dynomite napolin

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dynomite napolin
L i s a
McMann
é autora bestseller do
The New York Times com
Wake e Fade. Ela cresceu em Michigan e hoje vive na região
de Phoenix com o marido e dois filhos.
SEUS SONHOS NÃO LHE PERTENCEM...
Para Janie, uma garota de 17 anos, ser sugada para dentro dos sonhos
de outras pessoas está se tornando normal.
Ela não pode contar a ninguém sobre isso – eles nunca acreditariam, ou
pior, achariam que é uma aberração. Então, ela vive no limite, amaldiçoada
com uma habilidade que não quer e não pode controlar.
Mas, de repente, Janie fica presa em um pesadelo horrível, que lhe
causa um imenso terror. Pela primeira vez, ela é mais do que uma mera
espectadora. Janie se torna uma participante...
“Um romance lírico, cujas imagens permanecem com você, muito tempo depois de virada a última página, como o mais memorável dos sonhos”.
Cassandra Clare
Autora de City of Ashes, bestseller do The New York Times
“Linguagem enxuta, desenvolvimento rápido de personagens e circunstâncias misteriosas conduzem a narrativa para uma ágil e... satisfatória conclusão. McMann também dá atenção especial para a ciência dos sonhos”.
School Library Journal
ISBN: 978-85-7679-340-3
www.novoseculo.com.br
“Todos fitam o chão conforme seu
olhar passeia por eles, indo de um para
o outro. Ela sabe o que estão pensando.
De jeito nenhum querem ficar no quarto
comigo, a aberração.
Janie ajusta o maxilar.
Está cansada de chorar.
Recusa-se a fazer mais ceninhas.
Quando volta a sentir os dedos e os
pés, fica em pé, pega seu casaco e sua
mala feita da noite para o dia, e vai cambaleando até a porta.
Sua voz está rouca quando se vira para
a recepcionista.
— Lamento. Não vou fazer isso.
Ela sai e chega no estacionamento. O
ar está revigorante e ela puxa-o para dentro dos pulmões.
A mulher de jaleco segue-a porta afora. — Senhorita?
Janie continua andando. Joga sua mala
de volta no carro. Sem se virar, ela grita:
— Eu disse que não vou fazer isso.
Pula para dentro do carro, atrás do
volante. Deixa a mulher de jaleco lá parada, em pé, enquanto vai embora.
— Tem de existir outro jeito, Ethel —
ela diz. — Você me entende, né, querida?
Ethel ronrona melancolicamente.”
LISA McMANN
D E S P E R T A R
Livro 1
SÃO PAULO 2010
9 de dezembro de 2005, 12h55
O livro de Matemática de Janie Hannagan escorrega de seus
dedos. Ela agarra a borda da mesa na biblioteca da escola. Tudo fica
escuro e silencioso. Suspira e descansa a cabeça sobre a mesa. Tentou
escapar dessa, mas sua tentativa foi um fracasso deprimente. Ela está
muito cansada hoje. Com muita fome. Realmente não tem tempo
para isso.
E então.
Está sentada nas arquibancadas no estádio de futebol, piscando os
olhos debaixo das luzes, calada em meio aos gritos da multidão.
Olha de relance para as pessoas sentadas a seu redor nas arquibancadas — colegas de classe, pais — tentando localizar o sonhador.
Ela consegue dizer que este sonhador está com medo, mas onde está
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ele? Em seguida, lança um olhar ao campo de futebol. Encontra-o. Revira
os olhos.
É Luke Drake. Sem sombra de dúvida. Afinal, ele é o único jogador nu
no campo para o jogo de homecoming1.
Ninguém parece perceber, muito menos se importar. Exceto ele. A bola é
jogada e as linhas de jogadores entram em colisão, mas Luke está se cobrindo
com as mãos, saltando ora com um pé, ora com o outro. Ela pode sentir o pânico dele aumentando. Os dedos de Janie formigam e ficam dormentes.
Luke olha para Janie, com olhos suplicantes, enquanto a bola vem em
sua direção, como um projétil em câmera lenta. — Ajude-me — ele diz.
Ela pensa em ajudá-lo. Imagina o que precisaria fazer para alterar
o curso do sonho de Luke. Considera até mesmo que uma injeção de
confiança para o astro-receptor do time no dia anterior ao do grande jogo
poderia colocar a Fieldridge High na corrida pelo Campeonato Regional da
Classe A.
Mas Luke é realmente um imbecil. Não vai apreciar isso. Sendo assim,
ela resigna-se a testemunhar a ruína dele. Imagina se ele escolherá o orgulho ou a glória.
Ele não é tão grande quanto pensa ser.
Sem sombra de dúvida.
A bola quase chega até Luke quando o sonho recomeça. — Ah, CONTINUA logo com isso, Janie pensa. Concentra-se em seu lugar na arquibancada e lentamente consegue ficar em pé. Tenta andar até a parte debaixo das
arquibancadas, durante o restante do sonho, para que não tenha de olhar,
e — surpresa! — desta vez ela consegue.
Sai no lucro.
1 Homecoming é uma tradição em diversas universidades e escolas no mundo todo. Geralmente inclui
atividades para os alunos, como eventos de esporte e de cultura, assim como um desfile pelas ruas da
cidade. (N.T.)
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13h01
A mente de Janie projeta-se novamente para seu corpo, ainda
sentado à sua habitual mesa de canto na biblioteca. Contrai dolorosamente os dedos, erguendo a cabeça, e quando sua visão retorna,
explora a biblioteca.
Avista o culpado em uma mesa a cerca de quatro metros e meio
adiante. Ele está desperto agora. Esfregando os olhos e sorrindo, sem
graça, para os outros dois jogadores de futebol americano que se encontram em torno dele, rindo. Empurrando-o. Dando tapinhas em
sua cabeça.
Janie balança a cabeça para livrar-se daquela imagem, e apanha
seu livro de Matemática, que está virado sobre a mesa onde ela o deixou cair. Debaixo do livro, encontra uma pequena barra de Snickers.
Sorri para si mesma, e espreita do lado esquerdo, entre fileiras de prateleiras de livros.
Mas não há ninguém para agradecer.
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Noite, 23 de dezembro de 1996
Janie Hannagan tem 8 anos. Está usando um vestido fino com
uma estampa de um vermelho desbotado, mangas curtas demais,
meia-calça de um branco sujo que fica frouxa entre suas coxas, moon
boots2 de cor cinza e um casaco de um marrom forte, com dois botões
faltando. Os longos cabelos dela, de um loiro sujo, ficam elétricos com
a estática. Viaja em um trem Amtrak3 com sua mãe, indo de sua casa
2 Moon Boots são botas criadas no início da década de 1970, pelo fabricante Tecnica of Givera del
Montello, da Itália. Não tem distinção entre pé esquerdo e direito e tornaram-se uma notável tendência
da moda durante esta década. As Moon Boots estão novamente em voga, parcialmente em resposta à
popularidade do filme cult “Napoleon Dynamite”, de 2004, do qual a autora deste livro é fã, e em que o
personagem que dá nome ao filme é visto usando-as em diversas ocasiões. (N.T.)
3 Amtrak é uma estatal do transporte ferroviário de passageiros dos Estados Unidos. O nome Amtrak é
a junção das palavras “American” e “track”, ou seja, caminho americano. (N.T.)
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em Fieldridge, Michigan, até Chicago, para visitar a avó. A mãe dela
lê um exemplar do The Globe no banco a sua frente. Há uma foto na
capa de um homem enorme em um smoking azul-acinzentado. Janie
descansa sua cabeça apoiando-a contra a janela, observando sua respiração embaçar o vidro.
A nuvem embaça a visão de Janie tão lentamente que ela não se dá
conta do que está acontecendo. Flutua na névoa por um momento e, em seguida, está em uma ampla sala, sentada a uma mesa de conferência com
cinco homens e três mulheres. Na frente da sala encontra-se um homem alto,
quase careca, com uma pasta de documentos. Ele está em pé com as roupas
de baixo, e está atordoado. Tenta falar, mas não sai nenhuma palavra de sua
boca. Todos os outros adultos estão vestindo ternos de cores claras. Eles dão
risada e apontam para o homem careca vestindo apenas suas roupas de baixo.
O homem careca olha para Janie.
E depois volta o olhar para as pessoas que estão rindo dele.
No rosto dele, o retrato de sua derrota.
Ele segura a pasta e a usa para cobrir suas partes íntimas, e isso faz
com que os outros riam ainda mais. Corre até a porta da sala de conferências, mas a maçaneta está escorregadia — algo viscoso goteja dela. Ele
não consegue abri-la; ela range e trepida ruidosamente em suas mãos, e as
pessoas à mesa se curvam de tanto rir. As roupas de baixo do homem são
branco-acinzentadas, folgadas. Ele volta-se a Janie uma vez mais, com um
olhar misto de pânico e súplica.
Janie não sabe o que fazer.
Fica petrificada.
Os freios do trem chiam.
E o cenário fica mais turvo e se perde na névoa.
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— Janie! — a mãe de Janie está inclinando-se na direção dela.
Seu hálito cheira a gim e seu cabelo desordenado cai por cima de um
de seus olhos. — Janie, eu disse que talvez a vovó leve você até aquela
loja de bonecas grande e chique. Achei que ficaria animada com isso,
mas creio que não está.
A mãe de Janie toma um gole da garrafinha escondida em sua
velha bolsa de mão caindo aos pedaços.
Janie concentra a atenção em sua mãe e sorri.
— Parece divertido — diz ela, embora não goste de bonecas.
Preferia meias-calças novas. Ela se remexe no banco, tentando ajustar
as suas. Pensa no homem careca e aperta os olhos. Bizarro, pensa ela.
Quando o trem para, elas pegam suas malas e caminham em direção à plataforma. Em frente à mãe de Janie, surge de sua cabine um
homem de negócios careca e desgrenhado.
Ele limpa o rosto com um lenço.
Janie olha fixamente para ele.
O queixo dela cai.
— Uau — suspira.
O homem desfere-lhe um olhar afável quando a vê olhando para
ele, e vira-se, saindo do trem.
6 de setembro de 1999, 15h05
Janie corre a toda velocidade para pegar o ônibus depois
de seu primeiro dia de aula na sexta série. Melinda Jeffers, uma
das garotas do lado norte de Fieldridge, estica o pé, fazendo
com que Janie se esparrame no cascalho. Melinda ri por todo o
caminho até o Jeep Cherokee vermelho brilhante de sua mãe. Janie luta contra sua vontade de chorar e limpa suas roupas. Entra
no ônibus, joga-se no banco da frente, olha para a sujeira e o san15