Cartografia para mudança – o aparecimento de uma prática nova

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Cartografia para mudança – o aparecimento de uma prática nova
Resumo: Cartografia para
mudança – o aparecimento
de uma prática nova
SEÇÃO DE TEMAS
1
por JON CORBETT, GIACOMO RAMBALDI, PETER KYEM, DAN WEINER, RACHEL OLSON,
JULIUS MUCHEMI, MIKE McCALL e ROBERT CHAMBERS
Informações Gerais
A Conferência Internacional de Cartografia para Mudança sobre
o Gerenciamento e a Comunicação de Informações Geográficas
foi realizada no Kenya College of Communication of Technology,
in Nairobi, Quênia, de 7 a 10 Setembro de 2005. A conferência
reuniu 154 pessoas de 45 países e nações diferentes com
experiência prática sobre a implementação do SIG Participativo
(SPIG).
Esses praticantes são unidos por sua convicção de que a
prática de PGIS (Caixa 1) poderá ter implicações profundas para
grupos marginalizados da sociedade civil:
• Poderá aumentar a capacidade de gerar, gerenciar e comunicar
informações geográficas;
• Poderá estimular à inovação; e em última instância,
• Poderá incentivar uma mudança social positiva.
As ferramentas geradas e utilizadas nessa prática poderão se
tornar veículos interativos para redes de trabalho, discussão, troca
de informações, análise e tomada de decisões.
Quando a prática de PGIS começou a se mudar do mundo
não digital para o digital em meados dos anos noventa, surgiram
algumas preocupações sobre a viabilidade da aplicação das
ferramentas de PGIS relativamente complexas de maneira
participativa. Na sua publicação intitulada ‘SIG Participativo:
oportunidade ou oxímoro?’ Abbot et al (1998) identificaram e
debateram os 'benefícios e problemas da abordagem participativa
de SIG’. Perguntaram se os Sistemas de Informações Geográficas
(GIS) podem ser utilizados por pessoas locais, ‘adequando-as para
influenciar as decisões políticas pela posse e uso dos dados’ ou se
‘um “GIS participativo” seria simplesmente extrativo?’
Caixa 1: SPIG uma prática emergente
O SPIG é em si uma prática emergente. É o resultado de uma fusão dos
métodos de Aprendizagem e Ação Participativa – AAP (Participatory
Learning and Action-PLA) e as Tecnologias de Informações Geográficas
– TIG (Geographic Information Technologies – GIT). O PGIS facilita a
representação dos conhecimentos de pessoas locais dos espaços por
meio de mapas bidimensionais ou tridimensionais. Tais produtos
cartográficos poderão ser utilizados para facilitar os processos de
tomada de decisões, bem como para apoiar as comunicações e a
defesa da comunidade.
A prática de PGIS visa a proporcionar poder à comunidade através de
aplicações adaptadas, baseadas na demanda de uso simples dessas
tecnologias cartográficas. Quando praticado corretamente, o SPIG é
flexível e se adapta aos diversos ambientes sócio-culturais e biofísicos.
De modo comum, conta com a combinação das habilidades ‘peritas’
com os conhecimentos locais. Diferente das aplicações tradicionais de
SIG, o SPIG coloca o controle de acesso e uso de dados geográficos
culturalmente sensíveis nas mãos das comunidades que os geraram.
Adaptado da obra de Rambaldi et al. (2005)
aprendizagem e ação participativas 54 abril de 2006
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SEÇÃO DE TEMAS
1Corbett, Rambaldi, Kyem, Weiner, Olson, Muchemi, McCall e Chambers
Caixa 2: Algumas ferramentas e métodos participativos usados na prática.
Cartografia efêmera: Este método muito básico envolve o traço de mapas no chão. Os participantes utilizam matérias-primas, tais como terra, seixos,
gravetos e folhas para representar a paisagem física e cultural.
A cartografia de esboço é um método ligeiramente mais elaborado. Esboça-se um mapa com base na observação ou memória. Não conta com
medidas exatas, tais como escala consistente ou referências geográficas. Normalmente envolve o desenho de símbolos em folhas grandes de papel para
representar as características da paisagem.
A cartografia de escala é um método de produção de mapas mais sofisticado, que visa a gerar dados de referências geográficas. Isso permite aos
membros da comunidade desenvolver mapas de escala relativamente exata e com referências geográficas que podem ser comparados diretamente
com outros mapas. .
A Modelação 3D integra os conhecimentos geográficos com os dados de elevação, produzindo modelos de relevo tridimensionais autônomos, de
escala e com referências geográficas. Assinalam-se no modelo as características geográficas relativas aos usos da terra e sua cobertura usando tachas
(pontos), estames (linhas) e tintas (polígonos). Ao completar o modelo, aplica-se uma grade de escala e geo-referências para facilitar a extração ou
importação de dados. Os dados representados no modelo, podem ser digitalizados e marcados graficamente.
Os foto-mapas são impressões de fotografias aéreas (ortofotografias) que são corrigidas geometricamente e dotadas de referências geográficas. Os
mapas de ortofotografias constituem uma fonte de dados precisos, obtidos por sondagem remota, que podem ser utilizados para projetos cartográficos
comunitários de grande escala. Os membros da comunidade podem delinear o uso de terras e outras características significantes em transparências
sobrepostas no foto-mapa. As informações colocadas nas transparências podem ser posteriormente digitalizadas e dotadas de geo-referências. As
imagens obtidas por sondagem remota estão se tornando uma alternativa cada vez mais apropriada quando podem ser fácil e livremente (ou de modo
muito barato) baixadas da Web (Muller et al., 2003).
Os Sistemas de Posicionamento Global (GPS) atualmente são mais acessíveis e o uso deles tem se ampliado rapidamente entre as ONGs e
organizações comunitárias. O GPS é um sistema de posicionamento que utiliza satélites para indicar ao usuário sua posição exata usando um sistema
de coordenadas conhecidas tal como latitude e longitude. Esta tecnologia é usada freqüentemente para a demarcação de áreas de terras onde existe
disputa quanto a acesso e controle de recursos naturais. Os dados registrados são usados com freqüência para dar precisão às informações descritas
em mapas esboços, mapas de escala, modelos 3D e outros métodos cartográficos comunitários que utilizam menos tecnologia.
Os sistemas multimídia de informações vinculados a mapas são similares às tecnologias de SIG, mas são de compreensão e controle mais
fáceis. Os conhecimentos locais são documentados por membros da comunidade por meio de vídeos digitais, fotografias digitais e texto escrito
armazenados em computadores e administrados e comunicados com a interface de um mapa interativo, digital. Pode-se ter acesso às outras
informações de multimídia clicando-se nas características do mapa interativo.
O SIG é um sistema computadorizado projetado para coletar, armazenar, gerenciar e analisar as informações com referências sobre espaços
geográficos e dados associados de atributo. Utiliza-se cada vez mais a tecnologia SIG para explorar as questões de interesse às comunidades. Nesse
processo, os dados locais com referências sobre espaços, bem como os dados não relacionados a espaços, são integrados e analisados para dar apoio
aos processos de discussão e tomada de decisões. O ‘SIG Móvel’ é mais bem adaptado ao uso participativo e à comunidade local visto que o software
de SIG foi projetado para funcionar com computadores portáteis ou computadores laptop no campo.
Adaptado da obra de Rambaldi et al. (2005) e Corbett (2005)
Essas questões fundamentais ainda existem, especialmente
relativas às ferramentas digitais. Mas os praticantes já tiveram
mais de uma década para desenvolver e aplicar essas ferramentas,
como também para continuar a exploração das ferramentas de
PGIS mais antigas, não-digitais. A conferência de Cartografia para
Mudança permitiu aos praticantes que trocassem suas
experiências, informassem sobre os seus sucessos e fracassos,
bem como identificassem as lições aprendidas durante esse
período. O conteúdo desta edição é indicação da madureza da
prática de SPIG. Ela já iniciou o desenvolvimento de um conjunto
de éticas e metodologias eficazes que se baseiam na experiência
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aprendizagem e ação participativas 54 abril de 2006
de primeira-mão. Essas considerações éticas servirão de ajuda
para orientar tanto os praticantes novos como os experientes a
fim de assegurar que as comunidades locais tenham a capacidade
de desenvolver e comunicar seus próprios dados e, finalmente ,
influenciar os processos maiores de tomada de decisões.
Existe uma ampla gama de ferramentas e métodos que estão
disponíveis aos praticantes e representantes das comunidades.
Elas variam desde a cartografia de esboço de baixa tecnologia até
as tecnologias avançadas geo-espaciais e de multimídia. Visto que
essas ferramentas se tornam mais complexas, o uso delas envolve
freqüentemente (mas nem sempre) a incorporação de muitas das
Resumo: Cartografia para Mudança – o aparecimento de uma prática nova
Robert Chambers
profere seu
discurso aos
participantes da
conferência
1
Peter Kwaku Kyem,
membro do comitê
organizador, num
painel de sessão
plenária
Fotografias: Johan Minnie
SEÇÃO DE TEMAS
ferramentas anteriores, resultado em abordagens em que várias
ferramentas são utilizadas (Caixa 2).
Descrição da conferência
A conferência Cartografia para Mudança foi realizada durante
três dias de atividades intensas. Ela incluiu 12 apresentações
plenárias seguidas de debates, e 32 apresentações feitas em
sessões paralelas. As apresentações foram seguidas de discussões
em grupos de trabalho baseadas em tarefas e perguntas
designadas. Em seguida, os resultados das discussões dos grupos
de trabalho foram apresentados numa sessão plenária e debatidos
ainda mais.
Caixa 3: O que significa ‘boa prática’?
A boa prática de SPIG deve ser cautelosa, orientada pelo
usuário/enfocado no usuário e de consciência ética. O aspecto
‘participativo’ significa que a comunidade toma o maior grau possível
de controle dos processos de tomada de decisões, do poder e
responsabilidades administrativas durante todas as diversas etapas
envolvidas.
Os objetivos iniciais dos organizadores da conferência visavam
a habilitar os participantes a:
• Informar suas experiências e definir boas práticas para
disponibilizar tecnologias de informações geográficas
disponíveis a grupos marginalizados da sociedade; e
• lançar o alicerce para o estabelecimento de redes regionais e
centros de recursos a fim de promover e apoiar as boas práticas
de SPIG.
Os objetivos previstos para a conferência foram
completamente realizados. Desde o Quênia até o Canadá, os
participantes Indígenas e das Primeiras Nações, bem como as
organizações representativas e investigadores, todos
compartilharam suas experiências das iniciativas de PGIS. Os
grupos de trabalho, respondendo a tarefas específicas, reuniram
participantes para se envolverem na aprendizagem colaboradora
sobre assuntos que incluem:
• Os ambientes habilitadores de desabilitadores para SPIG,
concentrando-se nas políticas e no financiamento que apóia ou
debilita as chances para a boa prática.
• Comunicação de experiências na prática de SPIG. Isso incluíu
aprendizagem e ação participativas 54 abril de 2006
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1Corbett, Rambaldi, Kyem, Weiner, Olson, Muchemi, McCall e Chambers
Caixa 3: Os três Pré-requisitos
Transparência
A transparência se refere ao tipo de comunicação necessário para a
boa aplicação de SPIG. Ela implica a existência de clareza,
responsabilidade, o uso de linguagem simples e compreensível, bem
como procedimentos transparentes, tais como reuniões abertas. Ela
respeita a necessidade das comunidades envolvidas no processo serem
informadas de todas as desvantagens potenciais que poderiam ser
associadas com a aplicação das ferramentas.
Tempo
É necessário haver, logo no início, tempo suficiente para desenvolver os
relacionamentos efetivos entre os intermediários da tecnologia e as
comunidades recebedoras. Isso é necessário durante a implementação
a fim de maximizar os impactos positivos derivados das iniciativas de
SPIG e de permitir às comunidades locais a propriedade das
ferramentas. É necessário haver um reconhecimento claro da
necessidade de investir o tempo adequado para isso. De modo geral, os
prazos curtos impostos para cumprir os programas externos de
trabalho servem para minar os projetos. Tais prazos podem também
limitar as capacidades das comunidades por impedir que elas tenham
compreensão adequada das tecnologias ou que explorem
completamente os benefícios potenciais da aplicação e uso de tais
tecnologias.
Confiança
A confiança se refere à relação entre os diversos grupos e indivíduos. É
um ingrediente essencial para empreender o SPIG. Barbara Misztal
(1996) escreve que a confiança faz com que a vida se torne previsível,
cria uma sensação de comunidade, e faz com que seja mais fácil
para as pessoas trabalharem juntas. A necessidade da confiança
parece impor uma certa disciplina nos praticantes. Sem o
comportamento ou as atitudes apropriados para o desenvolvimento
dessa confiança, a prática de SPIG realmente será difícil.
A Transparência e o Tempo são pré-requisitos para estabelecer a
Confiança.
os modos de representar os conhecimentos geográficos locais,
a reivindicação de terras e o manejo de recursos, as questões
relacionadas ao processo participativo e às idéias sobre como
apoiar a proteção do patrimônio cultural.
• O desenvolvimento da solidariedade e de uma visão comum
entre os praticantes de SPIG. Isso incluiu o desenvolvimento de
um meio de melhorar as redes de contato e a comunicação, a
formulação de projetos de estratégias regionais para dar apoio
à Prática, e à identificação da terminologia fundamental para os
doadores e agências de desenvolvimento internacionais a fim de
incentivar o apoio destes à prática.
As diretrizes para a boa aplicação de PGIS nos diversos
contextos sócio-políticos nos países em desenvolvimento são
debatidas no Foro Aberto de Sistemas e Tecnologias Participativos
de Informações Geográficos www.ppgis.net. Giacomo Rambaldi,
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aprendizagem e ação participativas 54 abril de 2006
Fotografia: Johan Minnie
SEÇÃO DE TEMAS
Painel da sessão plenária Conferência: Cartografia para
Mudança Da esquerda para a
direita: Peter Poole, Dave de
Vera, Giacomo Rambaldi, Reiko
Yoshida e Mike McCall
Mike McCall, Robert Chambers e Jefferson Fox apresentam um
resumo desses pontos de vista no seu artigo publicado nesta
edição especial.
Transparência, tempo e confiança
Manifestaram-se nas apresentações, cartazes, seminários e
discussões na conferência, vários temas importantes relativos à
boa prática. Esses temas podem ser resumidos como a
necessidade de considerar o PGIS como uma prática que abrange
mais que a cartografia participativa, incluindo as dimensões
adicionais de redes de trabalho e comunicação e o
desenvolvimento dos ‘três pré-requisitos – a transparência, o
tempo, e a confiança – sendo os dois primeiros as pré-condições
para a terceira.
A confiança foi uma expressão fundamental usada durante
toda a conferência. Os mapas são potencialmente tais
ferramentas poderosas. Eles têm condições de influenciar, para o
bem ou o mal, os resultados dos processos de tomada de
decisões. Assim, a confiança entre facilitadores externos e as
pessoas locais torna-se uma condição crítica para o sucesso.
Descrição desta edição especial
Os artigos contidos nesta edição especial da PLA foram tirados
de documentos e cartazes apresentados na conferência
Cartografia para Mudança. Os autores concentraram-se em
estudos de casos e experiências do mundo em desenvolvimento
e das Canadian First Nations (Primeiras Nações do Canadá). Eles
representam a aplicação ampla de várias abordagens e
ferramentas em várias situações socioeconômicas e geográficas
por praticantes que possuem grande e profunda experiência.
Esperamos que estes documentos transmitam o entusiasmo e a
inovação gerados durante a conferência.
Esta edição especial também é particularmente oportuna
visto que ela destaca e documenta o amadurecimento
Resumo: Cartografia para Mudança – o aparecimento de uma prática nova
Jon Corbett fala
com Rahab
Njoroge fora da
KCCT durante a
conferência
Fotografia : Johan Minnie
Os artigos desta edição especial estão divididos em três grupos
abrangentes:
• Os artigos que se concentram em oferecer um estudo de caso
relativo à aplicação de uma ferramenta de SPIG específica numa
situação rural;
• Os artigos que se concentram na integração de ferramentas
múltiplas a fim de tratar de dificuldades específicas enfrentadas
por uma comunidade; e
• Os artigos que são mais teóricos e associados com assuntos,
incluindo considerações éticas, perigos potenciais e outras lições
tiradas das experiências obtidas da aplicação das ferramentas de
SPIG em longo prazo.
Estudos de caso baseados em ferramentas
Estudos de caso baseados em questões
À medida que as práticas associadas com o SPIG se inovam e se
evoluem, é interessante notar os exemplos de como se modificam
e se empregam ferramentas específicas para tratar das
dificuldades enfrentadas por comunidades locais e, ainda, verificar
se elas têm utilidade e/ou sucesso na realização dos objetivos das
comunidades.
Jon Corbett e Peter Keller introduziram um sistema
participativo de informações de multimídia baseado em mapas.
Isto veio a ser conhecido pelos participantes nas comunidades
como um Sistema de Informações de Comunidade (SIC).
A prática do SPIG se desenvolve freqüentemente para abordar
questões específicas enfrentadas por uma determinada
comunidade. Isso significa que as várias ferramentas poderiam
ser usadas juntas, ou em seqüência para resolver as questões.
Craig Candler, Rachel Olson, Steven DeRoy, e Kieran Broderick
documentaram a história da prática do PGIS na área do Tratado
8 da Columbia Britânica, Canadá. Os autores descreveram a
gama de práticas diferentes, desde a cartografia de
comunidade até o desenvolvimento e aplicação do PGIS e as
metodologias usadas. Os autores identificaram a área do
Estrutura da edição especial
aprendizagem e ação participativas 54 abril de 2006
SEÇÃO DE TEMAS
Fotografia : Jeroen Verplanke
Vista do lado de
dentro de uma
das principais
sessões plenárias.
Conforme o método da comunidade, os conhecimentos
tradicionais são documentados por membros da comunidade
usando vídeo digital, gravação de sons, fotografias digitais e texto
escrito, e são armazenados em computadores. Estes são
administrados e comunicados através da interface de um mapa
interativo. Os autores demonstraram o SIC por meio de um
estudo de caso da Indonésia.
Giacomo Rambaldi, Silika Tuivanuavou, Penina Namata, Paulo
Vanualailai, Sukulu Rupeni, e Etika Rupeni comparam o uso da
Modelação 3D Participativa (M3DP) e a cartografia participativa de
ortofotografias de Fiji. Eles explicaram como a M3DP foi efetiva
para apoiar o planejamento colaborador de recursos e a
documentação do patrimônio cultural. Como os autores
demonstraram, a M3DP mostrou-se como um meio fácil de gerar,
analisar e comunicar os conhecimentos locais.
Em seguida, Peter Kyem explorou o papel do SPIG na
mediação e como a tecnologia pode ser usada para promover a
criação de um consenso. Utilizando-se o exemplo de Kofiase na
Gana Meridional, ele identificou como as aplicações do SPIG
ajudaram os participantes que estavam em conflito a encontrar
um jeito de chegarem a um meio-termo e superarem suas
discordâncias.
significante da prática de SPIG. Ela apresenta os exemplos do
uso e aplicação das ferramentas antigas e aquelas da tecnologia
da ponta nos contextos novos, como também de modos
inovadores e animadores. Isso também representa uma
metamorfose de projetos esparsos, desiguais e não relacionados,
bem como de organizações e indivíduos que usam essas
ferramentas para a criação de comunidade interligada e unida de
praticantes.
1
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1Corbett, Rambaldi, Kyem, Weiner, Olson, Muchemi, McCall e Chambers
18
Tratado 8 como um local crítico para aprender
sobre a prática sustentada e sustentável.
Tsion Lemma, Richard Sliuzas e Monika Kuffer
apresentaram um exemplo de Addis Ababa,
Etiópia. A prática do SPIG foi usada na tomada
de decisões entre vários participantes relativas ao
melhoramento dos mecanismos para monitorar
as favelas. Sua abordagem incorpora
informações geográficas pertinentes e
detalhadas, recolhidas por meio de discussões de
grupo de enfoque, observação de campo com
membros da comunidade e interpretação de
imagens visuais emitidas de satélite e fotografias aéreas.
O documento da Sylvia Jardinet aborda a Cartografia
Comunitária. Ela apresentou um exemplo do uso do SPIG e do
GPS voltado à prevenção e resolução de conflitos relacionados
a terras e ao acesso e uso de recursos naturais. A cooperativa
de Gaspar Garcia Laviana em Telpaneca, Nicarágua, produziu
um mapa com geo-referências da sua comunidade. Está
disponível um arquivo público de seus bens, o qual pode ser
consultado por qualquer membro da cooperativa.
Pascale de Robert informou a sua experiência relativa ao
apoio dado ao povo Caiapó do Brasil na realização de mapas
de suas áreas de uso manejado nas terras tradicionais. Esses
mapas são feitos a partir de imagens de satélite e verificados no
terreno por meio de GPS. Ela descreve como o povo Caiapó
tomou controle do processo, reorientando-o para produzir e
usar mapas como ferramentas políticas para destacar a
unidade territorial e social que o povo Caiapó deseja salientar.
Julie Taylor e Carol Murphy, Simon Mayes, Elvis Mwilima,
Nathaniel Nuulimba e Sandra Slater-Jones informaram sobre
suas, inclusive as oportunidades e ameaças, de compor mapas
dos territórios de San, Região de Caprivi da Namíbia. Eles
mencionaram o potencial da prática de SPIG de expor e
abordar as questões complexas e políticas de identidade,
direitos e terra. Além disso, identificaram também como esses
mapas podem ter múltiplas aplicações, inclusive para o
fortalecimento dos direitos locais e da capacidade de manejar
uma área de conservação de importância para o meio
ambiente.
Peter Minang e Mike McCall examinaram como o SPIG
facilita o uso dos conhecimentos locais/indígenas sobre o
planejamento de silvicultura comunitária para o seqüestro de
carbono. O acesso aos pagamentos de serviços ambientais, tais
como a mitigação de carbono exige informações técnicas
extensas e caras para as bases, bem como monitoração, as
quais as comunidades locais freqüentemente não possuem. Os
conhecimentos geográficos da comunidade podem ser uma
aprendizagem e ação participativas 54 abril de 2006
fonte vital de informações, mas as
representações dos conhecimentos locais
precisam ser traduzidas para um formato
apropriado para se ter acesso aos fundos do
Protocolo de Kyoto e de outros programas
para a redução de emissões de carbono. Os
autores exploraram o ponto até o qual o SPIG
poderá aprimorar o uso dos conhecimentos
locais e indígenas nos processos de
certificação de carbono.
Fotografia : Johan Minnie
SEÇÃO DE TEMAS
O organizador da conferência,
Giacomo Rambaldi, profere
discurso aos participantes na
conferência Cartografia para
Mudança.
Teoria e reflexões da prática
É muito fácil, ao comunicar as experiências relativas à prática do
SPIG, enfocar os casos de sucesso e os praticantes serem
relutantes em se envolver na reflexão crítica sobre seus próprios
trabalhos. Este grupo final de documentos aborda algumas
questões importantes, mas pouco discutidas, sobre os problemas
perenes da prática. Essas questões incluem os perigos potenciais
que poderão afetar os projetos, as preocupações relativas à
precisão e as éticas da prática.
Mac Chapin compartilha vasta experiência prática sobre os
problemas que freqüentemente surgem nos projetos
comunitários de cartografia e explica como evitá-los. De modo
específico, ele aconselha o leitor a investir tempo adequado no
planejamento de projetos, e salienta o papel importante dos
líderes de projeto de orientar o trabalho para se ter resultado
bem-sucedido.
Peter Poole descreve duas estratégias para organizar os
projetos de cartografia sobre posse: a participação parcial – em
que a comunidade aprende a reunir os conhecimentos
tradicionais por meio de entrevistas e cartografia de esboço, mas
todos os aspectos computadorizados de cartografia são
terceirizados – contra a participação completa em que os
comunitários são treinados sobre todos os aspectos de
cartografia. Ele ilustra seu artigo usando vários estudos de caso de
várias partes do mundo antes de fazer perguntas importantes
sobre a sustentabilidade de tais projetos.
Jefferson Fox, Krisnawati Suryanata, Peter Hershock e Albertus
Hadi Pramono citam várias questões éticas importantes
relacionadas à adoção de tecnologias de PGIS na Ásia. Apesar de
vários sucessos, eles salientam que a adoção dessas ferramentas
nem sempre tem o efeito positivo desejado. Os autores
mencionam várias deficiências potenciais. Eles instaram aos
praticantes desenvolver a clareza essencial para a cartografia, com
base numa compreensão completa tanto das conseqüências
pretendidas como daquelas que provavelmente não sejam as
pretendidas de certas ações.
Mike McCall faz perguntas importantes sobre as questões de
Resumo: Cartografia para Mudança – o aparecimento de uma prática nova
1
Rachel Olson apresenta
seu documento
durante uma sessão
plenária principal
SEÇÃO DE TEMAS
relacionada à Cartografia Cultural. Eles destacam algumas lições
aprendidas no meio dos Povos Indígenas e das Primeiras Nações
no Canadá, na Nova Zelândia, nas Filipinas e na África Meridional
conforme apresentadas numa reunião recente realizada em Cuba
(Novas Perspectivas sobre a Diversidade Cultural: O Papel das
Comunidades, de 7 a 10 de Fevereiro de 2006). Foram discutidas
as experiências e preocupações éticas que se manifestaram na
conferência Cartografia para Mudança, sendo entregues como
uma contribuição para formulação da declaração da UNESCO
sobre Cartografia Cultural.
Fotografia : Johan Minnie
Conclusão
certeza e precisão da prática de SPIG. Os termos assumiram
grande significado na área da aplicação mais técnica de SIG.
Contudo Mike pergunta se é enganador dar uma falsa idéia da
realidade indistinta e ambígua, retratando-a como exata ou
precisa, especialmente quando o SPIG representa dados obtidos
por metodologias participativas oriundas de interpretações locais
da certeza, confiabilidade e relevância.
Não houve nenhum documento apresentado na conferência
que tratasse especificamente da ética na prática de SPIG. Mas a
ética se manifestou em toda a conferência como uma das
principais preocupações gerais dos participantes. As questões
levantadas incluíam os custos de se perder o tempo das pessoas,
de criar expectativas que não serão cumpridas, de criar perigos
para as pessoas por meio das informações que elas revelam, da
prática usada para adquirir e/ou tornar informações públicas as
quais poderiam ser exploradas por pessoas externas, bem como
da prática criar conflitos e exigir precisão onde a indistinção
poderia ser mais apropriada. Os participantes reconheceram a
necessidade de formular uma ética prática comumente
reconhecida, que servirá de ajuda para orientar a comunidade de
praticantes. O documento de Giacomo Rambaldi, Robert
Chambers, Mike McCall e Jefferson Fox procura compilar várias
questões éticas citadas tanto durante a conferência como as
discussões adicionais entre os praticantes e investigadores por
diversos canais.
Por último, na seção de Toque, Susanne Schnuttgen e Nigel
Crawhall informaram sobre uma nova iniciativa da UNESCO
Esta edição especial ajuda a desenvolver o reconhecimento de
uma comunidade crescente da prática de SPIG nos países em
desenvolvimento. Contém também muitos conselhos práticos,
aprendidos em primeira mão, provenientes de alguns dos
membros mais experientes nessa disciplina em amadurecimento.
A presente edição apresenta não apenas casos de sucesso, mas
também cita questões sobre onde e por que projetos podem
falhar, e oferece conselhos sobre como evitar as armadilhas
potenciais. Oferece conselho sábio sobre a necessidade de
concentrar-se no desenvolvimento da confiança – tanto por
proporcionar ao processo o tempo necessário para desenvolver
essa confiança, bem como por prestar atenção à importância da
transparência em todas as interações.
Estamos convencidos de que esta edição especial será de
grande utilidade para os praticantes, inclusive as comunidades
locais e Indígenas, e também para outras organizações e
indivíduos que querem praticar o SPIG. É também relevante para
estudantes e pesquisadores que trabalham em campos
acadêmicos associados com a prática.
A conferência Cartografia para Mudança foi uma
oportunidade maravilhosa para reunir as pessoas para
compartilhar experiências e idéias, como também para solidificar
e fomentar uma rede internacional maior de comunidades de
praticantes e pesquisadores. Os Editores Convidados desta edição
especial esperam que a conferência – bem como esta compilação
de artigos resultantes do evento – também sejam de ajuda para
ganhar reconhecimento para uma comunidade crescente de
prática.
aprendizagem e ação participativas 54 abril de 2006
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SEÇÃO DE TEMAS
1Corbett, Rambaldi, Kyem, Weiner, Olson, Muchemi, McCall e Chambers
DETALHES PARA CONTATO
Jon Corbett,
Department of Geography,
University of Victoria,
PO Box 3050,
Victoria, BC,
CANADA, V8W 3P5.
Fax: + 1 250 721 6216
Email: [email protected]
Giacomo Rambaldi,
Technical Centre for Agricultural and Rural
Development (CTA),
Wageningen,
HOLANDA,
Email: [email protected]
Peter A Kyem,
Associate Professor of Geography at Central
Connecticut State University,
1615 Stanley Street,
New Britain,
CT 06050,
EUA.
Email: [email protected]
Rachel Olson,
Independent Researcher,
102-8408 92nd Avenue,
Fort St. John,
BC, V1J 6X2,
CANADA.
Email: [email protected]
20
Dan Wiener,
Director of International Programs, Professor of
Geography,
West Virginia University,
G-15 White Hall,
P.O. Box 6214,
Morgantown,
WV 26506-6214,
EUA.
Email: [email protected];
Fax: + 1 304 293 6957
Julius Muchemi,
Environmental Research Mapping and
Information Systems in Africa (ERMIS),
PO Box 12327 Nakuru,
Gate House 3rd Floor, Rm 308,
Mburu Gichua Road,
Nairobi,
QUÊNIA.
Email: [email protected]
Michael K. McCall,
International Institute for Geo-Information
Science and Earth Observation (ITC),
P O Box 6,
7500 AA ,
Enschede, HOLANDA.
Email: [email protected]
Robert Chambers,
Institute for Development Studies, University of
Sussex,
Brighton, BN1 9RE,
REINO UNIDO.
Email: [email protected]
aprendizagem e ação participativas 54 abril de 2006
REFERÊNCIAS
Corbett J. M. and C. P. Keller (2005). ‘An
analytical framework to examine
empowerment associated with participatory
geographic information systems (PGIS).’
Cartographica 40/4 91-102
Rambaldi, G., Kwaku Kyem, A.P., Mbile, P.,
McCall, M., and Weiner, D. (2005).
‘Participatory Spatial Information Management
and Communication in Developing Countries.’
Paper presented at the Mapping for Change
International Conference (PGIS’05), Nairobi,
Kenya, 7th–10th September 2005
Misztal, B. (1996) Trust in Modern Societies.
Cambridge: Polity Press
Muller D. and Wode B. (2003). Methodology
for Village Mapping Using Photomaps. Social
Forestry Development Project (SFDP) Song Da,
Vietnam
Seção de temas
ESTUDOS DE CASO
BASEADOS EM
FERRAMENTAS
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