encontros teológicos 67

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encontros teológicos 67
Faculdade Católica de Santa Catarina – FACASC
Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC
ISSN 1415-4471
http://www.facasc.edu.br
FUNDAÇÃO DOM JAIME DE BARROS CÂMARA
FACULDADE CATÓLICA DE SANTA CATARINA – FACASC
INSTITUTO TEOLÓGICO DE SANTA CATARINA – ITESC
[Catalogação na fonte por Daurecy Camilo (Beto)]
CRB-14/416
Encontros Teológicos. Revista da Faculdade Católica de Santa Catarina – FACASC
e do Instituto Teológico de Santa Catarina – ITESC, n. 67, Florianópolis, 2014.
Quadrimestral ISSN 1415-4471
I. Instituto Teológico de Santa Catarina
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ENCONTROS TEOLÓGICOS
Revista quadrimestral fundada em 1986
Diretor: Elias Wolff
Editor: Vitor Galdino Feller
Redator: Ney Brasil Pereira
Conselho Editorial:
Celso Loraschi – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Domingos Nandi – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Edinei da Rosa Cândido – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Elias Wolff – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Helcion Ribeiro – PUC – Curitiba, PR
Inácio Neutzling – UNISINOS – São Leopoldo, RS
João Batista Libânio – ISI-FAJE – Belo Horizonte, MG
José Artulino Besen – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Lilian Blanck de Oliveira – FURB – Blumenau, SC
Luiz Carlos Susin – PUC-RS e ESTEF – Porto Alegre, RS
Márcio Fabri dos Anjos – Pontifícia Faculdade N. Sra. da Assunção – São Paulo, SP
Maria Clara Bingemmer – PUC-RJ, Rio de Janeiro, RJ
Maria de Lourdes Pereira Dias – UFSC – Florianópolis, SC
Marlene Bertoldi – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Ney Brasil Pereira – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Rudolf von Sinner – EST – São Leopoldo, RS
Valter Maurício Goedert – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Vilmar Adelino Vicente – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Vitor Galdino Feller – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
CoNSELHO CONSULTIVO:
Analita Candaten – Centro de Fomação Scalabriniana – Passo Fundo, RS
Armando Lisboa – UFSC – Florianópolis, SC
Cecília Hess – UNIVILLE – Joinville, SC
Érico Hammes – PUC-RS – Porto Alegre, RS 
Evaristo Debiasi – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Fábio Régio Bento – UNISUL – Tubarão, SC
Gabriele Cipriani – CONIC – Brasília, DF
Joaquim Cavalcante – Universidade Estadual de Goiás – Itumbiara, GO
Luís Dietrich – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Luís Inácio Stadelmann SJ – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Márcio Bolda da Silva – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Marta Magda Antunes Machado – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Paulo Cezar da Costa – PUC-Rio, Rio de Janeiro, RJ
Roberto Iunskovski – UNISUL – Florianópolis, SC
Sérgio Rogério Junqueira Azevedo – PUC-PR – Curitiba, PR
Siro Manoel de Oliveira – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Vilson Groh – FACASC/ITESC – Florianópolis, SC
Nota: O autor de cada artigo desta publicação assume a responsabilidade das opiniões que expressa.
Publicação dirigida aos agentes de pastoral das igrejas e aos professores universitários, pesquisadores e alunos nas áreas da Teologia, das Ciências da Religião e Ciências Humanas em geral, com o
objetivo de favorecer a formação religiosa, social e humana, promover o debate e incentivar a troca de
informações sobre temas teológicos, pastorais e sociais.
Sumário
Editorial ....................................................................................................... Igreja e Palavra, da Dei Verbum à Verbum Domini
Johan Konings..........................................................................................................
Nova Evangelização e anúncio da Palavra à luz da Dei Verbum
Johan Konings..........................................................................................................
Nova Evangelização e Celebração Litúrgica à luz da Sacrosanctum
­ oncilium
C
Gustavo Haas............................................................................................................
Igreja e Eucaristia: Da Sacrosanctum Concilium à Sacramentum Caritatis
Gustavo Hass............................................................................................................
Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um
princípio
Leo Pessini................................................................................................................
Bioética e o futuro pós-humano: Ideologia ou utopia, ameaça ou esperança?
Leo Pessini................................................................................................................
Nova Evangelização para a transmissão da fé: Ecos do Sínodo dos Bispos
Dom Leonardo Ulrich Steiner...................................................................................
Evangelii Gaudium, Lumen Fidei: A Alegria do Evangelho é a Luz da Fé
Interpelações do Papa Francisco para a Igreja de hoje
Pe. José Artulino Besen............................................................................................
FACASC – dois anos: Algumas notas reflexivas sobre a Faculdade Católica
de Santa Catarina
Pe. Edinei da Rosa Cândido.....................................................................................
Diplomacia y el arte de la esperanza
7
13
25
35
51
73
107
131
151
173
Daniel Ramada Piendibene......................................................................................
181
Recensões .................................................................................................... 189
Crônicas........................................................................................................ 203
(Faça uma cópia, caso não queira recortar esta página da revista!)
Editorial
Nova evangelização e teologia é o tema deste número de Encontros
Teológicos, como registro do último Congresso Teológico de nossa
Faculdade, realizado de 02 a 06 de setembro passado: Nova evangelização e teologia, em diálogo com o mundo moderno. O Congresso tinha
como objetivo debater teologicamente grandes questões que hoje se
põem à nova evangelização, tema que havia sido tratado no sínodo dos
bispos de 2012: Nova evangelização para a transmissão da fé. Quatro
questões estiveram na pauta de nossa reflexão: o anúncio da Palavra,
a celebração da Eucaristia, a prática social da Caridade e a promoção
e defesa da Vida. Quisemos, assim, concentrar a reflexão ao redor dos
três múnus (ou mesas) pelos quais o Cristo Senhor atua na Igreja e no
mundo – os múnus da Palavra, da Liturgia e da Caridade – vistos na
ótica da Bioética, da promoção e defesa da Vida. Pudemos contar com a
reflexão de quatro eminentes teólogos, cada um dos quais proferiu duas
conferências. Infelizmente, por motivos estranhos a nós, não contamos,
neste número, com as duas conferências de um deles, ambas de corte
teológico-cultural e político-social, que trataram da prática da caridade
cristã a partir dos documentos sociais da Igreja e de seu diálogo com
o mundo contemporâneo.
Duas conferências, proferidas pelo biblista Johan Konings, professor da Faculdade Jesuíta (FAJE), de Belo Horizonte, trataram do
anúncio da Palavra. A primeira delas, com o título Igreja e Palavra, da
Dei Verbum à Verbum Domini, faz um apanhado histórico da evolução
do magistério católico a respeito da Palavra de Deus, desde o Concílio
Vaticano II até os nossos tempos, mostrando como a leitura mais atenta
e meditada e praticada da Palavra e a necessidade de responder aos
desafios colocados pelos novos tempos da modernidade e da pós-modernidade foram abrindo a consciência teológico-pastoral da Igreja para
a valorização dos métodos de interpretação bíblica (histórico, crítico e
literário), para a assunção das questões da hermenêutica e para leituras
perspectivistas (libertacionista, sociológica, feminista etc.), excluindo
sempre o fundamentalismo. Faz, então, profunda consideração sobre
os avanços da Exortação apostólica Verbum Domini, de Bento XVI, em
relação à Constituição Dei Verbum do Concílio Vaticano II. A Verbum
Domini acentua a hermenêutica bíblica, insiste na alimentação pessoal
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pelo contato direto com a Escritura e na leitura orante e comunitária da
Palavra, convida os presidentes das celebrações a fazerem da homilia
uma verdadeira contemplação da Palavra em vista de sua prática no
cotidiano da vida. O artigo salienta alguns aspectos novos da Verbum
Domini: o “acontecer” da Palavra para nós e para o mundo; o diálogo de Deus conosco na história da salvação, através da Palavra que
veio a encarnar-se na forma humana; a Igreja como casa da Palavra,
casa que em comunidade acolhe e lê, medita, contempla e pratica a
Palavra; o mundo como destinatário da Palavra, chamado a acolher
a Palavra e deixar-se transformar por ela. A nova evangelização exige
que se ponha a Palavra no centro. O que evangeliza não são devoções,
doutrinas, normas éticas ou disciplinares. O que realmente evangeliza
é a Boa Notícia da Palavra de Deus que veio a nós na encarnação de
seu Filho Jesus Cristo.
A segunda conferência de Konings tem por título: Nova evangelização e anúncio da Palavra à luz da Dei Verbum. O autor começa lembrando que o tema da nova evangelização tornou-se explícito na Igreja
apenas dez anos após o Concílio Vaticano II, por ocasião do sínodo de
1974 e a consequente publicação da Exortação apostólica Evangelii
Nuntiandi, de Paulo VI. É um tema que encontra seus traços germinais
no Decreto Ad Gentes. Embora inicialmente e por algum tempo o tema
da nova evangelização não se tenha referido à Dei Verbum, pode-se, no
entanto, perceber que há uma relação íntima entre essas duas expressões
da Igreja: a atenção dada pelo Concílio à revelação de Deus na Dei
Verbum e o desafio atual de uma nova evangelização para a transmissão
dessa divina revelação e da fé que lhe corresponde.
Duas conferências, proferidas pelo ilustre liturgista Gustavo Haas,
professor da Faculdade de Teologia da PUC-RS, de Porto Alegre, trataram da celebração da Liturgia. No texto intitulado Nova evangelização e
celebração litúrgica à luz da Sacrosanctum Concilium, o autor apresenta
inicialmente o sentido que o Concílio quis dar à liturgia como ação de
Cristo que louva o Pai no cumprimento de sua vontade e, desse modo,
realiza um trabalho benéfico em favor da Igreja e de toda a humanidade. A liturgia da Igreja nada mais é do que a própria ação de Cristo,
celebrada mediante sinais sensíveis. Não é ação humana, marcada pelo
pelagianismo da eficiência e do sucesso humanos, mas ação do próprio
Deus: divina liturgia. Assim, e somente assim, como “fonte e cume” da
vida cristã e não só como meio e função, a Liturgia também evangeliza.
Daí a necessidade de rejeitar toda forma de instrumentalização e fun-
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cionalização da liturgia, que não está a serviço de algo, mas que já é o
“serviço” do próprio Deus em nosso favor. O modo próprio de a Liturgia
evangelizar, isto é, de anunciar a Boa Nova, é celebrar a Boa Nova. O
autor conclui sua reflexão apresentando diversas sugestões concretas
para fazer da Liturgia um campo efetivo de nova evangelização.
Com o título Igreja e Eucaristia. Da Sacrosanctum Concilium à
Sacramentum Caritatis, a segunda conferência de Haas inicia fazendo
um rápido apanhado dos textos conciliares e dos documentos pós-conciliares que tratam desse sacramento central da fé cristã, insistindo em
aspectos teológicos do Vaticano II sobre a Eucaristia: a visão conjunta
dos diversos aspectos do sacramento (celebração e culto, sacrifício e
memorial, Palavra e Eucaristia, pão e vinho, comunidade e ministros,
presença real e compromisso dinâmico, banquete e sacrifício etc.); a
dimensão pascal desse sacramento (memorial da morte e ressurreição de
Cristo); o papel ativo da assembleia celebrante; a dimensão missionária
da Eucaristia; a nobre simplicidade e sobriedade dos ritos litúrgicos.
Uma leitura da Oração Eucarística V faz, em seguida, bela reflexão sobre
a relação entre Eucaristia e Igreja, para mostrar que a finalidade da
Eucaristia é construir o corpo eclesial de Cristo, para descobrir que a
importância da Eucaristia não é a produção da presença real de Cristo
no pão e no vinho, mas a presença de Cristo na Igreja e, através dela,
na humanidade e no mundo.
O célebre estudioso de bioética, Leo Pessini, proferiu duas conferência sobre esse tema tão atual e tão desafiador para a nova evangelização. Na primeira delas – Bioética aos 40 anos: o encontro de um
credo com um imperativo e um princípio – o autor retoma as origens
históricas da bioética ressaltando a importância de três protagonistas:
Van Rensselaer Potter, dos EUA, com seu credo bioético e o conceito
de bioética como ponte para o futuro; Fritz Jahr, da Alemanha, com seu
imperativo bioético: “respeite todo ser vivo, como princípio e fim em
si mesmo e trate-o, se possível, enquanto tal”; e Hans Jonas, filósofo
judeu-alemão, com seu princípio de responsabilidade e sua proposta de
que o homo faber não domine o homo sapiens. O autor conclui lançando o desafio: “os valores apontados a serem defendidos, proclamados
e protegidos nestes elementos – credo, imperativo e princípio – nos
levam ao berço do pensamento bioético e nos projetam para o amanhã
da humanidade com esperança”.
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Na conferência intitulada Bioética e o futuro pós-humano: ideologia ou utopia, ameaça ou esperança?, o autor desenvolve sua reflexão
nos seguintes pontos: a) conceituação e usos da biotecnologia, onde
apresenta esta ciência como forma de empoderamento humano, pelo
qual o ser humano pode controlar sua vida, diminuir sua sujeição à
dor e até, utopicamente, superar as limitações constitutivas da natureza
humana; b) entusiasmo e inquietações da idade de ouro das descobertas
biotecnológicas; c) conceitos de terapia e melhoramento; d) origens e
fundamentos do movimento pós-humanista; e) questões éticas inevitáveis;
f) o embate entre os chamados trans-humanistas e os bioconservadores;
g) a discussão sobre o sentido do conceito de dignidade humana neste
contexto. O autor conclui que é tarefa da bioética levantar as questões
não formuladas e aprofundar as questões para além da embalagem ideológica ou fundamentalista em que é envolta, para superar a gangorra
entre ameaças e esperanças, entre ideologias e utopias e alcançar referenciais éticos que ajudem a discernir entre as transformações salutares
e as destrutivas.
Dom Leonardo Ulrich Steiner, secretário geral da CNBB, proferiu
a conferência intitulada Nova evangelização para a transmissão da fé.
Ecos do Sínodo. Começa apresentando a dinâmica do sínodo, considerando os Lineamenta, seguidos pelo Instrumentum Laboris, textos que
foram, cada qual a seu tempo, estudados nas bases eclesiais em preparação para o sínodo. Trata, em seguida, da temática da nova evangelização,
desde quando entrou no debate teológico-pastoral, germinalmente com
o Concílio Vaticano II e, depois, com a Exortação Apostólica Evangelii
Nuntiandi, até a proposta de João Paulo II que, em 1992, propôs uma
nova evangelização “com novo ardor, novos métodos e nova expressão”.
Por fim, entra no tema sinodal, apresentando como ecos do sínodo sua
mensagem e suas propostas ou proposições.
Pela semelhança de temática, publicamos neste número monográfico sobre nova evangelização e teologia, em diálogo com o mundo
moderno a aula inaugural da FACASC no início deste ano de 2014. José
Artulino Besen, especialista em História da Igreja, professor emérito do
ITESC e pesquisador da FACASC, nos brindou com uma conferência
intitulada Evangelii Gaudium, Lumen Fidei: a alegria do Evangelho é a
luz da fé. Interprelações do papa Francisco para a Igreja de hoje. Inicia
apresentando dados biográficos e características do pensamento e da
ação pastoral de Jorge Mário Bergoglio, para apresentar, em seguida,
o espírito que anima Francisco: a concentração na figura de Jesus e a
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dimensão luminosa da fé. Detém-se nos gestos e iniciativas programáticas do papa Francisco e insiste nas prioridades de seu pontificado: a
mensagem da misericórdia, a atitude de humildade e aproximação, a
espiritualidade da pobreza evangélica, a abertura missionária e dialogal
da Igreja. Por fim, trata de pontos essenciais da Exortação Apostólica
Evangelii Gaudium através dos quais se pode sonhar e trabalhar pela
reforma da Igreja.
Valem para nós as palavras finais de Bento XVI na conclusão do
sínodo de 2012: “Para mim, foi verdadeiramente edificante, reconfortante e encorajante ver aqui o espelho da Igreja universal com os seus
sofrimentos, ameaças, perigos e alegrias, experiência da presença do
Senhor também em situações difíceis. Ouvimos como a Igreja também
hoje cresce, vive (...). Vemos também como hoje, onde não se esperava,
o Senhor está presente e poderoso e o Senhor opera também através do
nosso trabalho e das nossas reflexões. Mesmo se a Igreja sente ventos
contrários, todavia sente, sobretudo, o vento do Espírito Santo que nos
ajuda, nos mostra o caminho certo; e assim, com novo entusiasmo, me
parece, estamos no caminho e agradecemos ao Senhor porque nos deu
este encontro verdadeiramente católico”.
Seguem ainda, antes das recensões e crônicas, dois artigos fora
do tema monográfico: um, sobre a nossa própria Faculdade Católica,
a FACASC, com o título de “Algumas notas reflexivas” a seu respeito,
e outro, no original espanhol, uma contribuição sobre a Diplomacia
como “arte da esperança”.
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Resumo: Depois de situar o contexto histórico do Vaticano II, o autor começa
mostrando a relação entre a Dei Verbum, do Concílio, e a sua releitura, 45 anos
depois, a Verbum Domini, de Bento XVI. Mostra que a Verbum domini acentua
o processo hermenêutico, e insiste na perspectiva pastoral: a Bíblia não só
deve ser a “alma da Teologia” (DV 24), mas toda a pastoral deve ser bíblica
(VD 73-75), Explica como se entende “o acontecer da Palavra para nós e para
o mundo”, e sintetiza as três partes da Verbum Domini: “a Palavra de Deus”, “a
Palavra na Igreja”, e “a Palavra no mundo”. Concluindo, propõe o que se deve
entender como “Nova Evangelização”.
Abstract: In an attempt to situate the historical context of Vatican II, the author
begins by demonstrating the relationship between the document Dei Verbum of
the Council and its acceptance 45 years afterwards as it was used by Benedict
XVI in the document Verbum Domini. It shows quite explicitly that Verbum Domini
stresses the hermeneutic process and insists on the pastoral perspective, since
the Bible should not only be “the soul of Theology” (DV 24) but of the entire pastoral activity (VD 73-75). He explains how “the Word becomes reality for us and
for the world”, as he synthesizes the three parts of Verbum Domini: “the Word
of God”, “the Word in the Church”, and “the Word in the world”. In conclusion he
shows forth what is meant by the “New Evangelization”.
Igreja e Palavra, da Dei Verbum
à Verbum Domini
Johan Konings*
* O autor é padre jesuíta, Doutor em Teologia pela Universidade de Louvain e Professor
na Faculdade de Teologia da Companhia de Jesus, FAJE, em Belo Horizonte, MG,
autor de muitos livros e artigos na área bíblica.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014, p. 13-24.
Igreja e Palavra, da Dei Verbum à Verbum Domini
1 Novos “sinais do tempo”, sinais de um novo
tempo...
Ninguém poderá negar o impacto renovador do Concílio Vaticano
II. Ele respondeu ao que os sinais do tempo advertiam. Em sua esteira,
um reavivamento espiritual, um novo Pentecostes renovou a Igreja. As
celebrações litúrgicas, doravante celebradas com maior simplicidade,
em vernáculo e de face voltada para o povo, eram sinal da nova consciência eclesial e também da percepção de um Deus próximo, o Pai
de Jesus Cristo. O clero, os religiosos e os demais fiéis ficaram mais
próximos uns dos outros. Multiplicaram-se as iniciativas ecumênicas.
A Igreja “pobre e serva”, preconizada por padres conciliares como os
Cardeais Léger e Lercaro e os bispos Helder Câmara e Proaño, para
citar apenas alguns, parecia tomar corpo nas obras de solidariedade do
mundo inteiro e, sobretudo, nas comunidades de base, caracterizadas
por seu colorido autóctone e pela participação ativa de todos. Paróquias
foram confiadas a religiosas, a ministros e ministras leigos, chamados
do meio do povo eclesial. Religiosos e, sobretudo, religiosas, deixaram
seus poderosos institutos para se inserirem no meio do povo simples e
participarem de suas lutas. Desdobrou-se uma vitalidade sem par, com
figuras emblemáticas como Dom Casaldáliga e tantos outros, nas novas
fronteiras da missão.
No campo bíblico, a leitura com o povo simples se alastrou pelo
Brasil e pela América Latina afora. A abertura mostrada pela Dei Verbum
foi confirmada pelo documento da Pontifícia Comissão Bíblica de 1993
sobre a “Interpretação da Bíblia na Igreja”, aos cem anos da Providentissimus Deus de Leao XIII e os 50 anos da Divino Afflante Spiritu de Pio
XII. Esse documento, de fato, no espírito de seus ilustres antecessores,
escancarou a porta não só para os métodos histórico-crítico-literários, mas
também para as questões da hermenêutica e das leituras perspectivistas
(sociológica, feminista etc.). Só rechaçou o fundamentalismo...
Entretanto, o mundo começou a mudar radicalmente. Já antes do
Concílio alastrara-se o movimento hippie, sinal confuso de que as antigas
certezas culturais não mais ditavam a norma. Depois, em 1968, eclodiu,
entre os universitários de Paris-Nanterre, a Revolução de Maio. Parecia
um tsuname de esquerdismo marxista. Na realidade, porém, olhando
a distância, parece que foi um primeiro sinal da pós-modernidade. Os
elevados discursos da social-democracia europeia concebidos nos dias
do pós-guerra não convenciam mais.
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Johan Konings
No plano político, os Estados Unidos estavam atolados na lama
da guerra do Vietnã. O Terceiro Mundo se erguia. A África se livrava
da dominação política (da econômica, por enquanto, não). Na América
Latina, o exemplo de Cuba incentivou o sacerdote guerrilheiro Camilo
Torres, o emblemático Ché Guevara, os sandinistas em Nicarágua. Mas,
logo, sob o pretexto do combate ao comunismo e financiada pela Comissão Trilateral, alastrava-se a reação dos governos militares, instalados no
Brasil, em 1964, e posteriormente no Chile e na Argentina.
As democracias populares, como, eufemisticamente, se chamavam
os regimes fechados do bloco soviético, foram desmoronando. Depois das
insurreições na Hungria e na Checo-Eslováquia, depois da tentativa de
abertura de Gorbachov na Rússia e a revolução nacionalista da Polônia,
caiu, em 1989, o muro de Berlim. Impulsionada pelas megafusões de
bancos e empresas, chegou a globalização neoliberal, transformando o
mundo num grande mercado de produção para o consumo, defendido
pelos Prêmios Nobel de Economia, Hayek e Friedman, e considerado,
por Francis Fukuyama, “o fim da história”.
O mundo foi se tornando sempre mais multicultural. Contudo,
logo se percebeu que, nem o sonhado socialismo mundial, nem o neoliberalismo capitalista conseguiram expulsar a desigualdade e a miséria.
Ao contrário, aumentaram. Com um agravante: até a natureza parece não
mais suportar as pegadas elefantescas da humanidade, que está queimando seu próprio ambiente vital: o problema ecológico. Para reagir, surge
o Fórum Mundial: um outro mundo deve ser possível, porém, somente
mediante radical transformação da relação do homem com a sociedade
e com a natureza.
O poético otimismo dos hippies e a perspectiva ingênua de um
mundo melhor transformaram-se em sentimento de crise generalizada.
A depressão está se tornando, além de uma praga econômica, também a
doença privilegiada do início do século XXI. O pensamento perde suas
certezas. Contra o predomínio da racionalidade instrumental, preconizase a “razão débil”, que foge das certezas absolutas. Os espíritos mais
ortodoxos veem o perigo de um “relativismo absoluto”, paradoxo que
aponta para o niilismo.
No terreno religioso, confusão total. As religiosidades bem assentadas – o catolicismo, o protestantismo histórico, o Islã dos sábios – estão
sendo acuadas por movimentos fundamentalistas e/ou pseudo-místicos. O
que inicialmente parecia um retraimento do religioso – a secularização,
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Igreja e Palavra, da Dei Verbum à Verbum Domini
a “morte de Deus” – deu lugar, primeiro a “um rumor de anjos”1 e, logo
depois, a movimentos religiosos delirantes e até beligerantes. Entretanto,
a Igreja Católica sofre consideráveis baixas lá onde ela teve seu epicentro, na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, e sinais semelhantes
aparecem na América Latina2.
É a esta luz que devemos ver o Sínodo sobre a Palavra de Deus
(2008) e a Exortação Apostólica Verbum Domini do Papa Bento XVI
(2010). E, em seguida, o Sínodo sobre a Evangelização, em 2012.
2 A Dei Verbum e a Verbum Domini
No dia 30 de Setembro de 2010, na festa de São Jerônimo, padroeiro dos biblistas, o Papa Bento XVI publicou a Exortação apostólica
pós-sinodal Verbum Domini sobre a Palavra de Deus na vida e na missão
da Igreja. Este documento leva à Igreja inteira, com o respaldo do Sumo
Pontífice, a riqueza da XII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos
Bispos, realizado em Roma em 2008, sob o lema A Palavra de Deus
na vida e na missão da Igreja. O Papa reproduz com fidelidade o pensamento dos mais de duzentos e cinquenta bispos que representaram as
respectivas Conferências Episcopais, do mundo inteiro.
Como expus alhures3, o Sínodo de 2008 e a Exortação Verbum
Domini, para a qual ele deu a base, fornecem uma releitura da Dei Verbum, no novo contexto, quase meio século depois. Vale lembrar que o
Sínodo dos Bispos é uma instituição permanente, criada pelo Vaticano
II para acompanhar a recepção do Concílio e estimular sua atualização
na acelerada mudança dos tempos que estamos vivendo. Assim, em
2008, a XII Assembleia Geral do Sínodo dobrou-se sobre a recepção e
atualização da Dei Verbum. Esta assembleia ampliou o título do último
capítulo da Dei Verbum, “A Sagrada Escritura na vida da Igreja”, no
subtítulo do novo documento: “A Palavra de Deus na vida e na Missão
da Igreja”. Isto, porque a Palavra de Deus é mais do que a Bíblia; e
porque a Igreja é comunidade em missão, como já tinham sublinhado
16
1
Cf. BERGER, Peter L. Rumor de Anjos: a Sociedade Moderna e a Redescoberta do
Sobrenatural. Petrópolis: Vozes, 1997.
2
Cfr. o recente censo do IBGE http://www.ibge.gov.br/censo2010/
3
KONINGS, J. A exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini. Revista Eclesiástica
Brasileira (Petrópolis), v. 71, n. 281, p. 87-123, jan. 2011.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
Johan Konings
os papas Paulo VI, na Exortação Evangelii Nuntiandi, e João Paulo II,
na Redemptoris Missio.
A Verbum Domini atualiza o documento conciliar por alguns
avanços. Em primeiro lugar, aprofunda a hermenêutica bíblica. A Dei
Verbum, na linha da Divino Afflante Spiritu de Pio XII, insistiu no empenho dos exegetas em descobrir o sentido do autor nos textos bíblicos.
A Verbum Domini acentua o processo hermenêutico, que permite que o
ouvinte receba a palavra como palavra viva, hoje, “como o que de fato
ela é: palavra de Deus, que age em vós que acreditais” (1Ts 2,13). Outro
avanço é a perspectiva pastoral: não apenas o estudo da S. Escritura deve
ser a alma de toda a Teologia (cf. Dei Verbum 24), mas toda a pastoral
deve ser bíblica (Verbum Domini 73-75).
Tanto a Dei Verbum como a Verbum Domini insistem na alimentação pessoal pelo contato direto com a S. Escritura e não só através das
reconfigurações oferecidas pela teologia, pelo catecismo e pela leitura
espiritual tradicionais, que são interpretações condicionadas pela época
em que foram elaboradas. A hermenêutica sadia sempre deve voltar às
origens para restabelecer seu movimento circular4. Essa preocupação foi
uma das molas propulsoras da Concílio Vaticano II, tanto na dimensão
bíblica como na litúrgica e na visão da vida religiosa: voltar às fontes,
contato direto. Mas este contato não acontece apenas na leitura individual
ou em cursos bíblicos. A escuta da palavra bíblica na liturgia, a recitação
dos salmos na oração comunitária/divino ofício e a prática da Lectio
Divina são formas de contato direto com a palavra de Deus.
Este contato direto, porém, é apenas um dos polos da relação hermenêutica, ou seja, da interpretação à luz da realidade hoje. Bíblia e vida
se iluminam mutuamente. A Bíblia ilumina a vida, mas a vida proporciona
a atenção, o interesse, o olhar aberto com o qual nos aproximamos da
Bíblia – olhar aberto, não convencimento cego que projeta na Bíblia o
que se quer tirar dela... Os que têm o coração puro, aberto, disponível,
é que verão Deus, também na Bíblia. A reflexão em comunidade é um
meio para evitar cegueira e unilateralidade.
Ora, quem recebe a Palavra é responsável de que ela seja ouvida,
comunicada. Essa comunicação não deve acontecer apenas em igrejas e
capelas. A atual tendência à secularização exige que nos dirijamos aos
4
Cf. KONINGS, J. Interpretar a bíblia aos cinquenta anos do Concílio Vaticano II.
Perspectiva Teológica, v. 44, n. 123, p. 237-256, maio-ago. 2012.
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Igreja e Palavra, da Dei Verbum à Verbum Domini
que desistiram da prática religiosa tradicional ou nunca a conheceram.
Isso, porém, exige um bom preparo, que só se alcança interiorizando em
profundidade a palavra de Deus. Certamente, neste tempo de confusão,
de banalização até das celebrações da Eucaristia, será uma grande diaconia criar momentos de oração e de celebração moldados pela escuta
da Palavra de Deus, nos quais também os “afastados” possam participar
e, inclusive, encontrar diálogo aprofundado.
Finalmente, vale mencionar a arte da homilia, que é matriz e fruto
da hermenêutica bíblica. Na homilia, o fiel deve ser confrontado com a
palavra de Deus em sua vida concreta e com o significado do mistério
celebrado. O momento contemplativo que deve estar presente em toda
a vida cristã alimentará essa arte, evitando o perigo, que já citamos, de
ser “vão pregador da palavra de Deus, externamente, quem a ela não
presta ouvido interiormente”.
À luz dessa situação, aprofundemos brevemente o que diz a Exortação apostólica pós-sinodal Verbum Domini.
3 O acontecer da Palavra para nós e para o mundo
O que, para o teólogo, mais salta à vista é que o Documento fala
da Palavra de Deus como um “acontecer”. Costumeiramente, ao ouvir o
termo “Palavra de Deus” pensamos quase automaticamente num livro, a
Bíblia; e quando se diz “o Verbo de Deus”, pensamos na segunda pessoa
da Santíssima Trindade, Deus Filho. Claro, tudo isso está certo, mas o
Documento quer abrir nosso olhar e nosso modo de pensar para o ato
de comunicação de si mesmo que Deus realiza para conosco, sua autocomunicação ou revelação. Esta é uma realidade maior que a Bíblia. A
Bíblia faz parte da palavra de Deus, mas não é pura e simplesmente “a
Palavra de Deus”. Por outro lado, o evangelista João diz que Jesus é a
Palavra de Deus em pessoa (Jo 1,14 e 16-18). E devemos completar isso
pelo que diz o início da Carta aos Hebreus (Hb 1,1-2): “Muitas vezes
e de muitos modos, Deus falou outrora aos nossos pais, pelos profetas.
Nestes dias, os últimos, falou-nos por meio do Filho...”.
Deus não é um objeto sobre o qual possamos falar como se estivesse disponível à nossa observação. “Ninguém jamais viu Deus” (Jo
1,18; cf. 6,46; 1Jo 4,12). Mas “o Unigênito, que é Deus e está junto do
seio do Pai, este no-lo deu a conhecer” (Jo 1,18). E esse “dar a conhecer”
não é um ensinamento em forma de conceitos, dogmas ou teses, mas uma
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história que se narra ou se expõe, como diz o texto original de João 1,18
(exegésato) pela própria vida de Jesus de. Pela narração do que aconteceu
em Jesus de Nazaré conhecemos a Deus, que ninguém jamais viu. Na
hora de concluir sua história na terra, Jesus dirá: “Quem me viu, viu o
Pai” (Jo 14,9), pois naquela hora ele vai dar sua vida por amor até o fim,
e assim, ele mostra Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).
Esta palavra feita carne é o que se celebra no Natal, festa da
a “Encarnação”. “A Palavra de Deus se fez carne” (Jo 1,14), isto é,
existência humana, vivendo a sua história no meio da nossa história
(“veio morar entre nós”). Esta presença da palavra de Deus na carne
tinha prazo limitado, como todos nós, em nossa existência carnal. Natal
é a festa da Encarnação daquele cuja vida humana nos fala de Deus de
modo decisivo, mais do que qualquer raciocínio poderia elucubrar. Mas
não esqueçamos que esta encarnação se completa na Sexta-Feira Santa,
quando Jesus assume a nossa existência até o fim, dando sua vida por
nós e revelando o verdadeiro rosto do Pai, que é amor. Amor até o fim.
Diz uma catequese antiga: a cruz de Golgotá é da mesma árvore que o
presépio de Belém.
O texto da Exortação Apostólica Verbum Domini do Papa Bento
XVI divide-se em três partes principais: Verbum Dei (“A Palavra de
Deus”), Verbum in Ecclesia (“A Palavra na Igreja”) e Verbum mundo (“A
Palavra para o mundo”). Trataremos sucessivamente destas três partes.
3.1 Verbum Dei, nosso diálogo com Deus
A primeira parte, “A Palavra de Deus”, é uma espécie de teologia
fundamental. Descreve o “acontecer” de Deus-que-fala, porém não como
um comandante (embora o Antigo Testamento o chame ”Senhor Deus dos
exércitos”), e sim, como um amigo (como a Moisés, segundo Ex 33,11). É
também um Deus que escuta (o clamor de seu povo, Ex 3,7.9). Mas antes
de tudo isso, houve a palavra de Deus que chamou à vida a criação e o ser
humano. O falar de Deus é um chamar à vida, um apelo do amor de Deus
ao nosso amor fraterno, um apelo de Deus-amor que nos faz amar e assim
encontrar nossa vida verdadeira, como sugere 1Jo 4,10-12!
O Documento propõe até uma “cristologia da Palavra” (números
11-13). Que quer dizer isso? A cristologia, ou seja, a doutrina sobre Jesus
Cristo, fica muitas vezes reduzida a algumas fórmulas misteriosas: Jesus
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Igreja e Palavra, da Dei Verbum à Verbum Domini
Cristo é a segundo Pessoa da Santíssima Trindade, tem duas naturezas em
uma só Pessoa, é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem...
Tudo isso são fórmulas confiáveis para dirimir as discussões teológicas que se deram por volta do ano 400 depois de Cristo. Mas antes
disso, Jesus é a autocomunicação de Deus: Deus que se dá a conhecer
(portanto, é Deus) em Jesus de Nazaré (portanto, é homem), em tudo o que
este diz e faz. E seu dizer é fazer, pois suas palavras são eficazes, como
a chuva que não volta para cima sem fecundar a terra (cf. Is 55,10-11).
Isso é o que se chama a “condescendência de Deus”: Deus desce
até nós para se manifestar em Jesus. Este, em sua vida humana, é a palavra divina por excelência, tudo o que Deus nos tem a dizer. Nos braços
abertos de Jesus na cruz, Deus nos diz: “Eu vos amo até a morte”. Por
isso, esta palavra, que Deus traz em si desde o princípio (Jo 1,1) é também “escatológica”, final, definitiva. A partir daí percebe-se que a morte
de Jesus não é simplesmente um pagamento feito a Deus por nossos
pecados, como certa catequese simplória sugere, mas um ato livre de
amor até o fim, quando Jesus se defrontou com a parcela do mundo que
desconheceu a condescendência de Deus. A “salvação em Cristo” não
consiste num pagamento que ele saldou em nosso lugar, mas no fato de
nós entrarmos, pela “obediência” (= o “dar ouvidos”) da fé, nesse diálogo
de amor que Deus iniciou e levou a termo em Jesus.
Tal é a Palavra de Deus, e a Bíblia é seu registro escrito e privilegiado, por testemunhar o nascimento de nossa fé em Cristo. Portanto, aquilo
que na Bíblia é decisivo ouve-se no Novo Testamento. A parte maior da
Bíblia, o Antigo Testamento, registrou o que o povo conseguiu entender
de Deus antes que ele tivesse falado e “dado” a sua palavra definitiva, que
é Jesus. Mas o povo de Israel ainda não tinha uma visão clara. Por isso, o
Antigo Testamento deve ser lido à luz do Novo. E não basta ler a Bíblia
como um livro isolado. A Bíblia vem até nos carregada pela comunidade,
que a conserva no espírito que herdou de Jesus – espírito de sabedoria,
para compreender, mas também espírito da prática da vida na caridade,
para fazer aquilo que ela aponta. Pois só fazendo é que se entende “de
verdade”. Assim, a Bíblia faz parte da “Tradição viva”, sem a qual ela
corre o risco de ser letra morta, letra que mata (cf. 2Cor 3,6).
A Escritura participa da “encarnação” de Jesus, que se serviu da
linguagem imperfeita dos antigos israelitas. Até os erros em nossas traduções fazem parte dessa condescendência de Deus, que não se esquivou
das imperfeições humanas (cf. Dei Verbum 13). Assim entende-se que não
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é a letra da Bíblia em si que contém a “verdade para a nossa salvação”,
mas a Bíblia lida conforme a arte da boa leitura, devidamente interpretada, no seio da comunidade e da tradição viva animada pelo espírito de
Cristo. Só assim a leitura da Bíblia é atualização da presença de Jesus
no meio de nós, presença que é uma palavra de amor que nos chama a
realizar nossa vida verdadeira.
3.2 Verbum in Ecclesia, palavra na Igreja
A segunda parte da Exortação Apostólica Verbum Domini, do
Papa Bento XVI e dos Bispos, chama-se “A Palavra na Igreja” (Verbum
in Ecclesia). A parte anterior terminou apontando o papel da Tradição
viva da Igreja, como o rio que carrega a Palavra de Deus através da
vida e da história. O falar de Deus para nós tem seu ponto culminante
em Jesus de Nazaré, que se torna presente a nós na vida e na prática de
sua comunidade. A Igreja acolhe a Palavra, e por isso somos, na vida
da Igreja, contemporâneos de Cristo: ele está, hoje, presente conosco.
De modo implícito, em toda a vida da Igreja, e de modo explícito, na
Liturgia, que já foi chamada “a casa da Palavra”. Não é na discussão com
algum fanático da Bíblia na rua que temos contato vivo com a Palavra,
mas na Liturgia, nas leituras, nos salmos e nas orações, inspiradas pela
Bíblia e pela vida. E, sobretudo, na memória do gesto mais bíblico que
já houve: o gesto de Jesus dando sua vida por nós, e que a Eucaristia
torna presente.
Em todos os sacramentos há um laço intenso com a Palavra – nas
leituras, nos gestos, nas orações –, mas especialmente na Eucaristia.
Na leitura do Evangelho, precedida das outras leituras, presenciamos a
palavra de Cristo; e na consagração do pão e do vinho, o seu gesto. E
os dois nos dão a conhecer a mesma coisa: Deus que nos ama até o fim,
e infinitamente. Entende-se, então, que a celebração por excelência do
cristão é o rito eucarístico completo, a missa, com a mesa da Palavra e
a Mesa do Pão. Pode haver também celebrações da Palavra sem eucaristia, por exemplo, por ocasião de um evento, um dia de estudo, uma
formatura, um casamento, um falecimento, mas essas celebrações não
são as que constituem a celebração central do cristão. Porém: por falta de
sacerdotes, 70% das celebrações dominicais no Brasil são celebrações da
Palavra que, de fato, substituem a missa. Ora, cada comunidade cristã tem
direito a celebrar o Dia do Senhor condignamente, com uma Eucaristia
completa. Então é dever resolver a insuficiência minsterial...
Encontros Teológicos nº 67
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Igreja e Palavra, da Dei Verbum à Verbum Domini
Para que a Palavra habite verdadeiramente nossas comunidades
é preciso preparar pessoas, desde leitores até biblistas e exegetas.
E cuidado especial merece a homilia, objeto de lamentação geral!
Ora, o primeiro preparo é deixar a palavra de Deus falar ao próprio
coração... Daí a importância do silêncio, não apenas na celebração,
mas na vida da gente.
As comunidades e dioceses precisam de uma “pastoral bíblica”
(para olhar de perto as questões pertinentes), mas o ideal é que “toda
a pastoral seja bíblica”, isto é, inspirada pela Palavra de Deus, que na
Bíblia tem sua expressão mais palpável e preferencial.
O Documento insiste na adequada formação dos diáconos, presbíteros, religiosos; no incentivo às comunidades, aos leigos, homens e mulheres, para o estudo bíblico; Insiste, ainda, na interiorização da palavra
por parte de quem a quer levar aos outros. E dedica uma consideração
especial à Lectio Divina, a leitura orante, que comporta: 1) a leitura da
Bíblia com a inteligência e com o coração (englobando o estudo literário,
histórico e teológico, à luz de nossa realidade); 2) depois, rezar o que
se aprendeu, diante de Deus, na oração, interiorizando-o na meditação;
e 3) finalmente, admirar o que se leu e rezou para que seja amado à luz
de Deus, na contemplação.
Aqui cabe uma observação de extrema importância. A prática
que tiramos da leitura bíblica não é meramente o fruto do estudo, mas
da contemplação, porque deve ser fruto do amor. E esta contemplação
amorosa é que nos levará a não fugir das consequências práticas, mas
a acolher com amor o apelo de Deus para levar seu amor até os nossos
irmãos, até o mundo.
3.3 Verbum mundo, palavra para o mundo
Depois de considerar a Palavra de Deus em si e na Igreja, a Exortação Apostólica Verbum Domini, do Papa Bento XVI e do episcopado
mundial, focaliza, em sua terceira e última parte, a Palavra de Deus como
dirigida ao mundo, a toda a humanidade, que necessita de uma palavra
boa e cheia de esperança. Eis a missão da Igreja, desde os primórdios,
desde Paulo e os demais apóstolos: anunciar, a todos, que Deus se deu
a conhecer, se mostrou, e que agora o caminho até Ele está aberto. “A
novidade do anúncio cristão não consiste num pensamento, mas num
fato: Ele revelou se” (n. 92).
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Encontros Teológicos nº 67
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Johan Konings
Até há pouco, fazia-se marcada distinção entre os cristãos estabelecidos (inclusive os padres) e os missionários, que iam ad gentes, como
se diz em latim, isto é, aos pagãos (no Brasil: aos índios). Ora, sabemos
hoje que, a muitos que vivem no assim chamado “mundo cristão”,
nunca se anunciou essa novidade em termos adequados. Por causa do
apagamento mental que reina em nossa sociedade, mas também porque
não se pensou em formular a mensagem de modo penetrante, visto que
todo mundo era considerado cristão, a Palavra ficou encoberta debaixo
de palavras que não dizem nada aos jovens e a muitos outros. Mesmo
os que foram catequizados, será que foram “evangelizados”? Será que
ouviram algo que soava como uma “boa nova”? Ou apenas moralismo,
dogmatismo, rispidez? Sejamos lúcidos e honestos: nossa sociedade não
é evangelizada, e cada dia menos. O pagão está ao nosso lado, até na
igreja, ou, quem sabe, dentro de nós... Não é pagão aquele que, embora
batizado, corre freneticamente atrás do proveito e do consumo, em vez
de encontrar sua paz e alegria em Cristo e no amor eficaz ao próximo?
Por isso, os últimos Papas incentivaram uma “nova evangelização”,
dirigida ao próprio mundo de tradição cristã. E participam dessa missão
não só os bispos, padres e religiosos, mas todos os cristãos, animados
por suas comunidades. Todo o evangelizado é evangelizador5. Ora, essa
missão não se exerce somente pelo (necessário) anúncio da Palavra pela
voz e por escrito. Além de anunciar, é indispensável dar credibilidade a
esta Palavra pelo testemunho vital (n. 97). Existe relação estreita entre o
testemunho da Escritura e o testemunho de vida dos crentes. As Escrituras
explicam o porquê desse testemunho, que parece tão estranho ao mundo.
Testemunho da caridade sem limite, muitas vezes vivido até a morte
violenta, também hoje – e os evangelhos explicam o porquê...
Na vida de todos os cristãos, a Palavra que Deus nos dirigiu em
Jesus é testemunhado no amor e no serviço aos mais pequeninos, no
empenho incansável pela justiça (sem a qual o amor não é verdadeiro),
no empenho pela paz, fruto-obra da justiça, no cuidado pela criação, que
Deus confiou à humanidade. Testemunho que deve penetrar nas culturas
do mundo, porque toda a humanidade é chamada a ser aperfeiçoada
pela Palavra. Isto sugere a importância de uma cultura bíblica espalhada
também em ambientes não cristãos, porém, não tanto por ser a Bíblia
patrimônio cultural da humanidade, mas por causa da palavra do amor
de Deus que ela testemunha, quando bem apresentada.
5
Cf. PAULO VI, Evangelii nuntiandi, n. 24.
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Igreja e Palavra, da Dei Verbum à Verbum Domini
Tudo isso vai muito além de ler algumas frases isoladas da Bíblia,
alguns belos pensamentos que podem ser encontrados também nos livros
de auto-ajuda. A Palavra de Deus é maior que a Bíblia. A Bíblia é o instrumento para nos fazer entrar na esfera da Palavra e para reconhecer sua
autenticidade, isso sim, mas a Palavra é muito mais do que aquilo que
está registrado na Bíblia. A Palavra de Deus chamou à luz o céu e a terra,
e ressoou definitiva e plenamente quando Jesus, na cruz, pronunciou o
consummatum est: “Consumado está”.
4 A “nova evangelização”
À luz do que foi dito, a nova evangelização de que falaram os
últimos Papas será a evangelização de sempre, o “evangelho eterno”,
porém, num mundo totalmente modificado técnica e culturalmente. Esta
modificação epocal exige “novo ardor, novos métodos e novas expressões” (João Paulo II). Aquilo que deve ser renovado, porém, deve-se
alimentar profundamente daquilo que é de “ontem, hoje e sempre”: o
diálogo de amor pelo qual Deus se manifesta nas palavras e nos gestos,
inseparavelmente unidos, de Jesus, sobretudo no seu gesto “consumador”
na cruz, cujo memorial é o centro da celebração cristã.
A nova evangelização não acontecerá se insistir somente nas novas
expressões e não se alimentar do evangelho eterno. A Verbum Domini
indica o caminho: guiados pelo aprofundamento bíblico, na leitura “orante
e contemplante” e na celebração autêntica da Mesa da Palavra e da Mesa
do Pão, deixar acontecer a Palavra de Deus no meio de nós, cristãos, para
o mundo, graças ao nosso testemunho, em palavras e ações, antecipando
e inaugurando um mundo novo, um mundo em que os últimos sejam os
primeiros, pela obra do amor que se doa até o fim, infinitamente.
Endereço do Autor:
Aven. Dr. Cristiano Guimarães, 2127
31720-300 Belo Horizonte, MG
Email: [email protected]
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Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
Resumo: O autor começa lembrando que o tema da Nova Evangelização só
se tornou explícito dez anos depois da Dei Verbum, mas nela encontra-se germinalmente, a partir da consciência do Vaticano II sobre a revelação de Deus
em Jesus Cristo. De fato, é essa revelação que deve ser anunciada, ou seja,
evangelizada, a partir das Escrituras, lidas e interpretadas na Igreja. O autor
lembra, porém, que a Palavra de Deus, embora tenha deixado sua referência
original e segura nas Escrituras, entretanto é muito mais do que elas. Se isto
vale para os “de dentro” da Casa da Fé, vale também para os “de fora” , os
não cristãos, pois o Evangelho, a boa notícia de Jesus, é destinado a todos,
também para eles.
Abstract: The author begins his article calling attention to the fact that the theme
of the New Evangelization became explicit only ten years after Dei Verbum, but its
seed is already inherent in the conscience of Vatican II concerning the revelation
of God in Jesus Christ. Undoubtedly, this revelation has to be announced, that is,
it should be the theme of evangelization on the basis of Scripture to be read and
interpreted in the Church. The author reminds us however that the Word of God,
although leaving aside its original and documented references to the Scriptures,
is much more than what they express in itself. If this is valid to those “inside” the
House of Faith, it is equally valid to those “outside”, that is the non-Christians,
because the Gospel is the Good News of Jesus destined to be proclaimed to all
the people including those who are outside the Christian faith community.
Nova Evangelização
e anúncio da Palavra
à luz da Dei Verbum
Johan Konings*
* O autor é padre jesuíta, Doutor em Teologia pela Universidade de Louvain e Professor
na Faculdade de Teologia da Companhia de Jesus, FAJE, em Belo Horizonte, MG,
autor de muitos livros e artigos na área bíblica.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014, p. 25-34.
Nova Evangelização e anúncio da Palavra à luz da Dei Verbum
1 A semente da Nova Evangelização
na Dei Verbum
O tema da Nova Evangelização ainda não estava sendo explicitado no tempo do Concílio Vaticano II e da Dei Verbum. Só uns dez anos
depois é que o tema se tornaria explícito.
O desenvolvimento da Igreja católica rumo a uma Igreja mundial e
multicultural tornou necessária a reformulação do conceito de evangelização. Dez anos depois do encerramento do Concílio Vaticano II, e
recolhendo os frutos das deliberações do sínodo dos bispos em Roma,
em 1974, dedicado à “evangelização no mundo de hoje”, Paulo VI
publicou a exortação apostólica que, referindo-se ao decreto sobre as
missões “Ad gentes” [...], apresenta as Igrejas particulares e locais
como formas adotadas pela Igreja universal, fala da evangelização das
culturas e assume a “opção pelos pobres” latino-americana.1
Recuando, porém, até o próprio Concílio, encontramos traços iniciais
no Decreto Ad gentes. No n. 6 deste documento a evangelização é apresentada, sobretudo, como acompanhando a implantação nos povos ou grupos em
que ela ainda não está radicada: é a atividade missionária no sentido que este
termo ganhou na modernidade, a missio ad gentes. Pensa-se nos destinatários
no mundo fora da Europa e de sua cristandade tradicional. Porém, ampliando a
perspectiva, o mesmo decreto, a partir do artigo 2 (do n. 13 em diante), dedica
considerações mais universais à evangelização e à conversão, que são os termos
marcantes do resumo do evangelista Marcos ao apresentar o início da atividade
pública de Jesus: “Completou-se o tempo, e o Reino de Deus está próximo.
Convertei-vos e crede na Boa-Nova”. (Mc 1,15). Esta frase nos lembra que a
boa-nova do Evangelho tudo tem a ver com o Reinado de Deus. No Império
Romano o termo “evangelho” era usado, entre outras coisas, para anunciar
um novo imperador e outros eventos do regime. No evangelho de Marcos,
porém, não significa uma alegria passageira e subjetiva, mas a alegria que se
anima com a perspectiva de uma transformação ou renovação na situação do
povo e na estrutura do mundo graças ao agir de Deus.
Falando das igrejas particulares, no capítulo III, o Decreto Ad
gentes evoca o ministério da palavra e reconhece uma situação que já
então, cinquenta anos atrás, estava se tornando universal e hoje se pode
aplicar praticamente a todo o ambiente em que a Igreja está presente.
1
26
DENZINGER, Heinrich; HÜNERMANN, Peter. Compêndio dos símbolos, definições
e declarações de fé e moral. São Paulo: Loyola, 2007, n. 4570, introd.
Encontros Teológicos nº 67
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Johan Konings
Além disso, para o Evangelho chegar a todos, é indispensável o ministério da palavra. É preciso que o Bispo seja, antes de mais, um pregador
da fé, que conduza a Cristo novos discípulos. Para se desempenhar, como
convém, desta nobre incumbência, deve conhecer bem a situação do seu
rebanho, as opiniões íntimas dos seus concidadãos a respeito de Deus,
tomando cuidadosamente em linha de conta as mudanças introduzidas
pela urbanização, migração e indiferentismo religioso. [...] os sacerdotes
nativos empreendam com ardor a obra da evangelização [...] não só para
apascentar os fiéis e celebrar o culto divino, mas também para pregar
o Evangelho àqueles que estão fora. (Ad gentes 20)2
A diferença com hoje é que a situação a que visam estes parágrafos não é apenas a do Terceiro Mundo atingido pelo processo da
urbanização, mas também da própria Europa supostamente cristã. Por
isso, o Papa João Paulo II retomou termos semelhantes para falar da
nova evangelização que, no seu pensar, se destinaria em primeiro lugar
à antiga Europa: “novo ardor”.
Mas o que interessa também nesta citação é a íntima ligação entre
evangelização e ministério da palavra. Só que, naquele momento, o ministério da palavra era ainda fortemente visto como algo dos ministros
ordenados, apesar do reconhecimento que o mesmo documento dá aos
catequistas que tiveram tão importante papel na África e na Ásia, durante
os decênios anteriores. Por isso, o Decreto Ad gentes estende:
Os ministros da Igreja, por sua vez, devem ter em muito apreço o apostolado ativo dos leigos. Devem formá-los para, como membros de Cristo,
tomarem consciência da sua responsabilidade em relação aos outros
homens; devem instruí-los profundamente no mistério de Cristo, iniciálos nos métodos práticos, assistir-lhes nas dificuldades, em conformidade
com o pensamento da Constituição sobre a Igreja e do decreto sobre o
Apostolado dos leigos. (Ad gentes 21)
Algum ouvinte hoje pode se sentir decepcionado pela insistência na
submissão da evangelização leiga à hierarquia, mas não devemos esquecer que o Concílio Vaticano II foi realizado no início de uma nova visão
da Igreja, que ainda procurava seus caminhos, como se pode perceber
no dois discursos eclesiológicos, um conservador e outro, progressista,
que se misturam na Lumen Gentium.
2
As citações dos documentos conciliares e pontifícios são tomadas do site do Vaticano
http://www.vatican.va, com adaptação ortográfica para o Brasil.
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Nova Evangelização e anúncio da Palavra à luz da Dei Verbum
Hoje vemos com clareza que a missão evangelizadora da Igreja
não se limita às antigas “terras de missão”, como se dizia, e que a prática
evangelizadora naquelas terras foi sendo percebida, aos poucos, como
algo que diz respeito também às terras da antiga cristandade. A nova evangelização tema ver com a universalização da necessidade do anúncio.
A “nova evangelização” tem muito a ver com as mudanças epocais pelas quais passa nossa civilização, a ponto de se falar em mutação
cultural ou até antropológica. O texto de Santo Domingos sobre a nova
Evangelização insiste em dizer que Cristo é o mesmo ontem, hoje e
sempre. Mas a humanidade não é a mesma.
Já observamos que o tema da nova evangelização não é, propriamente, uma explicitação da Dei Verbum. Nos documentos referentes à
nova evangelização, com alguma exceção na Evangelii nuntiandi, raras
são as referências à Dei Verbum. Inclusive, no Instrumentum laboris
do XIII Terceiro Sínodo Pós-conciliar sobre a Evangelização, realizado
em 2012, ocorrem só duas referências à Dei Verbum, e de modo muito
tangencial. Isso, porque a dimensão do método exegético, tema central
na Dei Verbum, não era, no primeiro momento, a preocupação central
dos incentivadores da nova evangelização.
Não obstante, um confronto com a Dei Verbum, que exprime o entendimento do Concílio a respeito da Revelação, pode ser esclarecedor. Ainda
mais porque a situação que provocou o tema da nova evangelização é a mesma que, cinquenta anos atrás, provocou a convocação do Concílio Vaticano
II. Aliás, já desde o fim da II Guerra Mundial, os bispos franceses tinham
declarado a França “terra de missão”, e essa consciência foi aos poucos penetrando nos demais países da Europa Ocidental, com a expressão cunhada
pelo filósofo e sociólogo Emmanuel Mounier: “a morte da Cristandade”, ou
seja, daquele sistema que identificava a sociedade com a Igreja. Chegara ao
fim o mundo em que todo mundo – pelo menos, de nome – se dizia cristão
e submisso, quer ao papa, quer ao príncipe cristão. Diz João Paulo II:
Deixou de existir, mesmo nos países de antiga evangelização, a situação de «sociedade cristã» que, não obstante as muitas fraquezas que
sempre caracterizam tudo o que é humano, tinha explicitamente como
ponto de referência os valores evangélicos. Hoje tem-se de enfrentar
com coragem uma situação que se vai tornando cada vez mais variada
e difícil com a progressiva mistura de povos e culturas que caracteriza
o novo contexto da globalização. Ao longo destes anos, muitas vezes
repeti o apelo à nova evangelização; e faço-o agora uma vez mais para
28
Encontros Teológicos nº 67
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Johan Konings
inculcar sobretudo que é preciso reacender em nós o zelo das origens,
deixando-nos invadir pelo ardor da pregação apostólica que se seguiu
ao Pentecostes. Devemos reviver em nós o sentimento ardente de Paulo
que o levava a exclamar: «Ai de mim se não evangelizar!» (1Cor 9,16).
(Novo millennio ineunte, n. 40)
Então, à luz da Dei Verbum, ou seja, da consciência do Vaticano
II a respeito da revelação de Deus em Jesus Cristo, que significa aquilo
que propôs o Papa João Paulo II: “Diante dos novos desafios, devemos
prosseguir na missão de evangelizar com novo ardor, novos métodos e
novas expressões”? (Novo millennio ineunte, n. 15) 2 A Dei Verbum
A Dei Verbum propõe um aprofundamento em torno da revelação de Deus em Jesus Cristo e da transmissão dessa revelação (n. 1). É
sobretudo este último aspecto, o da transmissão, que deve deter nossa
atenção, mas isso não é possível sem ter suficiente clareza a respeito
daquilo que é a revelação cristã.
A revelação cristã é, em uma palavra, o próprio Cristo, Palavra
de Deus, Palavra da Vida. Ninguém jamais viu Deus, mas o Filho o deu
a conhecer (Jo 1,18) em sua próprio pessoa e em seu próprio agir, a tal
ponto que nele vemos Deus (Jo 14,9) que ele chama de Pai. Por isso nós
podemos dizer que Jesus é, para nós, Deus (Jo 1,1). Jesus é Deus que fala
e age. Ele é o cume da revelação de Deus que desde o início se comunicou
a nós em múltiplas manifestações por ações e palavras (Hb 1,1-2).
Acontece, porém, que o mundo em que vivemos, aparentemente,
não percebe as múltiplas manifestações de Deus, ou talvez as perceba,
mas não como manifestações de Deus.
O Concílio tem consciência de que a percepção e aceitação dessa
revelação, apesar de não ser alheia à razão humana, acontece num ato de
fé, pois diz respeito ao horizonte da razão, e, visto que o olho não se vê a si
próprio, a razão humana necessita ser envolvida numa visão superior. Assim,
Jesus de Nazaré está presente na humanidade da qual ele participa, para dar
a conhecer esse Deus que é tudo menos alheio a nós, mas que, sem essa presença humana de Deus em Jesus, não é percebido por nosso olhar (n. 6).
Depois dessa fundamentação da revelação divina no “evento Jesus
Cristo”, o capítulo II da Dei Verbum descreve sua transmissão na grande
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Nova Evangelização e anúncio da Palavra à luz da Dei Verbum
Tradição cristã, a partir dos apóstolos, discípulos e companheiros de
Jesus, sob a guia de seus sucessores, os bispos, que têm o cuidado das
igrejas que surgiram da pregação apostólica. Esse empenho traditivo é
aferido com a própria forma escrita da Tradição, a Sagrada Escritura,
que brota do mesmo “manancial”3 da Tradição inteira (n. 9). Em tudo
isso opera a ação de Deus que chamamos de Espírito Santo – tanto na
constituição da Tradição e formulação das Escrituras como na recepção e
interpretação no seio da comunidade, que é guiada pelo mesmo Espírito.
Pode-se dizer desse processo a mesma coisa que se diz da “carne” de
Jesus: a realidade divina habita na limitação da história humana:
... na Sagrada Escritura, salvas sempre a verdade e a santidade de Deus,
manifesta-se a admirável «condescendência» da eterna sabedoria, «para
conhecermos a inefável benignidade de Deus e com quanta acomodação Ele
falou, tomando providência e cuidado da nossa natureza». As palavras de
Deus com efeito, expressas por línguas humanas, tornaram-se intimamente
semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do eterno Pai se
assemelhou aos homens tomando a carne da fraqueza humana. (n. 13).
Depois de explicitar isso em relação ao Antigo e o Novo Testamento, a Dei Verbum olha para a Sagrada Escritura na vida da Igreja
(cap. VI). E é aí que encontramos a perspectiva que iluminará o tema
da nova evangelização.
Começa afirmando que a Sagrada Escritura deve ser a base da
pregação da Igreja (n. 21). Convém lembrar que, alguns meses antes, o
Concílio havia aprovado a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, que
deu sinal verde para que a Mesa da Palavra fosse mais ricamente servida
com textos da Sagrada Escritura (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 51),
abrindo as Escrituras numa proporção que não imaginam aqueles que não
conheceram a prática litúrgica anterior ao Concílio. E dizer que alguns
querem voltar àquele tempo!
Insiste, depois, na tradução e na investigação bíblicas:
[...] lançando mão de meios aptos, estudem e expliquem as divinas Letras
de modo que o maior número possível de ministros da palavra de Deus
possa oferecer com fruto ao Povo de Deus o alimento das Escrituras,
3
30
Assim convém traduzir o termo latino scaturigo que a Dei Verbum adota nesta passagem (n. 9), e não “fonte”, como diz a tradução vaticana, pois o Concílio quis expressamente evitar a terminologia das “duas fontes da Revelação” (Bíblia e tradução)
usada pelo Concílio de Trento.
Encontros Teológicos nº 67
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Johan Konings
que ilumine o espírito, robusteça as vontades, e inflame os corações dos
homens no amor de Deus. (n. 23)
E observa que
[...] o ministério da palavra, isto é, a pregação pastoral, a catequese e
toda a espécie de instrução cristã, na qual a homilia litúrgica deve ter
um lugar principal, com proveito se alimenta e santamente se revigora
com a palavra da Escritura. (n. 24)
Continua:
É necessário, por isso, que todos os clérigos e sobretudo os sacerdotes
de Cristo e outros que, como os diáconos e os catequistas, se consagram
legìtimamente ao ministério da palavra, mantenham um contacto íntimo
com as Escrituras, mediante a leitura assídua e o estudo aturado, a fim
de que nenhum deles se torne «pregador vão e superficial da palavra
de Deus. por não a ouvir de dentro» [Agostinho], tendo, como têm, a
obrigação de comunicar aos fiéis que lhes estão confiados as grandíssimas riquezas da palavra divina, sobretudo na sagrada Liturgia. Do
mesmo modo, o sagrado Concílio exorta com ardor e insistência todos
os fiéis, mormente os religiosos, a que aprendam «a sublime ciência de
Jesus Cristo» (Fl 3,8) com a leitura frequente das divinas Escrituras,
porque «a ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo» [Jerônimo].
Debrucem-se, pois, gostosamente sobre o texto sagrado, quer através da
sagrada Liturgia, rica de palavras divinas, quer pela leitura espiritual,
quer por outros meios que se vão espalhando tão louvavelmente por toda
a parte, com a aprovação e estímulo dos pastores da Igreja. Lembrem-se,
porém, que a leitura da Sagrada Escritura deve ser acompanhada de
oração para que seja possível o diálogo entre Deus e o homem; porque
«a Ele falamos, quando rezamos, a Ele ouvimos, quando lemos os divinos
oráculos» [Ambrósio].(n. 25)
O texto conclui com um voto:
Deste modo, pois, com a leitura e estudo dos livros sagrados, «a palavra
de Deus se difunda e resplandeça (2Ts 3,1), e o tesouro da revelação
confiado à Igreja encha cada vez mais os corações dos homens. Assim
como a vida da Igreja cresce com a assídua frequência do mistério
eucarístico, assim também é lícito esperar um novo impulso de vida
espiritual, se fizermos crescer a veneração pela palavra de Deus, que
«permanece para sempre» [Is 40,8; cf. 1Pd 1, 23-25). (n. 26).
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Nova Evangelização e anúncio da Palavra à luz da Dei Verbum
3 Revelação e transmissão da fé no seio da Igreja
A perspectiva da Dei Verbum é intraeclesial. Contudo, isso não exclui
a relevância para a problemática da nova evangelização, pois esta é também,
embora não exclusivamente, intraeclesial. De fato, muitos dos que estão com
a mão na massa vêem como primeiro desafio, hoje: fazer com que os católicos
se tornem cristãos, isto é, não apenas batizados nominais de uma organização
que lhes dá direito a primeira comunhão, crisma, casamento e enterro, mas
pessoas que vivem do e conforme o Evangelho de Jesus Cristo.
Para estes, dois temas da Dei Verbum me parecem sumamente
importantes: a revelação em Cristo e a prática da escuta-leitura das
Escrituras.
1) Primeiro: o que é a revelação cristã? A volta à Bíblia como
testemunha segura dos inícios cristãos, no espírito da Dei Verbum, nos
ensina que a revelação não é um pacote de verdades que cai do céu, mas
um acontecer e uma pessoa, ou uma pessoa que é um evento: Jesus de
Nazaré, Palavra definitiva de Deus. Palavra, não porque transmite uma
mensagem mecanicamente, mas porque ele “é” essa mensagem: sua vida
e ações e, sobretudo, sua morte por amor nos dizem de modo definitivo
como Deus é. Eles são, para quem tem a fé e adere a ele, referência
obrigatória para imaginar ou compreender o que significa o “codinome
Deus”. Isso vale sobretudo na contemplação da hora de sua paixão e
morte, quando ele diz: “Quem me viu, viu o Pai” (Jo 14,9), quando Deus
se diz todo nele, até no silêncio da morte.
Aprouve a Deus, na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a
conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1,9), segundo o qual os homens,
por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo
e se tornam participantes da natureza divina (cf. Ef 2,18; 2Pd 1,4). Em
virtude desta revelação, Deus invisível (cf. Cl 1,15; 1Tm 1,17), na riqueza
do seu amor fala aos homens como amigos (cfr. Ex 33, 11; Jo 15,14-15) e
convive com eles (cf. Br 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com
Ele. Esta «economia» da revelação realiza-se por meio de ações e palavras
ìntimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas
por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as
realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram
as obras e esclarecem o mistério nelas contido. (n. 2)
“Revelação” é uma ação iluminadora, um evento que é luz, ainda
que seja um mistério que nos transcende. Apesar de os usarem esta ima-
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Johan Konings
gem, não é, propriamente, algo que exija sacrifício da inteligência, mas
uma luz que nos dá a conhecer coisas que não chegaríamos a imaginar
por nossa mera razão e experiência comuns. A própria vida de Jesus é
luminosa, como acenou João Paulo II ao introduzir no rosário os mistérios
luminosos como deixam entender os papas Bento XVI e Francisco em
sua encíclica a quatro mãos, a Lumen fidei.
Por isso não devemos entrar nesse fundamentalismo dogmático
de querer renovar a fé cristã mediante fórmulas do antigo ou do novo
catecismo, ou seja de onde for. A fé não está nas fórmulas, mas na participação do evento que é Jesus de Nazaré, no sopro de seu Espírito. E a
transmissão da fé não consiste em passar um tijolo ou um livro de mão
em mão, mas em convidar as pessoas, primeiramente em nossa própria
família, a participarem desse evento, vivendo como Jesus viveu, sentindo
como Jesus sentiu, pensando como Jesus pensou, falando como Jesus
falou, amando como Jesus amou. Iniciação cristã é no fundo isso aí. Esta
é a verdadeira fides quae, a fé que se transmite, transformando-se em
cada fiel no ato de fé pelo qual se adere a ela, a fides qua.
2) E a segunda coisa que aprendemos da Dei Verbum em vista da nova
evangelização é: como ler as Escrituras. Eu evito o termo Bíblia, porque a
Bíblia virou um objeto mágico. Prefiro dizer as Escrituras, onde está escriturado o evento da manifestação de Deus – da Palavra de Deus, que é muito
mais que as Escrituras, mas nelas deixou sua referência original e segura.
Deus não está na letra, mas no Espírito. É preciso ler as Escrituras
no espírito em que foram concebidas (Dei Verbum 12). Isso exige sairmos
de nosso pequeno mundo, descobrir o mundo das primeiras testemunhas,
e voltar ao nosso mundo para interpretar as Escrituras como espelho de
nossa vida. Estabelecer um diálogo com as primeiras testemunhas de nossa
fé, tomando como centro das Escrituras Jesus Cristo, sendo que n’Ele as
palavras de seus ancestrais ganharam um sentido doravante determinante
para a nossa caminhada de vida. Falar com os que por primeiro acreditaram,
sobre Ele e sobre nós. Ou também: por meio das primeiras testemunhas e
na companhia delas, falar com Cristo sobre nossa vida.
Nada de fundamentalismo, nada de literalismo, nem de sentimentalismo vazio, mas curtir as Escrituras na fé e no estudo, com todos os
meios que nossa razão pode produzir. Não há investimento mais bonito de
nossa inteligência do que estudar as Escrituras à luz de Cristo e da nossa
vida pessoal e comunitária. Falar com Cristo sobre nossa vida, em torno
das Escrituras, aquelas que Ele ouviu na sinagoga – o Antigo Testamento
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Nova Evangelização e anúncio da Palavra à luz da Dei Verbum
– e as que nasceram das mãos de seus discípulos – o Novo Testamento.
É isso que se entende por Lectio Divina, leitura orante na presença de
Deus que se dá a conhecer em Jesus: o Deus de Jesus Cristo.
Aí encontramos o coração da nova evangelização, aquilo que a
nós é dado anunciarmos como boa-nova ao mundo de hoje, segundo o
modelo de Jesus em seu tempo. Assim como o músico toca a partitura
escrita por Mozart ou Bach, interpretando-a e dando-lhe vida hoje, cabe
a nós interpretar, “tocar” Cristo para o mundo de hoje, e o instrumento
que nos permite fazer isso, no concerto oferecido à humanidade, é a
Tradição da comunidade eclesial, que há vinte séculos toca essa partitura
nas mais variadas interpretações.
4 Os de fora
E será que a Dei Verbum tem algo a dizer para os de fora? Pois o
evangelho é destinado a todos, não só aos de dentro. Às vezes se entende
mal o que escreve Mc 4,11-12, como se Jesus não quisesse que “os de
fora” entendessem. Pelo contrário, exatamente porque os de fora não
estavam entendendo, de acordo com o que falara o profeta Isaías, Jesus
usava de imagens simples, embora um tanto misteriosas – as parábolas
–, que ajudassem os de fora a compreenderem (Mc 4,33); e depois, Ele
as explicava aos discípulos, para que estes, quando chegasse a sua vez,
explicassem aos outros (Mc 4,34).
Assim, a nova evangelização deve ser entendida como imitação
de Cristo. Não quer apenas segurar os católicos – e seus filhos – na
Igreja ou fazê-los voltar, mas deseja que toda a humanidade encontre, na
“Palavra encarnada”, em Cristo, salvação e sentido de vida. E para isso,
procura transformar os fiéis em discípulos missionários que, por palavras
e ações, ao modelo de Jesus, façam o mundo participar da experiência
incrível da manifestação do rosto divino de Deus em Jesus de Nazaré,
o seu rosto humano.
Endereço do Autor:
Aven. Dr. Cristiano Guimarães, 2127
31720-300 Belo Horizonte, MG
Email: [email protected]
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Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
Resumo: O artigo quer mostrar a relação entre Nova Evangelização e Liturgia.
Para isso, propõe três chaves de leitura da Sacrosanctum Concilium: 1) observar
mais o espírito da Liturgia do que as mudanças externas; 2) mais como retomada de um caminho do que como uma inovação; 3) mais como um projeto que
pede continuidade do que como uma reforma já acabada. A seguir, responde
à pergunta: “Que é Liturgia?” e estuda a relação entre Liturgia e Evangelização.
Mostra que a Liturgia é “fonte e cume”, não só “meio e função”, e ela tem um
modo próprio de evangelizar: exatamente pela celebração. Respondendo à
pergunta: “Como evangelizar pela Liturgia?”, formula bom número de propostas
concretas.
Abstract: The article intends to point out the relationship between the New
Evangelization and Liturgy. Therefore, three hermeneutic keys are here proposed
which are helpful means to read the document Sacrosanctum Concilium. 1st. one
should look rather at the spirit of the Liturgy than at external changes. 2nd. It is
better to see the renewed way of approach than an innovation. 3rd. It is preferably
a project searching for continuity rather than a reform already achieved in its
fullness. In the second part, the question “What is Liturgy?” receives its answer,
following a study of the relationship between Liturgy and Evangelization. It shows
forth an important issue: “Liturgy is the source and high point” and not merely
a “means and function”, sharing as well its own mode of evangelization and
precisely through the religious celebration. In the answer to the question: “How
is evangelization achieved by the Liturgy?” is a resourceful method to discover
a good number of concrete proposals.
Nova Evangelização e Celebração
Litúrgica à luz da Sacrosanctum
Concilium
Gustavo Haas*
*
O autor é presbítero da Arquidiocese de Porto Alegre, RS, Mestre em Liturgia pelo
Pontifício Instituto Santo Anselmo, Roma; presidente da Associação dos Liturgistas
do Brasil, ASLI; professor de Liturgia da PUCRS; pároco da Catedral Metropolitana
de Porto Alegre, RS.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014, p. 35-50.
Nova Evangelização e Celebração Litúrgica à luz da Sacrosanctum Concilium
A Constituição sobre a Sagrada Liturgia (SC), inicia apresentando os
4 objetivos ou metas do Concilio Ecumênico Vaticano II (1962-1965): “ –
fomentar sempre mais a vida cristã entre os fiéis; – acomodar melhor à nossa
época as instituições que são suscetíveis de mudança; – favorecer tudo o
que possa contribuir para a união dos que crêem em Cristo; – promover
tudo o que conduz ao chamamento de todos ao seio da Igreja” (SC 1).
Como vemos, este primeiro parágrafo quer ser uma introdução
a todos as Constituições e Documentos que o Concílio aprovaria. Não
vemos nenhuma referência explícita à liturgia nestes 4 objetivos. Mas o
importante, para nós, como introdução para o tema desta conferência é
a conclusão deste primeiro parágrafo: “por isso julga seu dever cuidar
de modo especial da reforma e do incremento da Liturgia” (SC 1).
Bastaria esta afirmação para nos convencermos de que “nova
evangelização e celebração litúrgica” tem “tudo a ver”. Mas, como se
realiza esta nova evangelização na, com e pela liturgia? Não há um risco
de confundir evangelização e liturgia, ou seja, instrumentalizar a ação
sagrada por excelência da Igreja? Pode a liturgia evangelizar?
Ainda como introdução ao nosso tema, creio ser importante termos
presente 3 chaves de leitura da SC. Sem estas 3 chaves poderemos ficar
presos à letra da SC ou então nos fecharmos ao contexto pré-SC (Movimento Litúrgico) e pós-SC (Reforma Litúrgica. É preciso ler, estudar
e aprofundar a Liturgia na SC observando: a) Mais o espirito da liturgia
do que mudanças externas, superando o reducionismo; b) Mais como a
retomada de um caminho do que uma inovação, procurando situá-la no
quadro da história duas vezes milenar da Igreja c) Mais como um projeto
que pede uma continuidade do que uma reforma já acabada.
1 O que é liturgia?
Seguindo uma prática do liturgista catarinense Frei José Ariovaldo
da Silva, que quase sempre inicia suas exposições recordando a etimologia e o conceito de liturgia, quero também em poucas palavras ajudar
a recordar a origem e o uso do termo “liturgia”.
Na Grécia antiga, usava-se a palavra “liturgia” para identificar os
mais diferentes tipos de serviços que se prestavam em favor da sociedade.
Resumindo, era o “serviço púbico”. Alguém está cuidando da segurança,
promovendo uma festa, prestando culto aos deuses etc.? Os gregos diriam:
Está fazendo uma “liturgia”, isto é, um trabalho benéfico em favor das
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Encontros Teológicos nº 67
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Gustavo Haas
pessoas. A todo trabalho benéfico em favor do povo, os gregos chamavam
de “liturgia”. Como seria bom a gente começar a perceber que “liturgia”,
originariamente e em primeiro lugar, tem a ver diretamente com a vida
da gente, com a nossa maneira de servir a Deus e ao próximo.
Na Bíblia, podemos facilmente constatar que existe alguém muito
experiente na arte da liturgia, isto é, na arte de servir o povo. Este alguém
é Deus! A criação, toda ela, é vista e sentida como uma esplêndida obra
do mistério de Deus, um maravilhoso presente, em favor da humanidade,
uma imensa manifestação da misteriosa “liturgia” do Criador. Como
também é uma maravilhosa “liturgia”, todo o “trabalho” que pacientemente Deus realizou no Antigo Testamento no sentido de o povo trilhar
o caminho da vida, da justiça e da paz. Exemplo: liturgia do êxodo, da
aliança no Sinai, da água que brota do rochedo, do maná que alimenta,
dos líderes que orientam e conduzem...
“Na plenitude dos tempos” Deus nos faz uma “liturgia” magnífica,
o maior serviço que alguém poderia prestar à humanidade: presenteounos com seu próprio Filho que se tornou para nós o Caminho, a Verdade
e a Vida, o nosso Salvador, com uma proposta que significa a garantia
mais certa da vida plena que todos nós sonhamos. Lendo os evangelhos,
percebemos que toda a vida de Jesus foi uma vida só de serviço em favor
das pessoas ou, como diriam os gregos, uma grande “liturgia”.
Ele mesmo, na total obediência ao Pai, cura os doentes, consola as
pessoas, acolhe os pecadores, abençoa as crianças, denuncia as tiranias
opressoras, anuncia um novo ano da graça de viver na alegria da liberdade.... Deixa-se “sacrificar” até a morte e morte de cruz, até a última
gota do seu sangue pela causa maior, que é a causa da vida, e vida em
abundância para todos. Neste sentido, ele é visto como sacerdote, a saber,
não pela simples prática de ritos sagrados, mas, na radical obediência ao
Pai, pela entrega (“sacrifício”) de toda a sua vida a serviço das pessoas,
sobretudo em sua morte, para a salvação do ser humano. Sua ressurreição
é a marca definitiva de que este é o culto que mais agradou a Deus, a
melhor “liturgia”, digamos. “Ele é ao mesmo tempo, sacerdote, altar e
cordeiro”, como rezamos no Prefácio.
E mais, no fim das contas, Deus ainda nos deu o dom do Espírito
(outra grande “liturgia”: obra em favor da humanidade!), pelo qual nos
tornamos corpo de Cristo, filhos de Deus, família de Deus, povo de
Deus, Igreja, raça escolhida e nação santa, povo sacerdotal, habitação
Encontros Teológicos nº 67
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Nova Evangelização e Celebração Litúrgica à luz da Sacrosanctum Concilium
do Altíssimo Senhor, colaboradores diretos do Criador no cuidado do
paraíso chamado planeta terra.
É por isso que o Catecismo da Igreja Católica intitula a Liturgia
de “obra da Santíssima Trindade (Cf. CIC nn. 1007-1112).
2Liturgia celebrada
Esta “liturgia”, isto é, toda esta obra maravilhosa de Deus, é celebrada, ela se torna permanentemente “célebre”.
Tudo isso que vimos acima, de certa maneira vem resumido, e com
certeza de forma mais perfeita, nos números 5 a 8 da Constituição “Sacosanctum Concilium”. A saber: A obra da salvação, prenunciada por Deus,
é realizada em Cristo (SC 5). Esta obra (liturgia!) de Cristo continua na
Igreja (Corpo de Cristo, Cabeça e membros!) e se coroa na liturgia celebrada (SC 6). Por isso, Cristo está vivamente presente na celebração da sua
liturgia: em toda a assembléia reunida, no sacrifício da missa, na pessoa
do ministro, nas espécies eucarísticas, nos sacramentos, na proclamação
da Palavra, no ofício divino, quando a Igreja ora e salmodia (SC 7).
E conclui o documento conciliar: “Realmente, em tão grandiosa
obra, pela qual Deus é perfeitamente glorificado e os homens são santificados, Cristo sempre associa a si a Igreja, sua esposa diletíssima, que
invoca seu Senhor e por ele presta culto ao eterno Pai. Com razão, pois,
a Liturgia é tida como o exercício do múnus sacerdotal de Jesus Cristo,
no qual, mediante sinais sensíveis, é significada e, de modo peculiar a
cada sinal, realizada a santificação do ser humano; e é exercido o culto
público integral pelo Corpo Místico de Cristo, Cabeça e membros. E disto
se segue que toda a celebração litúrgica, como obra de Cristo sacerdote,
e de seu Corpo que é a Igreja, é uma ação sagrada por excelência, cuja
eficácia, no mesmo título e grau, não é igualada por nenhuma outra ação
da Igreja” (SC 7). E, assim, já antegozamos a plenitude da liturgia celeste
da Jerusalém celeste, para onde todos peregrinamos (SC 8).
3 Mediante sinais sensíveis
Aqui, podemos evocar aquela passagem do evangelho, em que
uma mulher, com problema de hemorragia há vários anos, toca a roupa
de Jesus. Ela faz isso, na esperança de ficar curada. Jesus, percebendo
a força que saíra dele, pergunta: Quem me tocou? (cf. Mt 9,20-22; Mc
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Encontros Teológicos nº 67
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Gustavo Haas
5,25-34; Lc 8,43-48). E nós poderíamos ainda perguntar: Quem a mulher
tocou quando tocou na roupa de Jesus? Para a tradição cristã, a força
que habita Jesus não é apenas uma força psíquica, é a força do próprio
Espírito de Deus. Jesus é reconhecido, na fé, como o Emanuel, o Deusconosco, o Filho de Deus, o Verbo feito carne, vivendo nossa vida humana
divinamente; vivendo a vida divina humanamente.
Ver Jesus, ouvir Jesus, tocá-lo..., é ver, ouvir, tocar Deus! Para se comunicar com os humanos, para salvar a humanidade e propor e possibilitar
uma vida de intimidade, de comunhão, Deus teve que se tornar audível,
visível, palpável..., ao alcance de nossos ouvidos, de nossos olhos, de nossas
mãos! Deus teve que nos tocar e se deixar tocar em Jesus, o Cristo. E isso
acontece hoje, na liturgia celebrada, pelos seus “sinais sensíveis”: Palavra,
sinais sacramentais, assembleia, presidência, espaço celebrativo, ícones
etc. Na liturgia celebrada (e também vivida pela caridade!), o Ressuscitado, pelo seu Espírito, continua marcando sua presença amorosa em nós e
entre nós (somos o seu corpo!), “tocando-nos” com sua presença solidária
e libertadora. Obra maravilhosa!... Divina liturgia!1
4Liturgia é também anúncio e caridade
É muito oportuno recordar o que o Catecismo da Igreja Católica nos
diz no seu número 1070: “A palavra ‘liturgia’ no Novo Testamento, é empregada para designar não somente a celebração do culto divino, mas também o
anúncio do Evangelho e a caridade em ato. Em todas estas situações, trata-se
do serviço de Deus e dos homens. Na celebração litúrgica, a Igreja é serva
à imagem do seu Senhor, o único ‘liturgo’, participando de seu sacerdócio
(culto) profético (anúncio) e régio (serviço da caridade)”
Em outubro de 2012 foi realizada a XII Assembleia Geral Ordinária
do Sínodo dos Bispos com o tema “a nova Evangelização para a transmissão da fé cristã”. Na mensagem ao Povo de Deus que os bispos participantes
desta Assembleia escreveram (27/10/2012) encontramos interessantes
1
Cf. José Ariovaldo da Silva, A Liturgia como fonte da catequese. Palestra proferida na Semana de Liturgia 2006, São Paulo. Texto não foi publicado ainda. Ver
ainda – Relação entre Catequese e Liturgia. Uma visão histórico-teológica geral. In:
SIVINSKI, Marcelino; SILVA, José Ariovaldo da (Orgs.). Liturgia no coração da vida.
Comemorando a vida e ministério litúrgico de Ione Buyst. São Paulo: Paulus, 2006, p.
133-159. – Catequese e Liturgia: A partir da Ligturgia um verdadeiro “eco” do mistério.
In: CNBB. Liturgia em mutirão. Subsídios para formação. Brasília: Edições CNBB,
2007, p. 223-225. – Catequese e Liturgia. In: CNBB. Liturgia em mutirão II. Subsídios
para formação. Brasília: Edições CNBB, 2009, p. 17-19.
Encontros Teológicos nº 67
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Nova Evangelização e Celebração Litúrgica à luz da Sacrosanctum Concilium
afirmações que nos apontam para a a compreensão da liturgia não apenas
no seu aspecto ritual mas, na mesma concepção que lembramos há pouco,
onde faz-se uma ligação entre liturgia e evangelização:
“Guiar os homens e as mulheres do nosso tempo a Jesus, ao encontro com
Ele, é uma urgência em todas as regiões do mundo, de antiga e de recente
evangelização. (...) A fé se decide toda na relação que instauramos com a
pessoa de Jesus, o primeiro que vem ao nosso encontro. A obra da nova
evangelização consiste em repropor ao coração e à mente, não poucas vezes
distraídos e confundidos, dos homens e das mulheres do nosso tempo, ante
de tudo a nós mesmos, a beleza e a novidade perene do encontro com Cristo.
(...) A Igreja é o espaço que Cristo oferece na história para poder encontralo, porque ele confiou a sua Palavra a ela, o Batismo que nos torna filhos
de Deus, o seu Corpo e o seu Sangue, a graça do perdão do pecado, a experiência de uma comunhão que é reflexo do próprio mistério da Santíssima
Trindade, a força do Espírito que gera caridade para com todos. (...) A beleza
da fé deve resplandecer, sobretudo, nas ações da Sagrada Liturgia, antes
de tudo na Eucaristia dominical. Precisamente nas celebrações litúrgicas
a Igreja revela de fato o seu rosto de obra de Deus e torna visível, com as
palavras e os gestos, o significado do Evangelho. Depende de nós tornar
concretamente acessíveis as experiências da Igreja, multiplicar os poços
para os quais convidar os homens e as mulheres sedentos e ali fazer com
que encontrem Jesus, oferecer oásis nos desertos da vida”2.
Oxalá todos os cristãos, especialmente nossas equipes de pastoral
litúrgica, a começar pelos que presidem as nossas celebrações, tivessem
essa consciência de que a liturgia é essencialmente “encontro”: de Deus
conosco, nós com Deus, nós com nossos irmãos – “Bendito seja Deus
que nos reuniu no amor de Cristo!”.
Não somos donos da Liturgia ou seus proprietários. Ela é sempre
um dom que nos é oferecido gratuitamente.
5 Relação Liturgia e Evangelização
Muitas vezes a liturgia foi reduzida à categoria de instrumento
pedagógico, revelando um conceito utilitarista do culto da Igreja. A categoria essencial da Liturgia é a gratuidade e não a utilidade. “Gratuidade é
talvez a palavra menos inadequada para expressar o mistério do homem
2
40
A Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã. Edições CNBB: Brasília, 2013,
números 2 e 3.
Encontros Teológicos nº 67
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Gustavo Haas
e o mistério de Deus, significando pureza de amor, liberdade, ausência
de cálculo. É necessário criar uma pedagogia da gratuidade neste mundo
da utilidade e da necessidade”3.
A evangelização não é a finalidade primeira da liturgia. Ao contrário, deve precedê-la, como lemos na SC 9: “ A Sagrada Liturgia não
esgota toda a ação da Igreja. Pois, antes que os homens possam achegarse da Liturgia, faz-se mister que sejam chamados à fé e à conversão:
‘como invocarão Aquele em quem não creram? E como crerão sem terem
ouvido falar d’Ele? E como ouvirão se ninguém lhes pregar? E como se
pregar´se ninguém for enviado’ (Rm 10, 14-15)”. Segue o texto falando
do anúncio que a Igreja faz a todos as pessoas, chamando à conversão.
Com a fé, a Igreja os dispõe aos Sacramentos, à caridade.
Toda celebração litúrgica, e em primeiro lugar a Eucaristia, é e deve
ser o momento culminante de nossa oração gratuita a Deus, em resposta à
suprema gratuidade da vocação cristã, da redenção e do amor de Deus.
5.1 A liturgia é “fonte e cume” – não só meio ou função
A redescoberta da Liturgia como ‘cume’, e, como ‘fonte’, “na
evidência que este princípio continuamente repetido alcançou por parte
da opinião eclesial, corre o risco de se tornar o refrão de uma retórica
insuportável, se não é claramente percebido como a negação radical de
toda forma de ‘instrumentalização’ e de ‘funcionalização’ da liturgia.
Em outras palavras: afirmar que a liturgia é cume e fonte de toda a ação
da Igreja, significa que a liturgia não é ‘mídia’! Que as razões de sua
simbólica e de sua ritualidade, não estão ‘a serviço de outra coisa’, e sim
coincidem com a comunhão com Deus, não na sua totalidade histórica e
escatológica, mas, na sua antecipação e em sua plenitude, em seu início
e em seu fim4.
Toda celebração acontece na gratuidade. Uma das categorias para
compreendermos a realidade da celebração é a “festa”. Toda festa é uma
ruptura com o tempo ordinário. Também a liturgia tem este caráter: “Na
liturgia terrestre, antegozando, participamos da liturgia celeste, que se
celebra na cidade santa de Jerusalém, para a qual, peregrinos, nos encaminhamos” (SC 8).
3
M. Ramos. Evangelização e Liturgia. In Dicionário de Liturgia, pág. 424.
4
Andrea Grillo. Conferência no Seminário Nacional de Liturgia, fevreiro de 2010.
Ainda não está publicado.
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Nova Evangelização e Celebração Litúrgica à luz da Sacrosanctum Concilium
Aliás, vale um alerta sobre esta expressão “liturgia celeste” quase
não mais usada, na intenção de desmitologizar a fé e a própria celebração.
Segundo Jean Corbon, “ignorar a liturgia celeste seria recusar a tensão
escatológica da Igreja, instalando-se neste mundo (secularismo) ou dele
fugindo (pietismo). Levaria também a separar a Liturgia da vida, porque
a Liturgia celeste não é outra liturgia paralela, ao lado daquela que cremos
ser a nossa neste tempo em que vivemos. Ignorar a liturgia celeste é, no
fundo, esquecer que a plenitude do tempo invade incessantemente nosso
velho tempo para dele fazer os ‘últimos tempos’. É, por fim, recuar até antes
da ressurreição e recair numa ‘fé vazia’. Fixar-se na imagem espacial para
coisificá-la ou recusá-la faz, com efeito, recair no velho esquema religioso
do homem carnal – a divindade de um lado e o homem do outro – , quando
o ‘Reino dos Céus’ já está aqui, no meio de nós, dentro de nós”5.
5.2 Mas a liturgia tem um modo próprio de evangelizar!
Em simples e diretas palavras: A LITURGIA ANUNCIA A BOA
NOVA CELEBRANDO A BOA-NOVA!
Diz-nos SC 33: “Embora a Liturgia seja principalmente culto da
Majestade Divina, encerra também grande ensinamento ao povo fiel.
Pois na Liturgia, Deus fala a seu povo. Cristo anuncia o Evangelho. E
o povo responde a Deus, ora com cânticos, ora com orações. (...) Portanto, não só enquanto se lêem aquelas coisas ‘que foram escritas para
o nosso ensinamento’ (Rm 15,4), mas também enquanto a Igreja reza,
ou canta ou age, é que se alimenta a fé dos participantes e suas mentes
são despertadas para Deus, a fim de lhe prestarem um culto racional e
receberem com mais abundância a sua graça”.
Este número 33 da SC introduz os princípios gerais da reforma
litúrgica a partir da índole didática e pastoral, que são a estrutura das
cerimônias (34), a Sagrada Escritura, Pregação e catequese litúrgica (35)
e a língua litúrgica (36).
Interessante o cuidado que a SC tem com a estrutura das cerimônias: “resplandeçam de nobre simplicidade, sejam transparentes por sua
brevidade e evitem as repetições inúteis, sejam acomodadas à compreensão dos fiéis e, em geral, não tenham muitas explicações” (34). Em outras
palavras, o próprio rito, símbolo, gesto, canto ou oração transmitem
5
42
Jean Corbon. Liturgia de Fonte. Paulinas: São Paulo, 1980, pág. 45.
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aos participantes o conteúdo da celebração. Em si mesmas, pela sua
própria natureza, são anúncio do mistério da salvação e precisamente
a fidelidade com que são celebradas implica na evangelização.
Para tanto, 3 cuidados especiais (cf. SC 35):
a) com a Sagrada Escritura: “mais abundante, variada e apropriada”;
b) homilia: é um ministério que faz parte da ação litúrgica, tem
como fonte a Palavra e a Liturgia, é a proclamação das maravilhas divinas na história da salvação ou no mistério de Cristo,
que está sempre presente em nós e opera;
c) catequese mais diretamente litúrgica.
Termina pedindo um incentivo às celebrações da Palavra de Deus (nas
vigílias das festas, dias de semana do Advento e da Quaresma, também nos domingos e dias santos, sobretudo onde não se celebra a Eucaristia). Acrescenta,
por fim, que o uso da língua vernácula é muito útil ao povo (36).
“Também na resposta do povo redimido a liturgia reproduz, convertida em oração, a plenitude do kerigma em todas as suas dimensões:
histórico-salvífica, cristocêntrica, pascal e escatológica, reprodução que
é particularmente expressiva na oração eucarística”6.
Evangelizar significa “apresentar uma Pessoa, o anúncio de fatos
salvíficos, o convite a aceitar essa Pessoa e esses fatos como a salvação
oferecida por Deus, aceitação que compreende o compromisso de colocar
em prática as exigências de vida que tal salvação implica. A liturgia é, por
si mesma, presencialização de Cristo salvador; não só anúncio, mas juntamente anúncio e realização desses fatos salvíficos que nos tocam hoje.”
Eis o que lemos na SC 6: “Assim como Cristo foi enviado pelo
Pai, assim também Ele enviou os apóstolos, cheios do Espírito Santo, não
só para pregarem o Evangelho a toda criatura, anunciarem que o Filho
de Deus, pela sua morte e ressurreição nos libertou do poder de Satanás
e da morte e nos transferiu para o reino do Pai, mas ainda para levarem
a efeito o que anunciavam: a obra da salvação através do Sacrifício e
dos Sacramentos, sobre os quais gira toda a vida litúrgica. Pelo Batismo,
somos inseridos no mistério pascal de Cristo; toda vez que comemos a
Ceia do Senhor, anunciamos a morte do Senhor até que Ele venha; no dia
6
M. Ramos, op. Cit., pág. 424.
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Nova Evangelização e Celebração Litúrgica à luz da Sacrosanctum Concilium
Pentecostes, a Igreja ‘apareceu ao mundo’ e ‘perseveravam na doutrina
dos Apóstolos, na comunhão da fração do pão e nas orações, louvando
a Deus e cativando a simpatia de todo o povo’ (At 2,41-42.47) (cf. SC
6). “Nunca, depois disso, a Igreja deixou de reunir-se para celebrar o
mistério pascal” (SC 6).
Completa o Papa emérito Bento XVI: “A melhor catequese sobre
a Eucaristia é a própria Eucaristia bem celebrada. Por sua natureza a
liturgia possui uma eficácia pedagógica própria para introduzir os fiéis
no conhecimento do mistério celebrado” (Sacramentum Caritatis, 64).
Completo este ítem lembrando o Catecismo da Igreja Católica,
números 1074-1075 que resumem muito bem esta relação entre liturgia
e catequese, liturgia e evangelização: “A liturgia é o lugar privilegiado
da catequese do povo de Deus. A catequese está intrinsecamente ligada a
toda a ação litúrgica e sacramental, pois é nos sacramentos e, sobretudo,
na Eucaristia, que Cristo Jesus age em plenitude para a transformação
dos homens.... A catequese litúrgica tem em vista introduzir no mistério
de Cristo, procedendo do invisível para o visível, do significante para o
significado, dos sacramentos para o mistério”.
6 Como evangelizar pela liturgia?
Recorro novamente à Mensagem ao Povo de Deus na conclusão do
Sínodo sobre a Evangelização: “Não se trata de inventar novas estratégias,
como se o Evangelho fosse um produto para se lançar no mercado das
religiões7, mas de redescobrir os modos como, na vicissitude de Jesus,
as pessoas se aproximaram dele e por ele foram chamadas para inserir
aquelas mesmas modalidades nas condições do nosso tempo” (no. 4).
Citam como exemplo: os pescadores à beira da praia, a curiosidade de
Zaqueu, a doença da filha do centurião, o grito do cego de nascença, as
lágrimas de Marta e Maria pela morte de Lázaro.
Seria bom termos sempre presente quem vem participar de nossas celebrações: de onde vem, o que estão passando na sua vida, o que
significa aquele dia para elas, qual o grande desejo que tem... Pensemos
nas missas de 7º. Dia, pais e padrinhos dos batizandos, crianças, pais
e padrinhos da 1ª. comunhão, os noivos, seus pais e testemunhas, os
doentes e seus familiares, as mais diversas bênçãos que nos pedem....
7
44
“Deus é 10, o CD é 20”.
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“Administramos os sacramentos” ou, ao menos, tentamos “celebrar os
sacramentos” com eles e a comunidade?
No número 5 da referida conclusão, aponta o primeiro passo que
deverá ser dado: “mas ai de quem pense que a nova evangelização não nos
diz respeito em primeira pessoa. (...) Para poder evangelizar o mundo, a
Igreja deve antes de tudo por-se à escuta da Palavra. O convite a evangelizar
traduz-se num apelo a conversão”. Notemos bem, “escutar a Palavra”, não
apenas as Sagradas Escrituras, mas as preciosas letras e palavras escritas
nas páginas da vida, muitas vezes com tinta de sangue, lágrimas, suor, mãos
calejadas, pés descalços, corações feridos... Como é importante repetir e
jamais cansar de repetir o número 1 da Gaudium et Spres: “As alegrias e as
esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos
pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças,
as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo. Não se encontra nada
verdadeiramente humano que não lhes ressoe no coração”.
7 Propostas concretas
Na Lista Final de Propostas do Sínodo sobre a Evangelização é
preciso destacar aquelas que relacionam diretamente a Evangelização
com a Liturgia. Começamos pela Proposta 35: “A celebração digna da sagrada liturgia, o dom mais precioso de Deus para nós, é fonte da mais alta
expressão de nossa vida em Cristo. Ela é, portanto, a expressão primeira
e mais forte da nova evangelização. Através da sagrada Liturgia, Deus
quer manifestar a beleza incomparável de seu imenso e incessante amor
por nós e nós, de nossa parte, queremos utilizar o que seja mais bonito,
em nossa adoração a Deus, como resposta a seus dom. No maravilhoso
intercambio da sagrada liturgia, na qual o céu desce à terra, a salvação
é oferecida, provocando o arrependimento e a conversão do coração.
A evangelização na Igreja requer uma liturgia que eleve o coração dos
homens e das mulheres para Deus. A liturgia não é só uma ação humana,
mas um encontro com Deus que leva à contemplação e à amizade íntima
com Deus. Neste sentido, a liturgia da Igreja é a melhor escola da fé”.
Antes de apresentarmos alguns pontos práticos, quero citar os
números 59-61 da SC:
“Os sacramentos destinam-se à santificação dos homens, à edificação
do Corpo de Cristo e ainda ao culto a ser prestado a Deus. Sendo sinais,
destinam-se também à instrução. Não só supõem a fé, mas por palavras
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Nova Evangelização e Celebração Litúrgica à luz da Sacrosanctum Concilium
e coisas também a alimentam, a fortalecem e a exprimem. Por esta
razão são chamados sacramentos da fé. Conferem certamente a graça,
mas sua celebração também prepara os fiéis do melhor modo possível
para receberem frutuosamente a graça, cultuarem devidamente a Deus
e praticarem a caridade” (59).
Os sacramentais
“são sinais sagrados, pelos quais, à imitação dos sacramentos, são significados efeitos principalmente espirituais, obtidos pela impetração da Igreja.
Pelos sacramentais os homens se dispõem a receber o efeito principal dos
sacramentos e são santificadas as diversas circunstancias da vida” (60).
“Por isso, a liturgia dos sacramentos e sacramentais consegue para o bem
dos fiéis bem dispostos que quase todo acontecimento da vida seja santificado
pela graça divina que flui do Mistério Pascal da Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, do qual todos os sacramentos e sacramentais adquirem a sua
eficácia. E quase não há uso honesto de coisas materiais que não possa ser
dirigido à finalidade de santificar o homem e louvar a Deus” (61).
Vamos, pois, lembrar alguns pontos ou situações concretas que
poderemos pensar, re-pensar ou retomar a partir desta relação Liturgia
e Evangelização:
a) Sacramentos da Iniciação Cristã: nas propostas 9, 28, 29,
37 e 38 temos alguns pontos que podem nos ajudar: “Não se
pode falar de nova evangelização se a catequese de adultos é
inexistente, fragmentada, fraca ou descuidada. (...) As etapas
e os níveis do catecumenato na Igreja evidenciam como nos
aspectos bíblico, catequético, espiritual e litúrgico, a história
de uma pessoa e seu itinerário de fé podem ser entendidos
como vocação a um relacionamento com Deus. Em tudo isto,
o caráter público da decisão de fé feita pelo catecúmeno, que
cresce pouco a pouco na comunidade e na diocese, tem um impacto positivo em todos os fiéis” (Proposta 28). “O Sínodo quer
reafirmar que a iniciação cristã é um elemento crucial na nova
evangelização e é o meio pelo qual a Igreja, como mãe, gera
seus filhos e se regenera. Para isto propomos que o processo tradicional da iniciação cristã, frequentemente transformado simplesmente em uma preparação próxima para os sacramentos,
seja considerado em uma perspectiva catecumenal, dando-se
maior relevância a uma mistagogia permanente e convertendose, assim, em uma verdadeira iniciação à vida cristã através
46
Encontros Teológicos nº 67
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Gustavo Haas
dos sacramentos” (Proposta 38). Temos de reconhecer que o
uso do RICA deu passos significativos em nossa pastoral de
iniciação cristã dos adultos. Mas será que não estamos lentos
demais? Concordo com meu venerável professor Rooney, que
o RICA é um dos ou o mais revolucionário ritual do Vaticano II: mexe com nossa concepção de Igreja, de Pastoral, de
Liturgia... E como estamos trabalhando a proposta de Bento
XVI expressa no número 18 da Sacramentum Caritatis sobre
a ordem dos sacramentos da iniciação: “é necessário verificar
qual seja a prática que melhor pode, efetivamente, ajudar os
fiéis a colocarem no centro o sacramento da Eucaristia, como
realidade para a qual tende toda a iniciação”.
b) Inculturação litúrgica: está na hora de retomarmos este desafio, acredito que um dos mais difíceis da renovação litúrgica, e
que praticamente desapareceu nos últimos anos... Inculturação
é coisa séria, tem a ver com o mistério da encarnação... Interessante: “A Igreja não deseja impor na Liturgia uma forma
rígida e única para aquelas coisas que não dizem respeito à fé
ou ao bem de toda a comunidade. Antes, cultiva e desenvolve
os valores e os dotes de espírito das várias nações e povos” (SC
37). Um exemplo concreto é a dança litúrgica8.
c) Leitura Orante da Sagrada Escritura (proposta 11): “a porta da
Sagrada Escritura deve estar aberta a todos os crentes. No contexto
da nova evangelização, deve-se multiplicar todas as oportunidades
de estudo da Sagrada Escritura. A Escritura deve impregnar as
homilias, a catequese e todos os esforços para transmitir a fé”.
d) Reconciliação: urge recuperarmos e investirmos no ministério da reconciliação “com serenidade e firmeza” (proposta
14 e 33). È preciso deixarmos claro que a reconciliação não é
apenas “confissão”, não é “apagador” de pecados, não é “ficha
de caixa” para comungar, não é “desabafo”, “descarrego”, não
é “opcional”, não é “casual”. Mas é Sacramento, encontro de
duas pessoas: Pai com o filho, experiência de fé, experiência
eclesial, experiência humana...
e) Cuidado com os enfermos (proposta 32): O mistério pascal
ilumina o sofrimento das pessoas, que podem encontrar na
8
Sugiro que se aprofunde o que está no Guia Litúrgico Pastoral, Edições CNBB, pág.
90-92.
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Nova Evangelização e Celebração Litúrgica à luz da Sacrosanctum Concilium
cruz de Cristo a compreensão e a aceitação do mistério de sofrimento e a esperança da vida futura. Nossas missas de cura
são motivadas por este espírito?
f) Cuidado com as missas transmitidas pela TV e rádios
(proposta 18), mas já presente na SC 20: “as transmissões,
particularmente da Missa, façam-se com discrição e decoro,
sob a direção e responsabilidade de pessoa idônea, escolhida
para tal oficio pelos bispos”.
g) Cuidado com a beleza (proposta 20): “Cristo, o Bom Pastor,
é a verdade em pessoa, sinal da beleza revelada, que se dá a si
mesmo sem medida. (...) ‘Não se pode amar o que não é belo’
(Agostinho). A beleza nos leva para o amor, onde Deus nos
revela seu rosto no qual cremos”. È preciso formar para a beleza
(especialmente seminaristas). “É necessário que a Igreja esteja
atenta para cuidar e promover a qualidade da arte permitida
nos lugares sagrados destinados às celebrações litúrgicas, garantindo tanto a beleza quanto a verdade de sua expressão”.
h) Valorização do Ano Litúrgico (cf. Proposta 34): o Ano Litúrgico é o pedagogo do caminho de fé dos discípulos. “O Ano
Litúrgico, com suas diversas festas, deve ser acompanhado
de um verdadeiro programa de evangelização, principalmente
no Natal e na Páscoa”. Mas não ser sufocado pelos meses,
semanas e dias temáticos. “A comunidade deve celebrar a sua
vida na liturgia (...). Mas deve celebrá-la à luz de Jesus Cristo
ressuscitado, vivo, presente e atuante na comunidade, e não à
luz de um tema ou uma ideia”9.
i) Piedade Popular (proposta 39): “a piedade popular é um
verdadeiro lugar de encontro com Cristo e também expressa a
fé do povo cristão na Santíssima Virgem e nos santos. A nova
evangelização reconhece o valor destas experiências de fé e as
encoraja como caminhos para crescer na virtude cristã”. Seria
importante conhecermos e usarmos mais o Diretório sobre a
piedade popular e a liturgia, publicado pela Congregação para
o Culto Divino, em 2001.
j) Música Litúrgica: “a música litúrgica expressa o mistério de
Cristo e a sacramentalidade da Igreja. O gesto sacramental de
cantar ‘a uma só voz’ pressupõe a participação ativa, interior,
9
48
CNBB. Guia Litúrgico Pastoral. Edições CNBB, pág. 18
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consciente, frutuosa, plena de todo o povo sacerdotal congregado no ES, durante a ação litúrgica”10.
k) Valorização e formação para a compreensão da eucologia
litúrgica: melhor forma de combater tantas “orações eficazes
e poderosas” que nossos cristãos fazem.
l) Ministérios: um lugar especial é atribuído a quem PRESIDE
uma assembleia, em nome de Cristo. “Também o presbítero,
que na Igreja tem o poder sagrado da Ordem para oferecer o
sacrifício em nome de Cristo11, também está à frente do povo
fiel reunido, preside à sua oração, anuncia-lhe a mensagem da
salvação, associa a si o povo no oferecimento do sacrifício a Deus
Pai, por Cristo, no Espírito Santo, dá aos seus irmãos o pão da
vida eterna e participa com eles do mesmo alimento. Portanto,
quando celebra a Eucaristia, ele deve servir a Deus e ao povo
com dignidade e humildade, e, pelo seu modo de agir e proferir as palavras divinas, sugerir aos fiéis uma presença vida
de Cristo” (Instrução Geral do Missal Romano, no. 93).
Quem preside deve ser um sinal vivo e pessoal do Cristo, Bom
Pastor, que cuida das ovelhas dóceis e vai ao encontro das desgarradas.
Deve ser fiel às normas litúrgicas e ao povo celebrante. “Quem souber
assegurar, através de suas palavras e gestos, a presença de Cristo, Bom
Pastor, em meio aos seus, terá assegurado à celebração litúrgica que
preside seu impacto evangelizador tanto para os que estão perto como
para os que estão longe”12.
Deveriamos falar ainda dos Diáconos, Acólitos, leitores, comentaristas, cantores, salmistas, enfim todos que desempenham um ministério
litúrgico (cf. SC 29). “As ações litúrgicas não são ações privadas, mas
celebrações da Igreja. (...) Estas celebrações pertencem a todo o Corpo
da Igreja, e o manifestam e afetam” (SC 26).
É imprescindível que cada uma das ações de que consta a celebração seja realizada com a máxima autenticidade: no que a liturgia
tem de representação e no que tem de sinal manifestativo e expressão
de uma vida.
10
11
Idem, pág. 78.
Cf. Conc. Vat. II, Decr. sobre o ministério e a vida dos Presbíteros, Presbyterorum
ordinis, n. 2; Const. dogm. sobre a Igreja, Lumen gentium, n. 28.
12
M. Ramos, op. Cit. Pág. 426. Recomendo a leitura da obra de Enzo Bianchi – Presbíteros, Palavra e Liturgia. Paulus: São Paulo, 2010.
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8 Conclusão
“A preocupação de fomentar e reformar a Sagrada Liturgia é tida com
razão como sinal dos desígnios providenciais de Deus sobre nossa época, como passagem do Espírito Santo em sua Igreja; marcou-lhe com
caracteristicas próprias a vida, e até mesmo imprimiu uma nota em
todo o modo de sentir e agir religioso desse nosso tempo” (SC 43).
A liturgia evangeliza não apenas os que dela participam plenamente, mas também os que “assistem” ou mesmo àqueles que não tem fé.
Todos sentem-se interpelados e perguntam-se pelo significado daquilo
que vêem e ouvem. Aliás, o que impacta mais: uma pregação ou uma
celebração?
Dizia Pio XII: “Para fazer a fé penetrar no povo e tê-la nas alegrias da vida interior, as celebrações anuais dos Sagrados Mistérios tem
uma eficácia muito maior que qualquer outro documento do magistério
eclesiástico, até mesmo o mais grave. Esses documentos, com efeito,
atingem somente algumas poucas pessoas e as mais eruditas; ao contrário, a liturgia atinge e instrui a todos os fiéis; os documentos falam uma
única vez, por assim dizer, mas a liturgia fala a cada ano, ou melhor,
perpetuamente; os documentos são endereçados acima de tudo ao raciocínio, mas a liturgia influencia de modo eminente a mente e a alma,
isto é, toda a pessoa”.
Chegará o dia em que todos os fiéis participem plena, cônscia e
ativamente da celebração litúrgica. Esta participação faz parte da natureza
da própria liturgia e é direito e dever do povo de Deus, “geração escolhida,
sacerdócio régio, gente santa, povo de conquista” (1 Pd 2,9).
Que todos possamos experimentar o que Santo Ambrósio rezava:
“eu te encontro nos teus mistérios!”
Endereço do Autor:
Rua Duque de Caxias, 1047
Centro
90010-282 Porto Alegre, RS
50
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Resumo: O autor reconhece que o tema é fascinante, mas difícil de ser abordado, por causa de fantasmas ou mesmo tabus que tentam direcionar ideologicamente a reflexão sobre “Igreja e Eucaristia”. Ele começa verificando esse tema
nos documentos do Vaticano II e nas numerosas intervenções do Magistério
no pós-Concílio. A seguir, estuda a relação entre Ecaristia e Igreja a partir da
Prece Eucarística V, aprovada para o Brasil em 1975. Chama a atenção para
o significado do “primeiro nome da Missa”, a “fração do pão”, e para a unidade
de toda a Liturgia Eucarística. Antes da conclusão, alerta para os desafios que
permanecem.
Abstract: The author realizes that the theme is fascinating but quite difficult to
be dealt with due to possible phantoms or even taboos which might steer forcibly
the theological thought pattern concerning the “Church and Eucharist”. He begins by verifying this theme in the documents of Vatican II and in the numerous
interventions of the Magisterium during the period after the Council. Afterwards
he studies the relationship between the Eucharist and Liturgy on the basis of the
Eucharistic Prayer V, which was approved to be used in Brazil in 1975. Special
attention is drawn to the significance of the “first name of the Mass” as “breaking
the bread”, as well as the unity of the entire Eucharistic Liturgy. Before an overall
conclusion he makes an alert towards the challenges which still remain.
Igreja e Eucaristia
Da Sacrosanctum Concilium
à Sacramentum Caritatis
Gustavo Hass*
*
O autor é presbítero da Arquidiocese de Porto Alegre, RS, Mestre em Liturgia pelo
Pontifício Instituto Santo Anselmo, Roma; presidente da Associação dos Liturgistas
do Brasil, ASLI; professor de Liturgia da PUCRS; pároco da Catedral Metropolitana
de Porto Alegre, RS.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014, p. 51-72.
Igreja e Eucaristia: da Sacrosanctum Concilium à Sacramentum Caritatis
O tema é fascinante, mas muito amplo e difícil de ser abordado.
Sentimos que rondam fantasmas ou quem sabe até, tabus, que logo
tentam direcionar a reflexão sem levar em conta os múltiplos caminhos
que podem ser tomados para tratarmos a relação “Igreja e Eucaristia”.
Aliás, não faltam grupos e pessoas que ignoram ou negam o caminho
que foi trilhado nestes 50 anos.
Nas provocações que Adriano Sella faz em seu livro “Por uma
Igreja do Reino – novas práticas para reconduzir o cristianismo ao
essencial” (Paulus, 2010) , a primeira delas é justamente essa: “Menos
missa, mais eucaristia”. Constata que há um grande pedido de missas
para as mais diversas ocasiões: missa em homenagem a, pelos falecidos,
em honra dos santos, pela saúde, pela cura e libertação, pelos 15 anos,
pelas bodas de ouro, inaugurações, festas, para pagar promessa, por graça
alcançada, missas privadas... enfim, todos estamos acostumados a ouvir
a famosa “lista de intenções” no início das celebrações. Por fim, um dos
critérios para definir se alguém é “católico praticante” pergunta-se “vai
à missa ou não?”.
O Cardeal Dom Serafim Fernandes de Araújo iniciou uma conferência para os Bispos do Brasil, reunidos em seu retiro durante a Assembleia Geral da CNBB em 2005, com estas duas perguntas:
“Será que estamos bebendo mais de filetes, do que dos caudalosos rios
da água eucarística, fonte perene de vida da Igreja, aos quais se referia
Jesus no seu diálogo com a Samaritana? (“Quem beber da água que eu
lhe der, jamais terá sede. A água que eu lhe der, será nele uma fonte
que jorra para a vida eterna” – Jo 4,14). Pouco adiante (Jo 7,38), essa
fonte será comparada por Jesus, não a filetes, mas a caudalosos “rios
de água viva”.
Será que estamos, não nos esquecendo, mas apenas deixando um pouco
de lado a grande verdade, de que “a finalidade da Eucaristia é construir
o Corpo eclesial de Cristo, que somos nós, a Igreja”?
1 Eucaristia e Igreja nos documentos do Vaticano II
e Pós-Concílio
O Concílio de Trento dedicou nada menos que do que 3 sessões
para expor a doutrina católica sobre a Eucaristia, enquanto que o Vaticano
II não lhe dedicou nenhum documento específico: apenas um capítulo
da SC, e não a partir do enfoque doutrinal, mas da reforma.
52
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Gustavo Hass
É interessante notar, porém, que em outros documentos do Concílio há muitas referências à Eucaristia como celebração do mistério
pascal. De modo geral podemos dizer que “a Lumen Gentium completou a base eclesiológica da celebração (dando mais relevo que a SC
ao sacerdócio batismal dos fiéis e ao protagonismo da comunidade); a
Gaudium et Spes destacou, no que diz respeito à Eucaristia, a missão
da Igreja no mundo (conjugando assim melhor a relação da Eucaristia
com o compromisso fraterno e serviçal dentro e fora da comunidade); a
Presbiterorum Ordinis desenvolveu em páginas mais completas o que
é a Eucaristia na vida dos sacerdotes e da comunidade (sobretudo em PO
5)”1. E a Dei Verbum valoriza a Liturgia da Palavra, pedindo a unidade
das duas mesas: Palavra e Eucaristia (cf. DV 21-25).
É confortador saber que o Concílio Vaticano II significou uma
renovação da teologia eucarística, mas em íntima sintonia com a melhor
Tradição eclesial, retomando conceitos dos grandes pastores e teólogos
dos sete primeiros séculos, os Pais da Igreja do Oriente e do Ocidente.
Com José Aldazábal2, sinteticamente podemos destacar 4 aspectos teológicos desenvolvidos pelos documentos do Vaticano II sobre a Eucaristia:
a) Recuperou-se uma visão conjunta dos diversos aspectos do
sacramento: celebração e culto, sacrifício e memorial, palavra
e eucaristia, pão e vinho, comunidade e ministros, presença
real e compromisso dinâmico.
b) A Eucaristia aparece mais claramente, de novo, como o memorial da morte pascal de Cristo: “instituiu o sacrifício eucarístico
de seu corpo e sangue. Por ele perpetua pelos séculos, até que
volte, o sacrifício da cruz, confiando destarte à Igreja, sua dileta
esposa, o memorial de sua morte e ressurreição” (SC 47).
c) Os protagonistas do mistério eucarístico: o Espírito Santo
(epícleses) e a comunidade cristã3. O papel ativo, central e
atual de Cristo fica bem claro (cf. SC 7).
1
José Aldazábal. A Eucaristia. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 214.
2
Idem, p. 214-219.
3
Curiosidade: no Missal de Pio V, o início da missa era assim descrito: “Sacerdos, omnibus
paramentis indutus....” (Missale Romanum ex Decreto Sacrosancti Concilii Tridentini
Restitutum Pustet : Ritus servandus in celebratione Missae; II – De Ingressu Sacerdotis
ad Altare). No Missal de Paulo VI, lemos: “Reunido o povo, enquanto o sacerdote entra
com o diácono e os ministros, começa o canto da entrada” (IGMR 47).
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
53
Igreja e Eucaristia: da Sacrosanctum Concilium à Sacramentum Caritatis
d) Relação com a Igreja Oriental (UR 15) e a dimensão missionária
da Eucaristia (GS 38b)
Depois do Concílio Vaticano II, foram dados muitos passos a partir
da publicação de documentos direcionados à celebração eucarística:
Os frutos dos trabalhos do “Consilium”4, instituído em janeiro
1964, começaram a ser publicados em 1968, com as primeiras novas
orações eucarísticas, em 1969 com os lecionários e em 1970 com o
Missal (em 1975 a 2ª. edição típica). Apresento a relação das Instruções
e Documentos mais importantes relacionados ao nosso tema:
1964 – Inter Oecumenici – Instrução para executar retamente a
SC (Congregação para os Ritos)
1965 – Mysterium Fidei – carta encíclica sobre o culto da sagrada
Eucaristia
1967 – Tres abhinc anos – 2ª. Instrução para a exata aplicação
da SC (Congregação para os Ritos)
Eucharisticum Mysterium – Instrução sobre o culto do
mistério eucarístico (Congregação para os Ritos)
1969 – Memoriale Domini – Instrução sobre o modo de distribuir
a comunhão (Congregação para o Culto Divino)
1970 – Liturgicae instaurationes – 3ª. Instrução para aplicação
da SC
Sacramentali communione – Instrução sobre a mais ampla
faculdade de poder administrar a sagrada comunhão sob
as duas espécies (Congregação para o Culto Divino)
1973 – A Sagrada Comunhão e o culto do mistério eucarístico
fora da missa (Congregação para o Culto Divino)
Immensae caritatis – Instrução para facilitar a comunhão sacramental (Congregação para a disciplina dos sacramentos)
Diretório para missas com crianças (Congregação para o
culto divino)
4
54
Com o Motu Proprio Sacram Liturgiam de 25 de janeiro de 1964, Papa Paulo VI instituiu
o Consilium ad exsequendam Constitutionem de Sacra Liturgia, encarregando-o de
colocar em prática as prescrições e decisões da Sacrosanctum Concilium. Faziam
parte do Consilium em torno de 50 cardeais e bispos e mais de 200 peritos de diversas
nacionalidades. O primeiro presidente foi o Cardeal Lercaro e secretario Pe. Annibale
Bugnini. Os trabalhos do Consilium eram acompanhados diretamente e em todo o
momento pelo Papa Paulo VI.
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Ano 29 / número 1 / 2014
Gustavo Hass
1977 – Diretório para missa com grupos populares – CNBB
1980 – Dominicae cenae – Carta apostólica sobre o mistério e o
culto da santíssima eucaristia
Inaestimabile donum – Instrução sobre algumas normas
relativas ao culto da santíssima eucaristia (Congregação
para os Sacramentos e o Culto Divino)
1981 – Nova edição do Lecionário
1983 – Sacerdotium ministeriale – Carta aos bispos sobre algumas questões concernentes ao ministro da eucaristia
(Congregação Doutrina da Fé)
Novo Código de Direito Canônico
1988 – Diretório para as celebrações dominicais na ausência do
presbítero (Congregação do Culto Divino)
1992 – Catecismo da Igreja Católica – II parte
1994 – Liturgiam Authenticam – Nova Instrução para a reta
aplicação da SC – princípios que devem governar as traduções nas várias línguas modernas dos textos da liturgia
romana (Congregação para o Culto Divino e a Disciplina
dos Sacramentos)
1998 – Dies Domini – Carta apostólica sobre a santificação do
domingo
2000 – Instrução Geral sobre o Missal Romano (3ª. edição)
2003 – Ecclesia de Eucharistia – Carta Encíclica sobre a eucaristia na sua relação com a Igreja
2004 – Redemptionis sacramentum – Instrução sobre algumas
coisas que devem ser observadas e evitadas a respeito da
santíssima eucaristia (Congregação para o Culto Divino
e a Disciplina dos Sacramentos)
Mane nobiscum Domine – Carta Apostólica para o Ano
da Eucaristia
2007 – Sacramentum Caritatis – Exortação Apostólica PósSinodal sobre a Eucaristia, fonte e ápice da vida e da
missão da Igreja
2010 – Verbum Domini – Exortação Apostólica Pós-Sinodal sobre
a Palavra de Deus na ida e na missão da Igreja
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
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Igreja e Eucaristia: da Sacrosanctum Concilium à Sacramentum Caritatis
2 Eucaristia e Igreja a partir da Prece Eucarística V
Não vamos tratar o tema analisando cada um destes documentos
e instruções. Exigiria um tratado teológico e não é este o objetivo desta
Semana Teológica.
Uma boa fonte para aprofundar o conhecimento da Eucaristia e da
própria Igreja é a própria celebração eucarística. Ao longo dos séculos, a
Igreja primeiramente VIVEU e CELEBROU a Eucaristia. Num segundo momento é que refletiu, aprofundou e sistematizou o conteúdo do
mistério celebrado. A própria liturgia é fonte da teologia. Se quisermos
saber qual a teologia eucarística da Igreja, convém interrogar a própria
celebração, e de modo particular, a prece eucarística. Cesare Giraudo, em
diversas obras sobre a eucaristia5, resume o desenvolvimento histórico
da teologia eucarística afirmando que, no primeiro milênio, a Eucaristia
era entendida a partir de sua celebração; no segundo milênio, prevaleceu
a doutrina, sobretudo em polêmicas (realismo e simbolismo), ofuscando
ou até contradizendo o mistério celebrado.
Pretendo fazer minha humilde e pequena reflexão sobre o tema
proposto, a partir da Prece Eucaristica V, aprovada para o Brasil por ocasião do Congresso Eucarístico de Manaus, 1975. Vamos tentar identificar
as suas diversas partes, expressões, relações entre Igreja e Eucaristia.
Lembremos os elementos que compõem uma prece eucarística6:
Diálogo inicial
Prefácio
Santo
Epíclese de consagração
Narração da instituição
Aclamação memorial
Memória
Ofertório
Epíclese de comunhão
Intercessão
Doxologia final
56
5
Por exemplo, Cesare Giraudo. Redescobrindo a Eucaristia. São Paulo: Loyola,
2003.
6
Cf. IGMR 79.
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2.1 Tudo isto é mistério da fé!
Iniciemos com a aclamação memorial. Encontramos a expressão
“mistério da fé” em 1Tm, 3,9, onde Paulo fala sobre as condições para
alguém exercer o diaconato: “Saibam guardar o mistério da fé com
uma consciência pura”. No versículo 16 complementa: “Como todos
nós reconhecemos e professamos, é grande o mistério da piedade: Ele
foi manifesto na carne, justificado pelo Espírito, contemplado pelos
anjos, proclamado entre as nações, acreditado no mundo, arrebatado
na glória”.
A expressão “mysterium fidei” figurava indevidamente como uma
interpelação nas palavras de consagração do cálice no Cânon Romano7.
A reforma conciliar colocou-a após a narração da instituição. Por quê?
O contexto deixa claro: o mistério da fé é a morte e a ressurreição de
Jesus Cristo cuja memória é celebrada na ceia eucarística. Estamos celebrando o mistério pascal, que engloba a paixão, morte, ressurreição, ascensão.
Enfim, de todas as dimensões do único mistério pascal de Cristo.
A Edição Típica do Missal Romano, em latim, mysterium fidei, foi
traduzida para o português como: “Eis o mistério da fé”. Uma das particularidades da Prece Eucarística V é justamente a expressão um pouco
diferente: “Tudo isto é mistério da fé”. “Tudo isto”, isto é: o corpo entregue,
o sangue derramado, a vida doada, a morte e a ressurreição, a expectativa
da segunda vinda... “Recordamos, ó Pai, neste momento, a paixão de Jesus, nosso Senhor, sua ressurreição e ascensão” (Prece V); “Celebrando
agora, ó Pai, a memória do vosso Filho, da sua paixão que nos salva, da
sua gloriosa ressurreição e da sua ascensão ao céu” (Prece III)
Falando sobre esta aclamação memorial, diz o Papa João Paulo II:
“com estas palavras ou outras semelhantes, a Igreja, ao mesmo tempo
que apresenta Cristo no mistério da sua Paixão, revela também o seu
próprio mistério: A Igreja vive da Eucaristia. Se é com o dom do Espírito
Santo, no Pentecostes, que a Igreja nasce e se encaminha pelas estradas do mundo, um momento decisivo da sua formação foi certamente a
instituição da Eucaristia no Cenáculo. O seu fundamento e a sua fonte é
todo o Tríduo Pascal, mas este está de certo modo guardado, antecipado
e ‘concentrado’ para sempre no dom eucarístico. Neste, Jesus Cristo
7
“Hic est enim Calix Sanguinis mei, novi et aetérni testamenti: mysterium fidei: qui pro
vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum”.
Encontros Teológicos nº 67
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Igreja e Eucaristia: da Sacrosanctum Concilium à Sacramentum Caritatis
entregava à Igreja a atualização perene do mistério pascal. Com ele,
instituía uma misteriosa ‘contemporaneidade’ entre aquele Tríduo e o
arco inteiro dos séculos”8.
Portanto, a relação Eucaristia e Igreja acontece nesta relação com
todo o Mistério Pascal. Por temor de ser mal interpretado, recorro novamente às palavras do Cardeal Dom Serafim, dirigindo-se aos seus irmãos
no episcopado durante o retiro da Assembleia Geral da CNBB (2005):
“Estamos imobilizando Jesus na presença real. Dentro dessa concepção, Ele se torna mais ‘meu’ e ‘seu’, do que ‘nosso’, de todos os irmãos,
de toda a comunidade. É o contrário do que nos ensina Jesus no Pai
Nosso (Ele não disse: Pai meu, mas Pai Nosso).
Não há um santo, principalmente entre os eucarísticos e adoradores do
Santíssimo, que não transbordasse copiosamente para o ‘TUDO’ do
amor aos irmãos.
Essa reflexão nos faz voltar ao início desta conferência, quando sugerimos que a fórmula de aclamação: ‘Eis o mistério da fé’, deve ser
completada, em nossa vida concreta, pela instrução de Maria, a Mulher
Eucarística: ‘Fazei tudo o que Ele vos disser!’ Só então poderemos
chegar à magnífica síntese teológica do ‘Tudo isto é mistério da fé!’ E
o ‘Tudo isto’ compreende não apenas a presença real, mas, sobretudo,
a celebração do Mistério Pascal do Cristo, em sua totalidade.
Concluímos, caros irmãos e irmãs, com uma séria advertência que deve
suscitar inquietações em nossos corações de pastores: Toda nossa forma
de viver o cristianismo expressa uma compreensão teológica. Também a
forma de celebrar. Se a celebração procura ajudar a pessoa a entrar no
mistério, estamos diante de uma teologia mistagógica vivida. Mas, se a
celebração parece mais um programa de auditório que uma celebração
litúrgica, a assembléia deixa de ser uma comunidade celebrante para
virar auditório de tietes”.
2.2 Fazei isto em memória de mim
Memória é tradução do grego anámnesis. Memória ou memorial
significa tornar efetivamente presente um acontecimento do passado.
Não é uma simples evocação de um acontecimento passado ou de seu
significado, mas a proclamação eficaz pela Igreja da obra reconciliadora
de Deus nela.
8
58
João Paulo II. Ecclesia de Eucharistia. n. 5.
Encontros Teológicos nº 67
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É uma memória, portanto, da morte e ressurreição do Senhor,
que condensa TODA a vida de Jesus, tudo o que disse e fez. Pela celebração memorial, ação ritual que se faz com os mesmos sinais da
última ceia, participamos, em cada ‘hoje’ de nossa vida e da história,
da morte-ressurreição do Senhor, até à plena assimilação/comunhão
no Reino do Pai.9
É o que lemos na SC 47:
“ – Na noite em que foi entregue, na última ceia, foi instituído o Sacrificio
Eucaristico do Corpo e Sangue do Senhor.
– Por ele, perpetua pelos séculos, até que volte, o Sacrifício da Cruz
– À Igreja, dileta esposa, é confiado o memorial da sua morte e ressurreição – sacramento de piedade, sinal de unidade, vinculo de caridade,
banquete espiritual
– em que Cristo nos é comunicado em alimento, o espírito é repleto de
graça e nos é dado o penhor da futura glória”
Pela ação memorial, Cristo se torna presente no meio de nós, não numa
presença física, mas sacramental, por isso real, mediante sinais sensíveis; não uma presença estática e passiva, mas dinâmica e ativa, “na
qual se torna novamente presente a vitória e o triunfo de sua morte”
(SC 6), para que, participando da ação ritual, nós mesmos passemos
da morte para a vida.
“O que se celebra na Eucaristia é o ser Igreja, com tudo o que isto significa. Como a Igreja pertence intrinsecamente ao Mistério Pascal de
Cristo, o momento em que ela se visibiliza, celebrando o ser Igreja, só
pode ser um momento de recordação do Mistério Pascal de Cristo. É o
Senhor ressuscitado, vivo, com toda a sua história e consequentemente
com seu Mistério Pascal que é celebrado”10.
No entanto, temos que ter o cuidado de não fazer uma interpretação
unidirecional, na nossa vida prática, desta ordem de Jesus: “Fazei isto
em memória de mim” Isto é: habituamo-nos a focalizar teologicamente
apenas o aspecto da Eucaristia como “memorial” da Paixão, Morte e
Ressurreição do Senhor, esquecendo-nos das conseqüências práticas
que essa “memória” deve representar para a vida do cristão e para a
missão da Igreja.
Cf. Ione Buyst. A Eucaristia na Vida da Igreja. Estudos da CNBB 89. Sâo Paulo:
Paulinas, p. 31.
10
Francisco Taborda. Eucaristia e Igreja. Revista Perspectiva Teológica 17 (1985),
p. 42.
9
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Igreja e Eucaristia: da Sacrosanctum Concilium à Sacramentum Caritatis
Como vimos na reflexão do Cardeal Dom Serafim, o certo seria
saber conjugar o “Fazei isto em memória de mim”, da Última Ceia, com
o “Fazei tudo o que ele vos disser”, de Maria, nas Bodas de Caná. A
feliz aclamação do povo na nossa V Oração Eucarística, parece operar
esta síntese teológica. Não foi à toa que o Evangelista João colocou o
“Lava-pés” no lugar da instituição da Eucaristia. A Igreja, no seu magistério, encampa essa visão mais totalizante do Sacramento do amor de
Cristo: a finalidade da Eucaristia é construir o corpo eclesial de Cristo
que somos nós, a Igreja.
2.3 Relato da instituição
Nunca poderemos esquecer a “moldura” do relato da Instituição
que é feito logo após a invocação do Espírito Santo para a consagração
do Pão e do Vinho: “Na noite em que ia ser entregue, ceando com seus
apóstolos” ou “estando para ser entregue e abraçando livremente a
Paixão”... O início do capítulo 13 do evangelho de João é ainda mais
explícito: “Sabendo Jesus que havia chegado a sua hora, a hora de passar
deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo,
amou-os até o fim. Durante a ceia...”
Não sei se já percebemos a profundidade deste momento da Prece
Eucarística. Acreditamos sim, sem dúvida alguma, na presença real de
Jesus nas espécies do Pão e do Vinho consagrados. Não podemos “soletrar” apenas as primeiras palavras – “isto é o meu corpo”, mas pronunciar
e ouvir com toda solenidade e atenção – “que será entregue por vós”. O
“este é o cálice do meu sangue” deve se equilibrar com “o sangue da
nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos para o
perdão dos pecados. Fazei isto em memória de mim”.
2.3.1 Sacerdócio de Cristo e da Igreja
“É ele o sacerdote verdadeiro que sempre se oferece por nós todos, mandando que se faça a mesma coisa que fez naquela ceia derradeira” (Prece V).
Como entendemos o “sacerdócio” de Cristo e da Igreja?11 A Carta
aos Hebreus é o único escrito do Novo Testamento que designa Cristo
11
60
Cf. Ione Buyst. Nossa participação ritual/espiritual na Eucaristia como ação de Cristo,
sacerdote e vítima. Conferência no Seminário Nacional de Liturgia, São Paulo, 2010
(texto não publicado).
Encontros Teológicos nº 67
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como “sacerdote”; no entanto, o objetivo é mostrar o fim de todos os
sacrifícios e do sistema sacerdotal. Aos vários tipos de sacrifícios que
os sacerdotes ofereciam a cada ano ritualmente para expiar os pecados
do povo, o autor da Carta aos Hebreus contrapõe o “sacrifício” real de
Cristo que, para realizar a vontade do Pai, não realizou nenhum rito de
expiação, mas ofereceu seu próprio corpo, uma vez por todas: assumiu
tornar-se vítima, ele próprio, rompendo com o sistema sacrifical e o
sacerdócio ritual, tornando-os obsoletos (cf. Hb 10,5-10).
Na liturgia eucarística, nós, povo sacerdotal em Cristo e no Espírito, realizamos ritualmente o memorial do sacrifício real de Cristo, com
sinais simbólicos da última ceia: “Todas as vezes que comemos deste pão
e bebemos deste cálice, anunciamos, Senhor, a vossa morte, enquanto
esperamos vossa vinda!” (Aclamação memorial, Cf. 1Cor 11,26-27).
Participamos ritualmente da ação sacrifical de Cristo, na qual atuou ao
mesmo tempo como “sacerdote” e “vitima”. Mas, pelo fato de estarmos
incorporados nele pelo batismo, a oferta do sacrifício de Cristo inclui a
oferta de nós mesmos. Assim a SC 48 insiste em que os fieis “aprendam
a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, e não
só pelas mãos dele, a hóstia imaculada”. Em Cristo, somos chamados
a ser “sacerdotes” e “vítimas”, oferecendo ao Pai nossa vida, em união
com a oferta de Cristo.
No entanto, nossa participação ritual pressupõe a participação pelo
sacrifício real na vida cotidiana, o “sacrifício vivo”, conforme expressão
da Oração Eucarística n. 4. Ou seja, assim como a última ceia aponta com
palavras e gestos simbólicos para a morte de Jesus no Gólgota, assim a
ação ritual do sacrifício eucarístico (sacrifício de louvor) supõe o consequente “sacrifício” real de toda a nossa vida. Por isso, ao realizarmos
a ação memorial desta entrega (‘oferta’, ‘sacrifício’) de Cristo, pedimos
na oração eucarística n. 3 que “ele [o Espírito] faça de nós uma oferenda perfeita”. Paulo exorta aos Romanos: “pela misericórdia de Deus, a
oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus:
este é o vosso verdadeiro culto.” (Rm 12,1).
Como não pensar nos mártires de ontem e de hoje (nossos mártires latino-americanos) que viveram esta coerência entre a participação
no ‘sacrifício” ritual e a entrega real de suas vidas pelo Reino? Como
Jesus, os mártires entregaram a vida em solidariedade aos seus irmãos
(cf. Hb 2,11-15; 5,7-8; 13,1-3.12-16) e nós, celebrando a Eucaristia, nos
tornamos como que mártires em potencial.
Encontros Teológicos nº 67
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Igreja e Eucaristia: da Sacrosanctum Concilium à Sacramentum Caritatis
Agostinho fala desta relação entre celebração e vida num sermão na
festa do mártir São Lourenço: “Lourenço exercia o ministério de diácono.
Aí servia o sagrado sangue de Cristo; aí, pelo nome de Cristo, derramou
seu sangue. O santo apóstolo João expôs claramente o mistério da ceia
ao dizer: ‘Como Cristo entregou sua vida por nós, também nós devemos
entregar as nossas vidas pelos irmãos.’ (1Jo 3,16). São Lourenço, irmãos,
entendeu isso; entendeu e fez; e da mesmíssima forma como recebeu
daquela mesa, assim a preparou”.12
2.4 Epícleses de consagração e de comunhão
Quando falamos na epíclese da Prece Eucaristica às vezes não
nos damos conta de que temos duas epícleses: uma de consagração e
outra de comunhão.
a) “Mandai vosso Espírito Santo, a fim de que as nossas ofertas
se mudem no Corpo e no Sangue de nosso Senhor Jesus Cristo.
Mandai vosso Espírito Santo.”
b) “E quando recebermos Pão e Vinho, o Corpo e Sangue dele
oferecidos, o Espírito nos una num só corpo, para sermos um
só povo em seu amor. O Espírito nos una num só corpo!”
Diz Santo Agostinho: “Qual o sacrifício dos cristãos? De muitos
fazer-se um corpo de Cristo” (De Civ. Dei X, 6). “Se sois o Corpo de
Cristo e seus membros, é vosso símbolo que repousa sobre a mesa do
Senhor: é vosso símbolo que recebeis... Sede aquilo que vós vedes e
recebei o que vós sois” (Sermo 272).
Não celebramos a Eucaristia para “criar a presença de Cristo,
pois ele já está presente de muitas maneiras. A finalidade da eucaristia é
transformar-nos a nós no corpo eclesial de Cristo através da comunhão no
corpo sacramental. Por isso, a eucaristia é o sacramento da unidade.”13
Apesar de, na liturgia romana, as duas epícleses ficarem separadas uma da outra, é preciso ter presente essa unidade e observar que a
separação entre elas não é divisão, apenas dois momentos de uma mesma ação. Cesare Giraudo lembra um teólogo medieval, Tomás Netter
von Walden (†1430) que apresenta a Igreja como “o corpo místico de
62
12
S. Agostinho, Sermo 304,1-4; PL 38,1395-1397, in: Liturgia das Horas, vol. IV, 10
agosto, festa de São Lourenço, diácono; leitura patrística.
13
F. Taborda, A Eucaristia na Vida da Igreja, op. Cit., p. 69.
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Cristo no qual cada cristão é transubstanciado por meio da recepção da
eucaristia”. Pode-se descrever, portanto, a 2ª. epíclese, a epíclese de comunhão, como súplica por nossa ‘transubstanciação’ no corpo eclesial,
graças exatamente à nossa comunhão no corpo sacramental. Os que
éramos substancialmente dispersão, devido à nossa fragilidade e a nossos
egoísmos, tornamo-nos substancialmente assembleia escatológica (já e
ainda não), membros harmoniosamente unidos a Cristo, ‘a cabeça do
corpo que é a Igreja’ (Cl 1,18)14.
O mesmo autor lembra as preces eucarísticas orientais, onde as
duas epícleses estão após a narração da instituição. Cita como exemplo:
“envia teu Santo Espírito sobre este pão e este vinho, para que transforme
o pão no corpo e o vinho no sangue de teu Cristo, a fim de que nós que
os recebemos sejamos transformados num só corpo”15.
Outro exemplo interessante é a Anáfora de S. Basílio: “envia o
teu Espírito sobre nós e sobre estes dons, par que transforme os dons
no corpo sacramental, a fim de que, participando deles, nós sejamos
transformados num só corpo, o corpo eclesial”16.
“Esta formulação esclarece que toda a ação eucarística converge, de
fato, sobre a Igreja como aquele corpo que se constrói ao ritmo de
nossas eucaristias. Em certo sentido podemos dizer que propriamente
não é o ‘Cristo sacramental’ o termo último da celebração eucarística;
o termo último e o fim próprio da ação eucarística é o ‘Cristo eclesial’,
a edificação da Igreja”17.
A finalidade da Eucaristia é construir o corpo eclesial de Cristo,
que somos nós, a Igreja. E nos ajuda a descobrir que a importância da
Eucaristia não é a “produção” da presença real de Cristo no pão e no
vinho... A Eucaristia não visa, portanto, a tornar Cristo presente, como se
ele, de resto, estivesse ausente, mas visa a que nos tornemos o Corpo de
Cristo. Pela Eucaristia, sempre que a celebramos, estamos participando
do mistério pascal de Cristo, penhor de nossa salvação, mistério do qual
começamos a participar pelos sacramentos de nossa fé.
14
Cesare Giraudo. Redescobrindo a eucaristia. São Paulo: Loyola, p. 46.
15
Idem, pág. 47.
16
Ibidem, pág. 47.
17
Ibidem, p. 48.
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Igreja e Eucaristia: da Sacrosanctum Concilium à Sacramentum Caritatis
Francisco Taborda, ao tratar sobre o tema “Igreja como
Comunhão”18, identifica 4 comunidades a partir da Eucaristia:
a) A Igreja, comunhão em torno da memória viva de Jesus (comunidade rememorativa): Dizer que a Igreja é o corpo de
Cristo é muito mais que uma metáfora: é o sentido mesmo
da Igreja, expressando sua natureza de momento intrínseco à
Ressurreição. A Igreja só tem sentido, só é Igreja, enquanto
comunidade reunida em torno à memória de Jesus.
b) A Igreja, comunhão a partir da solidariedade com os pobres
(comunidade significativa): é uma Igreja que mostra em suas
ações o Espírito que a anima, comunidade que realiza o que
significa: ser presença de Jesus, continuando sua obra, seguindo
a Jesus. Se a memória é celebrativa, é porque primeiro é uma
memória em continuidade de vida, de seguimento. O seguimento de Jesus se mostra nesse ‘ser comunhão’, começando
pelos mais pobres.
c) A Igreja, comunhão antecipadora da humanidade futura (comunidade prognóstica): nossa comunhão tem caráter escatológico. A Igreja será fiel à sua vocação, na medida em que
viva a comunhão que é o Reino, mas a viva aqui e agora sob
as condições da história, neste mundo dividido e conflitivo.
d) A Igreja, comunhão por obra de Deus: somos um povo reunido
pela unidade da Trindade – “Bendito seja Deus que nos reuniu
no amor de Cristo”.
2.5 Intercessões
As intercessões da Prece Eucarística são diferentes das preces dos
fiéis. Dentro da estrutura da oração eucarística, elas são a continuação da
epíclese de comunhão, feita sobre os comungantes. Mas não celebramos
apenas com e para os que estão presentes em nossas celebrações, mas
por todo o corpo de Cristo, a Igreja, lembrando o Papa, Bispo, Presbíteros, Diáconos, Fiéis Leigos: queremos ser uma Igreja que “caminha
nas estradas de Jesus”.
18
64
Cf. Francisco Taborda, Eucaristia e Igreja. Op. Cit., pp. 29-62.
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2.6 Doxologia
E assim chegamos ao AMÉM. O amém não é um enfeite qualquer.
Ele é fundamental na oração, especialmente na oração eucarística. Santo
Agostinho tem uma comparação muito eloquente: “O amém é a nossa
assinatura. Quando se escreve um documento, o texto não tem nenhum
valor, enquanto não tiver a assinatura. O amém é a assinatura da assembleia à oração dita por aquele que a preside. É ela que convalida a oração.
Quem assina é o povo de Deus, povo sacerdotal. A oração eucarística
não é a oração do bispo ou do padre que preside, mas é a oração que ele
faz em nome da comunidade”19.
3 Fração do pão
Além da Prece Eucarística, não poderíamos falar da relação entre
Eucaristia e Igreja sem citar a Fração do Pão, o primeiro nome da missa:
At 2,42; At 2,46; At 20,7; 1Cor 10,16.
Muito oportuno e conciso o ensinamento do Catecismo: “Fração
do Pão, porque este rito, próprio da refeição judaica, foi utilizado por
Jesus quando pronunciava a bênção e distribuía o pão como presidente
da mesa, sobretudo por ocasião da Última Ceia. É por este gesto que os
discípulos o reconhecerão após a ressurreição, e é com esta expressão
que os primeiros cristãos designarão as suas assembléias eucarísticas.
Com isto querem dizer que todos os que comem do único pão partido,
o Cristo, entram em comunhão com ele e já não formam senão um só
corpo nele” (Cat 1329)
Também a IGMR dá preciosas orientações sobre este momento
tão especial antes da comunhão eucarística:
“... Pela fração do pão e pela comunhão os fiéis, embora muitos, recebem
o Corpo e o Sangue do Senhor de um só pão e de um só cálice, do mesmo
modo como os Apóstolos, das mãos do próprio Cristo” (IGMR 72)
“O sacerdote parte o pão eucarístico. O gesto da fração realizado por
Cristo na última ceia, que no tempo apostólico deu o nome a toda a
ação eucarística, significa que muitos fiéis pela comunhão no único pão
da vida, que é o Cristo, morto e ressuscitado pela salvação do mundo,
19
Taborda. A Eucaristia na Vida da Igreja, op. Cit., p. 75.
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Igreja e Eucaristia: da Sacrosanctum Concilium à Sacramentum Caritatis
formam um só corpo. A fração se inicia terminada a transmissão da paz,
e é realizada com a devida reverência...” (IGMR 83)
“A verdade do sinal exige que a matéria da celebração eucarística pareça
realmente um alimento. Convém, portanto, que, embora ázimo e com a
forma tradicional, seja o pão eucarístico de tal modo preparado que o
sacerdote possa de fato partir a hóstia em diversas partes e distribuí-las
ao menos a alguns dos fiéis. (...) O gesto da fração do pão manifestará
mais claramente o valor e a importância do sinal da unidade de todos
num só pão, e da caridade fraterna pelo fato de um único pão ser repartido entre os irmãos”(IGMR 321)
4 Felizes os convidados para a Ceia do Senhor
Mas o ponto alto da celebração é o momento em que somos convidados a “participar da Ceia do Senhor”. “A Eucaristia é sacramento.
Para compreendê-la, pois, é necessário partir do sinal sensível que a
constitui, do gesto simbólico que nos abre ao mistério, da expressão
significativa do conteúdo dessa celebração. Ora, a expressão significativa
da eucaristia (e, portanto, do ser Igreja) é a refeição festiva do pão e do
vinho em memória do Mistério Pascal de Cristo”20.
A refeição é sempre uma expressão significativa, senão a maior,
de intercomunhão. Primeiramente, pelo seu significado antropológico (é
sempre um ato comunitário, vital). Em segundo lugar, tem uma fundamentação bíblica, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento.
“Receber o pão e o vinho eucaristizados (comunhão sacramental) é o ponto
culminante da missa, a que se orienta toda ela. Cristo se dá realmente
aos comungantes, atraindo-os à participação de seu mistério pascal,
nutrindo-os e introduzindo-os na vida trinitária, construindo a Igreja em
profundidade. Infelizmente, ainda prevalece uma concepção individualista
de união a Cristo. Cabe a tarefa de despertar o sentido comunitário da
comunhão como construção da unidade do corpo de Cristo”21.
Celebramos a Eucaristia para obter do Pai a transformação em
um só corpo, o corpo eclesial, escatológico, místico. A celebração da
eucaristia é “para nós” – “...para que estas oferendas se tornem para nós
Corpo e Sangue do vosso Filho” (Prece II).
66
20
Taborda. Eucaristia e Igreja, op. Cit., p. 42.
21
Taborda. A Eucaristia na Vida da Igreja, op. Cit., p. 79.
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“A própria Liturgia impele os fiéis que, saciados dos ‘sacramentos pascais’, sejam concordes na piedade; reza que ‘conservem em suas vidas o
que receberam pela fé’; a renovação da Aliança do Senhor com os homens
na Eucaristia solicita e estimula os fiéis para a caridade imperiosa de Cristo. Da liturgia, portanto, mas da Eucaristia principalmente, como de uma
fonte, se deriva a graça para nós e com a maior eficácia é obtida aquela
santificação dos homens em Cristo e a glorificação de Deus, para a qual,
como a seu fim, tendem todas as demais obras da Igreja” (SC 10).
A Eucaristia não foi instituída para os nossos olhos mas para
a nossa boca que se nutre dela: foi instituída para que comêssemos e
bebêssemos22.
Não quero entrar nas polêmicas e discussões atuais sobre o modo
de recebermos a comunhão (na mão, na boca, de joelhos...) Acho que às
vezes nos preocupamos mais com o “como” do que com o significado.
Mais preocupados se a comunhão é na boca, na mãos ou de joelhos,
deveríamos nos preocupar em descobrir o que significa “comer a carne
e beber o sangue”. A teologia de João 6, sobre o Pão da Vida, não está
no “como”, mas no significado. A pergunta sobre o “como” é tola,
ridícula. Só serve para mostrar que a palavra de Jesus nem sempre se
deve entender em sentido literal.
5 A unidade de toda a Liturgia Eucarística
Existe uma estreita relação entre as três partes que compõem a
Liturgia Eucarística23.
Na apresentação das oferendas, levamos à mesa o pão e o vinho
que simbolizam toda a nossa existência, “frutos da terra e do trabalho
de homens e mulheres...”, com as “alegrias e fadigas”24 inerentes; a
atitude é de reconhecimento de uma pertença, de uma relação: a vida
nos é dada por Deus.
Sobre estes mesmos símbolos pronunciamos a oração eucarística
em atitude de agradecimento ao Pai pela salvação realizada na morte e
ressurreição de Jesus Cristo; realizamos o memorial, invocando o envio
22
Cf. Giraudo, op. Cit., p. 49.
23
Cf. Ione Buyst. , Nossa participação ritual/espiritual na eucaristia como ação de Cristo,
sacerdote e vítima. Seminário Nacional de Liturgia, 2010. Texto não publicado.
24
Missal Romano, texto alternativo para o ‘Orai, irmãos e irmãs...’
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Igreja e Eucaristia: da Sacrosanctum Concilium à Sacramentum Caritatis
do Espírito sobre os dons apresentados, que assim “se tornam para nós o
pão da vida e a cálice da salvação”, e oferecemos ao Pai “este sacrifício de
vida e santidade”, incluindo nossa própria vida entregue juntamente com
a de Cristo. Dessa forma, assumindo nossa condição de povo sacerdotal
“oferente”, sendo nós mesmos, unidos a Cristo, as “vítimas”, não nos
pertencemos mais: em Cristo e no Espírito nos tornamos corpo entregue,
dom total, vida oferecida, inserida na entrega de Jesus Cristo.
Partimos o pão; comemos e bebemos o Pão e o Vinho trazidos
por nós e eucaristizados naquela celebração25, tornando-nos cada vez
mais estreitamente unidos uns aos outros, “por Cristo, com Cristo e em
Cristo”, com o Pai, no Espírito Santo.
A comunhão intensifica nossa incorporação a Cristo e à Igreja e nos
faz cúmplices comprometidos na continuidade de sua missão sacerdotal,
na entrega de nossa vida em atitude de solidariedade e amor aos irmãos e
irmãs, na nova aliança entre Deus e a humanidade. Renovados, voltamos
à “dispersão” no meio da sociedade, em atitude de disponibilidade para o
serviço, como sacerdotes e vítimas, como testemunhas do Ressuscitado,
como felizes anunciadores da vinda do Reino de Deus na sociedade.
É fácil “mandar rezar uma missa”, ou – para os ministros ordenados – “rezar três ou quatro missas num único dia”. No entanto, o que se
pede de nós é que nos tornemos, em Cristo e no Espírito, “uma perfeita
oferenda”, “um sacrifício vivo para o louvor de sua glória”.
Dizem que, na catequese, há muitos anos, na preparação para a
primeira comunhão, havia a preocupação de explicar para as crianças
“quanto tempo dura em nós a presença real”. “Profundos estudos” chegaram à resposta exata: “tempo médio de 20 minutos”. “Naquele lapso de
tempo – ensinava-se – devíamos fazer companhia a Jesus, como deveriam
ter feito os 3 apóstolos no Getsêmani, mas infelizmente não fizeram.
Por isso, recebida a comunhão, falávamos com Jesus, lhe contávamos
muitas coisas e depois ouvíamos com compunção o que sua voz interior
sugeria ao nosso coração”26. Pior ainda, que esta foi a última catequese
que a maioria do povo recebeu...
68
25
SC 55 – “Recomenda-se vivamente um modo mais perfeito de participação na missa,
que consiste em que os fiéis, depois da comunhão do sacerdote, recebam do mesmo
Sacrifício, o Corpo do Senhor.”.
26
Giraudo. Redescobrindo a Eucaristia, op. Cit., p. 76.
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6 Desafios que permanecem
Chamou-me a atenção uma afirmação que ouvi numa palestra: “na
prática, a teoria (teologia) é outra!”27
No entanto, até que ponto nossa prática pastoral corresponde
a esta bela teologia? Quantas pessoas, frequentadoras das missas
(dominicais e semanais), terão consciência de estarem celebrando
como Igreja, povo sacerdotal? Quantas teriam assimilado o sentido
da Eucaristia como memorial da morte e ressurreição de Jesus Cristo?
Quantas, de fato, oferecem a si mesmas e suas vidas juntamente com a
oferta memorial do sacrifício de Jesus Cristo? Quantas sabem e fazem
questão da comunhão no cálice e da comunhão do pão eucaristizado
naquela celebração?
Na verdade, a maioria das pessoas que vêm à igreja continuam
“assistindo” a missa realizada (celebrada) pelos “sacerdotes”; vem para
“adorar o Cristo que vem presente na hora da consagração”, “receber o
corpo de Cristo na comunhão”, “pagar promessa”, “pedir uma graça”,
“agradecer pela graça alcançada”, “rezar pelos falecidos”... Basta prestar
atenção à lista de “intenções...
De que forma a participação na celebração eucarística enquanto
povo sacerdotal é tratada na formação do povo, na catequese batismal,
crismal, eucarística, no catecumenato, na preparação ao matrimônio,
na vida religiosa, na formação dos seminaristas, diáconos, leigos em
geral? Os presidentes das celebrações eucarísticas têm consciência de
que seu sacerdócio ministerial não os coloca acima e fora, mas dentro
e a serviço da comunidade de batizados? O fato de passarem de uma
comunidade a outra para presidirem a Eucaristia nas várias assembleias
dominicais não estará levando a uma sensação de isolamento e superioridade, de estarem fora e acima das várias comunidades eclesiais às
quais presidem? Além disso, salta aos olhos a crescente “sacerdotalização” dos presbíteros que se manifesta, entre outras, pelo uso crescente
e insistente do termo “sacerdote” no lugar do “padre” ou “presbítero”,
inclusive por parte de bispos e em textos oficiais.
Pior ainda é o fato de afirmarmos enfaticamente a centralidade da
Eucaristia na vida cristã e não tomarmos as medidas necessárias para
27
Cf. Ione Buyst. A participação do povo sacerdotal na celebração eucarística. Seminário Nacional de Liturgia. Texto Não publicado.
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Igreja e Eucaristia: da Sacrosanctum Concilium à Sacramentum Caritatis
que a maioria das assembleias dominicais (fala-se em 70%) não fique
impedida de celebrar a Eucaristia regularmente no Dia do Senhor. E são
justamente as comunidades e pessoas mais pobres que são privadas deste
sacramento dominical, elas que, na dureza de sua vida diária, vivem o
“sacrifício real” em união com Cristo.
7 Conclusão
Eucaristia e Igreja: um longo caminho percorrido, um longo caminho a descobrir.
Não esqueçamos os ideais da SC, tão bem descritos no número 48:
“a Igreja zela pela participação plena dos fiéis (não sejam estranhos
ou espectadores mudos);
– participação consciente, piedosa e ativa; instruídos pela Palavra
de Deus; saciados pela mesa do Corpo do Senhor; dêem graças a
Deus.
– Aprendam a oferecer-se a si próprios oferecendo a hóstia imaculada, não só pelas mãos do sacerdote, mas também juntamente com
ele e assim tendo a Cristo como mediador, dia a dia se aperfeiçoem
na união com Deus e entre si, para que, finalmente, Deus seja tudo
em todos”
Aos presbíteros e bispos, que presidem nossas celebrações
eucarísticas, sempre é bom recordar o número 5 da Presbyterorum
Ordinis:
“Na liturgia, Cristo exerce o seu múnus sacerdotal continuamente em
nosso favor pelo seu Espírito.
Todos os sacramentos, ministérios e serviços se ligam à Sagrada Eucaristia e a ela se ordenam. Pois a Santíssima Eucaristia contém todo o
bem espiritual da Igreja, a saber, o próprio Cristo, nossa Páscoa e pão
vivo, dando vida aos homens, através de sua carne vivificada e vivificante
pelo Espírito Santo.
Desta forma são os homens convidados e levados a oferecerem a si
próprios, seus trabalhos e todas as coisas criadas, junto com Ele.
Assim, a Eucaristia se apresenta como fonte e ápice de toda evangelização, pois já os catecúmenos são introduzidos pouco a pouco a participar da Eucaristia, e os fiéis, uma vez assinalados pelo santo batismo
e confirmação, acabam por inserir-se plenamente pela recepção da
Eucaristia no Corpo de Cristo.
70
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É, pois, a assembleia eucarística o centro desta comunidade de f i é i s
presidida pelo presbítero. Por isso, ensinem os presbíteros os fiéis a
oferecerem a divina vítima no sacrifício da missa a Deus Pai e a fazerem
com ela o oferecimento de sua vida”.
Uma bela síntese de todo o tema que tratamos encontra-se no
número 7 da Constituição Lumen Gentium:
“O Filho de Deus, na natureza humana unida a si, vencendo a morte
por sua morte e ressurreição, remiu e transformou o homem numa
nova criatura. Ao comunicar o Seu Espírito, fez de seus irmãos,
chamados de todos os povos, misticamente os componentes de seu
próprio Corpo. Nesse corpo difunde-se a vida de Cristo nos crentes
que, pelos sacramentos, de modo misterioso e real, são unidos a Cristo
morto e glorificado. (...) Participando realmente do Corpo do Senhor
na fração do pão eucarístico, somos elevados à comunhão com Ele
e entre nós. ‘Sendo um só o pão, todos os que participam deste pão
único formamos um só corpo’ (1 Cor 10,17). Assim, tornamo-nos todos
membros desse Corpo (cf. 1Cor 12, 27), ‘cada um, membros uns dos
outros’ (Rm 12,5). Mas como todos os membros do corpo humano,
embora muitos, formam contudo um só corpo, assim também os fiéis
em Cristo (cf. 1 Cor 12,12)”.
Concluo com as palavras do Papa emérito Bento XVI, na recitação
do Angelus, dia 26 de junho de 2011:
“Sem a Eucaristia, a Igreja simplesmente não existiria. A Eucaristia é,
de fato, o que torna uma comunidade humana um mistério de comunhão,
capaz de levar Deus ao mundo e o mundo a Deus. O Espírito Santo
transforma o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo; também transforma todos os que o recebem com fé em membros do Corpo de Cristo,
para que a Igreja seja verdadeiramente um sacramento de unidade dos
homens com Deus e entre eles.
Em uma cultura cada vez mais individualista, como aquela em que
estamos imersos nas sociedades ocidentais, e que tende a se espalhar
por todo o mundo, a Eucaristia é uma espécie de “antídoto”, que age
nas mentes e nos corações dos crentes e que semeia de forma contínua
neles a lógica da comunhão, do serviço, da partilha, em suma, a lógica
do Evangelho.
Os primeiros cristãos, em Jerusalém, foram um sinal evidente deste novo
estilo de vida, porque viviam em fraternidade e partilhavam seus bens,
de modo que ninguém fosse indigente (cf. Atos 2,42-47). De que derivava tudo isso? Da Eucaristia, isto é, de Cristo ressuscitado, realmente
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Igreja e Eucaristia: da Sacrosanctum Concilium à Sacramentum Caritatis
presente entre os seus discípulos e operante com a força do Espírito
Santo. E também nas gerações seguintes, através dos séculos, a Igreja,
apesar dos seus limites e erros humanos, continuou sendo no mundo
uma força de comunhão”.
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Resumo: Este artigo faz uma incursão nas origens históricas da bioética resgatando historicamente três protagonistas importantes. Um mais conhecido e reconhecido, Van Rensselaer Potter
nos EUA e o outro completamente desconhecido e que somente muito recentemente temos
notícia, em 1997, trata-se do filósofo, teólogo, pastor e educador alemão Friz Jahr. Ficamos
sabendo que A expressão Bioética, foi utilizada pela primeira vez por Fritz Jahr, na Alemanha,
em 1926 e 1927 num artigo publicado na revista científica Kosmos, intitulado “Bioética: uma
revisão do relacionamento ético dos humanos em relação aos animais e plantas”. Jahr ampliou
o conceito do imperativo Kantiano e propõe o Imperativo Bioético “respeite todo ser vivo, como
princípio e fim em si mesmo e trate-o, se possível enquanto tal”. O conceito de bioética de Fritz
Jahr inclui, além do ser hu¬mano, todas as formas de vida. O terceiro protagonista na fase
inicial do surgimento da bioetica e Hans Jonas, filósofo judeu-alemão, que vai elaborar o seu
principio da responsabilidade, pensando e elaborando uma ética frente ao domínio crescente
da civilização tecnico-cientifica. A expressão Bioética ganhou certificado de nascimento e se
consolida nos EUA durante os anos 70 e depois é “exportada” para o mundo, a partir dos anos
80 do século passado, a partir dos trabalhos de Van Rensselaer Potter e mais a fundação do
Instituto Kennedy de Bioética (1971) junto à Georgetown University em Washington, DC.
Abstract: The article sets out by making a research in documents dealing with the historical
origins of bio-ethics in order to restore to the front page three important protagonists. One of
them is Van Rensselaer Potter from the USA, well known and duly appreciated, while the other
is completely unknown, and only recently we have received news about him, in 1997. His name
is Fritz Jahr, from Germany, a philosopher, theologian, pastor, and pedagogue. He is known as
having used for the first time the term Bio-ethics in an article entitled “Bio-ethics: a revision of an
ethical relationship between humans, flora and fauna”, published in the scientific journal Kosmos,
in 1926 and 1927 in Germany. Jahr amplified the Kantian concept of the categorical imperative of
Kant by proposing the bio-ethical imperative: “respect every living being, in principle and finality
in itself and treat it, if possible, as such”. The bio-ethical concept of Fritz Jahr includes as well
in addition to the human being, all forms of life. The third protagonist in the initial phase of the
origin of bio-ethics is Hans Jonas, a German philosopher of Jewish descent who is going to work
out the principle of responsibility, laying the basis of thought and developing the science of ethics
in confrontation with the growing domination of the technical and scientific civilization. The term
bio-ethics acquired its birth certificate and was consolidated in the USA during the years of the
70ties and afterwards was “exported” to the rest of the world since the years of the 80ties of the
last century in the works published by Van Rensselaer Potter as well as the foundation of the
Kennedy Institute of Bio-ethics at Georgetown University in Washington, DC.
Bioética aos 40 anos:
O encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
Leo Pessini*
* Professor Doutor no programa de pós-graduação em Bioética, mestrado e doutorado,
do Centro Universitário São Camilo em São Paulo. Autor de inúmeras obras no âmbito
da bioética. Atualmente é Provincial dos Camilianos no Brasil (2010-2016) e Presidente
das Organizações Camilianas Brasileiras, uma rede de 52 hospitais espalhados em
19 estados brasileiros.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014, p. 73-106.
Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
“O que lhes peço é que pensem a bioética como uma nova ética científica que combine a humildade, responsabilidade e competência, numa
perspectiva interdisciplinar e intercultural, e que potencialize o sentido
de humanidade”.
Van Ranseelaer Potter
“Respeite todo ser vivo, como princípio e fim em si mesmo e trate-o, se
possível, enquanto tal”.
Fritz Jahr
“Aja de tal maneira que os efeitos da ação que você desenvolve sejam
compatíveis com a permanência da vida humana autêntica na Terra”.
Hans Jonas
Introdução
A bioética, levando-se em conta a perspectiva do norte-americano
bioquímico Van Ransselaer Potter e a data da publicação de seu primeiro artigo em 1970, já completou 43 anos de existência desde quando o
termo foi cunhado. Pesquisas recentes na área deslocam esta data para a
década de 1920, mais precisamente 1926-27 na Alemanha e descobrem a
figura de Fritz Jahr. No momento, a pesquisa em curso identifica a data
de 15 de dezembro de 1926 como sendo a do seu primeiro escrito sobre
bioética, intitulado: “Ciências da vida e ética: velho conhecimento em
novas roupagens”. Nesse artigo ele apresenta pela primeira vez o imperativo bioético. Fato histórico nesse sentido foi o lançamento do livro
“Fritz Jahr and the Foundations of Global Bioethics: The Future of
Integrative Bioethics” (Fritz Jahr e os fundamentos da Bioética global:
o futuro da bioética integrativa) editado por Muzur Amir & Hans-Martin
Sass no 8o. Congresso Internacional de Bioética Clínica realizado em
São Paulo (16-19 de maio de 2012). Não sem uma pontinha de ironia,
no folder de divulgação do livro lê-se:
“Você sabe quem inventou ‘bioética’? Não, não foram os americanos!
Foi Fritz Jahr, um pastor em Halle an der Saale. Em 1926-27 ele se
contrapôs criticamente ao imperativo categórico de Kant, com o seu
Imperativo Bioético: ‘Respeite todos os seres vivos como um fim em si
mesmo e trate-os como tal, se possível’” (MUZUR & SASS, 2012).
Nossa jornada reflexiva em torno do berço da bioética se faz em
três momentos fundamentais, com três protagonistas. Começamos com
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Encontros Teológicos nº 67
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Leo Pessini
Potter nos EUA em 1970, com seu “credo bioético” e o conceito de
“bioética como ponte para o futuro” (POTTER, 1971) e voltamos no
tempo historico para a década de 20 do século passado, mais precisamente
aos anos de 1926-27 com Fritz Jahr, com a sua proposta do Imperativo
bioético, que inclui uma visão ética para além dos seres humanos, uma
ética para todos os seres vivos: “Respeite todo ser vivo, como princípio
e fim em si mesmo e trate-o, se possível, enquanto tal” (JAHR, 1926).
O terceiro protagonista é o filosofo Judeu – Alemão, Hans Jonas (1979),
que elabora o princípio da responsabilidade, ao nos propor uma ética
frente à civilização técnica, no cultivo de uma “heurística do medo”,
não deixando o homo faber dominar o homo sapiens. Concluímos nossa
reflexão (PESSINI, SIQUEIRA; HOSSNE, 2010) com uma aproximação
entre os três protagonistas pioneiros na agenda bioética no seu nascedouro, os quais profeticamente se antecipam aos fatos e exigências éticas
de hoje para que possamos garantir o futuro da vida no planeta. A atualidade desta questão é inquestionável, somente lembrando a discussão
em andamento no mundo patrocinada pela ONU, quando em 2012 esta
organização programou para o Brasil, no Rio de Janeiro, a realização da
Conferência para o Desenvolvimento Sustentável com o mote “o futuro
que queremos”. Trata-se da Conferência Rio +20.
1 O pioneirismo de Van Rensselaer Potter nos
EUA (1970)
1.1 Conhecendo a pessoa
No dia 6 de setembro de 2001 falecia o Dr. Van Rensselaer Potter
(1911-2001), em Madison, pequena cidade do Estado de Wisconsin, no
meio-oeste dos Estados Unidos. Potter nasceu no Estado da Dakota do
Sul em 27 de agosto de 1911, e morreu quando acabara de completar
90 anos. Seu avô morreu de câncer aos 51 anos, um ano antes de seu
nascimento, dele herdando o nome, vindo a se chamar Van Rensselaer
Potter II. Sua mãe morreu num acidente de carro quando ele tinha sete
anos, e tornou-se muito ligado ao pai, desde então. Potter deixou esposa,
três filhos, 6 netos e duas irmãs.
Recebemos um comunicado de sua neta Lisa Potter, que trabalhou
muito de perto com seu avô de 1994-1997 auxiliando-o nas publicações
de bioética e em conferências. Textualmente lemos: “Lamentamos informar que Van faleceu ontem (6/09) às 05h20min da tarde. Ele estava
Encontros Teológicos nº 67
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Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
tranquilo e a família mantinha-se presente ao lado do leito. Eu segurava
sua mão quando exalou o último suspiro. Sei que ele sentiu o apoio e o
amor da família. Ele morreu logo após seu 90º aniversário. Sentiremos
muito sua falta”.
Foi ele quem cunhou o neologismo bioethics em 1970. Chamá-lo
de “pai da bioética”, como muitos o fazem, seria exagerado segundo alguns estudiosos na área da história da bioética, e dizer que ele é somente
autor do neologismo “bioethics”, seria não fazer justiça para a estatura de
sua pessoa como pesquisador e pioneiro da bioética, já que acabou sendo
marginalizado pelos seus compatriotas. Potter, poucos dias antes de sua
partida, deixou uma mensagem final endereçada aos amigos da sua “rede
de bioética global”. Nesta mensagem, ele demonstra ressentimento pelo
não reconhecimento de seu trabalho em bioética em seu próprio país.
“Por um longo período de tempo, 1980-1990, ninguém reconheceu meu
nome nem quis ser parte de minha missão. Nos EUA houve uma explosão
imediata do uso da palavra bioethics pelos médicos, que falharam ao
não mencionar meu nome ou o título das minhas quatro publicações em
1970-1971. Infelizmente, o conceito de bioética deles atrasou o surgimento do que existe hoje”1.
A biografia de Potter é particularmente relevante para a história
de uma ideia, o conceito de autonomia que desempenha até hoje, um
papel predominante na ética biomédica norte-americana. Antes de enfocar direitos individuais, ele enfatiza responsabilidades pessoais. Potter,
inclusive, não só elaborou, mas viveu seu credo de ativista, enfatizando
sua responsabilidade social e ambiental. Na condição de um bioeticista
virtuoso que era, não só viveu sua visão de bioética, como também,
convocou outros também a fazê-lo, alertando que para alguém merecer
ser chamado de bioeticista deveria seguir tal credo, o que apresentaremos
na íntegra ao longo deste texto, após a análise do seu legado intelectual.
Destaca-se, portanto, uma forte ênfase na ética das virtudes na bioética
Potteriana, que adquire quase um tom de pregação.
Potter era considerado um distinto membro da “Unitarian Society
of Madison” (Sociedade Unitariana de Madison), uma organização de
inspiração cristã, que segue o espírito de Jesus de Nazaré e, que defende
a perspectiva de uma religião liberal. Entre outros objetivos desta organi1
76
Dear Global Bioethics Network. Final Message. Disponível em: <http://
mcardle.oncology.wisc.edu/faculty/bio/potter_v.html>. Acessado em: 23 nov 2004.
Encontros Teológicos nº 67
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zação, lê-se como sendo o primeiro, “a integridade de vida” que significa
totalidade (wholeness). Para as pessoas de genuína integridade, todos
os objetivos e questões de vida estão interrelacionados. Os Unitarianos
constituem-se numa confraria de livre pensamento, em que são aceitos
como membros: “... pessoas de todas as opiniões teológicas, que desejam
se unir a nós na promoção da verdade, justiça, reverência e caridade entre
os homens”. Trata-se de uma associação aberta, em que o ateu honesto pode
se declarar como tal, sem nenhum medo, bem como o crente piedoso falar
de sua ligação pessoal com o universo e com Deus sem embaraço.
Textualmente lemos: “... a única exigência que fazemos e que
esperamos é que sejamos honestos com nós mesmos e com os outros”.2
Embora não tenha lido nenhum comentário em que se faça esta ligação
com a organização dos Unitarianos, percebe-se uma profunda ligação do
credo bioético potteriano com a filosofia desta organização.
Potter trabalhou mais de 50 anos na Universidade de Wisconsin,
em Madison, nos Laboratórios MacArdle para a pesquisa de Câncer, aposentando-se em 1982. Doutorou-se em bioquímica. Pela sua contribuição
original sobre a compreensão do metabolismo das células cancerígenas,
foi reconhecido por sua eleição para a Academia Nacional de Ciências.
Foi Presidente da Sociedade Americana de pesquisa sobre o Câncer em
1974, além de ter servido em inúmeras outras organizações científicas
de grande prestígio nos EUA.
Potter, após sua aposentadoria da Universidade, praticamente passou a residir em sua casa de campo em meio a um bosque, nas cercanias
de Madison, onde na varanda feita de madeira rústica, recebia amigos,
estudantes, onde sentia-se em comunhão com a natureza. Nos últimos
anos de vida, dedicou-se ao cuidado de sua esposa, Vivian, tragicamente
deficiente por causa de artrite. Por opção, deixou de viajar e dar conferências pelo mundo afora, ficando junto de sua companheira.
A última viagem que Potter realizou para o exterior, foi para a Itália
em 1990, a convite do Prof. Bruneto Chiarelli, Prof. de Antropologia
da Universidade de Florença (Itália), para falar sobre Bioética Global.
Estava então com 79 anos, e não mais viajando devido à idade, mas
recebendo inúmeros convites para participar de eventos de bioética, ele
envia vídeos de suas palestras. Temos assim três vídeos: 1) 1998 – so2
Disponível em: <http://www.harvardsquarelibray.org/unitarians/madison.html>. Acessado em 19/11/2004.
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Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
bre Bioética Global, por ocasião do IV Congresso mundial de Bioética
(Tóquio),a convite do Prof. Hyakuday Sakamoto; 2) 1999, um vídeo para
o Congresso Mexicano de Bioética, a convite do falecido Prof. Manuel
Velasco Suares; e 3) 2000 – um vídeo para o Congresso Internacional de
Bioética, organizado pela Sociedade Internacional de Bioética ( Gijón –
Espanha), a convite do Prof. Marcelo Palácios.
Uma resolução elaborada pelo corpo docente da Universidade
de Wisconsin em memória de Van Rensselaer Potter, além de destacar
a importância de sua vida profissional como pesquisador e professor de
oncologia durante mais de 50 anos, enfatiza que
“... sua maior contribuição para a comunidade científica são os mais de
90 pós-doutorados que orientou e estudantes de graduação que, inspirando-se nele, tornaram-se proeminentes em vários campos da ciência,
sendo que um deles foi agraciado com o Prêmio Nobel. (...) Para Van a
ciência não era um ´trabalho´ mas, uma experiência ética, apaixonada e
criativa. Além do mais, ele não separava o cientista do processo científico
ou o cientista do contexto social do empreendimento científico. Esta filosofia, motivada pelo seu conceito de “humildade com responsabilidade”,
o conduziu à fase final de sua produtiva carreira”3.
Esta fase final é justamente a fase da bioética, dos últimos 30 anos
de vida. A pessoa de Potter é lembrada pelos seus colegas de docência
na Universidade de Wisconsin como “um ser humano iluminado, preocupado com o cuidado humano de tudo, para que todos pudessem viver,
não numa utopia, mas em um mundo esteticamente belo e sustentável,
uma vida satisfatória e feliz”4.
1.2 O legado intelectual
Potter, que chamou a bioética de “ciência da sobrevivência
humana”5, traçou uma agenda de trabalho para a mesma que vai desde a
78
3
Memorial Resolution of the Faculty of the University of Wisconsin – Madison.
On the death of profesor emeritus Van Rensselaer Potter II. Disponível em: <http://
mcardle.oncology.wisc.edu/faculty/bio/PotterGlobal Bioethics.html>.
4
Memorial Resolution of the faculty of the University of Wisconsin – Madison.
On the death of professor emeritus Van Rensselaer Potter II. Faculty Document 1628.
Madison 1 April 2002. Disponível em: <http://mcardle.oncoloy.wisc.edu/faculty/bio/
potter_v.html>.
5
Potter, V. R. Bioethics: bridge to the future. Chapter one: Bioethics. The Science
of Survival 1971; 1-29.
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intuição da criação do neologismo em 1970, até a possibilidade de encarar
a bioética como uma disciplina sistêmica ou profunda em 1988. Alguns
lances mais importantes deste itinerário são interessantes de recordar,
iniciando pela pergunta de como surgiu o neologismo “bioética”.
Nos anos 1970-71, Potter cunha o neologismo “Bioethics” utilizando-o em dois escritos. Primeiramente, num artigo intitulado “Bioethics, science of survival, publicado em Persp. Biol. Med 14:27-153,
1970 e no livro Bioethics, bridge to the future( 1971). Esta publicação é
dedicada a Aldo Leopold, um renomado professor na Universidade de
Wisconsin que pioneiramente começou a discutir uma “Ética da terra”.
Este neologismo apareceu na mídia, em 19 de abril de 1971, quando a
Revista Time publicou um longo artigo com o seguinte título “Man into
superman: the promisse and peril of the new genetics”, em que o livro
de Potter foi citado.
Na contracapa do seu livro Bioethics: bridge to the future, lemos:
“Ar e água poluída, explosão populacional, ecologia, conservação –
muitas vozes falam, muitas definições são dadas. Quem está certo? As
idéias se entrecruzam e existem argumentos conflitivos que confundem
as questões e atrasam a ação. Qual é a resposta? O homem realmente
está colocando em risco o seu meio ambiente? Não seria necessário
aprimorar as condições que ele criou? A ameaça de sobrevivência é real
ou se trata de pura propaganda de alguns teóricos histéricos?”
“Esta nova ciência, bioética, combina o trabalho dos humanistas e
cientistas, cujos objetivos são sabedoria e conhecimento. A sabedoria
é definida como a maneira de usar o conhecimento para o bem social.
A busca de sabedoria tem uma nova orientação porque a sobrevivência
do homem está em jogo. Os valores éticos devem ser testados em termos
de futuro e não podem ser divorciados dos fatos biológicos. Ações que
diminuem as chances de sobrevivência humana são imorais e devem ser
julgadas em termos do conhecimento disponível e no monitoramento
de “parâmetros de sobrevivência que são indicados pelos cientistas e
humanistas”6.
Potter pensa a bioética como uma ponte entre a ciência biológica e
a ética. Sua intuição consistiu em pensar que a sobrevivência de grande
parte da espécie humana, numa civilização decente e sustentável, depen6
Potter V. R. Bioethics: bridge to the future. New Jersey: Prentice-Hall., Englewood
Cliffs; 1971. Ver Introdução, p. VII-VIII.
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Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
dia do desenvolvimento e manutenção de um sistema ético. Em 1998,
ao olhar este primeiro momento de sua reflexão, afirma:
“O que me interessava naquele momento, quando tinha 51 anos, era o
questionamento do progresso e para onde estavam levando a cultura
ocidental todos os avanços materialistas próprios da ciência e da tecnologia. Expressei minhas idéias do que, segundo meu ponto de vista,
se transformou na missão da bioética: uma tentativa de responder à
pergunta frente à humanidade: que tipo de futuro teremos? E temos
alguma opção? Por conseguinte, a bioética transformou-se numa visão
que exigia uma disciplina que guiasse a humanidade como uma ‘ponte
para o futuro’. (...)7
Na introdução de seu livro Bioethics: Bridge to the Future, diz que:
“Se existem duas culturas que parecem incapazes de dialogar – as ciências e as humanidades – e se isto se apresenta como uma razão pela
qual o futuro se apresenta duvidoso, então, possivelmente, poderíamos
construir uma ponte para o futuro, apresentando a bioética como essa
ponte entre as duas culturas”8.
No termo bioética (do grego “bios”, vida, e “ethos”, ética) “bios”
representa o conhecimento biológico, a ciência dos sistemas vivos e
“ética” representa o conhecimento dos valores humanos. Potter almejava
criar uma nova disciplina em que acontecesse uma verdadeira dinâmica e
interação entre o ser humano e o meio ambiente. Ele persegue a intuição
de Aldo Leopold e, neste sentido, antecipa-se ao que hoje se tornou uma
preocupação mundial, que é a ecologia.
É importante registrar que existe outro pesquisador que reivindica a
paternidade do termo “bioética”. É o obstetra holandês, André Hellegers,
da Universidade de Georgetown, em Washington, D.C. que seis meses
após a aparição do livro pioneiro de Potter, Bioethics: bridge to the future, utiliza esta expressão no nome do novo centro de estudos: Joseph
and Rose Kennedy Institute for the Study of Human Reproduction and
Bioethics”. Hoje este Centro é conhecido simplesmente como Instituto
Kennedy de Bioética. Hellegers animou um grupo de discussão de médicos e teólogos (protestantes e católicos) que viam com preocupação crítica
80
7
Vídeo apresentado por ocasião do IV Congresso Mundial de Bioética – 1998 (Tóquio).
8
Potter V. R. Bioethics: bridge to the future. New Jersey: Prentice-Hall., Englewood
Cliffs; 1971. Introdução, p. IV.
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o progresso médico tecnológico que apresentava enormes e intrincados
desafios aos sistemas éticos do mundo ocidental. Para Warren Thomas
Reich, historiador da bioética e organizador das duas primeiras edições
da Encyclopedia of Bioethics (1978 e 1995), “o legado de Hellegers”
está no fato de que ele entendeu sua missão em relação à bioética como
“uma pessoa ponte entre a medicina, a filosofia e a ética”. Este legado é
o que acabou ganhando hegemonia e tornou-se um “estudo revitalizador
da ética médica”9.
Portanto, no momento de seu nascimento, a bioética tem uma dupla
paternidade e um duplo enfoque. Temos duas perspectivas bem distintas:
de um lado, problemas de macrobioética, com inspiração na perspectiva de
Potter e, por outro, problemas de microbioética ou bioética clínica, com clara
inspiração no legado de Hellegers. Potter não deixou de expressar sua decepção em relação ao curso que a bioética seguiu. Reconheceu a importância
da perspectiva de Georgetown, porém afirmou que “minha própria visão da
bioética exige uma concepção muito mais ampla”. Pretendia que a bioética
fosse uma combinação de conhecimento científico e filosófico (o que mais
tarde chamou de Global Bioethics), e que não fosse simplesmente um ramo
da ética aplicada, como foi entendida em relação à medicina.
No ano de 1988, Potter amplia a bioética em relação a outras disciplinas, não somente como ponte entre a biologia e a ética, mas com a
dimensão de uma ética global. Disse ele:
“A teoria original da bioética era a intuição da sobrevivência da espécie
humana, numa forma decente e sustentável de civilização, exigindo o
desenvolvimento e manutenção de um sistema de ética. Tal sistema (a
implementação da bioética ponte) é a bioética global, fundamentada
em intuições e reflexões fundamentadas no conhecimento empírico
proveniente de todas as ciências, porém, em especial, do conhecimento
biológico... Na atualidade, este sistema ético proposto segue sendo o
núcleo da bioética ponte com sua extensão para a bioética global, o que
exigiu o encontro da ética médica com a ética do meio ambiente, numa
escala mundial, para preservar a sobrevivência humana”10.
Reich W. T. Shaping and Mirroring the Field: The Encyclopedia of Bioethics. In:
Walter J. K,. Klein EP (editors) The Story of Bioethics: from seminal works to contemporary explorations. Georgetown University Press, Washington, D.C.; 2003. Reich
WT. Encyclopedia of Bioethics, 2nd. ed Introduction; 1995. p. XIX-XXXII.
10
Van Rensselaer Potter. O Mundo da Saúde, ano. 22, v. 22, n.6 nov. dez. 1998.
Este Texto é o Script do Vídeo elaborado e apresentado especialmente para o IV
Congresso mundial de Bioética (4-7 de novembro/1998) em Tóquio.
9
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81
Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
Potter, em sua apresentação de vídeo para o IV Congresso Mundial de Bioética promovido pela Associação Internacional de Bioética
(Tóquio, 4-7 de novembro de 1998), cita o pensamento do célebre
teólogo liberal católico alemão Hans Küng, da Universidade alemã de
Tubingen, mundialmente conhecido, inclusive no Brasil com várias de
suas obras traduzidas para o português. Potter lembra que Hans Küng,
no seu projeto “Ethos Global”, chamou a atenção para uma Ética Global
para a política e economia, em relação à qual todas as nações e povos das
mais diferentes tradições culturais e crenças devem se responsabilizar.
Ressalta que o coração da ética global de Küng está no humano, o que
é louvável, embora sua ética global não seja bioética e seus preceitos
básicos pareçam aceitáveis por todos. No entanto, esta perspectiva não é
suficiente, pois é preciso explicitar o respeito pela natureza e as diferentes
culturas, para além das culturas judaica e cristã.
Em 1998, Potter expõe a idéia da bioética profunda, retomando
o pensamento do Prof. Peter Whitehouse da Universidade de Cleveland
(Ohio). O Prof. Whitehouse assumiu a idéia dos avanços da biologia
evolutiva, em especial o pensamento sistêmico e complexo que comporta
os sistemas biológicos. A bioética profunda pretende entender o planeta
como grandes sistemas biológicos entrelaçados e interdependentes, em
que o centro já não corresponde ao homem como em épocas anteriores,
mas que a própria vida do homem é somente um pequeno elo da grande
rede da vida. Neste cenário, o ser humano é somente um pequeno elo
na grande rede da vida, situando-se na trilha aberta pelo pensamento do
filósofo norueguês Arne Naess, no início dos anos 70 do século passado
(NAESS, 1973).
1.3 Ciência e religião juntas, frente ao desafio ético
de garantir o futuro da vida na Terra
Num artigo publicado na Revista The Scientist, com o sugestivo
título Science, Religion Must Share Quest for Global Survival ( A ciência
e a religião devem partilhar da mesma busca em relação à sobrevivência
global)11, diz Potter que nós não podemos mais ficar confortáveis com
a idéia de que no futuro, se as coisas piorarem, a ciência terá as respos11
82
Potter V. R. Science, Religion Must Share Quest For Global Survival, (1994, May
16). The Scientist, 8, (10), 1-12.
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tas. O momento para agir e provar nossa competência ética, bem como
técnica, é hoje.
“Uma questão central para os nossos esforços deve ser a promoção do
diálogo entre a ciência e a religião em relação à sobrevivência humana e da biosfera. Durante séculos, a questão dos valores humanos foi
considerada como estando para além do campo científico e propriedade
exclusiva dos teólogos e filósofos seculares. Hoje devemos sublinhar que
os cientistas, não somente têm valores transcendentes, mas também os
valores que estão embutidos no ethos científico necessitam ser integrados com aqueles da religião e filosofia para facilitar processos políticos
benéficos para a saúde global do meio ambiente.”12
Na busca de companheiros para esta causa, Potter registra que
muitos livros e artigos abordaram os problemas do meio ambiente e saúde
humana, mas relativamente poucos enfocaram a questão da sobrevivência
da espécie humana no futuro. Entre os autores citados temos: Hans Jonas
com sua obra The Imperative of Responsibility: In Search of an Ethic for
the Technological Age (University of Chicago Press, 1993); o sociólogo
Manfred Stanley com sua obra The Technological Conscience: Survival
and Dignity in an Age of Expertise (University of Chicago Press, 1981);
e Hans Küng, conhecido teólogo católico, mencionado acima, autor de
inúmeras obras teológicas e que foi o mentor e redator da famosa Declaração para uma Ética Global, documento final do Parlamento Mundial
das Religiões, que se reuniu em Chicago em 199313.
É sobre este último autor que Potter vai tecer alguns comentários
que nos interessam aqui na perspectiva de construção de uma ponte entre a ciência e a religião. Potter tem uma apreciação crítica em relação
à perspectiva da ética global de Küng. Afirma que, no cerne da moral
religiosa defendida por Küng, não está incorporada a preocupação com
o rápido crescimento populacional. Destaca que, entre as maiores religiões mundiais, em particular o Catolicismo e o Islamismo, estão entre
as que mais contribuem para a “atual e assustadora taxa de crescimento
populacional”.
12
Id., Ib. p. 3.
13
Kung H.; Schmidt, H. (Edited by). A Global Ethic and Global Responsibilities. Two
Declarations, SCM Press Ltd, London, 1998. Ver a íntegra desta declaração em português na nossa obra: Pessini, L.; Barchifontaine, C. P. Problemas atuais de
bioética. 10. ed., Ed. Loyola/Editora do Centro Universitário São Camilo, São Paulo,
2012. Conferir especialmente o Capítulo sobre Bioética e Religiões, p. 127-147.
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Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
Segundo Potter, somente a ciência tem as técnicas para analisar
as mudanças populacionais e seu impacto. Hans Küng, pelo menos ao
formular uma Ética Global, apontou que a sobrevivência humana é uma
questão chave, idéia esta que nenhum outro teólogo até então sequer tinha
mencionado. Embora outros líderes religiosos tenham proclamado que a
vida é sagrada e têm defendido os direitos humanos, somente Küng colocou a sobrevivência humana na agenda da reflexão ética. Os cientistas,
por sua vez, há muito tempo abraçaram, no coração de seus esforços, o
desafio do bem-estar humano e implicitamente a sobrevivência humana,
portanto estão credenciados para colaborar na causa pela sobrevivência
humana e da biosfera.
Potter vai além ao dizer que, não somente os teólogos, mas também
os filósofos seculares falharam em pensar sobre a sobrevivência humana
e da biosfera como uma questão ética. A reflexão ética ficou restrita a
relações interpessoais ou sociais entre os humanos, excluindo, portanto
questões de comportamento relacionadas com o crescimento populacional e problemas ecológicos. Potter destaca como importante da famosa
Declaração sobre Ética Global: não pode haver sobrevivência sem uma
ética mundial; não existirá paz mundial sem a paz entre as religiões e
uma aliança entre crentes e não-crentes (ateus, agnósticos e outros)
respeitando-se mutuamente, concórdiar necessária para a concretização
de uma ética mundial comum a todos os humanos.
“Os cientistas devem aplaudir os esforços de Hans Küng ao apontar para
a construção de uma aliança reconciliatória entre crentes e aqueles que
não são fundamentalmente caracterizados como religiosos, incluindo
entre estes, penso, a maioria dos cientistas. Precisamos unir as forças
frente à responsabilidade global da sobrevivência humana e seu apelo
pelo ´respeito mútuo´, necessário para uma ética mundial comum.”14
Em vários de seus escritos, Potter manifesta uma profunda preocupação com o rápido crescimento da população mundial, lembrando que
os demógrafos projetam que para meados do século XXI a população do
mundo dobrará. A abordagem desta questão revela o lado de um militante
obcecado com a questão populacional, que tem um viés um tanto alarmista. Hoje, a questão demográfica tem uma série de novos fatores cruciais
que preocupam, que Potter nem sequer mencionou. Sua pregação de que
14
84
Potter V. R. Science, Religion Must Share Quest For Global Survival. The Scientist,
1994, 8, (10), p. 7.
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o crescimento populacional deveria ser interrompido, fica ironicamente
visível na placa de seu velho carro, na inscrição das letras YES ZPG
(Zero Population Growth), que significa Sim, crescimento populacional
zero15. No seu credo bioético, que apresentamos na íntegra mais adiante
neste trabalho, explicita que o compromisso em relação à saúde pessoal
e familiar, se expressa em “limitar os poderes reprodutivos de acordo
com objetivos, nacionais e internacionais”. Potter pensa que a gravidade do problema da superpopulação, não poderá ser resolvida enquanto
as maiores religiões se opuserem a qualquer tentativa de limitação da
fertilidade. Claro que este diálogo entre ciência e religião não é fácil,
e se pergunta se não se poderia construir um consenso e uma aceitação
política pelos governos. A busca por uma ética mundial, partilhada tanto
pela religião como pela ciência, não poderia ser expressa em princípios
concretos para a ação? Fica a inquietação angustiante desta busca, porém sem a certeza de se encontrar uma resposta satisfatória, no presente
momento histórico. Neste diálogo entre ciência e religião, sintetizando as
questões chaves desta questão, vale destacar o que Potter diz a propósito
da “Declaração das Religiões sobre uma Ética Global”.
“Estamos conscientes de que as religiões não podem resolver os problemas econômicos, políticos e sociais da terra. Contudo, elas podem
prover o que não podemos conseguir através dos planos econômicos,
programas políticos e regulamentações legais. As religiões podem
causar mudanças na orientação interior, na mentalidade, nos corações
das pessoas, e levá-las para a conversão de um falso caminho rumo a
uma nova orientação de vida. As religiões, também, são capazes de dar
às pessoas um horizonte de sentido para suas vidas e um lar espiritual.
Certamente as religiões podem agir com credibilidade somente quando
eliminarem os conflitos que surgem entre elas mesmas e desmantelarem
imagens hostis e preconceitos, medos e desconfianças mútuas.”16
Enfim, a Ciência e a Religião, ambas têm uma longa batalha histórica, de hegemonia pela verdade17. Quando hegemônica, uma tenta negar
a outra, agora precisam andar juntas, de mãos dadas em função de um
15
Whitehouse, P. In Memorian. Van Rensselaer Potter: The original Bioethicist.
Hastings Center Report, nov.-dec. 2001, p. 12.
16
Potter V. R. Science, Religion Must Share Quest For Global Survival. The Scientist,
1994, 8, (10), p. 11.
17
Peters, T; Nennett, G. (Orgs.) Construindo pontes entre a ciência e a religião.
São Paulo: Editora Unesp; Edições Loyola, 2003. Trata-se de uma excelente obra
multicisciplinar que nos posiciona frente a esta questão secular.
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Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
objetivo maior, uma causa que interessa a toda a humanidade: garantir
o futuro da vida (humana e cósmico-ecológica) no planeta Terra.
Um dos documentos mais reveladores da personalidade de Potter,
que fez da bioética sua causa de vida e conclama os seus seguidores a
fazer o mesmo, se quiserem ser chamados de bioeticistas, se expressa
no chamado “credo bioético” Poteriano (PESSINI, 2006).
1.4 O credo bioético de Potter18
1. Creio na necessidade de uma ação terapêutica imediata para melhorar este mundo afligido por uma grave crise ambiental e religiosa.
Compromisso: Trabalharei com os outros para aperfeiçoar a formulação de minhas crenças, desenvolver credos adicionais e procurar
um movimento mundial que torne possível a sobrevivência e o aprimoramento do desenvolvimento da espécie humana, em harmonia com o
meio ambiente natural e com toda a humanidade.
2. Creio que a sobrevivência futura bem como o desenvolvimento
da humanidade, tanto cultural, quanto biologicamente, é fortemente condicionado pelas ações do presente e planos que afetam o meio ambiente.
Compromisso: Tentarei adotar um estilo de vida e influenciar o
estilo de vida dos outros, bem como ser promotor de um mundo melhor
para as futuras gerações da espécie humana, e tentarei evitar ações que
coloquem em risco seu futuro, ao ignorar o papel do meio ambiente
natural na produção de alimentação e fibras.
3. Creio na unicidade de cada pessoa e na sua necessidade instintiva
de contribuir para o aprimoramento de uma unidade maior da sociedade,
de forma que seja compatível em longo prazo com as necessidades da
sociedade.
Compromisso: Ouvirei os pontos de vistas dos outros, sejam estes
de uma minoria ou de uma maioria, e reconhecerei o papel do compromisso emocional em produzir uma ação efetiva.
4. Creio na inevitabilidade do sofrimento humano que resulta da
desordem natural das criaturas biológicas e do mundo físico, mas não
18
86
Potter V. R. Global Bioethics: Building on the Leopold Legacy. Appendix 2 – A
bioethical Creed for Individuals. p. 193-195.
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aceito passivamente o sofrimento que é resultado da desumanidade do
homem para com o próprio homem.
Compromisso: Enfrentarei meus próprios problemas com dignidade e coragem. Assistirei os outros na sua aflição e trabalharei com o
objetivo de eliminar todo sofrimento desnecessário na humanidade.
5. Creio na finalidade da morte como uma parte necessária da vida.
Afirmo minha veneração pela vida, creio na fraternidade humana e tenho
uma obrigação para com as futuras gerações da espécie humana.
Compromisso: Viverei de uma forma tal que será benéfica para
as vidas de meus companheiros humanos de hoje e do futuro, e serei
lembrado com carinho pelos meus entes queridos.
6. Creio que a sociedade entrará em colapso se o ecossistema for
danificado irreparavelmente, a não ser que se controle mundialmente a
fertilidade humana, devido ao aumento concomitante na competência de
seus membros para compreender e manter a saúde humana.
Compromisso: Aperfeiçoarei as habilidades ou um talento profissional que contribuirão para a sobrevivência e aprimoramento da
sociedade e manutenção de um ecossistema saudável. Ajudarei os outros
no desenvolvimento de seus talentos potenciais, mas ao mesmo tempo
cultivando o auto-cuidado, autoestima e valor pessoal.
7. Creio que cada pessoa adulta tem uma responsabilidade pessoal
em relação à sua saúde, bem como, uma responsabilidade para o desenvolvimento desta dimensão da personalidade em sua descendência.
Compromisso: Esforçar-me-ei por colocar em prática as obrigações
descritas como compromisso bioético para a saúde pessoal e familiar.
Limitarei meus poderes reprodutivos de acordo com objetivos, nacionais
ou internacionais.
As palavras finais de Potter do vídeo apresentado no IV Congresso Mundial de Bioética (Tóquio, 1998), constituem-se numa agenda e
desafio futuro para a bioética. Resgatamos esta fala ao concluirmos a
apresentação de sua pessoa, obra e legado para a bioética:
“À medida que chego ao ocaso de minha experiência, sinto que a bioética
ponte, a bioética profunda e a bioética global, alcançaram o umbral de
um novo dia que foi muito além daquilo que eu imaginei. Sem dúvida,
necessitamos recordar a mensagem do ano de 1975 que enfatiza a
humildade com responsabilidade como uma bioética básica que logica-
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Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
mente segue da aceitação de que os fatos probabilísticos, ou em parte a
sorte, têm consequências nos seres humanos e nos sistemas viventes. A
humildade é a consequência característica que assume o “posso estar
equivocado”, e exige a responsabilidade de aprender da experiência e
do conhecimento disponível. Concluindo, o que lhes peço é que pensem
a bioética como uma nova ética científica que combina a humildade,
responsabilidade e competência, numa perspectiva interdisciplinar e
intercultural e que potencializa o sentido de humanidade”19.
Uma declaração de ouro que Potter nos presenteia no ocaso de
sua vida, e que é de uma atualidade indiscutível. Passamos a seguir a
explorar a figura de outro protagonista em busca das origens da bioética,
Fritz Jahr, com seu escrito histórico de 1927.
2 Descobrindo a figura e as intuições originais
de Fritz Jahr
2.1 Alguns dados sobre a descoberta de Fritz Jahr
Até muito recentemente, o bioquímico norte-americano Van
Rensselaer Potter (1911-2001) era reconhecido como sendo a primeira
pessoa que tinha utilizado o neologismo “bioethics”. In 1997, contudo,
o professor Rolf Lother da Universidade Humboldt de Berlin, numa
conferencia em Tubingen, menciona o nome de Fritz Jahr, a quem
Lother credita ter cunhado a palavra Bio-Ethik em 1927. Segundo seu
relato, Lother ouviu pela primeira vez o termo “bioética” no início dos
anos 90 do século passado. Uma vez que o termo lhe pareceu de alguma
forma familiar, começou a procurar na pilha dos números publicados
do famoso periódico Kosmos, deixado pelo seu avô, onde encontrou o
editorial do volume de 1927 e o histórico artigo de Fritz Jahr intitulado
“Bioética: uma revisão do relacionamento ético dos humanos em relação
aos animais e plantas”.
A notícia sobre a descoberta de Fritz Jahr eventualmente espalhou-se, graças ao trabalho de Eve-Marie Engels da Universidade de
Tubingen, que organizou o congresso do qual Lother participou e cujos
anais editou. Engles menciona a descoberta de Lother num artigo sub
voce “Bioethik” no Metzler Lexicon em 1999 e num artigo de 2001.
19
88
Van Rensselaer Potter. O Mundo da Saúde 1998; 22, (6): 374. Este texto é o Script
de um vídeo que Potter preparou exclusivamente para o IV Congresso Mundial de
Bioética, realizado em Tóquio, nov 1998.
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Este artigo foi traduzido em português e republicado em 2004 na revista
brasileira “Veritas” de Porto Alegre (Eve-Marie-Engels. “O desafio das
biotecnias para a ética e a antropologia”, Veritas (Porto Alegre) 50, no. 2
(2004: 205-228). Este texto chamou a atenção do biólogo José Roberto
Goldim que vai escrever o artigo “Bioética? Origens e complexidade”
para a Revista do hospital de Clínicas de Porto Alegre 26, ano. 2 (2006):
86-92. Na prestigiosa revista científica Perspectives in Biology and Medicine 52(2009): 377-380 escreveu: Revisitando o início da bioética: da
contribuição de Fritz Jahr (1927) (“Revisiting the beginning of bioethics:
the contribution of Fritz Jahr (1927)
Temos uma análise mais detalhada das idéias de Jahr, elaborada
por Hans-Martin Sass, conterrâneo de Jahr e que trabalhou por longos
anos no Instituto Kennedy de Bioética em Washington, D.C. Enquanto
o pensamento de Fritz Jahr começa a ser investigado, sua vida é ainda
um mistério a ser decifrado. Uma pesquisa preliminar dos arquivos na
casa de Jahr em sua cidade natal de Halle, Alemanha, trouxe muitos fatos
interessantes de que falaremos a seguir.
Paul Max Fritz Jahr nasceu em 18 de janeiro de 1895, em Halle,
Alemanha Central, onde ele passou toda a sua vida, embora trocando de
endereço muitas vezes. Hoje esta cidade tem aproximadamente 234 mil
habitantes. Seus pais, Gustav Maximilian (1865-1930) e mãe, Auguste
Marie Langrock (1862-1921) eram protestantes, mas Fritz foi batizado
segundo o ritual católico. Seus estudos iniciais foram feitos na Fundação
Francke, ligada ao pietismo protestante de seus idealizadores (August
Hermann Francke e Phillipp Jakob Spener); na Universidade, Jahr estudou filosofia, música, história, economia nacional e teologia. Durante
o verão de 1915 ele trabalhou como voluntário de guerra e, em 19 de
março de 1921, ele recebeu as sagradas ordens, como pastor.
Jahr começou a ensinar em 1917. Até 1925 ele trabalhou como
professor em 11 diferentes escolas de ensino elementar. A partir de 1925,
começou a ser atuante na Igreja. Os primeiros quatro anos ele foi cura da
Igreja St. John em Dieskau (perto de Halle), mais tarde, 1929-1930 em
Braunsdorf, e finalmente 1930-1933, pastor em Kanena. Deve ter sido
um tanto sofrido para ele, pois, antes de subir ao púlpito para pregar,
sentia tonturas que o obrigavam a medicar-se.
Em 26 de abril de 1932, Jahr casou-se com Berta Elise Neuholz e
não tiveram filhos. Viveram na Albert-Schmidt-Strasse 8, Halle, endereço em que Jahr passara a residir em 1923, quando tinha 18 anos. Neste
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Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
local ele vive primeiramente com os seus pais e mais tarde, até 1930,
somente com seu pai, que era maníaco-depressivo. Em 1932, tempos
turbulentos para a Alemanha, Fritz se aposenta dos serviços da Igreja,
devido a “exaustão nervosa”. Em 1 de março de 1922, aos 38 anos, ele
se afasta definitivamente do serviço, somente um mês após Hitler ter
assumido o poder na Alemanha. Durante a guerra, a sua família passa
por dificuldades financeiras, agravadas pelo sofrimento de sua esposa
que sofria de esclerose da coluna vertebral. Ela vivia numa cadeira de
rodas e morreu em 18 de junho de 1947. Fritz Jahr passou seus últimos
anos de vida trabalhando como professor de música. Suas qualidades
pedagógicas eram profundamente apreciadas. Fritz Jahr morreu em 1 de
outubro de 1953 aos 58 anos de idade em sua casa em Halle (MUZUR
& RINCIC, 2011).
A década de 20 do século passado foi um momento complicadíssimo em termos políticos, econômicos e culturais na Alemanha e Europa.
A Grande Depressão começava e os Nazistas estavam no processo de
assumir a política, a sociedade e a opinião pública. Segundo Hans Martin
Sass, naquela época, há 85 anos,
“Jahr torna claro que o conceito, cultura e missão da bioética estão com
a humanidade, talvez, desde os tempos pré-históricos e não foi herança
de uma cultura ou de apenas um continente: o respeito ao mundo da
vida, aos seres humanos, às plantas, aos animais, ao ambiente natural
e social e à terra, a reverência taoísta à natureza, a compaixão budista,
com todas as formas de sofrimento da vida, o chamado de Francisco
de Assis para a fraternidade com as plantas e os animais, a filosofia de
Albert Schweitzer do respeito por todas as formas de vida, são exemplos
primordiais da profunda compaixão humana com a vida inanimada e do
comprometimento humano em respeitar outras formas de vida” (SASS,
Post Scriptum, 2012, p. 484).
2.2 O nascimento da bioética chamada “integrativa”
Começam a surgir publicações em torno de Fritz Jahr bem como
eventos científicos, entre os quais destacamos o “1º. Congresso Internacional sobre Fritz Jahr e as raízes européias da bioética” que foi
realizado na Croácia, na cidade portuária de Rijeka de 11-12 de março de
2011. Nesta mesma bela cidade portuária do mar Adriático foi realizada
em 2008 o VIII Congresso Mundial de Bioética, organizado pela As-
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sociação Internacional de Bioética. Fruto do congresso sobre Fritz Jahr
foi a Declaração de Rijeka em que os participantes afirmam:
“Fritz Jahr já utilizou o termo ‘bioética (“Bio-Ethik”) em 1927. Seu
‘imperativo bioético’ (respeite todos os seres vivos como um fim em si
mesmo, e trate-os, se possível, como tal!) deve orientar a vida pessoal,
profissional, cultural, social e política, bem como o desenvolvimento e
a aplicação da ciência e da tecnologia.”
Os assinantes da Declaração de Rijeka afirmam que a bioética
contemporânea por vezes ficou reduzida ao âmbito das questões de ética
médica (consentimento informado, princípios, relação médico-paciente,
direitos do paciente, etc) e que necessitamos de uma ampliação desta
bioética. Por isso, introduzem o conceito de bioética integrativa. “É
necessário que a bioética seja substancialmente ampliada e transformada
conceitual e metodologicamente, para que possa considerar as diferentes
perspectivas culturais, científicas, filosóficas e éticas (abordagem pluralista), integrando estas perspectivas em termos de conhecimentos que
orientem e de ações práticas (abordagem integrativa)”. Segue a nota
afirmando: “Esta bioética integrativa terá que harmonizar, respeitar e
aprender com a rica pluralidade de perspectivas individuais e coletivas,
e com as culturas da comunidade global”.
Almeja-se que a bioética se torne “um campo verdadeiramente
aberto de encontro e diálogo de várias ciências e profissões, visões e
perspectivas de mundo, que foram reunidas para articular, para discutir
e para resolver questões éticas relacionadas à vida como um todo e em
cada de suas partes, em todos os seus tipos, formas, estágios e manifestações, bem como às suas condições em geral”.
Almejando o reconhecimento e o crescimento da bioética, esta
se “tornará uma ‘ponte para o futuro’, uma ‘ciência da sobrevivência’,
uma sabedoria como maneira de utilizar o conhecimento” (como Van
R. Potter definiu no início dos anos 70) da medicina e da tecnologia
modernas (JAHR, 2011, p. 587).
2.3 Fritz Jahr: “O Imperativo Bioético” – nas origens
da Bioética
Relembrando, reconectando os fatos e alinhando os acontecimentos históricos do início da bioética nos EUA, sabemos que a histórica
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Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
publicação do livro Bioethics: Bridge to the Future (Bioética: Ponte para
o futuro) por Van Rensselaer Potter (Madison, WI) em 1971 e a criação
do Instituto Kennedy de Ética na Universidade Georgetown (Washington,
D.C.) em 1971 por André Hellegers, com o apoio de Sargent Shriver e da
Família Kennedy, são os fatos que marcam oficialmente o “nascimento”
do termo e conceito de bioética naquele país. Pesquisa realizada pelo estudioso pioneiro da bioética nos EUA, Warren Reich, que é o editor-chefe
das duas primeiras edições da Enciclopédia de Bioética, identifica Potter,
Hellegers e Shriver – como “pais” da bioética nos EUA. Menciona-se
um duplo local de nascimento: Madison-WI e Washington DC.
Recentes pesquisas no âmbito da bioética nos trazem uma grande
novidade em relação às suas origens. Somos levados a recuar no tempo
e na história e encontrar em 1927, na Alemanha, em Halle an der Saale,
Fritz Jahr. Ele é um pastor protestante, filósofo e educador que publicou
no influente periódico científico alemão, Kosmos, um artigo intitulado:
“Bio-Ethics: A Review of the Ethical Relationships of Humans to Animals
and Plants” (Bioética: uma revisão do relacionamento ético dos humanos
em relação aos animais e plantas). Nesta publicação, Jahr propõe um
“Imperativo Bioético”, ampliando o imperativo moral de Kant: “Age de
tal modo que consideres a humanidade, tanto na tua pessoa, como na
pessoa dos outros, sempre como fim e nunca como simples meio, para
todas as formas de vida. “Respeite todo ser vivo, como princípio e fim
em si mesmo e trate-o, se possível, enquanto tal” é o imperativo bioético
de Jahr. O conceito de bioética de Jahr inclui essencialmente todas as
formas de vida, não exclusivamente o ser humano.
Segundo Diego Gracia, ilustre bioeticista espanhol, teríamos duas
diferenças básicas do “Imperativo bioético” de Jahr em relação a Kant.
“A primeira é que inclui a todos os seres vivos na categoria de fins em si
mesmos, em vez de relegar todos os não humanos à categoria de simples
meios. Segundo, Jahr não formula o imperativo em termos categóricos,
mas em termos hipotéticos. Diz que se deve tratar como fins em si mesmos, “na medida do possível”. Consequentemente a bioética de Jahr
não pertence às chamadas “éticas da convicção”, como Max Weber
algum ano antes denominou, mas sim faz parte das chamadas “éticas
da responsabilidade”. Não é por acaso que Jahr utiliza frequentemente
o termo responsabilidade para dar o seu enfoque específico de bioética”
(GRACIA, 2011, p. 210).
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Jahr, ao refletir sobre o crescente progresso da fisiologia de seu
tempo e os desafios morais relacionados com o desenvolvimento de sociedades sempre mais seculares e pluralistas, redefine as obrigações morais
em relação a todas as formas de vida, humanas e não humanas, criando
um conceito de bioética, como uma disciplina acadêmica, principio e
virtude. Embora Jahr não tivesse exercido uma influencia histórica como
era de se esperar, pois viveu em tempos turbulentos, tanto política quanto
moralmente, sua visão e argumentos éticos, de que uma nova ciência e
tecnologia exigem uma nova reflexão (e solução), ético-filosófica, são
uma contribuição esclarecedora para a terminologia, incluindo o entendimento das dimensões “geo-éticas” da bioética.
O pensamento de Jahr em relação ao Imperativo bioético está
espalhado em inúmeros de seus escritos e ele não fez uma apresentação
sistemática de seu Imperativo. Nesta perspectiva é muito útil ver como
Hans-Martin Sass tenta elaborar uma leitura coerente e interpretativa do
imperativo bioético. Ele identifica pelo menos seis aspectos na perspectiva de Jahr em expandir o imperativo de Kant:
“1) O Imperativo Bioético guia as atitudes éticas e culturais bem como
as responsabilidades nas ciências da vida e em relação a todas formas
de vida (...)
2) O imperativo Bioético fundamenta-se na evidencia histórica de que
a compaixão é um fenômeno empiricamente estabelecido da alma humana. (...)
3) O Imperativo Bioético fortalece e complementa o reconhecimento
moral e os deveres em relação aos outros no contexto Kantiano e deve
ser seguido em respeito à cultura humana e às obrigações morais mútuas
entre os humanos (...).
4) O Imperativo Bioético tem que reconhecer, administrar e cultivar
a luta pela vida entre as formas de vida e contextos de vida natural e
cultural. (...).
5) O Imperativo Bioético implementa a compaixão, o amor e a solidariedade entre todas as formas de vida como um princípio fundamental
e virtude da regra de ouro do Imperativo Categórico de Kant, que são
recíprocos e não somente formais (...).
6) O Imperativo Bioético inclui obrigações em relação ao próprio corpo
e alma como um ser vivo” (SASS, 2009, p. 22).
Nos anos em que Jahr escrevia, estavam se estabelecendo os
conceitos fundamentais da física atômica, o que pouco depois levaria à
construção das primeiras armas nucleares. Quando em 1945 foram jogaEncontros Teológicos nº 67
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Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
das em Hiroshima e Nagasaki, e na década seguinte apareceram outras
bombas muito mais potentes, as denominadas bombas de hidrogênio, a
humanidade começou a reconsiderar suas relações com a vida e o meio
ambiente. Pela primeira vez na história o ser humano se via com a capacidade técnica necessária para exterminar a vida da face da terra. A vida
em geral, e não somente a vida humana, começava a se converter num
problema. Isto fez com que se disparassem vários alarmes e surgissem
vários movimentos dedicados a promover a “responsabilidade da ciência”. Os novos avanços da tecnociência trouxeram novos problemas e
estes exigiam necessariamente uma nova Ética. Se a primeira metade
do século XX foi a idade de ouro da Física, a segunda seria a idade de
ouro da Biologia molecular (GRACIA, 2011, p. 210).
É importante registrar que o conceito de bioética não foi pronta e
facilmente aceito na Alemanha. Era considerado por demais controverso
(“produto americano”). Somente a partir de 1986 o termo é oficialmente
introduzido e passa a ser utilizado com mais freqüência. É justamente
um compatriota de Jahr, o bioeticista alemão Hans-Martin Sass, que há
anos trabalha no Instituto Kennedy de bioética em Washington D.C.,
nos EUA, que resgata do silêncio da história a figura de Fritz Jahr, bem
como seu arrojado e avançado conceito de bioética (1927), cuja visão
está no centro de todos os debates bioéticos neste início de século XXI
(PESSINI; BARCHIFONTAINE; HOSSNE; ANJOS, 2012).
3 Hans Jonas: O principio da responsabilidade
“Quando a esperança não é mais a inspiração, então talvez seja o medo
o que pode nos conduzir à razão…
Hans Jonas
3.1 Itinerário intelectual e sua obra fundamental
Hans Jonas (1903-1993) nasceu na Alemanha, filho de imigrantes
judeus. Foi aluno de Martin Heidegger na Universidade de Freiburg
(1921-23) e na Universidade de Marburg (1924-1928). Entre os anos de
1940-45 foi soldado da brigada judia do exército Britânico. Em 1949,
transferiu-se para o Canadá, onde foi professor visitante nas Universidades de Montreal e Otawa. Em 1955 mudou-se para os Estados Unidos,
em Nova York, e faleceu nesta cidade em 1993, aos 90 anos. Hans Jonas
foi marcado por uma forte influência do pensamento de Heidegger, da
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fenomenologia de Husserl, dos estudos históricos com Rudolf Bultman,
além de pertencer ao circulo intelectual de Hannah Arendt, Karl Jaspers,
entre outros.
Sua experiência com o holocausto provocou profundas mudanças
na compreensão da existência humana diante do progresso científico e
tecnológico. Sua reflexão filosófica e ética tem atrás de si uma grande
tragédia de destruição da humanidade, ou seja, a II Guerra mundial que
dizimou quase 100 milhões de seres humanos. Jonas elabora sua reflexão
na esteira da preocupação e “medo” pela destruição atômica. No imediato
pós-guerra, na segunda metade do séc. XX, existia um pavor generalizado
diante do novo poder de destruição, que se concretizou com a invenção
da Bomba Atômica. O ser humano dava-se conta de ter poder e ser capaz
de destruir a si próprio e ao mundo ao seu redor.
A obra fundamental e mais famosa de Hans Jonas é “O Princípio
Responsabilidade: ensaio para uma ética para a civilização tecnológica”, publicada em 1979 em alemão, com tradução para o Inglês em
1994, e para o português em 2006 (JONAS, 2006) Esta obra se constitui
na Bíblia da primeira geração tecnológica insatisfeita do após Guerra.
E constituiu-se num grande sucesso editorial para além do campo filosófico. Sua 1ª. versão intitulada Tractatus Ethico-Politicus, lida por
Hannah Arendt, filosofa alemã, sua amiga, assim saúda a obra: “Antes
de começarmos a falar de pormenores, quero dizer que uma coisa eu
tenho clara: este livro é aquele que o bom Deus tinha em mente para ti.
“E está deliciosamente escrito”.
Jonas foi um dos filósofos que ganhou mais notoriedade no período
pós-guerra na Alemanha. Como nenhum outro pensador de sua época,
Jonas chamou atenção para um dos problemas mais sérios postos à ética
no século XXI: o problema da ameaça do futuro da humanidade, a “autodestruição do planeta”, causada pelo conceito moderno de progresso
(saber é poder) com a exploração da natureza pela técnica.
A proposta de Hans Jonas em sua obra fundamental, O Princípio
da responsabilidade é a de “elaborar uma nova ética para a civilização
tecnológica pautada pelo princípio da responsabilidade”. Uma nova
ética para os novos tempos supera “a ética antropológica”, e nasce uma
“ética bio-cosmocêntrica”, em que o horizonte de referência não é mais
apenas o ser humano, circunscrito ao aqui e agora, do tempo presente
(Ética tradicional), mas a vida do cosmos, com todos os seres vivos, o
mundo da biosfera (extra-humano) no futuro.
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Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
Para Jonas, a técnica adquiriu na contemporaneidade atributos que
eram típicos da divindade na antiguidade, “onipotência e onipresença”.
Assiste-se ao inescrupuloso extermínio da natureza e à desumanização
do ser humano. Para ele, a técnica não é algo em si, ruim, nem poderia
ser rotulada, à “priori”, de má ”! É o seu mau emprego que gera consequências negativas e danosas para o próprio ser humano. Perante o caráter
apocalíptico e catastrófico da técnica bem sucedida, devemos refletir,
desenvolver uma postura de reverência e temor. Temos aqui desenhado
um dos principais conceitos do pensamento Jonasiano, o conceito de
“Heurística do temor”, que abordaremos mais adiante.
O pensamento Jonasiano chama a atenção ao fato de a tecnologia crescentemente ser vista como “vocação e novo imperativo” da
humanidade. Diante dessa tendência, assinala que o homo faber (cerne
da técnica, mas depois por ela de algum modo subjugado) se pôs acima
do homo sapiens, do humano inteligente e de bom senso. Assim, ao
analisar os efeitos da tecnologia em relação à natureza e ao ambiente
externo, pondera as repercussões desta no ser humano e em sua essência,
quando este se transforma em “objeto da técnica”, ou seja, o ser humano, ao mesmo tempo que cria e desenvolve “artefatos” que facilitam a
sua vida, como máquinas, aparelhos e instrumentos de comunicação e
outros, se torna cada vez mais aprisionado por suas próprias criações.
Para Jonas, o ser humano na era da técnica é representado pela imagem
de Prometeu desacorrentado. Liberado do castigo eterno dos grilhões e
da ave de rapina que vem lhe devorar o fígado, agora ele está entregue
unicamente a si mesmo.
Diz Jonas nas primeiras páginas da introdução de sua obra fundamental, “O Principio da Responsabilidade”:
“O Prometeu definitivamente desacorrentado, ao qual a ciência confere
poderes jamais conhecidos e a economia um impulso irrefreável, clama
por uma ética que através de freios voluntários, impeça o poder dos
homens de se transformar em uma desgraça para eles mesmos. A tese de
partida deste livro é a premissa de que a técnica moderna se converteu
em ameaça, ou que esta se juntou àquela de modo indissolúvel, eis o
que configura essa tese fundamental (JONAS, O Principio da Responsabilidade, p. 21).
Vivemos hoje numa sociedade de risco, em que cada novo passo
adiante no domínio da natureza, implica não apenas prudência, mas
também precaução responsável. Perguntamo-nos se, no futuro, a com-
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paixão, a solidariedade e o cuidado não serão preteridos em favor da
busca e sedução biotecnológica. Hans Jonas, visionário de um futuro a
ser construído superando o descaso para com a natureza e a desumanização humana, nos convida a fugir da superficialidade das aprovações
ou condenações frívolas, superando aspectos ideológicos, utópicos e
fundamentalistas, do aqui e agora de nossa história, e avançar mediante
o diálogo respeitoso frente ao diferente e diverso, com base no princípio da responsabilidade. Esta perspectiva sem dúvida pode ser fator de
superação de utopias que semeiam e alimentam uma visão apocalíptica
de destruição da humanidade. O compromisso de todos com a dignidade
do ser humano e com o futuro (as gerações futuras são consideradas por
Jonas como sendo nosso próximo) da vida no planeta nos ajuda a fazer
a passagem do imperativo técnico-científico, para o imperativo ético da
responsabilidade.
3.2 Algumas características do Princípio da
Responsabilidade
Jonas propõe um dever moral de responsabilidade com a existência humana futura, colocando a responsabilidade no centro da ética. O
objeto da ética não se circunscreverá apenas ao bem humano, mas se
estenderá ao bem das coisas extra-humanas, abarcando a biosfera. O seu
ponto de partida é a “heurística do temor”, como um sentimento fundador
da responsabilidade e essa, como força capaz de moldar um imperativo
ético para este novo tempo.
Para Jonas o imperativo categórico de Kant, apresenta uma preocupação somente com o presente, não incluindo as gerações futuras. O
imperativo Jonasiano é assim apresentado: “Age de modo que os efeitos
de tua ação sejam compatíveis com a permanência de uma autêntica vida
humana sobre a Terra”. Ou em termos negativos: “Age de modo que os
efeitos da tua ação não sejam destrutivos para a futura possibilidade
desta vida”, ou simplesmente: “Não ponhas em perigo as condições
necessárias de continuidade indefinida da humanidade sobre a Terra”;
ou, outra vez formulado positivamente: ‘Inclui em tua escolha presente,
a futura integridade do homem, como um dos objetos do teu querer”
(JONAS, O Principio reponsabilidade, 2006, p.47-48).
Podemos destacar as palavras-chave de cada uma dessas formulações: 1ª. autenticidade, a 2ª. possibilidade, a 3ª. continuidade e a 4ª.
integridade. São diferentes formulações do mesmo “princípio responsaEncontros Teológicos nº 67
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Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
bilidade”, que ele também chama também de “imperativo”. Ao comparar
com o Imperativo categórico Kantiano, ele diz:
“O imperativo categórico de Kant se endereçava ao indivíduo e seu critério era momentâneo (…). O novo imperativo invoca outra coerência:
não aquela do ato em acordo com ele mesmo, mas aquela de seus ‘efeitos’
últimos para a continuidade da atividade humana no futuro. (...) nosso
imperativo se estende em direção a um previsível futuro concreto, que
constitui a dimensão inacabada de nossa responsabilidade” (JONAS,
O princípio responsabilidade, 2006, p. 48-48).
O imperativo é tomado como um axioma, sem justificação ou
maior fundamentação. O arquétipo de responsabilidade total é o recémnascido, face à sua total vulnerabilidade e radical dependência dos pais,
e ao mesmo tempo seu profundo traço/marca impresso como alteridade
“presente”. A sua total vulnerabilidade exige cuidados e se torna mais
forte ainda porque o estado da criança está fora dos parâmetros de reciprocidade (alteridade assimétrica). e se insere no contexto de uma relação
de gratuidade, tipificando a materialização mais profunda do sentimento
de proteção e acolhida daquele pequenino ser, no caso em questão, um
bebê. Sem este cuidado, o bebê não sobreviverá, mas morrerá.
Assim se expressa Jonas:
“O recém-nascido reúne em si a força do existente, que se auto reconhece e a queixosa importância do ‘não ser ainda’, o incondicional fim
de todos os viventes e o ‘ainda ter de se tornar’ das suas próprias capacidades, para garantir aquele fim. Esse ‘ter de se tornar’ é um estado
intermediário – uma suspensão do ser indefeso sobre o não ser – que uma
causalidade externa terá de socorrer. Na insuficiência radical do recémnascido está previsto ontologicamente que seus pais o protejam contra
sua queda no nada e que se encarreguem de seu devir futuro. A aceitação
desse encargo estaria contida no ato da procriação. Sua observância
(mesmo que por meio de outras pessoas) torna-se um devir irrecusável
diante de um ser cuja existência autônoma depende dele inteiramente”.
(JONAS, O princípio responsabilidade, 2006, p. 223-224).
Outra definição que Jonas dá de responsabilidade, muito interessante, é esta: “o cuidado que se tem por dever para com algum outro
ser que, uma vez ameaçado, faz com que o cuidado se converta em
preocupação diligente” (JONAS, 1979, p. 91).
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3.3 A heurística do temor
Diz Jonas que “quando a esperança não é mais a inspiração,
então talvez seja o alerta do medo o que pode nos conduzir à razão”.
Para isto ele propõe que façamos uma heurística do temor, ou seja, sem
o pressentimento do futuro, o presente seria uma terra sem cuidados.
Numa época, em que falamos do “crepúsculo do dever” (LIPOVETSKY,
2005), da “liquidificação” das relações – tudo se torna líquido, fluído,
gasoso – BAUMAN, 2011), da política e da liberdade, parece não haver
mais sentido em defendermos princípios para a ética. Nas Cartas sobre
o humanismo, a ideia heideggeriana de ‘pastor do ser’ adquire uma
dimensão pedagógica em Jonas. Em Heidegger temos um apelo quase
desesperado e dominado pela descrença para encontrar uma saída para
a técnica, temos a angústia que quase nos paralisa. Em Jonas estamos
diante de uma urgência quase apocalíptica, a heurística do temor, como
substituto das projeções anteriores de esperança, nas promessas de redenção utópica da moderna tecnologia. Neste contexto fica evidente o
resgate da ideia de Heidegger de sermos o “pastor do ser”.
Estaria Jonas fazendo apologia do temor? Jonas constata que valorizamos a vida como algo sagrado, na medida em que conhecemos o
que é sua aniquilação, ou, por exemplo, por meio do mandamento ‘não
matarás’. A perda de algo ou a mera representação de sua perda provoca
instantaneamente uma valorização do mesmo objeto em questão.
Da mesma maneira, sabemos o que significa a liberdade por
conhecermos o que é a sua falta, quando, por exemplo, ficamos presos
numa prisão ou doentes num leito de hospital. Tais privações reais ou
fictícias podem ter um efeito positivo sobre nossa disposição e modo
de agir. “Nós precisamos de ameaças à imagem humana (…) para que,
com o pavor suscitado, nós consigamos assegurar uma imagem humana
autêntica”. (JONAS, 1984, p. 63). Segue ainda Jonas: “Sobre o mal, nós
não temos incertezas quando o experimentamos; sobre o bem, temos
certeza, na maioria das vezes, quando dele nos desviamos (JONAS, p.
63-64, 1984).
O mal, imaginado como consequência de nossas opções e ações
(no futuro), deveria servir de contraponto ao agir concreto aqui e agora.
Este mal imaginado deve assumir um caráter de mal experimentado’.
Eis o que o temor, segundo Jonas, pode oferecer enquanto princípio
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Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
heurístico. Com isso, o primeiro dever da ética do futuro é: entrever ou
vislumbrar os efeitos de longo prazo de nossas ações.
Para Jonas, a prudência “é o cerne do nosso agir moral”. Ele se
utiliza da heurística do medo para fazer frente ao poder de evolução evocado pela técnica: trata-se de uma distorção hipotética da condição futura
do Ser optando pela primazia do mau prognóstico, pois “é necessário dar
mais profecia da desgraça do que da salvação” (JONAS, 2006, p. 77).
Ao refletirmos sobre as ameaças, vislumbrando o mal, podemos escolher
a melhor ação para o presente. O medo aqui tem sentido de aprendizado,
pois antecipa as condições desastrosas a serem evitadas.
Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI) utiliza o mesmo argumento
Jonasiano frente ao poder técnico que destrói a natureza, desumaniza
o ser humano e compromete o futuro da vida no planeta. Na trilha da
‘heurística do medo’ Jonasiana, ao comentar sobre as novas formas de
poder a partir da existência da bomba atômica, na segunda metade do
século XX, assim escreve:
“Na prática, por um longo período, foram a concorrência entre os blocos
de poder reciprocamente opostos e o medo de iniciar a própria destruição
com a destruição do outro que nos protegeram dos horrores da guerra
nuclear. A demarcação recíproca do poder e o medo em torno da própria
sobrevivência, revelaram-se como forcas salvadoras” (RATZINGER,
Folha de São Paulo, 24 de abril de 2005).
O pensamento Jonasiano se aproxima e de certa forma fortalece a
sensibilidade e a ação do movimento ecológico contemporâneo quando
pensa num agir humano, numa ética da responsabilidade no futuro da vida
de todos os seres vivos no Planeta. Vide declarações do ONU sobre o meio
ambiente e em especial a Carta da Terra que teve seu nascimento na ECO
92 no Rio de Janeiro (RJ) e que, reconhecida em 2000, teve sua aprovação
pela UNESCO e deve ser assumida por todos os países membros.
4 Que futuro, assumindo nossa responsabilidade,
construiremos juntos?
Ao finalizarmos esta reflexão poderíamos fazer duas perguntas,
uma a respeito de origem e outra a respeito de futuro: Oh, bioética de onde
vens? Com Fritz Jahr (1926) e Potter (1970) temos indicações preciosas
de suas origens. Mas, para onde vais? O futuro passa na perspectiva
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dos dois protagonistas analisados que se antecipam profeticamente a
toda a problemática ecológica de hoje, e têm muita sintonia com a causa ecológica das Nações Unidas, e de ilustres ativistas na área, p. ex.,
Mikahil Gorbachev. Este último identifica três grandes desafios a serem
enfrentados em nosso tempo. O primeiro é a necessidade de manter a
paz no mundo. A comunidade internacional tem de estar unida também
na luta contra o terrorismo, que não pode ser justificado por nenhuma
consideração política ou moral. O segundo desafio é a luta contra a pobreza no mundo. Como pode o “milhão dourado” de pessoas bafejadas
pela sorte permanecer indiferente diante do espetáculo da miséria em
que se debate a metade da população do planeta, reduzida a viver com
um ou dois dólares por dia, passando fome todos os dias, sem acesso à
água potável e sem condições decentes de higiene? O terceiro desafio
identificado está ligado ao meio ambiente. Entramos em sério conflito
com o nosso próprio habitat – com a mãe natureza. Esses três desafios são
interdependentes. Sem combater a pobreza, serão inúteis também todas
as medidas ecológicas. Mas se não nos preocuparmos com a ecologia,
todos os nossos esforços para construir um mundo mais justo estarão
fadados ao fracasso e nossos descendentes terão que pagar pelo nosso
comportamento insensato e depredador da natureza. A própria vida na
Terra corre o risco de desaparecer, tornando-se somente um episódio
efêmero na história do nosso universo. (SASS, 2011).
Os três desafios propostos não dizem respeito somente aos governos
e às organizações internacionais, mas a cada um de nós. Chegou a hora de
todo cidadão do planeta Terra pensar na contribuição pessoal que pode dar
para essa tarefa comum. “Somos responsáveis, diante das gerações futuras,
pela conservação da vida na Terra”. (...) “Hoje, a humanidade precisa de
uma nova filosofia de vida, de uma nova ética que cristalizará os valores
fundamentais, comuns a todas as tradições religiosas, uma ética baseada
no consenso entre as nações e os povos do mundo”.
Gorbachev nomeia este projeto como sendo um processo de elaboração de uma ética global e conclui dizendo:
“a exemplo do grande escritor americano William Faulkner, eu me
recuso a aceitar a possibilidade do fim da humanidade, quaisquer que
sejam as provações que tenha que enfrentar. Este é o meu credo de um
incorrigível otimista”20.
20
Id., ibid.,118-119.
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Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
Lembrando a Carta da Terra, da qual foi um dos principais líderes
de todo o processo, assim escreve: “Estamos diante de um momento crítico na história da terra, numa época na qual a humanidade deve escolher
o seu futuro (…)”. Para seguir adiante, “(…) devemos reconhecer que, no
meio de uma magnífica diversidade de culturas e formas de vida, somos
uma família humana e uma comunidade terrestre com um destino comum.
Devemos somar forças para gerar uma sociedade sustentável global,
baseada no respeito pela natureza, nos direitos humanos universais, na
justiça econômica e numa cultura de paz”. Almejamos que nosso tempo
seja lembrado “pelo despertar de uma nova reverência diante da vida,
por um compromisso firme de alcançar a sustentabilidade, pela rápida
luta pela justiça, pela paz e pela alegre celebração da vida”21.
Um dos mais importantes documentos de bioética da contemporaneidade elaborados pela UNESCO, intitulado “Declaração Universal
de Bioética e Direitos Humanos, de 2005, aponta entre os objetivos da
declaração “promover o respeito da biodiversidade” e entre os princípios fundamentais, “responsabilidade para com a biosfera”, proteção
da biodiversidade e biosfera em que o ser humano vive.
Levando em consideração perspectivas novas dos últimos Congressos Mundiais, vemos que a bioética vai avançando globalmente
(geograficamente), ampliando sua compreensão epistemológica, bem
como sua abrangência temática, enfrentando os desafios emergentes e
sinalizando prioridades a seguir. Jahr em 1927, na Alemanha e Potter
no início dos anos 70, são os dois protagonistas pioneiros que apontam
para um dos maiores desafios que a humanidade tem neste início de
milênio: a responsabilidade humana para garantir o futuro da vida no
planeta terra. Resgatar a sua contribuição intelectual para o campo da
bioética, para além do hegemônico paradigma bioético principialista
(Instituto Kennedy e Georgetown University, Washington, D.C, EUA)
é uma questão de justiça histórica.
A bioética com Potter (1970) se apresenta como um credo pessoal
e uma ponte. Um credo de valores a serem cultivados, protegidos e contretizados na vivencia diaria. Na figura metafórica da ponte, a proposta de
diálogo inter, multi e transdisciplinar nas várias áreas do conhecimento
humano, constitui uma autêntica possibilidade. Com Fritz Jahr (1926),
resgatamos a visão englobante e integrativa da bioética que, para além do
21
102
Id., ibid., p. 135.
Encontros Teológicos nº 67
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Leo Pessini
ser humano (ética tradicional) no presente, se preocupa com o futuro e
engloba todos os seres vivos. É o que ele chama de imperativo bioético.
Finalmente, Hans Jonas (1979), com o princípio da responsabilidade,
nos dá o veículo que nos permite no presente urgente e emergente de nossa
história trafegar por esta ponte, com segurança, sem riscos de acidentes,
protegendo a vida de todos os seres vivos no futuro.
Daí, a provocação inicial do subtítulo de nosso artigo ganha
sentido: o encontro de um credo (Potter – 1970), com um imperativo
(Jahr – 1979) e um princípio (Jonas – 1926-27). Os valores apontados a
serem defendidos, proclamados e protegidos nestes elementos, – credo,
imperativo e princípio – nos levam ao berço do pensamento bioético e
nos projetam para o amanhã da humanidade com esperança. É sempre
saudável voltarmos às origens e, como diz T. S. Eliot: “Não cessaremos
de explorar e, no final de toda a nossa busca, chegaremos onde começamos e conheceremos o lugar pela primeira vez!”.
Encontros Teológicos nº 67
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103
Bioética aos 40 anos: o encontro de um credo, com um imperativo e um princípio
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106
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
Endereço do Autor:
Aven. Nazaré, 1501
Ipiranga
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E-mail: [email protected]
Resumo: Um dos maiores desafios para a bioética neste início de século XXI, batizado como
“o século da biotecnologia” é a chegada da era do pós-humanismo ou transumanismo. Estamos
começando a considerar seriamente possibilidades de “trans-humano” através de melhoramentos
biotecnológicos das capacidades humanas biológicas tais como, tempo de vida, tipo de personalidade e inteligência, reprogramação da mente humana, só lembrando alguns elementos. A
genética, a nanotecnologia, a clonagem, a criogenia, a cibernética e as tecnologias de computador, a biogerontologia e medicina antienvelhecimento, são parte de uma visão pós-humana,
que inclui até a idéia de formar uma mente computadorizada, livre da carne mortal, e portanto,
imortalizada. Para os pós-humanistas a biologia, a natureza humana tal como a conhecemos
hoje, não é um destino, mas antes algo que deve ser superado e modificado.
Tratar-se-ia de uma versão contemporânea de Prometeu, o titã grego que roubou o fogo sagrado
dos deuses? Não seria isto um mero cientificismo a ser combatido, que pretende re-engenheirar
a natureza humana, e até criar biológica e tecnologicamente seres humanos superiores? Para
outros, todos estes esforços, são vistos como um progresso no desenvolvimento de forças
tecnológicas para o “melhoramento humano”. Trava-se uma batalha entre duas grandes visões
de militantes, os chamados “pós-humanistas” e os “bioconservadores”. Portanto estamos na
gangorra entre ameaças e esperanças, ideologia e utopia. Necessitamos de referenciais éticos
para discernir entre as transformações que são salutares, e aquelas que são destrutivas e que
se precisa evitar.
Abstract: One of the major challenges confronting Bio-ethics at the beginning of this century, as it was baptized as the “Century of Bio-technology” is the arrival of post-humanism
or trans-humanism. We are beginning to consider quite seriously some possibilities of being
“trans-human” from the point of view of bio-technical improvements of human biological
capabilities such as the lifespan, types of personalities and intelligence, reprogramming
of the human mind, just to mention some of its elements. Genetics, nano-technology,
cloning, cybernetics as well as the technologies of the computer, bio-gerontology and the
medicine against old age, all of these are new components of a post-human perspective
which include the idea of forming a computerized mind, freed from mortal flesh and therefore immortalized. For the post-humanist`s, biology, human nature as we know it today
is not destiny, but rather something that has to be overcome and modified. Could it be a
contemporary version of the Promethean myth, the Greek titan who stole the sacred fire
of the gods? Wouldn`t it be merely a degenerate scientific tendency which ought to be
fought against because it pretends to apply engineering techniques to human nature, and
envisages even more by trying to create superior human beings by means of biological
techniques? On the other hand, to someone else all of these efforts are held as positive
steps of progress in the development of technological means for “human improvement“.
Thus we are facing a battle between to militant visions, the so called “post-humanists” ,
and the “bio-conservationists”. We are on the seesaw of threats and hopes, ideology and
utopias. What we need are ethical signposts in order to discern between salutary transformations and destructive dangers which have to be avoided.
Bioética e o futuro pós-humano:
Ideologia ou utopia, ameaça ou esperança?
Leo Pessini*
* Professor Doutor no programa de pós-graduação em Bioética, mestrado e doutorado,
do Centro Universitário São Camilo em São Paulo. Autor de inúmeras obras no âmbito
da bioética. Atualmente é Provincial dos Camilianos no Brasil (2010-2016) e Presidente
das Organizações Camilianas Brasileiras, uma rede de 52 hospitais espalhados em
19 estados brasileiros.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014, p. 107-130.
Bioética e o futuro pós-humano: ideologia ou utopia, ameaça ou esperança?
Introduzindo
Um dos maiores desafios para a bioética neste início de século XXI,
batizado como “o século da biotecnologia”, são os primeiros sinais que
inauguram a chamada era do pós-humanismo ou transumanismo.
Uma das mais prestigiosas revistas científicas da atualidade, a
norte-amercicana Science, de uma forma bastante criativa e original, ao
completar 125 anos de existência (1/07/2005), listou as 125 perguntas
sem resposta sobre o Universo, a vida e o homem. “Os mistérios não
solucionados alimentam a ciência com motivação e direção”, diz Tom
Siegfried, jornalista norte-americano1. Entre os 25 mistérios mais detalhados por Science, de diversas áreas do conhecimento humano, destacamos
os relacionados com o assunto desta reflexão ética sobre a chegada da
“era do pós-humanismo”. a) Astronomia: Do que é que o Universo é
feito? Estamos sozinhos no Universo?; b) Genética: Por que os humanos
têm tão poucos genes? Cerca de 25 mil genes estruturais – metade do
genoma do arroz. Em que medida, variação genética e saúde pessoal
são ligadas? Quais mudanças genéticas nos fazem humanos?; c) Corpo:
Qual é a base biológica da consciência e até quando a vida humana pode
ser estendida? O que controla a regeneração? Como uma célula da pele
vira uma célula nervosa? Como a memória é armazenada e recuperada?
Podemos desligar a resposta imunológica de forma seletiva? A vacina
contra o HIV é possível?; d) Biologia: Como uma célula somática se
torna uma planta? O que determinada a diversidade de espécies? Como
e onde surgiu a vida? Como evoluiu o comportamento de cooperação?
Como os grandes quadros surgirão de um mar de dados biológicos? E)
Terra: como funciona o centro do planeta?, Quão quente será o mundo
sob o efeito estufa?, Malthus continuará a se mostrar errado?; O que
pode substituir o petróleo, barato, e quando?2 É importante destacar que dos 25 mistérios apontados, se levarmos
em conta somente três das oito áreas do conhecimento apontadas, ou
seja, genética, corpo e biologia, temos aí 15 dos 25 mistérios maiores.
108
1
Cf. Ciência lista os mistérios da vida, in: O Estado de São Paulo, 1 de julho de 2005,
A 18.
2
Cf. www.sciencemag.org/SCIEXT/125th/. Para ver a lista completa dos 125 mistérios
sobre o Universo e o homem à espera de uma explicação científica. Para completar
a lista dos 25 temos ainda na área da física: As leis da física podem ser unificadas?
Princípios mais profundos sustentam a incerteza quântica e a não-localidade?; Química: Até onde podemos conduzir uma auto-organização química? Computação: Quais
são os limites da computação convencional?
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
Leo Pessini
É justamente aqui que se situa a trabalho das ciências da vida de revelar
estes mistérios. Embora a humanidade via conhecimento científico já
tenha decifrado muitos mistérios relacionados com o universo e a vida
do ser humano, percebemos que ainda temos muitos desafios pela frente,
é o que revela este criativo ensaio da Revista Science.
Esta questão é tão importante, instigante e complexa que a Comissão de Bioética Norte-Americana, que assessora o governo, tendo
como Presidente Leon Kass, recentemente produziu um documento que
aborda criticamente estas questões relacionadas com o desenvolvimento
da biotecnologia. O título desse estudo é sugestivo: Para além da terapia:
biotecnologia e a busca da felicidade3. Voltaremos a esse estudo mais
adiante em nossa reflexão.
Duas geniais obras de ficção científica marcaram o século XX,
em termos de pensar o futuro humano. Trata-se do romance, 1984, de
George Orwell (1949) e da novela Admirável Mundo novo, de Aldous
Huxley (1932). Estas obras centravam-se em duas diferentes tecnologias
que iriam de fato, fazer surgir e moldar o mundo ao longo das gerações
seguintes. “1984”, tratava do que hoje chamamos de Tecnologia da Informação: crucial para o vasto império totalitário que fora erigido sobre
a Oceania era uma aparelho chamado teletela, que podia enviar e receber
imagens, simultaneamente, entre cada residência de um flutuante Grande
Irmão. A teletela era o que permitia a vasta centralização da vida social
sob o Ministério da Verdade e o Ministério do Amor, pois permitia ao
governo abolir a privacidade mediante a monitoração de cada palavra e
ato numa imensa rede de fios. “Admirável Mundo novo”, por sua vez,
tratava de outra grande revolução tecnológica prestes a ocorrer, a da
biotecnologia. Foi publicado em 1932, mas é bom observar que a chamada descoberta do século, a identificação do DNA, só vai ocorrer duas
décadas após, em 1953. A bokanovskização, a incubação de pessoas não
em úteros, mas, como falamos hoje, in vitro; a droga soma, que dava felicidade instantânea às pessoas; o cinema sensível, em que a sensação era
simulada por eletrodos implantados; e a modificação do comportamento
através da repetição subliminar constante e, quando isso não funcionava,
3
Disponível em: <http://www.bioethics.gov/reports/beyondtherapy/>. Acessado em:
19/08/2005. Este documento também foi publicado em forma de livro.
Encontros Teológicos nº 67
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Bioética e o futuro pós-humano: ideologia ou utopia, ameaça ou esperança?
da administração de vários hormônios artificiais, são alguns processos
deste cenário de ficção simplesmente assustador.4
Percebemos que este cenário é simplesmente e profundamente
provocativo em termos de reflexão bioética. Como uma introdução para
a discussão, o presente texto busca entender o que significa biotecnologia e seus usos (I); aponta para o entusiasmo e inquietações da idade de
ouro das descobertas biotecnológicas (II); discute os conceitos de terapia
e melhoramento (III); a seguir apresenta as origens e fundamentos do
movimento pós-humanista (IV); as questões éticas inevitáveis (V); o
embate entre os chamados trans humanistas e bioconservadores (VI);
e a discussão sobre o sentido do conceito de dignidade humana nesse
contexto (VII). Por fim concluímos, apontando como tarefa da bioética
levantar as questões não formuladas e aprofundar as questões para além
da embalagem ideológica ou fundamentalista em que é envolta.
1 Biotecnologia: conceituação e usos
Em termos amplos, a biotecnologia é definida como sendo “os
processos e produtos (usualmente em escala industrial) que oferecem o
potencial de alterar e, até certo grau, controlar o fenômeno da vida – em
plantas, em animais não humanos, e crescentemente, nos seres humanos. Para além dos processos e produtos que fabrica, a biotecnologia é
também um esquema conceitual e ético, com aspirações progressivas.
Nesse sentido, ela surge como a mais recente e vibrante expressão do
espírito tecnológico, um desejo e disposição racional de compreender,
ordenar, predizer e finalmente controlar os eventos e trabalhos da natureza, perseguido para beneficiar o homem”.5
Entendida dessa forma, a biotecnologia significa muito mais que
seus processos e produtos: trata-se de uma forma de empoderamento
humano. Por meio de suas técnicas ( por ex, recombinação de genes), instrumentos (seqüenciadores de DNA), e produtos (novos medicamentos e
vacinas), a biotecnologia dá poder aos seres humanos para assumir muito
mais controle sobre suas vidas, diminuindo nossa sujeição à doença e ao
110
4
Fukuyama, Francis. Nosso Futuro pós-humano: Conseqüências da revolução da
biotecnologica, Rocco, Rio de Janeiro, 2003, p. 18-19.
5
A REPORT BY THE PRESIDENT´S COUNCIL ON BIOETHICS. (Foreword by Leon R.
Kass, M.D., Chairman), Beyond Therapy: biotechnology and the pursuit of Happiness.
Regan Books, New York, 2003, p. 1-2.
Encontros Teológicos nº 67
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Leo Pessini
destino infeliz, chance e necessidade. As técnicas, instrumentos e produtos da biotecnologia, aumentam nossas capacidades de agir e funcionar
efetivamente, para muitos objetivos diferentes. Assim como o automóvel
é um instrumento que confere poderes em termos de “auto-mobilidade”,
cujos poderes podem ser usados para inúmeros objetivos não definidos
pela máquina em si, assim também o sequenciamento do DNA é uma
técnica que dá poder para a seleção genética que pode ser utilizada para
vários propósitos, não determinados pela técnica, e o hormônio sintético
de crescimento é um produto que confere poderes para aumentar a altura
do baixinho ou aumentar a força muscular do idoso. “Se entendemos
para que serve a biotecnologia, precisamos prestar atenção nas novas
habilidades que ela provê, mais do que sobre os instrumentos técnicos
e produtos que tornam tais habilidades disponíveis para nós.”6
Na biotecnologia, como em qualquer outra tecnologia, os objetivos
a que ela serve não são dados nem pelas técnicas em si mesmas, muito
menos pelos poderes que disponibilizam, mas pelos usuários humanos.
Como em outros meios, uma determinada biotecnologia desenvolvida
com um determinado objetivo, freqüentemente serve a múltiplos propósitos, incluindo alguns que nem foram imaginados ou imagináveis por
aqueles que a criaram.
Existem várias questões em relação ao objetivo geral da biotecnologia: aprimorar a humanidade, mas o que exatamente aprimorar?
Deveríamos pensar somente em doenças específicas, sem cura neste
momento histórico, tais como biabetes juvenil, câncer, ou Alzheimer?
Não deveríamos também incluir doenças mentais e enfermidades, desde retardamento à depressão, da perda de memória à melancolia, entre
outras? Além do mais, não deveríamos considerar também aquelas “limitações” constitutivas da natureza humana, sejam corporais ou mentais,
incluindo a realidade implacável do declínio e morte? Trata-se somente
de doença e sofrimento, ou também de fenômenos tais como mal humor,
falta de entendimento e desespero? O aperfeiçoamento deve ser limitado
para eliminar esses e outros males, ou deve também aprimorar aquela
parte de bens positivos, tais como beleza, força, memória, inteligência,
longevidade, ou felicidade?
Estamos gradualmente aprendendo como controlar os processos
biológicos do envelhecimento: devemos buscar somente diminuir as
6
Idem ibidem, p. 2.
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111
Bioética e o futuro pós-humano: ideologia ou utopia, ameaça ou esperança?
doenças físicas e mentais do período idoso ou também engenheirar
aumentando ao máximo o tempo de vida humana? Estamos com novas
técnicas para alterar a vida mental, incluindo memória e humor: devemos
usá-las somente para prevenir ou tratar doença mental ou também apagar
memórias desagradáveis ou comportamentos vergonhosos, transformar
um temperamento melancólico, ou aliviar a tristeza do luto?
“Serão sempre estas mesmas perguntas que teremos que enfrentar como
conseqüência de novos poderes biotecnológicos adquiridos, que hoje
estarão brevemente à nossa disposição: Para que serve ou deveria servir
a biotecnologia? Ela deveria servir para que?.”7
2 Entusiasmo e inquietudes na idade de ouro
das descobertas biotecnológicas
Entramos na idade de ouro para a biologia, medicina e biotecnologia.
Com o término da fase do sequenciamento do DNA (2000), do projeto
Genoma Humano, e a emergência da pesquisa com células tronco, podemos
sem dúvida esperar por mais descobertas sobre o desenvolvimento humano,
normal e anormal, bem como sobre tratamentos novos e mais selecionados
precisamente para as doenças humanas. Avanços na neurociência trazem
a promessa de poderosas e novas compreensões dos processos mentais
e comportamentais, bem como a cura de doenças mentais devastadoras.
Instrumentos nanotecnológicos geniais, implantáveis no corpo e cérebro
humano, geram esperanças de superação da cegueira e surdez, bem como,
aprimoramento de capacidades humanas naturais de consciência e ação.
Pesquisas na área da biologia do envelhecimento e senescência, sugerem
a possibilidade de diminuir o processo de declínio dos corpos e mentes, e
talvez até mesmo aumentar ao máximo o o tempo de vida humana.
De inúmeras maneiras, as descobertas dos biólogos e as invenções
dos biotecnologistas estão aumentando firmemente nosso poder de intervenção no funcionamento de nossos corpos e mentes e em alterá-los
por um plano racional.
Por parte de muitos, existe muito entusiasmo em relação aos desenvolvimentos. Antes mesmo de trazerem benefícios práticos, ansiamos
por um conhecimento enriquecido sobre como nossas mentes e corpos
7
112
A Report by the President´s Council on Bioethics, Beyond Therapy: Biotechnology
and the Pursuit of Happiness, p. 4
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funcionam. Mas, são especialmente as promessas em torno dos benefícios
médicos que alimentam nossa admiração. Muita gente e famílias esperam
ardentemente a cura para inúmeras doenças devastadoras e ansiosamente
antecipam o alívio de tanta miséria humana. Certamente acolheremos,
como fizemos no passado, as novas descobertas tecnológicas que podem
ajudar-nos a que tenhamos corpos mais saudáveis, menos dor e sofrimento, paz de mente e vida mais longa.
Ao mesmo tempo, contudo, o advento de novos poderes biotecnológicos para muita gente é causa de preocupação e inquietação. Primeiramente, porque as descobertas científicas em si mesmas levantam desafios
para a auto-compreensão humana: as pessoas se questionam, por exemplo,
o que no novo conhecimento das funções cerebrais e comportamentais se
fará com os conceitos de vontade livre, responsabilidade pessoal moral,
formados antes da chegada de tais tecnologias. Segundo, a prospectiva da
engenharia genética, enquanto bem vinda para tratamento de doenças genéticas hereditárias, levanta para muitos o medo da eugenia ou preocupação
com “bebês desenhados”. Remédios psicotrópicos, enquanto bem vindos
para o tratamento de depressão ou esquizofreania, criam medo de controle
de comportamento e preocupações com a diminuição da autonomia ou
identidade pessoal. Precisamente por causa do novo conhecimento e dos
novos poderes que atingem diretamente a pessoa humana, e em formas
que podem afetar nossa própria humanidade, um certo sentimento de
desconfiança paira sobre o empreendimento como um todo.
Enquanto os benefícios são rapidamente identificados, as preocupações éticas e sociais que a marcha da biotecnologia levanta não são facilmente articuladas. Elas vão além das questões familiares de bioética, e
estão mais diretamente ligadas com os fins em si mesmos, para os usos dos
poderes biotecnológicos. Em termos gerais, estas preocupações maiores,
são ligadas especialmente àqueles usos da biotecnologia que vão “para
além da terapia”, para além do domínio usual da medicina e dos objetivos
de cura, usos que vão desde o ser vantajoso, até o pernicioso. Existem
hoje biotecnologias já disponíveis como instrumentos de bioterrorismo,
como agentes de controle social, e como meios para aperfeiçoar nossos
corpos e mentes (por ex. esteróides e estimulantes corporais).
Este cenário gera em nós preocupações: nossa sociedade pode ser
danificada, e nós mesmos podemos diminuir e minar as maiores e melhores
oportunidades para a vida humana. Mas nem todos estão preocupados com
esta prospectiva. Pelo contrário, muitos celebram a direção em busca da
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Bioética e o futuro pós-humano: ideologia ou utopia, ameaça ou esperança?
perfeição a que a biotecnologia está nos levando. De fato, alguns cientistas
e biotecnólogos não se intimidaram em serem profetas de um mundo muito
melhor que o presente, que está por chegar, graças à ajuda da engenharia
genética, nanotecnologias, e drogas psicotrópicas. “Neste momento único
na história do progresso técnico, diz um recente documento da Fundação
Nacional de Ciências, “em que o aperfeiçoamento da performance humana
torna-se possível, e tal aprimoramento é buscado com vigor, poder-se-ia
atingir a idade de ouro que seria o ponto de virada para a produtividade
e qualidade de vida”.8 “Os humanos do futuro, olharão para nossa era
como desafiante, difícil e um momento traumático”, escreve um cientista
observando tendências atuais. “Eles verão como um tempo estranho e
primitivo, a nossa época, em que as pessoas viviam somente setenta ou
oitenta anos, morriam de doenças horrorosas, e concebiam seus filhos fora
do laboratório, frutos do acaso e imprevisível encontro de um espermatozóide e um óvulo”9. James Watson, co-descobridor da estrutura do DNA,
coloca a questão de uma forma muito simples: “Se podemos construir
seres humanos melhores ao sabermos como acrescentar genes, por que
não deveríamos fazê-lo?”.10
Claro que estas predições em relação a um futuro pós-humano,
é problemática. Nem todos gostam da idéia de “recriar o Eden” ou do
“homem brincando de Deus”. Nem todos acreditam que este mundo
profetizado seja melhor que o nosso. Nasce aqui a necessidade da discussão ética, que permeie um cenário claramente polarizado em termos
de ser a favor de uma nova realidade pós-humana ou contra, pois têm-se
muitas inquietações em relação a manipulações, e à utilização dessas
biotecnologias contra a vida.
3 Os conceitos de terapia e melhoramento
humano: Distinguir?
A questão da busca biotecnológica do melhoramento humano,
ainda não entrou na agenda da bioética pública. Nos círculos acadêmi-
114
8
National Science Foundation. Converging Technologies for Improving Human
Performance: Nanotechnology, Biotechnology, Information Technology and Cognitive
Science, Arlington, Virginia: National Science Foundation, 2003, p. 6.
9
Stock, G., Redesigning Humans: Our Invevitable Genetic Future, New York: Houghton
Mifflin, 2002, p. 200.
10
James D. Watson, citado por Wheeler, T., “Miracle Molecule, 50 Years On”,
Baltimore Sun, 4 February 2003, p. 8a.
Encontros Teológicos nº 67
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cos recebeu atenção sob a rubrica de “aperfeiçoamento”, entendido em
contraposição a “terapia”. Esta distinção nos fornece um bom ponto de
partida para entrar na discussão das atividades que objetivam “ir além da
terapia”. Terapia nesta visão é o uso do poder biotecnológico para tratar
as pessoas com doenças conhecidas, deficiências ou danos, tentando
restaurá-las para o estado normal de saúde e funcionamento. Aperfeiçoamento (enhancement), por contraste, é uso do poder biotecnológico
direcionado para alterar, através de intervenção direta, não processos de
doenças, mas o funcionamento “normal” do corpo e psique humanas,
para aumentar suas capacidades e performances naturais11.
Em biomedicina, melhoramentos são definidos como “intervenção
que tem como objetivo aprimorar a forma ou funcionamento humano,
para além do que é necessário para manter ou restaurar boa saúde.”12
Em outras palavras, melhoramentos são intervenções que aprimoram a
forma e o funcionamento humanos sem responder a genuínas necessidades médicas. Este conceito identifica melhoramento pelo objetivo de
aprimoramento, na ausência de necessidade médica. O conceito mais
comum, contrasta com o entendimento do que sejam melhoramentos
com os tratamentos ou terapias, que são intervenções que respondem a
uma genuína necessidade médica.
Os que introduziram esta distinção tinham em mente distinguir
entre usos aceitáveis, duvidosos ou inaceitáveis da tecnologia médica:
terapia é sempre eticamente aceitável, aperfeiçoamento é, pelo menos
prima facie, eticamente suspeito. Terapia eugênica para fibrose cística ou
prozac para depressão são ótimos; inserir genes para melhorar a inteligência ou esteróides para atletas Olímpicos é, no mínimo, questionável.
À primeira vista, esta distinção, entre terapia e melhoramento, faz
sentido. A experiência ordinária reconhece as diferenças entre “restaurar
para o normal” e indo pra além do normal. A distinção parece ser útil, ao
distinguir entre a obrigação central e obrigatória da medicina (curar os
doentes), e suas práticas extracurriculares, como por exemplo a, injeções
de Botox e outros procedimentos cirúrgicos meramente cosméticos.
Embora esta distinção seja interessante para início de discussão,
ela é inadequada para uma análise moral, diz o Report da Comissão de
11
A Report by the President´s Council on Bioethics, Beyond Therapy: Biotechnology
and the Pursuit of Happiness, p. 13-14.
12
Juengst, E. (1998). What does enhancement mean? In C. Parens (ed.) Enhancing
human traits (pp.25-430. Washington, DC: Georgetown Unviersity Press.
Encontros Teológicos nº 67
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Bioética e o futuro pós-humano: ideologia ou utopia, ameaça ou esperança?
Bioética dos EUA, que, embora utilizando a expressão, a categoriza como
“altamente problemática, abstrata e imprecisa”. Terapia e melhoramento
são categorias que se entrecruzam: todas as terapias que foram bem sucedidas são terapias de aperfeiçoamento. Além disso, estes conceitos estão
ligados à idéia de saúde e a sempre controversos ideais de normalidade.
As diferenças entre saudável e doente nem sempre são tão evidentes.
Seria terapia dar o hormônio de crescimento para um anão genético,
mas não para uma pessoa anã que se sente infeliz justamente porque
tem baixa estatura? Uma vez que sempre mais os cientistas acreditam
que todos os traços da personalidade possuem uma base biológica, como
distinguiremos “defeito” biológico, que implica “doença”, da condição
biológica, que resulta em timidez, melancolia ou irrascibilidade?
Por estes motivos, entre outros, a distinção entre terapia e melhoramento, para fazer um julgamento moral, é problemática. Além
disso, argumentos sobre se algo é ou não um “melhoramento” pode
com freqüência encontrar o caminho das questões éticas apropriadas: O que seria um “bom” e “mau” uso do poder biotecnológico? O
que é que determina que um uso seja “bom”, ou então simplesmente
“aceitável”? Não segue a partir do fato de que uma droga está sendo
utilizada somente para satisfazer os próprios desejos, por exemplo,
para aumentar concentração ou performance sexual, que sua utilização é questionável. Por outro lado, certas intervenções para restaurar
o funcionamento corporal, por exemplo, possibilitar que uma mulher,
após a menoupausa, possa gerar filhos ou que um homem aos 65 anos
possa jogar profissionalmente Hockey no gelo , pode muito bem ser um
uso dúbio do poder biotecnológico. “O significado humano e avaliação
moral deve ser enfrentada diretamente. Seria improvável que seriam
considerados pelo termo “melhoramento”, nada mais do que eles são
pela natureza da intervenção tecnológica em si”.13
4 Origens e fundamentos do movimento
transhumanista
Embora os termos transhumanismo e póshumanismo sejam de
criação recente, as idéias que eles representam não são novas. O ideal
filosófico subjacente é o do século das luzes, imbuído com uma saudá13
116
A Report by the President´s Council on Bioethics, Beyond Therapy: Biotechnology
and the Pursuit of Happiness, p. 16.
Encontros Teológicos nº 67
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vel dose de relativismo pósmoderno. Do Iluminismo surge uma visão
completamente reducionista da vida humana, característica daquele
movimento materialista empiricista. Na obra L´Homme Machine , escrito em 1748, o médico e filósofo francês Julien Offray de La Mettrie
escreveu que os humanos “São, fundamentalmente, somente animais e
máquinas”, enquanto que o Marquês de Condorcet, outro filósofo do
iluminismo francês, escreveu em 1794 que “não foram fixados limites
para o aperfeiçoamento das faculdades... o aperfeiçoamento do homem
é ilimitado”. Muitos também vêem raízes do pensamento transhumanista
no pensamento de Nietzche, particularmente em sua obra Assim falava
Zaratustra, em que afirma que “o homem é algo para ser superado”.
Como movimento, o transhumanismo iniciou nos anos 80 com
os escritos de um futurista conhecido como FM-2030, com o termo
transhumano sendo usado como abreviação para homem transitório. Os
transhumanos seriam “as primeiras manifestações de novos seres evolutivos, em sua jornada para se tornarem pós humanos ( FM-2030).”14
A primeira certeza do pensamento transhumanista é a rejeição
da hipótese de que a natureza humana seja uma constante. Não existe
nada de sacrossanto na natureza em geral ou sobre a natureza humana
em particular. Katherine Hayles, no seu livro Como nos tornamos pós
humanos15, apresenta quatro características fundamentais do pós humanismo: 1) modelos de informação são mais importantes ou essenciais à
natureza do ser que qualquer material, de maneira que o estar encapsulado
num substrato biológico é visto como um acidente da história antes que
uma inevitabilidade da vida”. 2) a consciência é um epifenômeno. Não
existe uma alma imaterial. 3) O corpo é simplesmente uma prótese, embora a primeira que aprendemos a usar e manipular. Conseqüentemente,
substituir ou aprimorar a função humana com outra prótese é somente
uma extensão natural de nossa relação fundamental com nossos corpos
criados. 4) Por último, a visão pós humana encara o ser humano como
capaz de conectar-se perfeitamente com máquinas inteligentes. No
mundo pós-humano, não existem diferenças essenciais ou absolutas
demarcações entre existência corpórea e simulação computacional,
14
Bostrom, Nick, 1999. “The Transhumanist FAQ”. Disponível em: <http.nickbostrum.
com>.
15
Hayles, N. Katherine. How We Became Posthuman: virtual Bodies in Cybernetics,
Literature and Informatics. Chicado: Univeristy of Chicago Press, 1999.
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Bioética e o futuro pós-humano: ideologia ou utopia, ameaça ou esperança?
mecanismo cibernético e organismo biológico, tecnologia robótica e
objetivos humanos.
Estamos começando a considerar seriamente possibilidades de
“trans-humano” através de melhoramentos biotecnológicos das capacidades humanas biológicas, tais como: tempo de vida, tipo de personalidade e inteligência, entre outras dimensões humanas. A genética, a
nanotecnologia, a clonagem, a criogenia, a cibernética e as tecnologias
de computador, fazem parte de uma visão pós-humana, que inclui até
a idéia de formar uma mente computadorizada, livre da carne mortal e
portanto imortalizada. Os pós-humanistas não acreditam que a biologia
seja um destino, mas antes algo que deve ser superado, porque, segundo eles, não existe ‘lei natural’, mas somente maleabilidade humana e
liberdade morfológica.
A natureza humana, tal como a conhecemos, para uma mente
pós-humanista, é um mero obstáculo a ser superado. Para muitos, estamos frente a uma atitude arrogante, que desconsidera a apreciação pela
dignidade humana natural. Trata-se de uma versão contemporânea de
Prometeu, o titã grego que roubou o fogo sagrado dos deuses. Não seria
isto um mero cientificismo a ser combatido, que pretende re-engenheirar
a natureza humana, e portanto até criar biológica e tecnologicamente
seres humanos superiores? Para outros, todos esses esforços são vistos
como um progresso no desenvolvimento de forças tecnológicas para o
“melhoramento humano”. Estamos, portanto, na gangorra, entre ameaças
e esperanças.
Esta questão vem sendo explorada na atualidade por Francis
Fukuyama, em sua mais recente publicação, intitulada, Nosso Futuro
pós-humano: Conseqüências da revolução da biotecnologia. Segundo
Fukuyama,
“este projeto visa inaugurar uma nova era como espécie. Todavia, o
princípio básico do transumanismo – o de que um dia usaremos a biotecnologia para nos tornar mais fortes, mais inteligentes, menos violentos,
assim como para ampliar nossa vida – será de fato tão bizarro? Uma
espécie de transumanismo já está implícita em grande parte do programa
de pesquisas da biomedicina contemporânea. Novos procedimentos e
tecnologias que estão surgindo em laboratórios de pesquisa e hospitais –
como medicamentos que alteram o humor, substâncias que aumentam a
massa muscular ou apagam seletivamente as memórias, exames genéticos
118
Encontros Teológicos nº 67
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Leo Pessini
pré-natais, terapia genética – podem ser facilmente empregados tanto
para aperfeiçoar a espécie como para aliviar ou curar doenças”.16
O transhumanismo foi definido como “um movimento cultural e
intelectual que afirma a possibilidade e o desejo de fundamentalmente
aprimorar a condição humana através da razão aplicada, especialmente usando tecnologia para eliminar o envelhecimento e aprimorar
as capacidades intelectuais, físicas e psicológicas”.17 Subjacente a esta
visão está a crença de que a espécie humana na sua condição atual, não
representa o final de nosso desenvolvimento, mas antes, o início.
As ferramentas que os transhumanistas usariam para atingir seus
fins incluiriam a manipulação genética, nanotecnologia, cibernética,
aprimoramento farmacológico e simulação de computador. A mais ambiciosa – e controversa – visão transhumanista envolve o conceito de mente
reprogramável (mind uploading). Segundo os proponentes, avanços na
área da informática e das neurotecnologias, capacitarão as pessoas, dentro de poucas décadas, a ler completamente as conexões sinápticas do
cérebro humano, capacitando uma réplica exata do cérebro para existir
e funcionar dentro de um computador. Esta simulação poderia então “viver” em qualquer forma de corpo mecânico que se queira. Finalmente, o
cérebro humano será libertado da fraqueza da carne mortal, em controle
de seu próprio destino e não mais limitado no tempo de anos: tal vida
pode continuar para sempre.
5 Algumas questões éticas inevitáveis
Uma das primeiras questões éticas relacionadas com o movimento do pós humanismo é a questão do aperfeiçoamento18. Os seres
humanos devem se aprimorar, bem como as gerações futuras? Esta não
é uma simples questão a ser respondida, embora os humanos tenham
praticado o aprimoramento em si próprios ao longo da história da qual
temos registro. Esta é a natureza e o objetivo explícito de toda e qualquer
ferramenta e educação.
16
FUKUYAMA, Francis. Nosso futuro pós-humano: Conseqüências da revolução da biotecnologia. Tradução de Maia Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.
17
Bostrom, Nick. 1999. “What is Transhumanism?”. Disponível em <http://www.
nickbostrum.com>.
18
Hook, C. Christopher, Transhumanism and Posthumanism, in: Post, SG. (Editor-inChief), Encyclopedia of Bioethics, 3rd Edition, Thomson/Gale, 2004, p. 2518-2520.
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Bioética e o futuro pós-humano: ideologia ou utopia, ameaça ou esperança?
Por exemplo, consideremos a correção da visão. O uso de óculos, ou
lentes de contato que corrigem a visão, é exemplo de um aperfeiçoamento
comumente utilizado por nós. Esta intervenção é somente uma correção
de uma deficiência, que faz com que as pessoas funcionem no nível normal da espécie. Portanto, trata-se de uma intervenção de cura, antes que
de um melhoramento. O que torna problemático para muitos é quando o
aperfeiçoamento em questão, potencialmente, vai além da função terapêutica. Aceita-se o uso de algumas tecnologias de aprimoramento, tal como
o telescópio ou microscópio, que podem ser usados por um determinado
momento, e para uma finalidade específica, mas não pode se tornar uma
característica permanente do ser humano. Elas permanecem como ferramentas, antes que atributos humanos. É aceitável o uso de um computador,
que pode estar separado do usuário, mas permanentemente aprimorar o
cérebro, com conexões cibernéticas ou implantes cerebrais, para muitos
ultrapassa os limites que não devem ser violados. Por que é assim?
Existem duas críticas frente a tal aperfeiçoamento permanente:
a) que eles são não naturais e que engajam as pessoas em atividades
reservadas somente para Deus, isto é, brinca-se de Deus. Os transhumanistas desclassificam a crítica de não ser natural, porque quase tudo que
os seres humanos fazem com qualquer tecnologia é algo não natural,
e estes usos são aceitos como benefícios e conseqüentemente não são
danos. Em relação ao segundo argumento, muitos, se não a maioria dos
transhumanistas, são agnósticos ou ateus, e portanto, engajar-se numa
suposta rebelião prometeica contra os deuses não é para eles uma preocupação legítima. A questão é uma grande preocupação para os teístas,
isto é os que crêem. Pode Deus ser tão facilmente destronado?
A preocupação maior dos que questionam os objetivos transhumanistas é que os seres humanos se engajam em atividades que podem
ter um profundo impacto nas pessoas envolvidas, bem como no meio
ambiente circundante, sem forças de equilíbrio ou sabedoria divina que
poderiam minimizar possíveis conseqüências negativas de tais atividades.
Para a perspectiva teísta, estas mudanças ocorrem sem um entendimento
adequado e respeito ao plano inicial de Deus, portanto sem a sabedoria
divina. No final, ambos os argumentos expressam preocupações com
grandes danos que estas intervenções poderiam potencialmente induzir,
introduzindo atividades que pressupõem um grau significativo de conhecimento, previsão e sabedoria que pode faltar e, muito provavelmente,
está faltando. A arrogância, e não a ingenuidade ou a paixão para mudar
as coisas, é que é o problema fundamental.
120
Encontros Teológicos nº 67
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Para outros, contudo, mesmo se tais aperfeiçoamentos não fossem
testados até que tivéssemos uma cuidadosa avaliação prospectiva, e proteções
contra as conseqüências indesejáveis, qualquer intervenção que vá além do
nível normal da espécie seria rejeitada. Isto nos leva a preocupações em
torno das conseqüências sociais do transhumanismo. Fala-se da possibilidade de discriminação entre seres aprimorados e não aprimorados, e cada
comunidade pode se sentir ameaçada pelas outras. Protestos de competição
injusta, estão provável e potencialmente levando a tentativas de legislação
restritiva. Segundo Freeman Dyson, um médico britânico e educador, “o
aperfeiçoamento artificial dos seres humanos, de uma forma ou de outra,
virá, gostemos ou não, assim que os progressos do entendimento biológico
tornarem isso possível. Quando são oferecidos às pessoas meios técnicos de
aprimoramento de si próprios, e de seus filhos, não importa o que significa
para eles o aperfeiçoamento, a oferta será aceita... A tecnologia de aperfeiçoamento pode ser dificultada ou atrasada pela regulamentação, mas não
pode ser permanentemente supressa... será vista por milhares de cidadãos
como libertação de limites e injustiças passadas. A sua liberdade de escolha
não pode ser permanentemente negada.” Nos EUA é particularmente forte o
argumento do transhumanista Anders Sandberg: a liberdade de buscar tecnologias de aperfeiçoamento é uma questão fundamental do direito da vida.
Uma das fraquezas fundamentais do transhumanista, ou de qualquer
outro pensamento utópico, é a falha em compreender a escuridão, os medos
e a imprevisibilidade de cada coração humano. Temos lições do século
XX a serem assimiladas, tal como a experiência com eugenia, fascismo e
comunismo, que nos advertem de termos cuidado com os sonhos utópicos
que nos escravizam, destroem e diminuem, antes que nos proporcionem a
justiça prometida, a liberdade e um novo florescer humano.
6 O duelo entre transhumanistas e
bioconservadores
Segundo Nick Bostrum, que, juntamente com David Pierce, fundou
em 1998 nos EUA a Associação transhumanista Mundial, as posições
éticas a respeito das tecnologias do aperfeiçoamento humano podem
ser de maneira geral caracterizadas como indo do transhumanismo ao
bioconservadorismo.19 Os transhumanistas acreditam que as tecnologias
19
BOSTROM, Nick, In defense of Posthuman Dignity, Bioethics, v. 19, n.3, 2005, p.
202-214.
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Bioética e o futuro pós-humano: ideologia ou utopia, ameaça ou esperança?
de aperfeiçoamento humano devem estar amplamente disponíveis, que
as pessoas devem ter discrição sobre qual dessas tecnologias aplicar para
si próprias e que os pais devem normalmente ter o direito de escolher
autonomamente o aperfeiçoamento ideal para seus filhos.
Os transhumanistas acreditam que, enquanto existem perigos que
precisam ser identificados e evitados, essas tecnologias e aprimoramento
humano oferecerão um potencial valioso e com usos benéficos para a
humanidade. É possível que tais aprimoramentos possam nos tornar, ou
nossos descendentes, pós-humanos, seres que podem ter um tempo de
saúde indefinido, e faculdades intelectuais muito maiores que qualquer ser
humano de hoje, e talvez novas sensibilidades e modalidades inteiramente
novas, tal como a habilidade de controlar as próprias emoções. A abordagem mais sábia, seria de abraçar o progresso tecnológico, defendendo
os direitos humanos e escolhas individuais, e agindo contra ameaças
concretas, tais como o abuso militar ou terrorista de armas biológicas, e
contra efeitos colaterais ambientais e sociais indesejados.
Os bioconservadores geralmente se opõem ao uso de tecnologias
para modificar a natureza humana. A idéia central é que as tecnologias
de aperfeiçoamento humano comprometerão nossa dignidade humana
e podem potencializar fatores desumanizantes. Para interromper esta
tendência em direção a um estado pós-humano, os bioconservadores
freqüentemente argumentam que deveríamos implementar amplas
resistências em termos de proibição dessas tecnologias. Entre proeminentes bioconservadores, segundo Nick Bostrum, que se proclama póshumanista, temos Leon Kass, Francis Fukuyama, George Annas, Wesley
Smith, Jeremy Rifkin e Bill McBibben.
7 Dignidade humana é incompatível com dignidade
póshumana?
Os bioconservadores tendem a negar a dignidade póshumana e
veem a pós-humanidade como uma ameaça para a dignidade humana.
Conseqüentemente, eles buscam maneiras de denegrir intervenções
radicais de futuras modificações que possam levar para a emergência
seres considerados póshumanos. Os transhumanistas, em contraste, veem
dignidade humana e póshumana como compatíveis e complementares.
Eles insistem que a dignidade, no seu sentido moderno, consiste no que
somos e no que temos de potencial em nos transformar. O que somos
122
Encontros Teológicos nº 67
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não é somente uma função de nosso DNA, mas depende também do
contexto tecnológico e social. A natureza humana neste sentido amplo é
dinâmica e parcialmente modelada pelo homem. Nosso fenótipo atual é
marcadamente diferente daquele de nossos ancestrais. Lemos e escrevemos, usamos roupa, vivemos em cidades, a esperança de vida é três vezes
maior que a do período Pleistoceno, sabemos que a terra é redonda. Aos
olhos de um ancestral humano, nós na atualidade já aparecemos como
póshumanos. Estas extensões radicais de capacidades humanas, algumas
delas biológicas, outras externas, não nos desviaram do status moral ou
nos desumanizaram no sentido de nos tornar sem valor.
“A partir de uma perspectiva transhumanista, não existe necessidade
de se comportar como se existisse uma profunda diferença moral entre
meios tecnológicos e outros meios de aperfeiçoamento de vidas humanas.
Ao defender a dignidade póshumana nós promovemos uma ética mais
inclusiva e humana, que engloba pessoas tecnologicamente modificadas
no futuro bem como humanos do tipo contemporâneo Também removemos
um distorcido duplo standard de visão moral a partir de nosso campo,
permitindo-nos assim perceber mais claramente as oportunidades que
existem para mais progresso humano”.20 Importante destacar que, na mais recente edição da Enciclopédia
de Bioética (3ª. Ed. – 2004), encontramos novos verbetes que apresentam a questão do póshumanismo, entre os quais: cibernética, clonagem,
dignidade humana, embrião e feto; pesquisa com células tronco embrionárias, tecnologia médica e melhoramento humano, nanotecnologia,
o envelhecer e o idoso; intervenções anti-envelhecimento e questões
ético-sociais. Em conjunto, todos esses novos verbetes levantam uma
questão de fundão: o que significa ser humano?
Segundo Stephen G. Post, o Editor-chefe da mais recente edição
da Enciclopédia de Bioética,
“o póshumanismo é um puro cientificismo que propõe alterações fundamentais na natureza humana, superando os limites biológicos e transcendendo o humano pela tecnologia. O póshumanista tem como objetivo
desacelerar ou até mesmo parar o processo de envelhecimento, mas
somente como uma pequena parte de uma visão maior de re-engenheirar
a natureza humana, e portanto criar biológica e tecnologicamente seres
20
BOSTROM, Nick. In Defense of Posthuman Dignity, in: Bioethics, Volume 19, Number
3/2005, p.213-214.
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Bioética e o futuro pós-humano: ideologia ou utopia, ameaça ou esperança?
humanos superiores, que nós seres humanos de hoje desenharemos para
o amanhã. Como tal, os póshumanos não serão mais humanos”.21
Esta questão do póshumanismo vem sendo explorada na atualidade por um conhecido professor de economia política internacional
da Universidade John Hopkins (EUA),que foi membro da comissão
de bioética do Governo Bush, Francis Fukuyama, que gerou polêmica
mundial há duas décadas, com a sua famosa obra sobre O fim da história
e o último homem. Uma de suas mais recentes publicações, não menos
polêmica, é justamente sobre esta temática: Nosso Futuro póshumano:
Conseqüências da revolução da biotecnologia.22 Fukuyama fala dos
transumanistas, que pretendem nada menos do que libertar a raça humana
de seus limites biológicos.
“Para os transhumanistas, os seres humanos precisam assumir o controle de
seu destino biológico, desvinculá-lo do cego processo evolutivo de variação
aleatória e adaptação, e assim inaugurar uma nova era como espécie.(...)
Todavia, o princípio básico do transumanismo – o de que um dia usaremos a biotecnologia para nos tornar mais fortes, mais inteligentes, menos
violentos, assim como para ampliar nossa vida – será de fato tão bizarro?
Uma espécie de transumanismo já está implícita em grande parte do programa de pesquisas da biomedicina contemporânea. Novos procedimentos
e tecnologias que estão surgindo em laboratórios de pesquisa e hospitais
– como medicamentos que alteram o humor, substâncias que aumentam a
massa muscular ou apagam seletivamente as memórias, exames genéticos
pré-natais, terapia genética – podem ser facilmente empregados tanto para
aperfeiçoar a espécie como para aliviar ou curar doenças”23
A genética, a nanotecnologia, a clonagem, a cibernética e as tecnologias de computador, em conjunto compõem uma visão pós-humana,
que inclui até a idéia de formar uma mente computadorizada, livre da
carne mortal e, portanto imortalizada. Os póshumanistas não acreditam
que a biologia seja um destino, mas antes algo que deve ser superado,
124
21
POST, SG. (Editor-in-chief), Introduction, in: Encyclopedia of Bioethics, 3rd. Edition,
p. XIII.
22
Fukuyama F. Nosso futuro pós-humano: conseqüências da revolução da biotecnologia. Rio de Janeiro: Rocco, 2003. Cf. uma apreciação crítica desta obra em: Ashcroft
RE. American biofutures: ideology and utopia in the Fukuyama/Stock debate. J Med
Ethics 2003: 29:59-62.
23
Fukuyama F. Ameaça à condição humana: Não usar a biotecnologia para brincar
de Deus. Veja, ano 38, n. 1, 5 janeiro de 2005, p. 80.
Encontros Teológicos nº 67
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porque segundo eles, não existe `lei natural`, mas somente maleabilidade
humana e liberdade morfológica.
A natureza humana, tal como a conhecemos, para uma mente póshumanista é um mero obstáculo a ser superado. Para alguns, a ambição dos
póshumanistas em criar um novo póshumano, que não é mais humano, é
uma atitude arrogante, pretenciosa e que desconsidera a apreciação pela
dignidade humana natural. Para outros, todos esses esforços, são vistos
como potencial para um progresso no desenvolvimento destas forças tecnológicas. Enfim, “a nossa época está começando a considerar seriamente
possibilidades de “trans-humano” através de melhoramentos biotecnológicos das capacidades humanas biológicas, tais como, tempo de vida,
tipo de personalidade e inteligência. Qual será o status da generatividade
altruística que Erik Erikson associou com a velhice à medida que os seres
humanos aventureiramente envidam esforços para alterar o tempo de vida?
Será a compaixão deixada de lado em favor da busca biotecnológica de
músculos mais fortes, maior longevidade, disposições de felicidade e beleza
permanentes? Ou, seriam o cuidado e a compaixão que estão em nós, o
último aperfeiçoamento humano?” pergunta-se Stephen Post24.
Considerações conclusivas
Sem dúvida a questão de um futuro póshumano é uma das grandes questões da contemporaneidade: como devemos olhar o futuro da
humanidade e se devemos utilizar tecnologia para nos tornar “mais que
humanos”. Embora este assunto ainda não tenha espaço na discussão
pública e ainda fique muito ligado a um mundo de ficção, no entanto, é
importante abrir a discussão. O póshumanismo levanta seriíssimas questões de bioética. Tem a ver com os fins e os objetivos a serem atingidos
pela aquisição de poder biotecnológico e não somente com questões de
segurança, eficácia ou moralidade dos meios. Tem a ver com a natureza
e significado da liberdade humana e do florescimento humano. Ele enfrenta a tão alegada ameaça de “desumanização” bem como a promessa
de “super-humanização”. Chama a atenção para o que significa ser um
ser humano e ser ativo como ser humano. Estamos longe de estar simplesmente diante de um cenário futurístico. Tendências atuais deixam
claro que o caminho para “além da terapia” e “em direção à perfeição
24
POST, Stephen G. (Editor-in-Chief), Encyclopedia of Bioethics, 3rd. Edition, 2004, p.
XIV.
Encontros Teológicos nº 67
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125
Bioética e o futuro pós-humano: ideologia ou utopia, ameaça ou esperança?
e felicidade” já é uma realidade entre nós. Por exemplo, o crescente uso
e aceitação de cirurgias cosméticas, de drogas para aprimorar a performance corporal e o humor, seleção do sexo dos filhos, cirurgias para
remoção de peso e rugas, tratamento de calvície etc. Estas práticas já
se transformaram num grande negócio. Em 2002 os Norte-americanos
gastaram um bilhão de dólares em medicamentos para tratamento da
calvície, em torno de dez vezes mais o total gasto com pesquisa científica para encontrar a cura da malária, que continua matando milhares de
pessoas pelo mundo afora.
Grande investimento se faz na pesquisa em neurociência e em
abordagens biológicas em franca expansão, relacionadas com desordens psiquiátricas e todos os estados mentais. Parece claro que as tão
esperadas novas descobertas a respeito do funcionamento da psique e
as bases biológicas do comportamento, seguramente aumentarão nossa
habilidade e nosso desejo de alterar e aprimorá-las. Mas existiria algum
limite? Ou o limite seria o quanto de conhecimento disponível temos,
neste momento histórico?
A biotecnologia, em si mesma não é má, e de fato tem sido fonte
de muito bem, mas também de dano. É uma ferramenta, e como tal deve
ser cuidadosamente examinada e utilizada á luz de valores humanos.
Transformar-nos em ferramentas na esperança de conquistar imortalidade
é uma pura ilusão. Embora o consenso seja difícil de se conseguir em
termos de tecnologias de aperfeiçoamento, a humanidade deve dialogar
a respeito dessas tecnologias que visam não apenas dominar a natureza
física e biofísica, mas o próprio corpo humano, ou melhor, a condição
humana, sem cair ingenuamente prisioneira de utopias científicas escravizadoras, que entregam nosso futuro às forças cegas do mercado.
Diferentemente do que ocorreu com outras transformações técnicas e científicas do passado, hoje as expectativas diante das inovações
tecnológicas já não são atitudes de acolhida e sentimentos otimistas, mas
cultiva-se um considerável grau de ceticismo saudável! A humanidade
aprendeu muito com as grandes tragédias coletivas do século XX, em
grande parte alimentadas por utopias tecno-científicas. Estamos vivendo
hoje numa sociedade de risco, em que cada novo passo adiante no domínio da técnica implica não apenas prudência, mas também precaução.
126
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
Leo Pessini
Mais monitorização e vigilância entre pares, bem como, mais escrutínio
público e acompanhamento político se fazem necessários25.
É urgente cultivar, junto com a ousadia científica, a prudência ética. Quais seriam as chamadas “qualidades humanas fundamentais” que
não deveríamos alterar? Além disso, com a questão ambiental tivemos
como legado o aprendizado da humildade e respeito frente à natureza,
que também deve ser aplicado aqui. Perguntamo-nos se, no futuro, a
compaixão, a solidariedade, o cuidado, não serão preteridos em favor
da busca biotecnológica de músculos mais fortes, maior longevidade,
disposições de felicidade e beleza permanentes, ou seriam essas “virtudes” “o último aperfeiçoamento humano” desejável?
Concluímos nossa reflexão com Stephen Post, apontando uma
missão para a bioética neste contexto:
“Pelo fato de a bioética lidar com questões que são profundamente
relevantes para o futuro da natureza humana, e para a área da saúde,
estas questões são freqüentemente contenciosas. Contudo, na dialética
entre objetivismo moral e relativismo moral, enquanto muitas destas
questões permitem uma resolução plausível, existem outras para as
quais não emerge nenhuma solução. Tolerância, civilidade, respeito e a
vontade sincera de engajamento sério com a visão dos outros, que têm
diferentes tradições, sejam estas seculares ou religiosas, são virtudes
e hábitos de mente, necessários. A bioética é inevitavelmente sujeita à
crítica daqueles que crêem que as respostas para inúmeras questões
novas, trazidas pelas revoluções biológicas dos cuidados de saúde, são
imediata e simplesmente fáceis. Mas afinal, o que é um bom profissional
da ética, seja este secular ou religioso, senão aquele que levanta uma
nova questão que ninguém tinha antes formulado e que propicia um
debate aprofundado como uma alternativa à superficialidade?”.26
Trata-se na essência de um convite a fugirmos da superficialidade
das aprovações ou condenações fáceis, superando aspectos ideológicos,
utópicos e fundamentalistas, avançando num diálogo respeitoso em
relação às diferenças. Isto sem dúvida pode ser fator de superação de
utopias que sugerem e semeiam o medo e o terror em termos de futuro da
25
Soromenho-Marques, Viriato, A Bioética e o desafio da pós-humanidade: seis
teses críticas, in: PATRÃO NEVES, Maria do Céu; LIMA, Manuela. Bioética ou bioéticas na evolução das sociedades. Edição Luso-brasileira. Gráfica de Coimbra/Centro
Universitário São Camilo, 2005. p. 99.
26
Post SG (Editor-in-chief), Introduction, in: Encyclopdeia of Bioethics, 3rd. Edition, 2004,
p. XV.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
127
Bioética e o futuro pós-humano: ideologia ou utopia, ameaça ou esperança?
humanidade, ao invés de promover serenidade e uma construção com a
marca da esperança humana. Temos que exercer um saudável ceticismo
em relação aos que se autoproclamam detentores da verdade suprema
em relação ao futuro do ser humano. Na verdade, sempre seremos
eternos aprendizes da verdade. Enfim, a biotecnologia está avançando
tão rapidamente, que necessitamos de sabedoria, que nasce do diálogo
respeitoso das diferenças, para discernir entre as intervenções e transformações evolutivas que são salutares, daquelas que são destrutivas e
que comprometem irremediavelmente a dignidade do ser humano e o
futuro da vida no planeta.
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130
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
Endereço do Autor:
Aven. Nazaré, 1501
Ipiranga
04263-200 São Paulo, SP
E-mail: [email protected]
Resumo: O artigo começa apresentando a dinâmica do Sínodo, a partir do texto “Lineamenta”, enviado às Igrejas particulares. A Igreja do Brasil, além das contribuições particulares,
remeteu à Secretaria do Sínodo as “Diretrizes gerais da Ação Evangelizadora da CNBB
2011-2015”. As propostas aprovadas no Sínodo, realizado em outubro de 2012, foram
entregues ao Papa, então, Bento XVI. Como o advertiu João Paulo II, a “nova Evangelização” não é um “novo Evangelho”, que surgiria de nós mesmos e não de Cristo. Por isso,
a transmissão da Fé, da mesma Fé, está no centro da Nova Evangelização. O autor faz a
seguir várias alusões à carta apostólica Porta Fidei, de BentoXVI, convocando para o “Ano
da Fé”. Quanto aos ecos “do” Sínodo, ele menciona a Mensagem dos Padres sinodais ao
povo de Deus, com os comentários que suscitou, e a criação do Pontifício Conselho para
a Nova Evangelização, além, é claro, das mencionadas “propostas”, entregues ao Papa.
Quanto aos ecos “no” Sínodo, o autor lembra a repercussão que nele teve o Documento
de Aparecida, especialmente o seu espírito. Da “cultura do encontro”, tão enfatizada pelo
papa Francisco, é que nasce o dis, cipulado e a missionariedade, que não admitem uma
Igreja “autorreferencial”. O autor conclui aludindo a um “eco maior” da Nova Evangelização:
o próprio modo de ser e agir do novo Bispo de Roma.
Abstract: The article begins by introducing the dynamics of the Synod in the light of the
text “Lineamenta” which had previously been sent to all of the Catholic churches. The
Church in Brazil forwarded it the Secretariat of the Synod along with the “General guidelines
concerning the activity of Evangelization issued by the CNBB 2011-2015”. The proposals
approved by the Synod, held in October of 2012, were handed over to the Pope, Benedict
XVI. As it was made clear by the Pope John Paul II, the “new Evangelization” is not a “new
Gospel” which would have its origin in us but not in Christ. Therefore, the transmission of
faith consists of the same faith which is centered in the New Evangelization. Additionally,
the author makes various allusions to the apostolic letter Porta Fidei of Benedict XVI, in the
convocation to the “Year of Faith”. As regards the echoes of the Synod mention is made of
the message of the Fathers of the Synod delivered to the people of God, together with the
commentaries pertaining to the event as well as the foundation of the Pontifical Council
for the New Evangelization together with the “proposals”, handed over to the Pope. As
regards the “echoes resounding in the” Synod the author mentions the general impact
which the Document of Aparecida had all around specially its spirit pervading the content.
Truly, the “culture of a mutual meeting” which was emphasized by the Pope Francis gives
rise to discipleship and missionary activity which do not admit the nature of a Church “as
a reference to her”. The author concludes with an allusion to a “major echo” of the New
Evangelization in terms of its own manner of being and acting of the bishop of Rome.
Nova Evangelização
para a transmissão da fé
Ecos do Sínodo dos Bispos
† Leonardo Ulrich Steiner*
*
O Autor é Bispo Auxiliar de Brasília e Secretário Geral da CNBB. é Doutor em Filosofia
pela Pontifícia Universidade Antonianum de Roma.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014, p. 131-150.
Nova Evangelização para a transmissão da fé: ecos do Sínodo dos Bispos
Introdução
Agradeço o convite para participar da Semana Teológica que tem
como tema de reflexão “Nova Evangelização e teologia, em diálogo
com o mundo moderno”. O diálogo é uma exigência dos nossos dias.
Dia-logos, “dialogus”, “conversação”, “falar, conversar”. Tem a força de
duas palavras: dia, que significa “através”, + legein, “falar”. Possibilitar
no logos o “aparecer”, o nascer da verdade. Poderíamos, talvez, dizer
no movimento da palavra, do logos, estar na ausculta, na sondagem, no
perscrutar. Assim, diálogo abre a perspectiva do não saber, da superação
do já apreendido, da abertura de um horizonte de manifestações de raiz.
Estamos sempre na sondagem, pois nos foi dada a graça de sermos o
que somos: “perscrutantes”, pensadores. Somos, sem deixar de ser o
que somos, provocados à consumação de uma vida. O movimento da
consumação acontece na abertura à cotidianidade, à época que nos foi
dado viver. Estamos sempre na provocação do tempo vivido. Experimentamos o tempo a partir da fé, ou a fé nos possbilita experimentar o
tempo que nos é dado viver.
Como nos foi dado pensar, encontramo-nos na busca do conhecimento do nosso tempo, mas também da teologia e da evangelização.
“Conhecimento” pode ser entendido como co-nascimento. No trabalho
cotidiano do estudo é-nos dada a possibilidade de nascer, de vir à luz, de
sermos dados à luz. Estudo como sondar, como perscrutar, como fuga
de tudo o que possa parecer acúmulo de informações, dados, autores,
citações. Sondar, mais que um movimento de aproximação da nossa
parte, é silenciar, esvaziar, na possibilidade da manifestação do sentido
sustentador das realidades e, nosso caso, a realidade fundante da teologia
e da própria evangelização, a fé.
O primeiro tema proposto é a “Nova Evangelização para a transmissão da fé – Ecos do Sínodo dos Bispos”. A minha abordagem não será
teológica. A teologia tem um logos próprio e, por isso, uma exigência
própria, um modo próprio de deixar vir à fala o Logos, a Deidade, como
nos diz Mestre Eckhardt.1
O que segue tenta apenas e simplesmente trazer à reflexão a nova
evangelização para a transmissão da fé como ecos, como vibrações de
uma ausculta em que nos encontramos no momento na Igreja. O Sínodo
1
132
Mestre Eckhart, Sermões alemães II, Editora Universitária São Francisco, Editora
Vozes, 2008.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
Leonardo Ulrich Steiner
foi um eco das buscas de modos da transmissão da fé. Percebemos uma
preocupação e mesmo uma necessidade de buscarmos caminhos que
possibilitem o anúncio da manifestação de Deus no meio de nós em Jesus
Cristo. Portanto, nada de novidades, de indicações do como, mas apenas
despojadamente um respigar das buscas no tempo de mudança radical.
Os ecos da nova evangelização vão para além do Sínodo celebrado no
mês de outubro do ano passado em Roma.
Vamos seguir a nossa reflexão assim como proposto: Nova Evangelização para a transmissão da fé; ecos do Sínodo. Percorreremos o
caminho da nova evangelização recordando as preocupações e indicações
de Paulo VI, João Paulo II e Bento XVI. A nova evangelização tem seu
sentido maior, pois expressa o próprio da Igreja: evangelizar. Evangelizar, isto é, transmitir a fé. Talvez, mais que ecos do Sínodo, poderíamos
perceber as preocupações e as experiências das diversas Igrejas que
ecoaram no Sínodo.
1 O Sínodo – sua dinâmica
Os trabalhos sinodais têm início com o envio às Igrejas Particulares
do texto “Lineamenta” preparado por uma comissão. As contribuições ao
texto fazem surgir o “Instrumentum laboris”. Ele serve como subsídio
aos Padres sinodais, mas não é um texto a ser discutido, modificado,
aprofundado.
A maior contribuição enviada pela Conferência Nacional dos
Bispos do Brasil, CNBB, foram as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2011 – 2015. As contribuições vindas dos
Regionais da CNBB, de Dioceses e de pessoas individualmente também
foram enviadas. Mas, a maior contribuição que poderíamos enviar para
o Instrumentum Laboris, foram as Diretrizes para a Evangelização.
Durante quase 10 dias os Padres sinodais escutam, anotam as
contribuições que surgem das intervenções dos participantes. Os participantes são os bispos eleitos pelas Conferências episcopais e nomeados
pelo Santo Padre, os bispos nomeados diretamente pelo Santo Padre;
participam também como observadores representantes de outras igrejas,
da vida consagrada, dos leigos, dos movimentos. Na medida do possível,
todos usaram da palavra durante cinco minutos.
Os pronunciamentos não foram, necessariamente, a partir do
“Instrumentum Laboris”. Observados os cinco minutos para cada interEncontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
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Nova Evangelização para a transmissão da fé: ecos do Sínodo dos Bispos
venção, havia liberdade na escolha dos temas. Os temas foram muitos,
abordados de modos diferentes e mesmo repetidos. Depois de 10 dias,
tínhamos diante dos olhos um belo mosaico da realidade da Igreja presente em todo o mundo.
As intervenções na aula sinodal foram recolhidas por uma comissão
presidida por um cardeal. Realizada a apresentação da relação das intervenções, seguiram-se os trabalhos de grupos linguísticos. Os grupos tinham
como tarefa formular proposições que seriam votadas. O trabalho nos
grupos foi um momento rico, demonstrando a diversidade de compreensão
da nova evangelização. Cada um dos participantes podia apresentar uma
ou mais proposições, que eram votadas e enviadas para uma Comissão que
buscou reunir todas as proposições dos diversos grupos de trabalho.
Essas proposições foram novamente apresentadas no plenário,
para depois serem votadas. Todas as proposições que foram apresentadas
para votação foram aprovadas.
Elas foram entregues ao Santo Padre como contribuição para uma
mensagem pós-sinodal sobre a Nova evangelização para a transmissão
da fé. A Comissão dos representantes dos diversos continentes já terminou a sugestão de um texto entregue ao Santo Padre Francisco para
uma mensagem pós sinodal. Ainda que rapidamente, podemos perceber
a dinâmica do Sínodo.
Houve durante os dias de trabalho a construção de uma mensagem
que foi enviada ao Povo de Deus. Uma Comissão escolhida e nomeada
pelo Santo Padre apresentou uma proposta de texto que foi refletida
pelos Padres sinodais e, depois de receber modificações, foi votada e
enviada pelo Sínodo às Comunidades da Igreja, com o título “Mensagem
ao Povo de Deus”.
2 A Convocação do Sínodo – um caminho
A Nova Evangelização é um despertar, acordar para a missão
própria da Igreja: evangelizar. Missão de todo cristão como Igreja,
como membro do Povo de Deus, como aquele, aquela que foi revestida
de Cristo (cf. Gl 3,27). Significa, “procurar infatigavelmente anunciar o
Evangelho a todos os homens”.2
2
134
Conc. Ecum. Vaticano II, Decr. sobre a Atividade Missionária da Igreja, Ad Gentes,
n,1: AAS 58 (1966) p. 947.
Encontros Teológicos nº 67
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Leonardo Ulrich Steiner
Poderíamos dizer que o caminho da Nova evangelização teve início
com o Concílio Ecumênico Vaticano II. A seguir, Paulo VI expressou a necessidade de “rever os métodos, procurar, por todos os meios ao alcance,
estudar o modo de fazer chegar ao homem moderno a mensagem cristã,
somente na qual ele poderá encontrar a resposta às suas interrogações e
a força para o seu anseio de solidariedade humana”.3 Tendo diante dos
olhos “o patrimônio da fé”, é dever da igreja “apresentar aos homens do
nosso tempo (...) de maneira compreensível e persuasiva”4 o Evangelho.
Impulsionado pelo Concílio, Paulo VI desejou acordar a Igreja para a
sua missão primeira: evangelizar. Estudar, isto é, perscrutar, sondar o
modo de fazer chegar ao homem de nosso tempo o núcleo do Evangelho,
o Reino de Deus.5 Dominava-o o desejo de que a evangelização fosse
um anúncio infatigável do Evangelho a todos os homens, para que todos fossem revestidos de Cristo (cf. Ef 4,24; 2,15; Cl 3,10, Gl 3,27) e
reconciliados com Deus (Rm 13,14; 2Cor 5,17).6
A Evangelização é “um impulso novo, capaz de suscitar, numa
Igreja ainda mais arraigada na força e na potência imorredouras do
Pentecostes, tempos novos de evangelização”,7 insistia o Beato João
Paulo II. No discurso inaugural da Conferência de Santo Domingo, ele
afirmou que a nova evangelização era a ideia central de toda a temática
a ser refletida.8 Deu ênfase à “novidade” da ação evangelizadora: “afeta
a atitude, o estilo, o esforço e a programação ou, como o propus em
Haiti, o ardor, os métodos e a expressão.9
Certamente para que não permanecessem apenas três expressões,
ou três conceitos, indicou a dinâmica e as implicações do ardor, dos
métodos e do modo de expressão:
1. “Uma evangelização nova no seu ardor supõe uma fé sólida,
uma caridade pastoral intensa e uma fidelidade a toda prova
que, sob o influxo do Espírito, gere uma mística, um incontido
3
Paulo PP. VI, Discurso ao Sacro Colégio dos Cardeais (22 de junho de 1973): AAS
65 (1973), p. 383.
4
Idem.
5
Ibidem.
6
Paulo PP. VI, Evangelii nuntiandi, 2.
7
Paulo PP. VI, Evangelii nuntiandi, 3.
8
João Paulo PP. II, Discurso de abertura da IV Conferência Geral do Episcopado
Latino-americano, Santo Domingo, 6.
9
Idem, 10.
Encontros Teológicos nº 67
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135
Nova Evangelização para a transmissão da fé: ecos do Sínodo dos Bispos
entusiasmo na tarefa de anunciar o Evangelho. Na linguagem
neotestamentária, é a “parresía” que inflama o coração do
apóstolo (cf. At 5,28-29; cf. Redemptoris missio, 45). Esta “parresía” há de ser também o selo do vosso apostolado na América.
Nada vos pode fazer calar. Sois arautos da verdade. A verdade
de Cristo há de iluminar as mentes e os corações com a ativa,
incansável e pública proclamação dos valores cristãos.”10
2. Há necessidade de examinar melhor “os novos tempos”. Eles
“exigem que a mensagem cristã chegue ao homem de hoje,
mediante novos métodos de apostolado”.11
3. O Evangelho, a vida do Evangelho pede que “seja expressada numa linguagem e forma acessíveis ao homem latinoamericano, necessitado de Cristo e sedento do Evangelho: como
tornar acessível, penetrante, válida e profunda a resposta ao
homem de hoje, sem alterar ou modificar em nada o conteúdo
da mensagem evangélica? Como chegar ao coração da cultura
que queremos evangelizar? Como falar de Deus num mundo em
que está presente um processo crescente de secularização?”12
Ao propor uma nova evangelização, João Paulo II afirmava que não
“consiste num ‘novo evangelho’, que surgiria sempre de nós mesmos, da
nossa cultura ou da nossa análise, sobre as necessidades do homem.”13 A
responsabilidade da nova evangelização “nasce da responsabilidade pelo
dom que Deus nos fez em Cristo, pelo qual temos acesso à verdade sobre
Deus e sobre o homem, e à possibilidade da vida verdadeira.”14
O ponto de partida da nova evangelização é Cristo, “riqueza insondável” (Ef 3,8), único a quem podemos recorrer “para enriquecer-nos”.15
Ele é a nossa riqueza e a riqueza de toda a Igreja, de todas as pessoas
que dele se aproximem. “O próprio Cristo, sua pessoa, porque Ele mesmo é a nossa salvação. Nós, homens de qualquer época e de qualquer
cultura, aproximando-nos d’Ele mediante a fé e a incorporação ao seu
Corpo, que é a Igreja, podemos encontrar a resposta àquelas perguntas,
sempre antigas e sempre novas, que se nos apresentam, no mistério da
10
11
136
Ibidem, 10.
Ibidem, 10.
12
Ibidem, 10.
13
Ibidem, 6.
14
Ibidem, 6.
15
Cf. Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos da Europa, Declaração final, 3.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
Leonardo Ulrich Steiner
nossa existência, e que de modo indelével levamos gravadas em nosso
coração desde a criação e desde a ferida do pecado.”16
A novidade é o Evangelho, é Jesus Cristo, a sua vida, morte e
ressurreição! Ele é “sempre o mesmo: ontem, hoje e sempre”. Por isso,
citando a Evangelii nuntiandi afirmava: “não haverá nunca evangelização
verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino, o mistério
de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados”.17
Ainda nesse discurso em Santo Domingo, João Paulo II indica
algumas dimensões importantes para a nova evangelização: a centralidade da pessoa humana, da pessoa toda e de toda a pessoa, a comunidade, a Palavra de Deus, a celebração litúrgica participada. Mas também
a religiosidade popular, com seus extraordinários valores de fé e de
piedade, de sacrifício e de solidariedade, indica o caminho da nova
evangelização.18
Talvez pudéssemos afirmar que o grande desejo de João Paulo
II foi que a nova evangelização fosse uma resposta integral, incisiva e
ágil, que fortalecesse a fé católica, nas suas verdades fundamentais, nas
suas dimensões individuais, familiares e sociais, tornando-se anúncio,
testemunho.19 Sem esquecer a insistência de Paulo VI, João Paulo II viu
a necessidade do novo ardor, dos novos métodos e do novo modo de
expressão.
Por sua vez, ao convocar um Sínodo que refletisse a nova Evangelização, o Papa Bento XVI também dava continuidade ao caminho
iniciado por Paulo VI. Tendo diante dos olhos a celebração dos 50 anos
do Concílio Ecumênico Vaticano II e a celebração Ano da Fé, ele convocou a XIII Assembleia Ordinária do Sínodo dos Bispos, com o tema:
A Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã.
Na homilia da Missa de abertura da Assembleia Sinodal, indicou
o caminho da reflexão e discussão. Convidou os participantes do Sínodo
a aceitarem o “convite para fixar o olhar no Senhor Jesus, «coroado de
glória e honra, por ter sofrido a morte» (Hb 2,9). A Palavra de Deus nos
16
João Paulo PP. II, Discurso de abertura da IV Conferência Geral do Episcopado
Latino-americano, Santo Domingo, 6.
17
Paulo PP. VI, Evangelii nuntiandi, 22.
18
João Paulo PP. II, Discurso de abertura da IV Conferência Geral do Episcopado
Latino-americano, Santo Domingo, 12.
19
Cf. Idem, 11.
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137
Nova Evangelização para a transmissão da fé: ecos do Sínodo dos Bispos
coloca diante do Crucificado glorioso, de modo que toda a nossa vida e,
em particular, o compromisso desta assembleia sinodal, se desenrole na
presença d’Ele e à luz do seu mistério. A evangelização, em todo tempo e
lugar, teve sempre como ponto central e último Jesus, o Cristo, o Filho de
Deus (cf. Mc 1,1); e o Crucificado é por excelência o sinal distintivo de
quem anuncia o Evangelho: sinal de amor e de paz, chamada à conversão
e à reconciliação.”20 Portanto, a nova evangelização para a transmissão da
fé tem como fonte, razão e fundamento, Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ele
é o Evangelho, a Boa notícia que chama à conversão e à reconciliação.
De fato, a conversão foi lembrada como uma das dimensões vitais da
nova evangelização para a transmissão da fé na aula sinodal.
A Igreja existe para evangelizar, insistiu Bento XVI, retomando a
Evangelii Nuntiandi de Paulo VI. A razão da existência da Igreja, a vida
da Igreja é evangelizar. Era necessário fazer ecoar mais uma vez que a
missionariedade é a alma da Igreja.
A evangelização manifesta-se como a evangelização ordinária
e como a missão ad gentes. Esta, é a proclamação do Evangelho para
aqueles que ainda não conhecem a Jesus Cristo e a Sua mensagem de
salvação, enquanto a missão ordinária é a presença evangelizadora
na vida cotidiana da Comunidade. Entretanto, a nova evangelização
poderia ser entendida como destinada principalmente às pessoas que,
embora batizadas, se distanciaram da Igreja e vivem sem levar em conta
a prática cristã.21 Assim, a Assembleia sinodal deveria ser dedicada à
nova evangelização para ajudar as pessoas batizadas que não participam
efetivamente da comunidade eclesial a terem um novo encontro com o
Senhor. A nova evangelização deveria “favorecer a redescoberta da fé,
a fonte de graça que traz alegria e esperança na vida pessoal, familiar e
social.”22 Por outro lado, a nova evangelização “não deve diminuir nem
o impulso missionário, em sentido próprio, nem as atividades ordinárias
de evangelização nas nossas comunidades cristãs. Na verdade, os três
aspectos da única realidade de evangelização se completam e se fecundam
mutuamente”, 23 dizia o Papa.
138
20
Bento XVI PP. Homilia, Missa de abertura da XIII Assembleia Ordinária do Sínodo
dos Bispos, 7 de outubro de 2012.
21
Cf. Idem.
22
Ibidem.
23
Ibidem.
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Leonardo Ulrich Steiner
Para a discussão e a reflexão do Sínodo, Bento XVI apontou ainda
a santidade como caminho da nova evangelização. Abriu os olhos para
a necessária humildade e a consciência da nossa fragilidade diante do
pecado pessoal e comunitário. Nesse sentido, a evangelização, a nova
evangelização, é deixar-se “reconciliar com Deus e com o próximo” (cf.
2 Cor 5,20), a reconciliação constituindo a via mestra da nova evangelização. “Só purificados, os cristãos podem encontrar o legítimo orgulho
da sua dignidade de filhos de Deus, criados à Sua imagem e redimidos
pelo sangue precioso de Jesus Cristo, e podem experimentar a sua alegria
para compartilhá-la com todos, os de perto e os de longe.”24
Esses, alguns sinais do caminho percorrido para chegar à celebração do Sínodo: A Nova Evangelização para a transmissão da fé cristã.
O caminho indica que a razão da Nova evangelização é a transmissão da
fé. A transmissão da fé está no centro da Nova evangelização.
3 A Nova Evangelização para a transmissão da fé
Evangelizar é transmitir a fé; transmitir a fé é evangelizar. Como
vimos, Bento XVI indicou a Nova evangelização como caminho para
evangelizar as pessoas que foram revestidas sacramentalmente de Cristo, mas que não tomam o Evangelho como caminho de vida. Ele não
descuidou também de afirmar que a missão ad gentes deve fazer parte
do cotidiano da evangelização das Comunidades.
Assim, seria importante lembrar que a transmissão da fé supõe
um percurso. Como anúncio apresentamos os conteúdos da fé: Jesus
Cristo como caminho, verdade e vida, o Reino de Deus. Bento XVI
lembrou que “existe uma unidade profunda entre o ato com que se crê e
os conteúdos a que damos o nosso assentimento”.25 Os conteúdos da fé
despertam para um novo horizonte, uma relação nova, uma vida nova.
O anúncio é o despertar para uma presença misteriosa e deixar-se tomar
por essa presença.
Nesse sentido vale rezar com Santo Anselmo: “Agora, Senhor meu
Deus, ensinai a meu coração onde e como vos procurar, onde e como vos
encontrar. Senhor, se não estais aqui, se estais ausente, onde vos procurarei? E se estais em toda parte, por que não vos encontro presente? É
24
Ibidem.
25
Bento XVI PP. Porta Fidei, 10.
Encontros Teológicos nº 67
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Nova Evangelização para a transmissão da fé: ecos do Sínodo dos Bispos
certo que habitais numa luz inacessível, mas onde está essa luz inacessível
e como chegarei a ela? Quem me conduzirá e nela me introduzirá para
que nela eu vos veja? E depois, com que sinais e sob que aspecto vos
devo procurar? Nunca vos vi, Senhor meu Deus, não conheço a vossa
face.... Ensinai-me a vos procurar e mostrai-vos quando vos procuro;
pois não posso procurar-vos se não me ensinais nem procurar-vos se não
vos mostrais. Que, desejando, eu vos procure; procurando, vos deseje;
amando, vos encontre e, encontrando, vos ame”.26 Nisso está a grandeza
da transmissão da fé, da evangelização.
Essa dinâmica do anúncio vem recordada na Carta apostólica Porta
Fidei, onde lemos: “A este respeito é muito eloquente o exemplo de Lídia.
Narra São Lucas que o apóstolo Paulo, encontrando-se em Filipos, num
sábado foi anunciar o Evangelho a algumas mulheres; entre elas, estava
Lídia. ‘O Senhor abriu-lhe o coração para aderir ao que Paulo dizia’ (At
16,14). O sentido contido na expressão é importante. São Lucas ensina
que o conhecimento dos conteúdos que se deve acreditar não é suficiente,
se depois o coração – autêntico sacrário da pessoa – não for aberto pela
graça, que consente ter olhos para ver em profundidade e compreender
que o que foi anunciado é Palavra de Deus.”27
Assim, evangelizar, anunciar Jesus Cristo é a tarefa de todo o
batizado. Mas é Deus quem abre o coração, os olhos, toda a pessoa, para
o encontro com Jesus Cristo.
A Nova evangelização para a transmissão da fé expressa também
o que Bento XVI chamou de professar a fé. “Professar com a boca indica
que a fé implica um testemunho e um compromisso públicos. O cristão
não pode jamais pensar que o crer seja um fato privado. A fé é decidir
estar com o Senhor, para viver com Ele. E este ‘estar com Ele’ introduz
na compreensão das razões pelas quais se acredita. A fé, precisamente
porque é um ato da liberdade, exige também assumir a responsabilidade
social daquilo que se acredita.”28
No dia de Pentecostes, os apóstolos anunciaram sem temor a
própria fé no Crucificado ressuscitado. Assim, é o Espírito Santo que
movimenta a missão e que abre o coração. Mas também, ilumina para
que todos deem razão da sua fé. Outro detalhe importante: não podemos
140
26
Santo Anselmo, Proslógion, Opera Omnia, Cap I, 1,97-100.
27
Bento XVI PP. Porta Fidei, 10.
28
Idem 10.
Encontros Teológicos nº 67
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esquecer que a transmissão da fé acontece como Igreja, como Comunidade dos que creem!
4 Os ecos do Sínodo
Eco é um fenômeno de percussão, repercussão. Repercussão porque ação repetida da percussão. O que percute é o som emitido que se
expande em formas diversas. As ondas sonoras da percussão são ouvidas
em percussões diferentes. O centro irradiador do som deixa expandir,
percutir pelo espaço as ondas sonoras. Como o cair suave da gota d’água
no lago quieto e tranquilo que se expande em ondas, repercutindo o tocar
da superfície da água.
Temos os ecos da imprensa, dos artigos, das entrevistas. Os ecos
do Sínodo foram perceptíveis na Mensagem ao Povo de Deus pelos
Padres Sinodais e as Proposições entregues ao Santo Padre. Além desses dois ecos mais fortes, podemos apontar outros antes de passarmos
aos dois textos. Gostaria de ressaltar a criação do Pontifício Conselho
para a Promoção da Nova Evangelização, que recebeu o serviço da
Catequese, transferido da Congregação para o Clero. O Conselho está
criando diversos observatórios para acompanhar a evangelização, mas
também discutir e refletir sobre as questões da realidade de hoje. Esses
observatórios desejam colher as mais diferentes experiências das Igrejas
particulares e dá-las a conhecer a outras igrejas.
Durante o Sínodo e logo após o Sínodo houve um notável interesse
pela Nova evangelização. Muitas vezes, esse interesse buscava encontrar
formas e fórmulas novas, diferentes. Naturalmente, buscando sempre
métodos para a melhor transmissão da fé. Por ora, é principalmente nos
documentos do Sínodo que se encontram seus ecos. Provavelmente,
após a publicação do texto pós-sinodal, teremos mais ecos que até o
momento.
4.1. A Mensagem traz vários ecos da sala sinodal. Uma dimensão
importante é que a nova evangelização diz respeito a cada
cristão “em primeira pessoa”.29 Por isso, para poder evangelizar o mundo, colocamo-nos antes de tudo à escuta da Palavra
29
XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Mensagem ao Povo de
Deus, 5.
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141
Nova Evangelização para a transmissão da fé: ecos do Sínodo dos Bispos
e aceitamos o convite à conversão. A conversão, a escuta da
Palavra de Deus abrem caminhos para a evangelização.30
142
“A obra de evangelização não é tarefa de alguns na Igreja, mas
das comunidades eclesiais como tais, onde se tem acesso à
plenitude dos instrumentos do encontro com Jesus: a Palavra,
os sacramentos, a comunhão fraterna, o serviço da caridade, a
missão”,31 nos diz a Mensagem.
A realidade de hoje é o chão fecundo da nova evangelização.
O deserto é a possibilidade da flor mais singela. Os fenômenos
da globalização e da secularização são “para nós oportunidades
para uma dilatação da presença do Evangelho”. As migrações,
as “novas formas de pobreza, abrem espaços inéditos ao serviço
da caridade: a proclamação do Evangelho compromete a Igreja
a estar com os pobres e a ocupar-se dos seus sofrimentos, como
Jesus.” No ateísmo e no agnosticismo “podemos reconhecer,
mesmo se de formas contraditórias, não um vazio, mas uma saudade, uma expectativa que espera uma resposta adequada”.32
A autenticidade da nova evangelização tem o rosto do pobre.
Pôr-se ao lado de quem está ferido pela vida não é só uma
prática de sociabilidade, mas o reconhecimento do próprio
rosto de Cristo.33
No Sínodo estavam presentes diversos bispos vindos de regiões
onde a Igreja é perseguida ou não tem a liberdade almejada.
A insistência no diálogo por parte deles foi tocante. A Mensagem recolheu esse testemunho afirmando: “O diálogo entre os
crentes das várias religiões quer ser uma contribuição à paz,
rejeita qualquer fundamentalismo e denuncia toda a violência
que se abate sobre os crentes, como grave violação dos direitos
humanos. As Igrejas de todo o mundo estão próximas na oração
e na fraternidade aos irmãos sofredores e pedem a quem tem nas
mãos o destino dos povos que salvaguardem o direito de todos
à livre escolha e à livre profissão e testemunho da fé.”34
30
Idem, 5.
31
Ibidem, 8.
32
Ibidem, 6.
33
Ibidem, 12.
34
Ibidem, 10.
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4.2. As Propostas são ecos das discussões e reflexões que ecoaram na aula sinodal. Podemos destacar alguns pontos. A Nova
evangelização será “nova”, se for expressão do primeiro anúncio. “Eu vos transmiti, antes de tudo, o que eu mesmo tinha
recebido, a saber: que Cristo morreu pelos nossos pecados,
segundo as Escrituras, foi sepultado e, ao terceiro dia, foi
ressuscitado, segundo as Escrituras; e apareceu a Cefas e,
depois aos Doze” (1Cor 15,3-5). A Boa Nova, a boa notícia
é Deus entre nós em Jesus Cristo. A sua morte e ressurreição
faz eclodir a vida eterna. Ao modo dos Apóstolos, todo cristão
anuncia a grande novidade: Em Jesus, Deus nasceu, morreu e
ressuscitou. Ele é a razão de nossa esperança.
Assim, anunciar a Boa-Nova e a pessoa de Jesus é uma obrigação para todo cristão, que se funda no Evangelho: “Ide, pois,
fazei discípulos meus entre todas as nações, e batizai-os em
nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19).35
Os Meios de Comunicação Social têm um papel importante
na evangelização. Pessoas preparadas e capacitadas ajudam na
transmissão da fé através dos Meios de Comunicação Social.
“Devem ter a capacidade de fazer bom uso das linguagens e
das ferramentas atualmente disponíveis para a comunicação
na aldeia global. A forma mais eficaz da transmissão da fé é a
partilha do testemunho de vida, sem o qual os esforços na mídia
não serão capazes de transmitir eficazmente o Evangelho.”36
A nova evangelização é “o anúncio da plena libertação de
tudo o que oprime o ser humano, ou seja, o pecado e suas
consequências. Sem um sério compromisso com a vida e a
justiça, e sem uma mudança das situações que geram pobreza
e exclusão, não pode haver progresso.”37 Diante dos desafios
da globalização, esse anúncio torna-se ainda mais urgente.
Apesar de não fazer propostas de como evangelizar no contexto urbano, a proposição 25 indica um caminho: “Identificar e
compreender as experiências, as linguagens e estilos de vida
que são típicos das sociedades urbanas”.
35
XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Proposições, 12.
36
Idem, 18.
37
Ibidem, 19.
Encontros Teológicos nº 67
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Nova Evangelização para a transmissão da fé: ecos do Sínodo dos Bispos
A nova evangelização se expressa na opção pelos pobres.
“Existem novos pobres e novas formas de pobreza: os famintos
e os sem teto, os dependentes do uso de drogas, os migrantes,
os marginalizados, os refugiados políticos e “ecológicos”, os
povos indígenas. (...) Entre os mais pobres da sociedade, estão
as vítimas da triste perda de respeito pela dignidade inviolável
da vida humana inocente.”38
A Igreja particular é o sujeito da Nova Evangelização. Ela é a
manifestação concreta da Igreja de Cristo e, como tal, inicia,
coordena e realiza as ações através das quais se implementa a
Nova Evangelização “em um projeto missionário orgânico, capaz de comunicar a plenitude da vida cristã a todos”.39 Na Igreja
particular e na paróquia, os leigos têm um papel fundamental
na Nova evangelização, pois cooperam na obra de evangelização da Igreja como testemunhas e, ao mesmo tempo, como
instrumentos vivos. “Eles partilham a sua missão salvífica.”40
Nesse sentido, os jovens não são somente destinatários, mas
também agentes da evangelização.41
“As comunidades eclesiais abram uma espécie de Átrio dos
Gentios, onde crentes e não crentes possam dialogar sobre
questões chave: os grandes valores da ética, da arte e da ciência, e a busca do transcendente. Este diálogo se dirige em
particular àqueles para quem a religião é algo estranho, para
os quais Deus é desconhecido e que, apesar disso, não querem
estar simplesmente sem Deus’.”42
5 Os ecos no Sínodo
Os ecos no Sínodo é que possibilitaram os ecos do Sínodo. Ecoaram na Sala sinodal as buscas, as indagações, as dúvidas, as experiências
das igrejas nos diversos continentes. Poderíamos afirmar que a força, a
dinâmica do Sínodo foi a vida das Igrejas nos continentes. Houve: reflexão, questionamento, proposições, análise do tempo que vivemos, troca
144
38
Ibidem, 31.
39
Cf. Ibidem.
40
Ibidem, 45.
41
Ibidem, 51.
42
Ibidem, 55.
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de experiências. Não havia respostas, soluções determinadas, acabadas,
prontas. Foi um ecoar. E muitos ecos permaneceram ecos. Não houve
aprofundamento, não todos foram compreendidos, entendidos, registrados. Não se encontram nas “Propostas” ou “Proposições”.
O interesse suscitado pelo documento de Aparecida foi grande. As
intervenções no plenário feitas pelos bispos da América Latina e Caribe
mostraram a importância das conclusões do Documento de Aparecida.
Citado continuamente, despertou em muitos Padres sinodais o desejo de
conhecer essas conclusões. O Documento traduz, busca “concretizar” o
ardor, os métodos e o modo de expressão de uma Nova evangelização
para transmissão da fé. O ardor que o encontro suscita leva o discípulomissionário a “responder à vocação recebida e comunicar em toda parte, transbordando de gratidão e alegria, o dom do encontro com Jesus
Cristo” (DAp, 14). O ardor é que leva o discípulo/a missionário a ser
instrumento do Espírito de Deus na Igreja. O ardor suscita o desejo de
que “Jesus Cristo seja encontrado, seguido, amado, adorado, anunciado
e comunicado a todos, não obstante todas as dificuldades e resistências”
(DAp, 14). O ardor desperta o desejo de transmitir a fé e encontra métodos, modos de transmitir o tesouro do coração.
Aparecida tem indicações preciosas como método. O ardor é criativo, dinâmico. A conversão pessoal e a conversão pastoral são elementos
importantes sublinhados por Aparecida: “A conversão pastoral de nossas
comunidades exige que se vá além de uma pastoral de mera conservação
para uma pastoral decididamente missionária. Assim, será possível que
‘o único programa do Evangelho siga introduzindo-se na história de cada
comunidade eclesial’43 com novo ardor missionário, fazendo com que a
Igreja se manifeste como uma mãe que vai ao encontro, uma casa acolhedora, uma escola permanente de comunhão missionária (DAp, 370).
Há a exigência de um novo modo de anúncio, mas também um
novo modo de presença de Igreja que torna as pessoas mais próximas.
O papa Francisco tem recordado a maternidade da Igreja: ela evangeliza
com a presença, não com documentos. “Levando em consideração as
dimensões de nossas paróquias, é aconselhável a setorização em unidades
territoriais menores, com equipes próprias de animação e de coordenação que permitam uma maior proximidade com as pessoas e grupos que
vivem na região. É recomendável que os agentes missionários promo43
Ibidem, 12.
Encontros Teológicos nº 67
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Nova Evangelização para a transmissão da fé: ecos do Sínodo dos Bispos
vam a criação de comunidades de famílias que fomentem a colocação
em comum de sua fé cristã e das respostas aos problemas” (DAP, 372).
O novo no método pode ser identificado como a atenção às realidades
diversificadas, às comunidades menores, à setorização das paróquias,
mas, especialmente, à relação próxima das pessoas e comunidades.
“Nova na expressão” é a nova linguagem que o papa Francisco
chamou de cultura do encontro.44 O encontro pessoal e comunitário com
Jesus Cristo desperta discípulos e missionários. Homens e mulheres novos
que encarnam a tradição e a novidade do Reino e são protagonistas de
uma vida nova (cf. DAp, 11). A vida do Evangelho não pode ser “reduzida a conhecimento, a um elenco de algumas normas e de proibições,
a práticas de devoção fragmentadas, a adesões seletivas e parciais das
verdades da fé, a uma participação ocasional em alguns sacramentos, à
repetição de princípios doutrinais, a moralismos brandos ou crispados
que não convertem a vida dos batizados” (DAp, 12).
A todos toca “recomeçar a partir de Cristo”45, reconhecendo que “não
se começa a ser cristão por uma decisão ética ou uma grande ideia, mas
pelo encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um novo
horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva”46 (DAp, 12).
“Novas expressões” que superam a linguagem da Cristandade, mas
também a linguagem da moral. Bento XVI, falando aos jovens austríacos,
afirmou que o cristianismo é mais que uma moral, ou ser cristão é mais
que moral (Christentum ist mehr als moral). O encontro com uma pessoa
é que dá sentido, vigor, dinamismo a uma existência. Por uma pessoa
vale dar a vida, mas também criar a linguagem que Bento XVI chamou
de movimento da caridade.
A formação do cristão ecoou muitas vezes na sala sinodal. Formação
como iniciação à vida cristã, mas também como movimento de uma vida
a ser consumada. Formação válida e necessária para todos os membros
do Povo de Deus. Todos estamos sempre em formação, em maturação. Na
vida do Evangelho não há etapas, mas processo existencial.
Se a missão da Igreja é evangelizar e, por isso, transmitir a fé, o
documento de Aparecida recorda uma Igreja em estado permanente de
missão. A Igreja toda é missionária. Toda pessoa batizada recebe como
146
44
Francisco PP., Discurso aos Bispos do Brasil presentes na JMJ, Rio 2013.
45
Cf. NMI 28-29.
46
DCE 1.
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missão evangelizar. Toda pessoa batizada é uma discípula missionária.
Depois de Aparecida, quantas expressões de missão nasceram na Igreja
que está no Brasil! As missões populares, as visitas às famílias, as semanas missionárias, as experiências missionárias dos seminaristas, o
envio de leigos para regiões missionárias. O espírito missionário ecoou
forte na sala sinodal.
Um dos ecos fortes no Sínodo foi o que as nossas “Diretrizes para
Ação Evangelizadora 2011-2015”, denominam marcas do nosso tempo.
“Vivemos um tempo de transformações profundas, que afetam não apenas este ou aquele aspecto da realidade, mas a realidade como um todo,
chegando aos critérios de compreensão e julgamento da vida” (Doc 94
nº 19). Estamos vivendo transformações e mudanças que atingem todos
os setores da vida humana, de modo que já não vivemos uma “época de
mudanças, mas uma mudança de época”.47 O que antes era certeza, até
bem pouco tempo, servindo como referência para viver, tem-se mostrado
insuficiente para responder a situações novas, deixando as pessoas sem
rumo e sem sentido.48
Ficou evidente durante o Sínodo que vivemos uma mudança de
época. A insistência nesse ponto, com enfoques diversos, deve levar a
Igreja a buscar caminhos para compreender o tempo em que vive, mas
também a necessidade de aprofundar a razão de seu existir e de sua
presença no mundo presente.
Apesar de lembrado, não houve uma abordagem explícita no que
diz respeito à ciência e à técnica. Talvez não tenhamos intuído suficientemente a força de mudança que a ciência e a técnica proporcionam e
agora, ainda mais, com o mundo virtual. A ciência, a técnica, o virtual,
indicam um modo de ser. É mais que experimentos, é mais que técnicas,
é mais que meios virtuais. É um modo de ser, um modo de relação, um
modo de compreensão de todas as realidades.
Nosso tempo é o fim de um tempo, a procura de um tempo, o advir
de um tempo. É justamente nesse tempo em que se pensa tudo dominar
e saber, de tudo solucionar, de colocar tudo nas nuvens, que nos é dado
ser cristão. Talvez, nosso anúncio ainda esteja impregnado de seguranças
que não são da fé; talvez, as razões da nossa fé ainda não sejam suficientemente razoáveis. A ciência, a técnica e a virtualidade exigem de nós
47
DGAE 2088-2010, n. 13.
48
DGAE 2088-2010, n. 21.
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Nova Evangelização para a transmissão da fé: ecos do Sínodo dos Bispos
mais discussão, reflexão, estudo, silêncio, meditação... mais teologia. O
anúncio de uma moral terá pouca incidência existencial; ilumina pouco
as dores, os sofrimentos, as cruzes do tempo de hoje.
Estar na escuta, na ausculta do seguimento de Jesus Cristo, num
discipulado missionário: eis o caminho da Nova evangelização para a
transmissão da fé.
Conclusão
“A boa notícia é como ‘água fresca para uma alma sedenta’. Pois
é verdade que Deus dá seu reino dos céus por um gole de água fresca a
um bom coração.”49 É impossível que o homem de hoje não tenha sede de
Deus. A boa notícia, o Evangelho, Jesus Cristo Crucificado-ressuscitado
é como água fontal, límpida e transparente. Nisso está a missão da Igreja:
levar a boa notícia como água de fonte. “É a água do poço que faz florir
o deserto”.50
O papa Francisco tem manifestado a importância do Documento de
Aparecida para a Igreja. Podemos afirmar que abre rumos para o futuro
da Igreja, isto é, para a Nova evangelização. Aparecida indica o ardor, o
método e a linguagem. Ao vermos e ouvirmos e ao ouvirmos e vermos,
vamo-nos dando conta de que a cultura do encontro é imprescindível e
fundamental para qualquer evangelização, portanto, também para a Nova
evangelização. Transmitir a fé é ajudar o homem de hoje na percepção
de que foi encontrado, amado: “Não fostes vós que me escolhestes, fui eu
que vos escolhi e vos designei para dardes fruto” (Jo 15,16). O Encontro
é que faz acontecer o discipulado e a missionariedade. O discipulado, e
a própria evangelização, a missão, nascem do encontro.
Como é importante lembrar o que nos disse o papa Francisco:
“O discipulado missionário é vocação: chamada e convite. Acontece
em um ‘hoje’, mas ‘em tensão’. Não existe o discipulado missionário
estático. O discípulo missionário não pode possuir-se a si mesmo; a sua
imanência está em tensão para a transcendência do discipulado e para a
transcendência da missão. Não admite a auto-referencialidade: ou referese a Jesus Cristo ou refere-se às pessoas a quem deve levar o anúncio
148
49
Mestre Eckhart, Sermões alemães II, Editora Universitária S. Francisco, Editora
Vozes, 2008, Sermão 87.
50
XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, Mensagem, 14.
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dele. É sujeito que se transcende. Sujeito projetado para o encontro: o
encontro com o Mestre (que nos unge discípulos) e o encontro com os
homens que esperam o anúncio.”51
A proximidade, a maternidade, o cuidado, o pastoreio, contêm o
método da Nova evangelização. Não bastam os meios de comunicação
à nossa disposição. A transmissão da fé é sempre relação, é pessoal,
pessoa a pessoa. Ela possibilita o encontro entre pessoas, encontro que
estabelece uma relação nova que cria novo céu e nova terra. Aparecida,
ao insistir na missionariedade que nasce do encontro, indica o método
de sair, ir ao encontro, pois esse é o modo do amor, de Deus.
“A posição do discípulo missionário não é uma posição de centro,
mas de periferia: vive em tensão para as periferias… incluindo as da
eternidade no encontro com Jesus Cristo. No anúncio evangélico, falar
de ‘periferias existenciais’ descentraliza e, habitualmente, temos medo
de sair do centro. O discípulo-missionário é um descentrado: o centro é
Jesus Cristo, que convoca e envia. O discípulo é enviado para as periferias existenciais.”52
É nesse sentido que o método e a linguagem mudam insistentemente, pois “a Igreja é instituição, mas, quando se erige em ‘centro’, se
funcionaliza e, pouco a pouco, se transforma em uma ONG. Então, a
Igreja pretende ter luz própria e deixa de ser aquele ‘mysterium lunae’
de que nos falavam os Santos Pais. Torna-se cada vez mais autorreferencial, e se enfraquece a sua necessidade de ser missionária. De
‘Instituição’ se transforma em ‘Obra’. Deixa de ser Esposa, para acabar
sendo Administradora; de Servidora se transforma em ‘Controladora’.
Aparecida quer uma Igreja Esposa, Mãe, Servidora, facilitadora da fé e
não controladora da fé.”53
A Nova evangelização para a transmissão da fé tem seus ecos. O
eco maior que podemos perceber é o modo de ser do Bispo de Roma. Ela
é o eco daquele desejo de vem do Apóstolo Paulo: “continuo correndo
para alcançá-lo, visto que eu mesmo fui alcançado pelo Cristo Jesus”
(Fl 3,8-9;12). Como não anunciar Aquele que me procurou e amou?54
51
Francisco PP., Encontro com os Dirigentes do CELAM, JMJ RIO, 28 de julho de
2013, 5,1.
52
Idem, 5,1.
53
Idem, 5,2.
54
Cf. São Bernardo, Sermões sobre o Cântico dos Cânticos, n.º 84.
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Nova Evangelização para a transmissão da fé: ecos do Sínodo dos Bispos
No perscrutar do nosso tempo, no estudo da teologia e da filosofia,
abramo-nos para a grandeza da Boa notícia: Deus conosco. O ardor, os
métodos e a linguagem brotarão desta fonte inesgotável do encontro.
Obrigado.
E-mail do Autor:
[email protected]
150
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Resumo: Após uma introdução que sintetiza várias características do pensamento e da ação pastoral de Jorge Mario Bergoglio – como jesuíta, professor
universitário, superior provincial, bispo-auxiliar e arcebispo de Buenos Aires
– o autor trata, primeiro “da renúncia de Ratzinger a Francisco”. A seguir, do
“espírito que anima Francisco”, e da “irradiação de um pontificado”. Comenta,
também, seus “gestos e iniciativas programáticas”. Analisa o fato de Francisco
ser um “padre jesuíta”, e seu “perfil internacional”. Fala das prioridades do seu
pontificado, da sua preferência de conceber a Igreja como um “hospital de
campanha” e, por fim, da esperançosa síntese da Evangelii Gaudium, de 2411-2013, a Exortação pós-sinodal na qual a Evangelização é apresentada sob
a ótica da alegria cristã.
Abstract: After a lengthy introduction synthesizing various characteristics of the
thought and the pastoral activity of George Mario Bergoglio — as Jesuit, teacher
at the university, Provincial, auxiliary bishop and arch-bishop of Buenos Aires
— the author deals first with the abdication of Ratzinger as Pope previously to
the election of Pope Francis. Then he points out the “spirit which inspires Pope
Francis”, and the “irradiation of his pontificate”. He makes some comments
about his “gestures and programmatic initiatives”. He analyses the fact that
Pope Francis is a “Jesuit priest” and that he shows forth “an international profile”.
He also mentions the priorities of his pontificate, his preference for a Church
compared to a “field hospital” and finally he envisages a hopeful synthesis of
Evangelii Gaudium of 24-11-2013, in the words of the Post-synodic Exhortation
which presents Evangelization in the light of Christian joy.
Evangelii Gaudium, Lumen Fidei
A Alegria do Evangelho é a Luz da Fé
Interpelações do Papa Francisco
para a Igreja de hoje*
Pe. José Artulino Besen**
*
Aula inaugural do ano letivo de 2014 – ITESC/FACASC.
** O autor é especialista em História da Igreja, Professor emérito do ITESC, e Pesquisador da FACASC.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014, p. 151-171.
Evangelii Gaudium, Lumen Fidei: a Alegria do Evangelho é a Luz da Fé
Jorge Maria Bergoglio é o primeiro latinoamericano e jesuíta eleito
papa. Caracterizou-se, como Arcebispo de Buenos Aires, pela simplicidade e pelo amor ao/do povo. “Meu povo é pobre e eu sou um deles”,
disse, para explicar sua decisão de morar num apartamento e preparar a
própria refeição. Para seus padres, afirmava que a pior coisa que pode
acontecer na Igreja é o que De Lubac chamava de “mundanidade espiritual, colocar-se no centro de si mesmo”.
Nasceu em Buenos Aires em 17 de dezembro de 1936, numa
família de cinco irmãos. Diplomado como técnico químico, em 1958
ingressou no noviciado jesuíta. E, em 13 de dezembro de 1969 foi ordenado padre. Na Companhia de Jesus foi mestre de noviços, superior
regional e provincial. Em 1992 foi eleito bispo auxiliar de Buenos Aires,
com o lema Miserando atque eligendo. Em 3 de junho de 1997 foi promovido a arcebispo coadjutor e em 28 de fevereiro de 1998, arcebispo
metropolitano.
Foi criado cardeal por João Paulo II no Consistório de 21 de
fevereiro de 2001.
Como arcebispo, concebeu um projeto missionário centrado na comunhão e na evangelização, com quatro objetivos principais: comunidades
abertas e fraternas; protagonismo de um laicato consciente; evangelização
dirigida a cada habitante da cidade; asistência aos pobres e doentes.
Em setembro de 2009 lançou, em nível nacional a Campanha de
solidariedade pelo bicentenário da Independência argentina: realizar
200 obras de caridade até 2016. Em chave continental, nutriu fortes esperanças a partir da mensagem da Conferência de Aparecida em 2007,
denominando-a “a Evangelii nuntiandi da América Latina”.
Foi eleito bispo de Roma em 13 de março de 2013, numa solução
não esperada, mas preparada e madura.
Observando seus escritos como padre jesuíta, como bispo e agora
como bispo de Roma, pode-se definir a antropologia e teologia de Bergoglio como pedagogia do encontro – o povo tem voz, não é preciso
dá-la. Jesus encontrava as pessoas e as escutava. Bergoglio fala do povo1:
“Quando estudava teologia, quando repassava o Denzinger e os tratados
para demonstrar as teses, tocou-me muito uma formulação cristã: ‘O povo
fiel é infalível in credendo, no crer’. Disso extraí uma fórmula que me
1
152
Meditaciones para religiosos – 1982.
Encontros Teológicos nº 67
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José Artulino Besen
ajuda muito: “Quando queres saber o que crê a Mãe Igreja, dirige-te ao
Magistério, porque esse tem o encargo de ensiná-lo de modo infalível;
mas, quando queres saber como crê a Igreja, dirige-te ao povo fiel”. Isso
se concretiza na fórmula: ‘O Magistério te ensinará quem é Maria, mas
o nosso povo fiel te ensinará como se ama Maria’.
Deseja superar a mentalidade iluminista, nosso costume de achar
que sabemos tudo e o povo nada. “Os povos têm costumes, capacidade
de avaliação, conteúdos culturais que fogem de qualquer classificação:
são soberanos em sua possibilidade de interpelar”. “Todos os povos
têm voz, talvez reduzida a um sussurro devido à opressão. É necessário
aguçar o ouvido e escutá-la, para que não queiramos falar em seu lugar.
Para um pastor, a pergunta inicial de toda reforma das estruturas deve
ser: ‘O que me pede o meu povo?’”2
A – DA RENÚNCIA DE RATZINGER A FRANCISCO
Diferente de Celestino V (1294), a renúncia de Bento XVI não foi
uma fuga institucional, mas o oposto: “um ato de governo”. Não uma
manifestação de fraqueza, um corte ou incidente histórico, uma prova
de decisionismo. Foi uma reforma que modificou de modo irreversível
a constituição material da Igreja, uma estrada e exemplo a ser seguido,
pelo precedente introduzido para ser confrontado por cada sucessor, sem
o refúgio e o álibi da tradição.
Com sua revolução de veludo, Bento XVI introduziu na galeria
das formas de governo um modelo único no mundo, no qual uma das
últimas monarquias absolutas se impõe um limite temporal, mas não
determinado, confiado ao discernimento solitário de seu titular, convidado a colher na própria fragilidade física o aviso do término fixado por
Deus: “... no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por
profundas questões de grande relevância para a vida de fé, para governar
a Barca de Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor,
2
Cf. também o comentário à Congregação geral dos jesuítas de 1979, capítulo IV: “nossa
missão hoje: diaconia da fé e promoção da justiça”. Na Conferència do CELAM em
Aparecida, em 2007, falou da “cultura do encontro”; e também numa Missa em Buenos
Aires, em 2012: “Jesus não fazia proselitismo, acompanhava. Deus é vizinho, vizinho
à nossa carne. O Deus do encontro que vai ao encontro com o seu povo. Coloca seu
povo em situação de encontro. E com essa vizinhança, com esse caminhar, cria a
cultura do encontro que nos faz irmãos, nos faz filhos, e não membros de uma ONG
ou de uma multinacional”.
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Evangelii Gaudium, Lumen Fidei: a Alegria do Evangelho é a Luz da Fé
tanto do corpo como do ânimo, vigor que, nos últimos meses, em mim
diminuiu de tal modo que devo reconhecer a minha incapacidade de bem
administrar o ministério a mim confiado”. Quando Francisco perceber
chegada também sua hora de seguir o exemplo, certamente não o fará
com uma declaração, mas com um gesto evocativo e simbólico, pois é um
homem da linguagem das imagens. A renúncia de Bento XVI marcou o
fim, encerrou qualquer nostalgia tridentina, e isso no modo mais forte.
Após um ano, o que mudou, naquele dia, na Igreja?3
O anúncio foi dado num modo particular, com muita contenção
emotiva, quase sem pathos, no refinamento que sempre distinguiu Bento
XVI. Ninguém podia imaginar a renúncia. Desde aquele dia muita coisa
mudou na Igreja, especialmente nos órgãos do Vaticano: a Cúria, o Colégio Cardinalício, mas, sobretudo, no sentido da figura do Papa. Ratzinger
deu humildade, humanidade e coragem a um ofício historicamente inamovível até a morte. O auxílio de Bento XVI agora é o do testemunho
e da oração. Tem no coração o futuro da Igreja, e seu ministério é um
ministério petrino total e profundo.
B – O ESPÍRITO QUE ANIMA FRANCISCO
Forte concentração na figura de Jesus – Francisco leva ao
extremo as conseqüências da encarnação do Filho, e do Pai com ele:
Deus chora, Deus espera, Deus procura, Deus perdoa. Deus se faz pobre
para nos enriquecer.
É evidente sua opção pelos pobres, como o demonstra o tema da
próxima JMJ4.
Deus se despojou e devemos nos despojar. Sinal concreto do
despojamento pessoal de Francisco foi a renúncia a residir no Palácio
154
3
Cardeal Sgreccia, em entrevista de 11 de fevereiro de 2014.
4
Francisco escolheu três temas para as próximas três edições das Jornadas Mundiaisem
nível diocesano, que marcam as etapas de preparação espiritual, que, no espaço de
três anos, vão levar à celebração internacional prevista para Cracóvia (Polônia), em
julho de 2016”. A pobreza espiritual, será o tema da edição de 2014. Jovens católicos
serão convocados a meditar sobre a bondade de Jesus, em seu “Sermão da Montanha” narrado pelo evangelista Mateus: “Bem-aventurados os pobres no espírito,
porque o reino dos céus é deles”. Em 2015, meditarão sobre a pureza do coração:
“Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus”. Finalmente em
2016, em Cracóvia, o tema de reflexão será: “Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia”.
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José Artulino Besen
Apostólico, preferindo residência menor na Casa Santa Marta, onde
pode se encontrar mais facilmente com bispos, padres e leigos que vêm
ao Vaticano.
Recordando a unidade entre a Lumen Fidei e a Evangelii Gaudium5, Fransisco convidou à reflexão sobre a dimensão luminosa da fé,
sobre a conexão entre a fé e a verdade, buscada “não só com os olhos da
mente mas também com os do coração, na perspectiva do amor”.
Paulo afirmava que se crê com o coração. “No entrelaçamento da
fé com o amor compreende-se o conhecimento próprio da fé, sua força
de convicção, sua capacidade de iluminar nossos passos. O entendimento da fé é o que nasce quando recebemos o grande amor de Deus que
nos transforma interiormente e dá-nos olhos para ver a realidade”. Na
Ressurreição de Jesus “os discípulos contemplaram não uma verdade
puramente interior ou abstrata, mas uma verdade que se lhes abria no
encontro com o Ressuscitado, na contemplação de sua presença, de sua
vida, de seus mistérios. São Tomás de Aquino afirma que se trata de uma
oculata fides, de uma fé que se vê”.
C – IRRADIAÇÃO DE UM PONTIFICADO
Em menos de um ano de pontificado relançou a mensagem da
Igreja em todo o mundo. As presenças nos eventos onde ele está mais
que triplicaram, chegando à cifra recorde de 7 milhões de pessoas.
É considerado mais que um amigo das pessoas: é um da família.
Não surpreendem as milhares de cartas que chegam a cada semana, pacotes, objetos, de todo o mundo. Uns 30 sacos: cartas pedindo conselho,
demonstrando afeto, uma poesia.
É o personagem com o maior número de buscas mensais no Google
(1.737.300), o mais citado na web (mais de 49 milhões) se confrontado
com Obama (1,5 milhão x 38 milhões). No twitter tem mais de 11 milhões de seguidores.
Quando ele telefona, escreve cartas, não é estratégia, são gestos
que fazia na Argentina. Dava poucas entrevistas, fugia dos refletores e,
em Buenos Aires, andando pela rua, poucos o reconheceriam.Não era
um star mídia, mas sabe usar bem os MCS.
5
Alocução em 28 de janeiro de 2014 aos membros das Academias pontifícias, reunidos
em sua XVIII sessão.
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Evangelii Gaudium, Lumen Fidei: a Alegria do Evangelho é a Luz da Fé
D – GESTOS E INICIATIVAS PROGRAMÁTICAS
Francisco promoveu iniciativas e gestos que revelam as diretrizes
de sua ação eclesial. Entre tantos, podemos citar:
Visita a Lampedusa – gesto mais importante – 8/7/2013. Pequena
ilha ao sul da Itália, Lampedusa é o local onde atracam embarcações
carregadas de migrantes fugidos de guerras e da miséria da África e do
Oriente Próximo. É clara a opção pelos deserdados da terra.
Em Assis (4/10/2013) o Papa pediu a São Francisco o dom da
simplicidade. Assim respondeu a uma senhora: “Pedi o dom da simplicidade para mim e para toda a Igreja”.
O JEJUM mundial pela paz na Síria (7/09/2013).
Visita de Putin, Presidente da Rússia (25/11/2013) – Deixa de
lado o chamado preconceito/preferência de aliança norte-atlântica por
parte da Igreja.
SUCESSOR DE PEDRO, não de Constantino – no ano do 17º
centenário do Edito de Milão (313-2013).
A nomeação dos OITO CARDEAIS6 conselheiros, denominados os Oito Sábios, não é uma criação sua: foi decisão dos cardeais no
Conclave. Assumiu os compromissos e os faz seus.
O primeiro CONSISTÓRIO – supera o espírito de dioceses mais
ou menos importantes. Deixa de lado Veneza e Florença por Perúgia, e
escolhe um bispo da periferia haitiana (Chibly Langlois, bispo da pequena
cidade de Las Cayes, o primeiro da história do Haiti) e filipina (Dom
Orlando Quevedo, de Cotabato, Mindanau, nas Filipinas. A arquidiocese
de Cotabato nunca teve um cardeal).
LORIS CAPOVILLA, secretário de João XXIII, aos 98 anos é
feito cardeal, por amor ao Papa João XXIII. Francisco, que chama João
de “seu Papa”, lhe telefonou antes da indicação e pediu: “Reze ao Papa
João para que eu seja melhor”.
CANONIZAÇÕES de João Paulo II e João XXIII – 27/4/2014
– domingo da Misericórdia.
6
156
Tornada oficial com o Quirógrafo de 30 de setembro de 2013.
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José Artulino Besen
Reforma da Cúria (21/09/2013) – diferente de Bento XVI,
fez opção pelos diplomatas da grande escola diplomática do Vaticano,
confiando aos Núncios missão pastoral e apostólica. Escolheu para Secretário de Estado o Núncio Pietro Parolin, da Venezuela. O salesiano
Bertone não era diplomata e com ele a Santa Sé teve enfraquecido seu
protagonismo internacional.
Nos postos importantes, vê-se a opção pela América Latina e a
Espanha.
E – FRANCISCO, PADRE JESUÍTA
John Allen Jr, vaticanista da CNN, afirma: “Francisco age sempre
sozinho e estimula a segui-lo”, atitude típica dos superiores jesuítas.
Há em Francisco um mix de temperamento pessoal e estratégia
missionária de jesuíta.
Tem uma precisa fonte de inspiração: o falecido Cardeal Martini,
que também falava da Igreja como Mãe com os braços abertos. Nessa
abertura há o sinal das portas abertas das igrejas e locais de oração. Nem
as portas dos Sacramentos deveriam estar fechadas por qualquer razão.
A Eucaristia não é prêmio para os perfeitos, mas, um generoso remédio
e um alimento para os fracos. Muitas vezes nos portamos como controladores da graça e não como facilitadores. A Igreja não é um balcão, mas
a casa paterna onde há lugar para todos os que vivem sua vida fadigosa,
já cheia de embaraços (cf. EG). Martini dizia: é preciso dar mais sacramentos, não limitá-los.
Não é um ingênuo, é um jesuíta e como tal tem uma vocação missionária e a capacidade de compreender o mundo. Aqui entra também o
exemplo do Cardeal Martini: quando pergunta “quem sou eu para julgar um
gay”, ou fala sobre a consciência, está citando o Catecismo, é coerente com a
ortodoxia católica, mas o fato de afirmá-lo numa entrevista, ou escrevendo
a um jornal ou a um não-crente, coloca tudo num contexto novoe original
Suas escolhas são pessoais, também suas iniciativas, o que o diferencia de
Bento XVI, que avaliava as propostas com os auxiliares. Ratzinger falava
uma linguagem de especialista, era competente para reagir às provocações
do mundo, e menos para tomar iniciativas. Jogava mais na defesa, enquanto
que Francisco joga no ataque, como João Paulo II. Mas, enquanto João Paulo II agarrava e sacudia o mundo, Francisco usa mais o método da ternura.
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Evangelii Gaudium, Lumen Fidei: a Alegria do Evangelho é a Luz da Fé
Declara santo o jesuíta Pedro Favre, seu modelo de padre e
missionário
Em 17 de dezembro de 2013 canonizou o jesuíta São Pedro Favre,
apelidado de “sacerdote reformado”, conhecido pelo “magistério afetivo,
isto é, capacidade de comunicação espiritual com as pessoas, que é a
graça de saber colocar-se nas condições de cada um”. Favre foi o primeiro membro da Companhia de Jesus que assumiu responsabilidades
em diversas partes da Europa, e morreu em Roma quando se dirigia ao
Concílio de Trento. Era o mais velho dos companheiros de Santo Inácio
e, junto com Francisco Xavier, o mais estimado também7.
7
158
Nasceu na Sabóia em 1506 e em 1525 estava em Paris no Colégio Santa Bárbara,
onde compartilhou a casa com Francisco Xavier e conheceu um mais idoso estudante
da Universidade de Salamanca, Inácio de Loyola. Tornaram-se amigos íntimos e decidiu seguir Inácio, sendo ordenado padre em 1534 e, em 15 de agosto desse ano em
Montmartre celebrou a Missa onde os sete primeiros jesuítas fizeram os votos. Indo
a Roma foi nomeado pregador apostólico. Paulo III o nomeou seu representante na
Dieta de Worms em 1518, que fracassou e, no ano serguinte, à Dieta de Ratisbona.
Favre estava convencido de que nem o imperador Carlos V nem os altos dignitários
eclesiásticos se davam conta de que muito mais que as discussões com os hereges,
o que a Igreja na Alemanha necessitava era a verdadeira reforma do clero e dos fiéis,
pois notou como estava decadente a vida dos católicos. Dedicou-se à pregação e
à direção espiritual em Speyer, Ratisbona e Mainz. Aqui, conheceu Pedro Canísio,
ainda leigo, e dirigiu-o nos exercícios espirituais e o recebeu na SJ. Se a Renânia
conservou-se católica, em grande parte deve-o à atividade e influência de Pedro Favre.
Trabalhou com êxito em Colônia, cujo arcebispo, Herman von Wied, era protestante
e ali ajudou a fundar a primeira residência dos jesuítas.
Em seguida, foi enviado a Portugal e depois à Espanha. Passando pela França, foi
prisioneiro por sete dias. Fez o voto de jamais receber espórtulas pela Missa, a não ser
que fosse uma injustiça perante outros sacerdotes. Na Espanha continuou o trabalho
de oferecer os Exercíos espirituais de Santo Inácio ao clero e aos fiéis, alcançando
grandes frutos. Para os cartuxos de Colônia traduziu para o latim os Exercícios. Um
dos espanhóis que melhor experimentaram os frutos dos Exercíos foi o Duque de
Gândia, Francisco de Borja.
Paulo III desejava que ele fosse um de seus teólogos no Concílio de Trento o que lhe
causou tristeza, mas, aceitou por sentir que a obediência vale mais do que se declarar
incompetente. Em 1546 aceitou o convite: estava doente, o calor era insuportável. O
esforço foi excessivo e, mesmo que com apenas 40 anos, consumidos em viagens e
trabalho, morreu em Roma, nos braços de Santo Inácio.
Fravre deixou um “Memorial” onde escreve quase diariamente as graças que Deus
lhe concedia. Não podia conceber a violência contra os protestantes e não nutria
esperanças mas Dietas e conferências formais. Isso, porém, não o impediu de falar
pessoalmente com Lutero e Melanchton e refutá-los nas discussões públicas, com
grande fruto. Considerava que era muito mais importante servir-se da persuasão para
converter profundamente os corações e pelas mãos levá-los à mudança de vida e ao
redil de Cristo. Escreveu: “É necessário que quem deseja ajudar os hereges de hoje
lhes queira bem e realmente os ame e arranque de seu coração todos os pensamentos
e sentimentos que tenha contra eles. O passo seguinte consiste em ganhar-lhes a boa
vontade e o afeto, conversando com eles a respeito dos pontos em que estamos de
Encontros Teológicos nº 67
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José Artulino Besen
Na pregação de Francisco, a espiritualidade de Santo Inácio está
unida com a meditação pessoal diária dos textos sagrados. Sua pregação
e comunicação tem eficácia imediata e é capaz de atingir níveis altos.
É um estilo de pregação inaciana, na qual é fundamental a meditação
da Escritura. A cada manhã, levanta-se muito cedo e antes de celebrar a
Missa medita os textos bíblicos e da tradição cristã. Desta raiz provém
o uso freqüente de imagens: toda a literatura cristã e hebraica fica vazia
sem imagens. Indo além da letra, atinge o espírito dos textos e sabe
transmiti-los na pregação (criou até uma linguagem nova, como o uso
das palavras misericordiando, primereando).
Isso é fruto do estar sempre nas fronteiras, próprio dos jesuítas desde o século XVI. Por sua formação, pelos 20 anos de auxiliar e arcebispo
de Buenos Aires que palmilhou toda, do centro à periferia, Francisco está
em condições de entender os jovens e qualquer outra pessoa, porque vêm
de uma realidade existencial na quase ele soube mergulhar.
Perfil internacional de Francisco
Formou-se na última década pelas responsabilidades fora da Argentina, especialmente no trabalho junto ao CELAM. Foi duas vezes Presidente da Conferência episcopal argentina (até 2011), quando manteve
contatos com o CELAM. Seus discursos aos bispos brasileiros e aos do
CELAM foram os mais importanbtes, e retomou temas da Conferência
de Aparecida, de 2007. Nessa Conferência amadureceu uma osmose com
a religiosidade popular, e debateu entre os bispos no maior Santuário
mariano do mundo. Em continuidade, suas reflexões apresentadas aos
episcopados são indicações programáticas que ele confia a toda a Igreja,
para que saia de si mesma e e anuncie o Evangelho.Em seu mais importante discurso em Aparecida, afirmou, referindo-se ao simbolismo da
Virgem de Aparecida, cuja imagem foi encontrada em dois momentos,
primeiro o corpo, depois a cabeça: “Existem partes de um mistério, como
acordo com eles e cuidadosamente evitando os pontos controvertidos que levam ao
distanciamento e à recriminaçõa mútuos. O primeiro passo deve ser dado nas coisas
que unem, não nas que separam”.
São Simão Rodrigues escreveu que havia em Favre um encanto e uma bondade
jamais vistos em outro homem. Quando falava das coisas divinas, parecia ter nos
lábios a chave dos corações, pois movia e atraía poderosamente os ouvintes.
O Processo informativo para a beatificação teve início em 1596 e foi ratificado em
1607 pelo bispo de Genebra, São Francisco de Sales. A Ata de confirmação do culto,
em 1872.
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Evangelii Gaudium, Lumen Fidei: a Alegria do Evangelho é a Luz da Fé
partes de um mosaico, que encontramos e vemos. Em Aparecida, Deus
nos ofereceu uma lição sobre si mesmo, a respeito de seu modo de ser
e de agir. Escondendo-se nas águas profundas do rio Paraíba, emergiu
da obscuridade do rio”.
Na JMJ-2013, mostrou ser pontífice, fazedor de pontes, cercado
pelas multidões que o acolhiam e às quais acolhia sem poupar-se, retribuindo, sorrindo, apertando as mãos, acariciando e beijjando crianças, idosos,
doentes. Quando diz que ninguém deve se sentir excluído do afeto do papa,
suas palavras não são de efeito, pois é aquilo que faz a cada dia.
F – PRIORIDADES DE SEU PONTIFICADO
Define: “Minha missão é no meio do povo” (28/3).
O povo de Deus quer pastores e não funcionários ou clérigos de
Estado.
A Cúria romana não seja uma burocracia, como por engano
alguém a julga, mas uma verdadeira comunidade de fé e de caridade,
de oração e de ação (21/9). Solicita a toda a Igreja para que saia de si
mesma, abandone a autoreferencialidade que sempre esteriliza, e sair a
campo. Rejeita uma mentalidade que exclua, para construir uma cultura
de inclusão e de encontro. Isso é mais significativo ainda por vir do
Continente americano, do Novo Mundo. Bento XVI insistia numa Igreja pequena, qualificada. Francisco
fala duma Igreja que recebe a todos, que recolhe e cresce. Ajuntar os
abandonados, os que estão longe, do que são sinais: a Carta de Francisco
aos crentes (11-09-2013); a afirmação de que o Carreirismo é uma lepra
(6/6/13); admoesta que bispos e padres fiquem longe da riqueza e da
vaidade (15/5/13); denuncia os incalculáveis prejuízos que os carreiristas
e arrivistas trazem à Igreja (8/5/13).
Para Francisco, seria equivocado pensar que o “caminho da pobreza” seja exclusivo de Jesus enquanto que nós, seus seguidores, poderemos
salvar o mundo com meios humanos adequados: “A riqueza de Deus não
pode passar através da nossa riqueza, mas sempre e somente através de
nossa pobreza, pessoal e comunitária, animada pelo Espírito de Cristo”8.
8
160
Mensagem para a Quaresma de 2014, em 26 de dezembro de 2013, parágrafo 2:
Jesus fez-se pobre, para nos enriquecer com a sua pobreza (cf. 2 Cor 8,9).
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O PAPA DA MISERICÓRIA – É seu grande título e título de honra.
Os seis primeiros meses9 mostram o Papa e a Igreja que não têm medo de sair
e “entrar na noite” dos que estão afastados. Despertou uma atenção e simpatia
que não param de crescer, mesmo que já surjam as críticas, compreensíveis
e esperadas num perfil tão original de exercício do ministério petrino.
– Primeiro elemento dessa empatia: testemunho pessoal da
mensagem evangélica, com pequenos e grandes gestos, pequenas e grandes escolhas quotidianas, a capacidade de encontrar
a todos e de falar a todos, o ser simplesmente ele mesmo, o
tornaram não só crível, mas também vizinho, “um de nós”.
Olhar o tempo que gasta com doentes, crianças, sofredores
antes e depois das Audiências. Não teme a ternura como Bispo
de Roma. O nome escolhido, Francisco, salta aos olhos.
– Segundo elemento: o magistério representado pelas homilias
diárias na Missa, na capela Santa Marta, com breves comentários
às Leituras do dia, multiplicadas dia após dia para tanta gente,
alcançando muito mais que as encíclicas ou debates culturais.
A mensagem que considera mais importante é a da misericórdia
(paróquia Sant’Ana, 17 de março de 2013). Sem a misericórdia10, há pouco a
se fazer para se inserir num mundo de feridos, necessitados de compreensão,
perdão, amor. Serve uma Igreja capaz de fazer companhia... capaz de decifrar
a noite contida na fuga de tantos irmãos e irmãs. Serve uma Igreja que não
tenha medo de entrar na noite deles, capaz de interceptar sua estrada.
É evidente, para quem for capaz de olhar a realidade, livre de
condicionamentos e prejulgamentos nostálgicos, que Francisco oferece
um ar novo. No pré-conclave, Bergoglio se referia à necessidade de
emagrecer a Cúria romana, o urgente, necessário e radical saneamento
dos organismos financeiros vaticanos, as nomeações para os dicastérios
da Santa Sé. Reformas necessárias que devem ter como critério último,
continuou Bergoglio, somente o “bem das almas”.
“Tudo isso é importante, falou Pe. Lombardi, porta-voz da Santa
Sé, à Rádio Vaticana, porque o que conta é o coração da reforma perene
da vida da Igreja, e o Papa dá como exemplo sua espiritualidade, sua
atitude de humildade e proximidade com as quais quer tornar-nos vi9
10
Cf. Andrea Tornielli, em Vatican Insider, 13 de setembro de 2013 – I primi sei mesi
del Papa della misericordia.
Discurso ao Episcopado brasileiro na JMJ, no Rio de Janeiro, 27 de julho de 2013.
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161
Evangelii Gaudium, Lumen Fidei: a Alegria do Evangelho é a Luz da Fé
zinhos de Jesus, uma Igreja que caminha, vizinha à humanidade de hoje,
particularmente da humanidade que sofre e que tem mais necessidade
da manifestação do amor de Deus”.
Característica de sua atitude de humildade e proximidade é o retorno ao essencial da fé cristã e à radicalidade evangélica. Tal atitude dá
força e credibilidade a mensagens como o convite para a paz na Síria,
tornando possível um evento sem precedentes como a vigília de sábado, 7
de setembro: o Papa ficou quatro horas em oração na Praça de São Pedro,
aos pés do ícone “Salus populi romani” e depois diante da Eucaristia.
G – A IGREJA, UM HOSPITAL DE CAMPANHA11
Francisco aponta para o que é essencial, que é também o que
apaixona e atrai mais, o que faz arder o coração. Não quer uma Cúria
de censores.
1) Fé e certezas – Francisco fala no “procurar e encontrar Deus em
todas as coisas”, de Santo Inácio, e explica: “Nesse procurar e encontrar
Deus em todas as coisas permanece sempre uma zona de incerteza. Deve
permanecer. Se uma pessoa disser que encontrou Deus com certeza total,
sem nenhuma margem de incerteza, não está bem. Se um tem resposta
para todas as perguntas, isso é uma prova de que Deus não está com ele.
É um falso profeta, que usa a religião para proveito próprio. Os grandes
guias do povo de Deus, como Moisés, sempre deixaram espaço à dúvida.
Deve-se deixar espaço ao Senhor, não às nossas certezas; é necessário ser
humilde. A atitude correta é a agostiniana: buscar Deus para encontrá-lo
e encontrar Deus para procurá-lo sempre”.
Existe hoje a tentação de procurar Deus no passado ou nos futuríveis
(futuro hipotético, ilusório). Certamente que Deus está no passado, nas
pegadas que deixou. E é também futuro como promessa. Mas, o ‘Deus
concreto’ está no hoje. Por isso as lamentelas nunca nos ajudam a encontrar
a Deus. As lamentelas de hoje sobre “como o mundo está bárbaro” acabam
por fazer nascer dentro da Igreja desejos de ordem entendidos como pura
conservação, defesa. Não! Deus deve ser encontrado no hoje”.
2) Não insistir nos valores não negociáveis
O núcleo central da mensagem na longa entrevista à Civiltà Cattolica (seis horas, em 19, 23 e 29 de agosto – 29 páginas): “Eu vejo com
11
162
Entrevista ao diretor da Civiltà Cattolica, Pe. Antônio Spadaro (19/9/2013).
Encontros Teológicos nº 67
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José Artulino Besen
clareza que o que mais falta à Igreja é a capacidade de curar as feridas e
aquecer o coração dos fiéis, a vizinhança, a proximidade. Vejo a Igreja
como um Hospital de Campanha após a batalha. É inútil perguntar a um
ferido grave se tem colesterol e diabetes. Deve-se curar suas feridas. E
é necessário começar de baixo”.
“Não podemos insistir somente nas questões ligadas ao aborto,
matrimônio homossexual e uso dos métodos contraceptivos”. Todos
conhecem a doutrina da Igreja, não é preciso repetir as mesmas coisas.
“Uma pastoral missionária não está obsessionada pela transmissão desarticulada de doutrinas a serem impostas com insistência. O anúncio
missionário se concentra no essencial, no necessário, que também é o
que mais atrai e apaixona, que faz arder os corações, como aos Discípulos de Emaús”.
Não se fechar em pequenas coisas, pequenos preceitos. O mais
importante é o primeiro anúncio: Jesus Cristo te salvou! Os ministros
da Igreja devem, antes de tudo, ser ministros de misericórdia. O anúncio
do amor salvífico de Deus é anterior à obrigação moral e religiosa. Hoje
parece prevalecer a ordem inversa.
3) “A minha certeza: Deus está na vida de cada pessoa”.
A propósito dos gays: no vôo de retorno do Rio, da JMJ, em
28/7/2013: “Se uma pessoa é de boa vontade e procura Deus, quem sou
eu para julgá-la? É o que afirma o Catecismo. A religião tem o direito de
expressar a própria opinião a serviço do povo, mas Deus, na criação, os
fez livres: não é possível a ingerência espiritual na vida pessoal” – Essa
frase é a que mais causou repercussão, parecendo engano (V. Messori),
trouxe estupor (L. Accatolli), (Santo Padre, use o poder das Chaves,
tradicionalistas), mas ele a disse. Quando Deus olha uma pessoa, aprova
sua existência com afeto, não a condena. Quando se acompanha uma
pessoa com misericórdia, o Espírito Santo inspira a coisa justa.
“Aquele que hoje busca soluções disciplinares, quem tem tendência exagerada à “segurança” doutrinal, quem busca obstinadamente
recuperar o passado perdido, tem uma visão estática e involutiva. E assim,
a fé se transforma numa ideologia entre tantas. Eu tenho uma certeza
dogmática: Deus está na vida de cada pessoa, Deus está na vida de cada
um. Mesmo se a vida de uma pessoa é um desastre, destruída pelos vícios, pela droga ou qualquer outra coisa, Deus está na sua vida. Pode-se e
deve-se buscá-lo em cada vida humana. Também se a vida de uma pessoa
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
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Evangelii Gaudium, Lumen Fidei: a Alegria do Evangelho é a Luz da Fé
é um terreno cheio de espinhos e ervas daninhas, há sempre um espaço
no qual a semente boa pode crescer. É preciso confiar em Deus”.
4) Deus é maior do que o pecado
“Sonho com uma Igreja Mãe e Pastora. Os ministros da Igreja
devem ser misericordiosos, assumir a carga das pessoas, acompanhandoas como o bom samaritano que lava, limpa, ergue seu próximo. Isso é
puro Evangelho.
As reformas estruturais vêm depois, são secundárias. A primeira
reforma deve ser a das atitudes. Os ministros do Evangelho devem ser
capazes de aquecer o coração das pessoas, caminhar com elas na noite
delas, saber dialogar e também descer em sua noite, em sua escuridão,
sem se perder. O povo de Deus quer pastores, e não funcionários ou
clérigos de Estado. Os bispos, especialmente, devem ser homens capazes
de sustentar com paciência os passos de Deus em seu povo de modo que
ninguém fique para trás, mas também para acompanhar o rebanho na
busca de novos caminhos”.
5) Francisco é alérgico a ideologias, incluindo as cristãs e
católicas:
Ideologia da religião constituída – ou legalista12. Se o cristão é
restauracionista, legalista, quer tudo claro e seguro, não encontra nada. A
tradição e a memória do passado devem ajudar-nos a ter coragem de abrir
novos espaços a Deus. Quem busca soluções disciplinares, segurança doutrinal, recuperar o passado perdido, possui uma visão estática e involutiva.
E, deste modo, a fé se torna uma ideologia como tantas outras.
O discípulo da ideologia perdeu a fé13. Quando entra ideologia
na Igreja, a ideologia na inteligência, nada se entende do Evangelho.
Assim, tudo vem interpretado no sentido do dever, e não da conversão à
qual nos convida Jesus. Eles seguem a estrada do dever, põem peso nas
costas dos fiéis. Os ideólogos falsificam o Evangelho, pois são intelectuais
sem talento, eticistas sem bondade. Mas, a estrada do amor, a estrada do
Evangelho, é simples: é a estrada que os Santos entenderam.
A fé passa por um alambique e se torna ideologia14. Quando a fé
passa por um alambique, torna-se ideologia. Jesus não está nas ideologias,
164
12
Entrevista ao Pe. Antônio Spadaro, Civiltà Cattolica – 19/9/2013.
13
Homilia em Santa Marta – 19 de abril de 2013.
14
Homilia em Santa Marta – 17/10/2013.
Encontros Teológicos nº 67
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José Artulino Besen
pois elas convocam, não são como Jesus: ternura, amor, mansidão. Sendo
discípulo da ideologia, o cristão mostra que perdeu a fé, não é mais discípulo de Jesus, é levado pela rigidez, transforma o conhecimento de Jesus
num conhecimento ideológico e até naturalista. A fé se torna ideologia e
a ideologia assusta, afasta o povo e afasta a Igreja do povo.
A fé é ativada pela conversão ao “simples Evangelho” – a ideologia
espanta e não converte.
Qualquer hermenêutica do Evangelho, buscada fora dele, é
ideologia.
Compreendem o mistério da Cruz somente aqueles que renunciam
a qualquer outra hermenêutica de vida, e sabem que é necessário deixar
que os mortos sepultem seus mortos. Desde o início houve a ideologização da mensagem evangélica, que é buscar uma hermenêutica de
interpretação evangélica fora da mensagem evangélica e fora a Igreja.
Purificar o aspecto religioso do político.
A contaminação acontece tanto na direita tradicionalista quanto na
esquerda social. Já no Evangelho se encontra isso: Judas acha um desperdício gastar o dinheiro com perfume, se podia ser dado aos pobres.
O ideólogo não sabe o que é o amor, pois não sabe doar-se15.
Em Buenos Aires, Bergoglio foi contra a participação das crianças
e jovens nas passeatas contra a lei da saúde reprodutiva: “O jovem é mais
sagrado do que um problema legislativo”
F – EVANGELII GAUDIUM16 – 24 NOV 2013
Francisco: a alegria do Evangelho pode reformar a Igreja
Fim do eurocentrismo
Centralidade dos pobres
Decentralização para as Conferências episcopais. O Documento
de Aparecida é Documento-chave em seu pontificado, convite a
libertar-se de tudo que encobre a missão de anunciar o coração pulsante do Evangelho entre os homens de hoje, assim como são.
15
Homilia em Santa Marta – 14/5/2013.
16
Exortação Apostólica sobre o Anúncio do Evangelho no mundo atual – 24/11/2013.
Encontros Teológicos nº 67
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Evangelii Gaudium, Lumen Fidei: a Alegria do Evangelho é a Luz da Fé
Tem como pontos cardeais a Lumen Gentium, a Ecclesiam
Suam, a Evangelii Nuntiandi e o documento de Aparecida, tocando
nos pontos mais salientes da Igreja (é o coração de João XXIII e a mente
de Paulo VI).
1) A alegria do Evangelho, “que enche o coração e a vida de
todos que se encontram com Jesus. Os que se deixam salvar por ele são
libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com
Jesus Cristo, sempre nasce e renasce a alegria”. A comunidade evangelizadora mergulha “na vida quotidiana dos outros, diminui as distâncias,
se abaixa até a humilhação, se necessário”. Conhece as longas esperas
e o suportar apostólico. “Assume o cuidado com o grão e não perde a
paz por causa da cizânia”.
Uma obra de todos, um encorajamento para orientar toda a Igreja
numa nova etapa da evangelização, cheia de fervor e dinamismo. “Não
é oportuno que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento
de todas as problemáticas que surgem em seus territórios. Neste sentido,
vejo a necessidade de proceder a uma salutar decentralização”.
É improrrogável aventurar-se “numa conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Não serve mais uma
simples administração, mas todos ingressarem num permanente estado
de missão”. A renovação não supõe uma teologia particular ou linha de
pensamento eclesial, mas “uma escolha consciente para transformar cada
coisa, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda
estrutura eclesial se tornem um canal adequado paraa evangelização do
mundo atual, mais que para a autopreservação.”
Todos são chamados a colocarem-se em estado de “saída”, também o papado e o exercício do ministério petrino. Na decentralização,
valorizar as Conferências episcopais atribuindo-lhes “também alguma
autêntica autoridade doutrinal”, pois “uma excessiva centralização, ao
invés de ajudar, complica a vida da Igreja e sua dinâmica missionária”. 2) Hierarquia das verdades
Emergem alguns pontos nevrálgicos. Reformular o modo como
se dá o anúncio evangélico; discute o interventismo eclesial-midiático
focalizado em questões morais, o que mutila a mensagem evangélica
e a reduz a aspectos secundários, pois coloca o ensinamento moral da
Igreja fora do contexto que lhe dá sentido.
166
Encontros Teológicos nº 67
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José Artulino Besen
O agir moral não pode prescindir da iluminação do Evangelho.
Uma pastoral em chave missionária não fica obssessionada pela transmissão desarticulada de uma multidão de doutrinas que se tenta impor
pela força da insistência. O anúncio missionário se concentra no que é
mais belo, maior, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário.
Citando Santo Tomás, repete que no agir exterior a maior das virtudes
morais da inteligência iluminada pela fé é a misericórdia: leva em conta
os limites humanos, a condição em que vivem os homens. Santo Tomás
sublinhava que “os preceitos dados por Cristo e pelos Apóstolos são
pouquíssimos”.
O confessionário é o lugar da misericórdia do Senhor e não uma
sala de tortura.
3) Patologia eclesial – mundanidade espiritual. A segurança
doutrinal ou disciplinar leva a um eliteísmo narcisista e autoritário: em
vez de evangelizar, classifica as pessoas.
Pode ser fruto de “mundanidade espiritual” que pode acarretar
tanto o fascínio do gnosticismo (o sujeito fica fechado à própria razão
e sentimentos), quanto o neopelagianismo autoreferencial e prometêico
(o sujeito confia em suas forças e pratica normas que o tornam fiel a
normas do passado).
A consciência de possuir uma segurança doutrinal ou disciplinar cede lugar a um eliteísmo narcisista e autoritário onde, ao invés de
evangelizar, se analisam e classificam os outros. Ao invés de facilitar o
acesso à graça, consomem-se as energias no controlar. Nos dois casos,
não interessam nem Cristo nem as pessoas.
4) As tentações dos “operadores de pastoral”
Sob o influxo da atual cultura globalizada, surge na Igreja a autoreferencialidade que marcou as iniciativas pastorais mais recentes:
vai-se da acídia paralisante que une pessoas consagradas e leigas num
pessimismo estéril, o que João XXIII chamou de profetas da desventura,
que somente percebem ruínas e desastres. “É a mundanidade espiritual
que se oculta atrás de aparências de religiosidade e até de amor à Igreja,
e consiste no buscar, em lugar da glória do Senhor, a glória humana e o
bem-estar pessoal”.
Francisco se refere às novas expressões de um nunca apagado
gnosticismo, ou o neopelagianismo: “confiam unicamente nas próprias
forças e sentem-se superiores aos outros porque observam determinadas
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
167
Evangelii Gaudium, Lumen Fidei: a Alegria do Evangelho é a Luz da Fé
normas, ou porque são irremovivelmente fiéis a certo estilo católico
próprio do passado”. Preferem ser generais de exército, sonhando com
planos apostólicos expansionistas, meticulosos e bem desenhados, típicos
dos generais derrotados.
Representam uma mundanidade asfixiante, escondida em roupagens espirituais e pastorais, doença que pode ser curada somente
“respirando o ar puro do Espírito Santo”.
5) Uma Igreja plural A ação missionaria não é questão de contratados, especialistas:
anunciar a alegria do Evangelho é ação de todo o povo de Deus, um povo
de mil rostos, congregado pela graça de Cristo e não por homologações
culturais. Não podemos querer que todos os povos expressem sua fé
imitando modalidades adaptadas aos povos europeus. A fé não pode ser
aprisionada numa cultura particular.
6) A emergência da homilia
Francisco valoriza o caminho da devoção popular com a qual o
povo se autoevangeliza, expressando seu afeto por Jesus, pela Virgem
e pelos santos. Mas, não se pode esquecer a importância da homilia,
à qual dedica 23 parágrafos em 18 páginas. Lembra, como instrumento
ordinário da pregação, a homilia durante a Missa. Não pode ser longa,
parecendo conferência ou lição, nem moralística ou doutrinadora, nem
lição de exegese. Ela deve ter um caráter quase sacramental. É o
anúncio do Kerigma que deve ressoar no coração do cristão que confessa
a fé cristã.
7) Fé e empenho social
A missão evangelizadora é desfigurada se não incluir “a indissolúvel ligação entre o acolhimento do anúncio salvífico e um efetivo amor
fraterno”. Não escutar a voz do pobre significa colocar-se “à margem
da vontade do Pai”: é uma preferência divina que tem conseqüência na
vida de fé de todos os cristãos, chamados a ter “os mesmos sentimentos
de Jesus”.
Denuncia a idolatria da economia especulativa e das dinâmicas
que condicionam o desenvolvimento e produzem pobreza. Devemos
dizer um não à economia da exclusão e da iniqüidade.
168
Encontros Teológicos nº 67
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José Artulino Besen
A opção preferencial pelos pobres está geneticamente longe de
“qualquer ideologia, de qualquer intenção de utilizar os pobres a serviço
de interesses pessoais ou políticos”.
Entre os pobres, o papa inclui os indefesos, os nascituros, as
mulheres em situações difíceis onde o aborto parece ser solução a suas
profundas angústias.
Surgiram críticas ao Papa “comunista”, inimigo do capitalismo e
da iniciativa particular. Não procedem, pois Francisco segue fielmente
a Doutrina Social da Igreja, pouco conhecida na Europa e América do
Norte, mas estudada e seguida na América latina.
8) A vertigem da graça
Francisco convida a aventurar-se por terras desconhecidas, na
vertigem provocada por sermos arrebatados ao agir de Cristo Redentor
e de seu Espírito. Desde os tempos de Jesus, é o Espírito que faz os
Apóstolos saírem de si mesmos e os transforma em anunciadores das
maravilhas de Deus. O verdadeiro missionário, “que nunca deixa de ser
discípulo, sabe que Jesus caminha com ele, fala com ele, trabalha com
ele. Sente Jesus vivente em seu empenho missionário”.
“A missão não é um projeto empresarial, nem um espetáculo para
se contar quanta gente dele participou, graças à nossa propaganda”.
Uma Igreja privada da força do Espírito é mundanizada, fascinada
pelo sucesso, empenhada numa organização empresarial, cheia de estatísticas, projetos e avaliações, onde o principal beneficiário é a própria
organização eclesiástica, não o Senhor. Uma Igreja privada do sigilo do
Cristo encarnado, crucificado e ressuscitado, fecha-se num grupo de elite,
não busca os que estão longe, nem as multidões com sede de Cristo. É
corrupção imensa com aparência de bem. O caminho é a missão centrada
em Jesus Cristo e no empenho pelos pobres.
G – SÍNTESE E CONCLUSÃO
A evangelização é apresentada sob a ótica da alegria cristã, porque
o Evangelho é sempre um alegre anúncio. Reafirmação do primado do
perdão de Deus, perdão que não deve ser buscado por mérito, mas que basta
acolher como dom que Deus renova setenta vezes sete (cf. Mt 18,22).
Encontros Teológicos nº 67
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169
Evangelii Gaudium, Lumen Fidei: a Alegria do Evangelho é a Luz da Fé
O Papa não quer substituir-se aos episcopados das Igrejas no
discernimento dos problemas nem na indicação de suas soluções. Ponto
não costumeiro, mas significativo na sua Exortação, é o fato de que as
notas citam textos de algumas conferências episcopais. A voz do Papa
não substitui a dos bispos nem as anula.
A “conversão do papado” se insere no espaço da conversão exigida
de toda a Igreja: se o papa convida todos – bispos, presbíteros e leigos – o
apelo vale também para o papado no exercício do ministério petrino.
O ecumenismo, a busca da unidade dos cristãos é fruto também
de uma conversão ao Evangelho, não a imposição de uma forma histórica
do cristianismo católico. O Cardeal Ratzinger afirmava que as Igrejas
ortodoxas não deveriam aceitar uma forma de ministério petrino diferente
da exercitada no primeiro milênio. Ter a audácia de escutar o Evangelho
e a grande Tradição e não brigar para ver quem é o maior ou o melhor.
Francisco retoma o tema conciliar da hierarquia das verdades,
ocultado e silenciado nos últimos decênios. Convida a não nivelar as
verdades da fé, os ensinamentos da Igreja e a moral: reconhecer o que
é primário, fundamental, essencial, distinguindo o que é revestimento
cultural. Não basta a obsessão pela ortodoxia para ser conforme ao pensamento de Jesus Cristo, não basta defender as formulações e esquecer
de transmitir a substância. As expressões da fé devem ser plurais porque
“multicolorida é a sabedoria de Deus” (Ef 3,10).
O Papa denuncia os hipócritas, os cristãos que gostam de revestir
sua mundanidade disfarçada em atitude espiritual: são religiosíssimos
na aparência, gritam seu amor pela Igreja, e dizem também que para
afirmar a glória do Senhor eles também devem receber glória, pois são
seus representantes. Demonstram solicitude por tudo o que é formal,
mas não se preocupam com as ovelhas que lhes foram confiadas. Pensam ser solidários com a humanidade através de sua presença em ceias
e recepções, mergulham num ativismo empresarial cujo beneficiário não
é a Igreja dos fiéis, mas a instituição eclesiástica.
Entretanto, nesse clima primaveril, não se pode esquecer que
a Igreja, para ser fiel a seu Senhor, conhecerá sempre mais fadiga, sofrimento, divisões. A necessitas passionis da Igreja é conseqüência da
necessitas passionis de seu Senhor. A Igreja sempre passará pela tentação
da mundanidade, de ceder ao espírito do mundo, a tentação mundana
170
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
José Artulino Besen
de ser uma presença barulhenta, da vontade de contar pontos e de ser
contada, com atitude de grupo de pressão.
Sempre será difícil realizar uma “Igreja pobre, de pobres e para os
pobres”, que não conta com o apoio dos poderosos deste mundo.
O Papa necessita do apoio dos bispos, presbíteros e do povo para
essa reforma. Mas, não esqueçamos, o Papa e a Igreja serão sempre mais
escutados pelos que se reconhecem publicanos e pecadores, samaritanos
e estrangeiros.
Florianópolis, 17 de fevereiro de 2014.
Endereço do Autor:
Paróquia N. S. Aparecida
Rua Colômbia, 450
Procasa
88117-225 São José, SC
E-mail: [email protected]
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
171
Resumo: Após uma justificativa do seu artigo, o autor faz breve retrospectiva
dos 40 anos do Instituto Teológico, ITESC, especialmente dos dez anos de
processo para se conseguir seu credenciamento pelo MEC e sua transformação
em Faculdade Católica de Santa Catarina, FACASC, no final de 2011 e começo
de 2012. Comenta certos desafios da situação atual e propõe “possíveis ações”,
augurando que elas, e/ou outras, se tornem realidade.
Abstract: After some words justifying his article the author presents a retrospective
view of the 40 years of existence of the Theological Institute, ITESC. Special attention is drawn to the last ten tears involving the process within the administrative
and academic area in order to obtain the credentials for an official governmental
recognition of the theological institution by the Ministry of Education, MEC, and its
transformation into the Catholic School of Theology of Santa Catarina, FACSC,
at the end of 2011 and beginning of 2012. He makes some comments on the
challenges of the situation of today and proposes “possible initiatives” in a hopeful
wish that these and others as well may soon become reality.
FACASC – dois anos
Algumas notas reflexivas sobre a Faculdade
Católica de Santa Catarina
Pe. Edinei da Rosa Cândido*
*
Doutor em Teologia e Ciências Patrísticas pelo Institutum Patristicum Augustinianum
– Roma; Mestre em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC);
Professor de Patrologia, Latim e História da Igreja Antiga, da Faculdade Católica de
Santa Catarina (FACASC).
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014, p. 173-180.
FACASC – dois anos: algumas notas reflexivas
[Introdução]
Após ter atuado vários anos como professor do ITESC, tendo
acompanhado, de perto, o processo que resultou na criação da FACASC,
que entra para o seu terceiro ano de funcionamento, e estando à frente
da Comissão Própria de Avaliação – CPA, na qualidade de Presidente,
julguei oportuno externar ao público interessado: direção, corpo discente,
docente e técnico administrativo desta instituição, aos ilustres membros
responsáveis pela sua mantenedora (episcopado catarinense), Fundação
Dom Jaime de Barros Câmara, membros da Associação Paulo Bratti,
ex-alunos do ITESC, membros do Regional Sul IV em geral, leitores da
revista “Encontros Teológicos”, dentre outros, algumas reflexões, que,
segundo meu parecer pessoal, podem vir a contribuir para o andamento
presente e planejamento futuro desta nossa tão querida instituição religiosa de educação na área das Ciências Teológicas.
Entendo a utilidade da divulgação destas ideias, porque, num
certo sentido, este assunto é da alçada de todos esses destinatários especificados e ainda de outros possíveis, aqui não identificados, porque
envolve a presença da Igreja como instituição de ensino superior nesta
capital do Estado, porque considera o anseio da formação específica e
permanente, porque absorve alentados recursos financeiros, porque contempla a preciosa obra das vocações presbiterais in primis, mas também
religiosas e leigas.
[Retrospectiva]
São mais de quarenta anos de presença do ITESC – Instituto
Teológico de Santa Catarina, neste Estado de mesmo nome, iniciando,
neste 2014, o 42º. ano de atividades, para ser exato. É fruto do Concílio
Vaticano II: dele recebeu sua raiz fundacional e maior fonte de inspiração. É momento privilegiado de universalidade, para toda a Igreja, que
abre espaço para a particularidade da nossa Igreja local, e volta a sua
aplicação à Teologia neste Estado de Santa Catarina1.
O contato com essa história documentada do ITESC denuncia o
interesse, desde o seu nascimento, por uma legalização junto ao Ministé1
174
Citação da Aula inaugural, que proferi no dia 13 de fevereiro de 2012, na abertura
do 40º. Ano Acadêmico do ITESC. Para o texto integral, cf. Encontros Teológicos, 61
(2012), p. 163.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
Edinei da Rosa Cândido
rio da Educação e Cultura. Em tempos mais remotos, décadas de setenta
e oitenta, isso era praticamente impossível por causa das leis vigentes,
que não reconheciam a Teologia como curso de nível superior. Somente
na década de noventa verificaram-se maiores avanços na compreensão
nacional da natureza do curso de Teologia e sua valorização. Aos poucos, espaços foram sendo abertos até que, finalmente, o MEC abriu suas
portas para acolhê-la como passível de reconhecimento, malgrado o seu
caráter confessional. Desde então, várias instituições teológicas, uma
após a outra, vão se associando à formação superior nacional, integrando
o conjunto das IES – Instituições de Ensino Superior.
O processo no ITESC foi longo e complexo, ultrapassando uma
década de investimento e expectativa. Alguns momentos desse longo itinerário tornaram-se inesquecíveis, como a visita abortada da comissão de
Teologia do MEC, em 10 de abril de 2008. Foi necessário grande esforço
e espírito de superação para retomar o caminho, evitando os equívocos
cometidos e atendendo às sempre novas exigências. Finalmente, após
atrasos e delongas, no dia 30 de dezembro de 2011, o MEC credenciou
a Faculdade Católica de Santa Catarina – FACASC. Em 25 de janeiro
de 2012, veio a autorização para o funcionamento do bacharelado civil
em Teologia. Oficializava-se mais uma instituição católica de ensino em
Santa Catarina, em continuidade com uma renomada tradição na história
da educação católica neste Estado que, à sombra da Igreja, viu nascer
e se desenvolver tantas instituições similares. A FACASC, entretanto,
enriquecia esse belo conjunto mediante a peculiaridade do seu carisma:
Teologia.
Esse grande fato, entretanto, parece ter passado quase despercebido. Que o grande público e a mídia não lhe tenham dado a devida atenção,
é compreensível. Todavia, o modo insensível com que o ambiente interno
da Igreja local e estadual reagiu é questionador e sintomático. Dentre
tantas justificativas, uma delas poderia ser a maneira como alguns setores
eclesiais, locais e estaduais, apresentam-se distanciados e demonstram
até certa indiferença a todo o trabalho realizado no ITESC, que, visto
dessa ótica, tem realizado a sua trajetória de modo isolado. Essa sorte
parece ter sido dividida com essa filha recém nascida, a FACASC. Por
outro lado, a instituição necessita de maior sensibilidade e estratégia
em sua capacidade de se fazer notar (A última autoavaliação, no final
do ano passado, revelou um alto índice de descontentamento junto ao
corpo discente, docente e técnico-administrativo acerca da comunicação e
veiculação de notícias nesta instituição, tanto interna quanto externamenEncontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
175
FACASC – dois anos: algumas notas reflexivas
te!). Os vários meios de comunicação locais e estaduais de propriedade
e influência eclesiástica, veiculam poucas notícias desta casa.
Portanto, houve falhas na divulgação do projeto e nenhuma mobilização/ sensibilização entre entidades afins e instituições congêneres foi
feita. A Igreja de Santa Catarina, como já mencionado, tem sido um solo
fértil de bem sucedidas instituições religiosas educacionais, e a atualidade
permite desfrutar de uma situação privilegiada dessa presença. Entretanto
esse potencial não foi ativado em favor desta instituição nascente e, por
isso, frágil, necessitada de atenção, apoio, compromisso. Não se previu essa
possibilidade e não aconteceu essa ação. Faltaram projetos de parcerias,
colaborações, relações fraternas de grupos consaguíneos que se conhecem,
se querem bem e que, por isso, se ajudam. A Existência da Associação
Catarinense de Escolas Católicas (também em nível nacional) é algo
quase que ignorado na realidade FACASC. É claro que cada instituição
de ensino tem a sua característica, seu perfil, seu carisma natural, mas a
pertença comum à instituição católica é algo que não pode ser minimizado,
sobretudo quando se trata de viabilizar um projeto desse porte!
[Atualidades]
Em âmbito interno, a instituição tem feito grande investimento na
formação/capacitação de pessoal docente, ao menos na área da Teologia,
com especializações, mestrados e doutorados, inclusive no Exterior, de
longos anos e altos custos. Por outro lado, há dificuldade de estabelecer
um sistema mais autônomo financeiramente, mais promissor tecnicamente,
mais competente profissionalmente. Em consequência, a instituição carece
de dedicação exclusiva, elemento imprescindível de uma instituição de
nível superior, uma das marcas registradas das grandes instituições religiosas de ensino. Tenta-se suprir essa lacuna com professores e gestores
com outras tantas responsabilidades e funções. Esses, por sua vez, com
maior ou menor entusiasmo, dividem e até fragmentam seu tempo entre a
docência, o pastoreio, funções burocráticas da administração eclesiástica
etc. Com maior ou menor entusiasmo, às vezes, perfazem semanalmente
vários quilômetros de distância, para exercer o magistério superior, com
prejuízo para suas tantas funções. A estratégia é evidente: uma alternativa
para economizar, com professores mantidos por paróquias, seminários e
similares, e suprir a falta de mão de obra ministerial (as vocações ao ministério presbiteral não estão em alta!). As consequências, porém, fazem-se
notar. Além disso, a instituição tem dificuldade de estabelecer um plano
176
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
Edinei da Rosa Cândido
de carreira, que proporcione aos professores condições de trabalho em
suficiência para uma maior dedicação à docência. Assim, no reverso da
moeda está a necessidade de alguns professores se abrigarem nas paróquias
e seminários para sobrevivência.
Com isso, corre-se o risco de transformar cargos importantes na
estrutura da Faculdade num voluntariado, às vezes à mercê da simpatia/
antipatia do episcopado, dentre outros subjetivismos. Essa situação redunda na despreocupação de encontrar uma pessoa adequada, com um
perfil apropriado para assumir esse projeto – anseio de tantos – e levá-lo
adiante, com competência, disponibilidade de tempo e autonomia de
decisões. Consequentemente, o fantasma da improvisação não deixa
de pairar sobre a instituição. Todos desejam superar uma estrutura dita
‘caseira’ de funcionamento, galgando maior profissionalismo e eficiência,
mas não existem meios reais e, por vezes, disposições pessoais, para
efetivar essa tão almejada meta.
O episcopado catarinense, desde os fundadores do ITESC ao atual,
tem sido a peça principal na existência da instituição. Em relação aos
arcebispos metropolitanos das últimas décadas, Dom Afonso Niehues
gestou o ITESC com carinho e dedicação paternais, Dom Eusébio acalentou o sonho arrojado e não realizado de uma PUC em Florianópolis,
Dom Murilo o desejo modesto, mas concretizado, de uma Faculdade católica. Tudo isso, corroborados por outros membros do colégio episcopal
catarinense, responsável pela mantenedora da instituição, a Fundação
Dom Jaime de Barros Câmara. Em julho de 2009, esse colégio episcopal
fundou a Faculdade Católica de Santa Catarina – FACASC, tendo como
primeiro objetivo oferecer o curso de Bacharelado Civil em Teologia.
O que pensa o atual corpo episcopal catarinense acerca das
soluções para os problemas presentes e as projeções futuras da FACASC? O documento de Aparecida utiliza a expressão ‘pastoral de
manutenção’, para expressar uma certa estagnação de algumas estruturas de evangelização. Até que ponto pode-se aplicar essa máxima a
esta instituição? O momento anual de encontro com o episcopado é
efêmero e carece de maior preparação e articulação, correndo o risco
de diluir-se no lugar comum de muitas reuniões, algumas deliberações
e poucas realizações. Nesse sentido, estas linhas não deixam de ter
um caráter instigador e provocativo!
Finalizando esta parte da reflexão, não há como negar que a atualidade é preocupante. Aproxima-se o grande momento da visita do MEC
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
177
FACASC – dois anos: algumas notas reflexivas
para o reconhecimento do nosso Curso de Teologia. Embora as perspectivas sejam boas, é hora de se perguntar sobre as dificuldades presentes,
geradoras de insatisfação, e as perspectivas futuras desta instituição.
Algumas sombras concretas pairam neste horizonte: a chegada da PUC
do Paraná a Joinville, com um outro curso superior de Teologia, suscitando o interrogativo concreto acerca da permanência dos seminaristas
dessa diocese aqui em Florianópolis, na FACASC.
As perspectivas de mercado para a Teologia não são as melhores,
sobretudo com a diminuição das vocações ao presbiterato e o ainda exíguo
interesse dos leigos/as. Seria oportuno, por questões de mercado, começar
a pensar na mudança de turno do curso de Teologia, do matutino para o noturno? Ademais, o visível flerte da PUC do Paraná com nossos professores,
oferecendo melhores condições de trabalho, já cooptou três membros do
corpo docente da FACASC para seu quadro de pessoal, com maior dedicação
àquela instituição em detrimento desta (valeria a pena discutir a dinâmica
do ‘quem pode mais chora menos?!’). Com isso, alguns sinais de retração e
embargo entre corpo docente e direção, tornam-se perceptíveis.
[Possíveis ações]
Passando da reflexão à ação, entendo dever deixar registradas
algumas sugestões pessoais e coletivas que possam ser aplicadas. Não
têm, porém, a pretensão de serem únicas. São simplesmente algumas
dentre tantas:
Associação Paulo Bratti: Por ocasião das celebrações alusivas aos
quarenta anos do ITESC, foi fundada a associação Paulo Bratti, composta
de ex alunos. O objetivo é congregar periodicamenteum bom número
dentre os mais de 1.000 ex alunos do ITESC. Destaco que, desses, mais de
500 assumiram o ministério ordenado e constituem a base do atual clero
catarinense. Juntamente com os atuais alunos, deveriam formar um círculo
em torno desta instituição para reflexão, estudo etc. Esse órgão poderia reforçar núcleos diocesanos de associados, ex-alunos, para ações de interesse
comum. Uma delas deveria ser o planejamento de uma presença efetiva da
FACASC nos diversos territórios diocesanos do Regional Sul IV. Seriam
os próprios colegas de diocese a refletir a utilidade e necessidade de uma
sucursal/filial da Faculdade Católica em seu espaço de vida e trabalho,
com a finalidade de promover cursos de extensão e pósgraduação que
atendessem à demanda local. À medida que a instituição vai se firmando
no núcleo central de Florianópolis, outras representações devem ser via-
178
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
Edinei da Rosa Cândido
bilizadas por todo o Estado. Para tanto, o grande pressuposto deve ser o
interesse local. Em síntese, mais do que um grupo de cultivo de formação
permanente e celebrativo da fraternidade presbiteral, a Associação Paulo
Bratti pode vir a ser um órgão de divulgação da proposta e da missão da
FACASC [= promover o desenvolvimento e a excelência na qualificação e
no aperfeiçoamento de profissionais, habilitando-os a atender às demandas
do mercado e às necessidades da sociedade, com formação cristã e valores éticos de justiça e solidariedade, de promoção da vida e de inclusão
social, a fim de contribuir para o desenvolvimento sustentável regional e
nacional.] em várias partes deste Estado.
Grupo de intelectuais: Em abril de 2011, portanto poucos meses depois da fundação do reconhecimento/credenciamento, lancei junto à direção
da FACASC a proposta de simpósios de intelectuais cristãos. A sugestão foi
acolhida e três encontros chegaram a acontecer. Contudo, o projeto não foi
compreendido ou efetivado na sua ideia central: reunir intelectuais católicos
catarinenses que, tomando conhecimento da existência da FACASC, se
reconhecessem na proposta da Igreja, para discutir temas importantes, mas
também para conhecer e pensar, dentre outros, novos caminhos para esta
novel instituição católica de ensino superior. A ideia era mobilizar a força
leiga universitária pensante e motivá-la a unir forças em favor de ação e,
por que não, de expansão. Pense-se, por exemplo, nos tantos professores
universitários dispostos a assumir uma proposta mais efetiva nessa linha
acadêmica. Dentre outras dificuldades, essa iniciativa careceu de pessoas
com tempo e capacidade de se dedicar à proposta, e o resultado foi uma
atividade a mais, centralizada, na agenda semestral da instituição.
Curso de cuidadores de idosos: a consultoria de um especialista
da UFSC, na área de gestão, resultou na proposta de um curso de ‘cuidadores de idosos’, para atender a uma demanda crescente de pessoas
especializadas para assistência, companhia e tratamento de idosos. O
nível técnico do curso não exigiria tanto investimento de infraestrutura.
Nenhum passo, até o presente, foi dado nessa direção.
Saúde: Essa alusão leva a desembocar numa questão/reflexão muito
mais ampla e pertinente: trata-se do tema da Saúde, outra forte marca do
trabalho religioso. Com efeito, a presença da Igreja neste Estado é marcada
por uma intensa atividade, no passado, resultando num grande número de
instituições religiosas, no presente, hospitais e similares, tendo por carisma
o cuidado dos doentes e a promoção da vida. Seria muito oportuno efetivar
uma agremiação de entidades católicas de saúde em torno da FACASC
Encontros Teológicos nº 67
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FACASC – dois anos: algumas notas reflexivas
(possibilidade de convênios para cursos de capacitação na área teórica
especifica desse setor da saúde), inclusive dando abertura a uma nova
frente de trabalho, e até mesmo dando alguma expectativa para instituições religiosas que, nesse clima de escassez vocacional à vida consagrada
(religiosa e presbiteral), por vezes, encontram dificuldade de manter seus
quadros na direção dessas instituições. De novo, se faz necessário alguém
com afinidade profissional para efetivar um tal projeto!
Cursos de Extensão: é necessário uma avaliação corajosa dos
cursos de extensão, às segundas-feiras, para radiografar o seu real valor
e resultado para a instituição do ponto de vista, pastoral, participativo,
financeiro etc.
Novos cursos: é urgente discutir, decidir e preparar a viabilidade
para outros cursos, sobretudo superiores, (após pesquisa de mercado
unida à consulta eclesial, buscando uma síntese ponderada entre essas
duas hastes).
Representação diocesana: talvez a ação mais urgente e imediata,
certamente não a mais difícil, consistiria em nomear um responsável de
cada diocese, para pensar a presença na FACASC no seu território. Esta,
por sua vez, através do CONSUPE, criaria um grupo de apoio para reunir-se
com esse pessoal periodicamente para viabilizar um programa de metas.
[Conclusões?]
Estas breves notas não têm conclusão, porque os problemas, desafios e perspectivas estão inconclusos. A Igreja vive um tempo de reflexão e
abertura, em que, reconhecendo questões de importância capital, busca dar
respostas, chegar a conclusões e apresentar soluções. Este texto quis ser uma
espécie de instrumentum laboris à reunião dos Bispos com os professores,
integrando toda a pauta da visita do episcopado a esta faculdade. É possível
que, se alguma ação for realizada, a partir deste encontro com os bispos,
neste 2014, e de outros, num futuro próximo, se dê algum desfecho positivo
a tudo o que ora constatamos no presente e planejamos para o porvir.
Florianópolis, março de 2014.
E-mail do Autor:
[email protected]
180
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
Resumo: Palestra apresentada em Roma, num encontro da associação Carità
Política, como comentário a uma conferência do cardeal PAROLIN, atual Secretário de estado do Vaticano, proferida em 2008, com o título: “A diplomacia
como arte da esperança”. O comentador procurou conjugar a doutrina magisterial
recente da Esperança como virtude teologal com o sentido das esperanças humanas no contexto plural da sociedade internacional. Reflete sobre os seguintes
temas: 1. Um mundo complexo e fragmentário. 2. A diplomacia no contexto da
cultura pós-moderna. 3. A espiritualidade do trabalho diplomático.
Abstract: This is a speech delivered in Rome, during a meeting of the Carità
Politica association, as a brief comment to a conference delivered in 2008 by
Cardinal PAROLIN, now Secretary of State of the Vatican. That conference had
a similar title: “Diplomacy as an art of hope”. The commentator tries to conjugate
the recent magisterial doctrine about Hope as a theological virtue, with the meaning of the human hopes in the plural context of the international society. With
this aim, he reflects about: 1. A complex and fragmentary world. 2. Diplomacy in
the context of post-modern culture. 3. Spirituality of the diplomatic work.
Diplomacia y el arte de la esperanza
Daniel Ramada Piendibene*
*
O autor é Mestre em Sociologia e Ciências Políticas, Montevideo, Uruguay, 1971;
Mestre em teologia, Fribourg, Suíça, 1985; foi Professor no ITESC, Florianópolis, e
na PUC, Curitiba, 1988-1992; Diretor do ITESC, 1988-89; é Embaixador do Uruguay
junto à Santa Sé, residindo em Roma desde inícios de 2012.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014, p. 181-188.
Diplomacia y el arte de la esperanza
Caro Profesor Alfredo Luciani:
Es para mí un honor, y al mismo tiempo una alegría, responder
a vuestro pedido de hacer un breve comentario sobre la ponencia que
el flamante Secretario de Estado de la Santa Sede, S. E. Mons. Pietro
Parolin, realizara en noviembre de 2008, con ocasión de un encuentro de
Carità Politica, sobre la diplomacia y el arte de la esperanza.
Antes que nada se trata de una exposición que conjuga en forma
profunda y armónica la doctrina magisterial reciente sobre la esperanza
como virtud teologal, con el sentido de las esperanzas humanas en el
contexto plural de la sociedad internacional. Inscribe, además, la tarea
diplomática, en el marco teológico que funda la acción eclesial y al mismo
tiempo subraya los ejes que orientan la labor profesional de quienes la
ejercen desde una opción confesional cristiana.
Un mundo complejo y fragmentario
En continuidad con el texto recibido y como fruto de la reflexión
que motivó su lectura, quiero centrarme en la tarea del diplomático ante
el desafío de la llamada sociedad multipolar y en especial de la complejidad internacional en la fase de posmodernidad que sucedió a la Guerra
fría. La reflexión será breve, casi al límite de lo esquemático, dada la
pequeña dimensión asignada a los textos solicitados.
Gaudium et Spes enseñaba, hace casi cincuenta años, que “los
gozos y esperanzas, los dolores y las angustias los hombres de nuestro
tiempo, sobre todo de los pobres y de cuantos sufren, son a la vez gozos
y esperanzas, tristezas y angustias de los discípulos de Cristo.”1 Este
texto, mayor, del Concilio Vaticano II, leído, meditado y repetido casi
como una letanía por este “discípulo de Cristo”, sigue suscitando nuevas
reflexiones.2 Veamos algunas:
Para fundamentar que sí existe un espíritu del Concilio – o al menos existió y debería seguir siendo cultivado – subrayo con frecuencia a
182
1
GS, nº 1.
2
En un trabajo reciente, “El desafío epistémico de Gaudium et Spes”, he analizado
algunas de las consecuencias doctrinales que se siguen de la irrupción del paradigma
posmoderno en relación con el contexto cultural que rodeó a los padres conciliares
del Vaticano II. La perspectiva actual no sólo no cancela las afirmaciones textuales
del Concilio sino que exige, precisamente, una lectura que tome en cuenta su alcance
disciplinario en el plano epistémico.
Encontros Teológicos nº 67
Ano 29 / número 1 / 2014
Daniel Ramada Piendibene
colegas e interlocutores que el texto original del célebre Esquema XIII
comenzaba diciendo Gaudium et luctus.3 Esta formulación fue modificada
a posteriori para que el nombre de la Constitución reflejara el mensaje
de esperanza que movía a los Padres conciliares y que Pablo VI definió,
pocas horas después de su solemne promulgación, como una visión
deliberadamente optimista del hombre.4
Por otro lado, los hombres de este tiempo posmoderno, en cierto
modo, no viven en la misma sociedad de los hombres de aquel tiempo
entre los que, por razones generacionales, también yo me contaba en
el lejano 1965. “Nuestro tiempo” en las palabras del Concilio alude a
un mundo que, de alguna manera, ya no existe más. Sin embargo, “los
pobres y cuantos sufren” no sólo siguen existiendo, en realidad se han
multiplicado sobre la faz de la tierra.
En 1967 Herbert Marcuse reflexionaba sobre “El fin de la utopía”5
y en 1992 Francis Fukuyama nos anunciaba “El fin de la Historia”.6
Entre tanto Ernst Bloch7 y Karl Mannheim,8 desde sus tiempos, habían
interrogado a los hombres de aquellas generaciones sobre la relación
entre ideología, utopía y esperanza. La esperanza, como virtud teologal,
pasaba a desdoblarse en el terreno secular y político. Moltmann se sumó
a la reflexión desde el ángulo de la dogmática protestante9.
Sin embargo, terminada la guerra fría el mundo bipolar se fragmenta en multipolaridades que sumergen a la sociedad en una nueva
era, llamada global, en la que el método discursivo de la comunicación
escrita como eje principal de reproducción cultural y civilizatoria pasa a
ser desplazado por el mundo de las imágenes, un bombardeo icónico de
todo tipo de informaciones – no importa si verdaderas o falsas, pertinen3
Gaudium et luctus, spes et angor hominum huius temporis.
4
“Verum id est aperte fatendum, nostrum hoc Concilium, cum suum fecerit de homine
iudicium, magis in serena hac eius fronte quam in tristi contuenda esse versatum; in
quo quidem res omnes in optimam sane partem scienter esse interpretatum. […] ut
Concilium, non infaustis usum ominibus, sed nuntiis spei ac fiduciae verbis, huiusce
memoriae homines alloqueretur.” Pablo VI; Homilia ad Patres conciliares habita a
Summo Pontefice, missae concelebratione peragente, in ultima Œcumenicae Synodi
publica sessione (subrayado del texto: nuestro).
5
Marcuse, Herbert; Das Ende der Utopie, Berlín, 1967.
6
Fukuyama, Francis; The End of History and the Last Man, New York, 1992.
7
Bloch, Ernst; Geist der Utopie, Munich, 1919.
8
Mannheim, Karl; Ideologie und Utopie, Bonn, 1929
9
Moltmann, Jürgen; Theologie der Hoffnung, Untersuchungen zu Begründung und
zu den Konzequenzen einer christlichen Eschatologie, Munich, 1964.
Encontros Teológicos nº 67
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183
Diplomacia y el arte de la esperanza
tes o impertinentes, reales o adulteradas por programas informáticos de
procesamiento gráfico, convenientes o inconvenientes para públicos de
temprana edad – que llegan desde los más diversos ángulos y aparatos
electrónicos en “tiempo-real”.10 Se trata de una cultura, sincrónica, del
impacto sensorial directo en un puro presente. Tiempo real equivale a un
cúmulo de flashes y momentos sucesivos que no vienen de una memoria
ni dejan huellas más allá de su fugacidad. En realidad no dejan huellas
en la incorporación del conocimiento como proceso diacrónico, pero sí
dejan heridas que pueden ser profundas.
Carl Gustav Jung decía que la etimología es el camino que lleva
de la palabra al arquetipo. El método discursivo de incorporación del
conocimiento mediatizaba el impacto visual mediante el filtro de los
conceptos. El nivel profundo, arquetípico, quedaba protegido por un
itinerario epistémico donde la decodificación era mediatizada en términos
semánticos mediante el proceso lingüístico, oral y escrito. En cambio
en el aprendizaje icónico – que para los niños de este tiempo comienza
antes incluso de desarrollarse el lenguaje hablado – el mensaje visual y
auditivo impacta inmediata y directamente en el plano profundo, simbólico, arquetípico.
Finalmente, la multipolaridad posmoderna parece esconder cierta
mono-polaridad centralizada en el poder financiero. De hecho una simple
noticia virtual generada en un diminuto puñado de agencias evaluadoras
de riesgo – nuevamente: verdadera o falsa, transparente o camuflada,
consistente o manipulada a través de variables sobre o sub calificadas–
trae como consecuencia instantánea (“tiempo real”) la quiebra de bancos,
la caída del empleo en países o empresas, el crecimiento de la pobreza y
aún la miseria en las periferias reales del sistema social, que durará hasta
que los mismos centros consideren que es oportuno decretar o declarar
la finalización del ciclo. El fin de las utopías – que supongo irreversible
como proceso civilizatorio – trae la fragmentación y hasta la banalización
de las esperanzas.
10
184
Surge la pregunta: ¿Aquel tiempo conciliar de los “hombres de nuestro tiempo” no
era real? Quizás a la adulteración de las informaciones icónicas haya que agregarle
un adulterio lingüístico por corrupción del campo semántico.
Encontros Teológicos nº 67
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Daniel Ramada Piendibene
La diplomacia en el contexto de la cultura
posmoderna
Se acaba de enumerar algunos de los desafíos del momento (kairós)
que le toca vivir al diplomático en el mundo contemporáneo. Ahora bien
¿es posible ejercer la función de mediación y proyección hacia el acuerdo
de partes en un universo de interacción entre sujetos de derecho marcado
por la inestabilidad, el vértigo y hasta la fugacidad? Pienso que sí. Sin
embargo hay que descubrir el cómo.
El tiempo de la guerra fría, de la bipolaridad, dejó marcas y cicatrices en nuestro modo de vivir y de percibir la realidad social y política
que se reflejan en un tipo de cultura aún portadora de reflejos heredados
de la era bipolar. Es necesario superar este marco de incorporación de los
fenómenos y sanar las heridas que dejó la fase civilizatoria del desarrollo
mediante la guerra o la confrontación.
Lo más relevante – urgente e impostergable – es, a mi juicio, dejar
atrás como instrumento analítico un paradigma de confrontación donde
la alteridad es concebida en términos de choque de antinomias. Se trata
de una precepción, sincrónica, que opera sobre el siguiente mecanismo:
el éxito de una parte y su realización depende de la derrota, la postergación o la renuncia de otra parte o del resto del sistema. Más aún, puede
llegar a imaginar la supresión identitaria y hasta física del otro, sea en
el nivel personal sea en el colectivo, como presupuesto de desarrollo de
las sociedades.
Si observamos un poco más detenidamente el fenómeno, esta
convicción constituye mucho más un presupuesto paradigmático (por no
decir un prejuicio) que un dato de la realidad. Fomentar el bien común a
través de una cultura del encuentro pasa por desactivar en las sociedades
y en sus dirigentes o personeros esta convicción fundada en una óptica
obsoleta de percepción y convivencia.
Por suerte la capacidad de destrucción masiva, total, de las armas
nucleares, llevó a las sociedades a tomar consciencia que una guerra
mundial equivale a la destrucción inevitable de los contendientes. Sin
embargo, el fin de la guerra total no canceló el reflejo bélico. Identificar
“diferente” con “obstáculo” o “adversario” con “enemigo”, permanece
frecuentemente como premisa analítica. La aniquilación del otro pasó
a las guerras de “baja intensidad” y, con frecuencia, a la destrucción
– icónico-virtual – de la identidad de quienes se oponen a los poderes
Encontros Teológicos nº 67
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185
Diplomacia y el arte de la esperanza
monopólicos, sean éstos mediáticos, financieros o corporativos. Más
allá de juicios de valoración política, en general inconvenientes por su
potencial dimensión polémica, el diplomático puede comenzar su trabajo
mostrando la limitación de los marcos en el terreno analítico. Su tarea
crítica se debe orientar a los presupuestos que anteceden el diagnóstico
de situación.
El siguiente paso en su labor de artífice del encuentro, es mostrar la
deficiencia que implica la identificación a priori de alteridad con rivalidad
o enemistad. Que cada uno de los otros que nos rodean – sean personas,
sean naciones, culturas, sociedades o sujetos de derecho y organizaciones
jurídicas colectivas – constituyan entes diversos, diferentes en aspectos
variados y hasta profundos, no quiere decir que sean, ex-officio, obstáculos, adversarios o enemigos. El primer reflejo del diplomático ha de ser
buscar los ámbitos de coincidencia como punto de partida para establecer
una relación convergente.
Educar para la negociación responsable significa comprender que
no existen problemas insolubles. Existen problemas mal o deficientemente planteados, a veces, quizás en forma subrepticia o deliberada,
para disimular conflictos de intereses. Cuando un conflicto se presenta
bajo la apariencia de la insolubilidad, fuera de la confrontación de
antinomias excluyentes, lo que hay que revisar son las premisas que
estructuran su formato.
Otro terreno donde es necesario superar una percepción deficiente,
es el que funda el binomio consumo-satisfacción. El trabajo diplomático
pasa aquí por generar la consciencia de que la búsqueda, mediante el
consumo, de una satisfacción inmediata del impuso de posesión de un
objeto que estimula el plano subjetivo y arquetípico – análogo a la inmediatez de la circulación de impactos sensoriales visuales y sonoros en
tiempo real – debe considerarse una de las principales causas del actual
desequilibrio ambiental.
Un mecanismo económico de funcionamiento de la sociedad
basado en la producción de bienes orientados a satisfacer por fugaces
instantes impulsos primarios – incluso inducidos y fomentados mediante
la imagen – pero destinados a su inmediato descarte, exige a la naturaleza un esfuerzo incompatible con los tiempos de reconstitución de los
equilibrios biológicos. Paradójicamente, aún en su propia dinámica, el
binomio consumo-descarte termina generando insatisfacción espiritual
por agotamiento o saturación del estímulo psicológico. Nadie ignora,
186
Encontros Teológicos nº 67
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Daniel Ramada Piendibene
además, que por esta vía entran otros mecanismos substitutivos como
el alcohol, el juego, la drogadicción, etc.
En este aspecto, la cuantificación estadística de ingreso y consumo
como indicadores básicos de desarrollo puede ser revisada. El diplomático
debe convertirse en agente de persuasión entre sus pares y en el nivel de
los organismos multilaterales de negociación mostrando la inconveniencia, para todos, de agredir la naturaleza como mecanismo de inclusión
social mediante la movilidad vertical por posesión de objetos destinados
rápidamente al olvido, el descarte o la destrucción.
Por último una breve mención a la espiritualidad del trabajo diplomático.
Una práctica que deje atrás el reflejo de la destrucción o supresión
de la diversidad debe encontrar el camino para fundar su propuesta de
encuentro en un nivel de raíces, a la vez, antropológicas y teológicas. Sin
confundir ni separar. El aporte, en este caso cristiano, al trabajo diplomático en este plano pasa, tanto por el conocimiento de la propia identidad, como por el respeto de la ajena. Llegar a ser artífice del encuentro
significa ascesis. Supone cultivar el desprendimiento o “indiferencia”
en relación a los medios. Saber distinguir entre triunfo y servicio, entre
éxitos y resultados, entre principios abstractos y situaciones humanas,
entre el bien común y el sufrimiento empírico. El diplomático cristiano
se alimenta de la permanente contemplación en la acción que busca
en el compromiso histórico – irrenunciable pero frágil, provisorio y
pasajero – los signos de una Alianza sub specie æternitatis. En pocas
palabras: vocación y respuesta, discernimiento y disponibilidad, firmeza
y humildad, renuncia a su propia gloria en busca de la mayor gloria de
su Creador y Señor que lo llama a hacer visible y audible el dolor de los
que no tienen voz.
Todos los seres humanos tenemos aspectos, opiniones y valores
en común. Así sean mínimos, ellos constituyen la única base sólida para
encarar el camino del encuentro. En realidad la experiencia muestra que
las áreas de convergencia son mayores de lo que estamos acostumbrados
a suponer. Allí hay siempre un punto de partida practicable.
Dada la brevedad exigida, baste decir que para cultivar la esperanza como instrumento del arte diplomática es necesario educarse en
la percepción diacrónica de la realidad que nos rodea recuperando en la
dimensión colectiva del imaginario social, una visión a la vez totalizadora
Encontros Teológicos nº 67
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Diplomacia y el arte de la esperanza
y plural. En el mundo actual, secularizado, fragmentario, diverso y global,
éste puede ser un camino viable para desarrollar, mediante el ejercicio
de una auténtica actividad diplomática, la cultura del encuentro. De ello
debemos ocuparnos, también, como formadores de futuros colegas.
Roma 22 de noviembre de 2013
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00197 ROMA, Italia
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Recensões
BRENNER, Michael. Breve História dos Judeus. Tradução Marcelo
Brandão Cipolla. São Paulo: Martins Fontes, 2013. pp. 375.
Armando Rafael Castro Acquaroli*
Michael Brenner, autor de diversas publicações, desta vez chega
ao Brasil por meio de uma de suas preciosidades: Breve história dos
judeus. Publicada originalmente na Alemanha, em 2008, com o título
Kleine Jüdische Geschichte. Traduzido do alemão para o inglês e deste
para nosso idioma, aparentemente não perdeu sua riqueza.
O autor, Michael Brenner, estudou em Heidelberg e em Jerusalém,
sendo Doutor em História Judaica pela Columbia University. Atualmente
é professor de história e cultura judaicas na Universidade de Munique,
presidente do Centro de Estudos Científicos do Instituto Leo Baeck, na
Alemanha, e membro do Comitê de Orientação Acadêmica do Museu
Judaico de Berlim.
O repto a que se propõe não é fácil, “pois praticamente todos os
povos da Terra não só já ouviram falar do povo judeu, como também
têm uma opinião formada sobre ele” (p. XXX – Prefácio). Numa escolha
metodológica bastante acertada, inicia cada um dos 20 capítulos contando
algum deslocamento. Isso devido ao caráter predominantemente errante
da história dos judeus. Interessante notar, ainda, as diversas ilustrações
que aparecem ao longo do livro, extraídas dos mais famosos artistas
plásticos como Rembrandt até os mais desconhecidos judeus, mesmo que
com grande talento. Essa é uma estratégia herdada da tradição oral.
Vale destacar o prefácio à edição brasileira, feita por dois historiadores muito competentes. Souberam apresentar (pp. XV-XXVIII) em
brevíssimas palavras dados históricos, estatísticos, culturais e religiosos
que foram marcantes nos imigrantes judeus chegados ao Brasil.
Além disso, a obra possui uma boa lista de sugestões de leitura,
elencadas no final (pp. 356-361), o que torna seu discurso plausível e
*
O recensor é graduando em Teologia pelo ITESC, Florianópolis, SC.
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Recensões
sério do ponto de vista científico. Ainda que não tenha sido assinalada
pelo autor, é patente sua opção por não fazer citações e notas de rodapé.
Devido a esse fato, o texto é muito leve e de agradável leitura. Isso ainda
é enriquecido com um apêndice (pp. 354-355) no qual constam dados
numéricos de acordo com o período e a localização em que mais se
concentraram os judeus nos últimos séculos. Os demais dados constam
esparsos no livro.
Nos dois primeiros capítulos (pp. 1-28) há um destaque para a
formação de Israel na perspectiva bíblica mítica, na qual Abraão, seguindo o “Lech-lechá (‘sai’)” (p.1) vai em direção ao desconhecido,
seguindo o Deus que a ele se revelara, abandonando os deuses de seus
pais. Outrossim, aparece a perspectiva mais crítica, passando pela tese
dos “habiru” (p.11) até a formação do monoteísmo que se consolida
concretamente somente no Exílio e Pós-Exílio.
E com a volta do Exílio na Babilônia configura-se uma nova autoimagem, segundo a qual os israelitas se tornam os judeus, em referência
ao antigo reino davídico. Desse modo, os restos de uma antiga elite que
voltava “ostentando os sinais de uma comunidade de sangue, tomaram
forma como novo Israel” (p. 21). É importante ainda recordar os profetas, cuja mensagem tinha um caráter sobretudo social. Muito bela é a
imagem de Is 2,4 “das espadas farão relhas de arado”, artisticamente
expressa em uma escultura que se encontra nos jardins do edifício da
ONU, em New York e que, portanto “ultrapassa os territórios judeus, e
serve como símbolo universal da paz mundial” (p. 23).
Nos capítulos 3, 4 e 5 (pp. 29-64) vemos traços da “influência da
cultura helenística na cultura judaica da época do Segundo Templo” (p.
34), uma das quais foi a tradução da LXX. Vale destacar a tentativa de
formação do estado judeu no levante dos Macabeus. Seu êxito, porém,
é contestável, visto que gerou menos união e mais guerra civil entre
os que queriam a assimilação com os gregos e os que eram contra. No
entanto, apesar das grandes tribulações pelas quais passou, o Templo de
Jerusalém resistiu por meio milênio, até a destruição pelos romanos em
70. Nesse período estima-se que a “população total da Judeia reduziu-se
em cerca de um terço” (p. 49).
A diáspora, a partir de então, se legitima. Sob a lenda segundo a
qual Yohanan Ben Zakai teria escapado de Jerusalém em um esquife,
e convocado uma assembleia, nasce a Academia de Jâmnia. Nos próximos três séculos escreve-se, na chamada Tradição Oral, a Mixná e a
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Guemará, que juntos formam o Talmude. Aqui talvez tenha havido um
erro de tradução, pois o autor diz que “a Guemará também é chamada
de Talmude” (p. 52), o que não é exato. Não se pode esquecer do papel
fundante de outro judeu, Jesus, que, devido às controvérsias com os
cristãos, é um personagem que “não ocupa lugar significativo na consciência dos judeus posteriores” (p. 58).
Nos próximos três capítulos (pp. 65-110) passa-se pelas hordas
muçulmanas e as dificuldades, sobretudo econômicas, impostas aos que
não aderiam à religião oficial. No entanto, em Medina e outros lugares
havia um profundo respeito pelas tradições judaicas, inclusive com a veneração do profeta Ezequiel, a cujo túmulo se peregrinava (cf. p.72).
Chegando à Espanha, os judeus alcançaram projeção em certos
ambientes. Diz-se que, mudando-se para Córdoba, Rabi Moisés Henoc
começou a estudar com outro mestre. Este, “ao ouvir as doutas observações de seu novo aluno (...), renunciou imediatamente ao cargo
e indicou o Rabi Moisés como novo rabino chefe e juiz da cidade”
(p. 79). Temos nesse período a “Era de Ouro”, na qual sobressaem-se
grandes nomes como Maimônides, para quem “apenas o estudo da filosofia pode elucidar o sentido profundo do texto bíblico” (p. 86). Com
o avanço em direção à Alemanha, despontam dois grandes grupos, a
saber, os Sefaradim (na Península Ibérica) e os Azquenazim (na parte
germânica). Mas, independente de suas diferenças, durante as cruzadas
eram atacados ambos os grupos, de modo que muitos viam como única
solução a conversão ao cristianismo.
Na arte, uma figura significativa é aquela na qual a Igreja Católica
é apresentada de maneira triunfante sob a imagem de uma mulher. Em
contraste, a sinagoga (também uma mulher) é vendada, “representando
a cegueira à mensagem cristã” (p. 97), tendo as tábuas da Lei caídas.
Nessa época, surge a terrível lenda segundo a qual os judeus teriam usado
sacrifícios humanos em seus rituais, o que os tornava abomináveis. Essa
calúnia, acompanhada da pecha do deicídio, perdurou por muitos séculos,
a do deicídio até poucos anos atrás.
Nos capítulos 9 a 12 (pp.109-190) vamos de Lisboa, passando
por Roma, e Polônia até Berlim, num longo caminho de humilhações
e recomeços. Em Portugal, diferente da Espanha, que os perseguiu na
Inquisição, os judeus gozavam de certa condescendência do rei, porque
seriam importantes para o comércio do país. Ainda assim, representavam
um “grave perigo” como “cristãos novos” que se convertiam, mas manEncontros Teológicos nº 67
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tinham muitas de suas práticas antigas. “Ao longo de várias gerações,
a maioria adotou de fato a religião cristã” (p. 113).
Já na Itália, com a criação dos guetos, a política de segregação
não funcionou, visto que os judeus e os cristãos participaram juntos
na Renascença, “contribuindo com suas conquistas” (p. 123). Sob os
auspícios de movimentos messiânicos nos séculos XVI e XVII surgiu
também um “novo sistema de pensamento místico, a Cabala Luriânica”
(p. 133). Já na Polônia, a acolhida foi muito melhor, de modo que, no
testemunho de um judeu erudito da época: “Neste país o ódio contra
os judeus não é tão furioso quanto na Alemanha. Que tudo permaneça
assim até a chegada do Messias” (p. 140). Com isso se deduz a situação
na Alemanha. Dali é interessante destacar Mendelssohn, na primeira
metade do século XIX, cujo contributo no diálogo é vivaz. Bela é sua
expressão na qual o judaísmo é visto “não como uma religião revelada,
mas como uma legislação revelada” (p. 168).
Nos próximos dois capítulos (pp. 173-204) temos a saída dos guetos em direção à sociedade civil. Muitos aderiam ao batismo para usufruir
de seus privilégios, visto que “era uma porta de entrada para a cultura
europeia” (p. 180). Destacam-se algumas inovações como a introdução
do órgão na sinagoga, em 1810, na Alemanha. Isso era inconcebível em
um culto tradicional, devido ao sofrimento pela destruição do Templo, o
que excluía a música instrumental na sinagoga; também por ser a cópia
de um costume cristão; e porque não poderia ser tocado no Shabat, visto
ser “uma forma de trabalho” (cf. p. 184). Além disso, nos EUA algumas
mudanças foram implementadas como resposta à apatia religiosa, com
uma nova autoconfiança judaico americana, como se exprime Gustav
Poznanski: “Esta sinagoga é nosso templo; esta cidade, nossa Jerusalém; esta terra feliz, nossa Palestina” (p. 196). Isso veio acompanhado
de uma reforma hermenêutica que chegou a dizer que somente as leis
morais da Bíblia tornaram-se obrigatórias. “As leis alimentares e as
prescrições relativas à vestimenta já não eram vinculantes” (p. 199);
“não se deveria esperar mais o retorno a Sião, pois a era moderna já
promovera a realização dos ideais messiânicos” (p. 199).
Nos capítulos 15 a 18 (pp. 205-290) parte-se do shtetl, passando
pelo Lower East Side, por Budapeste e Romênia. Sob o domínio dos czares e a forte influência da Igreja Ortodoxa, havia o problema do serviço
militar que se estendia muito, podendo culminar em até 25 anos. Desse
modo, “um grande número de meninos assim recrutados – cerca de 50
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mil” (p. 208) se converteram do judaísmo à Ortodoxia Cristã. Entre os
russos também surgiram os “pogroms”, cuja violência derivava do fato
de verem os judeus como um “câncer social” (p. 219). Isso deu margem
às teorias de conspiração, como o “Protocolo dos Sábios de Sião”, mais
tarde traduzido em muitas línguas e “divulgado em inglês pelo fabricante
de carros Henry Ford” (p. 221).
Sobre a chegada no Lower East Side, em Nova York, é bela a
resposta à sua própria pergunta, feita por Anzia Yezierska: “Onde está a
terra dourada dos meus sonhos?”. Ela diz “Todos nós saímos em busca
da América. E, na própria busca, nós a criamos. A qualidade de nossa
busca fará a qualidade da América que criarmos” (p. 231). Além disso,
Brenner, após comentar mais tragédias na Hungria, passa a Herzl, para
o qual “o que unia todos os judeus era sua ancestralidade comum, sua
história e o fato de serem rejeitados pela sociedade ao redor” (p. 240).
Com ele, surge o Primeiro Congresso Sionista em Munique.
Já nas ruas das cidades Iranianas, os judeus “eram insultados,
cuspidos e às vezes espancados. Não podiam sair de casa quando chovia,
pois temia-se que sua impureza fosse carregada pela água e maculasse
os muçulmanos” (p. 250). No entanto, registram-se alguns casos de
acolhida pacífica naquele país. É interessante notar que, segundo o autor,
os judeus não eram os únicos a sofrer intensa pressão: “os ucraínos na
Polônia, os húngaros na Romênia, os alemães na Tchecoslováquia –
todos eles viviam como minorias em Estados nacionais dominados por
outra maioria étnica” (p. 271).
Após a Primeira Guerra Mundial, a situação dos judeus melhorou um pouco. Tiveram relevante papel na vida cultural europeia: basta
pensar, na literatura, em Franz Kafka; na música, Arnold Schönberg; na
direção teatral, em Max Reinhardt; na arquitetura, em Erich Mendelssohn; ou, ainda, em Albert Einstein e Sigmund Freud. Com Martin Buber,
foi criada a noção de renascença judaica, o que fez “muitos judeus de
famílias assimiladas tomarem nova consciência de seu judaísmo” (p.
279). Outrossim, as comunidades judaicas se reconfiguraram tornando-se
“Volksgemeiden (comunidades étnicas)” (p.281).
No capítulo 19 (pp. 291-316) trata-se da Shoah, o terrível massacre
de Auschwitz. Sob o canto de meninas judias fadadas à morte cruenta,
milhões de prisioneiros entravam nesse campo de concentração para
nunca mais sair. Não obstante, a Alemanha não foi o único país a usar
leis anti-semitas no período entreguerras. Isso fora feito também pela
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Romênia, que cassou a cidadania dos judeus. E na Hungria e Polônia
restringiu-se seu acesso à universidade. Nomes como Einstein e Husserl
foram inferiorizados devido à sua raça.
E, segundo a visão do autor, bastante permeada de clichês, “a
maior decepção foi causada pelas Igrejas” (p. 295). A Igreja Confessional
apoiava somente os “cristãos não arianos, ou seja, os judeus convertidos
ao cristianismo e seus filhos.” (p. 296) E, ainda que a maioria dos católicos
rejeitasse Hitler, em 1933 “o Vaticano celebrou uma concordata com a
Alemanha hitlerista” (p. 296). Além disso, há destaque para a Kristallnacht, que foi, “sem meias-palavras, a noite do Pogrom do Reich” (p. 301).
Após um processo de constante perseguição, não se sabia onde “depositar” tantos prisioneiros. A solução, sob a justificativa de Himmler, foi o
genocídio, por necessidade biológica, pois, segundo ele, “não queremos
adoecer e morrer do mesmo bacilo que exterminamos” (p. 308). Mesmo
com as inúmeras tentativas de salvar próximos e amigos, não foi possível
evitar a morte de “5,6 a 6,5 milhões de judeus” (p. 315).
No último capítulo (pp. 312-352), vemos o mundo judaico após o
Holocausto. Mesmo com o término da Guerra, os maus-tratos continuaram. Em 1946, por exemplo, os judeus que ousaram retornar à Polônia
sofreram violentos ataques. Assim, o desejo de tornar à Palestina pouco
a pouco foi se tornando mais concreto, até que em 1947 aceitou-se a
criação de um estado judeu. Porém, para que isso acontecesse, “quase
setecentos e cinquenta mil palestinos tiveram de fugir de suas casas no
decorrer da guerra” (p. 321), declarada pelos estados árabes da região.
Em 1950 aprovou-se uma lei em que todos os judeus têm direito à cidadania israelense.
Já na América Latina, o “antissemitismo desempenhava papel de
destaque nos círculos de direita que rodeavam os governos militares” (p.
334). Enquanto isso, nos EUA, a influência dos judeus e sua simbólica
no cinema foi marcante. Alguns exemplos são o Super-Homem, cujo
nome originário é Kal-El (o Deus que é Luz); ou ainda o Sr. Spock, cuja
saudação lembra a benção sacerdotal judaica (cf. p. 337). E no que tange
à religião no dito país, a mudança mais importante foi o lugar das mulheres na sinagoga, que passaram a desempenhar papel mais ativo: “eram
computadas no estabelecimento do mynian (o quórum de dez adultos
necessários para a oração)” (p. 340). Outrossim, houve a ordenação de
rabinas; a aceitação de gays e lésbicas como rabinos, e o Baith Mitzvá,
como iniciação das mulheres às práticas judaicas.
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À guisa de conclusão, o autor ressalta a divulgação que foi feita de
filmes, documentários e memoriais, que “ajudam a manter os horrores
do passado diante da consciência do grande público (...). Não Obstante,
ainda há quem negue o Holocausto”! (p. 350). Numa feliz frase de síntese, assim Brenner conclui sua obra: “Não podemos saber o que o futuro
reserva para os judeus do século XXI, mas é certo que a história deles
continuará fascinando a humanidade por muitas gerações” (p. 352).
Quanto à revisão, o texto é excelente, tanto do ponto de vista da
tradução, quanto da gramática. Numa próxima edição, precisaria apenas
substituir, na p. 318, o termo “tribulação” por “tripulação”.
Certamente, aos que estão iniciando a caminhada de estudos judaicos, esse livro serve como prolegômeno, visto que, ao apresentar as
diversas fases da história, sempre sinteticamente, ficamos com vontade
de aprofundar o que foi abordado. E encontramos o suporte para uma
pesquisa mais desenvolvida nas referências que o autor nos oferece. Não
podemos esquecer que é uma “Breve” história e não um grande tratado,
mesmo que seu conteúdo seja rico.
E-mail do Recensor:
[email protected]
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Dois Cânticos Sacros em Múltiplos Tons
REITZ, Raulino, Paróquia de Sombrio, 1948 e BESEN, José
Artulino, Nossa Senhora do Desterro, 1713-2013
Celestino Sachet*
Em 31 de maio de 1948, a paróquia de Sombrio, sob a responsabilidade do vigário João Reitz, festejou o décimo aniversário de criação.
Dentro das solenidades programadas para o evento, João Reitz solicitou a seu irmão, Raulino Reitz, ex-coadjutor da paróquia e professor
de Ciências Naturais no Seminário Arquidiocesano de Azambuja, que
organizasse um livro sobre os dez anos de atuação da festejada entidade regional. E a historiografia catarinense de caráter religioso abriu
importante espaço com a obra Paróquia de Sombrio. Ensaio de uma
monografia paroquial.
Numa das primeiras páginas do texto, o Autor declara ter organizado um trabalho estatístico-descritivo sobre a terra, o povo e a realidade
religioso-social. No decorrer dos tempos, a obra tornou-se fonte de pesquisa histórica tendo como centro a fé e a devoção do povo catarinense
do Sul do Estado.
No desempenho da tarefa fraterna, Raulino Reitz costura em ensaio
de quase duas centenas de páginas que, à primeira vista, pode parecer
muito espaço para a vida de uma paróquia interiorana. Ocorre que das
cinco partes do texto, apenas a primeira (p.6-93) está debruçada sobre a
Evolução religiosa de Sombrio: as outras quatro partes – Situação física,
Situação econômica, Situação social e Situação administrativa –, dançam
temas particulares um tanto afastados do altar ou das tarefas evangelizadoras, como é o caso dos subcapítulos: Orografia, Monumentos naturais,
Hidrografia, Clima, Riquezas minerais, Riquezas vegetais, Fauna.
Temas particulares um tanto afastados do centro? Não é bem assim,
como se verá um pouco mais à frente.
Passados 65 anos desde a edição do Paróquia de Sombrio, o padre
José Artulino Besen, professor de História da Igreja no Instituto Teológico
*
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O recensor é Membro da ADL, Academia Catarinense de Letras e do IHGSC, Instituto
Histórico e Geográfico de Santa Catarina.
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de Santa Catarina, e com vários livros publicados sobre a especialidade,
comparece na atual historiografia catarinense com a História de Nossa
Senhora do Desterro. Na Ilha de Santa Catarina. 1713-2013.
Na abertura do trabalho, o Autor avisa que, para não reduzir a
pequena história de uma paróquia da Ilha de Santa Catarina ao edifício
histórico da Catedral, o trabalho está centrado nas pessoas que deram
corpo à realidade ilhoa: índios, navegadores, portugueses, bandeirantes,
negros, açorianos, imigrantes, hoje escondidos no DNA de cada morador
da Ilha de Santa Catarina. (p. 15).
Como método de trabalho para a obra, ficou decidido partir do
geral para o particular e articular o particular com o geral, cabendo ao
leitor a interpretação dos fatos narrados.
Prefiro que os documentos falem e que a partir deles sejam sugeridas
reflexões econômicas, sociais, psicológicas, culturais e antropológicas. (p. 15).
Essa fidelidade ao documento levou o Autor a meter-se em temas
desconfortáveis para a historiografia paroquial da Ilha. Em 1776, o governador Francisco de Sousa Menezes deixou escrito seu ponto de vista
sobre o comportamento nada religioso de alguns padres da Ilha: um deles
é ignorantíssimo, desconfiadíssimo e sumamente vaidoso; um outro, é
soberbo, sacrílego e blasfemo; outro mais, um selvagem quadrado. Mas,
justiça se faça ao clero daquela época, havia também perfeitíssimos clérigos. (p. 77-78). Besen se apressa em esclarecer que não tem claro se a
opinião de Sua Excelência é fruto da realidade ou de preconceito!
A fim de possibilitar a mais ampla gama de reflexões particulares
do eventual leitor, José Besen amarra a obra de 422 páginas em 12 capítulos e mais de uma centena de subcapítulos. Dentro dessa alargada linha
de temas, percebe-se forte parentesco entre os nove primeiros, que pregam
as particularidades históricas. Só os três seguintes estão enredados com
os focos necessários para reconhecer a paróquia em estudos: a Catedral
metropolitana, os vigários e os coadjutores. E, nessa área, a constatação
do pesquisador é trágica: A Ilha de Santa Catarina viveu mais de 200
anos sem estrutura paroquial, sem vigário residente. (p. 210).
Tanto a obra de José Besen sobre a paróquia da Capital, quanto a
de Raulino Reitz sobre a paróquia de Sombrio, ambas estão organizadas
em torno do ponto de vista de que a História não é um único aconteciEncontros Teológicos nº 67
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mento já acontecido mas submerso no passado à espera de ressurreição:
a História é uma soma de acontecimentos acontecentes pela atualidade
do discurso do analista, preso a um amplo número de áreas afins, áreas
trazidas ao espetáculo da luz que o leitor tanto deseja.
Sem a coragem de entrar pelos meandros das diferenciadas
correntes sobre o conceito da História que atormentaram a Europa
esbaforida ao longo do século passado – remember 1914 e 1939 – sob
o chicote da autoridade francesa da revista Annales ou da designação
Nova História, é de admitir, hoje ainda, que o fato histórico para ser
trazido à gostosa ressurreição da contemporaneidade deve abarcar e
abraçar diferenciadas e, até, antagônicas áreas do conhecimento, tantas
vezes quanto o maestro julgar necessárias para atender ao refinado
gosto do ouvinte.
José Besen, com alargados olhos indagadores, levanta a biografia
– atual e escondida –, da pauta de um espetáculo tricentenário para captar
uma larga fatia da história do catolicismo catarinense.
Preocupado com a pequena história numa pequena ilha brasileira, o Autor esclarece que a obra está soldada em nove diferentes pautas
correndo em paralelo, como o miolo de uma história caminhante.
Para curtir esses alargados tons no seu conjunto, há necessidade de
ouvir as pautas específicas de outros temas: A paróquia e seu povo;
Nossa Senhora do Desterro e os açorianos; A Igreja do regime do Padroado, – o Rei reinando, – e como! nos assuntos internos da Igreja;
liturgia, catolicismo popular e irmandades; o negro; a Beata Joana de
Gusmão e o Irmão Joaquim; obras de misericórdia e obras sociais;
colégios, escolas e jornais; padres em Nossa Senhora do Desterro e
no Continente. Só nos capítulos X, XI e XII, e respectivos subtemas,
o texto se debruça sobre a pauta central do cântico: A matriz Catedral,
vigário e coadjutor. Cada capítulo solidifica a microhistória de um
universo particularizado.
Sobre a Catedral-edifício, José Artulino Besen pisa fundo na defesa
da finalidade religiosa do templo:
No caso da Catedral, um aspecto não pode ser ignorado: a igreja matriz
Nossa Senhora do Desterro é um templo religioso vivo, não um museu,
é casa de oração e de celebração que pertence ao povo que a edificou e
a frequenta, e o espaço sagrado de uma comunidade de fé. (p. 247).
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Entramos aqui na pauta de um cântico do futuro: não me venham
com vozes destoantes: as múltiplas vozes de 2013 não podem desafinar
amanhã. Os que estiverem presentes a esse novo espetáculo estão dispostos a comparar as novas pautas, para que elas sejam reconhecidas
como a sequência autêntica dos tons que se fizeram ouvir durante 300
anos, de 1713 a 2013.
Endereço do Recensor:
Rua Alves de Brito, 447/801
88015-440 Fpolis, SC
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Feller, Vitor Galdino (org.), A nobre simplicidade da Liturgia,
Florianópolis, FACASC, Faculdade Católica de Santa Catarina,
2014, Nova Letra Gráfica e Editora, 407 p.
Ney Brasil Pereira*
Do Prefácio, assinado pelo Organizador, na p. 11: “A nobre simplicidade da Liturgia e o respeito pela Tradição da Igreja foram o mote
do magistério teológico, liúrgico e pastoral do Pe. Valter Maurício
Goedert. Professor de diversas disciplinas da área no ITESC e, depois,
na FACASC; professor convidado do Studium Theologicum de Curitiba;
escritor de livros e artigos sobre temas litúrgicos em geral, sobre cada um
dos sacramentos, sobre o diaconato permanente; coordenador, há mais
de trinta anos, da Escola Diaconal São Francisco de Assis, que formou
mais de 230 diáconos permanentes para a Arquidiocese de Florianópolis,
para outras dioceses do Estado catarinense e do Sul do país; assessor
convidado em diversos encontros nacionais e internacionais para tratar
da formação e da organização do diaconato permanente; coordenador,
durante muitos anos, do Ministério extraordinário da distribuição da
Sagrada Comunhão na Arquidiocese; poeta do cotidiano, que canta os
louvores do Senhor nas pequenas coisas... em toda a sua obra, Pe. Valter
tem sido um homem nobre e simples.
Nobre e simples é este livro-homenagem que lhe oferecem o
ITESC e a FACASC, para comemorar seus 70 anos, metade dos quais
dedicados ao magistério teológico nessas instituições formadoras do
presbitério, do diacônio e do laicato catarinenses. Nobre, porque contamos com artigos de alto teor de profundidade e sabedoria, elaborados por
especialistas na área da liturgia, por colegas professores e por ex-alunos.
Simples, porque se trata de reflexões que concernem ao cotidiano da liturgia, ao modo como se celebram os sacramentos da fé, como se articulam
e organizam os ministérios eclesiais, sobretudo o diaconato, ao qual Pe.
Valter tem dedicado boa parte de sua agenda sacerdotal. A Associação
dos Liturgistas do Brasil, ASLI, também presta sua homenagem ao Pe.
Valter, um de seus sócios fundadores” (p. 12).
*
200
O recensor é Mestre em Ciências Bíblicas, professor na FACASC, Florianópolis e,
como músico, regente do Coral da Catedral e membro da Equipe de reflexão de
Música Litúrgica da CNBB.
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Recensões
O livro começa com a “Carta a um amigo que é sacerdote, nos
seus 70 anos”, que o prof. Carlos Martendal escreve a Pe. Valter. Com a
entrevista biográfica intitulada “Eis-me aqui, envia-me. Conversando com
Pe. Valter”, o Prof. Pe. José Artulino Besen leva o homenageado, com
perguntas perspicazes e envolventes, a revelar-se em sua personalidade
e em seu ministério, seu ser e agir. Em seguida, nosso livro-homenagem
apresenta diversos artigos, num total de dezessete, que tratam das questões
que têm absorvido o dia a dia de Pe. Valter. Ao redor da grande temática
da Liturgia, desenrolam-se temas relacionados ao sacerdócio comum do
povo de Deus, à celebração da Eucaristia e da Palavra, aos sacramentos
da fé, aos sacramentais, à pastoral litúrgica, ao diaconato permanente (cf.
pp. 12-13). [...] No final do livro, às pp. 403-407, encontramos ainda a
Bibliografia do homenageado, seus livros e artigos publicados.
Palavras finais do Prefácio: “Resta-me agradecer aos colaboradores, que se dispuseram em tempo hábil a escrever seus artigos, prestando,
assim, esta cordial homenagem ao Pe. Valter. Agradeço, sobretudo, ao
Pe. Ney Brasil Pereira, pela sugestão deste livro-homenagem e pela
revisão de todos os artigos. Ao Pe. Valter, agradecemos pelo seu fecundo ministério junto à Igreja do Brasil e a Santa Catarina, junto à Igreja
Particular de Florianópolis e, sobretudo, junto ao ITESC e à FACASC.
Desejamos-lhe muitos e santos anos de vida” (p. 21).
Endereço do Recensor:
Caixa postal 5041 – ITESC
88040-970 Florianópolis, SC
E-mail: [email protected]
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Crônicas
Apresentação do Anuário Acadêmico 2014
Neste ano de 2014, vivemos o 42º ano de funcionamento do ITESC
e o 3º da FACASC. Apresentamos este Anuário Acadêmico, fazendo
votos aos estudantes e professores e funcionários de que este seja um
ano cheio de realizações.
Neste ano, continuamos com a implantação gradual da Faculdade
Católica de Santa Catarina (FACASC) e do curso de graduação (bacharelado civil) em Teologia. Para tanto, seguiremos os documentos elaborados por nós e confirmados em diversas instâncias pelo MEC. Como
faculdade, temos: o Plano de Desenvolvimento Institucional; o Projeto
Pedagógico Institucional; o Regimento Interno; os Planos de Carreira e
de Capacitação do Corpo Docente e do Corpo Técnico-administrativo.
Como curso de Teologia, temos: o Projeto Pedagógico de Curso e a
Matriz Curricular, com suas disciplinas e respectivos objetivos, ementas
e bibliografias. No decorrer de 2013, fizemos a revisão de nossa Matriz
Curricular, com a participação de todo o Corpo Docente, levando em
conta os dois anos de experiência no regime da FACASC. Por isso, a
turma que inicia o curso de Teologia este ano já seguirá a nova Matriz
Curricular (Matriz 2). Também elaboramos o regulamento da ouvidoria,
instância necessária para a manifestação de todos, das reivindicações,
reclamações, sugestões e congratulações. Ficamos devendo para 2014 a
elaboração do manual de funções e competências e a revisão do estatuto
e do regimento do ITESC em sua relação com a FACASC.
O CONSUPE (Conselho Superior) e a CPA (Comissão Própria de
Avaliação) estão em plena atividade. A aquisição do sistema UNIMESTRE, um sistema integrado de gestão educacional, do qual usamos os
módulos acadêmico, financeiro e portal online, foi uma grande conquista e
resolveu um problema que vinha nos angustiando há tempos. Resta ainda
aprendermos a bem usufruí-lo, sobretudo da parte dos professores, no que
concerne à relação com o conjunto de seus alunos, à entrega antecipada
de textos, ao uso de métodos diferenciados de avaliação.
Logo no começo deste ano letivo receberemos a visita dos avaliadores do MEC em vista do reconhecimento de nosso curso de bacharelado
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203
Crônicas
em Teologia. Esperamos que tudo corra do melhor modo possível e que
alcancemos uma boa nota.
Com alguma dificuldade vamos implantando cursos de pós-graduação. Em fevereiro deste ano, concluiu-se o curso de pós-graduação
sobre Juventude, religião e cidadania. Análises feitas no decorrer do ano
passado apontaram para a mudança de metodologia na oferta de cursos
de pós-graduação. Definimos por finais de semana esparsos durante o
ano em vez de grandes etapas no período das férias. Assim, em outubro
do ano passado iniciamos um curso de Estudos bíblicos. Infelizmente
não houve inscrições suficientes para iniciarmos em outubro, como
estava previsto, o curso de Bioética. Para o segundo semestre deste ano
está previsto o início de dois novos cursos: Doutrina social da Igreja e
Comunicação e evangelização. Deste modo a FACASC vai descobrindo
sua vocação e firmando seu espaço na formação das lideranças da Igreja
no estado catarinense.
Os cursos de extensão, tanto os que são oferecidos diretamente pela
FACASC às segundas-feiras, como os que são mantidos por paróquias
e outras instituições em convênio conosco, também vêm se revelando
ótima ocasião para a formação de lideranças leigas. O grande tema em
pauta é o Concílio Vaticano II. Percebe-se um interesse generalizado
pelo conhecimento do contexto sócio-político e eclesial-teológico em
que foi realizado e pela leitura e atualização de seus documentos. Nesse
sentido, a FACASC deverá ainda propor algum espaço de formação em
que esse tema tão atual seja mais bem refletido e assimilado por todos
os agentes de pastoral da Igreja catarinense.
Por diversos motivos, não se deu continuidade aos simpósios com
intelectuais e profissionais cristãos que havíamos iniciado em 2012.
Continua para este ano a sugestão de direcioná-los a interlocutores específicos, nos campos jurídico, médico, político etc., tratando de temas
teológico-pastorais com realce no ambiente social.
Em consonância com o tema do último Sínodo dos Bispos, a semana teológica do ano passado teve como tema: “Nova Evangelização e
Teologia, em Diálogo com o Mundo Moderno”. Ofereceu o ensejo para
refletirmos sobre o processo da nova evangelização nos ministérios da
Palavra, da Liturgia e da Caridade e, ainda, no polêmico campo da bioética. As reflexões dos assessores serão publicadas no primeiro número de
Encontros teológicos deste ano. Acolhendo as sugestões dos estudantes,
a semana teológica deste ano englobará diversos assuntos colocados sob
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o tema geral: “O Documento de Aparecida à luz do pontificado do papa
Francisco”. Pretende-se: fazer uma leitura político-social da realidade
latino-americana e das opções da Igreja no campo social, refletir sobre
a identidade da Igreja como comunhão e missão, tomar consciência da
vocação e da missão da mulher na Igreja e na sociedade, e, por fim, considerar os desafios pastorais do documento de Aparecida e as perspectivas
pastorais do papa Francisco.
A renúncia de Bento XVI e a escolha do cardeal Bergoglio para sua
sucessão foram as surpresas do Espírito Santo no início do ano passado.
As tomadas de posição, os gestos simples e afetuosos, a opção por uma
Igreja pobre e com os pobres, as metáforas carregadas de teor evangélico
do papa Francisco vieram dar novo ânimo para a caminhada pastoral e
para a reflexão teológica da Igreja.
Na conclusão do Ano da Fé o papa nos brindou com a exortação
apostólica Evangelii Gaudium, um verdadeiro programa para seu pontificado. De muitos modos somos interpelados. Quanto àquilo que mais
nos ocupa, a reflexão teológica, o papa a situa no campo do empenho
pela paz. Diz ele: “O diálogo entre ciência e fé também faz parte da
ação evangelizadora que favorece a paz. O cientificismo e o positivismo
recusam-se a ‘admitir, como válidas, formas de conhecimento distintas
daquelas que são próprias das ciências positivas’ (João Paulo II, Fides et
ratio, 88). A Igreja propõe outro caminho, que exige uma síntese entre
um uso responsável das metodologias próprias das ciências empíricas
e os outros saberes como a filosofia, a teologia, e a própria fé que eleva
o ser humano até ao mistério que transcende a natureza e a inteligência
humana. A fé não tem medo da razão; pelo contrário, procura-a e tem
confiança nela, porque – citando São Tomás de Aquino – ‘a luz da razão e a luz da fé provêm ambas de Deus’, e não se podem contradizer
entre si. A evangelização está atenta aos progressos científicos para os
iluminar com a luz da fé e da lei natural, tendo em vista procurar que
sempre respeitem a centralidade e o valor supremo da pessoa humana em
todas as fases da sua existência. Toda a sociedade pode ser enriquecida
através deste diálogo que abre novos horizontes ao pensamento e amplia
as possibilidades da razão. Também este é um caminho de harmonia e
pacificação” (EG 242).
Nesse contexto, nossa faculdade católica, fundada com o intuito
precípuo de dar continuidade – mas com validade civil – ao curso de
teologia mantido há décadas pelo ITESC, é chamada a ser lugar próprio
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para oferecer aos estudantes e a todos os nossos interlocutores um testemunho vivo da capacidade humana de unir fé e razão. Nosso logotipo
traz duas chamas – a fé e a razão – “as duas asas com as quais o ser
humano alça voo na direção do infinito” (FR intr.).
Na sua trajetória a humanidade encontrou três caminhos – diferentes, mas complementares – de acesso a Deus. Temos primeiramente
o caminho da razão, sistematizado pela filosofia, que pode levar a um
conhecimento das verdades naturais sobre Deus (sua existência e atributos essenciais). Há o caminho das religiões, sistematizado na nova
ciência – a da religião –, que trata da busca humana de Deus a partir da
história das religiões, bem como dos fenômenos (mitos, símbolos, ritos,
doutrinas e ética) e dos fundamentos (filosóficos, antropológicos, sociológicos, psicológicos, etc.) da religião. Por fim, resplende o caminho da fé
judaico-cristã, como resposta à revelação, sistematizado especificamente
pela teologia, que busca entender a automanifestação de Deus culminada
em Jesus Cristo; nesse caminho, é o próprio Deus que se manifesta, que
se revela, constituindo em Jesus Cristo – plenitude da revelação – uma
via acessível a todos, fácil, segura e pura. A teologia, porém, não exclui
a contribuição dos caminhos anteriores da filosofia e das religiões. Como
a filosofia pensa a raiz das coisas, levantando a questão do sentido, dos
valores e dos fins da existência, ela é intrínseca à fé e, por isso, tem um
lugar estrutural na teologia. Como as religiões sistematizam a busca
humana de Deus, através da reflexão sapiencial, da meditação sobre os
enigmas da vida, da convivência e da morte, elas também são intrínsecas
à fé e, por isso, têm também um lugar de destaque na teologia.
Assim, é impossível fazer teologia sem o recurso das filosofias e
das ciências. Como pessoas de fé e, sobretudo, como estudiosos e estudantes de teologia, cabe-nos mostrar “que não é possível haver qualquer
conflito entre fé e ciência autêntica, porque ambas, embora por caminhos
diferentes, tendem para a verdade” (Bento XVI, Porta fidei, 12).
Confiantes no Deus de nosso passado, de nosso presente e de nosso
futuro, fazemos votos a todos – professores, alunos e funcionários – de
um abençoado e proveitoso Ano Acadêmico 2014.
Pe. Dr. Vitor Galdino Feller – Diretor da FACASC e do ITESC
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SEMANA TEOLÓGICA – 02 a 06 de setembro de 2013
NOVA EVANGELIZAÇÃO E TEOLOGIA,
EM DIÁLOGO COM O MUNDO MODERNO
SEGUNDA,
DIA 2/9
TERÇA, DIA
3/9
QUARTA,
DIA 4/9
QUINTA,
DIA 5/9
SEXTA, DIA
6/9
xxx
Celebração
Eucarística
xxx
PERÍODO MATUTINO
07:30
xxx
xxx
08:00 – 09:30 Nova
Igreja e
Palavra, da
Dei Verbum
à Verbum
Domini
Johan
Konings
Bioética e
o póshumanismo:
ideologia,
utopia ou
esperança?
Leo Pessini
Igreja e
Eucaristia, da
Sacrosanctum
Concilium à
Sacramentum
Caritatis
Carlos Gustavo
Haas
09:30 – 09:50 Pausa
09:50 – 11:15 Debate:
Elias Wolff
(5’)
Pausa
Debate:
Siro Manoel
de Oliveira
(5’)
Pausa
Debate:
Hélio T.L. de
Oliveira (5’)
Pausa
Debate:
Valter
Maurício
Goedert (5’)
Seminário
Integrado:
Temas
Monográficos
dos
Bacharelandos
– 2013 (II)
Seminário
Integrado:
Temas
Monográficos
dos
Bacharelandos
– 2013 (III)
Evangelização
para a
Transmissão
da Fé: Ecos
do Sínodo dos
Bispos
Dom Leonardo
Steiner
Seminário
11:15 – 12:00 Assembleia
da Associação Integrado:
Temas
Paulo Bratti
Monográficos
dos
Bacharelandos
– 2013 (I)
Igreja e
Caridade,
da Gaudium
et Spes à
Caritas in
Veritate
Inácio
Neutzling
Pausa
Debate:
Vilmar
Adelino
Vicente (5’)
Avaliação e
Entrega dos
Certificados
PERÍODO NOTURNO
XXX
19:30 – 20:45 Nova
Bioética aos 40
anos: origens,
desenvolvimento,
desafios e
perspectivas
Leo Pessini
20:45 – 22:00 Debate:
Celso
Loraschi (5’)
Debate:
XXX
Debate:
Debate:
Pedro Paulo Adalberto
Vitor Galdino
das Neves (5’) Donadelli (5’) Feller (5’)
Evangelização
e Anúncio da
Palavra, a
partir da Dei
Verbum
Johan Konings
Nova
Evangelização
e Celebração
Litúrgica,
a partir da
Sacrosanctum
Concilium
Carlos Gustavo
Haas
Nova
Evangelização
e Diálogo
com o Mundo
Moderno
Inácio
Neutzling
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FACASC lança livro em homenagem a Pe. Valter Maurício
Goedert
“A nobre simplicidade da liturgia” é o título do livro que a FACASC acaba de publicar em homenagem a seu professor Pe. Valter Maurício Goedert, que completou 70 anos aos 22 de maio do ano passado. Pe.
Valter é presbítero da Arquidiocese de Florianópolis e professor, há mais
de 35 anos, do Instituto Teológico de Santa Catarina e, atualmente, da
Faculdade Católica de Santa Catarina. É também professor no Studium
Theologicum, em Curitiba. Especialista em diaconato permanente, é
diretor da Escola Diaconal “São Francisco de Assis”, em Florianópolis,
e assessor do CELAM para o Diaconato Permanente. É mestre e doutor
em Liturgia, pelo Pontifício Ateneu Santo Anselmo, de Roma; é bacharel
em Teologia, pela Faculdade de Teologia Cristo Rei, de São Leopoldo,
RS; e licenciado em Filosofia, pela PUC, de Curitiba, PR. É autor de
muitos livros sobre liturgia, sobre cada um dos sacramentos e, especialmente, sobre o diaconato permanente. O livro “A nobre simplicidade da
liturgia”, de 408 páginas, foi lançado no dia 22 de maio, por ocasião de
seu 71º. aniversário. Organizado por Pe. Vitor Galdino Feller, diretor
da Faculdade Católica de Santa Catarina, o livro traz diversos artigos
de especialistas em liturgia, de professores da FACASC, de diáconos
permanentes e de ex-alunos do ITESC.
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