro Costa (presidente), Fernando da Rocha
Peres, Joaci Góes, José Carlos Capinan, Luís Antonio Cajazeira
Ramos e Myriam Fraga, além de convidados, tendo como tema
o poeta Vinicius de Moraes, com falas e depoimentos dos acadêmicos. As falas e os depoimentos foram gravados pelo Instituto
de Radiodifusão Educativa da Bahia para apresentação na TV
Educativa da Bahia.
17 — Palestra “Um exemplo vivo vale mais que mil palavras:
proposta de educação simultânea do pensamento, do sentimento e da vontade”, sendo palestrante o professor Tomio Kikuchi,
fundador do Centro Internacional de Autoeducação Vitalícia,
com apresentação e coordenação do acadêmico Luís Antonio
Cajazeira Ramos.
18 — Luto oficial pelo falecimento da acadêmica Consuelo Novais Sampaio, ocupante da Cadeira número 40. Na cerimônia
de cremação falou em nome da Academia de Letras da Bahia o
presidente Aramis Ribeiro Costa.
21 — Seminários Arte e Pensamento — Transformações da Cultura no Século XXI, evento coordenado pelos acadêmicos Luís
Antonio Cajazeira Ramos e Paulo Costa Lima, dentro da programação do Ponto de Cultura da Academia de Letras da Bahia,
com apoio e transmissão direta para o público pelo Instituto de
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Radiodifusão Educativa da Bahia e apoio da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia.
Conferência: “Cidadania, pertencimento e liberdade”, do poeta
e ex-ministro e presidente do Supremo Tribunal Federal Carlos
Ayres Britto, sendo mediador da mesa o acadêmico Joaci Góes.
24 — Inauguração da Sala Presidente Cláudio Veiga, com discurso inicial do presidente da Academia de Letras da Bahia, Aramis
Ribeiro Costa, sendo orador oficial da solenidade o professor e
acadêmico Aleilton Fonseca. Discursaram ainda, na ocasião, a
acadêmica Myriam Fraga e o senhor Cláudio Coelho Veiga, filho
do homenageado, agradecendo em nome da família. Em seguida,
ocorreu o lançamento da 2ª edição do livro de autoria do homenageado, acadêmico Cláudio Veiga, Um brasileiro soldado de Napoleão,
patrocinado pela Assembleia Legislativa da Bahia, apresentando
selos editoriais da Assembleia Legislativa da Bahia e da Academia
de Letras da Bahia. No ato do lançamento discursaram o presidente da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa, o
presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, deputado Marcelo
Nilo, e o professor e acadêmico Fernando da Rocha Peres.
Novembro
07 — 17h — Sessão ordinária (1ª sessão da tarde) a que compareceram os acadêmicos Aramis Ribeiro Costa (presidente), Aleilton Fonseca, Edivaldo M. Boaventura, Evelina Hoisel, Gláucia
Lemos, Joaci Góes, João Eurico Matta, Luís Antonio Cajazeira
Ramos, Myriam Fraga e Paulo Ormindo de Azevedo, para depoimentos em homenagem à saudosa acadêmica Consuelo Novais Sampaio.
07 — 18h — Sessão ordinária (2ª sessão da tarde) a que compareceram os acadêmicos Aramis Ribeiro Costa (presidente), Aleilton Fonseca, Edivaldo M. Boaventura, Evelina Hoisel, Gláucia
Lemos, Joaci Góes, João Eurico Matta, Luís Antonio Cajazeira
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Ramos, Myriam Fraga e Paulo Ormindo de Azevedo, para a eleição de membros correspondentes, não sendo realizadas as votações por falta de quórum.
21 — Sessão especial de homenagem ao sesquicentenário de
nascimento do fundador da Academia de Letras da Bahia, engenheiro Arlindo Coelho Fragoso, tendo como orador o acadêmico Edivaldo M. Boaventura.
28 — Lançamento do 4º volume da Coleção Mestres da Literatura Baiana, parceria editorial da Assembleia Legislativa da Bahia
com a Academia de Letras da Bahia: Antologia poética, de Affonso
Manta, organizada pelo poeta e acadêmico Ruy Espinheira Filho. Na ocasião discursaram o presidente da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa, o assessor para assuntos
de cultura da Assembleia Legislativa da Bahia, professor Délio
Pinheiro, o organizador e prefaciador da obra, acadêmico Ruy
Espinheira Filho, e o livreiro Eduardo Sarno, representando os
amigos e admiradores do poeta Affonso Manta. Ouviu-se também comovido depoimento do escritor Altamirando Borges Camacan sobre o poeta Affonso Manta.
Dezembro
1º — Luto oficial pelo falecimento do acadêmico James Amado, ocupante da Cadeira número 27. Diante do corpo, falou em
nome da Academia de Letras da Bahia o presidente Aramis Ribeiro Costa.
05 — Sessão extraordinária, conferência do acadêmico Waldir
Freitas Oliveira: “As viagens de São Brendan — A ilha Brasil”.
Em seguida, ocorreu o lançamento do livro Gaúchos e baianos, de
autoria do conferencista.
12 — Sessão especial de homenagem póstuma à acadêmica Consuelo Novais Sampaio (1936 – 2013), sendo orador o acadêmico
e vice-presidente João Eurico Matta. Agradeceu em nome da
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Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
família o senhor Paulo Roberto Novais Soares de Quadros, filho
da acadêmica homenageada. O presidente Aramis Ribeiro Costa, cumprindo o regimento, declarou vaga a Cadeira número 40,
cujo patrono é Francisco Mangabeira e cuja última ocupante era
a acadêmica Consuelo Novais Sampaio.
17 — Almoço de adesão promovido pela Academia de Letras
da Bahia em homenagem aos oitenta anos de vida do ex-presidente, acadêmico benfeitor e vice-decano Edivaldo M. Boaventura, quando lhe foi entregue placa comemorativa. Na ocasião,
discursaram o presidente Aramis Ribeiro Costa, os acadêmicos
Luís Antonio Cajazeira Ramos, João Eurico Matta e Joaci Góes,
também o escritor e membro correspondente da Academia de
Letras da Bahia Cyro de Mattos, além do homenageado, que
agradeceu a homenagem, reafirmando o seu amor pela Academia de Letras da Bahia.
18 — Lançamento do livro Ofún, de autoria da acadêmica Mãe
Stella de Oxóssi, pela coleção Odu Adajó (Coleção de destinos),
editado pela Assembleia Legislativa da Bahia, com a presença do
senhor governador do estado da Bahia, Jaques Wagner, da primeira dama, dona Fátima Mendonça, do presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, deputado Marcelo Nilo, várias outras
autoridades e inúmeros convidados. Na ocasião, discursaram o
presidente da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa, e o presidente da Assembleia Legislativa da Bahia, deputado
Marcelo Nilo, havendo a autora pronunciado algumas palavras.
19 — Entrega do Prêmio Conjunto de Obra — Academia de
Letras da Bahia/Eletrogóes — 2013, ao escritor Hélio Pólvora.
Na ocasião, discursaram o presidente Aramis Ribeiro Costa, o
acadêmico e ex-presidente Edivaldo M. Boaventura, criador do
prêmio em sua presidência, o acadêmico Joaci Góes, presidente
da Eletrogóes, empresa patrocinadora do prêmio, e o escritor e
membro correspondente da Academia de Letras da Bahia Cyro
de Mattos, representando a região grapiúna, tendo o escritor
homenageado, Hélio Pólvora, agradecido a homenagem com
►► 487
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
expressivo discurso. Em seguida, o presidente Aramis Ribeiro
Costa relatou, em breves palavras, as atividades da Academia
de Letras da Bahia durante o ano de 2013 e prestou homenagem
à dedicação dos funcionários da casa. Seguiu-se a confraternização de Natal e de final de ano entre funcionários e acadêmicos.
23 — Lançamento do Prêmio Nacional Academia de Letras da
Bahia — Poesia 2013, com patrocínio da Petrobras e da Braskem.
488 ◄◄
Quadro social da ALB*
Cadeira 1 Patrono: Frei Vicente de Salvador
Fundador: José de Oliveira Campos
2º Titular: Júlio Afrânio Peixoto (Afrânio Peixoto), fundador da
Cadeira 25, por transferência consentida pela Academia
3º Titular: José Wanderley de Araújo Pinho
Titular atual: Luís Henrique Dias Tavares
Posse em 14.6.1968
Cadeira 2 Patrono: Gregório de Mattos e Guerra (Gregório de Mattos)
Fundador: Aloysio Lopes Pereira de Carvalho (Lulu Parola)
2º Titular: Luís Viana Filho
Titular atual: Paulo Ormindo David de Azevedo (Paulo Ormindo de Azevedo)
Posse em 20.6.1991
Cadeira 3 Patrono: Manuel Botelho de Oliveira
Fundador: Arthur Gonçalves de Salles (Arthur de Salles)
2º Titular: Eloywaldo Chagas de Oliveira
3º Titular: Anna Amélia Vieira Nascimento
VAGA
* N. do E.: O quadro dos titulares da Academia de Letras da Bahia
foi originalmente elaborado pelo acadêmico Renato Berbert de Castro
(1924 – 1999).
►► 489
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Cadeira 4 Patrono: Sebastião da Rocha Pita
Fundador: Braz Hermenegildo do Amaral (Braz do Amaral)
2º Titular: João da Costa Pinto Dantas Júnior
3º Titular: Jayme de Sá Menezes
Titular atual: Geraldo Magalhães Machado (Geraldo
Machado)
Posse em 31.10.2003
Cadeira 5 Patrono: Luís Antônio de Oliveira Mendes
Fundador: Carlos Chiacchio
2º Titular: Antônio Luís Cavalcanti Albuquerque de Barros
Barreto (Barros Barreto)
3º Titular: Carlos Benjamin de Viveiros
4º Titular: José Silveira
5º Titular: Guido José da Costa Guerra (Guido Guerra)
Titular atual: Carlos Jesus Ribeiro (Carlos Ribeiro)
Posse em 31.5.2007
Cadeira 6 Patrono: Alexandre Rodrigues Ferreira
Fundador: Manoel Augusto Pirajá da Silva (Pirajá da Silva)
2º Titular: Thales Olympio Góes de Azevedo (Thales de
Azevedo)
3º Titular: Lucas Moreira Neves (Dom Lucas Cardeal Moreira
Neves)
Titular atual: Cleise Furtado Mendes (Cleise Mendes)
Posse em 15.4.2004.
Cadeira 7 Patrono: José da Silva Lisboa, Visconde de Cairu
Fundador: Ernesto Carneiro Ribeiro (Carneiro Ribeiro)
2º Titular: Francisco Borges de Barros
3º Titular: Aloísio de Carvalho Filho. Eleito para a Cadeira 26,
permutou esta, obtendo acordo da Academia, pela Cadeira 7,
com monsenhor Francisco de Paiva Marques, quando ambos
ainda não empossados.
490 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
4º Titular: Nelson de Souza Sampaio
5º Titular: Pedro Moacir Maia
Titular atual: Joaci Fonseca de Góes (Joaci Góes)
Posse em 24.9.2009
Cadeira 8 Patrono: Cipriano José Barata de Almeida (Cipriano Barata)
Fundador: Luís Anselmo da Fonseca
2º Titular: Francisco Peixoto de Magalhães Netto (Magalhães
Netto)
3º Titular: Adriano de Azevedo Pondé (Adriano Pondé)
4º Titular: Ary Guimarães
Titular atual: Paulo Costa Lima
Posse em 17.12.2009
Cadeira 9 Patrono: Antônio Ferreira França
Fundador: José Alfredo de Campos França
2º Titular: Edgard Ribeiro Sanches
3º Titular: Antônio Luís Machado Neto (Machado Neto)
4º Titular: Cláudio de Andrade Veiga (Cláudio Veiga)
Titular atual: João Ubaldo Osório Pimentel Ribeiro (João
Ubaldo Ribeiro)
Posse em 22.11.2012
Cadeira 10 Patrono: José Lino dos Santos Coutinho
Fundador: Antônio Moniz Sodré de Aragão
2º Titular: Altamirando Alves da Silva Requião (Altamirando
Requião)
Titular atual: Gaspar Sadoc da Natividade (Monsenhor
Gaspar Sadoc)
Posse em 16.10.1990
Cadeira 11 Patrono: Francisco Gê Acaiaba de Montezuma, Visconde
de Jequitinhonha
Fundador: Antônio Ferrão Moniz de Aragão
►► 491
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
2º Titular: Otávio Torres
3º Titular: Oldegar Franco Vieira
Titular atual: Yeda Antonita Pessoa de Castro (Yeda Pessoa
de Castro)
Posse em 10.4.2008
Cadeira 12 Patrono: Miguel Calmon, Marquês de Abrantes
Fundador: Miguel Calmon du Pin e Almeida
2º Titular: Alberto Francisco de Assis (Alberto de Assis)
3º Titular: Affonso Ruy de Sousa (Affonso Ruy)
4º Titular: Itazil Benício dos Santos
Titular atual: Aramis de Almada Ribeiro Costa (Aramis
Ribeiro Costa)
Posse em 25.11.1999
Cadeira 13 Patrono: Francisco Moniz Barreto
Fundador: Egas Moniz Barreto de Aragão (Pethion de Villar)
2º Titular: Afonso de Castro Rebelo Filho
3º Titular: Walter Raulino da Silveira (Walter da Silveira)
4º Titular: Odorico Montenegro Tavares da Silva (Odorico
Tavares)
5º Titular: Luís Fernando Seixas de Macedo Costa (Luís Fernando
Macedo Costa)
Titular atual: Myriam de Castro Lima Fraga (Myriam Fraga)
Posse em 30.7.1985
Cadeira 14 Patrono: Francisco Gonçalves Martins, Visconde de São
Lourenço
Fundador: Bernardino José de Sousa (Bernardino de Sousa)
2º Titular: Alberto Alves Silva (Alberto Silva)
3º Titular: Edgard Rego Santos (Edgard Santos)
4º Titular: Raul Batista de Almeida
5º Titular: Carlos Vasconcelos Maia (Vasconcelos Maia)
6º Titular. Epaminondas Costalima
492 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Titular atual: Gláucia Maria de Lemos Leal (Gláucia Lemos)
Posse em 21.10.2010
Cadeira 15 Patrono: Ângelo Moniz da Silva Ferraz, Barão de
Uruguaiana
Fundador: Otaviano Moniz Barreto
2º Titular: Hélio Gomes Simões (Hélio Simões)
Titular atual: João Carlos Oliveira Teixeira Gomes Fonseca
(João Carlos Teixeira Gomes)
Posse em 8.6.1989
Cadeira 16 Patrono: José Tomaz Nabuco de Araújo
Fundador: Eduardo Godinho Espínola
2º Titular: Orlando Gomes dos Santos (Orlando Gomes)
Titular atual: João Eurico Matta
Posse em 10.5.1989
Cadeira 17 Patrono: Antônio Ferrão Moniz
Fundador: Gonçalo Moniz Sodré de Aragão (Gonçalo Moniz)
2º Titular: Leopoldo Braga
3º Titular: Carlos Eduardo da Rocha
Titular atual: Ruy Alberto d’Assis Espinheira Filho (Ruy
Espinheira Filho)
Posse em 15.9.2000
Cadeira 18 Patrono: Zacarias de Góes e Vasconcelos
Fundador: José Joaquim Seabra (J.J. Seabra)
2º Titular: Augusto Alexandre Machado
3º Titular: Avelar Brandão Vilela (Dom Avelar Brandão Vilela)
Titular atual: Waldir Freitas Oliveira
Posse em 27.10.1987
Cadeira 19 Patrono: João Maurício Vanderley, Barão de Cotegipe
Fundador: Severino dos Santos Vieira (Severino Vieira)
►► 493
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
2º Titular: Arlindo Coelho Fragoso (Arlindo Fragoso). Fundador da Cadeira 41, criada em caráter provisório, transferiu-se
para esta, após a morte de Severino Vieira, ocorrida em 27 de
setembro de 1917, a fim de que fosse extinta a temporária.
3º Titular: Deraldo Dias de Morais
4º Titular: Guilherme Antônio Freire de Andrade Filho
5º Titular: Godofredo Rebelo de Figueiredo Filho (Godofredo
Filho)
Titular atual: Cid José Teixeira Cavalcante (Cid Teixeira)
Posse em 25.3.1993
Cadeira 20 Patrono: Augusto Teixeira de Freitas (Teixeira de Freitas)
Fundador: Carlos Gonçalves Fernandes Ribeiro (Carlos Ribeiro)
2º Titular: Epaminondas Berbert de Castro
3º Titular: Lafayette Ferreira Spínola (Lafayette Spínola)
4º Titular: Ivan Americano da Costa
5º Titular: Joaquim Alves da Cruz Rios (Cruz Rios)
Titular atual: Aleilton Santana da Fonseca (Aleilton Fonseca)
Posse em 15.4.2005
Cadeira 21 Patrono: Francisco Bonifácio de Abreu, Barão da Vila da
Barra
Fundador: Filinto Justiniano Ferreira Barros
2º Titular: Estácio Luís Valente de Lima (Estácio de Lima)
3º Titular: Jorge Amado
4º titular: Zélia Gattai Amado (Zélia Gattai)
Titular atual: Antonio Brasileiro Borges (Antonio Brasileiro)
Posse em 10.6.2010
Cadeira 22 Patrono: José Maria da Silva Paranhos, Visconde do Rio
Branco
Fundador: Ruy Barbosa de Oliveira (Ruy Barbosa)
2º Titular: Ernesto Carneiro Ribeiro Filho
3º Titular: Aloísio Henrique de Barros Porto
494 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Titular atual: Clóvis Álvares Lima (Clóvis Lima)
Posse em 8.5.1980
Cadeira 23 Patrono: Antônio Januário de Faria
Fundador: João Américo Garcez Fróes
2º Titular: Jorge Calmon Moniz de Bittencourt (Jorge Calmon)
Titular atual: Samuel Celestino Silva Filho (Samuel Celestino)
Posse em 21.8.2008
Cadeira 24 Patrono: Demétrio Ciríaco Tourinho (Demétrio Tourinho)
Fundador: Luís Pinto de Carvalho (Pinto de Carvalho)
2º Titular: Luís Menezes Monteiro da Costa (Luís Monteiro)
3º Titular: Renato Berbert de Castro
Titular atual: Francisco Soares Senna (Francisco Senna)
Posse em 27.4.2000
Cadeira 25 Patrono: Pedro Eunápio da Silva Deiró (Eunápio Deiró)
Fundador: Júlio Afrânio Peixoto (Afrânio Peixoto). Com o consentimento da Academia, transferiu-se para a Cadeira 1 após a
morte de seu fundador, José de Oliveira Campos.
2º Titular: Francisco Hermano Santana (Hermano Santana)
3º Titular: Raimundo de Sousa Brito (Raimundo Brito)
4º Titular: Luís Augusto Fraga Navarro de Brito (Navarro de
Brito)
Titular atual: Fernando da Rocha Peres
Posse em 16.6.1988
Cadeira 26 Patrono: Antônio de Macedo Costa (Dom Antônio de Macedo
Costa)
Fundador: José Cupertino de Lacerda (Padre José Cupertino de
Lacerda)
2º Titular: Alberto Moreira Rabelo (Alberto Rabelo), único
membro da Academia que faleceu antes de tomar posse.
3º Titular: Francisco de Paiva Marques (Monsenhor Paiva
►► 495
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Marques). Eleito para a Cadeira 7, permutou esta pela Cadeira
26, com Aloísio de Carvalho Filho, quando ambos ainda não
empossados.
4º titular: César Augusto de Araújo (César de Araújo)
Titular atual: Roberto Figueira Santos (Roberto Santos)
Posse em 10.8.1971
Cadeira 27 Patrono: Francisco Rodrigues da Silva
Fundador: Frederico de Castro Rabelo (Frederico Rabelo)
2º Titular: Antônio Gonçalves Vianna Júnior (Antônio Vianna)
3º Titular: Jayme Tourinho Junqueira Ayres (Jayme Junqueira
Ayres)
4º Titular: Antônio Loureiro de Souza
5º: Titular: James Amado
VAGA
Cadeira 28 Patrono: Luís José Junqueira Freire (Junqueira Freire)
Fundador: Francisco Torquato Bahia da Silva Araújo
2º Titular: Homero Pires de Oliveira e Silva
3º Titular: José Calasans Brandão da Silva (José Calasans)
Titular atual: Consuelo Pondé de Sena
Posse em 14.3.2002
Cadeira 29 Patrono: Agrário de Souza Menezes (Agrário Menezes)
Fundador: Antônio Alexandre Borges dos Reis (Borges dos Reis)
2º Titular: Manços Chastinet Contreiras (Manços Chastinet)
3º Titular: Colombo Moreira Spínola (Colombo Spínola)
4º Titular: Jorge Faria Góes
Titular atual: Hélio Pólvora de Almeida (Hélio Pólvora)
Posse em 8.3.1994
Cadeira 30 Patrono: Joaquim Monteiro Caminhoá
Fundador: Antônio do Prado Valadares (Prado Valadares). Permutou a cadeira com Roberto José Correia (Roberto Correia), titular da Cadeira 38.
496 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
2º Titular: Roberto José Correia (Roberto Correia)
3º Titular: Alfredo Vieira Pimentel
4º Titular: Nestor Duarte Guimarães (Nestor Duarte)
5º Titular: Josaphat Ramos Marinho (Josaphat Marinho)
Titular atual: Paulo Roberto Bastos Furtado (Paulo Furtado)
Posse em 24.4.2003
Cadeira 31 Patrono: Belarmino Barreto
Fundador: Ernesto Simões da Silva Freitas Filho (Simões Filho)
2º Titular: José Luís de Carvalho Filho (Carvalho Filho)
Titular atual: Florisvaldo Moreira de Mattos (Florisvaldo
Mattos)
Posse em 23.11.1995
Cadeira 32 Patrono: André Pinto Rebouças (André Rebouças)
Fundador: Theodoro Fernandes Sampaio (Theodoro Sampaio)
2º Titular: Isaías Alves de Almeida (Isaías Alves)
3º Titular: Zitelmann José Santos de Oliva (Zitelmann de Oliva)
4º Titular: Gérson Pereira dos Santos
VAGA
Cadeira 33 Patrono: Antônio Frederico de Castro Alves (Castro Alves)
Fundador: Francisco Xavier Ferreira Marques (Xavier Marques)
2º Titular: Heitor Praguer Fróes. Tomou posse em 15 de novembro de 1931 na Cadeira 34, transferindo-se para esta após a
morte de Xavier Marques
3º Titular: Waldemar Magalhães Mattos (Waldemar Mattos)
4º Titular: Ubiratan Castro de Araújo (Ubiratan Castro)
Titular atual: Maria Stella de Azevedo Santos (Mãe Stella de
Oxóssi)
Posse em 12.9.2013
Cadeira 34 Patrono: Domingos Guedes Cabral
Fundador: José Virgílio da Silva Lemos (Virgílio de Lemos)
►► 497
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
2º Titular: Heitor Pragues Fróes. Transferiu-se para a Cadeira
33, depois do desparecimento de Xavier Marques
3º Titular: Adalício Coelho Nogueira (Adalício Nogueira)
4º Titular: Walfrido Moraes de Lima (Walfrido Moraes)
Titular atual: Evelina de Carvalho Sá Hoisel (Evelina Hoisel)
Posse em 27.10.2005
Cadeira 35 Patrono: Manoel Vitorino Pereira (Manoel Vitorino)
Fundador: Antônio Pacífico Pereira
2º Titular: Afonso Costa
3º Titular: Rui Santos
4º Titular. Rubem Rodrigues Nogueira (Rubem Nogueira)
5º Titular: João da Costa Falcão (João Falcão)
Titular atual: Luís Antonio Cajazeira Ramos
Posse em 2.8.2012
Cadeira 36 Patrono: Joaquim Jerônimo Fernandes da Cunha (Fernandes
da Cunha)
Fundador: Afonso de Castro Rebelo
2º Titular: Manuel de Aquino Barbosa (Padre Manuel Barbosa)
3º Titular: Hildegardes Cantolino Vianna (Hildegardes Vianna)
Titular atual: José Carlos Capinan
Posse em 17.8.2006
Cadeira 37 Patrono: João Batista de Castro Rebelo Júnior
Fundador: Almachio Diniz Gonçalves (Almachio Diniz)
2º Titular: Edith Mendes da Gama e Abreu
3º Titular. Antonio Carlos Peixoto de Magalhães (Antônio Carlos Magalhães)
Titular atual: Emanuel d’Able do Amaral (Dom Emanuel
d’Able do Amaral)
Posse em 28.5.2009
Cadeira 38 Patrono: Alfredo Tomé de Brito (Alfredo Brito)
Fundador: Oscar Freire de Carvalho
498 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
2º Titular: Roberto José Correia (Roberto Correia). Permutou
sua cadeira com Prado Valadares, fundador da Cadeira 30.
3º Titular: Antônio do Prado Valadares (Prado Valadares)
4º Titular: Cristiano Alberto Müller (Cristiano Müller)
5º Titular: Wilson Mascarenhas Lins de Albuquerque (Wilson
Lins)
Titular atual: Armando Avena Filho
Posse em 28.4.2005
Cadeira 39 Patrono: Francisco de Castro
Fundador: Clementino Rocha Fraga Júnior (Clementino Fraga)
Titular atual: Edivaldo Machado Boaventura (Edivaldo M.
Boaventura)
Posse em 6.8.1971
Cadeira 40 Patrono: Francisco Cavalcanti Mangabeira (Francisco
Mangabeira)
Fundador: Octavio Cavalcanti Mangabeira (Octavio Mangabeira)
2º Titular: Manoel Pinto de Aguiar
3º Titular: Consuelo Novais Sampaio
VAGA
Obs.:
Cadeira 41 Criada em caráter provisório para que Arlindo Fragoso, idealizador e organizador da Academia de Letras da Bahia,
não lhe ficasse de fora, devendo ser extinta com o falecimento
de qualquer um dos 41 fundadores. Patrono: Manuel Alves Branco,
Visconde de Caravelas. Fundador: Arlindo Coelho Fragoso (Arlindo Fragoso). Com a morte de Severino Vieira, em 27 de setembro de 1917, para a sua Cadeira, de número 19, foi transferido
Arlindo Fragoso, sendo suprimida a cadeira provisória.
►► 499
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Membros correspondentes
Antonella Rita Roscilli
Antonio Carlos Secchin
Ático Frota Villas-Boas da Mota
Cyro de Mattos
Dominique Stoenesco
Franklin W. Knight
Glória Kaiser
Helena Parente Cunha
Isa Maria Carneiro Gonçalves
Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira (Moniz Bandeira)
Maria Beltrão
Rita Olivieri-Godet
Vamireh Chacon
500 ◄◄
Endereços dos acadêmicos
Aleilton Fonseca
Rua Rubem Berta, 267-402 — Pituba
41820-040 — Salvador/BA
( (71) 3345-1519 / 8876-1519
[email protected]
Antonio Brasileiro
Rua Alto do Paraná, 300 — Bairro Sim
44042-000 — Feira de Santana/BA
( (75) 3625-8512
[email protected]
Aramis Ribeiro Costa
Rua Piauí, 439-1103 — Pituba
41830-280 — Salvador/BA
( (71) 3240-4969 / 9984-1165
[email protected]
Armando Avena
Condomínio Jardim Gantois, Rua C, 346 — Piatã
41680-170 — Salvador/BA
( (71) 3272-2960 / 9994-3000
[email protected]
►► 501
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Carlos Ribeiro
Rua do Timbó, 680-503 — Caminho das Árvores
41820-660 — Salvador/BA
( (71) 3011-7019 / 9153-4908
[email protected]
Cid Teixeira
Rua das Violetas, 85 — Pituba
41810-080 — Salvador/BA
( (71) 3452-7402
[email protected]
Cleise Mendes
Rua Marechal Floriano, 357-302 — Canela
40110-010 — Salvador/BA
( (71) 3337-0312 / 9198-6165
[email protected]
Clóvis Lima
Avenida Sete de Setembro, 750-404 — Mercês
40060-001 — Salvador/BA
( (71) 3329-4178
Consuelo Pondé de Sena
Avenida Princesa Leopoldina, 288-301 — Graça
40150-080 — Salvador/BA
( (71) 3492-6365 / 8777-5415
[email protected]
Dom Emanuel d’Able do Amaral
Largo São Bento, 1 — Centro
41205-220 — Salvador/BA
( (71) 2106-5272 / 8151-1053
[email protected]
502 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Edivaldo M. Boaventura
Rua Doutor José Carlos, 99-801 — Acupe
40290-040 — Salvador/BA
( (71) 3276-1242 / 8818-6199
[email protected]
Evelina Hoisel
Rua Monsenhor Gaspar Sadoc, 48 — Jardim de Alá
41750-200 — Salvador/BA
( (71) 3343-5789 / 9968-7625
[email protected]
Fernando da Rocha Peres
Avenida Sete, 2901-202 (ala norte) — Ladeira da Barra
40130-000 Salvador/BA
( (71) 3336-3670 / 9956-7880
[email protected]
Florisvaldo Mattos
Rua Sócrates Guanaes Gomes, 107-801 — Cidade Jardim
40296-720 — Salvador/BA
( (71) 3353-9785 / 9986-2848
[email protected]
Francisco Senna
Rua Professor Milton Oliveira, 73-202 — Barra
40140-100 — Salvador/BA
( (71) 9967-0685
[email protected]
Geraldo Machado
Rua Edith Mendes da Gama e Abreu, 300-1403 — Itaigara
41815-010 — Salvador/BA
( (71) 3353-5350 / 9976-7033
[email protected]
►► 503
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Gláucia Lemos
Rua Ceará, 853-203 — Pituba
4l830-450 — Salvador/BA
( (71) 3240-3688 / 8199-1803
[email protected]
Hélio Pólvora
Avenida Sete de Setembro, 1862-1202 — Corredor da Vitória
40080-004 — Salvador/BA
( (71) 3337-0169
[email protected]
Joaci Góes
Avenida Amaralina, 885, Amaralina Center, loja 9 — Amaralina
41900-020 — Salvador/BA
( (71) 3444-2308 / 8814-3631
[email protected]
João Carlos Teixeira Gomes
Rua Espírito Santo, 15-802 — Pituba
41830-120 — Salvador/BA
( (71) 3240-1712
[email protected]
João Eurico Matta
Rua Afonso Celso, 301-302 — Barra
40140-080 — Salvador/BA
( (71) 3247-0869 / 8880-0869
[email protected]
João Ubaldo Ribeiro
Rua General Urquiza, 147-401 — Leblon
22431-040 — Rio de Janeiro/RJ
( (21) 2239-1528
[email protected]
504 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
José Carlos Capinan
Rua Tamoios, 96 — Rio Vermelho
41940-040 — Salvador/BA
( (71) 3345-2080 / 9955-1410
[email protected]
Luís Antonio Cajazeira Ramos
Rua Érico Veríssimo, 34-401 — Itaigara
41815-340 — Salvador/BA
( (71) 2137-1920 / 8861-1515
[email protected]
Luís Henrique Dias Tavares
Rua do Ébano, 159-802 — Caminho das Árvores
41820-370 — Salvador/BA
( (71) 3245-3524
[email protected]
Mãe Stella de Oxóssi
Rua Direta, 557 — São Gonçalo do Retiro
41185-055 — Salvador/Bahia
( (71) 3247-2967
[email protected]
Monsenhor Gaspar Sadoc
Rua Crisipo de Aguiar, 10-102 — Vitória
40080-310 — Salvador/BA
( (71) 3336-0346
Myriam Fraga
Rua Waldemar Falcão, 761-301 — Brotas
40295-001 — Salvador/BA
( (71) 3356-4611 / 8151-1413
[email protected]
►► 505
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Paulo Costa Lima
Rua Sabino Silva, 282-401 — Jardim Apipema
40155-250 — Salvador/BA
( (71) 8832-1545 /3235-5676
[email protected]
Paulo Furtado
Avenida Orlando Gomes, Condomínio Parque Costa Verde,
quadra H, lote 3 41650-120 — Salvador/BA
( (71) 3367-9481 / 9158-3414
[email protected]
Paulo Ormindo de Azevedo
Rua João da Silva Campos, 1132 — Itaigara
41840-060 — Salvador/BA
( (71) 3358-7571 / 8816-5262
[email protected]
Roberto Santos
Rua Basílio Catalá de Castro, quadra B, lote 19 — Quinta do
Candeal
40280-550 — Salvador/BA
( (71) 3276-5759 / 9115-9532
[email protected]
Ruy Espinheira Filho
Caixa Postal 10333
41520-970 — Salvador/BA
( (71) 3287-2225 / 9973-8711
[email protected]
Samuel Celestino
Rua do Ébano, 159-1301 — Caminho das Árvores
41820-370 — Salvador/BA
( (71) 3341-4485 / 3359-7741
[email protected]
506 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Waldir Freitas Oliveira
Rua Tiradentes, 52 — Abrantes
42840-000 — Camaçari/BA
( (71) 3623-1434 / 9968-2989
[email protected]
Yeda Pessoa de Castro
Rua Antonio da Silva Coelho, 151-705 — Jardim Armação
41750-040 — Salvador/BA
( (71) 3461-9033 / 8138-4865
[email protected]
Membros correspondentes:
Antonella Rita Roscilli
Via Giacomo Barzelloti, 7
00136 — Roma — Itália
[email protected]
Antonio Carlos Secchin
Avenida Atlântica, 2112-801 — Copacabana
22021001 — Rio de Janeiro/RJ
( (21) 2236-1112
[email protected]
Ático Frota Villas-Boas da Mota
Rua Doutor Manoel Vitorino, 411 — Coité
46500-000 — Macaúbas/BA
( (77) 3473-1292
[email protected]
►► 507
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Cyro de Mattos
Travessa Rosenaide, 40-101 — Zildolândia
45600-395 — Itabuna/BA
( (73) 3211-1902 / 8846-1883
[email protected]
Dominique Stoenesco
26 bis, allée Guy Mocquet
94170 — Le Perreux-sur-Marne — France
((003133) 1 48 72 16 56 / (003133) 06 08 65 50 23
[email protected]
Franklin W. Knight
2902 W. Strathmore Avenue
Baltimore, Maryland 21209 — USA
Glória Kaiser
Dr. Robert Siegerst, 15
A 8010 — Graz — Áustria
[email protected]
Helena Parente Cunha
Rua das Laranjeiras, 280-200 — Laranjeiras
22240-001 — Rio de Janeiro/RJ
[email protected]
Isa Maria Carneiro Gonçalves
Rua Milton Melo, 413 — Santa Mônica
44050-560 — Feira de Santana/BA
( (75) 3625-2416
[email protected]
Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira
Reilinger Strasse, 19, D
68789 — Deutschland
508 ◄◄
Revista da Academia de Letras da Bahia, nº 52, 2014
Maria Beltrão
Rua Prudente de Moraes, 1179, Cobertura 1 — Ipanema
22420-043 — Rio de Janeiro/RJ
( (21) 2247-4180
mcmcbeltrã[email protected]
Rita Olivieri-Godet
24, Avenue Sergent Maginot
35000 — Rennes — France
( 02 99 67 35 02
[email protected]
Vamireh Chacon
Universidade de Brasília — Instituto de Ciência Política
70910-900 — Brasília/DF
►► 509
A Revista da Academia de Letras da Bahia nº 52
Foi organizada, editorada e publicada em 2014
Ano do centenário do nascimento de Dorival Caymmi
Ano do centenário, em vida, do poeta e acadêmico Clóvis Lima
Presidente da ALB
Aramis Ribeiro Costa Diretor da Revista
Florisvaldo Mattos Conselho Editorial Fernando da Rocha Peres
Myriam Fraga
Ruy Espinheira Filho
Produção editorial
Aleilton Fonseca Revisão editorial e normalização Luís Antonio Cajazeira Ramos
Editoração e arte final Elimarcos Santana
Serviço editorial
Via Litterarum Editora