relação entre qualidade de sono e meio socioeconômico

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relação entre qualidade de sono e meio socioeconômico
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE FLUMINENSE DARCY RIBEIRO
CENTRO DE CIÊNCIAS DO HOMEM.
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO E COGNIÇÃO E LINGUAGEM –
PPGCL/UENF
LUIS FABIANO CABRAL RIOS
RELAÇÃO ENTRE QUALIDADE DE SONO
E MEIO SOCIOECONÔMICO CULTURAL:
estudo exploratório com idosos de uma comunidade de baixa renda.
Campos dos Goytacazes.
Julho de 2011
RELAÇÃO ENTRE QUALIDADE DE SONO E
MEIO SOCIOECONÔMICO CULTURAL:
estudo exploratório com idosos de uma comunidade de baixa renda
LUIS FABIANO CABRAL RIOS
Dissertação de Mestrado apresentada ao
Centro de Ciências do Homem da
Universidade
Estadual
do
Norte
Fluminense, como parte das exigências para
obtenção do título de Mestre em Cognição e
Linguagem.
Orientadora: Profª Dra. Rosalee Santos Crespo Istoe
Co-orientador: Prof. Dr. Gerson Tavares do Carmo
Campos dos Goytacazes-RJ
Julho 2011
FICHA CATALOGRÁFICA
Preparada pela Biblioteca do CCH / UENF
017/2011
R586 Rios, Luis Fabiano Cabral
Relação entre qualidade de sono e meio socioeconômico cultural:
estudo exploratório com idosos de uma comunidade de baixa renda /
Luis Fabiano Cabral Rios -- Campos dos Goytacazes, RJ, 2011.
81 f.: il
Orientador: Rosalee Santos Crespo Istoe
Dissertação (Mestrado em Cognição e Linguagem) –
Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, Centro
de Ciências do Homem, 2011
Bibliografia: f. 71 - 74
1. Sono – distúrbios. 2. Idoso. I. Universidade Estadual do Norte
Fluminense Darcy Ribeiro. Centro de Ciências do Homem. II.
Título.
CDD
154.6
LUIS FABIANO CABRAL RIOS
RELAÇÃO ENTRE QUALIDADE DE SONO E MEIO SOCIOECONÔMICO
CULTURAL: estudo exploratório com idosos de uma comunidade de baixa renda
Dissertação apresentada ao Centro de Ciências do
Homem, da Universidade Estadual do Norte Fluminense
Darcy Ribeiro, como parte das exigências para obtenção
do grau de Mestre em Cognição e Linguagem.
Aprovada em 05 julho de 2011.
BANCA EXAMINADORA
_____________________________________________________________
Rosalee Santos Crespo Istoe (Orientadora)
Prof a . Doutora em Ciências-FIOCRUZ/RJ. Universidade Estadual do Norte Fluminense
Darcy Ribeiro (UENF)
_____________________________________________________________
Gerson Tavares do Carmo(Co-orientador)
Prof. Doutor em Sociologia Política – Universidade Estadual do Norte Fluminense
Darcy Ribeiro (UENF)
_____________________________________________________________
Carlos Henrique Medeiros de Souza
Prof. Doutor em Comunicação –UFRJ. Universidade Estadual do Norte Fluminense
Darcy Ribeiro (UENF)
_____________________________________________________________
Vera Lúcia Marques da Silva
a
Prof . Doutora em Saúde Coletiva – IMS-UERJ. Faculdade de Medicina de Campos dos
Goytacazes
(FMC)
3
A meus pais, pois tudo que faço é por eles
e para eles.
A minha esposa e meu filho que não me
deixaram desistir.
A meu grande amigo Gerson, sem ele não
teria conseguido.
A minha professora e orientadora Rosalee,
que me aceitou como filho e me conduziu até o
fim do caminho.
A professora Vera que permitiu e
incentivou toda a pesquisa.
Ao professor Carlos Henrique, que me
resgatou, como um pai que ama, foi atrás do filho
desgarrado.
A meu cunhado Savio, que nunca se negou
a me ajudar.
A todos os meus pacientes, que
contribuíram para realização desta pesquisa.
A Deus, que não se cansa de me amar e me
dá oportunidades na vida.
Ao professor Maurício Escocard que
sempre disse sim aos meus pedidos.
4
“Persevere, sempre persevere! O mestre nos
ensinou que chega ao final quem persevera
sempre; não quem só começa bem.”
São Pio de Pietrelcina
5
RELAÇÃO ENTRE MEIO SOCIOECONÔMICO CULTURAL:
estudo exploratório com idosos de uma comunidade de baixa renda.
RESUMO:
A presente pesquisa tem como objetivo investigar as relações existentes entre a queixa
(percepção) da má qualidade do sono e a qualidade do sono em si (insônia) em idosos de uma
comunidade de baixa renda. Problematiza-se se o contexto socioeconômico cultural interfere na
manifestação de reclamações de má qualidade de sono dos idosos, por meio de representações
sociais expressadas por este grupo como expressão de uma sociabilidade na comunidade. A
pesquisa foi realizada em uma amostra de vinte e oito idosos, acima de 60 anos, que se queixaram
da má qualidade do sono, no atendimento ambulatorial no Centro de Saúde Escola de
Custodópolis, instituição ligada a Faculdade de Medicina de Campos. Utilizando o Inventário de
Pittsburgh, a Escala de Sonolência de Epworth e o Exame de Polissonografia para diagnóstico
clínico do quadro de insônia, foram encontrados resultados sugestivos nos quais as queixas de má
qualidade de sono dos pacientes examinados não podem ser consideradas como insônia. Por meio
de entrevistas analisadas por critérios da Teoria das Representações Sociais foi possível
identificar a influencia do meio socioeconômico cultural nas queixas de má qualidade do sono
registradas.
Palavras-chave: sono; representação social; idoso.
6
RELATIONSHIP BETWEEN CULTURAL SOCIOECONOMIC ENVIRONMENT:
an exploratory study with an elderly low-income community.
ABSTRACT:
This research aims to investigate the relationship between complaint (perceived) poor sleep
qualities and sleep quality in itself (Insomnia) in an elderly low-income community.
Problematizes of the context interferes cultural socioeconomic with the expression of cultural
claims poor sleep quality of the elderly through social representations expressed by this group as
an expression of sociability in the community. The survey was conducted on a sample of twentyeight elderly, above 60 years, who complained of poor sleep quality in ambulatory care at Centro
de Saúde Escola de Custodópolis, an institution linked to the Faculdade de Medicina de
Campos. Using the Inventory of Pittsburgh Scale Epworth sleepiness and polysomnography for
diagnosis of clinical Table of insomnia, were found in which the suggestive results complaints of
poor sleep quality of patients cannot be examined considered insomnia. Through interviews,
analyzed by the criteria Social Representations Theory was possible to identify the influence
of cultural socioeconomic environment in the complaints of poor sleep quality recorded.
Keywords: sleep; social representation; elderly
7
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO.......................................................................................................................
10
1-CONSIDERAÇÕES INICIAIS............................................................................................
13
2- A COMUNIDADE DE CUSTODÓPOLIS.........................................................................
18
3- A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS............................................................
22
4- A QUESTÃO DO SONO NO IDOSO................................................................................
27
5- METODOLOGIA................................................................................................................
36
5.1- Critérios e instrumentos para avaliação do sono...........................................................
37
5.2- Classificação da insônia.................................................................................................
38
5.3- Avaliação diagnóstica dos distúrbios do sono...............................................................
40
5.4- Monitorização Polissonográfica....................................................................................
41
6 - Aplicação do Inventário de Pittsburgh................................................................................
45
6.1- Análise dos resultados....................................................................................................
45
6.2- Conclusões dos resultados do Inventário de Pittsburgh...............................................
53
7- O EXAME DE POLISSONOGRAFIA.............................................................................
54
7.1- A realização do exame.................................................................................................
54
7.2- Interpretando os exames..............................................................................................
55
8- IDENTIFICAÇÃO DAS FUNÇÕES DE REPRESENTAÇÃO SOCIAL......................
63
9- CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................................
68
REFERÊNCIAS.....................................................................................................................
71
APÊNDICE............................................................................................................................
75
1- Pirâmide Etária de Campos dos Goytacazes, RJ........................................................
76
2- Inventário de Pittsburgh...............................................................................................
77
3- Escala de sonolência de Epworth.................................................................................
78
4- Entrevista semi-estruturada........................................................................................
79
5- Termo de Consentimento Livre e Esclarecido ...............................................................
80
8
LISTA DE GRÁFICOS
Gráfico 1 - Distribuição percentual das faixas etárias dos pesquisados................................
45
Gráfico2 – Distribuição percentual do horário de deitar ......................................................
46
Gráfico 3 - Distribuição percentual do tempo gasto para iniciar o sono...............................
46
Gráfico 4 - Distribuição percentual do horário em que os pesquisados acordavam.............. 47
Gráfico 5 - Distribuição percentual da média de horas de sono por noite ............................ 47
Gráfico 6 - Distribuição percentual dos despertares noturnos ou precoces .......................... 48
Gráfico 7 - Distribuição percentual das interrupções do sono para ir ao banheiro...............
49
Gráfico 8 - Distribuição percentual das queixas respiratórias durante o sono......................
49
Gráfico 9 - Distribuição percentual dos roncos e tosses durante o sono ..............................
50
Gráfico 10 - Distribuição percentual da incidência de dor durante o sono...........................
50
Gráfico 11 - Distribuição percentual da incidência de frio durante o sono...........................
51
Gráfico 12 - Distribuição percentual da incidência de calor durante o sono ........................ 51
Gráfico 13 - Distribuição percentual da incidência de referência de pesadelos ..................
52
Gráfico 14 - Distribuição percentual de outros fatores referidos que atrapalhariam o sono.
52
Gráfico 15 - Distribuição percentual das possíveis pessoas que tinham indícios que não
dormiam bem.......................................................................................................................... 53
Gráfico 16- Distribuição percentual de estágios do sono na noite de LMPR, 64 anos.........
57
Gráfico 17- Distribuição percentual de estágios do sono na noite de NVS, 72 anos............
58
Gráfico 18- Distribuição percentual de estágios do sono na noite de RCMR, 62 anos......... 59
Gráfico 19- Distribuição percentual de estágios do sono na noite de AHS, 75 anos............
60
Gráfico 20- Distribuição percentual de estágios do sono na noite de GOA, 83 anos...........
61
LISTA DE FIGURAS
Figura 1 - Histograma do sono de um idos durante 7 horas de sono............................... 35
9
INTRODUÇÃO
Estudos sobre o envelhecimento de nossa população, ou seja, pessoa com 60 anos ou mais
de idade informou que esse segmento vem tendo um crescimento acelerado. Assim sendo, tem-se
a expectativa de que, no ano 2025, estaremos com um contingente de idosos da ordem de,
aproximadamente, 32 milhões de pessoas. Conforme Veras e Camargo (1995), o Brasil deverá
ocupar o sexto lugar no mundo em população idosa.
A título de informação no apêndice desta pesquisa podemos encontrar a pirâmide etária
da população de Campos dos Goytacazes segundo dados do IBGE de 2010.
Essa possibilidade impõe a necessidade de se desenvolver ações e políticas públicas que
atendam as demandas desse segmento por saúde, educação, assistência social, enfim por
condições dignas de vida, tendo como grande desafio a se posto em prática a possibilidade de
promover a educação para a cidadania.
Como a cidadania é exercício, é movimento, educar para a cidadania é estabelecer o
desenvolvimento de um processo de aprendizado social na construção de novas formas de
relação, contribuindo para a formação e a constituição de cidadãos como sujeitos sociais e ativos.
O desafio se torna particularmente interessante quando enfrentado junto ao segmento idoso, onde
é comum encontrar pessoas que viveram toda uma vida muitas vezes passada ao largo da
possibilidade de fazer a reflexão sobre a sobre o significado da sua condição de cidadão.
É possível começar a exercer a cidadania, em qualquer etapa da vida, espaços que
possibilitam a educação para a cidadania, como as universidades abertas à terceira idade, centros
de convivência, grupos de reflexão, entre outros, têm levado os idosos a se perceberem e serem
fortalecidos na sua condição de cidadãos, sujeito de direitos.
No município de Campos dos Goytacazes, como ocorre na maioria das cidades do Brasil,
a população idosa, também crescente, conta com a implantação de programas convergentes para
essa realidade. Tornando-se de suma importância para garantia de mais saúde e qualidade de vida
a essa faixa etária.
O bairro escolhido para a realização dessa pesquisa foi o de Custodópolis por já trabalhar
com idosos neste bairro há seis anos e conhecer o bairro. É um bairro típico da periferia
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apresentando todos os problemas decorrentes do crescimento não planejado, conta hoje, com
aproximadamente doze mil habitantes, com alta incidência de violência no qual a educação, a
saúde, o transporte e o lazer tornaram-se precários. Na área da saúde o bairro conta com o Centro
de Saúde Escola de Custodópolis (CSEC), instituição ligada a Faculdade de Medicina de Campos
que realiza diversos trabalhos junto à população, dentre eles consultas médicas de várias
especialidades, fornecimento de medicamentos, grupos de convívio (com destaque para o de
idosos), vacinação, curativos, atendimento domiciliar, pesquisas populacionais. Foi nesse
ambiente cultural que, ao longo dos anos, por meio dos registros nos prontuários, verificamos
certa regularidade de queixas de insônia que podem não corresponder a priori a um quadro
clínico (conjunto de sinais e sintomas) compatível a literatura do sono no idoso, ou seja, seria
necessário que houvesse queixas de sonolência ou irritabilidade ao longo do dia, o que não se
fazia presente entre os idosos. Esse paradoxo levou-nos a intuir uma possível influência da
cultura local nas queixas registradas, em consequência transformou-se em objeto de pesquisa, no
qual a teoria das representações sociais tornou-se relevante.
A partir dessa perspectiva apontamos a seguinte pergunta norteadora: “Existe relação
entre qualidade de sono e o meio socioeconômico cultural dos idosos de uma comunidade de
baixa renda no bairro de Custodópolis no município de Campos dos Goytacazes/RJ?”
• Hipótese
Acredita-se que as representações sociais e as condições socioeconômico culturais da
comunidade de baixa renda têm realmente o poder de influenciar o cotidiano das pessoas idosas
no que diz respeito a sua qualidade de sono.
A presente pesquisa caracterizou-se, como estudo exploratório, com base em pesquisa de
campo, na qual se buscou observar, registrar, analisar, classificar e interpretar as queixas de má
qualidade do sono entre idosos, acima de 60 anos, moradores da comunidade, que procuraram o
ambulatório de geriatria no Centro de Saúde Escola da Faculdade de Medicina, situado na
comunidade de Custodópolis, do período de janeiro a julho de 2010. Por amostragem, foram
selecionados vinte e oito idosos que, após a leitura do termo de consentimento livre e esclarecido,
aceitaram participar da pesquisa. Com a finalidade de preservar a identificação da amostra, no
relato das entrevistas, optamos por usar apenas as iniciais de seus nomes. A seleção teve como
critério excluir indivíduos cuja queixa de má qualidade de sono pudesse estar associada a outras
11
comorbidades, como por exemplo, artrose, demência, doenças metabólicas etc., muito frequentes
nesta faixa etária. Foram utilizados quatro instrumentos: Inventário de Pittsburg, o exame de
polissonografia e a escala de sonolência de Epworth, aplicado aos participantes do exame de
polissonografia. Finalizando, por meio de uma entrevista semi-estruturada, com a finalidade de
identificar a influencia do meio socioeconômico cultural nas queixas de má qualidade do sono
que foram registradas, analisado-as por critérios da Teoria das Representações Sociais.
Objetivos
• Verificar se as condições socioeconômicas culturais da comunidade de Custodópolis
influenciam a produção de queixas de má qualidade do sono dos idosos pesquisados.
• Comparar as representações sociais das queixas proferidas pelos idosos cuja má qualidade
do sono pode ser clinicamente comprovada com as representações mentais dos idosos nos
quais as mesmas queixas não puderam ser comprovadas.
Esta pesquisa esta dividida em 5 (cinco) partes, sendo :
A Primeira parte tratará das considerações iniciais, abordando a problemática da queixa de
insônia e sua repercussão principalmente no que tange o uso de medicação de forma
indiscriminada.
A segunda parte será construída a partir da apresentação do local onde foi desenvolvida a
pesquisa.
A terceira parte expõe os resultados de um levantamento bibliográfico que enfoca as
questões relacionadas ao idoso, a insônia e as representações sociais.
A quarta parte será composta pela aplicação dos quatro instrumentos norteadores desta
pesquisa.
A quinta parte expõe os resultados encontrados, a análise desses dados e as considerações
finais.
12
1- CONSIDERAÇÕES INICIAIS
A pesquisa tem como finalidade estabelecer possíveis relações entre qualidade do sono e
meio socioeconômico cultural, mais especificamente entre a queixa da má qualidade do sono e o
meio socioeconômico cultural de uma população de baixa renda, como a comunidade de
Custodópolis. Vale ressaltar que segundo o IBGE é considerado baixa renda aquelas pessoas com
poder de compra entre dois e quatro salários mínimos, faixa está que inclui maioria absoluta dos
moradores de Custodópolis.
Nesse sentido, como médico geriatra, vimos observando ao longo de cinco anos de
trabalho nesta comunidade que a cada ano vem aumentando o número de pessoas idosas com
queixa de insônia, de dormir pouco durante as noites e quando conseguem dormir, mesmo após
horas na cama sem sono, não têm um sono tranquilo, o que resulta em um dia seguinte de muito
cansaço, irritabilidade dentre outras queixas apresentadas. Também percebemos que o uso de
medicação para dormir não segue qualquer critério, seja ele clínico ou ético. Não temos a prática,
talvez pela própria demanda de pacientes, de uma consulta clínica de caráter mais exploratória,
onde a escuta clínica pudesse nos auxiliar em alternativas terapêuticas que também fossem
eficientes e estivessem de acordo com as Políticas Públicas de atendimento ao Idoso. O ato de
ingerir muitos medicamentos, também chamado de medicalização, teve origem no século 19,
influenciada pela cultura do consumismo segundo Slater (2002), além de aumentar grandemente
o custo dos gastos do setor público da saúde, e muitas vezes desnecessariamente, pode trazer
inúmeros efeitos adversos na vida dos idosos. Considerando que o Brasil seja o quinto maior
consumidor de medicamentos do mundo e segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS)
dentre eles se destacam os ansiolíticos ingeridos em grande escala pela população idosa é que
justificamos a necessidade desta pesquisa.
Com base no trabalho de Barros (1983), a filosofia e a prática da modelo político
econômico social na sociedade capitalista em que vivemos nos levam a um consumismo
excessivo na dinâmica da base econômica e a área de saúde não fica de fora dessa tendência, logo
a indústria farmacêutica, muitas vezes sob a máscara de um propósito ético ou social de melhorar
o bem estar da população, adota uma postura que preconiza o máximo de consumo dos fármacos.
Interessa para tal indústria o máximo de doenças e consequentemente o máximo de tratamentos,
ou seja, medicalização. Os medicamentos assumem um papel que atende ao interesse capitalista,
13
do médico e do paciente ao mesmo tempo. A difusão generalizada da idéia do medicamento como
solução, permite que o médico ao prescrevê-lo satisfaça as expectativas dos pacientes e as suas
próprias. O momento da prescrição, então, passa a ser o mais importante, em detrimento da
anamnese e do exame físico, assim as consultas se abreviam, comprometendo sua qualidade,
consequentemente levando a uma maior possibilidade de erros.
Com o passar do tempo os medicamentos assumem um lugar de destaque na percepção e
na prática, tanto do médico quanto do paciente. Há que se considerar, neste contexto, funções não
propriamente ligadas à ação farmacodinâmica das drogas e sim as relacionadas com as
representações, ao nível simbólico que paciente e médico fazem do processo da doença.
Conforme Barros (1983, p. 378):
Para o médico, o medicamento adequadamente prescrito dá prestígio e realça o seu
poder sobre o paciente, para quem, igualmente, nada mais importante para caracterizar a
boa consulta que a prescrição, preferencialmente, da mais recente novidade
farmacêutica. (...) Prescrever o mais novo passou a ser sinal de competência e a
favorecer a boa imagem do médico que, assim agindo, aparentemente estaria
perseguindo uma maior "eficácia". A opção por remédios antigos, inclusive, poderia
fazer o paciente pensar não estar o seu caso merecendo o interesse devido.
Para Dupuy e Karsenty, (apud BARROS, 1983, p.379) o duplo papel representado pelo
medicamento poderia ser resumido em:
- Instrumento do arsenal médico que simboliza o saber por parte deste profissional;
- Sinal de ter sido dada a atenção de que o paciente se julga merecedor.
Essas funções simbólicas, associadas igualmente à confiança que o médico e o paciente
depositam em um produto resultante de pesquisa científica e moderna tecnologia, seguramente
são incentivadas pelos produtores com vistas a manter e ampliar a demanda. Em outras palavras,
os medicamentos , assim como os bens de consumo em geral, vêm assumindo ao lado do valor de
uso e ao de troca, uma conotação adicional que pode ser designada, utilizando outro referencial
teórico, como valor simbólico (BOURDIEU, 1989).
Dentre as técnicas de propaganda da indústria farmacêutica, Barros (1983, p.379)
afirma que sobressaem: a ingerência nas políticas de pesquisa; o financiamento de jornais e
revistas médicas; e o relacionamento com médicos que possam representar um aumento nas
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vendas. É bastante revelador que metade do orçamento da Associação Médica Finlandesa (id.
ib.), por exemplo, provem da indústria de remédios.
Christensen e Bush (apud BARROS, 1983, p. 379) em seus estudos identificaram que a
fonte mais citada como forma de conhecimento de uma nova medicação é o propagandista.
Assim, os médicos assimilam mais informações orais do que escritas a respeito de uma nova
medicação, logo os propagandistas têm importância fundamental neste processo.
Para se ter uma idéia, nos Estados Unidos nos anos de 1974/1975 havia um propagandista
para dez médicos, e no Brasil um propagandista para três médicos (1). Para Hemmink (id., p. 380)
as companhias vêem o propagandista muito mais como um promotor de vendas do que um agente
de relações públicas, as informações científicas por eles prestadas funcionam muito mais como
um método de vendas do que um canal confiável de instrução médica, por isto as empresas
investem pesado neste tipo de profissional chegando representar acima de 60% das despesas com
vendas no Brasil.
Conforme Barros (1983, p. 381), outro estudo realizado pelo Sainsbury Report, no Reino
Unido, mostra que os representantes de remédios constituem a principal fonte de informação
sobre a existência de um novo produto, na opinião de 78% dos médicos daquele lugar. Assim, se
num lugar, onde há fontes governamentais alternativas de informação, é tão influenciado pelos
propagandistas, o que dizer de um país como o Brasil, onde há dependência quase absoluta das
atividades promocionais dos laboratórios?
Outro fator que corrobora para a medicalização são as bulas encontradas nas caixas dos
medicamentos. Conforme o autor acima citado (p.381):
As bulas servem, junto a vários outros veículos promocionais como mecanismo para
incrementar as vendas, especialmente ao favorecer ou facilitar a automedicação. Ao
minimizar efeitos colaterais ou contra-indicações e ao ampliar a gama de indicações ou
efeitos terapêuticos, de preferência usando linguagem mais técnica no primeiro caso e
bem mais acessível ao leigo, no segundo, a bula se transforma com frequência em burla
(1)
Na promoção de drogas, particularmente na América Latina, o papel do propagandista é crucial. Alguns informes
numéricos, a seguir apresentados, são por si mesmos, uma indicação da importância dada a esse instrumento pela
indústria farmacêutica. Nos anos 1974/1975 estimava-se haver um propagandista para dez médicos nos EUA,
número que pode ser contrastado com uma média de 1:3 nos seguintes países: 640 para 2.000 médicos, na
Guatemala; 9.000 para 32.000 médicos, no México; 14.000 para 45.000 médicos, no Brasil (BARROS, 1983, p.
380).
15
O número excessivo de medicações existentes no Brasil, segundo Jesus (2001) causa
espanto uma vez que segundo a própria Organização Mundial de Saúde refere que não se faz
necessária uma quantidade tão variada de medicações “são mais de 32 mil rótulos de
medicamentos, com 12 mil substâncias, quando na verdade bastariam 300 itens”.(2) Tal fato
elucida a questão mercadológica implícito no uso de tais substâncias. Associado a isto temos
ainda o papel das farmácias e drogarias que se prestam muitas vezes a atender
indiscriminadamente a voracidade dos consumidores, gerando consequências, não raras,
desastrosas para os mesmos. Não é incomum encontrarmos balconista de drogarias vendendo
remédios para isto ou para aquilo conforme a queixa do comprador. Ainda não temos em nosso
país uma fiscalização eficiente sobre estas práticas. Contribuindo para este contexto temos que
levar em consideração a prática da automedicação, cujo senso comum atribui à falta de
atendimento público de saúde.
Lembramos aqui que em 1988 foi criado em nosso país o Sistema Único de Saúde (SUS)
que preconiza em suas diretrizes a Universalidade, Equidade e a Integralidade do atendimento
sendo a saúde direito de todos e dever do Estado (parágrafo 196 ao 200 da Constituição
brasileira), porém ainda não contemplamos eficazmente esta legislação e ao ligarmos a televisão
nos deparamos com notícias sobre as longas filas para se marcar uma consulta médica para dali a
um mês ou dois, isto se no dia da consulta o médico não faltar.
A universalidade trata do acesso de todos aos serviços de saúde independente de cor,
religião, sexo, idade, vínculo empregatício etc. A Equidade visa diminuir as desigualdades sociais
existentes no país, e a integralidade é o princípio ético que tem como objetivo cuidar das pessoas
em todas as suas necessidades seja elas preventivas, curativas ou de reabilitação. Aqui se
enquadra a Saúde do Idoso e todas as suas vertentes (educação, acessibilidade, laser, trabalho,
sociabilidade, autonomia, independência, alimentação, tratamento médico etc.).
Temos que entender que grande parte dos idosos requer alguns cuidados diferenciados
uma vez que eles se encontram em uma fase da vida em que suas capacidades funcionais estão
(2)
Justificação do Projeto de Lei N.º 5211, de 2005 que altera a redação do § 4º, do art. 7º da Lei 9.294 de 15 de julho
de 1996. Disponível em http://www.portaleducacao.com.br/farmacia/ artigos/ 2224/projeto-de-lei-n-5211-de-2005.
Acesso em 20/03/2011.
16
diminuídas: já não ouvem tão bem, andam com dificuldade, não se expressam com qualidade,
tem dificuldade de memorização etc. tais características são bastante prevalentes entre os idosos
estudados em Custodópolis. Logo a abordagem deste grupo de pessoas deverá ser feito com
bastante cuidado e zelo. Por isso é tão importante que nas consultas médicas o paciente tenha
tempo de falar sobre suas queixas e o médico tenha vontade de ouvir, pois esta etapa da consulta
é imprescindível para se fazer um diagnóstico correto e assim evitar o uso de medicações
desnecessariamente, que ao invés de contribuir para a melhora, acaba por levar um prejuízo à
saúde do paciente, o que conhecemos com o nome de Iatrogenia. Associado a isso pensamos ser
importante pesquisas que possam dar subsídios para uma melhor avaliação deste grupo de
pessoas que é tão importante para o crescimento de uma Nação.
O motivo para desenvolver a presente pesquisa advém do nosso interesse em elucidar a
seguinte questão: seria a queixa “dormir mal” (insônia), bastante frequente entre os idosos de
Custodópolis, uma expressão sócio-representacional específica desta comunidade? Responder
essa questão poderá ser de grande valia na criação de estratégias terapêuticas que minimizam, por
exemplo, o uso indiscriminado medicamentos “para” dormir, reduzindo desta forma custos e
iatrogenias, e melhorando a qualidade de vida dos idosos da comunidade de Custodópolis.
Faz-se necessário dizer que foi de grande importância o caráter interdisciplinar desta
pesquisa uma vez que os conhecimentos nos variados campos do saber foram contribuindo para a
construção de uma nova abordagem no que diz respeito ao sono no paciente idoso.
Segundo Fazenda (1994) a interdisciplinaridade constitui-se pela integração de dois ou
mais componentes curriculares na construção do conhecimento, tendo surgido em meados dos
anos 60 na França e Itália pelos movimentos estudantis que reivindicavam um ensino mais
compatível com as questões de ordem social, econômica e política da época, uma vez que a
resolução para tais anseios não poderiam acontecer por uma única área do saber. No Brasil o
conceito de Interdisciplinaridade chegou no final dos anos 60 e logo influenciou na elaboração da
lei de Diretrizes e Bases número 5692/71, e desde de então vem influenciando o cenário
educacional brasileiro.
17
2- A COMUNIDADE DE CUSTODÓPOLIS
A comunidade atual de Custodópolis, oficialmente considerada um bairro
(3)
da periferia
do município de Campos dos Goytacazes, RJ, situado no primeiro subdistrito chamado Guarus (à
margem esquerda do rio Paraíba do Sul), era conhecido como “Cidade de Palha” porque as suas
casas eram construídas a partir de uma combinação de barro, bambu e folhas de palmeiras ou
sapé.
Segundo Bauman (2003), o conceito de comunidade se refere a um lugar cálido,
confortável e aconchegante, que abriga, protege, e sugere confiança e solidariedade, pois nele
“nunca somos estranhos entre nós”. Provavelmente, esta era a concepção que vigorava na antiga
Cidade de Palha, conforme podemos observar nos depoimentos a seguir produzidos pelo Grupo
Interdisciplinar de Estudo e Pesquisa em Cotidiano e Saúde (GRIPE):
O povo vinha lá de Campos e via as casinhas de palha. Aí falava assim: pode botar que é
Cidade de Palha”; “Até onde eu conheci era tudo palha. As casas tinham o teto de palha
e as paredes de entulho, botava o bambu e jogava barro. Era perigoso pra pegar fogo.
(JUNCÁ, 2008, p.8)
Lewis Mumford (1998), quando discorre sobre a origem das cidades, igualmente
menciona as dimensões de confiança, de aconchego nelas presente também citado por Bauman
(2003). Mumford (1998) nos chama a atenção para o fato de que o primeiro germe da cidade é o
ponto de encontro cerimonial, que serve de meta para a peregrinação: lugar para o qual os grupos
são atraídos, a intervalos regulares, por concentrar, além de quaisquer possíveis vantagens
naturais, certas faculdades “espirituais” ou sobrenaturais de potência mais elevada do que aquelas
necessárias ao processo da vida cotidiana. Conclui o raciocínio de sua argumentação,
evidenciando a primazia da qualidade magnética de determinados lugares sobre os seres
humanos:
Antes mesmo que a cidade seja um lugar de residência fixa, começa como um ponto de
encontro, aonde periodicamente as pessoas voltam: o imã precede o recipiente [grifado
por nós], e essa faculdade de atrair os não-residentes para o intercurso e o estímulo
espiritual, não menos do que para o comércio, continua sendo um dos critérios essenciais
da cidade, em oposição à forma da aldeia mais fixa e contida em si mesma, hostil ao
forasteiro. (MUMFORD, 1998, p. 16)
(3)
Apesar de Custodópolis ser oficialmente um bairro do município de Campos dos Goytacazes, para o interesse
desta pesquisa, é relevante evidenciar as características de comunidade existentes nos primórdios de sua formação
que se conservaram no referido bairro.
18
Segundo o autor acima citado, (retrocede a era tão distante) para investigar as funções
primeiras da cidade, estas estiveram “engastadas na associação primária entre nascimento e lugar,
sangue e solo” (2003, p. 21) já na aldeia primitiva. Ou seja, antes da cidade, a aldeia já criara
aquele que mora perto – o vizinho, a uma distância próxima de modo a compartilhar problemas,
cuidando de um que agoniza em alguma dor, chorando pelo que morreu ou para compartilhar
alegrias seja num nascimento ou num banquete de núpcias. Dessa forma, a estabilidade da aldeia,
com seu muro materno, sua intimidade com as forças da natureza, foram transmitidas à cidade.
Assim originária da primeira obrigação do homem neolítico, “o acalentar e alimentar a vida”
torna-se uma das funções primárias da cidade, qualidade que pode ser incluída na categoria de
recipiente, como explica Munford (1998, p.22).
De acordo com o autor citado, quanto à dimensão recipiente presente na origem das
cidades, ele a associa as palavras lar e mãe (id., p.19), que se inscrevem identificadas nos
fundamentos das casas. Segundo Mumford:
A presença da mulher se fez sentir em todas as partes da aldeia: não menos em suas
estruturas físicas, com seus lugares fechados para proteção. Segurança, receptividade,
proteção e nutrição – tais funções pertencem à mulher; e tomam expressão estrutural em
todas as partes da aldeia, na casa e no forno, no estábulo e no celeiro, no poço, no paiol,
no silo, e dali passam à cidade, refletindo-se na muralha e no fosso e em todos os
espaços internos, desde o átrio até o claustro. A casa e a aldeia, e com o tempo a própria
cidade, são obras da mulher. (MUMFORD, 1998, p. 19)
Mesmo que se possa argumentar que o caráter de imã, como faculdade de atração, para a
formação da “Cidade de Palha” tenha sido econômico, interessa sobremaneira a esta pesquisa a
perspectiva e alcance que o autor acima citado dá aos componentes originais da cidade
relacionados ao caráter recipiente, quando diz que as funções de segurança, de receptividade, de
proteção e de nutrição jamais desapareceram inteiramente, permitindo que a aldeia se propagasse
por todo o planeta, de modo mais eficiente e ligeiro que a cidade e mesmo que inundada pelo
fenômeno da urbanização conservasse os antigos costumes populares por milhares de anos e
sobrevivesse à contínua “ascensão e destruição de suas rivais maiores, mais ricas, mais atraentes”
(MUMFORD, 1998, p. 36). Assim, a “Cidade de Palha” precedida pelo efeito de imã econômico,
irá proceder ao caráter de recipiente de cuidar dos que chegam se fizermos uma analogia com o
referido autor.
19
Sublinhando a conservação de antigos costumes é que apontamos o pensar as forças que
animam a memória como fonte de constituição das mais profundas representações sociais sobre o
lugar, conforme aponta Carmo (2004). Dessa forma, este breve aporte teórico permite abordar o
processo de evocação e memória como depositário de uma identidade social da “Cidade de
Palha” que permanece, ainda hoje, no bairro de Custodópolis.
Não se sabe precisar quando e como a pequena localidade começou a ser formada. As
informações, que se tem foram fornecidas pelos antigos moradores da região. Lembranças que se
referem a um tempo no qual a Cidade de Palha ainda estava cercada por canaviais dos quais a
maioria dos moradores retirava seu sustento. Contratados por empreiteiros, os trabalhadores
vinham de áreas rurais afastadas e permaneciam em grupos, esperando caminhões que os
levariam para as lavouras das usinas. A partir de então, foram surgindo, para alimentar os
trabalhadores, os estabelecimentos comerciais.
Para os pesquisadores a origem do bairro está, portanto, diretamente associada à
agricultura canavieira, que durante muitos anos foi a base da economia local. Posteriormente as
Casinhas de palha foram substituídas por casas de tijolo, mas o cenário local evidencia, ainda
hoje, penúria e dificuldades, conforme depoimento colhido pelo GRIPE: “Custodópolis é o bairro
mais velho de Guarus. Era só mato e umas pessoas. O pessoal vinha da roça, não tinha onde
morar pegava um pedacinho e ficava. Depois veio o loteamento”. (JUNCA, 2008, p. 8)
Alguns depoimentos remetem ao doutor Custódio Siqueira, médico proprietário de terras
na localidade. Conhecido como um homem bom, ele atendia aos pobres da comunidade.
Entretanto aos poucos toda a propriedade foi sendo loteada e vendida. As áreas loteadas
passaram, então, a ser conhecidas como terras de Custódio, originando o nome atual
Custodópolis.
Custodópolis já foi um lugar pequeno, tranquilo e dinâmico, contava no início da década
de setenta com oito mil habitantes. Tinha um cinema (Cine Primor); corrida de cavalo na Rua
Poeta Marinho, na época, chamada Rua da Raia; baile de carnaval e até concurso para eleger a
Rainha do Grêmio. Nas noites de lua, o bairro se agitava, pois a criançada que nele brincava
sentia-se segura. Importantes eram também as festas religiosas com suas quadrilhas como a de
Nossa Senhora da Conceição e a de São Salvador. Atualmente Custodópolis é um bairro típico da
periferia apresentando todos os problemas decorrentes do crescimento não planejado, conta hoje,
20
com aproximadamente doze mil habitantes. É um bairro com alta incidência de violência no qual
a educação, a saúde, o transporte e o lazer tornaram-se precários. Na área da saúde conta com o
Centro de Saúde Escola de Custodópolis (CESEC), instituição ligada a Faculdade de Medicina de
Campos que realiza diversos trabalhos junto à população, dentre eles consultas médicas de várias
especialidades, fornecimento de medicamentos, grupos de convívio (com destaque para o de
idosos) vacinação, curativos, atendimento domiciliar, pesquisas populacionais.
Foi nesse ambiente cultural que, ao longo de cinco anos, por meio dos registros nos
prontuários, verificamos certa regularidade de queixas de insônia que não correspondiam a priori
a um quadro clínico compatível a literatura do sono no idoso. Esse paradoxo levou-nos a intuir
uma possível influência da cultura local nas queixas registradas, em consequência transformou-se
em um projeto de pesquisa, no qual a teoria das representações sociais tornou-se relevante.
21
3- A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
As representações sociais, segundo definição clássica apresentada por Jodelet (1985), são
modalidades de conhecimento prático, orientadas para a comunicação e para orientação de um
determinado contexto social. São consequentemente, imagens, conceitos, categorias e teorias
socialmente elaboradas e compartilhadas, que contribuem na construção de uma realidade
comum, passível de ser compartilhada. Desse modo, as representações são essencialmente,
fenômenos sociais acessados a partir de um conteúdo cognitivo e entendidas a partir de um
contexto produtivo, ou seja, produto de funções simbólicas a serviço dos processos
comunicativos. Segundo a autora citada, as representações sociais possibilitam a vida em
sociedade.
Conforme Cardoso (2000), Durkhein (1895) foi o primeiro a identificar as representações
como produção mental social, extraídas do estudo sobre ideação coletiva. Moscovici (1961)
renovou a análise especificando os fenômenos representacionais nas sociedades contemporâneas,
caracterizadas pela intensidade e fluidez das trocas comunicativas, pelo desenvolvimento da
ciência e pela pluralidade e mobilidade social. A representação social seria, portanto, uma forma
de conhecimento socialmente elaborada e partilhada com um objetivo prático que contribuiria
para a construção de uma realidade comum. Para Jodelet (2001), devido a sua importância nas
interações sociais e na elucidação dos processos cognitivos, as representações sociais constituem
um legítimo objeto de estudo. Segundo Moscovici (1976), devem ser estudadas articulando-se
elementos afetivos, mentais, sociais, cognitivos e linguísticos.
Para vários pesquisadores, como Codol (1969); Farr (1977); Harré (1984), as
representações sociais relacionam-se a atividade mental de um grupo ou de uma coletividade, e
consequentemente, com o efeito dos processos ideológicos que permeiam esses indivíduos. Logo
a construção do fenômeno representação social terá que ser obrigatoriamente coletivo para que
tenha fundamentação.
As representações podem ser um fenômeno importante de pesquisa da queixa de insônia
da população de Custodópolis devido à observação frequente que é feita no atendimento
ambulatorial de não se dormir bem. Poderia tal queixa ser apenas uma representação, uma vez
22
que a maioria absoluta das pessoas após avaliação mais consistente não apresentam requisitos
para se fazer o diagnóstico de insônia.
Para Abric (1998), as representações sociais têm um papel fundamental na dinâmica das
relações sociais e nas práticas. Elas também respondem a quatro funções que o autor considera
importantes no campo representacional, denominadas: 1- função de saber. 2- função identitária.
3- função de orientação 4- função justificadora.
1- Função de Saber: Nesta função, as representações permitem compreender e explicar a
realidade. É no saber prático do senso comum que elas permitem aos atores sociais adquirirem
conhecimentos, integrá-los de acordo com suas coerências e funcionamentos cognitivos e, assim,
adequá-los aos seus valores. As representações possibilitam também a condição necessária para
que exista a comunidade social e, neste contexto, definem um quadro de referência comum que
permite as trocas sociais, a transmissão e a difusão desse saber “ingênuo”. Elas são a
manifestação do esforço permanente do homem para compreender e comunica. Tal esforço é
considerado a essência da cognição social.
2- Função Identitária: As representações na função identitária definem a identidade e
permitem a da especialidade dos grupos. Além da função cognitiva, encarregada de facilitar a
compreensão e explicação dos objetos, as representações sociais têm por função situar os
indivíduos e os grupos dentro do campo, permitindo, a elaboração de uma identidade social e
pessoal gratificante, ou seja, compatível com o sistema de normas e de valores socialmente e
historicamente determinados (MUGNY; CARUGATI, 1985, p. 183 apud ABRIC, 1998, P.29).
Esta função identitária garante às representações um lugar básico nos processos de
comparação social. Desse modo, a representação do próprio grupo é sempre marcada por uma
superavaliação de algumas de suas características ou de suas produções (MANN, 1963; BASS,
1965; LEMOINE, 1966 apud ABRIC, 1998). Essa função tem como garantir uma imagem
positiva do grupo de inserção.
Segundo o autor citado, por outro lado, a referência às
representações, que definem a identidade de um grupo, terá um papel importante no controle
social exercido pela coletividade sobre cada um de seus membros, e, em especial, nos processos
de socialização Abric (1998, p. 29).
3- Função de orientação: Como o próprio nome revela, as representações servem de guia
para os comportamentos e as práticas tanto individuais como no grupo. De acordo com Abric
23
(1998), o sistema de pré-decodificação da realidade, formado pela representação, é um guia para
a ação, e esse processo de orientação das condutas pelas representações resulta de três fatores
considerados essenciais:
a) A representação intervém diretamente na definição da finalidade da situação,
determinando, em primeiro lugar, o tipo de relações adequadas para o sujeito e, ocasionalmente,
dentro das situações de resolução de tarefas, sobrevém na definição do tipo de estratégia
cognitiva que será adotada pelo grupo. Esta depende da representação que esse grupo faz ou tem
em relação ao objeto representado.
b) A representação produz um sistema de antecipações e expectativas e, dessa forma, age
sobre a realidade, utilizando-se de uma espécie de filtragem das informações para interpretá-las
com vistas a adequar a realidade a uma determinada representação, o que o faz concluir que ela
“não obedece a uma interação e não depende de seu desenvolvimento, ela a precede e a
determina”. Nesse sentido, sua compreensão vai à direção de que dentro de situações de interação
conflitual, o mesmo comportamento objetivo de um parceiro pode ser interpretado de maneira
radicalmente diferente (cooperativo ou competitivo) segundo a natureza da representação
elaborada pelo sujeito. A existência de uma representação da situação, pré-existente à interação
em si mesma, faz com que, na maior parte dos casos “... os jogos sejam feitos antecipadamente,
as conclusões estão colocadas antes mesmo que a ação se inicie.” (ABRIC, 1998, p.30)
c) A representação social reflete a natureza das regras e dos elos sociais, sendo prescritiva
de comportamentos ou práticas obrigatórias. Dessa forma, define o que é lícito, tolerável ou
inaceitável em um dado contexto social.
4- Função justificadora: As representações sociais permitem a justificativa das tomadas de
posição e dos comportamentos. Esta função intervém na avaliação da ação, consentindo aos
atores explicarem e justificarem suas condutas em uma determinada situação, frente a seus
parceiros ou nas relações entre grupos.
Conforme citado anteriormente, não para de crescer o número de idosos no mundo, e no
Brasil o quadro não é diferente, porém, uma indagação reverbera entre os estudiosos do
envelhecimento: a sociedade está preparada para absorver este novo grupo de pessoas? Ao que
parece pelos estudos realizados por Santos (1990) a resposta é não, e tal contexto pode ter
implicação na representação dos idosos e dos mais jovens a respeito do envelhecimento. As
24
sociedades atribuem valores como competividade, capacidade laborativa, independência e
autonomia funcional, entre outros, que muitas vezes não se encontram nos idosos devido às
próprias limitações que a idade impõe, gerando nesse grupo etário uma representação negativa a
respeito da sua condição. Conforme, Veloz et all (1999, p. 3), essas representações sobre o
envelhecimento são compreendidas em um contexto de três fenômenos que melhor o tipificam: o
idoso como protagonista, a velhice como última fase da vida e o próprio processo de
envelhecimento.
A Gerontologia Social
(4)
, baseada nas crenças e conhecimentos adquiridos, tentará
identificar os modos compartilhados de pensar e atuar em uma sociedade, o que está intimamente
relacionado com a Representação Social. Para Moscovici (1981, p. 81) a representação social
remete a:
(...) um conjunto de conceitos, afirmações e explicações originadas no quotidiano, no
curso de comunicações interindividuais. Elas são equivalentes, em nossa sociedade, aos
mitos e sistemas de crenças das sociedades tradicionais; elas podem até mesmo ser vistas
como uma versão contemporânea do senso comum.
Conforme pesquisas realizadas no Brasil, utilizando a teoria das Representações Sociais
(DEBRET, 1996; MACHADO, 1994; SANTOS, 1990), ainda há uma desvalorização do idoso na
sociedade, mesmo entre os próprios idosos (acima de 60 anos), principalmente quando tratam da
própria percepção das perdas, incapacidades e das doenças. Nota-se que entre os idosos falta um
modelo que envolva não só as perdas trazidas pelo envelhecimento, mas, também os ganhos, até
porque eles têm grandes habilidades que não são exploradas e, portanto, ficam esquecidas
ocasionando o que Baltes (1987) chamou de envelhecimento mal sucedido. A respeito, Baltes &
Baltes (1990, p. 4) assinalaram que: “ (...) o envelhecimento bem sucedido precisa de uma
avaliação sustentada em uma perspectiva multidimensional, na qual fatores objetivos e subjetivos
sejam considerados dentro de um contexto cultural, que contém demandas específicas”.
Para
Neugarten
&
Hagestad
(1976)
existe
uma
contínua
modificação
no
desenvolvimento humano que vai desde o nascimento até a morte, portanto se as Representações
Sociais forem embasadas no declínio que a velhice traz consigo, acarretará consequências
negativas não só para os idosos como também para os mais jovens.
(4)
Disciplina científica multi e interdisciplinar, cuja finalidade é o estudo das pessoas idosas, das características da
velhice enquanto fase final do ciclo da vida, do processo de envelhecimento e de seus determinantes
biopsicossociais.
25
No Brasil, conforme Machado (1994), algumas pesquisas mostram que os idosos
restringem, na maioria das vezes, o envelhecimento somente à ótica das perdas, representando-o
de forma desfavorável com estereótipos negativos e preconceituosos. Porém novos trabalhos,
como mostrado por Debret (1996), começam a apresentar mudanças neste contexto, ainda que
pequenas, e essas mudanças abrem espaços para que experiências bem sucedidas possam ser
compartilhadas como é o caso dos grupos de convivência e as universidades da terceira idade,
entre outras.
Fato interessante se dá quando estudos realizados em sociedades mais desenvolvidas,
quanto ao oferecimento de melhores condições de vida, como é o caso da Alemanha, que
mostram que idosos têm uma concepção sobre a velhice construída na dualidade que envolve
perdas e ganhos, porém os jovens de lá, assim como os do Brasil, apresentam Representações
fatalísticas, centradas, sobretudo no declínio. Percebemos, portanto, que as condições de vida e o
preparo das sociedades, parecem ter influência nas Representações dos idosos a respeito da sua
condição, muito embora ainda exista um grande preconceito dos mais jovens quanto à velhice.
26
4- A QUESTÃO DO SONO NO IDOSO
A população da Terra está cada vez mais idosa. Este fato é consequência da eficácia dos
tratamentos médicos e da melhoria das condições de vida alcançada pelos homens nos centros
urbanos, dentre elas destacam-se: saneamento básico, trabalhos mais dignos e seguros, acesso a
laser, educação, informação, transporte, alimentação, controle da natalidade, avanços
tecnológicos. Segundo a Organização Mundial de Saúde (2009) estima-se que por volta de 2025
o Brasil terá a sexta maior população de idosos do mundo chagando ao patamar de 32 milhões de
idosos (Silvestre, Kalache, Ramos & Veras, 1996).
O envelhecimento, e com ele as modificações sociais, biológicas e psicológicas,
constituem um processo crítico que culminará com a finitude do indivíduo.
1- Modificações sociais:
Com o aumento da população idosa a partir de 1950, vem ocorrendo no Brasil uma
migração da população da zona rural para a zona urbana, o que chamamos de êxodo rural. Nesse
período houve um grande acréscimo de pessoas nos centros urbanos, configurando hoje um
predomínio de uma população idosa morando nestes centros (cerca de 75% dos idosos do país,
segundo dados do IBGE), trazendo consequências socioeconômicas para toda a população.
O intenso processo migratório tem sua origem no desemprego rural, na diferença de
salários e na oferta de serviços públicos nas cidades e ainda nas péssimas condições de vida da
zona rural. Há que se dizer que os trabalhadores rurais só tiveram direito à aposentadoria em
1963 com a criação do Funrural, (segundo histórico do sistema previdenciário do país)
O fenômeno descrito acima se deu em todo país e não foi diferente na cidade de Campos
dos Goytacazes. Esse aumento populacional nas cidades dá origem a uma demanda cada vez
maior de serviços públicos, frequentemente inadequados. A população passa a conviver, a partir
da metade do século passado, com uma estrutura sanitária deficiente, atenção precária a saúde,
violência cotidiana e moradias sem estruturas adequadas, bem descritas por Aluizio de Azevedo
em seu célebre romance ”O Cortiço”.
A população das zonas rurais, ao chegar às cidades, instalava-se nas áreas periféricas
(como o que aconteceu no nosso município, com o bairro de Custodópolis) e/ou nos morros
27
formando as chamadas favelas, nome oriundo da guerra de Canudos, magistralmente narrada no
romance do escritor Euclides da Cunha (nascido em Cantagalo, interior do Rio de Janeiro).
O contexto social em que essas famílias se organizaram acabou por gerar uma série de
problemas e a população de idosos não ficou a margem. Famílias inteiras buscaram adaptação a
espaços residenciais exíguos. Nesse contexto o idoso se depara então com um universo em que
têm que dividir sua moradia com filhos casados, noras, netos e outros familiares, gerando e
intensificando um natural conflito com gerações mais jovens que coabitam a mesma moradia
Netto (2000). Tal fato fica explicitado em relato de uma moradora do bairro de Custodópolis
(narrado em consulta médica realizada por mim) “não é fácil ter que obedecer a ordens dentro da
sua própria casa”. Esta queixa que ocorre é observado com muita clareza entre os moradores de
Custodópolis uma vez que já trabalhamos nesta comunidade há mais de cinco anos. Outro relato
frequente entre os idosos é a solidão em que se encontram, pois muitos, após ficarem viúvos e
com o casamento dos filhos, passam a morar em condições precárias, tanto pela solidão como
pelas aposentadorias que são indignas.
O problema da solidão é mais visível entre mulheres, pois segundo Veras (1996) estas tem
uma maior expectativa de vida, que pode ser atribuído a fatores biológicos e a menor exposição a
fatores de risco
Como o fenômeno envelhecimento é algo recente em nosso país, uma vez que a
expectativa de vida no início do século passado não chegava aos cinquenta anos, segundo
informação do DATASUS (departamento de informática do sistema único de saúde- órgão da
secretaria executiva do ministério da saúde, responsável pela divulgação dos estudos
epidemiológicos realizados pelo governo federal), ainda não existe uma política eficaz de
proteção ao idoso (mesmo após a criação do Estatuto do Idoso) e nem uma adaptação social
(acessibilidade, trabalho, laser etc.) que atenda as necessidades desse público.
Consequências para os Serviços da Saúde: Diante de todo este processo descrito
anteriormente, houve necessidade de pesados investimentos na área hospitalar e na rede básica de
saúde para atender à crescente demanda de doenças dessa faixa etária, este conceito fica claro no
princípio ético de integralidade do sistema único de saúde (SUS) estabelecido pela Constituição
de 1988.
28
No Brasil, os gastos em internação com doentes portadores de câncer, doenças
cardiovasculares e Diabetes Mellitus (chamadas doenças crônicas degenerativas) na rede
hospitalar contratada pela Previdência Social atingiram em 1985 a cifra de 135 milhões de
dólares, ou seja, mais de um terço do total despendido, segundo dados do DATASUS.
São comuns, no grupo etário dos idosos, inúmeras doenças crônico-degenerativas
causadoras de dependência física e/ou psíquica frequentemente irreversível. Como a população
de idosos tem crescido rapidamente no Brasil (quinto país em crescimento, segundo OMS) e
associando a esse dado a presença dessas múltiplas afecções, constata-se que entre nós o custo
médico-social seja muito elevado. Logo nota-se que as políticas públicas de saúde no Brasil são
deficitárias no que tange o idoso.
No Brasil, segundo dados do DATASUS na primeira década deste século, o perfil das
doenças mais comuns sofreu alteração proporcionando hoje um quadro totalmente diferente do
que até então ocorria. Em 1950, ainda prevalecia neste país uma estrutura essencialmente agrária.
Porém houve uma transformação rápida e caótica para um país urbano e industrializado, segundo
dados do IBGE. Com este fenômeno correu uma inversão na prevalência das afecções que mais
levavam a morte. Na década de 30, quase metade das mortes era causada por doenças infecciosas
e parasitárias, não se pode negar que houve avanços significativos no controle de muitas doenças,
que se deveu tanto ao controle sanitário quanto ao implemento de novas tecnologias. Já na década
de 60, as afecções cardiovasculares suplantaram estas primeiras como causas de morte,
configurando gradativamente uma situação semelhante à dos países desenvolvidos e no senso de
1980 publicado pelo DATASUS continuam sendo a principal causa de mortalidade, sendo
responsável por um terço dos óbitos.
Para Netto (2000), os amplos cuidados necessários para a manutenção da saúde do idoso
não podem ser considerados como investimentos, em contraste ao que ocorre em relação à saúde
da criança. Em relação ao idoso devem ser considerados como um dever da sociedade.
Há necessidade de se pensar no idoso como pessoa que agora, e com muito mais razão no
futuro, consumirá grande parte dos recursos destinados à saúde e ao bem estar.
É válido repetir o que afirmam Veras e Cols. (1987):
“A questão social do idoso, face à sua dimensão, exige uma política ampla e expressiva
que suprima, ou pelo menos amenize, a cruel realidade que espera aqueles que
conseguem viver até idades mais avançadas. Após tantos esforços realizados para
29
prolongar a vida humana, seria lamentável não se oferecer as condições adequadas para
vivê-la.”
2- Aspectos biológicos do envelhecimento:
Trataremos a seguir das alterações biológicas que ocorre com o ser humano em
decorrência do envelhecimento conforme descrito por Filho e Souza (2000).
A partir dos 40 anos ocorre diminuição dos arcos dos pés, aumento da curvatura da
coluna, além de um encurtamento da coluna vertebral, devido às alterações nos discos
intervertebrais, com isso a estatura começa a diminuir um centímetro por década. Os diâmetros
da caixa torácica e crânio tendem a aumentar. O nariz e os pavilhões auriculares continuam a
crescer conferindo a conformação típica facial do idoso.
A composição do corpo sofre alterações evidentes, como o aumento do tecido adiposo que
tende a se depositar nos omentos, na região perirrenal e em substituição ao parênquima perdido
de diversos órgãos (levando-os a atrofiar). Há diminuição do tecido adiposo dos membros e
aumento no tronco. O teor total de água corporal diminui por perda da água intracelular. Também
diminui o potássio, que na maior parte é intracelular. Essa perda de água e potássio se deve
preferencialmente à diminuição geral do número de células nos órgãos.
Com o envelhecimento as fibras elásticas da derme se alteram, perdendo elastina e
consequentemente perdem a sua elasticidade. Essas alterações, que são mais intensa na pele
exposta a luz, somadas à diminuição da espessura da pele e do subcutâneo dão origem às rugas. A
pele fica mais seca e áspera devido à diminuição das glândulas sudoríparas e sebáceas, o que
predispõe a infecções e a torna mais sensível à variação térmica. Também fica pálida, pois há
diminuição do número de melanócitos e de alças capilares que são os elementos responsáveis
pela coloração da mesma.
Aos 40 e 50 anos, a pálpebra inferior pode apresentar edema por herniação de gordura
associada à pequena retenção de líquidos. Também pode haver hiperpigmentação deste local.
Na face e dorso da mão, devido alterações no funcionamento dos melanócitos, poderá
formar manchas hiperpigmentadas marrons, lisas e achatadas.
A epiderme (camada mais superficial da pele) se torna mais fina e passa a apresentar com
mais frequência equimoses (manchas provenientes de sangramentos) aos menores traumas.
30
Ocorre uma diminuição geral dos pêlos no corpo, com exceção das narinas, orelha e
sobrancelhas e na mulher aumentam no lábio superior e no mento, devido ao aumento de
hormônios andrógenos e diminuição dos estrógenos. Os cabelos ficam brancos, pois as células do
córtex do fio perdem pigmento. É comum a queda do cabelo e surgimento de calvície.
No envelhecer há perda de tecido ósseo que ocorre de maneira diferente no homem e na
mulher. Na mulher não há perda significante antes da menopausa, porém após este fenômeno, o
processo é mais intenso do que nos homens. A perda óssea tem importância ímpar no processo de
envelhecimento devido a grande incidência de fraturas de colo do fêmur que culminam com 40%
de mortes após 2 anos do evento, segundo o sistema de informação de mortalidade (SIM).
O crânio tende a apresentar menor número de ossos, o que diminui sua resistência a
fraturas. Esta alteração ocorre, pois o tecido fibroso existente nas suturas do crânio é substituído
por osso, processo que começa por volta dos 30 anos, desaparecendo por completo em épocas
diferentes em cada sutura.
A espessura dos discos intervertebrais diminui, acentuando-se as curvas da coluna,
especialmente a torácica, o que leva a cifose (corcunda) comumente observada entre os idosos.
Nas articulações sinoviais a cartilagem fica mais delgada e surgem rachaduras e fendas na
superfície o que leva a artrose, patologia intimamente relacionada a auto medicação e uso
indiscriminado de antiinflamatórios, que não incomum causam repercussões drásticas a saúde .
Outra alteração é a perda de massa muscular. O peso do músculo diminui. Ocorre
substituição de fibras musculares por tecido conjuntivo levando a um aumento do colágeno
intersticial no músculo do idoso.
O peso e o volume do cérebro diminuem com a idade. Verifica-se certo grau de atrofia
cerebral com o progredir da idade, ocorrendo também aumento volumétrico dos ventrículos
encefálicos.
Em relação ao sistema cardiovascular, há dilatação da aorta e aumento do diâmetro
interno da mesma. As fibras elásticas de sua parede diminuem enquanto o colágeno aumenta.
Ocorre ainda deposição de cálcio em toda parede da aorta. Os processos arterioscleróticos
atingem também as artérias menores e as arteríolas que sofrem alterações idênticas às da aorta.
As carótidas e as coronárias se estreitam, sendo este processo mais intenso no homem do que na
31
mulher que tem proteção dos hormônios sexuais até a menopausa. O diâmetro das arteríolas
renais é sempre menor no idoso, o que diminui o fluxo sanguíneo para este órgão.
O peso do coração aumenta com a idade, contrariando ao que acontece em outros órgãos.
Há aumento da espessura das paredes do ventrículo esquerdo.
No aparelho respiratório ocorrem alterações na caixa torácica quando desaparecem as
articulações sinoviais e os elementos ósseos e cartilaginosos se fundem o que acarreta diminuição
da complacência pulmonar restringindo os movimentos respiratórios. Ocorre também diminuição
discreta do número dos alvéolos pulmonares.
O epitélio escamoso estratificado na parte distal do esôfago, com a idade, às vezes é
substituídos por epitélio colunar, em consequência de repetidas injúrias epiteliais causadas pelo
refluxo de ácido gástrico.
Fisiologicamente falando, o envelhecimento tem início relativamente precoce, logo após a
fase de desenvolvimento e estabilização, perdurando por longo período pouco perceptível, até
que as alterações estruturais e/ou funcionais tornam-se grosseiramente mais visíveis. O
desenvolvimento orgânico alcança a plenitude, em média, ao final da segunda década de vida,
seguida por uma estabilidade por mais de uma década. As primeiras alterações do
envelhecimento são detectadas ao final da terceira década devida. Essas alterações são
geralmente discretas e progressivas, não causando insuficiência absoluta de órgãos e aparelhos. Á
exceção dos ovários e timo que tem suas funções declinando e desaparecendo mais
precocemente.
Para a Organização Panamericana de Saúde (BRASIL, 2006):
O envelhecimento é um processo sequencial, individual, acumulativo, irreversível, não
patológico, de deterioração de um organismo maduro, próprios a todos os membros de
uma espécie, de maneira que o tempo o torne menos capaz de fazer frente ao estresse do
meio ambiente e, portanto, aumente a sua possibilidade de morte. Tais alterações têm por
característica a diminuição progressiva de nossa reserva funcional. Isto é, um organismo
envelhecido, em condições normais, poderá sobreviver adequadamente, porém, quando
submetido a situações de stress físico, emocional, pode apresentar dificuldades em
manter sua homeostase manifestando, assim, sobrecarga funcional, que pode culminar
em processos patológicos.
De maneira muito apropriada, Confort (1979) caracterizou o envelhecimento natural
como “a progressiva incapacidade de manutenção do equilíbrio homeostáticos em condições de
32
sobrecarga funcional”, o que destaca a importância relativa do fator desestabilizador para cada
faixa etária.
Todas as alterações descritas acima terão influência na organização funcional e psíquica
dos indivíduos que se encontram neste processo.
3- Alterações psíquicas do envelhecimento:
Ao contrário do que muitos pensam a velhice não é uma fase estática da vida, pelo
contrário, é um período de intensas transformações que irão repercutir no psiquismo desse grupo
etário.
Quanto mais se vive, maior é a susceptibilidade a fatores externos que promovem uma
influencia psíquica, dentre eles se destacam as perdas de entes queridos (familiares, amigos etc.),
mudanças dos hábitos e moradia, alterações do contexto sociais que exigem adaptações que
levam um tempo maior do que o exigido pela sociedade imediatista que se impõe nos dias atuais.
Associado aos fatores externos tem os fatores intrínsecos que o próprio envelhecimento
fisiológico (senescência) predispõe. Sabemos segundo Alencar (2000), que é natural a diminuição
das funções mentais com o passar dos anos com redução da capacidade de aprendizagem,
memória recente e abstração, e o aumento do risco de transtornos como depressão, ansiedade e
demência; tais alterações para Gordilho (2001) poderão ser influenciado pelo meio
socioeconômico e cultural dos indivíduos e tal contexto não pode ser dissociado do indivíduo
idoso. Não podemos desconsiderar, segundo o autor que acabamos de citar, que para muitas
pessoas a velhice é traduzida pela perda se não total, parcial, da independência e autonomia
associada a alterações no status social, produtividade e reconhecimento por parte das outras
pessoas, o que acaba por gerar um desconforto existencial, pessimismo e perda de motivação pela
vida constatada com muita veemência em relatos feitos nas consultas médicas realizadas no
consultório de geriatria.
Segundo Wolkove e colaboradores (2007), o sono, processo fisiológico dotado de
importantes funções restauradoras, também se altera com o envelhecimento. É, portanto inegável
a relação entre o sono e a idade cronológica.
Segundo Tankova e Buela (1996), à medida que o homem envelhece intensificam-se as
queixas relacionadas à qualidade e/ou a quantidade do sono. Segundo Oliveira (2006), as queixas
33
mais frequentes dos idosos são os despertares durante a noite; a diminuição da quantidade total
do sono noturno; a dificuldade para adormecer e o despertar matinal precoce.
Alho Filho (1994) e Moller e colaboradores (2004) assinalam algumas modificações na
arquitetura do sono durante o processo de envelhecimento:
• Sono mais fragmentado;
• Interrupções do tempo de sono noturno como consequência do aumento de
despertares durante a noite;
• Sonolência diurna excessiva;
• Diminuição do estado de vigília.
Geib e colaboradores (2003) complementam estas modificações enfatizando:
1. A diminuição na qualidade total de horas de sono por noite como consequência da
diminuição dos estágios três e quatro do sono não-REM (período do sono em que
não temos sonhos muito elaborados e ainda não temos um relaxamento total do
corpo) e, posteriormente, do sono REM (sigla oriunda do inglês que em
português quer dizer movimento rápido dos olhos, fase do sono em que temos
sonhos mais elaborados com grande atividade cerebral e relaxamento corporal
intenso).
2. O aumento do período de latência para o início do sono;
3. Maior número de transições de um estágio do sono para o outro e do estágio de
sono para a vigília;
4. Aumento dos problemas respiratórios durante o sono;
5. Aumento da atividade mioclônica noturna.
A figura a seguir mostra o padrão normal da arquitetura do sono, no idoso,
mostrando as fases REM e Não REM, em um período de sete horas de sono.
34
Figura 1- Histograma do sono de um idos durante 7 horas de sono
Fonte: FREITAS, E. V. et all. Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro: Koogan, 2002, p. 191.
As modificações na arquitetura do sono alteram o balanço homeostático, repercutindo
sobre a função psicológica, sobre o sistema imunológico, sobre a resposta comportamental, sobre
o humor e sobre a habilidade de adaptação.
Segundo Ebersole e Hess (2002) tais alterações propiciam o surgimento de distúrbios
próprios do sono as também conhecidas dissonias: insônia, parassonias e apneia do sono.
Com o surgimento do conceito de interdisciplinaridade (neurociências), o estudo do sono
adquire uma enorme importância na área da saúde.
Nas últimas décadas, o estudo do sono tornou-se elemento fundamental para a formação
dos profissionais de diferentes segmentos das áreas da saúde, educação e do trabalho.
35
5- METODOLOGIA - CONSTRUÇÃO DO CORPUS DA PESQUISA
A presente pesquisa caracterizou-se, conforme Babbie (2005), como estudo exploratório,
com base em pesquisa de campo, na qual se buscou observar, registrar, analisar, classificar e
interpretar as queixas de má qualidade do sono entre idosos, acima de 60 anos, moradores da
comunidade, que procuraram o ambulatório de geriatria no Centro de Saúde Escola da Faculdade
de Medicina, situado na comunidade de Custodópolis, do período de janeiro a julho de 2010.
Dentre um total aproximado de cem idosos, acima de sessenta anos, que se queixavam
regularmente de má qualidade do sono, no período assinalado, foram selecionados vinte e oito
(28%) que após a leitura do termo de consentimento livre e esclarecido, aceitaram participar da
pesquisa compondo a amostra da pesquisa. A seleção teve como critério excluir indivíduos cuja
queixa de má qualidade de sono pudesse estar associada a outras comorbidades, como por
exemplo, artrose, demência, doenças metabólicas etc., muito frequentes nesta faixa etária.
De forma aleatória, as vinte e oito pessoas selecionadas foram do gênero feminino, o que
provavelmente deve-se ao fato da maioria dos idosos que buscam atendimento ambulatorial no
Centro de Saúde Escola é deste gênero. No entanto, apesar desta característica marcante da
amostra selecionada não serão abordadas questões de gênero nesta pesquisa. Com a finalidade de
preservar a identificação da amostra, no relato das entrevistas, optamos por usar apenas as letras
iniciais de seus nomes.
No que diz respeito às representações sociais que os sujeitos idosos têm do sono, foram
utilizados quatro instrumentos: Inventário de Pittsburg (anexo), o exame de polissonografia e a
escala de sonolência de Epworth (anexo), aplicado aos participantes do exame de polissonografia,
que visa a avaliar subjetivamente o grau de sonololência diurna dos pesquisados, uma vez que
para se ter o diagnóstico de insônia temos que ter sonolência ao longo do dia. Por meio de uma
entrevista semi-estruturada, foram analisadas por critérios da Teoria das Representações Sociais
com a finalidade de identificar a influencia do meio socioeconômico cultural nas queixas de má
qualidade do sono que foram registradas.
Pretendeu-se com o exame de polissonografia (que foi realizado em cinco pessoas) avaliar
a consistência das queixas de baixa qualidade de sono dos idosos de Custodópolis. A decisão de
submeterem-se apenas cinco sujeitos ao exame de polissonografia deveu-se ao elevado custo,
36
cerca de quatrocentos reais cada exame, e a dificuldade de operacionalização deste instrumento
de pesquisa.
Os exames de Polissonografia foram realizados entre os dias 10/05/2011 e 16/05/2011 no
consultório do professor Maurício Escocard. No dia do exame era pedido as pacientes que
lavassem a cabeça com sabão de coco por volta do meio dia e que deixasse secar naturalmente,
isto é importante para melhorar a captação do impulso elétrico por parte dos eletrodos do
Polissonógrafo. O exame começava por volta das 22h 30min, portanto as 22h eu pegava de carro
as pacientes em suas casas e as levavam para o consultório. Chegando lá éramos recebidos pela
técnica de Polissonografia que conduzia as pacientes ao banheiro para se trocarem e solicitava
para que elas urinassem, pois durante o exame elas não poderiam levantar para ir ao banheiro,
uma vez que estariam com muitos fios conectados ao corpo, em seguida deitavam-se as pacientes
na cama colocavam-se todos os eletrodos que iriam monitorar o sono, eram feitas orientações
quanto a posição de dormir e a necessidade de urinar (neste caso elas chamariam a técnica que
colocaria um coletor sem que elas deixassem o leito ) o aparelho de Polissonografia era ligado a
um programa de computador, para registro e interpretação dos dados coletados, apagava-se as
luzes e tinha inicio o exame que terminava por volta das 06:30h da manhã, onde as pacientes
eram acordadas se trocavam e eram levada por mim para suas casas.
No dia seguinte ao exame de Polissonografia foi aplicado o questionário de Epworth para
avaliação do grau de sonolência referida. Elas respondiam a perguntas diretas feitas por mim
referentes à existência ou não de sonolência em situações comuns do cotidiano e era atribuído um
valor para cada resposta, esta parte da pesquisa foi feita na casa das pacientes que já haviam sido
avisadas previamente desta etapa bem como da entrevista semi estruturada (necessária para
obtenção de dados a respeito das representações sociais por parte destas idosas. Esta entrevista foi
feita pelo presente pesquisador com auxílio de um gravador e posteriormente transcrita para
serem analisadas.
5.1- Critérios instrumentos para avaliação do sono
Segundo Sivertsen e Nordhus (2007) a insônia está provavelmente relacionada à dinâmica
emocional, que nos idosos possui prevalência duas vezes maior que nos adultos jovens.
37
Segundo Buysse (2005), cerca de 20% a 40% dos idosos apresentam sintomas de insônia.
Para Moller e colaboradores (2004), essa prevalência, superior a 50%, é mais comum em
mulheres. A prevalência feminina é confirmada por Zhang e Wing (2006) em um estudo
(metanálise) baseado em dados de 31 artigos.
Segundo a classificação dos distúrbios do sono (American Academy of Sleep Medicine,
2005) quadros de insônia se caracterizam pela dificuldade de iniciar e/ou manter o sono; acordar
precoce, sentimento de que o sono não foi restaurativo ou dotado de pobre qualidade.
Segundo Alho Filho em 2002 as causas da insônia estão relacionadas à:
• Fatores psicológicos (emoções, conflitos, situações e crise e estresse)
• Fatores
médico-psiquiátricos:
doenças
neurológicas,
cardiovasculares,
respiratórias e psiquiátricas como depressão e ansiedade;
• Fatores ambientais; tais como ruídos, temperatura, luminosidade, condições da
cama, colchão e travesseiro, alimentação inadequada próximo ao horário de
dormir.
5.2- Classificação da insônia
•
De acordo com o momento da noite em que a insônia se manifesta:
1. INICIAL: quando o indivíduo apresenta dificuldade de iniciar o sono após deitar na cama;
2. INTERMEDIÁRIA: quando o indivíduo acorda várias vezes durante a noite e retorna o
sono após um breve período desperto;
3. FINAL: quando o indivíduo desperta precocemente pela amanhã, não podendo conciliar o
sono novamente.
•
De acordo com a duração da insônia:
1. TRANSITÓRIA: quando a insônia ocorre durante uma ou duas noites, relacionando-se,
sobretudo, a eventos ambientais ou pontuais;
38
2. CURTA DURAÇÃO: quando a insônia se manifesta por mais de uma noite;
3. CRÔNICA: quando a insônia se manifesta por mais de três noites na periodicidade de
uma semana durante mais de um mês.
•
De acordo com a etiologia classifica-se a insônia como:
1. EXTRÍNSECA: quando fatores externos comprometem o sono ex: luminosidade, calor,
umidade, colchão inadequado, travesseiro inadequado.
2. INTRÍNSECA: quando alguma morbidade compromete o sono ex: artrose, dores quadros
demências etc.
Morin e colaboradores (2006) ressaltam que cerca de um terço da população geral
apresenta algum tipo de insônia, e deste montante um terço evoluirá para a forma crônica.
O tipo de insônia mais comum entre os idosos é a insônia intermediária (dificuldade de
permanecer adormecido). A prevalência deste tipo de insônia, segundo SCHUBERT e
colaboradores (2002), gira em torno de 30%.
Tanto o decréscimo quantitativo quanto qualitativo do sono acarreta sonolência diurna e
prejuízos durante o estado de vigília.
Como descrito por Morin e colaboradores (2006) e por Terzano e colaboradores (2005), a
consequência mais significativa da insônia é a depressão. Segundo esses pesquisadores, ela
também responde pelo comprometimento cognitivo, dificuldade de atenção e na concentração,
riscos de acidentes pessoais, de trânsito e de trabalho, transtornos de humor (irritabilidade e
depressão), problemas físicos (cefaléia e dores no corpo) e incapacidade em lidar com
dificuldades e tarefas diárias.
Roth e Rohers em 2003 relatam como principais consequências da insônia, acidentes
frequentes, comprometimento da memória, alta procura de serviços médicos, falta no trabalho,
sonolência diurna excessiva e alterações no desempenho motor. Sendo que esses dois últimos
decorrem principalmente da insônia de curta duração.
39
Freitas (2002) responsabiliza a insônia por grande parte das intervenções hospitalares
(distúrbios neurovegetativos, crises de ansiedade, crises hipertensivas) e que também pode levar
ao comprometimento das relações sociais e familiares.
Segundo Terzano e colaboradores (2005), apesar da alta prevalência e do impacto social e
econômico que acarreta, em função do afastamento do trabalho, poucos são os insones que se
tratam. Quando a insônia atinge os sujeitos que apresentam doenças psiquiátricas os sintomas se
agravam.
5.3- Avaliação diagnóstica dos distúrbios do sono
Vários são os instrumentos disponíveis para avaliar-se adequadamente a qualidade e a
quantidade de sono de um indivíduo. Dentre eles destacam-se a entrevista, anamnese, os
inventários, as escalas de sono e, sobretudo a polissonografia.
No presente trabalho de pesquisa usaremos a anamnese, os índices de qualidade de sono e
a polissonografia. Através da anamnese podemos fazer um diagnóstico inicial dos supostos
portadores de insônia, através de perguntas sobre onde o sono ocorre, o contexto do ambiente
(quarto, luminosidade, umidade, cama), a percepção que cada indivíduo tem do próprio sono.
Para Rossini e Reimão (1999) a avaliação de fatores relacionados à insônia deve abranger:
1. História do sintoma dentro do histórico de vida dos pacientes;
2. Formas de manifestação e características do distúrbio;
3. Aspectos cognitivos, adaptativos e emocionais conscientes e inconscientes.
Dentre os índices de qualidade disponíveis o inventário de Pittsburgh é um dos mais
utilizados na avaliação da qualidade do sono, (Buysse et al., 1989).
O índice de qualidade de sono de Pittsburgh (questionário em anexo) é um questionário
onde os sujeitos avaliados assinalam as respostas que acham mais correta sem a interferência do
pesquisador. Tal índice fornece ao pesquisador subsídios para determinar quais indivíduos podem
ser considerados insones ou não.
Recentemente um terceiro instrumento tem sido utilizado intensamente, a polissonografia.
40
A polissonografia tem como finalidade o registro gráfico de variáveis fisiológicas durante
o sono. Em 1953 dois pesquisadores norte-americanos, Aserinsky E., Kleitman N., notaram que
padrões encefalográficos específicos podiam ser associados a movimentação ocular rápida que
ocorre durante o sono de crianças e adultos normais. Denominaram então os períodos de sono
com intenso movimento ocular de sono REM (do inglês rapid eyes moviment), e o padrão de
sono onde aquela movimentação ocular não acontecia de sono não REM. Constataram também
que os sonhos aconteciam, sobretudo, durante o período de sono REM quando o tônus muscular
basal do indivíduo apresentava grandes quedas com significativa movimentação ocular. Tanto a
contração muscular basal, quanto os potenciais cerebrais, como a movimentação ocular, é
passível de serem registrados graficamente, possibilitando, dessa forma a monitoração da
qualidade do sono através da polissonografia.
A técnica da polissonografia geralmente é feita em laboratórios especializados, fora do
domicílio do paciente.
Esses exames são acompanhados durante toda noite por técnico treinado e especializado.
5.4- Monitorização Polissonográfica
Polissonografia é um exame dinâmico. Ele se caracteriza pelo registro gráfico de
múltiplas variáveis fisiológicas que ocorrem durante o estado de sono e o registro
polissonográfico pode ser feito tanto no período noturno quanto diurno. Conforme a suspeita
clínica escolhe-se diferentes variáveis a serem registradas (BUSTAMANTE, 2006, p.169)
O surgimento da polissonografia atual baseia-se no fato do sono ser um estado ativo
composto por inúmeras funções e processos fisiológicos responsáveis pelo metabolismo intenso.
É consenso entre os estudiosos conceber que todos os sistemas biológicos apresentam mudanças
fisiológicas durante o estado de sono, sendo que as mudanças mais intensas ocorrem no Sistema
Nervoso. Como o sistema nervoso é o centro de controle que regula os demais sistemas, todas as
mudanças fisiológicas ocorridas durante o sono são mais intensamente registradas a nível central.
Porém esse fenômeno apenas em 1953 passou a ser compreendido dessa forma. Conforme
Bustamante (id. ib.):
41
A compreensão de que o cérebro gerava potenciais elétricos levou a um neuropsiquiatra
alemão, Hans Berger, a desenvolver, na década de 1920, a técnica da eletrencefalografia.
Esta técnica consiste no registro gráfico dos potencias cerebrais ao longo do tempo e
permitiu pela primeira vez observar que estes potenciais se modificavam com o sono.
Apenas em 1953, outro marco do estudo do sono seria descoberto por dois pesquisadores
norte-americanos( 5), que observando o sono de crianças e adultos normais notaram que
padrões eletrencefalográficos específicos estavam associados a um movimento ocular
rápido e identificaram o chamado sono R.E.M. (do inglês Rapid Eyes Movement)
(p.169)
Segundo descrição feita por Bustamante (2006, p. 176), a operacionalização do exame
polissonográfico pode ser sintetizada em cinco tópicos, a saber:
•
Ambiente confortável, silencioso e com iluminação e temperatura controladas,
aproximando-se ao máximo de um ambiente adequado para o sono.
•
Que o paciente chegue ao laboratório uma ou 2 horas antes do início do exame para a
preparação e ambientação do mesmo.
•
Que o horário de início e término do exame seja próximo aos horários de dormir e de se
levantar do sujeito que a ele se submete.
•
Que o paciente responda a um questionário pré-exame relatando seus sintomas e outros
dados que possam interferir no sono e no resultado do exame.
•
Que após o exame, o paciente responda outro questionário, relatando como foi o seu sono
durante aquela noite e relacionando-o aos fatores que interferem em seu sono.
Deve ser enfatizado que alguns sujeitos apresentam dificuldades em dormir em ambiente
estranho com vários sensores ligados ao seu corpo. Isto pode tornar o exame não representativo
do sono habitual do paciente, sendo este fenômeno conhecido como efeito da primeira noite. Esse
efeito torna necessária a realização de novo exame. Assim os requisitos para que um exame
polissonográfico seja considerado válido é necessário que atenda aos seguintes parâmetros,
conforme Bustamante (id. p. 177):
•
Eletroencefalograma (mínimo de 01 canal, sendo recomendado 04 canais).
(5)
Referidos na nota 4 em Bustamante (2006, p. 178): Aserinsky E, Kleitman N. Regularly occurring periods of eye
motility and concomitant phenomena during sleep. Science 1953; 118: 273-4.
42
•
Eletrooculograma (mínimo de 01 canal, sendo recomendado 02 canais).
•
Eletromiograma 01 canal (submentoniano).
•
Duração mínima de 06 horas com luzes apagadas.
O autor (id. ib.) acrescenta os seguintes parâmetros adicionais para avaliação de distúrbios
respiratórios do sono:
•
Fluxo aéreo naso-bucal (termistor ou cânula de pressão).
•
Esforço respiratório (cintas respiratórias, balão esofágico)
•
Oximetria e/ou capnograma.
•
Eletrocardiograma.
•
Sensor de roncos.
•
Sensor de posição corporal.
•
Eletromiograma de pernas.
Concluindo, Bustamante (id. ib.) afirma que os parâmetros adicionais necessários para
avaliação de outros distúrbios específico, são:
•
Bruxismo – eletromiograma de masseters.
•
Refluxo gastro-esofágico – Phmetria.
•
Disfunções eréteis – cintas penianas e medição de rigidez.
•
Distúrbios comportamentais do sono – vídeo – EEG.
Um especialista em polissonografia, finalmente analisa visualmente todos os dados e
indica os eventos pertinentes para que estes sejam colocados em tabelas e/ou gráficos pelo
software de análise. O software de boa qualidade determina uma melhor interpretação dos dados
43
registrados. É fundamental que os exames sejam sempre verificados manualmente por
profissionais treinados em polissonografia.
O laudo de conclusão avalia a latência para o início do sono, a percentagem e a
distribuição de cada tipo de sono (chamado arquitetura do sono), o índice de despertares, de
despertares breves (ou microdespertares), eventos específicos e a eficiência do sono, entre outros.
Os achados devem ser interpretados por especialistas em sono à luz dos dados clínicos do
paciente.
As indicações da polissonografia segundo a Academia Americana de Medicina do Sono
(AASM) são continuamente publicadas em seu site (aasmnet.org) além de uma série de outras
normatizações e revisões sobre doença do sono.
44
6- APLICAÇÃO DO INVENTÁRIO DE PITTSBURGH
O Inventário foi aplicado no mês de maio de 2011, em vinte e oito participantes, após ter
sido prestado todos os esclarecimentos a respeito da pesquisa, bem como dúvidas que surgiam.
Os entrevistados que tinha dificuldade na leitura e ou entendimento das questões propostas eram
auxiliados porém jamais influenciados em suas respostas.
6.1- Análise dos resultados
A partir da tabulação dos dados do questionário do inventário de Pittsburg foram
construídos gráficos que informam a respeito do perfil dos idosos pesquisados.
Gráfico 1 - Distribuição percentual das faixas etárias dos pesquisados (n = 28)
IDA DE
21%
11%
menos de 60
de 60 a 69
29%
de 70 a 79
de 80 a 89
39%
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
Foram selecionados indivíduos entre 55 e 85 anos com queixa de má qualidade de sono e
que eram atendidos no Centro de Saúde Escola de Custodópolis pelo pesquisador em questão.
Podemos notar que a maior parte dos pacientes com tal queixa são aqueles com idade superior a
70 anos (60%), logo podemos notar que nesta pesquisa o acréscimo dos anos vem corroborar para
aumentar a queixas relativas ao sono, como afirma Filho (1994) em seus estudos: Com o
envelhecimento aumenta a insatisfação com o sono.
45
Gráfico2 – Distribuição percentual do horário de deitar (n=28)
Horário de deitar
11%
32%
antes das 20h
entre 20h e 22h
após as 22h
57%
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
Percebemos neste gráfico que grande parte dos idosos deita-se entre 20 e 22h. Podemos
especular que a causa plausível para este fato é a pouca opção de atividades, entretenimento e
sociabilização, até mesmo entre os próprios familiares (tais queixas foram relatadas pelos
entrevistados desta pesquisa). Muitos não iam se deitar porque estavam com sono e sim por falta
de opção e isto pode ser um agravante para a qualidade de sono, uma vez que, segundo Reynolds
e cols. (1984), o indivíduo com queixa de insônia deverá se deitar somente quando estiver com
sono, não devendo ter no quarto, televisão ou outros fatores estimulantes, fato não incomum
relatado pelos idosos durante a anamnese médica.
Gráfico 3 - Distribuição percentual do tempo gasto para iniciar o sono (n = 28)
T empo para peg ar no s ono
7%
4%
32%
menos de meia hora
entre uma e duas horas
mais de duas horas
não s oube informar
57%
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
46
O gráfico acima nos mostra que a maior parte dos idosos pesquisados tinha dificuldade de
iniciar o processo de dormir, o que classificamos como insônia inicial o que foi comprovado por
Balter e cols. (1992) em seus estudos com 9.000 idosos acima de 65 anos. Dentre os idosos
pesquisados um fato comum é a ansiedade muito agravada pelos problemas familiares
(financeiro, relacionais entre outros) e a violência urbana. Segundo Reynolds et al (1984), para
que se tenha uma boa noite de sono é necessário um ambiente tranquilo e se evitar estresse.
Gráfico 4 - Distribuição percentual do horário em que os pesquisados acordavam (n = 28)
Horário de ac ordar
4%
18%
antes das 5h
entre 5h e 7h
depois das 7h
78%
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
Como podemos constatar neste gráfico a maioria absoluta dos idosos pesquisados
acordam entre cinco e sete horas o que não é um horário tão diferente das pessoas sem queixas de
insônia. Esse dado tem relevância, pois, nos mostra que talvez os idosos em questão não durmam
tão pouco como pensam que dormem.
Gráfico 5 - Distribuição percentual da média de horas de sono por noite (n = 28)
Horas de s ono por noite
14%
36%
até 4h
entre 4h e 6h
mais de 6h
50%
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
47
Neste gráfico os idosos referiram o número de horas que eles achavam que dormiam por
noite. Como podemos aferir 64% percebia que dormia entre quatro e seis horas ou mais de seis
horas por noite, sem levar em consideração os cochilos durante o dia. Segundo filho (1994), a
capacidade de sono de um idoso é em média de seis horas a cada ciclo de vinte e quatro horas,
contando com todos os cochilos que ocorrem ao longo do dia e o sono noturno propriamente dito.
Tal fato pode ser explicado pela diminuição dos estímulos cognitivos (aprender coisas novas,
estudar, ler, enfrentar novos desafios, etc.) inerentes a muitos idosos. Para Reimão et al (1990),
utilizando-se da teoria de Feinberg (1967), a quantidade e o aprofundamento do sono está
diretamente relacionado a exigência cognitiva, quanto menos, menor a necessidade de sono e
quanto mais exigência, maior a necessidade de sono (por isso os estudantes referem tanto sono).
Gráfico 6 - Distribuição percentual dos despertares noturnos ou precoces (n = 28)
Acorda no meio da noite ou de
manhã muito cedo
4%
nenhuma vez
25%
uma ou duas vez es por
s emana
67%
4%
menos de uma vez e por
s emana
três vez es por s emana
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
Como podemos observar neste gráfico os idosos estudados têm vários despertares noturno
o que vem confirmar os dados mundiais a respeito da arquitetura do sono nos idosos. Feinberg
(1967) afirmam que os idosos têm mais dificuldade de alcançarem as fases três e quatro do sono
não REM e o sono REM , ou seja, as fases mais profundas do sono, por isso têm mais despertares
noturnos. Segundo Reynolds e colaboradores (1984), o sono noturno do idoso é superficial e
caracterizado por inúmeros despertares que levam de três a quinze segundos e por uma perda
significativa das fases três e quatro (fases mais profundas) do sono não REM. Talvez essa seja a
explicação para que o percentual de idosos pesquisados que acordam durante a noite seja tão
48
elevado. Lembramos que é na fase REM do sono que a memória é consolidada, talvez por isso
ocorram tantas queixas quanto a capacidade de memorizar.
Gráfico 7 - Distribuição percentual das interrupções do sono para ir ao banheiro (n = 28)
L evanta para ir ao banheiro
4%
25%
nenhuma vez
uma ou duas vez es por
s emana
menos de uma vez e por
s emana
64%
7%
três vez es por s emana
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
Notamos no gráfico acima que é alta a incidência de idosos que vão ao banheiro urinar
durante a noite de sono, porém através da anamnese não constatamos um elevado número de
idosos que ingeriam muita quantidade de líquidos à noite. Talvez o fato de ir muito ao banheiro
esteja condicionado ao despertar frequente que é comum nesta faixa etária. Como mostramos no
gráfico seis os idosos têm muita dificuldade de aprofundar o sono.
Gráfico 8 - Distribuição percentual das queixas respiratórias durante o sono (n = 28).
Dific uldade para res pirar
4%
7%
7%
nenhuma vez
uma ou duas vez es por
s emana
menos de uma vez e por
s emana
três vez es por s emana
82%
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
49
Dentre os fatores que comprometem a qualidade do sono no idoso estão os problemas
respiratórios conforme descreve Miles e Dement (1980), porém podemos notar pelos números
acima que este não foi um fator de relevância na nossa pesquisa, o que é positivo, pois desta
forma não houve interferência deste aspecto.
Gráfico 9 - Distribuição percentual dos roncos e tosses durante o sono (n = 28)
T os s ir ou ronc ar muito alto
14%
nenhuma vez
4%
uma ou duas vez es por
s emana
menos de uma vez e por
s emana
18%
64%
três vez es por s emana
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
Conforme o gráfico acima os idosos não referem tossir e ou roncar muito a noite. Este
dado apesar de pouco preciso, uma vez que a maioria dizia não ter certeza da resposta, colabora
para a não interferência na pesquisa.
Gráfico 10 - Distribuição percentual da incidência de dor durante o sono (n = 28).
S entir Dores
nenhuma vez
32%
36%
uma ou duas vez es por
s emana
menos de uma vez e por
s emana
três vez es por s emana
18%
14%
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
O gráfico acima nos mostra que a dor não foi uma queixa frequente entre os idosos
pesquisados, logo teve pouca interferência na pesquisa. A dor, sintoma muito frequente entre os
50
idosos, também é um fator importante que pode levar a um comprometimento da qualidade do
sono segundo Miles e Dement (1980).
Gráfico 11 - Distribuição percentual da incidência de frio durante o sono (n = 28).
S entir muito frio
4%
4% 0%
nenhuma vez
uma ou duas vez es por
s emana
menos de uma vez e por
s emana
três vez es por s emana
92%
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
Gráfico 12 - Distribuição percentual da incidência de calor durante o sono (n = 28)
S entir muito c alor
21%
nenhuma vez
0%
uma ou duas vez es por
s emana
menos de uma vez e por
s emana
14%
65%
três vez es por s emana
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
Conforme Miles e Dement, fatores ambientais adversos tais como: ambientes muito frios
ou quentes são causas comuns do comprometimento do sono e este aspecto foi avaliado quando
foi aplicado o inventário de Pittsburgh, porém não teve grande relevância (vide gráficos acima)
na presente pesquisa, como fator impeditivo para uma boa noite de sono.
51
Gráfico 13 - Distribuição percentual da incidência de referência de pesadelos (n = 28)
T er s onhos ruins ou pes adelos
4%
18%
nenhuma vez
uma ou duas vez es por
s emana
menos de uma vez e por
s emana
11%
67%
três vez es por s emana
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
No gráfico acima podemos observar que os idosos referiram poucos episódios de
pesadelos. Os pesadelos são enquadrados por Parkes dentre as parassonias que são muito pouco
frequentes entre os idosos, pois são alterações relacionadas à fase REM do sono, fase esta que os
idosos têm maior dificuldade de alcançar, logo sonham menos e, portanto tem menos pesadelos,
tendo estes pouca relevância na queixa de dormir mal.
Gráfico 14 - Distribuição percentual de outros fatores referidos que atrapalhariam o sono (n= 28)
Outras raz ões
21%
P reoc upaç ão c om
familiares
50%
P ens amentos ruins
e medo
B arulhos ex ternos
29%
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
Como mostrado no gráfico acima os idosos têm uma insônia predominantemente inicial e
uma resposta para isso pode se dá pelo fato de eles ficarem muito preocupados com os problemas
52
familiares ou outras situações que gerem preocupação (vide gráfico acima) que acabam por levar
um estado de ansiedade o que pode dificultar o início do sono.
Gráfico 15 - Distribuição percentual das possíveis pessoas que tinham indícios que não dormiam
bem (n = 28)
P S QI
18%
dormidores em s ituaç ão
normal
"mau" dormidores
82%
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
6.2- Conclusões dos resultados do Inventário de Pittsburgh
Após fazermos todos os escores, concluímos que pelo questionário de Pittsburgh 18% dos
pesquisados, mesmo com queixa de que não dormem, são dormidores em situação normal e que
82% dos pesquisados, a princípio são maus dormidores, o que não quer dizer insones, daí a
necessidade de se fazer o exame de Polissonografia neste grupo para aumentar a acurácia da
pesquisa.
53
7- O EXAME DE POLISSONOGRAFIA
Como instrumento de validação do questionário de Pittsburg, foram realizados cinco
exames de Polissonografia entre os indivíduos que participaram da pesquisa. A seleção dos
investigados não foi feita aleatoriamente, procuramos escolher indivíduos que não tivessem
muitas comorbidades (para não influenciar no exame) e entre aqueles que demonstraram bastante
interesse de realizar o exame, bem como os que atendiam aos critérios estabelecidos
anteriormente pelo inventário de Pittsburgh. Foram selecionadas cinco pessoas, todas moradoras
no bairro de Custodópolis, todas mulheres (uma vez que praticamente não tivemos homens
participando da pesquisa) em idades entre sessenta e dois e oitenta e três anos.
O fato de indivíduos do sexo masculino não participarem da pesquisa nos oferecem
indícios da dificuldade e resistência deste público em cuidar de sua saúde e procurar fazer um
diagnóstico dos seus problemas. Lembramos aqui que setenta e cinco por cento das consultas no
ambulatório de Geriatria em Custodópolis são de pacientes do sexo feminino o que nos inclina a
pensar na idéia de incentivar a promoção da saúde dos homens.
7.1- A realização do exame
Como dito anteriormente na metodologia foram realizados cinco exames. Gostaríamos de
ter realizado mais, porém pelo alto custo, cerca de quatrocentos reais cada um e pela dificuldade
operacional para a realização não foi possível.
Os exames foram realizados entre os dias 10/05/2011 a 16/05/2011 no consultório do
professor Maurício Escocard (que não cobrou pela realização dos exames, o que foi de suma
importância para a concretização da pesquisa), situado na Rua Conselheiro Otaviano, número 84,
sala 201, edifício Fleming, no centro da cidade de Campos dos Goytacazes.
No dia do exame os pacientes eram orientados a lavarem a cabeça com água e sabão de
coco (para remover a oleosidade do couro cabeludo e melhorar a transmissão dos impulsos
elétricos cerebrais capitados pelos eletrodos do polissonógrafo) por volta do meio dia. Os exames
eram iniciados entre dez e meia e onze horas da noite. Por volta das dez horas o pesquisador
pegava os pacientes em suas casas (que já estavam avisados anteriormente da realização do
exame) ao chegarmos ao consultório éramos recebidos pela técnica de Polissonografia
54
(profissional responsável pela realização e monitorização do exame ao longo da noite). O
paciente então era orientado a colocar um pijama, urinar se quisessem e conduzido a sala onde
eles iriam dormir, em seguida eram colocados todos os eletrodos que seriam responsáveis pelo
registro da qualidade do sono, e conectado o polissonógrafo a um programa de computador para
interpretação dos impulsos elétricos enviados pelo cérebro durante o sono, apagavam-se as luzes
e em uma temperatura ambiente confortável o exame era iniciado. Como os pacientes não podiam
se levantar durante o exame eram orientados a chamar a técnica caso eles necessitassem urinar,
que então colocariam um coletor de urina (chamados popularmente de comadre). O exame
terminava por volta das seis e trinta da manhã, quando os eletrodos eram retirados, os pacientes
se trocavam e o pesquisador os levavam para casa.
7.2- Interpretando os exames
Os exames foram feitos sem intercorrências, com excelente cooperação por parte dos
examinados. A seguir iremos descrever os exames sendo que o primeiro será mais detalhado que
servirá de base para os demais.
Primeiro exame: LMPR, 64 anos. Índice de massa corpórea (IMC) de 26.9kg/m.
Dados técnicos:
Foram registrados 7h e 35min, tempo equivalente ao momento em que a paciente iniciou
o exame até ser acordada pela manhã. Durante este período foram observados 225 eventos de
apneias (interrupção da respiração) e hipopneias (respirações que não são suficientes para uma
oxigenação adequada do sangue), sendo 02 do tipo obstrutiva, 02 do tipo mista, 220 do tipo
hipopnéia, 01 do tipo central e 24 eventos de dessaturações (momento em que não foi possível
detectar o nível de oxigênio sanguíneo). Neste período de registro observamos que a eficiência do
sono foi de 82% (que correspondeu à 6h e 21min), ou seja, a paciente dormiu durante 6h e 21min,
das 7h e 35min registradas. Das 6h e 21min em que dormiu, 7.75% do tempo foi de sono não
REM 1 (sono muito superficial); 52.01% do tempo foi de sono não REM 2 (sono superficial);
21.26% foi de sono não REM 3 (sono um pouco mais profundo) e 18.98% foi de sono não REM
4 fase ainda mais profunda que antecede o sono REM que é a fase do sono em que o paciente
realmente relaxa e tem sonhos mais elaborados. Esta paciente em questão não atingiu a fase REM
55
do sono. Conforme afirma Feinberg et al.(1967) este padrão de sono é normal para os idosos, ou
seja, fases não REM 1 e 2 maiores e fases mais profundas como não REM 3, 4 e REM menores e
até mesmo abolidas. Após um dia da realização do exame aplicamos o questionário de Epworth,
que avalia a sonolência diurna dos estudados o que é de suma importância como contra prova
para classificarmos um indivíduo como insone, pois segundo Balter et al.(1992) pessoas que
referem não dormir e que no dia seguinte não referem sonolência e se mostram dispostos não
podem ser classificados como insones e sim como pessoas com baixa necessidade de sono.
A escala de Epworth corresponde a um total de oito perguntas feitas ao paciente a respeito
de situações comuns do seu cotidiano que deverão demonstrar se existe ou não sonolência ao
longo do dia.
Perguntas:
1- Se cochila ou adormece quando está: sentado e lendo;
2- Se cochila ou adormece quando está: vendo televisão;
3- Se cochila ou adormece sentado em lugar público, sem atividades, como sala de espera,
cinema, teatro, igreja etc.
4- Se cochila ou adormece quando anda de trem, carro ou similares na condição de passageiro;
5- Se cochila ou adormece quando deita para descansar à tarde;
6- Se cochila ou adormece sentado conversando com alguém;
7- Se cochila ou adormece sentado após uma refeição sem álcool;
8- Se cochila ou adormece quando está parado no carro durante transito;
Para cada pergunta é atribuído um valor de zero a três, de acordo com a negação (zero
ponto) ou da intensidade da afirmação 1, 2 ou três. Quando o escore atinge dez pontos ou mais
denota sonolência e requer tratamento mais específico.
O gráfico a seguir ilustra as fases do sono desta paciente
56
Gráfico 16: Distribuição percentual de estágios do sono na noite de LMPR, 64 anos
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
Comentários:
A primeira paciente avaliada após ser aplicado o questionário de Epworth teve uma
pontuação de cinco, o que confirma que ela não é uma insone, mesmo tendo a percepção de que
não dorme, conforme aferido em anamnese, portanto sua queixa não procede. Como observamos
neste exame a paciente teve 225 epsódios de apneia e hipopneia, logo reconhecemos que exista
um problema em seu sono, que poderia ser amenizado pelo uso de um equipamento chamado
CEPAP (pressão positiva contínua das vias aéreas que possibilitaria uma diminuição dos
episódios de apneia e de hipopneia) e não de medicações para dormir, que pode ser um problema
ainda maior para esses indivíduos, pois além de comprometê-las cognitivamente poderá aumentar
o risco de queda que por muitas vezes é fatal para este grupo etário.
Segundo exame: NVS, 72 anos. Índice de massa corpórea (IMC) de 26,1 kg/m.
Dados técnicos:
Foram registrados 6h e 36min de exame, onde observamos 311 eventos de apneias e
hipopneias, sendo 19 do tipo obstrutiva, 09 do tipo mista, 05 do tipo central, 278 do tipo
hipopneia e 28 eventos de dessaturações. A eficiência do sono foi de 71%, ou seja, 5h e 8 min de
57
sono, dos quais 29.7% foi de sono não REM 1, 32,8% foi de sono não REM 2, 18,2% foi de sono
não REM 3 e 19,2% foi de sono não REM 4. Não foi registrado sono em estado REM nesta
paciente.
Gráfico 17: Distribuição percentual de estágios do sono na noite de NVS, 72 anos
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
Comentários:
Após um dia da realização da polissonografia foi aplicado o questionário de Epworth para
contra prova do exame de polissonografia. A paciente respondeu com a palavra não a todas as
indagações feitas, portanto recebeu um valor total de zero ponto o que demonstra que embora a
paciente não tenha alcançado a fase REM do sono ela não tem sonolência durante o dia o que
seria de suma importância para classificá-la como uma portadora de insônia, assim como a
primeira paciente submetida à polissonografia e todas as outras, ela referiu conhecer outras
pessoas em seu meio que também diz dormir pouco. O que corrobora coma teoria da
representação social como veículo para o saber, identificação, orientação e justificação da tomada
de decisão, como por exemplo, relato feito pela paciente citada acima: “Eu tomo esse remédio
porque preciso e muita gente também toma, se eu não tomar eu não prego os olhos nem um
segundo.”
58
Terceiro exame: RCMR, 62 anos. Índice de massa corpórea (IMC) de 27.4 kg/m.
Dados técnicos:
Foram registrados 6h e 54min de exame, onde observamos 158 eventos de apneias e
hipopneias, sendo 15 do tipo obstrutiva, 03 do tipo mista, 139 do tipo hipopneias e 01 do tipo
central, sem nenhum evento de dessaturação. A eficiência do sono foi de 71%, ou seja, 5h e
29min de sono, dos quais 20.7% foi de sono não REM 1, 32.6% de sono não REM 2, 9% de sono
não REM 3 e 37.7% de sono não REM 4. Não foi registrado sono REM nesta paciente.
Gráfico 18: Distribuição percentual de estágios do sono na noite de RCMR, 62 anos
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
Comentários:
Após um dia da realização do exame de polissonografia foi aplicado o questionário de
Epworth, o escore total foi de 6 pontos o que não classifica a paciente como portadora de
sonolência diurna logo não podemos enquadrá-la como insone, portanto não se justifica a queixa
referida pela mesma e muito menos o uso de medicação para dormir e sim o uso do CPAP e
mudando a posição de dormir uma vez que todos os registros de apneia e hipopneia foram feitos
quando a paciente estava em decúbito dorsal, ou seja, dormindo com a barriga para cima.
59
Quarto exame: AHS, 75anos. Índice de massa corpórea de 30,6 kg/m.
Dados técnicos:
Foram registrados 6h e 54min de exame, onde observamos 199 eventos de apnéias e
hipopnéias, 06 do tipo obstrutiva, 06 do tipo mista, 177 hipopnéias 10 do tipo central, com 23
eventos de dessaturações. A eficiência do sono foi de 83%, ou seja, 6h e 12 min de sono, dos
quais 48% foi de sono não REM 2, 23% foi de sono não REM 3, 12,9% foi de sono não REM 4 e
15,5% foi de sono REM.
Gráfico 19: Distribuição percentual de estágios do sono na noite de AHS, 75 anos
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
Comentários:
Seguindo o mesmo tramite das outras pacientes foi aplicado em seguida o questionário de
Epworth e o escore total foi de 01 ponto o que veio a confirmar o que o exame de polissonografia
já havia nos mostrado, que a paciente em questão não tem insônia, embora assim como as outras
pacientes estudadas possamos melhorar a qualidade do seu sono, com o uso do CPAP, mudança
de posição, ambiente adequado (pouca iluminação, temperatura agradável, silêncio etc.), dieta
para emagrecer, pois a maioria dos examinados estava acima do peso, o que é fator importante
para que ocorra os eventos de apnéias e hipopnéias.
60
Quinto exame: GOA, 83 anos.. Índice de massa corpórea (IMC) de 31,3 kg/m
Dados técnicos:
Foram registrados 7h e 16min de exame, onde observamos 237 eventos de apneia e
hipopneia, 04 do tipo obstrutiva, 03 do tipo mista, 232 do tipo hipopneia, 02 do tipo central, sem
nenhum evento de dessaturação. A eficiência do sono foi de 87%, ou seja, 6h e 32min de sono
dos quais 48% foi de sono não REM 2, 18.2% foi de sono não REM 3, 18,8% foi de sono não
REM 4 e 14.5% foi de sono REM.
Gráfico 20: Distribuição percentual de estágios do sono na noite de GOA, 83 anos
Fonte: Pesquisa “Qualidade do sono e meio socioeconômico cultural.” PPGCL/UENF, 2011, elaboração do autor.
Comentários:
Conforme feito nas outras pacientes foi aplicado o questionário de Epworth e obtivemos
um escore de 04 pontos, o que mais uma vez comprovou que a paciente estudada não tem
insônia, portanto sua queixa não foi comprovada e não se justifica o uso de medicação e sim de
medidas ambientais como já descritas acima e o uso do CPAP, pois a paciente em questão
também apresentou muitos episódios de apneia e hipopneia. É importante dizer que não
podemos nos esquecer que o exame de polissonografia é realizado em um ambiente que não é
61
familiar para estas pessoas o que poderia influenciar na qualidade do sono, porém mesmo assim
tivemos pacientes que dormiram acima de 80% como foi o caso da paciente acima.
Podemos observar em todos os exames de Polissonografia realizados demonstraram um
alto um alto índice de apnéias e hipopnéias o que pode ter sido causado pelas pacientes terem
dormido em decúbito dorsal (com a barriga para cima, o que aumenta a obstrução das vias
aéreas superiores) e ao peso elevado, constatado pelo Índice de Massa Corpórea, todos acima de
25 kg/m, conforme mostrado acima. Segundo a Organização Mundial de Saúde obtém-se este
índice dividindo o peso pela altura ao quadrado, e valores acima de 25 kg/m configuram
excesso de peso o que é fator de risco para apneia do sono. A apneia do sono é definida pela
cessação da respiração por dez ou mais segundos, e segundo Chasca (1995) a apneia do sono
representa um perigo e ameaça a vida do ser humano. Foi apontada por Aloé (1997) como uma
doença crônica, portanto, sempre patológica, de caráter progressivo, incapacitante e com alto
índice de morbidade e mortalidade cardiovascular.
62
8- IDENTIFICAÇÃO DAS FUNÇÕES DE REPRESENTAÇÃO SOCIAL
Após as constatações feitas com base nos exames de polissonografia e na Escala de
Sonolência de Epworth, nas quais verificamos que das cinco idosas submetidas a esses
procedimentos nenhuma apresentou quadro clínico de insônia, passamos à etapa de entrevistas.
A etapa de entrevistas teve o objetivo de obter dados a respeito das representações sócias
das cinco idosas em relação as suas queixas de má qualidade do sono. Entendemos que o ideal
seria realizar esta etapa de entrevistas com as vinte e oito idosas que responderam o Inventário e
Pittsburgh de modo a conferir maior consistência às inferências que fizemos a partir dos
depoimentos de quatro idosas descritas logo a seguir. Porém, devido aos prazos da pesquisa, este
intento não foi possível. Assim, as inferências realizadas, apesar de apontarem para certa
dinâmica entre as funções das representações sociais colhidas, carecem de maior número de
recorrências para alcançar maior legitimidade, o que poderá ser obtido em pesquisas futuras. De
qualquer forma, as quatro entrevistas realizadas possibilitaram reforçar a indagação inicial
quando encontramos trechos de depoimentos que apresentam articulação entre os resultados
obtidos nos exames e a cultura local.
A partir dessas considerações iniciais passamos à descrição da etapa de entrevistas.
Delimitada a quantidade de entrevistas a ser realizada em função do tempo disponível,
preparamos um roteiro de abordagem no qual houvesse perguntas orientadas para cada uma das
funções que caracterizam a dinâmica das representações sociais em uma dada coletividade, o qual
apresentamos abaixo:
Roteiro:
1. Situações-pergunta para a função identitária:
A senhora acha que isso acontece com os outros idosos que a senhora conhece (lá da
Associação de Idosos do bairro)?
A senhora acha que eles dormem mais ou menos que a senhora?
A senhora acha que eles fazem a mesma queixa porque tem a mesma situação da senhora?
A senhora acha que os homens também têm problema com sono?
63
2. Situações-pergunta para a função justificadora e função saber:(6)
Desde quando a senhora percebe que não dorme bem? Desde então, essa situação
aumentou, diminuiu ou ficou igual?
Tem alguma amiga ou parente que tenha a mesma queixa que a senhora? E a situação
dela também aumentou (diminuiu, ficou igual)?
Por que a senhora acha que isso começou a acontecer?
Por que aumentou (diminuiu ou ficou igual)?
3. Situações-pergunta para a função de orientação:
O que a senhora acha que essa situação tende a melhorar ou piorar?
Quando a senhora acha que essa situação melhora?
A senhora acha que as recomendações médicas ajudam a melhorar essa situação?
As entrevistas foram realizadas no domicílio das entrevistas e duraram em torno de quatro
a sete minutos, utilizando gravação digital, a partir da qual foram transcritas. Para analisar o
material coletado recorremos a Bardin (1977), no que tange à análise categorial que reorganiza as
falas em unidades, formando categorias por reagrupamento de recorrências percebidas nas falas
dos diversos atores.
Por meio desse recurso encontramos recorrências que permitiram organizar seis
categorias:
- a queixa de má qualidade do sono é coletiva, mas não é vivida como uma característica
comum do grupo de idosos;
- a má qualidade do sono não é característica própria de gênero ou idade;
- o lugar prejudica o sono;
- a perda afetiva é marcante na má qualidade do sono;
- ir ao médico e tomar remédio ajuda a melhorar a qualidade do sono;
- a má qualidade do sono tende a piorar com o tempo.
(6)
Aqui juntamos as duas funções tendo em vista a interseção que fazem com a conduta explicativa que permitem
tanto justificar suas tomadas de posição quanto compreender a realidade explicando-a por meio de conhecimentos
adquiridos.
64
A função identitária, como vimos anteriormente, emerge das representações sociais com a
função de situar os indivíduos e os grupos dentro de uma dada coletividade, elaboração de uma
identidade social e pessoal com um papel importante nos processos de socialização. Nesse
sentido as entrevistadas apresentaram, de modo recorrente, duas características entre os idosos
que conhecem ou convivem. A primeira delas é que a queixa de má qualidade do sono é algo de
conhecimento coletivo, mas não é característica comum do grupo idosos da comunidade. Para as
entrevistadas há os idosos que também se queixam do sono:
- N (72 anos): Lá (associação de idosos) tem gente que diz que não dorme também.
- L (64 anos): (...) algumas colegas do grupo que a gente frequenta lá no CSU.
- A: (75 anos): Tem uns que reclamam.
- N: Eles falam que dormem o primeiro sono ai depois não dorme fica acordado
Mas, igualmente, há idosos que dormem bem:
- N (72 anos): Essa aqui é a mãe do meu genro, gosta muita de ficar comigo, almoça comigo todo
dia café da manhã, café da tarde, ela dorme muito bem.
E, também, pessoas mais jovens que também se queixam como uma das entrevistadas (R,
62 anos) que diz ter começado a se queixar da má qualidade do sono “com 40 anos mais ou
menos”. Assim como há dúvidas quanto a má qualidade do sono ser algo próprio da velhice: N
(72 anos) “Não sei... por causa a velhice deve ser né?”
De forma complementar, quando indagadas sobre a má qualidade do sono ocorria mais
em mulheres ou homens, para as entrevistadas o gênero não influencia no problema com o sono,
apesar da maior frequência de queixas recebidas no atendimento médico, como se pode observar
a seguir:
- R (62 anos): Tem um, sim. O nome dele é José. Ele dorme cedo, mas três horas da madrugada
está acordado.
- A (75 anos): Eu acho que é a mesma coisa.
Quanto à função do saber e a função justificadora que permitem compreender e explicar a
realidade, bem como integrar conhecimentos e adequá-los aos seus valores, justificando as
tomadas de posição e dos comportamentos, encontramos recorrência quanto à representação do
65
lugar onde moram como fator de influência na má qualidade do sono, como disseram quando
perguntadas se o fato de morar em Custodópolis influenciava seus sonos. Para elas a
movimentação e atos violentos que ocorrem no período da noite e também de dia levam ao medo
e à preocupação:
- R (62 anos): Piora, muita coisa! Aqui a gente vê pessoas tirando vida do outro. Barulho de
fogos, de tiros... eu durmo tremendo, não consigo dormir
- N (72 anos): Eu só tenho um filho que não vem almoçar eu fico preocupada
- N (72anos): Às vezes é por que passam por problemas também né!
E também que as perdas afetivas são verdadeiros divisores de águas é marcante na má
qualidade do sono. A. e N. afirmam que desde as perdas dos filhos não conseguiram mais dormir
direito:
- N (72 anos): Desde que eu perdi meu filho (...).Vai fazer 27anos no dia...o acidente (que) ele
sofreu dia 26 de outubro de 84 e ele faleceu dia 7 e enterrou dia 8.
- A (75 anos): Isso já faz 30 anos. Eu perdi uma filha com 17 anos afogada.
Para uma das entrevistadas não há diferença se dorme em Custodópolis ou na fazenda do
genro em São João da Barra, nada a faz dormir, como se vê abaixo:
- N (72 anos): Não, não durmo eu ando pra roça, meu genro tem uma fazenda lá em São João da
Barra, eu vou pra lá e a gente fica....eu não durmo não, posso ir pra qualquer lugar (que não
durmo).
- N (72 anos): minha filha deita e eu deito junto com ela, perto dela (...), mas eu não durmo não,
não tem nada que me faça dormir.
A função de orientação diz respeito à relação do grupo com o objeto representado, às
expectativas, às estratégias adotadas pelo grupo quanto ao peso dessa má qualidade do sono em
suas vidas e como lidam com isso. Nesse sentido as entrevistadas acreditam que ir ao médico e
tomar remédios seja a única alternativa para conseguir dormir melhor. Nos depoimentos abaixo é
possível observar tais representações:
- A (75 anos): Eu acho que ela dorme pior do que eu! Ela não toma remédio nenhum.
- A (75 anos): Quando eu tomo remédio durmo direitinho, a noite toda.
66
Para N. a perda do filho vem causando problemas “na cabeça”, sentia muita dor de cabeça
e os remédios populares não adiantavam, por isso decidiu procurar o médico e encontrar uma
solução:
- N: Eu agora nem minha cabeça quase tá doendo. Eu tava com muita dor de cabeça. Falei pra
minha nora Elza: vou procurar um médico porque eu acho que eu estou até com doença ruim na
minha cabeça, porque eu não durmo, eu não durmo direito, e a minha cabeça dói muito, dói
muito, eu compro caixa de Neosaldina, eu compro caixa de Dorflex na farmácia Pague Menos. É
Anador, é Dipirona em gotas, nada faz passar todo dia era dor de cabeça. Depois, agora, que o
senhor receitou esse remédio é que eu tô dormindo melhor, a dor da minha cabeça diminuiu,
diminuiu muito mesmo.
Por outro lado, para todas as entrevistadas, apesar da melhora do sono sob o efeito de
remédio, a má qualidade do sono tende a piorar em seus casos:
- N: Só vem piorando, porque a dor continua
- L (64 anos): acho que o problema vem piorando sim.
- R (62 anos): É muita insônia!
- A (75 anos): É isso mesmo. Quando não tomo o remédio fico a noite toda sem dormir.
Finalizando este tópico pode-se ver como as representações sociais trazem elementos
informativos, crenças, valores, atitudes, opiniões com os quais são organizados sob a aparência
de um saber que diz algo sobre a realidade vivida, que no caso das quatro entrevistadas justifica,
explica e orienta as suas percepções em relação ao seu sono.
67
9- CONSIDERAÇÕES FINAIS
Quando começamos a trabalhar no Centro de Saúde Escola de Custodópolis como geriatra
reparamos que uma queixa se destacava entre os pacientes: “Não durmo direito” ou “tenho
insônia” e em decorrência dessa queixa, percebia que a maioria dessas pessoas faziam uso de
medicações para dormir, tanto por automedicação, quanto por prescrição médica, ou por
influência de pessoas conhecidas que tinham medicamentos em casa. Essas situações recorrentes
geravam em mim incômodo e dúvidas. Será que eram necessárias tantas medicações para dormir?
E mais: Será que elas realmente não dormiam?
Como geriatra, já possuía conhecimento das particularidades do sono das pessoas idosas
em relação às outras faixas etárias. De outra forma, por meio de anamneses (interrogatório
realizado pelo médico a respeito das queixas referidas pelos pacientes) constatava que a priori as
queixas não se justificavam, e que talvez, a abordagem terapêutica desses pacientes estivesse
equivocada. Mas, ainda me perguntava: se as queixas não se justificavam porque eram tão
presentes nesse grupo de pessoas? Poderia ser uma queixa restrita aos moradores de
Custodópolis, um bairro com tantos problemas sociais, econômicos e culturais?
Até então não conhecia o conceito de Representação Social que só vim a conhecer quando
iniciamos as aulas do mestrado em Cognição e Linguagem. A partir daí intuímos que esse
conceito poderia está intimamente ligado às queixas dos pacientes que nos intrigavam, uma vez
que a Teoria das Representações Sociais explicava a dinâmica da visão de mundo de um
determinado contexto social através de funções importantes no campo representacional, como já
relatado anteriormente neste trabalho: função de saber (que permite compreender e explicar a
realidade); função identitária (que situa o indivíduo em um grupo); função de orientação (que
serve de guia para comportamentos e praticas tanto sociais como individuais) e função
justificadora (que justifica as tomadas de decisão).
Elaborei então duas hipóteses para nortear a pesquisa: as condições socioeconômico
culturais da comunidade de Custodópolis influenciam a auto avaliação da qualidade do sono dos
moradores idosos desta comunidade, sendo este um fator importante da expressão individual do
ser; e as representações sociais têm realmente o poder de influenciar o cotidiano das pessoas
idosas como se fosse uma influência educacional permanente e inerente das sociedades.
68
Através da anamnese constatamos que quase todos os pacientes interrogados conheciam
outras pessoas que tinham o mesmo problema e que por muitas vezes esse problema era o motivo
que os levavam a procurar o atendimento médico no ambulatório do Centro de Saúde Escola de
Custodópolis que também é um lugar de interação e socialização para essas pessoas.
Porém, apenas o instrumento anamnese não era suficiente para averiguar as hipóteses
estabelecidas. Seria necessário fazer o diagnóstico preciso da insônia desses indivíduos para
chegarmos a alguma conclusão a respeito de suas queixas. Dessa forma, foi constituída uma
amostra de cinco pacientes, pré selecionados pelo Inventário de Pittsburgh, e realizado o exame
de polissonografia, bem como aplicado o questionário de Epworth, seguido de entrevistas.
Ao final de todos os exames de Polissonografia e da aplicação do questionário de
Epworth constatamos que nenhum das idosas avaliadas puderam ser classificados como insones,
embora, como demonstrado no exame de Polissonografia, alguns tiveram um sono de melhor
padrão do que outros.
Tal fato nos ajuda a pensar que as queixas proferidas por essas pessoas não correspondem
a uma realidade e sim a uma percepção da realidade o que chamamos de Representação e que
possivelmente existe a influencia do meio em que vivem. Fato que pode ser verificado na análise
das entrevistas.
Constatamos também que pelo exame de polissonografia seria de se esperar que pelo
menos dois pacientes examinados apresentassem queixa de sonolência diurna o que não se
concretizou o que gera uma nova questão. Isso foi um resultado não esperado e, de certa forma,
inusitado para a literatura médica especializada em idosos. Será que estas idosas, mesmo não
aprofundando o sono, teriam dormido o suficiente para mantê-las sem sonolência ao longo do
dia, principal sintoma da insônia? Pergunta que aponta para a necessidade de novas pesquisas
nessa área.
Penso que esta pesquisa atendeu ao seu objetivo de elucidar se determinada queixa
corresponde a um quadro clínico efetivo ou se sofre influência do meio em que as pessoas vivem.
Assim o resultado da pesquisa pode servir de subsídio aos profissionais da área médica que
buscam melhores instrumentos de avaliação dos seus pacientes que referem tal queixa nas
consultas. Entendo ser esta pesquisa de suma importância, pois abre novos horizontes para a
interpretação das queixas (de não dormir bem) tão frequente entre os idosos, uma vez que a
69
mesma revelou que nem sempre a queixa de um paciente é sinal de uma verdade absoluta e que
entre a queixa e o diagnóstico e consequentemente a conduta vai um longo caminho, onde é
necessário saber investigar usando os mais variados conhecimentos possíveis.
Sabemos da complexidade que exige tal investigação, mas sabemos também o quanto é
necessário pesquisar e aprimorar nossos conhecimentos. Não foi nossa pretensão chegar a uma
verdade absoluta com nossa pesquisa e sim abrirmos um leque de possibilidades para novas
abordagens e entendermos que os saberes podem ser complementares e devemos sempre que
possível buscar novos conhecimento que possam nos ajudar a desenvolver nossa cognição em
prol da sociedade e de todos aqueles que necessitarem. Por fim compreendemos que a
interdisciplinaridade é de suma importância para a formulação do saber, portanto, não devemos
ter medo de conhecer o novo, o outro, de estarmos abertos para novos desafios, pois é isso, que
move a ciência e certa forma a própria humanidade.
Fica em mim a certeza que através desta pesquisa poderei ajudar a outros profissionais
médicos a fazer um diagnóstico de insônia com mais propriedade e responsabilidade, o que será
de grande importância não só para os próprios médicos como também para os pacientes, e
consequentemente cumprindo o dever de uma pesquisa envolvendo seres humanos.
Por último gostaria de ressaltar que esta pesquisa levantou algumas situações que
necessitam de maiores estudos uma vez que alguns achados suscitam a um paradoxo com a
literatura vigente como, por exemplo, a situação que os idosos referem de que não apresentam
sonolência pela manhã mesmo sem atingirem o sono REM durante uma noite de sono ou a
questão da alta incidência de apnéias sem que isto os leve a um quadro de sonolência ou cansaço
no dia seguinte, o que seria a ordem natural nesses casos. Portanto, muito há que se pesquisar, o
primeiro passo foi dado, estamos convictos que o conhecimento e a descoberta do novo é o que
motiva a ciência e de certa forma motiva o homem.
70
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74
APÊNDICE:
1- Pirâmide Etária de Campos dos Goytacazes, IBGE, 2010.
75
2- Inventário de Pttisburgh
76
77
3- Escala de sonolência de Epworth
78
4- Entrevista semi estruturada
ENTREVISTA SEMI ESTRUTURADA:
Roteiro:
1. Situações-pergunta para a função identitária:
A senhora acha que isso acontece com os outros idosos que a senhora conhece (lá da
Associação de Idosos do bairro)?
A senhora acha que eles dormem mais ou menos que a senhora?
A senhora acha que eles fazem a mesma queixa porque tem a mesma situação da senhora?
A senhora acha que os homens também têm problema com sono?
2. Situações-pergunta para a função justificadora e função saber:(7)
Desde quando a senhora percebe que não dorme bem? Desde então, essa situação
aumentou, diminuiu ou ficou igual?
Tem alguma amiga ou parente que tenha a mesma queixa que a senhora? E a situação
dela também aumentou (diminuiu, ficou igual)?
Por que a senhora acha que isso começou a acontecer?
Por que aumentou (diminuiu ou ficou igual)?
3. Situações-pergunta para a função de orientação:
O que a senhora acha que essa situação tende a melhorar ou piorar?
Quando a senhora acha que essa situação melhora?
A senhora acha que as recomendações médicas ajudam a melhorar essa situação?
(7)
Aqui juntamos as duas funções tendo em vista a interseção que fazem com a conduta explicativa que permitem
tanto justificar suas tomadas de posição quanto compreender a realidade explicando-a por meio de conhecimentos
adquiridos.
79
5- Termo de consentimento livre e esclarecido
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Este documento, denominado Consentimento Livre e Esclarecido, tem por finalidade
esclarecer os objetivos da Pesquisa: RELAÇÃO ENTRE QUALIDADE DO SONO E MEIO
SOCIO ECONÔMICO CULTURAL: estudo exploratório com idoso de uma comunidade
de baixa renda; que será concluída em forma de dissertação de Mestrado no Curso de Pósgraduação em Cognição e Linguagem no Centro de Ciências do Homem, na Universidade
Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, no município de Campos dos Goytacazes/RJ.
O presente projeto pretende fazer uma análise do discurso dos idosos que procuram um
atendimento clínico no Posto Médico em Custodópolis com queixa de insônia.
É seu direito, como entrevistado, saber que a qualquer momento tem o direito de ouvir ou
de interromper, modificar seu depoimento ou, então, solicitar cópia ou original da entrevista,
impedindo sua divulgação, caso já não tenha sido realizada, sem que isto represente nenhum
prejuízo ao seu acompanhamento clínico ou quaisquer outros procedimentos a que venha se
submetendo ou vier a se submeter neste Posto Médico em Custodópolis.
A presente pesquisa não oferece riscos seja do ponto de vista físico seja do ponto de vista
psicológico, porque trabalhamos com o psiquismo humano e fazemos de seu instrumento de
trabalho - a palavra, a conversa, o diálogo -, momento em que é possível a elaboração de
conflitos, tirarem dúvidas e, principalmente, a possibilidade de um espaço privilegiado de escuta,
que pode ter faltado no transcorrer do tratamento do qual este projeto é parte importante.
Leia, quantas vezes quiser e pergunte o que julgar necessário antes de assinar o termo de
autorização da entrevista.
80
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO
Eu,___________________________________________________,
residente
à
Rua
______________________________________________________________________,
CARTEIRA DE IDENTIDADE Nº
, CPF
,autorizo a utilização
desta entrevista clínica e sua posterior análise para pesquisa e sua divulgação, desde que
resguardado o anonimato do meu depoimento, cedendo os direitos autorais para o Projeto
de
Pesquisa
sobre_________________________________________________________________.
DECLARO, outrossim, saber que a qualquer momento, tenho o direito de ouvir ou de
interromper, modificar meu depoimento ou, então, solicitar cópia ou original da entrevista
clínica, impedindo sua divulgação, caso já não tenha sido realizada, sem que isto represente
nenhum prejuízo no meu tratamento.
Campos dos Goytacazes
,
de
de 2010
_________________________________
ASSINATURA
______________________________________
RESPONSÁVEL PELO PROJETO
Luis Fabiano Cabral Rios
Telefone para contato: (22) 27351221
(22) 99930361
81

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