CSE-314-4 26-09-2011

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CSE-314-4 26-09-2011
http://www.relogiosmecanicos.com.br/guilda.html
The Worshipful Company of
Clockmakers
Flávio Maia, junho de 2008.
A "Pax Romana", as invasões bárbaras e o feudalismo
O período histórico da "Pax Romana" iniciou-se em 29 d. C. , quando o
imperador Augusto decretou o fim das revoltas civis, e perdurou até a morte
de Marco Aurélio, em 180 d. C. Após inúmeras conquistas, Roma optou por
não mais expandir seu império, mas sim por manter uma "paz armada" nos
territórios ocupados. Dessa maneira conseguiria impor seu domínio,
sufocando, através das armas, qualquer início de revolta entre os povos
conquistados.
Com a ordem estabelecida, surgiram estradas e cidades que possibilitaram o
brutal desenvolvimento do comércio de toda Europa, já que o Império
Romano se estendia desde a atual Escócia até o Oriente Médio.
A partir de 300 d. C., diversos povos oriundos da Europa Central começaram
a migrar, alcançando as fronteiras do Império Romano (a este movimento de
migração deu-se o nome de “invasões bárbaras”). Vários fatores são indicados
como motivos para tais migrações, entre os quais as incursões militares do
Hunos e alterações climáticas na região. Os Visigodos foram os primeiros a
penetrar no Império Romano, ao fugirem dos Hunos. Inicialmente foram
aceitos pelos Romanos, com a condição de defenderem a fronteira do Império.
No ano 410 d. C, no entanto, rebelaram-se e chegaram a atacar, inclusive, a
cidade de Roma. Finalmente, fixaram-se na península ibérica, onde fundaram
um reino que perdurou por aproximadamente 300 anos.
É sabido que toda eficácia administrativa do Império Romano dependia de um
grande afluxo de impostos, sobretudo coletados dos povos vencidos. Como a
era de conquistas romana estava estagnada, o aporte de tributos era muito
menor. Sem um exército em número suficiente para defender suas fronteiras,
o Império Romano se retraiu para o interior, o que permitiu uma maior
penetração dos povos bárbaros que fugiam dos Hunos.
A instabilidade desta época fez com que o comércio entre cidades diminuísse,
pois as rotas não mais eram seguras. Os nobres romanos, com receio de
pilhagens que poderiam ocorrer nas cidades pelos bárbaros, passaram a
abandoná-las, juntamente com diversos camponeses. Em pouco tempo regiões
inteiras da Europa passaram a apresentar pouca densidade populacional e
urbana.
Houve, então, um processo de ruralização de toda economia européia, que
passou a se fundar em propriedades auto-suficientes, sem uma estrutura de
poder central. O conceito de Estado ou nação passou a não mais
existir...Estavam lançadas as bases do feudalismo, que levou a Europa a um
período de estagnação econômica nunca antes visto.
Com o passar dos séculos, no entanto, novas e mais eficazes técnicas de
produção agrícola foram introduzidas, de modo que as propriedades rurais (os
feudos) passaram a produzir mais do que necessitavam. O ressurgimento do
comércio entre regiões vizinhas foi um processo natural. Surgiram, então,
feiras onde os habitantes dos feudos podiam trocar e vender seus excedentes
de produção. Em pouco tempo essas feiras se tornaram cidades e um novo
processo de urbanização iniciou em toda Europa. A partir do século XI, o
crescimento populacional urbano tornar-se-ia fator preponderante para o
esfacelamento do sistema feudal.
As corporações de ofício
As cidades que começaram a surgir passaram a atrair um sem número de
artesãos, especialistas em várias áreas manufatureiras. Artesãos que
trabalhavam sozinhos e que fabricavam o bem objeto de sua especialidade do
começo ao fim perceberam que a divisão do trabalho na oficina propiciaria
maior volume de produção e, conseqüentemente, maiores lucros.
Surgiu, então, uma divisão hierárquica dentro das oficinais, baseada na
experiência dos artesãos. O mestre relojoeiro, por exemplo, era aquela pessoa
capaz de construir um relógio do começo ao fim e que possuía a oficina. Os
novatos que visavam aprender o ofício eram contratados como aprendizes e
normalmente não recebiam qualquer salário. Após cinco a sete anos, o
aprendiz submetia-se a uma prova onde tinha que fabricar um relógio do
começo ao fim (uma “obra-prima”) e tornava-se companheiro (ou jornaleiro).
Os companheiros, então, eram contratados pelo mestre para trabalhar na
oficina, mediante pagamento de salário. Aqueles que acumulavam dinheiro
suficiente podiam tentar abrir suas próprias lojas, também transformando-se
em mestres.
Com o rápido crescimento das cidades e, conseqüentemente, do comércio,
surgiu intensa concorrência entre os diversos artesãos. Apareceram, então, as
corporações de ofício, reuniões de artesãos dentro do mesmo ramo, com fim
nitidamente protecionista. Organizados em uma corporação, os artesãos
melhor defendiam seus interesses perante as autoridades. Ademais,
determinavam a qualidade, quantidade e preço dos produtos, bem como o
número de mestres existentes numa cidade, de modo a reduzir a concorrência.
Finalmente, regulamentaram a divisão de trabalho interna da oficina, que
meramente reproduziu o que anteriormente já ocorria.
O rígido controle de qualidade imposto pelas corporações assegurava a
produção de relógios excelentes. Em contrapartida, implicava em
conservadorismo. Finalmente, havia limitações quanto ao número de
companheiros que podiam ser mestres, tornando seus membros poucos
ambiciosos.
As regras da Corporação de Ofício de Genebra, em 1601.
Regras e regulamentos da Corporação de Relojoeiros, revista e
aprovada em conselho, no dia 19 de Janeiro de 1601 (nota: cada artigo
neste regulamento tinha uma multa associada às violações, que não
está incluída aqui)
I- Todos os mestres relojoeiros associados estão obrigados a rezar a
Deus, pedindo Sua presença no meio, para que estes apenas digam e
façam coisas que o horariam e beneficiariam a cidade.
II- Dois mestres serão escolhidos para comandar e inspecionar, de
modo que apenas bom trabalho e mercadorias honestas sejam feitas.
III- Ninguém pode ter mais do que dois aprendizes e por não menos
do que cinco anos; ou dois anos e meio, se estes forem companheiros
chaveiros ou fabricantes de armaduras. O mestre pode ter o segundo
aprendiz após o final de três anos de aprendizado do primeiro. O
aprendiz pagará uma taxa, metade da qual será destinada aos
contratantes e metade para manutenção da Corporação e (ou) aos
companheiros itinerantes pobres.
IV- Nenhum aprendiz pode violar o compromisso feito com o mestre.
Se ele o fizer, deverá iniciar seu aprendizado novamente quando
retornar ao seu mestre.
V- Nenhum aprendiz pode pedir para se tornar mestre até completar
um ano como companheiro.
VI- Para abrir uma loja e tornar-se mestre, o companheiro deve
fabricar duas obras-primas: um relógio pequeno com despertador para
ser usado em volta do pescoço; um relógio de mesa quadrado com
dois andares. Ambos serão examinados por todos os mestres da
corporação mediante o pagamento de uma taxa.
VII- Para poder fabricar sua obra-prima, o aprendiz deve ter uma
recomendação de seu mestre.
VIII- Nenhum mestre pode contratar um companheiro vinculado a
outro mestre.
IX- O mestre é livre para contratar outro aprendiz se o ausente não
retornar após dois ou três meses (exceto em caso de doença).
X- Nenhum mestre pode adquirir um relógio incompleto ou completo
de um companheiro ou aprendiz. Se algum lhe for oferecido, ele deve
comunicar o fato aos inspetores da corporação.
XI- Nenhum mestre de outra cidade pode abrir uma loja se não
comprovar ser mestre ou apresentar sê-lo por outra corporação.
XII- Todos os filhos de mestre devem fazer uma obra-prima, antes de
serem autorizados a abrir uma loja.
XIII- Nenhum mestre está autorizado a vender um relógio lhe deixado
para reparo. Após a segunda violação, o mestre perderá seu título.
XIV- Todos os inspetores da corporação podem visitar as oficinas
para fiscalizar o bom e honesto trabalho. Eles podem quebrar os bens
de qualidade abaixo da média e apresentá-los aos comissários da
corporação.
XV- Comerciantes que não integram a corporação estão proibidos de
vender relógios na cidade.
XVI- O mestre que recusar seguir as determinações da corporação
será multado.
XVII- Todo mestre deve assinar seu trabalho.
XVIII- Todos os mestres presentes devem jurar apoiar os artigos da
corporação, para que tudo se proceda em honra de Deus, do benefício
da cidade e da preservação da companhia de relojoeiros (texto
extraído da obra Timepieces, Masterpieces of Chronometry, de David
Christianson, tradução livre).
É fato, porém, que nem sempre as corporações de ofício conseguiam impor
suas regras, pois somente atuavam dentro dos limites da cidade. Relojoeiros e
comerciantes podiam, portanto, trabalhar fora da cidade sem serem
molestados. No interior da cidade, por sua vez, tornou-se cada vez maior o
número de mestres e companheiros que adquiriam relógios de terceiros para
suprir a demanda. O contrabando de relógios seguramente era uma atividade
muito lucrativa... Em pouco tempo, assim, o sistema de corporações de ofício
entrou em declínio.
The Worshipful Company of Clockmakers
A guilda de relojoeiros de Londres foi fundada em 1631, quando o sistema de
corporações de ofício já estava em franco declínio. Os relojoeiros londrinos,
antes dessa época, filiavam-se a corporações mais antigas, como a dos
ferreiros.
As regras da corporação londrina assemelhavam-se àquelas indicadas acima a
respeito da guilda genebrina, inclusive no que dizia respeito à fabricação de
uma “obra prima” ao final do aprendizado.
Na época da fundação da corporação de Londres, como ressaltado, o sistema
já estava em declínio. A guilda de Londres, pois, atuava muito mais como
uma organização comercial que peticionava ao governo assuntos relacionados
ao ofício do que como um órgão de fiscalização de seus membros. A
exigência da fabricação de “obras primas”, pois, nunca foi feita aos membros,
o que possibilitou aos relojoeiros londrinos uma maior liberdade de criação, o
que futuramente se refletiu na chamada “Era de ouro da relojoaria britânica”.
A literatura contém, no entanto, alguns exemplos da atuação da corporação de
ofícios de Londres na defesa do ramo.
Nicolas Fatio (1664-1753), um matemático de Genebra, imaginou que podia
contornar os problemas de fricção de um relógio através da utilização de rubis
furados como mancais para os pivôs das engrenagens. Facio, juntamente com
seus sócios-criadores, Peter Debaufre e Jacob Debraufe, requereram a patente
do método na Inglaterra, no ano de 1704. O pedido de patente era claro ao
dizer que o sistema de rubis não era para ornamentação, mas para aumentar a
eficácia do movimento. A patente foi concedida e imediatamente contestada
pela “Worshipful Company of Clockmakers”. A guilda argumentou que a
patente não poderia ser assegurada em outros países e, portanto, logo todos
estariam fazendo relógios com rubis. Na Inglaterra, porém, os relojoeiros
teriam que pagar royalties aos detentores da patente, o que encareceria os
relógios britânicos e os fariam perder competitividade no mercado mundial.
Ademais – afirmou a guilda – o sistema de rubis havia sido criado por um
membro vários anos antes. Para comprovar a tese, mostrou às autoridades um
relógio fabricado por Ignatius Huggeford, produzido em 1675, que continha
no topo do balanço um grande rubi. As autoridades deram, então, ganho de
causa à guilda, e a patente de Fatio foi negada. Nos primeiros anos do século
XIX, o relógio fabricado por Huggeford foi novamente analisado. Constatouse, então, que o rubi provavelmente nem rubi era, mas vidro, e não tinha
qualquer função mecânica no movimento, apenas decorativa. Cabe ao leitor
decidir se a guilda atuou de má-fé no caso.
Em 1787, por sua vez, a “Worshipful Company of Clockmakers” peticionou
às autoridades para que estas taxassem os relógios importados do continente,
pois seus fabricantes usavam ouro de pior qualidade (os britânicos usavam
ouro 22 quilates, enquanto os franceses 20 e os suíços 18) e mão de obra
barata de crianças e mulheres. Para competir com o mercado continental, disse
a corporação, a qualidade do produto britânico teria que diminuir. As
autoridades, então, criaram um imposto de 27,5% sobre os relógios
importados.
A “Era de ouro da relojoaria britânica”
O relógio sempre foi expressão de uma civilização urbana. E no século XVIII
nenhum outro país era tão urbanizado quanto a Inglaterra. E nem tão rico. A
média salarial na Inglaterra era superior a dos países do continente europeu e,
com maiores salários, um maior número de pessoas tinha acesso a bens de
consumo duráveis (e caros!) como os relógios. Talvez por isto tenha
despontado na Inglaterra, nesta época, um sem número de fantásticos
relojoeiros que seguramente colocaram o país na liderança mundial da arte.
O primeiro deles, considerado o “pai da relojoaria britânica”, chamava-se
Thomas Tompion. Tompion foi o primeiro relojoeiro a satisfatoriamente
implementar em um relógio a espiral (“cabelo”), o que aumentou em uma
escala a precisão do mesmo. Na verdade, Tompion não inventou o aparato,
mas apenas o fabricou a pedido de Robert Hooke, que pretendia demonstrar
que o havia concebido antes de Christiaan Huygens. Tompion, a partir de
então, passou a fabricar todos os seus relógios com a mola espiral. Criou,
ainda, o primeiro regulador, que alterava o comprimento da mola, fazendo
com que a marcha do relógio pudesse ser modificada.
A parceria Tompion-Hooke, no entanto, não parou por aí. Hooke criou uma
máquina de corte de engrenagens que permitiu que Tompion as fabricasse
num grau de precisão nunca antes visto.
Na mesma época também trabalhava em Londres Daniel Quare, rival de
Tompion e inventor do sistema de repetição que soava as horas (Quare,
apoiado pela Worshipful Company of Clockmakers, processou Edward
Barlow, que tencionava a patente do sistema de repetição, no ano de 1686. Em
1687 o caso foi decidido a favor de Quare).
O aprendiz e sucessor de Tompion, George Graham, ainda é considerado por
muitos o maior relojoeiro da história. Graham inventou o escapamento de
cilindro e elevou a precisão dos relógios de pêndulo a um outro patamar, com
a criação do escape dead beat e do pêndulo para compensação de temperatura
a mercúrio. Ademais, Graham se mostrou incentivador e verdadeiro
“mecenas” de John Harrison em sua primeira incursão a Londres, na tentativa
de fabricar o cronômetro marítimo.
Entre 1730 e 1738, Graham teve um aprendiz que também seria expoente da
relojoaria britânica, chamado Thomas Mudge. O escapamento de âncora,
criado por Mudge em 1757, mostrou-se tão eficaz que continua em uso até os
dias atuais (ressalte-se, porém, que Mudge somente produziu dois relógios
com este tipo de escapamento em sua vida. E o modelo proposto por Mudge,
ainda, difere dos atuais, que podem ser considerados uma versão
“aperfeiçoada”).
Mudge criou, ainda, o mecanismo de equação do tempo, repetição de minutos
e calendário perpétuo.
O maior interesse de Mudge, porém, era o cronômetro marítimo. Não
podemos nos esquecer que Mudge compareceu à “dissecação” do H4 por
Harrison em sua residência, no ano de 1765 (e depois indiscretamente
divulgou seu detalhes a Ferdinand Berthoud, em um jantar). No mesmo ano
Mudge publicou a obra “Pensamentos e métodos para melhorar os relógios,
principalmente aqueles para uso no mar”.
Mudge, conforme ressaltado por Dava Sobel na obra Longitude, “construiu
seu primeiro relógio marítimo em 1774, incorporando e aprimorando os seus
relógios baseando-se em muitas idéias de Harrison. Magnificamente
executado por dentro e por fora, o cronômetro de Mudge apresentava uma
forma especial de remontoire e uma caixa oitavada coroada por uma face
recoberta por trabalho em filigrana de prata. Mais tarde fabricou dois em
1777, chamados de Verde e Azul – formando um par idêntico exceto pelas
cores de suas caixas para diferenciá-los – com o intuito de seriamente
competir pelas restantes 10.000 libras (US$ 6 milhões atuais) do prêmio pela
solução do problema da longitude.
Enquanto testava o cronômetro de Mudge em Greenwich, o astrônomo do
reino Nevil Maskelyne o fez parar devido à manipulação descuidada do
Cronômetro, e um mês depois quebrou acidentalmente a mola-mestra do
mecanismo. Um muito aborrecido Mudge tomou então o lugar de Harrison
como o desafeto de Maskelyne. Os dois mantiveram uma acirrada troca de
opiniões até que Mudge adoeceu no início da década de 1790. Nesse ponto, o
filho advogado de Mudge, Thomas Jr., levou adiante a disputa, em parte de
forma panfletária, e recebeu um pagamento de 3000 libras (US$ 1,8 milhões)
do Conselho da Longitude em reconhecimento pelas contribuições feitas pelo
seu pai”.
O museu da Worshipful Company of Clockmakers
A corporação de ofício londrina nunca conseguiu juntar dinheiro suficiente
para adquirir sua própria sede. Devido à falta de espaço, seus membros
demoraram para cogitar a criação de uma biblioteca ou museu de relógios. Em
1813, no entanto, F.J. Barraud, filho do fabricante de cronômetros P.P.
Barraud, propôs que a companhia deveria fundar uma biblioteca sobre
relojoaria. B.L. Vulliamy tomou a frente do projeto e, no ano seguinte, doou à
“biblioteca” um relógio de prata e outros objetos. A partir de então vários
outros relógios foram adquiridos e doados à corporação, que passou a dispor
não apenas de uma biblioteca de livros, mas de uma coleção de relógios.
Em 1871, John Grant, o único sobrevivente da comissão que havia instituído a
biblioteca algumas décadas antes, propôs que a coleção deveria ser movida
para a “Guildhall”, com acesso ao público. As autoridades concordaram e,
desde então, a coleção foi mantida na “Guildhall” de Londres (o museu foi
novamente transferido em 1976, da antiga biblioteca para a nova, ainda na
“Guildhall”).
O museu ocupa apenas uma sala, mas é bastante completo. Possui cerca de
600 relógios de bolso e pulso, 30 relógios de pêndulo e 15 cronômetros
marítimos.
A parte mais interessante, na minha opinião, é a destinada aos cronômetros
marítimos, onde podem ser vistos modelos de Mudge, Arnold, Earshaw e, é
claro, Harrison.
Os quatro primeiros cronômetros marítimos fabricados por Harrison se
tornaram propriedade do
Estado quando ele pleiteou o prêmio da longitude e estão em Greenwich.
Harrison, no entanto, deixou expresso em seu testamento que seus outros
artefatos deveriam ser legados ao seu filho, William Harrison. William, por
sua vez, deixou os bens a sua terceira esposa, Elizabeth, com quem casara em
1786. Com sua morte, os bens passaram para sua filha, Elizabeth, que os
ofereceu ao “Museu de Patentes” (posteriormente “Museu de Ciências” de
Londres), que não os quis comprar. Elizabeth, assim, vendeu-os ao
colecionador Robert Napier. A maior parte dos objetos de Harrison existente
no museu foi adquirida depois disso.
O museu da corporação abriga atualmente dois movimentos de relógios de
pêndulo de Harrison (fabricados em 1713 e 1726), seu regulador pessoal
(fabricado em 1728), o relógio “Jeffreys” e – o ápice da coleção – o H5.
Os relógios de madeira de John Harrison
Não se sabe ao certo como John Harrison aprendeu a arte da
relojoaria, sobretudo porque ele morava numa das regiões mais
remotas da Inglaterra. Provavelmente Harrison deve ter aprendido ao
tentar consertar relógios de moradores do local.
De qualquer modo, o mais antigo relógio ainda existente de Harrison,
fabricado em 1713, já demonstra perfeição na construção, muito
embora siga projeto tradicional na época, com conjuntos separados de
rodagem para a marcação do tempo e mecanismo de repetição, e
escapamento de âncora com recuo. O relógio, porém, é inteiramente
feito em carvalho, com exceção da roda de escape (latão) e da âncora
(ferro).
O relógio do estábulo de Brocklesby, fabricado em 1722, também é
quase que inteiramente de madeira. Sua construção, no entanto,
contém alterações mecânicas significativas e que lançaram as bases
para seus cronômetros marítimos. Os pivôs de latão deste relógio
giram em mancais de Lignum Vitae, uma madeira tropical que possui
óleos naturais, o que afasta a necessidade de lubrificação.
O relógio inicialmente tinha escapamento de âncora, mas devido a
vários problemas para ajustá-lo corretamente, Harrison o abandonou
completamente. Criou, então, um novo tipo de escapamento, chamado
grasshopper, que não produzia fricção por deslizamento e, portanto,
não precisava de óleo. O projeto de tal relógio e escapamento é tão
fantástico que, após 280 anos de sua instalação no estábulo, este
continua a funcionar sem qualquer tipo de lubrificação.
Não sabemos, também, como John Harrison tomou conhecimento do
“Prêmio da Longitude”, mas seus relógios reguladores certamente
surgiram nesta época. James Harrison, até mesmo pela assinatura
contida nos relógios, ajudou-o a fabricá-los.
Para ajustar um possível cronômetro candidato ao prêmio da
longitude, Harrison precisava de um relógio para comparação de
marcha que fosse realmente preciso.
As inovações contidas no relógio de Brocklesby foram replicadas nos
reguladores, mas não só: Harrison criou um pêndulo invariável à
temperatura, composto por barras de latão e aço. Numa época em que
os melhores reguladores mantinham precisão de um segundo ao dia
(os fabricados por Graham), os de Harrison alcançavam um segundo
ao mês e não precisavam de manutenção por 40 anos!
A atual relojoaria britânica
Com o grande afluxo de relógios baratos provenientes da Suíça, a partir do
século XIX, a indústria britânica entrou em declínio e nunca mais se
recuperou.
Atualmente, a Worshipful Company of Clockmakers atua apenas como
representante e incentivadora da arte da relojoaria. Sua medalha Tompion é
conferida àqueles que contribuem de forma excepcional para o ramo. Como
indústria a Inglaterra pode ter morrido, mas não como celeiro da maior
personalidade no ramo da relojoaria deste e do último século, que nos faz
lembrar a “era de ouro da relojoaria”: George Daniels.
George Daniels nasceu em Londres, em 1926. Com 22 anos já era relojoeiro
profissional e, com 43, construiu seu primeiro relógio, de forma totalmente
artesanal. Nos 26 anos seguintes Daniels produziu 27 relógios, cada um deles
contendo complicações e novos mecanismos ( o museu da corporação de
Londres contém um protótipo do escapamento coaxial integrado a um
movimento da Patek Phillippe).
Mas o gênio de Daniels não restou comprovado em seus relógios ou
habilidade técnica, mas sim na principal qualidade dos grandes relojoeiros,
sobretudo Harrison: a perseverança.
Na fantástica obra Revolution in Time, de David Landes, o autor atesta, em
tom de descrédito (a obra é de 1983), que “o relojoeiro britânico George
Daniels me contou que ele inventou um escapamento que irá ressuscitar a
glória e reputação do relógio mecânico. O problema é que ele ainda não
encontrou um fabricante suíço disposto a produzi-lo comercialmente (está fora
de questão uma firma britânica tentar isso). Os Suíços não estão preparados,
talvez, para ouvir um inglês. Ou então eles desistiram de vez dos relógios
mecânicos. De qualquer forma, Daniels não desistiu”.
De fato, Daniels não desistiu e Landes não podia estar mais errado.
A relojoaria mecânica ressurgiu com força total a partir dos anos de 1990 e a
criação de Daniels, o escapamento coaxial, foi incorporado aos relógios de
uma das fábricas suíças mais famosas, a Omega.
Dizem que o relógio marca o tempo. Não sei...Talvez guarde os bons
momentos da nossa vida. No meu retorno à Europa, anos após ter visitado
Greenwich, resolvi marcar os bons momentos passados com meus amigos. Em
homenagem a Daniels, o incansável relojoeiro britânico, adquiri um Omega
Seamaster Planet Ocean, óbvio, com escapamento coaxial. Assistir ao grande
prêmio de Fórmula 1 em Mônaco na companhia de amigos e com um relógio
com escapamento coaxial no pulso? Ah, isso não tem preço!
Bibliografia:
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The Clockmakers of London, de George White;
Timepieces, Masterpieces of Chronometry, de David Christianson;
Revolution in Time, Clocks and the making of the modern world, de David
Landes;
Harrison, de Jonathan Betts;
Harrison in the Abbey, coletânea de textos de vários autores;
Longitude, A verdadeira história do gênio solitário que resolveu o maior
problema científico do século XVIII, de Dava Sobel;
Collecting and Repairing Watches, de Max Cutmore.
Créditos:
- Fotos do mapa do Império Romano na sua máxima expansão, Nicolas Fatio, George
Graham e H5, por Wikipedia.org; George Daniels por DanielsLondon.com; fachada da
Guildhall de Londres e GP de Mônaco pelo autor.

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