EM CANTO DE HOMEM: identidade masculina em

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EM CANTO DE HOMEM: identidade masculina em
EM CANTO DE HOMEM: Identidade masculina em canções.
Silvio Luis da Silva
Universidade Potiguar – UnP
[email protected]
RESUMO
Este trabalho analisa, com base nas perspectivas postuladas pela Análise Crítica do
Discurso, especialmente com base nas postulações de Teun van Dijk e Norman
Fairglough, a construção da identidade masculina em canções populares. Para
tanto, foram recolhidas as 3 canções mais tocadas na radio 98 FM, de Natal-RN, no
início da segunda semana de maio de 2010, a saber: Eu quero só você, de
Chicabana; Invencível, interpretada por Belo; e Meteoro, cantada por Limão com
Mel, para compor o corpus e oferecer uma análise do processo linguístico de
construção da identidade do homem. O trabalho pretende mostrar como se dá a
construção e a repercussão da imagem masculina criada pelas letras das canções
ouvidas diariamente pela população e defende que o as músicas populares são
veículos de propagação de ideologias e que, ao serem cantadas e obterem altos
postos nas listas das mais tocadas, as músicas propagam uma determinada
ideologia, tanto dos autores da canção e dos intérpretes, quanto da população em
geral que as ouve e a colocam nas paradas de sucesso. Esta proposta entende que
a ideologia explicita ou implícita no texto, aqui analisadas dissociada das questões
de ritmo e estilo musical,pode ser fonte de pesquisa para se verificar como se retrata
e refrata a imagem do homem natalense na mídia musical.
Palavras chave: Análise Crítica do Discurso, Canções Populares, Identidade
Masculina.
ABSTRACT
This article analyses male identity building in pop songs, based upon the Critical
Discrourse Analysis perspectives, especially as described by Teun van Dijk (2008)
and Norman Fairclough (2001). In order to achieve its aim, we have chosen three
Brazilian pop songs, hits from 98 FM radio station from Natal-RN: Eu quero só você,
by Chicabana, Invencivel, by Belo, and Meteoro, by Limão com Mel, that can provide
us with an interesting male identity corpus to be analyzed. We intend to show how
this identity building is done and the male image repercussion of the lyrics on the
population. It also claims that pop songs can transmit ideologies, especially when
these songs become hits during a specific period of time. During its success, we
believe songs widespread a specific ideology from its singers, authors and also from
its listeners, who elect them as success. The article claims, also, that explicit and
implicit text ideologies can be dissociated from the rhythm and musical style and be
understood as a representative social group ideology, which in this case, is the group
of people from Natal.
Key word: Critical Discourse Analysis, pops songs, male identity.
Presente na vida de todos os brasileiros, as canções produzem em seus
ouvintes os mais variados sentimentos. Desde a paixão, materializada em lágrimas
que banham os rostos dos ouvintes, até o ódio, que se materializa em músculos
retesados e olhares de desaprovação. Na verdade, os sentimentos produzidos pela
audição de músicas são frutos de emoções colhidas pelos ouvidos e incrustadas nas
mentes que, querendo ou não, se veem produzindo significados pelo ritmo e pelas
palavras cantadas.
A música é, sabemos, um gênero de discurso, uma forma de expressão,
uma maneira de se extrapolar sentimentos, um refúgio, um abrigo, um ponto inicial
para o relaxamento, uma diversão. A ingenuidade que se pode pensar existir em
todos esses atributos da canção esvai-se quando percebemos que, por ser um
discurso posto na sociedade, dela faz parte intrinsecamente e nela pode, sim,
produzir relações de significações e possibilidades de articular o saber social, pois,
“por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o
atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder.”
(FOUCAULT, 1996, p. 10).
Assim, ao considerarmos a manifestação discursiva musical como uma
forma de representação do meio social estamos tentando mostrar que a circulação
de musicas é uma forma de se manifestar, discursivamente, uma verdade que se
explicitará mais fortemente em uma ideologia do grupo que a reproduz. A produção
de uma verdade, no nosso entendimento, seria o primeiro passo para se obter uma
estruturação da ideologia sociocultural do grupo. Sabemos, por outro lado, que essa
verdade
é produzida e transferida sobre controle, não exclusivo, mas
dominante, de alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos
(universidade, exército, escritura, meios de comunicação); enfim, é
objeto de debate político e de conforto social (as lutas “ideológicas”)”
(FOUCAULT, 1996, p. 13).
Por essa razão nos atentamos para um desses grandes aparelhos, os meios
de comunicação, para buscar nosso aparato analítico. Detivemo-nos, então, a uma
emissora de rádio de grande repercussão na cidade de Natal, a 98 FM, e
verificamos quais são, na sua perspectiva, os discursos mais queridos pelos
natalenses em um período específico. Chegamos às canções Eu quero só você, de
Chicabana; Invencível, interpretada por Belo; e Meteoro, cantada por Limão com
Mel, respectivamente primeiro, segundo e terceiro lugares nas paradas de sucesso
da primeira semana de maio de 2010.
Por se tratar de um estudo analítico da produção de significados, retiramos
de nossa análise a perspectiva do som que, sabemos, influencia sobremaneia no
sucesso ou fracasso da canção na mídia. Deixemos, então, de lado as questões que
implicam na escolha do tipo de canção, popular neste caso, para nos atermos à
representação que essas palavras cantadas podem criar e invadir a sociedade que
as escuta sob a perspectiva de que “os discursos não só são formas de práticas
interacionais ou sociais, mas também expressam e transmitem sentidos, e podem
assim influenciar nossas crenças” (van DIJK, ANO, p. 138).
O primeiro aspecto que salientamos é a questão da valorização do amor, do
objeto feminino nos três casos, e da manifestação masculina em relação ao sexo
oposto. Todas as canções têm autoria masculina e, igualmente, todas se prestam a
expor uma imagem do homem e de sua forma de enxergar a relação afetiva.
Automaticamente,
está
se
criando,
por
intermédio
desse
discurso,
uma
representação do homem na sociedade, ou seja, está-se postulando uma postura do
masculino em relação ao feminino e à visão que se tem das relações interpessoais.
Na mesma direção, entendemos que essas relações interpessoais são
produto social e, por conseguinte, uma questão de comportamento social dos
sujeitos. É nesta veia que nos inserimos, academicamente, para defender o papel do
intelectual como mais amplo, pois ele deve, entendemos, se prestar a pensar na sua
sociedade como um corpo em movimento, cujo caminhar pode produzir significados
mais profundos e invadir a seara da ideologia, pois
o problema político essencial para o intelectual não é criticar aos
conteúdos ideológicos que estariam ligados à ciência ou fazer com
que sua prática científica seja acompanhada por uma ideologia justa;
mas saber se é possível constituir uma nova política de verdade.
Problema não é mudar a “consciência” das pessoas, ou o que elas têm
na cabeça, mas o regime político, econômico, institucional de
produção de verdade (FOUCAULT, 1996, p. 14).
Ainda na trilha aqui traçada, buscamos um aparato analítico que nos
propiciasse condições de nos debruçarmos sobre esses textos cantados e verificar a
sua materialidade discursiva, por um lado, e a sua repercussão no seio da
sociedade, por outro. Encontramos na Análise Crítica do Discurso (doravante ACD),
uma ferramenta analítica capaz de nos satisfazer, haja visto que
a análise crítica do discurso (ACD) é um tipo de investigação analítica
discursiva que estuda principalmente o modo como o abuso de poder,
a dominação e a desigualdade são representados, reproduzidos e
combatidos por textos orais e escritos no contexto social e político.
(van DIJK, 2008, p. 113)
Estabelecidos, então, as premissas que embasam a nossa perspectiva e o
aparato científico de análise, a ACD, devemos, esclarecer que
“[...] na produção discursiva presumimos que falantes (ou escritores)
partirão de seus modelos mentais pessoais de um evento ou de uma
situação. Esse modelo organiza as crenças subjetivas do falante sobre
tal situação.” (van DIJK, 2008, p. 206)
E que a “ACD concentra-se principalmente nos problemas sociais e nas
questões políticas, no lugar de paradigmas correntes e modismos” (Idem, p. 114).
Com isso, então, damos início à análise da canção, com vistas ao entendimento dos
processos discursivos de produção de significação nesse gênero textual.
A situação que nos aparece como cenário é a das relações amorosas, dos
desejos e anseios dos amantes em se por, frente ao objeto amado, como um ser
que merece a relação que constrói e eu ocupa um lugar em relação ao outro. Lugar
este constituído e construído por palavras e atitudes que consubstanciam o próprio
ser, o próprio elemento social que enuncia.
Nossa primeira canção a ser analisada é eu quero só você, cantada por
Chicabana, cuja letra transcrevemos:
Eu Quero Só Você - Chicabana
O que todos querem
É só separar nós dois,
Você é o que querem
E vou continuar te amando,
E não tô nem aí
Para o que os outros vão dizer,
O que a gente sente
Ninguém tem nada a ver.
Todos ficam falando
Que eu não sirvo pra você,
Dizem que eu não presto
Só me meto em confusão,
Querem nos separar
E acabar com nosso amor
Tirar você de mim.
O nosso amor
Todos querem por um fim,
Querem nos afastar
Tirar você de mim.
Refrão:
Eu amo você,
E não me importa o que vão dizer,
Eu quero só você, eu quero só você, eu quero só
você.
E não me importa o que vão dizer,
Eu quero só você, eu quero só você, eu quero
só...
Pode ter certeza sem você eu não sou nada
Você sempre será a minha eterna namorada,
E ninguém faz ideia, do quanto eu te quero,
O quanto amo você.
Eu sou o retrato de um homem apaixonado
Pode ter certeza estarei sempre do seu lado,
Você é a minha vida, do início ao fim,
É tudo pra mim.
O nosso amor
Todos querem por um fim,
Querem nos afastar
Tirar você de mim.
Refrão
E todo meu amor te dei
Pra você eu me entreguei,
Só com você, o meu mundo é azul.
E ninguém vai nos separar
Tenha certeza eu sempre vou te amar,
Só com você, meu o mundo é azul.
Refrão
O tem início com a manifestação do enunciador remetendo-se ao outro
o que todos querem/é separar nós dois, que se instala no discurso como uma
forma de defesa. A palavra todos, aqui, exclui o falante e o objeto amado,
evidentemente e, automaticamente, os torna inimigos do casal. A imagem de
inimigo insurgida com o desejo dos outros em separar o casal serve para criar,
no ouvinte, uma imagem do falante como aliado e provocar o desejo de
aproximação.
A construção de um outro inimigo da união do casal ratifica-se com o
verso seguinte, você é o que querem, que incita no outro, na mulher no caso, a
produção de um sentimento de autoconfiança, pois ela se vê como desejada
pelo enunciador e pelos outros todos que ele disse.
O passo seguinte, então, é se por ainda mais próximo do objeto
amado, insurgindo as lembranças dos momentos em que estiveram juntos,
antes de os outros se intrometerem na relação, o que se dá com eu vou
continuar te amando, em que a utilização dos tempos verbais é uma das
formas de dar ao discurso uma expressividade e intensidade maiores. Aqui se
põe uma ideia de futuro promissor, de união eternizada pelo verbo uso do
tempo contínuo “amando”. Ademais, a retomada do substantivo “amor”
anteriormente mencionado, agora, utilizado como verbo é uma forma de
reforçar e intensificar o sentimento.
Com eu não to nem aí/para o que os outros vão dizer dá continuidade à
sua tentativa de construir a sua imagem de companheiro, de apaixonado,
ratificando a noção primeira de inimizade dos outros todos e fortalecendo a
ideia de companheirismo. Ao falante, segundo seu discurso, importa nada os
demais, mas importa muito o seu objeto amado. Insta-se, então, uma noção de
superioridade de ambos, ensejada pelo amor que sentem.
Essa tentativa se ratifica na sequência O que a gente sente/Ninguém
tem nada a ver, que marca uma união de ambos com o sentimento que têm um
pelo outro, explicitada em “a gente” e uma aversão aos opositores, que nada
têm com a relação estabelecida. Paradoxalmente, ao fazer isso, o falante se
põe vulnerável, tornando-se vitimizado. A oposição à opinião alheia é uma
forma, por certo, de se tentar criar uma imagem boa de si.
A consciência da imagem dos outros sobre si, explicitada em Todos
ficam falando/Que eu não sirvo pra você,/Dizem que eu não presto/Só me meto
em confusão reforça a ideia de vítima e consolida uma necessidade de ajuda.
Ajuda aqui que será obtida com a presença, com o “não dar ouvidos” aos
outros.
Ao outros, o falante relega a sentimentos ruins, pois esses outros,
segundo ele, quer separá-los, querem nos separar/e acabar com nosso
amor/tirar você de mim, é o que diz. É importante que percebamos que a
construção do significado está pautada por um sentimento absolutamente
abstrato, o amor, que ele, propositalmente, incute em ambos, ele próprio e seu
interlocutor. A utilização dessa forma de manipulação, aproximando-se do
objeto, é uma maneira de se instaurar o seu próprio poder sobre o outro que,
inconscientemente, tende a aceitar essa imposição em razão da articulação
dos significados que o falante escolhe.
A escolha dá, entendemos, propositalmente, na busca de um efeito
sobre o outro, na busca de um exercício de poder que é parcialmente
partilhado, pois “como produtores estamos diante de escolhas sobre como usar
uma palavra e como expressar um significado por meio de palavras, e como
intérpretes sempre nos confrontamos com decisões sobre como interpretar as
escolhas
que
os
produtores
fizeram
(que
valores
atribuir
a
elas)”
(FAIRCLOUGH, 2001, p. 230).
Os versos que seguem, percorrem o mesmo caminho, O nosso
amor/Todos querem por um fim,/Querem nos afastar/Tirar você de mim, e
acrescentam um novo elemento ao amor mútuo ensejado anteriormente em “o
que a gente sente”. O recurso, aqui, é conhecido. As escolhas das palavras
são oriundas de seu campo semântico “afastar, por fim, tirar” e retoma a
tentativa de insurgir no ouvinte o oposto disso, a idéia de junção, de
continuidade de acréscimo, pois ambos sentem, mutuamente, o amor cantado.
Começamos a compreender, a partir disso, que a escolha de palavras
e o uso das várias possibilidades do léxico disponível na língua é uma forma de
construir a si e ao outro. Poderia, sem dúvida, o falante utilizar o pronome seu
nesse discurso e atribuir o amor apenas ao interlocutor, mas preferiu incluir-se
no sentimento de amar para aproximar tanto o eu, falante, quanto o tu, ouvinte.
O efeito de sentido, por certo, é consolidado e cria-se, com o discurso, um
invólucro que a ambos protege: o amor que sentem, mutuamente.
Devemos nos lembrar, neste momento, que o aparelho discursivo é um
instrumento de uso social, que se dá socioculturalmente e que a construção de
significados, que vai se consumar com a construção de identidades sociais, é
um processo complexo. Manipula-se a si e ao outro continuamente com a
simples produção de enunciados, pois
a manipulação é um fenômeno social [...] é um fenômeno
cognitivo, porque a manipulação sempre implica a manipulação
das mentes dos participantes, e é um fenômeno discursivosemiótico, porque a manipulação é exercida através da escrita,
da fala e das mensagens visuais. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 236)
Entendemos, então, que o falante aqui posto está se constituindo em
suas próprias palavras e que a sua intencionalidade, seja ela consciente ou
não, não pode ser abolida de uma análise. Os versos seguintes, Eu amo
você/E não me importa o que vão dizer/Eu quero só você, além de retomar a
idéia de que não há importância na opinião dos outros, reforça o fato de amar e
oferece a exclusividade, que, como se sabe, é um item socioculturalmente
valioso na esfera das relações pessoais. À mulher, aqui, é dada a
exclusividade, o que se torna uma forma de valorizá-la. Ao dizer que quer ela
apenas, o falante busca a aproximação, como que com uma promessa de
fidelidade.
O passo seguinte é dado com a supervalorização do outro, da
namorada, e a desvalorização de si. Na verdade, o verso Pode ter certeza sem
você eu não sou nada tem um efeito de sentido bastante interessante porque,
ao se colocar como “nada sem ela”, o sujeito oferece ao interlocutor, à amada,
uma força de sustentação, como se a permanência dela ao seu lado fosse
condição sine qua non para que ele se mantivesse vivo. Imediatamente após,
ele faz uma promessa, Você sempre será a minha eterna namorada, para
reforçar o que, entendemos, é um pedido para que ela não vá. A escolha da
palavra namorada parece-nos especialmente proposital, pois o cotidiano dos
namorados é visto como romântico, e revestido de paixão e alegria. Na
verdade, se escolhesse mulher, palavra que sucede a namorada nas relações
mais duradouras, o efeito não seria o mesmo, pois o romantismo teria sido
abolido.
Se, inicialmente, o falante se valia da insignificância da opinião dos
outros, agora ele os considera ignorantes do valor ou tamanho de seus
sentimentos para com a amada, E ninguém faz ideia, do quanto eu te quero/O
quanto amo você, com o que ele torna o espaço do outro um espaço vil. Se
não dava importância, tem aqui seus motivos para tanto. Seu sentimento é
exacerbado e ninguém sabe o quanto esse sentimento é grande. Com isso
desautoriza qualquer comentário que os ouros possam fazer a respeito de si. É
uma forma de manipular sutilmente o entendimento do ouvinte, de dizer a ele,
ouvinte, que o amor deve se sobressair e suportar quaisquer possíveis
“fofocas” a respeito dele, do falante.
A sequência é, então, fazer promessas e supervalorizar a pessoa a
quem ele se dirige, Pode ter certeza estarei sempre do seu lado/Você é a
minha vida, do início ao fim/É tudo pra mim. Nesse espaço discursivo, o outro
deve sentir-se valorizado e querido para que possa aquiescer à manipulação e
a sobrevalorização é algo essencial para produzir esse efeito. O sujeito falante,
o autor, incita o outro a se aproximar dele por meio da palavra, pois
“... o Outro no espaço discursivo não é em nada redutível a uma
figura do interlocutor. Certamente, poder-se-ia considerar que,
para cada um dos discursos, seu Outro é um tu virtual, mas esse
seria uma representação mais elegante do que elucidativa. Se
queremos mesmo pensar em termos de pessoa lingüística,
talvez seja mais justo ver no Outro um eu do qual o enunciador
discursivo deveria constantemente separar-se”. (FAIRCLOUGH,
2001, p. 37)
A separação que a pessoa linguística faz é, porém, uma forma de
buscar no outro uma aprovação e fazer, ao contrário da separação linguística,
uma aproximação tanto discursivamente falando, quanto fisicamente falando. O
desejo de aproximação, então, busca, na junção que outrora existia, ou que
fora já experimentada pelo interlocutor. Isso se dá no uso da memória do outro
que é chamada para criar a necessidade de continuidade. O sujeito, então
relembra a sua subserviência, a sua doação ao ente querido: E todo meu amor
te dei/Pra você eu me entreguei.O efeito de sentido desse recurso de buscar,
na memória do outro, o tempo passado de uma suposta felicidade é uma
manipulação mais explícita. É, também, uma volta a necessidade de se
vitimizar para enaltecer o ego do ouvinte, da amada. O enunciador continua
nesse mesmo caminho: Só com você, o meu mundo é azul.
Ora, ao dizer que apenas com amada seu mundo é azul, cria nela uma
sensação de valorização, como já fizera antes, e faz com que, por intermédio
de seu discurso, o efeito manipulatório se efetive com certa dose de
romantismo que, sabe-se, é um dos motes para se conseguir um ente querido.
A felicidade que ele diz sentir repercute no outro como uma felicidade mútua,
seja pela valorização que o outro sente de si, seja pela evocação do amor que,
supõe-se, esse outro também sinta. O passo seguinte, quase que naturalmente
é enfatizar a união de ambos como sólida, invencível, inatingível: E ninguém
vai nos separar.
O toque final é a promessa de amor eterno, que sustenta a relação e o
pedido de não dar ouvidos aos outros, de se entregar á relação cegamente,
pois, para o enunciador, o amor que sente é eterno, Tenha certeza eu sempre
vou te amar, diz. A promessa de certeza funciona aqui como uma visão de um
futuro promissor, de alegrias e de junção. União de dois seres em um,
estereótipo do amor.
Porém, é importante que não nos esqueçamos de que
“...por mais que se diga o que se vê, o que se vê não se aloja
jamais no que se diz, e por mais que se faça ver o que está
dizendo por imagens, metáforas, comparações, o lugar onde
estas resplandecem não é aquele que os olhos descortinam,
mas aquele que as sucessões da sintaxe definem.”
(FOUCAULT, 1999, p. 12)
Já podemos, entender por intermédio dessa primeira análise que o
percurso percorrido pelo enunciador é relativamente simples: primeiro instaura
nos outros um desejo de separação do casal. A seguir, vitimiza-se e enaltece a
mulher amada, tornando-a vulnerável, depois conscientiza a amada de que os
outros tentam manipulá-la ao dizer coisas sobre ele que não são reais.
Prossegue com a sua estratégia e diz que os outros fazem o que fazem porque
a querem. Em seguida promete e anuncia uma vida de alegrias, baseada na
sua própria visão da alegria “com você meu mundo é azul” e oferece uma
imagem a ser vista, uma imagem de mais momentos felizes e de amor eterno.
A estratégia que estamos aqui verificando é, por certo, um produto
sociocultural, uma forma que a sociedade esc0olheu para representar seu
comportamento, por um lado, e sua ideologia, por outro. Ambos, ideologia e
comportamento, são produtos sociais que assim se tornam porque são
reiterados incessantemente. Nesse sentido,
pode-se supor que há, muito regularmente nas
sociedades, uma espécie de desnivelamento entre os
discursos que “se dizem” no correr dos dias e das trocas,
e que passam com o ato mesmo que os pronunciou; e os
discursos que estão na origem de certo número de atos
novos de fala que os retomam, os transformam ou falam
deles.” (FOUCAULT, 1996, p.22)
É
sabido
que
a
estratégia
discursiva
que
apresentamos
é,
efetivamente, uma forma comum no discurso masculino que se vale dele para
tornar a mulher vulnerávle e propícia à manipulação. Prosseguiremos, então,
com nossa análise no segundo lugar das paradas da semana, com o cantor
Belo, cantando Invencível, cuja composição é de Flavio Venutes, Prateado e
Humberto Martins, que abaixo transcrevemos:
Invencível
Viajei por tanto tempo pra te ver
Por tantas dimensões, pra encontrar você
Desenhei em minha mente a relação
O amor, eu e você veio na contramão
Nem tudo é como se espera
Nessa vida tão sincera
E não ameniza a dor de um pobre
sonhador
Que só pensa em viver
Mesmo que em outra esfera
Mesmo que em outra era
Quero ser um às no amor, um nobre
vencedor
Orgulho pra você
Nosso amor invencível, mesmo sendo
impossível
Mas quem sabe em Marrakesh
A vida nos esquece, pra eu te contemplar
Um lugar que só haja virtude
Nenhum ser humano rude
Onde um grande sonhador possa encontrar
no amor
Motivo pra cantar
(Refrão)
Nosso amor é tão incrível, mesmo sendo
impossível
Faz sonhar
Quem yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah,
yeah
Impossível faz sonhar,
Yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah, yeah
Impossível faz...
Nem tudo é como se espera
Nessa vida tão sincera
E não ameniza a dor de um pobre
sonhador
Que só pensa em viver
Mesmo que em outra esfera
Mesmo que em outra era
Quero ser um às no amor, um nobre
vencedor
Orgulho pra você
(Refrão)
Já no título tem-se uma sobrevalorização, a ideia de invencível,
associada ao amor que vai ser cantado, dá uma força e já instaura a
manipulação pelo exagero, pela supervalorização. O verso primeiro torna a
pessoa amada objeto de desejo, o que é uma forma de apaziguar e
supervalorizar a pessoa a quem o discurso se dirige: Viajei por tanto tempo pra
te ver. Aqui o sujeito do discurso começa com a sua determinação em
encontrar a mulher amada e se iguala aos membros da cavalaria medieval,
cujos ideais a literatura lhes associou como a lealdade, a generosidade e o
amor cortês. O sujeito, conscientemente ou não, cria essa associação, como
que numa interdiscursividade e se vale dessa estratégia para se tornar forte,
másculo, lutador e, também, fiel. A viagem que o sujeito fez para encontrar a
mulher amada é descrita como imensa, cheia de obstáculos, pois foi feita por
tantas dimensões com o findo propósito de encontrar a mulher amada: só para
encontrar você, diz. Se põe, ainda, como um idealizador, um sonhador, o que é
uma forma de contrair para si, o homem, o estereótipo da mulher que,
socialmente, é tida como mais romântica. E assim o faz: Desenhei em minha
mente a relação.
Para começar a sua estratégia de conquistar o outro, e se vitimizar,
estratégia já vista na canção anterior, o enunciador anuncia o seu amor e,
imediatamente, postula a existência de obstáculos a serem vencidos O amor,
eu e você veio na contramão. Embora a palavra em si pouco diga, neste
contexto, vir na contramão é o prenúncio de problemas, se sofrimento. O nobre
cavaleiro se torna, então, pessoa carnal, simples, sofredora que, na busca de
felicidade, sofre as agruras do destino Nem tudo é como se espera/Nessa vida
tão sincera. E consolida a vitimização que deu início, pondo-se como sofredor:
E não ameniza a dor de um pobre sonhador.
Retorna, então ao romantismo, para desnudar seus sentimentos
perante a amada e, com isso, ganhar a sua confiança. Seu sofrimento em
razão dos obstáculos trazidos ao texto pela palavra contramão são tantos que
ele se resigna ao amar platonicamente Que só pensa em viver/Mesmo que em
outra esfera/Mesmo que em outra era.
Veja que a repetição de termos, a reiteração da condicional é uma
forma de criar um ritual da palavra para significar, para ratificar determinadas
intenções do autor. No nosso caso, a manipulação é atravessada por questões
irracionais, por sentimentalismos que não são, na realidade, explicáveis, mas
que evocam sentidos múltiplos, sentidos que são emprestados ao texto, num
primeiro momento, e a própria constituição do sujeito, num momento posterior,
pois
“A maior parte do tempo, eles – os rituais da palavra, as
sociedades de discurso, os grupos doutrinários e as
apropriações sociais – se ligam uns aos outros e constituem
espécies de grandes edifícios que garantem a distribuição dos
sujeitos que falam nos diferentes tipos de discurso e a
apropriação dos discursos por certas categorias de sujeitos.
Digamos, em uma palavra, que são esses os grandes
procedimentos de sujeição do discurso" (FOUCAULT,. 1996, p.
44).
O sujeito precisa se construir imagem para o outro e o faz anunciando
seus anseios e desejos, sua necessidade de reconhecimento. Com Quero ser
um às no amor, um nobre vencedor/Orgulho pra você cria sua imagem a partir
da visão do outro. Ser orgulho para a amada é o que ele diz, ser, então,
imagem construída na mente dela, na inscrição de sua significação e na
descontinuidade. De certa forma, ele tenta se construir a partir dela. Essa
estratégia é uma forma de valorizar o sujeito ouvinte e fazer com que ele
participe do discurso como constituinte. Uma vez estabelecida essa relação,
fica fácil de trazer para dentro de seu próprio discurso o outro, como se vê em
Nosso amor invencível. O pronome possessivo usado em primeira pessoa do
plural tem essa função claramente posta. Não é um amor unilateral, mas
mútuo, “mesmo sendo impossível.
A adoração à amada, aos moldes dos cavaleiros medievais que
admiravam suas musas e travavam lutas para as conquistar é, novamente
evocada com a transformação da vida comum em algo difícil, cheio de pessoas
outras que não são merecedoras de amores como o que ele canta. É
necessário, então, buscar um paraíso que em que possam existir pessoas boas
e companheiras como a que ele tenta construir em seu discurso. Sobra, então,
deixar a terra e buscar em outro país o conforto da compreensão: Mas quem
sabe em Marrakesh/A vida nos esquece, pra eu te contemplar/Um lugar que só
haja virtude/Nenhum ser humano rude.
Embora a palavra a cidade de Marrakesh possa parecer ocasional, na
verdade remonta-nos à historicidade do local, pois foi conhecida, por séculos,
como a cidade dos “sete santos”, quando o surfismo – uma corrente mística e
contemplativa do islã, cujos praticantes buscavam uma relação direta com
Deus por intermédio de danças, cânticos e musicas – estava no seu apogeu,
fundou-se o festival dos sete santos. Confirma-se a estratégia com os versos
seguinte: Onde um grande sonhador possa encontrar no amor/Motivo pra
cantar.
A partir de seus enunciados, o enunciador aqui se postula como um
sonhador, se remete ao plano mais elevado do ser humano, seus sentimentos
afetivos, amorosos, para construir uma realidade discursiva que invadirá o
ouvinte e o trará para perto de si. Subjacente à escolha lexical está a tentativa
de criar uma realidade pela linguagem.
Fairclough já nos esclareceu a respeito dessa estratégia ao dizer que:
o discurso tem uma relação ativa com a realidade, que a linguagem
significa a realidade no sentido da construção passiva com ela, em vez
de o discurso ter uma realidade, com a linguagem meramente se
referindo aos objetos, os quais são tidos como dados na realidade.”
(FAIRCLOUGH, 2001, p. 66)
No refrão da canção, Nosso amor é tão incrível, mesmo sendo
impossível/ Faz sonhar /Impossível faz sonhar, a despeito da restrição que a
rima proporciona, vemos impossível e incrível serem utilizados e, a seguir, faz
sonhar. A impossibilidade do amor que é cantado tem um efeito interessante,
pois, ao impossibilitá-lo no plano da realidade, faz com que, no plano dos
sonhos, seja possível e, se antes havia encontrado um lugar onde só há
virtudes, associa esse local ao lugar em que poderão trazer à realidade o
sonho do amor possível. E, assim, serão felizes, num mundo azul: Só com
você, meu o mundo é azul.
Os recursos utilizados não nos parecem diferentes do que vimos no
texto anterior. É preciso se associar ao outro, emocioná-lo, preservar a noção
de intimidade e de separação dos outros para que esses outros não interfiram
na relação e se crie uma verdade de amor eterno e feliz.
Vejamos, então se isso se confirma na próxima canção, Meteoro,
cantada por Luan Santana, igualmente transcrita:
Meteoro
Te dei o sol, te dei o mar
Pra ganhar seu coração
Você é raio de saudade
Meteoro da paixão
Explosão de sentimentos
Que eu não pude acreditar
Ah! Como é bom poder te amar
Depois que eu te conheci fui mais feliz
Você é exatamente o que eu sempre quis
Ela se encaixa perfeitamente em mim
O nosso quebra-cabeça teve fim
Se for sonho não me acorde
Eu preciso flutuar
Pois só quem sonha
Consegue alcançar
Te dei o sol, te dei o mar
Pra ganhar seu coração
Você é raio de saudade
Meteoro da paixão
Explosão de sentimentos
Que eu não pude acreditar
Ah! Como é bom poder te amar
Depois que eu te conheci fui mais feliz
Você é exatamente o que eu sempre quis
Ela se encaixa perfeitamente em mim
O nosso quebra-cabeça teve fim
Se for sonho não me acorde
Eu preciso flutuar
Pois só quem sonha
Consegue alcançar
Te dei o sol, te dei o mar
Pra ganhar seu coração
Você é raio de saudade
Meteoro da paixão
Explosão de sentimentos
Que eu não pude acreditar
Ah! Como é bom poder te amar
Tão veloz quanto a luz
Pelo universo eu viajei
Vem me guia me conduz
Que pra sempre te amarei ...
Te dei o sol, te dei o mar
Pra ganhar seu coração
Você é raio de saudade
Meteoro da paixão
Explosão de sentimentos
Que eu não pude acreditar
Ah! Como é bom poder te amar
Te dei o sol, te dei o mar
Pra ganhar seu coração
Você é raio de saudade
Meteoro da paixão
Explosão de sentimentos
Que eu não pude acreditar
Ah! Como é bom poder te amar
Ah! Como é bom poder te amar
Façamos, nessa canção, uma análise mais superficial,haja visto que as
estratégias discursivas repetem-se, como podemos perceber já nos primeiros
versos, Te dei o sol, te dei o mar/Pra ganhar seu coração/Você é raio de
saudade/Meteoro da paixão/Explosão de sentimentos/Que eu não pude
acreditar/Ah! Como é bom poder te amar, em que o eu, homem, se faz
provedor, e declara a benesse de poder amar o outro. Nessa forma de
manipulação da palavra para manipular o sujeito ouvinte, temos a constatação
da regularidade de recursos utilizados pelos homens para tentar sobrepor-se à
mulher e nela incutir um valor social superior ao do homem, numa análise
menos acurada, mas inferior, se observarmos mais profundamente. Isso se dá
porque o status de provedor, daquele que busca sol e mar para oferecer ao
outro, a mulher, é socioculturalmente entendido como superior, já que cria,
também, uma relação de dependência da mulher em relação ao homem.
Percebemos, aqui, uma forma de manipulação que “é uma prática
comunicativa e interacional na qual um manipulador exerce controle sobre
outras pessoas, normalmente contra a vontade e interesses delas” (van DIJK,
2008, p. 234).
Porém, também percebemos que a estratégia manipulatória se vale de
uma concepção ideológica já consagrada na sociedade: homem e mulher se
completam, ele, provendo, ela subsidiando a relação com sua subserviência,
lealdade e fidelidade. Não podemos dizer que essa manipulação seja
consciente, porque o sujeito falante, homem, está inserido no contexto social e
a imagem que constrói de si é uma imagem de incompletude sem a mulher.
Essa perspectiva vem ratificada nos versos seguintes: Depois que eu
te conheci fui mais feliz/Você é exatamente o que eu sempre quis/Ela se
encaixa perfeitamente em mim/O nosso quebra-cabeça teve fim. Veja que, a
incompletude do eu se dá na ausência do outro e, na presença, as lacunas são
preenchidas.
Devemos lembrar, aqui, que o processo de análise crítica do discurso
passa pelo aspecto do uso da palavra mas não se centra apenas nela. Nela, na
palavra, temos o início de uma construção e reconstrução de identidade, seja
para ratificar e reforçar o já posto na sociedade, seja para reforçar o ego do
falante, seja para reestabelecer no outro a importância a conjunção de ambos.
Ou seja, esse discurso é um discurso que se postula como uma ideologia do
grupo.
Devemos entender que a ideologia de que tratamos aqui é algo
subjetivo, mas fortemente difundido em nosso meio, pois
apesar da variedade de posturas em relação ao conceito de
ideologia, pressupõe-se, em geral, que o termo refere-se à
“consciência” de um grupo ou classe, explicitamente elaborada
ou não em um sistema ideológico, que subjaz às práticas
socioeconômicas, políticas e culturais dos membros do grupo, de
forma tal que seus interesses (do grupo ou da classe)
materializam-se (em princípio da melhor maneira possível). (van
DIJK, 2008, p. 47).
É interessante percebermos que o uso discursivo se dá para a
manifestação de quereres e saberes e, portanto, de poderes que estão
difundidos em nosso meio e que subsidiam a construção de uma sociedade
homogênea.
Também temos, em nosso discurso, maneiras de estabelecermos uma
realidade entendida por nós como natural, a vida, e que as fugas são
necessárias para que subsistamos em momentos de dificuldade. Não
queremos, porém, fugir da realidade para não fugir da vida e, nesse aspecto, o
discurso nos indica a necessidade de manter-se feliz, manter-se junto ao outro
para conseguirmos alcançar a felicidade, pregada na sociedade como a grande
razão da existência. O locutor, então, grita a alegria de ter-se no outro e o
medo de que esse ter-se no outro seja unilateral: Se for sonho não me
acorde/Eu preciso flutuar/Pois só quem sonha/Consegue alcançar.
Também precisamos compreender que o processo de construção de
identidade é um recurso do discurso que os sujeitos sociais se valem para
estabelecerem-se
como
seres
sociais
e
que,
nessa
tentativa
de
estabelecimento de identidade, há, também a manifestação da sociedade em
que eles se encontram. Vimos, desde a primeira canção a noção de que o
homem se identifica com uma proposta de provedor, de superioridade em
relação à mulher especialmente porque se põe a serviço dela, mas não se
esquece de sua própria necessidade de reafirmar-se superior. Os versos Tão
veloz quanto a luz/Pelo universo eu viajei dizem claramente isso, porque
colocam o homem como valente. Novamente a estratégia é por nós conhecida,
como vimos nas canções anteriores.
Novamente, a seguir, ele tenta retificar essa posição dando à mulher
um poder, como vemos no verso Vem me guia me conduz, que induz a mulher
a pensar que está no comando. Esse comando, porém, é estabelecido com
uma relação de subserviência. Veja que, o verso seguinte Que pra sempre te
amarei, restaura a identidade do homem que ama, mas também estabelece
uma espécie de condição: esteja do meu lado (ou seja, fiel a mim) e terás como
prêmio o meu amor.
No frigir dos ovos, o que encontramos nessas três canções, as mais
tocadas do período, é uma manifestação de um homem que, pelo discurso que
produz, transita entre a perspectiva de ser um provedor, de ser superior e de se
deixar conduzir por aquele que ele quer, na verdade, mandar.
O homem que encontramos nessas canções manipula a mulher com
promessas e articulações discursivas que a leva a ter em mente apenas as
boas lembranças das coisas, o que entendemos ser uma forma abusiva de
usar o discurso para manter o poder que o homem sempre teve em nossa
sociedade. Nesse sentido, devemos nos lembrar que
existem várias noções cruciais na Análise Critica do discurso
(ACD) que requerem atenção especial porque implicam abuso
discursivo de poder. A manipulação é uma dessas noções. Essa
noção desenvolve-se através da fala e da escrita. Em segundo
lugar, os que são manipulados são seres humanos e isso
tipicamente ocorre através da manipulação da mente.” (van
DIJK, 2008, p. 233)
Ora, se estamos estabelecendo a relação das palavras postas em
discurso com a manipulação dos seres que são os ouvintes dessas palavras,
precisamos noa afiliar à noção de que os ouvinte, aqui lidos como
consumidores da ideologia pregada, são manipulados e corroboram para a
manutenção do status quo social, especialmente porque sabemos que .
os ‘consumidores’, os destinatários universais da publicidade e
de suas extensões colonizadoras na educação e outras esferas,
são versões do ‘eu’ autodirecionado, caracterizado pela
capacidade e pela vontade para ‘escolher’.” (FAIRCLOUGH,
2001, p 269)
Os consumidores, ouvintes, no nosso caso, são aqueles que colocam
as canções nas paradas de sucesso e o fazem porque se afiliam ao que as
canções dizem ás ideologias que ela propaga. Nesse sentido, chegamos a uma
conclusão clara: o homem natalense, nessa sociedade, é um homem
manipulador por excelência, pois faz uso de um discurso romântico e retoma
aspectos históricos, como os desbravadores medievais, os cavaleiros que se
tornavam heróis para suas amadas, para fazer a manutenção de seu próprio
poder, de sua própria identidade de superioridade.
Antes de pormos um ponto final nesse artigo, e reticências no assunto
aqui abordado, devemos nos lembrar da importância da música ao longo da
história, pois ela esteve presente e influente nas sociedades no decorrer dos
tempos. O próprio Darwin declarou que a fala humana não antecedeu a
música, mas dela derivou, o que nos habilita a dizer que a canção, embora
tenha um cunho de entretenimento, também subsidia a manutenção da
ideologia e, como estamos falando de cultura popular, a musica popular,
independentemente do nível lingüístico que use, faz uma manutenção das
crenças sociais, largamente difundidas.
Aqui, por fim, dizemos que entendemos um pouco melhor a
manipulação discursiva que o homem faz quando se põe sujeito das canções.
Entendemos também que, a despeito de opiniões em contrário, a identidade
masculina, em relação á feminina, é, nas canções, pregada como superior. E,
se “a manipulação [...] é uma forma discursiva de reprodução do poder da elite
que é contra os melhores interesses dos grupos dominados e que (re)produz a
desigualdade social (FAIRCLOUGH, 2001, p. 240), as canções escolhidas
pelos natalenses no período refletem a sua própria noção do que são: homens
superiores, que forçam as mulheres a serem subservientes sem que elas
sejam subjugadas, mas manipuladas.
REFERÊNCIAS
DIJK, van. Discurso e poder. Estruturas do discurso e estruturas do poder,
capítulo II. São Paulo: contexto, 2008.
FAIRCLOUGH, Norman. Discurso e mudança social. Traduzido por Izabel
Magalhães, coordenadora de tradução, revisão técnica e prefácio. Brasília:
Editora Universidade de Brasília, 2001, 2008 (reimpressão).
FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal,
1979.
________. A ordem do discurso. 3. ed. Trad. L. F. de A. Sampaio. São Paulo:
Edições Loyola, 1996.