o deserto de ferrugem

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o deserto de ferrugem
D. PEREIRA
O DESERTO DE FERRUGEM
1ª edição
Maringá
2013
Copyright © 2013 D. Pereira
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser
reproduzida sob quaisquer meios existentes sem a devida
autorização por escrito do Editor.
Ilustração da Capa
“Rodes Sotiris”, por Diogo Al-chueyr Martins Pereira
ISBN: 978-85-913056-3-6
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O Deserto de Ferrugem
O dia de trabalho mal havia começado quando o
comunicador do engenheiro de minas Rodes Sotiris soou. A voz da
Governadora Ayla, distorcida pela interferência, requisitava a
presença de Rodes em seu escritório o quanto antes. Resignado, o
engenheiro avisou o segundo em comando sobre a sua saída e
começou a caminhada pelo longo túnel de paredes de resina de
coloração ocre. Duas linhas de lâmpadas azuladas se estendiam
pelo teto até aonde a vista alcançava.
As instalações da mina de extração de cobalto haviam
melhorado muito nos cinco anos desde à chegada de Rodes a
Estação Urano. No início os acidentes eram comuns, dada a
precariedade dos equipamentos disponíveis. Ele mesmo quase
havia perdido a vida numa explosão ocorrida quando um bolsão
de gás foi atingido durante a abertura de um dos novos túneis.
Após alguns minutos de caminhada, Rodes chegou ao
elevador do duto principal que levava aos níveis superiores da
Estação. À medida que o elevador subia, o ar se tornava mais
respirável, e ele pôde desligar o filtro em seu capacete. Mais
alguns andares e os sensores do seu traje de sobrevivência
indicaram que o capacete poderia ser removido. Mesmo sentindo
um odor pesado de ferrugem, era bom respirar sem ajuda de
aparelhos. Os trajes de sobrevivência eram uma necessidade, um
item indispensável à continuidade do ser humano no planeta. Os
trajes controlavam a temperatura, filtravam o ar, aumentavam a
força de seu usuário em até duas vezes e possuíam uma dezena de
sensores e outras funções secundárias, mas não menos essenciais.
Eles consistiam de um macacão grosso, justo e com placas de
captação de energia solar nos ombros, tórax, mãos e pernas. As
placas eram responsáveis por gerar toda a energia necessária ao
funcionamento dos trajes. Elas eram feitas de material vítreo negro
e muito resistente. Cada placa era segmentada em diversas partes
menores, entrecortadas por fios de transmissão que brilhavam com
luz amarela de alta intensidade. Os fios percorriam as placas em
intrincados padrões geométricos que, diziam os cientistas,
seguiam alguma lógica, mas para Rodes apenas uma mente insana
poderia encontrar lógica naqueles desenhos. Observados no
escuro, sem a utilização de lanternas, só podiam ser vistos nos
trajes esses finos fios de transmissão. Dependendo da função do
indivíduo, os trajes vinham em diferentes cores; vermelhos para o
pessoal do Governo, negros para Agentes de Segurança, azuis para
operários das minas e mais uma série de outras ramificações.
A Estação Urano era um dos nove redutos habitáveis no
Deserto de Ferrugem. A principal e maior Estação era a Sol, capital
do Governo Solar (ou Central), lar de aproximadamente duzentas
mil pessoas e centro industrial do planeta. A partir da Estação Sol,
espalhavam-se na direção sul as outras oito estações principais,
nomeadas a partir dos planetas componentes do Sistema Solar.
Entre as Estações principais existiam algumas dezenas de
subestações, pequenos povoados que serviam de apoio aos
maiores, mas que nem sempre conseguiam se sustentar e
acabavam sendo abandonados; suas instalações servindo como um
lembrete àqueles que por ventura topassem com elas de que
algum dia, naquele lugar, a humanidade havia tentado prosperar.
Mil pessoas podiam chamar a Estação Urano de lar.
Dessas, oitocentas estavam envolvidas diretamente com a
mineração, sendo o restante encarregado das atividades
administrativas, de segurança e manutenção. Como todas as
outras cidades do planeta, boa parte das instalações estava
localizada nos subterrâneos, sendo que apenas uma “Cúpula”,
formada por painéis de captação de energia solar de alta
capacidade, se projetava cem metros acima da superfície do
deserto. Essa era a única fonte de energia abundante e, na verdade,
possível, no Deserto de Ferrugem. A energia captada pelo Sol era
lançada nas profundezas das Estações através de torres de
transmissão, e proporcionava aquecimento, movimentava as
máquinas e veículos, além de manter os trajes de sobrevivência em
funcionamento. Sem ela, o ser humano jamais poderia sobreviver
em um local tão agressivo.
O elevador chegou ao topo da “Cúpula”. Rodes parou no
corredor e contemplou o deserto através de uma janela
panorâmica completamente vedada. Urano se encontrava aos pés
de uma colossal montanha, cujos picos monolíticos de calcário
cinza claro despontavam como presas brotando de uma gengiva
avermelhada e sumiam nas alturas. Os vales e ravinas aos pés da
montanha eram cobertos por dunas de areia escarlate; a mesma
areia que pairava constantemente em suspensão no ar, bloqueando
a visão do céu, mesmo quando não havia ventos. O Sol podia ser
visto como uma grande bola de fogo através da cortina de areia
durante boa parte do dia de dezenove horas. Na verdade, areia
não era exatamente o termo correto a se utilizar, neste caso. Todas
as noites, ventos cósmicos carregados de radiação varriam o
planeta, destruindo todo o material metálico com que entrassem
em contato. Até mesmo o ferro encontrado no sangue do ser
humano era destruído e carregado. Ao longo das últimas três
décadas, esse material havia sido depositado no que hoje é o
Deserto de Ferrugem. Os cientistas estimam que o deserto atingiu
a área de treze milhões de quilômetros quadrados nesses últimos
trinta anos e, se houvesse metal suficiente no planeta, ele decerto
tomaria a sua superfície. A agressividade dos ventos corrosivos
era tamanha que obrigou os seres humanos a praticamente abolir
componentes metálicos do seu dia-a-dia, ou então a protegê-los da
ação dos ventos nos subterrâneos. As resinas plásticas dos mais
variados tipos e resistências formavam a base de todo aparato
utilizado, sendo as três mais comuns chamadas de plastômero,
elastímero e plastmest.
Rodes apertou o botão no painel ao lado da porta e esta se
abriu, expelindo vapor das emendas. A luz entrava filtrada através
de duas grandes janelas com persianas negras. Ayla, uma mulher
pálida, magra e de cabelos e olhos escuros, contemplava em pé e
com os braços cruzados atrás de si uma grande imagem de satélite
projetada contra uma das paredes da sala. Ela sinalizou com a
cabeça uma das cadeiras, e Rodes sentou-se.
“Pois não, Governadora.”, iniciou Rodes.
“Perdemos contato com uma das nossas equipes de
campo.”, ela respondeu secamente, acrescentando: “Bashira está
entre os desaparecidos.”
Bashira Nesrin. O nome trazia a Rodes um misto de
emoções. A maioria delas, boas. Eles haviam se conhecido sete
anos antes, e foi por causa dela que Rodes decidiu abandonar a
sua vida razoavelmente estabilizada na Estação Sol para se
aventurar nas Estações mais distantes. O primeiro encontro
ocorreu durante o treinamento na Agência de Segurança, onde
ambos passaram com méritos pelas provas às quais todo cidadão
tinha que se submeter. Ao término do treinamento, os que se
destacavam eram convidados a ingressar na Agência, que tinha a
função de polícia, ou então se tornavam reservistas e seguiam a
vida civil.
Na época, ambos optaram pelo caminho da Agência, o que
parecia lógico para jovens que mal haviam chegado aos trinta
anos, estavam no auge da forma física e tinham uma necessidade
de descobrir um novo mundo, cheio de mistérios a serem
desvendados. O fato é que, após dois anos na Estação Netuno, a
mais erma das povoações humanas, Rodes cansou-se da tensão e
violência associadas à sua função e decidiu retomar a sua
formação original em engenharia de minas. O fato do
relacionamento amoroso dos dois ter chegado ao fim certamente
influenciou muito nesta decisão.
Eles só vieram a se reencontrar quatro anos depois, quando
Bashira foi designada como chefe da polícia na Estação Urano,
onde Rodes havia construído rapidamente uma carreira na mina
de cobalto. Ele se lembrava do reencontro como se fosse ontem.
Um grupo de trabalhadores estava insatisfeito com a distribuição
das cotas dos resultados, e promoveu uma revolta nas instalações
inferiores da mina. Duas pessoas foram aprisionadas e mantidas
como reféns por outros vinte trabalhadores. Rodes tentava
negociar a libertação dos prisioneiros quando um alvoroço pôde
ser ouvido nas salas onde os revoltosos haviam se trancado. Em
questão de minutos, um grupo de ataque liderado por Bashira
havia invadido sorrateiramente o local e libertado os reféns. O
resultado para os trabalhadores insatisfeitos foi uma série de
hematomas, contusões, ossos quebrados e alguns dias de prisão.
A imagem do momento em que conseguiu adentrar o
cativeiro não saía da cabeça de Rodes. Em meio à fumaça, gritos e
pessoas atracadas em combate corporal, ele topou com Bashira e,
se algo havia mudado nela, é que estava ainda mais atraente. Ela
era alta e tinha pernas longas e com músculos bem definidos. A
pele morena, os grandes olhos castanhos e os cabelos negros
compridos e cortados numa franja reta continuavam os mesmos,
assim como o piercing dourado espetado no nariz. Como era de se
esperar, ela vestia um temível traje de sobrevivência negro. Os
dois cumprimentaram-se com um aceno de cabeça e um
resmungo, e Rodes sentiu certo embaraço ao ser avaliado por ela.
Enquanto ela se manteve no auge da forma física, a sua mudança
de atividade e hábitos havia se refletido em seu corpo ao longo do
curto período em que eles ficaram sem se ver. A barriga já
mostrava certa proeminência e, apesar de continuar com o corpo
forte, resultado de uma rotina relaxada de exercícios, ele podia ser
considerado um ex-atleta. A vida no subterrâneo havia deixado a
sua pele e cabelos pálidos. Pelo menos os olhos pequenos e
cinzentos, e o rosto de traços angulares, nariz aquilino e barba por
fazer continuavam os mesmos, apesar de algumas rugas a mais.
“Seu cabelo está mais curto.”, Bashira disse. Ela cutucou a
barriga de Rodes com o cassetete de plastômero manchado com
algumas gotas de sangue.
“Não é muito saudável manter cabelos compridos aqui
embaixo. Temos problemas com piolhos.”, ele respondeu.
“Sei.”, ela disse secamente.
Silêncio.
“Enfim, tenho um trabalho a terminar. Até mais.”, ela
acrescentou, virando as costas e encerrando a conversa, deixandoo com a boca semiaberta, com algo a ser dito enquanto ela se
afastava.
***
Rodes despertou dos seus devaneios ao sentir uma quase
imperceptível espetada na perna. Era a “hora do almoço”. A base
da alimentação das pessoas que habitavam o Deserto de Ferrugem
era um composto injetável que fornecia todos os nutrientes e
hidratação necessários. Como a comida e a água eram artigos
praticamente inexistentes, o composto era a única maneira de
sobreviver. Através de um engenhoso processo, cuja indústria
principal situava-se na Estação Sol, extraía-se de qualquer
formação mineral todos os componentes necessários para manter a
máquina humana em perfeito funcionamento. Era como “tirar leite
de pedra”, literalmente.
Todos vestiam, diariamente, cintos carregados com
seringas de agulhas minúsculas, que com um simples aperto de
botão injetavam o composto alimentar no corpo do usuário. Os
trajes de sobrevivência, inclusive, podiam ser programados para
disparar as seringas a intervalos pré-determinados, mesmo que o
indivíduo estivesse dormindo. A implementação desse sistema
podia ser considerada recente, tendo pouco mais de uma década
desde os primeiros experimentos, e no início muitos morreram por
não se adaptar à mudança biológica tão drástica. Os mais
brilhantes cientistas continuavam trabalhando incansavelmente
para aprimorar a técnica, de modo a amenizar alguns efeitos
colaterais que persistiam, principalmente o desenvolvimento de
doenças mentais e a queda de fertilidade.
Rodes mal se recordava da sensação de como era
alimentar-se da maneira tradicional. Ele ainda tinha o hábito de
mastigar alguns materiais sintéticos desenvolvidos para esse fim,
apenas pelo prazer de morder alguma coisa.
A Governadora Ayla o encarava, tentando ler os seus
pensamentos.
“Acredito que a expedição possa ter tido problemas.”, ela
disse. “Perdemos contato cerca de duas horas atrás.”
“Onde eles estavam, ou deveriam estar? Com que objetivo
deixaram a Estação?”, perguntou Rodes, voltando ao presente.
“Trata-se de uma história um pouco mais complicada do
que um simples passeio. Dias atrás eu recebi uma mensagem do
Governador Yusuf, da Estação Netuno. Ele estava bastante
alarmado, e tive que acalmá-lo diversas vezes durante a conversa.
Um meteoro caiu a alguns quilômetros da Estação. Afora o fato de
que a queda do meteoro causou uma série de estragos na
instalação, algo mais o perturbava.”
Rodes ouviu uma das seringas de Ayla sendo disparada, e
ela contorceu o rosto enquanto o composto era injetado. Mesmo
com toda a tecnologia envolvida na fabricação das seringas,
algumas pessoas, principalmente as mais magras, sentiam grande
desconforto ao se alimentarem daquela maneira.
“Imagino o susto deles. Certamente ocorreram abalos
sísmicos e muito pânico no momento da queda. Causa-me espanto
que não tenhamos ouvido nada sobre esse episódio aqui em
Urano...”, continuou Rodes.
“De fato, segundo o que me contou o Governador, o
pânico foi grande. Assim que os ânimos se acalmaram, uma
equipe foi enviada ao local para realizar uma investigação. Eles
informaram que encontraram água em grande quantidade, e logo
depois perderam contato.”
“Água? O governo de Sol já soube disso? Por isso a notícia
não foi divulgada...”, divagou Rodes, passando a mão sobre o
queixo quadrado.
Ayla pigarreou. “Sim, exatamente por isso a notícia não foi
divulgada. O Governador Yusuf teve problemas enormes no
momento em que essa informação chegou aos ouvidos da
população de Netuno. Uma pequena revolta teve início. Parece
que, ao descobrir a novidade, um frenesi tomou conta dos que
ainda se recordavam da sensação do que é beber um gole de
água.”
Rodes se recordava daquela sensação, e de fato era incrível.
“Ok. Houve um levante em Netuno e Bashira foi enviada para
auxiliar a controlar os ânimos.”
“Quase isso. Aparentemente, todos em Netuno estão
mortos, segundo o relato de Bashira. O Governo Solar já está
enviando ao local grande quantidade de pessoal da Agência de
Segurança e cientistas, mas eles levarão semanas para atravessar
os quilômetros de deserto. Bashira foi enviada em missão de
reconhecimento e isolamento da área, até que o pessoal de Sol
chegue, em duas ou três semanas.”
Rodes pulou da cadeira. “O quê? Ela ficou lá? Quantos
policiais estão com ela?”
“Não se exalte, Rodes. Não o chamei aqui para isso. Fique
tranquilo em saber que ela está acompanhada por trinta policiais
armados. Eles montaram uma base em uma subestação
abandonada, localizada quinze quilômetros ao Norte de Netuno, e
de lá iniciaram as missões de reconhecimento.”
O Sol estava a pino no deserto. Os picos da montanha ao
nordeste de Urano mal podiam ser vistos através da cortina de
areia e poeira em suspensão. Rodes olhava através das frestas das
persianas enquanto Ayla falava, imaginando Bashira enfrentando
sozinha uma multidão enfurecida em busca de água.
Provavelmente ela estava adorando tudo aquilo.
“Ao longo de dois dias, pudemos definir o seguinte
cenário: Netuno está abandonada. Os poucos habitantes
encontrados estão mortos, vítimas de tiros e violência física, mas a
equipe de Bashira não adentrou muito na Estação. Cerca de outras
duzentas e cinquenta pessoas, incluindo o Governador Yusuf,
estão desaparecidas ou mortas em algum outro lugar. A equipe de
Bashira aproximou-se a cerca de um quilômetro do meteoro, nos
comunicou sobre o ocorrido e então perdemos contato, cerca de
duas horas atrás. E é por isso que você está aqui.”
“O que eu posso fazer que uma equipe de trinta Agentes
de Segurança não possa, numa situação dessas?”, perguntou
Rodes, desconfiado.
Ayla levantou-se, passou por trás da cadeira de Rodes e, ao
mesmo tempo em que acionava um painel em sua mesa, sussurrou
em seu ouvido: “Talvez o senhor possa me dizer o que é isso.”
Uma imagem foi projetada na parede. Era azulada e
tremida, cheia de interferência, mas nítida o suficiente para que
muito pudesse ser decifrado. E ouvido. A pessoa que gravara o
filme acabara de chegar ao topo de uma elevação, a câmera tremia
acompanhando seus passos. No horizonte viam-se algumas
montanhas baixas, e ao pé delas uma enorme cratera. A cena foi
interrompida por alguns segundos, e retornou logo em seguida.
Muita poeira pairava no ar. A cratera parecia preenchida por
algum líquido. Ondas se afastavam em círculos lentos em direção
às extremidades do buraco, do centro do qual brotava um enorme
fragmento de rocha acinzentada. O fragmento apresentava uma
forma razoavelmente bulbosa, lembrando um dente canino com a
superfície toda acidentada, a parte mais volumosa estava
submersa.
A voz de Bashira soou na sala. “... horas do dia 127 do ano
31.”
Interferência por dez segundos.
“...cratera apresenta diâmetro estimado de três
quilômetros. Ela está completamente preenchida por algum
líquido, aparentemente ág... rocha de aproximadamente quarenta
metros de altura...”
Nova interferência, por dois longos minutos. Rodes lançou
um olhar questionador na direção de Ayla, que continuava
pendurada em seu ombro. Ela apenas disse: “Espere.”
A voz de Bashira continuou: “... cristais de gelo na
superfície do meteoro. Temperatura inalterada em torno dos
cinquenta graus Celsius. Interferência parece ter origem n...”
Fim da transmissão. A imagem congelou com aquela
barbatana rochosa brotando do lago.
“Então?”, perguntou Ayla.
Rodes estava abalado. Não o interessava nem um pouco
aquele meteoro ou o que quer que fosse aquilo. “Você tem que
mandar um grupo de resgate. Eles podem estar em perigo!”
“Não posso fazer isso enquanto não tiver certeza do que
estamos enfrentando. Pergunto novamente: o que é isso?”
Poucos no planeta tinham o conhecimento em geologia que
Rodes possuía. Desde que iniciou os estudos, ele sempre teve
fascínio pela maneira como o planeta se construiu e reconstruiu
com o passar de bilhões de anos. Imaginar a lava resfriando ao
longo de gerações, as pressões das profundezas fundindo
diferentes substâncias, as erosões moldando paisagens, os
movimentos tectônicos, na cabeça dele era quase como se o corpo
celeste tivesse vida própria, respirasse até.
Rodes respondeu sem pensar duas vezes. “É um fragmento
da Lua.”
***
Não era a primeira vez que Rodes era preso. Mas era a
primeira vez que era enjaulado injustamente, e aquilo o enfurecia.
Quando ele era mais jovem, era muito comum se envolver em
brigas desnecessárias, de modo que quando acabava preso, achava
até merecido. Mas a Governadora Ayla, após coletar as
informações de que precisava, acionou um botão de emergência e
convocou três brutamontes com ordens de prendê-lo, alegando
“medidas preventivas de segurança”. O fato dela ter ordenado que
Rodes não fosse ferido foi a deixa para ele pelo menos quebrar
com um direto de direita o nariz de um dos policiais, antes de ser
levado.
O pior da prisão era a monotonia. Meditar olhando para a
parede, imaginando cada camada e substância que a compunha,
adiantava por algumas horas, e a partir dali passava a ser
intolerável. Trocar ofensas verbais com os policiais e com os outros
presos perdia a graça rapidamente também. Restavam os
exercícios físicos, intermináveis flexões e abdominais. Depois
disso, apenas o sono para trazer algum alívio, mas como dormir
numa situação daquelas?
Disseram a ele que permaneceria trancado até que a
situação na Estação Netuno ficasse clara, o que na prática queria
dizer que ele ficaria preso por tempo indeterminado. Bashira
provavelmente corria perigo. Não que ele soubesse ao certo o que
de fato estava ocorrendo. O cenário mais provável é que alguma
facção com ideias egoístas com relação à água trazida junto do
meteoro havia tomado a Estação Netuno. A perda de contato até
não o preocupava tanto, com a quantidade ínfima de satélites
circundando o planeta, era uma situação mais do que comum e
que poderia levar horas ou dias para ser resolvida. Após quatro
horas na prisão, Rodes finalmente adormeceu. Ele precisava estar
descansado para agir quando fosse possível.
***
O dia terminara fazia poucos minutos. Rodes e sua equipe
perderam a noção de tempo coletando amostras de solo. Por sorte
estavam próximos da Estação, e não teriam problema algum com a
tempestade corrosiva. De fato, chegaram com duas horas de
antecedência.
Eles adentraram a “Cúpula”, Rodes por último, trocando
piadas com alguns funcionários dos portões. Ainda na entrada ele
foi abordado por uma policial. Reconheceu Bashira
imediatamente.
“Senhor Engenheiro. Você está sendo detido, sob a
suspeita de me evitar durante dois meses.”, ela disse, séria.
De fato, Rodes não a vira desde o dia em ela havia
desbaratado a revolta na mina.
“Isso claramente é um abuso de poder. Tenho o direito de
evitar ex-namoradas o quanto eu quiser.”, ele respondeu,
aceitando o jogo.
“Não, não tem. Mas, caso aceite compartilhar comigo um
passeio pelo deserto, talvez eu o perdoe por essa grosseria.”
“Seremos trucidados pelo vento corrosivo, você sabe disso,
não?”, ele acrescentou inocentemente.
Ela fez um muxoxo e disse: “Não chegaremos a esse ponto,
posso te garantir isso.”
Resignado, Rodes aceitou o convite para o passeio. Eles
conversaram com os policiais do portão, avisando que voltariam
dentro de uma hora, no máximo. Os dois caminharam pelo
deserto, os últimos raios de sol sumiam rapidamente através de
uma enorme fenda entre os oito picos do Monte Olimpo. O vento
nunca era muito forte nos arredores da Estação, dada a proteção
do gigante rochoso que se erguia a até três quilômetros acima dela.
Eles subiram uma encosta, zombando dos tropeços um do outro.
As luzes amarelas e azuis da Estação podiam ser vistas muitos
metros abaixo. O Sol sumiu por completo. Relâmpagos
esverdeados começaram a castigar os picos Mytikas e Trono de
Zeus.
“Você acredita que os Deuses de fato viveram nessa
montanha?”, perguntou Bashira logo que eles se sentaram.
“Ao presenciar um espetáculo como esse, acredito que eles
ainda estejam por lá.”, respondeu ele.
Eles permaneceram em silêncio por alguns minutos, até
que Bashira perguntou.
“Por que você me deixou, Rodes?”
Eles encararam-se por trás dos capacetes dos trajes de
sobrevivência. Os relâmpagos esmeralda refletiam nas cúpulas de
vidro e seus rostos sérios mal podiam ser vistos.
“Eu fugi da nossa ultraviolência. Mais da minha do que da
sua.”, ele respondeu.
“Entendo.”, disse ela, ficando pensativa por alguns
segundos. “Lembra-se de quando assistimos Laranja Mecânica?
Senhor e Senhora Alex DeLarge, era o que éramos.”
Rodes riu dos apelidos. Claro que eles nunca chegaram aos
níveis de violência gratuita do personagem Alex DeLarge, mas a
vida na Agência de Segurança deixava qualquer um no limite da
moralidade. E Rodes, quando chegou a esse limite, recuou antes
que o atravessasse. Ao contrário de Bashira, ele não teve a
perseverança necessária para levar aquilo adiante. Infelizmente, o
relacionamento deles também estacou, a maior parte da afinidade
que tinham dependia do objetivo comum dentro da Agência.
O fato é que ele nunca havia explicado isso a ela, tendo
simplesmente decidido ir embora, largando tudo. Resolveu dar a
explicação que devia na meia hora seguinte. Por fim, acrescentou:
“Peço desculpas por não ter sido sincero com você.”
“Rodes. Já fazia semanas que eu havia percebido que você
estava bastante infeliz com tudo o que estávamos passando. Se não
tivesse ido embora, eu mesma ia dar um fim no nosso
relacionamento.”, disse ela, dando uma cutucada em suas costelas.
“Não queria ver você infeliz.”
“Obrigado por tirar esse peso da minha consciência.”, ele
disse. Os dois continuavam tendo um entendimento mútuo que
ultrapassava a barreira das palavras proferidas, o que deixou
ambos felizes.
***
“Acorde, Rodes!”
Rodes arregalou os olhos, como se tivesse recebido um
choque. Ele precisava ajudar Bashira, e para isso tinha que sair
daquela prisão. A cela havia sido aberta, a iluminação externa
demarcava a silhueta de alguém junto à porta. Um surto de
adrenalina começou a percorrer o seu corpo.
“Ultraviolência!”, ele pensou consigo mesmo.
O Agente aproximou-se para cutucá-lo com o cassetete,
mas não teve essa oportunidade. Rodes, que estava deitado de
costas para a porta, girou sobre seu corpo e chutou violentamente
as pernas do policial, que foi literalmente arrancado do chão,
vindo a cair de costas, acompanhado de um grande estalo. No
instante seguinte Rodes estava sobre ele, com as grandes mãos em
volta do seu pescoço, pronto para estrangulá-lo.
“Seu idiota, o que você está fazendo?”, perguntou o
Agente, tentando respirar.
Rodes reconheceu o rosto redondo do seu amigo Henry
“Mandíbula” Kaito, e imediatamente aliviou a pressão no pescoço
dele.
“Mandíbula? O que você está fazendo aqui?”, perguntou
ele, caindo sentado para trás, o surto de adrenalina passando
rapidamente.
Henry Kaito também se sentou, afagando o pescoço
machucado. Ele ergueu o rosto e respondeu: “Eu vim aqui para
libertá-lo, mas acho que mudei de ideia. Você bem que merece
ficar enjaulado. No que estava pensando quando pulou dessa
maneira sobre o meu pescoço?”
“Bem...”, disse Rodes, “...imagino que após matar você eu
roubaria o seu traje de sobrevivência e lutaria até a morte para
fugir da Estação.”
“Desculpe a sinceridade, mas que plano imbecil.”,
acrescentou Henry.
Ambos começaram a rir da situação. Para Rodes era um
alívio rever Henry. Ele havia sido o seu braço direito durante todo
o período em que Rodes colaborou com a Agência de Segurança
em Netuno, anos antes. Mais do que um colega, Henry era seu
amigo.
O “Mandíbula”, como era conhecido Henry Kaito, não era
tão alto quanto Rodes, e era muito mais magro. Tinha olhos ovais e
escuros. Ele raspava a cabeça com lâmina, para evitar os piolhos e
disfarçar a calvície avançada, e estava com a barba sempre por
fazer em seu proeminente maxilar, que era a origem do seu
apelido e sua característica mais marcante.
“Uma parte do pessoal ficou revoltada com o tratamento
que deram a você, e resolvemos ajudar. Tem algo de podre
acontecendo, certo?”, perguntou o oriental.
“Pode apostar nisso, Mandíbula. Você consegue me tirar
daqui?”, disse Rodes.
“Já deixei tudo preparado para a sua fuga. Alguns Agentes
estão nos ajudando nesse momento. Aqueles que não gostaram
muito da ideia foram mandados para casa antes que as coisas
esquentassem. Muitos estão preocupados com a Oficial Bashira e
com os outros policiais que estão com ela.”
Rodes levantou-se e ajudou o seu colega a fazer o mesmo.
Henry Kaito sinalizou para dois outros policiais ao final do
corredor. Ele virou-se novamente para Rodes e disse: “Temos uma
hora até o dia raiar, hora em que ocorrerá a troca de turno. Você
tem que ir embora de Urano, ou ficará nessa prisão por um bom
tempo, Rodes.”
“Eu sei. Pretendo partir em busca de Bashira. Mas antes,
preciso voltar ao escritório da Governadora Ayla.”
“Você está tendo algumas ideias suicidas ultimamente...”,
disse Henry, irônico.
“Verdade. Mas desconfio que a Governadora Ayla esteja
escondendo algo muito mais grave do que o que foi revelado até o
momento. Quando estive em sua sala, ontem, ela me mostrou um
vídeo gravado por Bashira no local da queda do meteoro. Ela só se
esqueceu de ocultar o contador do programa. Pude ver que aquele
era o quinto de um total de cinco arquivos. Tenho que descobrir o
que os outros quatro arquivos contêm.”
Henry coçou o enorme maxilar, pensativo. “Ok. Você vai
ao escritório, enquanto eu termino os preparativos para a nossa
fuga.”
“Nossa fuga? Quem disse que você irá junto?”, perguntou
Rodes.
“Meu amigo, a verdade é que muitos Agentes estão
comprometendo as suas carreiras ao ajudá-lo dessa maneira. O
que você acha que acontecerá conosco quando descobrirem que
você fugiu? Indo com você, eu me torno o único responsável pela
sua fuga. Já deixei tudo acertado.”, disse Henry, enfatizando o
argumento com uma piscadela.
Rodes se resignou e desistiu de discutir. Além do que, se
ele ia desbravar o deserto em busca de Bashira, melhor que fosse
ao lado do Mandíbula.
“Temos menos de quarenta e cinco minutos para partir. Os
dois policiais ao final do corredor nos levarão ao depósito de
armas. Não temos um minuto a perder!”
Os quatro dispararam pelos corredores mal iluminados da
prisão, suas botas pesadas ecoando nas profundezas da Estação.
Eles chegaram a uma porta blindada, que um dos Agentes que os
acompanhavam abriu após digitar um código num painel.
Revelou-se diante deles um grande depósito tomado por
prateleiras abarrotadas dos mais diversos itens, e iluminado por
lâmpadas vermelhas. Rodes e Henry entraram rapidamente e
pegaram o que iriam precisar.
Rodes vestiu um traje de sobrevivência negro quase sem
energia. Como ele iria estar exposto aos raios solares em poucos
minutos, isso não o preocupou. Armou-se com dois cassetetes de
plastômero, que prendeu cruzados às suas costas e colocou num
bolso localizado em sua perna um computador portátil. Em
seguida, ele pegou duas pistolas semiautomáticas Sig Sauer P-2022
9 mm, que instalou em coldres amarrados ao seu torso de barril.
Em uma mala plástica, o ex-agente jogou diversas cintas com
seringas do composto alimentar, munição, ferramentas diversas e
seu capacete, que ele não iria vestir naquele momento.
Henry Kaito acrescentou um fuzil de assalto FAMAS 5.56
mm ao cassetete de plastômero que ele já levava. Ele tinha deixado
tudo preparado para uma possível fuga, de modo que o fuzil era
mais do que suficiente.
Passados cinco minutos, eles testaram os seus
comunicadores pessoais e se despediram.
“Estarei no portão. Não demore!”, gritou Henry, tomando
um caminho diferente.
Com dois fortes apertos de mão, Rodes despediu-se dos
Agentes que os ajudaram e rumou em direção aos níveis
superiores da “Cúpula”. Ele passou despercebido pelas poucas
pessoas com quem cruzou, visto que parecia apenas um Agente
com pressa de chegar a algum lugar. O elevador apitou quando ele
alcançou o último andar. Rodes terminou de ajustar suas
manoplas e adentrou o corredor que levava ao escritório.
Ele pôde ver através da grande janela que o Sol já
ameaçava despontar sobre os picos do Monte Olimpo. A porta do
escritório encontrava-se fechada. Entre Rodes e ela estavam
postados os dois brutamontes que o haviam prendido no dia
anterior. O maior deles exibia um grande curativo segurando o
nariz quebrado no lugar. Ao reconhecerem Rodes, empunharam
seus cassetetes de plastômero e assumiram uma postura agressiva.
Rodes e Bashira eram mestres em Krav Maga, técnica de
luta voltada basicamente a neutralizar seus oponentes, não
importa quantos, da maneira mais rápida e eficiente possível. No
Krav Maga não existiam regras. Além disso, Rodes e Bashira eram
especialistas na luta com cassetetes. Os dois policiais não tiveram
chance.
Em um piscar de olhos Rodes armou-se com os dois
cassetetes que estavam presos às suas costas e percorreu os cinco
metros que o separavam dos policiais. Ele bloqueou com a mão
esquerda o ataque do menor deles, tomou impulso para um salto e
com um golpe violentíssimo terminou de destruir, sob uma chuva
de ossos quebrados e sangue, o nariz do maior dos seus
adversários, que foi ao chão aos berros e em extrema agonia.
Rodes virou-se para o policial que restava, bloqueando
mais um golpe com a mão esquerda e desviando uma tentativa de
atingi-lo com uma cabeçada. No contra-ataque, Rodes atingiu-o
com uma poderosa joelhada na genital e um golpe seco com o cabo
do cassetete na garganta. Distribuiu mais algumas pancadas em
ambos, para certificar-se de que eles não levantariam tão cedo, e
adentrou o escritório.
A vontade de Rodes era assistir aos outros vídeos naquele
mesmo instante, mas restavam menos de quinze minutos para o
dia raiar e sua fuga ser descoberta, de modo que ele se contentou
apenas em copiar os arquivos para o seu computador portátil. Em
seguida, ele saltou sobre os policiais desacordados e disparou em
direção ao portão. O Sol brilhava por entre as cortinas de areia do
deserto.
Henry o esperava junto ao portão, conforme prometido.
Ele estava em pé ao lado de um enorme caminhão negro, modelo
KAMAZ-4911; um caixote blindado, com pneus aro vinte e um e
tração nas quatro rodas. Se algum veículo podia atravessar o
deserto em grande velocidade, era aquele caminhão.
“Estava começando a achar que você havia desistido.”,
disse Henry.
“Não me provoque, Mandíbula. Temos que partir.”,
respondeu Rodes, enquanto saltava no banco do passageiro e
afivelava o cinto. Henry acenou para o policial do portão, ligou o
veículo e acelerou. Em instantes eles estavam percorrendo a
paisagem marciana do Deserto de Ferrugem, rasgando o terreno
montanhoso a mais de cento e trinta quilômetros por hora.
“O GPS está sem sinal.”, verificou Rodes.
“Não tem problema.”, disse Henry, acrescentando:
“Conhecemos bem a estrada, certo? Acredito que seja possível
chegar à subestação Vólos ainda hoje. São menos de duzentos
quilômetros.”
“Ok. Tente não chacoalhar tanto.”, disse Rodes, mal
humorado. Henry apenas lançou-lhe um olhar indagador, ao que
Rodes rapidamente acrescentou. “Estou brincando. Acelere o
máximo que você puder.”
A primeira hora foi gasta atravessando o Monte Olimpo.
Quando a majestosa montanha ficou para trás, Henry tomou a
direção sul e pôde desenvolver melhor o potencial do caminhão.
Mas, enquanto o terreno plano por um lado facilitava a direção,
por outro trazia consigo a armadilha dos poderosos e traiçoeiros
ventos do deserto, que surgiam sem aviso algum e podiam chegar
a cem quilômetros por hora, obrigando-os a buscar abrigo e tomar
precauções para evitar o tombamento do veículo.
Rodes chegou a ligar o computador portátil, mas achou
que seria melhor analisar o material confiscado do escritório da
Governadora Ayla quando estivesse mais tranquilo.
O dia transcorreu sem grandes sustos. A planície arenosa,
com suas intermináveis dunas de cor escarlate, pouco havia a
oferecer ao viajante em termos de paisagens. Esporadicamente eles
topavam com algum resquício de alguma caravana mal sucedida
durante a travessia do deserto. Veículos e habitações abandonados
eram bastante comuns. Quando eles avistaram a subestação Vólos,
uma pequena cúpula de placas de captação de energia solar
perdida entre colinas e montanhas de médio porte, os trajes de
sobrevivência tinham dado o sinal de uma hora para o anoitecer.
Atrás da subestação surgiu o antigo Golfo de Pagasitikos, agora
nada mais do que uma grande cratera coberta pela areia
avermelhada. Aqui e ali despontavam os destroços de veleiros e
pequenos barcos, seus mastros partidos uma triste recordação do
tipo de vida que existiu naquele lugar em algum dia perdido no
passado.
Henry conversou com alguns policiais que se encontravam
por ali, e guardou o caminhão numa garagem subterrânea,
enquanto Rodes, já com as bagagens, foi até a subestação procurar
acomodações. Ele passou pela porta automática e deparou-se com
um espaço de dez metros de altura. As próprias placas de captação
de energia solar formavam o forro da construção sem janelas e
com iluminação amarela insuficiente. Várias mesas de negócios,
algumas sendo utilizadas por grupos soturnos, estavam
distribuídas em círculo ao redor da escada que levava aos níveis
inferiores. Sob olhares desconfiados, Rodes passou por algumas
dessas mesas para aproximar-se do único policial que pôde ver,
uma mulher encostada no corrimão da escada.
“Olá.”, disse ele ao chegar próximo à policial.
“Olá, colega. Em que posso ajudá-lo?”, perguntou ela.
“Ótimo.”, pensou Rodes. “Pelo visto, a notícia sobre a
minha fuga não chegou até aqui. Os satélites devem continuar sem
sinal.”
Ele saiu dos seus devaneios e respondeu à policial:
“Gostaria de alojamentos. Sabe me indicar com quem devo falar?”
Meia hora depois, com a noite já cobrindo a subestação,
Henry e Rodes estavam instalados em seus respectivos quartos
subterrâneos. Eles combinaram de partir no dia seguinte, tão logo
o dia raiasse. Após limpar-se com os produtos antissépticos
disponibilizados, Rodes sentou-se em sua cama com o computador
ligado. Ele encarou pensativo, por cerca de cinco minutos, o ícone
do primeiro vídeo, criado quinze dias antes e copiado do
computador pessoal da Governadora Ayla. Ele clicou no ícone e
aproximou o rosto da tela para enxergar melhor. Do lado de fora o
vento corrosivo fazia toda a subestação tremer.
***
Surgiu na tela o rosto de um homem de meia idade, com
pele escura e cavanhaque grisalho. Rodes imediatamente
reconheceu o Governador Yusuf, da Estação Netuno.
“Ayla. Trouxemos os quatro sobreviventes para a Estação.
Mas o mais incrível de tudo é isso.”
Ele apresentou à tela um recipiente cheio de um líquido
transparente. O Governador bebeu tudo num só gole e exibiu um
sorriso enorme de satisfação. “É água, Ayla!”
Fim da primeira transmissão.
Que sobreviventes eram aqueles a que Yusuf estava se
referindo? Mais uma pergunta que permanecia sem resposta.
Rodes abriu o segundo arquivo, gravado dois dias depois
do primeiro. Reconheceu, apesar da péssima qualidade do vídeo, a
“Cúpula” de Netuno, observada a partir do lado de dentro da
instalação. Uma centena de pessoas, possivelmente toda a
população de Netuno, se aglomerava em volta de uma dúzia de
caminhões-tanque que adentravam em fila a Estação, como se
fosse o desfile de vitória numa guerra. Yusuf podia ser visto num
balcão, discursando de forma inflamada. Em questão de minutos,
as pessoas estavam se esbaldando com a água recém-trazida do
local da queda do meteoro. Crianças tomavam banho e brincavam,
enquanto seus pais brindavam e sorviam o líquido límpido e puro.
Fim da segunda transmissão.
Um grande ponto de interrogação podia ser visto na fronte
de Rodes. Ele abriu imediatamente o terceiro arquivo, gravado
sete dias antes.
O rosto de Yusuf surgiu novamente na tela. Era óbvia a sua
preocupação, o que acentuava ainda mais as diversas rugas em seu
rosto, principalmente na testa e ao redor dos olhos fundos.
“Ayla! Você transmitiu o nosso pedido de socorro à
Estação Sol? Continuamos sem sinal de longo alcance, maldito seja
esse meteoro e sua misteriosa interferência. Há mortos espalhados
por todos os cantos da Estação. Os quatro sobreviventes estão
liderando um levante. Você tem que me ajudar, Ayla!”
Fim da terceira transmissão.
Rodes abriu o quarto arquivo, de dois dias antes,
imediatamente.
Novamente, a imagem tremida mostrava os enormes
portões de entrada de Netuno, mas vistos a partir do lado de fora.
Bashira avançava pelo deserto, acompanhada de outros quatro
policiais, todos empunhando fuzis FAMAS com lanternas
acopladas. Eles atravessaram com passos lentos os portões
entreabertos. A voz insólita de Bashira soou no quarto de Rodes.
“O local parece deserto, Governadora. Espere. Há corpos
espalhados pelo chão!”
Os cinco avançaram alguns metros para dentro da
escuridão, deixando a luz do sol para trás. Uma dúzia de corpos,
incluindo crianças, podia ser vista até aonde a luz das lanternas
alcançava. Bashira ajoelhou-se ao lado de um dos mortos, uma
mulher de meia idade. Parecia queimada, a pele apresentando
aspecto de papel incendiado. Bashira falou novamente.
“O corpo não aparenta sinais de violência, apenas o
estrago típico de alguém exposto ao vento corrosivo. Há grande
quantidade de areia aqui dentro. O local parece abandonado e está
exposto aos elementos.”
Subitamente os cinco Agentes se levantaram, procurando
algo na escuridão, a luz das suas lanternas tateando as trevas
desesperadamente. A respiração de Bashira deixava transparecer
sua apreensão.
“O que foi esse grito?”, ela perguntou.
Fim da quarta transmissão.
Rodes não conseguiu ouvir nada no volume em que estava
assistindo ao vídeo. Ele colocou um fone de ouvido e aumentou o
volume ao máximo. Aquilo poderia lhe render um problema
auditivo no futuro, mas ele precisava descobrir o que havia
alarmado Bashira daquela maneira. Ele contorceu o rosto quando
reiniciou o filme a partir do ponto em que Bashira terminava suas
conclusões sobre o corpo da mulher.
“... o local foi abandonado e está exposto aos elementos.”
Silêncio por cinco segundos. Algo é derrubado ao longe e seu
ruído ecoa nas profundezas da Estação. A respiração de Bashira se
acelera. Silêncio por três segundos. Um homem grita por mais oito
segundos, um grito rouco e agonizante. Ele não disse nada, apenas
gritou com toda a força dos seus pulmões e silenciou-se aos
poucos.
O sangue de Rodes gelou, e um calafrio percorreu a sua
espinha. Ele permaneceu um minuto paralisado. Em seguida,
tentou discernir mais alguma coisa na gravação, mas não
conseguiu. Ele diminuiu o volume e iniciou o quinto vídeo, que
era o mesmo que a Governadora havia apresentado a ele no dia
anterior. Tudo o levava a crer que Bashira havia fugido da Estação
e rumado para o local da queda do meteoro algum tempo depois.
Rodes já havia analisado razoavelmente bem toda a cena, e estava
para desligar o computador quando algo chamou a sua atenção.
Ele congelou a imagem do meteoro, e notou um detalhe que havia
passado despercebido quando assistiu ao vídeo no escritório da
Governadora Ayla.
Apesar da péssima qualidade da imagem, não havia
dúvidas de que a luz do Sol refletia em algumas partes metálicas,
já bastante corroídas, acopladas na extremidade exposta do
meteoro. Ele conseguiu discernir pelo menos um, talvez dois
desses apêndices. Com um pouco de imaginação, podia-se dizer
que eram turbinas, por mais insano que isso soasse. “Pena a
qualidade da imagem ser tão ruim!”, pensou Rodes.
Exausto, Rodes fechou o computador e deitou-se para
dormir, com a certeza de que não teria um sono nada tranquilo
naquela noite.
***
No dia seguinte, enquanto eles preparavam o KAMAZ4911 para a continuação da jornada, Rodes deixou o Mandíbula a
par das suas descobertas. Henry não parava de coçar o queixo.
“O que significa tudo isso, Rodes? Pelo o que você está me
dizendo, a Governadora Ayla está escondendo informações da
Estação Sol, colocando em risco a vida de centenas de pessoas na
Estação Netuno, e sabe-se lá mais o quê.”, disse Henry.
“O pior é que tudo indica que ela enviou Bashira e os
outros Agentes numa missão de extremo risco sem passar as
informações mínimas de que eles precisavam.”, respondeu Rodes,
complementando: “Bashira não sabia do levante ocorrido em
Netuno, provavelmente apenas disseram a ela que a Estação
estava incomunicável após a queda de um meteoro.”
“Tudo isso por uma porcaria de uma poça de água?”,
indignou-se Henry.
“É o que parece.”, respondeu Rodes, pensativo. “Não
temos tempo a perder. Parece-me óbvio que a Governadora não irá
medir esforços no sentido de continuar os seus planos, sejam lá
quais forem. Não podemos confiar em ninguém, Mandíbula.”
“Certo. Se esse é o caso, teremos que evitar as subestações
habitadas.”
Henry verificou o computador de bordo. “Ótimo, o GPS
voltou a ter sinal. O mais lógico e seguro seria irmos até a
subestação Tarnagra, mas se não tivermos problemas, podemos
chegar à subestação Acharnes, a trezentos quilômetros daqui, que
está desabitada.”
“Perfeito.”, disse Rodes, enquanto subia no caminhão.
“Acelere o máximo que você puder.”
Quando o dia raiou, o caminhão disparou para fora da
garagem, em direção ao deserto. A policial da subestação Vólos,
com quem Rodes havia conversado na noite anterior, acompanhou
o veículo se afastando, até que ele se tornasse uma pequena
nuvem de poeira no horizonte. Ela então rumou diretamente para
a sala do comunicador.
Em menos de uma hora eles haviam cruzado as colinas que
protegiam Vólos, e avistaram o extinto Golfo Evoikos, que não
passava de um assombroso abismo escuro e sem fim à esquerda
do caminho que eles seguiam. A partir daí a jornada seguia na
direção Sul pelo traçado de uma antiga estrada litorânea, com
colinas de coloração avermelhada à direita deles. Rodes
monitorava os sensores do veículo em busca de tempestades de
areia que pudessem atrapalhar a jornada.
Era a metade do dia quando eles desviaram o caminho
para evitar aproximar-se demasiadamente da subestação
Tarnagra. Não fosse a tração nas quatro rodas do KAMAZ-4911,
eles certamente não teriam conseguido atravessar a ravina onde
caíram, e teriam que pedir ajuda na subestação. Por sorte e
competência de Henry na direção, eles conseguiram transpor o
terreno rochoso sem grande perda de tempo.
“Meus parabéns, Mandíbula! Não sei se eu teria
conseguido atravessar aquele trecho.”, disse Rodes.
“Você certamente não teria conseguido.”, zombou Henry.
“Ótimo! Vai começar a ladainha egocên...”
Rodes não conseguiu terminar a frase. Numa fração de
segundo ouviu-se uma forte explosão e a traseira do caminhão foi
lançada para o alto. Rodes e Henry prenderam a respiração
durante a breve viagem, que pareceu uma eternidade, até que o
veículo completasse o giro no ar e caísse com as rodas viradas para
cima, acompanhado de um grande estrondo e uma chuva de areia.
Uma nuvem de fumaça negra formou-se rapidamente a partir das
rodas traseiras do KAMAZ-4911.
“Isso foi uma mina terrestre?”, gritou Henry, pendurado
de ponta-cabeça pelo cinto de segurança.
Passados alguns segundos eles puderam ouvir o barulho
de veículos se aproximando em alta velocidade.
“Estamos sob ataque, Mandíbula. Temos que nos mexer!”,
gritou Rodes. Rápido como um felino, Henry saltou para fora do
caminhão. Mais um segundo e Rodes o perdeu de vista, ao mesmo
tempo em que lutava contra seu cinto, tentando libertar-se. Ele
olhou para frente e viu, através do para-brisa empoeirado, dois
quadriciclos pilotados por homens nas cores da Agência de
Segurança aproximando-se em alta velocidade. Em poucos
segundos estariam sobre ele. Um dos policiais parou a cerca de
trinta metros do caminhão e começou a disparar um fuzil em sua
direção. Rodes chegou a colocar as mãos diante do rosto, numa
reação natural aos tiros disparados contra ele, mas felizmente o
veículo era blindado.
O policial que não havia parado seguiu pelo lado por onde
Henry saíra poucos segundos antes, e começou a circundar o
caminhão procurando por ele, com uma pistola empunhada.
Rodes ouviu duas rajadas curtas de fuzil FAMAS sendo
disparadas de cima do caminhão. Não houve resposta do policial.
Ao perceber que Henry havia se escondido no meio da
fumaça que se acumulara no alto do veículo tombado, o agressor
restante disparou o seu fuzil naquela direção. Rodes ouviu uma
correria sobre si, enquanto Henry buscava abrigo ao nível do chão,
atrás do veículo. O policial largou o quadriciclo e partiu em
direção ao veículo tombado, disparando rajadas curtas e
controladas, de modo a prender Henry atrás do caminhão. Rodes
finalmente conseguiu soltar o cinto.
Quando o policial chegou a cerca de dez metros do veículo,
passou a segurar o fuzil com uma mão, atirando a esmo e sem
precisão alguma, apenas para garantir que manteria Henry
encurralado. Ele buscou algo em um compartimento em seu tórax.
Rodes o viu pegar uma granada. O policial largou o fuzil, puxou o
pino e levantou a granada sobre a cabeça para arremessá-la.
Um surto de adrenalina pôs Rodes um movimento. Ele
chutou a porta e rolou para fora do veículo, suas duas Sig Sauer P2022 surgiram em suas mãos. Ele disparou diversas vezes,
atingindo as pernas e o braço que empunhava a granada. O
policial caiu de joelhos com o impacto dos tiros, e derrubou a
granada sobre si.
Após a nuvem de areia causada pela explosão baixar,
restou no lugar onde ele se encontrava apenas um pequeno buraco
e farrapos.
Henry saiu de trás do caminhão empunhando o fuzil,
baixando-o quando viu Rodes em pé e os restos do segundo
atacante mais além. Eles cumprimentaram-se com um aceno de
cabeça. Rodes foi o primeiro a falar.
“Está ferido, Henry?”
“Não.”, respondeu ele, zombeteiro. “Meu traje desviou os
dois tiros que me atingiram, vou ganhar apenas alguns
hematomas. E você?”
Rodes caminhou em direção ao outro quadriciclo, caído
próximo ao caminhão. “Eu estou bem. Esse aqui está morto?”
“Se eu não estou muito enganado, já estava morto antes de
chegar ao chão.”, disse Henry. Rodes chutou a pistola para longe
do corpo. De fato, o policial estava morto, com uma dezena de
tiros no abdome. Eles rapidamente se apossaram dos
equipamentos que ainda tinham utilidade e se puseram a tentar
virar o caminhão, para que pudessem continuar a jornada. Por
sorte, as motos ainda funcionavam, de modo que bastou amarrar
correntes feitas de resina nelas e no caminhão tombado para
colocá-lo de pé novamente. Ainda assim, toda a operação tomoulhes quase uma hora. Henry verificou o estado do KAMAZ-4911.
Rodes acompanhou os testes apreensivamente.
“Então?”, perguntou ele.
“Eu amo esses caminhões. Isso aqui é um tanque de
guerra!”, disse ele, dando um tapinha no veículo. “Perdemos
algumas placas de captação de energia solar, e vou precisar fazer
pequenos reparos no eixo traseiro e no assoalho, mas por hora ele
está em plenas condições de continuar.”, respondeu Henry, com
um sorriso de orelha a orelha quase do tamanho do seu maxilar.
“Henry, temos uma decisão a tomar. Conseguiremos
chegar à subestação Acharnes após esse atraso? Não tenho
dúvidas de que esses dois policiais vieram de Tarnagra, de modo
que se formos buscar abrigo por lá, teremos mais problemas.”,
disse Rodes.
“Só saberemos tentando.”, respondeu ele, saltando no
banco do motorista e dando a partida. O motor do caminhão
roncou forte quando Henry Kaito pisou no acelerador. Tarnagra
foi deixada para trás.
O restante do dia transcorreu num piscar de olhos. O Sol
começou a ser pôr no horizonte. Cada minuto que passava fazia as
sombras das montanhas se alongarem em direção a eles, como se
buscassem alcançar o caminhão em alta velocidade. Henry dirigia
a mais de cento e trinta quilômetros por hora, mas mesmo assim o
alarme em seus trajes soou na cabine do caminhão. Eles ainda
tinham pelo menos uma hora e meia pela frente até chegar a
Acharnes. Rodes foi o primeiro a admitir que não conseguiriam.
“Temos que achar um local para nos protegermos,
Mandíbula. Valeu a tentativa.”, ele disse, em meio a um sorriso
amargo.
Henry ficou claramente decepcionado. “Ok. Vamos tentar
essas colinas que estou vendo à nossa direita.”
Ele fez uma grande curva para mudar de direção e
acelerou em direção às colinas. A falta de luminosidade obrigou-os
a acender os faróis e diminuir drasticamente a velocidade. O
silêncio e a tensão imperavam na cabine. A poeira flutuava diante
dos faróis. Henry guiou lentamente o carro em direção a um
barranco, o que os levou ao leito seco de um rio. Passaram a andar
sobre rochas. O caminhão chacoalhava absurdamente.
“Temos quinze minutos.”, disse Rodes.
“Ali!”, disse Henry, apontando para duas enormes rochas
apoiadas umas sobre as outras, como se fossem um pequeno
castelo de cartas. Elas estavam próximas o suficiente das colinas
para oferecer alguma proteção.
Rodes saltou para o compartimento de cargas do caminhão
e começou a revirar as bagagens. “Vamos ter que complementar o
abrigo, estacione de uma vez e vamos trabalhar, Mandíbula!”
Henry acionou a tração nas quatro rodas e forçou o motor
do caminhão para ultrapassar as últimas rochas que levavam ao
abrigo. Eles colocaram os capacetes e abriram a porta traseira com
alguma dificuldade. A velocidade do vento começou a aumentar
rapidamente. Rodes pegou um disparador para pregar pinos de
escalada e uma das três barracas que eles traziam. Ele escalou a
maior das rochas, que formava o teto do seu castelo de cartas, e
prendeu a lona da barraca em diversos pontos, utilizando-se dos
pinos. Henry teve dificuldades para conseguir agarrar a outra
extremidade da lona, devido à ventania, mas após alguns
segundos conseguiu prender a barraca no chão. Eles repetiram o
procedimento do outro lado, fechando as duas entradas do castelo
de cartas com as lonas.
“As barracas devem aguentar.”, disse Rodes.
“Espero que sim.”, respondeu Henry. Eles voltaram para
dentro do caminhão e removeram os capacetes. A hora seguinte
foi marcada por muita angústia e apreensão. O vento corrosivo
empenava as lonas, como se quisesse a todo custo arrancá-los de
dentro do seu abrigo. As rochas chegaram a tremer, derrubando
poeira no para-brisa do caminhão. Mas, depois de um tempo,
como que desistindo de romper as barreiras de lona, os ventos
diminuíram, permanecendo apenas o seu silvo do lado de fora.
“Tenho que arrumar os estragos no caminhão.”, disse
Henry.
“Vou ajudá-lo.”, respondeu Rodes. Ambos desceram e
passaram metade da noite soldando com resina do tipo elastímero
as partes danificadas do veículo. Terminado o serviço, puderam
dormir por algumas horas.
Rodes foi despertado por um raio de sol que passava por
uma fresta na lona e veio cair caprichosamente sobre o seu rosto.
Ele levantou num salto, gritando: “Acorde, Mandíbula! Perdemos
a hora!”
Henry saiu se arrastando do compartimento de cargas.
Seus olhos estavam menores do que o normal, quase fechados.
“Bom dia para você também, chefe.”, disse ele, assumindo o
volante. Rodes desceu do caminhão e arrancou as lonas,
guardando-as no bagageiro em seguida. Eles retomaram a jornada
com meia hora de atraso.
“Chegaremos à Estação Netuno ao final do dia, não se
preocupe.”, disse Henry.
“Não vamos até Netuno, meu amigo.”, respondeu ele.
“Bashira e os outros Agentes se instalaram na subestação Bassae. É
para lá que iremos primeiro.”
***
Eles não tinham tempo a perder. Bassae se encontrava a
quase trezentos quilômetros do local onde eles haviam se
protegido durante a noite. Henry acelerou o veículo. Eles
cruzaram o Istmo de Corinto e adentraram o Peloponeso. A partir
dali o terreno passava a ser muito mais dobrado, com grandes
cadeias de montanhas de calcário e dolomita de coloração pálida
entrecortadas por altiplanos, vales, ravinas e penhascos. Eles só
conseguiram cruzar certas barreiras por caminhos estreitos entre
as montanhas.
Horas depois, quando o Sol ameaçava se retirar, jogando o
deserto na mais profunda vermelhidão possível, eles avistaram a
subestação Bassae ao longe, enfiada entre montanhas e protegida
por suas escarpas. Uma cortina de areia pairava sobre ela. Eles se
aproximaram lentamente, a rotação baixa do motor do KAMAZ
era o único ruído audível na cabine.
Após alguns minutos eles puderam perceber os detalhes
da subestação abandonada. Sua cúpula baixa estava partida no
topo, deixando a areia entrar à vontade. Os portões certamente
haviam sido arrancados pelos ventos implacáveis e jaziam
tombados no chão.
Nos últimos metros de aproximação, a cortina de areia foi
ficando menos espessa e revelando algo maravilhoso. Atrás da
cúpula da subestação, no alto de um pequeno platô, surgiram
umas após as outras enormes colunas de arquitetura clássica
construídas em calcário cinza. O tempo havia corroído boa parte
da construção, mas ainda assim as quarenta e duas colunas
dispostas em forma retangular insistiam em permanecer de pé,
desafiando o inevitável fim. Henry parou o caminhão para eles
admirarem aquela majestosa construção.
“Rodes, o que é isso?”, perguntou Henry.
“Esse é o Templo de Apolo Epicuro, meu amigo. Foi a
única razão para a subestação Bassae ter sido construída, quase
dez anos atrás. Alguém pensou que seria possível salvar esse
legado da humanidade.”, respondeu Rodes, acrescentando:
“Infelizmente, mal conseguimos salvar a nós mesmos. A
subestação acabou abandonada alguns anos depois, e o Templo foi
deixado a sós para continuar resistindo até quando conseguir.”
“Você já havia estado aqui?”, perguntou Henry, ainda
maravilhado.
“Eu nasci em Trípoli, na região central do Peloponeso. Tive
a oportunidade de visitar este lugar algumas vezes. Na verdade,
estava aqui naquele dia fatídico que mudou a História da
humanidade, trinta e um anos atrás. Eu tinha nove anos de idade,
na época.”, disse Rodes, soturno.
***
Aquele estava sendo um dia inesquecível. A família Sotiris
havia se espalhado ao redor de três toalhas de piquenique,
comendo, bebendo e conversando. O vento carregado por aquele
aroma típico do Mediterrâneo trouxe até Rodes um cheiro ainda
mais familiar, o perfume de jasmim da sua mãe. Ele olhou ao redor
e viu-a ao lado do seu pai, ambos envolvidos em uma animada
conversa com alguns tios.
Ao perceber que estava sendo observada, ela virou-se,
olhando diretamente em seus olhos, e lançou-lhe uma piscadela e
um sorriso lindo, incentivando-o a continuar brincando. Rodes
disparou correndo e gritando atrás das outras crianças, brandindo
um graveto como se fosse uma espada.
Passadas algumas árvores, ele deparou-se com o Templo
de Apolo Epicuro. Uma tenda havia sido instalada sobre a
construção, para protegê-la das intempéries do tempo. O sol
brilhava, o céu era de um azul digno de uma pintura; turistas
vindos de todos os cantos do mundo se aglomeravam em volta do
monumento, conversando em diversas línguas diferentes, batendo
fotos e rindo maravilhados com aquele impressionante patrimônio
da humanidade. Rodes esgueirou-se e passou despercebido por
todos. Ele subiu os degraus que levavam ao interior do Templo. O
menino apoiou-se numa das enormes colunas e virou-se, buscando
a aprovação de sua mãe lá ao longe, antes de continuar a sua
travessa aventura.
O céu escureceu num piscar de olhos. Uma ventania
repentina arrastou folhas para longe e chegou a derrubar diversas
pessoas. Rodes agarrou-se à coluna para não ir ao chão. Muitos
gritaram alarmados. Ele viu sua mãe o procurando ao longe.
Uma colossal bola de fogo surgiu no céu. Rios
incandescentes percorreram a superfície da Lua. E então, ela
explodiu.
***
Rodes despertou dos seus devaneios com Henry falando
alguma coisa sobre ter que ver de perto o Templo. Eles ainda
tinham algum tempo antes do anoitecer, de modo que Rodes
concordou com um resmungo. Eles vestiram seus capacetes e
deixaram o KAMAZ-4911 em frente à subestação. Caminharam
algumas centenas de metros e chegaram aos primeiros degraus
destruídos. Chamou a atenção de Rodes o estado deplorável em
que a construção se encontrava. O calcário havia sido corroído,
chegando a apresentar bolhas em alguns pontos. O templo
tornara-se um espantalho do que fora no passado.
Rodes deixou Henry entrar e preferiu esperar do lado de
fora. Onde estava a equipe de Bashira? Estava claro que não havia
ninguém ali no momento. Talvez houvesse alguma pista ou
indício do que pudesse ter acontecido. Ele deveria ter entrado na
subestação de uma vez ao invés de ficar fazendo turismo com
Henry. Essa jornada começava a pesar mais do que ele podia
suportar.
Rodes sentou-se em um degrau, perdido nesses
pensamentos sombrios. Ele permaneceu olhando em direção à
subestação, muitos metros abaixo de onde eles se encontravam, e
se preparava para levantar e ir ver o que Henry estava aprontando
quando algo chamou a sua atenção. Uma figura encurvada lutava
contra o vento e aproximava-se furtivamente do caminhão, vindo
da direção do deserto.
Com um salto desastrado, Rodes levantou-se e disparou
colina abaixo.
“Mandíbula, tem alguém no caminhão! Estou indo
averiguar, venha rápido!”, ele gritou no comunicador.
“Estou logo atrás de você!”, respondeu Henry.
Ambos despencaram colina abaixo, armas empunhadas.
Chegando ao caminhão se separaram, indo cada um por um lado.
Rodes foi o primeiro a ver o corpo caído a cerca de cinco metros da
porta do motorista. Ele reconheceu Bashira instantaneamente.
“É a Bashira, Henry!”, gritou ele.
“Ela está viva?”, perguntou o Mandíbula.
Bashira estava caída de lado. Ela trajava apenas o grosso
macacão negro utilizado por debaixo dos trajes de sobrevivência,
que oferecia proteção mínima com relação ao calor, ao frio e à
radiação. Havia um cobertor jogado a poucos metros dela. Rodes
caiu de joelhos ao seu lado e girou-a lentamente, de modo que
pudesse ouvir a sua respiração.
“Sim, ela está viva! Vamos levá-la para dentro do
caminhão.”, ele disse.
Rodes pegou-a pelos ombros e pela cabeça, enquanto
Henry erguia os pés. Por sorte estavam em dois, do contrário
teriam sérias dificuldades para erguê-la, dada toda a musculatura
dela. Deitaram-na no compartimento de bagagens do caminhão.
Apesar de viva, ela necessitava de cuidados médicos imediatos.
Partes da sua mão e rosto apresentavam sinais de oxidação
causada pelo vento corrosivo. O piercing que ela usava no nariz
estava completamente enferrujado. Para evitar infecções, Rodes e
Henry tiveram que limpar e extrair os locais oxidados, antes que a
pele em volta começasse a gangrenar. Tiveram que remover o
piercing também, levando uma pequena parte de pele junto.
Após os curativos e alguns pontos, Henry foi até a
subestação procurar um abrigo mais apropriado, e entrou em
contato com Rodes poucos minutos depois.
“Toda a instalação da equipe da Bashira continua aqui. Há
veículos, armamento e tudo mais que precisarmos. Vou abrir a
garagem, recolha o nosso caminhão.”, disse ele.
“Certo.”, respondeu Rodes. Ele olhou mais uma vez para
Bashira, que continuava adormecida. “Garota forte.”, pensou.
Meia hora depois eles estavam instalados adequadamente
num grande quarto comunitário no subterrâneo. A equipe de
Bashira havia feito um bom trabalho ao tentar religar a energia da
subestação abandonada, mas mesmo assim as condições
continuavam bastante precárias. A energia acumulada pelas placas
danificadas do lado de fora era pouca, o que os obrigou a ficar
praticamente no escuro, contando apenas com a iluminação dos
seus trajes e lanternas.
Também não era nada animador imaginar que havia
abaixo deles diversas salas e instalações abandonadas.
Aparentemente, Bashira e sua equipe haviam ocupado apenas o
primeiro andar logo abaixo da superfície. Mesmo no subterrâneo,
a ventania do lado de fora era totalmente audível. Poucos minutos
após adormecer eles foram acordados com algumas placas da
“Cúpula” da subestação sendo arrancadas e arremessadas longe
pelo vento.
Rodes apontou a sua lanterna na direção de Bashira, para
verificar o seu estado. Ela colocou instantaneamente as mãos sobre
os olhos para bloquear a luz. Estava acordada.
“Você poderia virar essa lanterna para outro lugar?”,
resmungou ela, com uma voz quase imperceptível.
Rodes virou-a para seu rosto e fez uma careta. Os dois
riram. Henry sentou-se junto a eles.
“Você teve muita sorte, Bash. Mais algumas horas exposta
ao deserto e você não estaria aqui conosco.”, disse ele.
Rodes ficou sério e disse: “Verdade. Nós quase a
perdemos.”
Ela revirou os olhos, como se eles estivessem exagerando, e
sentou-se. Pôs a mão no rosto, sentindo os curativos.“Vocês me
deram algum coquetel para combater a radiação?”
“Sim.”, disse Henry.
“Três doses, pra dizer a verdade. Pelo seu estado,
calculamos que você já estava perambulando por aí a pelo menos
doze horas.”, complementou Rodes.
“Que horas eram quando vocês me encontraram?”,
perguntou ela.
“Eram oito e meia, estava pra anoitecer.”, disse Henry.
“Então já faziam quase quinze horas que eu estava exposta.
Mas estou me sentindo ótima, as três doses foram suficientes. Qual
era o meu estado?”, ela perguntou, enquanto arrancava os
curativos.
Rodes respondeu: “Havia dois sinais de oxidação na sua
mão esquerda, um no nariz e mais dois próximos ao olho direito.
Tratamos essas feridas e posso dizer que você vai sobreviver.”
Ela verificou o furo em seu nariz, onde antes havia o
piercing, o que a deixou claramente irritada.
“E então, o que está acontecendo aqui?”, perguntou Henry.
Ela disparou uma seringa de composto alimentar, sentouse e começou a explicar os estranhos acontecimentos dos últimos
dias. Partes da história Rodes e Henry já conheciam, mas mesmo
assim deixaram que ela expusesse a sua versão.
Oito dias atrás, ela e mais trinta Agentes de Segurança
partiram de Urano com a missão de averiguar os estranhos
acontecimentos ocorridos em Netuno. Aparentemente Netuno
havia enviado um pedido de socorro à Governadora Ayla, de
Urano, após a queda de um meteoro nos arredores da Estação.
Bashira e seu grupo foram orientados a instalar-se em segredo na
subestação Bassae, e a partir dela deveriam investigar o estado das
coisas em Netuno e no tal meteoro, se possível.
Eles agiram conforme o solicitado. Montaram uma base de
operações em Bassae, foram a Netuno, e descobriram que ela havia
sido saqueada. Neste ponto ela explicou em detalhes os
acontecimentos que Rodes havia assistido numa das gravações
surrupiadas do computador da Governadora Ayla. De Netuno eles
partiram para investigar o meteoro. Passaram diversas
informações à Governadora e a partir dali as coisas começaram a
dar errado.
“O que aconteceu?”, perguntou Rodes.
“Minha equipe estava dividida em três frentes. Um grupo
de quinze pessoas ficou aqui em Bassae, como apoio. Outros dez
estavam distribuídos próximos a Netuno, garantindo o perímetro.
Eu e mais cinco Agentes estávamos encarregados de investigar a
Estação e o meteoro.”
Rodes e Henry concordaram. Ela continuou: “Logo após a
visita ao meteoro, fomos abordados por um grande grupo de
Agentes que não faziam parte da nossa equipe. Eles apontavam
armas para as cabeças dos homens que haviam ficado
encarregados de garantir o perímetro. Cercaram-nos nas
montanhas e nos renderam.”
“Homens de Netuno?”, perguntou Henry.
“Sim, certamente. Todos menos um. Eles eram liderados
por um homem enorme, vestido com um traje branco de
astronauta, muito parecido com aqueles de décadas atrás. Estava
de capacete, de modo que não pude ver o seu rosto, apenas o vidro
refletindo o deserto e a mim mesma.”
“Você tinha razão, Rodes!”, exclamou Henry. “O meteoro é
um tipo de meio de transporte...”, ele disse estapeando a própria
testa.
Rodes encarou Bashira. “Esse homem disse alguma coisa?
De onde ele veio, qual o seu nome?”, perguntou ele.
“Ele falava com um dos Agentes apenas, numa língua que
não pude entender. Pareceu-me russo.”, ela disse.
“Certo, continue.”, disse Rodes, antes que Henry a
interrompesse novamente.
“Alguns foram levados de volta a Netuno, na presença do
homem de branco, enquanto os outros, incluindo eu mesma, foram
arrastados até o deserto. Eles tiraram quase todo o nosso
equipamento, incluindo os trajes de sobrevivência, e nos
obrigaram a sair caminhando. Um dos meus homens tentou voltar
e argumentar que morreríamos, e foi alvejado no mesmo instante.
Restou a mim e aos outros tentar voltar à subestação Bassae.”,
disse ela, olhando para o chão, como se revivesse a cena.
“Estávamos em cinco. Apenas eu e mais um chegamos às
montanhas para tentar sobreviver à noite. Entre as poucas coisas
que restaram conosco, estavam algumas seringas de composto
alimentar que eu havia escondido em minhas botas e um cobertor.
Quando a noite caiu, nós cavamos um buraco na areia e nos
soterramos, jogando o cobertor sobre nós para evitar que a areia
nos sufocasse. Apenas eu sobrevivi para ver o amanhecer. Utilizei
todas as forças que restavam para tentar chegar até aqui, e a última
coisa de que me recordo é de ter visto um caminhão. Achei que era
um dos veículos da minha equipe, mas pelo jeito não há mais
ninguém aqui além de nós.”, ela concluiu.
Rodes e Henry trocaram olhares preocupados. Desde o
momento em que eles chegaram, lhes pareceu óbvio que a
subestação estava deserta. Mas onde estariam os outros quinze
policiais que acompanhavam Bashira? Eles se levantaram,
vestiram seus trajes de sobrevivência e armaram-se.
Bashira ergueu-se e se alongou. Rodes virou-se para ela e
disse: “Não encontramos nenhum sinal dos seus homens. Vamos
descer aos níveis inferiores para nos certificarmos de que não há
mais ninguém aqui além de nós.”
“Eu vou junto.”, ela disse. Antes que eles pudessem dizer
qualquer coisa, ela acrescentou: “Estou informando que irei junto.
Não estou pedindo, ok?”
Bashira vestiu um dos trajes de sobrevivência que jaziam
largados pela grande sala e armou-se com um cassetete de
plastômero e um fuzil FAMAS. Além dos fachos de luzes azuis
emitidas do alto dos seus capacetes, eles instalaram lanternas nas
duas pistolas de Rodes e nos fuzis carregados por Henry e Bashira.
Rodes e Henry removeram a barricada improvisada que
haviam feito na porta e a abriram. Eles adentraram um aposento
circular, com paredes recobertas de material sintético do tipo
plastmest de coloração cinzenta. Ao centro, uma escada em espiral
feita do mesmo material levava ao andar superior e também aos
níveis inferiores. Rodes foi o primeiro a descer, os braços
estendidos empunhando as duas Sig Sauer P-2022. Henry e
Bashira vieram logo atrás, seus passos pesados ecoando a cada
degrau ultrapassado.
Ao final da escada eles se depararam com um longo
corredor escavado na pedra bruta. As paredes avermelhadas e
irregulares criavam pequenos nichos que ocultavam sombras.
Uma dezena de portas corroídas pela ferrugem se distribuía ao
longo do corredor, que terminava em uma grande passagem
parcialmente bloqueada por entulhos. Henry imaginou caminhar
em direção a uma boca aberta cheia de dentes quebrados e afiados.
Lentamente, um passo de cada vez, eles avançaram
corredor adentro. Uma leve brisa vinha da bocarra, silvando por
entre os entulhos.
Eles chegaram às primeiras portas do corredor. A da
direita encontrava-se aberta, e era uma pequena sala abandonada,
provavelmente um depósito. A da esquerda estava fechada.
Henry tentou abri-la à força, mas estava emperrada. Uma gota de
suor escorreu por sua careca e veio terminar em seu grande
queixo, mas ele não tinha como enxugá-la, já que estava de
capacete.
O trio continuou avançando. Bashira havia acabado de
passar pela porta fechada quando um ruído surdo vindo de trás
dela chegou os seus ouvidos. Os três apontaram suas armas para a
porta, mas não houve mais barulho algum, apenas aquela única
pancada no metal e depois o silêncio.
Henry tentou abrir a porta novamente, sem sucesso.
Bashira foi a primeira a perceber que a porta estava soldada a
partir do lado de fora.
“Rodes, Mandíbula, vejam!”, ela apontou sua iluminação
ao longo de todo o perímetro da porta. “A porta foi soldada!”
Henry correu a mão direita sobre todos os pontos de solda
e disse: “A solda é recente.”
“Traga o maçarico, rápido. Não temos um segundo a
perder.”, disse Rodes.
Enquanto Henry subia em busca do maçarico, Rodes e
Bashira tentaram em vão abrir a porta. Um minuto depois os três
trabalhavam removendo os pontos soldados, fazendo com que
uma chuva de fagulhas voasse sobre as cúpulas dos seus
capacetes. Levaram cerca de dez minutos para abrir a porta. Henry
a puxou de lado, e desta vez ela cedeu.
A luz das lanternas revelou quinze corpos nus caídos no
chão de um pequeno depósito semelhante ao da porta aberta do
outro lado do corredor. Tudo indicava que os policiais que
acompanhavam Bashira foram rendidos e aprisionados dentro do
pequeno recinto sem ventilação, onde morreram asfixiados. Um
deles encontrava-se caído próximo à porta, e ao ouvir a
movimentação do lado de fora havia batido nela, num último
esforço para tentar salvar a sua vida. Rodes e Henry ainda
tentaram reanimá-lo, mas o homem já estava morto.
Bashira desabou no chão. “Não pode ser. Co... Como
fomos dominados tão facilmente? O homem de branco. Maldito.
Ele... ele tem que pagar por isso, Rodes!”, ela gritou, socando o
chão.
Rodes e Henry a levantaram pelos braços. “Levante,
Bashira. Vamos voltar ao nosso refúgio. Precisamos decidir os
nossos próximos passos. Você ainda não sabe toda a história.”,
disse Rodes.
Eles retornaram ao andar superior e refizeram a barricada
na porta. Não tiraram os trajes, e permaneceram com suas armas
ao alcance. Rodes entregou o computador portátil à Bashira e
passou a hora seguinte explicando tudo o que ele sabia. Ao
término da última gravação, Rodes foi o primeiro a falar.
“Vamos aos fatos. Vinte e um dias atrás um meteoro caiu
próximo a Netuno. Sabemos que o meteoro é na verdade um tipo
de transporte, e que trouxe, segundo as gravações que acabamos
de ver, quatro tripulantes, além de uma quantidade razoável de
água. O homem de branco que fala russo possivelmente é um dos
tripulantes.”, disse ele.
“Certo.”, concordaram Henry e Bashira.
“Pois bem. O pessoal de Netuno foi até o local da queda e
retornou com diversos caminhões carregados de água, além dos
tais tripulantes. Dias depois, várias pessoas morreram de forma
misteriosa, e um levante teve início.”, continuou Rodes. “A
Governadora Ayla sabia de tudo o que estava ocorrendo. Netuno
apresentou problemas de transmissão.”
Bashira o interrompeu, dizendo: “Que ainda persistem.
Acredito que a fonte de interferência seja o meteoro, ou nave, ou
seja lá o que for aquilo. Nossas transmissões também foram muito
prejudicadas.”
Rodes concordou e continuou. “O pedido de ajuda chegou
apenas até Urano. Nossa Governadora, percebendo algum tipo de
oportunidade, decidiu manter tudo em segredo, e enviou uma
equipe de reconhecimento para coletar mais informações. Não
tinha intenção alguma de ajudar a população de Netuno. No
entanto, as informações coletadas por Bashira e sua equipe a
intrigaram ainda mais, de modo que ela teve que pedir a minha
opinião para avançar em suas investigações. Infelizmente para ela,
o Mandíbula me tirou da prisão, e agora nos encontramos os três
aqui, sozinhos e sem saber como agir.”, concluiu Rodes.
“Temos que voltar a Netuno. Pode ser que algum dos
meus homens ainda esteja vivo. Não posso deixá-los ter o mesmo
destino dos outros. Preciso ter certeza...”, disse Bashira,
desanimada.
“Concordo com a Bash. Não podemos dar as costas aos
nossos colegas.”, disse Henry.
Rodes encontrava-se num dilema. Por um lado, ele
concordava com Bashira e Henry. Aqueles homens eram seus
colegas de profissão. Mas, no fundo, ele acreditava que eles
estavam mortos. O comportamento do homem de branco e seus
seguidores até aquele momento era um forte indício de que os
policiais não seriam poupados. Mas ele achava que tinha uma
obrigação ainda maior a cumprir. Independente do que ocorria
naquele exato instante em Netuno, os crimes cometidos pela
Governadora Ayla não podiam passar de forma impune. Rodes
precisava de qualquer maneira levar suas denúncias até o
Conselho na Estação Sol. Ele expôs suas dúvidas aos dois.
Bashira foi irredutível em sua decisão. “Concordo que a
Governadora mereça pagar por tudo o que fez até agora. Mas ela
está a três dias de distância dos meus punhos, enquanto que
aquele desgraçado do homem de branco está a poucos quilômetros
de distância!”
Ela era assim, dura como uma pedra. Rodes sabia disso
muito bem. “Senhora Alex DeLarge.”, pensou.
“Eu proponho o seguinte...”, disse Henry. “Vamos até
Netuno para descobrir mais sobre o que está acontecendo. Temos
a vantagem deles não saberem que estamos aqui, o elemento
surpresa está a nosso favor. Se ainda for possível fazer algo pelos
Agentes capturados, faremos o que estiver ao nosso alcance. Mas,
antes de irmos, sugiro deixarmos aqui na subestação Bassae uma
gravação contando tudo o que sabemos. Caso não consigamos sair
dessa enrascada com vida, ainda existe a possibilidade de alguém
algum dia descobrir o nosso depoimento, e quem sabe a justiça
acabe sendo feita.”
Contrariado, Rodes aceitou a proposta de Henry. Claro
que a chance de alguém achar os seus depoimentos era
praticamente nula, mas era melhor do que nada. Utilizaram o
computador portátil de Rodes para realizar a gravação. Os três
participaram, detalhando o que haviam feito e sabiam da melhor
maneira possível. Deixaram o computador em um lugar protegido,
mas que ainda assim chamasse a atenção de algum andarilho que
porventura viesse a visitar a subestação Bassae. Em seguida, eles
se deitaram para dormir aquelas que poderiam ser as suas últimas
horas de sono.
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