a neologia nas ciências naturais - SIMELP

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a neologia nas ciências naturais - SIMELP
Língua portuguesa: ultrapassar fronteiras, juntar culturas
(Eds.) Mª João Marçalo & Mª Célia Lima-Hernandes, Elisa Esteves, Mª do Céu Fonseca, Olga Gonçalves, Ana
LuísaVilela, Ana Alexandra Silva © Copyright 2010 by Universidade de Évora ISBN: 978-972-99292-4-3
SLG 1 - Neologia e línguas de especialidade
A NEOLOGIA NAS CIÊNCIAS NATURAIS: UM ESTUDO A RESPEITO DA
FORMAÇÃO DOS TERMOS PRESENTES EM REVISTAS DE DIVULGAÇÃO
CIENTÍFICA
Mariângela de ARAÚJO1
RESUMO: O presente trabalho tem como objetivo apresentar os resultados iniciais do
Projeto BDTCien: Base de Dados Terminológicos das Ciências Naturais, desenvolvido
na Universidade de São Paulo, tendo em vista a análise formal e conceitual dos termos
concernentes a essa grande área do saber.
Embora o Projeto não contemple apenas o estudo neológico, as revistas
selecionadas, apesar de apresentarem características diferentes e serem destinadas a
públicos diversificados, têm como característica comum o fato de se ocuparem da
divulgação do que existe de mais recente em relação às pesquisas científicas. Assim, a
neologia está muito presente nos textos e, por isso, seu estudo é imprescindível em uma
análise terminológica das Ciências Naturais.
Como o Projeto está em sua fase inicial, pretende-se levá-lo ao conhecimento da
comunidade científica, especialmente dos interessados nos estudos terminológicos e
lexicológicos, expondo-o ao debate acadêmico. Além disso, demonstrar-se-á os
primeiros resultados obtidos no desenvolvimento do estudo dos termos coletados, com
ênfase nos processos de formação desses termos.
PALAVRAS-CHAVE: Neologia; Terminologia; Ciências Naturais.
Introdução
O Projeto BDTCien: Base de Dados Terminológicos das Ciências Naturais visa
a uma investigação, em diversos corpora, da terminologia concernente às Ciências
Naturais, ou seja, à Biologia, à Física, à Química e a áreas afins a estas, tais como a
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Universidade de São Paulo – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas – Departamento de
Letras Clássicas e Vernáculas. Av. Prof. Luciano Gualberto, 403 – CEP 05508-900 – Cidade
Universitária, São Paulo, SP, Brasil. Endereço eletrônico: [email protected]
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Língua portuguesa: ultrapassar fronteiras, juntar culturas
(Eds.) Mª João Marçalo & Mª Célia Lima-Hernandes, Elisa Esteves, Mª do Céu Fonseca, Olga Gonçalves, Ana
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Ecologia e a Astronomia, tendo como objetivo geral descrever e analisar formal e
conceitualmente os termos concernentes a essa grande área do saber.
Este Projeto tem sido desenvolvido na Universidade de São Paulo e tem contado
com a participação de alunos de Iniciação Científica. Esses alunos têm colaborado na
coleta e na inserção dos termos coletados em uma base de dados.
Neste primeiro momento, o Projeto tem-se restringido a investigar os termos e os
conceitos referentes às Ciências Naturais presentes em um corpus de divulgação
científica, constituído pelas edições de 2007 das revistas Pesquisa FAPESP e
Superinteressante.
Os dados terminológicos coletados estão sendo transcritos em fichas
terminológicas que contêm os seguintes campos: termo; informações gramaticais;
sigla(s) ou acrônimo(s); sinônimo(s); definição; termo(s) relacionado(s); contexto(s);
informações sobre a(s) fonte(s) do(s) contexto(s); informações sobre a formação do
termo; área; autor da ficha; e data de inserção da ficha na base.
O levantamento dos termos das Ciências Naturais tem-se mostrado bastante
interessante para um estudo terminológico, porque abre margem a uma série de
reflexões teóricas importantes neste momento do estabelecimento de novas bases para
uma teoria da Terminologia. Assim, no capítulo a seguir, buscar-se-á demonstrar esse
fato. Nos capítulos posteriores, abordar-se-á mais especificamente o fenômeno da
neologia no corpus analisado.
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Por que estudar a terminologia das Ciências Naturais?
Várias são as motivações que levam um terminológo a se dedicar ao estudo da
terminologia de uma determinada área do saber. A opção pela grande área das Ciências
Naturais de nenhuma forma foi arbitrária; ao contrário, levou em consideração
para a sua escolha não apenas a relevância dessa grande área, mas também, e sobretudo,
as possibilidades de estudo que essa escolha poderia ensejar em termos da pesquisa
atual em Terminologia.
Obviamente faz-se necessário ressaltar a importância da área no momento atual
do desenvolvimento científico. Nesse sentido, destacam-se a importância que essa
grande área do saber tem historicamente para o desenvolvimento científico e
tecnológico e também a atualidade das pesquisas e os questionamentos feitos pela área,
que apresenta à sociedade uma série de reflexões essenciais às decisões e ao
comportamento do homem em relação à natureza, da qual depende para sobreviver.
Assim, o estudo da terminologia dessa grande área do conhecimento propiciará a
investigação de temas e, conseqüentemente, de conceitos atuais, relacionados à
preservação do meio-ambiente, às novas fontes de energia ambientalmente aceitáveis,
ao aquecimento global, à utilização racional da água, à utilização dos conhecimentos
vindos da descrição do DNA, aos alimentos transgênicos, ao uso terapêutico de célulastronco, entre outros. Dessa forma, a relevância e a história atual dessa grande área já
justificariam o Projeto do ponto de vista terminológico.
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Entretanto, a abordagem dos temas descritos acima propicia ainda ao
terminólogo o estudo de conceitos novos e polêmicos, permitindo observar as
conotações atreladas a termos científicos, que por muito tempo, e ainda por alguns, são
vistos como termos essencialmente denotativos e objetivos, livres de ideologias (cf.
WÜSTER, 1998). Desse modo, o estudo desses termos e conceitos, sobretudo em textos
de divulgação científica, permitirão a observação e a análise das conotações atribuídas
aos termos, além de possibilitar o estudo da construção ideológica dos conceitos.
Cumpre-se também destacar que, do ponto de vista terminológico, a análise da
história dos termos e dos conceitos dessa grande área do saber enseja a possibilidade de
trabalho com o viés da Terminologia Diacrônica, uma vez que a Biologia, a Física e a
Química são ciências antigas e consolidadas que, apesar de sua antiguidade, estão em
pleno desenvolvimento, sendo muito atuais e permitindo que se possa estudar a
evolução e o desenvolvimento de seus termos e conceitos durante toda a sua história
como ciências.
Ainda uma outra questão pode-se levantar em relação ao Projeto aqui descrito: o
interesse pela investigação da terminologia das Ciências Naturais em diferentes
corpora. Nesse sentido, não se pode desconsiderar o fato de que os dados
terminológicos a serem levantados serão uma fonte para a pesquisa da variação
terminológica, além de poderem suscitar a investigação das diferentes características
textuais presentes em diferentes níveis de especialização.
Tendo em vista essas considerações, julga-se que um trabalho terminológico
com as Ciências Naturais é plenamente justificável, não só em termos da relevância da
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área estudada, mas também em relação ao que esse estudo pode fornecer de reflexões
para a teoria terminológica.
Por último, e não obstante a todas essas ponderações nem menos importante que
essas, faz-se necessário realçar que a atualidade das reflexões desenvolvidas no âmbito
das Ciências Naturais enseja a utilização de unidades terminológicas novas, os
neologismos terminológicos, que têm contribuído muitíssimo para o enriquecimento
lexical do nosso idioma. Assim sendo, o estudo da neologia nas Ciências Naturais é,
além de possível, necessário à descrição da área; por isso, essa será a questão abordada
e desenvolvida, a partir daqui, no presente trabalho.
A Neologia e a Terminologia
Segundo Boulanger, atualmente o termo neologia pode referir-se a cinco
conceitos diferentes. No entanto, está sempre relacionado a um conceito capital, a que
os demais se associam: a neologia consiste num processo de criação de novas unidades
lexicais. Nas palavras de Boulanger (1989, p. 202):
Le terme néologie désigne toujours le processus de création des unités lexicales nouvelle,
générales ou terminologiques, par le recours, conscient ou inconscient, à l’arsenal des
mécanismes de créativité linguistique habituels d’une langue.
Os demais conceitos a que esse termo é associado resultam ou do estudo que se
realiza a respeito desse processo ou de sua aplicação institucional. Assim, o termo pode
adquirir os seguintes significados: i) estudo teórico e aplicado das inovações lexicais; ii)
atividade institucional organizada para coletar, criar, registrar, difundir e implementar as
inovações lexicais, no âmbito de um projeto de política lingüística; iii) tarefa de
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identificação de setores especializados do conhecimento humano que apresentam
déficits de vocabulário, necessitando de algum tipo de intervenção; e iv) conjunto de
relações com dicionários gerais e especializados em que há preponderância de
neologismos (cf. BOULANGER, 1989, p. 203-6).
Guibert (1973, p. 24-5) afirma ainda que a criação de novas palavras pode ser
realizada “pour faire face à l’évolution du monde contemporain, à la dénomination de
toutes les inventions scientifiques et techniques” ou “fondée sur la recherche de
l’expressivité pour traduire des pensers anciens d’une manière nouvelle ou pour donner
leur nom à des modes de penser ou de sentir inédits”. O primeiro tipo de processo de
criação é denominado neologia denominativa; o segundo tipo é chamado de neologia
conotativa.
Ao se estudar a terminologia de uma dada área do conhecimento humano,
verifica-se que o processo de neologia nele existente é o de neologia denominativa, ou
seja, nessas áreas os neologismos são criados com o objetivo de denominar novos
conceitos. Assim, a Terminologia, como disciplina científica, ocupa-se do estudo da
neologia denominativa.
Entretanto, os terminólogos podem-se ocupar não apenas do estudo e da
descrição da neologia, mas também de outras atividades neológicas, como, por
exemplo, engajar-se em comitês de política lingüística, muitas vezes sugerindo
neologismos científicos ou técnicos, ou elaborar dicionários terminológicos de
neologismos. Em outras palavras, os estudiosos da Terminologia podem desenvolver
atividades relacionadas aos diferentes conceitos de neologia aqui citados.
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Neste trabalho, entretanto, apresenta-se um projeto de descrição terminológica.
Assim, quando se aborda a questão da neologia restringe-se, no momento, ao estudo dos
novos termos criados, os neologismos, encontrados nas edições de 2007 de duas revistas
de divulgação científica, a Pesquisa FAPESP e a Superinteressante.
A neologia presente nas Ciências Naturais
Em relação à neologia presente nos discursos especializados, Alves (1998, p. 26)
afirma o seguinte:
No que diz respeito à formação, tanto na língua geral como nos tecnoletos, são os mesmos
os processos que presidem à criação de novos elementos: derivação, composição,
transferência semântica, truncação, formação sintagmática e por siglas, empréstimos
oriundos de outros sistemas lingüísticos. Caracterizam-se os neologismos tecnoletais, no
entanto, por apresentarem alguns traços que os particularizam.
Desse modo, observamos que, na língua geral, predomina a formação de unidades lexicais
simples, constituídas com um único elemento. Já nos tecnoletos, são mais constantes as
formações sintagmáticas, compostas por dois ou mais elementos que integram uma unidade
complexa e correspondem a um único conceito.
A observação feita por Alves confirma-se no estudo dos neologismos
encontrados na grande área das Ciências Naturais. Todos os processos citados são
observados no corpus analisado. Entretanto, a diferenciação se verifica na
produtividade de cada um desses processos. Essa produtividade é diferenciada tanto na
comparação com a língua geral, como bem menciona a autora, como também quando se
comparam diferentes áreas de especialidade e, além disso, diferentes níveis de
especialização dos textos.
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Por essa razão, decidiu-se neste trabalho apresentar-se separadamente os
neologismos encontrados na revista Pesquisa FAPESP e na revista Superinteressante,
pois, apesar de ambas poderem ser classificadas como revistas de divulgação científica,
cada uma tem suas próprias características e, devido ao público-alvo a que são
destinadas, a escolha dos temas abordados é diferenciada e a própria apresentação dos
textos é distinta. Essas diferenças, como se pode esperar, refletem-se também no léxico
utilizado. Sendo assim, a seguir serão apresentadas, de forma breve, algumas
características de cada uma das revistas e os processos de criação lexical mais
relevantes para a caracterização da área e da revista abordada.
A neologia na revista Pesquisa FAPESP
Diante do exposto anteriormente, é interessante, antes de se iniciar uma
apresentação sobre a neologia na revista Pesquisa FAPESP, mencionar algumas de suas
características.
A revista Pesquisa FAPESP, apesar de atualmente ser uma revista comercial,
encontrada nas bancas de jornal das principais capitais do Brasil, nasceu de um
informativo da FAPESP, distribuído a pesquisadores ligados a essa agência de fomento.
Assim, o seu público-alvo era constituído por pesquisadores de diferentes áreas do
conhecimento que, por meio dessa revista, poderiam inteirar-se do que se estava
desenvolvendo em termos de pesquisa em outras áreas.
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Essa característica do público-alvo reflete-se na constituição da revista e de seus
textos. Assim, o que se verifica é que os textos publicados na Pesquisa FAPESP, no
geral, são mais longos e apresentam um número maior de termos, se comparados à
Superinteressante, a outra revista usada como material de estudo neste trabalho. Além
disso, a Pesquisa FAPESP costuma trazer um grande número de informações para
pesquisadores, tais como a divulgação de eventos e a descrição de projetos em
desenvolvimento. Dentre os temas abordados nos textos, destacam-se primeiramente os
relativos à saúde; também são freqüentes os textos sobre física, meio ambiente, energia
e genética.
Quanto aos processos de formação de neologismos, confirma-se o relatado por
Alves (1998), ou seja, a composição sintagmática é o processo de formação mais
importante na criação dos neologismos. São exemplos desse tipo de formação:
adensamento florestal, combustível fóssil, escala nanométrica, gene marcador,
implante sem fio, molécula sintética, mosquito transgênico, organismo geneticamente
modificado, repressor químico, transfecção de DNA, transtorno alimentar.
Como característica da área em questão e da especialização da revista,
encontram-se também com freqüência as composições subordinativas formadas com
bases presas, ou seja, formantes greco-latinos: eletroconvulsoterapia, nanocompósito,
neuroprótese, radiofármaco. Entretanto, embora mais raros, foram também encontrados
termos compostos com bases livres: DNA-lixo e sapos-irmãos, por exemplo.
A formação de termos por meio da composição, sobretudo a composição
sintagmática, leva conseqüentemente à criação de termos por meio da composição por
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siglas ou acronímica, como se observa em MDL (Mecanismo de Desenvolvimento
Limpo), MEV (microscópio eletrônico de varredura) e PCH (pequenas centrais
hidrelétricas). Cabe também mencionar que um grande número de compostos por
siglas tem a sua origem no inglês: KLH (Keyhole Limpet Hemocyanin) e SOFC (Solid
Oxide Fuel Cell).
Apesar de a composição ser o processo mais atuante e produtivo na criação
neológica no âmbito das Ciências Naturais, a derivação também se mostra produtiva.
A prefixação mostra-se relevante, sobretudo nas criações com os prefixos bio- e
micro-:
bioespuma, biomaterial, micro-RNA, microrranhuras, microtomateiro.
Entretanto, outros prefixos também são encontrados, como hiper- (hipersexualidade),
mega- (megacolônia), multi- (multicolonial), não- (não-biodegradável), e
super-
(superextinção).
Nos artigos da revista Pesquisa FAPESP, podem também ser encontrados
neologismos formados por sufixação. Dentre os sufixos do português, os mais utilizados
nessas novas criações, até o momento, são o -ção, o -ismo e o -ista: plastinação,
savanização, transesterificação; manganismo, catastrofismo; agonista, melhorista.
Entretanto, também há formações com outros sufixos, como -dade (biodegradabilidade)
e -ano (barcana), por exemplo.
Outro processo de criação neológica que se demonstra bastante importante na
grande área das Ciências Naturais são os estrangeirismos. Apesar de serem encontrados
estrangeirismos de outras origens, como o inglês, conforme demonstrado acima, quando
se mencionaram as composições por siglas, a língua que se demonstra mais importante
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na formação dos termos é o latim, sobretudo em textos em que se mencionam espécies
zoológicas e botânicas: Anopheles aquasalis, Bacillus thuringiensis israelensis,
Bothrops cotiara, Panicum maximum, Plasmodium gallinaceum.
Um último processo também muito relevante na criação dos termos das Ciências
Naturais é a neologia semântica. Esse processo pode ser observado nas formações
andada e pingue-pongue, como se pode verificar a seguir:
É a “<andada>”, quando os caranguejos saem de suas tocas e andam pelo manguezal
em busca de parceiros. (Pesquisa FAPESP, ed. 134, abril de 2007, “A vida na lama”)
Mas o movimento que os pesquisadores consideraram mais peculiar foi o de fuga,
também chamado de <pingue-pongue>, em que a bactéria recua rapidamente e depois
avança em outra direção. (Pesquisa FAPESP, ed. 137, julho de 2007, “Bússolas Vivas”)
A neologia na revista Superinteressante
Tendo em vista a caracterização preliminar apresentada sobre a revista Pesquisa
FAPESP, faz-se necessária também uma caracterização da revista Superinteressante.
A Superinteressante é uma revista bastante conhecida no Brasil, em virtude de
sua circulação nacional e do interesse que desperta nos jovens, uma vez que aborda
assuntos atuais, apresenta uma seção para responder a perguntas dos leitores e divulga o
que há de mais novo em termos de novas tecnologias. Desse modo, percebe-se que é
destinada a um público bastante diverso daquele apresentado para a revista Pesquisa
FAPESP.
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Em
conseqüência
desse
fato,
observa-se
algumas
características
da
Superinteressante que diferem da Pesquisa FAPESP. A Superinteressante, por
exemplo, tem textos mais breves, além de, comparativamente à Pesquisa FAPESP,
apresentar menor densidade terminológica, ou seja, encontram-se menos termos na
Superinteressante do que na Pesquisa FAPESP. Além disso, seus textos abordam
principalmente assuntos relacionados a novas tecnologias e novos produtos.
Em relação à terminologia, algumas especificidades podem ser observadas;
todavia, como se trata da mesma área de especialidade, muitos dos processos de criação
são semelhantes e distribuem-se de forma parecida com o que se verificou na revista
Pesquisa FAPESP.
Verifica-se, por exemplo, que, de maneira semelhante ao que ocorre na revista
Pesquisa FAPESP, o processo de composição é o mais produtivo na criação de novos
termos. Mais uma vez, a composição sintagmática é, sem nenhuma dúvida, o processo
mais utilizado: bebê híbrido, célula de combustível, mundo subatômico, mutação
contínua, refugiado do aquecimento global e síndrome do gourmet, por exemplo.
Também a composição por subordinação, sobretudo as formações com o uso de bases
presas, são numerosas: isobutano, pirólise, termossensível. Entretanto, as composições
com bases livres também são encontradas: abelha-cachorro, algadiesel, estrela-mãe e
planeta-oceano.
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Apesar de menos comuns do que na Pesquisa FAPESP, também são encontradas
as composições por siglas, como se verifica em DARS (distúrbio alimentar relacionado
ao sono) e RMF (ressonância magnética funcional).
Também a derivação mostra-se presente na criação dos termos presentes na
Superinteressante. Dentre as criações por prefixação, encontram-se termos formados
com os sufixos auto-, bio-, mini-, multi-, neo- e re-: autopreservação, biomassa,
minicrustáceo, multiverso, reimplante, retropicalização. Em relação às criações por
sufixação, dada a característica da revista de apresentar novos produtos, destacam-se os
sufixos -dor e -eiro: carbonizador, transmutador e tramazeira.
Conforme o que se verificou na Pesquisa FAPESP, também são comuns os
estrangeirismos de origem latina, usados sobretudo pela Botânica e pela Zoologia:
Anfisbena fuliginosa, Eurypharynx pelecanoides, Melanocetus johnsonii. Todavia,
também são encontrados estrangeirismos de origem inglesa: hotspot, switchgrass.
Para finalizar, faz-se necessário também citar o processo de neologia
semântica, que também está presente na formação dos termos presentes na
Superinteressante. Um exemplo de termo formado por esse processo é contenção,
nome dado à parede que isola um reator nuclear:
5. Barreira total
A <contenção>, uma parede de aço e concreto, protege o mundo do reator e o reator de
quedas de aviões, raios ou ataques aéreos. Se houver vazamentos, eles dificilmente saem da
<contenção>. (Superinteressante, ed. 241, Julho 2007, “O vilão virou herói”)
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Considerações Finais
O presente trabalho objetivou a apresentação e a descrição de um Projeto em
desenvolvimento, que busca o estudo dos termos utilizados pelas Ciências Naturais.
Tal Projeto, apesar de estar em seu início, já oferece dados suficientes para uma
primeira análise da formação dos termos presentes em revistas de divulgação
científica.
A análise morfológica empreendida possibilitou a verificação de que os
mecanismos de criação neológica nas áreas de especialidade são os mesmos usados
na criação lexical da língua comum. Entretanto, alguns processos são mais
recorrentes nas áreas de especialidade – as composições sintagmáticas, por exemplo
– e outros acabam por caracterizar determinada área – por exemplo, as composições
com bases presas e os empréstimos latinos, no caso particular das Ciências Naturais.
Tais constatações sugerem que o estudo realizado deva ser aprofundado, não
só em relação às Ciências Naturais mas também em outras áreas especialidade, uma
vez que esse tipo de análise pode levar, além da descrição de uma terminologia em
português, que é pertinente aos estudos lingüísticos, à identificação de um sistema
de denominação empreendido por determinada área, o que auxiliará tanto na criação
de outras denominações para novos conceitos desenvolvidos, quanto na criação de
termos vernáculos para conceitos importados e já denominados em sua língua de
origem.
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