TIHUANA - Tropa de Elite ao vivo

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TIHUANA - Tropa de Elite ao vivo
TIHUANA - Tropa de Elite ao vivo
Muro de concreto é bom de derrubar! Tihuana, o pau vai quebrar! Por que será
que o quinteto paulista (que inclui um argentino, um baiano e dois cariocas,
além de um paulista), ouvido em todo o mundo no filme “Tropa de elite”
demorou tanto a capitalizar em cima do Capitão Nascimento e seus fanfarrões?
Muito simples: eles estavam ocupados trabalhando. O entrosamento e a
competência que se ouvem neste “Tropa de elite ao vivo”, primeiro DVD do
grupo, são fruto de cerca de 140 shows por ano, que vão de grandes festivais
a festas nos interiores do Brasil e do exterior. Depois de uma década e de
cinco discos de estúdio, nada mais natural, com ou sem a ajuda da Faca na
Caveira, que Egypcio (voz e violão), Román (baixo e voz), Leo (guitarra e voz),
Baía (percussão e voz) e PG (bateria) mostrassem o que fizeram e aprenderam
em um caprichado DVD ao vivo.
Gravado no estacionamento do Kazebre, hoje o principal point do rock na Zona
Leste de São Paulo, em dezembro de 2007, à frente de um público alucinado
de 5 mil pessoas -- com uma forte presença feminina, que canta tudo a plenos
pulmões --, “Tropa de elite ao vivo”, dirigido por Santiago Ferraz, resume bem
a festa que os cinco e seus convidados são capazes de organizar, com sua
mistura de rock, rap, reggae e sons latinos. A bagunça começa com o sucesso
“Praia nudista”, versão de “Nude beach”, um reggae ensolarado e bemhumorado, que já deixa o público no ponto. Quem não conhece o Tihuana
(talvez alguém que tenha passado os últimos dez anos numa caverna, quem
sabe?) tem a essência do som da banda resumida nas canções seguintes: a
interpretação emocionada e sincera, além de afinadíssima, de Egypcio, a base
firme e criativa de Román e PG (lá se vão décadas desde que os meninos
começaram a tocar juntos no underground carioca), a guitarra de Leo, onde o
som encontra um porto seguro, ora pesada, ora discreta, e o molho de Baía
estão em “Na parede do quintal”, na bela “Que vês?” (olha o rock latino aí,
quando será que o Brasil vai se ligar?), em “De longe” e em mais uma de
sabor latino (andino, mais especificamente, com a participação de Ramón, o
Índio, no charango e na quena, aquela flautinha peruana), “Por que será?”.
Esta última tem a participação do primeiro convidado especial da banda,
Zeider, cantor da banda Planta & Raiz.
Assim como o Tihuana, ao longo dos anos, encontrou um som próprio a partir
de tantos e tão diferentes elementos, segue o show, viajandão e bemhumorado em “Eu vi gnomos” e no clássico “Clandestino”, versão da canção do
mestre Manu Chao; mais emocionado e sério em “Um dia de cada vez” e
“Renata” (bela parceria da banda com Belex, que tem como espinhoso tema a
prostituição infantil, abordada de modo delicado e poético), até que, não tem
jeito, o bicho começa a pegar.
A roda de pogo se abre ao som de “Bote fé”, um hardcore sem noção (no
melhor dos sentidos) em que a banda tem o reforço de Di Ferrero e Gee Rocha,
do NX Zero. O suor mal começou a jorrar quando o Tihuana oferece um
refresco (no pior dos sentidos), “É guaraná”, pérola escondida de seu primeiro
disco, mais pedrada na testa, seguida pelo clássico dos clássicos do pogobol
roqueiro brasileiro, “Pula!”, que faz tremer o chão da Zona Leste.
Mais convidados aparecem para que a coisa fique séria de vez: diretamente da
Rocinha, os MCs Junior e Leonardo aparecem para mostrar como se faz um
funk de responsa, o standard “Rap das armas” (aquele mesmo do
parapapapapapapapapá...). Além de levar o povo ao delírio com o refrão, o
Tihuana entra aos poucos na canção, que começa apenas com os dois MCs e o
DJ JF e acaba com a união definitiva do morro com a guitarra. Para terminar, o
Zero Cinco André Ramiro (o Matias de “Tropa de elite”) se une à banda para o
hino brasileiro de 2007. Osso duro de roer. “Pula, filha da pula!”, ordena ele,
rapper talentoso, como se precisasse.
Além de um show redondo, para se colocar no comando repeat do DVD, o
disquinho traz como bônus tracks “Ela se foi” e “Outra história” (esta com a
super Ivy, parceira dos meninos em diversas composições, como convidada
especial), além do making of “Medo e delírio na estrada”, dirigido por Dino
Dragone, que poderia ir para os cinemas. O filme mostra a última semana do
Tihuana antes da gravação do DVD, os ensaios com os convidados (é claro que
um passa mal, outro não aparece...) e um fim de semana enlouquecido de
shows, até dois na mesma noite, em cidades distantes 200km uma da outra.
Com profissionalismo e bom humor, Egypcio, Román, Leo, Baía e PG mostram,
com os pés firmemente presos ao chão, como o rock pode ter pouco glamour e
muita paixão. E isso mesmo é o que faz o Tihuana valer a pena.
Bernardo Araujo
Maio 2008