A entrevista

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A entrevista
A entrevista
Lição 3
A entrevista
Christina Scott
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Curso On-line de Jornalismo Científico
3.1 Introdução
Uma entrevista pode impulsionar ou detonar uma matéria. A forma de entrevistar é uma questão
complicada para repórteres de ciência, que precisam lidar com pesquisadores altamente
especializados e que estão mais acostumados a dar aulas e escrever para seus pares do que a se
comunicar com o grande público.
Isso sem esquecer o medo: muitos cientistas nunca passaram por um treinamento para aprender a
falar com a mídia (media training) e receiam que sua reputação seja prejudicada pela cobertura da
imprensa, por isso acham as entrevistas muito assustadoras.
Não perca de vista o público-alvo principal da entrevista: um leitor, espectador ou ouvinte interessado
e curioso.
Preparar-se é importante, mas nem sempre possível. Como formular questões se você não sabe nada
sobre o assunto? Como convencer um cientista ocupado e estressado a arranjar tempo para uma
conversa? Como fazer com que um estranho fale com você como se fossem velhos amigos? E se suas
anotações não traduzirem de forma precisa o que foi dito? Essas são questões importantes de se pensar.
Neste capítulo, você vai trabalhar essas questões. Depois de fazer isso, esperamos que você
prepare e conduza entrevistas de uma maneira um pouco diferente...
3.2 Prepare-se para a pré-entrevista
A pré-entrevista é, geralmente, uma conversa rápida e “em off”, em que você faz anotações, mas
não relata as opiniões dos entrevistados. Ela ajuda a compreender o contexto do qual você planeja
extrair a matéria. Particularmente para repórteres de rádio e TV, a pré-entrevista ajuda a avaliar se o
cientista seria um bom candidato a entrevistado. Repórteres de veículos impressos algumas vezes
podem usar suas anotações da pré-entrevista no artigo final – nesse caso, eles devem checar com as
fontes se é permitido fazê-lo, já que os entrevistados podem dizer as coisas de maneira um pouco
diferente quando estão falando “em off”.
Entrevistas preliminares podem ser úteis quando você é um freelance fazendo uma apuração inicial
para sugerir uma pauta ao editor ou quando você já foi solicitado para fazer a matéria.
E-mails e entrevistas presenciais podem consumir muito tempo para uma pré-entrevista. Que tal
ligar para o pesquisador para uma breve discussão, de cerca de cinco minutos? Se houver, você pode
enviar-lhe antes o press release que inspirou a pauta, para que ele entenda melhor suas necessidades.
As pré-entrevistas também são uma boa forma de checar as informações que você conseguiu via
Google ou outro sistema de busca. Às vezes você precisa checar as credenciais de um cientista, já que
mesmo pesquisadores com má reputação podem ter voz na internet.
Tome nota de todos os possíveis entrevistados recomendados na pré-entrevista e pegue seus
contatos se eles estiverem disponíveis. Se não derem em nada, pelo menos vão incrementar sua
agenda de contatos e podem ser úteis mais tarde.
Atenção: Fazer as pré-entrevistas sempre com as mesmas pessoas é entediante e arriscado, porque
os cientistas podem recomendar apenas colegas e amigos. Tente descobrir uma variedade de pessoas
para entrevistar, incluindo pesquisadores rivais.
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A entrevista
3.3 Com quem falar primeiro?
Muitas pessoas podem ser adequadas para uma pré-entrevista. Jornalistas que cobriram notícias
semelhantes são uma possibilidade. Na comunidade científica, você pode não querer falar com os
cientistas mais experientes numa pré-entrevista. Eles são muito ocupados e podem não querer perder
tempo com um repórter que não entende nada do assunto.
Em vez de tentar falar com esses cientistas importantes, então, tente falar com seus secretários:
funcionários administrativos frequentemente têm uma boa ideia do que está acontecendo e podem
sugerir as pessoas que dariam entrevistas mais interessantes. Às vezes, eles podem até dar dicas de
pautas que ainda vão acontecer.
Estudantes de mestrado e doutorado podem ser difíceis de se encontrar por telefone, mas geralmente
é fácil encontrá-los nos laboratórios e eles são uma boa fonte de informações. Se algum deles for
particularmente articulado, você pode considerá-lo para uma entrevista mais formal. Em entrevistas
para televisão, jovens estudantes podem ser melhores do que seus colegas mais velhos. Ao mesmo
tempo, você tem que arrumar uma maneira diplomática de explicar aos cientistas mais velhos por que
você não está se concentrando neles; eles frequentemente têm o poder de bloquear seu acesso aos
outros colegas. Enfatizar que você sabe o quanto eles são ocupados ou explicar como é importante
mostrar uma diversidade de opiniões podem ser boas técnicas.
Os estágios mais preliminares da matéria são bons momentos para pedir imagens. Uma
fotografia ou desenho de boa qualidade pode ajudar você a compreender o tema, facilitar o começo
da entrevista – você pode perguntar ao cientista algo como “o que estamos vendo aqui?” – e,
eventualmente, servir para ilustrar a versão final da matéria. Além disso, às vezes, pedir imagens ajuda
os entrevistados a entender a diferença entre a comunicação entre pares e a comunicação de massa.
Mas confira se os cientistas ou a assessoria de imprensa não infringiram nenhuma lei de direitos
autorais oferecendo as imagens e assegure que fotógrafos, cinegrafistas e artistas recebam o crédito
apropriado por seu trabalho.
3.4 Convencendo os cientistas a falarem com você
A maioria dos cientistas é favorável a uma cobertura maior sobre ciência na mídia. Mas muitos
preferem oferecer o último artigo incompreensível de sua pesquisa publicado na Revista-Científicaque-Ninguém-Lê a dar uma entrevista.
Explique que isso é uma troca. Jornalistas dão visibilidade a instituições, indivíduos e questões.
Nós conectamos os cientistas a centenas, milhares e até milhões de pessoas, incluindo pagadores de
impostos e a próxima geração de cientistas. Em troca, os cientistas nos dão informações.
Aponte que financiadores, universidades e ministérios da ciência gostam de ver matérias
sobre suas pesquisas. Mencione que critérios de financiamento consideram as entrevistas na mídia
como uma parte importante do impacto e da comunicação da ciência, de forma que os cientistas
podem usar isso ao submeter seu próximo projeto a um financiamento. Inevitavelmente, alguns
pesquisadores vão pedir que a agência que financiou o projeto seja citada na matéria. Você pode dizer
“não”. Não se enrole fazendo uma promessa que você não pode cumprir.
Se o cientista ainda estiver relutante em concordar com a entrevista, pergunte-lhe por números de
telefone para que você possa ligar e ler as partes mais importantes do seu texto para garantir sua
precisão. (Enviar por e-mail o texto completo faria com que você perdesse o controle de sua matéria,
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por isso telefonar é melhor). Mas nunca se ofereça para fazer isso se você não pretende fazê-lo. Além
disso, não leia seus textos para políticos, incluindo ministros da ciência e seus assessores de imprensa
ou porta-vozes. Tome cuidado com pessoas que tentam alterar o que você escreveu. Insista que você
só quer checar os fatos.
Deixe claro que, se você não conseguir falar com o cientista e o prazo estiver acabando, você enviará a
matéria de qualquer forma.
Lembre-se de que pagadores de impostos subsidiam grande parte da ciência. O público precisa
saber qual o retorno de seu investimento. Não aceite “não” como resposta. Apareça sem avisar se for
necessário, sobretudo em casos de controvérsias e comportamento inadequado.
Para notícias controversas, você pode dizer ao(à) entrevistado(a) que escreverá uma matéria
controversa da qual ele ou ela pode não gostar, mas que ainda assim você gostaria de saber a opinião
dele ou dela. Poucos se recusam a ser entrevistados.
Esteja preparado para os pedidos de cientistas – às vezes até mesmo antes da entrevista – para revisar
textos e programas de rádio e TV antes de sua veiculação, como eles fariam com revistas científicas
com revisão por pares. Matérias de internet parecem ser particularmente vulneráveis às demandas
de alterações por parte dos cientistas, mesmo aqueles que já haviam confirmado suas aspas ou dado
aprovação durante o processo de checagem dos fatos. Você precisa saber estabelecer limites. Às vezes,
você pode sugerir que, se eles tiverem algum problema com a matéria, procurem seus departamentos
de comunicação para lançar sua própria versão dos acontecimentos. Não é sua função fazer o trabalho
de assessor de imprensa em favor deles.
3.5 Escolha um tipo de entrevista
Após a pré-entrevista, que tipo de entrevista você vai conduzir? Diferentes tipos de entrevista
requerem diferentes perguntas. Tenha claro em sua cabeça que tipo de entrevista você precisa fazer
para o seu veículo. SciDev.Net não vai pedir que você faça um perfil pessoal, por exemplo.
Que tipo de perguntas você deve fazer para:
• um personagem ou um perfil? Pergunte sobre questões pessoais que envolvam a pessoa como
um todo, não apenas o(a) cientista. Você pode falar com os colegas, amigos e familiares do(a)
entrevistado(a).
• uma entrevista sobre uma pesquisa científica? Mantenha o foco em resultados, sua precisão,
processo de pesquisa, implicações.
• uma entrevista de conteúdo ou notícia? Fazer entrevistas curtas com muitas pessoas – incluindo
cientistas, formuladores de políticas, educadores e outros – ajuda a traçar um panorama amplo e
coletar vários pontos de vista.
• uma entrevista de oposição? Às vezes conhecida como entrevista do “advogado do diabo”,
este tipo de entrevista geralmente é uma maneira rápida de fazer com que o(a) cientista aponte
claramente sua opinião. Tome uma posição crítica. Pergunte “por que devemos nos importar com
isso?” Argumente em defesa do leitor ou espectador mais contestador: isso dá ao(à) cientista a
oportunidade de dar uma resposta bastante persuasiva.
• uma entrevista de oposição, em que você levanta questões formuladas por outras
organizações? Coloque a responsabilidade em outra pessoa quando você formular uma pergunta ou
opinião. Por exemplo: “alguns militantes ambientais se opõem à manipulação genética”...
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A entrevista
Exemplo 1
Numa edição do programa Electron – parceria entre a Rádio MEC e o Museu da Vida da Fundação
Oswaldo Cruz – sobre nanotecnologia, a apresentadora Luisa Massarani entrevista o pesquisador
Marcelo Knobel, da Universidade Estadual de Campinas. [http://www.museudavida.fiocruz.br/media/
AR_ELE_06-12.mp3]. Após cerca de dois minutos de entrevista, Massarani diz: “Há grupos que têm
levantado a discussão em torno dos possíveis riscos que a nanotecnologia pode causar. Que riscos
potenciais seriam esses?” Ela expressa a preocupação de outras pessoas e organizações. A questão
está formulada de maneira adequada e direta? O que você teria perguntado?
Exemplo 2
Mariana Ferraz, do Instituto Ciência Hoje, realizou uma entrevista sobre os desdobramentos da
revolução genética, apresentada numa das edições do podcast “Estúdio CH”, com o bioquímico
Franklin Rumjanek, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
[http://www.garageband.com/mp3/DNA__uma_revolu__o.mp3?|pe1|WdjZPXLrvP2rYVO-amhiBQ]. Ao
longo da conversa, Mariana faz algumas afirmações relacionadas às aplicações dos estudos genéticos. E
o convidado concorda com ela. Mas concordar demais pode ser chato. Você faria isso de forma diferente?
O(a) jornalista deve considerar, antes da entrevista, a distância emocional que será necessária entre
ele ou ela e a pauta da entrevista. Uma entrevista normalmente não tem como objetivo ampliar o
seu círculo de amizades! Algumas situações requerem atenção especial e um estilo de entrevista
realmente determinado:
• Uma grande exposição do(a) entrevistado(a). O ministério da ciência não gastou seus recursos,
os resultados da pesquisa foram falsificados ou o cientista não revelou seus interesses comerciais?
Você precisa estar preparado(a) para um confronto. É melhor entrevistar primeiro as pessoas que estão
fazendo as acusações e só depois falar com o(a) responsável pelas ações contestadas. Grave tudo:
mantenha o gravador ligado mesmo quando vocês estão se cumprimentando e se despedindo. Este é
o momento em que as pessoas inadvertidamente soltam as informações mais importantes ou revelam
seus pensamentos mais secretos.
• Um anúncio de empresa, governo ou instituição. Isso não é uma entrevista e deve ser identificado
como uma fala previamente preparada ou um press release. Muitas “entrevistas” sobre ciência são, na
verdade, tentativas das empresas de ganhar publicidade gratuita para seus produtos. Você encontrou
um(a) pesquisador(a) neutro(a), independente e respeitado(a) para analisar o anúncio em questão? Se
sim, você deve verificar com ele ou ela o anúncio feito.
• Uma entrevista boba. Há realmente 181 coisas para fazer na Lua, como a agência espacial
norte-americana NASA diz? Você pode fazer uma entrevista no meio de um laboratório de teste de
preservativos? O jornalismo científico pode ser muito divertido e, se você convencer o(a) cientista a
colaborar, com certeza ganhará sua audiência.
Exemplo:
A jornalista Tatiana Pronin, do site UOL Ciência e Saúde, entrevistou o ministro da Saúde brasileiro, José
Gomes Temporão, e abordou diversos temas, como o funcionamento do Sistema Único de Saúde
(SUS), a dengue e a publicidade de medicamentos. [http://cienciaesaude.uol.com.br/ultnot/entrevistaministro-da-saude-jose-gomes-temporao.jhtm]. Em uma pergunta sobre o aborto, por exemplo,
ela menciona que o ministro, no início de sua gestão, falou muito sobre a legalização do aborto e a
necessidade de discutir o tema no Brasil. A questão, porém, não foi resolvida e a jornalista questiona
Temporão acerca disto. O confronto pode ser perfeitamente bem-educado. E útil também. Mas veja
como ela o faz. Você faria diferente?
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Curso On-line de Jornalismo Científico
3.6 Prepare-se para entrevistas sobre pesquisas
Artigos de pesquisa longos e intimidadores que aparecem em revistas científicas como Nature e
Science são importantes, por isso você precisa aprender a trabalhar com eles. Mas alguns grandes
projetos de pesquisa têm mais de uma dúzia de autores ao redor do mundo. Por onde começar?
Um bom ponto de partida é olhar os nomes dos autores e ver se algum é do seu país ou fala a
sua língua.
Não leia o artigo inteiro. Você vai ficar perdido e confuso.
Leia o resumo, que é um sumário de apenas poucos parágrafos, além das conclusões ou
considerações finais e recomendações. Envie apenas poucas perguntas ao autor ou autora principal,
cujos contatos estão incluídos no artigo. Leia os comentários do(a) editor(a) ou o editorial – será que o
editor ou editora seria um bom entrevistado(a)? Envie por e-mail algumas perguntas para o editor ou
editora também, ou por telefone se você puder.
Muitos repórteres podem adicionar uma pergunta extra ao e-mail: “Há pesquisadores locais que
podem comentar essas questões?” Algumas informações tendem a não aparecer em revistas
científicas. Por exemplo, você precisa perguntar questões do interesse de sua audiência, como
“quando isto vai fazer diferença?”, em entrevistas sobre pesquisas médicas em que os testes podem
demorar uma década ou o governo pode não implementar a pesquisa.
Você não terá tempo de cobrir todos os aspectos da pesquisa. Escolha um ângulo de abordagem e
aprofunde-se nele. Suas perguntas devem refletir o seu foco.
3.7 Usando tecnologia nas entrevistas
Se seu ou sua chefe não pode pagar para você viajar, traga o mundo às suas mãos por meio da
tecnologia:
• Participe de entrevistas coletivas transmitidas pela internet.
• Quando você receber press releases, peça a grandes instituições, como o Banco Mundial ou mesmo
institutos de pesquisa importantes, que organizem teleconferências.
• Entreviste por e-mail, o que pode ser particularmente útil se você estiver trabalhando com vários
fusos horários.
• Faça download de um software livre para fazer ligações internacionais (com fones) gratuitas em
[www.skype.com].
• Entrevistas em softwares de mensagens instantâneas, como Skype ou similar, são outra possibilidade,
mesmo quando você não tem acesso a microfones no seu computador ou em um cibercafé. Se o e-mail
falhar, mas a internet não, use as facilidades do Skype para encontrar e fazer pré-entrevistas com outros
repórteres ou cientistas internacionais como os mencionados nas revistas científicas (ver seção anterior).
Essas tecnologias trazem a comunidade científica global até a sua mesa para uma entrevista. Mas
existe um ponto negativo: não há linguagem corporal: a entrevista – a menos que você use uma
webcam – é feita sem nenhum contato visual. Fica muito difícil perceber os sinais físicos que indicam
que o sujeito está evitando uma resposta, que ele ou ela tem algo mais a dizer ou que há uma outra
pessoa na sala controlando a informação. Essa estratégia, então, é melhor para as conversas prévias do
que para a entrevista propriamente dita.
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A entrevista
É uma ótima ideia gravar todas as entrevistas numa fita ou gravador digital. Mas não abandone
seu caderno e duas canetas – as máquinas podem quebrar. Reserve um tempo antes da entrevista
para checar baterias, espaço em disco, cabos, tudo mais que puder dar errado (incluindo canetas, que
podem estar sem tinta!). Se for uma entrevista por telefone, lembre-se de dizer aos seus entrevistados
que você gostaria de gravar a conversa. Você pode dizer a eles que eles podem sinalizar, durante a
entrevista, se algum comentário deve ser considerado oficioso, mas deve ficar muito claro aos dois
participantes quando a entrevista voltar a ser oficial. E jornalistas não devem deixar que os cientistas
decidam, depois da entrevista, que algumas partes foram faladas “em off”.
3.8 Preparando o(a) cientista para uma entrevista
Explique como você vai usar a entrevista – será para um comentário de 20 segundos em uma matéria
de rádio com duração de dois minutos? Serão quatro parágrafos numa matéria de quatro páginas
numa revista ou num jornal?
O(a) cientista pode solicitar uma lista prévia de perguntas para que ele ou ela se prepare. Adiantar três
ou quatro questões pode ser uma boa tática para quebrar o gelo, mas tenha o cuidado de avisar ao(à)
cientista que você espera fazer outras perguntas durante a conversa e não permita que o(a) cientista
leia repostas preparadas. Guarde algumas perguntas também – você pode preferir respostas mais
espontâneas. Ou repita a pergunta mais tarde, quando o(a) cientista estiver mais relaxado(a).
Alguns tipos de preparação são específicos para alguns tipos de mídias:
Rádio (ao vivo): A preparação técnica é importante. Avise aos entrevistados para não expirar perto do
telefone, desligar telefones celulares e, no caso de serem vários entrevistados, peça para não falarem
ao mesmo tempo – você não tem uma segunda chance. Avise aos convidados que eles não terão
tempo de explicar o contexto, especialmente na resposta à primeira pergunta. Isso é um lanche, não
uma refeição completa, para os padrões da ciência.
Rádio (entrevista editada): Qualquer pessoa num estúdio pode fazer uma sessão de perguntas e
respostas com um entrevistado ou entrevistada por linha telefônica. Uma inserção bem construída,
editada e embalada, que pode durar de dois minutos a meia hora, possibilita levar os ouvintes para
dentro do laboratório ou da sala de aula, como se eles estivessem seguindo os passos dos cientistas.
Isso significa que a qualidade do som – especialmente o som ambiente – é crítica. A entrevista ainda é
importante, mas algumas questões, como a ordem das perguntas, não são tão relevantes. Você pode
precisar repetir algumas perguntas para conseguir uma resposta mais clara e um som melhor. Você
também pode pedir ao(à) cientista que demonstre algum aspecto do seu trabalho e fale sobre ele. Se
tempo e bateria não forem problema, você pode também fazer algumas perguntas que você sabe que
não serão usadas, para estabelecer uma comunicação com o(a) cientista. Você pode precisar explicar a
situação toda para os cientistas, para que saibam que várias pessoas serão entrevistadas para compor
a reportagem – do contrário, o(a) entrevistado(a) pode pensar que a matéria é um perfil dele ou dela ,
em vez de um apanhado de muitas vozes, o que pode frustrar algumas expectativas.
Televisão (ao vivo/ em estúdio): Preparar o(a) cientista para as características intimidantes de um
estúdio pode ser tão importante quanto preparar uma lista de perguntas. Certifique-se de que ele ou
ela sabe dos desafios visuais da TV. Ele ou ela está vestido(a) de forma apropriada para a entrevista?
Sabe para onde olhar? Pode trazer objetos que ajudem a explicar seus trabalhos? Sabe o que fazer
com as mãos?
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Curso On-line de Jornalismo Científico
Televisão (reportagem editada): Uma entrevista não é suficiente. Você precisa de imagens do(a)
cientista trabalhando e, talvez, conversando com você. Imagens do(a) cientista olhando num
microscópio ou andando no laboratório podem ser mais importantes do que suas falas. Você avisou
ao(à) cientista de quanto tempo pode precisar para filmar a sequência de imagens?
3.9 Começando a entrevista
Locação, locação, locação. Onde você vai fazer a entrevista? Não em um escritório desinteressante – o
seu ou o do(a) entrevistado(a).
Tente encontrar o laboratório onde a pesquisa realmente foi feita. Ou uma fábrica produzindo as
novas drogas. Ou no campo, para pesquisas em agricultura. Ou em um hospital.
Onde quer que você esteja, prepare-se como se fosse para uma entrevista de emprego. Vista-se
bem, dê um aperto de mãos, faça contato visual, dirija-se às pessoas usando o título adequado, sente
direito, preste atenção, agradeça no final. Esteja pronto ou pronta para entrevistar pessoas mais velhas,
mais novas, homens, mulheres, locais ou estrangeiras. Trate todas de maneira profissional.
Nós todos caímos em certos padrões. Esteja ciente deles. Não entreviste dez funcionários do
governo seguidos. Se as organizações continuam apontando apenas cientistas homens e mais velhos,
aposte em mulheres jovens para uma variedade de vozes e opiniões.
Algumas vezes a assessoria de imprensa marca as entrevistas. Mas poucas assessorias estão
efetivamente preparadas para atender a imprensa: tendem a focar no trabalho de melhorar a imagem
da instituição. Nunca deixe um funcionário ou funcionária de assessoria participar da entrevista.
Mande-os tomar um café. Se por algum motivo isso não for possível, posicione o assessor ou assessora
em um lugar onde você possa vê-lo(a), mas o entrevistado ou entrevistada não. E então o(a) ignore.
Os entrevistados podem se sentir julgados e constrangidos se outros colegas participarem da
entrevista. Tente falar com todos eles individualmente. Lembre-se de que você está no comando:
não deixe o microfone nas mãos dos outros, mantenha-o com você. Se o entrevistado ou entrevista
começar a falar olhando para a câmera, pare, explique e faça de novo. Se o entrevistado ou
entrevistada começar a falar como se conversasse com outros especialistas, pare de novo. Sua
responsabilidade é com a audiência.
3.10 Entrevistas na rádio ou na TV ao vivo
Na rádio ao vivo, sua primeira pergunta deve ser a mais interessante, ou seu ouvinte vai trocar de
estação. A primeira questão não deve ser muito aberta, mas ir direto ao ponto. Os entrevistados não
podem ter chance de escapar da pergunta.
Na transmissão de rádio ao vivo, há apenas o momento presente. Em conversas mais longas por
telefone na rádio, perguntas (e respostas) podem precisar ser revistas, porque a audiência pode ter
mudado enquanto você estava no ar. Se possível, avise ao(à) cientista para evitar dizer coisas do tipo
“como eu disse antes” ou “como eu disse durante o intervalo”.
Se você puder levar o(a) cientista ao estúdio em vez de falar com ele pelo telefone, o som fica muito
melhor. Se você puder fazer a entrevista ao vivo diretamente do lugar onde a ciência é feita, diga aos
ouvintes: “Estou aqui onde a ovelha Dolly foi clonada, com o homem que a clonou...”.
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A entrevista
Na televisão ao vivo, decore previamente suas questões, de forma que você poderá fazer contato
visual com o(a) cientista. Esteja preparado para mudar a ordem das perguntas para fazer questões
relacionadas de acordo com as respostas.
Mesmo com toda a pressão do tempo em entrevistas ao vivo, sempre refaça as respostas se você
não entendeu – “em outras palavras, a questão é...” –, em vez de simplesmente seguir para a próxima
pergunta da sua lista.
Nunca assuma que o telespectador ou ouvinte assistiu à entrevista ou a ouviu inteira. Trabalhe
detalhes, contextos e temas em tantas perguntas quanto possível, em benefício daqueles que
acabaram de ligar a TV ou rádio.
Nunca faça perguntas que possam ser respondidas com “sim” ou “não”, porque elas podem
arruinar uma entrevista.
E nunca faça o tipo de pergunta que pode fazer o entrevistado ou a entrevistada tomar o
controle da conversa, como “o que é importante sobre seu trabalho?” Um material para mídia
eletrônica, internet ou impresso pode simplesmente eliminar a questão, mas uma transmissão ao vivo
não dá essa opção.
3.11 Entrevistas na rádio ou na TV editadas
Para uma reportagem de rádio editada, você quer uma variedade de vozes, todas elas falando pouco.
Pode ajudar pedir aos cientistas entrevistados que usem sua pergunta como o começo da resposta:
“Por que precisamos de pesquisas em malária?” “Precisamos de pesquisas em malária porque...”.
Evite perguntas com referências de horário e data. Use o som ambiente – o som da ciência em ação
– tanto quanto possível. Ele traz o ouvinte para dentro da ciência. É bom explicar o som. E é melhor
ainda fazer com que o entrevistado ou entrevistada o explique. Por exemplo, o entrevistado ou
entrevistada pode dizer: “Esta é a vaca que usamos para testar vacinas contra mordidas de carrapato...”,
seguido de um som de mugido.
Para reportagens de televisão editadas, esteja bem preparado(a) com um número pequeno de
perguntas que vão direto ao ponto. Mas, ao mesmo tempo, esteja pronto para fazer uma pergunta
importante repetidas vezes, até conseguir uma fala adequada. Não hesite em interromper o(a)
cientista para dizer que sua resposta foi muito longa – câmeras e editores esperam que você, jornalista
ou produtor(a), entregue os resultados rapidamente. Você pode precisar voltar rápido para a ilha de
edição. Não perca tempo tolerando o desejo do cientista(a) de explicar tudo – você sempre pode
sugerir a possibilidade de uma matéria relacionada depois!
3.12 Entrevistas para impressos e internet
Muitos cientistas se sentem mais confortáveis com impressos, mas sites na internet estão ganhando
cada vez mais popularidade. Textos on-line podem oferecer links para recursos como artigos
científicos, sites de instituições de pesquisa ou páginas pessoais dos cientistas entrevistados.
Você precisa mostrar aos cientistas quanto tempo eles devem investir na entrevista. A citação terá um
ou dois parágrafos? Será uma entrevista de três minutos ou o esforço de um dia inteiro de trabalho?
Para amanhã ou para o final de semana?
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Curso On-line de Jornalismo Científico
Como os prazos não costumam ser tão extremos quanto os de rádio e TV, às vezes você pode usar a
entrevista para construir um relacionamento com o(a) cientista. Inclua algumas questões básicas para
checar os fatos, como a grafia correta do nome do entrevistado ou entrevistada e de sua organização,
de forma que o(a) cientista relaxe. Pode ser útil começar com perguntas que indicam o seu nível de
conhecimento sobre o assunto, em vez de começar com as questões mais importantes. Considere
a possibilidade de fazer uma foto com câmera digital ou celular, caso seja necessário, pois imagens
podem ajudar a conseguir mais espaço e destaque para seu texto.
3.13 Entrevistas coletivas
Todos os seus concorrentes participarão de uma entrevista coletiva. Mesmo que você consiga uma
entrevista privada com os entrevistados depois, os textos sobre o evento tendem a ser parecidos.
Ainda assim, as coletivas são uma fonte comum de entrevistas.
Então, faça sua matéria soar diferente. Discretamente, fale com pessoas comuns afetadas pelos temas
em questão, como pessoas vivendo com tal doença e enfermeiros e médicos responsáveis por seu
tratamento, ou um fazendeiro que deseja plantar sementes geneticamente modificadas. Aliás, se você
conseguir marcar as entrevistas com essas pessoas antes da coletiva, poderá fazer perguntas melhores.
Coletivas frequentemente colocam à disposição apenas o diretor ou diretora do departamento
ou cientista mais importante para falar. É muito mais interessante entrevistar um grupo grande de
pessoas envolvidas na pesquisa, como técnicos de laboratório, estudantes de pós-graduação da
universidade e pessoas que vão a campo, em vez de se restringir apenas ao topo da hierarquia.
Pegue um membro da equipe que ficou de fora da coletiva para uma entrevista posterior – esta é
a sua chance de uma exclusiva, para conseguir informações mais pessoais e dicas sobre o que mais
investigar ou quem mais entrevistar.
É sempre uma boa ideia, depois de uma coletiva, entrevistar pelo menos um ou uma especialista
que pode apontar potenciais falhas na pesquisa ou o que precisa ser feito em seguida, mas você
precisa encontrar alguém que não esteve envolvido na pesquisa e, se possível, que não trabalhe
no mesmo departamento nem na mesma universidade.
3.14 “Não estou entendendo”
Um ou uma cientista diz algo completamente incompreensível. Você faz um sinal para que ele
ou ela vá mais devagar: “Como eu explico isso para meus leitores ou audiência?”.
Esta é com certeza a pergunta mais importante para se fazer numa entrevista sobre ciência:
“Não estou entendendo. Você pode, por favor, explicar de novo?”
Diga isso de forma confiante: não é motivo de vergonha. Esteja preparado ou preparada para dizê-lo
várias vezes, até que o(a) entrevistado(a) explique as coisas de uma maneira que faça sentido para você.
Se você não entende, como as outras pessoas vão entender? Sua responsabilidade é com os seus
leitores ou sua audiência. Você lhes deve as respostas para suas perguntas. Inventar não é uma opção.
E estas não são perguntas ultrajantes, que depreciam os cientistas.
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A entrevista
Mesmo para uma matéria de impresso ou internet, o fato de você estar gravando a entrevista não
diminui a necessidade de esclarecer as coisas durante a conversa. É tentador pensar na próxima
pergunta e esperar que a resposta será mais clara quando você ouvir a gravação, mas não funciona
assim. Se o tema não está claro durante a entrevista, como poderá ficar claro para os leitores?
Evite termos técnicos e conceitos científicos retirados dos relatórios dos cientistas, a menos que
eles sejam absolutamente críticos para a entrevista. Se eles forem necessários, construa a pergunta
de modo que ela contenha uma explicação ou induza o(a) entrevistado(a) a explicar o que ele ou
ela quer dizer com determinado termo ou conceito – por exemplo, se ele ou ela está falando de um
acelerador de partículas, em física de partículas, ou da “memória imunológica”, em pesquisas de vacinas.
Exemplo
Na edição de 21/02/09 do programa de rádio Pesquisa Brasil, as apresentadoras entrevistam o botânico
Marcos Buckeridge, da Universidade de São Paulo (USP). [http://www.revistapesquisa.fapesp.br/index.
php?art=5393&bd=2&pg=1&lg=]. Ele é um dos coordenadores do Programa Fapesp de Pesquisa em
Bioenergia (Bioen) e explica os resultados de um estudo segundo o qual o excesso de gás carbônico
no ar estimula a produção de glicose pela cana-de-açúcar. O estudo tem aplicações importantes
na indústria do etanol. Para iniciar a entrevista, uma das jornalistas pede ao pesquisador: “Eu queria
que você explicasse para os ouvintes o que de fato a sua equipe conseguiu provar em relação à
fotossíntese da cana-de-açúcar e por que isso é importante para a produção futura de etanol”. Era uma
forma de fazer com que o entrevistado explicasse as coisas claramente. Você entendeu a resposta?
Você teria feito outra pergunta para começar esta entrevista?
3.15 “Então, o que você está dizendo é...”
O(a) cientista diz alguma coisa numa terminologia científica. Quase imediatamente, na sua cabeça,
você traduz a expressão para o estilo de redação jornalístico de sua publicação. Não fique calado.
Traga a questão para a conversa: “Meu jornal provavelmente dirá...”. Ou talvez, “Então, se entendi
corretamente, você está dizendo...” Você deve insistir na linguagem simples.
Geralmente, você não deve, durante uma entrevista, ficar mais de dez minutos sem fazer uma
pergunta para checar sua compreensão do que o(a) cientista diz. E fazer muitas entrevistas
com mais de 30 minutos sugere que você não fez seu trabalho e não entendeu as questões. Se
você pretende usar apenas poucas falas do(a) entrevistado(a) na matéria final, evite desperdiçar o
tempo dos cientistas: prepare-se para a entrevista e já comece sabendo exatamente o que você está
buscando. Considere voltar ao início das suas anotações e revisar o material discutido previamente
com o entrevistado ou entrevistada. Você pode querer checar se todas as suas perguntas foram
respondidas. Ao mesmo tempo, se surgirem novas informações, você deve estar aberto(a) para desistir
das questões que planejou.
Por outro lado, se você está fazendo um perfil ou reportagem especial, você pode querer falar com
o(a) cientista enquanto o(a) segue durante um dia de trabalho. Tudo bem.
É bom fazer uma entrevista longa se você estiver desvendando uma fraude ou um engano de
qualquer tipo. Apenas não faça a pergunta mais crítica no começo, ou a entrevista pode acabar sendo
muito curta! Em entrevistas que envolvem confronto, você pode ter que “concordar em discordar”.
Deixe o microfone ligado no final da entrevista. As pessoas começam a dizer todo tipo de coisas
depois que a entrevista parece ter acabado!
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Curso On-line de Jornalismo Científico
3.16 Mantendo o controle da entrevista
Você pode precisar interromper o(a) cientista. Alguns pesquisadores não param de falar. Eles
ligam o “modo educativo”. Nesse caso, chame-os, diga seus nomes de maneira clara e firme. Repita se
necessário. E repita de novo, mesmo que você esteja no ar. Você está no controle da entrevista. Se o(a)
cientista se recusar a lhe atender, intervalos comerciais podem ser usados em programas de rádio e
TV ao vivo. Repórteres de meios impressos descansam suas canetas e cruzam os braços. Cinegrafistas
desligam suas câmeras. Explique que você não é um datilógrafo ou relator, e que você não pode
educar a audiência, apenas informá-la, no espaço e tempo disponíveis. Não é possível despachar tanta
quantidade de informação para o domínio público por meio do jornalismo. Um doutorado leva tempo.
Às vezes, cientistas com pesquisas duvidosas – ou aqueles com interesses comerciais – procuram pela
mídia. Um ou uma cientista que fica feliz em ver uma câmera ou microfone não necessariamente é um
bom sinal. Às vezes você vai ter que dizer “não” a cientistas cujas pesquisas não merecem uma matéria.
Uma notícia corporativa? Aja com precaução. Há evidências para confirmar as declarações?
Encontre e entreviste um ou uma cientista que não tenha ligação financeira ou pessoal com os outros.
Evite falar com um ou uma cientista como se estivesse no mesmo nível que ele ou ela. Mesmo
conhecendo bem o tema, isso não ajuda o seu leitor ou ouvinte, que não é um especialista no assunto.
Tentar colocar informação demais numa matéria também pode ser perigoso.
3.17 Perguntas para emergências
Você não conhece o assunto, não sabe o nome da pessoa que está entrevistando e precisa terminar a
entrevista em cinco minutos – isto é uma emergência!
Peça um cartão de visitas se você não sabe o nome do(a) cientista. Não tem cartão? Pergunte pela
grafia correta de seu nome completo.
Está no ar? Peça a eles que se apresentem e disfarce:
“Em linhas gerais, o que é mais instigante no seu trabalho?”
Essa questão, e outra similar, “Qual é o aspecto mais importante do seu trabalho?”, não funcionam
muito bem em entrevistas ao vivo, porque a resposta é inevitavelmente longa.
Então, tente uma alternativa mais rápida, como: “Que tipo de resposta tem havido para sua pesquisa?”
Ou: “Descreva o dia em que você fez sua descoberta.”
Eles podem dizer “Não, não, não, esse processo envolveu dúzias de pessoas trabalhando
exaustivamente por uma década”. Ótimo! Isso dá boas aspas para a matéria.
Tente: “Conte que descobertas científicas você fez hoje” ou “Por que a sua área de pesquisa é
importante (ou relevante) para os cidadãos comuns do país?”
E pergunte: “O que acontece depois do processo de descoberta?”
Se você voltar às bases da pesquisa científica, faça relações com as necessidades da comunidade
e a exploração intelectual. Você vai ver que há uma notícia em cada entrevista – mesmo que o(a)
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A entrevista
entrevistado(a) admita que ele ou ela acha o assunto apaixonante, mas não sabe se ajuda alguém
mais. Muitas descobertas científicas relevantes começam assim.
Outra questão boa é: “Qual é a coisa mais interessante no seu trabalho?”
É uma questão deliberadamente aberta e faz com que os cientistas dêem uma visão mais pessoal e
pitoresca. Um ouvinte ou leitor pode não saber nada sobre bioinformática, mas vai ouvir com interesse
um cientista que diz: “A coisa mais interessante da bioinformática é que você pode sair para a floresta,
pegar seu laptop, sentar e fazer seu trabalho”.
3.18 Questões (1-4)
As questões a seguir vão ajudar você a revisar os pontos explicados na Lição 3.
Questão 1:
Uma empresa anuncia um novo produto à base de ervas que, segundo eles, vai curar uma doença
importante. Todas as declarações e evidências vêm da própria empresa. Qual é a sua primeira questão
para os entrevistados a seguir?
a. O porta-voz da empresa
b. Alguém que sofre da doença
c. Um representante da Organização Mundial da Saúde
d. Um médico local
Questão 2:
Enquanto você está falando com um representante de uma instituição científica ou ministério de
ciência numa entrevista presencial, ele ou ela diz: “Essa questão não é importante. Não vou respondêla.” O que você deve responder?
a. “Você está evitando esta pergunta?”
b. “Não posso forçar você a responder à pergunta, mas isso faz parecer que você está fugindo da questão”.
c. Você não responde nada, simplesmente vai para a próxima pergunta.
d. Você repete a pergunta.
e. Você evita o confronto, mas depois faz uma reclamação com o chefe do entrevistado.
Questão 3:
Há um surto de gripe aviária na sua região. Um jornalista entrevistou as pessoas a seguir, fazendo a cada
entrevistado uma pergunta. Por que estas perguntas não estão adequadas ao entrevistado em questão?
a. Numa pequena criação de galinhas para subsistência, uma avó que trabalha no mercado informal;
“Você sabe como o H5N1 funciona?”
b. Um veterinário do governo, encarregado de monitorar o maior mercado de frangos do país; “Por
que você não fez mais para combater a gripe aviária?”
c. Um ativista protetor das aves que afirma que a gripe aviária não existe de verdade, mas é um
complô da CIA e de agências de inteligência ocidentais para destruir a economia local; “Descreva essa
armação da CIA para nos fazer acreditar em gripe aviária.”
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Curso On-line de Jornalismo Científico
d. O dono de uma grande empresa que possui muitas fazendas de frangos, assim como a rede de
distribuição que leva os produtos aos supermercados; “O governo está fazendo o suficiente para
proteger sua produção?”
e. Um representante da indústria farmacêutica divulgando algumas drogas contra gripe aviária; “O
governo está comprando medicamentos suficientes da sua empresa?”
f. Um epidemiologista local; “Você pode me dizer quantas mortes têm ocorrido – em números
absolutos e porcentagens da população de aves – e comparar a situação com a do ano passado?”
Questão 4:
Pessoas poderosas podem fazer você se sentir intimidado(a) durante uma entrevista. Mas, na verdade,
elas estão acostumadas a serem questionadas. Então, às vezes, o maior obstáculo é sua própria
atitude. Escreva quais seriam suas principais questões se você fosse entrevistar as pessoas abaixo:
a. O vencedor do Prêmio Nobel da Paz e primeiro presidente democrático da África do Sul, Nelson
Mandela, sobre HIV/Aids.
b. O presidente ou primeiro ministro do seu país, depois de a imprensa anunciar que seu filho é HIV
positivo.
c. O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), sobre mudanças climáticas.
d. O presidente do Banco Mundial, sobre a importância de financiar pesquisas e desenvolvimento
científicos.
e. Um(a) professor(a) de física quântica que acabou de receber a notícia de que ganhou o Prêmio
Nobel deste ano.
3.19 Respostas das questões (1-4)
Questão 1:
Há uma variedade de respostas possíveis, incluindo as seguintes:
a. Alguém mais tem uma confirmação científica e independente dos resultados?
b. Conte-nos sobre o dia em que você descobriu que sofria dessa doença.
c. Que passos devem ser tomados imediatamente para lidar com essa doença?
d. Quão grande é o risco à saúde causado por essa doença?
Questão 2:
a. Uma resposta aceitável, desde que dada de forma calma e profissional. Se os jornalistas aparentam
estar chateados ou irritados, isso pode sugerir que estão levando as coisas para o lado pessoal.
b. Uma boa resposta, porque deixa o caminho aberto para a pessoa entrevistada responder à pergunta
original.
c. Uma resposta terrível. Você não tem controle sobre a entrevista, abdicou dele!
d. Uma resposta possível, mas pode ser tedioso em uma transmissão ouvir a mesma pergunta
ser repetida de maneira idêntica. Porém, pode ser adequada se a entrevista for para matérias de
impressos e internet.
e. Esta tática não recupera a entrevista de verdade. Só vale a pena se você sabe que vai precisar
entrevistar essa pessoa regularmente.
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A entrevista
Questão 3:
Várias respostas são possíveis, incluindo:
a. Você pode receber a resposta “sim” ou “não”, o que não ajuda muito. E a pergunta não faz jus às
vantagens de entrevistar pessoas leigas sobre temas de ciência.
b. Queremos saber o que ele faz quando vê uma ave morta. Não queremos culpar um indivíduo por
todas as políticas de governo, sobretudo quando se trata de uma doença altamente contagiosa e
pouco compreendida. E a questão não pergunta nada de interessante sobre o trabalho do veterinário.
Quando perguntado sobre as questões certas, um veterinário indiano uma vez falou sobre o estresse
de lutar contra a gripe aviária – lidar com galinhas doentes e, ao mesmo tempo, com os resultados de
exames demorando meses para sair.
c. Em algumas circunstâncias, você pode convencer um entrevistado a destruir sua própria
argumentação desta maneira, especialmente se a sua audiência é bem-informada sobre o assunto.
Mas considere estes incidentes recentes: uma campanha de vacinação contra pólio enfrenta
dificuldades na Nigéria e partes da Índia depois de alegarem que crianças vacinadas se tornaram
adultos inférteis; o governo da África do Sul se recusa a acreditar na existência de HIV/Aids; o
presidente do Gâmbia diz que pode curar pessoas com Aids em três dias usando ervas; a polícia
do Zimbábue confiscou produtos de higiene das mulheres alegando que estavam envenenados.
É essencial nessas situações oferecer um conjunto equilibrado de opiniões, a fim de evitar dar
visibilidade exagerada a ideias que não merecem.
d. As pessoas sempre vão concordar que os outros deviam estar fazendo mais coisas para resolver
determinada situação. Você quer descobrir o que ele está fazendo, não o que ele pensa que o governo
deveria fazer.
e. Você já ouviu alguém de uma indústria farmacêutica dizer que eles estão vendendo demais?
f. Perguntar qualquer coisa que resulte em muitos números vai confundir você e seu leitor. Mantenha
o menor número possível de números.
Questão 4:
Há uma variedade de repostas possíveis.
3.20 Exercícios (1-4)
Estes exercícios estão relacionados à parte teórica da Lição 3. Você pode fazê-los e depois discuti-los
com um tutor, mentor ou outros colegas.
Exercício 1: Entrevistas para um dia sem muitas notícias
Entre em contato com uma organização científica de seu país ou região. A maioria dos países tem uma
Academia de Ciências, e você pode encontrar muitas delas na lista de membros do site da Academia
de Ciências para Países em Desenvolvimento [http://www.twas.org] ou no Painel Interacadêmico de
Questões Internacionais [http://www.interacademies.net]. Muitos países têm algum tipo de Conselho
de Pesquisa Científica e Industrial. Ou você pode investigar faculdades de ciências nas universidades.
Encontre o cientista mais antigo e o mais novo da instituição: há de existir alguma ideia de pauta aí.
Se possível, visite-os pessoalmente e conversem numa cafeteria ou qualquer outro lugar possível.
Identifique-se. Pergunte o que eles fazem. Pergunte se você pode manter contato com eles. Pergunte o
que é interessante no trabalho deles. Isso é construção de relacionamento. Mas tem retorno: você pode
acabar fazendo um perfil, pré-apurando uma pesquisa que ainda não foi publicada, ou reportando o
cuidadoso processo da ciência ou cortes no financiamento. Isso é o que você deve fazer num dia mais
calmo de trabalho.
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Curso On-line de Jornalismo Científico
Exercício 2: Conseguindo mais a partir de uma entrevista
Este é um exercício que você pode facilmente fazer nas entrevistas que você já agendou.
a. Quando fizer uma entrevista presencial, reserve dez minutos para entrevistar a pessoa de novo num
estilo completamente diferente. Por exemplo, se você está fazendo um texto noticioso, tente fazer um
perfil. Se você está fazendo uma gravação de som para uma matéria de rádio, que tal tentar algo para
um programa ou talk show? Você pode acabar usando as duas entrevistas, para diferentes veículos.
b. Você também pode fazer a mesma entrevista considerando diferentes mercados. Você faria as
mesmas perguntas para uma matéria de 800 palavras num site internacional como SciDev.Net, uma
nota de três parágrafos num jornal diário local ou na seção de notícias da Nature?
Exercício 3: Novas tecnologias em entrevistas
Tente começar e conduzir uma breve entrevista internacional por e-mail, mensagens instantâneas,
Skype ou outra tecnologia, incluindo telefone celular. Tente entrevistar um colega – estudante ou
jornalista – que estará aberto a experimentar a nova tecnologia, mas tente não escolher alguém
de sua vizinhança ou país. Se você está interessado nas mais novas tecnologias, tente começar seu
próprio blog ou podcast sobre ciências, no qual você documenta suas entrevistas.
Exercício 4: Ampliando o escopo da sua entrevista
Selecione seu candidato menos desejável para uma entrevista de ciências. Por exemplo, se você
odiou matemática, nunca entendeu física ou se seu editor acha que a geologia é irrelevante, escolha
alguém importante nessas áreas. Tente entender um pouco de seu trabalho e fazer uma entrevista
sobre o tema – talvez uma entrevista pessoal, para que você não tenha que explicar muitos conteúdos
científicos, mas possa perguntar sobre sua vida, seu marido ou esposa e seus filhos. E pergunte por
que eles gostam de seu trabalho, em vez de focar no próprio trabalho sem um toque mais pessoal.
Escreva o texto em 800 palavras para uma audiência internacional. Envie para um site sem fins
lucrativos, como [http://www.scienceinafrica.co.za], por exemplo, ou sites e boletins de ONGs. Você
pode também enviá-lo aos cientistas sobre cujo trabalho você escreveu, para que eles encaminhem
para os sites de suas instituições. Se o texto for apropriado, ele pode ser publicado, sobretudo se tiver
imagens. Eles não vão cobrar pela edição e, em troca, você não será pago.
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