E dar uma pausa para o descanso

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E dar uma pausa para o descanso
bancários
10 minutos para você – sua saúde vale mais
Tempo de
se cuidar
E dar uma pausa
para o descanso
Todo o conteúdo desta revista e
mais informações sobre saúde e condições
de trabalho você encontra no site do Sindicato.
www.spbancarios.com.br
editorial
Sob seus cuidados
L
esões ósseas e musculares, insônia, irritabilidade, anEste conhecimento dará ainda mais solidez às negociações
siedade e depressão, perdas de audição e da fala. Os entre os trabalhadores e os setores patronais, no sentido de
problemas de saúde de maior incidência entre as ati- eliminar as condições prejudiciais à saúde, reduzindo os riscos
vidades do setor financeiro ­– do qual os serviços de te- ao mínimo.
leatendimento são parte integrante ­– e os dramas que
Na prática, isso significa reorganizar a gestão empresarial,
produzem se tornaram bastante conhecidos.
humanizando as relações de trabalho, de modo que a busca
Já está largamente comprovado que o adoecimento da cate- pelos lucros não seja mais importante que a própria vida dos
goria bancária – que até para os órgãos públicos de assistência funcionários. Ou seja, aí vem luta. A mesma dedicação dada à
à saúde já são tratados como verdadeiempresa e ao emprego será necessáA mesma dedicação dada
ra epidemia - está diretamente relacioà empresa e ao emprego será ria para que não se perca a saúde pernado à sobrecarga e à repetição sem
seguindo o cumprimento das metas e
necessária para que não se
descanso das rotinas diárias, ao lado da perca a saúde perseguindo o
os lucros bilionários dos bancos.
cumprimento das metas e os
pressão psicológica pelo cumprimento
Muitos passos já foram dados e balucros bilionários dos bancos
de metas que permeia o cotidiano destalhas vêm sendo diariamente travases trabalhadores, teleatendentes incluídos.
das. Uma nova frente está se abrindo neste momento: é urgenAs contribuições de especialistas de áreas distintas, como mé- te que os bancos – e suas prestadoras de serviços contratadas
dicos, psicólogos e advogados, formam a base científica e legal – estabeleçam pausas de dez minutos a cada 50 minutos traque comprovam que as empresas em geral ­– e os bancos em balhados.
particular ­– impõem regimes de horários, intensidade de tarefas
Esta medida não elimina os riscos à saúde impostos pelas
e cobrança de desempenhos que contribuem dramaticamente condições de trabalho no sistema financeiro, mas pode redupara o adoecimento de seus funcionários.
zir significativamente seu impacto sobre a integridade física e
Paralelamente, a legislação do País aos poucos inicia a cria- mental da categoria.
ção de jurisprudência própria para coibir e punir devidamente
Nesta revista, tratamos sobre a importância das pausas reguas práticas empresariais que retribuem a dedicação e empenho lares para que o trabalhador recupere e mantenha seu potencial
dos seus funcionários com o prejuízo de sua saúde e de sua ca- produtivo – continuando apto, portanto, a gerar seu sustento e
pacidade produtiva. E para tentar ressarcir minimamente o pre- o de sua família com alguma qualidade. E, de resto, reforçamos
juízo daqueles que perderam parcial ou totalmente seu mais a mensagem: sua saúde é seu bem mais importante e é a você
valioso e muitas vezes único patrimônio: sua força de trabalho. que cabe a responsabilidade de zelar por ela.
abril de 2007
Pu­bli­ca­ção do Sin­di­ca­to dos Ban­cá­rios e Fi­nan­ciá­rios de São Pau­lo, Osas­co e Re­gião. Rua São Ben­to, 413, Cen­tro, São Pau­lo, CEP 01011-100, tel. (11) 31885200. Te­le­fo­nes: Se­de: 3188-5200. Oes­te: 3814-2583. Nor­te: 6979-7720. Les­te: 6191-0494. Sul: 5641-6733. Pau­lis­ta: 3284-7873. Osas­co: 3682-3060. Cen­tro:
3188-5295. Pre­si­den­te: Luiz Cláudio Marcolino. Di­re­tor de Saúde: Walcir Previtale Bruno. Di­re­tor de Im­pren­sa: Ernesto Shuji Izumi. Di­re­to­ria: Adozinda
Praça de Almeida, Adriana Oliveira Magalhâes, Aladim Takeyoshi Iastani, Alexandre de Almeida Bertazzo, Alexandro Tadeu do Livramento, Ana Paula da
Silva, Ana Tércia Sanches, André Luis Rodrigues, Antonio Alves de Souza, Antônio Inácio Pereira Junior, Antonio Joaquim da Rocha, Antonio Saboia Barros
Junior, Bruno Beneduce Padron, Camilo Fernandes dos Santos, Carlos Miguel Barreto Damarindo, Clarice Torquato Gomes da Silva, Claudio Luis de Souza,
Cleuza Rosa da Silva, Daniel Santos Reis, Daniela Santana da Costa, Edison José de Oliveira, Edson Carneiro da Silva, Edvaldo Rodrigues da Silva, Elaine
Cutis Gonçalves, Elias Cardoso de Morais, Flavio Ferraz Dutra, Flávio Monteiro Moraes, Hugo Tomé Aquino, Irinaldo Venancio de Barros, Ivone Maria da
Silva, Jackeline Machado, João de Oliveira, João Gomes da Silva, João Paulo da Silva, João Vaccari Neto, José do Egito Sombra, José Osmar Boldo, Jozivaldo
da Costa Ximenes, Juarez Aparecido da Silva, Juvandia Moreira Leite, Karina Carla Pinchieri Prenholato, Leandro Barbosa da Silva, Leonardo Martins Pereira,
Luiz Carlos Costa, Manoel Elidio Rosa, Marcelo Defani, Marcelo Gonçalves, Marcelo Peixoto de Araujo, Marcelo Pereira de Sá, Marco Antonio dos Santos,
Marcos Antonio do Amaral, Marcos Roberto Leal Braga, Maria Cristina Castro, Maria Cristina Corral, Maria do Carmo Ferreira Lellis, Maria Helena Francisco,
Maria Selma do Nascimento, Mario Luiz Raia, Marta Soares dos Santos, Mauro Gomes, Neiva Maria Ribeiro dos Santos, Nelson Ezidio Bião da Silva, Nelson
Luis da Silva Nascimento, Onísio Paulo Machado, Osmar Rodrigues de Carvalho Junior, Paulo Roberto Salvador, Paulo Rogério Cavalcante Alves, Rafael Vieira
de Matos, Raimundo Nonato Dantas de Oliveira, Raquel Kacelnikas, Ricardo Correa dos Santos, Ricardo de Almeida, Rita de Cassia Berlofa, Rogerio Castro
Sampaio, Roseane Vaz Rodrigues, Rubens Blanes Filho, Sandra Regina Vieria da Silva, Tania Teixeira Balbino, Vagner Freitas de Moraes, Valdir Fernandes,
Vera Lucia Marchioni, Washington Batista Farias, William Mendes de Oliveira. Di­reto­res honorários: Ana Maria Érnica, José Ricardo Sasseron, Maria da Glória
Abdo, Sérgio Francisco da Silva. Editor: Fábio M. Michel. Editor de arte: Vander Fornazieri. Computação gráfica: Urbania. Im­pres­são: Ban­graf.
sindicato dos b ancários
especial saúde
Pausa importante
Saúde e trabalho nos
planos do mundo
Bancos enquadrados: MTE
humaniza telesserviços
Foi publicada no Diário Oficial da União de 2 de abril a aprovação
do Anexo II da Norma Regulamentadora 17 (NR-17) sobre Teleatendimento/Telemarketing, que trata da organização do trabalho nas
centrais telefônicas. A aplicação das disposições da NR 17 é obrigatória a todos os empregadores, sem exceção.
A NR estabelece parâmetros que levam à adaptação das condições de trabalho às características psicofisiológicas dos trabalhadores. Ou seja, adequar os locais de trabalho às limitações humanas
e não o contrário, forçar as pessoas além de seus limites, para se
adaptarem às exigências físicas e psicológicas das empresas. Tratase de uma grande vitória dos trabalhadores em geral, comemorada
pelo Sindicato mas que vai demandar muita luta para ser respeitada pelas empresas.
O Anexo II da NR-17 estabelece intervalos de 20 minutos para
lanche durante a jornada de trabalho, além de duas pausas de 10
minutos para descanso; fica garantida também a permissão para o
livre uso dos banheiros a qualquer momento da jornada, sem prejuízo das avaliações e remunerações dos funcionários, entre outras
conquistas.
De maneira geral, as empresas têm 90 dias (até 02 de julho, portanto), para cumprir as determinações do Ministério do Trabalho e
Emprego referentes à organização do trabalho e de até cinco anos
para implementar as exigências em equipamentos e mobiliários.
A aprovação da norma envolveu um embate acirrado entre representantes dos trabalhadores (entre os quais o Sindicato, ao lado
das principais entidades de categorias profissionais, das centrais
sindicais, do Ministério Público do Trabalho e outros) e dos patrões.
O conteúdo integral da NR-17, pode ser conhecido pelo site do Sindicato: www.spbancarios.com.br .
especial saúde
sindicato dos b ancários
Não só as questões ambientais mobilizam
cidadãos ao redor do planeta. Tão importante
quanto garantir a preservação das espécies é a
urgência de controlar, reduzir e buscar ha erradicação do adoecimento nos locais de trabalho,
garantindo a saúde e a qualidade de vida da população mundial, composta em sua esmagadora maioria de gente que depende de sua capacidade de trabalho para sobreviver. Assim, têm
sido freqüentes a organização de eventos como
o 2º Congresso Internacional de Saúde e Trabalho, que reuniu governos, entidades sindicais,
médicos e militantes de vários países do mundo, realizado entre os dia 12 e 16 de março, na
capital de Cuba, Havana.
O Sindicato compôs a representação dos trabalhadores brasileiros, ao lado dos Químicos de São
Paulo. Participou, junto a representantes da Espanha, Argentina, EUA e Itália, entre outros do painel
sobre assédio moral em que, além de ampliar e
repassar conhecimentos, definiu que o Brasil deverá sediar um congresso internacional sobre o
tema, no ano que vem.
No encontro de Havana foi estabelecida ainda
a colaboração permanente entre o Brasil (representado por uma comitiva do ministério da Saúde) e Cuba na área de preservação da saúde do
trabalhador. O Sindicato foi um dos signatários do
protocolo. “O que antes eram queixas localizadas
de exploração do trabalho, agora tem proporções
intercontinentais e certamente levará à transformação da realidade perversa experimentada pelos trabalhadores de todos os setores e de todas
as culturas”, comentou Walcir Previtale Bruno, secretário de Saúde do Sindicato.
Assim como o
aquecimento global, a
saúde do trabalhador
desperta a atenção
mundial
gerardo lazzari
SXC
Anexo II da NR17 estabelece
intervalos de 20
minutos
Solidariedade, apoio e luta
gerardo lazzari
Reunião de formação
do Grupo de Ação
Solidária em Saúde
do Sindicato
Em 31 de março passado, o Sindicato organizou o Grupo
De Ação Solidária em Saúde, aprovado e lançado em encontro que reuniu mais de 100 bancários no Auditório Azul
da entidade. Quase todos os presentes à primeira reunião
do grupo eram trabalhadores vitimados por doenças e lesões ocupacionais. O objetivo é discutir, trocar experiências
e dramas e, principalmente, contribuir para a construção das
soluções para os problemas de adoecimento que ameaçam
a categoria.
A bancária do Unibanco Claudia Regina de Oliveira foi e
gostou. “Conheço as histórias do meu banco, mas não as do
Bradesco, do Itaú, do Banco do Brasil. Vai ser uma oportunidade de trocar experiências importantes que vão ajudar a
aliviar o sofrimento das pessoas e mostrar que a gente não
está sozinha.”
Os interessados em fazer parte do grupo podem entrar
em contato com a Secretaria de Saúde do Sindicato, pelo
3188-5200.
Nexo epidemiológico já vigora
Desde o dia 2 de abril está em vigor o novo critério
epidemiológico para a concessão de benefício acidentário,
conforme lei 11.430, de 26 de dezembro de 2006, decreto
6042, de 12 de fevereiro de 2007 e Instrução Normativa do
INSS nº 16, de 27 de março de 2007. No caso dos bancários,
a maioria das doenças do sistema músculo-esquelético
(LER/Dort) e dos transtornos psíquicos são atribuídos, por
princípio, às condições de trabalho. Assim, se o motivo do
afastamento do trabalho for um dos males relacionados
na lei e na IN (veja no www.spbancarios.com.br), o INSS
utilizará o critério epidemiológico e indicará
a concessão do auxílio-doença acidentário
(B91), independentemente da emissão de
Comunicação de Acidente do Trabalho. O perito
é obrigado a registrar no sistema os relatórios
médicos e os exames complementares, se existirem. “Foi uma
das mais importantes conquistas da categoria em sua luta
pelo respeito à sua saúde, pois ficou atestado que o trabalho
em bancos, adoece”, disse a secretária-geral do Sindicato
Juvandia Moreira (foto).
Márcio
sindicato dos b ancários
especial saúde
artigo
A saúde, o sistema
e o sistema de saúde
É preciso que as empresas assumam sua parcela de cidadania
em relação à sociedade Por Gilson Carvalho
N
SXC
ossa saúde depende de nós mesmos e do
ambiente e tipo de trabalho que desenvolvemos. Precisamos lembrar o conceito usual de saúde como o estado de bem
estar das pessoas na dimensão física, social e mental. Este estado tem dependência e condicionamento multifatorial. Do ponto de vista individual podemos incluir neste rol a genética de cada um, a
história biológica e o estilo de vida. Na determinância mais geral para o estado de nossa saúde, usamos
citar as condições econômicas, sociais e materiais do
A maior parte
das doenças
ocupacionais
acontece
quando os
profissionais se
encontram na
faixa dos 27-35
anos
ambiente em que se vive e até mesmo da existência
e eficiência de ações e serviços de saúde.
A saúde do trabalhador está também relacionada
às condições e tipo de trabalho. Dentro das condições
gerais, o ambiente de trabalho, com todas as suas variáveis (espaço, posição, ventilação, temperatura, produção, chefia, colegas, responsabilidade, jornada e intervalos diários, descanso semanal, férias etc.); dentro
das condições do trabalhador, a história de vida (ge-
especial saúde
sindicato dos b ancários
nética, biologia, hábitos), as capacidades e limitações
individuais, o estado de espírito atual.
É preciso que as empresas assumam sua parcela de
cidadania em relação à sociedade. Temos em relação
à saúde, uma arrecadação de recursos que segue a
lógica da solidariedade onde, de cada um, se arrecada conforme sua disponibilidade e se garante a cada
um conforme sua necessidade. Um princípio socialista
que foi aplicado à saúde, na Constituição. Entretanto,
as empresas, além desta contribuição conforme faturamento e lucro têm obrigações relacionadas ao risco
de agravos à saúde que possam desencadear próxima
ou remotamente. Os riscos, que não devem ser avaliados de maneira linear e simplista, podem não ser
apenas os físicos, mas também os da mente, do espírito. Ambos muito danosos às pessoas.
Sou a favor de que cada vez mais as pessoas entendam a busca do bem-estar como a razão de ser
de nosso viver. É preciso aplicar este conceito a toda
e qualquer situação de suas vidas, inclusive em relação ao posto de trabalho. Se criarmos a consciência
do bem-estar geral, não só o nosso, mas também o
de todos os outros, cada um de nós tomaremos atitudes para conter ao máximo as doenças ocupacionais,
independentemente do posto que ocuparmos – como
patrão, ou empregado; chefe ou subalterno.
Existe ainda uma situação muito comum em várias
profissões (e com os bancários certamente não é diferente). A maior parte das doenças ocupacionais acontece quando os profissionais se encontram na faixa
dos 27-35 anos (em linhas gerais), ou seja, no auge
de suas capacidades produtivas e ainda muito distantes de suas aposentadorias por tempo de serviço, causando custos sociais altíssimos para o Estado e
verdadeiros dramas individuais e familiares. Quando
se é jovem, arrisca-se mais, expõe-se mais, pensando
“comigo nada acontecerá no futuro. Sou diferente!” A
juventude comporta uma maior capacidade de supor-
SXC
tar situações indesejáveis ou de risco. No entanto, se
SUS, que é de todos. O SUS carece de apoio e pressão
não pensarmos a médio e longo prazo, baseados em
para que funcione melhor. Se as categorias organizaestudos, pesquisas e na experiência pessoal dos mais
das optam pelo sistema privado estão, no mínimo,
velhos e vivenciados, podemos “queimar “, hoje, nospensando apenas no presente. Enquanto são produso potencial de vida saudável para o futuro. O pensar
tivos, brigam pelo sistema privado e, mais à frente,
apenas no tempo imediato, pode nos levar a avaliaquando dependerem exclusivamente do sistema púções incorretas e a corrermos sérios riscos, principalblico, vão amargar suas insuficiências e ineficiências.
mente futuros.
Gostaria muito que os trabao Estado deveria patrocinar
Finalmente, acredito campanhas permanentes junto
lhadores mais organizados e
que o próprio Estado deaos setores patronais no sentido com capacidade de mobilizade
zelar pelas condições físicas
veria patrocinar campação e pressão lutassem pelo
e psíquicas do trabalho
nhas permanentes junto
SUS, que não cuida apenas de
aos setores patronais no sentido de zelar pelas conpessoas doentes, mas de todos, mesmo aqueles que
dições físicas e psíquicas do trabalho, de modo a extêm planos de saúde ou dinheiro para garantir sua
por a saúde de seus funcionários aos mínimos riscos
assistência individual. O SUS está diretamente ligado
possíveis. Isso é primordial, principalmente no Braà qualidade do meio ambiente, do ar, da água e dos
sil, onde garantir a saúde das pessoas é um dever do
alimentos, da produção e comercialização de medicaEstado. Pela Constituição Brasileira foi criado o SUS
mentos, pelo destino de dejetos, controle de vetores
– Sistema Único de Saúde – que é responsável por
e pela vacinação pública. Todos nós usamos o SUS e
garantir este direito à população. Infelizmente, temos
todos devemos defendê-lo. Inclusive os trabalhadovisto as categorias trabalhadoras mais organizadas,
res do sistema financeiro, os bancários.
com maior poder de pressão e com mais direitos conquistados buscarem sempre, em suas negociações
Gilson Carvalho é médico pediatra e de saúde
com os patrões, a garantia de um plano de saúde
pública ([email protected]). O autor
adota a política do copyleft podendo este texto
privado. É um direito do trabalhador, mas tem contriser copiado e divulgado, independentemente de
buído para aumentar o desinteresse em defender o
autorização e desde que sem fins comerciais
sindicato dos b ancários
Os riscos, que
não devem ser
avaliados de
maneira linear
e simplista,
podem não
ser apenas os
físicos, mas
também os
da mente, do
espírito
especial saúde
Conscientização
Dez minutos
em seu nome
Pequenas pausas podem poupar sua saúde e evitar uma parada
obrigatória no futuro para recuperá-la Por Fábio M. Michel
O
s nomes dos bancários envolvidos nas histórias aqui contadas serão preservados.
Os dos bancos que os submeteram e continuam a submeter seus funcionários à
insanidade, não.
Aos vinte e poucos anos, S.A.C. foi admitido como
atendente no Telebanco, do Bradesco, e cumpria suas
tarefas com dedicação. Jamais se negava a, quase diariamente, permanecer na PA em média de três a quatro horas além da jornada diária que seu contrato de
trabalho estipulava.
Sua dedicação o fazia também cumprir com rigor as
únicas paradas permitidas durante a jornada: um intervalo para a refeição e um tempo-relâmpago para a
pausa toalete (banheiro, no original em francês, usado provavelmente para aliviar a insensatez da regra).
especial saúde
Gerardo lazzari
Luiz Cláudio
Marcolino,
presidente
do Sindicato:
“O lucro das
empresas não
pode justificar
o desrespeito
ao direito dos
bancários de
exercerem sua
profissão sob
condições físicas
e psíquicas
saudáveis”
“Nas horas extras, não tinha pausa, a quantidade de
ligações era tão grande que ninguém podia se levantar, eram ordens da supervisão”, lembra.
Sete anos depois, S.A.C. havia desenvolvido uma labirintite, provocada pela exposição excessiva e quase
sem interrupção dos ouvidos à pressão acústica dos
fones. “Comecei a ouvir um zunido constante. Depois
tive vertigens, perdia o equilíbrio, foi horrível”, lembra.
O passo seguinte foi uma sensível perda de audição.
No início de 2006, veio a demissão. O corte aconteceu depois de S.A.C. ter dado claras demonstrações
de sua insatisfação com as condições impostas às pessoas. “Comecei no banco em perfeitas condições físicas e mentais. Foi o trabalho que me fez ficar doente.
Eles não gostaram de ouvir reclamações e resolveram
me demitir”.
sindicato dos b ancários
Conseguiu novo emprego, ganhando menos. Livre
atividades, sem que o trabalhador seja esgotado física
da pressão e da insalubridade a que era submetido
e mentalmente pelas imposições da organização”.
no Telebanco, recuperou boa parte da audição (“mas
S.A.C. teria aprovado e se sente à vontade para fanunca vou sarar completamente”) e sente os sintolar em nome dos muitos colegas que viu adoecer ao
mas da labirintite com freqüência cada vez menor.
longo dos anos em que serviu incondicionalmente ao
O que, para seus médicos, comprova que os males
Bradesco. “Quando você sabe que vai parar dali a um
foram causados pelas pressões e más condições em
tempo, parece que o corpo e o cérebro aprendem a
que trabalhava.
relaxar. Se não tem descanso, você passa o dia todo
Diminuir a repetição de hisacelerado, fica exausto e chetórias tão ou mais graves que Com o lema 10 Minutos Para
ga em casa irritado, não conVocê, o Sindicato lançou, em
as de S.A.C. no sistema finan- fevereiro, uma campanha
segue dormir direito”, avaceiro passa por uma reformude esclarecimento da categoria lia, mostrando também que,
lação completa nos modelos
além dos problemas fonoaude gestão atualmente em vigor nas empresas. Uma
diológicos, acabou desenvolvendo transtornos menluta de várias batalhas.
tais relevantes, que poderiam ter evoluído para um
Uma delas é a institucionalização de pausas para
quadro de depressão, com conseqüências imprevisídescanso em intervalos determinados de dez minutos
veis.
a cada 50 trabalhados. Com o lema 10 Minutos Para
Assim como S.A.C., a maioria dos bancários não
Você, Sua Saúde Vale Mais, o Sindicato dos Bancários
sabe avaliar os futuros estragos resultantes da peride São Paulo, Osasco e Região, lançou, em fevereiro
gosa soma entre a vontade (e necessidade) de evoluir
passado, uma campanha de esclarecimento e organina carreira e a ganância dos bancos. Estes, ao perzação da categoria, percorrendo diversas agências e
seguirem inconsequentemente o crescimento dos luconcentrações para debater o problema.
cros, obriga seus funcionários a trabalhar em regimes
A adoção dessa medida, se não elimina completasemelhantes à semi-escravidão e o que é pior, conmente a exposição dos bancários e teleatendentes a
vencendo-os de estarem no caminho correto.
condições insalubres de trabalho, certamente irá con“É da lógica capitalista que as empresas busquem
tribuir para uma sensível redução dos danos, como sao lucro. O que precisamos conquistar é que os bancálienta a médica Maria Maeno, pesquisadora da Funrios tenham respeitado seu direito – não benefício – de
dacentro.
exercer sua profissão sob condições físicas e psíquicas
“Durante a jornada diária, é preciso ativar a circusaudáveis. É preciso adequar os locais de trabalho às
lação sanguínea, movimentar as articulações, aliviar
limitações humanas em vez de obrigar as pessoas ao
a concentração, descansar os ouvidos e olhos, enfim,
esgotamento. O nível de adoecimento na categoria
afastar-se das circunstâncias de trabalho o mais possíbancária tem, hoje, caráter de verdadeira epidemia”,
vel. É assim que as condições físicas e mentais podem
diz o presidente do Sindicato, Luiz Cláudio Marcolino,
ser recuperadas plenamente para a continuidade das
baseado em dados da Previdência Social. (FMM)
O descanso necessário
n Cada vez mais, as doenças ocupacionais
vêm se tornando um problema de saúde
pública no Brasil. Entre a categoria bancária,
o crescente número de afastamentos
registrados a cada ano, comprova:
atualmente, trabalhar em banco é tão
perigoso para a saúde quanto em uma
siderurgia, hospital ou mineradora.
doenças ocupacionais jamais imaginaram
que isso poderia lhes acontecer um dia.
n Essa realidade acaba de ser comprovada
pelo próprio INSS ,que atestou que os
bancos estão entre as empresas que m
ais adoecem os funcionários. Por isso,
é importante primeiro que todos se
conscientizem de sua vulnerabilidade
– todos os trabalhadores que contraíram
n Muito importante: não basta apenas
parar e permanecer no seu local de
trabalho, esperando calmamente o tempo
passar para que a pausa de 10 minutos a
cada 50 minutos trabalhados contribuam
efetivamente para a prevenção das doenças
ocupacionais.
n Programar pausas de 10 minutos a cada
50 minutos trabalhados é mais uma das
lutas necessárias para a conquista da plena
dignidade dos bancários e requer disposição
para enfrentar a resistência do setor patronal.
n Especialistas alertam e orientam que é
preciso, neste intervalo, desenvolver outras
atividades, caminhar, fazer alongamento,
pequenos exercícios, relaxar, conversar etc.
n A partir daí, a mobilização tem de
ser ampliada. É preciso uma atuação
consistente da Cipa, além de promover
no ambiente da empresa debates
entre os funcionários e com as chefias,
procurando instalar um ambiente de
diálogo e negociação construtivos, pelo
bem de todos, trabalhadores, empresa e
sociedade, para que as pausas preventivas
sejam incorporadas ao cotidiano do
trabalho.
sindicato dos b ancários
especial saúde
Como isso foi
acontecer comigo?
SXC
saúde mental
Por não temerem o perigo, os jovens formam uma parcela cada
vez maior de bancários ameaçados por transtornos mentais
A
lberto caiu em depressão profunda há dois
passou a cobrar dela desempenhos cada vez maiores
anos. Extremamente competente, sentiae a maltratá-la publicamente e com freqüência. Resisse orgulhoso de si cada vez que o Santantiu à insensatez da situação por dois anos e meio até
der promovia cortes de pessoal em massa,
sentir os primeiro sinais de ruptura. Após uma reunião
mas o mantinha empregado. No entanto,
em que a humilhação se repetiu, chorava no banheipassou a acumular as responsabilidades dos ex-coro quando sentiu “um formigamento nas mãos e nos
legas e a pressão sobre o seu desempenho o levou
pés, tontura. Perdi o controle. Saí gritando e quis bater
a viver constantemente no limite. Um dia, perto de
nele”. Há três anos afastada, hoje Marilda não consecompletar três anos de um ritmo alucinante – quangue mais passar à frente de uma agência sem sentir
do já não dormia direito e vivia irritado com a família
tremores e palpitações. Tem sonambulismo crônico,
- acordou, ele conta, “com um nó
está 12 quilos acima do peso e se
A
Previdência
Social
já
na garganta; pus o pé na agência
acha um fardo para as duas filhas
trata o tema em termos
e tive uma crise de choro e muita
pré-adolescentes e o marido.
de saúde pública
tristeza”. Foi levado ao médico e
Dramas resultantes de distúrbios
veio o diagnóstico: não tinha condições emocionais
mentais relacionados às condições de trabalho no sede continuar trabalhando. Está afastado e gasta mais
tor financeiro se contam aos milhares. A Previdência
da metade da sua renda em remédios. “Não sei o que
Social já trata o tema em termos de saúde pública:
aconteceu, acho que um dia vou acordar e ver que tudo
entre 1999 e 2002, os afastamentos de bancários por
foi um pesadelo.”
esse tipo de dano à saúde chegaram a 7.997 casos,
Marilda sofre de síndrome do pânico. Depois de três
segundo dados do sistema único de benefícios. Uma
anos no Itaú como uma talentosa batedora de metas,
análise do mesmo estudo dispara o alerta: é na cateassumiu uma gerência de contas, com o mesmo o
goria bancária que, silenciosamente, a incidência de
pique e dedicação. Mas então seu superior imediato
transtornos psíquicos mais aumenta a cada ano, supe10
especial saúde
sindicato dos b ancários
SXC
rando profissões em que a tensão emocional é recocados, são largamente difundidos entre a moçada que hoje ocupa mais
nhecidamente elevada, como as do transporte aéreo
da metade dos empregos nos bancos. Ajudam a impulsionar a venda de
e em hospitais.
produtos contribuindo, porém, para que não se avalie adequadamente
A maioria destes transtornos guarda algumas caracos riscos da sobrecarga de comprometimento.
terísticas em comum: atingem predominantemente
“Os profissionais jovens querem mostrar todo o seu potencial para sebancários entre 30 e 39 anos (faixa etária em que se
rem aceitos na instituição, mas geralmente possuem um entendimenconcentram perto de 45% dos empregos no setor) e,
to irrealístico sobre o que podem e o que não podem fazer, sendo fresegundo especialistas, são resultado de um processo de
qüentes as frustrações profissionais”, ensina a especialista em Psicologia
esgotamento que pode leOrganizacional e Gestão de Pessoas Cristiane
É na categoria bancária que
var anos até o limiar, isto é,
da Rosa, estudiosa da chamada síndrome do
a incidência de transtornos psíquicos
começam quando se tem
esgotamento profissional (também chamada
mais aumenta a cada ano
entre 20 e 29 anos e o
burnout).
auge da vitalidade. Além disso, estão fortemente liÉ dessa vitalidade inconseqüente, ao lado de um mercado de trabalho
gados ao ritmo e à intensidade com que as vítimas se
escasso e competitivo, que os bancos (e as terceirizadas) se aproveitam
dedicaram às suas tarefas, quando em atividade.
perversamente. Não à-toa, o número de cargos de gerentes na categoria
Alberto se arrepende, Marilda também. “Se tivesse
bancária, que compunha 5,79% do total de empregos no setor em 1986,
pensado um pouco teria percebido que aquilo tudo
havia subido a 13,2% em 2004, segundo o Dieese. Elevados aos chamados
era muito abuso. Acho que é por isso que eles não te
cargos de confiança, estes profissionais passam a se sentir valorizados o
deixam parar nem um instante”, ele avalia. A bancásuficiente para aceitar todo tipo de incumbência, sem noção do perigo a
ria opina sobre a atual campanha do Sindicato, instique expõem sua integridade física e mental, ao trabalhar sem descanso
tuir pausas de dez minutos a cada 50 minutos trabae descansar pensando no trabalho.
lhados: “Acho que se estivesse na ativa, dificilmente
“As empresas se apresentam como benfeitoras e formadoras do futuentenderia o quanto é importante ter um tempo para
ro desses jovens, dizem que são uma solução contra o desemprego, mas
aliviar a cabeça e respirar fundo. Mas eu gostaria de
o fato é que os trabalhadores manifestam uma série de queixas. O que
ter tido a chance”.
ocorre é o adoecimento cada vez maior dessa mão-de-obra jovem”, sen“Coisa de gente fraca”, ou “pra trabalhar em bantencia o médico Airton Marinho da Silva, mestre em saúde pública pela
co tem que ser forte”, entre outros conceitos equivoUniversidade Federal de Minas Gerais. (FMM)
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especial saúde
11
telesserviços
Alô, alguém me escute
Sob a aparência da modernidade, as centrais telefônicas
escondem condições cada vez mais insalubres de trabalho
A
SXC
s relações que as empresas do sistema
financeiro mantêm com as operadoras e
operadores das centrais telefônicas chegam à semi-escravidão. É a melhor maneira de se traduzir um trabalho controlado
pelas mais rígidas (e perversas) ferramentas de gestão
atuais, capazes, por exemplo, de registrar e advertir
automaticamente qualquer um que tenha ultrapassado alguns segundos do tempo permitido para ir ao banheiro. E ainda emitir uma notificação da advertência
à supervisão, para que esta possa exercer seu poder
de pressão, reforçando a bronca.
12
especial saúde
sindicato dos b ancários
E isso sob um regime de trabalho, em condições normais, de seis horas e 15 minutos diários, sendo esta
última fração de tempo reservada para a alimentação. A satisfação das necessidades fisiológicas básicas e o sagrado descanso, devem tomar, no máximo,
mais dez minutos diários e recebem o singelo nome
de pausa toalete.*
Os mesmos sistemas eletrônicos que controlam o
tempo de lanche e banheiro, verificam também a duração das chamadas atendidas e o intervalo entre o
fim de uma ligação e o início de outra. Permitem que
os chefes ouçam os diálogos e ainda gravam tudo,
acrescentando o conteúdo às informações acumuladas
sobre cada funcionário e que contribuirão para decidir
quem continuará empregado.
Os salários se enquadram entre os mais baixos
pagos às categorias profissionais de nível técnico.
Leve-se em conta que cerca de 85% da mão-deobra em telemarketing é composta por mulheres,
tradicionalmente mais exploradas. E que o pessoal
também tem metas de vendas às quais sua remuneração está diretamente associada. Tem-se algumas das mais sombrias e alarmantes estatísticas de
adoecimento entre os teleatendentes ligados aos
bancos, direta ou indiretamente (exceções existem,
mas também não chegam a ser exemplo de boa
prática empresarial).
Entre as maiores implicações à saúde resultantes
da intensidade e das condições indignas de trabalho
impostas nas centrais estão os impactos causados à
fala e à audição.
Um trabalho da pesquisadora Carla Oda, apresentado ao Instituto de Psicologia da USP em 2004, mostrou
que, dos operadores e operadoras de centrais telefônicas entrevistados, 85% apresentavam sinais de exaustão daqueles sentidos, com sintomas como zumbidos
nos ouvidos e rouquidão crônica.
A fonoaudióloga Luisa de Afonso é taxativa ao avaliar os riscos a que está exposta a saúde de quem trabalha nessa área. “Quando falar ao telefone é uma
tarefa rotineira, pode causar danos irreversíveis ao trabalhador, pode leva-lo à surdez e à disfonia (alterações
vocais) e à aposentadoria por invalidez”.
Entre as muitas razões que fazem do teleatendipode gerar impactos - sociais ­e previdenciários – de
mento um dos grandes inimigos da saúde dos trabagrandes proporções.
lhadores, Carla Oda cita o desrespeito à regulamentaPreservar o potencial produtivo desta imensa parceção específica do setor. “Há o limite estabelecido de
la de cidadãos (a atividade emprega cerca de 700 mil
36 horas semanais e o direito a uma pausa a cada 50
pessoas no Brasil, segundo a Associação Brasileira de
minutos trabalhados, mas não se encontram empresas
Telemarketing, ABT) significa transformar as diretrizes
que sigam essas determinações”, afirma.
organizacionais das empresas, por ora exclusivamente
L.C.A., que por quase quatro anos submeteu-se à
interessadas em lucrar sem limites, nem respeito.
semi-escravidão imposta pelo Telebanco, do Bradesco,
“Instituir uma parada de 10 minutos a cada 50
relata o sofrimento vivido por grande parte da cateminutos trabalhados é uma ação e uma necessidagoria. “O tempo todo eu
de urgente para o teleA demanda por esse tipo de serviço
sentia dores de garganmarketing hoje. A cada
aumenta, sem que as empresas
ta, sem falar das costas e
assumam a responsabilidade pela dia a demanda por esse
dos braços. Muitas vezes integridade das pessoas que contratam
tipo de serviço aumenta,
eu quis parar, mas era só
sem que as empresas asme levantar que já vinham me perguntar se a cadeira
sumam a responsabilidade pela integridade das pestinha prego, essas coisas”, lembra, sem saudade.
soas.” O diagnóstico é da socióloga da Unicamp Selma
Com pouco mais de 18 meses no emprego, L.C.A.
Venco, que há anos estuda o potencial de problemas
desenvolveu problemas na fala (“eu vivia rouca”) e
inerentes a esse trabalho.
solicitou acompanhamento fonoaudiológico ao banco.
“A pausa seria muito proveitosa. Tenho certeza que
Até seu pedido de demissão, mais de dois anos depois,
muitos problemas seriam evitados, talvez até o meu.
jamais foi atendida.
E não daria tanta razão aos supervisores, que quando
L.C.A., de 24 anos, insere-se ainda no que é, talvez
você diz que precisa descansar respondem que o houm dos aspectos mais preocupantes da profissão, em
rário tem que ser cumprido e ponto final”, L.C.A rerelação aos riscos que representa: cerca de 80% dos
comenda. (FMM)
atendentes é de jovens com idade entre 21 e 30 anos.
* Leia na página 4 sobre a importante resolução do MTE,
Além dos insuperáveis dramas pessoais, a displicênque aprovou o Anexo II da NR 17, que humaniza as condições
cia com que se tratam os riscos à saúde desse pessoal
de trabalho em telesserviços
Quando o trabalho adoece
Selma Venco
A pressão no trabalho tem comprovadamente provocado episódios lamentáveis de
desgaste físico e emocional em trabalhadores dos quatro cantos do mundo. Tomemos o
exemplo das centrais telefônicas ligadas às
empresas.
Aparentemente bem instaladas em salas e
galpões com ar condicionado e cadeiras estofadas, as centrais de atendimento, mais
conhecidas no Brasil como telemarketing,
produzem a imagem de um trabalho sem
desgaste físico.
Na verdade, essas centrais ocultam diversos aspectos associados ao controle. Seja pela
máquina, que registra todos os movimentos
dos operadores (pausas, quantidade de ligações feitas e recebidas), grava todas as suas
ligações (que serão ouvidas posteriormente
pelas chefias), distribui automaticamente as
ligações, sem espaço para uma recomposição
física e mental entre uma e outra; seja pela
supervisão, que pressiona constantemente
pela superação das metas - porque apenas
o cumprimento das metas não é mais suficiente, é necessário ultrapassá-las sistematicamente; seja também pela insistência na
redução do tempo de atendimento; e seja
pelos clientes que, protegidos pela distância,
freqüentemente tratam a estes teleoperadores de forma desrespeitosa.
O trabalho em telemarketing é extremamente padronizado e conforma um conjunto
de regras que condiciona o comportamento e
a disciplina para o trabalho, chegando-se ao
limite de obrigar a solicitar formalmente o uso
do toillete. Ser capaz de trabalhar sob extrema pressão é condição sine qua non para ingressar nesta profissão e nela permanecer.
Desta forma, este setor está, nas palavras
de um dirigente sindical, criando um exército
de jovens doentes. A incidência de síndrome
do pânico e depressão entre esses trabalhadores é alta. Entre os entrevistados na pesquisa que realizamos, todos mencionaram esses
males, se não em si mesmos, entre colegas.
É importante lembrar os inúmeros estudos
que associam altas taxas de morbidade às profissões para as quais as empresas ou as chefias
exigem muita rapidez no desenvolvimento das
tarefas. Na central francesa Francetelecom havia, em 2004, o registro de 4 suicídios.
Entretanto, mesmo com a adoção de uma
verdadeira “pedagogia do medo” praticada
pelas centrais de atendimento no Brasil - com
ameaças explícitas de demissão - e com alto
índice de desemprego nesta faixa etária, esses jovens profissionais abandonam as empresas por não suportarem as condições de
trabalho, resultando em altos índices de rotatividade e de absenteísmo.
Encerramos adaptando uma proposição de
Luciano Vasapollo: só a classe trabalhadora
poderá defender a tese de que “um outro
telemarketing é possível”.
Selma Venco é socióloga, mestre e
doutora pela UNICAMP. Autora do
livro Telemarketing nos bancos: o
emprego que desemprega
(Edunicamp, 2003).
sindicato dos b ancários
especial saúde
13
Ler/Dort
Estica,estica até romper
um número cada vez maior de excelentes funcionários
tem sua carreira interrompida bruscamente, e para sempre
H
fotos: Gerardo Lazzari
Silmara
manteve
o pique, o
cumprimento
de metas e sua
contribuição
para os lucros
do banco, até
que as dores
se tornaram
insuportáveis
á cerca de 40 anos, previa-se um mundo sem trabalho, resultado da automação e do surgimento dos computadores,
que poria as máquinas a serviço do homem proporcionando aos cidadãos mais
horas para o lazer, a família, o aprimoramento intelectual e espiritual.
No entanto, daquela teoria, só o desenvolvimento
tecnológico se concretizou, contribuindo decisivamente para o aumento da produção e da produtividade,
em todos os setores da economia. O surgimento de
novas máquinas, que propiciou a criação de atividades
econômicas que antes não existiam, como a avançada
intermediação financeira dos dias de hoje, não reduziu a necessidade de se dedicar a vida ao trabalho em
regime praticamente integral (como padrão, ainda se
trabalha oito horas por dia, como já se fazia 80 anos
atrás). Nem o impacto que o ganha-pão gera sobre a
saúde das pessoas mudou, pelo contrário.
Assim como a quase totalidade dos colegas de profissão bancária, Sérgio era obrigado, “por questão de
sobrevivência”, como diz, a se entregar integralmente ao trabalho para o Bradesco – uma empresa que se
orgulha de seus avanços e pioneirismo em automação
e tecnologia. Apesar disso, porém, a modernidade do
equipamento que operava sem descanso não o poupa-
14
especial saúde
sindicato dos b ancários
va de sentir fortes dores no braço ao fim dos dias.
Julgou – erroneamente, percebeu, tarde demais ­ –
que não poderia parar, que o problema era seu e não
do banco, que não devia comunicar o problema. Passou a tomar remédios para diminuir a dor, enquanto via a quantidade de trabalho crescer a cada dia.
Apesar de o banco crescer ininterruptamente, queria
mais, sem ligar – nem querer saber –, para a saúde
dos ‘colaboradores’.
Um dia, em 2006, a musculatura de seu braço simplesmente se rompeu e remédio nenhum devolveria mais a sua capacidade de superar as metas e a si
mesmo. Desde então, sem emprego e sem condições
de trabalhar, o drama só aumenta. “Tenho dívidas até
na farmácia, não posso ficar sem remédios e não sei
como fazer”, se desespera, ao lembrar o quanto sua
vida agora depende de familiares e amigos.
A alta intensidade do ritmo de trabalho, a execução de grande quantidade de movimentos repetitivos em grande velocidade, a sobrecarga de determinados grupos musculares, a ausência de controle sobre
o modo e ritmo de trabalho, a ausência de pausas, a
exigência de produtividade etc., continuam tão presentes na vida dos trabalhadores quanto no fim do
século 19, independentemente do setor econômico
em que atuem.
E estas condições são as principais responsáveis pelo
crescimento alarmante e epidêmico da incidência cada
vez maior das muitas modalidades de LER/Dort entre
os trabalhadores em geral, e entre os quais, os bancários ocupam infelizes lideranças.
Uma série de estudos apontam que algo em torno
de 60% dos casos de LER/Dort no sistema financeiro
acontecem quando se tem entre 30 e 39 anos e cerca de 19% abaixo de 30 anos. Comprovadamente, as
LER/Dort constituem um grupo de doenças que vitima trabalhadores relativamente jovens, em plena
fase produtiva e longe de suas aposentadorias por
tempo de serviço.
Elas estão diretamente relacionadas ainda à permanência e repetição de certos tipos de atividade por um
tempo prolongado e às condições físicas e psíquicas
do local de trabalho, isto é, pouco tempo para muitas
tarefas e uma cobrança sem descanso por desempenho e produtividade.
Foram estas características que incapacitaram definitivamente a ex-funcionária do Itaú Silmara, que após
os primeiros sinais de lesões considerou que seria forte
o suficiente para não ter de procurar tratamento adequado, manteve o pique, o cumprimento de metas e
sua contribuição para os lucros do banco, até que as
dores se tornaram insuportáveis. Afastou-se e retornou, mas não para sua ocupação anterior. Passou a ser
obrigada a trabalhar em pé (“queriam que eu pedisse
a conta”). A auto estima abalada contribuiu para que
novas complicações surgissem, inclusive mentais. Foi
dada como incapacitada para o trabalho e aposentada
por invalidez. A pensão mal lhe permite contribuir para
as receitas da casa e a educação das filhas.
As maiores armas para combater as LER/Dort nos
locais de trabalho é a informação e a organização dos
trabalhadores. É essencial que os bancários desenvolvam a percepção sobre determinados sintomas e procurem assistência rapidamente. As lesões têm caráter epidêmico e são frequentemente incapacitantes”,
ensina a médica Maria Maeno, pesquisadora da Fundacentro.
Com isso, um contingente cada vez maior de jovens
bancários, a maioria do gênero feminino (características predominantes
nos escalões mais baixos das empresas, em que a exigência pelas metas
é maior e costuma ser mais abusiva) estão perdendo ou ameaçados de
perder a capacidade produtiva.
“Os jovens se atiram ao trabalho com muita energia e não acham que
terão seus músculos e ossos afetados pelo excesso de atividade e a extrema pressão que encontram nos bancos. O fato é que as formas de se
trabalhar impostas nas empresas são determinantes e têm levado um
contingente cada vez maior de excelentes funcionários a interromper sua
carreira, muitas vezes, para sempre”, completa Maeno. (FMM)
Sérgio era
obrigado, “por
questão de
sobrevivência”,
como diz, a
se entregar
integralmente
ao trabalho
para o Bradesco
Saúde como meta no trabalho
Por Maria Maeno
Quem nunca foi abordado por um operador de telemarketing, um caixa ou gerente
de banco, oferecendo um seguro de vida ou
um investimento imperdíveis?
O que antes era sutil virou explicitamente um pedido de socorro dos bancários, que
precisam vender os produtos dos bancos em
que trabalham. Chegam mesmo a telefonar
e assediar vizinhos e familiares à noite, nos
fins de semana, feriados, festas e encontros
de amigos para mostrar os “grandes negócios” que eles podem fazer.
Esse comportamento obsessivo vem se
tornando comum entre os bancários. Gerentes, chefes ou simples funcionários, todos
são obrigados a cumprir suas metas – quando não, ultrapassá-las. E essa “missão” pode
atormentá-los 24 horas por dia.
Em suas empresas, encaram uma seqüência
de cobranças de cima para baixo, nem sempre
adequadas. São comuns as queixas sobre as
situações de humilhação para os obrigar a vender e vender, as comparações constrangedoras entre colegas, além das ameaças, veladas
ou explícitas, de demissão. Sem contar os impactos dos cada vez mais freqüentes assaltos
e seqüestros em bancos, com inúmeros casos
de estresse pós-traumático.
Essas situações têm preço para a saúde. O
número de bancários apresentando episódios
depressivos, quadros de ansiedade, perturbação do sono, sensações de angústia e insegurança, síndrome do esgotamento profissional
(burn-out) é preocupante.
Desde 1999 são todos distúrbios oficialmente reconhecidos pelo Ministério da Saúde, que os descreveu no Manual de Procedimentos para os Serviços de Saúde – Doenças
Relacionadas ao Trabalho, publicado em 2001.
Também a Previdência Social os listou no anexo II do Decreto 3.042, (1999), reconhecendoos como relacionados ao trabalho.
No entanto, na prática, o percentual desses
transtornos associados ao trabalho é muito
pequeno. No ramo bancário, segundo a Previdência Social, o adoecimento mental é mais
freqüente do que em outras atividades, mas
não identificado como ocupacional na grande
maioria das vezes.
Outro grupo de doenças, antigas conhecidas
dos bancários, são as Lesões por Esforços Repetitivos ou Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (LER/DORT): tendinites,
tenossinovites, síndromes compressivas de
nervos periféricos, cervicobraquialgias.
Apesar de estarem entre as doenças re-
lacionadas ao trabalho mais registradas em
vários ramos econômicos, entre os quais, o
sistema financeiro, a freqüência com que
ocorrem não são exatamente conhecidos.
Isso porque as empresas, com grande destaque para os bancos, não notificam os serviços
públicos de saúde como deveriam, tentando
esconder a dura realidade que impõem aos
funcionários.
Ambos os grupos de adoecimento, de evolução crônica, têm causas comuns na organização do trabalho, cujas características atuais
são nocivas à saúde. São altamente relacionados a afastamentos prolongados, a grande sofrimento entre trabalhadores e seus familiares, além de implicar custos elevados
ao Sistema Único de Saúde e à Previdência
Social.
É, portanto, urgente que se consolide um
acordo entre trabalhadores e empresas que
tenha como foco a mudança das condições
de trabalho e como objetivo a erradicação
desse adoecimento.
Maria Maeno é médica sanitarista,
pesquisadora da Fundacentro,
mestre pela FSP/USP e co-autora
do protocolo de LER/Dort do
Ministério da Saúde
sindicato dos b ancários
especial saúde
15
Na mira
da Justiça
gettyimages
Assédio Moral
A violência moral nos locais de trabalho começa a ser, enfim, punida
A
violência psicológica, o constrangimento
denunciou que 12 milhões de pessoas da União Euroe a humilhação foram incorporados despéia haviam relatado situações humilhantes em suas
de sempre às formas de se obter dos funempresas, que acarretaram distúrbios de saúde física
cionários o atendimento às exigências de
e mental. O fenômeno se repete fortemente também
lucro dos respectivos patrões.
nos Estados Unidos.
Isso nunca significou, porém, que tal prática seja
No Brasil, os pioneiros estudos feitos à mesma
correta e apropriada. O que impera nas relações de
época pela médica do trabalho Margarida Barreto
trabalho, na verdade, é uma impunidade secular, que
(leia artigo de sua autoria ao lado) constataram que
apenas recentemente começa a ser devidamente es42% dos entrevistados haviam sido vítimas de viotudada, denunciada e, o que é melhor, combatida e
lência moral nos locais de trabalho. Assim, uma sépunida pelos rigores da lei. Mais enfaticamente na
rie de iniciativas desenvolvidas por médicos, médicos
última década, os relatos
do trabalho, psicólogos,
O funcionário é humilhado diante de
associando adoecimenadministradores de emtodos por não ter atingido as metas,
tos físicos e mentais, rerecebe “presentes” que o ridiculariza presas, advogados e
sultando em afastameneconomistas, entre outos do trabalho e um grande impacto nas contas dos
tros vem tornando possível delinear e conceituar o
serviços públicos e de assistência à saúde despertaassédio moral.
ram o interesse de estudiosos de áreas distintas. No
No caso brasileiro, esses trabalhos inter e multidisBrasil e no mundo.
ciplinares provocaram a elaboração de grande quantiSim, é verdade. Até mesmo nos países que já condade de projetos de lei em diferentes cidades do País
quistaram avanços sociais significativos, a prática do
(atualmente, segundo o Tribunal Superior do Trabalho,
assédio moral incomoda e apaga o brilho das estatísjá são mais de 80, de praticamente todos os Estados).
ticas relacionadas ao bem-estar da população.
Muitas dessas cidades – por exemplo, São Paulo, CasA organização Internacional do Trabalho (OIT), basecavel (PR), Salvador e Campinas (SP) – já transformaada em ampla pesquisa realizada em 1996, detectou e
ram os projetos em lei.
16
especial saúde
sindicato dos b ancários
Desta forma, nesses municípios, as empresas devem
ultrapassando os limites da dignidade e da legalidade.
coibir as ações constrangedoras e humilhantes nas re“No modelo atual de produtividade imposto pelas empresas, não existe
lações com seus funcionários. Caso contrário, cabe aos
a noção de impossível e não se admite obstáculos na corrida por ultrapastrabalhadores denunciar e exigir na Justiça a punição e
sar as metas. Os conflitos nas relações entre as pessoas resultam dessa
o devido ressarcimento pelos danos causados.
loucura e essa imposição, que submete e tortura a todos os funcionários
Em muitos casos, porém, a Justiça Trabalhista vem se
indiscriminadamente, deve ser banida “, explica Margarida Barreto (leia
adiantando e se posicionado favoravelmente aos traartigo de sua autoria nesta página).
balhadores, sem espeNo entanto, a prática diária mostra que
Os
bancários
estão
subordinados
a
um
rar a promulgação de
a vitória do direito sobre o poder econôcontexto de pressão e opressão constante,
leis específicas. “A temico ainda está longe e não virá de cima,
o que revela a forma de administrar o
oria do assédio moral
apesar de alguns esforços pontuais, mespessoal pelo medo, ameaças e injúrias
se baseia no direito à
mo que já se tenham conquistado signidignidade humana, que por sua vez está previsto no
ficativos avanços.
artigo 1º, inciso 3, da Constituição Federal”, ensina a
É necessário dizer, mais uma vez, que os principais interessados na transjuíza e ministra do TST Maria Cristina Peduzzi.
formação – as vítimas de um modelo econômico sob todos os aspectos
A magistrada cita ainda que as resoluções sobre a
equivocado, os trabalhadores – precisam assumir a dianteira.
violência moral nos locais de trabalho são baseadas
A forma imediata de incorporar-se à luta pela humanização das relações
também em outros princípios incluídos na Constituisociais nas empresas é notificar – aos sindicatos e/ou aos serviços públição. “O artigo 6º confere a todo cidadão brasileiro o dicos de assistência ao trabalhador e à saúde – os episódios de repetição
reito à saúde (mais especificamente à saúde mental),
sistemática de atos humilhantes e constrangedores nos locais de trabalho,
enquanto o artigo 5º, inciso 10, prevê o direito à honra.
seja por parte das chefias, seja dos colegas de mesmo nível hierárquico.
São todos direitos, portanto, invioláveis”, diz.
É a partir daí, ampliando a base de informações, que as entidades sinEstá claro que, aos olhos da Justiça, cada vez mais a
dicais, médicos, advogados, psicólogos, magistrados, legisladores e todos
perseguição do cumprimento e da superação das meos interessados em humanizar definitivamente as condições de trabalho
tas de produtividade, regra que orienta as empresas
terão cada vez mais subsídios para avançar em seus estudos e reivindiem geral, e em particular as do sistema financeiro, está
cações, pela saúde e bem estar geral. (FMM)
Recuperar o sentido do trabalho
Por Margarida Barreto
A exploração dos trabalhadores atingiu um
grau de eficiência historicamente novo, a partir do projeto econômico neoliberal e das novas tecnologias: fechamento de vagas, demissões em massa e intensificação do ritmo
de trabalho, exclusivamente para aumentar
a lucratividade e o poder patronal.
Ao lado das terceirizações crescentes e subcontratações, passou-se à procura detalhada do
novo funcionário, que agora deve possuir saúde
perfeita, excelência, competência, habilidade e
conhecimentos tecnológicos apurados.
O “crescimento” em muito se deve aos sacrifícios impostos à classe-que-vive-do-trabalho. O que predomina em diferentes setores da economia é a pressão para ultrapassar
a meta diária. Nos bancos não é diferente.
Mesmo que, em sua grande maioria, possuam alta qualificação profissional e competência técnica, os bancários estão subordinados a
um contexto de pressão e opressão constante,
o que revela a forma de administrar o pessoal
pelo medo, ameaças e injúrias.
Todos estão cotidianamente expostos à
violência, na medida em que são desqualifi-
cados, pressionados e desmoralizados se não
“venderem”. E se alguém contesta, critica, sugere novas formas de administrar ou adoece
em conseqüência da pressão, passa a ser considerado uma “pessoa problemática”, sendo
sistematicamente criticado, o que o leva a duvidar de suas qualidades profissionais.
Não percebe, muitas vezes, que está sendo forçado, indireta e sutilmente, a renunciar
“voluntariamente” à empresa e ao emprego.
Sob o comando de chefias que manipulam o
medo, intensificando o desgaste e sofrimento, a tensão e a sujeição aumentam. E aqueles que testemunham, se calam.
Quando usados repetitivamente palavras
e gestos que desqualificam, rebaixam e menosprezam, causam adoecimentos e transtornos psíquicos variados. Para as vítimas, o trabalho, aos poucos, vai perdendo o sentido.
A violência institucionalizada manifesta-se
de diferentes formas: atos discriminatórios,
intolerância e abuso de poder. É o caso das
políticas de premiações negativas, em que o
funcionário é humilhado diante de todos por
não ter atingido as metas, recebe “presentes”
que o ridiculariza, ouve comentários irônicos
e desmoralizantes.
São atos que ferem a dignidade, oprimem
e colocam em risco a saúde mental e física, a
segurança e a vida dos trabalhadores, acarretando prejuízos práticos e emocionais para as
vítimas, a organização e o Estado.
O tema tem sido motivo de amplas discussões, pesquisas, seminários, encontros, cartilhas e sucessivas negociações entre bancários e patrões.
Para combater essa forma de tortura no
trabalho, é necessário organizar, intensificar os laços de amizade e confiança, dar
visibilidade social ampla aos atos de assédio perpetrados. E compreender, acima de
tudo, que a violência moral se insere no
contexto das novas políticas de gestão e
organização das empresas. Na medida em
que constitui uma ferramenta de gestão, a
luta contra o assédio moral diz respeito a
todos e requer ação coletiva e sensibilização de toda a categoria.
Margarida Barreto é médica do
trabalho e doutora em Psicologia
Social pela PUC-SP
sindicato dos b ancários
especial saúde
17
sindicato
Em benefício de todos,
é preciso parar
O INSS relaciona a incidência de doenças ocupacionais às
condições de trabalho; respeito à saúde conquista vitórias
mas há muito a fazer
O
Walcir,
secretário
de Saúde do
Sindicato:
“O cotidiano
do sistema
financeiro
representa
tanto risco à
saúde quanto
o trabalho em
construção
civil”
18
número de bancários afastados por
Bruno, secretário de Saúde do Sindicato.
problemas de saúde e acidentes de
A nova metodologia irá contribuir para a redução
trabalho é tamanho que a Previdência
da subnotificação das doenças ocupacionais, que por
Social “elevou” os bancos à categoria de
muito tempo vem sendo o artifício usado pelos bancos
alto risco. Isso quer dizer que as instituições
justamente para escapar do enquadramento pelo
financeiras, que antes repassavam 1% sobre a folha
INSS, e continuar a sacrificar impunemente a saúde
de pagamento ao INSS, a título de seguro acidente de
dos bancários.
trabalho, terão essa alíquota elevada a 3%, a partir de
Conquistas como essas são resultado de muita
2008, conforme prevê decreto assinado recentemente
persistência e obstinação, nem sempre reconhecidas
pelo presidente Lula.
pelos maiores beneficiados, os próprios trabalhadores.
Além de reenquadrar as empresas em três categorias
É árduo mobilizar as pessoas para a luta pelo
de risco de exposição a acidentes – leve, médio e alto,
respeito, preservação e reabilitação da saúde nos
correspondendo respectivamente
bancos. Ninguém costuma dar o
Ninguém costuma dar o
a 1%, 2% e 3% da folha – o decreto
verdadeiro valor à sua saúde, até
verdadeiro valor à sua
muda o procedimento para a
saúde, até perdê-la, total perdê-la, total ou parcialmente.
concessão de benefícios. Todos
A atual campanha lançada pelo
ou parcialmente
os brasileiros vítimas de acidentes
Sindicato – 10 Minutos Pra Você,
de trabalho não terão mais que esperar sua empresa
Sua Saúde Vale Mais – é mais uma destas iniciativas
reconhecer a doença ocupacional para ter acesso ao
obstinadas que visa o bem estar de cada um. E requer
benefício do INSS.
a persistência de todos para mostrar ao setor patronal
O decreto lista uma série de doenças e sua relação
que os bancários não querem mais ser explorados até
com o ramo de atividade. Bastará o diagnóstico positivo
o esgotamento total, para depois serem simplesmente
para que o auxílio acidente de trabalho seja concedido
trocados e lançados para um futuro totalmente diverso
automaticamente ao segurado, sem depender mais da
daquele que o fizeram crer que teriam, ao se lançar
emissão, por parte das empresas, da Comunicação de
incondicionalmente ao trabalho.
Acidente de Trabalho (CAT).
Por isso, é essencial que se conquiste um tempo
“Sem dúvida é mais um grande avanço. A
para descansar durante a jornada. E convencer seus
abordagem dos médicos peritos não terá mais caráter
colegas a debater a questão no local de trabalho.
apenas individual, mas principalmente coletivo. No
“A realidade é que hoje o bancário adoece e, de
caso dos bancários, a confirmação de que muitos
maneira geral, o cotidiano do sistema financeiro
sofrem de LER/Dort passará a ter grande peso para
representa tanto risco de prejuízo à saúde quanto o
a manutenção de direitos como a estabilidade de
trabalho em construção civil, siderurgia ou plataformas
emprego e recolhimento do FGTS, além de forçar os
de petróleo. Preservar-se do excesso de trabalho é
bancos a rever objetivamente o seu descaso com a
essencial, para que se mantenha a capacidade de
saúde dos funcionários”, comenta Walcir Previtale
trabalhar ”, avalia Walcir. (FMM)
especial saúde
sindicato dos b ancários
sites, telefones e Endereços
Central de Atendimento do Sindicato
Tel.: (11) 3188-5200
Rua São Bento, 413, Centro, São Paulo
www.spbancarios.com.br
Referências, estudos e serviços de assistência ao trabalhador e à saúde pública
Cadernos de Saúde Pública e publicação periódica de estudos
www.scielo.br/csp
Fundação Oswaldo Cruz
www.fiocruz.br
Centro de Estudos Sindicais e de Economia
do Trabalho da Unicamp
www.eco.unicamp.br
Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo
www.fsp.usp.br
Comissão Internacional para a Saúde Ocupacional
www.icohweb.org
Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro
www.contrafcut.org.br
Conselho Nacional de Saúde
http://conselho.saude.gov.br
Departamento de Informação do SUS
www.datasus.gov.br
Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos
Socioeconômicos
www.dieese.org.br
Empresa de Tecnologia e Informações da Previdência Social
www.dataprev.gov.br
Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança
e Medicina do Trabalho
www.fundacentro.gov.br
Grupo Interinstitucional de Comunicação e Educação em
Saúde de Santa Catarina
www.gices-sc.org
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo
www.ip.usp.br
Instituto Nacional de Prevenção às LER/Dort
www2.uol.com.br/prevler
Ministério da Previdência Social
www.previdencia.gov.br
Ministério da Saúde
www.saude.gov.br
Ministério do Trabalho e Emprego
www.mte.gov.br
Organização Internacional do Trabalho
www.oit.org.br
Portal de Segurança e Saúde no Trabalho
www.saudeetrabalho.com.br
Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo
www.saude.sp.gov.br
Site sobre Assédio Moral
www.assediomoral.org
Centros de Referência em Saúde do Trabalhador de São Paulo-SP
Freguesia do Ó
Av. Itaberaba, 1210/1218, tel.: 3975-0707
e-mail: [email protected]
Mooca
Av. Paes de Barros, 872 – tel.: 6604-7277/6605-0222
e-mail: [email protected]
Praça da Sé
R. Frederico Alvarenga, 259, 5º andar, tel.: 3106-8908/3257-5155
e-mail: [email protected]
Santo Amaro
R. Adolfo Pinheiro, 581 – tel.: 5523-5382/5522-5180
e-mail: [email protected]
Lapa
R. Cotoxó, 664, tel.: 3865-2077 / 3865-2213
e-mail: [email protected]
Pare por 10 minutos a cada 50 trabalhados.

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