cefet de química de nilópolis – rj curso de tecnologia em produção

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cefet de química de nilópolis – rj curso de tecnologia em produção
CEFET DE QUÍMICA DE NILÓPOLIS – RJ
CURSO DE TECNOLOGIA EM PRODUÇÃO CULTURAL
A POLÍTICA INTERNACIONAL NOS FILMES DE JAMES BOND
BRUNO MIGUEL MELLO VIANNA
HELIO MELLO VIANNA JUNIOR
2007
A POLÍTICA INTERNACIONAL NOS FILMES DE JAMES BOND
BRUNO MIGUEL MELLO VIANNA
HELIO MELLO VIANNA JUNIOR
Monografia apresentada à coordenação do
Curso de Tecnologia em Produção Cultural,
como cumprimento parcial das exigências
para a conclusão do curso.
Orientador: Professora Doutora Ângela
Maria da Costa e Silva Coutinho.
CEFET DE QUÍMICA DE NILÓPOLIS – RJ
CURSO DE TECNOLOGIA EM PRODUÇÃO CULTURAL
2007
CEFET DE QUÍMICA DE NILÓPOLIS – RJ
BRUNO MIGUEL MELLO VIANNA
HELIO MELLO VIANNA JUNIOR
A POLÍTICA INTERNACIONAL NOS FILMES DE JAMES BOND
Monografia apresentada à coordenação do
Curso de Tecnologia em Produção Cultural,
como cumprimento parcial das exigências
para a conclusão do curso.
Aprovada em __04___ de ____dezembro_____ de 2007.
Conceito: ______10,0 ___________ ( __Dez____ )
Banca Examinadora
___________________________________________________________
Professora Doutora Ângela Maria da Costa e Silva Coutinho
___________________________________________________________
Professora Renata Silencio
___________________________________________________________
Ana Carolina Gonçalves Corrêia (Bacharel em Relações Internacionais)
Agradecimentos
Agradecemos com esta monografia ao apoio que nos foi dado por nossos pais,
Auzinete de Araújo Santos e Helio Mello Vianna (in memorian), que nos apoiaram em
todos os momentos a continuar este curso; ao Professor Miguel Gomes, um dos pioneiros
no ensino da Produção Cultural e que nos convenceu a optar por este curso superior; aos
nossos professores, que contribuíram para nossa formação; aos nossos amigos, por levar a
sério nossos devaneios culturais e por aturar a trilha sonora de 007 e os filmes sendo
executados diariamente em nossa casa (e na deles) ao longo dos últimos meses; ao suporte
didático oferecido pela banca examinadora; e também a Sean Connery, George Lazenby,
Roger Moore, Timothy Dalton, Pierce Brosnan, Daniel Craig e ao elenco fixo que tanto
nos divertiu, à mente brilhante de Ian Fleming e aos homens que tornaram possível levar
Bond dos livros para o cinema, os produtores Albert Broccoli e Harry Saltzman.
“(...) Quando você voltar a Londres,
descobrirá que há outros Chiffre que tentam
destruí-lo, destruir seus amigos e seu país.
“M” lhe falará. E agora que viu um homem
verdadeiramente mau, saberá sob que
aspecto o mal pode apresentar-se, irá à
procura dos maus para destruí-los e proteger
assim os que você ama, e você mesmo...
Cerque-se de seres humanos, meu caro
James. É mais fácil lutar por eles do que por
princípios. Mas... não me decepcione
transformando-se você mesmo em humano.
Perderíamos uma máquina maravilhosa.”
Mathis, amigo de James Bond, em
Cassino Royale (Ian Fleming)
A presente monografia propõe uma análise a respeito do uso de uma produção de
entretenimento – os filmes da série 007 – como instrumento político para a propaganda da
ideologia inglesa frente aos costumes e conflitos internacionais, bem como explicitar o elo
dessa análise com o trabalho do produtor cultural.
SUMÁRIO
1- Introdução
08
2- Sobre a produção dos filmes
2.1- A produção propriamente dita
12
15
3- Bond, James Bond
17
4- Os filmes da série sob uma visão teórico-realista
19
5- A influência dos conflitos internacionais na produção da série
5.1- A presença da Guerra Fria nas produções
5.2- O Pós-Guerra Fria nas produções mais recentes
21
22
27
6- O cinema se adequando a novas visões ocidentais
29
7- Conclusão
32
8- Referências Bibliográficas
35
9- Referências Eletrônicas
36
10- Anexos
37
1- INTRODUÇÃO
Nos últimos 45 anos os filmes com a marca “007” vêm conquistando platéias em
quase todo o mundo. Mais pelas estripulias de James Bond do que por qualquer outra razão.
Coincidência ou não, o ano em que foi lançada nos cinemas a primeira aventura de James
Bond foi o ano da Crise de Mísseis de Cuba, 1962. Neste 007 contra o satânico Dr. No a
missão de Bond é investigar o desaparecimento de um agente britânico na Jamaica que
estava coletando provas a respeito de uma possível atividade nuclear em uma ilha nas
proximidades. Há nas entrelinhas deste roteiro uma menção à crise cubana, já que o
proprietário da ilha, Dr. No, tenciona interceptar mísseis norte-americanos e causar uma
catástrofe ocidental.
Uma série cinematográfica que tem durado 45 anos e cujo protagonista é um espião
britânico com licença para matar – inclusive em países estrangeiros – tem de sofrer
determinadas mudanças ao longo do tempo, seja na modificação do comportamento de sua
principal personagem ou na adequação às novas tecnologias. E, inclusive, em adequação
aos fatos históricos. O primeiro filme foi produzido quando a bipolaridade da Guerra Fria
estava se tornando mais nítida; o mais recente (Cassino Royale, adaptado do primeiro livro
da série escrita por Ian Fleming) tem como argumento o financiamento de atividades
terroristas. É indiscutível então o fato de que cinema e política estão sempre ligados,
mesmo que o filme em si não seja um filme político, mas um mero entretenimento. Cinema
é opinião, tem discurso, e por isso exerce seu fascismo para diversas platéias
Segundo Roland Barthes, todo discurso é fascista (Apud PIGNATARI, 2004, p.17).
Para a presença de uma ligação de um produtor cultural com o saber que lhe é inerente é
imprescindível que se discuta o sentido desta afirmação. O que está em causa é a lógica do
Ocidente, apoiada no discurso verbal. A opinião ocidental representa, nos filmes de James
Bond, a oração principal, responsável pela lógica hierarquizante. Para que o discurso do
poder exista, é necessário haver uma subordinação pela outra parte, no caso o grande
público-alvo dos produtores da série.
É indiscutível, portanto, a importância de James Bond. Mais que uma personagem, é
uma imagem simbólica. Símbolo de coragem, inteligência e patriotismo, mas também
símbolo da capacidade britânica de se proteger. A tecnologia empregada nos filmes seria
também uma forma de mostrar ao mundo o poderio militar do ocidente – mais
especificamente o britânico e o norte-americano. James Bond vem para as telas carregado
de signos de poder. Entre eles podemos citar a postura do agente britânico, seu refinamento,
os objetos por ele utilizados, sua relação com seus superiores.
A construção simbólica das outras personagens de 007 – dos vilões, sobretudo –
segue a mesma lógica, porém com a intenção oposta. Os antagonistas são mostrados
sempre como pessoas inescrupulosas, por obséquio, mas suas descrições vão muito além
disso. Não basta ter mau caráter, nos filmes de James Bond o Mal é sempre representado
por uma figura excêntrica, feia e assustadoramente demoníaca. A antítese perfeita a ser
combatida pelo charme e elegância do agente 007.
Cabe dizer que Ian Fleming, autor dos livros que originaram os filmes, se
aproveitou de uma ocasião histórica – a Guerra Fria – para gerar argumentos heróicos que
consagrariam a série. Provavelmente se os livros tivessem sido escritos uma década antes
os inimigos seriam os nazistas e não os comunistas, como acabou acontecendo.
No prefácio do livro Moscou contra 007, lançado em 1957, Fleming avisa em uma
nota:
A organização SMERSH, uma contração de Smiert Spionam – Morte aos
Espiões –, existe e é um dos departamentos mais secretos do governo
soviético. No começo de 1956, quando este livro estava sendo escrito, a força
da SMERSH no território soviético e no exterior era de cerca de 40.000
homens, e o general Grubozaboyschicov era o seu chefe. (...) Hoje, o QG da
SMERSH fica onde eu o localizei(...): a Sretenka Ulitsa nº 13, Moscou. A sala
de conferências é descrita fidedignamente. Os chefes de Inteligência que se
reúnem em torno da mesa realmente existem e freqüentemente são
convocados a essa sala para propósitos similares àqueles que eu recontei.1
Apesar de ser uma série de ficção atrelada a fatos da recente História Universal, 007
brinca com os marcos históricos, gerando até mesmo uma dúvida quanto à veracidade dos
1
FLEMING, Ian. Moscou contra 007. Rio de Janeiro: Record. 2003, 1. ed., p.07
fatos históricos. Em 007 – Os diamantes são eternos, primeiro filme produzido após a
chegada do homem à Lua, James adentra um cômodo que parece ser um estúdio
cinematográfico onde estão filmando a cena do primeiro homem pisando na Lua. Ironias à
parte, uma cena cômica, quase subliminar, soa como uma provocação ao ego hegemônico
dos Estados Unidos da América.
O fim da Guerra Fria causou um hiato de seis anos na produção da série (de 1989 a
1995). Com o fim do argumento-maior das atividades de Bond, surge um novo medo
mundial: o terrorismo. Não que já não houvesse durante o período da Guerra Fria, mesmo
nos filmes que não tratavam diretamente dos conflitos URSS versus Ocidente (007 Viva e
Deixe Morrer, 007 Contra o Homem da Pistola de Ouro, 007 Permissão para Matar), mas
a partir da década de 90, sobretudo após o primeiro atentado de Osama Bin Laden aos
Estados Unidos da América, em 1993, durante o governo de George Bush – pai do atual
presidente norte-americano, George W. Bush. O primeiro filme do período pós-Guerra Fria,
007 Contra Goldeneye, enfatiza o fim da URSS já na abertura do filme. Além das
exuberantes mulheres seminuas, movendo-se de forma lânguida, – característica que
compõe a imagem visual de quase todos os filmes – aparecem na abertura de Goldeneye
símbolos da ex-URSS sendo destruídos, como a foice da bandeira soviética e a estátua de
Lênin.
Cabe ressaltar que a série 007 possui 23 filmes, sendo 2 não-oficiais. O que deve ser
entendido como “série oficial” são os filmes produzidos por Albert Broccoli, detentor dos
direitos autorais da marca 007. É por isso que os filmes ditos não-oficiais não sustentam a
marca 007 em seus títulos.
Esta pesquisa, portanto, une a visão da contemporaneidade aos produtos culturais
cinematográficos. É indispensável ao produtor cultural compreender a fronteira do
entretenimento e da manipulação cultural. Nesta fronteira existem várias armadilhas sócioculturais, que devem ser levadas em conta de acordo com a ética vigente.
A dupla natureza do cinema, arte e indústria, cria um dilema que na verdade é falso.
Cinema não é arte “ou” indústria, é arte “e” indústria. Como na vida, as coisas podem ter
que ser ao mesmo tempo, assim acontece com o cinema. Arte, cultura, são os filmes.
Cinema são eles passando numa tela para o público, caracterizando seu grande fenômeno.
Os resultados comerciais de um filme, além de corresponderem a padrões de
consumo, podem indicar vitalidade social. Grande ou pequeno, todo filme tem seu público,
sucesso não se dá só na contemporaneidade do espaço, pode verificar-se ao longo do
tempo. Um filme pode viajar e encontrar novos públicos ou um reconhecimento maior,
diferente do que teve em sua origem. A qualidade de seu público em termos de formação de
opinião, de prestígio intelectual e artístico, é uma forma de resultado. Como conseqüência,
oferece-se com o cinema o marketing mundial dos produtos e valores da sociedade que o
produz. Valores e hábitos são portanto, consumidos.
2- SOBRE A PRODUÇÃO DOS FILMES
Segundo a James Bond Encyclopedia, de John Cork e Collin Stutz, a realização de
uma série de filmes inspirada na obra de Ian Fleming não derivou de “faro comercial”, mas
de senso de oportunismo de Albert Broccoli e Harry Saltzman – fundadores da EON
Productions, que adquiriram os direitos sobre os livros de Bond no início dos anos 60, após
o ex-presidente John Kennedy afirmar que os romances de 007 eram sua literatura de
cabeceira. Seriam feitas então as adaptações dos livros de Fleming para o cinema.
Na visão dos estúdios norte-americanos, os livros de Fleming eram continentais e
“eróticos” demais para inspirarem uma série de sucesso nos EUA. A “imoralidade” do
material também preocupava os executivos dos cinemas europeus: com o orçamento
disponibilizado a Broccoli e Saltzman de apenas 1 (um) milhão de dólares, a United Artists
topou financiar a primeira aventura cinematográfica de 007 em 1961.
Na negociação houve restrições quanto ao ator escolhido para interpretar o herói. O
passado humilde de Sean Connery (até então, um ator desconhecido, que se sustentara
trabalhando de salva-vidas, segurança e lustrador de caixões) incomodou um executivo da
empresa, mas o ator acabou ficando com o papel, gerando muita dúvida e expectativa à
empresa. O pessimismo só se dissipou meses depois quando 007 Contra o satânico Dr. No
(primeiro filme da série, lançado em 1962) faturou 60 milhões de dólares.
Moscou contra 007 (segundo filme da série) já contou com um orçamento mais polpudo
e consolidou a franquia, mas, segundo Eduardo Torelli, foi 007 Contra Goldfinger que
definiu a fórmula do filme do herói que seria seguida nos próximos anos:
a) Antes dos créditos iniciais há um teaser2, relacionado ou não a intriga, no qual Bond
sabota uma instalação inimiga ou se envolve em uma perseguição.
b) Segue-se uma abertura estilizada, onde silhuetas femininas dançam ao som de hits
interpretados por astros do pop internacional.
2
Teaser é o passo inicial para criar uma determinada expectativa de um novo produto e serviço no mercado, o
conteúdo instituído na peça gera a pergunta "o que será?", mas essa curiosidade é alimentada após a
verdadeira divulgação, uma ferramenta muito conduzida pelos profissionais de marketing e propaganda.
c) Por meio de uma entrevista com “M” (superior do personagem no Serviço Secreto), 007
é designado para uma nova missão.
d) Bond envolve-se com mulher de caráter duvidoso.
e) Há uma cena de jogo entre Bond e o vilão – normalmente disputada por meio de cartas.
f) O vilão ordena a um guarda-costas aparentemente indestrutível que se livre de Bond.
g) Bond tem acesso ao esconderijo do vilão, mas é capturado. Antes de abandoná-lo à
morte, o facínora compartilha com o herói um requintado jantar, durante o qual
enumera as vantagens do poder e justifica as próprias ações à platéia.
h) 007 dispõe de poucos minutos para frustrar o plano diabólico do vilão. Antes de
impedir a “contagem regressiva para o fim do mundo”, Bond encara o guarda-costas do
vilão em uma luta de vida ou morte.
i) Bond enfrenta uma última cilada preparada por seu antagonista e entretém-se com a
Bond Girl titular da aventura. O bordão “James Bond voltará” aparece nos créditos
finais.
Não se trata de um esquema “sutil”, mas a fórmula é infalível. Ela assegurou o êxito da
série por quarenta e cinco anos, ao longo dos quais mínimas alterações foram feitas na
equação.
Embora tenha amadurecido politicamente – o ápice da parafernália bélica dos primeiros
Bonds é o imenso vulcão extinto que serve de base para a SPECTRE em Com 007 Só Se
Vive Duas Vezes (1967)-, a série começou a se tornar esquemática e excessivamente
dependente de tecnologias de ponta, o que eclipsou a personagem. A complexidade das
produções também tomava muito tempo da equipe e, cansado dos efeitos colaterais da
Bondmania, Sean Connery renunciou ao herói após cinco filmes, o que forçou os
produtores a procurarem um substituto. (CORK e STUTZ, 2007, p.383)
O eleito foi o modelo australiano George Lazenby, que estrelou 007 A Serviço Secreto
de Sua Majestade (1969) – na época, um fracasso de critica. Esforçado, Lazenby leu o
romance homônimo antes das filmagens e interpretou um 007 fiel às origens literárias. O
problema era que seu carisma não rivalizara com o de Connery. Rejeitado, retirou-se para
nunca mais voltar. Em beneficio dos negócios, Broccoli e Saltzman recontrataram Connery,
que estrelou Os Diamantes São Eternos (1971), que no que diz respeito à arrecadação nas
bilheterias foi considerado mediano. Roger Moore foi o terceiro ator a encarnar o
personagem, e apesar de enfrentar criticas negativas garantiu o retorno financeiro de Com
007 Viva e Deixe Morrer (1973), 007 Contra o Homem da Pistola de Ouro (1974) e 007 O Espião Que me Amava (1977) – considerado o melhor Bond da década e o primeiro a ser
produzido apenas por Broccoli, já que Saltzman abandonou a EON em 1974.
O James Bond dos anos 70 era contemporâneo de outros perigos. As missões do herói o
confrontavam com supertraficantes, agentes duplos e ativistas políticos radicais – inimigos
mais críveis que Dr. No e Goldfinger (vilões do primeiro e terceiro filmes,
respectivamente). Porém, se os enredos tornavam-se mais maduros, o mesmo não ocorria
com o personagem. Incapaz de personificar a frieza inabalável do herói, Roger Moore
preferiu rebaixá-lo ao nível da sátira. Já que a plástica dos filmes passou a ser mais
importante que o protagonista, é nesta fase que estão as bugigangas eletrônicas mais
pitorescas. Amparado por sofisticadas máquinas, o agente conseguiu cumprir suas próximas
missões: 007 Contra o Foguete da Morte (1979), 007 - Somente Para Seus Olhos (1981),
007 Contra Octopussy (1983) e 007 - Na Mira dos Assassinos (1985).
Por não perceber que a saga do espião mais famoso do cinema estava se tornando uma
chatice e não estava havendo retorno do público para as produções, a EON (empresa
produtora da série) levou um susto. Isso ocorreu em 1984, quando Kevin McClory (coprodutor de 007 Contra a Chantagem Atômica, de 1965, e detentor dos direitos de
adaptação do romance para o cinema) convenceu Sean Connery a retornar ao papel que o
celebrizara em Nunca Mais Outra Vez (filme não oficial da série, pois é desvinculado da
EON). Finalmente Broccoli convenceu-se de que era hora de James Bond mudar.
Timothy Dalton assumiu o papel do herói em Marcado para a Morte (1987). A fita
agradou, mesmo que o próximo filme com Dalton – Permissão para Matar (1989), violento
demais para os padrões da serie – tenha fracassado nas bilheterias. Mas a experiência serviu
para delinear os rumos que a saga deveria tomar: mesclar o refinamento dos Bonds com
Roger Moore ao estoicismo das fitas estreladas por Connery e Dalton. A essa estratégia,
Broccoli anexou um novo James Bond: Pierce Brosnan – que estreou como Bond em 007
Contra GoldenEye (1995). As próximas aventuras do espião, O Amanhã Nunca Morre
(1997) e O Mundo Não é o Bastante (2000) recolocaram Bond na rota de sucesso e
restauraram a áurea de imortalidade do mítico personagem.
Em 2002, Um Novo Dia Para Morrer (vigésimo filme da série) foi lançado. Último
filme com Pierce Brosnan encarnando o espião. Daí somente depois de quatro anos um
novo filme de James Bond seria lançado: Cassino Royale, com Daniel Craig interpretando
Bond na adaptação da primeira aventura literária publicada por Fleming.
2.1- A PRODUÇÃO PROPRIAMENTE DITA
Cork e Stutz reuniram os extras dos filmes de James Bond em coletânea de DVD’s
lançada neste ano de 2007. Esses extras contemplam a produção de todos os filmes da série
oficial e revela as escolhas, impasses, soluções e orçamentos próprios dessa produção.
Consideramos muito interessante o fato de em 1962, a equipe de produção ter-se
preocupado em registrar a pré-produção e os bastidores das filmagens, uma vez que esta
prática só tornou-se habitual com o advento do desenvolvimento das novas mídias, em
particular da popularização dos DVD’s.
O documentário Whicker’s World, apresentado pelo jornalista Alan Whicker em
1967, tem cenas que fascinam até os espectadores de hoje. Alan teve acesso exclusivo às
filmagens de Com 007 só se vive duas vezes e expõe as dificuldades em se fazer um filme
de grande orçamento em apenas seis meses, correndo contra o tempo. Os custos de
produção pairavam sobre eles como uma guilhotina, até que o set estivesse pronto, o astro
no seu lugar e que o mundo irreal ganhasse vida.
A seleção de um elenco local nos países onde se passavam as histórias (atores que
falassem inglês, de preferência), as dificuldades (risco nas cenas de ação representando
perigo para os dublês; incêndio no estúdio durante as filmagens de 007 na mira dos
assassinos; atraso nas filmagens devido às condições meteorológicas) e as soluções
encontradas (utilização de Diane Cilento, esposa de Sean Connery, para substituir uma atriz
que não sabia nadar e não avisara previamente com receio de perder o papel principal), tudo
foi devidamente documentado e registrado, possibilitando hoje o acesso a este material com
o relançamento dos filmes em mídia digital.
Em uma das entrevistas colhidas por Cork e Stutz para o material de extras, Roger
Moore admite ter adotado uma postura mais cômica por não conseguir sustentar a dureza
que o ator Sean Connery empregara no papel.
Contudo, nem mesmo a equipe técnica foi eclipsada. Há material extra que mostra
como foi concebida a imagem visual dos créditos iniciais, o treinamento de dublês, o
desenho e confecção de maquetes e cenários, os diálogos entre elenco e equipe, a diversão e
o profissionalismo se integrando entre uma filmagem e outra. Um material riquíssimo e
exemplo de uma busca pelo perfeccionismo produtivo.
3- BOND, JAMES BOND
Nos livros da série, James filosofa e se questiona diversas vezes. Em Moscou contra
007 James indaga sobre os motivos de sua atuação antes de viajar para a Turquia “Será que
acredito mesmo no que estou defendendo?”. Em seguida, ele se interroga a respeito dos
meios que utilizará para atingir os objetivos, entre eles a sedução de uma espiã russa,
mostrando uma preocupação com sua imagem: “O que ele [o James Bond jovem] pensaria
do agente secreto ousado que estava cruzando o mundo num novo papel romântico... o de
cafetão a serviço da Inglaterra?”. (FLEMING, 2003a, p.144)
Já nos filmes, vemos um Bond explicitamente amoral. Nenhum diretor explorou o
lado psicológico de James. Ele é uma máquina produzida pela inteligência britânica, uma
máquina astuciosa, que nunca manifesta seus sentimentos, medos e anseios.
O cinema é o culto à imagem. Ele explora o James auto-confiante, sedutor, elegante
e quase sempre invulnerável. Por causa do merchandising que envolve a produção de
cinema, ele é acima de tudo um consumidor de artigos de luxo. O relógio Seiko, os DryMartini’s “batidos, não mexidos”, os luxuosíssimos carros e os impecáveis smokings são
elementos obrigatórios para se entender a personalidade bom vivant de James Bond.
Sua personalidade o põe em conflito com seus superiores, mostrando sua
negligência e arrogância no fim de quase todos os filmes, quando é procurado por eles após
a conclusão de sua missão e “desaparece do mapa” na companhia de uma mulher.
A revista Playboy foi a mais famosa “porta-voz” de 007. Nos anos 60, a publicação
serializou novelas e contos de Ian Fleming (Muitos dos contos e romances escritos sobre
James Bond nem foram filmados) e produziu matérias sobre os filmes (além de ensaios
fotográficos com as primeiras Bond Girls). Em retribuição Ian Fleming afirmou: “Se fosse
um indivíduo real, James Bond certamente seria um leitor de Playboy”. (CORK e STUTZ,
2007, p.188)
O mulherengo Bond raramente recusa um convite à luxúria. Apetite sexual
desenfreado ou necessidade de auto-afirmação como homem? Já é clichê obrigatório que o
inimigo o capture durante o ato sexual, única situação na qual ele está desarmado –
belicamente falando.
Além de bebidas, cigarros e mulheres, James tem outro grande vício, o jogo. É um
brilhante jogador, sai dos cassinos com os bolsos cheios e esta característica lhe é
fundamental em muitos filmes, como em Cassino Royale, de 2006, por exemplo, e no
Cassino Royale de 1967, que se trata de uma paródia, tendo Woody Allen e Orson Welles
como vilões e David Niven como James Bond de bigode.
Encontra-se então na descrição de 007 um dos segredos de sucesso da série. Ela
agrada ao público sofisticado, que encontra nas salas de cinema uma ponta de complacência
estética, traduzida sem pudor e com malícia em termos de atualidade.
4- OS FILMES DA SÉRIE SOB UMA VISÃO TEÓRICO-REALISTA
O estudo das Relações Internacionais se refere à guerra como “a manutenção da
ordem por outros meios” (BOBBIO, MATTEUCCI & PASQUINO, 1994, V.1, p.571).
James Bond, com sua “licença para matar”, evita o surgimento de novos conflitos
internacionais, contudo sua forma de manter a ordem é a justiça com as próprias mãos.
Tudo isso, claro, a serviço secreto dos interesses britânicos.
Vejamos os fatos ficcionais sob um ponto de vista político, atentando para os
seguintes índices:
a) ao menor sinal de ameaça, “M” ordena a Bond que investigue e desarme o
oponente, mesmo que vidas sejam sacrificadas para que tal objetivo seja atingido;
b) Bond utiliza sua arma em qualquer país. E sua licença para matar não se limita aos
territórios britânicos e aliados;
c) As Bond Girls têm caráter dúbio. São poucas as que não traem a confiança do
espião em troca de remuneração, ou por medo.
Agora, comparemos as características dos filmes de 007 apontadas acima com as
visões políticas dos teóricos realistas:
a) em “O Príncipe”, Nicolau Maquiavel define regras a serem seguidas para evitar
ataques inimigos em seu território. Entre elas, a principal talvez seja “ao menor
sinal de risco, ataque antes de ser atacado”. Bond segue à risca esta máxima, o que
pode ser visto já no primeiro filme da série, quando ele destrói a ameaçadora ilha de
Dr. No. Maquiavel também afirma que “os fins justificam os meios". Daí o ataque
antecipado, quando há uma ameaça, se torna justificável para garantir a defesa do
seu território;
b) 007 não tem poder de prisão, julgamento ou condenação fora dos territórios
controlados pela Coroa Britânica, mesmo que esta lhe conceda tal autoridade. A
Grã-Bretanha é mostrada nos filmes como um Estado Supranacional, quando nem
mesmo os Blocos Econômicos o são. Mesmo durante uma guerra, a soberania de
todos os Estados deve ser respeitada. James Bond ignora soberanias, desrespeitando
inclusive as ordens de seu superior, M. O agente se infiltra inclusive em
propriedades privadas, sem qualquer mandado judicial, destruindo tais bens, caso
representem ameaça aos interesses aliados (como acontece em quase todos os
filmes). Esta atitude pode não ser totalmente inverossímil, mas é algo nitidamente
inaceitável perante os Estados Soberanos e órgãos internacionais como a OTAN e a
ONU. Thomas Hobbes, em seu livro intitulado Leviatã, diz que os homens vivendo
em sociedade abriram mão da liberdade total para ter mais segurança;
c) “O homem é bom, a sociedade é que o corrompe” é uma das principais linhas de
pensamento das teorias de Jean Jacques Rousseau. Ela se aplica às personagens
secundárias de 007. A ambição desmedida, o medo e até mesmo o amor podem
corromper uma pessoa de boa índole.
Essa interpretação é apenas uma das muitas possibilidades de entendimento do
pensamento desses teóricos. A visão política dos realistas é a base fundamental para a
análise de situações reais e fictícias, neste caso os filmes de James Bond.
Nas Relações Internacionais prevalece um sistema anárquico em que predomina a
força e o conflito na busca do poder. Ou seja, os princípios morais e democráticos são
aplicados no âmbito da política interna, mas devido à ausência de um Leviatã no sistema
internacional, a paz aparenta ser possível quando há o equilíbrio de poder e força dos
Estados oponentes.
Os índices supracitados, ao serem comparados com as teorias políticas explicitadas,
denunciam um grande cinismo, tanto nas relações internacionais reais como dentro da
ficção. Apesar das pouco críveis cenas de ação dos filmes, é notável a verossimilhança do
quesito moral existente entre as produções e a realidade. A falta de transparência,
fundamental em filmes de espionagem, reflete-se nos acordos internacionais, onde
prevalecem o oportunismo e a manutenção de uma balança de poder anti-hegemônica, que
na prática não existe, devido ao imperialismo das grandes potências mundiais.
5- A INFLUÊNCIA DOS CONFLITOS INTERNACIONAIS NA PRODUÇÃO DA
SÉRIE.
O período que marca o ano de início da produção dos filmes da franquia 007 até o
ano de lançamento do décimo sexto filme da série (1962/1989) coincide com um quadro de
tensões no campo político internacional. Era a chamada Guerra Fria, conflito que se fez
acontecer em sua grande parte indiretamente entre duas superpotências, mas que mudou
completamente o panorama político e econômico no mundo. Enquanto os E.U.A.
representam o capitalismo, a U.R.S.S. representa o socialismo num embate feito às escuras,
um embate feito de indiretas e ameaças constantes.
Ocidente versus Oriente é a antítese mais presente nos filmes. Em praticamente
todos os longas o embate está presente. É o ocidente tendo que constantemente conter a
“ameaça vermelha”. Dos vilões mais caricatos aos mais críveis, Bond sempre teve que os
encarar. Das ameaças globais aos acontecimentos regionais de independência, das rixas à
détente3, os filmes estão repletos de referências diretas ou indiretas a tais acontecimentos.
Mas não foi só na Guerra Fria que os produtores da série se apoiaram a fim de
sustentar bons argumentos para a trama. De repente um personagem, presente em 16 dos
filmes, morre, cai “como um grande muro”. O que fazer quando não se tem mais um
inimigo em potencial que assuste não somente um espião, mas toda uma nação?
É o que explica o hiato de seis anos na produção dos filmes do 007. Com o fim da
União Soviética os roteiristas e produtores levaram tempo até encontrarem um novo mal
para ser combatido: o terrorismo.
Vejamos agora como esses “vilões” marcaram sua presença na série. Escolhemos
quatro filmes dentre os vários do herói para exemplificar o quão intrinsecamente eles se
3
Détente é uma palavra francesa que significa distensão ou relaxamento. O termo tem sido usado em política
internacional desde a década de 1970. De uma maneira geral, o termo pode ser empregado para se referir a
qualquer situação internacional em que nações que entretinham anteriormente um relacionamento hostil sem
no entanto estarem em um estado de guerra declarada passam a restabelecer relações diplomáticas e culturais,
apaziguando seu relacionamento e diminuindo o risco de conflito declarado.
expõem. São eles 007 Contra o satânico Dr. No, Com 007 só se vive duas vezes, 007
Contra Octopussy e 007 – Um novo dia para morrer.
5.1 – A PRESENÇA DA GUERRA FRIA NAS PRODUÇÕES.
A Guerra Fria que de fato tentou corresponder à sua retórica de luta pela
supremacia ou aniquilação não era aquela em que decisões fundamentais eram
tomadas pelos governos, mas a nebulosa disputa entre seus vários serviços
secretos reconhecido e não reconhecidos (sic), que no Ocidente produziu esse
tão característico subproduto da tensão internacional, a ficção de espionagem e
assassinato clandestino. Nesse gênero, os britânicos, com o James Bond de Ian
Fleming e os heróis agridoces de John Le Carré – ambos tinham trabalhado
nos serviços secretos britânicos -, mantiveram uma firme superioridade,
compensando assim o declínio de seu país no mundo do poder real.4
Como ilustrou Eric Hobsbawn em seu A Era dos Extremos, James Bond foi produto
deste conflito. Havia de existir um herói que viesse a favor da segurança mundial. Pois
gerações inteiras cresceram sob a sombra de batalhas nucleares globais, visto que ambas as
potências já detinham a tecnologia necessária para a produção de mísseis e bombas
nucleares. A propósito, as duas potências já tinham inclusive demonstrado seu poder de
destruição, vide o ataque realizado pelos E.U.A. sobre Hiroshima e Nagasaki em 1945 e a
retórica realizada pela U.R.S.S. em 1949, num deserto do Cazaquistão. Neste quadro,
somente o medo da “destruição mútua inevitável” (representado pela sigla MAD, das
iniciais da expressão em inglês – mutually assured destruction) impediria algum dos lados
de dar o ultimato para o planejado suicídio da civilização.
Uma guerra declarada entre as nações nunca ocorreu, mas momentos de tensão não
faltaram. Foi o caso da crise dos mísseis cubanos, em 1962. Para contra-ameaçar os mísseis
americanos já instalados do outro lado da fronteira soviética com a Turquia, o líder
soviético Nikita Kruschev decidiu colocar mísseis em Cuba, apontados para os Estados
Unidos. Ambos os países retrocederam em suas posições, entrando num acordo e retirando
4
HOBSBAWN, Eric. Era dos extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 2. ed., p.226
seus mísseis, mas foi um exercício de força desse tipo inteiramente supérfluo, que por
alguns dias deixou o mundo à beira de uma guerra desnecessária5.
E é neste ano que é lançado 007 Contra o satânico Dr. No, dirigido por Terence
Young. Na trama, Bond vai à Jamaica investigar o assassinato de um agente britânico que
estava investigando uma possível atividade nuclear numa ilha próxima a Kingston, a Crab
Key. Pode ser proveniente dessa ilha o sinal que está causando interferência nos foguetes
americanos lançados de Cabo Canaveral. Com a cooperação de Felix Leiter, agente da
C.I.A. (Agência Central de Inteligência), e de um pescador local, Bond consegue obter
informações sobre a ilha (que a princípio funciona como uma mina de bauxita) e sobre o
seu dono, o Dr. No. Até o fim da história este se revela como membro da SPECTRE
(Especial Executiva de Contra-Inteligência, Terrorismo, Retaliação e Extorsão).
Filho indesejado de um missionário alemão e de uma moça chinesa de boa família,
No foi tesoureiro de uma das maiores sociedades criminosas da China, até que deu um
golpe na referida sociedade e fugiu com 10 milhões de dólares, dinheiro com o qual lhe foi
possível empreender seus planos. Dr. No planeja desequilibrar os controles do giroscópio
de um míssel com uma freqüência de rádio, podendo assim controlar quantos mísseis achar
necessário, podendo inclusive fazer com que tais mísseis atinjam nações inimigas,
semeando a discórdia entre elas. O embate de ideologias entre Bond e o vilão se mostra
explícito no seguinte diálogo:
Bond: Diga-me, interceptar mísseis americanos compensa sua falta de mãos?
Dr. No: Os mísseis são o primeiro passo para provar nosso poder.
Bond: “Nosso poder?” Com seu descaso pela vida, deve trabalhar para o Oriente.
Dr. No: Leste, Oeste... pontos cardeais... um tão tolo quanto o outro.6
No fim das contas Bond vence o vilão e poupa o mundo de mais uma ameaça. No
entanto, é impossível o público não associar a ameaça de uma ilha que controla mísseis no
filme com o episódio dos mísseis cubanos. E assim fomenta-se o imaginário popular.
5
6
HOBSBAWN, Eric. Era dos extremos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 2. ed., p.227
Trecho de diálogo do filme 007 contra o satânico Dr. No
Cinco anos mais tarde (1967), é lançado Com 007 só se vive duas vezes. Dirigido
por Lewis Gilbert, o filme começa com o seqüestro de um foguete americano em pleno
espaço. Os russos são automaticamente considerados culpados do seqüestro numa reunião
de cúpula, acusação que negam veementemente. “O mundo sabe que somos amantes da
paz”, diz o líder soviético. E os E.U.A. rebatem informando aos russos que em breve farão
um novo lançamento e que se o atentado se repetir será considerado um ato de guerra, uma
tentativa dos russos de assumirem controle completo do espaço para fins militares.
Convencido de que os seqüestros não fazem parte de uma simples rixa entre as duas
potências, o governo inglês coloca o seu melhor agente para investigar o caso. Detectado
por uma estação russa em Cingapura, o “foguete-sequestrador” não aterrissou na Rússia,
mas sim no Japão.
E é nesse contexto que Bond parte para o Japão, a fim de, com o apoio do Serviço
Secreto Japonês, descobrir quem ou o que está por trás disso. Mas antes o espião precisa
despistar alguns de seus inimigos, e para isso simula sua morte e funeral com a ajuda de sua
Agência. Durante a investigação de um complexo químico-industrial (a Indústria Química
Osato), Bond descobre que a empresa tem vendido produtos químicos necessários para a
construção e manutenção de foguetes para a SPECTRE (Organização liderada por Ernst
Stavro Blofeld). Nomeado como “Número 1” pela SPECTRE, Blofeld, em mais uma
jogada estratégica, seqüestra outro foguete, desta vez um russo, para que a culpa recaia
sobre os americanos, colocando assim os países um contra o outro. Seu plano é o de iniciar
uma nova Guerra Mundial. É um filme completamente inserido à conjuntura da época,
visto que o presidente norte-americano Ronald Reagan tinha como prioridade a execução
do projeto “Guerra nas Estrelas”, que consistia no domínio completo do espaço para fins
militares.
É também no contexto da Guerra Fria que é lançado 007 Contra Octopussy, com a
direção de John Glen. O filme começa com o assassinato do agente 009 em uma missão em
Berlim Oriental. O agente está resgatando a prova de que jóias russas preciosas estão sendo
falsificadas a fim de mover toda uma organização de contrabandistas. Bond é designado
para investigar o caso e descobre que isso é apenas um detalhe para um plano bem maior. O
ano é 1983 e, tanto na realidade quanto na ficção, há um tópico de discussão entre os
militares da Rússia: a negociação com a OTAN quanto ao desarmamento.
O General Gogol (militar soviético que mantém boas relações com a Inglaterra,
numa clara referência à détente) acha que adotar a proposta da OTAN não compromete a
posição defensiva da Rússia, ao passo que o General Orlov não quer entregar a vantagem
dos russos em acordo de desarmamento e inclusive quer atacar. Segundo ele, com um
rápido ataque de 10 divisões armadas do norte da Alemanha Oriental, mais 5 da
Checoslováquia e mais o reforço das divisões que estão na fronteira da Rússia Ocidental,
ele consegue a vitória em 5 dias, dominando assim toda a Europa. A divergência entre os
generais fica explícita no seguinte trecho:
Gogol: A OTAN contra-atacará com armas nucleares.
Orlov: Nunca! O Ocidente é decadente e dividido. Não tem estômago para arriscar
nossas retaliações atômicas. Em toda a Europa, há demonstrações diárias exigindo
desarmamento nuclear.
Gogol: Não vejo motivo para arriscar uma guerra para satisfazer sua paranóia
pessoal e sua sede de conquista. Gastemos nossas energias em problemas domésticos.
Presidente: (Interrompendo) O socialismo mundial será alcançado pacificamente.
Nosso papel militar é estritamente defensivo.7
No decorrer da trama, Bond descobre que Orlov está envolvido com Kamal Khan,
príncipe exilado do Afeganistão, responsável pela venda das jóias falsificadas, e este, por
sua vez, está envolvido com Octopussy, rica empresária que construiu seu incontestável
império com base em contrabando e consignação de jóias. Mas Octopussy está sendo usada
por Kamal e Orlov. Ela é dona de um circo itinerante cuja próxima atração ocorrerá na base
da Força Aérea dos E.U.A., na Alemanha Ocidental, em Karl-Marx-Stadt.
O plano deles consiste em atravessar a fronteira entra as duas partes da Alemanha e
logo depois vender as jóias originais no mercado negro. Mas as jóias já foram retiradas do
trem pelo General Orlov e no lugar delas foi instalada uma bomba de destruição em massa
que vai retirar do mapa qualquer pedaço de terra num raio de 30 quilômetros. Os Estados
Unidos se tornarão os principais responsáveis pela explosão da bomba, ao mesmo tempo
em que a Europa, apavorada, insistirá no desarmamento unilateral, deixando toda a
7
Trecho de diálogo do filme 007 contra Octopussy.
fronteira livre para o General dominar. Orlov sabe que pode provocar uma guerra nuclear,
mas antes de morrer se auto-intitula o “herói da União Soviética”. A bomba atravessa a
fronteira junto com o circo para o lado Ocidental, porém Bond consegue desarmá-la a
tempo e ainda arruma tempo para retaliação à Kamal. Unindo forças com Octopussy
(ambos têm um passado em comum, no qual um influenciou indiretamente a vida do outro),
eles destroem o inimigo.
Com a conclusão do caso, muito parecido com o clima real que pairou sobre o
mundo nessa época (da iminência de uma devastação que nunca ocorreu), o governo russo,
na figura do general Gogol nega categoricamente o incidente ocorrido, mas demonstra uma
falha proposital ao pedir que Bond recupere a Estrela Romanoff, que havia sido roubada. E
é pelo bem do relacionamento anglo-soviético, proclama “M”, que certamente isso pode ser
feito. Definitivamente a détente.
Pouco antes do término oficial da Guerra Fria os filmes com Timothy Dalton no
papel de James Bond desviaram seu foco para outros problemas mundiais, como o tráfico
de drogas e ameaças ao desenvolvimento da Terceira Revolução Industrial.
Em 1985, no filme 007 na mira dos assassinos, o vilão, Max Zorin, pretende
destruir o Vale do Silício, explodindo a falha geológica de São Francisco, na Califórnia,
para monopolizar a produção de microchips.
Dois anos depois, é lançado 007 marcado para a morte, no qual a missão de Bond
consiste em combater o tráfico de ópio na Ásia. Os traficantes em questão são os afegãos. É
importante ressaltar que alguns anos antes da produção deste filme, o governo norteamericano armou e preparou o exército talibã para que defendessem o Afeganistão da
invasão soviética.
O tráfico de drogas é mais uma vez abordado em 007 – Permissão para matar. Em
Istmo (país fictício situado na América do Sul), Bond, agindo por conta própria após
desobedecer “M”, investiga e desarticula a quadrilha de um poderoso banqueiro que
controla os cassinos e o tráfico de cocaína. O presidente do país é mostrado como uma peça
subordinada ao tráfico de drogas, recebendo altos pagamentos da máfia.
5.2 – O PÓS-GUERRA FRIA NAS PRODUÇÕES RECENTES.
Com o término da Guerra Fria e conseqüentemente da União Soviética terminam
também as idéias sobre o que James Bond irá combater. Que a Era do socialismo acabou
fica claro logo na abertura do primeiro filme que se segue, 007 contra Goldeneye, de 1995,
onde mulheres seminuas (característica marcante das aberturas dos filmes da série)
destroem símbolos da agora ex-União Soviética.
Surge o terrorismo como novo argumento para os novos e restantes cinco filmes da
série. Não que ele nunca estivesse presente nas histórias, mas agora ele ganha mais
destaque. Dos mais recentes, o filme que exprime de forma mais marcante a luta contra o
terrorismo é 007 – Um novo dia para morrer, de 2002, dirigido por Lee Tamahori.
Lançado um ano após os atentados terroristas de 11 de setembro, o filme não só
trata de terrorismo, como de vários outros conflitos, como as disputas entre Coréia do Norte
e do Sul, o caso dos diamantes de conflito de Serra Leoa, além de referências à Revolução
Cubana e à restituição de Hong Kong por parte da China. Há também uma referência a uma
recente, porém não menos preocupante organização criminosa: a de contrabando de órgãos.
Na trama, Bond parte para a Coréia do Norte (que a princípio deveria estar
desmilitarizada) para se infiltrar numa negociação de armas que está sendo paga com
diamantes do conflito africano. Seu disfarce é comprometido e ele é desmascarado. Mesmo
pensando ter matado o Coronel Moon, ele se torna prisioneiro dos coreanos por 14 meses
até ser trocado por Zao, terrorista coreano e voltar à ativa.
Em sua empreitada, Bond conta com a ajuda dos chineses e dos cubanos para
localizar Zao, que agora está livre. No meio do caminho se depara com Jinx Johnson,
agente da NSA (Agência de Segurança Nacional, numa válida ilustração da cooperação
entre Estados Unidos e Inglaterra, que mantêm como aliados seus governantes, George W.
Bush e Tony Blair na luta contra o terrorismo também na vida real).
Bond e Jinx encontram Zao fazendo tratamento intensivo numa clínica de
restauração de DNA (DNA que é proveniente de contrabando de órfãos e refugiados,
pessoas que, de acordo com o médico da clínica, não fariam falta a ninguém8), e através
dele chegam à Gustav Graves, milionário bem visto pela sociedade, que construiu seu
império a partir da descoberta de diamantes em uma mina.
Conectando as relações entre Graves e Zao, Bond acaba descobrindo que Graves na
verdade é o Coronel Moon, que ele achava que havia matado na Coréia havia 14 meses.
Com o suporte da restauração de DNA, agora ele tem uma nova face e planeja ver toda a
Coréia dominada pelo Norte. Ele usufrui de uma máquina chamada Ícaro, tão poderosa e
com as mesmas finalidades do sol, e usa-a para destruir todos os campos minados que
afetam a Coréia do Norte militar e estrategicamente. Começa atacando o Paralelo 38º
(fronteira que desde 1953 divide a Coréia do Norte e a do Sul), mas Bond e Jinx conseguem
abatê-lo, vencendo mais uma vez o terrorismo e demonstrando assim sucessivamente a
suposta superioridade e invencibilidade dos E.U.A. e da Inglaterra quando o assunto é
segurança nacional.
8
Fato que confirma o cinismo apontado no capítulo 4
6. O CINEMA SE ADEQUANDO ÀS NOVAS VISÕES OCIDENTAIS
O poder da imagem passou a ser questão estratégica durante o século XX, com o
surgimento de mídias de grande impacto como a fotografia, o cinema, o rádio e a televisão.
Com o avanço da tecnologia, a reprodução e o alcance das comunicações passaram a
abranger virtualmente todo o planeta, promovendo sua globalização.
A moda, as referências culturais, os mitos, a tecnologia e suas transformações
aparecem nos filmes de 007. Alguns símbolos representam imagens de marca da série,
como é o caso dos automóveis, representando muito bem o ambiente sociocultural de cada
filme.
A questão dos hábitos e do comportamento das personagens também tem imensa
importância ao se analisar uma série que, através da ficção, ilustrou os últimos 45 anos de
nossa História.
Na década de 1940, por exemplo, o cigarro era símbolo de charme. Isto pode ser
comprovado em qualquer filme com Greta Garbo ou Rita Hayworth. Já no primeiro filme
da cinessérie 007, James Bond, em sua primeira aparição no filme, aparece fumando. O
fumo é quase uma companhia para o espião ao longo de vários dos primeiros filmes. A
partir da década de 1990, com as constantes advertências de órgãos da saúde de todo o
mundo, isso muda. Pierce Brosnan, em sua estréia no papel de Bond (007 contra
Goldeneye), nocauteia um inimigo russo que estava fumando e diz “Que vício nojento!”.
Outra mudança no comportamento de Bond devido a problemas mundiais é a
redução de sua promiscuidade. Nos primeiros filmes, James vai para a cama com diversas
mulheres (só em um filme o número de mulheres chega a seis). O sexto filme da série
oficial, 007 a serviço secreto de Sua Majestade, mostra um Bond mais romântico, que se
casa e depois sofre com a perda, já que sua esposa é assassinada na lua-de-mel. Passa então
a assumir uma atitude anti-matrimonial, julgando que a sua aproximação põe outras pessoas
em risco. Os 8 filmes seguintes mostram novamente um espião promíscuo. Quando
Timothy Dalton assume o papel de Bond em 1987, a AIDS já era uma preocupante
realidade, e esse é o principal motivo dessa redução de parceiras sexuais nas atuais
produções. Em 007 – Permissão para matar, logo após a cerimônia de casamento de seu
melhor amigo, Felix Leiter, Bond é questionado pela esposa de Leiter se ele gostaria de se
casar. Ele diz “Não”, sem dar explicações. Na lua-de-mel de Felix, sua casa é invadida e a
noiva é assassinada. Leiter é jogado em um tanque de tubarões e tem alguns membros
amputados, mas sobrevive.
A guerra dos sexos instaurada no mundo ocidental a partir dos anos 70 implica
numa ligeira inversão de papéis para as personagens femininas de Bond. Sob a pele dos
atores Sean Connery e Roger Moore, 007 chegou a bater em suas Bond Girls. A mulher,
que nos filmes da série eram meros objetos sexuais para a distração e deleite de Bond,
perde, em parte, a tradicional passividade e submissão. Para a feminista Camille Paglia,
James Bond é o símbolo do machismo universal.
Às vésperas de vir ao Brasil para dar uma palestra em Porto Alegre, Paglia
concedeu à Folha de São Paulo uma entrevista, na qual disse:
Feministas têm freqüentemente valorizado ou venerado a ‘mulher de carreira’
e a posto num lugar mais alto que a mãe e a esposa. Isso, porém, vai contra a
maneira como a maior parte das mulheres no mundo se sente verdadeiramente.
(...) Feminismo deveria ser sobre mulheres terem a oportunidade de avançar,
não serem abusadas e terem o direito de auto-subsistência econômica para não
depender de um parente homem.9
Já no Brasil, na palestra transmitida de Porto Alegre pela Internet, no dia 08 de
novembro de 2007, Camille reforça esta idéia:
Para cada assediador sexual grosseiro, existem 10 mulheres sicofantas que
desavergonhadamente usam seus atrativos sexuais para avançar na carreira.
Não queremos uma sociedade supervisionada por velhas governantas e dedosduros. A missão correta do feminismo é encorajar as mulheres a agir
responsavelmente, sem ter de ficar pedindo socorro todo o tempo a figuras que
encarnam a autoridade paterna.10
9
Depoimento de Camille Paglia em entrevista publicada na Folha de São Paulo de 21 de outubro de 2007,
página A26.
10
Idem
Nos filmes da era Pierce Brosnan, a mulher tinha papel decisivo para o
cumprimento das missões de Bond. Não que já não houvesse participação feminina antes
(007 contra Octopussy, 007 – O espião que me amava, 007 – Somente para seus olhos),
mas na década de 90 a Bond Girl assume uma independência maior, tanto bélica como
financeira. Diferente da mulher que ouve de Bond em 007 – Permissão para matar “Tome
este dinheiro e vá comprar roupas melhores. Você está horrível”.
A sexualidade também é um elemento que se contradiz ao longo dos filmes. Em
Moscou contra 007, o comandante Troop diz “Pensei que todos concordássemos que os
homossexuais são o pior risco de segurança que existe. Não consigo ver os americanos
entregando tantos segredos atômicos a um bando de frescos encharcados de perfume”. Em
007 – Os diamantes são eternos, entre os vilões há um casal gay, que é tratado no filme de
modo cômico e caricato demais até para os padrões da época. Para o próximo filme de 007,
ainda sem título e com previsão de lançamento para 2008, a imprensa televisiva brasileira
especulou entre os meses de setembro e outubro de 2007 sobre um possível romance
homossexual envolvendo James Bond, na pele do ator Daniel Craig.
Para Diego Cardoso, colunista do periódico A Capa, de distribuição para o mercado
GLS,
Anunciar personagens gays de filmes e livros pode parecer bacana na medida
em que ajuda a dar mais visibilidade à comunidade gay, mas não parece servir
para que a sociedade se abra para conferir direitos universais aos que preferem
a companhia de alguém do mesmo sexo (...) Não bastasse algumas
personalidades serem ‘forçadas’ a sair do armário, a moda agora é dizer que
este ou aquele personagem é homossexual. Dumbledore, do Harry Potter, e o
Exterminador do Futuro são os dois últimos exemplos dessa safra de novos
gays. 11
11
CARDOSO, Diego. Consumidor gay em alta: a moda agora é tirar personagens de filmes e livros do
armário. In: http://www.acapa.com.br/site/noticia.asp?codigo=2794, acesso em 12/11/2007
7- CONCLUSÃO
Os filmes do espião 007 sempre mostraram tecnologia de ponta, muitos anos antes
de algumas novidades se tornarem realidade. Em 1963, o espião já utilizava uma espécie de
pager e um telefone em seu próprio carro. Esses aparelhos só ganharam popularidade no
Brasil em meados dos anos 90. Pouco antes disso, nem existiam.
No entanto a realidade está cada vez mais atrelada aos filmes de Bond, pois muitas
das novidades apresentadas se tornam obsoletas em pouco tempo. Os produtores precisam
se esforçar cada vez mais para impressionar o público com a invenção de novos
equipamentos.
Além das geniais invenções usadas nos filmes para facilitarem a vida do agente, a
ostentação militar das grandes potências (EUA e União Soviética), que disputavam a todo
tempo seu poder, seja com armas nucleares, seja com espaçonaves na corrida espacial,
crescia. Particularmente no período da Guerra Fria, os países supracitados almejavam ter o
maior domínio e conhecimento do espaço. É notável que essa disputa tinha um contexto
científico e militar, mas não era somente isso, talvez mais importante do que o aspecto da
estratégia, havia também uma profunda questão psicológica e cultural envolvida.
Principalmente depois do bombardeio em Hiroshima e Nagazaki, o pânico nuclear
se instaurou no mundo em vias de se globalizar. As ameaças nucleares foram amplamente
difundidas nos filmes do agente 007. Mais do que nunca, para os líderes mundiais, a
sobrevivência de uma nação ou de um bloco econômico, parecia depender basicamente do
conhecimento científico e tecnológico.
O apogeu do poder da ciência era vertiginosamente alto. Os dois lados da
bipolaridade acusavam-se mutuamente, mas os líderes dos dois sistemas tinham em comum
a visão de que o importante era investir em pesquisas.
Em 1962 a Guerra Fria chegou a um nível preocupante com a crise dos mísseis em
Cuba. Os Estados Unidos reagiram energicamente à iniciativa soviética de instalar uma
plataforma nuclear em território cubano, a apenas 150 quilômetros da costa norte-
americana. A União Soviética recuou, mas o mundo sentiu pela primeira vez o perigo real
de um confronto nuclear entre as superpotências. Mais do que nunca, a conquista do espaço
e das tecnologias dos foguetes tornava-se um objetivo prioritário para os governos de
Washington e de Moscou.
Indubitavelmente, forças tão grandiosas exigiam uma atualização permanente de
ambos os lados. Cada superpotência precisava estar sempre a par das conquistas
tecnológicas do adversário e interrompê-las caso necessário.
É neste cenário que os produtores da série colocam a personagem Q em evidência.
Mais que uma personagem, Q é o símbolo do poderio militar britânico, sendo projetado em
telas de cinema de diversos países. A ele são creditadas as criações dos equipamentos
bélicos e de segurança utilizados por James Bond. Uma das mais cultuadas invenções
talvez seja a maleta 007, que dispunha de munição, gás lacrimogêneo, faca retrátil e um
dispositivo que a explodiria caso fosse aberta por outra pessoa.
A partir de Moscou contra 007, Q aperfeiçoa a cada filme a tecnologia aplicada nos
equipamentos, entre eles relógios-comunicadores, óculos que permitem ver através de vidro
fumê, creme dental explosivo, campos de realidade virtual (para o treinamento de agentes)
e, é claro, os fantásticos automóveis conduzidos pelo herói.
Os carros de Bond não possuem a locomoção de pessoas como única função. Eles
são verdadeiras armas. Disparam mísseis, lançam chamas, ejetam Bond com pára-quedas,
submergem como submarinos e em 007 – Um novo dia para morrer o automóvel se torna
invisível.
Ficção ou não, o cinema muitas vezes antecipa a visualização de futuras
tecnologias, e os produtores de 007 não deixam por menos. E o fato é que, em uma época
em que os efeitos especiais eram insuficientes para gerar tais equipamentos, tornava-se
necessário criá-los mecanicamente, criando assim uma associação entre a inteligência e
criatividade de Q e a capacidade britânica de construir equipamentos bélicos e de
espionagem.
Este trabalho conecta o ponto de vista da produção cinematográfica com a análise
das relações internacionais. Mesmo que subjetivamente, a opinião política está lá como
pano de fundo para a ação de James Bond.
O cenário internacional na segunda metade do século XX foi extremista. E o
surgimento de novos veículos de comunicação permitiu à humanidade interagir com a
história, fazendo desta forma, com que opiniões, teorias e códigos de ética, moda e conduta
fossem propagados numa escala de tempo ínfima.
Os fenômenos artísticos que conquistaram o mundo certamente serão lembrados e
estudados. James Bond é um desses fenômenos do século XX, assim como temos em outras
linguagens de arte as heroínas de Sidney Sheldon, as canções de Antônio Carlos Jobim, as
pinturas de Pablo Picasso e os poemas de Ted Hughes. Eles nem sempre ultrapassam todas
as fronteiras geográficas, devido à censura de determinados governos, mas ultrapassam a
imaginação humana, divertindo-nos e conquistando seu espaço.
As relações internacionais que redundam em relações culturais presentes nos filmes
estudados devem ser analisadas com mais seriedade do que o mero divertimento propõe. A
mídia constrói verdades sem dar a elas uma autoria e sem que se tenham mecanismos para
discuti-las, uma vez que essas verdades aparecem associadas a uma obra ficcional,
aparentemente destinada apenas ao entretenimento.
Essa pesquisa favorece, portanto, flagrar essa visão cínica de superioridade das
hegemonias que ignoram quaisquer valores que não sejam seus. A bipolarização da Guerra
Fria foi traduzida por meio do cinema, este foi um meio de ampliar a visão das pessoas a
respeito da situação mundial naquele período, favorecendo os interesses das potências que
produziam tais entretenimentos. O produtor cultural deve, com base nestes fatos, distinguir
os limites entre o respeito e o abuso das culturas alheias, estabelecendo e formulando seus
próprios valores dentro da contemporaneidade, sem nunca perder a ética e enganar seu
público.
8- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Política. Brasília: Universidade de Brasília, 1994.
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narrativa. Petrópolis: Vozes, 1971.
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SENE, Eustáquio de & MOREIRA, João Carlos. Geografia geral e do Brasil. São Paulo:
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TORELLI, Eduardo.
9- REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS
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e livros do armário. In: http://www.acapa.com.br/site/noticia.asp?codigo=2794, acesso em
12/11/2007
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acesso em 10/11/2007.
10- ANEXOS
Filmografia oficial:
007 contra o satânico Dr. No (Dr. No, 1962), dir: Terrence Young
Moscou contra 007 (From Rússia with love, 1963), dir: Terrence Young
007 contra Goldfinger (Goldfinger, 1964), dir: Guy Hamilton
007 contra a chantagem atômica (Thunderball, 1965), dir: Terrence Young
Com 007 só se vive duas vezes (You only live twice, 1967), c
007 a serviço secreto de Sua Majestade (On Her Majesty’s Secret Service, 1969),
dir: Peter Hunt
007 – Os diamantes são eternos (Diamonds are forever, 1971), dir: Guy Hamilton
007 – Viva e deixe morrer (Live and let die, 1973), dir: Guy Hamilton
007 contra o homem da pistola de ouro (The man with the golden gun, 1974), dir:
Guy Hamilton
007 – O espião que me amava (The spy who loved me, 1977), dir: Lewis Gilbert
007 contra o foguete da morte (Moonraker, 1979), dir: Lewis Gilbert
007 – Somente para seus olhos (For your eyes only, 1981), dir: John Glen
007 contra Octopussy (Octopussy, 1983), dir: John Glen
007 na mira dos assassinos (A view to a kill, 1985), dir: John Glen
007 marcado para a morte (The living daylights, 1987), dir: John Glen
007 – Permissão para matar (Licence to kill, 1989), dir: John Glen
007 contra Goldeneye (Goldeneye, 1995), dir: Martin Campbell
007 – O amanhã nunca morre (Tomorrow never dies, 1997), dir: Roger
Spottiswoode
007 – O mundo não é o bastante (The world is not enough, 1999), dir: Michael
Apted
007 – Um novo dia para morrer (Die another day, 2002), dir: Lee Tamahori
007 – Cassino Royale (Casino Royale, 2006), dir: Martin Campbell
Filmografia não-oficial:
Cassino Royale (Casino Royale, 1967), dir: John Huston, Ken Hughes, Val Guest,
Robert Parrish e Joey McGrath.
Nunca mais outra vez (Never say never again, 1983), dir: Irvin Kers.

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