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A MODA COMO EXPERIÊNCIA ESTÉTICA
Paula Rueda Daniel1
RESUMO
Este artigo analisa a moda popular contemporânea e como funciona seu sistema nos dias
de hoje, bem como o modo que afeta a economia e as relações sociais de maneira
cíclica. Essa primeira análise terá como apoio os trabalhos dos teóricos de moda como
Lipovetsky, Svendsen e Caldas. A partir disso, tem como objetivo buscar e apontar o
serviço que a moda hoje proporciona no campo da Estética à população, como uma
experiência necessária para a vivência, ocupando um espaço sempre referido como
pertencente à arte. Para essa investigação, serão utilizadas as teorias estéticas de Dewey
e Kant. Além disso, será feito um estudo de comportamento das pessoas em relação à
moda, de modo que seja feita uma análise das experiências que elas tiram da mesma.
Isso será feito através da análise de blogs de moda com foco especial em crítica sobre os
trajes utilizados nos eventos de celebridade de tapete vermelho.
Palavras chave: moda contemporânea; estética; arte; celebridades
FASHION AS AN AESTHETIC EXPERIENCE
ABSTRACT
1
Paula Rueda Daniel é Especialista em História das Artes: Teoria e Crítica pela Faculdade Paulista de
Artes (FPA) e Ciências do Consumo Aplicadas pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).
É Graduada em Design de Moda pelo Centro Universitário Senac.
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This article analyzes the contemporary popular fashion and how its system works
nowadays, as well the way it affects cyclic the economy and social relationships. This
first analysis will use as support the works of the fashion theorist Lipovetsky, Svendsen
and Caldas. From that, this article has as goal to seek and point the attendance that
fashion provides at the Aesthetics field to the population as a necessary experience for
living, taking a place always referred as an art belonging. For this investigation, it will
be used the aesthetics theories of Dewey and Kant. Besides that, it will be made a
behavior study on people towards fashion, so that it is possible to analyze the
experience they extract from it. That will be made through fashion blogs analysis, with
a special focus on critics about the garments worn by celebrities on red carpet events.
Key words: contemporary fashion; aesthetics; art; celebrities
Quando pensamos em moda, pensamos de imediato em roupas, mas também
sabemos que a moda está em todos os outros objetos de nosso uso diário, bem como em
expressões que utilizamos para nos relacionarmos ou em nossos interesses que
buscamos na mídia. É natural que ela saia apenas dos objetos e entre também nessas
outras áreas, visto que hoje há tantas normas distintas andando lado a lado de maneira
tão dinâmica, que tudo parece se aproximar. Essa proximidade nos leva ao que
chamamos de “experiência estética”, termo explorado dentro do campo de estudo da
Estética e que se mostra importante para o desenvolvimento humano, pois o homem
sempre manteve contato com arte, como parte das necessidades humanas.
A moda é um fenômeno que traduz a nossa sociedade atual e pós-moderna e é
explícito o contato que temos com ela e como nos afeta em nosso dia a dia. É um tanto
complicado tentar explicá-la hoje, assim como é difícil explicar os movimentos
contemporâneos em qualquer área de estudo, ainda mais quando tudo se mostra
recortado, remontado e efêmero. E a moda será sempre a própria contemporaneidade
por definição conceitual. Muito se fala em espírito do tempo ou da época, sendo que a
moda é considerada por muitos estudiosos o principal indicador desse espírito, pois por
mais que não haja consenso, ao passarmos nossos olhos sobre a história, vemos seus
traços e formas de maneira evidente nos costumes, de modo que possamos fazer
relações sobre determinados períodos de maneira assertiva. Hoje, conseguir definir o
espírito do tempo é tão complicado devido aos ciclos das modas não chegarem a durar
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uma estação. O filósofo Gilles Lipovetsky fala sobre o fenômeno com a seguinte frase:
“A moda é nossa lei porque toda a nossa cultura sacraliza o Novo e consagra a
dignidade do presente.” (LIPOVETSKY, 2009, p. 314). Ou seja, quanto mais a indústria
lançar o novo, mais capital vai movimentar, pois quase nenhum produto consegue ser
mantido hoje sem se tornar obsoleto em questão de meses, dependendo do que for. No
caso das roupas, é possível encontrar nas lojas de departamento que vendem o
conhecido fastfashion, produtos novos toda semana. O filósofo Lars Svendsen mostra
um círculo nesse processo: “quando mais depressa a moda se desenvolve, mais baratos
os itens se tornarão, e quanto mais baratos os itens se tornarem, mais depressa a moda
se desenvolve”. (SVENDSEN, 2010, p. 46).
O autor Dario Caldas (2004) diz que, para traduzirmos o espírito de um tempo
ao longo da história, podemos identificar traços comuns em três esferas: arquitetura
(onde ele também engloba decoração de interiores), objetos e moda. Esses três, segundo
o autor, definem uma Gestalt com seus traços estéticos. No século XX, incluiu também
o automóvel, sendo cada vez mais óbvia a influência de um elemento sobre o outro. Já
no século XXI, eu diria que os chamados gadgets também podem ser incluídos nesse
grupo, dada a importância deles para o nosso lifestyle hoje e por marcas poderosas de
tecnologia como a Apple (a qual não possui apenas consumidores, mas seguidores e fãs)
que conseguem, assim, ter influência na indústria têxtil e automobilística. Os
lançamentos da Apple conseguem mobilizar dezenas de milhares em um único dia e o
design de seus produtos de mais sucesso são representantes de como os objetos de nosso
dia a dia devem ser e que caminho seguirão na tecnologia do futuro.
As indústrias das áreas citadas sempre mantêm contato entre si para apostarem
nas chamadas “tendências” e poderem criar suas cartelas de cores juntas ou então
definir as formas e silhuetas de seus novos produtos. Porém a indústria da moda é a que
mais se sobressai ainda como emissor de tendências estéticas para outros setores
industriais. Ela é a mais difundida pelo marketing e a mais globalizada, muito
provavelmente por ser a mais dinâmica em mudanças, visto que é a única que pode
mudar tão rapidamente suas coleções. É também a que seu design consegue atingir
todas as classes sociais com facilidade de reprodução e produção em série, um processo
já extremamente fácil desde os anos 1960 com o prêt-à-porter ou readytowear, dois
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nomes diferentes para o mesmo sistema de produção em série de roupas, caracterizado
pelas lojas de departamento. Afinal, por mais que queiram, os consumidores não
conseguem trocar tanto de celular e de carro como de guarda-roupa. Assim, as roupas
são os objetos que mais proporcionam experiências diversas, diariamente, aos
indivíduos e entre eles também, seja para se reconhecerem como semelhantes ou para
servir de diferenciador. Criou-se também um fetichismo exacerbado em torno da moda
com força da publicidade que usa até mesmo a “antimoda” para vendê-la. Sua fotografia
para revistas especializadas costuma comover pela sua dramaticidade, normalmente
apelando para o irreal, sempre tentando fazer o que ainda não foi feito.
A estética da moda, seja na própria peça de roupa, seja na fotografia, é a
experiência estética que mais consegue atingir a população de maneira homogênea. Essa
experiência que ela procura proporcionar a leva em direção ao que a grande maioria das
pessoas categoriza como “arte”. A moda sempre quis ser amada e vista como arte,
porém Svendsen (2010) diz que a arte, durante o século XX, a abraçava em um
momento para rejeitá-la em outro. Apesar disso, hoje a moda provoca uma experiência
estética maior para a sociedade em geral, mesmo sendo esse campo de estudo sempre
direcionado à arte. Não me refiro, claro, a intelectuais de arte e moda, que constituem
uma parcela mínima em relação à grande maioria das pessoas que não têm tanto
repertório a respeito desses assuntos, sendo estes mais formados pelo que é veiculado na
mídia. Não posso utilizar, por exemplo, o trabalho dos estilistas e marcas como
GarethPugh, Yohji Yamamoto ou CommedesGarçons (figura 1) como referências
estéticas de moda pelas quais a maioria das pessoas se interessa. São populares apenas
dentro de sua área e suas roupas talvez apenas indiquem o “espírito do tempo”, mas não
é o que chega literalmente às ruas. Se quero dizer que a moda hoje é o elemento que
melhor leva as pessoas à experiência estética, coloco-a aqui como a moda em seu
significado mais literal: o que é passageiro, o Novo (restrito às diversas normas
permitidas) e recorrente, o que faz causar até mais estranheza sobre o assunto a
princípio. Também não poderia fazer tal afirmação desconsiderando a arte
contemporânea e seus admiradores e estudiosos, mas é mais evidente ainda que a arte
contemporânea tenha menos visibilidade que a moda para a maioria da população. Se a
arte contemporânea é objeto de luxo, a moda contemporânea de luxo ainda tem cartazes
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publicitários espalhados pelas ruas, de modo que seja mais notada mesmo por quem não
possa usufruí-la.
Fonte: Style.com2
Figura 1 -Desfile de GarethPugh, Yohji Yamamoto e CommedesGarçons
O filósofo John Dewey fez severas críticas sobre essa falta de visibilidade da
arte, que é na verdade uma separação criada pelo nosso sistema moderno, entre ela e o
cotidiano. O que se entende de maneira geral hoje, é que para vivenciar a arte, deve-se ir
a galerias e museus. Assim, com a arte presa em um lugar restrito a ela, só reforça a
impressão de que ter a experiência da arte é algo que está muito além do que as pessoas
comuns (que não são artistas ou pensadores da área) conseguiriam e não pode fazer
parte de nosso dia a dia, pois então seria supostamente “banal”. Mas a experiência
estética não está apenas nas obras de arte consagradas: diversos objetos, cenas e atos
podem fazer esse papel estético em nossas vidas. Porém, como o cotidiano é
comumente menosprezado, a ideia que se tem é que a possibilidade de ter uma
experiência estética é para poucos, por isso Dewey lamenta que muitos teóricos e
críticos sustentem com orgulho essa separação entre arte e objetos corriqueiros.
2
Disponível em http://www.style.com/fashionshows/review/S2007RTW-PUGH;
http://www.style.com/fashionshows/review/S2011RTWYJIYMOTO;http://www.style.com/fashionshows/review/F2012RTW-CMMEGRNS. Acesso em 12 de
junho de 2014.
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A arte possui, no entendimento geral, uma “aura” sagrada em torno dela,
principalmente as mais antigas, sobre as quais se ouve falar desde cedo nas escolas e na
mídia, onde apenas frisam como são perfeitas, mas sem exatamente conseguirem
transmitir as razões daquela arte ser o que é, ou dar até espaço para serem questionadas
criticamente. Elas já nos são apresentadas e reconhecidas como grandes, mas não
mostram o curso delas e a experiência que elas possuem, de modo que se possa
descobrir sua qualidade estética. Dewey, então, afirma que quando uma obra de arte tem
o status de “clássico”, ela se isola das condições humanas e não gera experiência real de
vida, e essa separação da obra de arte da sua origem impede que se perceba sua
significação geral, a qual lida a teoria estética. O autor também diz: “Para compreender
os significados dos produtos artísticos, temos de esquecê-los por algum tempo, virarlhes as costas e recorrer às forças e condições comuns da experiência que não
costumamos considerar estéticas”. (DEWEY, 2010, p. 60). Ou seja, uma obra só tem
seu peso estético na medida em que é uma experiência para o ser humano. O autor diz
até que muitas obras de arte reconhecidas pelas pessoas cultas parecem “anêmicas” para
a massa popular, o que é natural, visto que a arte contemporânea não é óbvia e se apoia
em conceitos além da estética. Com isso, existe um peso enorme que amedronta as
pessoas em relação a essas obras: sem embasamento, é comum tentarem tirar
conclusões das obras a todo custo para não se sentirem ignorantes, com uma ideia
próxima e: “se a obra está em um museu, ela deve ser importante e eu tenho (destaque
da autora) que conseguir compreendê-la”.
Não é que a arte não deva ser tratada com importância, mas a sua sacralização
causa temor às pessoas, que se afastam com pensamentos de “isso não é para mim”, ou
então formam uma imagem muito estereotipada de artistas e intelectuais da área, como
se fossem pessoas fora da realidade. As obras de arte que são achados arqueológicos,
por exemplo, também, aponta Dewey, ao serem reclusas em um museu, são segregadas
e mostradas como se não fossem concomitantes ao seu lugar de origem, que faziam
parte da vida social. O autor diz:
A escarificação do corpo, as plumas oscilantes, os mantos vistosos e
os adornos reluzentes de ouro e prata, esmeralda e jade, formaram o
conteúdo de artes estéticas, e, ao que podemos presumir, sem a
vulgaridade do exibicionismo classista que acompanha seus análogos
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atuais. Utensílios domésticos, móveis de tendas e de casas, tapetes,
capachos, jarros, potes, arcos ou lanças eram fetos com um primor tão
encantador que hoje os caçamos e lhes damos lugares de honra em
nossos museus de arte. No entanto, em sua época e lugar, essas coisas
eram melhorias dos processos a vida cotidiana. Em vez de serem
levadas a um nicho distinto, elas fazem parte da exibição de perícia,
da manifestação da pertença a grupos e clãs, do culto aos deuses, dos
baquetes e do jejum, das lutas, da caça e de todas as crises rítmicas
que pontuam o fluxo da vida. (DEWEY, 2010, p. 64-65).
Percebemos que esses objetos citados e atitudes em relação a eles não cabem
para nossa sociedade hoje, devido a nossa maneira moderna de lidar com a vida. O
design tomou lugar da arte para a confecção desses objetos e como premissas do design
estão: beleza, praticidade e funcionalidade. Produzidos em série, os nossos utensílios
diários devem sempre estar de acordo também com o mercado, o que não quer dizer que
não se possa extrair uma experiência estética deles, mas é a lógica que causou a
separação marcada entre arte e a vida diária. Dewey ressaltou que essa separação e
confinamento da arte em galerias e museus é uma característica tipicamente moderna e
capitalista, de modo que a arte fique restrita à elite e encarada apenas como objeto de
consumo, o que tira a experiência de vivenciá-la. Ora, mas não é a moda também um
objeto de consumo? O que faria ela se sobressair em relação à arte como experiência
estética?
Ao falarmos de moda, é praticamente impossível não falarmos de consumo. Um
existe com o outro, um molda o funcionamento do outro. A moda é, inclusive, exemplo
de consumo ostensivo quando se fala em desigualdade social, ou então é apontada como
responsável por dívidas em cartões de crédito de milhares de pessoas. Mesmo assim, a
ideia de que a difusão da moda se dá das classes mais altas para as mais baixas, é
unanimemente inaplicável para os dias atuais, em que a necessidade é apenas estar na
moda, expressar novos gostos e reforçar escolhas pessoais. Hoje, teóricos afirmam que a
moda se dá por idade e não por classe: ela surge com os mais jovens e é repassada aos
poucos aos mais velhos. Mas o consumo em si não retira qualquer experiência possível
que os objetos possam proporcionar, como muito se discute. Tampouco a reprodução
em série, assunto já amplamente discutido dentro das teorias da arte, pois para Dewey a
experiência sobrepõe-se à aura genuína da obra: “Até uma experiência tosca, se for
genuína, está mais apta a dar uma pista da natureza intrínseca da experiência estética do
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que um objeto já separado de qualquer outra modalidade de experiência”. (DEWEY,
2010, p. 71).
A moda serve de exemplo perfeito para demonstrar a posição de Dewey, pois
experiência da moda vai além do consumo e a sua apreciação genuína é mais comum do
que se imagina. Além disso, a concepção do funcionamento da moda é algo
relativamente novo, visto que ela só se fortaleceu e realmente chegou ao alcance da
classe trabalhadora no século XIX, junto à expansão das metrópoles. A moda é forte em
sua indústria, mas não há tradição de crítica séria ainda, então ela passa naturalmente a
ser vista como algo menos importante que a arte, o que serve para ilustrar uma
afirmação de Dewey:
As artes que têm hoje mais vitalidade para a pessoa média são coisas
que ela não considera artes: por exemplo, os filmes, o jazz, os
quadrinhos e, com demasiada frequência, as reportagens de jornais
sobre casos amorosos, assassinatos e façanhas. É que, quando aquilo
que conhecemos como arte fica relegado aos museus e galerias, o
impulso incontrolável de buscar experiências prazerosas em si
encontra válvulas de escape que o meio cotidiano proporciona.
(DEWEY, 2010, p. 63).
Como já foi dito, o nosso cotidiano não é visto com tanto valor quanto aquilo
que tem um lugar especial para existir. A moda faz parte desse nosso cotidiano
considerado banal e, além disso, tem atrelado a ela o estigma de fútil e supérflua.
Porém, esse desmerecimento dado à moda faz, justamente, as pessoas terem
experiências enriquecedoras com ela. A moda é um paradoxo: ao passo que dá espaço
para a imaginação e experimentação, tem normas rígidas que podem excluir do convívio
social quem não estiver adequado a elas. Porém se encontram com facilidade pessoas
que tomam a liberdade de dizer em um ato de inocência que são “contra” a moda, e que
supostamente não a seguem. Isso quer dizer que a moda não amedronta as pessoas como
a arte o faz, pois sua recorrência em nosso dia a dia nos faz sentirmo-nos muito mais à
vontade com ela. Certamente a pessoa que se disser contra a moda não encontrará tantos
problemas e discussões quanto se disser que é contra a arte. Como vimos, a arte é
“sagrada”, não se pode contestar o que já está consagrado, muito menos se a crítica vier
de alguém desconhecido, sem nenhuma reputação na área. Já na moda podemos criticá-
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la e escolher livremente o que gostamos ou não. É uma ação até bem comum quando se
abre uma revista de moda, exercício que aproxima as pessoas da experiência estética.
Pode-se dizer que a moda tem menos importância que a arte porque ela é criada
já com um prazo de validade estabelecido, que será descartada em poucos anos. Tem-se
o costume de doar roupas velhas, mostrando que a roupa é algo que só tende a se
desvalorizar. Isso vem mudando de uma década para cá, quando o vintage começou a
ser celebrado e brechós mais procurados, porém, para uma roupa ter valor reconhecido
como vintage, é necessário esperar, no mínimo, de vinte a trinta anos. Mas é improvável
que alguém pense em guardar suas roupas para estas terem valor daqui a vinte anos,
algo plenamente plausível de se fazer com um objeto artístico. Porém, até mesmo a
moda de vanguarda, apresentada nas passarelas como objeto de arte, é passível de
críticas e livres opiniões de gosto pela massa, sem a sua aura artística interferir no
julgamento. A moda não está ainda desvinculada do fato de ter uma função de uso como
a arte está, nem da ideia de que deve ser descartada dali a algum tempo. Assim, a falta
de seriedade na moda, principalmente na área de design, aproxima as pessoas dela e as
deixa à vontade para emitirem suas opiniões, mesmo que mal fundamentadas, mas que
no mínimo, conseguem estabelecer uma experiência com o objeto. Não há afastamento
nem medo e, com o tempo, a experiência estética vai se fortalecendo devido ao presente
contato, não só pelo seu uso, mas pelo apelo cultural que existe para sempre julgarmos a
moda.
Ainda assim, a disciplina da estética na filosofia é vasta para, talvez, analisarmos
a experiência estética na moda pelo viés de um filósofo moderno como Dewey. Kant se
ocupou de analisar a estética, principalmente a faculdade de julgar (destaque da
autora). O juízo de gosto é intrínseco à moda, por diversos motivos já considerados ao
longo do texto, sendo uma ação quase que obrigatória quando pessoas comuns querem
falar sobre o tema. Como já observamos, na arte se pressuporia argumentação ao expor
suas ideias para dizer se gosta de determinada obra, enquanto na moda, por ter um
caráter mais informal, não se espera isso, apenas a livre e irrefreada emissão de opiniões
de gosto, atitude considerada como até mesmo como lazer. Kant (2012) define como
estético todo juízo de gosto que não envolva juízo de conhecimento e, para obter uma
verdadeira experiência estética, devem-se considerar três fatores:
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- Não deve haver interesse no objeto;
- Não se deve tentar conhecer ou compreender o objeto;
- Não se deve relacionar o objeto a um valor moral.
Livrando-nos desses três itens, nosso juízo se torna livre e conseguimos
aproveitar a experiência estética do objeto ou cenário em questão. O autor também diz:
Agradável chama-se para alguém aquilo que o deleita; belo, aquilo
que meramente o apraz; bom, aquilo que é estimado, aprovado, isto
é, onde é posto por ele um valor objetivo [...] Pode-se dizer que, entre
todos esses modos de complacência, única e exclusivamente o do
gosto pelo belo é uma complacência desinteressada e livre; pois
nenhum interesse, quer o dos sentidos, quer o da razão, arranca
aplauso.(KANT, 2012, p. 46)
Parece óbvio que não se chega à experiência estética se tentamos entender uma
peça de uma marca conceitual como Viktor & Rolf, por exemplo. Não aproveitamos o
deslumbre que nos é dado por conta de tentarmos justificar, de qualquer forma que seja,
o porquê dos estilistas terem proposto aquilo, com perguntas como: “Qual o sentido de
uma roupa assim? Quem vai usar algo assim?”, em vez de simplesmente a apreciarmos
pelo que ela é, ignorando o fato de que sim, elas foram criadas apoiadas em algum
conceito, o que pode ajudar a apreciação, mas não a estética. Também não podemos
apreciar uma peça (se quisermos a experiência puramente estética) apenas porque ela
remete a algum valor, seja ela recatada, seja ela ousada, ou qualquer outro tipo. Por fim,
o interesse é a atitude que mais se mostra como comprometedora à experiência estética
segundo o autor, pois até mesmo a complacência no agradável, é um interesse. Nesse
caso, parece que, apesar da teoria de Dewey mostrar que a experiência estética só pode
se dar se o objeto estiver próximo ao sujeito (principalmente no sentido figurado do
termo), a moda não conseguiria proporcionar essa experiência, segundo a teoria de
Kant, visto que, aparentemente, ela é indissociável do interesse, pois ela é criada
especialmente para gerá-lo aos consumidores. Sim, é verdade que, por exemplo, ao
folhearmos uma revista de moda ou até mesmo olharmos um blog que publica fotos de
pessoas anônimas nas ruas de grandes metrópoles (os chamados blogs de streetstyle),
naturalmente, ao gostarmos de determinada peça, nós a desejamos e o nosso interesse
por ela é perceptível. Porém, é possível observarmos que mesmo o comportamento
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interessado ser predominante, ele é variável conforme a relação de cada pessoa para
com a moda.
Os blogs são ferramentas atuais eficientes para analisar comportamento de
pessoas sobre diversos assuntos, sendo a moda um dos temas mais explorados nesse
meio, o que faz com que encontremos variados públicos, com diferentes relações com a
moda, publicando sobre ela nesses sites. Através de uma breve análise desses blogs,
podemos notar as diferentes relações que as pessoas têm com a moda apresentada em
desfiles e vestida por celebridades em eventos de tapete vermelho e a moda também de
desfiles, mas conceitual e vanguardista (esta, raramente escolhida para ser usada em
eventos). Também serão analisados blogs que não tem tanto foco em celebridades, mas
na própria roupa e composição do look, bem como a interação evidenciada da roupa
com a pessoa que a veste. Através deles, veremos a experiência física e estética que a
moda proporciona com a abordagem dos autores. Dentre os estilos de blogs analisados:
- Os que analisam o estilo de celebridades e mostram referências para serem
copiadas pelos leitores;
- Os que publicam fotos para mostrar o estilo de pessoas pelas ruas ou dos
próprios blogueiros, e que também têm como foco os detalhamentos das roupas,
como texturas dos tecidos, bordados ou composição de cores.
Claro que os blogs não são rigorosamente separados de cada assunto dessa
forma, sendo que a maioria procura falar sobre todos os itens listados, mas com um
evidente foco maior em um deles, bem como com abordagens diferentes, enquanto
outros preferem manter-se em apenas um desses segmentos mesmo. Como exemplo do
primeiro item, utilizo os blogs Garotas Estúpidas e Fashionismo. Esses blogs, apesar de
comentarem marcas de luxo, como Gucci, Prada ou Chanel, bem como as celebridades
que as usam, traduzem os modelos para a moda de rua e abrangem a maior parte do
público leitor de blogs de moda, que têm, muitas vezes, restrições a peças ou
combinações que fujam muito do comum, ou esperam a moda se difundir bastante para
passarem a usá-la. De qualquer forma, conseguimos perceber a experiência que os
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usuários extraem dessas relações e que se enquadra na experiência estética. Em Garotas
Estúpidas, Camila Coutinho, escritora do site, comenta em uma publicação: “Os
desfiles de alta-costura sempre parecem muito distantes da gente — preços de muitos
dígitos, extrema exclusividade dos modelos, criação às vezes criativa demais…”
(COUTINHO, 2014). Aqui, a distância entre a moda mais “artística” e a massa em geral
é assumida pela autora, ainda que essa moda de luxo seja muito mais difundida que a
arte que permanece em galerias. Mas é interessante notar a última frase “criação às
vezes criativa demais...”, que mostra que a fuga dos padrões convencionais já é menos
aceita. Thereza Chammas, autora de Fashionismo, tem como especialidade julgar peças
de desfiles e roupas usadas por celebridades, principalmente em tapete vermelho. O site
é repleto de enquetes para as leitoras escolherem os melhores e piores looks e as caixas
de comentários transbordam opiniões e juízos de gosto. O tapete vermelho pode ser
comparado a uma galeria de arte se pensar que é um ambiente voltado para exibir
aquela moda específica e requer certa ousadia, mas a sua ampla divulgação consegue
ainda atingir milhares de pessoas, mesmo as que não frequentam sites de moda
especializados.
Em uma publicação, para falar sobre um vestido usado pela atriz Emma Watson
(figura 2), Thereza Chammas comenta a opinião das leitoras e explica a sua:
Se no Golden Globe ela inventou moda naquele look vermelho
polêmico, no evento de hoje em Londres, segundo minhas leitoras
noFacebook, umas disseram que ela saiu embrulhada pra presente,
outras acharam que ela estilizou o lençol e algumas notaram que ela
pegou o fraldão e inverteu a ordem das coisas. Certamente, é um look
que quase ninguém segura, mas – me julguem – eu curti. Curti porque
eu admiro certas formas de ousadia. Acho que Emma segura com
louvor e a gente sabe que é a cara dela buscar um vestido curtinho e
diferente, e dessa vez ela foi fundo e pegou um ValliCouturerecém
desfilado.(CHAMMAS, 2014)
Essa citação mostra a liberdade que se tem para julgar a moda sem medo de
represálias. Raramente encontra-se alguém nos comentários desses blogs exigindo
embasamento e conhecimento aprofundado sobre a moda para validarem essas opiniões.
O que a grande maioria das pessoas quer são as opiniões livres que não precisem de
fundamento, de modo que elas possam se sentir à vontade para fazerem o mesmo. Em
outro momento, a autora destaca um sapato da marca Céline (figura 3), o qual tem os
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dedos dos pés representados sobre ele (algo que o estilista brasileiro Ronaldo Fraga
também já fez no São Paulo Fashion Week). Pode-se fazer referência desse sapato à
moda surrealista das décadas de 30 e 40 do século XX, criada pela estilista Elsa
Schiaparelli e Salvador Dali. Esse período de intensa experimentação nas artes fez
muitos artistas levarem-na para as roupas também, de modo que a arte pudesse fazer
parte de um todo, e não estivesse apenas nos objetos convencionais. Eis a opinião de
Chammas sobre o sapato de Céline:
Agora pra finalizar, um toque polêmico (senão não seria moda, seria,
sei lá), Céline apresentou esse projeto de scarpinnudeacima. Não
satisfeita em produzir sapatos esquisitos e complexos, ainda exibiu
sapatos 100%ursinho de pelúcia! Tão bizarro, que resolvi poupar
vocês dessa, mas em breve no pé da Anna dello Russo mais próxima.
(CHAMMAS, 2014)
Figura 2 – Emma Watson em Elle Style
Awards
Figura 3 – “FeetShoes” de Céline
A
Fonte: Fashion Gone Rogue3
Doré4
3
Fonte: Garance
Disponível em http://www.fashiongonerogue.com/emma-watson-giambattista-valli-couture-elle-styleawards. Acesso em 12 de junho de 2014.
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Aqui vemos que um objeto de moda que se aproxima da arte é totalmente
rejeitado. É provável que se esse mesmo objeto estivesse em um museu de arte, haveria
uma tentativa maior de aceita-lo, antes de chama-lo de “bizarro” abertamente, como
existe um respeito maior às peças de roupas do movimento surrealista de Elsa
Schiaparelli (figura 4).
Figura 4 – “Vestido Esqueleto” e “Chapéu Sapato” (1938). Criação de Elsa Schiaparelli em
colaboração com Salvador Dali.
Fonte: Victoria and Albert Museum e Metropolitan Museum of Art5
Mas a liberdade em julgar a moda, seja erroneamente ou não, é um exercício que
estimula a experiência estética. Basta ser moda para poder ser julgada, mas se for arte,
não. O segundo tipo de blog de moda indicado, o qual publica fotos de looks dos autores
ou de pessoas na rua, ou seja streetstyle, aceitam mais ousadia na moda. Eles mostram
4
Disponível em http://www.garancedore.fr/en/2013/09/06/celine-pumps. Acesso em 12 de junho de 2014.
5
Disponível em http://collections.vam.ac.uk/item/O65687/the-skeleton-dress-the-circus-evening-dresselsa-schiaparelli e http://metmuseum.org/collection/the-collection-online/search/83437. Acesso em 12 de
junho de 2014.
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mais autenticidade e originalidade ao se vestir, muitas vezes fogem do convencional e
são referências para profissionais cool hunters (ou caçadores de tendências). O
blogueiro Matthew Zorpas, autor do blog The Gentleman Blogger, publica sempre
imagens de seus looks que também são avaliados na caixa de comentários, mas de
maneira diferente dos dois primeiros blogs já citados. Existe uma preocupação maior
nos tecidos, padronagens e silhuetas apresentadas (figura 5), onde se vê que, apesar dos
primeiros blogs também avaliarem as roupas, elas também tinham sempre que estar
vestidas por uma celebridade. Aqui, vê-se que a estrela principal é o traje, e não quem o
veste. Esse tipo de blog também não atrai tanto um público interessado em copiar, mas
muito mais em apreciar. Zorpas comenta:
Frequentemente me perguntam: 'O que te inspira? Onde você encontra
inspiração para se vestir? Quem é seu ícone de estilo?'. Uma resposta
óbvia a essas questões é que eu encontro inspiração em toda variedade
de lugares e coisas. Inspiração não é algo que você pega [em algum
lugar], é algo que vem de dentro... (ZORPAS, 2014) 6
Figura 5 – Detalhamentos de Matthew Zorpas
Fonte: The Gentleman Blogger7
Também, em um comentário de um leitor nesta mesma publicação: “Traje
verdadeiramente bonito. O tecido é maravilhoso. Eu, particularmente, gosto da forma
das lapelas com o recorte mais alto, muito incomum em um colete. Você está bastante
6
Tradução da autora.
7
Disponível em http://www.thegentlemanblogger.com/2014/04/cok-guzel/#.U-zAu_ldV65 e
http://www.thegentlemanblogger.com/2014/05/shades-of-blue/#.U-zAy_ldV64. Acesso em 12 de junho
de 2014.
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arrojado!”8. Ambas as citações nos mostram a maneira como tanto autor quanto leitor
lidam com a moda. É dada atenção aos detalhamentos, posições de recortes e texturas, e
é aí que se deleita e se fortalece a experiência estética com a moda. Podemos ter
também como exemplo o blog Garance Doré, que tem a autora de mesmo nome e
também faz fotografias enaltecendo as peças de roupa. Doré dificilmente tira fotos dela
mesma, preferindo explorar estilos diversos em diferentes pessoas que ela encontra. Em
uma publicação, conta: “Eu amo os cinzas e os detalhes da roupa de Zanna... O farrapo
delicado em sua camisa na parte de baixo, a pureza do colar, as proporções do suéter”9
(figura 6).
(DORÉ, 2011). Como o Matthew Zorpa, Doré também demonstra a
contemplação e deleite que leva a observação de peças de roupa, atitude que cresce aos
poucos e provoca a experiência estética.
Dentre os blogs apresentados, todos mostram exemplos de como participamos da
moda em nosso dia a dia, mesmo que com olhares diferentes sobre ela. De qualquer
forma, a participação dela em nossa vida fortalece nossos laços com ela e cada encontro
com novidades também passa a ser parte da experiência estética, considerando que a
experiência estética se dá na experiência real de vida, como apontou Dewey.
Figura 6 – “Beautiful Layers of Grey”
Fonte: Garance
8
Doré10
Tradução da autora.
9
Tradução da autora.
Disponível em http://www.garancedore.fr/en/2011/03/18/beautiful-layers-of-grey. Acesso em 12 de
junho de 2014.
10
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Os juízos de gosto constituem uma parte de nossas vidas e o fato de serem livres,
sem tentarmos justifica-los, os fazem estéticos: “O juízo de gosto não é, pois, nenhum
juízo de conhecimento; por conseguinte, não é lógico e sim estético [...].” (KANT,
2012, p. 38). Desse modo, a permissão que existe na moda para ser julgada, seu estigma
de “fútil” e seu caráter de objeto prático e não artístico, faz com que as pessoas
consigam se aproximar da experiência estética através desses julgamentos que não
precisam ser racionalizados. Um exemplo claro disso foi o sapato imitação de pé de
Céline que, como objeto artístico poderia ser aceito, mas como moda ele pode ser
criticado com mais confiança. Apesar disso, passando para um próximo estágio, o
sapato Céline poderia também ser apreciado se não tentassem compreendê-lo, mas
apenas contemplá-lo. Pensar “sapato que imita um pé descalço” pode causar
estranhamento de fato, mas se paramos de tentar atribuir-lhe significados e funções, que
Kant aponta como uma atitude que se deve tomar para ter uma experiência estética,
podemos também apreciá-lo. Nota-se que esse tipo de atitude é tomada pela segunda
dupla de blogs apresentada, The Gentleman Blogger e Garance Doré, que aparentam
perceber melhor as nuances existentes em apreciar a moda. Ambos mostram que cada
detalhe pode ser contemplado e que podemos apreciá-lo pelo que ele é e não apenas
para demonstrar glamour, como acontece nos tapetes vermelhos. Isso tira as intenções e
interesses iniciais e a moda não é mais um objeto apenas para vestir e causar
determinada impressão, mas para ser vivida e “experienciada” de maneira única e
pessoal.
Se formos considerar a massa popular, sabemos que se desligar dos interesses e
intenções de racionalizar e dar sentido às peças de roupas é um processo complexo. Mas
isso é um estágio a ser alcançado com o tempo. O fato de muitas pessoas não
conseguirem deixar de ter interesses específicos na moda não faz com que elas não
consigam ter uma experiência estética com ela, ainda que essa experiência possa se
desenvolver posteriormente e ser mais bem aproveitada com o tempo. Percebemos isso
com as teorias estéticas de Dewey, que, existindo a experiência real com o objeto, é
caminho aberto para experiência estética. Também, como apontou o autor, a moda não
ser considerada arte é justamente a porta de entrada para a experiência estética, pois as
pessoas precisam dessas experiências e vão se apoiar no que elas têm. Conforme se fica
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consciente disso, a experiência se intensifica e deixa-se de lado, às vezes, os interesses
sobre a moda. Os interesses na moda são latentes, mas podem evoluir e tornarem-se
deleite e apreciação genuínos, fazendo parte da experiência estética. Percebemos, assim,
que ao contrário do senso comum, a moda não está relacionada apenas ao desejo
interessado de aparentar ou representar algo ao usufruí-la, mas isso se dá através de um
exercício de apreciação ao longo do tempo, mas que pode surgir até mesmo de maneira
inconsciente. Um mero consumidor de moda pode começar a vivenciar as experiências
estéticas do vestir devido ao seu contato diário e intenso com ela. As propagandas
podem, por um lado, atrapalhar esse desenvolvimento, pois estimulam o interesse, mas
ao mesmo tempo também colocam a moda mais perto de nós, coisa que não fazem tanto
pela arte. Dessa forma, a moda e outros itens de consumo de massa se mostram como
elementos
importantes
para
a
fruição
estética
requerida
pelas
pessoas.
Independentemente da validação do objeto, o que importa aqui é o que as pessoas fazem
dele, mesmo se ao refletirmos sobre ele, o classifiquemos como vulgar ou tosco. Mas
Dewey coloca que, antes um vulgar ou tosco do que um sofisticado, mas afastado das
pessoas. Os gostos são influenciados pela mídia, mas se refinam com o tempo e a
recente explosão de blogs de moda na internet demonstram as diversas etapas que se
tem de experiência com a moda, onde, primeiramente, pensamos nela como um fim,
mas com a experiência aprendemos que ela pode nos proporcionar um caminho muito
mais prazeroso nos processos, ao explorarmos tecidos, formas, texturas e aproveitarmos
o que ela é e não só o que ela pode fazer por nós.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CALDAS, Dario. Observatório de sinais: teoria e prática das pesquisas de tendências.
Rio de Janeiro: Senac Rio, 2004.
DEWEY, John. Arte como experiência. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
KANT, Imamanuel. Crítica da faculdade do juízo. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2012.
LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades
modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
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SVENSEN, Lars. Moda: uma filosofia. Rio de Janeiro, 2010.
REFERÊNCIAS ELETRÔNICAS
CHAMMAS, Thereza. Golden Globe 2014: Emma Watson.12 de janeiro de 2014.
Disponível
em:
http://www.fashionismo.com.br/?s=Golden+Globe+2014%3A+Emma+Watson. Acesso
em 12 de junho de 2014.
CHAMMAS, Thereza. Detalhes da Paris Fashion Week. 30 de setembro de 2012.
Disponível em: http://www.fashionismo.com.br/2012/09/detalhes-da-paris-fashionweek. Acesso em 12 de junho de 2014.
COUTINHO, Camila. Do Couture para o casamento: looks para convidadas,
madrinhas
e
noivas!.31
de
janeiro
de
2014.
Disponível
em:
http://www.garotasestupidas.com/do-couture-para-o-casamento-looks-para-convidadasmadrinhas-e-noivas. Acesso em 12 de junho de 2014
DORÉ, Garance. Beautiful layers of grey. 18 de março de 2011. Disponível em:
http://www.garancedore.fr/en/2011/03/18/beautiful-layers-of-grey. Acesso em 12 de
junho de 2014
ZORPAS, Matthew. ÇokGüzel. 21 de abril de 2014. Disponível em:
http://www.thegentlemanblogger.com/2014/04/cok-guzel/#.U-zABfldV64. Acesso em
12 de junho de 2014.
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