Índice - Colégio Medicina

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Índice - Colégio Medicina
ANÁLISE FUVEST E UNICAMP
Prof.: Pettras
Aluno(a): ________________________________________________
Turma: ____________________________
Em 1828, D. Miguel foi aclamado rei, aboliu a Constituição e
restabeleceu o absolutismo no país. Seu irmão, D. Pedro, que abdicara
o trono do Brasil, desembarcou em Portugal com um pequeno exército
e, com apoio dos liberais, deflagrou a guerra civil de 1832-34, que
terminou com a vitória sobre os absolutistas. D. Miguel partiu para o
exílio; Jacinto Galião, descontente com o desfecho adverso ao seu
bemamado rei, resolveu abandonar Portugal, partindo com a mulher, D.
Angelina Fafes, o filho Cintinho e poucos criados para o desterro em
Paris.
Na capital francesa, D. Galião adquiriu um luxuoso palacete, na
Avenida dos Campos Elíseos, número 202, onde viveu regaladamente,
até morrer de indigestão. Sua viúva, D. Angelina, por comodismo
permaneceu em Paris, em vez de regressar a Portugal.
Cintinho foi crescendo fraco e doentio. Entre tosses e sufocações,
padecia de insônia freqüente, sempre perambulando à noite pelo
palacete, a ponto de os criados apelidarem-no Sombra. No outono de
1851, começou a cuspir sangue. Em vez de buscar climas mais
salubres, como recomendava o médico, Cintinho resolveu ficar, pois
estava apaixonado por Teresinha Velho, filha do desembargador Nunes
Velho, amigo de família. Com ela se casou, mas morreu pouco tempo
depois, sem presenciar o nascimento do filho, que veio ao mundo três
meses após o falecimento do pai.
Entusiasta da Civilização
O menino também chamou-se Jacinto, mas, ao contrário do
progenitor, era um garoto extremamente saudável e vivaz. Nascido e
criado em Paris, desde cedo revelara inteligência superior e forte
personalidade. Imensamente favorecido pela sorte, era chamado
”Príncipe da Grã-Ventura“ pelos amigos.
Já rapaz, Jacinto tornara-se um entusiasta do progresso. Costumava
dizer que o homem só é superiormente feliz quando é superiormente
civilizado. Sua idéia de civilização implicava o acúmulo erudito de
todas as concepções adquiridas pela inteligência humana, desde a
Grécia antiga, aliado à utilização de todos os mecanismos inventados
para potencializar o domínio do homem sobre a natureza. Assim,
Jacinto passou a orientar sua vida segundo a fórmula:
SUMA CIÊNCIA x SUMA POTÊNCIA = SUMA FELICIDADE
Segundo Jacinto, a civilização era produto da cidade; somente nela
o homem poderia afirmar sua superioridade de ser pensante. A
natureza, ao contrário, inspirava-lhe horror; nela, ele sentia a anulação
do intelecto e a redução do homem à bestialidade.
Por uma conclusão bem natural, a idéia de civilização, para
Jacinto, não se separava da imagem de cidade, de uma enorme
cidade, com todos os seus vastos órgãos funcionando poderosamente.
Nem este meu supercivilizado amigo compreendia que longe de
armazéns servidos por três mil caixeiros; e de mercados onde se
despejam os vergéis e lezírias de trinta províncias; e de bancos em
que retine o ouro universal; e de fábricas fumegando com ânsia,
inventando com ânsia; e de bibliotecas abarrotadas, a estalar, com a
papelada dos séculos; e de fundas milhas de ruas, cortadas, por baixo
e por cima, de fios de telégrafos, de fios de telefones, de canos de
gases, de canos de fezes; e da fila atroante de ônibus, “tramways”,
carroças, velocípedes, calhambeques, parelhas de luxo; e de dois
milhões de uma vaga humanidade, fervilhando, a ofegar, através da
polícia, na busca dura do pão ou sob a ilusão do gozo — o homem do
século XIX pudesse saborear, plenamente, a delícia de viver! [...]
Ao contrário, no campo, entre a inconsciência e a impassibilidade
da natureza, ele tremia com o terror da sua fragilidade e da sua
solidão. Estava aí como perdido num mundo que lhe não fosse
fraternal; nenhum silvado encolheria os espinhos para que ele
passasse; se gemesse com fome, nenhuma árvore, por mais
carregada, lhe estenderia o seu fruto na ponta compassiva dum ramo.
Depois, em meio da natureza, ele assistia à súbita e humilhante
inutilização de todas as suas faculdades superiores. De que servia,
entre plantas e bichos — ser um gênio ou ser um santo? As searas
não compreendem as Geórgicas2; e fora necessário o socorro ansioso
de Deus, e a inversão de todas as leis naturais, e um violento milagre
Índice
A Cidade e as Serras
Leitura de Vidas Secas
Capitães de Areia
Exercícios Fuvest
Resumo de Til
Análise De Viagens Na Minha Terra
Mundo Grande
Sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas
Memórias de um Sargento de Milícias
O cortiço
Data: 27/05/2014
página 01
página 07
página 14
página 20
página 25
página 28
página 33
página 35
página 47
página 55
A cidade e as serras
De eça de queirós
Por José de Paula Ramos Jr.
APRESENTAÇÃO
Último romance de Eça de Queirós, publicado postumamente em
1901, A Cidade e as Serras é o desenvolvimento de um conto de sua
autoria chamado A Civilização.
Pertencendo à última fase da obra de Eça, esse romance apresenta
uma acentuada idealização da vida rural portuguesa, entendida como
remédio para os males gerados pela civilização urbana do final do
século XIX.
A obra apresenta XVI capítulos, que, esquematicamente, podem ser
divididos em dois blocos. O primeiro, constituído dos sete capítulos
iniciais e parte do oitavo, passa-se em Paris e serve para caracterizar os
requintes da civilização urbana. Nele, mediante o poder da ironia e do
talento caricatural, Eça de Queirós vai compondo um quadro
exasperante, em que o protagonista aos poucos se deixa vencer por um
tédio irresistível e um pessimismo atroz. Jacinto tem cultura, prestígio e
uma imensa fortuna, mas não é feliz. Da metade do oitavo capítulo ao
último, o autor compõe o segundo bloco, que se contrapõe ao primeiro,
sendo a sua antítese. Jacinto se regenera, torna-se ativo e entusiástico.
O encontro com a natureza e a vida simples do meio rural proporcionalhe a felicidade. Não deixa de haver humor, ironia e caricatura no idílio
campestre de Jacinto, mas a arte de Eça, nesse segundo bloco, se
compraz num estilo em que é notável a carga de lirismo, especialmente
nas descrições impressionistas da natureza.
Como se verifica em A Ilustre Casa de Ramires, outra obra da
última fase do autor, configura-se, em A Cidade e as Serras, a
valorização de uma aristocracia rural degradada pela adoção de
modelos de vida inautênticos, estrangeirados, que se regenera ao
reencontrar-se com as raízes nacionais lusitanas, capazes de restituir a
fibra empreendedora e infundir o espírito de generosidade humanitária.
Como um todo, o romance A Cidade e as Serras pode ser visto
como uma alegoria, isto é, uma metáfora desenvolvida numa narrativa
de significado simbólico, segundo a qual a felicidade se encontra na
vida simples e laboriosa do meio rural, e não no artificialismo enganoso
da civilização urbana.
ENREDO
De Lisboa a Paris
A história de Jacinto de Tormes começa bem antes de seu
nascimento. Em Lisboa, nos idos de 1820, aproximadamente, seu avô,
um gordíssimo e riquíssimo fidalgo, também chamado Jacinto,
conhecido pela alcunha de D. Galião, escorregou numa casca de laranja
e desabou em plena rua, sendo socorrido pelo infante D. Miguel, filho
do rei D. João VI e herdeiro do trono. Desde então, o velho aristocrata
dedicou um afeto sem limites ao príncipe, que o ajudara tão
graciosamente.
1
Jacinto, aborrecido com os desastres mecânicos, promove uma
grande reforma no 202. Enquanto isso, Zé Fernandes conhece Madame
Colombe, de quem se torna amante. Assim ele se pronuncia sobre o
caso:
Durante sete furiosas semanas perdi a consciência de minha
personalidade de Zé Fernandes — Fernandes de Noronha e Sande,
de Guiães! Ora se me afigurava ser um pedaço de cera que se
derretia, com horrenda delícia, num forno rubro e rugidor; ora me
parecia ser uma faminta fogueira onde flamejava, estalava e se
consumia um molho de galhos secos. Desses dias de sublime sordidez
só conservo a impressão de uma alcova forrada de cretones sujos, de
uma bata de lã de cor lilás, com “soutaches” negros, de vagas
garrafas de cerveja no mármore de um lavatório, de um corpo tisnado
que rangia e tinha cabelos no peito. [...] Do sólido, decoroso, bem
fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcaça errando através de
um sonho, com as gâmbias moles e a baba a escorrer.
Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da
Rua do Hélder, encontrei a porta fechada — e arrancado da
ombreira aquele cartão de “Madame Colombe” que eu lia sempre tão
devotamente e que era a sua tabuleta... Tudo no meu ser tremeu como
se o chão de Paris tremesse! Aquela era a porta do mundo que ante
mim se fechara! Para além estavam as gentes, as cidades, a vida,
Deus e Ela. E eu ficara sozinho, naquele patamar do não-ser, fora da
porta que se fechara, único ser fora do mundo! Rolei pelos degraus,
com o fragor e a incoerência de uma pedra, até o cubículo da porteira
e do seu homem que jogavam as cartas em ditosa pachorra, como se
tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado o universo!
— Madame Colombe?
A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
— Já não mora... Abalou esta manhã, para outra terra, com
outra porca! (pp. 59-60)
Tédio e Pessimismo
Curado de sua infecção sentimental, Zé Fernandes retomou a
camaradagem com o amigo Jacinto, que, ultimamente, dava sinais de
grande melancolia. Grilo, o velho criado negro, dizia: Sua Excelência
sofre de fartura. De fato, os confortos proporcionados pelo progresso
mecânico, toda erudição acumulada na vasta biblioteca, os apelos da
sociedade elegante, nada satisfazia o Príncipe da Grã-Ventura, que se
transfomara num homem taciturno, triste e asfixiado por um tédio
medonho. E essa disposição de espírito era refletida pela decadência
física de Jacinto, que definhava visivelmente.
Para distrair o amigo, Zé Fernandes o leva a um passeio a
Montmartre, nos arredores de Paris, para conhecerem a Basílica do
Sacré-Coeur. A edificação não os interessou muito, no entanto, a visão
da cidade de Paris, do alto, causou-lhes profunda impressão. Zé
Fernandes faz uma longa reflexão sobre a cidade, considerando como
toda a sua grandeza se apagava, vista de cima. Jacinto, observa: —
Sim, é talvez tudo uma ilusão... E a cidade a maior ilusão!
Animado com a própria eloqüência, Zé Fernandes prosseguiu seu
discurso, aduzindo que na cidade findava toda liberdade moral do ser
humano:
Cada manhã ela lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade
o arremessa para uma dependência: pobre e subalterno, a sua vida é
um constante solicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; rico e
superior
como um Jacinto, a sociedade logo o enreda em tradições,
preceitos, etiquetas, cerimônias, praxes, ritos, serviços mais
disciplinares que os de um cárcere ou de um quartel [...].
Se ao menos essa ilusão da cidade tornasse feliz a totalidade dos
seres que a mantêm... Mas não! Só uma estreita e reluzente casta
goza na cidade os gozos especiais que ela cria. O resto, a escura,
imensa plebe, só nela sofre, e com sofrimentos especiais que só nela
existem! [...] Aí jaz, espalhada pela cidade, como esterco vil que
fecunda a cidade. [...] Ei-la agora coberta de moradas em que eles
não se abrigam; armazenada de estofos, com que eles se não
agasalham; abarrotada de alimentos, com que eles se não saciam!
[...] A tua civilização reclama insaciavelmente regalos e pompas, que
só obterá, nesta amarga desarmonia social, se o Capital der ao
Trabalho, por cada arquejante esforço, uma migalha ratinhada.
Irremediável, é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe
pene! A sua esfalfada miséria é a condição do esplendor sereno da
cidade. [...]
Há andrajos em trapeiras — para que as belas madamas de Oriol,
resplandecentes de sedas e rendas, subam, em doce ondulação, a
escadaria da Ópera. Há mãos regeladas que se estendem, e beiços
para que o lobo de Agúbio não devorasse S. Francisco de Assis, que
lhe sorria e lhe estendia os braços e lhe chamava “meu irmão lobo!”.
Toda a intelectualidade, nos campos, se esteriliza, e só resta a
bestialidade. Nesses reinos crassos do Vegetal e do Animal duas
únicas funções se mantêm vivas, a nutritiva e a procriadora. Isolada,
sem ocupação, entre focinhos e raízes que não cessam de sugar e de
pastar, sufocando no cálido bafo da universal fecundação, a sua
pobre alma toda se engelhava, se reduzia a uma migalha de alma,
uma fagulhazinha espiritual a tremeluzir, como morta, sobre um
naco de matéria; e nessa matéria dois instintos surdiam, imperiosos e
pungentes, o de devorar e o de gerar. Ao cabo de uma semana rural,
de todo o seu ser tão nobremente composto só restava um estômago e
por baixo um “falus”! A alma? Sumida sob a besta. E necessitava
correr, reentrar na cidade, mergulhar nas ondas lustrais da
civilização, para largar nelas a crosta vegetativa, e ressurgir
reumanizado, de novo espiritual e jacíntico!
José Fernandes, narrador do romance, amigo mais próximo de
Jacinto, após alguns anos de estudos em Paris, teve de voltar a Portugal.
Seu tio Afonso Fernandes, numa carta, lamentava que o peso de seus
setenta anos e os males hemorroidais o impediam de cuidar de sua
propriedade rural, em Guiães, na região do Douro, que ficava vizinha à
casa senhorial dos Jacintos, nas serras de Tormes. O velho tio ordenava
ao sobrinho que voltasse ao lar, a fim de assumir a gerência da
propriedade. Zé Fernandes, então, abandonou o curso de Direito e
partiu para Portugal. Voltando à vida de aldeia, passava seus dias entre
os cuidados com a terra e o carinho da tia Vicência, que, em pouco
tempo, ficou viúva.
Desastres mecânicos e sentimentais
Por sete anos os amigos não se viram, até que, por volta de 1887,
Zé Fernandes, em viagem a Paris, reencontra Jacinto. Na Avenida dos
Campos Elíseos, número 202, o antigo palacete fora transformado
numa síntese do mundo moderno, dotado de uma biblioteca com 30 mil
volumes, que concentrava todo o saber produzido pelo homem, e de
toda espécie de máquinas e equipamentos de que a tecnologia era capaz
para o conforto da vida. Nunca o 202, como era conhecido o palacete,
fora tão magnífico, com o brilho da eletricidade, o conforto de
elevadores, a parafernália de telefones, fonógrafos e telégrafos e o
requinte de utensílios, máquinas e engenhocas de toda espécie.
Zé Fernandes, convidado por Jacinto, hospedou-Se no 202.
Participando do cotidiano daquela micrópolis ultra-sofisticada, pôde
testemunhar a falibilidade exasperante dos prodígios tecnológicos.
Eram canos que rompiam, inundando uma ala do palacete, panes
elétricas e até mesmo o emperramento do ascensor de pratos, que
comprometeu um jantar de gala oferecido ao grão-duque Casimiro,
amigo de Jacinto.
Nesse jantar, Zé Fernandes pôde observar mais de perto um resumo
da alta sociedade parisiense: a condessa de Trèves, com sua lisonja
fácil, ocupava-se de alimentar a vaidade de cada um, toda ela era uma
sublime falsidade; o conde de Trèves e seu comborço, o banqueiro
judeu Efraim, tentavam convencer Jacinto a tornar-se acionista de uma
mirabolante Companhia das Esmeraldas da Birmânia, garantindo a
segurança
do empreendimento com um argumento estapafúrdio, que
denunciava tratar-se de uma negociata: — Esmeraldas! Está claro que
há esmeraldas!... Há sempre esmeraldas desde que haja acionistas!; um
psicólogo cabotino alardeava seu profundo conhecimento da alma
feminina, expresso em seu último romance, enquanto o irônico diretor
do jornal Boulevard, o duque de Marizac, divertia-se apontando um
erro no romance, que comprometia a credibilidade do autor; Dornan,
celebrado poeta neoplatônico e místico, ouvia uma história picante e,
impassível, declarava: — Há melhor, há infinitamente melhor... Todos
aqui conhecem Madame Noredal. Madame Noredal tem umas imensas
nádegas...; Madame de Oriol, Madame Verghane, a princesa De
Carman rivalizavam na elegância sedutora de trajes e modos; esses
todos juntaram-se aos demais convidados na arte da bajulação, quando
chegou o grão-duque Casimiro. Este, irmão de um imperador, do alto
de sua majestade, interessava-se apenas em cançonetas obscenas e nos
prazeres culinários e etílicos.
Três dias após essa festa, Jacinto recebeu uma correspondência de
Portugal, com a informação de que sua propriedade nas serras de
Tormes havia sido muito castigada por uma terrível tempestade, que
soterrara uma capelinha do século XVI e o cemitério contíguo, onde
jaziam vários ancestrais do fidalgo. Este telegrafa a Silvério, seu
administrador em Tormes, ordenando a reedificação da igrejinha e o
resgate das ossadas, para o que não se poupariam despesas.
2
sumidos que agradecem o dom magnânimo de um “sou”— para que
os Efrains tenham dez milhões no Banco de França, se aqueçam à
chama rica da lenha aromática, e surtam de colares de safiras as suas
concubinas, netas dos duques de Atenas. E um povo chora de fome, e
da fome dos seus pequeninos — para que os Jacintos, em janeiro,
debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe, morangos gelados em
Champagne e avivados de um fio de éter! (pp. 67-69)
Quando ambos se preparavam para voltar a casa, Jacinto é chamado
por Maurício de Mayolle, um amigo que não via há anos. Trava-se uma
conversa, em que Zé Fernandes pôde observar como as doutrinas
filosóficas e estéticas eram experimentadas por certas rodas elegantes
como modas passageiras. Renanismo, hartmannismo, nietzschianismo,
tolstoismo etc. eram substituídas umas pelas outras, numa atitude de
puro diletantismo.
Os sinais de enfado de Jacinto começaram a se acentuar mais; tanto
que os próprios encontros com sua amante, a fina Madame de Oriol,
tornaram-se um peso. Para aliviá-lo, Jacinto rogava que o amigo Zé
Fernandes o acompanhasse nas visitas vespertinas. Quanto a Madame
de Oriol:
Ela só sabia chalrar sobre a sua pessoa, que era o resumo da sua
classe, e sobre a sua existência, que era o resumo do seu Paris; e a
sua existência, desde casada, consistira em ornar com suprema
ciência o seu lindo corpo; entrar com perfeição numa sala e irradiar;
remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande
costureiro; rolar pelo “Bois” pousada na sua vitória como uma
imagem de cera; decotar e branquear o colo; debicar uma perna de
galinhola em mesas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos;
adormecer com a vaidade esfalfada; percorrer de manhã, tomando
chocolate, os “ecos” e as “festas” do “Figaro”; e de vez em quando
murmurar para o marido — “Ah, és tu?...” (pp. 76-77)
Em uma dessas visitas, na escadaria do jardimda casa, os amigos
encontram o marido de Madame de Oriol, que saía emocionado. Passase uma cena constrangedora.
— Visita lá em cima? Vai achar a Joana em péssima disposição...
Tivemos uma cena, e tremenda.
Deu outro puxão desesperado à luva cor de palha, já esgarçada:
— Estamos separados, cada um vive como lhe apetece; é
excelente! Mas em tudo há medida e forma... Ela tem o meu nome,
não posso consentir que em Paris, com conhecimento de todo o Paris,
seja amante do trintanário. Amantes da nossa roda, vá! Um lacaio,
não!... Se quer dormir com os criados que emigre para o fundo da
província, para a sua casa de Corbelle. E lá até com os animais!...
Foi o que eu lhe disse! Ficou como uma fera. (pp. 78-79)
Zé Fernandes parte para uma viagem de algumas semanas pelas
cidades da Europa. De volta a
Paris, encontra o amigo mais melancólico ainda. Ele tornara-se
adepto da filosofia pessimista, passando seus dias na leitura do
Eclesiastes bíblico e das obras de Schopenhauer. Aos trinta e quatro
anos de idade, Jacinto, apesar de todo conforto, de toda riqueza e de
todo prestígio que gozava na sociedade parisiense, sentia a vida como
um peso esmagador, que o fazia sucumbir.
A Caminho das Serras
Numa manhã de fim de inverno, Jacinto surpreende Zé Fernandes
com a resolução de ir a Tormes para a inauguração da igrejinha, que
ficara pronta, e para o traslado e sepultamento das ossadas ancestrais.
Os preparativos para a viagem tomaram três meses. Jacinto despachou
para Tormes várias caixas com móveis, livros, tapetes e objetos capazes
de fazer do solar rústico da serra, edificado em 1410, um simulacro do
202.
Em abril, com a primavera, Zé Fernandes e o amigo Jacinto, que
nunca estivera em seu país, partiram para as serras portuguesas. A
viagem foi tumultuada. Na baldeação do trem, em Medina, na Espanha,
perderam-se os criados, com todas as bagagens. Assim, os dois amigos
chegaram à estação de Tormes apenas com as roupas do corpo. Para
piorar a situação, ninguém os aguardava; e eles tiveram que seguir para
a propriedade de Jacinto em dois animais emprestados, uma égua e um
burro.
No caminho, Jacinto se encanta com a paisagem, mas ao chegar à
sede da quinta (propriedade rural), nova decepção aguardava os
amigos. O velho solar senhorial tinha um aspecto lúgubre, as obras
ordenadas corriam muito lentamente e as caixas despachadas de Paris
haviam sido extraviadas para Alba de Tormes, na Espanha, como
depois se soube.
Zé Fernandes, então, propôs que Jacinto fosse com ele, no dia
seguinte, para sua quinta em Guiães; mas o amigo, furioso com o
contratempo, decidira rumar para Lisboa. O jantar simples e farto, que
lhes foi servido pelos empregados de Tormes, de típica culinária
serrana, foi muito elogiado pelos fidalgos. Jacinto, que há anos sofria
de inapetência, comeu com enorme prazer. Cansados da viagem, ambos
dormiram em camas improvisadas sobre o chão de pedra. No dia
seguinte, Zé Fernandes partiu para sua propriedade, de onde enviou a
Jacinto alguma roupa, objetos de asseio e livros.
Passada uma semana, Zé Fernandes recebeu as bagagens que se
haviam extraviado em Medina. Telegrafando a Lisboa, onde pensava
estar Jacinto, para acusar o recebimento das malas, não obteve resposta.
Mais quatro semanas se passaram, até Zé Fernandes descobrir que o
amigo não saíra de Tormes, desde a chegada. Num domingo, rumou
para lá, encontrando o velho solar em obras e, embora ainda muito
despojado, em condições mais higiênicas e habitáveis. Zé Fernandes
surpreende-se com Jacinto, revigorado pelo ar e pela comida saudável
da serra. Era outro homem. Recobrara a alegria de viver. E o motivo da
transformação fora a descoberta da natureza e da vida campestre.
Na tarde desse dia, os amigos foram passear pela quinta.
Era com delícias, com um consolado sentimento de estabilidade
recuperada, que [Jacinto] enterrava os grossos sapatos nas terras
moles, como no seu elemento natural e paterno: sem razão, deixava
os trilhos fáceis, para se embrenhar através de arbustos
emaranhados, e receber na face a carícia das folhas tenras; sobre os
outeiros, parava, imóvel, retendo os meus gestos e quase o meu hálito,
para se embeber de silêncio e de paz; e duas vezes o surpreendi atento
e sorrindo à beira dum regatinho palreiro, como se lhe escutasse a
confidência... Depois filosofava, sem descontinuar, com o entusiasmo
dum convertido, ávido de converter:
— Como a inteligência aqui se liberta, hem? E como tudo é
animado duma vida forte e profunda...!
Dizes tu agora, Zé Fernandes, que não há aqui pensamento...
— Eu?! Eu não digo nada, Jacinto...
— Pois é uma maneira de refletir muito estreita e muito
grosseira...
— Ora essa! Mas eu...
— Não, não percebes. A vida não se limita a pensar, meu caro
doutor...
— Que não sou!
— A vida é essencialmente vontade e movimento: e naquele
pedaço de terra, plantado de milho, vai todo um mundo de impulsos,
de forças que se revelam, e que atingem a sua expressão suprema,
que é a forma. Não, essa tua filosofia está ainda extremamente
grosseira...
— Irra! mas eu não...
—E depois, menino, que inesgotável, que miraculosa diversidade
de formas... E todas belas!
Agarrava o meu pobre braço, exigia que eu reparasse com
reverência. Na natureza nunca eu descobriria um contorno feio ou
repetido! Nunca duas folhas de hera, que, na verdura ou recorte, se
assemelhassem! Na cidade, pelo contrário, cada casa repete
servilmente a outra casa; todas as faces reproduzem a mesma
indiferença ou a mesma inquietação; as idéias têm todas o mesmo
valor, o mesmo cunho, a mesma forma, como as libras; e até o que há
mais pessoal e íntimo, a ilusão, é em todos idêntica, e todos a
respiram, e todos se perdem nela como no mesmo nevoeiro... A
mesmice — eis o horror das cidades! (pp. 125-126)
Jacinto pensava ficar em Tormes no máximo dois meses, até a
inauguração da igrejinha e trasladamento dos restos dos antepassados.
No entanto, foi alongando sua estada, cada vez mais entusiasmado com
sua quinta, para a qual tinha grandes planos.
Após as primeiras semanas contemplativas, Jacinto começou a
manifestar desejo de ação. Inexperiente nos trabalhos rurais, o fidalgo
sonhava transformar sua rústica serra numa propriedade moderna,
aproveitando os largos espaços inativos com um imenso prado, onde se
criaria gado de raça, para fabricação de queijos finos. Para realização
disso, do modo sofisticado que Jacinto pensava, seria necessário um
vultoso investimento, que elevaria os custos de produção a ponto de
trazer enorme prejuízo. O administrador de Tormes, Silvério, opunhase aos sonhos mirabolantes do patrão, argumentando que, se ele
quisesse gastar tanto dinheiro, que o fizesse em outras propriedades que
possuía, espalhadas por Portugal, em que as terras eram de qualidade
superior.
Mas, infelizmente para a quietação do Silvério, Jacinto lançara
raízes, e rijas, e amorosas raízes na sua rude serra. Era realmente
como se o tivessem plantado de estaca naquele antiquíssimo chão, de
3
Muitas vezes, Jacinto manifestava o desejo de levar mulher e filhos
a Paris, para que conhecessem a grande metrópole, mas como a viagem
era sempre adiada, Zé Fernandes, que os acompanharia, decidiu ir só.
Lá chegando, reencontrou velhos conhecidos, que continuavam a
mesma existência de frivolidade e inautenticidade. Desencantado,
despediu-se da cidade, disposto a não mais voltar, regressando a
Portugal. Ao descer na estação, a família de Jacinto o aguardava.
Festivamente, tomaram o rumo do solar de Tormes, enquanto Zé
Fernandes refletia:
E na verdade me parecia que por aqueles caminhos, através da
natureza campestre e mansa, — o meu príncipe, atrigueirado nas
soalheiras e nos ventos da serra, a minha prima Joaninha, tão doce e
risonha mãe, os dois primeiros representantes da sua abençoada
tribo, e eu, — tão longe de amarguradas ilusões e de falsas delícias,
trilhando um solo eterno, e de eterna solidez, com a alma contente, e
Deus contente de nós, serenamente e seguramente subíamos — para
o Castelo da Grã-Ventura! (p.192)
ANÁLISE DA OBRA
Foco Narrativo
O foco narrativo de A Cidade e as Serras é centrado na primeira
pessoa. O narrador, Zé Fernandes, embora seja personagem importante
do romance, não é protagonista. Trata-se de um narrador testemunha,
que observa de perto os acontecimentos que relata. Ele não sabe tudo
sobre a história, como os narradores oniscientes; seu conhecimento dos
fatos limita-se àquilo que presencia, ou ao que indiretamente lhe é dado
saber. Quanto às personagens com que se relaciona, só as conhece pelo
que manifestam; se há discordância entre o que declaram e seus
pensamentos e sentimentos mais íntimos, o narrador não é capaz de
saber com certeza.
O leitor conhece indireta e parcialmente fatos e pessoas, uma vez
que são apresentados mediante o filtro da subjetividade. Assim, o
retrato das personagens depende da sensibilidade, capacidade de
observação e disposição afetiva do narrador; a apresentação dos fatos
resulta da seleção e combinação, empreendida pelo narrador, dos
elementos que os constituem, aos quais ele teve acesso direta ou
indiretamente; os juízos de valor formulados decorrem dos valores
assumidos pelo narrador.
Embora não se possa confundir autor (Eça de Queirós) e narrador
(Zé Fernandes), o primeiro se vale do segundo para passar a tese que
está na base da obra, a da superioridade da vida rural sobre a
civilização urbana e desumanização do homem nas grandes cidades.
Personagens
Zé Fernandes reserva às personagens secundárias um espaço muito
modesto na narrativa; são coadjuvantes que intervêm episodicamente,
quando penetram no raio de ação do protagonista Jacinto, ou do próprio
Zé Fernandes. Por esse motivo, suas caracterizações são muito
esquemáticas; o narrador não as acompanha ou analisa, a não ser
quando suas ações interessam para configurar as reações de Jacinto, de
modo a modular sua personalidade, ou definir sua trajetória.
Essas personagens secundárias não são propriamente indivíduos;
são generalizações, que ilustram tipos humanos, isto é, modelos gerais
de comportamento ou personalidade. Eça de Queirós, através do
narrador, caracteriza-as com pinceladas grossas, usando o método da
caricatura, de que é mestre. Freqüentemente, apresentam traços
ridículos, que denunciam a intenção satírica e crítica do autor. A única
personagem mais desenvolvida, fora o protagonista, é a do próprio
narrador Zé Fernandes, que não é um simples coadjuvante, como as
demais, mas um deuteragonista, isto é, a segunda personagem em
importância, que forma um par com o protagonista. Na verdade, Zé
Fernandes é uma espécie de duplo de Jacinto, um seu complemento;
juntos, constituem uma totalidade, em que o caráter impulsivo do
segundo é contrabalançado pelo perfil mais compassivo do primeiro. É
como se fossem uma atualização, embora em escala e sentido
diferentes, da dupla inesquecível de Cervantes: Sancho Pança (Zé
Fernandes) e D. Quixote (Jacinto), em que o primeiro encarna o espírito
realista, e o segundo, o idealista. Zé Fernandes representa o fidalgo
culto, viajado e perfeitamente identificado com suas raízes rurais
lusitanas, conformação que lhe dá a força de um caráter bem centrado
em si. Espírito prático e benigno, tendo como principal característica
psicológica o temperamento afetuoso e compreensivo, constitui uma
espécie de personificação da amizade.
Num elucidativo ensaio, Alvaro Santos Simões Junior demonstra
como Zé Fernandes é a personagem mais complexa do romance, dotado
que é de um caráter energético, nuançado pela ironia, malícia e, em
alguns momentos, até mesmo pelo cinismo.
onde brotara a sua raça, e o antiquíssimo humo8 refluísse e o
penetrasse todo, e o andasse transformando num Jacinto rural, quase
vegetal, tão do chão, e preso ao chão, como as árvores que ele tanto
amava.
E depois, o que o prendia à serra era o ter nela encontrado o que
na cidade, apesar da sua sociabilidade, não encontrara nunca, —
dias tão cheios, tão deliciosamente ocupados, de um tão saboroso
interesse, que sempre penetrava neles, como numa festa ou numa
glória. (p. 139)
Contudo, os planos de Jacinto ficavam no papel, devido à
resistência respeitosa do administrador Silvério, que sempre dava um
bom motivo para não se iniciarem as reformas.
Quando Jacinto ralhava com Zé Fernandes, porque este não se
enlevava com os encantos da natureza, o amigo advertia:
— Meu filho, olha que eu não passo de um pequeno proprietário.
Para mim não se trata de saber se a terra é linda, mas se a terra é
boa. Olha o que diz a Bíblia! “Trabalharás a quinta com o suor do
teu rosto!” E não diz “contemplarás a quinta com o enlevo da tua
imaginação!” (p. 142)
Com o passar do tempo, Jacinto foi se familiarizando com os
trabalhos rurais, sentindo prazer em conversar com os camponeses.
Numa manhã de chuva tempestuosa, porém, ao abrigar-se na casa de
um empregado seu, ficou chocado com a miséria que encontrou.
Informado das condições precárias dos trabalhadores, que desconhecia,
ordenou ao administrador Silvério a construção de habitações decentes
para todos e a revisão de contratos de trabalho, no intuito de melhorar a
renda dos empregados.
Com o passar do tempo, Jacinto foi se familiarizando com os
trabalhos rurais, sentindo prazer em conversar com os camponeses.
Numa manhã de chuva tempestuosa, porém, ao abrigar-se na casa de
um empregado seu, ficou chocado com a miséria que encontrou.
Informado das condições precárias dos trabalhadores, que desconhecia,
ordenou ao administrador Silvério a construção de habitações decentes
para todos e a revisão de contratos de trabalho, no intuito de melhorar a
renda dos empregados.
A quinta de Tormes torna-se um imenso canteiro de obras. Jacinto,
além de habitações aos trabalhadores, estava determinado a construir
uma escola, uma creche para os bebês, uma biblioteca e a instalar uma
farmácia, que atenderia toda região. A popularidade do fidalgo torna-se
enorme, sendo reconhecido como um grande benfeitor dos pobres. João
Torrado, um velho ermitão, figura folclórica, meio adivinho, afirmava a
todos que Jacinto era D. Sebastião (sebastianismo), que voltara.
Happy End
Jacinto, indo a Guiães, por ocasião do aniversário de Zé Fernandes,
hospedou-se na casa dele e conheceu, finalmente, a tia do amigo,
Vicência, que ficou encantada de sua pessoa. Na festa, Jacinto foi
apresentado à sociedade da região, que o recebeu com reservas
cerimoniosas, pois corria o boato de que o fidalgo de Tormes fora a
Portugal para conspirar a favor do absolutismo, levando consigo,
disfarçado de lacaio, o filho do banido D. Miguel. Ao saber disso,
quando foram embora os convidados, Jacinto mostrou-se surpreso, mas
considerou: Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que não sou
miguelista. Na verdade, Jacinto era simpatizante do socialismo, como
afirmou à tia Vicência. Como a boa senhora ignorava o que era, Zé
Fernandes explicou que socialista era ser pelos pobres.
Jacinto conhece uma prima de Zé Fernandes, Joaninha, por quem se
apaixona e com quem se casa. Passados cinco anos, o casal vivia feliz
com seus dois filhos, Terezinha e Jacintinho. A paternidade dera a
Jacinto senso de responsabilidade e disciplina, tornando-o um
proprietário muito cioso do equilíbrio entre despesas e receitas; os
sonhos quiméricos se dissiparam, dando lugar a um sólido
conhecimento das coisas rurais, que ele aplicava, zelosamente, em
todas as suas prósperas propriedades, e não apenas na de Tormes.
Com a perspectiva do nascimento de Terezinha, Jacinto estabeleceu
equilíbrio entre o culto à civilização e o fanatismo pela simplicidade.
Ele mandara buscar as caixas mandadas de Paris e extraviadas para
Alba de Tormes, mas a maior parte foi armazenada nos sótãos; de seus
conteúdos, aproveitaram-se apenas cortinas, tapetes e alguma mobília,
de modo que a simplicidade do velho solar foi preservada. Mandara,
também, instalar telefones em sua casa, na do sogro, do médico e do
amigo Zé Fernandes, que começou a temer uma recaída de Jacinto
naquela ânsia de progresso dos tempos de Paris, mas isso não se
confirmou. De fato, Jacinto conquistara a paz de espírito, capaz de
aproveitar do progresso apenas o que realmente fosse útil, sem
descomedimento.
4
Jacinto é o protagonista. Sua genealogia, modo de vida, aspecto
físico, suas idéias e sentimentos, seus estados psicológicos e sua
trajetória de Paris a Tormes, sempre no limite da narrativa em primeira
pessoa, são apresentados minuciosamente ao leitor.
Jacinto representa a elite portuguesa ultracivilizada, que se
desenraizou do solo e da cultura lusitana. Cidadão do mundo,
identificado com o espírito do progresso mecânico do século XIX, ele
passa a sofrer uma terrível crise existencial, desencadeada, exatamente,
por esse espírito insaciável de novidades, que nunca tem repouso ou
sossego. Refém da insatisfação, sua alma se estiola num tédio
profundo, que o encaminha para o pessimismo filosófico.
Somente o reencontro das raízes nacionais e familiares, na
simplicidade da vida rural serrana de Tormes, restitui-lhe a paz e
alegria de viver. A trajetória existencial de Jacinto é marcada por três
momentos. Inicialmente, ele nega o campo, que considera como
imagem do embrutecimento espiritual e bestificação do homem,
afirmando a cidade como imagem-síntese do progresso e da civilização;
num segundo momento, seu tédio e desencanto da vida urbana
desencadeia o movimento inverso de negação da cidade, como imagem
da hipocrisia e aviltamento, e afirmação do campo, como imagem da
regeneração das virtudes autênticas do homem; finalmente, dá-se a
síntese dialética, em que cidade e campo se reconciliam, sob a
hegemonia do segundo: Jacinto realiza o equilíbrio dos dois termos,
admitindo certas conquistas da civilização, de forma moderada, para
melhor aproveitar os benefícios superiores da natureza, sendo que esta
se cristaliza como a verdadeira fonte de felicidade e paz.
O nome do protagonista contém em si mesmo a trajetória de sua
vida, pela evocação do mito que lhe é implícito. Jacinto é nome de uma
personagem da mitologia grega. Jovem de notável beleza, era amado
pelo deus Apolo. Um dia em que se divertiam com exercícios atléticos,
o disco lançado por Apolo foi desviado pelo vento, atingindo Jacinto e
matando-o. Apolo, para imortalizar o amigo, transformou-o na flor que
recebeu seu nome. Apolo, deus da cultura e civilização, amava o
Jacinto mítico, assim como a cidade de Paris, símbolo da cultura e
civilização, amava o Jacinto moderno; Apolo, apesar de seu amor,
provocou a morte do amigo, assim como Paris provocava o
definhamento de seu predileto; Apolo restituiu vida ao amigo
plantando-o na terra e metamorfoseando-o em flor; Paris restituiu
Jacinto às suas origens rurais, completamente despojado dos bens da
civilização — ele chega a Tormes somente com a roupa do corpo —,
para ressuscitar pleno de energia para a vida.
Tempo
A Cidade e as Serras compreende uma narrativa que se inicia em
torno de 1820, estendendo-se até cerca de 1893. O relato segue a
cronologia linearmente, mas não de forma contínua; há alguns blocos
de tempo bem definidos, entre os quais se interpõem períodos mais ou
menos longos.
O primeiro bloco abrange o período que vai de 1820,
aproximadamente — quando D. Galião, avô de Jacinto, é socorrido de
uma queda, numa rua de Lisboa, pelo infante D. Miguel —, até fins de
1853 e início de 1854, quando, respectivamente, morre o pai de Jacinto
e este nasce, em Paris. Este primeiro bloco é apresentado de forma
muito sintética, através da técnica do sumário narrativo. O segundo
bloco, situado na segunda metade dos anos 1870, apresenta o
protagonista em sua juventude, entusiasmado pelo progresso e pela
civilização urbana, na época em que conhece o amigo Zé Fernandes e
estabelece com ele estreita camaradagem. Este bloco, que se encerra
em 1880 com a partida de Zé Fernandes para a aldeia de Guiães, após
alguns anos de estudo em Paris, também se apresenta na forma de
sumário narrativo. Esses dois blocos iniciais encontram-se no primeiro
capítulo do romance.
O terceiro bloco, que vai do capítulo II ao VII, compreende o
período de um ano que se estende de fevereiro de 1887 a fevereiro de
1888. Aqui o método narrativo é mais analítico; se, no primeiro e
segundo blocos, predomina a técnica do sumário, no terceiro, prevalece
a da cena, em que os acontecimentos são expostos detidamente, com
minúcia de detalhes. A narrativa dramatiza os fatos selecionados pelo
narrador, que apresenta o cotidiano sufocante de Jacinto, em meio a
suas obrigações sociais. Os episódios narrados têm a função de compor
uma imagem da vida urbana, em que o protagonista acaba sucumbindo
ao tédio e pessimismo.
O quarto bloco é composto pelos capítulos de VIII a XIV, em que
se mantém o método predominante da cena. A ação se concentra, a
exemplo do terceiro bloco, na dramatização de episódios que
transcorrem no período de um ano, desde a partida de Jacinto e Zé
Fernandes, de Paris para Tormes, em abril de 1888, até maio de 1889,
quando Jacinto se casa com Joaninha. Aqui, a narrativa se concentra na
apresentação de Jacinto convertido ao meio rural, entusiasmado com a
vida simples e laboriosa de sua quinta, havendo reconquistado a alegria
de viver.
O último bloco temporal, composto dos capítulos XV e XVI,
retoma a primazia do método de sumário narrativo, para concluir o
romance com a apresentação da felicidade familiar de Jacinto, com sua
mulher e filhos.
Espaço
O elemento espacial é decisivo na estruturação de A Cidade e as
Serras. O romance é nitidamente construído a partir de uma relação
opositiva, que se apresenta desde o título. De um lado, o meio urbano;
de outro, o meio rural. Mais, essa oposição básica se desdobra, ao
longo da narrativa, na forma de um jogo dialético de afirmação e
negação de cada um dos termos.
Na perspectiva do espaço, a obra divide-se em duas partes,
mediadas por uma terceira, que serve de transição entre elas. A
primeira é constituída pelos capítulos de I a VII; a segunda, pelos
capítulos de IX a XVI, sendo o capítulo VIII de transição. Observe-se o
equilíbrio quase perfeito entre as partes: sete capítulos, a primeira; oito,
a segunda; com o de transição no meio. Se considerarmos que a maior
parte deste último se identifica com o espírito da primeira parte, então,
a impressão de equilíbrio se acentua, pois teríamos a obra organizada
em dois blocos iguais de oito capítulos.
No primeiro bloco, genericamente, a cidade se apresenta investida
de valores positivos, enquanto o campo se caracteriza negativamente. A
cidade, nesse caso, representa o mundo da cultura e civilização, o
espaço privilegiado do progresso científico e tecnológico, que é visto
como responsável pela humanização do homem. O campo, ao
contrário, é o domínio da natureza e da selvageria, que degrada o
homem, reduzindo-o à condição de bestialidade.
No segundo bloco, invertem-se as relações. A cidade é carregada de
negatividade, apresentando-se como espaço de aviltamento do homem.
O progresso é visto como ilusão, uma vez que constitui privilégio de
poucos, ao preço da exploração de muitos.
O luxo da elite minoritária decorre da condição miserável da
maioria desfavorecida. Além disso, a profusão de bens materiais e
espirituais, na cidade, provoca uma espécie de anulação de seus valores
específicos, uma vez que tendem à padronização niveladora. Como diz
Jacinto:
Na cidade, pelo contrário, cada casa repete servilmente a outra
casa; todas as faces reproduzem a mesma indiferença ou inquietação;
as idéias têm todas o mesmo valor, o mesmo cunho, a mesma forma,
como as libras; e até o que há mais pessoal e íntimo, a ilusão, é em
todos idêntica, e todos a respiram, e todos se perdem nela como no
mesmo nevoeiro... A mesmice — eis o horror das cidades! (p. 126)
Nessa fala de Jacinto ecoa aquela formulação de Marx segundo a
qual, na sociedade capitalista, todos os valores se reduzem a um só, ou,
em outros termos, o valor de uso dos bens materiais e espirituais, que é
múltiplo, reduz-se a um único valor, de troca.
Por outro lado, essa redução, esse nivelamento, produz um efeito
perverso. Uma vez que o desejo de novidade, típico da civilização
moderna, nunca é saciado, pois tudo é o mesmo, a própria elite,
beneficiária do progresso, torna-se presa de um terrível mal — o tédio,
que conduz ao pessimismo e ao desencanto da vida.
Enquanto a cidade é assim criticada, o campo é visto idilicamente.
A natureza se apresenta como espaço de libertação da inteligência e
ressurreição para a vida autêntica. Trata-se de uma idealização da vida
rural, conforme a tradição clássica, desde Hesíodo (século VIII a.C.),
Virgílio (século I a.C.), até os poetas árcades do século XVIII, segundo
a qual a vida campestre é fonte de paz e felicidade. De Virgílio, por
sinal, são os versos citados no capítulo IX de A Cidade e as Serras,
ligeiramente modificados por Eça de Queirós para se adaptarem à
situação do protagonista: Fortunate Jacinthe! Hic, interava nota / Et
fontes sacros, frigus captabis opacum...10 (Afortunado Jacinto! Aqui,
em meio a terras conhecidas / E fontes sacras, colherás sombra e
frescor), que o autor traduz livremente por: Afortunado Jacinto, na
verdade! Agora, entre campos que são teus e águas que te são
sagradas, colhes enfim a sombra e a paz!
É fato que, no romance, essas relações todas não são tão
esquemáticas como as apresentamos. Na verdade, nos capítulos de I a
VIII, prevalece o elogio da cidade, cuja superioridade se celebra. No
entanto, Zé Fernandes, por exemplo, levanta sérias objeções ao
entusiasmo irrestrito de Jacinto pela urbanidade. Por outro lado, nos
5
capítulos de IX a XVI, predomina a apologia da natureza, apresentada
como superior à cidade. Mas, aqui também, o ímpeto idealizador de
Jacinto é temperado com as ponderações realistas de Zé Fernandes
sobre a natureza (— Meu filho, olha que eu não passo de um pequeno
proprietário. Para mim não se trata de saber se a terra é linda, mas se a
terra é boa.), ou com a revelação da existência de miséria entre os
camponeses.
Outra consideração relevante sobre o espaço, nessa obra, diz
respeito à moradia do protagonista em Paris, o “202”. O prodigioso
palacete apresenta-se como um microcosmo da civilização urbana.
Todo seu luxo e conforto, toda parafernália mecânica, toda erudição
acumulada em sua biblioteca de trinta mil volumes impressionam, à
primeira vista, pela magnificência. Uma observação mais detida,
contudo, impõe outra imagem — de ineficiência, inutilidade e
opressão. As panes mecânicas e elétricas transtornam a vida cotidiana;
os livros não se abrem; a casa tem uma atmosfera pesada, como de
estufa, em que Jacinto definha solitário. No último capítulo, quando Zé
Fernandes visita Paris pela derradeira vez, o “202” despovoado
cristaliza-se como imagem de um museu das ilusões equivocadas de
uma época de equívocos:
E então, passeando através das salas, realmente me pareceu que
percorria um museu de antigüidades; e que mais tarde outros
homens, com uma compreensão mais pura e exata da vida e da
felicidade, percorreriam, como eu, longas salas, atulhadas com os
instrumentos da super-civilização, e, como eu, encolheriam
desdenhosamente os ombros ante a grande ilusão que findara, agora
para sempre inútil, arrumada como um lixo histórico, guardado
debaixo da lona. (pp. 187-188)
Estilo
Na perspectiva da escola literária, A Cidade e as Serras mescla
tendências estilísticas comuns na literatura da segunda metade do
século XIX: Realismo, Naturalismo e Impressionismo.
Do Realismo, o romance empresta, principalmente, o espírito
crítico, com que Eça de Queirós castiga o francesismo da elite rural
portuguesa de seu tempo. Esta, segundo se depreende da leitura atenta
da obra, seduzida pelo estilo de vida diletante parisiense, seria
responsável pelo abandono em que se encontravam as propriedades
agrárias.
Do Naturalismo, A Cidade e as Serras aproveita o gênero do
romance de tese, inventado por essa tendência, para defender a
superioridade da vida rural sobre a urbana. Outras características desse
estilo, freqüentes na obra, apresentam-se no rebaixamento de
personagens à condição de animalidade (zoomorfismo) e na exibição de
elementos sórdidos ou desagradáveis (estética do feio). Observem-se as
expressões negritadas, no exemploselecionado, em que o narrador Zé
Fernandes reproduz o delírio que sofreu, quando se embriagou por ter
sido abandonado pela amante.
Era ela! Era a Madame Colombe, que esfuziara da chama da vela,
e saltara sobre o meu leito, e desabotoara o meu colete, e arrombara
as minhas costelas, e toda ela, com as saias sujas, mergulhara dentro
do meu peito, e abocara o meu coração, e chupava a sorvos lentos,
como na Rua do Hélder, o sangue do meu coração! Então, certo da
morte, ganindo pela tia Vicência, pendi do leito para mergulhar na
minha sepultura, que, através da névoa fina, eu distinguia sobre o
tapete — redondinha, vidrada, de porcelana e com asa. E, sobre a
minha sepultura, que tão irreverentemente se assemelhava ao meu
vaso, vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois,
num esforço ultra-humano, com um rugido, sentindo que, não somente
toda a entranha, mas a alma se esvaziava toda, vomitei Madame
Colombe! (p. 61)
A técnica impressionista manifesta-se especialmente nas descrições
da natureza campestre, em que a captação dos fatos exteriores pelas
sensações é apresentada conforme a percepção imediata deles, sem
intervenção de análise racional. Observe-se, no texto selecionado como
exemplo, o emprego dos verbos rolar, desabar, subir e embeber,
destacados em negrito. No primeiro caso, o narrador, que se encontra
num trem em movimento, em vez de dizer que as rodas deste rolavam
sobre os trilhos, transmite ao leitor a sensação pessoal imediata de estar
ele a rolar; no segundo, o rápido deslocamento do olhar do narrador, de
alto a baixo, cria a impressão de que os penhascos desabam; no
terceiro, ocorre um movimento inverso, quando o olhar percorre
velozmente o terreno de topografia ascendente, as oliveiras plantadas
nele transmitem a sensação fugaz de estarem a subir pela encosta.
Rolávamos na vertente de uma serra, sobre penhascos que
desabavam até largos socalcos cultivados de vinhedo. Embaixo, numa
esplanada, branquejava uma casa nobre, de opulento repouso, com a
capelinha muito caiada entre um laranjal maduro. Pelo rio, onde a
água turva e tarda nem se quebrava contra as rochas, descia, com a
vela cheia, um barco lento carregado de pipas. Para além, outros
socalcos, de um verde pálido de resedá, com oliveiras apoucadas pela
amplidão dos montes, subiam até outras penedias que se embebiam,
todas brancas e assoalhadas, na fina abundância do azul. (p. 101)
Do ponto de vista do estilo pessoal, observam-se nesse último
romance de Eça de Queirós as mesmas características que sempre o
distinguiram como prosador. Dentre elas, destacam-se a ironia, que
percorre cada página da narrativa, o humor, o grande talento na
composição de caricaturas, o uso expressivo do adjetivo e do advérbio.
Além dessas, merecem menção especial a paródia e o senso de
contraste.
A paródia consiste na referência irônica a obras consagradas,
literárias ou de outra espécie, de modo a estabelecer uma relação de
intertextualidade, cujo efeito de sentido é, geralmente, jocoso. Entre as
mais relevantes para A Cidade e as Serras estão o Eclesiastes bíblico, as
obras do filósofo pessimista Schopenhauer, D. Quixote, de Cervantes,
as Bucólicas e as Geórgicas, de Virgílio.
O senso de contraste, que é o princípio estruturador do romance,
ocorre em vários níveis: na macroestrutura do romance (contraposição
entre cidade e campo; cultura e natureza), na representação das relações
socioeconômicas (contradição entre capital e trabalho, riqueza e
miséria), na caracterização psicológica das personagens (pessimismo e
otimismo de Jacinto; idealismo de Jacinto e realismo de Zé Fernandes;
frivolidade da Joana — Madame de Oriol — parisiense, amante infiel,
versus autenticidade da Joana serrana, esposa e mãe dedicada, etc.) e no
plano da composição lingüística (articulação de expressões finas e
delicadas com observações grosseiras).
EXERCÍCIOS
01. Justifique o apelido de Príncipe da Grã-Ventura atribuído pelos
amigos ao protagonista de A Cidade e as Serras.
02. Explique a ambigüidade do emprego do apelido referido na questão
anterior, pelo narrador Zé Fernandes, na situação de tédio,
desencanto e pessimismo de Jacinto.
03. Descreva sumariamente a estrutura bipartida de A Cidade e as
Serras.
04. Que tipo de relação se estabelece entre as duas partes da narrativa
do romance em questão? Explique por quê.
05. Identifique o foco narrativo de A Cidade e as Serras, explicando as
conseqüências dessa escolha para a narrativa e caracterização de
personagens.
06. Como se classificam as personagens de A Cidade e as Serras, do
ponto de vista de suas caracterizações?
07. Por que se pode afirmar que A Cidade e as Serras é um romance de
espaço?
08. Por que o romance A Cidade e as Serras pode ser visto como uma
alegoria?
09. Do ponto de vista da escola literária, como classificar A Cidade e as
Serras?
10. Cite algumas características do estilo pessoal de Eça de Queirós,
presentes em A Cidade e as Serras.
11. Justifique a identificação do texto transcrito a seguir com a corrente
literária do Naturalismo.
É uma bela moça, mas uma bruta... Não há ali mais poesia, nem
mais sensibilidade, nem mesmo mais beleza do que numa linda
vaca turina. Merece o seu nome de Ana Vaqueira. Trabalha bem,
digere bem, concebe bem. Para isso a fez a natureza, assim sã e rija;
e ela cumpre. O marido todavia não parece contente, porque a
desanca. Também é um belo bruto... Não, meu filho, a serra é
maravilhosa e muito grato lhe estou... Mas temos aqui a fêmea em
toda a sua animalidade e o macho em todo o seu egoísmo... (p. 124)
12. Leia o texto transcrito a seguir e identifique a corrente estilística a
que se filia. Justifique sua resposta.
Numa dessas manhãs — justamente na véspera do meu regresso a
Guiães, — o tempo, que andara pela serra tão alegre, num
inalterado riso de luz rutilante, todo vestido de azul e ouro fazendo
poeira pelos caminhos, e alegrando toda a natureza, desde os
6
pássaros até os regatos, subitamente, com uma daquelas mudanças
que tornam o seu temperamento tão semelhante ao do homem,
apareceu triste, carrancudo, todo embrulhado no seu manto
cinzento, com uma tristeza tão pesada e contagiosa que toda a serra
entristeceu. E não houve mais pássaro que cantasse, e os arroios
fugiram para debaixo das ervas, com um lento murmúrio de choro.
sujeito, que se apreende o discurso particular. Assim, o discurso emerge
da cultura humana. Apreendendo o discurso, esse trabalho contempla
uma cenografia que se configura na interação entre discurso, sociedade,
cognição e cultura. Assim, neste trabalho, busco confirmar a existência
de marcos cognitivos culturais que compõem o homem nordestino.
Tenho por objetivo, então, descrever a cultura do nordestino, a partir da
obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos e, para que eu possa detectá-la,
observo como o autor se plasmou nas personagens, representando o seu
povo.
O personagem Fabiano de Graciliano Ramos (1892 – 1953) em
Vidas Secas parece responder às indagações sobre o limiar entre ser
homem e ser animal. É, em termos de comparação com o homem
moderno que vive cotidianamente com a ciência, um “primitivo”, não
pela natureza física, porque não se parece mais com o homem préhistórico.
Assim como os desassistidos das periferias ou aqueles que vivem
distantes em isolamentos brasileiros, em regiões inóspitas, impedidas
de civilização, Fabiano e sua família usavam linguagem rudimentar e a
escrita não foi desenvolvida. Têm uma forma própria de se comunicar.
E Fabiano sabia de suas carências e daquilo que sua família não tinha
acesso: ciência, não a tecnologia e bens do mundo moderno, mas a
possibilidade de exercer a liberdade por estar em contato com a
linguagem/comunicação. É a partir dela que o fenômeno ocorre. E a
ciência da personagem central limita-se à caatinga, à caça de preás, ao
êxodo constante. O que lhes resta é lutar pela vida, vigiados pela morte,
em espreita à parte da chamada civilização.
Apesar de parecer homem da caverna, ele é produto do antigo
esquema romano de “dê-lhe pão e circo”. Como muitos brasileiros,
tiram-lhe a educação, é mantido na escravidão do espírito e mesmo na
escravidão física. Foi impedido do processo evolutivo. Foi
interrompido de ser, da individualidade. A ideologia do antigo império
romano é a mesma que prevalece não só nos “impérios” e ditaduras
atuais, mas também no populismo político, dono da indústria da
miséria. Aliás, miséria que poderia mudar de paisagem, apenas isso: às
margens do Rio Amazonas, no Pantanal mato-grossense, nos morros
cariocas ou nas favelas e palafitas pelo Brasil afora. Têm-se, então,
Vidas Secas como romance atual. Realidade de ontem refletida no hoje.
O percurso gerativo do título, antecipa o contexto em que está
inserida a ação. Vidas Secas pode ser interpretada como uma antítese
entre vida e morte, a morte que rodeia Fabiano e sua família durante
todo o percurso narrativo, e que, de certa forma, também acompanha
todo nordestino, que se vê diante de uma situação de abandono por
parte das instituições governamentais. A seca, na obra de Graciliano é
cíclica, assim como as secas que castigam o nordeste brasileiro, a cada
nova estiagem, uma nova situação de constatação dessa situação.
A seca também, paradoxalmente simboliza a ausência de vida, ou
pelo menos a incapacidade de gerar vida, em algumas culturas e até na
Bíblia, chamavase de seca a mulher que não podia gerar filhos, por
extensão, em Vidas Secas, podemos fazer a mesma leitura em relação à
terra, seca porque não produz, e não produzindo deixa de gerar vida,
levando o homem desse contexto a ter que conviver seca após seca,
com essa proximidade entre vida e morte.
Pelas contribuições recebidas das Ciências da Cognição, sabemos
que o homem, no seu contato com as coisas e os acontecimentos do
mundo, percebe-os como realidade, na medida em que os focaliza sob
um determinado ponto de vista, representando-o mentalmente. Assim,
ele constrói seus conhecimentos que são armazenados na memória a
longo prazo; estes são tantos sociais, correspondentes ao marco das
cognições sociais, quanto individuais, decorrentes de experiências
pessoais.
Nesse sentido, entendo que o processo de escutar e falar implica
não só a identificação e a reprodução de processos lingüísticos e
sociais, mas também de processos cognitivos para se construir, com
contemporaneidade, a representação cognitiva das interações
comunicativas. Baudet e Denhière (1992) tratam a estratégia de
inferência para caracterizar as representações ocorrentes e as
representações e as representações-tipo.
As correntes são transitórias para explicar os comportamentos
observáveis dos indivíduos, ou seja, é o que se produz na mente de uma
pessoa quando ouve alguém falar, representando mentalmente sua
pronúncia. As representações-tipo são concebidas como estados
mentais, isto é, estruturas de memória persistentes que são ativadas
pelos indivíduos, atribuindo a elas existência, pois são elas que são
ativadas pelos indivíduos, atribuindo a elas existência, pois são elas que
propiciam explicar a construção de representações ocorrentes; por
RESPOSTAS
1. Esse apelido justifica-se pelos dotes naturais e espirituais que os
amigos reconheciam em Jacinto: saudável, enérgico, inteligente, rico e
dotado de uma sorte extraordinária.
2. Na situação depressiva do protagonista, quando Zé Fernandes chama
Jacinto meu príncipe, o apelido pode ser entendido de duas maneiras:
dada a amizade que os une, o epíteto tem o valor de expressão afetuosa;
por outro lado, ele assume um valor irônico, uma vez que o príncipe da
grã-ventura, na verdade, padecia grande infelicidade
3. O romance se estrutura em duas partes iguais em extensão e
contrapostas quanto ao sentido. A primeira, constituída dos oito
primeiros capítulos, mostra o protagonista identificado com a
civilização urbana e infeliz; a segunda, que ocupa os oito capítulos
restantes, apresenta Jacinto identificado com a natureza e feliz.
4. Entre as duas partes de A Cidade e as Serras, estabelece-se uma
relação de antítese, uma vez que a segunda se contrapõe à primeira de
forma opositiva.
5. Eça de Queirós valeu-se do foco narrativo em primeira pessoa, com
narrador-testemunha, isto é, o narrador participa dos acontecimentos
relatados por ele, não como protagonista, mas como observador
privilegiado. Como tal, seu relato limita-se àquilo que presencia, não
sendo capaz de conhecer, da vida interior das personagens, mais do que
elas dão a saber. As opiniões do narrador, a respeito de fatos e pessoas,
são marcadas por sua subjetividade.
6. Geralmente, as personagens dessa obra são planas, típicas e
caricatas, não apresentam densidade psicológica, limitando-se a
representar esquematicamente generalizações de tipos humanos ou
sociais. Mesmo o protagonista, embora mais desenvolvido em sua
constituição moral, padece de esquematismo em sua caracterização. A
única personagem mais complexa é Zé Fernandes, uma vez que, sendo
o próprio narrador, está em condição de oferecer um panorama mais
rico de sua intimidade.
7. Porque o elemento espacial é decisivo na estruturação desse
romance, o que se pode observar desde o título da obra.
8. A Cidade e as Serras pode ser visto como uma alegoria na medida
em que se trata de uma narrativa metafórica de significado simbólico.
9. A Cidade e as Serras é um romance realista, que mescla as
tendências estilísticas do Realismo propriamente dito, do
Impressionismo e do Naturalismo.
10. As principais características do estilo queirosiano, presentes em A
Cidade e as Serras, são a ironia, o humor, o caricaturismo, o uso
expressivo de certas categorias gramaticais, como os adjetivos e
advérbios, a paródia, a intertextualidade e o senso de contraste.
11. A característica mais notável do Naturalismo, presente no texto,
consiste no zoomorfismo, isto é, no rebaixamento de seres humanos à
escala animal.
12. Trata-se da corrente estilística chamada Impressionismo, em que os
objetos exteriores são apresentados de acordo com as sensações e
emoções provocadas na subjetividade do observador. É o que ocorre no
texto em questão, quando elementos da natureza adquirem atributos
humanos (prosopopéia) na visão do narrador.

Leitura De Vidas Secas
REPRESENTAÇÕES MENTAIS-GUIAS COMO CATEGORIAS DE
ANÁLISE
Valdemar Gomes do Nascimento
É no exercício da linguagem/língua que os sentidos se libertam de
modelos constantes. Também é no exercício que marcas particulares
constituídas de variações e variedades de grupos, regiões geográficas,
enfim, da diversidade cultural de um país, quando assumidas por um
7
exemplo, os falantes nativos e os aprendizes do Português brasileiro
ativam suas representações sonoras-tipo. Os estudos sobre cultura
(vertente sociocognitivista) apontam para três eixos: discurso,
sociedade e cognição. Essas categorias mantêm entre si estreita relação.
Sociedade é um conjunto de grupos sociais que se definem por terem as
mesmas cognições sociais, as quais foram construídas pelo discurso.
Cada grupo social é uma reunião de pessoas que têm o mesmo ponto de
vista, ou seja, repetemse para representarem o que existe no mundo,
olham sob o mesmo foco. Sendo assim, o conceito de grupo não é
material. Por isso, esta pesquisa atenta para a polifonia- as vozes que
eclodem dentro de Fabiano, livres - em conflito com a dialética social.
Para uma leitura mais atenta, o texto seria ingênuo, se focasse
apenas o social. As vozes deste ethos - o intertexto - são marcos de
cognição social que se impõem sobre esse homem e sobre os quais ele
se equilibra para vencer obstáculos ou superá-los. A dialética entre o
individual e o social, entre o saber anterior e a atualidade, quando se
resolvem no grupo, é a cultura. Nesse aspecto, então, cultura é plural
(AZEVEDO, 2006). Nessa perspectiva, os marcos/representações
ficam, assim, descritos:
um defunto. Aí a cólera desapareceu e Fabiano teve pena. Impossível
abandonar o anjinho aos bichos do mato. Entregou a espingarda a
sinhá Vitória, pôs o filho no cangote, levantou-se, agarrou os
bracinhos que lhe caíam sobre o peito, moles, finos como cambitos.
Sinhá Vitória aprovou esse arranjo, lançou de novo a interjeição
gutural, designou os juazeiros invisíveis. E a viagem prosseguiu, mais
lenta, mais arrastada, num silêncio grande.” (p.10-11)
Essa brutalidade de Fabiano faz com ele seja uma pessoa com
imensa dificuldade de demonstrar afeto, isso faz dele um homem duro,
às vezes grosso, seco como o solo que pisa, também pelo ato
ilocucionário, porque de sua expressão só saem ordens. O que podemos
observar em Fabiano, não é exatamente a ausência desses sentimentos,
mas a dificuldade de demonstrá-los e, quando isso ocorre, sente-se
envergonhado, como se tivesse feito algo errado.
Entrava dia e saía dia. As noites cobriam a terra de chofre. A
tampa anilada baixava, escurecia, quebrada apenas pelas
vermelhidões do poente. Miudinhos, perdidos no deserto queimado, os
fugitivos agarravamse, somaram as suas desgraças e seus pavores. O
coração de Fabiano bateu junto do coração de sinhá Vitória, um
abraço cansado aproximou os farrapos que os cobriam. Resistiram à
fraqueza, afastaram-se envergonhados, sem ânimo de afrontar de novo
a luz dura, receosos de perder a esperança que os alentava (p.13-14).
A seca também é a principal responsável pela desagregação dos
nordestinos, sem perspectivas, ele abandona sua terra, deixando para
trás um cenário de desolação e tristeza, em que ausência de vida passa a
ser a característica principal.
Em Vidas Secas, Graciliano Ramos faz uma série de descrições
desse estado de desolação causado pela seca, como no fragmento
abaixo:
A manhã, sem pássaros, sem folhas, progredia num silêncio de
morte. A faixa vermelha desaparecera, diluíra-se no azul que enchia o
céu. Sinhá Vitória precisava falar. Se ficasse calada, seria como um pé
de mandacaru, secando, morrendo. Queria enganar-se, gritar, dizer
que era forte, e a quentura medonha, as árvores transformadas em
garranchos, a imobilidade e o silêncio não valiam nada (p.120).
Nesta última abonação, Graciliano Ramos registra antíteses
próprias da seca: “a manhã progredia”- o que poderia ser início de vida,
vai em direção à morte: “silêncio de morte”; “a faixa vermelha
desaparecera”- o que poderia indicar um cenário de provável chuva,
agora é azul, que é a seca. O próprio azul, que poderia ser uma
construção poética, bela, é inferno e sofrimento; Sinhá Vitória queria
falar, gritar, mas calou-se.
Proposição 3 – Religião
A religiosidade é parte essencial da formação do nordestino, a sua
crença faz com que aceite determinadas situações por acreditar que as
coisas são postas por Deus e cabe somente e ele conduzir o destino
deles. A obra analisada traz à tona esse aspecto religioso nordestino;
Fabiano e sinhá Vitória encontram nas preces e nos pedidos feitos a
Deus, um conforto, se não para o corpo, pelo menos para a alma, pois
“A religião não surge da contemplação, mas do interesse do homem
pelos acontecimentos da vida e, portanto, das esperanças e dos temores
incessantes que o agitam”. (ABBAGNANO,op.cit)
Suspenso entre a vida e a morte, entre a saúde e a doença, entre
a abundância e a privação, o homem atribui a causas secretas e
desconhecidas os bens de frui e os males pelos quais é continuamente
ameaçado. Voltaire expunha da seguinte maneira esse mesmo conceito:
“É natural que um povo, assustado com o trovão, afligido pela perda de
suas colheitas, maltratado pelo povo vizinho, sentindo todos os dias a
sua fraqueza, sentindo por todos os lados um poder invisível, tenha
finalmente dito: há algum ser superior a nós que nos faz bem e mal.
Podemos perceber em Fabiano um forte traço da religião Católica,
se como um católico devoto e fervoroso, pelo menos como forma de
manter as suas crenças e tradições:
A igreja cada vez mais se enchia. Para avistar a cabeça da
mulher, Fabiano precisava estirar-se, voltar o rosto. E o colarinho
furava-lhe o pescoço. As botinas e o colarinho eram indispensáveis.
Não poderia assistir à novena calçado em alpercatas, a camisa de
algodão aberta, mostrando o peito cabeludo. Seria desrespeito. Como
tinha religião, entrava na igreja uma vez por ano. E sempre vira, desde
que se entendera , roupas de festa assim: calça e paletó engomados,
botinas de elástico, chapéu de beata, colarinho e gravata. Não se
arriscaria a prejudicar a tradição, embora sofresse com ela. Supunha
cumprir um dever, tentava aprumar-se. Mas a disposição esmorecia: o
espinhaço vergava, naturalmente, os braços mexiam-se desengonçados
(p.75-76).
Proposição 1 – o sofrimento/dor
A dor sentida por Fabiano e sua família, em Vidas Secas, advém do
sofrimento causado pelas constantes estiagens que castigam a região
nordeste. Essas estiagens são cíclicas, portanto Fabiano vive a angústia
do eterno retorno de novos períodos de escassez. Temos aí parte da
cenografia construída por Graciliano Ramos. Segundo a filosofia, dor é
uma das tonalidades fundamentais da vida emotiva, mas precisamente a
negativa, que costuma ser assumida como sinal de indicação do caráter
hostil ou desfavorável da situação em que se encontra o ser vivo
(ABBAGNANO, 2000).
Encontramos então em Fabiano um homem relutando contra sua
própria sorte, tentando fazer desses momentos de motivo razão pela
qual ele deve mover-se constantemente em busca condições favoráveis
à sua sobrevivência. “Ele, a mulher e os filhos tinham-se habituado à
camarinha escura, pareciam ratos – e a lembrança dos sofrimentos
passados esmorecera” (p.18). Na sequência revela:
A vida na fazenda se tornara difícil. Sinhá Vitória benzia-se
tremendo, manejava o rosário, mexia os beiços rezando rezas
desesperadas. Encolhido no banco de copiar, Fabiano espiava a
caatinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam, trituradas
pelos redemoinhos, e os garranchos se torciam, negros, torrados. No
céu azul, as últimas arribações tinham desaparecido. Pouco a pouco se
finavam, devorados pelo carrapato. E Fabiano resistia, pedindo a
Deus um milagre (p.117).
As passagens acima revelam o quanto a seca intensifica a dor de
Fabiano e sua família, no entanto, eles procuram alternativas para
vencer esse problema, seja pedindo ajuda divina, ou migrando para
outras terras. O sofrimento para o homem nordestino é aceito como
certa resignação, porém essa resignação se esgota quando ele percebe
que “o mundo é grande” e que pode ser que exista um lugar melhor
com menos sofrimento e dor. A mulher recorre às orações, talvez
pedindo chuva, porque, ideologicamente, aprendeu que não adianta
exigir aos homens, porque nada acontece. Assim, resta-lhe como última
saída, pedir a Deus.
Proposição 2- a seca
A seca representa, nesta obra de Graciliano Ramos, a grande
antagonista. Ela perpassa à situação climática em si, e vai além dessas
questões, é um fator de desajuste social, de injustiças sociais, mas
principalmente como elemento formador de uma cultura própria do
vaqueiro na busca pela sobrevivência, buscando adaptar-se à realidade
causada pela mesma. A secura não se dá apenas no plano físico, no que
se refere à terra, mas também observamos em Graciliano Ramos, uma
seca maior, a secura da alma, do espírito do homem, que sofrendo esses
reflexos acaba por se “animalizar”.
Fabiano é um homem que guarda marcas profundas das
transformações causadas por essas estiagens, alterna momentos de
ternura e brutalidade, como na passagem abaixo:
Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a idéia de abandonar
o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a
barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. Sinhá Vitória
estirou o beiço indicando vagamente uma direção e afirmou com
alguns sons guturais que estavam perto. Fabiano meteu a faca na
bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do
menino, que se encolhia, os joelhos encostados ao estômago, frio como
8
Essas representações mentais-guias estruturam a construção do
ethosnordestino, são essas marcas cognitivas que se manifestam no
indivíduo, impostas pela cultura em que ele está inserido. Fabiano não
tem plena consciência da situação que está vivenciando, sabe apenas
que isso faz parte da sua vida desde que se entende por gente, e que ir à
igreja pelo menos uma vez no ano é, antes de uma necessidade, uma
obrigação que o conduz e que é muito forte, porque, conforme Vansina
(1982, p.157), ”A tradição pode ser definida, de fato, como um
testemunho transmitido verbalmente de uma geração para a outra.
Quase em toda parte, a palavra tem um poder misterioso, pois palavras
criam coisas”. E, essa força de criar vem potencializada, porque é
transmitida pelos mais velhos, pessoas respeitadas pelo medo ou pelo
amor indiscutível, quase veneração, como acontece na cultura
nordestina. Fabiano transmite essa força e dialoga com ela.
Proposição 4 –destino
Em Vidas Secas, o autor retoma a discussão sobre destino. Estaria o
homem nordestino predestinado a uma vida de sofrimentos? Essa
resignação do vaqueiro Fabiano, diante desse “inevitável destino”,
constitui talvez, uma das mais fortes representações mentais-guias para
a formação do ethos nordestino. Tem-ser destino como sendo:
[...] ação necessitante que a ordem do mundo exerce sobre cada um
de seus seres singulares. Na sua formulação tradicional, esse conceito
implica: primeiro, necessidade, quase sempre desconhecida e por isso
cega, que domina cada indivíduo do mundo enquanto parte da ordem
total. Segundo, adaptação perfeita do indivíduo ao seu lugar, ao seu
papel ou à sua função no mundo, visto como que, como engrenagem da
ordem total, cada ser é feito para aquilo que faz. (ABBANANO, 2000).
Na filosofia do Romantismo, enquanto Schopenhauer considera o
destino como ação determinante, no homem e na história, da vontade
de vida na sua natureza dilacerante e dolorosa, Hegel limita o destino à
necessidade mecânica.
Fabiano às vezes revolta-se com a sua condição de pobreza e
desgraça, mas logo a aceita por achar que é assim mesmo, é o destino
que ele tem que cumprir. Está realizada, dessa forma, a violência, pois
ele não controla a própria vida.
Pois não estavam vendo que ele era de carne e osso? Tinha
obrigação de trabalhar para os outros, naturalmente, conhecia o seu
lugar. Bem. Nascera com esse destino, ninguém tinha culpa de ele
haver nascido com um destino ruim. Que fazer? Podia mudar a sorte?
Se lhe dissessem que era possível melhorar a situação, espantar-se-ia.
Tinha vindo ao mundo para amansar brabo, curar feridas com rezas,
concertar cercas de inverno a verão. Era a sina. O pai vivera assim, o
avô também. E para trás não existia família. Cortar mandacaru,
ensebar látegos – aquilo estava no sangue. Conformava-se, não
pretendia mais nada (p.97).
Em Vidas Secas, o foco narrativo predominante é discurso indireto,
porém, quase na mesma dimensão, aparece o discurso indireto livre. O
enunciador fica na postura de um não-eu, em debreagem enunciativa,
no entanto, plasma-se em Fabiano, conforme o trecho acima: “Pois não
estavam vendo que ele era de carne e osso?”
Proposição 5 – simbiose com a natureza
como as catingueiras e as baraúnas.. ele, sinhá Vitória, os meninos e a
cachorra Baleia estavam agarrados na terra (p.19).
Proposição 6 – linguagem corporal
A seca e a pobreza calam Fabiano, como se “por destino ruim” ele
não tivesse direito nem a pedaço de terra nem a uma linguagem.
Fabiano sente-se distante dos homens justamente por não dominar os
recursos lingüísticos comuns aos demais de sua espécie. Essa
deficiência faz com que ele se sinta mais próximos dos animais do que
dos homens:
[Fabiano] Vivia longe dos homens, só se dava bem com os
animais [...] Montado, confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E
falava uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o
companheiro entendia [...] Às vezes [Fabiano] utilizava nas relações
com as pessoas a mesma língua com que se dirigia aos brutos –
exclamações, onomatopéias. Na verdade falava pouco. Admirava as
palavras compridas e difíceis da gente da cidade, tentava reproduzir
algumas, em vão, mas sabia que elas eram inúteis e perigosas (p.1922) [grifo nosso].
Segundo Maingueneau(1987), a construção do ethos se dá de forma
articulada à da cena, não pretendo aqui fazer um estudo lingüístico da
linguagem de Fabiano, mas mostrar a cenografia como fator que
implicará decisivo para a formação do ethos nordestino.
Certamente aquela sabedoria inspirava respeito. Quando seu
Tomás da bolandeira passava, amarelo, sisudo, corcunda, montado
num cavalo cego, pé aqui, pé acolá, Fabiano e outros semelhantes
descobriram-se. E seu Tomás respondia tocando na beira do chapéu de
palha, virava-se para um lado e para outro, abrindo muito as pernas
calçadas em botas pretas com remendos vermelhos [...] Em horas de
maluqueira Fabiano desejava imitá-lo: dizia palavras difíceis,
truncando tudo, e convencia-se de que melhorava. Tolice. Via-se
perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar
certo [...] Seu Tomás da bolandeira falava bem, estragava os olhos nos
livros, mas não sabia mandar: podia. Esquisitice um homem remediado
ser cortês. Até o povo censurava aquelas maneiras. Mas todos
obedeciam a ele. Ah! Quem disse que não obedeciam? (p.22-23).
Fabiano e seus semelhantes reconhecem a falta de uma linguagem
mais elaborada, mas reconhecem que esta não lhes pertence, que o
domínio da mesma está intimamente relacionado com as representações
mentais de poder. Por isso, parece estranho para Fabiano e o povo
dessa localidade, que um homem como seu Tomás, apesar de
remediado culturalmente, fosse também um homem cortês. Essa é uma
marca significativa na estrutura do ethos nordestino, é um reflexo de
todo um processo de opressão política e cultural vivenciada por ele.
O isolamento vivido por Fabiano e sua família, a falta de contato
com outras formas de linguagem, acabaram distanciando-os de um dos
aspectos cruciais nas relações interpessoais: a linguagem. Essa super
valorização da expressão não chega a representar aquela representação
ideologicamente imposta aos mais humildes de que aquele que “fala
bem” é superior, exatamente como acontece ainda hoje. Essa era uma
das alegações para que a classe média brasileira não votasse no
presidente-operário- outro Paraíba- que não sabia falar. No caso de
Fabiano, a necessidade era da explosão da linguagem para a delação
das injustiças e dos próprios pensamentos.
Aqui, neste trecho, cabe ressaltar o conceito de linguagem nãoverbal com a qual Fabiano, por não ter o domínio da língua que
melhore a sua comunicação, desenvolve e resolve a sua vida. Na
realidade, todos os sons são linguagem para ele. Ricoeur (1990, p. 3)
ampara este trabalho quando registra que são “Linguagens não-verbais:
o corpo, linguagem táctil dos cegos-surdos-mudos, sinais de trânsito,
comunicação marítima, símbolos matemáticos, etc.” Assim, o meio e as
circunstâncias fizeram com que ele desenvolvesse uma forma própria
para se comunicar: também o não-verbal. Com essas expressões, ele
estava protegido, porque os violentos - os que sabiam a linguagem não o entenderiam.
A distinção entre linguagem e língua foi estabelecida por
Ferdinand de Saussure, que destaca que a língua é um produto social da
faculdade de linguagem e ao mesmo tempo um conjunto de convenções
necessárias adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa
faculdade nos indivíduos. Em Vidas Secas, Fabiano encontra, então, na
linguagem corporal e nas expressões onomatopaicas, uma maneira de
se incorporar com o seu entorno social.
Fica oportuna, então, a definição de linguagem gestual e
onomatopéia para que possamos compreender de que maneira esse
ethos se articula com a cena, como afirma MAINGUENEAU (1987).
Por linguagem gestual entende-se como a linguagem constituída por
A cultura nordestina, entendo aqui o termo nordestina mais
especificamente como sendo a da cultura do homem do sertão, está
voltado para uma profunda relação do homem com a natureza, nesse
aspecto diferenciando-se um pouco do nordestino dos grandes centros
urbanos, pois estes, mesmo oriundos do mesmo contexto cultural, por
necessidade, acabam incorporando formas de compreender e interagir
coma natureza. Para o nordestino que sofre a realidade das constantes
secas, a natureza é uma forma, não só de sobrevivência, como de
entender todo seu entorno. Mesmo castigada pela estiagem, é na
natureza queFabiano encontra alimento e abrigo para ele e sua família.
Iam-se amodorrando e foram despertados por Baleia, que trazia
nos dentes um preá. Levantaram-se todos gritando. O menino mais
velho esfregou as pálpebras, afastando pedaços de sonho. Sinhá
Vitória beijava o focinha de Baleia, e como o focinho estava
ensangüentado, lambia o sangue e tirava proveito do beijo. Aquilo era
caça bem mesquinha, mas adiaria a morte do grupo (p.14).
Era o que ele tinha. Não havia opção. Conforme Eco (1986, p.108),
em certas circunstâncias, a lógica é uma só, só tem uma saída. E a saída
de Fabiano é buscar inspiração na força bruta da natureza para
comparar-se à ela ou, em certas circunstâncias, sentir-se até superior.
Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera
como um bicho, mas criara raízes, estava plantado. Olhou os quipás,
os mandacarus e os xiquexiques. Era mais forte que tudo isso, era
9
gestos; segundo as chamadas teorias psicológicas da linguagem,
constitui a primeira fase de todas as linguagens. Wundt distinguiu duas
espécies de gestos: indicativo e imitativo. (ABBAGNANO 2000)
A teoria da onomatopéia, que Max Muller denominou de teoria do
bau-bau, afirma ser a raiz lingüística de imitações dos sons naturais.
Essa teoria era conhecida por Platão, que a critica observando que,
neste caso, aqueles que imitam os cantos dos galos e as vozes dos
demais animais dariam nome aos animais cuja voz imita.
Vejamos como Graciliano Ramos estrutura o ethos de Fabiano
relacionandose com seu meio através desses recursos lingüísticos
“primitivos’, porém significativos dentro do entorno em que Fabiano
está inserido.
Fabiano seguiu-a com a vista e espantou-se: uma sombra passava
pó cima do monte. Tocou o braço da mulher, apontou o céu, ficaram os
dois algum tempo agüentando a claridade do sol. Enxugaram as
lágrimas, foram agachar-se perto dos filhos , suspirando,
conservaram-se encolhidos, temendo que a nuvem se tivesse desfeito,
vencida pelo azul terrível, aquele azul que deslumbrava e endoidecia a
gente (p.13).
A postura que se encolhe frente ao medo de que a nuvem,
possibilidade de chuva, tivesse sumido no céu terrivelmente azul, ou
seja, seco. Essa possibilidade de dissipação da nuvem está representada
pelo encolhimento, forma de proteção “coçando os cotovelos” /
“Chape-chape. As alpercatas batiam no chão” . Em momento
sinestésico, barulhos-coçar e pés no chão- ajudam a desenhar a rotina
que, como o sol quente, prolonga o dia e o sofrimento.
Proposição 7 – Coronelismo
Fabiano segue uma tradição de sua família, não questiona essa situação
e deseja que seus filhos sigam também o mesmo caminho.
A profissão de vaqueiro, tão valorizada por Fabiano, tem como
leitura possível, a possibilidade de dar ordem, de conduzir, de se ver
livre no espaço da caatinga. Talvez a possibilidade de mobilidade,
dentro da imobilidade de suas faltas de oportunidade. Atualizando o
texto, o fato de ser vaqueiro é sedutor até mesmo entre os jovens de
hoje, desde a indumentária até mesmo a postura viril da atividade.
O mundo é grande. Realmente para eles era bem pequeno, mas
afirmavam que era grande – marchavam, meio confiados, meio
inquietos. Olharam os meninos, que olhavam os montes distantes, onde
havia seres misteriosos. Em que estariam pensando? Zumbiu sinhá
Vitória. Fabiano estranhou a pergunta e rosnou uma objeção. Menino
é bicho miúdo, não pensa. Mas sinhá Vitória renovou a pergunta – e a
certeza abalou-se. Ela devia ter razão. Tinha sempre razão. Agora
desejava saber que iriam fazer os filhos quando crescessem.
- Vaquejar, opinou Fabiano” (p.123).
Proposição 10- a terra
O sentimento de amor à terra é uma característica marcante do povo
nordestino, apesar das adversidades encontradas provocadas pela
ausência de chuvas, que torna a vida do sertanejo uma batalha
constante pela sobrevivência. Ele mantém-se preso à terra numa relação
quase visceral. A terra é, para o sertanejo, uma extensão de seu corpo e
de sua alma.
Podemos entender então, a resistência de Fabiano para manter-se
na sua terra, reluta o quanto pode para não abandoná-la, mesmo
passando as maiores dificuldades e vivendo em condições sub-humanas
e, quando essa situação chega no seu limite máximo de suportabilidade,
ele deixa a terra em busca de novos horizontes, mas essa partida se dá
num clima de muita dor e angústia, é como se ele deixasse ali um
pouco si.
Apesar desse sentimento de amor à terra vivenciado por Fabiano e
pelo homem sertanejo de uma maneira geral, ele se vê diante de uma
dura realidade: a tristeza de saber que a terra não lhe pertence.
Ele, Sinhá Vitória, os dois filhos e a cachorra Baleia estavam
agarrados à terra [...] Entristeceu. Considerar-se plantado em terra
alheia! Engano. A sina dele era correr o mundo, andar para cima e
para baixo,à toa, como judeu errante. Um vagabundo empurrado pela
seca. Achava-se ali de passagem, era hóspede. Sim senhor, hóspede
que se demorava demais, tomava amizade à casa, ao curral, ao
chiqueiro das cabras, ao juazeiro que os tinha abrigado uma noite
(p.19).
“Considerar-se plantado em terra alheia!”. Novamente um exemplo
de debreagem enunciativa. Graciliano, em situação de não-eu, expressa
o eu. A dor do nordestino é tão forte que o enunciador, mesmo se
propondo ao discurso indireto, utiliza-se deste recurso diante da
impossibilidade de afastar-se da personagem.
Proposição 11 – migração
Em Vidas Secas, Graciliano Ramos enfoca uma questão pertinente
aohomem nordestino, que é a questão da migração. Essa temática já foi
trabalhada em outras obras da literatura brasileira. Em O Quinze, de
Raquel de Queiros, há uma referência muito forte a esse problema que
é comum para o homem nordestino, porém, enquanto em O Quinze há
uma referência clara ao espaço e ao tempo em que ocorre esse
fenômeno – a ação se passa durante a seca de 1915, e os retirantes saem
do sertão do Ceará para a capital Fortaleza, em busca de sobrevivência
– em Graciliano encontramos um espaço totalizante e atemporal,
Fabiano e sua família deslocam-se pelo sertão à procura de uma sorte
melhor, mas não existe uma definição de onde nem quando ocorre esta
ação, é como se este movimento representasse o movimento de todo
nordestino que, assim como as arribações, buscam um pouco de água e
comida para sobreviver.
E a conversa recomeçou. Agora Fabiano estava meio otimista.
Endireitou o saco de comida, examinou o rosto carnudos e as pernas
grossas da mulher. Bem. Desejou fumar. Como segurava a boca do
saco e a coronha da espingarda, não pôde realizar o desejo. Temeu
arriar, não prosseguir na caminhada. Continuou a tagarelar, agitando
a cabeça para afugentar uma nuvem que, vista de perto, escondia o
patrão, o soldado amarelo e a cachorra Baleia. Os pés calosos, duros
como cascos, metidos em alpercatas novas, caminhariam meses. Ou
não caminhariam? Sinhá Vitória achou que sim (p.122).
Proposição 12– o cavalo
O cavalo, para Fabiano, era um amigo íntimo. Diante das
dificuldades, ele se “juntava” a ele: “Montado, confundia-se com o
cavalo, grudava-se a ele. E falava uma linguagem cantada,
O coronelismo, é um dos marcos cognitivos significativos na
formação do ethos nordestino e suas representações mentais-guias, é
uma forma de aceitar a condição de que existem aqueles nasceram para
mandar e outros menos favorecidos, tanto intelectualmente, quanto
financeiramente. Representa talvez a maior forma de opressão, mas
que, por questões culturais, acaba sendo aceito e legitimado pelos
próprios indivíduos, que enxergam nestes “coronéis” a própria
personificação do poder.
O patrão atual, por exemplo, berrava sem precisão. Quase nunca
vinha à fazenda, só botava os pés nela para achar tudo ruim. O gado
aumentava, o serviço ia bem, mas o proprietário descompunha o
vaqueiro. Natural. Descompunha porque podia descompor, e Fabiano
ouvia as descomposturas com o chapéu de couro debaixo do braço,
desculpava-se e prometia emendar-se. Mentalmente jurava não
emendar nada, porque estava tudo em ordem, e o amo só queria mostrar
autoridade, gritar que era dono. Quem tinha dúvida? (p.23).
No nordeste, “autoridade” é inquestionável. Este discurso já está
sedimentado. Cabe, ao mais humilde, obedecer.
Proposição 8- conformismo
Pátria de coronéis, há toda uma formação ideológica para a
aceitação do estado de miséria pelo povo. É natural que uns nasçam
poderosos e, outros, o que realmente trabalham e são responsáveis pela
produção de bens, fiquem à margem, conformados.
Segundo o dicionário Aurélio, conformismo é a atitude de quem se
conforma com todas as situações; assim é Fabiano e por extensão, um
pouco de cada um nordestino, que, diante da inevitabilidade dos fatos,
aceita-os de forma resignada, resiste o quanto pode, o quanto a sua
resistência física e moral é capaz de suportar.
Aceita a sua condição de submissão aos seus senhores, aceita
condição de miséria em que vive, acreditando que é assim por ter que
ser assim.desta forma acontece com ele, seu pai, e também com os eu
avô, ou seja, já faz parte da própria condição do homem sertanejo.
Fabiano era uma coisa na fazenda, um traste, seria despedido
quando menos se esperasse. Ao ser contratado, recebera o cavalo de
fábrica, perneiras, gibão, guarda-peito e sapatões de couro cru, mas
ao sair largaria tudo ao vaqueiro que o substituísse (p.23).
Proposição 9 – profissão: vaqueiro
Podemos perceber, em Vidas Secas, a existência de duas categorias
sociais marcantes que formam os marcos cognitivos do povo do sertão
nordestino: o patrão, dono das terras, e o vaqueiro, aquele tem a
incumbência de cuidar das terras e dos animais. Há entre eles uma
relação de dependência e até de subserviência do segundo em relação
ao primeiro. Cabe ao vaqueiro seguir à risca as ordens do patrão para
manter o seu emprego.
E Fabiano é um desses vaqueiros que, de tanto ser explorado pelo
patrão, julga-se um escravo, apesar da pele clara e dos olhos azuis.
10
monossilábica e gutural, que o companheiro entendia” (p. 20). Segundo
Maffesoli (1985, p. 95) “[...] uma sociedade sente a necessidade de
consolidar o sentimento que constitui o fundamento do ser/estar-juntocom”. Afinal, o cavalo compõe com ele a “sua gente”.
A trajetória sobre o entendimento do que é ser brasileiro,
vivenciada em todo o Brasil por diferentes estudiosos, em diferentes
regiões, tem a mesma complexidade de traçar-se o perfil do nordestino,
porque a diversidade complexa brasileira é constituída de culturas de
sociedades que vivem no interior da sociedade nacional, como os
indígenas, a tradição agrária, agrupamentos religiosos e extratos de
populações no interior dos centros urbanos que, atualizando a situação
dos nordestinos de Vidas Secas, têm, agora, o contato com a
diversidade e, muitasvezes sem ter consciência política disso, faz da
culinária, dos Centros de Tradições Nordestinas que eclodem nas
grandes cidades, um ponto de resistência ou sobrevivência e que atenua
a saudade na medida do possível.
Neste trabalho prazeroso, em que pude conviver comigo mesmo,
“Paraíba” como Fabiano, vivenciei a profundidade do texto Vidas
Secas e deixo, conforme Lajolo (1993, p. 51), esta beleza de obra de
arte para “[...] infinita interpretabilidade da linguagem de que os textos
são constituídos”.
e) relacionam-se à visão limitada e fragmentária que as próprias
personagens têm do mundo.
03. (PUC-SP) O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau
sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos,
arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam
e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o Sul. O
casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e
aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o
gado. (…) Alguns dias antes estava sossegado, preparando látegos,
consertando cercas. De repente, um risco no céu, outros riscos,
milhares de riscos juntos, nuvens, o medonho rumor de asas a
anunciar destruição. Ele já andava meio desconfiado vendo as
fontes minguarem. E olhava com desgosto a brancura das manhãs
longas e a vermelhidão sinistra das tardes. (…)
O trecho acima é de Vidas Secas, obra de Graciliano Ramos. Dele,
é incorreto afirmar-se que:
a) prenuncia nova seca e relata a luta incessante que os animais e
o homem travam na constante defesa da sobrevivência.
b) marca-se por fatalismo exagerado, em expressão como “o
sertão ia pegar fogo”, que impede a manifestação poética da
linguagem.
c) atinge um estado de poesia, ao pintar com imagens visuais, em
jogo forte de cores, o quadro da penúria da seca.
d) explora a gradação, como recurso estilístico, para anunciar a
passagem das aves a caminho do Sul.
e) confirma, no deslocamento das aves, a desconfiança iminente
da tragédia, indiciada pela “brancura das manhãs longas e a
vermelhidão sinistra das tardes”.
EXERCÍCIOS DE FIXAÇÃO
01. (FUVEST) Leia o trecho para responder ao teste.
"Fizeram alto. E Fabiano depôs no chão parte da carga, olhou
o céu, as mãos em pala na testa. Arrastara-se até ali na incerteza
de que aquilo fosse realmente mudança. Retardara-se e
repreendera os meninos, que se adiantavam, aconselhara-os a
poupar forças. A verdade é que não queria afastar-se da fazenda. A
viagem parecia-lhe sem jeito, nem acreditava nela. Preparara-a
lentamente, adiara-a, tornara a prepará-la, e só se resolvera a
partir quando estava definitivamente perdido. Podia continuar a
viver num cemitério? Nada o prendia àquela terra dura, acharia
um lugar menos seco para enterrar-se. Era o que Fabiano dizia,
pensando em coisas alheias: o chiqueiro e o curral, que
precisavam conserto, o cavalo de fábrica, bom companheiro, a
égua alazã, as catingueiras, as panelas de losna, as pedras da
cozinha, a cama de varas. E os pés dele esmoreciam, as alpercatas
calavam-se na escuridão. Seria necessário largar tudo? As
alpercatas chiavam de novo no caminho coberto de seixos." (Vidas
secas, Graciliano Ramos)
04. (UFLA) Sobre a obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, todas as
alternativas estão corretas, EXCETO:
a) O romance focaliza uma família de retirantes, que vive numa
espécie de mudez introspectiva, em precárias condições físicas
e num degradante estado de condição humana.
b) O relato dos fatos e a análise psicológica dos personagens
articulam-se com grande coesão ao longo da obra, colocando o
narrador como decifrador dos comportamentos animalescos dos
personagens.
c) O ambiente seco e retorcido da caatinga é como um
personagem presente em todos os momentos, agindo de forma
contínua sobre os seres vivos.
d) A narrativa faz-se em capítulos curtos, quase totalmente
independentes e sem ligação cronológica e o narrador é
incisivo, direto, coerente com a realidade que fixou.
e) O narrador preocupa-se exclusivamente com a tragédia natural
(a seca) e a descrição do espaço não é minuciosa; pelo
contrário, revela o espírito de síntese do autor.
Assinale a alternativa incorreta:
a) O trecho pode ser compreendido como suspensão temporária da
dinâmica narrativa, apresentando uma cena "congelada", que
permite focalizar a dimensão psicológica da personagem.
b) Pertencendo ao último capítulo da obra, o trecho faz referência
tanto às conquistas recentes de Fabiano, quanto à desilusão do
personagem ao perceber que todo seu esforço fora em vão.
c) A resistência de Fabiano em abandonar a fazenda deve-se à sua
incapacidade de articular logicamente o pensamento e,
portanto, de perceber a gradual mas inevitável chegada da seca.
d) A expressão "coisas alheias" reforça a crítica, presente em toda
obra, à marginalização social por meio da exclusão econômica.
e) As referências a "enterro" e "cemitério" radicalizam a
caracterização das "vidas secas" do sertão nordestino, uma vez
que limitam as perspectivas do sertanejo pobre à luta contra a
morte.
05. (UEL) O texto abaixo apresenta uma passagem do romance Vidas
secas, de Graciliano Ramos, em que Fabiano é focalizado em um
momento de preocupação com sua situação econômica. Escrito em
1938, esta obra insere-se num momento em que a literatura
brasileira centrava seus temas em questões de natureza social.
"Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a
cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa.
Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à
gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes.
Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os
recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco."
(In: RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 55. ed.
Rio de Janeiro: Record, 1991.)
02. (FUVEST) Um escritor classificou Vidas secas como “romance
desmontável”, tendo em vista sua composição descontínua, feita de
episódios relativamente independentes e seqüências parcialmente
truncadas.
Essas características da composição do livro:
a) constituem um traço de estilo típico dos romances de
Graciliano Ramos e do Regionalismo nordestino.
b) indicam que ele pertence à fase inicial de Graciliano Ramos,
quando este ainda seguia os ditames do primeiro momento do
Modernismo.
c) diminuem o seu alcance expressivo, na medida em que
dificultam uma visão adequada da realidade sertaneja.
d) revelam, nele, a influência da prosa seca e lacônica de Euclides
da Cunha, em Os sertões.
Sobre este trecho do romance, somente está INCORRETO o que se
afirma na alternativa:
a) Este trecho resume a situação de permanente pobreza de
Fabiano e revela-se como uma crítica à economia brasileira e às
relações de trabalho que vigoravam no sertão nordestino no
momento em que a obra foi criada. Isso pode ser confirmado
pelas orações: "... Consumidos os legumes, roídas as espigas de
milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o
produto das sortes...."
11
b) A oração: "Se pudesse economizar durante alguns meses,
levantaria a cabeça" tanto pode ser o discurso do narrador que
revela o pensamento de Fabiano, quanto pode ser o próprio
pensamento dessa personagem. Esse modo de narrar também
ocorre com as demais personagens do romance.
c) A oração: "... Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando
espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em
seco" indica a voz do narrador em terceira pessoa, ao mostrar o
estado de agonia em que se encontra a personagem.
d) A expressão “Forjara planos”, típica da linguagem culta, é
seguida no texto por um provérbio popular: “quem é do chão
não se trepa”. Essa mudança de registro lingüístico é reveladora
do método narrativo de Vidas secas, que subordina a voz das
classes populares à da elite.
e) O texto tem início com a esperança de Fabiano de mudanças
em sua situação econômica; a seguir, passa a focalizar a
realidade de pobreza em que a personagem se encontra, e
finaliza com sua revolta e angústia diante da condição de
empregado, sempre em dívida com o patrão.
d) Chico Bento, antes da seca, não era vagabundo, nem bandido;
era um trabalhador rural. e) narra a história de um burguês,
Paulo Honório, que passara da condição de caixeiro-viajante e
guia de cego à de rico proprietário de uma fazenda. Para atingir
seus objetivos, o protagonista elimina todos os empecilhos que
se colocam à sua frente, inclusive pessoas.
09. (ACAFE / SC) Analise as afirmações abaixo.
I. "Será um romance? É antes uma série de quadros, de gravuras
em madeira, talhadas com precisão e firmeza."
II. "Construído como uma longa narrativa oral, o romance tem
como personagem-narrador Riobaldo, um velho fazendeiro, que
já foi homem de letras e de armas e que vive às margens do rio
São Francisco."
III. "Com a análise psicológica do universo mental das
personagens, que expõe por meio do discurso indireto livre, o
narrador nos vai decifrando a sua humanidade embotada,
confundida com a paisagem áspera do sertão, neste romance
que transcende o regionalismo e seu contexto específico."
IV. "Emprestando dinheiro a juros, negociando de arma engatilhada
no sertão, passando fome e sede, [o protagonista] consegue
acumular algum capital e com ele volta para a sua terra, no
município de Viçosa, Alagoas, onde ficava a propriedade."
V. "O tema do poema é o itinerário do retirante nordestino, que
parte do sertão paraibano em direção ao litoral, em busca de
sobrevivência, devido à seca e às precárias, senão
insustentáveis, condições de vida da maioria da população.
06. (ACAFE / SC) A vida na fazenda se tornara difícil. Sinha Vitória
benzia-se tremendo, manejava o rosário, mexia os beiços rezando
rezas desesperadas. Encolhido no banco do copiar, Fabiano
espiava a catinga amarela, onde as folhas secas se pulverizavam,
trituradas pelos redemoinhos, e os garranchos se torciam, negros,
torrados. No céu azul, as últimas arribações tinham desaparecido.
Pouco a pouco os bichos se finavam, devorados pelo carrapato. E
Fabiano resistia, pedindo a Deus um milagre.
Todas as afirmações que se referem à obra Vidas Secas, de
Graciliano Ramos, estão relacionadas em:
a) I - III
b) II - IV - V
c) III - V
d) II - III - IV
e) I - II - IV
De acordo com o fragmento acima, é incorreto o que se afirma em:
a) Tanto Sinha Vitória quanto Fabiano tinham fé na providência
divina.
b) O enfoque é narrativo.
c) O que se relata ao longo do parágrafo tem o objetivo de
confirmar a afirmação da primeira frase.
d) Há evidências de que Sinha Vitória e Fabiano estão
fragilizados, pois ela "benzia-se tremendo" e ele estava
"encolhido na banco do copiar".
e) O tema predominante é a indagação metafísica sobre a
existência (inexistência) de Deus.
10. (UNIARAXÁ) Leia o fragmento abaixo transcrito da obra Vidas
Secas e responda a questão a seguir.
Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés
duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra.
Montado confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava
uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o
companheiro entendia. A pé, não se agüentava bem. Pendia para
um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes,
utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se
dirigia aos brutos – exclamações, onomatopéias. Na verdade
falava pouco. Admira as palavras compridas e difíceis da gente da
cidade, tentava reproduzir algumas em vão, mas sabia que elas
eram inúteis e talvez perigosas. (Graciliano Ramos)
07. (ACAFE / SC) Baleia queria dormir. Acordaria feliz num mundo
cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano
enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num
pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio
de preás, gordos, enormes. (Graciliano Ramos)
Sobre o texto acima, é correto afirmar que:
a) há marcas próprias do chamado discurso direto através do qual
são reproduzidas as falas das personagens.
b) o narrador é observador, pois conta a história de fora dela, na
terceira pessoa, sem participar das ações, como quem observou
objetivamente os acontecimentos.
c) quem conta a história é uma das personagens, que tem uma
relação íntima com as outras personagens, e, por isso, a maneira
de contar é fortemente marcada por características subjetivas,
emocionais.
d) evidencia-se um conflito entre a protagonista Baleia e o
antagonista Fabiano, pois este impede que a cadela possa caçar
os preás.
e) o narrador é onisciente, isto é, geralmente ele narra a história na
terceira pessoa, sabe tudo sobre o enredo e sobre as
personagens, inclusive sobre suas emoções, pensamentos mais
íntimos, às vezes, até dimensões inconscientes.
O texto, no seu conjunto, enfatiza:
a) A pobreza física do personagem.
b) A falta de escolaridade do personagem.
c) A miséria moral do personagem.
d) A identificação do personagem com o mundo animal.
e) nda
11. (UNIARAXÁ) Leia o fragmento abaixo transcrito da obra Vidas
Secas e responda a questão a seguir.
Vivia longe dos homens, só se dava bem com animais. Os seus pés
duros quebravam espinhos e não sentiam a quentura da terra.
Montado confundia-se com o cavalo, grudava-se a ele. E falava
uma linguagem cantada, monossilábica e gutural, que o
companheiro entendia. A pé, não se agüentava bem. Pendia para
um lado, para o outro lado, cambaio, torto e feio. Às vezes,
utilizava nas relações com as pessoas a mesma língua com que se
dirigia aos brutos – exclamações, onomatopéias. Na verdade
falava pouco. Admira as palavras compridas e difíceis da gente da
cidade, tentava reproduzir algumas em vão, mas sabia que elas
eram inúteis e talvez perigosas. (Graciliano Ramos)
08. (ACAFE / SC) Sobre a obra Vidas secas, é correto afirmar que:
a) a preocupação com a fidedignidade histórica e com o tom épico
atenua o sentimento dramático da vida, habitualmente presente
nos poemas do autor.
b) apresenta temática indianista, a exemplo do que fizera
Gonçalves Dias em Os timbiras eCanção do tamoio.
c) as personagens humanas, em razão da seca, da fome, da miséria
e das injustiças sociais, animalizam-se; em contrapartida, os
bichos humanizam-se.
No texto, a referência aos pés:
a) Constitui um jogo de contrastes entre o mundo cultural e o
mundo físico do personagem.
12
b) Acentua a rudeza do personagem, em nível físico.
c) Justifica-se como preparação para o fato de que o personagem
não estava preparado para caminhada.
d) Serve para demonstrar a capacidade de pensar do personagem.
e) nda
Baleia. Os pés calosos, duros como cascos, metidos em alpercatas
novas, caminhariam meses. Ou não caminhariam? Sinha Vitória
achou que sim. [...] Por que haveriam de ser sempre desgraçados,
fugindo no mato como bichos?
Com certeza existiam no mundo coisas extraordinárias. Podiam
viver escondidos, como bichos?
Fabiano respondeu que não podiam.
–– O mundo é grande.
Realmente para eles era bem pequeno, mas afirmavam que era
grande –– e marchavam, meio confiados, meio inquietos. Olharam
os meninos que olhavam os montes distantes, onde havia seres
misteriosos. Em que estariam pensando? zumbiu sinha Vitória.
Fabiano estranhou a pergunta e rosnou uma objeção. Menino é
bicho miúdo, não pensa. Mas sinha Vitória renovou a pergunta ––
e a certeza do marido abalou-se. Ela devia ter razão. Tinha sempre
razão. Agora desejava saber que iriam fazer os filhos quando
crescessem.
–– Vaquejar, opinou Fabiano.
Sinha Vitória, com uma careta enjoada, balançou a cabeça
negativamente, arriscando-se a derrubar o baú de folha. Nossa
Senhora os livrasse de semelhante desgraça. Vaquejar, que idéia!
Chegariam a uma terra distante, esqueceriam a catinga onde havia
montes baixos, cascalhos, rios secos, espinhos, urubus, bichos
morrendo, gente morrendo. Não voltariam nunca mais, resistiriam
à saudade que ataca os sertanejos na mata. Então eles eram bois
para morrer tristes por falta de espinhos? Fixar-se-iam muito
longe, adotariam costumes diferentes.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 71. ed. Rio de Janeiro: Record,
1996. p. 120-122.
12. (IELUSC) Texto para a próxima questão.
Tinham deixado os caminhos, cheios de espinho e seixos, fazia
horas que pisavam a margem do rio, a lama seca e rachada que
escaldava os pés. [...]
[Sinhá Vitória] distraiu-se olhando os xiquexiques e os
mandacarus que avultavam na campina. Um mormaço levanta-se
da terra queimada.
Estremeceu, lembrando-se da seca, o rosto moreno desbotou, os
olhos pretos arregalaram-se... (Graciliano Ramos)
O texto é um trecho da obra de Vidas Secas (1938), que sobre a
qual é INCORRETO afirmar que:
a) Apesar de as personagens da história viverem no sertão
nordestino, boa parte da trama se passa em São Paulo, que é o
destino da maioria dos retirantes.
b) Focaliza uma família de retirantes que vive numa espécie de
mudez introspectiva, em precárias condições físicas e num
estado degradante de condição humana.
c) O autor descreve a realidade a partir da visão amarga do
sertanejo, associando a psicologia das personagens com as
condições naturais e sociais em que estão inseridas.
d) É um “romance desmontável”, tendo em vista sua composição
descontínua, feita de episódios relativamente independentes e
seqüências parcialmente truncadas.
e) Algumas das personagens são: Sinhá Vitória, Fabiano, Baleia e
o Soldado Amarelo.
A análise do fragmento, contextualizado no romance Vidas Secas,
permite afirmar:
(01) Fabiano considera necessária a imersão das crianças no mundo
convencional para apreendê-lo e, assim, libertá-las das condições
socioculturais vividas.
(02) Sinha Vitória não se submete às expectativas sociais
dominantes, contudo vislumbra um retorno às trivialidades da sua
vida social da infância.
(04) O conjunto de personagens da trama simboliza,
alegoricamente, os heróicos seres que sonham em reformar a
sociedade agrária brasileira à custa da luta armada.
(08) Fabiano e sinha Vitória configuram um tipo de ser que vive
reiterando ações, sem nada acrescentar a seu processo de
crescimento humano.
(16) Fabiano constitui uma metáfora de ser humano derrotado, que
sofre as conseqüências das estruturas vigentes e não consegue
impor seus pontos de vista.
(32) A narrativa como um todo retrata um espaço em que a
imutabilidade social e o abismo entre povo e governo são
incontestáveis.
(64) A interação entre humanos e inumanos na narrativa explica a
descontinuidade das ações narradas.
13. (FAPA) Leia o texto abaixo, de Vidas Secas, de Graciliano Ramos:
“Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas
verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam
cansados e faminhos. Ordinariamente andavam pouco, mas como
haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem
progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma
sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos
galhos da catinga rala.”
Considere as afirmações abaixo a respeito do romance Vidas Secas:
I. O fragmento - parágrafo inicial do romance – apresenta o
cenário da seca, que obriga uma família pobre do sertão a vagar
triste e resignadamente em busca de um lugar onde possa
sobreviver.
II. Como um típico Romance de 30, Vidas Secas aborda a
estrutura econômica, social e histórica do Brasil daquela
década, fazendo com que aspectos documentais estejam
presentes na tessitura narrativa.
III. O mundo injusto e opressivo retratado em Vidas Secas é
decorrente do latifúndio nordestino, responsável pela
desigualdade social.
Quais são corretas?
a) Apenas I
b) Apenas I e II
d) Apenas II e III
e) I, II e III
15. (UFBA) A cachorra Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido,
o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo
róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de
moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavamlhe a comida e a bebida.
Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de
hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de
milho queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas
estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os
mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e
curta, grossa na base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de
cascavel.
Então Fabiano resolveu matá-la. [...]
Sinha Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos
assustados, que adivinhavam desgraça e não se cansavam de repetir
a mesma pergunta: — Vão bulir com a Baleia?
[...]
Ela era como uma pessoa da família: brincavam juntos os três, para
bem dizer não se diferençavam, rebolavam na areia do rio e no
estrume fofo que ia subindo, ameaçava cobrir o chiqueiro das
cabras.
c) Apenas I e III
14. (UFBA) Os meninos sumiam-se numa curva do caminho. Fabiano
adiantou-se para alcançá-los. Era preciso aproveitar a disposição
deles, deixar que andassem à vontade. Sinha Vitória acompanhou o
marido, chegou-se aos filhos. Dobrando o cotovelo da estrada,
Fabiano sentia distanciar-se um pouco dos lugares onde tinha
vivido alguns anos; o patrão, o soldado amarelo e a cachorra
Baleia esmoreceram no seu espírito.
E a conversa recomeçou. Agora Fabiano estava meio otimista.
Endireitou o saco da comida, examinou o rosto carnudo e as
pernas grossas da mulher. Bem. Desejou fumar. Como segurava a
boca do saco e a coronha da espingarda, não pôde realizar o
desejo. Temeu arriar, não prosseguir na caminhada. Continuou a
tagarelar, agitando a cabeça para afugentar uma nuvem que, vista
de perto, escondia o patrão, o soldado amarelo e a cachorra
13
Quiseram mexer na taramela e abrir a porta, mas sinha Vitória
levou-os para a cama de varas, deitou-os e esforçou-se por taparlhes os ouvidos: prendeu a cabeça do mais velho entre as coxas e
espalmou as mãos nas orelhas do segundo. Como os pequenos
resistissem, aperreou-se e tratou de subjugá-los, resmungando com
energia.
Ela também tinha o coração pesado, mas resignava-se:
naturalmente a decisão de Fabiano era necessária e justa. Pobre da
Baleia.
[...]
Na luta que travou para segurar de novo o filho rebelde, zangou-se
de verdade.
Safadinho. Atirou um cocorote ao crânio enrolado na coberta
vermelha e na saia de ramagens.
Pouco a pouco a cólera diminuiu, e sinha Vitória, embalando as
crianças, enjoou-se da cadela achacada, gargarejou muxoxos e
nomes feios. Bicho nojento, babão.
Inconveniência deixar cachorro doido solto em casa. Mas
compreendia que estava sendo severa demais, achava difícil Baleia
endoidecer e lamentava que o marido não houvesse esperado mais
um dia para ver se realmente a execução era indispensável.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 74. ed. Rio de Janeiro: Record,
1998. p. 85-86.
Aurélio de góis Monteiro e devidamente apoiado por alguns setores da
Oligarquia, pela Burguesia e pela Classe Média Urbanas – invocando
como motivo de seu recrudescimento a derrota de getúlio Vargas na
eleição de 1930 —, para assumir o poder em 3 de outubro do mesmo
ano, por meio de um Golpe de Estado.
Um mês depois do golpe, a 3 de novembro de 1930, a Junta
Provisória de Governo, por exigência das próprias forças
revolucionárias, entregou o poder central nas mãos de getúlio Vargas,
iniciando o período da República brasileira: a Era Vargas.
Todavia, a situação da crise econômica por que passava o Brasil na
década de 1920 só fez agravar-se depois de 30. A situação de atraso
pungente das instituições brasileiras acabou ultrapassando os limites de
ação do próprio Golpe Militar, dando margem a toda sorte de
reivindicações e de manifestações populares durante todo o período
Vargas. As massas trabalhadoras, instigadas pelo Partido Comunista
Brasileiro — o PCB —, realizavam manifestos, greves e se puseram em
sistemáticos confrontos contra o governo.
Dividida, a intelectualidade brasileira defendia a extensão do Golpe
como medida concreta para pôr fim ao poder oligárquico de São Paulo e
de Minas gerais e para possibilitar o surgimento de novas bases nacionais
mais favoráveis à democratização e ao desenvolvimento do país.
De um lado, a Ação Integralista Brasileira — que apostava no
autoritarismo e no nacionalismo militarista — desejava a radicalização
e a militarização total do golpe de 30; de outro lado, as chamadas
Forças Democráticas Populares— organizadas em torno da Aliança
Nacional Libertadora, do Partido Comunista e de Luís Carlos Prestes
— exigiam mudanças nas estruturas políticas e econômicas do Brasil,
tendo em mente a realização de ideais socialistas (a suspensão do
pagamento da dívida externa, a nacionalização das empresas
estrangeiras instaladas no Brasil, a reforma agrária, a defesa das
liberdades públicas e um governo soberano, popular e democrático).
Pois era exatamente deste lado esquerdo que se colocavam os
chamados autores modernistas da geração de 30, como graciliano
Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Raquel de Queirós, José Lins
do Rego, Gilberto Freyre, Jorge Amado, entre outros.
A popularidade da Aliança Nacional Libertadora crescia
vertiginosamente, agrupando operários, estudantes, a classe média
urbana, intelectuais e militares de baixa patente em torno de ideais
revolucionários. Incentivava a realização de greves, de manifestações e
de confrontos que, eufórica e indevidamente, foram interpretados como
indícios da proximidade da revolução comunista em todo país e da
tomada do poder pelo proletariado brasileiro.
Esse perigo vermelho — chamado assim pelos detratores da ação
do Partido Comunista no Brasil durante a Era Vargas — acabou
incentivando uma aliança entre o Governo, a Burguesia Urbana, a
Oligarquia e parte da Classe Média, em torno de princípios integralistas
ou fascistas, aliança que acabou resultando no Golpe de 1937e na
instauração de um Estado de exceção no Brasil — o Estado Novo.
Pois foi exatamente no ano da radicalização ditatorial da Era
Vargas (1937), que Jorge Amado publicou Capitães da Areia, narrativa
notadamente engajada nas perspectivas ideológicas do perigo
vermelho, já que denunciava de maneira panfletária — romântica e,
paradoxalmente, socialista e realista — o problema dos menores
abandonados e dos menores infratores que povoavam as ruas de
Salvador e de outras praças brasileiras, dando margem ainda às
figurações e às discussões em torno de movimentos grevistas de
trabalhadores, em torno dos conflitos e das diferenças de classes
sociais, da prostituição, do homossexualismo, da miscigenação de
etnias e culturas, das questões de identidade nacional e da participação
do negro na formação de tal identidade etc... entre outras mazelas
formadoras do tecido social brasileiro, notadamente o tecido
sociocultural baiano, evidentemente roto e desbotado, em suas
profundas contradições de ordem política, econômica e social
projetadas por uma história de desigualdades.
Conforme as palavras do próprio Jorge Amado, sua obra Capitães
da Areia e outras tomavam parte daquela: “... moderna literatura
brasileira, aquela que deu os grandes romances sociais, os estudos de
sociologia, a reabilitação do negro, os estudos históricos, (aquela
que) resulta diretamente do ciclo de revoluções iniciado em 22 e que
só (encontraria) seu término com o pleno desenvolvimento da
transformação democrático-burguesa. 22, 24, 26, 30, 35 trouxeram o
povo à tona, interessaram-no os problemas do Brasil, deram-lhe uma
ânsia de cultura da qual resultou o movimento (modernista de 30)...”
Jorge Amado in: Wilson Martins. A Literatura Brasileira. O
Modernismo. Cultrix
Sobre o fragmento, contextualizado na obra, é correto afirmar:
(01) O primeiro e o segundo parágrafos contêm argumentos que
justificam a decisão a ser tomada em relação a Baleia.
(02) Fabiano demonstra cuidados com Baleia, apesar de ser o seu
algoz.
(04) O comportamento de sinha Vitória caracteriza-a como a mãe
protetora, zelosa do bem-estar de seus filhos.
(08) O poder de decisão do chefe de família no ambiente rural fica
evidente no texto.
(16) Sinha Vitória, ao aceitar passivamente a decisão do marido no
que se refere a Baleia, demonstra ser indiferente ao animal e
preocupar-se exclusivamente com seus filhos.
(32) A decisão de matar Baleia deixa patente o temperamento
agressivo de Fabiano.
(64) A palavra “Mas”, no último parágrafo, antecede uma
explicação do conflito entre razão e emoção vivido por sinhá
Vitória.
01. C 02. E 03. B 04. E 05. D 06. E 07. E 08. C 09. A
10. D 11. B 12. A 13. E 14. 08 + 16 + 32 = 56
15. 01 + 02 + 04 + 08 + 64 = 79

Capitães Da Areia
DE JORGE AMADO
O romance Capitães da Areia, de Jorge Amado, insere-se na
vertente sociológica e, mais precisamente, na vertente da arte de
denúncia social da prosa modernista da geração de 30, aquela que
tateou cambiante em seu compromisso ideológico de esquerda, entre
um neorrealismo de feições naturalistas ou psicológicas e um certo
idealismo de feição romântica.
Nesse sentido, a narrativa Capitães da Areia aparece fortemente
vinculada às transformações políticas, econômicas e sociais vividas no
Brasil, sobremodo as do decênio de 30.
Vale ressaltar que o ano de 1930 marcou no Brasil o fim da
República Velha, da Política e da Economia do Café com Leite,
acentuando a crise das Oligarquias e abrindo as portas para as
renovações políticas, econômicas e sociais que ocorreram durante a Era
Vargas (1930-1945).
O Movimento Tenentista — insurreição de jovens oficiais
brasileiros que esteve no centro da crise da República Velha— ansiava
já, desde a década de 1920, pela modernização das instituições políticas
brasileiras e por uma mais significativa participação militar na
condução dos negócios públicos.
Os levantes ocorridos durante a década de 1920 — o do Forte de
Copacabana (1922), A Rebelião de 1924, A Coluna Prestes(1924/1927)
— prefiguraram o Movimento de 30, que foi liderado pelo Coronel
14
• os afrescos da região do cacau e as lutas épicas entre coronéis e
exportadores de cacau (Terras do Sem-Fim e São Jorge de Ilhéus);
• a crônica dos costumes provincianos (Gabriela, Cravo e Canela e
Dona Flor e seus Dois Maridos).
Já para a crítica literária Maria Carmem de Souza, Jorge Amado
seria sempre:
“... o narrador dos sem poder!...
Ele descreve os traços dos pescadores sem bússola, dos primeiros
pivetes, dos guetos e das prostitutas, na paródia que forjou.
Avança no revezamento de lugares e de papéis, sob os auspícios
da sensualidade, do onírico, do maravilhoso, do fantástico.
O sexo explícito, o gesto ou vocábulo permissivos são também
modalidades da sua aspiração libertária.
O humor descontrai, matiza situações, muda a rota da
heroicidade.
O alargamento, o aproveitamento do dado picaresco já se
encontra nos espaços abertos, prosperando assim a crítica das formas
fechadamente sistêmicas.
A sedução se apresenta como única conquista nãoautoritária.Jorge Amado retoma os padrões românticos no interior do
Modernismo. (…)
Um visionário apaixonado pelo recôncavo baiano. Contempla a
Bahia de marinheiros felizes, sem mortes no mar, de gabrielas
faceiras sem morte nos bordéis... De beberrões “metafísicos” e de
heróis épicos protagonistas de cenas vivas...
… No recôncavo nascem os homens valentes das águas...
… Na Bahia, a capital das sete portas, nascem as mulheres mais
bonitas do cais.”Maria Carmem Souza. Jorge Amado entre a Ficção
e a História. in: Limites. 3o Congresso ABRALIC. Edusp / Abralic.
ESTRUTURA DA OBRA
Após a seção “Cartas à Redação”, a narrativa propriamente dita se
inicia apresentando uma divisão em três partes:
1ª parte: Sob a lua num velho trapiche abandonado, parte mais
longa (em média, 130 páginas), constituída por 11 capítulos. Apresenta
o grupo dos Capitães da Areia, relata a vida de seus participantes e suas
ações no grupo. Essa parte se finaliza com a epidemia de varíola que
assola a cidade, matando centenas de pessoas.
2ª parte: Noite da grande paz, da grande paz dos teus olhos, mais
curta do que a anterior (em média, 55 páginas), é constituída por 8
capítulos. Foca maior atenção no chefe do grupo, Pedro Bala, que
descobre o amor, Dora, a única menina do grupo. Essa parte se finaliza
com a morte de Dora e a dor de todos.
3ª parte: Canção da Bahia, Canção da liberdade, um pouco mais
curta que a anterior (em média, 41 páginas), é constituída por 8
capítulos. Por ser a finalização da obra, apresenta o destino dos
Capitães da Areia e o inevitável engajamento político de Pedro Bala na
causa operária.
Na opinião do crítico Antonio Candido:
“Na maré montante da revolução de Outubro, que encerra a
fermentação antioligárquica já referida, a literatura e o pensamento
se aparelham numa grande arrancada. A prosa, liberta e
amadurecida, se desenvolve no romance e no conto, que vivem uma
de suas quadras mais ricas. Romance fortemente marcado de
neonaturalismo e de inspiração popular, visando aos dramas contidos
em aspectos característicos do país: decadência da aristocracia rural
e formação do proletariado (José Lins do Rego); poesia e luta do
trabalhador (Jorge Amado, Amando Fontes); êxodo rural, cangaço
(José Américo de Almeida, Raquel de Queirós, Graciliano Ramos);
vida difícil das cidades em rápida transformação (Érico Veríssimo).
Nesse tipo de romance, o mais característico do período e
frequentemente de tendência radical, é marcante a preponderância
do problema sobre o personagem. É a sua força e a sua fraqueza.
Raramente, como em um ou outro livro de José Lins do Rego
(Banguê) e sobretudo Graciliano Ramos (São Bernardo), a
humanidade singular do protagonista domina os fatores do enredo:
meio social, paisagem, problema político. Mas, ao mesmo tempo, tal
limitação determina o importantíssimo caráter de movimento dessa
forte fase do romance, que aparece como instrumento de pesquisa
humana e social, no centro de um dos maiores sopros de radicalismo
da nossa história.” Antonio Candido, Literatura e Sociedade. Edusp.
Quanto à evolução da obra de Jorge Amado, dentro do quadro das
narrativas de 30, podemos dividi-la, conforme o crítico Rogel Samuel
propõe, em dois grandes momentos. Em um primeiro momento, Amado
dedica-se aos marginalizados pela vida — aos oprimidos das classes
populares, no campo e na cidade.
“Nesta fase, sente-se, nos seus escritos, a marca do “realismo
socialista”, a procura do documentário político, das teses socialistas
que, por serem extraliterárias, prejudicam a literariedade de sua
ficção.” Rogel Samuel. Literatura Básica. Vozes.
Realismo socialista que acabou sendo tomado, com o passar do
tempo, como uma das poucas qualidades estilísticas na obra do autor,
sobretudo quando verificada sua temerária oscilação entre lampejos de
realismo e águas fortes de romantismo e de religiosismo popularesco,
expressos de maneira primitiva e espontânea, ao impulso da pena,
carente de uma técnica poética e de uma consciência do próprio
processo criativo, o que resulta na obra do autor, não raras vezes, em
uma poética desajeitada, recoberta de equívocos construtivos, que se
justificam unicamente por seu populismo literário e programático.
Em um segundo momento da obra, Jorge Amado dedicouse ao
retrato da “baianidade”, ou seja, ao desvendamento das cores locais da
Bahia e das peculiaridades baianas.
Entrega-se, nesse sentido:
“... ao humorístico, ao pitoresco, ao picaresco, ao exotismo, à cor
local, preocupa-se mais com a ficção do que com o político, do que
com o ideológico.” Rogel Samuel. Literatura Básica. Vozes.
Nessa fase, podemos observar um amadurecimento estético de
Amado, que chega a pender, ainda que de modo precário, para um certo
academicismo, para uma certa reflexão sobre o próprio método e para a
realização de uma poética, senão superior à da primeira fase, ao menos
mais consciente que aquela.
Conforme o crítico Alfredo Bosi, o próprio Jorge Amado se
autodefiniu acertadamente como “apenas um baiano romântico e
sensual”.
“Definição justa, pois resume o caráter de um romancista voltado
para os marginais, os pescadores e os marinheiros da sua terra que
lhe interessam enquanto exemplos de atitudes “vitais”: românticas e
sensuais... A que, vez ou outra, emprestaria matizes políticos. A rigor,
não caminhou além dessa colagem psicológica a “ideologia” do
festejado escritor baiano. Nem a sua poética, que passou incólume
pelo realismo crítico e pelas demais experiências da prosa moderna,
ancorada como estava em um modelo oral-convencional de narração
regionalista. Cronista de tensão mínima...” Alfredo Bosi. História
Concisa da Literatura Brasileira. Cultrix
Na obra de Jorge Amado, segundo Bosi, poder-se-ia distinguir
então algumas tendências temáticas, vinculadas à evolução da própria
escritura do autor, notadamente:
• a vida baiana rural ou citadina que lhe deram a fórmula fácil do
romance proletário (Cacau e Suor);
• os depoimentos líricos, em torno de rixas e amores marinheiros
(Jubiabá e Mar Morto);
• a pregação partidária (Cavaleiro da Esperança e O Mundo da
Paz);
O ENREDO
A narrativa de Capitães da Areia começa com uma sequência de
seis cartas — todas publicadas — depois de escritas à redação do Jornal
da Tarde de Salvador, em que se debatia o problema dos “meninos de
rua”, conhecidos então como "Capitães da Areia" — meninos pobres,
abandonados, órfãos, carentes, ladrões, malandros, que se
multiplicavam pelas ruas da cidade, assim como suas façanhas.
Em seguida, apresenta-se o Trapiche, lugar abandonado no cais
que, contrastando com a areia e o relento total das ruas, abrigava da
noite os Capitães da Areia.
O chefe do bando era Pedro Bala, que ganhou o direito de liderar o
grupo numa “briga de foice” com um caboclo de nome Raimundo.
Nas noites dos Capitães da Areia, as experiências eram muitas: os
maiores, como João grande, protegiam os menores; o Professor lia
histórias para aqueles que se achegavam no canto dele — como as
histórias do Lampião dos jornais, de que o Volta-Seca tanto gostava;
combinavam os assaltos, faziam os planos para o dia, em torno do
chefe Pedro Bala e do Sem-Pernas, o mais cruel de todos; Pirulito
rezava por ele e por todos os desvalidos; todos se amargavam na
pobreza; aventuravam-se com mulher — era o caso do Gato, que saía
todas as noites para ver a Dalva, prostituta que ele tomou de um
flautista ingrato; aventuravam-se uns com os outros, como por exemplo
o Boa-Vida, que tentava um, tentava outro... ou o Barandão e o Almiro
— que sempre conseguiam; se prostituíam; pensavam uns nos outros...
tentavam dormir... dormiam... às vezes...
O Querido de Deus sempre arrumava um negócio para o grupo:
dessa vez, o encontro seria no Ponto da Pitangueira, mas o homem não
15
veio. Enquanto esperavam, jogavam, enganavam uns marinheiros,
arranjavam uns cobres. O gato era imbatível nas malandragens do jogo.
E, finalmente, o homem do negócio apareceu... o negócio se deu: os
Capitães da Areia foram contratados para furtar um objeto de uma casa
fina – fizeram; ganharam 150 contos.
Na cidade, instalou-se um carrossel japonês, que não passava de um
velho carrossel nacional, mas aos olhos daqueles desvalidos era uma
iluminação para a vida. Nhozinho França sequer imaginava o que fazia
o carrossel na vida daqueles malandrinhos. Para cada um deles, o
carrossel significava algo diferente: para uns era a luz; para outros, a
música; para outros, o movimento; para todos, uma representação de
seus sonhos, girando... girando... girando...
Como o Volta-Seca e o Sem-Pernas estavam trabalhando para
Nhozinho França, conseguiram uma autorização para se deliciarem
com as cores, com as músicas e com os movimentos e sonhos do
carrossel, na noite, quando o carrossel não estivesse atendendo ao
público pagante. Até o padre José Pedro esteve com os malandros
naquela noite. A religião estava sempre em torno deles.
Para dizer a verdade, os Capitães da Areia tinham amigos em toda
religião que seguiam... religiosos de ritos muito diferentes: padre José
Pedro — católico — e Don'Aninha, dos terreiros da Macumba etc etc
etc.
Outro amigo dos Capitães da Areia era João de Adão, estivador nas
docas. Sua religião era o movimento de trabalhadores. Fora amigo de
Raimundo, um doqueiro mais velho — pai de Pedro Bala... Raimundo
que, primeiro, tinha sido operário na fábrica de cigarros, depois, foi
trabalhar nas docas; lutou pelos companheiros; morreu numa greve,
numa primeira greve dos doqueiros... era um herói... Bala orgulhava-se
do pai...
A negra que vivia com João de Adão sempre convidava os Capitães
da Areia para irem ao terreiro... os atabaques tocavam naquela noite de
Omolu. O dia da vingança dos pobres estava chegando... Depois dos
serviços... voltando sozinho para o Trapiche, Pedro Bala pensava no
pai, na greve, nos doqueiros, nos pobres, em Omolu... foi então que
avistou uma mocinha correndo pelo areal... perseguiu-a furioso... era
uma negra... menina... quando a alcançou quis dobrá-la ali mesmo, mas
ela resistiu... era virgem... o desejo de Bala era animal... alguma coisa
da menina ele tinha de ter... e teve... não a virgindade... mas outra
coisa...
A vida seguia... Don'Aninha veio procurar os Capitães da Areia... A
imagem de Ogum tinha sido levada numa batida da polícia no terreiro...
Ogum estava zangado... As tempestades castigavam a cidade... De
noite, os meninos tinham medo... eram meninos... cada um ao seu
modo... mas podiam ajudar Don'Aninha... e ajudaram... Bala armou um
plano e recuperou a imagem do santo. As tempestades iriam passar...
O Professor, bom de desenho, é que sempre ganhava algum
dinheiro desenhando os passantes da rua. Mas uma vez a coisa foi
diferente: o homem do sobretudo preto não gostou de ser retratado:
agrediu... chutou... esmurrou... esbravejou... O Professor perseguiu-o
pelo areal, cercou-o, cortou-o com o canivete, tomoulhe o sobretudo. A
polícia nada descobriu...
Pirulito rezava... andava... vivia cercando uma loja de imagens
religiosas: uma imagem, entretanto, chamava sua atenção mais que as
outras — uma madona feia, com um menino Jesus feio, estendido,
quase caindo dos braços da virgem. Ele precisava salvá-lo... ensaiou
muito o pecado, o drama, mas levou... roubou... era como se salvasse o
menino... teria perdão... somente ele o queria...
Para roubar, nada mais acertado que o engodo, o engano, a farsa:
acercar-se de uma casa... estudar o terreno, infiltrar-se — geralmente
quem o fazia era o Sem-Pernas, com o artifício da sua deficiência, da
sua orfandade desamparada e da sua teatralidade circense — depois de
saberem da casa por ele, era só fazer a limpa.
Numa dessas ocasiões, o Sem-Pernas e o Pedro Bala se deram bem:
o Bala, porque sobrou para ele o sexo da empregada da casa; o SemPernas, porque foi adotado por Dona Ester e seu Raul... levou vida de
rico um bom tempo, antes de sua fuga traiçoeira para a limpa da casa.
Quando saiu a matéria no jornal, a procura d o A u g u s t o ( o S e
m - P e r n a s ) d e s a p a r e c i d o e que causava imensa angústia em
Dona Ester e seu Raul,o Sem-Pernas chorou feito menino... e ele era
um menino.. aquela era uma família... mas ele era um sem-família. Era
parte das molduras vazias da rua.
Mas, na imaginação do Professor, as imagens da cidade iam
preenchendo as molduras vazias, eram pinturas para as molduras, as
incertezas, as imagens tristes, as cantorias coloridas. O homem da
piteira podia ajudá-lo... afinal, o Professor era um talento nato... Mas
ele negou-se a procurar aquele Dr. Dantas..., ao menos a princípio...As
tempestades de Ogum passaram, mas o tempo de vingança dos pobres
de Omolu chegara... trazia um alastrim... trazia a bexiga negra para a
cidade. Omolu não sabia que os pobres não tinham a vacina e os ricos
sim, por isso os pobres é que sofreram mais. Todo dia pediam no
terreiro para Omolu levar a bexiga embora...
lmiro foi o primeiro a adoecer... seus braços se cobriram da
bexiga... queriam-no fora do Trapiche... o Sem-Pernas queria expulsálo de todo modo, foi cruel... mas João grande e o Professor o
protegeram para esperar a decisão do Bala. Volta-seca concordava com
os dois... era preciso esperar o Bala...
Discutido o caso, buscaram a ajuda de padre José Pedro. O padre
ajudou, mas uma denúncia do médico que cuidou do Almiro colocou o
padre diante de seus superiores. O padre foi duramente repreendido por
ajudar aqueles malandros... ainda mais num caso de varíola.
Depois foi o Boa-Vida... adoeceu... mas, decidido a não contaminar
os irmãos de rua, mudou-se para o Lazareto... era como mudar-se para
o inferno... um dos infernos... certamente iria morrer lá... mas Omolu
aceitou as oferendas dos terreiros... levou o alastrim para longe... e
Boa-Vida se salvou... voltou ao Trapiche, magro... irreconhecível... foi
uma festa...
Antes de ir embora, entretanto, a bexiga matou os pais de Dora —
menina que morava no morro. Ela teve coragem, desceu o morro e foi
em busca de emprego na cidade baixa... Filha de bexiguento,
entretanto, não acha canto em canto nenhum... certamente... a não ser
entre os capitães de areia... que a receberam, a ela e ao irmãozinho, Zé
Fuinha.
Todos a desejaram no Trapiche... queriam tomá-la como uma vadia
de todos, mas essa imagem foi se metamorfoseando aos poucos... Dora
foi virando uma irmã, mãe... irmã e mãe de todos... só para o Bala e
para o Professor Dora ficou amada.
Ela andava junto do grupo... achava justo fazer tudo por eles e com
eles. Para o Bala, era uma noiva... Ainda mais depois que ele arrumou
briga com Ezequiel por causa dela. Era um noivado...
Mas a miséria era maior... o Bala foi preso numa jogada errada para
que seus irmãos de rua conseguissem fugir da polícia. Foi para o
reformatório. Passou de tudo... O cafua era o pior... praticamente sem
comer e sem beber... embaixo de surra, quase morreu... só um amigo
para os recados e para os cigarros... mas o moleque foi pego... também
seria torturado por ajudá-lo... Bala não comeu o pão que o diabo
amassou, nem isso, porque não tinha, mas não denunciou o Trapiche.
Era nobre e companheiro... amava a liberdade.
A noite, no Reformatório, homossexualidade e tortura, uma miséria
sem escolha... entretanto, o que mais doía no Bala era saber que Dora
estava no Orfanato... sem poder vê-la... estava louco... Tinha de fugir...
fugiu... num daqueles dias de trabalho na lavoura... bendita corda
mandada pelos amigos...
Tudo tramado, resgata a sua Dora... mas ela está doente... tem
febre... naquela noite quis que ele se deitasse com ela... eram noivos...
seriam esposos... e foram... mas ela morreu durante a noite... virou
estrela... uma estrela estranha de loira cabeleira...
O tempo cobria o Trapiche de ausências: as vocações avultavam —
o Professor foi para o Rio de Janeiro para ser pintor, foi estudar com o
homem da piteira... o Pirulito ingressou no seminário — ouviu o
chamado de Deus... Padre José Pedro ganhou uma paróquia e seguiu
para ela... Boa-Vida seguiu na vida de malandro e violão, samba e
vadiagem... o gato, elegante e esperto, continuou o mesmo, seguiu a
Dalva na rabada do trem para os cabarés de Ilhéus, lá estava o futuro
entre os ricos fazendeiros de cacau... Volta-Seca se debandou para o
Sertão, ingressou no bando de seu padrinho Lampião e passou a matar
soldados até ser preso com sessenta marcas na espingarda... O SemPernas cometeu mais uma ousadia... se aconchegou com uma solteirona
que colhia dele algumas migalhas de amor, mas por pouco tempo;
ninguém nunca gostou dele pelo que ele era; não; por isso, como um
trapezista sem trapézio, num dia, para não ser apanhado pela guarda,
pulou do morro; saltou de costas para a liberdade...
Os jornais noticiavam as vocações, os destinos de todos eles... só
Pedro Bala ainda não se encontrara... mas uma visita de João de Adão
deu a ele um sentido... Bala foi apresentado ao estudante Alberto —
comunista — que andava por aquelas bandas metido na greve dos
condutores...
Os Capitães da Areia precisavam ajudar... aceitaram a incumbência
de impedir os fura-greves de entrarem para o trabalho naquela
madrugada... era isso... um destino... Bala descobriu o sentido da
palavra companheiro. Agora ele era como o pai dele... ajudando a
16
modificar a vida daqueles pobres... seria da brigada de guerra... Os
atabaques ressoavam como clarins de guerra... era o seu chamado:
A voz o chama. Uma voz que o alegra, que faz bater seu coração.
Ajuda a mudar o destino de todos os pobres. Uma voz que atravessa a
cidade, que parece vir dos atabaques que ressoam nas macumbas da
religião ilegal dos negros. Uma voz que vem com o ruído dos bondes
onde vão os condutores e motoneiros grevistas. Uma voz que vem do
cais, do peito dos estivadores, de João de Adão, de seu pai morrendo
num comício, dos marinheiros dos navios, dos saveiristas e dos
canoeiros. Uma voz que vem do grupo que joga a luta da capoeira,
que vem dos golpes que o Querido de Deus aplica. Uma voz que vem
mesmo do Padre José Pedro, padre pobre de olhos espantados diante
do destino terrível dos Capitães de Areia. Uma voz que vem das filhas
de santo do candomblé de Don'Aninha, na noite que a polícia levou
Ogum. Voz que vem do Trapiche dos Capitães de Areia. Que vem do
reformatório e do orfanato. Que vem do ódio do Sem-Pernas se
atirando do elevador para não se entregar. Que vem no trem da Leste
Brasileira, através do sertão, do grupo de Lampião pedindo justiça
para os sertanejos. Que vem de Alberto, o estudante pedindo escolas e
liberdade para a cultura. Que vem dos quadros de Professor, onde
meninos esfarrapados lutam naquela exposição da rua Chile. Que
vem de Boa-Vida e dos malandros da cidade, do bojo dos seus violões,
dos sambas tristes que eles cantam. Uma voz que diz uma palavra
bonita de solidariedade, de amizade: companheiros. Uma voz que
convida para a festa da luta. Que é como um samba alegre de negro,
como ressoar dos atabaques nas macumbas. Voz que vem da
lembrança de Dora, valente lutadora. Voz que chama Pedro Bala.
Como a voz de Deus chamava Pirulito, a voz do ódio o Sem-Pernas,
como a voz dos sertanejos chamava Volta-Seca para o grupo de
Lampião. Voz poderosa como nenhuma outra. Porque é uma voz que
chama para lutar por todos, pelo destino de todos, sem exceção. Voz
poderosa como nenhuma outra. Voz que atravessa a cidade e vem de
todos os lados. Voz que traz com ela uma festa, que faz o inverno
acabar lá fora e ser primavera. A primavera da luta. Voz que chama
Pedro Bala, que o leva para a luta. Voz que vem de todos os peitos
esfomeados da cidade, de todos os peitos explorados da cidade. Voz
que traz o bem maior do mundo, bem que é igual ao sol, mesmo
maior que o sol: a liberdade. A cidade no dia de primavera é
deslumbradoramente bela. Uma voz de mulher canta a canção da
Bahia. Cidade negra e velha, sinos de igreja, ruas calçadas de pedra.
Canção da Bahia que uma mulher canta. Dentro de Pedro Bala uma
voz o chama: voz que traz para a canção da Bahia, a canção da
liberdade. Voz poderosa que o chama. Voz de toda a cidade pobre da
Bahia, voz da liberdade. A revolução chama Pedro Bala.
E Bala atendeu ao seu chamado. Primeiro, com os Capitães da
Areia, depois, seguindo para Aracaju, onde iria recrutar os Índios
Maloqueiros para fazerem parte da brigada de choque e lutar pela
liberdade de todos. E na noite misteriosa das macumbas os atabaques
ressoavam como clarins de guerra.
COMENTÁRIO
O romance Capitães da Areia configura-se efetivamente como
narrativa que tende para uma organização moderna. Sua estrutura
fragmentária, em que se sucedem vários quadros soltos, parece apontar
para isso. Soma-se a esta experiência da fragmentação a colagem de
gêneros em que o gênero narrativo vai se entremeando com o gênero
epistolar (a carta), constituindo uma colcha de retalhos em que os dois
tipos de registros se completam num diálogo aparentemente solto.
Tal sequência de quados narrativos e cartas, todavia, possui um
encaminhamento bastante organizado, construindo, na medida que
avançam no tempo, uma transformação das personagens. Todos deixam
seu estado infantil e adolescente inicial para se tornarem algo diferente
ou para confirmarem seus destinos na juventude.
Quanto à temática da narrativa, assevera o crítico Álvaro Cardoso
Gomes:
“Capitães da areia pertence à primeira fase da obra de Jorge
Amado, mas o cenário escolhido é o urbano. Centrando a ação na
vida dos menores abandonados da cidade de Salvador, o escritor
aproveita para mostrar as brutais diferenças de classe, a má
distribuição de renda e os efeitos da marginalidade nas crianças e
adolescentes discriminados por um sistema social perverso. Capitães
da Areia narra o cotidiano de pobres crianças que vivem num velho
trapiche abandonado. Liderados por Pedro Bala, menino corajoso,
filho de um grevista morto, entregam-se a pequenos furtos para
sobreviver.
A narrativa, de cunho realista, descreve o cotidiano do grupo e
seus expedientes para arranjar alimento e dinheiro. Intercalando a
narrativa com reportagens sobre o grupo dos “Capitães da Areia”, o
romance supervaloriza a humanidade das crianças e ironiza a
ganância, o egoísmo das classes dominantes. Conduzindo a história
em função dos destinos individuais de cada participante do bando,
Jorge Amado acaba por ilustrar, de um lado, a marginalização
definitiva de uns (o Sem-Pernas e o Volta Seca, por exemplo), e, de
outro, a tomada de consciência dos mais lúcidos (Pedro Bala).”
Álvaro Cardoso gomes. Capitães da Areia – Roteiro de Leitura. Ática
AS PERSONAGENS
No romance, os protagonistas da narrativa — os Capitães da areia
— vivem nos limites entre a ordem e a desordem, entre o lícito e o
ilícito, o que nos permite tomá-los como malandros. Tipos marginais
que constituem na literatura brasileira, desde sua primeira figuração
literária em Memórias de um Sargento de Milícias, de Manuel Antônio
de Almeida, em pleno Romantismo, um traço significativo na
construção de uma autoimagem do Brasil e do brasileiro e, neste caso,
na construção da autoimagem de uma região do Brasil, a Salvador dos
meninos de rua. Para Tania Macedo, tais malandros são seres: que
vivem na liminaridade, que pertencem a uma zona de inconsistência
da sociedade, que são donos de uma ginga, de uma capacidade de
drible, buscando sempre suprir suas carências de cidadania e afeto;
são astuciosos, sempre tentando burlar as forças da Ordem;
marginalizados, estranhos, diferentes; figuras que vivem sempre
numa zona fronteiriça; de origem humilde, não raro, largados no
mundo, têm sua matriz na tradição popular, em uma atmosfera
sempre popularesca." Tania Macedo. Malandragens nas Literaturas
do Brasil e de Angola in: Rita Chaves e Tania Macêdo. Literatura
em Movimento: Hibridismo cultural e exercício crítico. Via Atlântica.
Apesar dessa condição coletiva e tipificada apriorística, que
mergulha os Capitães da Areia num caminhar coletivo, como frutos de
um determinismo social que os condiciona, observamos que tais
personagens seguem também um caminho paralelo e individualizado na
opinião do narrador: nesse caminhar subjetivo, uns consolidam o que já
pareciam ser socialmente: malandros e marginais; outros consolidam
vocações recônditas, castradas pelo meio.
Desse modo, determinismos do meio e determinismos subjetivos se
tensionam na construção de um destino para cada um dos Capitães da
Areia:
— o Professor vai ser pintor no Rio de Janeiro;
— o Pirulito vai para o seminário;
— o Volta-Seca vai ser cangaceiro no sertão;
— o gato consolida-se como malandro;
— a Dora e o Sem-Pernas morrem, consolidando o que sempre
foram: estrelas agregadoras por conta do amor (Dora) e do ódio (SemPernas);
— o padre José Pedro vai ser padre de paróquia;
— Pedro Bala consolida-se líder de desvalidos...
Em todo caso, porém, como afirma mais uma vez Álvaro Cardoso
gomes, os Capitães da Areia são personagens planas, não nos causam
surpresa no decorrer na narrativa. Em sua subjetividade, realizam
aquilo para o que foram dispostos desde o início por suas vocações ou
pelos limites de seu mundo.
Pedro Bala: chefe dos Capitães da Areia; respeitado por todos;
filho de um doqueiro morto na primeira greve da região; líder nato;
malandro sensível e bom. Sempre em busca de um sentido para sua
existência, acaba descobrindo em suas próprias origens o pai doqueiro e
grevista, um sentido para sua liderança: lutar pelos oprimidos. O
estudante Alberto e o doqueiro João de Adão serviram de
intermediadores dessa voz do passado que transforma Pedro Bala, de
líder de malandros, em líder político nos movimentos de trabalhadores.
Bala foi progressivamente formado pela voz, pelo clamor de todos com
quem ele conviveu. Sua história é a história de todos.
Dora: filha do morro; os pais morreram de varíola; sem ter para
onde ir, passa a viver com os Capitães da Areia; sua imagem varia entre
a menina órfã, a pedinte, a prostituta, a irmã, a mãe, a amada, a noiva e
a esposa aos olhos dos Capitães da Areia. Por fim, consolida-se
estrela... estrela estranha. Mulher de coragem.
Sem-Pernas: abandonado, órfão, recalcado por sua deficiência
física, por sua pobreza, por sua revolta. Destila ódio, muitas vezes
sutilizado em brincadeiras cruéis e vingativas. É teatral e picaresco.
Odeia a todos... porque culpa a todos por suas carências. Para não ser
preso, preferiu se jogar do alto do morro (o elevador), como um
trapezista sem trapézio. O seu drama final.
17
Professor (João José): era o mais culto do grupo; roubava e
colecionava livros; desenhava como ninguém, um dom; tornouse pintor
no Rio de Janeiro, apadrinhado por um pintor carioca — Dr. Dantas, o
homem da piteira. Suas pinturas retratam a vida dos Capitães da Areia
e, nesse sentido, reclamam uma relação intertextual com a própria
narrativa de que ele faz parte. Não é por acaso que o Professor foi
sempre o mais observador, o mais contemplativo do grupo...
Pirulito (Antônio): magro, muito alto, olhar encovado; rezava o
tempo inteiro. A voz de sua vocação clamava o tempo inteiro dentro
dele. Finalmente, tornou-se seminarista, com a ajuda de padre José
Pedro.
Volta-Seca: menino do sertão; afilhado de Lampião; admirava de
longe o padrinho; desde que sua mãe foi expulsa da terra por um
coronel, passou a odiar os coronéis de fazenda e a polícia. Quando
pôde, atendeu à sua vocação: voltou ao sertão, ingressou no bando de
Lampião e deu voz à sua vingança, matando fazendeiros e policiais.
Imaginava que, com isso, estaria restabelecendo a justiça para os
pobres do sertão, ainda mais ao lado de seu padrinho Lampião.
Boa-Vida: o vadio do grupo; gostava de mordomia; malandro
como o Gato; fazer... somente o suficiente; no entanto, quando ficou
doente da varíola, deu mostra de que era mais que um irmão de todos;
era uma estrela corajosa: decidiu se sacrificar indo ao Lazaredo para
não contaminar os irmãos de rua. Foi jovem e malandro... na rua, no
samba, no violão...Querido de Deus: chegou para viver com os
Capitães da Areia, vindo dos mares do sul; era o mais exímio
capoeirista da Bahia.
João Grande: treze anos, órfão, assistiu a morte do pai, atropelado
por um caminhão; nunca mais voltou para o morro; era o mais forte dos
Capitães da Areia; era o protetor dos menores. Sua força era o que tinha
e o que os outros tinham.
O Gato: malandro incorrigível; o mais elegante dos Capitães da
Areia. Enamorou-se de uma prostituta de nome Dalva. Tomou-a de um
flautista ingrato que deixara de reconhecer os dotes da cortesã. Foi com
ela ganhar a vida em Ilhéus, nos cabarés. Lá ela ficou com um coronel
daqueles do cacau... ele seguiu sua vida de malandragem, vadiagem,
samba e violão...
Padre José Pedro: padre pobre, maltrapilho, sem vocação, ou
melhor, sem muita vocação para a retórica eclesiástica; dono de uma
religiosidade prática, cotidiana, popular, participativa e transformadora;
naturalmente, foi acusado pelos superiores de vocações socialistas (um
perigo vermelho).
João de Adão: doqueiro; organizador dos trabalhadores das docas;
dava continuidade ao trabalho de conscientização dos trabalhadores
iniciado por Raimundo, pai de Pedro Bala. Era um grande amigo dos
Capitães da Areia e de todo trabalhador pobre.
Don'Aninha: negra, mãe de santo; fazia parte de um terreiro de
trabalhos; amiga dos Capitães da Areia. Representa a religiosidade
afro-brasileira da Bahia.
Alberto: estudante; socialista; participava dos movimentos de
trabalhadores, ajudando-os a organizar suas reivindicações, ações e
lutas. Tornou-se amigo dos Capitães da Areia. Participou da revelação
do destino de Pedro Bala.
Nhozinho França: dono do carrossel cheio de luz, de movimento e
de cores. Levava o sonho para aquelas cidadezinhas pobres do
nordeste. Ele mesmo, um falido, gastara todo seu quinhão com bebida e
mulheres. Virara um peregrino, deixando para trás as dívidas sem pagar
e os nomes feios que ganhara por isso.
Fora esse rol de personagens mais centrais da obra, encontramos
ainda algumas personagens menos trabalhadas e que tipificam a
presença de classes e instituições sociais, antagonizando ou
aparentemente antagonizando os Capitães da Areia. Isso porque, a
despeito do que tipificam, ora rompem ora não rompem o seu invólucro
social para se posicionarem diante da condição de marginalidade dos
malandros. São os soldados da polícia, o diretor do reformatório, o
cônego, a família burguesa (Dona Ester e seu Raul), as carolas da Igreja
(a viúva Santos), o pintor carioca (Dr. Dantas), o dono do jornal, o
delegado, os patrões da mãe de Dora etc. Como representações de
classe e como representações institucionalizadas, dividem-se entre os
que acolhem e os que reprimem e recusam os Capitães da Areia.
O FOCO NARRATIVO
Conforme Álvaro Cardoso gomes, citando Aguiar e Silva, em
Capitães da Areia encontramos um narrador em terceira pessoa,
onisciente...
pois Jorge Amado usa sistematicamente a terceira pessoa do
discurso: João grande vem vindo para o trapiche; Pedro Bala,
enquanto subia a ladeira da Montanha, revia mentalmente seu plano
etc. Ao se utilizar da terceira pessoa, a voz que narra tem a vantagem
de poder acompanhar a multidão de personagens, deslocar-se de uma
para outra, porque possui a onisciência, ou seja, nesse caso, o
narrador configurase como um autêntico demiurgo que conhece
todos os acontecimentos na sua trama profunda e nos seus últimos
pormenores, que sabe toda a história da vida das personagens, que
penetra no âmago das consciências como em todos os meandros e
segredos da organização social.A focalização deste criador onisciente
é panorâmica e total." Aguiar e Silva, in: Álvaro Cardoso gomes.
Apesar de reconhecer tal onisciência, verificamos que o narrador de
Capitães da Areia parece se confundir algumas vezes quanto à sua
posição em relação às ações, extrapolando até mesmo os limites de sua
liberdade total. É o que se vê num dos exemplos de onisciência, citado
por Álvaro Cardoso – João Grande vem vindo para o trapiche (p. 23): o
trecho parece insinuar muito mais o olhar de um dos personagens que
estava no Trapiche que o olhar de um narrador externo aos fatos. Nesse
sentido, parece acontecer, em verdade, um erro de referencial.
Ou ainda: Foi assim que o Professor tinha conseguido aquele
sobretudo, que nunca quis vender. Adquirira um sobretudo e muito
ódio. E, tempos depois, quando as suas pinturas murais admiraram
todo o país (eram motivos de vidas de crianças abandonadas, de
velhos mendigos, de operários e doqueiros que rebentavam cadeias),
notaram que nelas os gordos burguesesapareciam sempre vestidos
como enormes sobretudos que tinham mais personalidade que eles
próprios. — reparamos que nesse trecho, o narrador, ao dar uma mostra
de sua antevisão e onisciência em relação aos fatos e destinos, se
atrapalhou na representação do tempo verbal.
A LINGUAGEM
Jorge Amado pertence, como já vimos, à geração dos autores de 30,
afeitos a uma linguagem coloquial, despojada e popular. Em Capitães
da Areia, ele repete essa fórmula: abusa dos coloquialismos tanto nas
falas de personagens quanto na fala do próprio narrador, seja em seus
desvios sintáticos, seja na incorporação de palavras e expressões
popularescas:
— Tu não vai hoje ao Gantois? Vai ser uma batida daquelas. Um
fandango de primeira. É festa de Omolu.
— Muita boia? E aluá?
— Se tem... mirou Pedro Bala. — Por que tu não vai, branco?
Omolu não é só santo de negro. É santo dos pobres todos.
— Tu quer esse Deus Menino para tu? — perguntou ele de
repente.
Seja ainda na utilização de termos chulos:
Boa-Vida ficou espiando os peitos da negra, enquanto descascava
uma laranja que apanhara no tabuleiro.
– Tu ainda tem uma peitama bem boa, hein, tia?
– Quem tirou teu cabaço?
– Ora, me deixe... – respondeu o pederasta rindo.
Ou na tentativa de mesclar seu discurso de narrador ao discurso das
personagens, por meio do discurso indireto livre, o que permite uma
visão bifocal dos fatos e constitui, nesse caso, apropriadamente, um
recurso de onisciência do narrador, já que se consegue sobrepor, a
partir desse recurso, o olhar do narrador ao olhar da personagem,
ampliando a cosmovisão do narrador sobre os elementos da narrativa:
...O dono da loja tinha tantos Meninos, tantos... Que falta lhe
faria este? Talvez nem se importasse, talvez até se risse quando
soubesse que haviam furtado aquele Menino que nunca tinha
conseguido vender, que estava solto nos braços da Virgem, diante do
qual as beatas que vinham comprar diziam horrorizadas: — Este
não...
Vale ainda salientar um aspecto contraditório que percorre as
descrições de ambiente e personagens na obra: algumas vezes, as
descrições beiram o grotesco e o naturalismo; outras vezes, assumem
lampejos de romantismo e de idealismo ufanista baiano, como nos
trechos a seguir:
Durante anos (o Trapiche) foi povoado exclusivamente pelos
ratos que o atravessavam em corridas brincalhonas, que roíam a
madeira das portas monumentais, que o habitavam como senhores
exclusivos. Em certa época um cachorro vagabundo o procurou como
refúgio contra o vento e contra a chuva. Na primeira noite não
dormiu, ocupado em despedaçar ratos que passavam em sua frente.
... fazia com que os olhos vivos dos Capitães da Areia brilhassem
como só brilham as estrelas da noite da Bahia.
18
astúcia, marginalização, carência etc. Embora devamos considerar no
limite os destinos diferentes assumidos pelos protagonistas Pedro Bala
e Leonardinho — enquanto Leonardinho passa efetivamente do estado
da desordem para se tornar uma representação da ordem, Pedro Bala
passa do estado da desordem para ser a representação da possibilidade
da instauração de uma nova ordem ainda por se fazer — Leonardinho
representaria, no fim da conta, a manutenção da ordem e Pedro Bala
representaria, em última instância, uma subversão da ordem. Nesse
sentido, no âmago das escolhas políticas e ideológicas das duas obras
(Capitalismo x Socialismo) é que a representação da malandragem se
diferenciaria.
A AMBIENTAÇÃO
O ambiente de Capitães de Areia é um somente: as ruas de
Salvador, à beira-mar, onde se destaca o Trapiche, armazém antigo,
abandonado, que servia de refúgio para os meninos de rua. O Trapiche,
nesse sentido, aparece como imagem de segurança, como se fora uma
espécie de colo, seio e ventre materno a que todos aqueles desvalidos
recorriam. Suas vidas oscilavam entre as ruas e o Trapiche, se é que os
dois espaços não eram o mesmo.
Todavia, há que se perceber que na narrativa, esse ambiente da
Salvador baixa, portuária, das docas, dos bondes, dos morros do samba,
da macumba, da capoeira, contrasta com o casario elegante da cidade
alta, insinuando já com esta paisagem ambivalente, antitética, o
contraste social entre aquela gente da cidade alta e aquela outra da
cidade baixa.
O fato dessa paisagem ambivalente se impor como uma herança do
passado colonial parece indicar ainda que as situações de conflito e de
desigualdade vividas pelas personagens constituam, por certo, uma
herança da própria história de constituição do Brasil e da sociedade
brasileira desde seus primeiros tempos.
E, desse mesmo modo, a paisagem com seus significados vindos do
passado tomaria parte também, com sua ambivalência, da explicação do
presente e mesmo do futuro das personagens.
Outras referências espaciais, menos significativas à obra, nos
remetem para longe de Salvador e parecem, de algum modo, mimetizar
também o passado e o futuro dos protagonistas, em segundo plano,
como um eco: é o sertão do Volta-seca; é o Rio de Janeiro do
Professor; é a Paróquia do Padre José Pedro; é a Ilhéus do gato e, mais
sutilmente ainda, o espaço vazio entre a cidade alta e a cidade baixa,
zona fronteiriça, interstício social em que se lançou o malandro SemPernas, naquela liminaridade trágica entre a riqueza e a miséria.
Quanto ao tempo, não temos nenhuma datação especial na
narrativa, senão a de 1937, data da publicação da obra. Mas que já nos
é suficiente para supor um enredo passando-se nos anos que seguiram
ao golpe de 30 e todas as agitações que com o golpe se configuraram na
realidade brasileira, já que o percurso das personagens os insinua:
surpreendemos os protagonistas em seus anos de passagem da
adolescência (12/13 anos) para a juventude, consolidando seus
destinos.
Olhando o decênio de 30, no Brasil e na Salvador de Capitães da
Areia, surpreendemos situações homólogas: êxodos populacionais em
direção aos grandes centros, o inchaço das capitais e seus problemas
derivados, certos movimentos de trabalhadores, a ação do socialismo,
os conflitos entre trabalhadores e patrões, entre trabalhadores e a
polícia, a malandragem, o cangaço, a repressão, o problema dos
menores de rua, o homossexualismo, a prostituição assim como a
postura assumida pelas oligarquias, pela classe média, por
determinadas instituições e pelas autoridades diante de todas essas
realidades históricas ou ficcionais.
OS DIÁLOGOS COM OUTRAS OBRAS
Parece-nos mais imediato o diálogo estabelecido entre os Capitães
da Areia e a obra imediatamente contígua a ela — Vidas Secas —,
sobretudo em seu intento panfletário e partidarista de representar, a
partir da figuração narrativa da realidade, os processos de luta de
classes, a situação de opressão de classe e a crise de algumas
instituições
sociais,
políticas
e
econômicas
brasileiras,
metonimicamente apontadas a partir de uma situação regional, nesse
plano de narrativa engajada, de narrativa de denúncia das mazelas que
assolavam algumas regiões brasileiras, sobremodo o nordeste, seja nas
capitais, seja nos interiores, durante o período Vargas.
O levantamento das tensões sociais que movem a sociedade
latifundiária da seca nos interiores, como está efetivado em Vidas
Secas, parece corresponder ao levantamento das tensões sociais que
movem as grandes cidades, como Salvador, o que está efetivado em
Capitães da Areia.
Assim, a representação de desvalidos e marginalizados dentro de
um sistema produtivo falido em temerário confronto com seus
mandatários parece constituir um elo entre as intenções mais
programáticas de Vidas Secas e de Capitães da Areia.
De outro modo, a condição de malandros vivenciada pelas
personagens de Capitães da Areia, que se colocam nos limites entre a
ordem e a desordem social, parece corresponder também à situação
figurada pela novelinha Memórias de um Sargento de Milícias, de
Manuel Antônio de Almeida, em que Leonardinho (Leonardo, o filho),
bem como seus coadjuvantes, parecem viver situações muito
semelhantes às dos Capitães da Areia: situações de amoralidade, ginga,
EXERCÍCIOS
01. Pode-se dizer, após a leitura de “Cartas à Redação”, que
a) a direção do jornal acatou as denúncias contra o reformatório e
iniciou uma campanha para a destituição do diretor.
b) a costureira Maria Ricardina, mãe de um interno, defende o
diretor do Reformatório.
c) a partir de uma notícia, relatando o assalto praticado pelos
Capitães da Areia, a opinião de todas as cartas é a mesma:
repressão total aos menores delinquentes, inclusive com
castigos corporais.
d) a carta do padre José Pedro corrobora as afirmações da carta de
Maria Ricardina, mãe de um interno.
e) O juiz de menores assume a responsabilidade pela delinquência
juvenil.
02. Faça um comentário sucinto sobre a função de Cartas à Redação na
obra.
Leia o texto e responda às questões:
Um mês de Orfanato bastou para matar a alegria e a saúde de Dora.
Nascera no morro, infância em correrias no morro. Depois a
liberdade das ruas da Mcidade, a vida aventurosa dos Capitães da
Areia. Não era uma flor de estufa. Amava o sol, a rua, a liberdade.
03. A que parte do romance pertence esse fragmento?
04. Pode-se dizer que
a) a forma verbal “nascera” indica ação concomitante à expressa
pela forma verbal “Amava”.
b) a forma verbal “bastou” expressa ação anterior à indicada pela
forma verbal “nascera”
c) a forma verbal “nascera” tem valor temporal idêntico à forma
verbal “tem nascido”.
d) a forma verbal “nascera” indica ação temporal anterior à forma
verbal “bastou”.
e) a forma verbal “Amava” indica ação temporal posterior à
expressa pela forma “nascera”.
05. Qual o sentido da metáfora “flor de estufa”?
Leia e responda:
Não durou muito na chefia o caboclo Raimundo. Pedro Bala era
muito mais ativo, sabia planejar os trabalhos, sabia tratar com os
outros, trazia nos olhos e na voz a autoridade de chefe. Um dia
brigaram. A desgraça de Raimundo foi puxar uma navalha e cortar
o rosto de Pedro, um talho que ficou para o resto da vida. Os outros
se meteram e como Pedro estava desarmado deram razão a ele e
ficaram esperando a revanche, que não tardou. Uma noite, quando
Raimundo quis surrar Barandão, Pedro tomou as dores do negrinho
e rolaram na luta mais sensacional a que as areias do cais jamais
assistiram. Raimundo era mais alto e mais velho. Porém, Pedro
Bala, o cabelo loiro voando, a cicatriz vermelha no rosto, era de
uma agilidade espantosa e desde esse dia Raimundo deixou não só
a chefia dos Capitães da Areia, como o próprio areal. Engajou
tempos depois num navio.
Todos reconheceram os direitos de Pedro Bala à chefia, e foi dessa
época que a cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia,
crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém soube o
número exato de meninos que assim viviam. Eram bem uns cem, e
desses mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche.
Vestidos de farrapos, sujos, semiesfomeados, agressivos, soltando
palavrões e fumando pontas de cigarro eram, em verdade, os donos
19
da cidade, os que a conheciam totalmente, os que totalmente a
amavam, os seus poetas.
denominação dessa parte faz referência aos olhos de Dora. O trecho
transcrito é o início do capítulo Orfanato.
4) D
5) Essa metáfora conota a repressão do orfanato, visto como a estufa
que contém a vitalidade, a criatividade, o porvir da criança,
metaforizados em flor.
6) Sim, porque ao lado da constatação da condição precária e marginal
dos menores abandonados (“vestidos de farrapos, sujos,
semiesfomeados”) não deixa de haver uma idealização dessa condição
quando o narrador considera que esses seres são “os que totalmente
amavam” a cidade, “os seus poetas”.
7) B
8) B
9) Barandão torna-se o novo chefe dos Capitães da Areia, já que Pedro
Bala torna-se um ativista político de esquerda.
10) E
11 ) C
06. Considerando o último parágrafo, pode-se dizer que a visão crítica
do neorrealismo vem acompanhada de certa idealização da
realidade? Por quê?
07. No fragmento transcrito, há palavras que remetem indiretamente ao
nome e à maneira como morreu o pai de Pedro Bala. As palavras
que podem ser associadas, respectivamente, ao nome e à forma
como o pai de Pedro morreu são:
a) talho, navalha
b) loiro, bala
c) negrinho, surrar
d) Raimundo, navalha
e) Barandão, bala.
08. Assinale a alternativa que apresenta o mesmo processo de
coordenação de orações presente na passagem “Raimundo deixou
não só a chefia dos Capitães da Areia, como o próprio areal”
a) “Penso, logo desisto” (José Paulo Paes)
b) Nem Pedro acudiu a tempo, nem ninguém.
c) Enquanto uma chora, a outra ri (Machado de Assis)
d) Estude que a prova está aí.
e) Quer queira, quer não, você irá.

EXERCÍCIOS FUVEST
01. (FUVEST) Leia o trecho para responder ao teste.
"Fizeram alto. E Fabiano depôs no chão parte da carga, olhou o
céu, as mãos em pala na testa. Arrastara-se até ali na incerteza de
que aquilo fosse realmente mudança. Retardara-se e repreendera
os meninos, que se adiantavam, aconselhara-os a poupar forças. A
verdade é que não queria afastar-se da fazenda. A viagem parecialhe sem jeito, nem acreditava nela. Preparara-a lentamente,
adiara-a, tornara a prepará-la, e só se resolvera a partir quando
estava definitivamente perdido. Podia continuar a viver num
cemitério? Nada o prendia àquela terra dura, acharia um lugar
menos seco para enterrar-se. Era o que Fabiano dizia, pensando
em coisas alheias: o chiqueiro e o curral, que precisavam conserto,
o cavalo de fábrica, bom companheiro, a égua alazã, as
catingueiras, as panelas de losna, as pedras da cozinha, a cama de
varas. E os pés dele esmoreciam, as alpercatas calavam-se na
escuridão. Seria necessário largar tudo? As alpercatas chiavam de
novo no caminho coberto de seixos." (Vidas secas, Graciliano
Ramos)
09. Qual o papel que Barandão vai ter no grupo Capitães da Areia no
final do livro?
10. (PUC) – Jorge Amado escreveu em 1937 o romance Capitães da
Areia, no qual traz para a literatura a realidade das crianças de rua
que vivem em Salvador e moram em um trapiche à beira do porto,
no cais da Bahia. Considerando o romance como um todo, dele é
incorreto afirmar que
a) Pedro Bala segue o destino do pai e adere à militância política,
orientado pelo velho operário das docas e pelo “estudante” que
faz o papel do intelectual revolucionário.
b) Sem-Pernas se vale do defeito físico para comover as senhoras
ricas, penetrar nas residências e abrir caminho para o bando.
c) os capitães dão uma finalidade política às artes da capoeira e à
do jogo de punhais e passam a ajudar a mudar o destino dos
pobres, intervindo em comícios, em greves e em lutas obreiras.
d) o romance concentra a força de seus méritos na denúncia
gritante da condição dos meninos de rua e dimensiona a
trajetória da personagem principal, da vida de lúmpen à luta
proletária.
e) a morte de Dora, que desempenhou os papéis de mãe, irmã,
noiva e esposa, determina a desagregação dos Capitães e a
consequente prisão e condenação de Pedro Bala.
Assinale a alternativa incorreta:
a) O trecho pode ser compreendido como suspensão temporária da
dinâmica narrativa, apresentando uma cena "congelada", que
permite focalizar a dimensão psicológica da personagem.
b) Pertencendo ao último capítulo da obra, o trecho faz referência
tanto às conquistas recentes de Fabiano, quanto à desilusão do
personagem ao perceber que todo seu esforço fora em vão.
c) A resistência de Fabiano em abandonar a fazenda deve-se à sua
incapacidade de articular logicamente o pensamento e,
portanto, de perceber a gradual mas inevitável chegada da seca.
d) A expressão "coisas alheias" reforça a crítica, presente em toda
obra, à marginalização social por meio da exclusão econômica.
e) As referências a "enterro" e "cemitério" radicalizam a
caracterização das "vidas secas" do sertão nordestino, uma vez
que limitam as perspectivas do sertanejo pobre à luta contra a
morte.
11. UFRGS Assinale a afirmação correta sobre o romance de 30.
a) Predominou, entre os autores, uma preocupação de renovação
estética seguindo os padrões da vanguarda literária europeia.
b) Na obra de José Lins do Rego, predomina a narrativa curta na
recriação do modo de vida dos senhores de engenho.
c) Os autores, em suas obras, tematizaram os problemas sociais
com o intuito de denunciar as agruras das populações menos
favorecidas.
d) O caráter regionalista dos romances deste período deve-se à
reprodução fiel do linguajar típico de cada região.
e) A obra de Jorge Amado pode ser considerada uma exceção, no
conjunto da época, porque seus romances apresentam uma
grande inovação na estrutura narrativa.
02. (FUVEST) Um escritor classificou Vidas secas como “romance
desmontável”, tendo em vista sua composição descontínua, feita de
episódios relativamente independentes e seqüências parcialmente
truncadas.
Essas características da composição do livro:
a) constituem um traço de estilo típico dos romances de
Graciliano Ramos e do Regionalismo nordestino.
b) indicam que ele pertence à fase inicial de Graciliano Ramos,
quando este ainda seguia os ditames do primeiro momento do
Modernismo.
c) diminuem o seu alcance expressivo, na medida em que
dificultam uma visão adequada da realidade sertaneja.
d) revelam, nele, a influência da prosa seca e lacônica de Euclides
da Cunha, em Os sertões.
e) relacionam-se à visão limitada e fragmentária que as próprias
personagens têm do mundo.
GABARITOS
1) D
2) As matérias jornalísticas e a série de cartas procuram ligar o tema da
obra, os menores delinquentes e abandonados, à vida cotidiana, presen
tificando nessa obra neorrealista o proble ma social. Além disso,
mostram não só a divergência insolúvel entre o grupo que representa o
poder político-cultural e o que tem relação afetiva com os menores
delinquentes como também mostram a parcialidade da imprensa,
manipulada pelo poder vigente.
3) Esse fragmento pertence à parte intitulada Noite da Grande Paz, da
Grande Paz dos Teus Olhos. Nesse segmento, a personagem Dora passa
a integrar os Capitães da Areia e ganha grande destaque. A própria
20
pensamento dessa personagem. Esse modo de narrar também
ocorre com as demais personagens do romance.
c) A oração: "... Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando
espichar os recursos minguados, engasgava-se, engolia em
seco" indica a voz do narrador em terceira pessoa, ao mostrar o
estado de agonia em que se encontra a personagem.
d) A expressão “Forjara planos”, típica da linguagem culta, é
seguida no texto por um provérbio popular: “quem é do chão
não se trepa”. Essa mudança de registro lingüístico é reveladora
do método narrativo de Vidas secas, que subordina a voz das
classes populares à da elite.
e) O texto tem início com a esperança de Fabiano de mudanças
em sua situação econômica; a seguir, passa a focalizar a
realidade de pobreza em que a personagem se encontra, e
finaliza com sua revolta e angústia diante da condição de
empregado, sempre em dívida com o patrão.
03. (PUC-SP) O mulungu do bebedouro cobria-se de arribações. Mau
sinal, provavelmente o sertão ia pegar fogo. Vinham em bandos,
arranchavam-se nas árvores da beira do rio, descansavam, bebiam
e, como em redor não havia comida, seguiam viagem para o Sul. O
casal agoniado sonhava desgraças. O sol chupava os poços, e
aquelas excomungadas levavam o resto da água, queriam matar o
gado. (…) Alguns dias antes estava sossegado, preparando látegos,
consertando cercas. De repente, um risco no céu, outros riscos,
milhares de riscos juntos, nuvens, o medonho rumor de asas a
anunciar destruição. Ele já andava meio desconfiado vendo as
fontes minguarem. E olhava com desgosto a brancura das manhãs
longas e a vermelhidão sinistra das tardes. (…)
O trecho acima é de Vidas Secas, obra de Graciliano Ramos. Dele,
é incorreto afirmar-se que:
a) prenuncia nova seca e relata a luta incessante que os animais e
o homem travam na constante defesa da sobrevivência.
b) marca-se por fatalismo exagerado, em expressão como “o
sertão ia pegar fogo”, que impede a manifestação poética da
linguagem.
c) atinge um estado de poesia, ao pintar com imagens visuais, em
jogo forte de cores, o quadro da penúria da seca.
d) explora a gradação, como recurso estilístico, para anunciar a
passagem das aves a caminho do Sul.
e) confirma, no deslocamento das aves, a desconfiança iminente
da tragédia, indiciada pela “brancura das manhãs longas e a
vermelhidão sinistra das tardes”.
06. "Irmão ... é uma palavra boa e amiga. Se acostumaram a chamá-la
de irmã. Ela também os trata de mano, de irmão. Para os menores é
como uma mãezinha. Cuida deles. Para os mais velhos é como uma
irmã que brinca inocentemente com eles e com eles passa os
perigos da vida aventurosa que levam.
Mas nenhum sabe que para Pedro Bala, ela é a noiva. Nem mesmo
o Professor sabe. E dentro do seu coração Professor também a
chama de noiva."
(Jorge Amado: "Capitães da Areia").
Considerando a obra e o autor do texto, assinale a alternativa
INCORRETA.
a) O autor faz parte do romance regional de 30, quando se
aprofundaram as radicalizações políticas na realidade brasileira.
b) Jorge Amado representa a Bahia, "descobrindo" mazelas,
violências e identificando grupos marginalizados e
revolucionários em "Capitães da Areia".
c) Dora, Pedro Bala e Professor são alguns dos personagens da
narrativa, que aborda a dramática vida dos camponeses das
fazendas de cacau no sul da Bahia.
d) O tom da narrativa aproxima-se do Naturalismo, alternando
trechos de lirismo e crueza. O nível de linguagem é coloquial e
popular.
e) "Capitães da Areia " pertence à primeira fase da produção de
Jorge Amado, quando era notório seu engajamento com a
política de esquerda. Daí o esquematismo psicológico: o mundo
dividido em heróis (o povo) e bandidos (a burguesia).
04. (UFLA) Sobre a obra Vidas Secas, de Graciliano Ramos, todas as
alternativas estão corretas, EXCETO:
a) O romance focaliza uma família de retirantes, que vive numa
espécie de mudez introspectiva, em precárias condições físicas
e num degradante estado de condição humana.
b) O relato dos fatos e a análise psicológica dos personagens
articulam-se com grande coesão ao longo da obra, colocando o
narrador como decifrador dos comportamentos animalescos dos
personagens.
c) O ambiente seco e retorcido da caatinga é como um
personagem presente em todos os momentos, agindo de forma
contínua sobre os seres vivos.
d) A narrativa faz-se em capítulos curtos, quase totalmente
independentes e sem ligação cronológica e o narrador é
incisivo, direto, coerente com a realidade que fixou.
e) O narrador preocupa-se exclusivamente com a tragédia natural
(a seca) e a descrição do espaço não é minuciosa; pelo
contrário, revela o espírito de síntese do autor.
07. (UFLA) Relacione os trechos da obra O Cortiço, de Aluísio de
Azevedo, às características realistas/naturalistas seguintes que
predominam nesses trechos e, a seguir, marque a alternativa
CORRETA:
1. Detalhismo.
2. Crítica ao capitalismo selvagem.
3. Força do sexo.
05. (UEL) O texto abaixo apresenta uma passagem do romance Vidas
secas, de Graciliano Ramos, em que Fabiano é focalizado em um
momento de preocupação com sua situação econômica. Escrito em
1938, esta obra insere-se num momento em que a literatura
brasileira centrava seus temas em questões de natureza social.
( ) “(...) possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava
resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da
própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um
saco de estepe cheio de palha.”
"Se pudesse economizar durante alguns meses, levantaria a
cabeça. Forjara planos. Tolice, quem é do chão não se trepa.
Consumidos os legumes, roídas as espigas de milho, recorria à
gaveta do amo, cedia por preço baixo o produto das sortes.
Resmungava, rezingava, numa aflição, tentando espichar os
recursos minguados, engasgava-se, engolia em seco."
(In: RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 55. ed. Rio de Janeiro: Record,
1991.)
( ) “(...) era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das
sestas de fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas,
que o atordoara nas matas brasileiras.”
( ) “E seu tipo baixote, socado, de cabelos à escovinha, a barba
sempre por fazer (...) Era um pobre diabo caminhando para os
setenta anos, antipático, muito macilento.”
Sobre este trecho do romance, somente está INCORRETO o que se
afirma na alternativa:
a) Este trecho resume a situação de permanente pobreza de
Fabiano e revela-se como uma crítica à economia brasileira e às
relações de trabalho que vigoravam no sertão nordestino no
momento em que a obra foi criada. Isso pode ser confirmado
pelas orações: "... Consumidos os legumes, roídas as espigas de
milho, recorria à gaveta do amo, cedia por preço baixo o
produto das sortes...."
b) A oração: "Se pudesse economizar durante alguns meses,
levantaria a cabeça" tanto pode ser o discurso do narrador que
revela o pensamento de Fabiano, quanto pode ser o próprio
a) 2, 1, 3
d) 2, 3, 1
b) 1, 3, 2
e) 1, 2, 3
c) 3, 2, 1
08. (UNIFESP)
Jerônimo bebeu um bom trago de parati, mudou de roupa e deitouse na cama de Rita. – Vem pra cá... disse, um pouco rouco.
– Espera! espera! O café está quase pronto!
E ela só foi ter com ele, levando-lhe a chávena fumegante da
perfumosa bebida que tinha sido a mensageira dos seus amores (...)
21
Depois, atirou fora a saia e, só de camisa, lançou-se contra o seu
amado, num frenesi de desejo doído.
Jerônimo, ao senti-la inteira nos seus braços; ao sentir na sua pele a
carne quente daquela brasileira; ao sentir inundar-se o rosto e as
espáduas, num eflúvio de baunilha e cumaru, a onda negra e fria da
cabeleira da mulata; ao sentir esmagarem-se no seu largo e peludo
colo de cavouqueiro os dois globos túmidos e macios, e nas suas
coxas as coxas dela; sua alma derreteu-se, fervendo e borbulhando
como um metal ao fogo, e saiu-lhe pela boca, pelos olhos, por todos
os poros do corpo, escandescente, em brasa, queimando-lhe as
próprias carnes e arrancando-lhe gemidos surdos, soluços
irreprimíveis, que lhe sacudiam os membros, fibra por fibra, numa
agonia extrema, sobrenatural, uma agonia de anjos violentados por
diabos, entre a vermelhidão cruenta das labaredas do inferno.
III. O meio adquire enorme importância no enredo, uma vez que
determina o comportamento de todas as personagens, anulando
o livre-arbítrio.
IV. O estilo de Aluísio Azevedo, dentro de O Cortiço, confirma o
que se percebe também no conjunto de sua obra: o talento para
retratar agrupamentos humanos.
Está(ão) correta(s)
a) todas.
b) apenas I.
c) apenas I e II.
d) apenas I, II e III.
e) apenas III e IV.
11. FUVEST 2007 Considerado no contexto de "A cidade e as serras",
o diálogo presente no excerto revela que, nesse romance de Eça de
Queirós, o elogio da natureza e da vida rural
a) indica que o escritor, em sua última fase, abandonara o
Realismo em favor do Naturalismo, privilegiando, de certo
modo, a observação da natureza em detrimento da crítica social.
b) demonstra que a consciência ecológica do escritor já era
desenvolvida o bastante para fazê-lo rejeitar, ao longo de toda a
narrativa, as intervenções humanas no meio natural.
c) guarda aspectos conservadores, predominantemente voltados
para a estabilidade social, embora o escritor mantenha, em certa
medida, a prática da ironia que o caracteriza.
d) serve de pretexto para que o escritor critique, sob certos
aspectos, os efeitos da revolução industrial e da urbanização
acelerada que se haviam processado em Portugal nos primeiros
anos do Século XIX.
e) veicula uma sátira radical da religião, embora o escritor simule
conservar, até certo ponto, a veneração pela Igreja Católica que
manifestara em seus primeiros romances.
Pode-se afirmar que o enlace amoroso entre Jerônimo e Rita,
próprio à visão naturalista, consiste
a) na condenação do sexo e conseqüente reafirmação dos preceitos
morais.
b) na apresentação dos instintos contidos, sem exploração da plena
sexualidade.
c) na apresentação do amor idealizado e revestido de certo
erotismo.
d) na descrição do ser humano sob a ótica do erótico e
animalesco.
e) na concepção de sexo como prática humana nobre e sublime.
09. (UFV-MG) Leia o texto abaixo, retirado de O Cortiço, e faça o que
se pede:
Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os
olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.
Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada, sete
horas de chumbo.
[…].
O rumor crescia, condensando-se; o zunzum de todos os dias
acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só
ruído compacto que enchia todo o cortiço. Começavam a fazer
compras na venda; ensarilhavam-se discussões e rezingas; ouviamse gargalhadas e pragas; já se não falava, gritava-se. Sentia-se
naquela fermentação sangüínea, naquela gula viçosa de plantas
rasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente
da vida, o prazer animal de existir, a triunfante satisfação de
respirar sobre a terra.
12. FUVEST 2011 Considere a seguinte alienação: Ambas as obras
criticam a sociedade mas apenas a segunda milita pela subversão da
hierarquia social nela representada. Observada a sequência, essa
afirmação aplica-se a
a) A cidade e as serras e Capitães da areia.
b) Vidas secas e Memórias de um sargento de milicias.
c) O cortiço e Iracema.
d) Auto da barca do inferno e A cidade e as serras.
e) Iracema e Memórias de um sargento de milícias.
AZEVEDO, Aluísio. O cortiço. 15. ed. São Paulo: Ática, 1984. p. 28-29.
13. FUVEST 2011 Como não expressa visão populista nem elitista, o
livro não idealiza os pobres e rústicos, isto é, não oculta o dano
causado pela privação, nem os representa como seres desprovidos
de vida interior; ao contrário, o livro trata de realçar, na mente dos
desvalidos, o enlace estreito e dramático de limitação intelectual e
esforço reflexivo.
Essas afirmações aplicam-se ao modo como, na obra
a) Auto da barca do inferno, são representados os judeus,
marginalizados na sociedade portuguesa medieval.
b) Memórias de um sargento de milícias, são figuradas Luisinha e
as crias da casa de D. Maria.
c) Dom Casmurro, são figurados os escravos da casa de D. Glória.
d) A cidade e as serras, são representados os camponeses de
Tormes.
e) Vidas secas, são figurados Fabiano, sinha Vitória e os
meninos.
Assinale a alternativa que NÃO corresponde a uma possível leitura
do fragmento citado:
a) No texto, o narrador enfatiza a força do coletivo. Todo o cortiço
é apresentado como um personagem que, aos poucos, acorda
como uma colméia humana.
b) O texto apresenta um dinamismo descritivo, ao enfatizar os
elementos visuais, olfativos e auditivos.
c) O discurso naturalista de Aluísio Azevedo enfatiza nos
personagens de O Cortiço o aspecto animalesco, “rasteiro” do
ser humano, mas também a sua vitalidade e energia naturais,
oriundas do prazer de existir.
d) Através da descrição do despertar do cortiço, o narrador
apresenta os elementos introspectivos dos personagens,
procurando criar correspondências entre o mundo físico e o
metafísico.
e) Observa-se, no discurso de Aluísio Azevedo, pela constante
utilização de metáforas e sinestesias, uma preocupação em
apresentar elementos descritivos que comprovem a sua tese
determinista.
14. FUVEST 2011 Tendo em vista o conjunto de proposições e teses
desenvolvidas em A cidade e as serras, pode-se concluir que é
coerente com o universo ideológico dessa obra o que se afirma em:
a) A personalidade não se desenvolve pelo simples acúmulo
passivo de experiências, desprovido de empenho radical, nem,
tampouco, pela simples erudição ou pelo privilégio.
b) A atividade intelectual do indivíduo deve-se fazer acompanhar
do labor produtivo do trabalho braçal, sem o que o homem se
infelicita e desviriliza.
c) O sentimento de integração a um mundo finalmente
reconciliado, o sujeito só o alcança pela experiência
avassaladora da paixão amorosa, vivida como devoção
irracional e absoluta a outro ser.
10. (ITA) Leia as proposições acerca de O Cortiço.
I. Constantemente, as personagens sofrem zoomorfização, isto é, a
animalização do comportamento humano, respeitando os
preceitos da literatura naturalista.
II. A visão patológica do comportamento sexual é trabalhada por
meio do rebaixamento das relações, do adultério, do
lesbianismo, da prostituição etc.
22
d) Elites nacionais autênticas são as que adotam, como norma de
sua própria conduta, os usos e costumes do país profundo,
constituído pelas populações pobres e distantes dos centros
urbanos.
e) Uma vida adulta equilibrada e bem desenvolvida em todos os
seus aspectos implica a participação do indivíduo na política
partidária, nas atividades religiosas e na produção literária.
objetos que a cercavam. Pondo em jogo as broncas paixões do
idiota, e colhendo os rudes germes de idéia que se formavam em
seu bestunto, obteve ela afinal transformar a carta do abecê em
uma família, em um mundo, para a existência enfezada dessa
mísera criatura. Ao cabo de um mês, conhecia Brás todo o
abecedário.
18. No Romance Til, expoente do Romantismo, muitos personagens
são idealizados em coragem, beleza e força. Como exemplo de
personagem com força e habilidades físicas excepcionais do
romance está:
a) Luis Galvão, dono da fazenda, que luta contra os que o tentam
assassinar numa emboscada e os vence.
b) Berta que não sofre danos ao fugir de uma manada de porcos
selvagens, por correr velozmente.
c) Miguel, excelente caçador e famoso pela força.
d) Bugre ou Jão Fera, homem enorme, contratado como capanga
para executar mortes e trabalhos afins.
15. FUVEST 2012 Tendo em vista o conjunto de proposições e teses
desenvolvidas em A cidade e as serras, pode-se concluir que é
coerente com o universo ideológico dessa obra o que se afirma em:
a) A personalidade não se desenvolve pelo simples acúmulo
passivo de experiências, desprovido de empenho radical, nem,
tampouco, pela simples erudição ou pelo privilégio.
b) A atividade intelectual do indivíduo deve-se fazer acompanhar
do labor produtivo do trabalho braçal, sem o que o homem se
infelicita e desviriliza.
c) O sentimento de integração a um mundo finalmente
reconciliado, o sujeito só o alcança pela experiência
avassaladora da paixão amorosa, vivida como devoção
irracional e absoluta a outro ser.
d) Elites nacionais autênticas são as que adotam, como norma de
sua própria conduta, os usos e costumes do país profundo,
constituído pelas populações pobres e distantes dos centros
urbanos.
e) Uma vida adulta equilibrada e bem desenvolvida em todos os
seus aspectos implica a participação do indivíduo na política
partidária, nas atividades religiosas e na produção literária.
19. Leia o trecho e responda:
Apenas afastou Berta a faxina que servia de porta ao cercado, saiu
debaixo de sua palhoça uma galinha sura e muito arrepiada. Não
tinha pés a pobre, que lhos haviam roído à noite os ratos; andava
aos trancos, sobre os cotos que mal a ajudavam a saltar, e
incapazes de sustê-la, a deixavam cair a cada passo, cobrindo-a de
terra, o que a fazia mais feia ainda.
Tanto que a avistou, correu a menina a seu encontro e tomando-a
ao colo, deu-lhe a comer um punhado de milho que tirou do saco.
Farta a galinha da sua pitança, levou-a Berta à bica, para matarlhe a sede, e lavar-lhe as penas sujas de poeira e cisco.
Depois que assim desvelou-se em pensar a pobre ave, dando-lhe a
nutrição e asseio, a menina a deitou na palhoça, que a seu rogo
fizera Miguel num canto do cercado, para abrigo de sua protegida.
Nos gestos de Berta, durante esses cuidados, já não se notava a
travessa alacridade que cintilava de ordinário em seus
movimentos; e era, pode-se bem dizer, a radiação de seu gênio.
Sua graça então era séria; havia em seu lindo semblante uma
serena efusão da ternura que fluía-lhe dos olhos meio vendados, e
dos lábios descerrados por um riso gentil.
Caracterize a personagem Berta em relação ao caráter e jeito,
explique como isso se interliga ao contexto literário do romance.
16. Leia o trecho abaixo, do romance Til de José de Alencar e
identifique características da prosa regionalista. Justifique com
trechos:
Àquela hora da manhã, projetava a casa larga sombra para o
oitão voltado ao poente.
Nessa fresca penumbra, que recatava da estrada uma cerca de
estacas de cambuís já enramadas, acomodou-se Berta para passar
a sesta, que se aproximava. Daí avistava-se por uma ogiva rendada
que abria a folhagem em arabescos, o caudal Piracicaba,
adormecido no regaço da campina.
Sentara-se a menina em um pedaço de alto pranchão, que aí
tinham colocado para servir de banco; e suas mãos sutis e ligeiras
tomavam o ponto às meias, ou serziam e remendavam a outra
roupa lavada, que precisava de conserto e enchia o balaio posto a
seu lado na ponta do tabuão.
Leia o trecho a seguir, para responder as questões 20 a 27.
“Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião te vou explicar como nós
hoje em dia fazemos a nossa literatura. Já me não importa guardar
segredo; depois desta desgraça, não me importa já nada. Saberás,
pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler.
Trata-se de um romance, de um drama. Cuidas que vamos estudar
a História, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulcros,
os edifícios, as memórias da época? Não seja pateta, senhor leitor,
nem cuide que nós o somos. Desenhar caracteres e situações do
vivo da natureza − colori-los das cores verdadeiras da História…
Isso é trabalho difícil − longo − delicado; exige um estudo, um
talento, e sobretudo um tacto!… Não, senhor, a coisa faz-se muito
mais facilmente. Eu lhe explico.
− Todo o drama e todo o romance precisa de: Uma ou duas damas,
Um pai, Dois ou três filhos de dezanove a trinta anos, Um criado
velho, Um monstro, encarregado de fazer as maldades, Vários
tratantes, e algumas pessoas capazes para intermédios.
Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eugénio
Sue, de Vítor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras
que precisa, gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda,
verde, pardo, azul – como fazem as raparigas inglesas aos seus
álbuns e scrap-books; forma com elas os grupos e situações que
lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados.
Depois vai-se às crônicas, tiram-se uns poucos de nomes e
palavrões velhos; com os nomes crismam-se os figurões; com os
palavrões iluminam-se… (estilo de pintor pinta-monos). – E aqui
está como nós fazemos a nossa literatura original.”
(Capítulo. V – fragmento) in Garrett, Almeida. “Obra Completa –
I”)
17. Durante um dos capítulos José de Alencar cria uma belíssima cena
em que Berta ensina o ABC para Brás. Neste contexto, a psicologia
utilizada por Berta no capitulo se assemelha com ideais do
pedagogo Paulo Freire sobre a alfabetização de adultos. Releia o
trecho e explique no que consiste o método de ensino utilizado pela
personagem.
Nisso o Brás pulando como um boneco de engonço, passava a
ponta do dedo mui de leve pelas sobrancelhas negras de Berta, por
seus lábios finos, pela conchinha mimosa da orelha; e, apontando
alternadamente para o til na carta do abecê, repinicava as risadas
e os corcovos. Iluminou-se de súbito o coração de Berta. (…) o
primeiro balbucio da inteligência bôta se dirigia a ela, como o
primeiro vagido da criancinha no berço chama pela mãe.
Associando-se a lembrança original do idiota, disse-lhe a menina,
ajudando a palavra com mímica expressiva e apontando para a
carta.
— Eu sou til!
Esteve Brás um instante pasmo e boquiaberto, sem compreender,
apesar da ânsia com que afinal bateu palmas de contente e deitou a
pular, regougando a sua parva risada. (…)
Com um repente, mostrou-lhe Berta a carta, pondo o dedo sobre o
a.
— A este!…
Pela primeira vez reparou o rapaz na forma da letra, que se lhe
gravou na memória.
— Hanh?… tartamudeou ele ofegante.
— Afonso! (…)
Assim em torno dela, que era o til, Berta foi engenhosamente
agrupando todas as letras do alfabeto, com os nomes das pessoas e
Almeida Garrett (1799-1854), que pertenceu à primeira fase do
romantismo português, é poeta, prosador e dramaturgo dos mais
importantes da Literatura Portuguesa. Em Viagens na Minha Terra
23
(1846), mistura, em prosa rica, variada e espirituosa, o relato
jornalístico, a literatura de viagens, as divagações sobre temas da
época e os comentários críticos, muitas vezes mordazes, sobre a
literatura em voga, no período. Releia o texto que lhe apresentamos
e, a seguir, responda:
10. A 11. C 12. A 13. E 14. A 15. A
16. O autor buscava descrever uma localidade de maneira a mostrar
como a vida de seus habitantes estava intimamente ligada ao meio
físico no qual viviam. No trecho verifica-se a descrição da natureza
da região associada ao humano – a roupa rendada de Berta “abria a
folhagem em arabescos, o caudal Piracicaba, adormecido no regaço
da campina”.
17. Berta ensina as letras para Brás por associações, pois percebe que
pode interligar um fonema como A `a uma ideia do cotidiano de
seu ‘aluno’ no caso Afonso, que é seu primo. Berta tem essa
resolucao apos ver que o menino vê semelhança entre sua
sobrancelha e o acento til. Isso se assemelha aos princípios de
Freire, que prega que a alfabetização de adultos deve ser baseada
no universo e cotidiano do estudante.
18. D
19. Til é uma moça “pequena, esbelta, ligeira, buliçosa” que se envolve
nas mais intricadas tramas, sempre buscando ajudar os que
precisam. Trata-se do ideal de heroína: doce, meiga, caridosa, mas
também de coragem e impetuosidade únicas na literatura brasileira.
Capaz de enfrentar jagunços, Berta não mede esforços ao buscar a
realização de seus intentos. Possui uma extrema generosidade aos
marginalizados e sofridos, como Zana, Brás e a Galinha sem
pernas.
20. Refere-se aos gêneros literários românticos (na prosa) e ao drama
(no teatro).
21. Segundo Garrett, tais escritores não desenvolvem literatura
original, recorrendo a fórmulas prontas de como escrever – ” Todo
o drama e todo o romance precisa de: Uma ou duas damas, um pai
(…)” – e a elementos de outras literaturas – “vai-se aos figurinos
franceses de Dumas, de Eugenio Sue, de Victor Hugo, e recorta a
gente”. Trata-se de uma critica ao modo de produção literária de
sua época.
22. O autor usa a segunda pessoa do singular como pronome de
tratamento (tu), que no português ”de Portugal” é mais informal,
como acontece no trecho “te vou explicar”; e também utiliza um
vocabulário informal como em “não seja pateta, senhor leitor, nem
cuide que nos o somos”.
23. A ironia consiste no fato de o autor explicar nos parágrafos
precedentes a “fórmula pronta” utilizada para escrever prosa, o que
acaba com a originalidade. A crítica dirige-se aos escritores da
estilo da época - o Romantismo – especialmente `a literatura de
folhetim.
24. O leitor pressuposto por Garrett é ingênuo – iludido com os
princípios literários da época - o que pode ser percebido em “não
seja pateta, senhor leitor”, isso porque esse leitor se engana quanto
a originalidade das obras. Já Machado de Assis trata seu leitor
como ávido, que busca chegar logo ao desfecho da narrativa, algo
identificado no contexto do Realismo (que buscava a escrita direta,
objetiva e cientifica), o que é visto em “tu amas a narração direta e
nutrida”.
25. O narrador, Brás Cubas, trabalha com a primeira pessoa na
narração, assim utiliza “deste livro” referindo-se ao objeto que
encontra-se próximo a ele enquanto escreve. Quando se refere ao
mundo, utiliza “esse” porque o assunto/objeto está próximo ao
leitor, tratado como segunda pessoa.
26. A beleza e estética românticas são baseadas na expressão dos
sentimentos e emoções do sujeito. Nesse contexto, a natureza é um
modo de representação do estado de espirito do sujeito. “Como há
de ser belo ver o por-do-sol daquela janela” exemplifica o tom
alegre da passagem em que Garrett descreve a casa da menina dos
rouxinóis.
27. Segundo as normais atuais, o uso de “meia” está desviado, pois na
norma culta o advérbio nao concorda com o substantivo, no caso ”
janela ” e o padrão seria ” janela meio aberta”. Cabe observar que
na época em que o livro foi publicado essa norma não existia.
20. (Vunesp-SP) A que gêneros literários se refere Almeida Garrett?
21. (Vunesp-SP) Quais os principais defeitos, segundo Garrett, dos
escritores que elaboravam obras de tais gêneros?
22. (Vunesp-SP) No texto apresentado, Garrett dirige-se mais de uma
vez ao leitor, de maneira informal e descontraída, como se estivesse
dialogando com ele. Baseando-se nessa informação, mostre de que
modo o tom de informalidade se revela também nas formas de
tratamento gramatical que o escritor usa para dirigir-se ao leitor.
23. Em que consiste a ironia do trecho ” E aqui está como nos fazemos
a nossa literatura original”, no final do texto transcrito?
Leia o trecho a seguir, para responder as questões 24 e 25.
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não
tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos
para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da
eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa
contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior
defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o
livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo
regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios,
guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram,
gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…
E caem! — Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como
quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia
uma lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que,
se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar…
Heis de cair.
Machado de Assis, Memórias
Póstumas de Brás Cubas.
24.Tanto no texto de Almeida Garrett como no de Machado de Assis,
ocorre Metalinguagem, e ambos os autores, além de tecer
comentários acerca de literatura, dirigem-se a seus leitores, cada
qual pressupondo um tipo de leitor. Comente acerca do tipo de
leitor que Garrett e Machado tem em mente quando tecem seus
comentários.
25. No texto de Machado de Assis, explique o emprego dos pronomes
demonstrativos este e esse nos trechos “ Começo a arrepender-me
deste livro “expedir alguns magros capítulos para esse mundo”,
considerando a relação espacial que esses pronomes evidenciam.
Leia o trecho a seguir, para responder as questões 26 e 27.
Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro
das árvores a janela meia aberta de uma habitação antiga mas não
delapidada (…) Interessou-me aquela janela.Quem terá o bom
gosto e a fortuna de morar ali?
Parei e pus-me a namorar a janela. Encantava-me, tinha-me ali
como num feitiço. Pareceu-me entrever uma cortina branca… e um
vulto por detrás… Imaginação decerto! Se o vulto fosse
feminino!… era completo o romance.
Como há-de ser belo ver pôr o Sol daquela janela!…E ouvir cantar
os rouxinóis!…E ver raiar uma alvorada de Maio!…
Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra (Capitulo X)
26. (Fuvest-SP) Com dados extraídos do texto, explique o papel da
natureza na estética romântica.
27 . “Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro das
árvores a janela meia aberta de uma habitação antiga mas não
delapidada” – Comente o emprego da palavra meia, `a luz das
normas gramaticais atuais.
01. C 02. E 03. B 04. E 05. D 06. C 07. D 08. D 09. E
24

no quarto de Linda. Fica na sádica espreita. Mas ele não contava que
enquanto isso Pai Quicé se encontrara com Berta, a quem contara a
caçada que estavam armando contra Jão Fera. A menina, preocupada,
resolve avisar o perseguido. Antes precisa pegar um chapéu que está no
quarto de Linda. Quando entra no cômodo, vê o réptil e dá um grito.
Brás, diante dessa cena, tem uma convulsão e cai da árvore. Termina
aqui o Segundo Volume.
O Terceiro Volume interrompe o fluxo narrativo fazendo um
flashback para 1826. Fala-se do misterioso aparecimento, alguns anos
antes, nas terras de Afonso Galvão (pai de Luís Galvão), de uma
criança de pouco mais de um ano. Adotam-na e dão-lhe o nome de Jão
Bugre. Torna-se então companheiro de infância e juventude de Luís
Galvão, servindo-lhe como guardacostas, já que o filho do fazendeiro
tinha, quando jovem, um comportamento inconsequente, arranjando
sempre confusão, que o amigo tinha de resolver.
Nesse tempo residia nas imediações uma jovem que encantava
todos os homens: Besita. Bugre e Afonso interessaram-se por ela, o
primeiro, de forma submissa; o segundo, de maneira aventuresca
apenas. Jão, apesar de extremamente triste ao saber da concorrência do
amigo, que imagina superior, insiste para que o companheiro assuma
algo sério com a moça, o que é recusado. Pouco depois a menina tornase noiva de Ribeiro, um sujeito que passava por ali. Bugre fica tão
decepcionado que abandona a casa dos Galvão. Ribeiro, assim que se
casa, parte em viagem para salvar a fortuna de sua família. Deixa a
esposa por meses abandonada em uma fazendola, tendo a coitada
apenas como companhia a escrava Zana. Esta uma noite abre a casa
para um homem, crendo ser o patrão que finalmente retornava. Quando
o sujeito foge, a jovem declara à negra que havia acontecido uma
desgraça: o invasor era Luís Galvão. Para agravar a situação, daquela
conjuração carnal havia ficado como consequência uma gravidez.
Nascia Berta.
Muitos meses depois, Besita imagina ter visto no meio do mato o
rosto de Ribeiro. Chama Zana, a qual, para tentar salvar a reputação de
sua patroa, pega Berta
no colo, vai até o fogão, passa pó de carvão no bebê e coloca-se na
frente da casa, ninando a criança – quer que o patrão pense que a
menina é filha da escrava. Trabalho inútil: o marido desonrado havia
esganado a esposa com os próprios cabelos dela. Justo naquele dia o
sempre protetor Jão Bugre estava ausente. Tinha ido buscar uma
encomenda para a amada.
Mas chega a tempo de ver os últimos momentos de vida de Besita.
Zana enlouquece diante disso. Berta acaba sendo adotada por Nhá
Tudinha. O ódio do Bugre aumenta, ainda mais porque o assassino
conseguira escapar. Infeliz no amor e no desejo de vingança, entrega-se
ao banditismo, tornando-se Jão Fera. Quinze anos depois Ribeiro volta
ao Brasil. Assume como nome um apelido que lhe haviam dado por
causa de uma irrupção que tinha tomado o seu rosto: Barroso.
Terminado esse recuo no tempo, a narrativa retorna ao ponto em
que havia sido interrompida: Berta diante de uma cascavel. A moça
consegue surpreendentemente hipnotizar a cobra, que, mansa, sobe em
seu braço e acaba repousando no colo da garota. O transe só é desfeito
quando Brás, recuperado, invade o quarto e some com o réptil. Retirada
do seu transe, Berta não quer mais perder tempo. Junta-se a Pai Quicé e
vai à procura de Jão Fera para avisá-lo do risco que corre. Entretanto,
acaba se vendo mergulhada numa sequência vertiginosa de perigos: um
bando de ferozes queixadas, o cerco dos homens de Filipe e Gonçalo, a
sanha sexual de Fera e até o assédio de Afonso, que insiste em roubar
um beijo. Por fim, ela acaba por dá-lo no rosto do rapaz, o qual acaba
enciumando Miguel, que os estava espreitando. Berta consegue provar
que não havia motivo para amuo do magoado rapaz, pois arranca dele a
confissão de que gosta de Linda, declaração que é providencialmente
ouvida por esta, que estava oculta no mato. Termina assim o Terceiro
Volume.
O Quarto Volume inicia-se relatando a tão esperada festa de São
João, em que a paixão entre Linda e Miguel se fortalece. Entretanto, D.
Ermelinda, já chateada por ter ouvido uma ironia sobre o passado
nebuloso de Luís Galvão com Besita, flagra o casal recém-formado e
decide dar um fim àquela união que considerava inadequada.
Terminada a festa, Barroso, Gonçalo e dois empregados de Luís
Galvão aparecem para pôr o plano maligno em ação. Trancam escravos
e empregados, incendeiam o canavial, o que é suficiente para atrair o
proprietário, que, enquanto tenta salvar suas posses, recebe um golpe na
cabeça que o deixa desacordado. Entretanto, Jão Fera surge para
impedir que o crime se concretize. Mata os malfeitores, menos Ribeiro,
que consegue escapar.
Resumo De Til
No início do Primeiro Volume de Til, os jovens Berta1 e Miguel
caminham alegres pela vegetação exuberante entre os rios Piracicaba e
Atibaia, em Santa Bárbara, interior de São Paulo. É junho de 1846. No
caminho veem o bandido Jão Fera, que, com sua feição inamistosa,
parece estar planejando uma tocaia. Quando o casal chega a um belo e
tranquilo lago, chamado Tanquinho, encontrase com os gêmeos Afonso
e Linda, filhos do fazendeiro Luís Galvão. Estes mencionam a viagem
que o pai está fazendo em direção a Campinas e dos pressentimentos da
mãe, D. Ermelinda, aguçados ainda mais com o fato de Jão Fera ter
sido visto várias vezes nos arredores.
As suspeitas de Berta e Miguel aumentam, ainda mais por causa do
encontro recente com o bandido. Na verdade, o narrador nos informa
que um indivíduo chamado Barroso havia contratado por quarenta milréis um assassinato a Jão Fera, que de imediato aceitou. Era o seu
ofício. O problema é que só depois de ter gastado o dinheiro o
contratante procurou saber quem seria a vítima, informação que o
desagradou. Tenta arranjar dinheiro para se livrar da obrigação, mas
não consegue. Só lhe resta cumprir sua palavra, ainda que a
contragosto. O prazo máximo era a noite de São João.
Berta, diante das declarações dos gêmeos, infere o que está por
acontecer e por isso resolve agir. Intercepta o bandido e consegue
arrancar dele a confirmação dos fatos, o que a deixa indignada, ainda
mais por se tratar de uma mera transação comercial. A menina oferece
então o relicário de sua falecida mãe ao bandido para que este o venda
e levante a quantia que o desobrigue de tal atroci dade. Quando o
capanga reconheceu o objeto que a menina tirou do pescoço, saiu
correndo aos berros pelo mato, sumindo de vista. Termina assim o
Primeiro Volume.
O Segundo Volume inicia-se com Berta cuidando de uma galinha e
de um burro decrépitos e depois de uma velha e louca escrava chamada
Zana. São cenas que demonstram o espírito caridoso da protagonista. O
curioso é que toda vez que a menina ficava na tapera da anciã, vê-la
repetir um ritual que parecia ser a origem de sua insanidade: atendia a
um chamado imaginário, voltava-se para a janela, parecia ver alguma
coisa no mato, espantava-se, pegava algo no colo, aproximava-se do
que tinha sido um fogão, de lá pegava o que parecia esfarinhar na
palma da mão e depois passar na suposta criança; então ia para a frente
da casa, ninava o que carregava, até que voltava para a tapera, olhava
para dentro dela e terminava por, dominada pelo terror, cair dura como
uma pedra.
O narrador desloca sua atenção para a pousada de Chico Tinguá. Lá
está o falastrão Gonçalo, que se arrogou o valente apelido de Suçuarana
(um tipo de onça), mas que o povo da região zombeteiramente chamava
de Pinta, numa referência às manchas que tem no rosto. Surge então um
grupo de caipiras comandados por Filipe. Estão à caça de Jão Fera, cuja
cabeça foi dada a prêmio por ter assassinado o pai de um fazendeiro.
Gonçalo, dominado pela inveja que sente do capanga, alia-se a esse
povo. Tinguá escorraça um bacorinho (filhote de leitão). Pouco depois
se ausenta do estabelecimento. Disfarçadamente vai seguir o
animalzinho, que o guiará ao bandido.
O narrador passa seu foco para a casa humilde de nhá Tudinha, mãe
adotiva de Berta. Enquanto a senhora estava ocupada em fazer doces
para a festa de São João, a menina apareceu com Brás, o sobrinho órfão
de Luís Galvão. Era um epiléptico e doente mental que não aprendia
quase nada do trato social. A única pessoa que obtinha influência em
sua alma era Berta, por quem ele nutria adoração ciumenta e
possessiva. A menina conseguira triunfantemente ensinar-lhe o
abecedário, a Ave-Maria e a Salve-Rainha.
Volta-se a história para a pousada de Chico Tinguá. É quando
aparece Barroso. Quer tomar satisfações com o vendeiro, pois fora este
que havia indicado Fera para um serviço que não se concretizara – e
que o leitor já tem noção do que se trata: o assassinato de Luís Galvão.
Pinta intromete-se no assunto e oferece seus préstimos. Tudo na venda
fora acompanhado às ocultas por um escravo de idade avançadíssima:
Pai Quicé.
A narrativa transfere-se para o drama dos esforços inúteis de Jão
Fera na captação de dinheiro para se livrar da obrigação assumida com
Barroso. Logo depois, acompanhamos as ações de Brás, que inicia um
plano maligno. Pega uma cobra, sobe em uma árvore e atira a serpente
25
A narrativa passa por uma série de desvios que servem para
aumentar a expectativa sobre o clímax que está por ocor rer. Jão Fera se
entrega ao fazendeiro que tinha posto sua cabeça a prêmio. Só assim
conseguiu o dinheiro para se desobrigar do trato acertado com Barroso.
Mas, como os capangas tentam amarrar o facínora, o que não estava no
trato da rendição, sente-se livre de mais esse compromisso. Volta a
Santa Bárbara a tempo de flagrar o obstinado e vingativo Ribeiro quase
pondo a mão sobre Berta, vista por este como o fruto do adultério de
Besita. É o momento em que o capanga reconhece a verdadeira
identidade de Barroso. Mata-o com suas próprias mãos, o que deixa a
menina tão desgostosa que o expulsa de sua presença.
livre operariado inglês. É por isso que vemos nas terras de Luís Galvão
a mão de obra negra realizando suas tarefas em meio ao canto e outras
benesses, numa tentativa do prosador de passar ao leitor a ideia de que
a relação entre senhores e escravos seria harmoniosa e benéfica.
Retrata os costumes, a linguagem e a vida rural da época, e segue
os moldes românticos, abordando a inocência, o amor, a fragilidade, a
idealização da natureza e a subjetividade.
Escrita em 1872 por José de Alencar, Til pertence à fase
regionalista do autor. Na obra, são retratados os costumes, a linguagem
e a vida rural da época abordando a inocência, o amor, a fragilidade, a
idealização da natureza e a subjetividade.
Decepcionado, Fera entrega-se à polícia em Piracicaba, na época
Vila da Constituição. É lá que reencontra a protagonista, que já o
perdoara. Por isso escapa da prisão, disfarçado em caiapó. Antes de
sumir, faz questão de separar Afonso de Berta, aludindo de maneira
enigmática ao passado de Luís Galvão e Besita, o que D. Ermelinda
ouve. E já no caminho de volta, Zana toca também nesse passado,
confundindo filho com o pai. O fazendeiro sente a obrigação de
confessar à esposa essa parte nefasta de seu histórico. A mulher
mergulha em uma silenciosa crise que dura uma noite. No dia seguinte,
declara a necessidade de assumir Berta como filha deles. Entretanto, a
menina recusa, ainda mais depois que consegue que Jão Fera conte
tudo o que ocorrera naquela tapera. Ciente de toda a verdade, a menina
diz que a mãe dela estava no céu e seu pai era o capanga. Exige, porém,
que, no lugar do convite dos Galvão para morar com eles, seja
admitido o casamento de Linda com Miguel. É atendida. Por fim, a
família do fazendeiro se muda para São Paulo, para onde vai também
Miguel. Lá ele estudará para poder se unir a Linda. Berta prefere ficar
no interior, cuidando dos desvalidos Brás, Zana e Jão Fera.
O enredo de Til
Em um passeio pela fazenda, Berta - jovem pequena, esbelta - e
Miguel - alto, ágil e robusto - encontram Jão Fera, com fama de
bandido. Após um desentendimento entre eles, Jão vai embora a pedido
da menina. Os dois amigos vão ao encontro de Linda e Afonso, irmãos
gêmeos e filhos de Luís Galvão, homem inteligente, e de Ermelinda.
Linda ama Miguel, mas Berta e Miguel já se amam.
Contudo, para não ver o sofrimento da amiga, Berta faz de tudo
para que Miguel fique com Linda. Todos gostavam muito de Berta apelidada de Til -, pois era alegre e de bom coração. Num outro trecho
da obra, ela visita constantemente Zana, uma mulher com problemas
mentais. Brás, menino de 15 anos, também com problemas mentais
tentar matar Zana por sentir ciúme de Berta, mas não consegue.
A história é marcada por tentativas de assassinatos. Pelo assassinato
de Aguiar, seu filho oferecera uma recompensa a quem matar o
assassino Jão Fera. Já o personagem Barroso e seu bando planejam
provocar um incêndio na casa de Luis Galvão para matá-lo e, depois,
apagando o incêndio Barroso pretende oferecer seus serviços à viúva e
conquistá-la, vingando assim a traição do passado, pois ficaria com a
esposa daquele que manchara a honra de sua esposa Besita.
Ribeiro que trocara seu nome para Barroso tinha agora uma
irrupção no rosto, Jão e Ribeiro tinham-se visto poucas vezes na época
de Besita, por isso não se reconheceram quando se encontraram.
À noite João, Gonçalo, o pajem Faustino e Monjolo, trancam a
senzala e ateiam fogo no canavial, Luis tenta apagar o fogo e é
agredido pelas costas por Gonçalo, mas Jão o salva, e mata os três
bandidos. Barroso foge e, conforme o combinado, Jão se entrega ao
filho de Aguiar, diz que irá pra onde ele quiser desde que ninguém
toque nele, pois se isso acontecer este desfeito o acordo e ele estará
livre novamente. Os capangas tentam amarrá-lo, ele espanca todos e vai
embora. Barroso que ficara sabendo dessa prisão volta para tentar matar
Berta, Jão que estava solto novamente consegue pegá-lo e o mata de
forma violenta.
Brás que presenciara tudo leva Berta pra ver a cena, mas ela foge
horrorizada, enquanto Jão se entrega a policia. Luís resolve contar tudo
a esposa, ela chora e decide que ele deve reconhecer Berta como filha.
Eles contam tudo a Berta, omitindo, porém as circunstâncias
desagradáveis, Berta sente que estão escondendo algo.
Jão foge da prisão e procura Berta, ela o faz prometer que nunca
mais matará ninguém. Ele fala de Besita sua mãe e ela lhe implora que
conte tudo. Ele assim o faz, revelando que Besita casou-se com Ribeiro
que desapareceu logo depois do casamento. Alguns meses depois,
Besita é avisada por Zana que seu marido chegara.
Como era noite, no escuro ela se entrega às caricias do marido, e
depois descobre que não era ele e, sim, Luís Galvão. Jão pensa em
matá-lo por isso, mas ela o impede. Meses depois Luís casa-se com D.
Ermelinda e nasce Berta, filha de Besita.
Um dia Besita pede a Jão que vá comprar coisas para o bebê.
Durante sua ausência, aparece Ribeiro, que a acusa de traição e a
estrangula. Neste momento, Jão chega e consegue salvar Berta, mas
Ribeiro foge.
Luís quer que Berta vá morar com ele e sua família em São Paulo,
mas ela se nega e pede que leve Miguel que ama Linda. Miguel tenta
convencê-la a ir junto, mas ela recusa, ficando no interior.
2. BREVE ANÁLISE
Publicado primeiramente em folhetim no jornal A República entre
1871 e 1872, Til obteve bastante sucesso. Sua linguagem idealizada, a
descrição rebuscada da paisagem, os relacionamentos amorosos leves e
inocentes, além do ritmo ágil das aventuras foram alguns dos
ingredientes que conquistaram de imediato os leitores. De
fato, Alencar demonstra um valioso domínio da técnica narrativa,
pois construiu sua trama em 62 capítulos, os 31 primeiros apresentando
fatos que vão se tornando cada vez mais complicados, o que prende a
curiosidade, seduzida pelos mistérios que se lhe vão apresentado; os 31
seguintes dedicando-se a desenrolar os nós da primeira metade do
romance, o que atrai ainda mais a atenção, que vai vendo todos os
mistérios sendo desvendados.
Pelo fato de sua história se passar no interior de São Paulo, Til é
reconhecidamente rotulado como romance regionalista, tendo, portanto,
como preocupação a descrição dos costumes daquela localidade, o que
acaba por contribuir com mais uma faceta do painel de nossa
nacionalidade que Alencar pretendia erigir.
Mas há de se observar também que se encontra no presente
romance o arquétipo da Bela e a Fera. Berta, que encarnaria o primeiro
elemento desse par, possui uma força extraordinária de amor e
bondade, sendo capaz de melhorar a vida de todos que a cercam. Ela
apura o caráter de Miguel, fazendo-o merecedor de Linda. É
responsável também pela criação do amor desse casal. É também quem
apazigua os desvalidos Brás e Zana. Por fim, resgata da criminalidade
Jão Fera, o segundo elemento do par arquetípico e que mergulhara no
banditismo não por maldade natural, mas por ser vítima das
circunstâncias amorosas.
Deve-se ainda dar atenção em Til às manifestações do grotesco, da
maldade. Por um lado essa exibição de taras, anomalias, perversões
pode revelar um desencantado Alencar utilizando-se de um expediente
comum entre os românticos. É o que, por exemplo, também ocorreu
quando Victor Hugo, um dos escritores prediletos de Alencar, criou O
Corcunda de Notre-Dame. Por outro lado, essa malignidade
assombrosa pode também ser uma alegoria das forças negativas que
precisavam ser domadas para que finalmente aquele recanto brasileiro
encontrasse a elevação para se integrar à civilização.
Por fim, é importante observar como a escravidão é abordada em
Til. Sabe-se que Alencar assumira a postura conservadora de defesa do
regime forçado de servidão, que considerava um mal necessário, mas
temporário, para o desenvolvimento de nossa economia. Seu romance
vaise tornar, portanto, um libelo escravista, corroborando o argumento
de que os cativos brasileiros viviam em uma situação melhor que a do
Os personagens de Til
A principal personagem da obra é Berta, que recebeu o apelido de
Til, pois quando aprendeu a ler achava o acento til gracioso. Miguel é
um rapaz robusto e apaixonado por Berta. Jão Fera tem fama de
bandido, mas é o personagem que salva Berta e Luis Galvão, dono da
fazenda em que a história é ambientada.
26
Personagens redondas- Tudo gira em torno da personagem
principal (Berta).
Jão Fera- Ação de heroísmo.
Síntese de Viagens Til
Til é uma narrativa que envolve os personagens Berta, Miguel,
Linda e Afonso. Eles são adolescentes despreocupados. Regionalista, a
obra supervaloriza o interior do Brasil e da vida bucólica. Til é o
apelido de Berta, a heroína capaz de imensos sacrifícios por um ideal.
5) – Trama- O romance é a história de Berta, uma menina que fica
órfã ainda bebê; sua mãe é assassinada pelo próprio marido, por ciúme
ao saber que não era pai da criança. A menina cresceu inocente de sua
própria história e era uma pessoa muito amável, justa e bondosa. Vivia
com D.Tudinha, uma senhora que a adotou e a amamentou junto com
seu filho Miguel. Berta era muito amiga de Afonso e Linda, ambos,
filhos de Luiz Galvão: grande fazendeiro, e D. Ermelinda. Jão Fera é
um personagem muito importante na trama, pois ele no início é um
“bandido”, assassino e cruel. No decorrer da novela, ele vai se
revelando como um herói. Ele é um guardião para Berta, pois desde
quando ficou órfã, ele a defendera e continuava sempre por perto. Berta
era muito amada por Miguel e Afonso; mas não se decidia por nenhum,
pois Linda era apaixonada por Miguel e sua grande amiga. Berta chega
a convencer Miguel a namorar Linda, embora sinta ciúme. Til, é um
apelido que a própria Berta se dá para facilitar o aprendizado de Brás,
pois era o símbolo que ele mais gostava no alfabeto. Por ser deficiente,
Brás não conseguia aprender com clareza e por isso apanhava de
palmatória nas aulas, e só Berta conseguiu ensiná-lo. Portanto eis o
nome da obra. O romance não se enquadra na característica linear ou
progressivo e sim como vertical ou analítico, pois dá maior ênfase aos
personagens e no drama que eles vivem. Exemplo: Berta é tão marcada
por sua história quando a descobre, que decide não aceitar a
paternidade de Luiz Galvão e sua riqueza e fica com D.Tudinha,
cuidando dos excluídos a sua volta.
Desenvolvimento da obra Til
A história se desenvolve na fazenda no interior de São Paulo em
meio a uma história de amor e descobertas sobre o passado de Berta.
Problemática da obra Til- A filha de Besita é fruto de uma noite
de amor com Luís
Galvão, imaginando que ele é seu marido que voltara de viagem.
Clímax da obra Til- Quando Jão Fera revela o segredo sobre a
mãe de Berta.
Desfecho da obra Til- Luís e a família se mudam para São Paulo,
enquanto Berta fica no interior do estado.
A linguagem de Til- Regionalista.
O espaço/tempo em Til- A história se passa no interior paulista,
em uma fazenda do século XIX.
Narrador e foco narrativo de Til- Obra narrada em terceira
pessoa. Narrador Onisciente.
Contexto histórico de Til- No ano de publicação da obra, o Brasil
estava às voltas com a aprovação da Lei do Ventre Livre, que garantia a
liberdade a filhos de escravos nascidos no Brasil.
6) -Verossimilhança- A ação dos personagens tem grande
importância dentro do romance, pois são eles e principalmente Jão
Fera, que faz a novela acontecer, ele possui um heroísmo fantástico,
exemplo: Consegue vencer uma manada de Caitetus com Berta sobre
os ombros e ainda salva o Pai-Quicé; se entrega à prisão e consegue
sair livre. Por se tratar de fazendeiros, capangas, escravos, lavouras de
cana e café, a trama tem uma semelhança com a verdade, pois isso faz
parte da história do Brasil.
Sobre o autor de Til- José de Alencar nasceu em 1° de maio de
1829, em Mecejana, no Ceará, e faleceu dia 12 de dezembro de 1877,
no Rio de Janeiro. Formou-se advogado escreveu para jornais da época.
Foi eleito deputado federal pelo Ceará e Ministro da Justiça. Alencar
escreveu romances indianistas, urbanos, regionais, históricos, obras
teatrais, poesias, crônicas, romances-poemas de natureza lendária e
escritos políticos. Sua principal obra é Iracema.
7) -Ponto de Vista- A narração do romance é feita em terceira
pessoa. O narrador é onisciente; ele conhece, sabe todos os
pensamentos e planos dos personagens e os revela ao leitor. Não é um
personagem e nem um simples espectador.
1) -Ação- Til, de José de Alencar, é uma obra caracterizada como
romance- novela; possui uma dramaticidade dinâmica. Sua temática é
baseada na época do Brasil Colonial. Embora não tendo, uma sequência
cronológica dos fatos, o romance possui coerência e coesão que torna o
drama compreensível, porém exigindo do leitor muita atenção para não
se perder no decorrer da narração que torna o romance muito
movimentado e em um pequeno espaço de tempo cria inúmeros
acontecimentos envolvendo muitos personagens. Há uma pequena
intertextualidade com as tragédias gregas ao narrar a “Ave-Maria”
,muitas mortes e muitos órfãos interligando assim vários núcleos
existentes no enredo: A família de Guedes, a família de D.Tudinha,
Luiz Galvão, o Tinguá e ainda os capangas : Jão Fera e Gonçalo Pinta.
8) Tipo de romance- Romance aberto- A trama apresenta
características de um romance aberto, Pois o narrador traz ao longo da
história, personagens próximos da realidade, por exemplo: Pessoas
bondosas como Berta, D.Tudinha, e maldosas como Ribeiro e Gonçalo
Pinta, que retratam sentimentos e ações comuns de pessoas reais. O
narrador faz com que o leitor tenha profundas reflexões sobre o
preconceito, a exclusão, a injustiça, e permite ao leitor participar da
trama, pois faz o leitor pensar, refletir pressupor o que irá acontecer em
alguns capítulos, ao mesmo tempo cria “armadilhas” durante seu
“percurso” que pode confundir o leitor se não estiver atento. O leitor
pode ainda continuar imaginando uma sequência mesmo após o final
do romance.
2) –Espaço- Tudo acontece em um lugar chamado Santa Bárbara,
próximo a Campinas no estado de São Paulo, mas o romance faz
referência também à cidade de Itu; à Vila de Piracicaba e à fazenda do
Limoeiro. A floresta, assim como o bar à beira da estrada, o Bacorinho
e o lugar chamado Ave-Maria são recursos particulares dentro do
romance. Os sentimentos que o romance causa no leitor são: Piedade,
indignação e choro e algumas vezes satisfação quando há uma
vingança. O autor se mostra um artista da palavra quando através dela
utiliza de vários adjetivos para reforçar característica das personagens e
lugares fazendo o leitor “viajar em imaginação na história”, e também
quando toca o emocional do leitor.
O Romance não é monofônico e também não é polifônico, pois não
apresenta características. Essa oposição, a monofonia e a polifonia são
observadas por M. Bakhtin como aquelas que se diferenciam no
discurso como verdades fechadas e abertas. O discurso monofônico é
próprio do discurso autoritário, que não permite o diálogo ou a relação
entre o eu e o outro. Em contrapartida, na polifonia, própria da
linguagem poética, a verdade surge como possibilidade discursiva em
diálogo com a multiplicidade de vozes textuais.
3)-Tempo- O narrador utiliza disfarces físicos e mudança de nomes
em seus personagens. De acordo com a chegada de cada personagem na
trama, o tempo é manejado pelo narrador que torna o tempo passado
sempre presente. Portanto o tempo predominante é o psicológico.
4) -Personagens- Personagens planas- Não tem iniciativa, não tem
ação significativa no romance. (Linda, Miguel, D. Ermelinda, Besita e
D. Tudinha).
27

Portugal. Ao chegar à costa, Luís Teixeira Sampaio oferece-lhe lugar
em sua carroça até Azambuja onde irá acomodar-se em um alojamento
depreciável, mesmo sendo o primeiro lugar com ar de conforto às
margens do Nilo português (rio Tejo).
Reflete, então, acerca do materialismo e dos lucros dos homens, do
sofrimento para tornar-se rico, da Ciência ser tolice e orgulho dos
néscios. Decidido em fazer reputação com o livro, Garrett parte
discursa, então, sobre a beleza e compara Démades a Addison,
propiciando um verdadeiro debate entre eles. O autor sonha acordado e
tem consciência disto, tanto que aconselha os leitores a saltarem as
páginas e a passarem ao capítulo seguinte.
Conversa, então, com o leitor sobre o que é escrever um drama ou
um romance dando-nos uma receita de romance antes de partir para
Santarém montado em uma mula:
“Trata-se de um romance, de um drama — cuidas que vamos
estudar a história, a natureza, os monumentos, as pinturas, os
sepulcros, os edifícios, as memórias da
época? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o somos.
Desenhar caracteres e situações do vivo da natureza, colori-los das
cores verdadeiras da história... isso é trabalho difícil, longo, delicado,
exige um estudo, um talento, e sobretudo tacto!... Não senhor: a coisa
faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.
Todo o drama e todo o romance precisa de:
Uma ou duas damas, mais ou menos ingénuas.
Um pai — nobre ou ignóbil.
Dois ou três filhos, de dezanove a trinta anos.
Um criado velho.
Um monstro, encarregado de fazer as maldades.
Vários tratantes, e algumas pessoas capazes para
intermédios e centros.
Análise De Viagens Na Minha Terra
DE ALMEIDA GARRETT
CARACTERÍSTICAS DO AUTOR
Garrett foi uma das principais personagens na evolução da
literatura e teatro portugueses, propondo e executando uma sequência
de alterações inovadoras. O
teatro nacional português, idealizado por Almeida Garrett, iniciou
um processo de divórcio das tragédias que eram importadas da França e
da Itália para serem encenadas em Portugal, atendendo, desse modo, a
expectativa do público português desejoso de uma literatura original e
que construísse o sentido de pátria livre.
Camões e D. Branca, marcos do início do Romantis mo em
Portugal, são dois poemas de caráter narrativo em que Garrett retrata o
amor à pátria e as lutas da reconquista, respectivamente; Um auto de
Gil Vicente é uma homenagem de Garrett ao fundador do teatro
português; Frei Luís de Sousa, ambientado no século XVII, retoma
situações ligadas à Batalha de Alcácer-Quibir e o mito de D. Sebastião,
atitude nacionalista também presente em Viagens na minha terra e O
arco de Santana.
A proposta da construção do Teatro Nacional de D. Maria I, a
fundação do Conservatório Dramático e o empenho no fomento de uma
produção dramática de caráter nacional são algumas das iniciativas de
Garrett que o destacam no esforço pela valorização do teatro portu
guês, uma tarefa de ampla projeção cultural diretamente associada à
Revolução de Setembro na qual Garrett se envolvera.
Almeida Garrett, típico representante da revolução liberal, foi peça
atuante e dominante em todo processo revolucionário, quer no sentido
político, quer no literário,
chegando a retratar detalhadamente os costumes, a história, a
religião e a cultura portuguesa.
Educado na tradição clássica, Garrett foi um escritor regido pelo
ecletismo artístico e pela habilidade da combinação harmoniosa de
elementos temáticos e técnico-literários que mesclam a tendência
clássica, na qual ele foi educado, e as novas propostas românticas
europeias. A frase impecavelmente trabalhada, o poder de concisão e o
ritmo padronizado são algumas das qualidades clássicas que Garrett
desfila ao lado da variedade temática que discute: literatura, filosofia,
religião, arte, história, política, arquitetura.
Para a inserção de tantos e variados assuntos, o autor vale-se de
digressões constantes, ou seja, a livre associação de ideias que se
desenvolve por um assunto ir originando outro, isto é, a digressão
caracteriza-se pela estratégia de os temas irem se desviando à medida
em que despertam novos interesses a serem discutidos, sendo que tais
divagações envolvem, na obra de Garrett, questões morais, científicas,
psicológicas, artísticas, paisagísticas e, principalmente, no romance
Viagens na minha Terra, literárias e políticas.
Almeida Garrett foi um liberal progressista vinculado afetivamente
à tradição lusitana e essa postura antitética perpassou por sua obra
como força de mudança política frente à mentalidade passadista e
frustrada politicamente, mas não renegando a beleza artística e histórica
do passado português.
Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eug. Sue, de
Vítor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras que
precisa, gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda, verde,
pardo, azul — como fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns e
scrapbooks; forma com elas os grupos e situações que lhe parece; não
importa que sejam mais ou menos dispara tados. Depois vai-se às
crónicas, tiram-se uns poucos de nomes e de palavrões velhos; com os
nomes crismam-se os figurões, com os palavrões iluminam-se... (estilo
de pintor pinta-monos). —
E aqui está como nós fazemos a nossa literatura original.
E aqui está o precioso trabalho que eu agora perdi!” (p. 22).
Comentando sobre Os lusíadas, verifica que é o melhor desde a
Divina comédia até Fausto e insuperável desde que fora escrito. Passa
pela charneca e lembra-se da
última revista do Imperador D. Pedro ao exército liberal, criticando
as guerras que matam muitos e chegam a ser inúteis. Recorda-se, então,
de Ênio Manuel Figueiredo,
escritor de treze volumes e peças teatrais que, se fossem um pouco
mais detalhadas, seriam excelentes comédias.
Porém, os títulos são importantes, aliás, segundo ele, alguns nem
deveriam ter livro.
Chegando a Santarém, o autor faz logo um passeio a cavalo e
descreve o vale. Nele encontra uma janela que o enfeitiça e acredita ver
um vulto lá. Se fosse feminino seria um romance. Durante o desafio de
rouxinóis, imagina a personagem da janela num quadro romântico,
linda mulher de olhos pretos, idealizados pelo poeta, mas que, na
verdade, eram verdes, sabendo disso pois um companheiro de viagem
corrige a observação dele e passa a contar-lhe a história da Menina dos
rouxinóis.
Numa conversa com Yorick, personagem de Skakespeare, Garrett
discorre sobre a paixão que move a própria existência. Receia, por isso,
iniciar a história da menina dos rouxinóis por não ter amado o
suficiente, numa mistura de diálogos entre leitor, narrador e os
companheiros de viagem. Decide-se por relatar apenas às leitoras uma
visão que tivera há um mês:
Em 1832, uma velhinha dobava o fio olhando firmemente para o
poente sem pestanejar. Repentinamente, o movimento uniforme das
mãos parou, pois a meada tinha se embaraçado e ela chamou por
Joaninha. A velhinha não enxergava. Joaninha, beijando repetidas
vezes a velhinha, ajudou-a e trouxe-lhe fruta, pão, queijo e vinho.
A menina era gentil, bondosa, apenas os olhos eram verdes, mesmo
assim, fascinantes. A avó volta a dobar o fio e a menina chora,
deixando cair-lhe uma lágrima na mão da velha Francisca que lhe diz
que tristeza é para os velhos. Frei Dinis aproxima-se e, de acordo com o
4. VIAGENS NA MINHA TERRA
Em seu livro Viagens na minha Terra Almeida Garrett entremeia
várias narrativas e reflexões que vão da preocupação jornalística e
histórica até a política e literária.
O autor inicia explicando porque escreveu o livro, mencionando
Xavier de Maistre e sua obra Viagem à roda de meu quarto, afirmando
que se este último tivesse escrito seu livro em Portugal, certamente iria
até ao quintal, numa alusão a que o país de Garrett deveria ser visto de
forma mais extensa. Justificando a dimensão de sua obra, afirma que de
toda sua experiência e do que lhe for contado em sua viagem de Lisboa
a Santarém resultará seu livro: “De quanto vir e ouvir, de quanto eu
pensar e sentir se há-de fazer crônica”.
No barco em que viajava estavam presentes dois grupos distintos:
os homens do norte e os do sul a discutir quem era o mais forte.
Durante o percurso, Garrett revela que o verdadeiro motivo de ter
escrito sobre uma viagem era mostrar a marcha do progresso social de
28
autor, o frade é indispensável, pois poetisa a paisagem, além de trazer
notícias do outro neto de Francisca, um maldito que deveria ser
esquecido.
O frei chamava-se Dinis de Ataíde e, depois de passar pela carreira
das armas e das letras, abandonou tudo e partiu para Santarém,
tornando-se, dois anos depois, Frei
Dinis da Cruz, homem austero que deixara todos os bens para D.
Francisca que só tinha um neto e uma neta por família: Joaninha, órfã
de pai e mãe, e Carlos, o neto que, para nascer, levou a mãe à morte.
Antes das mortes, Dinis frequentava constantemente a casa de D.
Francisca, depois, numa sexta-feira, os dois fecharam-se em casa,
conversaram, durante horas, e a velha ficou a chorar a noite inteira, A
partir daí, Frei Dinis passou a visitar a casa de Francisca todas as
sextas-feiras. Carlos era o neto maldito que estava no último ano de
Coimbra e era perseguido pelo frei. O rapaz voltou da universidade
triste e melancólico e decidido a emigrar e, ao falar sobre a decisão ao
Frei Dinis, Carlos foi proibido pelo frade de pensar e escolher seu
caminho.
conseguiram tirar de lá.Ao voltarem à terra e as águas novamente se
juntaram.
Seis séculos depois, a rainha Isabel pediu, por meio de orações, que
a santa lhe aparecesse e foi atendida. As águas se lhe abriram e o rei,
acompanhado de vários
homens, tentou abrir o túmulo, sem êxito. Então, mandou erguer
sobre o lugar um padrão que, apenas após a construção, foi encoberto
pelas águas. Três séculos após, a Câmara de Santarém mandou refazer
o marco e colocarem nele a imagem da santa.
No entanto, há um outra versão da história de Santa Iria
popularmente difundida nas cantigas: A santa estava em casa e um
cavaleiro desconhecido, que foi hospedado por uma noite pelos pais
dela, levantou-se durante a noite, sequestrou a jovem e levou-a até um
descampado a fim de violentá-la. Ela resistiu bravamente e ele a matou.
Anos depois, ele passava pelo mesmo lugar quando viu uma ermida
que lhe disseram ser a de Santa Iria que o amaldiçou e ele pediu perdão.
O narrador retoma a história de Joaninha relembrando o ponto de
onde havia parado. Em meio a novos combates, Carlos partiu
imediatamente para a luta e, ferido, foi recolhido ao Convento de São
Francisco. Delirando, Carlos disse “Georgina, Georgina, I love you
still” (p. 156).
Uma enfermeira chorando ouve e assiste ao delírio de Carlos: Era
Georgina.
Carlos despertou e suas mãos se mantinham segurando um pedaço
de fita com uma medalha contendo fios de cabelo de Georgina.
Passadas algumas semanas, ela disse
a Carlos que iria devolvê-lo à família, uma vez que ele já não mais
a amava como antes. Na verdade, enquanto ele esteve doente, Georgina
auxiliou e acalentou a dor de Joaninha e da avó, confessando-se ao frei
Dinis e confidenciando-lhe o amor que ela tinha por Carlos.
Georgina, ao conversar com Carlos, falou-lhe que via no frei um
homem bom, ao que Carlos protestou imediatamente. Frei Dinis entrou
no quarto do soldado e, pedindo perdão ao jovem, revelou que o amava.
Em meio a situação reveladora, Carlos perguntou-lhe quem assassina-ra
seu pai, cegara sua avó e cobrira sua família de infâmia.
Dinis, caindo de bruços no chão, consentiu seus erros e pediu ao
rapaz para matá-lo, pois não merecia viver. Nesse instante, Georgina
pediu a Carlos que acudisse Frei Dinis e ele, num gesto de horror,
negou-se. Erguido pela moça, o frei dirigiu-se ao rapaz chamando-o de
Meu Carlos o qual caiu de joelhos aos pés do frei e todos se abraçaram.
Em meio a tão fraternal cena, Dinis disse a Carlos que o jovem
também deveria perdoar sua desgraçada mãe, o que despertou
novamente a ira do rapaz que o chamou de frei do demônio, merecedor
de morrer pelas mãos do próprio Carlos. Nesse instante, entrou pelo
quarto a Avó Francisca que impediu a tragédia dizendo a Carlos que
Dinis era seu pai. Uma ferida no pescoço de Carlos reabriu, o sangue
começou a escorrer e Carlos perdeu os sentidos.
Ao recobrar os sentidos, Carlos ouviu atentamente a verdadeira
história contada pela avó: Frei Dinis havia sido amante da mãe de
Carlos antes de ser frei e com ela tivera
um filho. Ao saber do adultério da esposa, o suposto pai de Carlos
planejou junto com o cunhado, pai de Joaninha, assassinarem Dinis. No
entanto, o frei, defendendo-se, acabou matando os dois sem saber quem
eram, devido à escuridão, e jogando os corpos no rio. Apenas o frei e
dona Francisca sabiam do crime e, por causa dele, ela ficara cega e
Dinis amaldiçoando sua vida eternamente.Carlos beijou as mãos da avó
e retirou-se, mandando notícias suas apenas três dias depois.
O autor, já impaciente de estar em Santarém, desejava partir. Antes,
porém, soubera que Frei Dinis havia saído da cidade e que Joaninha e
D. Francisca definhavam ser ter
notícias de Carlos. Garrett, que se sentia bem por partir mas
também saudoso do passeio, deixou seus compa nhei ros de viagem
irem à frente para que ele pudesse vislumbrar sozinho a janela da
menina dos rouxinóis. Em frente a casa, sentada à cadeira estava D.
Francisca dobando o fio da meada e ao seu lado, o frei Dinis, magro
como um cadáver.
Garrett chegou-se a eles e perguntou por Joaninha e tristemente
ouviu a notícia de que ela morrera. Receoso, questionou por Carlos e o
frei perguntou-lhe se conhecia
Carlos. Garrett convenceu o frade de que era um amigo de Carlos e
recebeu das mãos de Dinis uma carta num papel amarelo e manchado
de lágrimas.
Na carta, Carlos se dizia perdido e explicava que fugira de casa pois
sabia de um crime e não podia compactuar com ele nem viver olhando
para frei Dinis. A avó, no entanto, era para ele cúmplice e ele, Carlos,
Revoltado com a pátria, a casa da avó, as ordens de frei Dinis numa
casa que não era dele, contra D. Miguel e sendo a favor dos liberais,
dali há duas semanas, Carlos partiu para a Inglaterra e, meses depois,
para a Ilha Terceira. Após a partida do rapaz, Frei Dinis foi à casa de
Francisca, conversaram longamente e, depois de passar
três dias a chorar no quarto, ficou completamente cega. Joaninha,
ainda criança, depois desse dia, nunca mais sorriu para o frei que
envelheceu dez anos em um dia.
A guerra era uma evidência e Frei Dinis trazia notícias de Lisboa
sobre os acontecimentos, a movimentação literária e, também, uma
carta de Carlos à Joaninha, que, ao lê-la em voz alta, omitira alguns
dados da avó a qual, mesmo percebendo a fraude da leitura da neta,
nada disse. Na retirada de 11 de outubro, as tropas aproximaram-se
devido à vitória dos Constitucionalistas e os feridos de guerra foram
socorridos pelo frei, Joaninha e D. Francisca.
Uma ocasião, Joaninha dormia sobre um banco, recostada sob a
proteção de um rouxinol, que parou de cantar com a aproximação de
um soldado, o qual tomou a mão da menina que, ao despertar,
reconheceu-o: era Carlos.
Enquanto conversavam, os soldados os cercaram suspeitando deles
e chegaram a ferir Carlos que elogiou a atitude dos combatentes.
Joaninha, que escrevera uma
carta a Carlos, informando-o da aflição da avó sem ter notícias do
neto querido, estava feliz em rever o primo que amava. Ao ler a carta, o
rapaz lembrou-se ternamente da prima e, simultaneamente, também da
jura de amor que fizera à Georgina, mulher rica e bela.
Em seus pensamentos, o jovem Carlos supunha a avó criminosa
juntamente com Frei Dinis e, ao reencontrar Joaninha ouviu dela a
confissão de que também não gostava de Dinis, pois sabia que ele era
pecador, e o culpado da cegueira da avó que ele matava lentamente,
afirmando que tudo era pecado e maldade. Carlos, ao ouvir Joaninha,
franziu a testa e ela pediu-lhe que não o fizesse, pois, desse modo,
ficava parecido com o frei. Ao se despedirem, Joaninha revelou a
Carlos que o amava unicamente, mesmo sabendo que ele estava preso
afetivamente a uma outra mulher, cheia de encantos e riqueza.
O autor vai visitar os Olivais, a Igreja de Santa Maria de Alcoçova
e o palácio de Afonso Henriques e, numa reflexão sobre a formação de
Santarém, relata a história de
Santa Iria: Na versão dos livros, Iria era uma freira de um convento
duplex e que despertara a paixão incontrolável de Britaldo, filho do
Conde Castinaldo, governador das terras. O rapaz adoeceu por não ser
correspondido e Iria tentou consolá-lo, converter a paixão dele e, com
um discurso de santa, colocou-lhe as mãos sobre a cabeça e curou o
mal do corpo.
Um monge, Remígio, também apaixonado por Iria, jurou, então,
vingar-se por não a conquistar e, numa ocasião propícia, deu-lhe uma
bebida e Iria apareceu depois com sinais de maternidade. Britaldo,
enfurecido, ao invés de esquecê-la, reviveu sua paixão.
Todas as noites, Iria costumava dirigir-se a uma lapa oculta para
conversar com Deus e, uma ocasião, Britaldo mandou um criado,
Banan, matá-la. O homem, depois de assassiná-la, despiu-lhe o hábito e
jogou o corpo no rio que o levou até o lugar onde hoje há uma vila com
o seu nome, dando-lhe uma sepultura natural.
Certo dia, o abade Célio saiu com todos até a ribeira de Santarém e
benzeu as águas do rio que se abriram deixando ver o sepulcro da
Santa. Aberto o túmulo, viram e tocaram-lhe o corpo, mas não o
29
cifras: “Quantas almas é preciso dar ao Diabo e quantos corpos se
têm de entregar no cemitério para fazer um rico neste mundo”; “Cada
homem rico, abastado, custa cento
de infelizes, de miseráveis”; “A sociedade é materialista; e a
literatura que é a expansão da sociedade, é toda excessivamente e
absurdamente e despropositadamente espiritualista! Sancho, rei de
facto, Quixote rei de direito”.
só pecado: fora para a Inglaterra e conhecera uma família elegante na
qual havia três filhas que o adoravam e
ensinaram-lhe muito. Carlos apaixonou-se pela segunda filha,
Laura, uma mulher fascinante, que lhe pediu que não fosse mais à sua
casa. Júlia, irmã mais velha e um
anjo, comunicou a Carlos que Laura não podia amá-lo pois era
prometida em casamento a um outro rapaz e partiria dali a três meses
para a Índia. No dia do enlace,
Carlos recebeu uma carta de Laura dizendo: “o nosso romance
acabou, começa uma história séria” (p. 222).
Em Shire, Carlos encontrou-se com Georgina, a terceira irmã, por
quem se apaixonara e, durante três meses, fora feliz como ele mesmo
declarou: “O meu coração estava em — Shire, em Inglaterra, estava
na Índia, estava no vale de Santarém, pelo mundo em pedaços
repartido” (p. 226).
Certo dia, Carlos passou à grade de um convento e uma freira,
chamada Solidade, assolou a tristeza dele fazendo-o simpatizar
ternamente com ela. Voltando a Portugal, Carlos descobriu que sua
prima Joaninha sempre o amava, porém ele tem consciência de que a
mulher que o amasse seria infeliz e, por isso, não deveria amar a mais
ninguém, e seria feliz se morresse na guerra que, infelizmente, para ele,
já havia acabado e ele teria de continuar vivendo. Talvez seu destino
fosse se tornar um homem político ou um agiota.
Garrett entregou a carta a Frei Dinis que lhe perguntou se ele queria
saber algo mais, pois, embora não o conheces se sentia que podia lhe
dizer tudo. Garrett revela-se
camarada de Carlos e que embora não o visse há anos; ele tinha
engordado, enriquecido e era Barão e talvez fosse deputado qualquer
dia. Joaninha enlouquecera e morrera e Georgina tornarasse abadessa
de um convento que havia fundado na
Inglaterra. A avó Francisca não ouvia, não falava e não reconhecia
mais ninguém desde que Joaninha morrera em seus braços e de
Georgina.
Frei Dinis voltou a rezar, a velha a dobar o fio e o autor foi embora
parando no Cartaxo para dormir e sonhar com o frei, a velha e uma
constelação de barões e cores diversas. No outro dia, sem dinheiro,
voltou para Lisboa.
Essa busca materialista faz com que o autor critique também os
lisboetas que viviam apenas o triângulo central da capital, a rua do
Ouro, Chiado e o Teatro de São Carlos,
como se esse meio fosse suficiente para a totalidade da essência
humana; “... não prestais para mais nada ... ficarais aí alfacinhas para
sempre.”
Os ingleses também não escapam à crítica feroz de Garrett que os
vê insensíveis, distantes e de quem os portugueses não têm medo, pois
o que faz do britânico
homem é justamente o vinho português, o do porto e o Madeira,
logo, a dependência é dos ingleses em relação aos portugueses e não o
inverso: “... o inglês não canta
senão quando bebe ... aliás quando está bebido” (p. 35).
Há momentos de profundo lirismo como, por exemplo, quando
tenta diferenciar o trabalho do poeta e o do filósofo. O privilégio estaria
em o poeta ser namorado
durante toda a existência enquanto o filósofo não consegue ser
salvo Aristóteles que, já velho, apaixonarase.
Garrett, declarando-se mais poeta do que filósofo, afirma que a
imaginação domina e não o sentimento, tanto que Byron, Schiller,
Camões, Tasso morreram justamente por amor, enquanto Homero,
Goethe, Sófocles, Voltaire viveram pela imaginação que não depende
de vida:
“Imaginar é sonhar, dorme e repousa a vida no entanto; sentir é
viver ativamente, cansa-a e consome-a ...” (p. 140).
A descrença nos frades vai se fortalecentdo ao longo da narrativa
(prenúncio Realista), chegando a declarar que eles de nada serviam a
não ser do ponto de vista artístico,
sendo indispensáveis, principalmente na paisagem campestre,
justamente a do livro Viagens na minha Terra. Garrett afirma que se
contasse todos os freis da literatura,
certamente daria um convento lotado.
5. BREVE ANÁLISE CRÍTICA
5.1.ENREDO
Viagens na minha Terra é mais que um simples relato jornalístico,
diário íntimo ou uma literatura de viagens em torno de vários
problemas sociais de meados do século XIX.
A obra apresenta um jogo de palavras, digressões, metalinguagem
em forma de crônica que chega a lembrar as interferências irônicas de
Machado de Assis em sua obra, autor que, aliás, recebeu grande
influência dos literatos portugueses.
A poesia é uma constante na obra. Carlos, por exemplo, chega a
deixar alguns versos sobre seu sentimento amoroso, porém eles não
foram escritos, lidos ou declamados para o autor do livro, na verdade a
soldado não poria em palavras os pensamentos poéticos, pois não
condizia com sua figura, o autor é que tirara uma fotografia mental do
poeta e flagrara tais versos.
Garrett segue modelos ilustres como Xavier de Maistre, Viagem à
Roda de Meu Quarto (1794), Lawrence Sterne, Viagem Sentimental
(1768), além de Chateaubriand
e Shakespeare.
O bem e o mal, o profano e o sagrado são tematizados no livro por
meio de referências a obras que discutem também a dualidade do ser
humano. Através de D. Quixote, analisa os dois princípios do mundo
que andam juntos e progridem sempre, o espirirutalismo e o
materialismo representados no Cavaleiro da Mancha e Sancho Pança.
Em outro instante, lança-se à análise de Fausto e o pacto com o
demônio e, chegando a ter medo de brincar com o profano, volta-se
para o século das Trevas e opõe-se ao das Luzes e aludindo ao
transreal, encerra parcialmente com as bruxas
que surgem a Banquo em Macbeth.
A obra está dividida em quarenta e nove capítulos relatando as
peripécias ocorridas entre Lisboa e Santarém e a divagação do viajante
em torno do idílio entre Joaninha e Carlos. Os dez primeiros capítulos
descrevem a viagem entre as duas cidades vistas pelo vapor, a cavalo e
de carruagem, observando as divergências, políticas,
sociais e, até arquitetônicas.
O mar não poderia estar ausente na narrativa, uma vez que é
tradicional elemento das artes da Península Ibérica e, logo nos
primeiros momentos, por meio de uma disputa
realizada entre os Homens do Norte e os dos Sul, durante a
travessia do Tejo, ele surge como o mais poderoso e indestrutível
lusitano (comparado ao Rio Nilo), tema da
discussão dos homens na barca.
Sem dúvida alguma a maior envergadura do autor se dá por meio
da metalinguagem que é o triunfo constantemente empregado para
garantir a permanência da atenção
do leitor e aludir à importância deste no transcorrer da narrativa,
fazendo-o participar da obra e, até, conversar com o próprio autor e
vice-versa, aliado sempre à irônia e
ao sarcasmo contundente: “A minha opinião sincera e
conscienciosa é que o leitor deve saltar estas folhas, e passar ao
capítulo seguinte, que é outra casta de capítulo” (p. 20); “Saberás,
pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler” (p. 22).
“Cuidas que vamos estudar a história, a natureza, os monumentos, as
pinturas, os sepulcros, os edifícios da época? Não seja pateta, senhor
Numa reflexão sobre o materialismo, Garret preocupa-se com a
destruição da humanidade para a conquista de regalias frente a um
mundo que reduz tudo a
30
leitor, nem cuide que nós o somos” (p. 22); “Ainda assim, belas e
amáveis leitoras, entendemo-nos: o que eu vou contar não é um
romance, não tem aventuras enredadas, peripécias, situações e
incidentes raros; é uma história simples e singela, sinceramente
contada e sem
pretensão.” (p. 49)
Ar de melancólico saudosismo, seus olhos verdes associados à
natureza e, indicando a ligação vital de Joaninha à ela surpreendem o
narrador que os consideram em discordância com a harmonia romântica
de serem castanhos: “Os olhos porém – singular capricho da nature za,
que no meio de toda esta harmonia quis lançar
uma nota de admirável discordância! (...) Os olhos de Joaninha
eram verdes ... não daquele verde mau e destingido que não é senão
azul imperfeito, não; eram verdes-verdes, puros e brilhantes como
esmeraldas do mais subido quilate”. (p. 58)
Outro recurso excepcionalmente bem talhado por Garrett em
Viagens na minha Terra é a mistura proposital entre
personagem/autor/narrador; tornando-se, por vezes,
difícil a distinção entre eles, fazendo com que os destinos e
experiências dos três elementos da narrativa mesclem seus
componentes a fim de transformar o leitor no quarto elemento e único
capaz de costurar toda a narrativa, além de participar dela indiretamente
e ser alvo de comentários irônicos e críticos do narrador.
Carlos chega a confrontar os olhos de Joaninha com os olhos azuis
de Georgina e os negros de Soledade: Os de Georgina dizem “Amo-te,
sou tua”; os de Soledade, “Ama-me, que és meu!” (p. 13) e os de
Joaninha; “são um livro imenso, escritos em caracteres móveis, cujas
combinações infinitas excedem a minha compreensão.
Que querem dizer os teus olhos, Joaninha? que língua falam eles?”
(p. 113)
Desse modo, o livro Viagens na minha Terra apresenta diferentes
níveis narrativos: o narrador, o companheiro de viagem e Carlos. A
proposta narrativa é a da
viagem propriamente dita em que o narrador estabelece o limite
inicial de um tempo que durará de segunda a sábado, período do
decurso da viagem, repleto de incidentes, discussões, e outras
personagens viajantes sendo que uma delas, ao passarem por Santarém
satisfaz a curiosidade do narrador, relatando a história da “Menina dos
Rouxinóis”. No final do romance, o narrador passa pelo Vale de
Santarém e lê uma carta em tom autobiográfico que Carlos escrevera a
Joaninha e que será o
epílogo da novela da “Menina dos Rouxinóis”. Surge então um
narrador epistolar. Eis os três narradores: o narrador propriamente dito,
o companheiro de viagem e Carlos (em dois planos narrativos: o da
viagem e o da novela).
3. FREI DINIS
Dinis de Ataíde seguira a carreira das armas e depois a
magistratura, mas abandonou tudo e, partindo para Santarém, torna-se
frei Diniz de Cruz, homem austero, rígido e teimoso, defensor da
monarquia e esperançoso de outra vida, já que a da terra era miserável.
O narrador sequencia uma série de interrogações sobre frei Dinis,
criando, desse modo, mistério que despertam a curiosidade do leitor: o
que o levou à vida monástica? Por que abandonou carreira e dinheiro?
Qual a razão de sua visão agourenta e desgraçada? Por que faz visitas à
D. Francisca e Joaninha às sextas-feiras?
Ética e psicologicamente, frei Dinis é um homem de princípios
rígidos: “O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o
aborrecer; mas as teorias filosóficas dos liberais, escarnecia-as como
absurdas, rejeitava-as como perversoras de toda ideia sã, de todo o
sentimento justo, de toda a bondade praticável. Para o homem em
qualquer estado, para a sociedade em qualquer forma, não havia mais
leis que as do decálogo, nem se precisavam mais constituições que o
Evangelho: dizia ele. Reforça-las é supérfluo, melhorá-las impossível,
desviar delas, monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangélica,
que é o estado monástico, há regras para todos ali, e não falta senão
observá-las.” (p. 73)
5.2.PERSONAGENS
1. CARLOS
Inicialmente a personagem aparece de maneira discreta e misteriosa
despertando a curiosidade do leitor o qual manterá a leitura até elucidar
os segredos que envolvem
Carlos.
De “olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza
imensa” (p. 98) Carlos simboliza o liberalismo vitorioso e,
recompondo-se do transe amoroso, toma
rumo à trajetório de homem público. Personagem instável, ele
divide-se entre o chamamento do amor e a fidelidade à causa social.
Frei Dinis representa o mundo velho, um frade do Antigo Regime
em conflito com um hovem liberal (Carlos): “Duvidar é o único
princípio, enriquecer o único objetivo de toda essa gente. Liberais e
realistas, nenhum tem fé: os liberais ainda têm esperança; não lhe há
de durar muito. Deixem-nos vencer e verão” (p. 69).
Por um lado, o percurso de desencantos amorosos com Júlia, Laura,
Georgina, Soledade e Joaninha e, por outro lado, a atração pela causa
social que se resolve na
vitória do Liberalismo, mas Carlos acaba se degradando e,
contaminado pelos males sociais, cede ao materialismo:
“Quando calado e sério, aquela fisionomia podia-se dizer dura; a
mais pequena animação, o mais leve sorriso a fazia alegre e
prazenteira, porque a mobilidade e a
gravidade eram os dois pólos desse caráter pouco vulgar e
dificilmente bem entendido.” (p. 98)
4. D. FRANCISCA
D. Francisca era uma velha solitária, infeliz, cega, que renunciou à
vida material e tornou-se uma mulher temente a Deus e manipulada por
Frei Dinis.
5. GEORGINA
Georgina era uma generosa moça que se compadeceu do sofrimento
de Carlos e por ele acabou se apaixonando. No entanto, ela percebeu
que, mesmo se sacrificando ao
extremo, não conseguiria o amor dele e, por isso, recolheu-se ao
convento e tornou-se abadessa.
Carlos vive uma trajetória semelhante à de Almeida Garrett,
viajando, emigrando, envolvendo-se em questões políticas e problemas
amorosos intensos, identificando-se
também com os excessos do Romantismo e; ao mesmo tempo,
desvirtuando-se deles em meio a reflexões e divagações que o fazem
ver fadas e duendes como ocorre
em Macbeth de Shakespeare.
6. SANTA IRIA/IRENE
Santa Iria era uma freira de um convento duplo que se dedicou à
vida espiritual e transcendente. Dela se originou o nome da cidade de
Santarém.
2. JOANINHA
Menina de dezesseis anos que não era bela, era gentil, elegante e
desembaraçada, pois a natureza a fizera educada e equilibrada por si só.
Nela, os vícios sociais inexistem e a pureza original caracteriza seu
perfil: “Mas nesta foi a natureza que fez tudo, ou quase tudo, e a
educação nada ou quase nada.” (p. 56)
7. BRITALDO
Britaldo, filho do governador, nutria um amor incontrolável por
Iria. Ele pode ser relacionado ao amor sentimental de Carlos, puro e
obsessivo em relação a uma
ou várias mulheres.
31
5.3 ESPAÇO E TEMPO
III
– Critica ao materialismo
– Chegada à estalagem
A primeira localização espacial a que o autor se refere no livro é o
seu próprio quarto, em meio a constantes digressões do narrador: “Que
viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em
Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo — entende-se. Mas
com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce
na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui
escrevesse, ao menos ia até o quintal.” (p.3).
IV – Divagação sobre o filósofo e o ministro
V
– Receita para se fazer um drama
– Transporte até Santarém na mula
Encontrando-se em Lisboa, transferindo-se lentamente até alcançar
seu destino, o narrador refere-se a várias outras cidades que encontra
pelo caminho, até chegar à Santarém e a compará-la à Pompeia e
Nínive.
VI – Clássicos X Românticos
– Século das Luzes X Século das Trevas
Os locais santos referidos na obra representam distintamente a
natureza saudável, alegre e refrescante da qual o homem de vida social
necessita (a charneca e o Vale
de Santarém), e a urbanização repleta de tradição e de elementos
históricos (Santarém). No primeiro, a purificação do homem se
conquista graças à beleza, simplicidade e harmonia do Vale: “A
majestade sombria e solene de um bosque antigo e copado, o silêncio e
escuri dão de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitário de suas
clareiras, tudo é grandioso, sublime, inspirador de elevados
pensamentos. Medita-se ali por força; isola-se a alma dos sentidos pelo
suave adormecimento em que eles caem... e Deus, a eternidade — as
primitivas e inatas ideias do
homem — ficam únicas no seu pensamento.” (p. 38)
VIII – Crítica às guerras
IX – Comparação entre as íliadas
Já Santarém é um espaço urbano que completa e, simultaneamente,
desilude o narrador, uma vez que a riqueza da memória do passado
contrasta com a ruína galopante: “Santarém é um livro de pedra em que
a mais interessante e mais poética parte das nossas crónicas está
escrita. Rico de iluminuras, de recortados, de florões, de imagens, de
arabescos e arrendados primorosos, o livro era o mais belo e o mais
precioso de Portugal (...) As ruínas do tempo são tristes mas belas, as
que as revolu ções trazem ficam marcadas com o cunho solene da
história. Mas as brutas degradações e as mais brutas reparações da
ignorância, os mesquinhos consertos da arte parasita, esses profanam,
tiram todo o prestígio” (p. 141).
XV – Frei Dinis e o Liberalismo
Ressalte-se que o elemento edênico do Vale de Santarém projeta-se
na personagem Joaninha, integrada e pertencente à esse meio e símbolo
do espaço puro da Natureza: “E uns e outros respeitavam e adoravam a
menina dos rouxinóis. Entre uns e outros por tácita convenção parecia
estipulado que aquela suave e angélica figura pudesse andar
livremente no meio das armas inimigas, como a pomba doméstica e
válida a que nenhum caçador se lembra de mirar” (p. 94).
XX – Um soldado desperta Joaninha. Era Carlos
A narrativa da Menina dos Rouxinóis que se passa por volta de
1832 e transcorre em meio à guerra civil portuguesa, passa-se na região
de Santarém, uma cidade situada à margem direita do Rio Tejo que foi
mandada edificar por Abidis, rei da Espanha em 1100 a. C., sendo por
ele denominada “Esca-Abidis” e seus habitantes até hoje conhecidos
como escalabitanos. Fundada por volta de 100 a. C, passou pelos
domínios romano “Praesidiu Julium” e “Scalabiscatrum”, visigótico
“Santa Irene”,
muçulmano “Xantarim”, leonês e português “Santarém”. Santarém
foi conquistada por D. Afonso Henriques (primeiro rei de Portugal) em
1147, tendo se tornado mais
tarde a residência da Corte e o lugar predileto dos trovadores. D.
Dinis chamou-lhe “Paraíso de Portugal” e Fernão Lopes caracterizou-a
como uma das grandes vilas
que há no reino.
XXIV – Carlos e Joaninha conversam sobre a avô e o frei
VII – Crítica aos lisboetas e ingleses
X
– Início da Menina dos Rouxinóis
– Interesse pela janela e pelos pássaros
XI – Conversa com Yorick, personagem de Hamlet
XII – Justificativas para a cor dos olhos de Joaninha
XIII – Oposição aos frades
XIV – Carlos desembarca no Porto
XVI – História de Frei Dinis
XVII – Dinis traz notícias de Carlos numa carta
XVIII – D. Francisca diz que Carlos precisa saber a verdade
XIX
– Retirada de 11 de Outubro
– Porque menina dos rouxinóis
XXI – Outros soldados comentam sobre Carlos e Joana
XXII – Carlos lembra-se de Georgina
XXIII – Poesia de Carlos
XXV – Carlos pede segredo a Joaninha
XXVI – Referência a Macbeth e às bruxas
XXVII – O autor chega Santarém
XXVIII – Descrição do Palácio de Afonso Henrique
XXIX – Trova justificando a formação de Santa Iria
XXX – História de Santa Iria
XXXI – Visita à Igreja de Alcaçóva (fechada)
6. QUADRO SÍNTESE POR CAPÍTULO
CAPÍTULO ASSUNTO
XXXII
– Retorno ao capítulo XXV
– Carlos ferido em batalha
I
– O porquê do livro
– Partida na regata
– Briga dos homens do norte X do sul
XXXIII – Georgina opina sobre Frei Dinis
XXXIV – Frei Dinis pede para Carlos matá-lo
II – A viagem representa o progresso Portugal
XXXV – D. Francisca revela a Carlos seu verdadeiro pai: Frei
Dinis
32
XXXVI – Antecipação da conclusão
países imaginários, fáceis de habitar,
ilhas sem problemas, não obstante exaustivas e convocando ao
suicídio.
Meus amigos foram às ilhas.
Ilhas perdem o homem.
Entretanto alguns se salvaram e
trouxeram a notícia
de que o mundo, o grande mundo está crescendo todos os dias,
entre o fogo e o amor.
Então, meu coração também pode crescer.
Entre o amor e o fogo,
entre a vida e o fogo,
meu coração cresce dez metros e explode.
- Ó vida futura! nós te criaremos.
Carlos Drummond de Andrade
SENTIMENTO DO MUNDO
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais que a noite.
XXXVII – História da Igreja do Santo Milagre
XXXVIII
– Visita à Ribeira
– Comentários sobre módulos literários
XXXIX – Visita ao colégio dos Jesuítas e a S. Domingos
XL – Procissão das freiras
– Mosteiro das Claras
XLI – Autor deseja partir de Santarém
XLII – Autor visita o túmulo de S. Fernando
XLIII – Conversa de Garrett com Frei Dinis
XLIV
XLV
XLVI
XLII
XLIII
– Carta de Canos à Joaninha
XLIX – O autor entrega a carta a Frei Dinis e parte para Lisboa.

Mundo Grande
Não, meu coração não é maior que o mundo.
É muito menor.
Nele não cabem nem as minhas dores.
Por isso gosto tanto de me contar.
Por isso me dispo,
por isso me grito,
por isso frequento os jornais, me exponho cruamente nas livrarias:
preciso de todos.
Sim, meu coração é muito pequeno.
Só agora vejo que nele não cabem os homens.
Os homens estão cá fora, estão na rua.
A rua é enorme. Maior, muito maior do que eu esperava.
Mas também a rua não cabe todos os homens.
A rua é menor que o mundo.
O mundo é grande.
Tu sabes como é grande o mundo.
Conheces os navios que levam petróleo e livros, carne e algodão.
Viste as diferentes cores dos homens,
as diferentes dores dos homens,
sabes como é difícil sofrer tudo isso, amontoar tudo isso
num só peito de homem… sem que ele estale.
Fecha os olhos e esquece.
Escuta a água nos vidros,
tão calma. Não anuncia nada;
Entretanto escorre nas mãos,
tão calma! vai inundando tudo…
Renascerão as cidades submersas?
Os homens submersos - voltarão?
Meu coração não sabe.
Estúpido, ridículo e frágil é meu coração.
Só agora descubro
como é triste ignorar certas coisas.
(Na solidão de indivíduo
desaprendi a linguagem
com que homens se comunicam.)
O Homem e o Mundo
E as vozes do mundo inteiro. Falemos de Carlos Drummond de
Andrade – mineiro, intelectual, funcionário público, jornalista, poeta.
Drummond, porém, não é simplesmente um poeta (ou talvez o seja
verdadeiramente), mas um profundo sensitivo da realidade, das pessoas
e das coisas, “ espectador do mundo a sua volta”, como bem descreve
Benjamim Abdala Júnior (1998). Amargo e triste, pois. Não se veste,
entretanto, do um manto sublime de uma poesia hermética. Ao
contrário, escreve para que as pessoas o entendam, suas palavras têm o
cheiro do dia-a-dia, as imagens por ele construídas são concretas e
verdadeiras.
Classificado por Afrânio Coutinho em seu Introdução à Literatura
no Brasil , como escritor da segunda fase ou segunda geração do
Modernismo brasileiro, Drummond não escreveu apenas poemas,
apesar de ser este o campo em que mais se destacou. Como cronista e
contista, também foi admirado e respeitado.
Itabira, a pequena cidade natal do poeta, no interior de Minas
Gerais, e tema recorrente em seus escritos, nunca lhe saiu do
pensamento nem dos poemas. Quando, no início de sua carreira, passou
a viver em Belo Horizonte , Itabira transformou-se em “uma fotografia
na parede./ Mas como dói!” Pelo próprio Drummond, a Itabira é
atribuída a responsabilidade da formação de seu caráter, das principais
características de sua personalidade e das suas atitudes ante o mundo:
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
(...)
A vontade de amar, que me paralisa o trabalho
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem
horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
Outrora escutei os anjos,
as sonatas, os poemas, as confissões patéticas.
Nunca escutei voz de gente.
Em verdade sou muito pobre.
Outrora viajei
33
pode continuar a ser o túmulo de nossas idéias, mas antes a força
generosa de que elas dimanem.
Somos, finalmente, um órgão político.
E, então, o caráter claramente modernista:
“... temos um ideal? Ele se apóia no mais fervoroso nacionalismo.
Longe de repudiar as correntes civilizadoras da Europa, intenta
submeter o Brasil cada vez mais ao seu influxo, sem quebra de nossa
originalidade nacional. Nascidos na República, assistimos ao
espetáculo quotidiano e pungente de desordens intestinais, ao longo das
quais se desenha nítida e perturbadora, em nosso horizonte social,uma
tremenda crise de autoridade. Contra esse opressivo estado de coisas é
que a mocidade brasileira precisa e deve reagir. Resta-nos humanizar o
Brasil.”
Não é, entretanto, em Alguma Poesia , seu primeiro livro,
publicado em 1930, que Drummond lança-se à tarefa de, como disse,
“humanizar o Brasil”. Ao contrário, críticos apontam, nesse livro,
grandes doses de individualismo e sarcasmo envolvidos em uma
atmosfera de crítica às aparências e convenções sociais.
Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém
num presente dilacerado por este e por aquele, testemunha lúcida de si
mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico
e cético. Mas, enquanto ironiza os costumes e a sociedade, asperamente
satírico em seu amargor e desencanto, entrega-se com empenho e
requinte construtivo à comunicação estética desse modo de ser e estar
. Como afirma o crítico Silviano Santiago no prefácio da4ª edição
do livro pela editora Record, “É sombria e pessimista a visão de mundo
que se justapõe à esperança da revolução e da utopia”.
Assim, Dor e Esperança são os temas básicos que regem os poemas
de Sentimento do Mundo . Uma Dor, talvez, maior que a Esperança que
a contempla, ou talvez esta não esteja tão próxima dos homens. A Dor é
o “Sentimento do Mundo”; Dor de todos os homens e que se concentra
em um só – o poeta:
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo
mas estou cheio de escravos
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor
(Sentimento do mundo)
E, então, ele, o poeta, sente-se responsável pelas pessoas a sua
volta; sofre por elas; sente-se elas . Como se vê em:
É preciso casar João,
é preciso suportar Antônio,
é preciso odiar Melquíades ,
é preciso substituir nós todos.
(...)
(Poema da necessidade)
E em:
Eu sou a Moça-Fantasma
que espera na Rua do Chumbo
o carro da madrugada. (...)
(Canção da Moça-Fantasma de Belo Horizonte)
O “nós” é muito empregado em Sentimento do Mundo e é através
do “nós” que surgirá a Esperança. Ressalte-se que ela – a Esperança –
nunca está no presente, mas, sempre, no futuro, virá. Vem, assim como
a Dor, personificada em imagens possíveis de se encontrar em nosso
cotidiano: o sorriso do operário, que caminha firme (“Vejo-o que se
volta e me dirige um sorriso úmido”); a aurora, que dissolve a noite que
traz o sofrimento (“Aurora,/ entretanto eu te diviso, ainda tímida,/
inexperiente das luzes que vais acender”); o soluço de vida, que resiste
ao verme roedor de lembranças:
Havia a um canto da sala um álbum de fotografias intoleráveis,
alto de muitos metros e velho de infinitos minutos,
em que todos se debruçavam
na alegria de zombar dos mortos de sobrecasaca.
Um verme principiou a roer as sobrecasacas indiferentes
e roeu as páginas, as dedicatórias e mesmo a poeira dos retratos.
Só não roeu o imortal soluço de vida que rebentava
Que rebentava daquelas páginas.
(Os mortos de sobrecasaca)
Assim, “os temas políticos, o sofrimento do ser humano e as
guerras, a solidão, o mundo frágil, os seres solitários predominam. A
dor humana está lá; o eu-lírico se resguarda e canta o outro, tão mais
importante que ele próprio.”
é doce herança itabirana .
Largando uma futura carreira de farmacêutico ou ainda de professor
de Geografia e Português, Drummond foi chefe de gabinete do
Ministério da Educação e Saúde Pública no governo de Getúlio Vargas
durante o Estado Novo e dedicou-se, com prazer, ao jornalismo, tendo
trabalhado como auxiliar de redação, redator, colaborador nos
principais jornais do Estado do Rio de Janeiro e até se arriscado, haja
vista a época em que viveu, como co-editor do jornal Tribuna Popular ,
juntamente com Luís Carlos Prestes.
Há quem diga que a única coisa que tirava Drummond do sério era
dizer que ele era a favor do Estado Novo de Getúlio e que cooperava
com o então Presidente da República: “Vim para o Rio em 1934 para
trabalhar com um amigo pessoal do tempo de colégio, Gustavo
Capanema [na época, ministro da Educação e Saúde Pública] (...). Em
1937 veio o golpe do Estado Novo, Capanema ficou no seu cargo e eu
continuei a servi-lo da mesma maneira. Minhas relações com o palácio
eram burocráticas: eu preparava pastas de documentos e as mandava
para lá, não tinha nada a ver com a política do governo". E ainda: “Eu
voto contra o governo. É o meu resto de anarquismo”.
Aliás, foi exatamente esse afastamento das tendências governistas
do Brasil e a aproximação com as idéias socialistas – o que sempre foi
ao encontro de sua preocupação com as causas sociais do Brasil e do
mundo – que levou Drummond a pedir demissão do gabinete do
ministério e trabalhar no Tribuna Popular , de onde saiu, meses depois,
por divergências de opiniões: queriam que ele escrevesse apenas
poemas de caráter politicamente militante. Drummond não aceita.
Assim, afasta-se do partido e é mal visto pelos ex-colegas.
Em certa ocasião, escreve, ironicamente, em uma crônica intitulada
Essa nossa classe média... :
Oh, os medos da pequena burguesia! – dirá talvez algum iluminado,
portador de alguma certeza. Essa melancólica e indecisa classe média!
Pois já se vai tornando moda acusar a classe média de todas as
fraquezas e vacilações em frente da vida – e até mesmo em face da
História. ‘Vacilante' é o qualificativo que se pregou no paletó do
modesto pequeno-burguês, como um rabo grotesco.
Roberto Pontes (1999) afirma sobre a contradição social de
Drummond:
Também não há como ver em Drummond um poeta por excelência
participante, do mesmo modo que nunca foi um escritor alienado. Tem
ele o mérito de haver conseguido, apesar de haver pago alto tributo à
sua condição de classe, realizar poesia referta (sic) de humanismo
fecundante e tão necessária ao auto-reconhecimento dos seres humanos
perdidos no fulcro do desconcerto capitalista.
Apesar de sentir-se individualista (“...conhecendo meu
individualismo talvez um pouco exacerbado, achei melhor dar a minha
adesão aos ideais comunistas na prática, sem me comprometer entrando
para os quadros partidários”) quanto a sua condição social, Drummond
é referência de uma “poesia socializante , comprometida”, como
classifica Afrânio Coutinho.
O Homem e o Sentimento do Mundo
Nos poemas de Sentimento do Mundo , além do traço preciso e
corrosivo, próprio da escrita de Drummond, há uma imensa
preocupação com os rumos que tomam as pessoas enquanto seres
humanos.
Escrito nos anos de 1935 a 1940, fase em que o mundo se
recuperava da Primeira Guerra Mundial e em que já se encontrava
iminente a Segunda Grande Guerra, com a imposição do Estado Novo
de Getúlio Vargas e o crescimento do Nazi-fascismo , percebe-se em
Drummond a luta, a contestação, pela palavra, das atrocidades que o
mundo parecia aceitar (“Tudo acontece, menina / E não é importante,
menina”). “Drummond lançou-se ao encontro da história
contemporânea e da experiência coletiva, participando, solidarizandose social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua
mais íntima apreensão para com a vida como um todo”
(www.culturatura.com.br/autores/bra/carlosd.htm).
Paradoxalmente, há, também, nessa época, o crescimento das
indústrias e, com ela, a ampliação do proletariado no país. O mundo
entra em crise em 1929 e a sociedade muda sua face. Junte-se a isso, o
espírito modernista que rodeia o país desde a Semana de Arte Moderna,
em 1922 – misto de protesto cultural e social, ao qual Carlos
Drummond de Andrade aderiu com a publicação de A Revista , 1925:
Ação intensiva em todos os campos: na literatura, na arte, na
política. Somos pela renovação intelectual do Brasil que se tornou um
imperativo categórico. Pugnamos pelo saneamento da tradição, que não
34
Drummond vê, há mais de sessenta anos, um mundo que ainda é o
nosso – triste, marcado pelo medo ou pela aceitação de toda
imperfeição como normalidade:
Mundo que ele vê ora com uma inquietante pessoalidade, ora com
ótica social; contemplação melancólica ou participante, mas sempre um
processo de investigação da realidade, onde humor, ironia, lirismo,
sentimentalismo, o tudo, o vazio, o nada, têm seu lugar, numa poesia
grandiosa. ( ABDALA, Benjamim Jr , 1998)
Como o operário, entretanto, caminha firmemente e, quem sabe,
com sua sensibilidade e seu coração – às vezes maior que o mundo, às
vezes pequeno demais, ensine-nos a dar as mãos.
Conclusão
O estudo sobre a poesia de Carlos Drummond de Andrade é lugar
de constate pesquisa, da qual sempre há aspectos a serem considerados.
E o presente estudo, que não pretende esgotar a temática, apresenta as
seguintes conclusões.
Em “Drummond e o Sentimento do Mundo”, a pessoa de Carlos
Drummond de Andrade foi considerada a imagem do homem que sente
o mundo, que o questiona e que, como todo ser humano, ora o aceita,
ora o contesta, ora se desesperança com ele; um homem que absorve as
dores e cores de todo o mundo, a começar por sua cidade natal, que por
ser triste e “de ferro”, faz dele, também, um ser triste e de ferro.
Em “O homem e o Sentimento do Mundo” percebe-se a intensa
movimentação social e política motivada pelos acontecimentos da
época em que foram escritos os poemas que constituem o livro em
questão, dentre eles a II Grande Guerra e o holocausto; o homem,
então, desesperançado da humanidade, precisava, ao mesmo tempo,
lutar contra toda aquela situação.
O poema Sentimento do Mundo pode, assim, ser identificado
dentro da produção drummoniana como uma forma de protesto ou de
insubmissão perante a realidade.
finado. Escrevi-a com a pena da galhofa* e a tinta da melancolia, e não
é difícil antever o que poderá sair desse conúbio*.‖Ao Leitor
- Leitor incluso
―(...) evito contar o processo extraordinário que empreguei na
composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria
curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao
entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino
leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e
adeus.‖
- O narrador
―(...) eu não sou propriamente um autor defunto mas um defunto
autor, para quem a campa foi outro berço.
autor defunto x defunto autor‖
- Sobre a composição da obra
―ALGUM TEMPO hesitei se devia abrir estas memórias pelo
princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu
nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo
nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método:
a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto mas um
defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o
escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também
contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença
radical entre este livro e o Pentateuco.‖Cap. I – O óbito do autor
- A Morte
―(...) estando eu ocupado em preparar e apurar a minha invenção,
recebi em cheio um golpe de ar; adoeci logo, e não me tratei.‖
CAPÍTULO V / EM QUE APARECE A ORELHA DE UMA
SENHORA
―Morri de uma pneumonia; mas se lhe disser que foi menos a
pneumonia, do que uma idéia grandiosa e útil, a causa da minha morte,
é possível que o leitor me não creia, e todavia é verdade. Vou expor-lhe
sumariamente o caso. Julgue-o por si mesmo.‖

Sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas
- O emplasto
Essa idéia era nada menos que a invenção de um medicamento
sublime, um emplastro anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa
melancólica humanidade. Na petição de privilégio que então redigi,
chamei a atenção do governo para esse resultado, verdadeiramente
cristão. Todavia, não neguei aos amigos as vantagens: pecuniárias que
deviam resultar da distribuição de um produto de tamanhos e tão
profundos efeitos. Agora, porém, que estou cá do outro lado da vida,
posso confessar tudo: o que me influiu principalmente foi o gosto de
ver impressas nos jornais, mostradores, folhetos, esquinas e enfim nas
caixinhas do remédio, estas três palavras: Emplasto Brás Cubas.Para
que negá-lo? Eu tinha a paixão do ruído, do cartaz do foguete de
lágrimas. Talvez os modestos me argúam esse defeito fio, porém, que
esse talento me hão de reconhecer os hábeis. Assim a minha idéia trazia
duas faces, como as medalhas, uma virada para o público, outra para
mim. De um lado, filantropia e lucro, de outro lado, sede de nomeada.
Digamos: --amor da glória.
Cap. II – O emplasto
- O delírio
―Tal era o espetáculo, acerbo e curioso espetáculo. A história do
homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar
nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a
imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação
viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o
relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante,
porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante
de mim,--flagelos e delícias, desde essa cousa que se chama glória até
essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria,
e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora,
a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de
suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e
todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um
farrapo.‖ Cap. VII - Delírio
- Crítica ao leitor romântico
―Era fixa a minha idéia, fixa como... Não me ocorre nada que seja
assaz fixo nesse mundo: talvez a Lua, talvez as pirâmides do Egito,
talvez a finada dieta germânica. Veja o leitor a comparação que melhor
lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só porque ainda
não chegamos à parte narrativa destas memórias. Lá iremos. Creio que
prefere a anedota à reflexão, como os outros leitores, seus confrades, e
acho que faz muito bem. Pois lá iremos. Todavia, importa dizer que
• Folhetim – de março à dezembro de 1880 na Revista Brasileira.
• Livro – 1881, edição da Tipografia Nacional
• Novas edições: 1896 e 1899.
• Inaugura o Realismo brasileiro.
Estrutura do romance
• Retrato da sociedade (RJ) do século XIX
• Contado pelo ―defunto autor‖ – Rompimento da linearidade.
• Digressões – tornam a narrativa mais lenta.
• Análise psicológica dos personagens - Reflexão a respeito da
condição miserável do homem. Ex.: Prudêncio.
• Determinismo – Eugênia, a Flor da Moita; Dona Plácida, filha de
um religioso corrompido.
• Metalinguagem
• Intertexto (uma narrativa multiplicada por narrativas)
• Leitor incluso
• Humor negro
• Pessimismo
Contexto de época
• Março 1871 - Fim da Guerra do Paraguai
• Setembro 1871 – Lei do Ventre Livre
• Junho 1880 – A Sociedade Brasileira Contra a Escravidão é criada
por Joaquim Nabuco.
• Março 1884 – Ceará é o primeiro estado brasileiro a abolir a
escravidão.
• Setembro 1885 – Lei do Sexagenário: liberta os escravos com
mais de 65 anos.
• Maio de 1888 – Princesa Isabel assina a Lei Áurea, acabando
oficialmente com a escravidão no Brasil.
• 1889 – Proclamação da República.
O que observar:
- Dedicatória:
―Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver
dedico com saudosa lembrança estas Memórias Póstumas."
- Metalinguagem
―Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas,
se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não
sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de
35
este livro é escrito com pachorra*, com a pachorra de um homem já
desafrontado da brevidade do século obra supinamente filosófica, de
uma filosofia desigual, agora austera logo brincalhona, cousa que não
edifica nem destrói, não inflama nem regala, e é todavia mais do que
passatempo e menos do que apostolado.‖Cap. IV – A idéia fixa
CAPÍTULO 71
O senão do livro
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não
tenho que fazer; e, realmente,expedir alguns magros capítulos para esse
mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro
é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício
grave, e aliás ínfimo,porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu
tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração
direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo
são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param,
resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem... E
caem! — Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como
quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-ia uma
lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não
deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar... Heis de cair.
Descrição das Personagens e Resenha de Memórias Póstumas de
Brás Cubas
A personagem central da Obras é Brás Cubas, um narradorpersonagem que na verdade é um defunto autor, pois começa a contar
sua historia apos ter morrido. Quando vivo tratava-se de um homem
rico, que menino era muito traquinas e até malvado, digamos assim,
pois montava num negrinho (o Prudencio) e fazia dele seu cavalo,
chegou a quebrar a cabeça de uma escrava por que esta não lhe deu
doce, entre tantos outros feitos principalmente narrados no Capítulo 11
(O Menino é o Pai do Homem).
Desde os cinco anos merecera eu a alcunha de “menino diabo”; e
verdadeiramente não era outra coisa; fui dos mais malignos do meu
tempo, arguto, indiscreto, traquinas e voluntarioso.
Viveu diversas aventuras na adolescência, como seu namoro com
a espanhola Marcela – mulher que adorava receber joias e outros
presentes, tinha vários admiradores e que no final da obra teve um
final trágico (primeiro ficou desfigurada por causa de um surto de
Bexiga, e depois morreu magra e decrepita na maior miséria). No
trecho abaixo veja um pouco da ironia do autor ao lembrar-se da
amante:
Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis; nada
menos.
O pai, que amava por demais o filho desde a meninice nunca
repreendeu seus atos traquinas (chamava-o de brejeiro e dava-lhe
beijos, e tinha sonhos de o filho ser alguém ilustre o manda estudar
Direito em Portugal. Em Lisboa, ele vive muitas aventuras, forma-se e
so’ retorna ao Rio de Janeiro quando recebe uma carta dizendo que
sua mãe esta mal e quer vê-lo.
Apos a morte da mãe, Cubas é instruído pelo pai a se casar e
ingressar no ramo da política, a noiva indicada era Virgília, bela filha
de Dutra um homem influente na época. Da-se um pequeno namoro,
mas surge a figura de Lobo Neves que acaba arrebatando-lhe a noiva e
consegue
cargos
administrativos,
ele
prometia
fazer Virgília Baronesa/Marquesa (aqui o autor mostra que a mulher
fora movida e atraída por interesses sociais), ambos se casam e Cubas,
que ainda não a amava deveras, sente apenas despeito e vaidade ferida
ao perder a namorada.
Neste ínterim, Brás Cubas vai visitar Dona Eusébia (que em outro
tempo fora flagrada, pelo menino Cubas, beijando um senhor casado,
Doutor Vilaça, numa Moita) e encontra-se com sua filha Eugenia,
chamada por ele maliciosamente como a Flor da Moita, ha’ um certo
flerte entre os moços, mas este finda-se quando Cubas descobre que
ela é coxa. Veja a reflexão do narrador no capítulo 33 (Bemaventurados os que nao descem):
O pior é que era coxa. Uns olhos tão lúcidos, uma boca tão fresca,
uma compostura tão senhoril; e coxa! Esse contraste faria suspeitar que
a natureza é às vezes um imenso escárnio. Por que bonita, se coxa? por
que coxa, se bonita? Tal era a pergunta que eu vinha fazendo a mim
mesmo ao voltar para casa,de noite, e não atinava com a solução do
enigma
Apos os desfortúnios (perda da noiva e da candidatura) do filho, o
pai
de Brás morre.
Segue-se
uma
briga
entre irmãos (Brás e Sabina, já casada com Cotrim) sobre os bens
da Herança, a qual fara’ com que fiquem brigados por um bom tempo.
O narrador passa por uma fase, que se repetira’ no final do romance, de
vazio combinado com orgulho e individualismo. Veja reflexão do autor
no capítulo 49 (A Ponta do Nariz):
A conclusão, portanto, é que há duas forças capitais: o amor, que
multiplica a espécie, e o nariz, que a subordina ao indivíduo.
Procriação, equilíbrio.
Quando Virgília volta de São Paulo, casada com Lobo Neves,
Cubas a reencontra num baile, dançam uma valsa e por fim acabam se
apaixonando. Fica claro, no capítulo 53 (…) como se deu esse amor:
Há umas plantas que nascem e crescem depressa; outras são tardias
e pecas. O nosso amor era daquelas; brotou com tal ímpeto e tanta
seiva, que, dentro em pouco, era a mais vasta, folhuda eexuberante
criatura dos bosques.
Complementado pelo capítulo 56 (Momento Oportuno):
Um dia vimo-nos, tratamos o casamento, desfizemo-lo e separamonos, a frio, sem dor, porque não houvera paixão nenhuma; mordeu-me
apenas algum despeito e nada mais.Correm anos, torno a vê-la, damos
três ou quatro giros de valsa, e eis-nos a amar um ao outro comdelírio.
A beleza de Virgília chegara, é certo, a um alto grau de apuro, mas nós
éramos substancialmente os mesmos, e eu, à minha parte, não me
tornara mais bonito nem mais elegante. Quem me explicará a razão
dessa diferença?
Assim, Brás Cubas e Virgília, vivem momentos de amor e perigo,
afinal era uma relação de traição, chegam até a alugarem uma casa para
se encontrarem a qual era cuidada por Dona Placida (filha de uma
Doceira e de um cônego - que apenas sofre na vida).
Resumindo bastante, seguem-se mais fatos como a eleição de Lobo
Neves a Presidência de uma província no Norte (mas como foi
decretada num dia 13, por superstição Neves a recusa); a morte
de Viegas, um Velho rico que Virgília bajulava a fim de faze-lo deixar
uma herança a seu filho, o qual morre sem deixar-lhe nada e sendo
ganancioso até o ultimo suspiro; Cubas reencontra-se com Quincas
Borba, amigo de infância que acaba por desenvolver uma Filosofia (o
Humanitismo); tentativa de Sabina de arrumar uma noiva para Cubas
(filha de Damasceno, chamada Eulália que terá um triste fim por ser
assolada com um epidemia e morrer aos 19 anos);
ocorrem também suspeitas públicas e de Neves quanto a traição.
Por fim, Lobo Neves aceita um nova candidatura
a Presidência, Virgília e Cubas separam-se e desta vez foi o fim do
romance entre eles – o autor mostra que no final nem sentiu tristeza, foi
algo como um ponta de alívio e saudade.
O Romance é finalizado por uma sequencia de desatinos na vida de
Cubas, que não foi ministro, não alcançou o sucesso na politica, nem no
emplasto contra Hipocondria, nem se casou (Sequencia mostrada no
ultimo capítulo - Das Negativas). Percebe-se assim como sua vida fora
vazia e despropositada, mas que pelo menos não passou a diante o
legado da miséria humana:
Este último capítulo é todo de negativas. Não alcancei a celebridade
do emplasto, não fui ministro,não fui califa, não conheci o casamento.
Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna denão
comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de
Dona Plácida, nem asemidemência do Quincas Borba. Somadas umas
coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que nãohouve míngua nem
sobra, e conseguintemente que sai quite com a vida. E imaginará mal;
porque ao chegara este outro lado do mistério, achei-me com um
pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulode negativas: –
Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa
miséria
Características da Obra; Análise e Comentários do Romance
Realista Memórias Póstumas (…)
* Inovações da Obra: quanto a Temática, a Estrutura da Narração e
a Linguagem. O autor abandona o romantismo, investe na
complexidade
dos indivíduos que são retratados
sem
nenhuma idealização (Machado mergulha na alma humana,
desvendando seus vícios, virtudes e defeitos). A lógica narrativa do
romance é determinada não pela cronologia dos fatos, mas pelo
encadeamento de reflexões do personagem.
Outra inovacao foi a dedicatória do livro:
AO VERME QUE PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES DO
MEU CADÁVER DEDICO COMO SAUDOSA LEMBRANÇA
ESTAS MEMÓRIAS PÓSTUMAS
* Intertextualidade - Machado de Assis faz inúmeras referencias
em sua Obra, como a Shakespeare, Virgílio, Voltaire e tantos outros.
São citações a pensamentos, filosofias e romances escritos. Vê-se aqui
uma das tantas influências que o autor sofreu da literatura de Almeida
Garrett, especialmente comparada a obra Viagens na Minha Terra, pois
36
ambos desenvolvem diálogo com o leitor, intertextualidade,
metalinguagem, digressões, ironia e críticas.
* Digressões e
Metalinguagem - através das digressões (ou
seja interrupções do fluxo narrativo por devaneios, reflexões, relatos
da memória, etc) o defunto autor fornece informações para conhecer
a visão de mundo de um homem que passou a vida
sem realização nenhuma, apenas ao sabor de seus desejos.
Ao usar a metalinguagem, o autor interage com o leitor dialogando
diretamente com ele, assim convida-o a refletir sobre a estrutura da
obra e a perceber dois níveis de leitura: a que revela diretamente o
personagem e a que o faz objeto de crítica do autor.
* Ironia e Crítica - são marcas da obra madura de Machado de
Assis, trata-se de um recurso que o autor utiliza para fazer o leitor
desconfiar das declarações, dos pensamentos e das conclusões do
narrador Brás Cubas, bem como um instrumento de critica aos valores
adotados pelos homens (como a Opinião, a Formalidade, etc).
* Humanitismo – filosofia desenvolvida por Quincas Borba (que
vai tornando-se louco progressivamente) a qual prega que tudo o que
acontece
na
vida
faz
parte
de
um
quadro
maior
de preservação da essência Humana. No contexto do romance, o
Humanitismo convém a Brás para justificar sua existência vazia, e a
Quincas da’ uma ilusão de descoberta do sentido da vida.
Segundo críticos, o Humanitismo é ” uma caricatura que Machado
de
Assis
faz
do Positivismo e
do Evolucionismo,
teorias científicas e filosóficas em voga na época, que atribuem sentido
de evolução mesmo `as fatalidades da vida.
* Ha’ uma certa dose de Determinismo (as origens e meio em que
as pessoas vivem as propulsionam a certos destinos), como exemplo
temos o caso de Dona Placida, fruto de uma relação vulgar e que vive
sempre `a miséria.
Dessa conjunção de luxúrias vadias brotou Dona Plácida. E de crer
que Dona Plácida nãofalasse ainda quando nasceu, mas se falasse podia
dizer aos autores de seus dias: – Aqui estou. Para queme chamastes? E
o sacristão e a sacristia naturalmente lhe responderiam: – Chamamos-te
para queimar osdedos nos tachos, os olhos na costura, comer mal, ou
não comer, andar de um lado para outro, na faina,adoecendo e sarando,
com o fim de tornar a adoecer e sarar outra vez, triste agora, logo
desesperada,amanhã resignada, mas sempre com as mãos no tacho e os
olhos na costura, até acabar um dia na lamaou no hospital; foi para isso
que te chamamos, num momento de simpatia.
* Entre os Capítulos que considero Principais e marcantes, temos o
cap. 1 (Óbito do Autor) que abre o romance com a morte do
personagem-narrador que reflete sobre ser um autor defunto ou defunto
autor, além das circunstancias da morte. Tem-se aqui um estilo
inovador na literatura, tanto pela temática como pela forma da escrita.
O Cap. 7 sobre o Delírio em que o autor reflete sobre o homem,
sua existência, o passar dos seculos e a miséria humana
na perseguição inútil da Felicidade.
Ao contemplar tanta calamidade, não pude reter um grito de
angústia, que Natureza ou Pandoraescutou sem protestar nem rir; e não
sei por que lei de transtorno cerebral, fui eu que me pus a rir, – de
umriso descompassado e idiota.- Tens razão, disse eu, a coisa é
divertida e vale a pena, - talvez monótona - mas vale a pena.Quando Jó
amaldiçoava o dia em que fora concebido, é porque lhe davam ganas de
ver cá de cima oespetáculo. Vamos lá, Pandora, abre o ventre, e digereme; a coisa é divertida, mas digere-me.A resposta foi compelir-me
fortemente a olhar para baixo, e a ver os séculos que continuavam a
passar, velozes e turbulentos, as gerações que se superpunham às
gerações, umas tristes, como osHebreus do cativeiro, outras alegres,
como os devassos de Cômodo, e todas elas pontuais na sepultura.
Cap 71 – O senão do Livro – em que o autor dirige-se aos leitores
dizendo que o defeito do livro é na verdade dos leitores que tem pressa
de lê-lo, fazendo assim um crítica direta ao estilo romântico dos
folhetins que eram marcados pela ação e clímax.
Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não
tenho que fazer; e, realmente,expedir alguns magros capítulos para esse
mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Maso livro
é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício
grave, e aliás ínfimo, porque omaior defeito deste livro és tu, leitor. Tu
tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas anarração
direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo
são como os ébrios, guinam àdireita e à esquerda, andam e param,
resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem.
Memórias de um Sargento de Milícias
INTRODUÇÃO
Manuel Antônio de Almeida, contemporâneo de José de Alencar,
Casimiro de Abreu, dentre outros, destaca-se pelo interesse e confusão
que desperta nos estudiosos da escola literária que sua obra é
enquadrada, o Romantismo.
Esse artigo visa discutir uma classificação literária convincente da
obra de Manuel Antônio de Almeida, visto que esse texto tem causado
polêmica quanto a ser um romance romântico, como é freqüentemente
classificado. Esse estudo foi feito por meio da análise da linguagem,
comportamentos sociais e estilo, contidos em fragmentos do romance
referido.
A obra é todo um conjunto de particularidades do autor, que
desenvolve a histórica sob a ótica de um estilo literário diferente àquele
vigente. Memórias de um sargento de Milícias se configura como um
desvio na história do romance brasileiro, pois se lança com um estilo
diferente, renovado, rompendo com a tradição romântica.
Tendo em vista tal objetivo, nos atemos ainda ao estudo do
Romantismo enquanto escola literária, a fim de identificarmos a
ausência de suas particularidades na obra.
Como suporte teórico para a elaboração desse estudo, recorremos a
alguns estudiosos sobre o autor, obra e escola literária. A saber: Mário
de Andrade (1978), Antônio Cândido (1978), José Veríssimo (1978),
Alfredo Bosi (1994), e Afrânio Coutinho (s/d).
Nosso artigo está dividido em duas sessões: na
primeira, MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS E A
CRÍTICA, levantaremos a crítica de três estudiosos da obra. A
segunda, UM ROMANCE ANTI-ROMÂNTICO, demonstraremos a
ausência de características românticas na referida obra, concretizando o
objetivo central do nosso artigo.
I - MEMÓRIAS DE UM SARGENTO DE MILÍCIAS E A
CRÍTICA.
A relação estabelecida entre Memórias de um sargento de
milícias é, no mínimo, curiosa. Comenta-se que a obra, inicialmente
publicada em folhetim, não foi sequer resenhada. O sucesso do
romance só teve seu início, de fato, com o início do Realismo,
suscitando, ao longo desse tempo, opiniões adversas sobre o referido
romance, voltadas em sua grande parte para a análise da estilística.
"Esse estilo incorreto, descosido e solto, de uma simplicidade que é
trivial, de um caráter sem feição, nem relevo, não é à época imputável e
sendo próprio ao seu autor é o maior demérito de um livro que, e
nenhuma ironia encobre o meu pensamento, para ser um dos mais belos
da nossa literatura só lhe falta ser bem escrito" (José Veríssimo,
1978:294).
Para Veríssimo, Memórias não deve ser considerado uma obraprima, devido às imperfeições, por ele reconhecidas, existentes no
livro: a ausência de uma linguagem original na sua novidade, falta do
talento do autor em observar, e presença de uma forma não artística,
não admirável.
Entretanto, embora seja relevante o comentário de José Veríssimo,
comprovaremos a afirmação dada anteriormente, quanto às
divergências de opiniões suscitadas pelo livro.
"É aleive tradicional atirado sobre o artista, que ele escrevia mal. A
expressividade do trecho acima transcrito não é de mau escritor, apesar
da abundância inútil dos possessivos (...) Era sim um desleixado de
linguagem, mas nem por isso deixava de ser um vigoroso estilista"
(Mário de Andrade, 1978: 310).
As opiniões adversas tampouco restringem-se a teóricos diferentes.
O próprio Veríssimo afirma que, apesar dessas fraquezas e defeitos, o
livro apresenta qualidades que o cedem um lugar distinto: a feição
profundamente brasileira.
"Apesar disso, não obstante estas imperfeições da linguagem e da
ação, e menores máculas que não fora difícil esmiuçar, eu considero-o
um dos mais característicos da nossa literatura, um dos mais nacionais
que tenhamos, um dos que menos intencional e mais naturalmente nos
dão aquela impressão de nacionalismo a que no começo aludi". (José
Veríssimo, 303).
Esse caráter de literatura nacional, observado por Veríssimo, se dá
pelo fato de Memórias de um sargento de milícias ser uma
representação da sociedade carioca, tratando com objetividade os seus
costumes e hábitos, sendo atribuído à obra, portanto, a idéia de
romance documentário. Esta riqueza de costumes é considerada, por
37
Mário Andrade, o grande mérito de Memórias de um sargento de
milícias.Quanto a esse aspecto, Andrade observa a reprodução dessa
tradição no referido romance.
O romance está cheio referências musicais de grande interesse
documental. Enumera instrumentos, descreve danças, conta o que era
"a música de barbeiros", nomeia as modinhas mais populares do
tempo". (Mário de Andrade, 1978: 307).
Essas análises, por diversas vezes adversas, culminam em um
ponto: entender a real classificação literária de Memórias de um
sargento de milícias, por sinal o foco do nosso trabalho.
É fato que a classificação literária de um livro concede uma prévia
sobre o estilo e ideologia do mesmo. O grande marco de Memórias
consta aí, visto que, a respeito do que já foi dito, a obra pouco tem a ver
com a escola literária na qual foi enquadrada.
O romance estudado é marcado pelas contradições, presentes em
vários aspectos, sendo necessário ressaltar, nesse momento, as
divergências existentes entre os críticos, visto que é o título da nossa
sessão. Esses contrastes fazem de Memórias uma obra especial,
impregnada de um mistério, uma indefinição, que agrada ou não seu
leitor. Essa capacidade de gerar polêmica é o grande trunfo de Manuel
Antônio de Almeida em seu único romance.
Após uma breve análise do nosso objeto de estudo, seguido sob a
visão de dois conceituados teóricos, José Veríssimo e Mário de
Andrade, convém partir para a sessão II, em que encontra-se o núcleo
de nosso artigo.
-Hein?(...) Pois agora saiba, porque eu cá não tenho papas na
língua, que o tal seu afilhado das dúzias é um pedaço de malcriadão
grande, que há de desonrar as barbas de quem o criou..." (Idem, p.58)
Quanto à linguagem, percebe-se ainda a interação entre leitor e
narrador. Este, por sinal, é onisciente e, apesar de tecer comentários
quanto às situações, não interfere na história do romance.
Outro ponto a ser comentado é a questão da mulher na obra. Aqui
extermina-se a mulher idealizada. Isto se reforça com a própria
descrição de Vidinha, que veio a se tornar namorada de Leonardo.
"Vidinha era uma rapariga que tinha tanto de bonita como de
movediça e leve: um soprozinho por brando que fosse, a fazia revoar, e
voava e revoava na direção de quantos sopros por ela passassem; isto
quer dizer, em linguagem chã e despida dos trejeitos da retórica, que
ela era uma formidável namoradeira, como hoje se diz, para não dizer
lambeta, como se dizia naquele tempo" (Idem, p.149).
Até o momento, evitamos usar neste artigo a expressão "herói" para
designar o nosso personagem principal, o Leonardo. Entramos em um
outro ponto de análise da obra. O personagem está mais para um antiherói. Por diversas vezes sua figura é ofuscada pela de outros
personagens da trama. Inicialmente é apontado como traquina,
desordeiro e vingativo. Deixa-se levar pelo meio em que vive. Há uma
ruptura com a idéia do herói idealizado no Romantismo. Leonardo seria
o primeiro malandro brasileiro.
Uma característica forte é a malandragem contida nos personagens,
e não apenas no nosso anti-herói. Segundo Antônio Cândido, a obra é
estruturada com a relação/oposição entre Ordem e Desordem,
apresentando uma análise crítica e irônica dos costumes morais.
Nesse sentido, a ordem seria uma representação da elite, que
controla as regras. Contrapondo esse conceito, estaria a desordem,
ocupada pelas camadas populares. A malandragem, viria não como
adjetivo próprio de uma determinada classe, mas sim uma característica
própria de todos. A ordem e a desordem seria caracterizada pelo bem e
pelo mal.
É importante ressaltar a presença das camadas populares na obra,
que é uma caricatura, um reflexo da sociedade da época. Isso se
comprova quando percebemos que boa parte dos personagens não
possuem nomes próprios, são identificados pela profissão. A exemplo
temos major Vidigal, O Reverendo, a parteira, o barbeiro, Maria-dahortaliça.
Alguns teóricos insistem em afirmar que Memórias de um
sargento de milícias se configura como um romance avant la lettre,
precursor do Realismo, visto que o romance referido reflete uma
suposta realidade. No entanto , não se encontram nas Memórias
algumas características realistas não são evidenciadas no romance:
objetividade do narrador, a análise psicológica, a busca pela perfeição
formal, nos levando a descartar então a possibilidade de enquadrar o
livro no Realismo.
II- O ANTI-ROMANTISMO DE MEMÓRIAS DE UM
SARGENTO DE MILÍCIAS
Na segunda metade do século XIX, o Brasil passava por mudanças
políticas e econômicas. Foi nesse contexto histórico, meio à
independência já consolidada, que ganha força o Romantismo no
Brasil.
Como toda escola literária, o romantismo trouxe consigo uma série
de características próprias: imaginação criadora, subjetivismo, evasão,
senso de mistério, consciência da solidão, reformismo, sonho, fé,
exagero, sentimentalismo, ânsia de glória, importância da paisagem,
gosto pelas ruínas, gosto pelo noturno, idealização da mulher, função
sacralizadora da arte.
A partir daí, surge a geração ultra-romântica, integrada por
Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo, Junqueira Freire, entre outros.
Em meio às esses romances, Manuel Antônio de Almeida
publica Memórias de uma sargento de milícias.
Embora escrito em pleno Romantismo, Memórias apresenta
características diferentes a essa escola literária. Manuel Antônio de
Almeida transgride as concepções literárias da época.
O primeiro fato a ser observado na obra é a ausência do
sentimentalismo exagerado.
"Tratava-se de uma cigana; o Leonardo a vira pouco tempo depois
da fuga da Maria, e das cinzas ainda quentes de um amor mal pago
nascera outro que também não foi a esse respeito melhor aquinhoado;
mas o homem era romântico, como se diz hoje, e babão, como se dizia
naquele tempo; não podia passar sem uma paixãozinha." (idem, p. 31).
Percebe-se nesse excerto da obra uma desvalorização do
sentimentalismo, do ultra-romantismo, caracterizados pela ironia,
tendendo para a gozação. Essa, por sinal, é uma tendência do livro, que
segue uma linha cômica. O autor chega, num marco de sua ousadia, a
satirizar o início do romance dos pais do personagem principal.
Sobre esse assunto, Afrânio Coutinho afirma mais.
"Muito se tem dito acerca da sua natureza de romance realista avant
la lettre, de sua condição de precursor da ficção realista. Na verdade,
essa alegação é um esforço de supervalorização a partir de um
nacionalismo mal-entendido, que procura emprestar ao romancista
brasileiro uma antecipação do realismo à francesa."
Memórias de um sargento de milícias é apresentado, neste artigo,
como um romance anti-romântico. No entanto, ainda que descaracterize
ou contradiga nosso artigo, é necessário afirmar que o final da obra
assume, no final, uma postura romântica, quando Leonardo assume seu
posto e casa-se com Luisinha. Por essa razão, alguns estudiosos
afirmam que o romance é romântico sim, apenas assume uma postura
mais excêntrica.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
É fato que Memórias de um sargento de milícias foge às
tendências do Romantismo, como geralmente é classificado. Essa
classificação só é plausível quando analisa-se a época da publicação,
em uma análise puramente cronológica.
Do ponto de vista da estilística, é necessário que haja uma
reclassificação da obra, que tende para o anti-romantismo. Essa
ausência de Romantismo é evidenciado a todo o tempo, seja na
linguagem ou nos comportamentos sociais.
Apesar do final supostamente romântico, é impossível enquadrar a
obra no Romantismo, visto que há a ausência de características
marcantes deste, como o excesso, subjetivismo, fantasia. Memórias, ao
"(...) O Leonardo fingiu que passava distraído por junto dela, e com
o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela no pé direito. A
Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu envergonhada com o
gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um tremendo beliscão nas
costas da mão esquerda." (Idem, p.17).
Além da sátira, é notável a presença de uma linguagem desleixada.
Não lhe escapava pobres, nobres ou religiosos. A antiga linguagem
rebuscada é substituída pela linguagem simples, coloquial, uma mera
reprodução da fala dos personagens, sem o excessivo cuidado do autor
em torná-la rebuscada, conferindo à narrativa um tom despretensioso e
espontâneo. Pela primeira vez na literatura brasileira a língua falada é
reproduzida naturalmente.
"- Já... Já... senhora intrometida com a vida alheia... já sabe o padrenosso, e eu faço rezar todas as noites um pelo seu defunto marido que
está a esta hora dando couces no inferno!...
38
contrário, é lacônico, objetivo, realista, não sendo este último a escola
literária, mas sim adjetivo.
Muito especula-se na necessidade de enquadrar o romance no
Realismo. No entanto, diante das diferenças técnicas e ideológicas, essa
é uma classificação descabida.
O que sabemos, e isso é certo, é eu necessitamos de uma
reclassificação convincente da obra Memórias de uma sargento de
milícias. Em todo o caso, em nosso artigo, devido às particularidades
do romance em relação à estilística, preferimos encerrar considerando o
livro apenas como anti-romântico, ao invés de enquadrá-lo em alguma
escola literária.
Leonardo queria uma festa refinada, mesmo com dificuldade em achar
pares. Levantaram: uma mulher gorda, baixa e matrona, sua
companheira, cuja figura era a mais completa antítese da sua, um
colega do Leonardo, miudinho e pequenino, com ares de gaiato e o
sacristão da Sé, alto e magro, com pretensões de elegante.
Enquanto compadre tocava o minueto na rabeca, o afilhadinho
acompanhava cada arcada com um guincho e um esperneio, fazendo o
compadre perder, várias vezes, o compasso.
Aos poucos o minueto foi desaparecendo e a coisa esquentou,
chegaram os rapazes da viola e machete; logo, a coisa passou de
burburinho para gritaria e algazarra, que só parou quando perceberam
que o Vidigal estava por perto.
Resumo
O narrador, baseando-se em uma história contada por um sargento
de milícias aposentado, adota a postura de contador de histórias para
narrar os costumes e acontecimentos de mais ou menos cinqüenta anos
atrás. Logo, o narrador não viveu na época das estripulias de Leonardo.
A festa acabou tarde. A madrinha foi a última a sair, mas antes
colocou um raminho de arruda no pimpolho.
II – Primeiros infortúnios - O narrador, mais um vez, inclui o
leitor na narrativa, chamando-o para pularem alguns anos desde o
batizado do herói e irem encontrá-lo com sete anos, mas antes avisa que
durante todo esse tempo o menino não desmentiu aquilo que já se
anunciava, ou seja, desde o nascimento já atormentava: ainda bebê era
o choro, mas assim que se pôs a andar era um flagelo, quebrava e
rasgava tudo o que podia; o que mais gostava era do chapéu do pai e
sempre que podia por-lhe as mãos, punha-lhe dentro tudo o que
encontrava. Quando não traquinava, comia. Maria não lhe perdoava,
tanto que o menino trazia uma região do corpo bem maltratada, mesmo
assim ele não se emendava, era teimoso, suas travessuras recomeçavam
mal acabava a dor das palmadas. Foi assim que o herói chegou aos sete
anos.
I – Origem, nascimento e batismo - É a apresentação do
protagonista Leonardo. O narrador, baseando-se na história que um
sargento de milícias aposentado lhe contou, narra a vida e os costumes
do Rio de Janeiro na época em que D. João VI esteve no Brasil, daí
iniciar com: Era no tempo do rei. – volta a um passado não muito
distante.
No Rio de Janeiro, na rua do Ouvidor, havia um local em que os
meirinhos se reuniam, daí o nome o canto dos meirinhos, os meirinhos
da época em que vivia o narrador, Segunda metade do século XIX,
eram apenas uma sombra caricata daqueles do tempo do rei, gente
temida e temível, respeitada e respeitável e a sua influência moral era a
de formarem um dos opostos da cadeia judiciária; mas além da
influência moral tinham também a influência que derivava de suas
condições físicas, que é o que falta nos meirinhos de hoje (época em
que vivia o narrador da obra), estes são homens como quaisquer outros,
confundem-se com qualquer procurador, escrevente de cartório ou
contínuo de repartição; já os da época do rei eram inconfundíveis tanto
no semblante quanto no trajar: “sisuda casaca preta, calção e meias da
mesma cor, sapato afivelado, ao lado esquerdo aristocrático
espadachim, e na ilharga direita penduravam um círculo branco cuja
significação ignoramos, e coroavam tudo isto por um grave chapéu
armado. Nesta época ele podia usar e abusar da sua posição.
Como a mãe, Maria, sempre fora saloia, o pai, Leonardo,
suspeitava de que estava sendo traído, pois por diversas vezes viu um
certo sargento se esgueirando e enfiando olhares curiosos janela
adentro. Outras vezes estranhou que um certo colega sempre ia
procurá-lo em casa; mas o mais grave foi, não só deparar-se várias com
um certo capitão do navio de Lisboa junto de sua casa, como também,
ao entrar em casa, vê-lo fugir pela janela. Não agüentou, cerrou os
punhos e tremendo com todo o corpo, gritou: — Grandessíssima!..., em
seguida, saltou sobre Maria. Ela saltou para trás, pôs-se em guarda e
sem temer advertiu-o: — Tira-te lá, ó Leonardo!
Como a sua resistência, frente ao ódio de Leonardo, era inútil,
começou a correr e pedir socorro ao compadre Barbeiro que ocupado,
ensaboando a cara de um freguês, nada pôde fazer e ela, como única
opção, encolheu-se em um canto.
Após a comparação, o narrador chama o leitor para participar da
narrativa, usando para isso, a primeira pessoa do plural: “Mas voltemos
à esquina , à abençoada época do rei”, e lá apresenta-lhe a equação
meirinhal; um grupo de meirinhos conversando sobre tudo que era
lícito conversar: vida dos fidalgos, fatos policiais e astúcias do Vidigal.
No grupo destacava-se Leonardo-Pataca, uma rotunda e gordíssima
figura de cabelos brancos e carão avermelhado; era moleirão e
pachorrento; como era moleirão, ninguém o procurava para negócios e
ele nunca saía da esquina, passava os dias sentado, tendo a sua infalível
companheira depois dos cinqüenta, a bengala. Como sempre se
queixava dos 320 réis por citação, deram-lhe o apelido de Pataca.
O menino, no maior sangue-frio, enquanto rasgava as folhas dos
autos que o pai havia largado ao entrar, assistia à mãe que apanhava.
Quando o pai estava se acalmando, viu a obra do filho e tornou a se
enfurecer: suspendeu o filho pelas orelhas, fazendo-o dar meia volta;
em seguida ergueu o pé direito e dizendo que o menino era filho de
uma pisadela e de um beliscão, assentou-lhe em cheio sobre os glúteos,
atirando-o a quatro braças de distância.
Cansado de ser o Leonardo algibebe de Lisboa viera ao Brasil e não
se sabe por proteção de quem havia alcançado o posto de meirinho.
Ainda a bordo do navio, conhecera Maria da hortaliça, quitandeira das
praças de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitona. Eles se conheceram
quando ela estava encostada à bordo do navio e ele, ao passar, fingiu-se
de distraído e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela
no pé direito. Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como
envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um
tremendo beliscão nas costas da mão esquerda.
O menino ergueu-se rapidamente e em três pulos estava dentro da
loja do padrinho; nem bem havia entrado, esbarrou na bacia de água
com sabão que estava nas mãos do padrinho e acabou batizando o
freguês com toda aquela água.
O afilhado apontou o problema e o padrinho, após desculpar-se
com o freguês, resmungou: — Ham! resmungou; já sei o que há de
ser... eu bem dizia... ora ai está!... e foi acudir o que acontecia.
De beliscões e pisadelas, tornaram-se amantes e quando saltaram
em terra ela começou a sentir certos enojos. Os dois foram morar juntos
e sete meses depois, manifestaram-se os efeitos da pisadela, nasceu o
herói dessa história, um formidável menino de quase três palmos de
comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão. Assim
que nasceu, mamou duas horas seguidas, sem largar o peito.
Por estas palavras vê-se que ele suspeitara alguma coisa; e saiba o
leitor que suspeitara a verdade. - Não se pode deixar de perceber nesse
fragmento que o narrador conversa com o leitor, chamando-o para a
narrativa.
O compadre já sabia o que estava acontecendo pois era comum, na
época, espionar a vida alheia, logo, conhecia todas as visitas da
comadre.
Os padrinhos de batismo foram a madrinha parteira e o compadre
barbeiro, foi uma festança; o compadre trouxe a rabeca e todos
dançaram o fado e apesar da dificuldade em encontrar pares, o minueto;
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O barbeiro entrou na casa do compadre Leonardo e ao perguntarlhe se havia perdido o juízo, ele respondeu-lhe Ter perdido a honra.
Maria apareceu e sentindo-se protegida pelo compadre, pôs-se a
zombar e a xingar toda a classe masculina; assim que acalmou o
segundo “round” de murros, enquanto ela chorava em um canto,
Leonardo, com olhos e bochechas vermelhas, juntou os papéis
rasgados, a bengala e o chapéu e saiu batendo a porta. Era de manhã.
cômodos e a mobília compunha-se de dois ou três assentos de paus,
algumas esteiras, uma caixa enorme de pau que servia para várias
coisas: mesa de jantar, cama, guarda-roupa e prateleira. Quem morava
nessa tapera não era o Leonardo, mas sim um feiticeiro, um caboclo
velho, que conforme crença da época, tinha por ofício dar fortuna. Não
era só a gente do povo que acreditava, mas também muita gente da alta
sociedade o procurava para comprar a felicidade pelo cômodo preço da
prática de alguma imoralidades e superstições.
À tarde quando o compadre retornou à casa, decidido fazer as pazes
com Maria, ela não estava mais lá, havia fugido com o capitão do navio
de Lisboa.
Dentre a gente do povo que o procurava em busca de fortuna,
temos o Leonardo Pataca por causa das contrariedades que sofria com
um novo amor. Era uma cigana que Leonardo conhecera logo após a
fuga de Maria, isso porque ele era romântico - termo que na época do
narrador significa babão, já na época de Leonardo Pataca significava
que ele não podia passar sem uma paixãozinha. Como a sua profissão
rendia não lhe era difícil conquistar a posse do adorado, mas a
fidelidade, a unidade no gozo, que era o que sua alma aspirava, isso não
conseguira pois a cigana era tão saloia quanto Maria - da - Hortaliça,
esta fugira com outro com a desculpa de saudades da pátria, mas a
outra não eram saudades, o que fez Leonardo buscar meios
sobrenaturais para consegui-la de volta, já que os meios humanos
movidos por súplicas não funcionaram.
Leonardo saiu sem falar nada e o pequeno ficou com o Compadre
Barbeiro.
III – Despedidas às travessuras - O pequeno, enquanto se achava
novato na casa do padrinho, portou-se com sisudez e seriedade, mas
assim que foi se familiarizando com o novo ambiente, começou a pôr
as manguinhas de fora; mesmo assim, o padrinho estava cego de
afeição pelo menino, tanto que por pior que fosse a travessura do garoto
ou mal-criação, ele achava graça dizendo serem atitudes ingênuas.
A atitude do homem era natural, visto que ele já tinha 50 e tantos
anos, nunca tinha tido afeições; passara sempre só, isolado; era
verdadeiro partidário do mais decidido celibato. Logo à primeira
afeição que fora levado a contrair sua alma expandiu-se toda inteira, e
seu amor pelo pequeno subiu ao grau de rematada cegueira.
O seu desespero era tamanho que se entregou de corpo e alma ao
caboclo da casa do mangue, além de contribuir com dinheiro, já ter
sofrido fumigações de ervas sufocantes, tragar bebidas enjoativas;
decorar milhares de orações misteriosas, que era obrigado a repetir
muitas vezes por dia; tinha também que depositar quase todas as noites
em lugares determinados quantias e objetos com o fim de chamar em
auxílio, dizia o caboclo, as suas divindades; apesar de tudo isso a
cigana resistia ao sortilégio. A última prova para a reconquista foi
marcada para a meia-noite; à hora marcada Leonardo encontrou à porta,
o nojento nigromante que não permitiu que ele entrasse vestido,
obrigou-o a trajar-se à moda de Adão no paraíso e após cobri-lo com
um manto imundo, abriu-lhe a entrada.
Este, aproveitando-se da imunidade em que se achava por tal
motivo, fazia tudo quanto lhe vinha à cabeça.
O menino era de fato endiabrado: várias vezes sentado na loja
divertia-se em fazer caretas aos fregueses quando estes se estavam
barbeando. Uns riam e outros se enfureciam, do que resultava que
saíam muitas vezes com a cara cortada, com grande prazer do menino e
descrédito do padrinho. Outras vezes escondia em algum canto a mais
afiada navalha do padrinho, e o freguês levava por muito tempo com a
cara cheia de sabão mordendo-se de impaciência enquanto este a
procurava; ele ria-se furtiva e malignamente. Em casa, nada ficava
inteiro por muito; pelos quintais atirava pedras aos telhados dos
vizinhos; sentado à porta da rua, entendia com quem passava e com
quem estava pelas janelas, de maneira que ninguém por ali gostava
dele. O padrinho porém não se dava disto, e continuava a querer-lhe
sempre muito bem. Desempenhando o papel de pai, passava às vezes,
as noites fazendo castelos no ar a seu respeito; sonhava-lhe uma grande
fortuna e uma elevada posição, e tratava de estudar os meios que o
levassem a esse fim. Queria o melhor para o menino, já que havia se
arranjado na vida, pensava até em enviá-lo para Coimbra, (como um
babeiro havia se arranjado na vida e conseguido dinheiro para isso,
segundo o narrador, é assunto para outra história). Segundo o barbeiro,
a melhor profissão para o menino seria a de clérigo.
Lá dentro, após ajoelhar-se e rezar em todos os cantos da casa,
Leonardo aproximou-se da fogueira, quatro figuras saíram do quarto e
foram juntar-se a eles e todos dançavam sinistramente ao redor da
fogueira quando de repente bateram levemente a porta e pediram para
abri-la, isto fez com que todos de dentro se sobressaltassem: era o
major Vidigal.
V – O vidigal - Nessa época ainda não estava organizada a polícia
da cidade, portanto o major era rei absoluto, era o árbitro supremo de
tudo que dizia respeito a esse ramo de administração; era o juiz que
julgava e distribuía a pena, e ao mesmo tempo o guarda que dava caça
aos criminosos; nas causas da sua imensa alçada não havia
testemunhas, nem provas, nem razões, nem processo; ele resumia tudo
em si; a sua justiça era infalível; não havia apelação das sentenças que
dava, fazia o que queria, e ninguém lhe tomava contas.
Após ruminar por muito tempo essa idéia, certa manhã, uma
Quarta-feira, chamou o pequeno, então com 9 anos, e disse-lhe que
deveria se fartar de travessuras até o resto da semana, dali em diante, só
aos domingos, após a missa. O pequeno levou a fala do padrinho ao pé
da letra e achou que era uma licença ampla para fazer tudo o que
quisesse, fosse bem ou mal.
Exercia enfim uma espécie de inquirição policial. Entretanto, frente
aos costumes e acontecimentos da época, ele não abusava muito de seu
poder, e o empregava em certos casos muito bem empregado. Era um
homem alto, não muito gordo, com ares de moleirão; tinha o olhar
sempre baixo, os movimentos lentos, e voz descansada e adocicada.
Apesar deste aspecto de mansidão, não se encontraria por certo homem
mais apto para o seu cargo inquisidor.
Ao anoitecer, sentado à porta, o padrinho viu de longe um
acompanhamento alumiado pela luz de lanternas e tochas e ouviu
padres rezarem. Era a via sacra do Bom Jesus.
O major Vidigal juntamente com uma companhia de soldados
escolhido por ele rondavam a cidade a noite e a sua polícia durante o
dia. Não havia um lugar em que a sagacidade do major não caçasse
vagabundos.
O menino quando viu aquilo, estremecendo de alegria, lembrou se
da fala do padrinho, “fartar-se de travessuras”; não perdeu tempo:
misturou-se com a multidão, e lá foi concorrendo com suas gargalhadas
e seus gritos para aumentar a vozeria. Com um prazer febril pulava,
cantava, gritava, rezava e saltava, era um prazer febril; só não fez o que
não tinha forças. Para ajudar ainda mais ass estripulias, juntou-se com
mais dois moleques e as estripulias foram tantas, que quando deu por si
a via-sacra já havia retornado à igreja do Bom Jesus.
Ele espalhava terror.
O som daquela voz que dissera “abra a porta” gerava medo nos
integrantes da sala, era o prenúncio de um grande aperto, com certeza
não conseguiriam escapar. Mesmo assim, o grupo pôs-se em
debandada, tentaram sair pelos fundos, mas a casa estava cercada e
todos foram pegos em flagrante delito de nigromancia.
IV – A fortuna - Enquanto o compadre, procura o afilhado por
toda a parte, o narrador, ao convidar o leitor para ver o que era feito do
Leonardo, acaba chegando nas bandas do mangue da Cidade Nova, em
uma casa coberta de palha da mais feia aparência, possuía dois
O major por sua vez, já dentro da casa, pediu-lhes que
continuassem com a cerimônia pois queria ver como era. Resistir era
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inútil, então, após hesitarem, recomeçaram ritual. Já fazia meia hora
que dançavam andando ajoelhados, mas sempre que paravam o major
pedia para continuarem. Muito tempo depois pararam, mas o major
pediu-lhes para continuarem. Não agüentavam mais, mas o major pedia
para continuarem. Muito, mas muito tempo depois, quando já se
arrastavam, o major ordenou-lhes que parassem e pediu aos granadeiros
para tocarem, o que fez os soldados arrancarem as chibatas e o grupo
feiticeiro dançar muito mais.
Era uma mulher baixa, gorda, bonachona, ingênua ou tola até certo
ponto, e fina até outro. Vivia do ofício de parteira e de benzedeira. Era
conhecida como beata e papa-missas.
O seu traje habitual era como já se esperava, igual ao de todas as
mulheres da sua condição e esfera, uma saia de lila preta, que se vestia
sobre um vestido qualquer, um lenço branco muito teso e engomado ao
pescoço, outro na cabeça, um rosário pendurado no cós da saia, um
raminho de arruda atrás da orelha, tudo isto coberto por uma clássica
mantilha, junto à renda da qual se pregava uma pequena figa de ouro ou
de osso.
Depois de reger a música para a frenética dança, o major Vidigal
começou o interrogatório. Perguntou a ocupação de um por um e nada
ouviu, até que chegou a vez do Leonardo Pataca, reconheceu-o e
quando o pobre homem explicou-lhe o motivo de tudo aquilo, o major
prontificou-se a curá-lo e arrastou-o para a casa da guarda no largo da
Sé, era uma espécie de depósito que guardava os que haviam sido
presos durante a noite até dar-lhes um destino.
O uso da mantilha era um arremedo espanhol e segundo o narrador
era uma coisa poética pois revestia as mulheres de um certo mistério,
realçava lhes a beleza, mas a mantilha das mulheres brasileiras era
muito mais prosaico do que se podia imaginar, principalmente usadas
por gordas e baixas. As mantilhas usadas nas brilhantes festas
religiosas, nem se fala, pois a igreja tomava um ar lúgubre ao se encher
daqueles vultos negros que se uniam e cochichavam a cada momento.
Ao amanhecer, toda a cidade já sabia do ocorrido e Leonardo foi
mandado para a cadeia o que fez os companheiros mostrarem-se
sentidos, a princípio, para logo depois gostarem pois enquanto o colega
estava preso eles seriam procurados para os negócios, era um
concorrente a menos.
Apesar de tudo, a mantilha era o traje mais conveniente da época,
posto que as ações dos outros era o principal cuidado de quase todos,
era necessário ver sem ser visto. Funcionava como um observatório da
vida alheia.
VI – Primeira noite fora de casa - Assim que deu por falta do
afilhado, o compadre, todo aflito, pôs-se a procurar pela vizinhança,
mas ninguém tinha notícias do menino. Lembrou-se então da via-sacra
e pôs se a percorrer as ruas. Indagando, aflitoa, a todos que encontrava
pela rua, o paradeiro do seu tesouro. Quando chegou ao Bom-Jesus,
informaram-lhe terem visto três endiabrados que foram expulsos da
igreja pelo . Essa era a única pista que tinha.
O fato de ser parteira, beata e curandeira, tomava-lhe muito tempo,
tanto que fazia tempo que não via nem sabia nada do compadre,
Leonardo, Maria e do afilhado, até que um dia na Sé, ouviu as beatas
comentarem sobre Maria Ter apanhado de Leonardo, ter fugido com
um capitão e o filho, um mal-educado, ter ficado com o barbeiro.
Retornou a sua casa e ao indagar novamente a vizinha, exasperouse quando esta lhe respondeu que o menino tinha maus bofes e que a
história não teria um bom final.
Ao ouvir a história, pôs-se rumo à casa do barbeiro, lá chegando
questionou o fardo deixado para o homem carregar. Após Ter
respondido ao interrogatório da comadre, pôs-se a defender o pequeno,
dizendo ser sossegadinho, gentil e ter intenções de ser padre.
O pobre homem passou a noite em claro e decidiu, antes de pedir
ajuda ao Vidigal, esperar mais um dia.
A comadre não concordou como compadre e retirou-se.
Enquanto o compadre dá esse prazo, o narrador conduz o leitor ao
paradeiro do menino.
A partir desse dia, a comadre sempre aparecia na casa do
compadre.
Junto com os emigrados de Portugal, veio também para o Brasil, a
praga dos ciganos, gente ociosa e sem escrúpulos, tão velhacos que
quem tivesse juízo não se me tia com eles em negócios; quanto a poesia
de seus costumes e crenças, deixaram do outro lado do oceano,
trazendo para cá, apenas os maus hábitos. Viviam quase na ociosidade,
não tinham noite sem festa. Moravam ordinariamente nas ruas
populares e viviam em plena liberdade.
O padrinho, não desistindo de seus sonhos, pôs se a ensinar o ABC
ao afilhado, que empacava no F.
Após apresentar a comadre, o narrador volta a informar o paradeiro
de Leonardo.
VIII – O pátio dos bichos - No palácio del-rei, conhecido nos
tempos do narrador como paço imperial, existia no saguão, uma saleta,
conhecida com salão dos bichos, apelido dado em conseqüência de seu
uso: Diariamente, passavam por ele três ou quatro oficiais superiores
velhos, incapazes para a guerra e inúteis para a paz, eram pouco usados
pelo rei, logo passavam ociosos a maior parte do tempo. Dentre eles,
destaca-se um português, era tenente-coronel. A sua importância na
história e que foi ele quem a comadre procurou para pedir a libertação
de Leonardo.
Os dois meninos, com quem o pequeno fizera amizade, eram de
uma família dessa gente e acostumados à vida à toa, conheciam toda a
cidade, percorriam-na sós. Após se conhecerem na via-sacra,
carregaram o pequeno para a casa dos pais. Pelo caminho o menino
ainda teve escrúpulos de voltar mas decidiu seguir os dois e ir até onde
iriam. Lá , como era de se esperar, havia uma festa para o santo de sua
devoção.
Daí a pouco começou o fado e o menino, esquecido de tudo pelo
prazer, assistiu a tudo enquanto pôde; mas ao chegar o sono, reuniu-se
com os companheiros em um canto e adormeceram, embalados pela
música e sapateado.
Após ouvi-la, o velho colocou o chapéu armado, pôs a espada à
cinta e saiu. Em breve, saber-se-á do resultado.
IX – O arranjei-me do compadre - Aqui, o narrador revelará
alguns fatos da vida do compadre, até agora desconhecidos: o
compadre nada sabia de seus pais ou parentes e quando jovem, achouse na casa de um barbeiro, não sabia se estava lá como filho ou
agregado; não só cuidava do barbeiro como também herdara dele a
profissão.
Acordou sobressaltado e pediu aos companheiros que o levasse
para casa.
Quando o padrinho ia recomeçar a busca, esbarrou no afilhado e ao
interrogá-lo, ele respondeu que como queria que ele fosse padre, tinha
ido ver um oratório.
Já adolescente, sabia barbear e sangrar sofrivelmente e como jamais
conseguiria se manter com essa profissão, visto que o sucesso e
fregueses cabiam ao seu mestre, saiu sem rumo. Como todo barbeiro é
tagarela, conheceu um marujo que acabou colocando-o a bordo, como
barbeiro e sangrador.
O padrinho, não resistiu à ingenuidade do afilhado e sorrindo
levou-o para dentro.
VII – A comadre - Vale agora falar um pouco de uma personagem
que desempenhará um importante papel ao longo da história: é a
comadre, a parteira e madrinha do memorando.
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A bordo, ganhou fama quando sangrou e curou dois marujos
doentes e com sua lanceta não deixou nenhum negro do carregamento
morrer.
concentrar no memorando, ou seja em Leonardo, afilhado do barbeiro,
pois a última vez que fora mencionado estava encalhado no F e agora já
está no P, de novo empacado, mas o progresso do menino havia
deixado o padrinho muito contente. O difícil era fazê-lo decorar o
padre-nosso, em vez de dizer “venha a nós o vosso reino”, ele dizia :
“venha a nós o pão nosso”. O maior suplício para o menino era ir à
missa ou ao sermão.
Poucos dias antes de chegar ao Rio, o capitão do navio adoeceu e
nem com a Quarta sangria ele melhorou. Havia chegado a hora do
capitão, não havia sangria que o salvasse. Moribundo e em segredo, o
capitão, que confiava no barbeiro, entregou-lhe uma caixa, deu lhe o
endereço e pediu-lhe que entregasse a sua filha, em seguida disse que
espiaria a sua tarefa lá do outro mundo. Pouco tempo depois, o capitão
morreu. A partir daí, o barbeiro já não sangrava mais como antes e
decidiu não embarcar mais. Quanto a história do capitão, sequer havia
testemunhas então, o compadre instituiu-se como herdeiro do capitão.
Foi assim que ele se arranjou na vida.
Mesmo assim, enquanto todos viam em Leonardo um grande
peralta, principalmente a vizinha, o padrinho não perdia as esperanças
de vê-lo um clérigo.
Era a tal vizinha uma dessas mulheres que se chamam de faca e
calhau, valentona, presunçosa, e que se gabava de não ter papas na
língua: era viúva, e importunava a todo o mundo com as virtudes do
seu defunto. Ela não perdia tempo em desmentir o vizinho em suas
esperanças a respeito do afilhado.
X – Explicações - O velho tenente-coronel, apesar de virtuoso,
bom e de estar numa idade inofensiva, tinha um sofrível par de pecados
da carne, tanto que aos 36 anos havia deixado em Lisboa, um filho. Aos
20 anos era um cadete desordeiro, jogador e insubordinado. Deixava o
pai, um homem de respeito, desesperado.
Certo dia, o barbeiro não suportou mais, pois certo dia, ao chegar a
loja, a vizinha, à janela, perguntou-lhe, em zombaria, onde estava o seu
reverendo.
Poucos dias antes de embarcar para o Brasil, em companhia de elrei, o infeliz pai foi procurado por uma mulher velha, baixa, gorda e
vermelha, vestida, segundo o costume das mulheres da mais baixa
classe do seu país: um vestido de chita e um lenço branco, triangular
sobre a cabeça e preso embaixo do queixo. Estava nervosa e agitada,
seus lábios franzinos e franzidos estavam apertados um contra o outro,
como se segurassem uma torrente de injúrias. Assim que chegou em
frente ao capitão, era esse o posto do velho tenente-coronel na época,
olhou-o com ar resoluto e enfurecido, fazendo-o, instintivamente, dar
um passo atrás.
O barbeiro, vermelho, foi às nuvens e quando ela perguntou se o
menino já sabia o padre-nosso, o homem não agüentou e exasperandose respondeu-lhe que o menino já sabia e que ele o fazia rezar todas as
noites para seu marido que estava dando coices no inferno.
A mulher retrucou e chamou-o de raspa-barbas.
A discussão foi longe.
Quando o compadre perguntou a mulher o porquê de ele implicar
tanto com uma criança que nunca havia lhe feito mal, ela respondeu
que ele vivia jogando pedras no telhado, fazia-lhe caretas e a tratava
como se fosse uma saloia ou mulher de barbeiro.
Ela, colocando as mãos nas cadeiras e chegando a boca bem perto
do rosto do capitão, logo já se pôde deduzir: o problema era com o filho
do capitão que pôs-se a namorar Mariazinha, filha da velha nervosa.
Segundo a mulher, foi namoro pra lá, namoro pra cá e... brás!..
O menino ao ouvir tanto estardalhaço, pôs-se a porta e começou a
arremedá-la. O compadre achou tanta graça que sentiu-se vingado e
desatou a rir.
O capitão foi às nuvens. A mulher ainda afirmou que o rapaz havia
prometido casamento a filha.
Após pensar um segundo, viu que não poderia deixar o filho casarse com a filha de uma colareja e além do mais, o que ele ganhava como
cadete não era suficiente para o rapaz sustentar uma família. Então, o
capitão disse a mulher que pensaria no caso.
Enquanto a discussão termina, o narrador aproveita para informar
que o barbeiro sabia da prisão de Leonardo mas não se importava.
Assim que o velho tenente-coronel colocou Leonardo na rua,
decidiu tomar Leonardo para a sua proteção, acreditando que se
conseguisse felicitá-lo, lavaria o seu filho do pecado; tanto que pediu à
comadre que oferecesse ao compadre seu préstimo para o pequeno,
chegou a pedir que o deixasse ir para a sua companhia.
O capitão, em apuros, procurou a mulher e ofereceu alguma coisa
para que ela se calasse e não estourasse.
Não deu para ele pensar muito no assunto pois havia chegado a
hora. Então, deixando o filho aos cuidados de conhecidos, partiu.
O compadre recusou e disse que era a sua função, para tampar a
boca da vizinhança, transformar o menino em gente.
XII – Entrada para a escola - Para evitar repetir a história das mil
travessuras do menino, que exasperaram a vizinhança e desgostaram a
comadre sem reduzir a amizade do barbeiro pelo afilhado, o melhor e
informar que os progressos do menino agradavam o padrinho, pois o
pequeno já lia, sofrivelmente e aprendera a ajudar na missa.
Já no Brasil, anos depois, soube que a tal Mariazinha estava no Rio
de Janeiro, em companhia de Leonardo. Era a Mariazinha, a famosa
Maria-da-Hortaliça.
Sabe-se agora o porquê de o velho tenente-coronel prometer ajudar
Leonardo: acontece que o velho, procurando satisfazer o seu escrúpulo
de pai honrado, fazia o que podia pela moça que seu filho havia
desonrado. Em segredo havia feito um trato com a comadre, ou seja
qualquer necessidade que Maria-da-hortaliça sofresse, ele supriria,
bastaria que a comadre o informasse.
Como a comadre o ajudava, ele deveria ajudá-la, é essa troca de
favores que fê-lo, assim que falou com a comadre, dirigir-se à cadeia e
após ouvir a história vinda da boca de Leonardo, dirigiu-se à casa de
um amigo, um fidalgo.
Preocupado com o futuro da criança foi procurar um mestre, Era
este um homem todo em proporções infinitesimais, baixinho, magrinho,
de carinha estreita chupada, excessivamente calvo; usava de óculos,
tinha pretensões de latinista, e dava bolos nos discípulos por dá cá
aquela palha. Era um dos mais acreditados na cidade. O barbeiro entrou
acompanhado do afilhado. Era Sábado, os bancos estavam cheios de
crianças; os dois entraram exatamente na hora da tabuada cantada, uma
espécie de ladainha de números, era monótono e insuportável, mas os
meninos gostavam.
Em poucas palavras o tenente-coronel pôs-lhe a par de tudo e o
fidalgo prometeu ajudar.
As vozes dos meninos, acompanhadas pelos passarinhos nas
gaiolas, faziam uma algazarra de doer os ouvidos.
O velho tenente-coronel, satisfeitíssimo pôs-se rumo à cadeia a fim
de contar a novidade a Leonardo.
Na Segunda-feira, lá estava o menino, munido de sua pasta a
tiracolo, a sua lousa e o seu tinteiro de chifre. Logo no primeiro dia
levou quatro bolos o que o fez declarar guerra viva à escola.
XI – Progresso e atraso - Após todas essas explicações ,
apresentações e origem dos personagens, o narrador volta a se
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Na saída, assim que viu o padrinho, disse-lhe que não voltaria mais
à escola, não queria ter que apanhar para aprender.
fim. terminada a missa queixou-se ao mestre-de-cerimônias e os dois
ganharam uma tremenda sarabanda.
O barbeiro ficou contrariado temendo que a maldita vizinha
soubesse que o menino havia apanhado no primeiro dia de escola, mas
o pequeno só concordou em retornar caso o padrinho falasse ao mestre
para não lhe bater mais. O padrinho, a fim de persuadi-lo, concordou.
XIV – Nova vingança e seu resultado - Apesar de os meninos não
se importarem com a sarabanda, não perdoaram o mestre-de-cerimônias
por tê-los humilhado em frente da vítima e resolveram desforrar e foi o
caso assim: o pobre homem era um padre de meia idade formado em
Coimbra na mais austeridade da igreja católica, poderia fornecer a
Bocage assunto para um poema inteiro; pois apesar de, aparentemente,
buscar por assunto a honestidade e a pureza corporal, a sua essência era
sensual, fato que muitos ignoravam, mas os dois pequenos estavam por
dentro de tudo, tanto que sabiam que o padre enviava recados e objetos
a uma cigana, a mesma de Leonardo Pataca.
O menino entrou na escola desesperado e como não ficasse quieto
ou calado, foi colocado de joelhos e nessa posição foi surpreendido
atirando uma bolinha de papel nos colegas; resultado: doze bolos, o que
fez o menino despejar sobre o mestre, todas as injúrias que sabia.
Segundo o barbeiro, os dezesseis bolos do primeiro dia deviam-se a
praga que a vizinha deveria ter jogado, mas ele venceria.
Já fazia três ou quatro dias que o padre não saía por estar decorando
o sermão, um sacristão foi incumbido de lhe avisar quando chegasse a
hora e os meninos não perderam tempo, o pequeno dirigiu-se à casa e
após bater, perguntou, em voz alta, pelo sacristão.
XIII – Mudança de vida - Foi com muito sacrifício que o
compadre conseguiu fazer o menino freqüentar a escola por dois anos,
levando bolos todos os dias. Apesar de o mestre sustentar a fama de
cruel, na verdade os bolos eram merecidos pois o menino era da mais
refinada má-criação, sempre desobedecia a tudo que lhe era ordenado.
A cigana mandou-o entrar e ele em vez de dizer nove, disse dez
horas.
Não parava quieto.
No dia seguinte, às nove em ponto, começou a festa e nada do
pregador aparecer, o que fez um capuccino italiano, por bondade,
oferecer-se para improvisar o sermão, já havia começado quando o
mestre entrou e ambos começaram a disputar o púlpito. Assim que
terminou, o mestre-de-cerimônias dirigiu-se ao menino que defendeuse dizendo que a cigana com quem ele estava era testemunha de que ele
havia dito que o sermão seria às nove. O Oh! Que soltaram foi geral,
mas o homem desmentiu.
Nunca uma pasta, um tinteiro, uma lousa lhe durou mais de 15 dias,
era um velhaco que vendia aos colegas tudo o que podia Ter algum
valor, empregando o dinheiro que conseguia, do pior modo que podia.
No quinto dia de escola disse ao padrinho que já sabia ir sozinho,
este acreditou e o afilhado, então somou mais um apelido ao de apanhabolos-mor, era o de gazeta-mor.
Terminada a festa despediu o menino que nem se importou.
O lugar que mais ficava quando cabulava aulas era a igreja da Sé,
pois reunia-se gente e várias mulheres com mantilha, de quem tomara
certa zanguinha por causa da madrinha. Lá, no meio da multidão, não o
encontrariam se o procurassem.
XV – Estralada - Quando Leonardo já havia se esquecido da
cigana, descobriu que ela era amante do mestre-de-cerimônias e
resolveu procurá-la para salvar sua alma, mas ela disse ter sido
procurada por vários meirinhos mas nenhum havia lhe agradado. Então,
após ter desejado uma estralada para a mulher, retirou-se jurando
vingança.
Como não saía da igreja, fez amizade com um pequeno sacristão
tão peralta quanto ele, conseguiam se comunicar apenas com troca de
olhares.
Dito e feito, contratou Chico-Juca que ganhava para dar pancada e
o dia de colocá-lo em ação seria no aniversário da cigana. Após acertar
tudo com o brigão, procurou o major Vidigal para falar sobre a festa. O
plano deu tão certo que quando os soldados do Vidigal foram revistar o
quarto, tiraram de lá, nada menos que o mestre-de-cerimônias em
ceroulas, meias pretas e sapatos afivelados. Sem perdão, o padre foi
para a casa da guarda.
Essa vida durou muito tempo, até que o padrinho voltou a
acompanhá-lo. O menino decidiu que seria muito agradável
acompanhar o colega sacristão, afogando em ondas de fumaça a cara da
velha que chegasse mais perto e para isso comunicou ao compadre o
seu desejo de freqüentar a igreja, tinha nascido para aquilo. Para o
padrinho, foi a maior alegria quando ouviu o menino pedir que lhe
fizesse sacristão.
XVI – Sucesso do plano - O mestre-de-cerimônias não chegou ao
xilindró, pois o Vidigal quis apenas dar-lhe um susto. Como era de se
esperar, a notícia correu rapidamente e logo depois, todo
envergonhado, ele seguiu para casa.
Em poucos dias aprontou-se, e em uma bela manhã saiu de casa
vestido com a competente batina e sobrepeliz, e foi tomar posse do
emprego. Ao vê-lo passar a vizinha dos maus agouros soltou uma
exclamação de surpresa a princípio, supondo alguma asneira do
compadre; porém reparando, compreendeu o que era, e desatou uma
gargalhada e ao chamá-lo de Sr. Cura, o menino respondeu-lhe que
seria e haveria de curá-la.
Enfim, Leonardo e a cigana reataram o romance, para desgosto da
comadre que tentava enfiar-lhe a sobrinha.
Já o ex-sacristão, para desgosto do compadre, ainda estava com o
seu destino incerto.
Era aquilo uma promessa de vingança.
O menino chegou à Sé impando de contente, a batina era como um
manto real e foi na maior seriedade que entrou na função de sacristão.
Já no dia seguinte, o negócio era outro: durante a missa cantada ele
ficou com a tocha e o amigo, com o turíbulo, quando de repente, para
infelicidade da vizinha, a quem o menino prometera curar, sem pensar,
colocou-se junto aos dois e bastou uma troca de olhar para se
colocarem em distância e lugar conveniente: enquanto um, tendo
enchido o turíbulo de incenso, e balançando-o convenientemente, fazia
com que os rolos de fumaça que se desprendiam fossem bater de cheio
na cara da pobre mulher, o outro com a tocha despejava-lhe sobre as
costas da
XVII – D. Maria - Num dia de procissão, o barbeiro, o afilhado, a
comadre e a vizinha dos maus agouros estavam hospedados na casa de
D. Maria, uma mulher muito velha e muito gorda, era rica, religiosa e
caridosa.
mantilha a cada passo plastradas de cera derretida, a mulher ao
exasperar-se ouviu o menino dizer que estava lhe curando. Como a
igreja estava apinhada de gente, ela teve que suportar o suplício até o
XVIII – Amores - Alguns anos depois, o menino tornou-se um
vadio-mestre, vadio-tipo, levando o padrinho ao mais
Lá, o menino ouviu a vizinha falando dele para a madrinha e como
vingança, pisou na barra da saia da mulher que ao se levantar, rasgou
em quatro palmos; a única atitude do barbeiro foi rir.
Ali, todos discutiam o destino do menino e ao saírem, D. Maria
pediu ao compadre que voltassem para falarem sobre o menino.
completo desespero.
43
A comadre conseguiu o que queria, Leonardo Pataca havia se
arranjado com a sobrinha.
por conta, mas cada vez que ficava a sós com Luisinha, dava-lhe um
tremor de pernas que mal conseguia ficar de pé ou articular qualquer
palavra. Certa ocasião, a moça estava em pé, perto da janela e ele se
aproximou ficando como a uma estátua atrás dela, quando ela se virou,
a única reação do rapaz foi a de fazer uma careta; por fim criou
coragem e disse-lhe que a queria muito bem; esta por sua vez, ficou cor
de cereja e desapareceu pelo corredor.
D. Maria havia envelhecido sofrivelmente e era, na época, tutora de
sua sobrinha que estava órfã.
As demais personagens continuam do mesmo jeito.
XXIV – A comadre me exercício - Leonardo-Pataca estava todo
feliz, pois do seu relacionamento com Chiquinha, a sobrinha da
comadre, nasceu uma pequerrucha, oposta ao irmão, pois era mansa e
risonha.
O memorando, agora adolescente, passou a ser tratado pelo nome, o
mesmo do pai, Leonardo. O jovem estava apaixonado por Luisinha, a
sobrinha de D. Maria.
Quando Leonardo a viu pela primeira vez, não conteve o riso: era já
muito desenvolvida, porém ainda não tinha adquirido a beleza de moça:
era alta, magra, pálida: andava com o queixo enterrado no peito, trazia
as pálpebras sempre baixas, e olhava a furto; tinha os braços finos e
compridos; o cabelo, cortado, dava-lhe apenas até o pescoço, e como
andava mal penteada e trazia a cabeça sempre baixa, uma grande
porção lhe caía sobre a testa e olhos, como uma viseira.
XXV – Trama - Quando a comadre não estava ocupada fazendo
partos, ocupava-se em desconceituar José manuel para D. Maria. Então,
começou a contar que uma moça muito rica, que vivia com a mãe
orando no Oratório de Pedra, havia enchido uma meia preta com jóias e
fugido com um homem, o mistério é que ninguém sabia quem era o tal;
então, a comadre, aproveitando-se da curiosidade da outra, após fazê-la
jurar não contar nada a ninguém, disse que o homem era José Manuel.
Mesmo tendo rido de Luisinha, quando o padrinho anunciou a nova
visita à D. Maria, o jovem pulou de alegria, foi o primeiro a ficar
pronto e lá foram os dois para o seu destino.
XXVI – Derrota - D. Maria ficou estupefada e a comadre satisfeita
com o resultado. A fofoca foi interrompida pela chegada de José
Manuel, que nem bem havia entrado e começou a falar que andava
muito ocupado com uns arranjos
XIX – Domingo do Espírito Santo - Como era Domingo de
Espírito Santo, ao chegarem a casa de D. Maria, encontraram todos à
janela.
Desta vez, ao ver a moça de branco e com os cabelos, penteados,
não conseguiu rir, mas sim apreciar a figura da moça. Ela, por sua vez,
continuava em seu inalterável silêncio e concentração.
mas não podia falar pois era segredo. As duas trocaram olhares
significativos.
Luisinha, desde a declaração de Leonardo, sofreu mudanças
significativas tanto física quanto psicológica, passou a erguer os olhos,
a falar, a mover-se.
Mais tarde, os quatro iriam ver os fogos.
XX – O fogo no campo - Luisinha estava atônita no meio de todo
aquele movimento, mas Leonardo a puxava pelo braço.
De tanto as duas senhoras cutucarem, José Manuel concordou em
falar-lhes do seu negócio (não se pode esquecer de que ele era
mentiroso) desde que elas fossem discretas; disse-lhes que havia sido
chamado para ir ao palácio, mas assim que a comadre saiu D. Maria
quis saber sobre a moça que ele havia roubado, mas o homem jurou e
tresjurou que não tinha nada a ver com aquilo, mas D. Maria estava
inflexível, resultado: José Manuel saiu na carreira.
Para deleite de Leonardo, após a queima de fogos, os dois voltaram
de mãos dadas.
XXI – Contrariedades - Como aqui se faz e aqui se paga, chegou
a hora de Leonardo pagar os seus tributos: o rapaz estava amando
Luisinha, cujo comportamento voltara ao antigo estado de letargia, fato
que fez o jovem sofrer grande contrariedade e fingindo desprezo que
era despeito, murmurou um - que me importa!
XXVII – O mestre-de-reza - Depois do acontecido na casa da D.
Maria, José Manuel reconheceu que tinha ali um inimigo e que o
motivo seria a sua pretensão à mão de Luisinha, só faltava saber quem.
A situação mudou só mudou de figura quando o padrinho e o
afilhado depararam com um desconhecido na casa de D. Maria. Era um
homenzinho de mais ou menos trinta e cinco anos, magro, narigudo e
de olhar penetrante, recém chegado da Bahia; era o Sr. José Manuel.
Quem olhasse para a sua cara via logo que pertencia à família dos
velhacos. Era uma crônica viva e escandalosa, sempre que podia
desfiava um discurso de duas horas sobre a vida alheia. Padrinho e
afilhado, nutriam pelo homenzinho, desde a primeira vez que o viram,
uma grande antipatia.
Rapidamente José Manuel pôs mãos à obra, ou seja, da mesma
forma que Leonardo tinha seus protetores, ele teria um; para tanto,
recorreu ao mestre-de-reza de D. Maria, que tinha fama de
casamenteiro.
O mestre-de-reza entrou em ação logo à noite, pois enquanto
conversava com D. Maria, disse-lhe que sabia quem havia roubado a
moça.
XXVIII - Transtorno - Enquanto José Manuel agitava a casa de D.
Maria, a vida de Leonardo agitava-se tristemente, pois o seu padrinho
adoecera. Como D. Maria não conseguiu curá-lo, chamaram o velho da
botica que prometeu curá-lo com umas pílulas. A comadre não gostou
da idéia das pílulas, chegou até a franzir a testa, pois disse que nunca
tinha visto quem as tomasse escapar vivo.
O pedantismo com que José Manuel tratava as duas era por um
motivo muito simples: Luisinha era a única herdeira de D. Maria,
assim, quem se casasse com a moça, daria-se bem.
XXII – Aliança - A presença de José Manuel desagradava aos dois
homens, e ele já havia percebido que os dois não gostavam dele.
Leonardo amava Luisinha e o padrinho via na moça um excelente meio
de vida para o rapaz.
A comadre tinha razão até certo ponto, pois três dias depois o
compadre morreu. Na casa do falecido, Leonardo, todos os amigos,
vizinhos e conhecidos estavam em prantos.
Tamanha era a preocupação do compadre que ele foi falar com a
comadre que ficou de falar com D. Maria. Foi assim que se formou
uma aliança entre o compadre e a comadre para derrotarem o
concorrente de Luisinha.
Quando todos se foram, enquanto Leonardo e Luisinha
conversavam, D. Maria e a comadre foram procurar o testamento do
compadre e encontraram.
XXIII – Declaração - Enquanto a comadre tecia planos para
derrotar o rival do afilhado, este ardia em ciúmes. Para a sua sorte,
Luisinha ignorava tudo e continuava indiferente.
Leonardo era o herdeiro universal do padrinho; quando LeonardoPataca ficou sabendo, apresentou-se para tomar conta do filho, mas este
não gostou pois lembrou-se do pontapé, mas mesmo assim teve que
acompanhá-lo e encontrar-se com a irmã e Chiquinha.
Leonardo, por sua vez, temendo que o compadre e a comadre
derrotassem seu rival e ele não pudesse entrar em combate, tentou agir
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Leonardo-Pataca não só cuidou do testamento como também ficou
com tudo; não se pode esquecer-se de que além dos mil cruzados, tinha
ainda aquele dinheiro do capitão do navio que ele “pegou”.
No momento de te ver;
Nos primeiros dias tudo foram flores, a família estava novamente
unida: Leonardo-Pataca, Leonardo, a irmã e a comadre.
É tarde não pode ser.
Agora quero quebrá-los,
Este último passo acabou de desorientar completamente o
Leonardo: reconheceu que havia se inclinado um só instante por
Luisinha, mas estava apaixonado por Vidinha, mas eram duas irmãs
com três filhos e três filhas que moravam numa mesma casa, logo,
havia três casais de primos completos, mas dois gostavam de Vidinha,
resumindo: Leonardo tinha mais dois rivais, mas sem Ter para onde ir,
passou a noite ali.
XXXII – José Manuel triunfa - Enquanto a comadre procurava
Leonardo por toda a parte, o jovem ouvia modinhas. Cansada, a
comadre acaba indo à casa de D. Maria. Lá, tudo que a comadre falava
do afilhado, defendendo-o, D. Maria não concordava, acusava-o; algo
estranho acontecia: José Manuel, aliado ao mestre-de-rezas, venceram.
Agora, somente Leonardo e a comadre continuavam as visitas à D.
Maria.
A paz familiar durou pouco, pois Leonardo não simpatizava com
Chiquinha e esta começou a embirrar com Leonardo, resultado: na casa
era a maior balbúrdia.
XXIX - Pior transtorno - Leonardo, após ficar grande tempo na
casa de D. Maria sem ver a amada, entrou em casa de mal com a vida e
ao se sentar jogou a almofada de Chiquinha no chão; esta por sua vez
chamou-o de namorado sem ventura e ele não se fez de rogado,
espumando de cólera avançou em Chiquinha que disse-lhe Ter raça de
saloio.
O velho conseguiu inocentar José Manuel e este tinha aprovação de
D. Maria para ser pretendente de Luisinha.
Como Leonardo-pataca estava em casa foi acudir e armado do
espadim embainhado, atirou-se sobre o filho, chegou D. Maria e apesar
de tomar partido do jovem, a única coisa que pôde fazer foi sair à sua
procura, pois o pai o havia expulsado de casa.
XXXIII – O agregado - Algumas semanas depois, Leonardo já era
agregado na casa de Tomás da Sé, mas certo dia, ao ser surpreendido
abraçado com Vidinha, acabou se atracando com um dos enamorados
pela moça.
XXX - Remédio aos males - Após o carreirão que levara, o pobre
rapaz, vagando pela cidade e pensando em Luisinha e no rival, chegou
ao Cajueiro.
Como parecia ser sua sina viver como o Judeu Errante, já ia se
pondo a andar, quando a comadre o encontrou.
XXXIV – Malsinação - As três velhas, após longa conversa,
tornaram-se amigas e a tormenta dos três briguentos cessou e a
comadre, cada vez que tentava fazer o afilhado voltar para casa, as duas
velhas se metiam, até que, para a alegria de Vidinha, Leonardo resolveu
ficar.
Gargalhadas vindas de uma moita tiraram-no do devaneio,
procurou e encontrou um grupo de moças e moços sentados em uma
esteira jogando baralho.
Com o estômago roncando, ia se afastando quando um deles o
chamou, era o seu antigo camarada, Tomás, aquele menino sacristão da
Sé. Este apresentou-lhe a irmão, Vidinha, uma mulatinha de 18 a 20
anos, de altura regular, ombros largos, peito alteado, cintura fina e pés
pequeninos; tinha os olhos muito pretos e muito vivos, os lábios
grossos e úmidos, os dentes alvíssimos, a fala era um pouco
descansada, doce e afinada. Por ser cantora de modinhas, pôs-se a
cantar:
A comadre ia regularmente visitar Leonardo e as duas novas
amigas. Tudo ia as mil maravilhas, porém os dois primos despeitados
tramavam e tramavam algo.
Os dois colocaram o plano em ação no dia em que o grupo saiu
para uma patuscada. Quando estenderam a esteira, surgiu o major
Vidigal, que assim que chegou quis saber quem era Leonardo e assim
que este se identificou, Vidigal o prendeu por vadiagem.
Se os meus suspiros pudessem
Aos teus ouvidos chegar,
Segundo Vidinha, foi uma malsinação.
XXXV – Triunfo completo de José Manuel - Com o sumiço de
Leonardo da casa de D. Maria, José Manuel teve espaço para agir a
vontade, tanto que acabou ajudando D. Maria em uma demanda do
testamento de Luisinha. Como já tinha adquirido a confiança da velha,
aproveitou-se e pediu a moça em casamento.
Verias que uma paixão
Tem poder de assassinar.
Não são de zelos
Os meus queixumes,
Luisinha estava naquela idade do abatimento, entre 13 e 25 anos e
como não via Leonardo há tempos, aceitou a proposta de forma
indiferente.
Nem de ciúme
Abrasador;
Num Sábado à tarde, Luisinha e José Manuel casaram-se.
São das saudades
Ora, os leitores hão de estar lembrados da mania que tinha D. Maria
por uma demandazinha; atirava-se a ela com vontade, e tal era o
empenho que empregava na mais insignificante questão judiciária, que
em tais casos parecia ter em jogo sua vida. Daqui se poderá concluir a
satisfação que teria ela no dia em que se achava vencedora, e como se
não julgaria obrigada a quem lhe proporcionasse a vitória.
Que me atormentam
Na dura ausência
De meu amor.
José Manuel aproveitou-se disto; e no dia em que veio ler a D.
Maria a sentença final que resolvia a pendência em seu favor, pediu-lhe
a mão da sobrinha, a qual lhe foi prometida sem grandes escrúpulos.
Leonardo ouviu a música boquiaberto e nunca mais tirou os olhos
da cantora.
XXXVI – Escápula - Enquanto o casal está no gozo tranqüilo da
lua-de-mel e D. Maria faz cálculos aritméticos aconselhando a
sobrinha, Leonardo, a caminho da cadeia, ao ouvir uma confusão, teve
uma vertigem, seus ouvidos zuniram, deu um encontrão no granadeiro
e fugiu. Pouco depois estava na casa de Vidinha.
XXXI - Novos amores - Já na casa do amigo, enquanto o jovem,
pensava em Luisinha, José Manuel e Vidinha, ouvia mais uma música
da bela cantora:
Duros ferros me prenderam
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Vidigal foi às nuvens, urrava; nunca nenhum garoto havia
conseguido fugir. Jurara vingança.
Certo dia todos saíram para uma patuscada, mas toma-largura
bebeu demais armou-se a confusão, o que gerou no aparecimento de
Vidigal e dos granadeiros.
XXXVII – O Vidigal desapontado - Todos riram quando o major
Vidigal, após vasculhar uma casa, saiu de mãos vazias. Quando o major
ia entrando na casa da guarda, a comadre atirou-se aos seus pés e em
prantos pedia a libertação do afilhado.
Quando um deles se aproximou para prender toma-largura, todos se
surpreenderam; Leonardo havia se tornado um dos granadeiros de
Vidigal.
XLII – O granadeiro - Como toma-largura estivesse bêbado, caiu
estirado na calçada e o seu tamanho colossal, mas o fato de ser gente da
casa real, fez com que os granadeiros deixassem-no ali.
Convém agora, um leve flash-back para saber como Leonardo se
tornou um granadeiro. Foi simples, na noite em que fora preso, como o
regimento do Vidigal estivesse precisando de soldado, reconheceu que
Leonardo seria de grande ajuda, pois conhecia todas as bocas do Rio de
Janeiro.
O problema é que sorrateiramente Leonardo aliava-se ao povo e
ficava contra o major.
XLIII – Novas diabruras - Um dia o major anunciou que tinha
uma grande e importante diligência a fazer. Era prender um banqueiro
de jogo-de-bicho e cantor satírico e chamado Teotônio.
Todos que a ouviam, riam e quando o major disse que ele havia
fugido, ela saiu toda sorridente.
XXXVIII – Caldo entornado - Assim que a comadre chegou à
casa de Vidinha, todos puseram-se a rir, mas após a alegria, a comadre
começou a passar-lhe um sermão, afirmando que Leonardo tinha que
arranjar alguma ocupação, caso contrário cairia nas unhas do Vidigal.
Leonardo prometeu se emendar.
Poucos dias depois, a comadre arranjou-lhe um emprego de
servidor na ucharia real.
O major, mordendo os beiços, não o perdia de vista.
Onde havia festa ele era convidado.
Com o novo emprego, a despensa de Vidinha ficou abarrotada, ou
seja ele tirava de l’’a e abastecia a casa.
Por coincidência, Teotônio estava justamente na casa de LeonardoPataca, na festa de batizado de sua filha.
No pátio da ucharia morava um toma-largura na companhia de uma
moça bonita. Acontece que o homem era extremamente bruto e
Leonardo, na mais pureza dos sentimentos foi à casa da moça levar-lhe
uma tigela de caldo. De repente a porta se abre, eras o toma-largura; a
moça entornou o caldo, Leonardo pôs-se a correr e o toma-largura,
atrás.
Leonardo fora incumbido de entrar na casa e dar sinal para que
prendessem o homem, mas como o jovem era astuto, fez Teotônio
livrar-se da prisão, saindo disfarçado de corcunda. Mais uma vez
enrolara o Vidigal.
XLIV – Descoberta - Quando a patrulha do Vidigal estava batendo
em retirada, um amigo de Teotônio, todo esfuziante, correu a abraçar
Leonardo para agradecê-lo por ter enganado o major. O jovem
granadeiro ficou estático e foi preso.
Daí a pouco ouviu-se barulho e gritos e Leonardo atravessar o pátio
às carreiras.
Enquanto caminha para o quartel, como será que estão Luisinha e
sua gente?
No dia seguinte o Leonardo foi despedido da ucharia.
XXXIX – Ciúmes - No dia seguinte o Vidigal já sabia de tudo e
pôs-se em alerta.
Tudo eram rosas, mas pouco depois da lua-de-mel, José Manuel
pôs as manguinhas de fora, de posse da moça e da herança, mudaramse da casa de D. Maria.
Em casa, Vidinha, enfurecida pelo ciúmes, pediu a mantilha da mãe
para ir à ucharia falar com toma-largura . Leonardo que ouvia tudo,
sem resultado pediu à moça que não fosse. No caminho, Leonardo
deparou-se com o major e foi obrigado a acompanhá-lo.
Agora que os dois estavam sozinhos, ele se tornou um maridodragão, não permitindo que a esposa sequer saísse à rua. A moça
chorava pela liberdade.
XL – Fogo de palha - Enquanto Leonardo era obrigado a seguir o
“seu destino”, Vidinha já estava na ucharia. Lá, disse à moça do caldo
que ela não tinha sentimentos fez um desaforozinho ao toma-largura e
saiu, sem saber que era seguida por ele.
Certo dia na missa, a comadre e D. Maria se encontraram e voltara
a se falar. Uma falava das desgraças de Leonardo e a outra das de
Luisinha.
Ambas, agora, teciam planos para a libertação de Leonardo.
XLI – Represálias - Em casa, enquanto Vidinha contava a sua
aventura a todos, sentiram falta de Leonardo e reconheceram que este
deveria estar com o Vidigal.
XLV – Empenhos - Primeiro a madrinha foi falar com o major,
mas sem resultado. Como o major era um pecador antigo, como última
tentativa, a comadre e D. maria foram falar com o grande amor de
Vidigal, a Maria-Regalada.
No dia seguinte, Tomás, que até então não havia tomado parte de
nada na agitada casa, saiu para tomar as providências em favor do
amigo.
Lá chegando puseram a mulher a par de tudo e as três, na
cadeirinha, puseram-se rumo à casa do major.
XLVI – As três em comissão - Lá chegando, o major recebeu-as
de rodaque de chita e tamancos, mas quando reconheceu as três, correu
o mais que pôde para pôr a farda. Na pressa retornou à sala de farda,
calças de enfiar, tamancos e um lenço de alcobaça nos ombros.
As três mulheres, chorando em um único coro, pediam a soltura de
Leonardo, mas o major estava irredutível, até que Maria-Regalada
chamou-o a um canto da sala e cochichou-lhe algo. Pronto, tudo
mudou, Leonardo seria solto.
XLVII – A morte é juiz - Nem bem chegou à casa, D. Maria, toda
atrapalhada, teve que sair. José Manuel havia morrido.
Luisinha pôs-se a chorar, mas como choraria por qualquer vivente,
porque tinha coração terno. Isso bastou para que uma vizinha dissesse a
outra que não eram lágrimas de viúva.
A afirmação era correta, pois José Manuel nunca fora marido de
Luisinha, senão por conveniência.
À saída do enterro, os escravos fizeram a maior algazarra.
Tomás foi à casa da guarda, mas não encontrou o amigo; procurou
em outros lugares e nada. Sem opção, ele e os demais foram procurar a
comadre que também pôs-se a procurar pelo afilhado e nada do moço.
Como Leonardo não dava notícias, acharam que ele estivesse
escondido, resultado: Vidinha e os familiares passaram a odiá-lo.
O desaparecimento de Leonardo, aliado a visita que Vidinha fizera
à ucharia, contribuíram para que ela visse, todos os dias, toma-largura
duas vezes por dia.
Pouco tempo depois os familiares da moça já gostavam dele e ele
passou a freqüentar a casa.
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Ao entardecer, para espanto de D. Maria, Leonardo dbentro na sala,
estava livre das garras do major e ainda por cima, promovido a
sargento.
Os olhos de Leonardo encontraram-se com os de Luisinha. Depois
de conversarem com Leonardo estava de serviço, teve que se retirar.
XLVIII – Conclusão feliz - Luisinha e Leonardo haviam reatado o
antigo namoro; namoro de viúva anda depressa.
Após conversarem o major concordou em dar baixa ao Leonardo;
de sargento de tropas, seria sargento de milícias.
Pouco tempo depois, Leonardo e Luisinha, casaram-se. Daí por
diante, aconteceu o reverso da medalha: Leonardo Pataca devolveu os
bens do filho, D. Maria e Leonardo Pataca morreram e mais uma
enfiada de acontecimentos tristes que convém poupar e ponto final.
Como sargento não podia se casar, foram a casa de Maria-Regala
pedir ajuda e lá encontraram o major em rodaque e tamancos. Este era
o segredo que Maria-Regalada havia lhe cochichado.
abandonado pela mãe, que foge para Portugal com um capitão de navio,
é igualmente abandonado pelo pai, mas encontra no padrinho seu
protetor.
Esse é dono de uma barbearia e tem guardada boa soma em
dinheiro. A origem pouco digna desse capital – o barbeiro desviou a
herança que um capitão moribundo deixara à sobrinha – só será
revelada posteriormente. A fórmula “arranjei-me” sintetiza, no
romance, a explicação dada pelo barbeiro para a posse do dinheiro. O
autor acaba por dizer que muitos “arranjei-me”, equivalentes ao atual
“jeitinho brasileiro”, se explicam assim, e estende essa representação de
sua história a toda a sociedade da época.
As aventuras e desventuras de Leonardo, que o autor faz desfilar
diante dos leitores com dinamismo, conduzem o protagonista a apuros
dos quais ele sempre se salva, graças a seus protetores. Leonardo é um
personagem fixo no romance, suas características básicas não mudam.
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Resumo e análise da obra:
Memórias de um Sargento de Milícias
Manuel Antônio de Almeida
O romance de Manuel Antônio de Almeida, escrito no período do
romantismo, retrata a vida do Rio de Janeiro no início do século XIX e
desenvolve pela primeira vez na literatura nacional a figura do
malandro.
Memórias de um Sargento de Milícias surgiu como um romance de
folhetim, ou seja, em capítulos, publicados semanalmente no jornal
Correio Mercantil, do Rio de Janeiro, entre junho de 1852 e julho de
1853. Os folhetins não indicavam quem era o autor. A história saiu em
livro em 1854 (primeiro volume) e 1855 (segundo volume), com
autoria creditada a “Um Brasileiro”. O nome de Manuel Antônio de
Almeida aparecerá apenas na terceira edição, já póstuma, em 1863.
TEMPO
A história se passa no começo do século XIX, ocasião em que a
família real portuguesa se refugiou no Brasil. Por isso, o romance tem
início com a expressão “Era no tempo do rei”, referindo-se ao rei
português dom João VI. Essa fórmula também faz referência – e isso é
mais relevante para entender a estrutura do romance – aos inícios dos
contos de fada: “Era uma vez...”
PERSONAGENS
NARRADOR
Apesar do título de “memórias”, o romance não é narrado pelo
personagem Leonardo, e sim por um narrador onisciente em terceira
pessoa, que tece comentários e digressões no desenrolar dos
acontecimentos. O termo “memórias” refere-se à evocação de um
tempo passado, reconstruído por meio das histórias por que passa o
personagem Leonardo.
Leonardo – protagonista que garante unidade à narrativa. O
sargento de milícias a que se refere o título da obra é Leonardo, embora
o personagem obtenha esse cargo somente nas últimas páginas do livro.
Leonardo-Pataca – pai de Leonardo, um meirinho (oficial de
Justiça) que fora vendedor de roupas em Lisboa e, durante sua viagem
ao Brasil, conhece Maria das Hortaliças, o que resultará no nascimento
de Leonardo.
Maria das Hortaliças – mãe de Leonardo, uma saloia (camponesa)
muito namoradeira, que abandona o filho para ficar com outro homem.
O Compadre (ou Padrinho) – é dono de uma barbearia e toma a
guarda de Leonardo após os pais abandonarem a criança. Torna-se um
segundo pai para ele.
A Comadre (ou Madrinha) – mulher gorda e bonachona,
apresentada como ingênua, frequentadora assídua de missas e festas
religiosas.
Major Vidigal – homem alto, não muito gordo, com ares de
moleirão. Apesar do aspecto pachorrento, era quem impunha a lei de
modo enérgico e centralizado.
Dona Maria – mulher idosa e muito gorda, não era bonita, mas
tinha aspecto bem-cuidado. Era rica e devotada aos pobres. Tinha,
contudo, o vício das demandas (disputas judiciais).
Luisinha – sobrinha de dona Maria. Seu aspecto, inicialmente sem
graça, se transforma gradualmente, até se tornar uma rapariga
encantadora.
Vidinha – mulata de 18 a 20 anos, muito bonita, que atrai as
atenções de Leonardo.
ORDEM E DESORDEM
Duas forças de tensão movem os personagens do romance: ordem e
desordem, que se revelarão características profundas da sociedade
colonial de então.
A figura do major Vidigal representa o polo que, na história, cuida
da ordem: “O major Vidigal era o rei absoluto, o árbitro supremo de
tudo que dizia respeito a esse ramo de administração; era o juiz que
dava e distribuía penas e, ao mesmo tempo, o guarda que dava caça aos
criminosos; nas causas da sua justiça não havia testemunhas, nem
provas, nem razões, nem processos; ele resumia tudo em si (...)”.
A estabilidade social representa a ordem, enquanto a instabilidade
se refere à desordem. Dessa forma, o barbeiro, completamente
adequado à sociedade, ao revelar as origens pouco recomendáveis de
sua estabilidade financeira, evoca no seu passado a desordem.
Personagens como o major Vidigal, a comadre, dona Maria e o
compadre pertencem ao lado da ordem. Mas os personagens desse polo
nada têm de retidão, apenas estão em uma situação social mais estável.
O polo da desordem é formado pelo malandro Teotônio, o sacristão
da Sé e Vidinha. A acomodação dos personagens, tanto na ordem como
na desordem, está sujeita a uma mudança repentina de polo, ou seja,
não existe quem esteja totalmente situado no campo da ordem nem no
da desordem. Não há, portanto, uma caracterização maniqueísta dos
tipos apresentados.
O major Vidigal, por exemplo, um típico mantenedor da ordem,
transgride o código moral ao libertar e promover Leonardo em troca
dos favores amorosos de Maria Regalada.
ENREDO
Por ser originariamente um folhetim, publicado semanalmente, o
enredo necessitava prender a atenção do leitor, com capítulos curtos e
até certo ponto independentes, em geral contendo um episódio
completo. A trama, por isso, é complexa, formada de histórias que se
sucedem e nem sempre se relacionam por causa e efeito.
“Filho de uma pisadela e de um beliscão” (referência à maneira
como seus pais flertaram, ao se conhecer no navio que os conduz de
Portugal ao Brasil), o pequeno Leonardo é uma criança intratável, que
parece prever as dificuldades que irá enfrentar. E não são poucas:
ROMANCE MALANDRO
Nos estudos sobre a obra, houve uma linha de interpretação que,
seguindo as indicações de Mário de Andrade, e tendo como base o
47
enredo episódico do livro, classificou o romance como uma
manifestação tardia do “romance picaresco”, gênero popular espanhol
medieval dos séculos XVII e XVIII.
O gênero picaresco – do qual o mais ilustre representante é o
romance Lazareto de Tormes – caracteriza-se por narrar, em primeira
pessoa, os infortúnios de um pícaro, um garoto inocente e puro que se
torna amargo à medida que entra em contato com a dureza das
condições de sobrevivência. Por isso procura sempre agradar a seus
superiores. O pícaro tem geralmente um destino negativo, acaba por
aceitar a mediocridade e acomodar-se na lamentação desiludida, na
miséria ou num casamento que não lhe dá prazer algum.
Nenhuma dessas características está presente em Memórias de
umSargento de Milícias. Leonardo não é inocente. Ao contrário, parece
já ter nascido com “maus bofes”, como afirma a vizinha agourenta.
Também não é totalmente abandonado, tendo sempre alguém que toma
seu partido e procura favorecê-lo.
Ele ainda desafia seus superiores, como o mestre-de-cerimônias e o
Vidigal. Por fim, Leonardo não encontra um destino negativo, pois se
casa com o objeto de sua paixão (Luisinha, a sobrinha de dona Maria),
acumulando cinco heranças e granjeando uma promoção com o major
Vidigal.
Existem, de fato, algumas semelhanças entre Leonardo e os
personagens picarescos. Uma é a atitude inconsequente do
protagonista, que o leva, por exemplo, a esquecer-se rapidamente de
Luisinha ao conhecer Vidinha. Depois, o amor antigo retorna, mas nada
dá a entender que não possa acabar novamente. Essas semelhanças,
porém, são superficiais, por isso é problemática a classificação de
Memórias de um Sargento de Milícias como romance picaresco. O que
se vê é que Manuel Antônio de Almeida foge completamente ao
idealismo romântico de sua época. Se há traços românticos em sua
obra, eles estão no tom irônico e satírico que assume o narrador.
A conclusão possível é que estamos diante de um novo gênero
nacional, que se constrói em torno da figura do malandro, personagem
que tem influências popularescas, como Pedro Malasarte; mas é urbano
e relaciona- se socialmente com as esferas da ordem e da desordem, já
citadas. É mais apropriado, por isso, classificar essa obra como um
“romance malandro”, de cunho satírico e com elementos de
fábula. Esse gênero frutificará em vários romances posteriores,
como Macunaíma, de Mário de Andrade, e Serafim Ponte Grande, de
Oswald de Andrade.
pachorrento; como era moleirão, ninguém o procurava para negócios e
ele nunca saía da esquina, passava os dias sentado, tendo a sua infalível
companheira depois dos cinqüenta, a bengala. Como sempre se
queixava dos 320 réis por citação, deram-lhe o apelido de Pataca.
Cansado de ser o Leonardo algibebe de Lisboa viera ao Brasil e não
se sabe por proteção de quem havia alcançado o posto de meirinho.
Ainda a bordo do navio, conhecera Maria da hortaliça, quitandeira das
praças de Lisboa, saloia rechonchuda e bonitona. Eles se conheceram
quando ela estava encostada à bordo do navio e ele, ao passar, fingiu-se
de distraído e com o ferrado sapatão assentou-lhe uma valente pisadela
no pé direito. Maria, como se já esperasse por aquilo, sorriu-se como
envergonhada do gracejo, e deu-lhe também em ar de disfarce um
tremendo beliscão nas costas da mão esquerda.
De beliscões e pisadelas, tornaram-se amantes e quando saltaram
em terra ela começou a sentir certos enojos. Os dois foram morar juntos
e sete meses depois, manifestaram-se os efeitos da pisadela, nasceu o
herói dessa história, um formidável menino de quase três palmos de
comprido, gordo e vermelho, cabeludo, esperneador e chorão. Assim
que nasceu, mamou duas horas seguidas, sem largar o peito.
Os padrinhos de batismo foram a madrinha parteira e o compadre
barbeiro, foi uma festança; o compadre trouxe a rabeca e todos
dançaram o fado e apesar da dificuldade em encontrar pares, o minueto;
Leonardo queria uma festa refinada, mesmo com dificuldade em achar
pares. Levantaram: uma mulher gorda, baixa e matrona, sua
companheira, cuja figura era a mais completa antítese da sua, um
colega do Leonardo, miudinho e pequenino, com ares de gaiato e o
sacristão da Sé, alto e magro, com pretensões de elegante.
Enquanto compadre tocava o minueto na rabeca, o afilhadinho
acompanhava cada arcada com um guincho e um esperneio, fazendo o
compadre perder, várias vezes, o compasso.
Aos poucos o minueto foi desaparecendo e a coisa esquentou,
chegaram os rapazes da viola e machete; logo, a coisa passou de
burburinho para gritaria e algazarra, que só parou quando perceberam
que o Vidigal estava por perto.
A festa acabou tarde. A madrinha foi a última a sair, mas antes
colocou um raminho de arruda no pimpolho.
II – Primeiros infortúnios - O narrador, mais um vez, inclui o
leitor na narrativa, chamando-o para pularem alguns anos desde o
batizado do herói e irem encontrá-lo com sete anos, mas antes avisa que
durante todo esse tempo o menino não desmentiu aquilo que já se
anunciava, ou seja, desde o nascimento já atormentava: ainda bebê era
o choro, mas assim que se pôs a andar era um flagelo, quebrava e
rasgava tudo o que podia; o que mais gostava era do chapéu do pai e
sempre que podia por-lhe as mãos, punha-lhe dentro tudo o que
encontrava. Quando não traquinava, comia. Maria não lhe perdoava,
tanto que o menino trazia uma região do corpo bem maltratada, mesmo
assim ele não se emendava, era teimoso, suas travessuras recomeçavam
mal acabava a dor das palmadas. Foi assim que o herói chegou aos sete
anos.
Como a mãe, Maria, sempre fora saloia, o pai, Leonardo,
suspeitava de que estava sendo traído, pois por diversas vezes viu um
certo sargento se esgueirando e enfiando olhares curiosos janela
adentro. Outras vezes estranhou que um certo colega sempre ia
procurá-lo em casa; mas o mais grave foi, não só deparar-se várias com
um certo capitão do navio de Lisboa junto de sua casa, como também,
ao entrar em casa, vê-lo fugir pela janela. Não agüentou, cerrou os
punhos e tremendo com todo o corpo, gritou: — Grandessíssima!..., em
seguida, saltou sobre Maria. Ela saltou para trás, pôs-se em guarda e
sem temer advertiu-o: — Tira-te lá, ó Leonardo!
Como a sua resistência, frente ao ódio de Leonardo, era inútil,
começou a correr e pedir socorro ao compadre Barbeiro que ocupado,
ensaboando a cara de um freguês, nada pôde fazer e ela, como única
opção, encolheu-se em um canto.
O menino, no maior sangue-frio, enquanto rasgava as folhas dos
autos que o pai havia largado ao entrar, assistia à mãe que apanhava.
Quando o pai estava se acalmando, viu a obra do filho e tornou a se
enfurecer: suspendeu o filho pelas orelhas, fazendo-o dar meia volta;
em seguida ergueu o pé direito e dizendo que o menino era filho de
uma pisadela e de um beliscão, assentou-lhe em cheio sobre os glúteos,
atirando-o a quatro braças de distância.
O menino ergueu-se rapidamente e em três pulos estava dentro da
loja do padrinho; nem bem havia entrado, esbarrou na bacia de água
com sabão que estava nas mãos do padrinho e acabou batizando o
freguês com toda aquela água.
Resumo
O narrador, baseando-se em uma história contada por um sargento
de milícias aposentado, adota a postura de contador de histórias para
narrar os costumes e acontecimentos de mais ou menos cinqüenta anos
atrás. Logo, o narrador não viveu na época das estripulias de Leonardo.
I – Origem, nascimento e batismo - É a apresentação do
protagonista Leonardo. O narrador, baseando-se na história que um
sargento de milícias aposentado lhe contou, narra a vida e os costumes do
Rio de Janeiro na época em que D. João VI esteve no Brasil, daí iniciar
com: Era no tempo do rei. – volta a um passado não muito distante.
No Rio de Janeiro, na rua do Ouvidor, havia um local em que os
meirinhos se reuniam, daí o nome o canto dos meirinhos, os meirinhos
da época em que vivia o narrador, Segunda metade do século XIX,
eram apenas uma sombra caricata daqueles do tempo do rei, gente
temida e temível, respeitada e respeitável e a sua influência moral era a
de formarem um dos opostos da cadeia judiciária; mas além da
influência moral tinham também a influência que derivava de suas
condições físicas, que é o que falta nos meirinhos de hoje (época em
que vivia o narrador da obra), estes são homens como quaisquer outros,
confundem-se com qualquer procurador, escrevente de cartório ou
contínuo de repartição; já os da época do rei eram inconfundíveis tanto
no semblante quanto no trajar: “sisuda casaca preta, calção e meias da
mesma cor, sapato afivelado, ao lado esquerdo aristocrático
espadachim, e na ilharga direita penduravam um círculo branco cuja
significação ignoramos, e coroavam tudo isto por um grave chapéu
armado. Nesta época ele podia usar e abusar da sua posição.
Após a comparação, o narrador chama o leitor para participar da
narrativa, usando para isso, a primeira pessoa do plural: “Mas voltemos
à esquina , à abençoada época do rei”, e lá apresenta-lhe a equação
meirinhal; um grupo de meirinhos conversando sobre tudo que era
lícito conversar: vida dos fidalgos, fatos policiais e astúcias do Vidigal.
No grupo destacava-se Leonardo-Pataca, uma rotunda e gordíssima
figura de cabelos brancos e carão avermelhado; era moleirão e
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IV – A fortuna - Enquanto o compadre, procura o afilhado por
toda a parte, o narrador, ao convidar o leitor para ver o que era feito do
Leonardo, acaba chegando nas bandas do mangue da Cidade Nova, em
uma casa coberta de palha da mais feia aparência, possuía dois
cômodos e a mobília compunha-se de dois ou três assentos de paus,
algumas esteiras, uma caixa enorme de pau que servia para várias
coisas: mesa de jantar, cama, guarda-roupa e prateleira. Quem morava
nessa tapera não era o Leonardo, mas sim um feiticeiro, um caboclo
velho, que conforme crença da época, tinha por ofício dar fortuna. Não
era só a gente do povo que acreditava, mas também muita gente da alta
sociedade o procurava para comprar a felicidade pelo cômodo preço da
prática de alguma imoralidades e superstições.
Dentre a gente do povo que o procurava em busca de fortuna,
temos o Leonardo Pataca por causa das contrariedades que sofria com
um novo amor. Era uma cigana que Leonardo conhecera logo após a
fuga de Maria, isso porque ele era romântico - termo que na época do
narrador significa babão, já na época de Leonardo
Pataca significava que ele não podia passar sem uma paixãozinha.
Como a sua profissão rendia não lhe era difícil conquistar a posse do
adorado, mas a fidelidade, a unidade no gozo, que era o que sua alma
aspirava, isso não conseguira pois a cigana era tão saloia quanto Maria
- da - Hortaliça, esta fugira com outro com a desculpa de saudades da
pátria, mas a outra não eram saudades, o que fez Leonardo buscar
meios sobrenaturais para consegui-la de volta, já que os meios humanos
movidos por súplicas não funcionaram.
O seu desespero era tamanho que se entregou de corpo e alma ao
caboclo da casa do mangue, além de contribuir com dinheiro, já ter
sofrido fumigações de ervas sufocantes, tragar bebidas enjoativas;
decorar milhares de orações misteriosas, que era obrigado a repetir
muitas vezes por dia; tinha também que depositar quase todas as noites
em lugares determinados quantias e objetos com o fim de chamar em
auxílio, dizia o caboclo, as suas divindades; apesar de tudo isso a
cigana resistia ao sortilégio. A última prova para a reconquista foi
marcada para a meia-noite; à hora marcada Leonardo encontrou à porta,
o nojento nigromante que não permitiu que ele entrasse vestido,
obrigou-o a trajar-se à moda de Adão no paraíso e após cobri-lo com
um manto imundo, abriu-lhe a entrada.
Lá dentro, após ajoelhar-se e rezar em todos os cantos da casa,
Leonardo aproximou-se da fogueira, quatro figuras saíram do quarto e
foram juntar-se a eles e todos dançavam sinistramente ao redor da
fogueira quando de repente bateram levemente a porta e pediram para
abri-la, isto fez com que todos de dentro se sobressaltassem: era o
major Vidigal.
O afilhado apontou o problema e o padrinho, após desculpar-se
com o freguês, resmungou: — Ham! resmungou; já sei o que há de
ser... eu bem dizia... ora ai está!... e foi acudir o que acontecia.
Por estas palavras vê-se que ele suspeitara alguma coisa; e saiba o
leitor que suspeitara a verdade. - Não se pode deixar de perceber nesse
fragmento que o narrador conversa com o leitor, chamando-o para a
narrativa.
O compadre já sabia o que estava acontecendo pois era comum, na
época, espionar a vida alheia, logo, conhecia todas as visitas da
comadre.
O barbeiro entrou na casa do compadre Leonardo e ao perguntarlhe se havia perdido o juízo, ele respondeu-lhe Ter perdido a honra.
Maria apareceu e sentindo-se protegida pelo compadre, pôs-se a
zombar e a xingar toda a classe masculina; assim que acalmou o
segundo “round” de murros, enquanto ela chorava em um canto,
Leonardo, com olhos e bochechas vermelhas, juntou os papéis
rasgados, a bengala e o chapéu e saiu batendo a porta. Era de manhã.
À tarde quando o compadre retornou à casa, decidido fazer as pazes
com Maria, ela não estava mais lá, havia fugido com o capitão do navio
de Lisboa.
Leonardo saiu sem falar nada e o pequeno ficou com o Compadre
Barbeiro.
III – Despedidas às travessuras - O pequeno, enquanto se achava
novato na casa do padrinho, portou-se com sisudez e seriedade, mas
assim que foi se familiarizando com o novo ambiente, começou a pôr
as manguinhas de fora; mesmo assim, o padrinho estava cego de
afeição pelo menino, tanto que por pior que fosse a travessura do garoto
ou mal-criação, ele achava graça dizendo serem atitudes ingênuas.
A atitude do homem era natural, visto que ele já tinha 50 e tantos
anos, nunca tinha tido afeições; passara sempre só, isolado; era
verdadeiro partidário do mais decidido celibato. Logo à primeira
afeição que fora levado a contrair sua alma expandiu-se toda inteira, e
seu amor pelo pequeno subiu ao grau de rematada cegueira.
Este, aproveitando-se da imunidade em que se achava por tal
motivo, fazia tudo quanto lhe vinha à cabeça.
O menino era de fato endiabrado: várias vezes sentado na loja
divertia-se em fazer caretas aos fregueses quando estes se estavam
barbeando. Uns riam e outros se enfureciam, do que resultava que
saíam muitas vezes com a cara cortada, com grande
prazer do menino e descrédito do padrinho. Outras vezes escondia
em algum canto a mais afiada navalha do padrinho, e o freguês levava
por muito tempo com a cara cheia de sabão mordendo-se de
impaciência enquanto este a procurava; ele ria-se furtiva e
malignamente. Em casa, nada ficava inteiro por muito; pelos quintais
atirava pedras aos telhados dos vizinhos; sentado à porta da rua,
entendia com quem passava e com quem estava pelas janelas, de
maneira que ninguém por ali gostava dele. O padrinho, porém, não se
dava disto, e continuava a querer-lhe sempre muito bem.
Desempenhando o papel de pai, passava às vezes, as noites fazendo
castelos no ar a seu respeito; sonhava-lhe uma grande fortuna e uma
elevada posição, e tratava de estudar os meios que o levassem a esse
fim. Queria o melhor para o menino, já que havia se arranjado na vida,
pensava até em enviá-lo para Coimbra, (como um babeiro havia se
arranjado na vida e conseguido dinheiro para isso, segundo o narrador,
é assunto para outra história). Segundo o barbeiro, a melhor profissão
para o menino seria a de clérigo.
Após ruminar por muito tempo essa idéia, certa manhã, uma
Quarta-feira, chamou o pequeno, então com 9 anos, e disse-lhe que
deveria se fartar de travessuras até o resto da semana, dali em diante, só
aos domingos, após a missa. O pequeno levou a fala do padrinho ao pé
da letra e achou que era uma licença ampla para fazer tudo o que
quisesse, fosse bem ou mal.
Ao anoitecer, sentado à porta, o padrinho viu de longe um
acompanhamento alumiado pela luz de lanternas e tochas e ouviu
padres rezarem. Era a via sacra do Bom Jesus.
O menino quando viu aquilo, estremecendo de alegria, lembrou se
da fala do padrinho, “fartar-se de travessuras”; não perdeu tempo:
misturou-se com a multidão, e lá foi concorrendo com suas gargalhadas
e seus gritos para aumentar a vozeria. Com um prazer febril pulava,
cantava, gritava, rezava e saltava, era um prazer febril; só não fez o que
não tinha forças. Para ajudar ainda mais ass estripulias, juntou-se com
mais dois moleques e as estripulias foram tantas, que quando deu por si
a via-sacra já havia retornado à igreja do Bom Jesus.
V – O vidigal - Nessa época ainda não estava organizada a polícia
da cidade, portanto o major era rei absoluto, era o árbitro supremo de
tudo que dizia respeito a esse ramo de administração; era o juiz que
julgava e distribuía a pena, e ao mesmo tempo o guarda que dava caça
aos criminosos; nas causas da sua imensa alçada não havia
testemunhas, nem provas, nem razões, nem processo; ele resumia tudo
em si; a sua justiça era infalível; não havia apelação das sentenças que
dava, fazia o que queria, e ninguém lhe tomava contas.
Exercia enfim uma espécie de inquirição policial. Entretanto, frente
aos costumes e acontecimentos da época, ele não abusava muito de seu
poder, e o empregava em certos casos muito bem empregado. Era um
homem alto, não muito gordo, com ares de moleirão; tinha o olhar
sempre baixo, os movimentos lentos, e voz descansada e adocicada.
Apesar deste aspecto de mansidão, não se encontraria por certo homem
mais apto para o seu cargo inquisidor.
O major Vidigal juntamente com uma companhia de soldados
escolhido por ele rondavam a cidade a noite e a sua polícia durante o
dia. Não havia um lugar em que a sagacidade do major não caçasse
vagabundos.
Ele espalhava terror.
O som daquela voz que dissera “abra a porta” gerava medo nos
integrantes da sala, era o prenúncio de um grande aperto, com certeza
não conseguiriam escapar. Mesmo assim, o grupo pôs-se em
debandada, tentaram sair pelos fundos, mas a casa estava cercada e
todos foram pegos em flagrante delito de nigromancia.
O major por sua vez, já dentro da casa, pediu-lhes que
continuassem com a cerimônia pois queria ver como era. Resistir era
inútil, então, após hesitarem, recomeçaram ritual. Já fazia meia hora
que dançavam andando ajoelhados, mas sempre que paravam o major
pedia para continuarem. Muito tempo depois pararam, mas o major
pediu-lhes para continuarem. Não agüentavam mais, mas o major pedia
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para continuarem. Muito, mas muito tempo depois, quando já se
arrastavam, o major ordenou-lhes que parassem e pediu aos granadeiros
para tocarem, o que fez os soldados arrancarem as chibatas e o grupo
feiticeiro dançar muito mais.
Depois de reger a música para a frenética dança, o major Vidigal
começou o interrogatório. Perguntou a ocupação de um por um e nada
ouviu, até que chegou a vez do Leonardo Pataca, reconheceu-o e
quando o pobre homem explicou-lhe o motivo de tudo aquilo, o major
prontificou-se a curá-lo e arrastou-o para a casa da guarda no largo da
Sé, era uma espécie de depósito que guardava os que haviam sido
presos durante a noite até dar-lhes um destino.
Ao amanhecer, toda a cidade já sabia do ocorrido e Leonardo foi
mandado para a cadeia o que fez os companheiros mostrarem-se
sentidos, a princípio, para logo depois gostarem pois enquanto o colega
estava preso eles seriam procurados para os negócios, era um
concorrente a menos.
religiosas, nem se fala, pois a igreja tomava um ar lúgubre ao se encher
daqueles vultos negros que se uniam e cochichavam a cada momento.
Apesar de tudo, a mantilha era o traje mais conveniente da época,
posto que as ações dos outros era o principal cuidado de quase todos,
era necessário ver sem ser visto. Funcionava como um observatório da
vida alheia.
O fato de ser parteira, beata e curandeira, tomava-lhe muito tempo,
tanto que fazia tempo que não via nem sabia nada do compadre,
Leonardo, Maria e do afilhado, até que um dia na Sé, ouviu as beatas
comentarem sobre Maria Ter apanhado de Leonardo, ter fugido com
um capitão e o filho, um mal-educado, ter ficado com o barbeiro.
Ao ouvir a história, pôs-se rumo à casa do barbeiro, lá chegando
questionou o fardo deixado para o homem carregar. Após Ter
respondido ao interrogatório da comadre, pôs-se a defender o pequeno,
dizendo ser sossegadinho, gentil e ter intenções de ser padre.
A comadre não concordou como compadre e retirou-se. A partir
desse dia, a comadre sempre aparecia na casa do compadre. O
padrinho, não desistindo de seus sonhos, pôs se a ensinar o ABC ao
afilhado, que empacava no F. Após apresentar a
comadre, o narrador volta a informar o paradeiro de Leonardo.
VI – Primeira noite fora de casa - Assim que deu por falta do
afilhado, o compadre, todo aflito, pôs-se a procurar pela vizinhança,
mas ninguém tinha notícias do menino. Lembrou-se então da via-sacra
e pôs se a percorrer as ruas. Indagando, aflitoa, a todos que encontrava
pela rua, o paradeiro do seu tesouro. Quando chegou ao Bom-Jesus,
informaram-lhe terem visto três endiabrados que foram expulsos da
igreja pelo . Essa era a única pista que tinha.
Retornou a sua casa e ao indagar novamente a vizinha, exasperouse quando esta lhe respondeu que o menino tinha maus bofes e que a
história não teria um bom final.
O pobre homem passou a noite em claro e decidiu, antes de pedir
ajuda ao Vidigal, esperar mais um dia.
Enquanto o compadre dá esse prazo, o narrador conduz o leitor ao
paradeiro do menino.
Junto com os emigrados de Portugal, veio também para o Brasil, a
praga dos ciganos, gente ociosa e sem escrúpulos, tão velhacos que
quem tivesse juízo não se me tia com eles em negócios; quanto a poesia
de seus costumes e crenças, deixaram do outro lado do oceano,
trazendo para cá, apenas os maus hábitos. Viviam quase na ociosidade,
não tinham noite sem festa. Moravam ordinariamente nas ruas
populares e viviam em plena liberdade.
Os dois meninos, com quem o pequeno fizera amizade, eram de
uma família dessa gente e acostumados à vida à toa, conheciam toda a
cidade, percorriam-na sós. Após se conhecerem na via-sacra,
carregaram o pequeno para a casa dos pais. Pelo caminho o menino
ainda teve escrúpulos de voltar mas decidiu seguir os dois e ir até onde
iriam. Lá , como era de se esperar, havia uma festa para o santo de sua
devoção.
Daí a pouco começou o fado e o menino, esquecido de tudo pelo
prazer, assistiu a tudo enquanto pôde; mas ao chegar o sono, reuniu-se
com os companheiros em um canto e adormeceram, embalados pela
música e sapateado.
Acordou sobressaltado e pediu aos companheiros que o levasse
para casa.
Quando o padrinho ia recomeçar a busca, esbarrou no afilhado e ao
interrogá-lo, ele respondeu que como queria que ele fosse padre, tinha
ido ver um oratório.
O padrinho, não resistiu à ingenuidade do afilhado e sorrindo
levou-o para dentro.
VIII – O pátio dos bichos - No palácio del-rei, conhecido nos
tempos do narrador como paço imperial, existia no saguão, uma saleta,
conhecida com salão dos bichos, apelido dado em conseqüência de seu
uso: Diariamente, passavam por ele três ou quatro oficiais superiores
velhos, incapazes para a guerra e inúteis para a paz, eram pouco usados
pelo rei, logo passavam ociosos a maior parte do tempo. Dentre eles,
destaca-se um português, era tenente-coronel. A sua importância na
história e que foi ele quem a comadre procurou para pedir a libertação
de Leonardo.
Após ouvi-la, o velho colocou o chapéu armado, pôs a espada à
cinta e saiu. Em breve, saber-se-á do resultado.
IX – O arranjei-me do compadre - Aqui, o narrador revelará
alguns fatos da vida do compadre, até agora desconhecidos: o
compadre nada sabia de seus pais ou parentes e quando jovem, achouse na casa de um barbeiro, não sabia se estava lá como filho ou
agregado; não só cuidava do barbeiro como também herdara dele a
profissão.
Já adolescente, sabia barbear e sangrar sofrivelmente e como jamais
conseguiria se manter com essa profissão, visto que o sucesso e
fregueses cabiam ao seu mestre, saiu sem rumo. Como todo barbeiro é
tagarela, conheceu um marujo que acabou colocando-o a bordo, como
barbeiro e sangrador.
A bordo, ganhou fama quando sangrou e curou dois marujos
doentes e com sua lanceta não deixou nenhum negro do carregamento
morrer.
Poucos dias antes de chegar ao Rio, o capitão do navio adoeceu e
nem com a Quarta sangria ele melhorou. Havia chegado a hora do
capitão, não havia sangria que o salvasse. Moribundo e em segredo, o
capitão, que confiava no barbeiro, entregou-lhe uma caixa, deu lhe o
endereço e pediu-lhe que entregasse a sua filha, em seguida disse que
espiaria a sua tarefa lá do outro mundo. Pouco tempo depois, o capitão
morreu. A partir daí, o barbeiro já não sangrava mais como antes e
decidiu não embarcar mais. Quanto a história do capitão, sequer havia
testemunhas então, o compadre instituiu-se como herdeiro do capitão.
Foi assim que ele se arranjou na vida.
VII – A comadre - Vale agora falar um pouco de uma personagem
que desempenhará um importante papel ao longo da história: é a
comadre, a parteira e madrinha do memorando.
Era uma mulher baixa, gorda, bonachona, ingênua ou tola até certo
ponto, e fina até outro. Vivia do ofício de parteira e de benzedeira. Era
conhecida como beata e papa-missas.
O seu traje habitual era como já se esperava, igual ao de todas as
mulheres da sua condição e esfera, uma saia de lila preta, que se vestia
sobre um vestido qualquer, um lenço branco muito teso e engomado ao
pescoço, outro na cabeça, um rosário pendurado no cós da saia, um
raminho de arruda atrás da orelha, tudo isto coberto por uma clássica
mantilha, junto à renda da qual se pregava uma pequena figa de ouro ou
de osso.
O uso da mantilha era um arremedo espanhol e segundo o narrador
era uma coisa poética pois revestia as mulheres de um certo mistério,
realçava lhes a beleza, mas a mantilha das mulheres brasileiras era
muito mais prosaico do que se podia imaginar, principalmente usadas
por gordas e baixas. As mantilhas usadas nas brilhantes festas
X – Explicações - O velho tenente-coronel, apesar de virtuoso,
bom e de estar numa idade inofensiva, tinha um sofrível par de pecados
da carne, tanto que aos 36 anos havia deixado em Lisboa, um filho. Aos
20 anos era um cadete desordeiro, jogador e insubordinado. Deixava o
pai, um homem de respeito, desesperado.
Poucos dias antes de embarcar para o Brasil, em companhia de elrei, o infeliz pai foi procurado por uma mulher velha, baixa, gorda e
vermelha, vestida, segundo o costume das mulheres da mais baixa
classe do seu país: um vestido de chita e um lenço branco, triangular
sobre a cabeça e preso embaixo do queixo. Estava nervosa e agitada,
seus lábios franzinos e franzidos estavam apertados um contra o outro,
como se segurassem uma torrente de injúrias. Assim que chegou em
frente ao capitão, era esse o posto do velho tenente-coronel na época,
olhou-o com ar resoluto e enfurecido, fazendo-o, instintivamente, dar
um passo atrás.
Ela, colocando as mãos nas cadeiras e chegando a boca bem perto
do rosto do capitão, logo já se pôde deduzir: o problema era com o filho
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do capitão que pôs-se a namorar Mariazinha, filha da velha nervosa.
Segundo a mulher, foi namoro pra lá, namoro pra cá e... brás!..
O capitão foi às nuvens. A mulher ainda afirmou que o rapaz havia
prometido casamento a filha.
Após pensar um segundo, viu que não poderia deixar o filho casarse com a filha de uma colareja e além do mais, o que ele ganhava como
cadete não era suficiente para o rapaz sustentar uma família. Então, o
capitão disse a mulher que pensaria no caso.
O capitão, em apuros, procurou a mulher e ofereceu alguma coisa
para que ela se calasse e não estourasse.
Não deu para ele pensar muito no assunto pois havia chegado a
hora. Então, deixando o filho aos cuidados de conhecidos, partiu.
Já no Brasil, anos depois, soube que a tal Mariazinha estava no Rio
de Janeiro, em companhia de Leonardo. Era a Mariazinha, a famosa
Maria-da-Hortaliça.
Sabe-se agora o porquê de o velho tenente-coronel prometer ajudar
Leonardo: acontece que o velho, procurando satisfazer o seu escrúpulo
de pai honrado, fazia o que podia pela moça que seu filho havia
desonrado. Em segredo havia feito um trato com a comadre, ou seja
qualquer necessidade que Maria-da-hortaliça sofresse, ele supriria,
bastaria que a comadre o informasse.
Como a comadre o ajudava, ele deveria ajudá-la, é essa troca de
favores que fê-lo, assim que falou com a comadre, dirigir-se à cadeia e
após ouvir a história vinda da boca de Leonardo, dirigiu-se à casa de
um amigo, um fidalgo.
Em poucas palavras o tenente-coronel pôs-lhe a par de tudo e o
fidalgo prometeu ajudar.
O velho tenente-coronel, satisfeitíssimo pôs-se rumo à cadeia a fim
de contar a novidade a Leonardo.
comadre sem reduzir a amizade do barbeiro pelo afilhado, o melhor e
informar que os progressos do menino agradavam o padrinho, pois o
pequeno já lia, sofrivelmente e aprendera a ajudar na missa.
Preocupado com o futuro da criança foi procurar um mestre, Era
este um homem todo em proporções infinitesimais, baixinho, magrinho,
de carinha estreita chupada, excessivamente calvo; usava de óculos,
tinha pretensões de latinista, e dava bolos nos discípulos por dá cá
aquela palha. Era um dos mais acreditados na cidade. O barbeiro entrou
acompanhado do afilhado. Era Sábado, os bancos estavam cheios de
crianças; os dois entraram exatamente na hora da tabuada cantada, uma
espécie de ladainha de números, era monótono e insuportável, mas os
meninos gostavam.
As vozes dos meninos, acompanhadas pelos passarinhos nas
gaiolas, faziam uma algazarra de doer os ouvidos.
Na Segunda-feira, lá estava o menino, munido de sua pasta a
tiracolo, a sua lousa e o seu tinteiro de chifre. Logo no primeiro dia
levou quatro bolos o que o fez declarar guerra viva à escola.
Na saída, assim que viu o padrinho, disse-lhe que não voltaria mais
à escola, não queria ter que apanhar para aprender.
O barbeiro ficou contrariado temendo que a maldita vizinha
soubesse que o menino havia apanhado no primeiro dia de escola, mas
o pequeno só concordou em retornar caso o padrinho falasse ao mestre
para não lhe bater mais. O padrinho, a fim de persuadi-lo, concordou.
O menino entrou na escola desesperado e como não ficasse quieto
ou calado, foi colocado de joelhos e nessa posição foi surpreendido
atirando uma bolinha de papel nos colegas; resultado: doze bolos, o que
fez o menino despejar sobre o mestre, todas as injúrias que sabia.
Segundo o barbeiro, os dezesseis bolos do primeiro dia deviam-se a
praga que a vizinha deveria ter jogado, mas ele venceria.
XI – Progresso e atraso - Após todas essas explicações ,
apresentações e origem dos personagens, o narrador volta a se
concentrar no memorando, ou seja em Leonardo, afilhado do barbeiro,
pois a última vez que fora mencionado estava encalhado no F e agora já
está no P, de novo empacado, mas o progresso do menino havia
deixado o padrinho muito contente. O difícil era fazê-lo decorar o
padre-nosso, em vez de dizer “venha a nós o vosso reino”, ele dizia :
“venha a nós o pão nosso”. O maior suplício para o menino era ir à
missa ou ao sermão.
Mesmo assim, enquanto todos viam em Leonardo um grande
peralta, principalmente a vizinha, o padrinho não perdia as esperanças
de vê-lo um clérigo.
Era a tal vizinha uma dessas mulheres que se chamam de faca e
calhau, valentona, presunçosa, e que se gabava de não ter papas na
língua: era viúva, e importunava a todo o mundo com as virtudes do
seu defunto. Ela não perdia tempo em desmentir o vizinho em suas
esperanças a respeito do afilhado.
Certo dia, o barbeiro não suportou mais, pois certo dia, ao chegar a
loja, a vizinha, à janela, perguntou-lhe, em zombaria, onde estava o seu
reverendo.
O barbeiro, vermelho, foi às nuvens e quando ela perguntou se o
menino já sabia o padre-nosso, o homem não agüentou e exasperandose respondeu-lhe que o menino já sabia e que ele o fazia rezar todas as
noites para seu marido que estava dando coices no inferno.
A mulher retrucou e chamou-o de raspa-barbas. A discussão foi
longe.
Quando o compadre perguntou a mulher o porquê de ele implicar
tanto com uma criança que nunca havia lhe feito mal, ela respondeu
que ele vivia jogando pedras no telhado, fazia-lhe caretas e a tratava
como se fosse uma saloia ou mulher de barbeiro.
O menino ao ouvir tanto estardalhaço, pôs-se a porta e começou a
arremedá-la. O compadre achou tanta graça que sentiu-se vingado e
desatou a rir.
Enquanto a discussão termina, o narrador aproveita para informar
que o barbeiro sabia da prisão de Leonardo mas não se importava.
Assim que o velho tenente-coronel colocou Leonardo na rua,
decidiu tomar Leonardo para a sua proteção, acreditando que se
conseguisse felicitá-lo, lavaria o seu filho do pecado; tanto que pediu à
comadre que oferecesse ao compadre seu préstimo para o pequeno,
chegou a pedir que o deixasse ir para a sua companhia.
O compadre recusou e disse que era a sua função, para tampar a
boca da vizinhança, transformar o menino em gente.
XIII – Mudança de vida - Foi com muito sacrifício que o
compadre conseguiu fazer o menino freqüentar a escola por dois anos,
levando bolos todos os dias. Apesar de o mestre sustentar a fama de
cruel, na verdade os bolos eram merecidos pois o menino era da mais
refinada má-criação, sempre desobedecia a tudo que lhe era ordenado.
Não parava quieto.
Nunca uma pasta, um tinteiro, uma lousa lhe durou mais de 15 dias,
era um velhaco que vendia aos colegas tudo o que podia Ter algum
valor, empregando o dinheiro que conseguia, do pior modo que podia.
No quinto dia de escola disse ao padrinho que já sabia ir sozinho,
este acreditou e o afilhado, então somou mais um apelido ao de apanhabolos-mor, era o de gazeta-mor.
O lugar que mais ficava quando cabulava aulas era a igreja da Sé,
pois reunia-se gente e várias mulheres com mantilha, de quem tomara
certa zanguinha por causa da madrinha. Lá, no meio da multidão, não o
encontrariam se o procurassem.
Como não saía da igreja, fez amizade com um pequeno sacristão
tão peralta quanto ele, conseguiam se comunicar apenas com troca de
olhares.
Essa vida durou muito tempo, até que o padrinho voltou a
acompanhá-lo. O menino decidiu que seria muito agradável
acompanhar o colega sacristão, afogando em ondas de fumaça a cara da
velha que chegasse mais perto e para isso comunicou ao compadre o
seu desejo de freqüentar a igreja, tinha nascido para aquilo. Para o
padrinho, foi a maior alegria quando ouviu o menino pedir que lhe
fizesse sacristão.
Em poucos dias aprontou-se, e em uma bela manhã saiu de casa
vestido com a competente batina e sobrepeliz, e foi tomar posse do
emprego. Ao vê-lo passar a vizinha dos maus agouros soltou uma
exclamação de surpresa a princípio, supondo alguma asneira do
compadre; porém reparando, compreendeu o que era, e desatou uma
gargalhada e ao chamá-lo de Sr. Cura, o menino respondeu-lhe que
seria e haveria de curá-la.
Era aquilo uma promessa de vingança. O menino chegou à Sé
impando de contente, a batina era como um manto real e foi na maior
seriedade que entrou na função de sacristão. Já no dia seguinte, o
negócio era outro: durante a missa cantada ele ficou com a tocha e o
amigo, com o turíbulo, quando de repente, para infelicidade
da vizinha, a quem o menino prometera curar, sem pensar, colocouse junto aos dois e bastou uma troca de olhar para se colocarem em
distância e lugar conveniente: enquanto um, tendo enchido o turíbulo
de incenso, e balançando-o convenientemente, fazia com que os rolos
de fumaça que se desprendiam fossem bater de cheio na cara da pobre
mulher, o outro com a tocha despejava-lhe sobre as costas da mantilha
a cada passo plastradas de cera derretida, a mulher ao exasperar-se
XII – Entrada para a escola - Para evitar repetir a história das mil
travessuras do menino, que exasperaram a vizinhança e desgostaram a
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ouviu o menino dizer que estava lhe curando. Como a igreja estava
apinhada de gente, ela teve que suportar o suplício até o fim. terminada
a missa queixou-se ao mestre-de-cerimônias e os dois ganharam uma
tremenda sarabanda.
Quando Leonardo a viu pela primeira vez, não conteve o riso: era já
muito desenvolvida, porém ainda não tinha adquirido a beleza de moça:
era alta, magra, pálida: andava com o queixo enterrado no peito, trazia
as pálpebras sempre baixas, e olhava a furto; tinha os braços finos e
compridos; o cabelo, cortado, dava-lhe apenas até o pescoço, e como
andava mal penteada e trazia a cabeça sempre baixa, uma grande
porção lhe caía sobre a testa e olhos, como uma viseira.
Mesmo tendo rido de Luisinha, quando o padrinho anunciou a nova
visita à D. Maria, o jovem pulou de alegria, foi o primeiro a ficar
pronto e lá foram os dois para o seu destino.
XIV – Nova vingança e seu resultado - Apesar de os meninos não
se importarem com a sarabanda, não perdoaram o mestre-de-cerimônias
por tê-los humilhado em frente da vítima e resolveram desforrar e foi o
caso assim: o pobre homem era um padre de meia idade formado em
Coimbra na mais austeridade da igreja católica, poderia fornecer a
Bocage assunto para um poema inteiro; pois apesar de, aparentemente,
buscar por assunto a honestidade e a pureza corporal, a sua essência era
sensual, fato que muitos ignoravam, mas os dois pequenos estavam por
dentro de tudo, tanto que sabiam que o padre enviava recados e objetos
a uma cigana, a mesma de Leonardo Pataca.
Já fazia três ou quatro dias que o padre não saía por estar decorando
o sermão, um sacristão foi incumbido de lhe avisar quando chegasse a
hora e os meninos não perderam tempo, o pequeno dirigiu-se à casa e
após bater, perguntou, em voz alta, pelo sacristão.
A cigana mandou-o entrar e ele em vez de dizer nove, disse dez
horas.
No dia seguinte, às nove em ponto, começou a festa e nada do
pregador aparecer, o que fez um capuccino italiano, por bondade,
oferecer-se para improvisar o sermão, já havia começado quando o
mestre entrou e ambos começaram a disputar o púlpito. Assim que
terminou, o mestre-de-cerimônias dirigiu-se ao menino que defendeuse dizendo que a cigana com quem ele estava era testemunha de que ele
havia dito que o sermão seria às nove. O Oh! Que soltaram foi geral,
mas o homem desmentiu.
Terminada a festa despediu o menino que nem se importou.
XIX – Domingo do Espírito Santo - Como era Domingo de
Espírito Santo, ao chegarem a casa de D. Maria, encontraram todos à
janela.
Desta vez, ao ver a moça de branco e com os cabelos, penteados,
não conseguiu rir, mas sim apreciar a figura da moça. Ela, por sua vez,
continuava em seu inalterável silêncio e concentração.
Mais tarde, os quatro iriam ver os fogos.
XX – O fogo no campo - Luisinha estava atônita no meio de todo
aquele movimento, mas Leonardo a puxava pelo braço.
Para deleite de Leonardo, após a queima de fogos, os dois voltaram
de mãos dadas.
XXI – Contrariedades - Como aqui se faz e aqui se paga, chegou
a hora de Leonardo pagar os seus tributos: o rapaz estava amando
Luisinha, cujo comportamento voltara ao antigo estado de letargia, fato
que fez o jovem sofrer grande contrariedade e fingindo desprezo que
era despeito, murmurou um - que me importa!
A situação mudou só mudou de figura quando o padrinho e o
afilhado depararam com um desconhecido na casa de D. Maria. Era um
homenzinho de mais ou menos trinta e cinco anos, magro, narigudo e
de olhar penetrante, recém chegado da Bahia; era o Sr. José Manuel.
Quem olhasse para a sua cara via logo que pertencia à família dos
velhacos. Era uma crônica viva e escandalosa, sempre que podia
desfiava um discurso de duas horas sobre a vida alheia. Padrinho e
afilhado, nutriam pelo homenzinho, desde a primeira vez que o viram,
uma grande antipatia.
O pedantismo com que José Manuel tratava as duas era por um
motivo muito simples: Luisinha era a única herdeira de D. Maria,
assim, quem se casasse com a moça, daria-se bem.
XV – Estralada - Quando Leonardo já havia se esquecido da
cigana, descobriu que ela era amante do mestre-de-cerimônias e
resolveu procurá-la para salvar sua alma, mas ela disse ter sido
procurada por vários meirinhos mas nenhum havia lhe agradado. Então,
após ter desejado uma estralada para a mulher, retirou-se jurando
vingança.
Dito e feito, contratou Chico-Juca que ganhava para dar pancada e
o dia de colocá-lo em ação seria no aniversário da cigana. Após acertar
tudo com o brigão, procurou o major Vidigal para falar sobre a festa. O
plano deu tão certo que quando os soldados do Vidigal foram revistar o
quarto, tiraram de lá, nada menos que o mestre-de-cerimônias em
ceroulas, meias pretas e sapatos afivelados. Sem perdão, o padre foi
para a casa da guarda.
XXII – Aliança - A presença de José Manuel desagradava aos dois
homens, e ele já havia percebido que os dois não gostavam dele.
Leonardo amava Luisinha e o padrinho via na moça um excelente meio
de vida para o rapaz.
Tamanha era a preocupação do compadre que ele foi falar com a
comadre que ficou de falar com D. Maria. Foi assim que se formou
uma aliança entre o compadre e a comadre para derrotarem o
concorrente de Luisinha.
XVI – Sucesso do plano - O mestre-de-cerimônias não chegou ao
xilindró, pois o Vidigal quis apenas dar-lhe um susto. Como era de se
esperar, a notícia correu rapidamente e logo depois, todo
envergonhado, ele seguiu para casa.
Enfim, Leonardo e a cigana reataram o romance, para desgosto da
comadre que tentava enfiar-lhe a sobrinha.
Já o ex-sacristão, para desgosto do compadre, ainda estava com o
seu destino incerto.
XXIII – Declaração - Enquanto a comadre tecia planos para
derrotar o rival do afilhado, este ardia em ciúmes. Para a sua sorte,
Luisinha ignorava tudo e continuava indiferente.
Leonardo, por sua vez, temendo que o compadre e a comadre
derrotassem seu rival e ele não pudesse entrar em combate, tentou agir
por conta, mas cada vez que ficava a sós com Luisinha, dava-lhe um
tremor de pernas que mal conseguia ficar de pé ou articular qualquer
palavra. Certa ocasião, a moça estava em pé, perto da janela e ele se
aproximou ficando como a uma estátua atrás dela, quando ela se virou,
a única reação do rapaz foi a de fazer uma careta; por fim criou
coragem e disse-lhe que a queria muito bem; esta por sua vez, ficou cor
de cereja e desapareceu pelo corredor.
XVII – D. Maria - Num dia de procissão, o barbeiro, o afilhado, a
comadre e a vizinha dos maus agouros estavam hospedados na casa de
D. Maria, uma mulher muito velha e muito gorda, era rica, religiosa e
caridosa.
Lá, o menino ouviu a vizinha falando dele para a madrinha e como
vingança, pisou na barra da saia da mulher que ao se levantar, rasgou
em quatro palmos; a única atitude do barbeiro foi rir.
Ali, todos discutiam o destino do menino e ao saírem, D. Maria
pediu ao compadre que voltassem para falarem sobre o menino.
XVIII – Amores - Alguns anos depois, o menino tornou-se um
vadio-mestre, vadio-tipo, levando o padrinho ao mais completo
desespero.
A comadre conseguiu o que queria, Leonardo Pataca havia se
arranjado com a sobrinha.
D. Maria havia envelhecido sofrivelmente e era, na época, tutora de
sua sobrinha que estava órfã.
As demais personagens continuam do mesmo jeito.
O memorando, agora adolescente, passou a ser tratado pelo nome, o
mesmo do pai, Leonardo. O jovem estava apaixonado por Luisinha, a
sobrinha de D. Maria.
XXIV – A comadre me exercício - Leonardo-Pataca estava todo
feliz, pois do seu relacionamento com Chiquinha, a sobrinha da
comadre, nasceu uma pequerrucha, oposta ao irmão, pois era mansa e
risonha.
XXV – Trama - Quando a comadre não estava ocupada fazendo
partos, ocupava-se em desconceituar José manuel para D. Maria. Então,
começou a contar que uma moça muito rica, que vivia com a mãe
orando no Oratório de Pedra, havia enchido uma meia preta com jóias e
fugido com um homem, o mistério é que ninguém sabia quem era o tal;
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então, a comadre, aproveitando-se da curiosidade da outra, após fazê-la
jurar não contar nada a ninguém, disse que o homem era José Manuel.
grossos e úmidos, os dentes alvíssimos, a fala era um pouco
descansada, doce e afinada. Por ser cantora de modinhas, pôs-se a
cantar:
Se os meus suspiros pudessem
Aos teus ouvidos chegar,
Verias que uma paixão
Tem poder de assassinar.
Não são de zelos
Os meus queixumes,
Nem de ciúme
Abrasador;
São das saudades
Que me atormentam
Na dura ausência
De meu amor.
Leonardo ouviu a música boquiaberto e nunca mais tirou os olhos
da cantora.
XXXI - Novos amores - Já na casa do amigo, enquanto o jovem,
pensava em Luisinha, José Manuel e Vidinha, ouvia mais uma música
da bela cantora:
Duros ferros me prenderam
No momento de te ver;
Agora quero quebrá-los,
É tarde não pode ser.
Este último passo acabou de desorientar completamente o
Leonardo: reconheceu que havia se inclinado um só instante por
Luisinha, mas estava apaixonado por Vidinha, mas eram duas irmãs
com três filhos e três filhas que moravam numa mesma casa, logo,
havia três casais de primos completos, mas dois gostavam de Vidinha,
resumindo: Leonardo tinha mais dois rivais, mas sem Ter para onde ir,
passou a noite ali.
XXXII – José Manuel triunfa - Enquanto a comadre procurava
Leonardo por toda a parte, o jovem ouvia modinhas. Cansada, a
comadre acaba indo à casa de D. Maria. Lá, tudo que a comadre falava
do afilhado, defendendo-o, D. Maria não concordava, acusava-o; algo
estranho acontecia: José Manuel, aliado ao mestre-de-rezas, venceram.
O velho conseguiu inocentar José Manuel e este tinha aprovação de
D. Maria para ser pretendente de Luisinha.
XXXIII – O agregado - Algumas semanas depois, Leonardo já era
agregado na casa de Tomás da Sé, mas certo dia, ao ser surpreendido
abraçado com Vidinha, acabou se atracando com um dos enamorados
pela moça.
Como parecia ser sua sina viver como o Judeu Errante, já ia se
pondo a andar, quando a comadre o encontrou.
XXXIV – Malsinação - As três velhas, após longa conversa,
tornaram-se amigas e a tormenta dos três briguentos cessou e a
comadre, cada vez que tentava fazer o
afilhado voltar para casa, as duas velhas se metiam, até que, para a
alegria de Vidinha, Leonardo resolveu ficar.
A comadre ia regularmente visitar Leonardo e as duas novas
amigas. Tudo ia as mil maravilhas, porém os dois primos despeitados
tramavam e tramavam algo.
Os dois colocaram o plano em ação no dia em que o grupo saiu
para uma patuscada. Quando estenderam a esteira, surgiu o major
Vidigal, que assim que chegou quis saber quem era Leonardo e assim
que este se identificou, Vidigal o prendeu por vadiagem.
Segundo Vidinha, foi uma malsinação.
XXXV – Triunfo completo de José Manuel - Com o sumiço de
Leonardo da casa de D. Maria, José Manuel teve espaço para agir a
vontade, tanto que acabou ajudando D. Maria em uma demanda do
testamento de Luisinha. Como já tinha adquirido a confiança da velha,
aproveitou-se e pediu a moça em casamento.
Luisinha estava naquela idade do abatimento, entre 13 e 25 anos e
como não via Leonardo há tempos, aceitou a proposta de forma
indiferente.
Num Sábado à tarde, Luisinha e José Manuel casaram-se.
Ora, os leitores hão de estar lembrados da mania que tinha D. Maria
por uma demandazinha; atirava-se a ela com vontade, e tal era o
empenho que empregava na mais insignificante questão judiciária, que
em tais casos parecia ter em jogo sua vida. Daqui se poderá concluir a
satisfação que teria ela no dia em que se achava vencedora, e como se
não julgaria obrigada a quem lhe proporcionasse a vitória.
José Manuel aproveitou-se disto; e no dia em que veio ler a D.
Maria a sentença final que resolvia a pendência em seu favor, pediu-lhe
a mão da sobrinha, a qual lhe foi prometida sem grandes escrúpulos.
XXVI – Derrota - D. Maria ficou estupefada e a comadre satisfeita
com o resultado. A fofoca foi interrompida pela chegada de José
Manuel, que nem bem havia entrado e começou a falar que andava
muito ocupado com uns arranjos mas não podia falar pois era segredo.
As duas trocaram olhares significativos.
Luisinha, desde a declaração de Leonardo, sofreu mudanças
significativas tanto física quanto psicológica, passou a erguer os olhos,
a falar, a mover-se.
De tanto as duas senhoras cutucarem, José Manuel concordou em
falar-lhes do seu negócio (não se pode esquecer de que ele era
mentiroso) desde que elas fossem discretas; disse-lhes que havia sido
chamado para ir ao palácio, mas assim que a comadre saiu D. Maria
quis saber sobre a moça que ele havia roubado, mas o homem jurou e
tresjurou que não tinha nada a ver com aquilo, mas D. Maria estava
inflexível, resultado: José Manuel saiu na carreira.
XXVII – O mestre-de-reza - Depois do acontecido na casa da D.
Maria, José Manuel reconheceu que tinha ali um inimigo e que o
motivo seria a sua pretensão à mão de Luisinha, só faltava saber quem.
Rapidamente José Manuel pôs mãos à obra, ou seja, da mesma
forma que Leonardo tinha seus protetores, ele teria um; para tanto,
recorreu ao mestre-de-reza de D. Maria, que tinha fama de
casamenteiro.
O mestre-de-reza entrou em ação logo à noite, pois enquanto
conversava com D. Maria, disse-lhe que sabia quem havia roubado a
moça.
XXVIII - Transtorno - Enquanto José Manuel agitava a casa de D.
Maria, a vida de Leonardo agitava-se tristemente, pois o seu padrinho
adoecera. Como D. Maria não conseguiu curá-lo, chamaram o velho da
botica que prometeu curá-lo com umas pílulas. A comadre não gostou
da idéia das pílulas, chegou até a franzir a testa, pois disse que nunca
tinha visto quem as tomasse escapar vivo.
A comadre tinha razão até certo ponto, pois três dias depois o
compadre morreu. Na casa do falecido, Leonardo, todos os amigos,
vizinhos e conhecidos estavam em prantos.
Quando todos se foram, enquanto Leonardo e Luisinha
conversavam, D. Maria e a comadre foram procurar o testamento do
compadre e encontraram. Leonardo era o herdeiro universal do
padrinho; quando Leonardo-Pataca ficou sabendo, apresentou-se para
tomar conta do filho, mas este não gostou pois lembrou-se do pontapé,
mas mesmo assim teve que acompanhá-lo e encontrar-se com a irmã e
Chiquinha.
Leonardo-Pataca não só cuidou do testamento como também ficou
com tudo; não se pode esquecer-se de que além dos mil cruzados, tinha
ainda aquele dinheiro do capitão do navio que ele “pegou”.
Nos primeiros dias tudo foram flores, a família estava novamente
unida: Leonardo-Pataca, Leonardo, a irmã e a comadre.
Agora, somente Leonardo e a comadre continuavam as visitas à D.
Maria.
A paz familiar durou pouco, pois Leonardo não simpatizava com
Chiquinha e esta começou a embirrar com Leonardo, resultado: na casa
era a maior balbúrdia.
XXIX - Pior transtorno - Leonardo, após ficar grande tempo na
casa de D. Maria sem ver a amada, entrou em casa de mal com a vida e
ao se sentar jogou a almofada de Chiquinha no chão; esta por sua vez
chamou-o de namorado sem ventura e ele não se fez de rogado,
espumando de cólera avançou em Chiquinha que disse-lhe Ter raça de
saloio.
Como Leonardo-Pataca estava em casa foi acudir e armado do
espadim embainhado, atirou-se sobre o filho, chegou D. Maria e apesar
de tomar partido do jovem, a única coisa que pôde fazer foi sair à sua
procura, pois o pai o havia expulsado de casa.
XXX - Remédio aos males - Após o carreirão que levara, o pobre
rapaz, vagando pela cidade e pensando em Luisinha e no rival, chegou
ao Cajueiro
Gargalhadas vindas de uma moita tiraram-no do devaneio,
procurou e encontrou um grupo de moças e moços sentados em uma
esteira jogando baralho.
Com o estômago roncando, ia se afastando quando um deles o
chamou, era o seu antigo camarada, Tomás, aquele menino sacristão da
Sé. Este apresentou-lhe a irmão, Vidinha, uma mulatinha de 18 a 20
anos, de altura regular, ombros largos, peito alteado, cintura fina e pés
pequeninos; tinha os olhos muito pretos e muito vivos, os lábios
53
XXXVI – Escápula - Enquanto o casal está no gozo tranqüilo da
lua-de-mel e D. Maria faz cálculos aritméticos aconselhando a
sobrinha, Leonardo, a caminho da cadeia, ao ouvir uma confusão, teve
uma vertigem, seus ouvidos zuniram, deu um encontrão no granadeiro
e fugiu. Pouco depois estava na casa de Vidinha.
Vidigal foi às nuvens, urrava; nunca nenhum garoto havia
conseguido fugir. Jurara vingança.
XXXVII – O Vidigal desapontado - Todos riram quando o major
Vidigal, após vasculhar uma casa, saiu de mãos vazias. Quando o major
ia entrando na casa da guarda, a comadre atirou-se aos seus pés e em
prantos pedia a libertação do afilhado.
Todos que a ouviam, riam e quando o major disse que ele havia
fugido, ela saiu toda sorridente.
XXXVIII – Caldo entornado - Assim que a comadre chegou à
casa de Vidinha, todos puseram-se a rir, mas após a alegria, a comadre
começou a passar-lhe um sermão,
afirmando que Leonardo tinha que arranjar alguma ocupação, caso
contrário cairia nas unhas do Vidigal.
Leonardo prometeu se emendar.
Poucos dias depois, a comadre arranjou-lhe um emprego de
servidor na ucharia real.
O major, mordendo os beiços, não o perdia de vista.
Com o novo emprego, a despensa de Vidinha ficou abarrotada, ou
seja ele tirava de l’’a e abastecia a casa.
No pátio da ucharia morava um toma-largura na companhia de uma
moça bonita. Acontece que o homem era extremamente bruto e
Leonardo, na mais pureza dos sentimentos foi à casa da moça levar-lhe
uma tigela de caldo. De repente a porta se abre, eras o toma-largura; a
moça entornou o caldo, Leonardo pôs-se a correr e o toma-largura,
atrás.
Daí a pouco ouviu-se barulho e gritos e Leonardo atravessar o pátio
às carreiras.
No dia seguinte o Leonardo foi despedido da ucharia.
XXXIX – Ciúmes - No dia seguinte o Vidigal já sabia de tudo e
pôs-se em alerta.
Em casa, Vidinha, enfurecida pelo ciúmes, pediu a mantilha da mãe
para ir à ucharia falar com toma-largura . Leonardo que ouvia tudo,
sem resultado pediu à moça que não fosse. No caminho, Leonardo
deparou-se com o major e foi obrigado a acompanhá-lo.
XL – Fogo de palha - Enquanto Leonardo era obrigado a seguir o
“seu destino”, Vidinha já estava na ucharia. Lá, disse à moça do caldo
que ela não tinha sentimentos fez um desaforozinho ao toma-largura e
saiu, sem saber que era seguida por ele.
XLI – Represálias - Em casa, enquanto Vidinha contava a sua
aventura a todos, sentiram falta de Leonardo e reconheceram que este
deveria estar com o Vidigal.
No dia seguinte, Tomás, que até então não havia tomado parte de
nada na agitada casa, saiu para tomar as providências em favor do
amigo.
Tomás foi à casa da guarda, mas não encontrou o amigo; procurou
em outros lugares e nada. Sem opção, ele e os demais foram procurar a
comadre que também pôs-se a procurar pelo afilhado e nada do moço.
Como Leonardo não dava notícias, acharam que ele estivesse
escondido, resultado: Vidinha e os familiares passaram a odiá-lo.
O desaparecimento de Leonardo, aliado a visita que Vidinha fizera
à ucharia, contribuíram para que ela visse, todos os dias, toma-largura
duas vezes por dia.
Pouco tempo depois os familiares da moça já gostavam dele e ele
passou a frequentar a casa.
Certo dia todos saíram para uma patuscada, mas toma-largura
bebeu demais armou-se a confusão, o que gerou no aparecimento de
Vidigal e dos granadeiros.
Quando um deles se aproximou para prender toma-largura, todos se
surpreenderam; Leonardo havia se tornado um dos granadeiros de
Vidigal.
XLII – O granadeiro - Como toma-largura estivesse bêbado, caiu
estirado na calçada e o seu tamanho colossal, mas o fato de ser gente da
casa real, fez com que os granadeiros deixassem-no ali.
Convém agora, um leve flash-back para saber como Leonardo se
tornou um granadeiro. Foi simples, na noite em que fora preso, como o
regimento do Vidigal estivesse precisando de soldado, reconheceu que
Leonardo seria de grande ajuda, pois conhecia todas as bocas do Rio de
Janeiro.
O problema é que sorrateiramente Leonardo aliava-se ao povo e
ficava contra o major.
XLIII – Novas diabruras - Um dia o major anunciou que tinha
uma grande e importante diligência a fazer. Era prender um banqueiro
de jogo-de-bicho e cantor satírico e chamado Teotônio.
Onde havia festa ele era convidado. Por coincidência, Teotônio
estava justamente na casa de Leonardo-Pataca, na festa de batizado de
sua filha.
Leonardo fora incumbido de entrar na casa e dar sinal para que
prendessem o homem, mas como o jovem era astuto, fez Teotônio
livrar-se da prisão, saindo disfarçado de corcunda. Mais uma vez
enrolara o Vidigal.
XLIV – Descoberta - Quando a patrulha do Vidigal estava batendo
em retirada, um amigo de Teotônio, todo esfuziante, correu a abraçar
Leonardo para agradecê-lo por ter enganado o major. O jovem
granadeiro ficou estático e foi preso.
Enquanto caminha para o quartel, como será que estão Luisinha e
sua gente?
Tudo eram rosas, mas pouco depois da lua-de-mel, José Manuel
pôs as manguinhas de fora, de posse da moça e da herança, mudaramse da casa de D. Maria.
Agora que os dois estavam sozinhos, ele se tornou um maridodragão, não permitindo que a esposa sequer saísse à rua. A moça
chorava pela liberdade.
Certo dia na missa, a comadre e D. Maria se encontraram e voltara
a se falar. Uma falava das desgraças de Leonardo e a outra das de
Luisinha.
Ambas, agora, teciam planos para a libertação de Leonardo.
XLV – Empenhos - Primeiro a madrinha foi falar com o major,
mas sem resultado. Como o major era um pecador antigo, como última
tentativa, a comadre e D. maria foram falar com o grande amor de
Vidigal, a Maria-Regalada.
Lá chegando puseram a mulher a par de tudo e as três, na
cadeirinha, puseram-se rumo à casa do major.
XLVI – As três em comissão - Lá chegando, o major recebeu-as
de rodaque de chita e tamancos, mas quando reconheceu as três, correu
o mais que pôde para pôr a farda. Na pressa retornou à sala de farda,
calças de enfiar, tamancos e um lenço de alcobaça nos ombros.
As três mulheres, chorando em um único coro, pediam a soltura de
Leonardo, mas o major estava irredutível, até que Maria-Regalada
chamou-o a um canto da sala e cochichou-lhe algo. Pronto, tudo
mudou, Leonardo seria solto.
XLVII – A morte é juiz - Nem bem chegou à casa, D. Maria, toda
atrapalhada, teve que sair. José Manuel havia morrido.
Luisinha pôs-se a chorar, mas como choraria por qualquer vivente,
porque tinha coração terno. Isso bastou para que uma vizinha dissesse a
outra que não eram lágrimas de viúva.
A afirmação era correta, pois José Manuel nunca fora marido de
Luisinha, senão por conveniência.
À saída do enterro, os escravos fizeram a maior algazarra.
Ao entardecer, para espanto de D. Maria, Leonardo dentro na sala,
estava livre das garras do major e ainda por cima, promovido a
sargento.
Os olhos de Leonardo encontraram-se com os de Luisinha. Depois
de conversarem com Leonardo estava de serviço, teve que se retirar.
XLVIII – Conclusão feliz - Luisinha e Leonardo haviam reatado o
antigo namoro; namoro de viúva anda depressa.
Como sargento não podia se casar, foram a casa de Maria-Regala
pedir ajuda e lá encontraram o major em rodaque e tamancos. Este era
o segredo que Maria-Regalada havia lhe cochichado.
Após conversarem o major concordou em dar baixa ao Leonardo;
de sargento de tropas, seria sargento de milícias.
Pouco tempo depois, Leonardo e Luisinha, casaram-se. Daí por
diante, aconteceu o reverso da medalha: Leonardo Pataca devolveu os
bens do filho, D. Maria e Leonardo Pataca morreram e mais uma
enfiada de acontecimentos tristes que convém poupar e ponto final.
Fontes:
http://guiadoestudante.abril.com.br/estude/literatura/materia_41396
5.shtml
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