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IV Encontro de Pesquisa em Música da Universidade Estadual de Maringá (EPEM)
Maringá - 2009
O TRATADO DOS OBJETOS MUSICAIS DE PIERRE SCHAEFFER
REVISITADO PELA FENOMENOLOGIADE MERLEAU-PONTY
Glauco Duarte Marini
[email protected]
Rael B. Gimenes Toffolo
[email protected]
Resumo
Desde sua primeira publicação em 1966 o Traité des objets Musicaux de Pierre Schaeffer tem sido
uma obra referencial para a composição e para o estudo da música contemporânea, principalmente as
que se enquadram na vertente acusmática. Dentro desse panorama, o Traité também se tornou
obra teórica central para o estudo e desenvolvimento de estéticas musicais que colocam a
percepção como fundamento para a construção de técnicas e procedimentos composicionais. A
colocação da escuta no centro da discussão musical decorre de abordagens fenomenológicas adotados
por Schaeffer a partir de uma linha husserliana. Porém, atualmente, inúmeros autores tem reavaliado
a obra de Husserl apresentando quais são os pontos interessantes e os problemas
presentes em sua teoria, decorrentes de abordagens dualistas-cartesianas (cf. MerlauPonty, 1996;
Maturana, 1995; Varela et al, 2003). Tais revisões conceituais realizadas na obra de Husserl nos
permitem verificar que postulações realizadas por Schaeffer no Traité podem ser consideradas
equivocadas ou pelo menos desatualizadas de acordo com a Fenomenologia pósdécada de
1950. Portanto, neste projeto pretendemos realizar uma análise crítica do trabalho de Schaeffer a
partir da obra de MerleauPonty buscando uma adaptação de suas propostas para uma fenomenologia
mais atual e livre de pressupostos dualistas cartesianos.
Palavras-chave: Pierre Schaeffer; Fenomenologia; Merleau-Ponty; escuta musical.
1 INTRODUÇÃO
O Tratado dos objetos musicais de Pierre Schaeffer, tem sido, desde sua publicação em 1966, uma
obra de grande importância para a composição e o estudo da música contemporânea. Tornou-se também
uma obra teórica referencial para o estudo de estéticas musicais que têm como base a percepção para a
construção musical.
Schaeffer parte de uma crítica à composição musical tradicional, especialmente ao estruturalismo do
século XX, por considerar que essas estéticas constroem seu discurso musical apoiado em regras de
estruturação que são anteriores à experiência. A partir dessa crítica, Schaeffer propõe uma mudança de foco
da dupla fazer/ouvir para um ouvir/fazer.
Schaeffer dedica-se, então, à uma análise das características psicoacústicas da audição para
investigar quais são os fenômenos auditivos que podem ser percebidos pelo ser humano. Por meio do
processo de “redução fenomenológica” de Husserl, busca obter um objeto sonoro eliminando do ato
perceptivo os condicionamentos culturais, que, no caso de Schaeffer, seriam as referências à fonte produtora
do objeto. Realizada essa redução, poderia-se classificar os objetos em categorias de acordo com suas
características espectrais.
No entanto, segundo Toffolo & Oliveira (2005) “resquícios de abordagens dualistas cartesianas são
encontradas na obra de Schaeffer como decorrência de seu embasamento na fenomenologia
husserliana, fato esse que merece estudo e novas abordagens como já tem ocorrido em diversas áreas do
conhecimento”.
Varela (2003) afirma que, há ao longo da história da filosofia moderna uma circunscrição de sujeito
que oscila entre objetivismo e subjetivismo, e tal oscilação gera dificuldades no que se refere à explicações
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sobre a cognição e atividades humanas que se relacionam a ela, como é o caso de Schaeffer ao abordar a
música relacionada à percepção e seus desdobramentos a partir dessa visão fenomenologicamente embasada.
Schaeffer acaba por incorrer no mesmo erro de Husserl ao buscar um objeto sonoro isolado de
suas referências. Varela et al. (2003), afirmam que um dos principais problema da teoria de
Husserl reside na redução fenomenológica, que visa um objeto transcendente a todas as experiências
possíveis e isolado dos condicionamentos culturais; marca idealista que acaba por se tornar
presente na obra de Schaeffer. Podemos verificar no trabalho de Schaeffer a oscilação entre objetivismo
e subjetivismo que destacamos acima. A tendência objetivista é notada na preocupação do autor em
circunscrever um objeto sonoro que pode ser medido, analisado e classificado. Por sua vez, através do
recurso husserliano da redução fenomenológica, observa-se a tendência subjetivista, já que tal redução
coloca o objeto sonoro numa categoria transcendente à experiência.
Schaeffer deu um grande passo em direção a uma abordagem da música enquanto
experiência, colocando a percepção em lugar de destaque, porém esbarrou em um problema que herdou
da fenomenologia de Husserl: a busca por um objeto fenomênico, mas transcendente, que
desconsidera a escuta referencial (ou natural). Ainda que a conquista acerca da percepção não seja
invalidada por esse problema, este também não é passível de ser desconsiderado.
A obra de Merleau-Ponty realiza um diálogo direto com a fenomenologia husserliana
recolocando o problema do fenômeno quando abordado dentro de uma visão do cógito cartesiano. Em
especial, no Fenomenologia da Percepção, Merleau-Ponty oferece uma nova visão de sujeito em
alternativa à visão de sujeito transcendente de Husserl visando a superação dos problemas dualistas
decorrentes dessa visão. Merleau-Ponty constrói uma visão de sujeito corpóreo, ou seja de um sujeito situado
e encarnado no mundo, que constrói o mundo enquanto é construído por ele e por conseqüência recoloca o
conceito de percepção a partir dessa formulação de sujeito. Tal recolocação da percepção é o foco
principal que embasa este projeto. A partir dela é que pretendemos reavaliar as proposições
de Schaeffer visando atualizar sua obra para pressupostos teóricos contemporâneos.
2 Schaeffer e o Traité des Objets Musicaux
Pierre Schaeffer em seu Traité des Objets Musicaux (1966), realiza um estudo sistemático sobre a
escuta acreditando estar descrevendo todas as formas de atuação da escuta humana bem como da escuta
aplicada ao fazer musical. Inicia com uma revisão de fatos históricos, determinação de conceitos que os
guiaram ao longo desse estudo sobre a escuta. Prossegue pela descrição do panorama histórico em que a
musicologia se encontrava. Afirma que a musicologia moderna estava tendo que lidar com três impasses. O
primeiro desses impasses trata-se de um questionamento das noções musicais do ocidente, que se
fundamenta na escala de alturas para a construção musical. O segundo centra-se no desenvolvimento de
novas tecnologias para produção musical, que possibilitaram o surgimento da música concreta e eletrônica.
O terceiro refere-se a falta de uma terminologia adequada para a explicação do fenômeno musical.
Tais impasses, segundo Schaeffer, originaram uma postura estruturalista na música, como uma forma
de reação à crise das noções musicais tradicionais no início do século XX, àquelas em que os valores
musicais são mensuráveis segundo os parâmetros físicos de altura, duração, intensidade e por conseqüência
timbre. Desta forma, os compositores estruturalistas se apoiavam em parâmetros da acústica e matemática,
colocando a estrutura como fato anterior à escuta. Esta preocupação com o rigor intelectual acaba por ignorar
a percepção do fenômeno sonoro, gerando músicas a priori, por não haver correspondência entre a estrutura
e a experiência do material sonoro. A partir dessa crítica, Schaeffer propõe um outro ponto de partida, em
que se coloque a percepção como fundamento da composição e pesquisa musical.
Dentro dessa perspectiva, Schaeffer desenvolve o conceito de 'música concreta' para denominar os
experimentos realizados em 1948 na Rádio e Televisão Francesa de Paris e que exemplificam a possibilidade
de realizar a inversão do fazer/ouvir para um ouvir/fazer. A música concreta tinha como proposta “recolher o
concreto sonoro, donde quer que proviesse, e de abstrair-lhe os valores musicais que contivesse em potência”
(Schaeffer, 1993, p. 33). Esta proposta inicial tinha como fundamento a noção de objetos sonoros, que seria
alcançada por meio da escuta reduzida. O objeto sonoro é “todo e qualquer fenômeno sonoro percebido,
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como um todo coerente, à luz da escuta reduzida que visa a independência do fenômeno de qualquer traço
relativo à proveniência ou significação” (Chion apud Toffolo, 2004, p. 47).
Schaeffer define, então, a escuta em quatro categorias (as quatro escutas):
1) Escutar: “É aplicar o ouvido, interessar-se por.” (Schaeffer, 1993, p .90)
2) Ouvir: “É perceber pelo ouvido. Por oposição a escutar, que corresponde à atitude mais ativa, o
que ouço, é aquilo que me é dado na percepção.”(Schaeffer, 1993, p. 90)
3) Entender: “O que entendo é o que me é manifesto; é função dessa intenção” (Schaeffer, 1993,
p.91)
4) Compreender: “Tomar consigo, está numa dupla relação com escutar e entender. Compreendo o
que eu visava na minha escuta, graças ao que escolhi para entender.” (Schaeffer, 1993, p. 91)
4. COMPREENDER
1. ESCUTAR
­ para mim: sinais
­ para mim: indícios
­ diante de mim: valores ­ diante de mim: (sentido­linguagem)
acontecimentos 1 e 4:
exteriores (agente­ Referências Em referência a outras instrumento)
exteriores
noções, sonoras ou não, emergência de um sentido
Emissão do som Reconhecimento das fontes
3. ENTENDER
2. OUVIR
­ para mim: percepções ­ para mim: qualificadas
percepções brutas, 2 e 3: ­ diante de mim: objeto esboços do objeto
Experiência sonoro qualificado
­ diante de mim: interior
objeto sonoro bruto
Seleção de certos aspectos particulares do som. Recepção do som
Qualificação do objeto
Identificação do objeto
3 e 4: abstrato
1 e 2: concreto
Em toda escuta, segundo o autor, confronta-se um sujeito receptivo, que corresponde ao
entender e compreender, na medida em que se trata de uma escuta qualificada ao nível do subjetivo,
e uma realidade concreta, correspondente à escutar e ouvir, nos quais a escuta volta-se para um
dado concreto.
A partir dessa oposição entre um sujeito receptivo e uma realidade concreta, Schaeffer ainda opõe
duas outras duplas, a escuta natural/cultural e banal/prática. A escuta natural remete ao escutar (setor 1). É
uma escuta primitiva que se serve do som como indício do evento sonoro, é o nível do concreto. A escuta
natural nos informa sobre eventos externos ao sonoro, por exemplo, ao escutar alguém falar uma língua
estrangeira, entendo que alguém está falando, mas não compreendo seu significado. A escuta cultural dirige-3-
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se ao nível do abstrato, das linguagens convencionadas e é menos universal que a natural, pois varia de uma
cultura para outra. Corresponde ao compreender (setor 4).
A escuta banal é a escuta do cotidiano, do dia-a-dia, por exemplo “Escuto um violino que toca no
agudo. Mas ignoro que, se fosse melhor músico, eu ouviria muitos detalhes – sobre a qualidade do violino ou
do violinista, sobre a precisão da note que ele emite, etc. - aos quais não tenho acesso por falta de
treinamento especializado. Tenho, portanto, uma escuta 'subjetiva', não por não estar a ouvir algo, mas por
não ter apurados nem a atenção nem o ouvido” (p. 107). A escuta prática ou especializada, por outro lado, é
um escuta objetiva e remete à um sistema simbólico. A exemplo do próprio Schaeffer, um acústico, um
músico e um índio do velho oeste, entenderá o galope de um cavalo de maneiras bem distintas: o acústico
terá um idéia da constituição do sinal físico, o músico se voltará para os aspectos rítmicos e o índio
pressentirá o perigo de uma aproximação hostil.
2.1 Abordagens psico-acústicas de Schaeffer
A teoria tradicional de música se apóia em valores musicais mensuráveis segundo três parâmetros da
física: duração, intensidade e altura. Esses valores se apóiam na acústica, cujo método pode ser resumido da
seguinte maneira :
1. Considera o domínio musical dos sons periódicos, eliminando tudo o que é considerado
ruído.
2. Decompõe o som, dividindo uma parte permanente (sustentação) e uma transitória
(ataque)
3. Sons permanentes: estuda-se os sons puros, isto é, sons que se reduzem a uma única
freqüência, chamada de fundamental. Traça-se um mapa em função das respostas do ouvido (altura e
intensidade) a este tipo de estímulo.
4. A partir de variações desses estímulos é feito um estudo dos graus de sensibilidade do
ouvido, em freqüência e nível.
5. Em relação ao fator tempo, pode-se pôr em evidência as gradações temporais: duração de
reconhecimento das alturas ou dos timbres permanentes, ou o limite abaixo do qual o ouvido já não
distingue dois sons sucessivos.
6. Assim, teremos seccionado a 'zona de audibilidade'.
7. Será estudada a percepção dos sons simultâneos, os 'efeitos de máscara', no qual a
percepção de um som é modificado pela presença de outro, os efeitos de combinação, no qual dois
sons dão origem à percepção de sons adicionais.
Porém, apesar de considerar os estudos de acústica e psicoacústica acima descritos, Schaeffer aponta
a necessidade de se considerar as leis no âmbito musical, ou seja, no âmbito das organizações que originem
contextos musicais. Fala da necessidade de prosseguir para o estudo de uma música experimental:
A música experimental, por outro lado, não se interessa pelos estímulos elementares. Ela
parte do fato experimental da existência da música como tipo de comunicação praticada
universalmente, da qual somos obrigados a aceitar as estruturas e os objetos próprios, tais
quais são efetivamente postos em prática. (Schaeffer, 1993, p. 146)
Parte então, a partir desse panorama, para uma revisão das leis acústicas e psicoacústica de forma
que corroborem para suas investigações para a criação de uma música experimental.
A partir dessa revisão, sempre pensando em critérios psicoacústicos que possam dar suporte à uma
organização de sons Schaeffer passa a discutir a fenomenologia husserliana por meio do conceito de escuta
reduzida, que por sua vez dará suporte para o conceito de objeto Sonoro.
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2.2 Escuta Reduzida e Objeto Sonoro
Para conceitualizar o objeto sonoro, Schaeffer cria, a partir da fenomenologia husserliana, a noção
de escuta reduzida. A escuta reduzida seria um esforço anti-natural de eliminar da escuta suas referencias à
fonte produtora do som. O que interessa são as caracteristícas espectrais do som, e não as inferências ou
indícios relacionados à aspectos que não os do próprio som. Ou seja, ao escutar, por exemplo, o som de um
avião, não interessa saber qual sua fonte, mas sim direcionar a escuta às propridades sonoras. A partir da
redução da escuta, forma-se a noção de objeto sonoro, entendido como qualquer fenomêno sonoro percebido
independentemente de sua fonte sonora ou significação.
Schaeffer classifica, então, os objetos sonoros em sua tipologia (espectro do som) e morfologia
(modo como o espectro varia no tempo).
2.3 Tipologia dos Objetos Sonoros
A classificação tipológica foi realizada tendo como critério a duração, variação e originalidade. Em
relação às durações, Schaeffer divide as tipologias em três grupos. O primeiro são os objetos sonoros de
duração nula, que não podem ser divididos em partes de menor duração. O segundo e terceiro grupo são
opostos entre si, de um lado se dirige a um objeto formado por manutenção contínua, formado por iteração
(repetição das percussões), de outro se dirige a objetos de manutenção descontínua.
O segundo critério é classificado de acordo com o campo das alturas. Os objetos vão de sons com
altura definida às massa variáveis, passando por sons de altura indefinida.
O terceiro critério se refere às noções de equilíbrio e originalidade. Sons equilibrados, segundo
Schaeffer, são aqueles que “guardam em comum a apresentação de uma boa forma, isto é, de serem bem
soldados, por uma inegável unidade de fatura, correspondendo a um tempo ótimo de memorização do
ouvido” (Schaeffer, 1993, p. 351). A originalidade se relaciona com o grau de complexidade de um objeto
sonoro. Quanto mais variável for sua massa, maior será sua originalidade.
No centro do quadro estão os objetos do tipo 'impulsão', correspondente às durações nulas,
geralmente são objetos percebidos de uma só vez. À direita e à esquerda se tornam temporalmente
mais extensos. À esquerda se encontram os objetos de manutenção contínua, e à direita de
manutenção descontínua.
No eixo vertical orientam-se os objetos de massa fixa e variável. Um ponto médio marca os objetos
que estão a meia distância dos sons de altura definida (situados acima desse ponto) e os de massa variável
(situados abaixo desse ponto).
No eixo horizontal assinala-se os objetos de mais ou menos originalidade, quanto mais se
aproximam das alturas definidas, menos originais, quanto mais se aproximam da massa variável, mais
originais, sendo que no centro estão os objetos equilibrados. (originalidade e equilíbrio).
Schaeffer ainda especifica cada um dos critérios abordados no seu quadro acima. Segundo o
critério de massa, a massa sonora pode ser ouvida como uma nota de altura definida, designada de N, ou
como som complexo, designado de X. Para os sons que variam ao longo do tempo, Schaeffer chama de Y.
Para o critério de fatura, Schaeffer classifica de acordo com os parâmetros temporais, criando uma
gradação que vai do ataque seco não reverberante (º) à nota sustentada (-), passando por sons de ataque curto
('). As notas iteradas (repetição contínua de um mesmo objeto) são marcadas pelo símbolo (“). Obtem-se
assim, os seguintes objetos:
(º)” - Trinado formado
(')” - Staccato formado
__
(.)” - Trinado prolongado
__
(')” - Staccato prolongado
Unindo os critérios de massa e fatura, temos o seguinte quadro:
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Duração
simples
Ataque curto
Iteração
Nota comum
N
N'
N”
Nota complexa
X
X'
X”
Nota variada
Y
Y'
Y”
Além desses critérios, Schaeffer coloca nos extremos da coluna os objetos de fatura nula,
equivalentes aos contínuos e iterações formados por proporções temporais longas, e os objetos de fatura
imprevisivel, equivalentes também aos objetos de proporções temporais longas, porém com comportamento
de massa imprevisível.
Schaeffer também cria uma classificação para os objetos sonoros homogêneos. Para os sons
formados por iteração dos sons tipo N ou X, classifica como Zn e Zx, e para os sons contínuos formados pelo
estiramento tempo, classifica como Hn e Hx. Para os objetos de massa variável, denominados de Y,
Schaeffer classifica de Zy as iteraçoes formadas por sons que variam sua tessitura no tempo. No mesmo
grupo, estão os sons contínuos que variam sua tessitura no tempo formados por fusões de sons do tipo N ou
X, classificados de Tx ou Tn.
Para o critério relativo às variações de massa, temos o objeto do tipo ф, que corresponde ao
fragmento sonoro produzido por um corte de fita magnética. A iteração de sons do tipo ф, gera sons do tipo
K. Em oposição, o contínuo formado pelo som ф, obtem-se o objeto W.
Os objetos formados por iteração dos pacotes de sons tipo N, X ou Y, recebem a classificação de P.
Em oposição, temos o os objetos do tipo T, formado por sons contínuos de pacotes de sons do tipo N, X ou Y,
que variam no tempo de forma não previsível.
No extremo da classificação tipológica, temos as amostras (E) e acumulações (A). A acumulação é
formada por sons iterados, mas que apresentam uma unidade causal. Conforme seu comportamento no
campo das tessituras, pode ser do tipo An, Ax ou Ay, ou apenas A se o comportamento interno for
imprevisível. As amostras são os sons que apresentam incoerência de comportamento interno, mas também
apresentam a mesma unidade causal. De acordo com seu com suas características no campo das alturas, é
classificado de En, Ex ou Ey, ou apenas E se for um som com comportamento de massa imprevisível.
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Duração não mensurada
sem unidade tempora
Fatura imprevisível
Fatura nula
Altura definida
Amostras
Hn
Massa fixa
(En)
Altura complexa
(Ex)
Duração mensurada
unidade temporal Fatura Fatura nula imprevisível
Contínu Impulsão Iteração o formada
formad
o
N
N'
N”
Hx
X
X'
X”
Y
Y'
Y”
W
ф
K
Massa pouco variável
Amostras (Ey)
Tn
Tx
tramas
particulare
s
Variação de massa imprevisível
Unidade
E
Causal
T
caso geral caso geral Duração não mensurada (macro­
objetos)
sem unidade temporal Zn
Acumulações
(An)
(Ax)
Zx
Zy
Acumulações
pedais (Ay)
particul
ares
P
caso geral A
caso geral 3 A fenomenologia pontyana e as escutas de Schaeffer
A delimitação schaefferiana das quatre écoutes apresenta algumas inconsistências
decorrentes de redundâncias conceituas que se revelam quando partimos para uma abordagem
fenomenológica de cunho pontyano. Na definição de escutar, que descreve uma escuta “mais ativa”
que a presente na definição de ouvir, não fica claro quão mais ativo deve ser o comportamento para
ser caracterizado como escutar. Schaeffer considera que tal atividade de um suposto sujeito, própria
do escutar, centra-se na busca da fonte sonora (referencialidade), o que não ocorre no ouvir. O
problema aqui apontado está na tentativa de separar as funções que ocorrem no escutar e no ouvir.
Para Schaeffer o ouvir seria a atividade realizada por um ouvido que recebe estímulos de um mundo
dado e que não realiza nenhum tipo ação sobre eles. Aqui podemos apontar ao menos três
problemas para a descrição da percepção, a saber: a) um ouvir que é incessante; b) um mundo dado
antes da experiência do mundo; c) um sujeito suposto antes da experiência.
a) para o autor (Schaeffer 1966, p. 104) o sujeito jamais cessa de ouvir e encontra-se em um mundo
que jamais cessa de estar ai. Em uma experiência de dia-a-dia estamos constantemente realizando escolhas
de hábitos de audição que resultam em um cessar de ouvir algo para ouvir outro algo. A psicologia ecológica
de Gibson e Baeteson, a fenomenologia pontyana e a ciência cognitiva atuacionista de Maturana e Varela,
mesmo com suas diferenças de abordagens, oferecem uma explicação mais adequada para tal conduta. De
acordo com tais áreas de estudos, é necessário a substituição de uma abordagem da percepção como um
receptor de sensações, que conduz os estímulos ao processamento interno, para as abordagens: ecológica,
fenomenológica e autopoiética, que apresentam a noção de sistemas perceptivos, que se fazem no seu viver,
isto é, na sua história de acoplamentos estruturais com o meio. Tais sistemas caracterizam-se por uma ação
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no meio em busca de um acoplamento adequado com a situação vivida. No conhecido exemplo do coktailparty phenomenon (Gibson 1966, p. 84), o indivíduo orienta sua atenção e passa a ouvir especificamente
aquilo que quer. O sistema auditivo se auto-ajusta através do tensionamento do músculo estapédico que
regula o padrão de tensão da membrana timpânica de acordo com o controle do sistema nervoso central, para
melhor detectar o padrão sonoro desejado. Se a membrana timpânica está ajustada para ressoar a um tipo de
padrão sonoro, não irá ressoar com outros padrões, resultando numa seleção e, portanto, na interrupção da
audição de tais padrões sonoros, os quais podem estar sendo ouvidos por outras pessoas com outros padrões
de comportamento auditivo.
b) para que a descrição de Schaeffer de um ouvir passivo, que capta o mundo ininterruptamente,
possa equivaler ao real, é necessário conceber um mundo existente independente da experiência de existência
desse mundo. Essa noção de mundo dado é decorrente de um posicionamento dualista cartesiano
sujeito/objeto que tem como correlatos outros dualismos importantes na filosofia: mente/corpo e
natural/cultural. A fenomenologia desde Husserl e inclusive desde Hegel em sua Fenomenologia do Espírito
tem sido marcada por uma orientação para a eliminação de tais dualismos.
c) a crença em um mundo dado, anterior à experiência resulta também em uma crença em um
sujeito hipotético independente da experiência. A circunscrição da noção de sujeito tem sido um dos
problemas centrais na Filosofia da Mente contemporânea. Estão ligados a tal circunscrição conceitos como
consciência, psique, self, mente, espírito, alma, etc. Desde seu nascimento, a filosofia se ocupa com a
descrição de tais conceitos sem chegar a uma resposta conclusiva. Há uma marca cartesiana muito forte na
filosofia moderna que apresenta o sujeito como algo desligado de seu corpo. Na Fenomenologia da
Percepção, M-Ponty supera esse dualismo apresentando uma descrição da mente (psique) e corpo como
entidades não separáveis:
O homem concretamente considerado não é um psiquismo unido a um organismo, mas este
vai-e-vem da existência que ora se deixa ser corporal e ora se dirige aos atos pessoais. Os
motivos psicológicos e as ocasiões temporais podem-se entrelaçar porque não há um só
movimento em um corpo vivo que seja um caso absoluto às intenções psíquicas, nenhum só
ato psíquico que não tenha encontrado seu germe ou seu esboço geral nas disposições
fisiológicas. (M-Ponty, 1994, p. 130).
M-Ponty propõe a noção de um sujeito incorporado e situado. É a mesma noção proposta por
Varela et al., Maturana de um sujeito corpóreo que se faz através de sua ação no mundo. A noção de sujeito
presente no trabalho de Schaeffer é filiada à perspectiva husserliana de sujeito transcendente, que é oposta a
noção de sujeito encarnado e situado no espaço e no tempo. (cf. M- Ponty, 1990, p. 159).
Resta-nos agora abordar os conceitos de entender e compreender. O entender segundo
Schaeffer caracteriza-se por uma ação intencional na escuta. O problema do conceito de entender
centra-se no conceito de intencionalidade. O estudo de tal noção é central na filosofia,
especificamente na Filosofia da Mente. São referenciais nesta área de estudos os trabalhos de Tomás
de Aquino, Brentano, entre outros. Ocorre que Schaeffer encontra-se numa tradição dualista
cartesiana na utilização de tal conceito, incorrendo com isso em noções problemáticas tanto para a
explicação da percepção quanto para a própria demarcação de organismo, mente e sujeito.
Em relação ao compreender, Schaeffer o descreve utilizando noções próprias da tradição do
paradigma do processamento de informação para a explicação da percepção. Para o autor, este estágio
envolve a organização de significações que foram selecionadas intencionalmente no entendre. Como
Schaeffer coloca, o suposto sujeito é autor de deduções, abstrações, comparações e relações de informações
de fontes e naturezas diversas (1966, p. 110). As atividades realizadas no entender e no compreender são
próprias de um sujeito metafísico, cartesiano e independente da experiência incorporada e situada no mundo.
Conforme exposto no início desta seção, apresentaremos uma alternativa explicativa para as
funcionalidades da escuta de Schaeffer, porém para que isso seja possível buscaremos na fenomenologia
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pontyana e no atuacionismo de Varela, fundamentos filosóficos mais adequados para a descrição da
percepção.
4 Um novo paradigma para o estudo da percepção
Os estudos feitos sobre percepção em diferentes áreas como a biologia (fisiologia), ou a psicologia,
ou ainda a filosofia vêm recebendo contribuições ao longo dos últimos 50 anos que apontam o
desenvolvimento de um novo paradigma, distinto daquele denominado por processamento de informação
originário da concepção dualista-cartesiana de mundo. Com intenção de apresentar brevemente alternativas
explicativas para a percepção auditiva a presente seção trata da noção de percepção para dois autores que
podem ser considerados exemplares na busca por alternativas às propostas dualista-cartesianas. São eles
Merleau-Ponty e Francisco Varela.
4.1 A experiência do corpo no mundo
A perspectiva apresentada na Fenomenologia da Percepção permite escapar de encruzilhadas
conceituais dualistas, sobretudo por retomar a experiência como objeto central de seu estudo e colocá-la
como fundamento ontológico de toda e qualquer descrição sobre ela, como afirma o prefácio:
Tudo aquilo que sei do mundo, mesmo por ciência, eu o sei a partir de uma visão minha ou
de uma experiência do mundo sem a qual os símbolos da ciência não poderiam dizer nada.
Todo o universo da ciência é construído sobre o mundo vivido, e se queremos pensar a
própria ciência com rigor, (...), precisamos primeiramente despertar essa experiência do
mundo da qual ela é a expressão segunda. A ciência não tem e não terá jamais o mesmo
sentido de ser que o mundo percebido, pela simples razão de que ela é uma determinação ou
uma explicação dele. (Merleau-Ponty, 1996, p 3)
Ao retomar a experiência como um retorno ao fenômeno, antes da explicação desse fenômeno,
Merleau-Ponty critica Descartes por colocar uma representação do mundo no lugar do próprio mundo vivido,
e apontar para tal representação como fundamento de toda atividade cognitiva e mesmo perceptiva. Para
Merleau-Ponty (1996, p. 7):
A percepção não é uma ciência do mundo, não é nem mesmo um ato, uma tomada de posição
deliberada; ela é o fundo sobre o qual todos os atos se destacam e ela é pressuposta por eles.
O mundo não é um objeto do qual possuo comigo a lei de constituição; ele é o meio natural e
o campo de todos os meus pensamentos e de todas as minhas percepções explícitas.
Tal maneira de entender percepção e mundo é uma grande novidade ainda hoje, tanto para a
tradição filosófica quanto para a ciência cognitiva, ou psicologia e neurociência. As conseqüências dessa
amostra do pensamento de Merleau-Ponty podem ser destrutivas para teorias que propõe seus fundamentos
do conhecer em uma metafísica dualista cartesiana, que tendem a deixar de fora a própria experiência
cotidiana do conhecer e do perceber.
M-Ponty inicia sua Fenomenologia pela descrição do papel do corpo nas atividades perceptivas.
Criticando o dualismo-cartesiano o autor busca alternativas à perspectiva do corpo-objeto da fisiologia e da
psicologia clássica. Inicialmente a noção de corpo fora da perspectiva dualista possibilita M-Ponty dispensar
a noção de representação mental e explicar a percepção como em conjunto com a ação (movimento)
formando um sistema que se modifica como um todo. Continuemos a citação:
Se, por exemplo, percebo que não querem obedecer-me e em conseqüência modifico meu
gesto, não há ali dois atos de consciência distintos, mas vejo a má vontade de meu parceiro e
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meu gesto de impaciência nasce dessa situação, sem nenhum pensamento interposto. (MPonty, 1996, p.160)
Nesse sentido é o corpo no mundo que dá condições de comportamentos considerados inteligentes.
M-Ponty fala especificamente do hábito, mas como não estando nem no pensamento, ou seja, como algum
tipo de representação mental, nem no corpo-objeto, mas no corpo como mediador de um mundo. Através do
exemplo específico de um organista que vai tocar em um órgão que não conhece, o autor explica de forma
não mecanicista o que ocorre. M-Ponty (1996, p. 201) afirma que o tal organista durante o curto ensaio que
precede o concerto, (...) não se comporta como o fazemos quando queremos armar um plano. Mas ao
contrário o organista usa todo tempo que tem para experimentar os pedais, as teclas, utilizar com seu corpo o
instrumento, vesti-se dele. Segundo o próprio autor o organista:
(...) avalia o instrumento com seu corpo, incorpora a si as dimensões e direções, instala-se no
órgão como nós nos instalamos em uma casa. O que ele aprende para cada tecla e para cada
pedal não são posições no espaço objetivo e não é à sua memória que ele os confia. Entre a
essência musical da peça, tal como ela está indicada na partitura, e a música que
efetivamente ressoa em torno do órgão estabelece uma relação tão direta que o corpo do
organista e o instrumento são apenas o lugar de passagem dessa relação. (M-Ponty 1996, p.
200 e 201).
O corpo tem papel fundamental para a explicação fenomenológica da percepção ele é o próprio
espaço expressivo, e é pela experiência do corpo no mundo que eu alcanço o mundo. E na segunda parte da
Fenomenologia M.-Ponty aborda o mundo percebido, não como um mundo objetivo, existente independente
de um percebedor, como foi posto pela tradição dualista. Nem como um mundo construído em mim como
representação de um mundo objetivo fora de mim. Mas como um mundo vivido, experimentado. Segundo o
próprio autor, pela experiência perceptiva me afundo na espessura do mundo. (M.-Ponty, 1996, p. 275.).
Estando então ‘afundado’ no mundo, não necessito copiá-lo dentro de mim. Isso não quer dizer que a
fenomenologia negue a ocorrência de atividade neuronal, por exemplo. O que ocorre é que com a
fenomenologia há uma orientação para que o foco do estudo da percepção esteja na experiência perceptiva, e
não em supostas causas ou conseqüências. Em outras palavras, a orientação dualista direciona o estudo das
atividades perceptivas como se fossem ou conseqüências ou causas das atividades neuronais (que seriam as
próprias representações mentais), e a fenomenologia aponta para a necessidade de se focalizar a experiência
de um corpo em um mundo se a intenção é estudar a percepção.
Com isso M.-Ponty apresenta uma definição de percepção completamente diferente daquela trazida
pelo processamento de informação. Entendendo o mundo, as coisas como correlativos de meu corpo, M.Ponty (1996, p.429) afirma que a coisa nunca pode ser separada de alguém que a perceba, nunca pode ser
efetivamente em si, porque suas articulações são as mesmas de nossa existência. Nesse caminho não faz
sentido a noção de um sujeito que processe as informações recebidas de um mundo dado de antemão. Para a
fenomenologia não há esse mundo dado antes da experiência, ou nas palavras do autor: o que é dado não é
somente a coisa, mas a experiência da coisa (...). (M.-Ponty, 1996, p.436). Também esse sujeito não existe
desligado do mundo, M.-Ponty é muito claro e direto ao afirmar que:
O mundo é inseparável do sujeito, mas de um sujeito que não é senão um projeto do mundo,
e o sujeito é inseparável do mundo, mas de um mundo que ele mesmo projeta. (M-Ponty,
1996, p.576)
Assim, não há como argumentar em favor da percepção e da significação que ocorre na percepção,
como re-elaboração construída por um sujeito que opera interpretando um mundo que lhe é estranho e
externo. Mas, abre-se a perspectiva para entender a percepção como certa maneira de agir no mundo, certa
maneira de ser no mundo. Tal perspectiva será desenvolvida também por outros autores além de M.-Ponty,
como Varela, por exemplo, que no início da década de 90 mostra-se comprometido com uma perspectiva que
valoriza a experiência para a explicação dela mesma. Há diversos outros autores que desenvolvem pesquisas
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acerca de percepção e cognição e que vêm engrossando as fileiras de um paradigma não dualista-cartesiano.
Escolhemos abordar o trabalho de Varela por entender que ele acaba condensando todo um conjunto de
esforços que se desenvolve sob um nome comum de ciência cognitiva e dialoga diretamente com a filosofia
da mente.
4.2 O conhecimento faz o mundo ou o mundo e eu somos feitos na experiência.
Também é à tradição dualista e representacionista cartesiana que se encaminham as críticas de
Varela, Thompson e Rosh (2003, p. 150) quando falam de um tipo de ansiedade cartesiana vivida com as
questões sobre os fundamentos objetivos do mundo ou do sujeito que conhece o mundo: Ao tratar a mente e
o mundo como pólos opostos – o subjetivo e o objetivo –, a ansiedade cartesiana oscila indefinidamente
entre os dois na busca de uma fundação. De acordo com os autores, a postura dualista-cartesiana gera
ansiedade na medida em que tais fundamentos objetivos (independentes da experiência) para o mundo e para
a mente não são alcançados suficientemente. Tal ansiedade é ainda geradora de niilismo conforme afirmam
na seqüência (Varela, Thompson e Rosh, 2003, p. 152): (...) nossa ganância por um alicerce, seja ele interno
ou externo, é a origem profunda de frustração e ansiedade. A concepção de cognição como um tipo de
representação de um mundo dado, construída por uma mente é que temos apontado e criticado naquilo que
chamamos de adesão ao paradigma dualista-cartesiano.
Além da preocupação crítica Varela, Thompson e Rosh se incubem da tarefa de descrever cognição
de uma nova maneira, não dualista e que leve em conta, sobretudo o conhecimento na experiência cotidiana
do viver. Eles descrevem a cognição através da noção de enacção ou atuação, sempre como cognição
corporificada e ação situada. Nesse sentido apontam uma nova maneira de descrever atividades perceptivas,
como a discriminação de cores, por exemplo:
Vimos que as cores não estão “lá fora”, independentes de nossas capacidades perceptivas e
cognitivas. Vimos também que as cores não estão “aqui dentro”, independentes do mundo
biológico e cultural à nossa volta. Contrariamente à visão objetivista, as categorias de cores
são experienciais; contrariamente à visão subjetivista, as categorias de cores pertencem ao
nosso mundo biológico e cultural. (Varela, Thompson e Rosh, 2003, p. 176)
Colocando as coisas dessa maneira, os autores apontam um caminho contrário ao dualismo, e com
isso a possibilidade de evitar as conseqüências problemáticas de tal opção teórica. A abordagem atuacionista
que vem sendo desenvolvida por mais de dez anos no seio da ciência cognitiva e da filosofia da mente tem
demonstrado importantes frutos quando aplicadas por áreas de estudo tão diferentes como as artes, a
lingüística, ou a robótica evolucionária.
Os autores propõem a noção de percepção como ação perceptivamente orientada, e afirmam também
que as estruturas cognitivas emergem dos padrões sensório-motores recorrentes que possibilitam a ação ser
perceptivamente orientada. (Varela, Thompson e Rosh,2003, p. 177). Isso é a própria definição da
abordagem atuacionista para os autores citados. Para essa abordagem do estudo da percepção não é
importante, como no caso do paradigma dualista-cartesiano, determinar como um mundo independente de
um observador pode ser recuperado, mas sim determinar os princípios comuns entre os sistemas sensorial e
motor que explicam como a ação pode ser orientada em um mundo dependente de um observador.
(Varela,Thompson e Rosh, 2003, p. 177). Em trechos subseqüentes os próprios autores reconhecem sua
filiação à tradição fenomenológica de M.-Ponty e trazem claramente sua concepção de percepção não só
como parte (ou embutida) de um mundo, mas como colaboradora com a atuação desse mesmo mundo.
Aí está, de forma resumida, um conjunto de argumentações destacando possibilidades explicativas
da percepção e cognição no contexto da ciência cognitiva e filosofia da mente. Acabamos de apresentar a
abordagem denominada atuacionista de Varela, Thompson e Rosh, que se desenvolve a partir de e
concepções fenomenológicas de M.-Ponty. Tais abordagens para o estudo da percepção (de M.-Ponty e
Varela, entre outros) apontam para uma alternativa no contexto das explicações sobre percepção. Elas não
concebem nem um sujeito absoluto que existe e age separado de um mundo (que por sua vez também existe
e age independente do sujeito), nem um mundo objetivo, com coisas que existem independentes de algum
percebedor que as possa distinguir. Concebem então um percebedor e um mundo que se fazem enquanto
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estão atuando acoplados estruturalmente mantendo sua organização. Nesse sentido foi o título dessa seção
afirmando que o conhecer é atuar, viver, possuir uma história de acoplamento estrutural com o meio. E
perceber é a própria ação no mundo, que nunca existe sem orientação perceptiva, e não com representações
ou orientações para um mundo externo.
Um outro autor bastante importante para a pesquisa sobre cognição e percepção, H. Maturana, que
não será aprofundado no presente texto por uma questão do recorte momentâneo, tem uma citação muito rica
para concluir a presente seção. Com ela Maturana amplia a noção de percepção, saí da perspectiva do percapere (literalmente: obtido por captação) e entende percepção como o nome que um observador atribui a
uma conduta específica, ou um mundo de ações. Nas palavras do autor:
O mundo cognitivo que vivemos, através da percepção, se assemelha a isso: produzimos um
mundo de distinções através de mudanças de estados que experimentamos enquanto
conservamos nosso acoplamento estrutural com os diferentes meios nos quais estamos
imersos ao longo de nossas vidas, e, então, usando nossas mudanças de estado como
distinções recorrentes em um domínio de coordenações de coordenações de condutas
consensuais (linguagem), produzimos um mundo de objetos como coordenações de ações
com as quais descrevemos nossas coordenações de ações. (Maturana, 1997/2001, p. 103).
5 As Quatro Escutas como hábitos de escuta
Conforme citamos acima, apontamos como relevante para nosso estudo a categorização
schaefferiana das funcionalidades da escuta como banalle e praticienne. Tal organização pode ser relacionada
com aquela descrita na teoria da percepção direta de Gibson (1966 e 1979).
Segundo Michaels e Carello (1981), todas as teorias que estudam a percepção partem do pressuposto
de que o comportamento dos animais demonstra o quanto conhecem seu meio-ambiente. Porém, existe uma
diferença em como cada teoria explica esse tipo de conhecimento. Essa diferença, segundo as autoras, divide
os estudos sobre percepção em Teorias da Percepção
Indiretas (uso de representações mentais) e Teoria da Percepção Direta.
Gibson e seus seguidores adotaram uma perspectiva Ecológica ao afirmar que perceber é um
processo que se dá num sistema mutuamente informacional formado por animal e meio ambiente, e não
somente no animal tal como ocorre com a percepção Indireta. Outro ponto crucial que diferencia esses dois
blocos que estudam a percepção é que a Teoria da Percepção Direta não concorda com o uso de memórias e
representações mentais, ou seja, não há mediação na atividade perceptual, por isso ser denominada como
uma teoria da Percepção Direta, ao contrário das teorias da Percepção Indireta que explicam os processos
perceptuais com o uso da mediação.
Para explicar a atividade de acoplamento estrutural entre organismo e meio na experiência sonoromusical, Oliveira & Oliveira 2003 utilizam-se de noções advindas da Teoria da Percepção Direta de Gibson:
The sonic phenomenon is result of a mechanic event generated by the movement of any body
composed with some elastic material, or a simulation of it in a computerized environment.
This event, in all case, is always embedded in a specific situation, with a specific
characteristics deriving of the relation between the perceiver and his environment. (Oliveira
& Oliveira, 2003. p. 1)
A percepção quando descrita como o acoplamento estrutural entre organismo e meio, elimina a
noção de representação da explicação da atividade perceptiva. Essa maneira de abordar a percepção como
um ciclo de percepção-ação é o que Gibson denomina como percepção direta (Gibson, 1979). De acordo
com tal teoria, Gibson categoriza a percepção em dois tipos: primeira e segunda mão. Naquilo que Gibson
denomina por percepção de primeira mão encontra-se um tipo de ação que é caracterizada pela imediatidade.
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O organismo percebe o mundo e age sem que tal ação envolva aquilo que se caracterize por um
planejamento anterior (representação mental). Como exemplo desse tipo de ação, podemos tomar o caso de
alguém que caminha em um terreno acidentado. No seu caminhar ele desvia dos acidentes e procura um
caminho estável para que seu andar possa ocorrer. No entanto ao visualizar um buraco, por exemplo, nosso
caminhante não tem tempo de planejar que tipo de posição de perna, de pé, enfim, ou de corpo inteiro, ele irá
tomar. Seu corpo se coloca, imediatamente, em condições de superar o obstáculo. Não há como observar aí
um plano prévio, por mais rápido que pudesse ocorrer. O corpo se molda à situação, age sem intermediários,
age orientado diretamente pela percepção.
Em se tratando de música, os exemplos de percepção de primeira mão são também esclarecedores.
Tomemos o caso de um regente à frente de uma orquestra. Por mais que o regente tenha preparado
previamente seu conjunto de movimentos, fundamentado no estudo da partitura, o momento da execução
exige um tipo de ação imediata do regente, para adequar a sonoridade resultante da performance, a cada
momento. Variações em diferentes aspectos musicais (dinâmica, agógica, articulação...) ocorrerão e cabe ao
regente adequá-las para conseguir a sonoridade esperada. A realização de seus padrões gestuais é sempre
orientada, no momento da execução, pela percepção daquilo que está sendo gerado na performance da
orquestra. Forma-se assim o ciclo percepção-ação. Em contra-partida, o planejamento do gestual para a
performance e todo o conjunto de conceitos teóricos musicais utilizados para a construção de tal
planejamento caracterizam-se pelo que Gibson, Maturana, M-Ponty e Varela entendem como percepção de
segunda mão. Essa percepção caracteriza-se por um nível superior de recorrência do acoplamento estrutural,
por isso ser um segundo, que é sempre orientada e orienta a primeira mão. Com isso podemos observar a
ação de um corpo (encarnado) em uma situação específica (situado) num ciclo de percepção-ação que ocorre
com diferentes níveis de recorrência. Se optarmos pela descrição de cognição de Varela et al (1991) e
Maturana (1995), podemos entender que aquilo que denominamos por percepção e por conhecimento são
descrições condutuais consensuais mais ou menos recorrentes observadas nos diferentes níveis de sub-redes
sensório-motoras em seu operar no meio, guardando sua identidade e mantendo seu acoplamento estrutural.
Tal nível maior ou menor de recorrência está diretamente relacionado com aquilo que entendemos por
percepção de primeira mão (baixa recorrência) e percepção de segunda mão (alta recorrência).
Como já afirmamos, Schaeffer se aproxima muito dessa categorização ao agrupar as funcionalidades
da escuta na dupla banale e praticienne. O agrupamento do escutar e do ouvir em uma escuta banale, de diaa-dia segundo Windsor (1995), corresponderia à primeira mão tal qual descrevemos acima e a dupla
entender/compreender agrupada em uma escuta praticienne corresponderia à segunda mão. Temos, assim,
uma substituição possível às funcionalidades schaefferianas da escuta que resolveria os problemas de
conceituação e de explicação da percepção apoiadas em uma abordagem dualista-cartesiana, que era
exatamente o que Husserl e a tradição fenomenológica pretendia expurgar.
Devemos ressaltar que nossa reformulação não apresentará prejuízos para o retorno que Schaeffer
realiza ao quadro das funcionalidades no intuito de realizar a passagem da música tradicional para a música
experimental. Para isso Schaeffer propõe a inversão no direcionamento das atitudes perante o fenômeno
sonoro. Na música tradicional esse direcionamento ocorre de uma etapa de identificação dos valores
musicais, que englobam o compreender e o escutar como domínio da musicalidade, para uma qualificação,
que engloba o ouvir e o entender em um domínio da sonoridade. Temos, assim, o domínio da musicalidade
que representa as identificações abstratas e conceituais sendo posteriormente efetivadas no mundo no
domínio da sonoridade. A inversão se dá a partir de uma qualificação realizada no domínio da sonoridade,
através da escuta reduzida e sua decorrência no objeto sonoro, para posteriores identificações e organizações
de coleções de significações no domínio da musicalidade. Ao reorganizarmos o quadro das funcionalidades
da escuta, teremos a escuta como um todo, que num nível de recorrência inferior é caracterizado pela
percepção de primeira-mão e num nível de recorrência superior pela percepção de segunda-mão.
A inversão da atividade composicional, do fazer-ouvir para um ouvir-fazer, pode ser melhor descrita,
nos termos das teorias abordadas aqui, como um caminho de valorização da percepção de primeira mão. Da
maneira que Schaeffer apresenta sua inversão, não é possível, ou melhor, não é objetivo da escuta reduzida a
ocorrência de significação na percepção de primeira mão, mas ela própria é a proposição de um segundo
nível de recorrência (segunda mão) sobre a percepção imediata. Nesse sentido o autor nem considera a
possibilidade da emergência de significação na percepção de primeira mão. O que consideramos central para
a crítica e proposições realizadas no presente estudo é apontar que diversos autores indicam um tipo de
significação perceptiva, próprio da ocorrência do ciclo percepção-ação de um corpo em um meio específico.
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O caminho que os referidos autores propõem é um tipo de descrição para as significações específicas de cada
uma das duas categorias de percepção. É relevante observar que Gibson, ao argumentar em favor de uma
significação própria da percepção de primeira mão, não rejeita a possibilidade de um tipo de significação que
ocorra utilizando mediações. Ao contrário, tal autor afirma que o caso de um tipo de significação indireta,
mediada por representações, pode ser descrito adequadamente como de segunda-mão, ou seja, com um nível
maior de recorrência da coordenação condutual consensual no operar do organismo em seu meio.
Essa reformulação do quadro de escutas nos direciona para uma reformulação do próprio conceito de
objeto sonoro. Como afirmamos, o objeto sonoro de Schaeffer é obtido pela redução fenomenológica. Tal
redução visa a eliminação dos condicionamentos culturais (hábitos) da escuta, para que seja desvelado o
objeto sonoro. Tal objeto está relacionado à noção de essência, o que coloca a experiência apenas como um
aspecto passageiro e menos importante na percepção. Nesse sentido a experiência é uma das etapas na
construção das significações possíveis para o objeto sonoro. Com tal posição Schaeffer incorre ao mesmo
erro cartesiano criticado por M-Ponty, de substituir o mundo por uma representação do mundo ou mais
especificamente no caso husserliano, substituir a experiência do mundo por suas essências. Tais essências se
configuram em um conjunto de características universais dos múltiplos objetos possíveis à escuta. Com isso
Schaeffer espera criar um sistema de categorização que seja independente de qualquer situação de escuta. Ao
comparar as escutas do músico, do engenheiro e do ouvinte comum, Schaeffer encontra diferenças de
significação decorrentes da escuta especializada de cada um deles e atribui à escuta reduzida a função de
revelar o objeto sonoro, enquanto essência, e a função de possibilitar uma classificação que será comum a
todas as pessoas em todas as situações de escuta. No entanto, ao propor um tipo de escuta próprio para
acessar a essência da experiência sonora, seu objeto sonoro, o autor acaba por substituir um grupo de hábitos
de escuta, por um outro hábito, denominado por ele mesmo como antinatural, como podemos ler:
Como posso descrever no plano puramente sonoro um galope? (...) Necessito volver à
experiência auditiva, recapitular minhas impressões, para reencontrar, através das mesmas,
informações sobre o objeto sonoro, e não mais sobre o cavalo. (...) Na verdade se trata de um
retorno às fontes, à ‘experiência originária’, como diria Husserl – que se tornou necessária
por uma ‘mudança do objeto’. Antes que um novo treinamento me seja possível e que possa
ser elaborado um outro sistema de referências, desta vez apropriado ao objeto sonoro, eu
deveria libertar-me do condicionamento criado por meus hábitos anteriores, passar pela
prova da époché. Não se trata de forma alguma de um retorno à natureza. Nada nos é mais
natural do que obedecer à um condicionamento. Trata-se de um esforço ‘antinatural’ para
perceber aquilo que antes determinava a consciência inadvertidamente. (Schaeffer, 1966,
p.270)
É especificamente quando qualifica a experiência à qual se deve recorrer (experiência originária)
para descrever adequadamente um evento sonoro, que Schaeffer tira a experiência do evento sonoroacontecendo do centro da descrição dele próprio e coloca em seu lugar um tipo de representação mental
anteriormente elaborada e armazenada na memória. Tal representação seria uma espécie de essência do
evento percebido, ou seja, o objeto sonoro encontrado a partir da escuta reduzida.
A partir dessas observações sobre essa importante citação, confirma-se que a noção de objeto sonoro,
que Schaeffer desenvolve no Traité, está relacionada diretamente à própria noção de representação mental
adequadamente elaborada. A experiência de estar ouvindo um evento sonoro em uma situação específica é
apenas o início do processo de desvelamento do objeto essencial, a ser alcançado por um hábito específico
(escuta reduzida). A experiência de ouvir o evento sonoro em um meio específico não é suficiente para
caracterizar o objeto sonoro schaefferiano, é antes, apenas o início do processo de desvelamento desse
objeto, que será completado por outras etapas realizadas na mente do ouvinte. Dessa forma, Schaeffer
incorre no erro de acreditar que buscava uma descrição para a percepção de todo o possível acústico em
meios fenomenológicos, que pudesse ser estendido a qualquer indivíduo. A busca da essência da escuta, que
eliminaria qualquer referência a condicionamentos pessoais, através da escuta reduzida, garantiria tal
universalidade. Porém, o que temos é que Schaeffer cria mais uma forma especializada de escutar o mundo
em que a tipo-morfologia, base fundamental para o seu solfejo dos objetos, acaba por ser um a priori que
guiará toda a escuta do mundo. Poderíamos dizer que o solfejo dos objetos é a escuta praticienne do
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compositor acusmático que deve ser apreendida e condicionada para que funcione de acordo com o esperado
por Schaeffer, portanto não pode configurar-se como uma explicação dos fundamentos da percepção, já que
ela encontrar-se-ia na segunda-mão, sendo uma elaboração sobre a percepção de primeira-mão e não seu
fundamento.
A partir de tal citação podemos descrever adequadamente o que propomos como audição
corporificada e situada. De acordo com Gibson (1966) o estudo da percepção não deve ser concebido apenas
a partir da noção de órgão do sentido, aliás ele troca “órgão do sentido” por “sistema perceptivo”. O autor
ressalta que os ouvidos estão na cabeça sobre o pescoço, sobre os ombros e sobre o resto do corpo. Tal corpo
se movimenta no meio em busca de operar em congruência com o ambiente para adequar o acoplamento
estrutural no sentido de manter sua identidade.
Após toda exposição acima podemos apresentar uma alternativa à noção do objeto sonoro
schaefferiano. Tal noção encontra-se, como vimos, enraizada na metafísica dualista-cartesiana, e como tal,
carece de estrutura argumentativa tanto epistemológica quanto ontológica. O que propomos como alternativa
é o conceito de objeto sonoro como distinções realizadas por um organismo em sua história de condutas
operacionais no sentido de manter sua identidade, mantendo seu acoplamento estrutural. Aqui fica claro que
nos apoiamos em uma epistemologia própria especificamente de autores como M-Ponty e Maturana, como já
nos referimos anteriomente.
Assim, esperamos também propor uma alternativa de fundamentação filosófica para a metodologia
schaefferiana de circunscrever o objeto sonoro através da redução husseerliana. Acreditamos que a
fenomenologia pontyana pode ser muito mais interessante para a composição musical contemporânea, uma
vez que fundamenta a explicação sobre a percepção em bases alternativas ao dualismo cartesiano.
Dessa forma, ao abordar a tipo-morfologia de Schaeffer e sua estruturação final no quadro de solfejo
dos objetos musicais, podemos pensar que todo o seu conjunto de categorizações pode ser entendido como
uma possibilidade de escuta entre muitas possíveis.
Como afirmamos, tais categorizações podem ser a descrição das distinções que afirmamos acima,
porém em uma história de acoplamentos estruturais típicas de um compositor acusmático que passou pelo
treinamento (aquisição de hábitos) de perceber segundo os critérios tipo-morfológicos de Schaeffer. O mais
importante dessa abordagem é que a tipo-morfologia passa a ser não um fundamento essencial da percepção,
mas sim uma possível descrição de um tipo de escuta de um indivíduo que possui essa história de
acoplamentos com o meio.
6 Considerações Finais
Acreditamos que com essa incursão na obra teórica de Pierre Schaeffer, revisitada pela
fenomenologia pontyana e com inclusões de referenciais de autores como Gibson, Maturana, Varela, entre
outros, pudemos trazer à luz da discussão uma possível atualização da obra de Schaeffer.
Sua obra teórica figura até hoje como uma das mais importantes no cenário da música e como um
dos principais inauguradores da discussão sobre percepção musical, e um dos primeiros a discutir
referenciais fenomenológicos no campo da música. Sendo assim, é um autor que sempre suscita discussões
interessantíssimas a cada vez que retornamos à sua obra.
Referências Bibliográficas
Gibson, J. J. 1966. The Senses Considered as Perceptual Systems. Boston: Houghton Mifflin Company
Gibson, J. J. 1979/1986. Ecological Approach to Visual Perception.: Hillsdate: Lawrence Erlbaum
Associates Publishers, Hillsdate
Maturana, H. R. 1995. Da Biologia à Psicologia. Porto Alegre: Artmed
MerleauPonty, M. 1996. Fenomenologia da Percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1996
Michaels, C. F, e Carello, C. 1981. Direct Perception. Prentice-Hall. Inc., Englewood Cliffs
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Oliveira, A. L. G. & Oliveira, L. F. 2003. Toward an ecological aesthetics: music as emergence.
cogprints.org/2996/01/Towardanecoaesthetics.pdf
Schaeffer, P. 1966. Traité des objets musicaux. Paris: Éditions du Seuil
Schaeffer, P. 1993. Tratado dos objetos musicais. Brasília: Editora Universidade de Brasília
Toffolo, R. B. G. 2004. Quando a paisagem se torna obra: uma abordagem ecológica das composições do
tipo Paisagem Sonora. Dissertação de Mestrado: Unesp
Toffolo, R. B. G. & Oliveira, A. L. G. 2005. Uma abordagem atuacionista da tipomorfologia de Pierre
Schaeffer. Anais do Simpósio de Pesquisa em Música, UFPR,131145
Varela, F. J., e Thompson, E. & Rosch, E. Mente Incorporada: ciência cognitiva e experiência
humana. 2003. Porto Alegre: Artmed
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