Fotorreceptor e sua influência no ciclo circadiano

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Fotorreceptor e sua influência no ciclo circadiano
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Fotorreceptor e sua influência no ciclo circadiano
dezembro/2014
Fotorreceptor e sua influência no ciclo circadiano
Natália Weidlich – [email protected]
Pós graduação em iluminação e design de interiores
Instituto de Pós-Graduação - IPOG
Porto Alegre, RS, 23 de maio de 2014
Resumo
O presente estudo tem o objetivo de provocar reflexões sobre a influência que a luz exerce
na regulação do ciclo circadiano humano tendo como base de pesquisa o cruzamento de
informações descritas em artigos acadêmicos pesquisados durante os meses de março, abril
e maio de 2014. Com o desenvolvimento tecnológico as pessoas estão mais expostas a
diferentes fontes de iluminação que podem estar influenciando o cumprimento de suas
funções fisiológicas. Estudos apontam que a alteração do ciclo circadiano estaria
provocando alterações comportamentais que podem chegar no desenvolvimento de doenças
como obesidade, diabetes, câncer. Tem-se percebido o aumento de sintomas como estresse,
ansiedade, insônia e depressão. Tais fatos são percebidos como características de
comportamento de setores da sociedade cosmopolita e podem estar sendo desencadeados
por excesso de exposição à fonte de luz branca fria. Foram analisados diferentes artigos
disponíveis online base de dados Scielo, Bireme, NCBI, JCI (The Journal of Clinical
Investigation). Foram pesquisados artigos das áreas de neurosciência, psicologia,
cronobiologia, fotobiologia, arquitetura e iluminação. Os resultados encontrados indicam
que a incidência da luz altera o ciclo circadiano de humanos, porém ainda não se pode
afirmar cientificamente quais os tipos e quantidades de luz são efetivas para provocar o
descompasso do ciclo. Concluiu-se que a exposição constante à fonte de luz artificial
branca fria ao longo do tempo, e principalmente à noite, tem consequência sobre o ciclo
circadiano e pode provocar o desequilíbrio do relógio biológico acarretando diversos
malefícios à saúde.
Palavras-chave: Fotorreceptor. Ciclo Circadiano. Iluminação. Relógio Biológico.
1. Introdução
O presente estudo se insere na área de iluminação e sua influência sobre o comportamento
humano. Com o aumento do uso de computadores, tablets, smartphones e pela extensão da
jornada de 8 horas de trabalho os habitantes de centros urbanos têm se mostrado mais
ansiosos, impacientes e pessimistas. Em busca de realização pessoal, dinheiro e notoriedade,
a sociedade cosmopolita se encontra em ritmo acelerado de trabalho, gasto e ostentação.
Cresce o número de reportagens nos principais veículos de mídia sobre os efeitos do estilo
de vida contemporâneo na saúde da população. Por influências externas, o ritmo social se
impõe ao ritmo biológico. Pela manhã, acordamos com o alarme do despertador. Ao
chegarmos ao trabalho nos conectamos à urgência da rotina e chegando em casa nos
conectamos aos compromissos pessoais. Como resultado nosso sistema biológico se
confunde, perde o equilíbrio e demoramos mais para dormir. No dia seguinte estamos
irritados e impacientes. Na semana seguinte, insônia. Após um ano, talvez a depressão.
Iniciativas governamentais incentivam o uso de lâmpadas LED e fluorescentes
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indiscriminadamente. Tais iniciativas são justificadas pela busca de maior economia
energética, mas estariam levando em conta os possíveis impactos sobre a saúde da
população? Faz-se necessário incentivar reflexões sobre o uso adequado das novas
tecnologias disponíveis em iluminação e sua possível consequência sobre o funcionamento
do corpo humano. Até que ponto a rotina cosmopolita nos afeta? Por que devemos buscar o
equilíbrio com nosso relógio biológico? Qual a influência da luz neste contexto?
Na espécie humana, o ciclo claro/escuro é reconhecidamente um dos mais
importantes sinais ambientais capazes de “acertar nossos relógios”, mas há
também um papel importante desempenhado por estímulos sociais como horários
de trabalho, lazer, refeições, enfim, interações sociais. O fato de distintos ciclos
ambientais exercerem influência sobre nossos sistemas de temporização promove
uma relativa plasticidade que nos permite, por exemplo, alterarmos nossa rotina ou
adaptarmo-nos a mudanças de fuso horário. No entanto, há limites para essa
plasticidade, que impedem, por exemplo, a adaptação completa de nossos ritmos
biológicos ao trabalho noturno. Menna-Barreto (2007:135)
Há uma população de células ganglionares dentro do olho que são diretamente
sensíveis à luz e atuam como detectores de brilho; estas células regulam tanto o
ritmo circadiano quanto a síntese de melatonina. Entender os trajetos desses
“fotorreceptores circadianos”, e também as características da luminosidade
ambiente usada para seu condicionamento, tem sido e continuarão sendo
fortemente dependentes da maneira apropriada de uso e medição dos estímulos
luminosos. (Foster, 2007:3).
2. Visão e ciclo circadiano
Conforme MOURA (2008), “para que haja ritmicidade circadiana em um ser vivo é
necessário que alguma estrutura que opere como um marcapasso”. O marca passo dos
humanos consiste em aglomerados de neurônios (núcleo supraquiasmático) no hipotálamo
que se auto-sustentam. O relógio permite que seres vivos acompanhem as variações de
luminosidade ao longo do dia. Este sistema conta com três sensores (sabidos até o
momento) que percebem a variação temporal e neural; eles informam ao organismo o estado
de iluminação ambiental. (MOURA, 2008) O relógio também presente no corpo humano é
responsável pelo controle do ritmo do ciclo circadiano.
Relógios circadianos aumentam a habilidade inata de organismos sobreviverem às
constantes modificações ambientais possibilitando-os antecipar eficientemente
eventos periódicos tais como disponibilidade de alimento, luz, parceiros entre
outros. Um indivíduo que é simplesmente dirigido por mudanças externas é
desvantajoso em relação a um que é regulado por um relógio endógeno flexível e
antecipatório. Os organismos dotados dessa propriedade de antecipação a eventos
recorrentes periódicos se mostraram viáveis e sobreviveram, conservando-a até
hoje nas diversas formas que os relógios biológicos têm assumido nas diferentes
espécies. (MOURA, 2008:5)
A maneira como percebemos o espaço acontece pela sensibilidade que o nosso olho tem à
luz. Ao visualizar uma cena o olho capta inúmeras informações que são transmitidas à
córnea, íris e pupila. Ao chegar à retina milhares de células fotorreceptoras transformam as
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ondas luminosas em impulsos eletroquímicos que chegam ao hipotálamo através do nervo
óptico.
A retina possui dois tipos de células: bastonetes e cones. Nos cones acontece a formação de
compostos químicos chamados de pigmentos. Os pigmentos, compostos por retinal e
fotopsinas, são sensíveis às cores azul, verde e vermelho. Por causa deles podemos
visualizar praticamente todas as gradações de cor existentes na natureza. Os bastonetes
permitem a perceção da forma, dimensões e brilho. Enquanto os bastonetes cuidam da visão
monocromática em condições de pouca luminosidade, os cones são os responsáveis pela
visão de cores e detalhes. (Bianco, 2000:1)
A rodopsina é uma proteína presente nos bastonetes e também é sensível à luz azul. (Abel;
2014) Quando a luz entra em contato com os cones e bastonetes, ocorre uma série de
reações químicas complexas. A rodopsina é formada por estas reações e exerce a função de
criar impulsos elétricos no nervo ótico.
A retina dos olhos dos vertebrados, inclusive dos olhos humanos, é o detector de
luz mais poderoso que conheçemos”, explica Massimo Olivucci, Ph.D., um
pesquisador e professor de química e diretor do LCPP no Centro de Ciências
Fotoquímicas em BGSU. “No olho humano, a luz vinda através da lente é
projetada na retina onde forma uma imagem em um mosaico de células
fotorreceptoras que transmite informação do ambiente em geral para o cortex
visual do cérebro. Em condições de iluminação extremamente pobres, tais como as
de uma noite estrelada ou profundezas oceânicas, a retina é capaz de perceber
intensidades correspondentes a apenas alguns poucos fótons, que são unidades
indivisíveis de luz. Tal sensibilidade extrema é devida à células fotorreceptoras
especializadas que contém um pigmento sensível à luz chamado rodopsina.
Massimo Olivucci. (Abel; 2014)
No hipotálamo (Fig.1), região localizada na parte central inferior do cérebro humano, fica o
núcleo supraquiasmático (Fig.1) onde se encontram inúmeros neurônios responsáveis pela
regulação do relógio biológico. Este sistema controla a liberação de diferentes tipos de
hormônios que atuam no corpo humano em diferentes fases do dia, completando um ciclo
de 24 horas com possíveis oscilações. (Bianco, 2000:1)
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Pineal gland
Figura 1 – Imagem do cérebro humano com localização dos
Fonte: Adaptado de http://healthysleep.med.harvard.edu/image/200
A atuação do núcleo supraquiasmático oscila em torno de 24 horas, ele pode atrasar ou
adiantar o seu processo a partir da quantidade de sol que o corpo receber durante o dia (a
menos que influenciado por extímulo sensorial). A luz é com toda certeza a mais importante
de todos os estímulos. Tal fato é facilmente exemplicado pelo ‘jet lag” que acontece
quando viajamos para lugares com um diferente fuso horário. (Berson, 2003:314)
Conforme Berson, por 150 anos os cones e bastonetes foram os únicos considerados como
fotorreceptores presentes no corpo humano. Estudos recentes revelam que existe um
pequeno número de células fotossensíveis que não estão ligadas à visão e que captam e
regulam a claridade. A descoberta de um novo fotorreceptor revolucionou a pesquisa na
área. O novo fotopigmento provavelmente é a melanopsina, uma proteína com
características semelhantes às da rodopsina. Esta nova célula apresenta menos resolução
espaço temporal do que os cones e bastonetes. Ela contribui para o reflexo pupilar e outras
respostas fisiológicas e comportamentais diretamente relacionadas à iluminação ambiente.
Experimentos feitos com ratos (Fig.2) comprovaram e manutenção do ciclo circadiano nas
cobaias que apresentavam severa degeneração dos fotorreceptores clássicos (cones e
bastonetes). Sendo assim comprovou-se que existem outras células sensíveis à luz. (Berson,
2003:314)
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Figura 2 – Propriedades funcionais e estruturais de células ganglionares da retina intrinsecamente
fotossensíveis (ipRGCs) em relação àquelas de fotorreceptores cone e bastonete convencionais.
Fonte: Berson, (2003: 314).
Pesquisas na última década têm mostrado que os bastonetes e os cones não são os
únicos fotorreceptores do olho. Também existe uma população de células
ganglionares diretamente sensíveis à luz que atuam como detectores de brilho e
regulam uma ampla variedade de diferentes tarefas fotossensoriais, incluindo a
regulação dos relógios circadianos de 24 horas, síntese do hormônio melatonina,
tamanho e comportamento da pupila. Estes receptores podem até ajudar a modular
nosso humor e senso de bem-estar.(Foster; 2007:3).
Por muito tempo se presumiu que a retina humana continha apenas células
fotorreceptoras especializadas em visão diurna e de pouca luminosidade, de
acordo com Olivucci. Entretanto, estudos recentes revelaram a existência de um
pequeno número de células nervosas intrinsecamente fotossensíveis que regulam
respostas à estímulos não-visuais. Estas células contém uma proteína de
propriedades parecidas com as da rodopsina chamada melanopsina, que tem um
papel na regulação dos reflexos visuais inconscientes e na sincronização das
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respostas do corpo ao ciclo clao/escuro, conhecidos como ritmos circadianos ou
“relógio biológico”, por um processo conhecido como fotocondicionamento
(photoentrainment).
Comparado com a visão de padrões, o mecanismo de fotocondicionamento é
insensível e responde pouco a estímulos breves, mas é capaz de captar energia
luminosa em períodos muito mais longos.(Abel; 2014)
As pesquisas mais recentes descrevem uma relação direta entre luz e ciclo circadiano.
Identificou-se a influência da luz sobre o hipotálamo e a produção da melatonina. Sabe-se
sobre a função das rodopsinas na absorção da luz azul. Sabe-se que existe um outro
fotorreceptor presente na retina que não está ligado diretamente à visão, o qual pode ser a
melanopsina. A melanopsina quando ativada pela luz através das células ganglionares envia
um sinal através do nervo óptico direto ao núcleo supraquiasmático que controla o ritmo
hormonal circadiano. (Isoldi et al, 2005:1217)
A oscilação de hormônios sob a regulação da luz visível tem um efeito profundo
na maior parte das funções fisiológicas do corpo. Quando este processo é
perturbado através de mudanças na iluminação ambiental, podem ocorrer alguns
dos efeitos mais danosos, emocionais e fisiológicos, associados com depressão
sazonal, jet lag, e trabalho por turnos ininterruptos. Além disso, ambas a luz
visível e a ausência de luz à noite podem afetar a resposta imunológica humana de
forma poderosa. François Levi descobriu que a resposta imunológica flutua em um
padrão rítmico durante o dia e à noite. Células imunológicas têm receptores para
neurohormônios e transmissores, e esta atividade imunocelular rítmica parece
estar sob um controle neuroendócrino ainda desconhecido. (Joan; 2004:5)
Muito embora a quantidade de melanopsina seja inferior à quantidade de rodopsina, a
captura de uma quantidade mínima de fótons sugere que a melanopsina possa ser muito
mais sensível à luz do que a rodopsina. O entendimento desta sensibilidade extrema foi
investigada por Abel (2014). O reconhecimento deste comportamento serviu de incentivo
para a evolução dos estudos de como a luz influencia a depressão sazonal que afeta em
maior parte os países mais frios onde o dia tem poucas horas de duração e as noites são
longas.
3. Ciclo circadiano nas fases da vida
Está comprovado que o organismo humano passa cotidianamente por processos de ajuste de
seus ritmos, através da ação de ciclos ambientais que arrastam nossos sistemas de
temporização. Estes processos de ajustes são estudados pela ontogenia. A maioria das
mudanças ontogenéticas podem ser exemplificadas pelas etapas do ciclo de vigília/sono do
ser humano. (Bueno, 2014:31).
Antes do nascimento, durante as últimas semanas de gestação, os bebês tem seu ritmo
biológico sincronizado com o da mãe. Observa-se que o feto apresenta momentos
de maior atividade durante o dia e de menor atividade à noite. (Luiz Menna-Barreto,
2007:136).
Ao nascer o sistema temporal do bebê sofre uma série de ajustes. O bebê deverá
aprender a diferenciar o dia e a noite além de perceber aos poucos todas as
intervenções dos hábitos da família que farão parte da sua rotina. Acontece uma
reorganização temporal entre mãe e bebê onde o agente determinante é o sono. Nesta fase
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não existe ainda a periodicidade circadiana na criança. O recém nascido dorme e acorda
diversas vezes por dia e pode levar até 2 meses para ajustar seu ritmo ao ciclo vigília/sono.
(Luiz Menna-Barreto, 2007:137).
Quando a criança passa a frenquentar a escola acontece um processo de sincronização de
ciclos da criança com os ritmos sociais. As diferenças temporais aos poucos vão sendo
atenuadas; os horários das atividades tornam os hábitos de sono muito semelhantes entre
crianças de uma mesma faixa etária. (Luiz Menna-Barreto, 2007:138).
Por causa da oscilação nas concentrações dos hormônios os adolescentes passam por crises
temporais e as fases do sono tendem a se modificar. Torna-se comum os momentos de
sonolência durante o dia. Na adolescência os principais fatores que influenciam o sono são
os horários impostos pela rotina escolar. Devemos considerar a atuação de ritmos sociais
representados pelas rotinas familiares: atividades domésticas ou na rua, horários de lazer
que envolvem uso de televisão, computadores, vídeo games ou ipad. Todos estes atrativos
fazem com que os jovens permaneçam despertos por mais tempo e o horário de dormir é
“empurrado” para mais tarde. No dia seguinte despertam cedo para ir à escola e assim o
ciclo vigília/sono passa por atrasos e adiantamentos resultando em poucos períodos de sono
durante a semana e sono prolongado nos fins de semana. (Bueno, 2014:64).
A fase adulta da vida é caracterizada pela desorganização temporal. Ela está relacionada aos
adultos que são “expostos” a horários irregulares de trabalho: turnos alternados, viagens
onde aconteçam mudanças de fuso horário. Tal fato caracteriza um estado de
dessincronização temporal podendo resultar em um “efeito de atenuação ou mesmo de
abolição da ritmicidade biológica que caracteriza o indivíduo saudável”. (Luiz MennaBarreto, 2007:142).
Com o envelhecimento ocorrem modificações anatômicas e funcionais do sistema
circadiano, que promovem alterações dos ritmos biológicos. O ciclo vigília/sono encontrase frangmentado
e, aliado à variações da temperatura corporal acontece uma
desorganização temporal interna. Nesta fase costuma haver uma redução das atividades
sociais que caracteriza a ausência de rotinas diárias e a consequente desorganização
temporal do sono. (Luiz Menna-Barreto, 2007:145).
4. Espectro da luz sobre a retina
Diferentes comprimento de onde têm distintos efeitos no corpo humano. Há evidências de
que as luzes brancas ou azuis suprimem mais a produção de melatonina do que a vermelha
ou amarela. (Martau; 209:63). Oftalmologistas relacionam a luz azul com o
desenvolvimento de patologias na retina, como a degeneração macular e o melanoma de
úvea (um tipo de câncer que acomete o fundo do olho). Pesquisas comprovam que o
melanoma de úvea tem seu desenvolvimento acelerado quando exposto à luza azul. Mas
ainda faltam estudos clínicos que comprovem o dano à retina. (Nakayama; 2014 :6)
Conforme experienciado por Mark S. et al (2012) (Fig. 3) a visão humana e o ciclo
circadiano são ambos sensíveis a pequenso comprimentos de ondas (400-500nm). Porém,
grandes comprimentos de onda (.600nm) são perceptíveis à visão mas são um estímulo
praticamente irrisório para o ciclo circadiano.
A partir de um modelo criado por Mark S. et al (2012), é possível acompanhar o andamento
do ciclo circadiano através da conversão da luz em sinais elétricos (phototransduction). Este
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método foi utilizado para definir a irradiação necessária para suprimir uma certa quantidade
de melatonina quando a córnea for exposta a determinada quantidade de luz (Fig.3).
Foi então analisado qual efeito a iluminação pública noturna exerce sobre as pessoas.
Participaram do estudo jovens de 20 anos de idade que ficaram expostos à diferentes fontes
de luz, comumente usadas em postes públicos, pelo tempo de uma hora (Fig. 4). Concluiuse que a supressão no nível de melatonina aconteceria em 15% para pessoas expostas a
iluminação de lâmpadas vapor de sódio de alta pressão; 14% para lâmpadas de vapor
metálico; 21% para “coll-white” LED e 30% para “coll-white” LED de 6900k (Fig. 5).
Os dados apresentados por Mark S. et al (2012) podem servir de base para quantificar a
distribuição da irradiação espectral sobre a córnea e assim termos um exemplo efetivo sobre
qual é a quantidade de luz necessária para estimular a retina a ponto de provocar alterações
no ciclo circadiano. (Mark; 2012:8)
Figura 3 – Spectral irradiance distributions for a photopic illuminance of 95lx
Fonte: Mark, 2012:5
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Figura 4 – Spectral irradiance distributions for a photopic illuminance of 95lx
Fonte: Mark, 2012:6
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Figura 5 – Iluminância incidente na córnea com relação à supressão de melatonina.
Fonte: Fonte: Mark, 2012:7
5. Discussão
A luz é um agente biológico fundamental no nosso planeta. A partir dela os organismos
vivos, sejam eles simples ou complexos, organizaram seu funcionamento. A luz fez parte da
evolução de todas as espécies e sem ela não sobreviveríamos. A importância da iluminação
para o corpo humano é estudada a partir de pesquisa sobre a visão. Este sentido diretamente
ligado à presença de maior ou menos intensidade de luz estabelece nossos parâmetros para
identificar aquilo que nos cerca.
Contamos o olho de toda sua estrutura física para perceber cada uma das partes que
compõem o espaço construído sendo então possível contemplar as diversas formas
existentes. A sensação visual ocasionada pelos estímulos luminosos gera impulsos que são
transmitidos até o cérebro onde são interpretadas as diferentes intensidades de luz. A luz, ao
incidir sobre determinado objeto produz reflexos e sombras que são transmitidos e
interpretados. A partir do acúmulo de experiências perceptivas somos capazes de distinguir
as cores, formas e posição dos objetos que nos induz a produção de padrões organizados.
Nossas experiências sensoriais são armazenadas e consultadas todo o momento e assim
somos capazes de interpretar e entender o mundo a nossa volta.
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A luz é, portanto, capaz de nos fazer sentir o ambiente e provocar sensações diversas.
Quando determinado ambiente é percebido e relacionado a experiências positivas criamos
uma relação afetiva com o lugar que nos leva a permanecer em determinado ambiente por
mais tempo. Avaliamos cores, formas, contrastes, ângulos e níveis de iluminamento.
Novas tecnologias surgem tão rapidamente que pouco tempo oferecemos ao nosso corpo
para se acostumar a elas. Vários estudos têm sido realizados em busca de razões para o
crescimento de doenças cujos sintomas podem estar ligados ao desequilíbrio do ciclo
circadiano. Qualquer mudança hormonal pode levar ao descompasso do ritmo circadiano,
em consequência o ciclo vigília/sono se modifica e alterações de pressão do sangue,
metabolismo, reprodução e resposta imunológicas posem acontecer.
O estudo da relação entre qualidade de luz e condições de saúde é urgente para avaliarmos a
grande parcela da população que desempenha algum tipo de trabalho noturno e por isso
estão sujeitas a longos períodos de exposição à luz artificial (em ambientes sem janelas).
(Martau, 2009) A privação do sono em trabalhadores noturnos leva a fadiga mental e física,
apatia, negligência e endurecimento de atitudes individuais. Causa insônia e sonolência
excessiva durante o dia. Os trabalhadores de turno apresentam maior risco a enfermidades
cardiovasculares, gastrointestinais. (Till; 1997:5) Os estudos realizados até o momento
sugerem que esta parcela da população pode estar potencialmente suscetível a doenças
provocadas por alterações do ritmo biológico, possivelmente desencadeado por exposição
ao excesso de luz ou à má qualidade da fonte luminosa.
Atualmente o grande desafio no desenvolvimento de projetos é atender não só as exigências
estéticas; cada vez mais se faz necessário responder às exigências psicológicas e fisiológicas
do usuário. Estas necessidades não são contempladas pelas normas técnicas e sua realização
depende da sensibilidade do profissional envolvido no projeto. (Martau, 2009). Os clientes
são culturalmente desinformados sobre arquitetura, lhes falta parâmetro para avaliar as
propostas dos profissionais especializados. É comum valorizar um projeto pelo seu custo
inferior e por sua beleza estética. Quesitos como funcionalidade e fluxo passam
despercebidos.
Os profissionais de iluminação ainda são pouco reconhecidos no mercado brasileiro e
tampouco valorizados. A contratação de projetos especializados se dá mais pelo interesse do
alcance da eficiência energética do que por proporcionar o bem-estar dos funcionários.
Neste ponto atingimos uma questão cultural. As pessoas não estão acostumadas a ter o
conforto visual e novamente, pela falta de padrão de comparação, não tem consciência da
real importância.
Boa parte dos estudos desenvolvidos na área da iluminação discorrem sobre aspectos
isolados ou são vinculados a questões de percepção e conforto visual. Com o aumento da
busca por eficiência energética abre-se espaço para discussão sobre qualidade da luz
e relação entre luz e usuário. (Martau, 2009:111).
O avanço das pesquisas já comprova as relações entre saúde e iluminação, apesar
de as doses de luz ainda não estarem definidas. Trabalhadores noturnos e pessoas
sujeitas somente à iluminação artificial por longos períodos parecem ser
potencialmente mais suscetíveis a doenças relacionadas tanto com o excesso
quanto com a insuficiência de luz. (Martau, 2009:31)
Desde a descoberta da luz elétrica passamos a viver em ambientes iluminados
artificialmente. Com o passar do tempo fomos criando regras e horários para a rotina do dia
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a dia. Passamos a trabalhar em ambientes fechados com a presença da iluminação artificial.
Em muitos espaços a luz natural não se faz presente ou as exigências de determinada função
fazem com que abrimos mão da presença da luz natural.
Entramos no ambiente de trabalho com todas as lâmpadas presentes no ambiente acesas.
Assim a fonte luminosa artificial permanece durante todo o dia, constante e intensa. Esta
constante tem como objetivo não só iluminar como também manter-nos alertas, despertos e
assim produzimos mais. A escolha por ambientes artificialmente iluminados é intrínseca às
atividade do trabalho desenvolvidas pelo ser humano e até o momento pouco se deu valor
para suas possíveis consequências.
Com o passar do tempo os humanos se encontram mais expostos à constante luz artificial e
seu corpo que por milhares de anos se adaptou às variações da luz solar tem apresentado
sinais de alerta.
Algumas doenças aumentaram seu nível de incidência sobre a população. Tal fato foi o
suficiente para que se aprofundassem as pesquisas da medicina em busca da causa para o
aumento de sintomas. Atualmente doenças como depressão, ansiedade, obesidade tem sido
relacionadas com a alteração no ciclo circadiano dos indivíduos. Ficou claro que a
quantidade de luz que recebemos ao longo do dia afeta nosso ritmo interno e pode
comprometer nossa saúde.
Já não nos podemos deixar enganar por soluções de pura engenharia, conquistadas
com perda de aspectos humanos [...]. Um período como o nosso, que tem se
deixado dominar pela produção, não encontra seu ritmo [...]. Nos achamos perante
um grande amontoado de palavras e símbolos mal usados, dentro de um armazém
repleto de novas descobertas, inventos e potencialidade, mas somos incapazes de
gerir o mundo [...] a relação entre pensamento e sentimento está afetada [...] o
resultado é uma personalidade dividida [...]. (Giedion, 2004)
6. Conclusão
As alterações no ciclo circadiano podem ser revertidas para o estado natural a partir do
controle de tempo de exposição e intensidade da luz. Retomar o contato com a luz solar é
imprescindível para garantir o bem estar e a saúde da população. Desenvolver tecnologias
de controle de luz se faz necessário. A observação da variação da iluminância natural
proporcionada pelo sol nos serve de base para o desenvolvimento de tais tecnologias. O
padrão internacional especificado pela norma IEC 60929, que resultou no protocolo DALI,
é um passo importante para esta nova conquista. Porém, a efetividade de novas tecnologias
depende da capacitação e reconhecimento dos profissionais envolvidos na área de
arquitetura e iluminação.
A citação de Giedion foi publicada pela primeira vez em 1941 e permanece válida e urgente
para nossos dias tanto no que tange à arquitetura quanto para a iluminação.
Referências
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ISSN 2179-5568 – Revista Especialize On-line IPOG - Goiânia - 8ª Edição nº 009 Vol.01/2014 dezembro/2014

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