Saúde - todos

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Saúde - todos
Fundo Soberano de Angola
Saúde
Health
33
“Os meus gémeos e o meu marido são a fonte da minha alegria de viver.”
Irene, 33, nadadora paralímpica, na piscina do Alvalade
“My twin sons and my husband, are the source of my joy of living.”
Irene, 33, paralympic swimmer, in Alvalade pool
“A arte incentiva-me a viver, educar e ajudar as pessoas invisuais como eu.
Nunca me senti discriminada.” Totonha, 56, actriz, encenador e escrito. Bairro Rocha Pinto (à esquerda)
“Art makes me want to live, educate and help blind people like me.
I never felt discriminated.” Totonha, 56, actress, stage director and writer. Rocha Pinto neigborhood (left)
3
“Hoje sou feliz pelo carinho e amizade dos meus amigos.” Wilson, 24 (à esquerda)
“A paralisia não afectou o meu processo de inclusão. Sempre fui muito mexido e optimista,
com a Paz de 2002, tudo aumentou.” Horácio, 22, Complexo da Cidadela, Rangel (à direita)
“Quando encontro as pessoas a pedir esmola na rua, aconselho-as a ganhar a vida
de outra forma. Tento motivá-las espiritualmente, sobretudo porque, quem é deficiente
ou amputado não perdeu tudo.” Malaquias, 70, veterano de guerra, centro ortopético de Viana
“I am happy because of my friends.” Wilson, 24 (left)
“When I see people on the streets begging for money I tell them to find a new way of
living. I try to motivate them spirituality, especially because if you are handicapped it
does not mean that you have lost everything.” Malaquias, 70, veteran, orthopedic centre in Viana
“Paralysis never affected my process of inclusion. I have always been active and optimistic. With the Peace in 2002, everything improved.” Horácio, 22, Cidadela Complex, Rangel (right)
4
5
“Fiquei paralítica aos dois anos. Sou alegre porque gerei filhos e sou
acarinhada pelos irmãos da Promaica.” Maria, 70, no bairro Caop B, Viana (nesta página)
“I became paralyzed when I was two years old. I am glad because I have children
and I am loved by the brothers of Promaica.” Maria, 70, in Caop B neighborhood, Viana (this page)
“Os oito filhos vão vender para ajudar-me. A alegria que irradio vem de
Deus, na terra precisamos de muletas novas.” Feliciana, 42, no bairro Caop B, Viana
“My eight children are going to work to help me. The joy I have comes
from God, but on earth we need new crutches.” Feliciana, 42, Caop B neighbourhood
6
“Estou nesta luta para
triunfar no kuduro há 10
anos. Sei que Deus vai
me abençoar. O meu
objectivo é do tamanho
do horizonte da música
angolana. Quero
conquistar o mundo.”
Rebenta, 25, músico,
em estúdio no Sambizanga
“I have been fighting to
succeed in Kuduro for ten
years. I know God will
bless me. My purpose
is as big as the limit of
Angolan music. I want to
conquer the world.”
Rebenta, 25, musician,
in his studio in Sambizanga
8
Editorial
Segundo a OMS, a segunda taxa de mortalidade infantil mais elevada do mundo regista-se em Angola. 16%
dos recém-nascidos não sobrevivem até aos cinco anos
de idade. Noutro extremo, a taxa média de fertilidade
nacional é de 5.1-6.0 partos por mulher, acima da média africana de 4.7. Este quadro tipifica as exigências
inerentes à expansão de serviços básicos no País. São
desafios dinâmicos que requerem um enfoque em factores de base, como a conscientização pública, a formação massiva de especialistas e, no caso da saúde, o
incentivo à comparticipação do sector privado.
O Executivo tem-se engajado, no entanto, há mais de
uma década na resolução sistémica destas questões.
Por exemplo, desde 2004, os créditos do Exim Bank
da China permitiram a construção e apetrechamento
de um centro de saúde no Huambo, três em Malange e
dois hospitais no Kwanza Norte e Sul. O financiamento
permitiu ainda o abastecimento de água no Huambo,
Caxito, Catete e Uíge, bem como a reabilitação das
vias de acesso a estas localidades.
Actualmente, o País conta com uma despesa pública,
por cidadão, oito vezes superior à de 2002 no ramo
da saúde. As vítimas da malária reduziram 60% e existe um plano plurianual de imunização nacional. Estes
e outros desenvolvimentos conducentes à salubridade
dos cidadãos reflectem-se na melhoria de 35% na classificação do País pelo Índice de Desenvolvimento Humano.
Por outro lado, o legado da subjugação colonial ainda se evidencia na assimetria entre a cidade e o subúrbio. Do conflito civil resta a escassez de especialistas
no aparelho público. Angola perdeu gerações de quadros e esta lacuna é especialmente notória no sector
da saúde.
Todavia, o actual clima de união e pluralismo reúne
condições para a resolução das aflições mais expressivas dos angolanos. O Fundo Soberano de Angola
complementa reinvestindo receitas de recursos não-renováveis em prol das gerações actuais e vindouras de
forma sustentável. Reflectindo sobre o alcance exigido
por esta tarefa, emendamos a conotação exclusiva do
nome “nós” elegendo o nome “todos” para referência
futura a esta publicação. Estando certos de que, cada
vez mais, os recursos do Estado servirão o bem e a
saúde de todos os angolanos.
José Filomeno de Sousa dos Santos
Presidente do Conselho de Administração do Fundo Soberano de Angola
Chairman of the Board of Directors, Angola Sovereign Fund
10
Índice
According to the WHO, the country with the second
highest child mortality rate in the world is Angola. 16%
of new births do not survive until reaching five years of
age. At the other extreme, the national average fertility rate stands at 5.1-6.0 births per woman and above
the African average of 4.7. This framework typifies the
challenges inherent to the expansion of basic services
in the country. These are the challenging dynamics that
require a focus on the core factors such as public awareness, the mass training of specialists and in the case of
healthcare, incentives for the participation of the private
sector.
The government has, however, stumbled over the systematic resolution of these issues for over a decade. For
example, since 2004, the credit loaned by Exim Bank
of China has enabled the construction and equipping
of a healthcare centre in Huambo, three in Malange
and two hospitals in Cuanza Norte and Cuanza Sul.
The financing has also enabled the supply of water in
Huambo, Caxito, Catete and Uíge as well as rebuilding
the means of access to these locations.
Currently, the country’s public spending on health per
citizen runs at eight times the level of 2002. Malaria victims are down by 60% and there is a multi-year plan for
national immunisation. These and other developments
fostering citizen health reflect in the 35% improvement
in Angola’s Human Development Index classification.
Furthermore, the legacy of colonial subjugation remains evident in the asymmetric gap between city and
suburb. The civil war has bequeathed a lack of trained
specialists in the public sector. Angola lost generations
of staff and this shortcoming proves particularly acute in
the healthcare sector.
However, the current climate of unity and pluralism
holds the condition for the more expressive resolution
of the problems afflicting Angolan citizens. The Angola
Sovereign Fund complements this, reinvesting revenues
from non-renewable resources in favour of current and
future generations in a sustainable fashion. Reflecting
on the scale demanded by this task, we would amend
the exclusive connotation of the name “us” in favour of
the name “todos” in future references in this publication.
We are increasingly certain that the resources of the state shall serve the wellbeing and health of all Angolans.
Ficha técnica
Imprint
Todos
Edição n° 2
Outubro 2014
Todos é uma publicação
do Fundo Soberano
de Angola
Todos is a publication
of the Angola
Sovereign Fund
Edifício Metrópolis,
R/C-Mezzanine
Rua Kwamne N’Krumah,
n° 217-221
Caixa Postal
6869 – Luanda
República de Angola
Tiragem
Circulation
15 000 Exemplares
Produção
Production
WE Communications
© 2014
36
Crianças do Soyo aprendem o valor da rede protectora contra as picadas dos mosquitos
Children from Soyo learn the value of the mosquito net to avoid mosquito bites
Histórias Stories
Milagres na Sombra
Miracles in the Shadow
22 O Adivinho do Bailundo
The Shaman of Bailundo
28 Amor ao Próximo
Love for Others
32 Cuidar da Gravidez
Caring for the Pregnant
42 Luanda, Zaire e Huambo Bebem Água Limpa
Luanda, Zaire & Huambo Drink Clear Water
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Visões Visions
Avô Kitoko
Medicina Tradicional Salva Vidas
Traditional Medicine Saves Lives
Jean-Pierre Bréchet
Viver sem Névoa nos Olhos
Living without Mist in the Eyes
68
Meu Futuro
52 60
My Future
11
Saúde Health
HISTÓRIAS
STOR IES
Soyo
p. 36, 42
Luanda
p. 14, 28, 42, 52, 68
Huambo
p. 22, 42
“Os filhos são os membros que os deficientes não têm. Brevemente pretendo
licenciar-me em Direito.” Melita, 40, Zango 4, (à esquerda) ladeada por Generosa, 40, (à direita)
“Children are the limbs disabled people don’t have. I want to take a degree in
Law soon.” Melita, 40, in Zango 4, (left) together with Generosa, 40, (right)
12
Benguela
p. 32, 60
Milagres nos corações
Miracles in the hearts
Histórias de amor ao próximo geram verdadeiros milagres nos
corações de muitos cidadãos. Reunidas nestas páginas, elas
mostram o reencontro natural entre os agentes particulares,
como o adivinho do Bailundo, e os programas oficiais do Governo na construção de um país próspero e estável.
Stories of love to the next create real miracles in the hearts of
many citizens. The following pages gather these stories, presenting the natural reencounter between individual people, like
the Shaman of Bailundo, and the official governmental programmes implemented to create a better country.
13
MILAGRES
NA
SOMBRA
Para que se faça cirurgia ao coração é necessário pará-lo.
A extracorpórea faz o papel do coração
MIR ACLES IN THE Sha dow
In order to operate the heart it is necessary to stop it first.
The extracorporeal plays the role of the heart.
Joaquim Gonga prepara-se para a cirurgia cardíaca. Joaquim Gonga getting ready for the heart surgery.
O Centro de Cirurgia Cardíaca e Hemodinâmica do Hospital The Josina Machel Hospital Cardiac Surgery and HemodynamJosina Machel (CCCH) funciona desde 2008 e atende entre 150 ic Centre (CSHC) has been operational since 2008 and cares for
e 200 pessoas por ano. De lá para cá, vários pacientes acome- between 150 and 200 persons per year. Over recent years, many
tidos por patologias cardiovasculares – do coração e grandes patients have had their cardiovascular pathologies – heart and
vasos – foram assistidos.
major veins – treated and put right.
As luzes dos cialíticos, lâmpadas redondas grandes e ajustáThe glare of the spotlights, large, round and adjustable
veis, estão focadas no peito do paciente desacordado. Chama-se lamps, is focused on the youth’s chest. The patient on the table
João, tem 16 anos e assim vai continuar durante três horas, que is called João, he’s 16 and will remain unconscious for at least
é o tempo da operação. O ambiente é de descontracção, o chei- the next three hours, the time the operation takes. The ambience
ro é de cloro e de desinfecção.
is relaxed while the smell is of chlorine and disinfection.
“Passa-me a bissecção, rápido. Não percas tempo à toa, miú“Pass me the bisection, quickly. There’s no time to waste”, the
da”, graceja o cirurgião cardiovascardiovascular surgeon Joaquim
cular Joaquim Gonga com Célia
Gonga tells Célia Colita, one of
Colita, uma das instrumentistas.
the equipment specialists integratLá fora, os pais do paciente roem
ed into the team he coordinates.
as unhas de ansiedade. O histórico
Outside, his parents can only chew
do rapaz proveniente do Bengo instheir nails with anxiety. The medipirava cuidados. “Ele apresentou
cal history of this boy from Bengo
uma faringoamigdalite catarral,
required caution. “He was a case
ou seja, uma angina que o impedia
of catarrhal pharyngitis, hence, he
de realizar as tarefas do dia-a-dia,
had an angina condition that precomo jogar a bola na escola ou suvented him from doing day-to-day
bir as escadas do prédio. Sentia falthings, whether playing football at
ta de ar”, contou o médico.
school or climbing the school stairs.
A equipa médica funciona como
He had difficulties in breathing,”
uma engrenagem perfeita. Rosa
the doctor explained.
Custódio, a circulante, é quem inThe medical team works like a
forma ao chefe da equipa sobre a
well-oiled machine. Rosa Custóurese (quantidade de urina do padio circulates and informs the
ciente) e aquece o soro no microteam leader on the uresis situation
-ondas, caso seja necessário. O
(quantity of patient urine) and
anestesiologista afere os sinais vitais
warms the drip in the microwave
do paciente, à direita há um moniwhenever necessary. The anaesthetor colorido, vários dados reluzem
siologist monitors the patient’s vital
neste aparelho de última geração.
signs and to the right there is a colAs consultas e as cirurgias são
A simpatia de Gonga alastrou-se
our monitor with a range of data
grátis no Josina Machel.
ao grupo. O angolano, ex-bolseiro
displayed on this latest generation
em Cuba e mestre em Urgências
piece of equipment.
The consultations and surgeries
Médicas pelo Cardiocentro WilDialogue is ongoing. The easy
are
free
in
Josina
Machel.
liam Soler, ora pede a pinça de bisgoing charm of Gonga spreads
secção, a tesoura de Nelson ou uma
throughout the group. The Angooutra ferramenta, ora pede mais volume de sangue para inserir lan, a former grant holder in Cuba and a graduate from the
no paciente: “suavecito, Miguel”, diz em espanhol.“Para que se Emergency Ward of the William Soler Cardio-centre, requests
faça uma cirurgia ao coração é necessário pará-lo por completo the bisection pincers, the Nelson scissors or some other tool or
com soluções cardioplégicas, é necessário que não haja sangue calls for the volume of blood flowing to the patient to be inno campo operatório.” O especialista, esguio, 1,68 m de altura, creased: “suavecito Miguel”, he says in Spanish. “In order to
fala por parábolas: “como é que se vai conseguir costurar uma operate the heart it is necessary to stop it completely through
calça, se ela está sempre a se mexer?”
cardioplegic solutions and there can be no blood in the operatDepois, um dos perfusionistas deriva o sangue do paciente ing area.” The specialist, slender and 1.68m in height, speaks in
para a máquina de circulação extracorpórea que irriga o res- metaphors: “how are we going to sew the trousers if they are
to do corpo (imagem acima), algo semelhante a um milagre, always moving?”
se é permitido o aforismo... O aparelho faz o papel de coração
Meanwhile, one of the perfusionists extracts the patient’s
e de pulmões do menino operado. Há várias mangueiras que blood through the extracorporeal circulation machine to feed
transportam o sangue. O fluxo é constante, parece um carrossel. the rest of the body (image above), in itself something of a miraParte dele é aspirado e flui para a máquina, a outra circula pela cle if we may allow ourselves the aphorism... The device serves
A perícia dos cirurgiões alia-se à tecnologia de ponta. The skill of the surgeons is joined by state of the art technology.
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Henrique, 54 anos, e Afonso, 70, operados com êxito sorriem. Henrique (54) and Afonso (70) smile after their successful surgery.
Isabel e Tatiana, adolescentes, recuperam a saúde no CCCH. Isabel and Tatiana, both teenagers, are recovering in the CSHC.
Domingas Paulo foi operada ao coração e recebeu alta médica. Domingas Paulo had an heart surgery and received a medical discharge.
Celeste Ferreira, 49 anos, recupera na enfermaria. Celeste Ferreira (49) recovers in the infirmary.
máquina e volta ao corpo de João. Enquanto isso, a cirurgia da
válvula mitral é feita. É bom desconfiar das anginas...
“A febre reumática, infecção provocada pelo germe ‘Estreptococo beta hemolítico A’, que se propaga no ar, afecta crianças
dos 5 aos 15 anos, causa a disfunção das válvulas do coração e
consequentemente as doenças cardiovasculares.”
“A hipertensão arterial e a cardiopatia isquémica devem ser
combatidas com medidas preventivas.” Gonga recomenda, por
isso, à população o redobrar dos cuidados de higiene e saneamento básico. Diz-se em kimbundo – ‘jikulu o mesu’ (abre o olho).
Perto das 11 horas, a operação está prestes a chegar ao fim.
A conversa com a anestesiologista é frequente e controlam-se os
batimentos cardíacos do coração ora reanimado. Uma vez que
lhe foi retirado o potássio, o coração bate lento, algo tímido...
“Mexe-te”, diz Gonga, dialogando com o coração de João. A
extracorpórea está vazia, todo o volume foi inserido no paciente, o peito está fechado. Os médicos saúdam-se.
É depois desta pressão que o homem de 36 anos declara: “fazemos milagres na sombra.”
as the heart and lungs of the boy under operation. There are
various tubes carrying the blood. The flow is constant and resembles a carrousel. The liquid is vacuumed out of him to flow
to the machine whilst another tube takes it out and back to the
body of João. In the meanwhile, the surgery on the mitral valve
advances. It is worth worrying about angina attacks...
“Rheumatic fever, an infection caused by the ‘Streptococcus
beta haemolytic A’ germ, which is propagated by the air and affects children aged between five and fifteen, causes the dysfunction of the heart valves and then leads to cardiovascular diseases. Arterial hypertension and ischaemic heart disease should be
countered with preventive measures.” Gonga thus recommends
that the population redouble their hygiene and basic sanitation
care practices. He says in Kimbundo – ‘jikulu o mesu’ (open
your eye). Around 11am and the operation begins to draw to
a close. Conversation with the anaesthesiologist is frequent as
they control the beat of the now reanimated heart. After having
had the potassium removed, the heart beats slowly, somewhat
timidly... “Get going”, says Gonga, talking straight to João’s
heart. The extracorporeal machine is empty and its full volume
is back in the patient with the chest all closed up. The medical
team congratulates each other.
After all this pressure recedes, this 36-year old man declares:
“we do miracles in the shadow.”
A sala de cirurgia: instalações de ponta e equipamento moderno. Surgery room: top facilities and modern equipment.
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O A DI V INHO
DO BA ILU NDO
Adivinho, há mais de 20 anos, cuida de infertilidades,
doenças mentais e outros males
THE SHA M A N OF BA ILUNDO
A shaman for the last two decades, he cures
infertilities, mental diseases and other evils
Autodidactismo e misticismo são as notas dominantes quando
se fala do adivinho e médico tradicional Sumba Yove. Natural
da comuna do Monte Belo, município do Bailundo, no Huambo, há mais de 20 anos que se dedica ao tratamento de pessoas
com raízes, sementes, bolbos, caules, rebentos, ramos, folhas e
flores.
São quase 7h da manhã. Sumba Yove dá de beber a um jovem com perturbações mentais um medicamento. Simultaneamente o seu ajudante, no quintal aberto, onde abundam várias
plantas medicinais, prepara uma pequena fogueira para fazer o
Self-teaching and mysticism are the dominant themes when
talking with the shaman and traditional healer Sumba Yove.
Born in the village of Monte Belo, in the municipality of Bailundo, in Huambo province, for over two decades he has dedicated
himself to treating people through the use of roots, seeds, bulbs,
stalks, shoots, branches, leaves and flowers.
It is around 7am. Sumba Yove is giving some medication to a
young man with mental disturbances. Simultaneously, his assistant, in the open yard where various medicinal plants abound,
prepares a small fire to make the ‘umbafo’ (incense) for the pa23
‘umbafo’ (incenso) ao paciente. “Curo pessoas com perturbações há mais de 10 anos, na fase inicial de ‘giba’ (corcunda)”,
explica o curandeiro.
“Vim ao Sumba Yove porque a saúde do meu filho não melhora”, diz uma senhora, ansiosa que as febres altas do seu menino de um ano baixassem. Os exames de sangue e urina da
medicina moderna davam negativo mas as febres persistiam.
Lá fora, cerca de 10 pessoas esperam atendimento. Alguns
chegam àquele local à meia-noite. Várias palmeiras, abacateiros,
arbustos e casas de adobe – tijolo de argila – torneiam a casa de
tratamento em que Sumba Yove, nome umbundo que em português significa ‘Respeita o que é teu’, trata os seus pacientes.
“O tubérculo katchitiña cru serve para reanimar pessoas desfalecidas, ao inalarem o cheiro, também combate a gonorreia
e outras patologias. Deve ser fervido e administrada ao doente
uma colher de sopa de manhã e meia colher à tarde”, explicou.
Como foi que Joaquim Kalandula, nome de registo, adquiriu o dom de tratar doenças mentais, hérnias, hemorróidas, gonorreia, mina tradicional (também chamada de tala) e outros
males, de tal sorte que pessoas de Benguela, Cuanza Sul e Bié
procuram os seus préstimos?
A história deste ex-militar começou a traçar-se em 1993.
“Fui destacado para uma missão”, conta. “Um dia, uma jibóia
tient. “I’ve been curing people with disturbances for over ten
years, in the initial phase of ‘giba’ (hunchback)”, explains the
healer.
“I came to Sumba Yove because the health of my son is not
improving,” said a lady who was awaiting her prescription,
worried that the high fevers her one year old son had showed
no signs of lowering.
Outside, around 10 people await their turn. Some arrive
around midnight. Palm and avocado trees, bushes and adobe –
clay brick – homes surround the house in which Sumba Yove,
an Umbundu name that in Portuguese means ‘Respect what
is yours’, sees his patients. “The katchitiña tubercle when raw
serves to reanimate people who have fainted, they have to inhale
the smell and also helps fighting gonorrhoea and other pathologies. It needs to be boiled and then served up in the amount of a
full soup spoon to the patient in the morning and half a spoon
in the afternoon,” explains Yove.
Just how did Joaquim Kalandula, according to his birth
certificate, acquire the gift for curing mental diseases, hernias,
haemorrhoids, gonorrhoea, common depression (also called
splints) and other ailments to such an extent that people travel
from across Benguela, Cuanza Sul and Bié to seek out his cures?
The story of this ex-soldier starts out in 1993. “I was sent out
A colheita de medicamentos é feita no mato, perto de casa de Sumba Yove. Harvesting of medicinal plants is done nearby Sumba Yove’s house.
26
“O tubérculo katchitiña cru serve para
reanimar pessoas desfalecidas.”
“Raw katchitiña tubercle reanimates
people who have fainted.”
enrolou-se em mim, contaram os colegas que estavam à minha
volta, mas eu não via o animal. Eu via enrolada em mim uma
pessoa, que depois desapareceu...”. Depois do sucedido, Sumba
passou a ouvir gritos e a ter visões, enquanto os outros ao seu
redor nem sequer se apercebiam. Através da premonição passou
a curar, tendo tratado, no princípio da sua carreira, uma prima
que se encontrava à beira da demência.
“Sou capaz de reverter o albinismo”, uma deficiência congénita que se caracteriza pela falta de pigmento total ou parcial na
pele, cabelos e olhos, mas ressalva, “a criança tem de chegar às
minhas mãos até aos 3 anos.”
Como um livro de narrativa aberta, a arte de Sumba Yove
e dos mais de 60 mil médicos tradicionais em Angola, segundo dados do Fórum de Medicina Tradicional (2009), fomenta
várias discussões. O propósito dos profissionais deste ramo é
ajudar ao próximo, recorrendo à terra, à natureza...
on a mission”, he tells. “One day, a boa constrictor wrapped
itself around me as my colleagues who were nearby told me but
I did not see the animal. I saw a person wrapped around me
that then disappeared….” After this event, Sumba began hearing screams and having visions while the others around him
could see or hear nothing. Through this premonition, he started
out by healing a cousin who was with dementia by using plants.
“I am able to reverse albinism”, a congenital deficiency characterised by the total or partial lack of pigmentation in the skin,
hairs and eyes but does add the condition: “the child has to
come into my hands before the age of three.”
As any open and ongoing narrative, the art of Sumba Yove
and the over 60,000 traditional healers across Angola, according to data from the Traditional Medicine Forum (2009), fosters
various discussions. The purpose of professionals in this field is
to help those near them by recurring to the land and nature...
O paciente ingere a bebida curativa. The patient drinks the medicine.
27
AMOR
AO
PRÓXIMO
Uma dupla coesa ao serviço da comunidade
LOVE FOR OTHERS
A cohesive duality in the service of the community
Devido às dificuldades que se registavam no bairro Mota, distrito
do Sambizanga, em 2001, decidiu-se abrir o Posto de Saúde Bom
Pastor, sendo a gestão entregue às Irmãs do São José do Cluny,
uma instituição associada ao centro de formação profissional
Dom Bosco, este por sua vez gerido pelos padres salesianos.
“Trabalhamos em prol dos mais desfavorecidos”, explica a
irmã Guilhermina, responsável por esta unidade sanitária sem
fins lucrativos, que, desde 2001, atende em Luanda uma mé28
Due to the difficulties the Mota neighbourhood in the district
of Sambizanga faced in 2001, the decision was taken to open
the Bom Pastor Health Centre with its management encharged
to the Sisters of Saint Joseph of Cluny, an institution interlinked
with the Dom Bosco Professional Training Centre run by Salesian clergy members.
“We work in favour of the most disadvantaged”, explains
Sister Guilhermina, responsible for this non-profit health centre
Alberta e a Irmã Guilhermina têm sido incansáveis. Alberta and Sister Guilhermina have been working tireless.
dia de 60 pessoas por dia, acometidas de diversos problemas de
saúde que vão desde dores de dente a doenças diarreicas, febre
tifóide e malária.
“Estou feliz porque gosto de trabalhar com o meu povo, conseguimos dar a nossa presença e a palavra de Deus. Não tratamos só o corpo, mas, sobretudo, ajudamos espiritualmente,
visitando os doentes e aqueles que não conseguem aqui chegar
para serem atendidos.”
Nesta dualidade, entre as necessidades do corpo e do espírito,
a também médica estomatologista revela que há dificuldades. A
falta de uma ambulância no Bom Pastor obriga a que, por vezes,
os munícipes tenham de andar muito até aos grandes hospitais
com pacientes ao colo, ou em candongueiros (táxis colectivos).
O período chuvoso começa a 15 de Agosto e termina a 15
de Maio do ano seguinte, por isso a clínica aconselha as mães
a redobrarem os cuidados de higiene e evitar os charcos que fomentam doenças como paludismo, diarreia e sistomíase. A Irmã
aconselha também a colocação de uma gota de limão ou laranja
na água para beber. “É algo que faz bem às mamãs e às crianças,
porque a água simples não hidrata.”
Irmã Guilhermina explica que para que o centro “funcione
em pleno”, é necessário ter material gastável, fármacos e reagentes, “porque a malária aperta.”
that, since 2001, cares for an average of 60 persons daily in
Luanda suffering from different healthcare problems whether
toothache, diarrhoea, typhoid or malaria.
“I am happy because I like working with my people and we
are able to give our presence and the word of God. We do not
only take care of the body but we especially help out spiritually
those who are sick and unable to come here for treatment.”
In this duality, between the needs of the body and the spirit,
the sister and practicing dentist reveals that there are difficulties.
The lack of an ambulance at the Bom Pastor means that sometimes citizens have to walk long distances to reach the major
hospitals with patients often having to be carried or transported
in candongueiros (shared taxis).
The rainy season begins on August 15th and only ends on the
following May 15th and, hence, the clinic advises all parents to
redouble their hygiene based efforts and avoid the puddles that
may be the breeding ground for malaria and diarrhoea as well
as other diseases. The Sister also recommends the placing of a
drop of lemon or orange in the drinking water. “This does good
to both the mothers and their children because water alone does
not hydrate.”
Sister Guilhermina explains that for the centre “to be fully
operational”, supply materials, pharmaceuticals and reagents
O nome Bom Pastor é sugestivo. Apesar do serviço prestado actualmente nesta unidade sanitária ser razoável, a equipa médica quer melhorá-lo.
30
“Recomendo aos residentes
limpezas diárias das suas residências
e tratamento do lixo.”
“I recommend residents to clean their
homes daily and treat waste deposit
places with the proper care.”
Mas, não está sozinha nesta missão de amor ao próximo.
Alberta André ou ‘Tia Alberta’, como é conhecida a educadora
de saúde e animadora da comunidade, reside no Sambizanga há 24 anos e é a outra peça fundamental no trabalho desenvolvido pelo posto de saúde Bom Pastor naquela periferia
luandense. É também conselheira em assuntos familiares, de
fuga à paternidade e de meninos que vivem nas ruas. “Temos
convénios com o INAC e com o Julgado de Menores, porque
muita gente não está informada e nem sabe onde recorrer”,
explica. A também voluntária da Igreja Católica foca a sua
preocupação essencialmente na necessidade do reforço dos hábitos de higiene e recomenda aos residentes “limpezas diárias
das suas residências e o devido tratamento dos locais de depósito de lixo.”
are all needed “because malaria threatens closely.”
However, she is not alone in this mission of loving others.
Alberta André or ‘Auntie Alberta’, as this healthcare trainer
and community activist is commonly known, has resided in
Sambizanga for the last 24 years and is another fundamental
piece to the work carried out by the Bom Pastor centre on the
periphery of Luanda. This is also a place for providing advice
on family related issues, dealing with paternity issues as well
as helping children who live in the street. “We have protocols
with the national childcare association and the youth courts because a lot of people don’t have the right information and don’t
know where to turn to”, she explains. Also a Catholic Church
volunteer, she focuses her concern essentially on the need to
raise the standards of hygiene and recommends residents “to
clean their homes daily and treat waste deposit places with the
proper care.”
Bom Pastor (Good Shepard) is a suggestive name. Services are good in this Health Center but the medical team wants to do better.
31
C ui d ar d a
gravidez
O trabalho é feito pelo prazer de ajudar
CARING FOR THE PREGNANT
Work done for the pleasure of helping
As parteiras tradicionais de Benguela levam os cuidados de higiene muito a sério. Armadas com os seus kits de parto, lavam
e desinfectam meticulosamente as mãos antes dos bebés virem
ao mundo.
“Alimentar-se bem não significa ingerir comida de luxo, devem consumir feijão, rico em ácido fólico (ferro), ‘kizaka’ e ‘lombi’, confeccionar os alimentos com banha de porco, fazer o controlo periódico nos hospitais e comer sempre antes de dar à luz.”
Estas recomendações são de quatro parteiras benguelenses
que dão assistência aos bairros de São João, Calomanga, Vimbalambi e Kawahango. “Em Angola, apenas 46% dos partos
são feitos em hospitais, pois a maioria acontece em casa”, diz
uma médica obstetra da Maternidade Lucrécia Paim (MLP), em
Luanda. “As consultas pré-natais devem ser mensais e, depois
dos oito meses de gestação, quinzenais”, aconselha.
“Os partos são feitos nos quartos das nossas casas e as grávidas vão ter connosco levadas pelos seus familiares”, explica
uma parteira tradicional de 78 anos.
As gestantes devem saber quantos meses têm de gestação, se
32
The traditional midwives of Benguela take their hygiene practices seriously. Armed with the birth kits in hand, they carefully
wash and disinfect their hands before helping babies arrive in
this world.
“Pregnant women should eat beans, rich in folic acid (iron),
‘kizaka’ and ‘lombi’,, have regular check-ups in hospitals and
always eat before giving birth.”
These recommendations came from the four Benguela midwives who work in the neighbourhoods of São João, Calomanga, Vimbalambi and Kawahango. “In Angola, only 46%
of births take place at hospitals with the majority taking place
at home,” tells us an obstetrician doctor at the Lucrécia Paim
Maternity Hospital, in Luanda.
“Pre-natal checkups should be monthly and, after eight
months, they should be fortnightly,” the expert advises.
“The births take place in the rooms of our houses, the pregnant women are brought to us by family members,” explains a
traditional midwife, aged 78.
Pregnant women should be able to respond to how many
Os nomes em Angola
exemplificam a cultura
luso-bantu. Seguem-se
alguns exemplos:
The names in Angola
exemplify the luso-bantu culture. Below are
some examples:
Lucombo
Lunda
Lupassa
Lurdes
Mabiala
Maiomona
Manuel
Maria
Massoxi
Matadidi
Abel
Abraão
Ana
António
Nelson
Neusa
Ngombo
Ngueve
Nguxi
Nkondua
Nsimba
Ntyamba
Nvunda
Bequenge
Bernardo
Bruno
Bumba
Cahombo
Calei
Calubanga
Capeça
Caquarta
Caquinta
Cassessa
Caterça
Cuanonoca
Orféu
Osvaldo
Paxe
Pedro
Pelinganga
Pombolo
Daniel
Domingos
Rosa
Rosalina
Edson
Emanuel
Epalanga
Ermelinda
Samanyonga
Sapiñala
Sassembele
Segunda
Sumbula
Jamba
João
Joaquim
José
Júlio
Tala
Tchipilica
Tomás
Kalandula
Kassinda
Kiambata
Kiami
Kizola
Kwenda
têm o cartão de grávidas e se já fizeram cesariana. Quando correm risco de aborto são encaminhadas para a maternidade.
“Antes, os partos eram feitos sobre folhas de bananeiras,
agora usamos esteiras,”, contam as parteiras. “Fazíamos chá de
cocó de elefante ou de raspa de casco de choco para acalmar as
dores”, lembram as parturientes.
Em Benguela, as parteiras tradicionais trabalham por amor
ao próximo, sem tabela de preços pré-estabelecida. “A quantia
que o pai do bebé ou outro parente da gestante quiser oferecer
é bem-vinda.”
34
Waka
Wami
Weza
Zebedeu
Zeferino
months pregnant they are, whether they have the pregnancy
card and if they already had a caesarean section.
In case there is any risk they are sent to the maternity.
“In the past, births took place on banana leaves, now we use
mats”, explains one of the midwives. “We used to make tea out
of elephant dung or from scrapping the husk of the cuttlefish to
calm the pains,” they recall.
Traditional midwives of Benguela work out of their love for
their neighbours and have no pre-set table of prices. “The father
of the baby or other relatives decides how much he wants to
“É preciso aumentar a escolaridade feminina e promover a
importância das consultas pré-natais, da gravidez e do parto
seguro até na ‘zunga’ (venda ambulante pelas ruas),” observa
a obstetra Lucrécia Paim. E acrescenta: “Durante o primeiro semestre deste ano foram realizados 11.089 partos, segundo uma
média de 70 partos por dia, naquela que é a maior maternidade
de Angola. Para uma melhor qualidade do serviço prestado, a
média ideal seria de 45. Nesta mesma maternidade, nasceram
24.751 bebés em 2013.”
give and it is more than enough.”
“We need to raise the female levels of education and stress the
importance of pre-natal check-ups and safe pregnancies even in
the ‘zunga’ (street hawking)”, observes Lucrécia Paim, adding
that during “the first quarter of this year, there was a total of
11,089 births with a daily average of 70 births in what is the
largest maternity hospital in Angola. The ideal average, for a
better quality of the services provided, would be 45. In 2013 this
maternity had 24,751 babies born.”
35
MALÁRIA
FORA!
A mobilização contra a malária é feita por via de
aconselhamentos e discussões sobre as formas de prevenção
da doença. Individualmente e nas comunidades
M alaria Out!
Mobilisation against malaria requires advice and
discussion on how to prevent the disease – both
individually and in communities
“O trabalho dos oficiais inclui aconselhamento às mulheres grávidas sobre
o cuidado pré-natal, com vista à prevenção da transmissão vertical.”
“The work of the officers also includes advising pregnant women about
pre-natal care with the objective of preventing vertical transmission.”
Soyo é um dos seis municípios do Zaire, banhado a Oeste pelo
oceano Atlântico e que a Noroeste faz fronteira com Cabinda e
a República do Congo (Brazzaville). O município é conhecido
por ser uma das principais áreas de exploração petrolífera no
nosso país, mas, em relação à saúde, é atingido também pela
doença responsável pelo maior número de mortes em África, a
malária.
Numa tarde fria de Agosto, a nossa equipa aportou a uma
residência da rua 4 de Fevereiro, no bairro Kikudo, arredores
da vila do Soyo. Rapidamente, fomos acolhidos e confrontados
com a ansiedade dos populares. “Têm também mosquiteiros
para nós?” A pergunta é-nos dirigida e não vem dissimulada.
Denota a preocupação dos locais com evitar a picada do mosquito anófeles, que provoca a malária.
Enquanto crianças e adultos são fotografados, somos informados por Rose Musonza, da ADPP, que 55% da população do
Zaire está afectada pela malária, registando-se entre três e quatro casos por pessoa anualmente. A elevada incidência “criou o
desejo de combater este mal.”
“A mobilização, segundo Musonza, passa pela transmissão
de conhecimento de pessoa à pessoa ou a nível da comunidade,
através de aconselhamentos e discussões sobre as formas de prevenção da malária e de outras doenças. Apela, no fundo, “para
a mudança de comportamento de modo a que os populares, de
forma sustentada, possam autodefender-se.”
A ADDP desenvolve, na região, dois projectos-base de prevenção e combate à malária. Um envolve, directamente, pelo
menos 100 escolas dos municípios do Soyo e Tomboco e conta
com o auxílio de dez técnicos locais que se ocupam do “patrulhamento da doença”. O projecto inclui aulas sobre a sanidade
do meio, organização de eventos escolares e outras iniciativas
que envolvem as comunidades limítrofes das escolas.
O segundo projecto trata de abordagens ao domicílio, apoiado por 45 técnicos, entre os quais alguns são oficiais de campo.
A meta é instruir até 90 mil pessoas no espaço de três anos, num
rácio de 2 mil formandos por cada técnico. “A ideia é focarmo-nos em indivíduos instruídos, que possam reagir ao mínimo
sinal dos sintomas da malária”, esclarece Rose Musonza. “O
trabalho dos oficiais”, acrescenta, “implica o contacto com
diferentes faixas etárias e inclui aconselhamento às mulheres
grávidas sobre o cuidado pré-natal, com vista à prevenção da
transmissão vertical.”
Soyo is one of the six municipalities of Zaire, bathed to the west
by the Atlantic ocean and to the northwest bordering Cabinda
and the Republic of Congo (Brazzaville). The municipality is
known for its role as a key production centre in the national oil
industry but it also stands out for health related issues and is afflicted by the disease that causes the greatest number of deaths
in Africa, malaria.
On a cold August afternoon, our team approaches a residence on 4 de Fevereiro street in the Kikudo neighbourhood on
the outskirts of the town of Soyo. We were quickly welcomed
in and confronted with the locally prevailing anxiety. “Do you
have mosquito nets for us?” The question is direct and to the
point. This denotes the concern of locals to avoid being bitten
by the anopheles mosquito responsible for malaria.
While the children and adults are photographed, we are
informed by ADPP’s Rose Musonza that around 55% of the
population in Zaire province is affected by malaria – there is
a register of three or four cases per person annually. The high
incidence “has nurtured the desire to combat this plague.”
“Mobilisation”, according to Musonza, “involves the share
of knowledge from person to person or at the community level
by providing advice and debates on how to prevent malaria and
other diseases.” This is a way of calling the attention to the need
of “changing habits so that the population may be able to defend itself from this problem.”
ADDP is implementing two core projects in this region in
order to prevent and fight malaria. One involves directly around
100 schools from the municipalities of Soyo and Tomboco and
is supported by ten local technicians in charge of “patrolling the
disease”. The project includes classes on environmental sanitation, organising events at schools along with other initiatives
involving the communities surrounding the schools.
The second project makes an approach to citizens within
their domestic contexts and is backed by 45 technical members
of staff including some field officers. The main goal is to train
up to 90,000 people in three years with each trainer responsible
for 2,000 trainees. “The idea is to focus on informed individuals
that will be able to react to the slightest sign of malaria symptoms”, Rose Musonza clarifies. “The work of the officers”, she
adds, “implies contact with different age groups in society and
includes advice to pregnant women about pre-natal care with
the objective of preventing vertical transmission.”
41
A água que o
antílope bebe,
bebe-a com a pata
(poema bakongo)
Distribuição de água melhora a olhos vistos em Luanda,
Zaire e Huambo. Acompanhe a nossa foto-reportagem.
The water that the
antelope drinks
is drunk with its hoof
(Bakongo proverb)
The water distribution system is improving
before our eyes in Luanda, Zaire and Huambo.
Take a look at our photo-report.
ABUNDÂNCIA — Kifuma é uma região que dista cerca de 30 quilómetros da sede do Soyo. Não tinha água potável e recorria
ao rio Nzombo. Com a colocação de um fontenário, o cenário melhorou desde Fevereiro deste ano. Tito Ermelindo, 15 anos, sorri.
ABUNDANCE — In Kifuma, located around 30 kilometres from Soyo’s centre, people extract water from the river Nzombo.
With the installation of a fountain in February, this scenario has certainly improved. Tito Ermelindo, 15 years of age, smiles.
43
TANQUES — Os reservatórios são uma alternativa à falta de água em algumas zonas de Luanda.
Celestina Mavunza, 51 anos, revende o precioso líquido, comprado em camiões-cisterna.
TANKS — The storage tanks are an alternative to the lack of water in some parts of Luanda.
Celestina Mavunza, aged 51, resells the precious liquid bought from lorry-tankers.
44
CHAFARIZ — Os populares do bairro Santo António, no Huambo, não têm de percorrer longas distâncias para ter água.
Celestino Mango e João Catumbela, 9 e 5 anos, respectivamente.
FOUNTAIN — Residents in the neighbourhood of Santo António, in Huambo, do not need to travel long distances to get water.
Celestino Mango and João Catumbela, aged 9 and 5, respectively.
45
FARTURA — Na localidade de Kifuma, Soyo, as donas de casa têm muita água no rio Nzombo. Engrácia Suelele,
Carolina Isabel, Madalena Vasco, Ana Bartolomeu e Maria Verónica regozijam-se.
46
ABUNDANCE — In Kifuma, Soyo, housewives have plenty of water from the Nzombo River. Engrácia Suelele,
Carolina Isabel, Madalena Vasco, Ana Bartolomeu and Maria Verónica enjoy themselves.
47
AuxÍlio — Verónica Nacambi, 20 anos, no bairro Santo António, ajuda a mãe no transporte de água,
sempre antes de ir à escola, à tarde.
SUPPORT — Verónica Nacambi, aged 20, in the Santo António neighbourhood, helps her mother carry water,
always before going to school in the afternoon.
48
COOPERAÇÃO — Domingas Chatova, 54 anos, e Laurinda Chambula, lavam roupa na nascente do rio Lufefena,
nas primeiras horas do dia. Este rio serve de lavandaria para muitas mulheres que residem na zona limítrofe.
COOPERATION — Domingas Chatova, aged 54, and Laurinda Chabula do the washing in the river Lufefena,
at the beginning of the day. This river is used by many women in the area to do the washing.
49
Saúde Health
VISÕES
VISIONS
VIDA — Na nascente do rio Lufefena, no Huambo, várias mulheres lavam e estendem a roupa.
Valeriana Jepele, 46 anos, é uma delas.
LIFE — At the beginning of the river Lufefena in Huambo, various women wash and hang out their clothing.
Valeriana Jepele, aged 46, is one of them.
50
A seiva da independência
The sap of independence
A independência da subjugação colonial fez brotar a seiva da
independência na alma dos angolanos. A flora angolana inspira terapias antigas numa Angola madura e livre. Os terapeutas
tradicionais consolidam o estatuto de curadores de proximidade. Os novos médicos aportam os benefícios do desenvolvimento a um número crescente de cidadãos nacionais.
Independence from colonial subjugation brought new life to
Angolan’s souls. The country’s flora inspires the use of ancient
therapies in a new Angola that needs urgent health care. Here,
traditional therapists are considered healers of proximity and
cooperation is the symbol of a new dawn, a sign of a country
in development.
51
“Devemos respeitar
a fauna e a flora do
país. Em muitas áreas
somos chamados para
a conservação do
meio ambiente e da
vida humana.”
Angola terá três hospitais de medicina tradicional,
um em Luanda e dois nas Lundas
“The fauna and flor A of the
country should be respected. Our
mission is the preservation of the
environment and human life.”
Angola is to have three traditional medicine hospitals,
one in Luanda and two in Lundas
Avô Kitoko, no hall do Centro de Botânico. Avô Kitoko, at the hall of the Botanical Centre.
As vantagens da medicina tradicional ou natural e a preservação da biodiversidade serviram de mote para uma conversa entre o terapeuta tradicional Avô Kitoko, a bióloga
Esperança da Costa e José Filomeno dos Santos, presidente do conselho de administração
do Fundo Soberano de Angola (FSDEA), na visita deste ao Centro de Botânica (CB) da
Universidade Agostinho Neto.
Avô Kitoko é o primeiro a tomar a palavra e resume a importância da medicina tradicional de uma assentada. “É importante, porque se baseia no conhecimento dos nossos
ancestrais e não é invasiva” e, mais, “cura rapidamente, sobretudo nas comunidades rurais,
nas localidades mais remotas onde os hospitais e centros de saúde são em números menos
expressivos.”
José Filomeno tem, entretanto, várias preocupações. Tendo como anfitriã a coordenadora da Unidade Técnica de Investigação Africana do Centro de Botânica, a primeira questão
é se a estratégia da medicina tradicional é a mesma em todas as regiões do país, e, se a nível
continental, também está padronizada. A resposta da responsável do Centro de Botânica
é positiva. “Sim. A estratégia é a mesma. O código de ética que vamos implementar é o
português. Para a região africana da OMS, em que constam 46 Estados, só os nomes das
raízes variam de país para país.” E acrescenta, optimista, “creio que em breve, a política
nacional de Medicina Tradicional será aprovada.”
O PCA do FSDEA dá sinal de satisfação com a resposta e coloca, de imediato, outra
questão. “A OMS conhece medicamentos angolanos?” Na circunstância, José Filomeno já
segurava uma garrafa de ‘ndumbi’, material produzido artesanalmente dentro das nossas
fronteiras, tendo ficado com a ideia de que a indústria farmacêutica poderá ser mais um
ganho para Angola, a julgar pela resposta de Kitoko. “A OMS, além de ter conhecimentos
dos medicamentos tradicionais angolanos, recomenda que sejam registados e referidos na
Política da Medicina Tradicional e, inclusivamente, aconselha que Angola avance com a
criação de uma banco de dados das plantas medicinais, de modo a que estas sejam promovidas”, esclarece.
Na opinião do terapeuta, o, isto beneficiaria a farmácia de manipulação e as ervanárias.
“No Brasil, uma hora após a consulta com um médico natural é suficiente para que se
fabrique o medicamento consoante a patologia”, exemplifica Kitoko. “Daí a nossa necessidade de enviar seis bolseiros para aquele país sul-americano.”
“O avanço da medicina tradicional será
uma vantagem para a
indústria farmacêutica
e as ervanárias.”
“The advance of
natural medicine will
be an advantage to
the pharmaceutical
industry and apothecaries.”
The advantages of traditional or natural medicine and the preservation of biodiversity are
the themes in a conversation between the traditional therapist Avô Kitoko, the biologist
Esperança da Costa and José Filomeno dos Santos, President of the Board of Directors of
FSDEA, the Sovereign Fund of Angola, on a visit to the Botanical Centre (BC) of Agostinho
Neto University.
Avô Kitoko becomes the first to speak and sums up the importance of traditional medicine in a single sentence: “it is important because it is based on the knowledge of our ancestors and is not invasive” and, furthermore, “rapidly cures, especially, in rural communities,
in the more remote locations where there are less hospitals and healthcare centres.”
Meanwhile, José Filomeno holds various concerns. With the coordinator of the Botany
Centre African Research Technical Unit as his host, his first question asks whether the
strategy for traditional medicine is the same across all regions of the country and whether
there are standards in effect at the continental level. The response from the Botany Centre
manager is positive. “Yes. The strategy is the same. The code of ethics we are implementing is the Portuguese. For the African region of the World Health Organisation (WHO),
containing a total of 46 states, only the names of the roots vary from country to country.”
And, he adds optimistically, “I believe that the national Traditional Medicine policy will
be approved shortly”. The FSDEA president shows his satisfaction at the response and immediately poses another question. “Does the WHO approve Angolan medications?” In this
circunstance, José Filomeno, who holds a bottle of ‘ndumbi’, material produced in Angola,
has the idea that the country will profit with the pharmaceutical industry, according to
Kitoko’s answer. “The WHO, in addition to having knowledge about traditional Angolan
medication, recommends that they be registered and detailed in the Traditional Medicine
Policy and, in addition, calls on Angola to advance with setting up a database of medicinal
plants so that their usage can be promoted.”
In the opinion of this specialist, this would benefit the pharmaceutical industry and
apothecaries. “In Brazil, one hour after the appointment with the natural doctor is more
than enough time to make the medication in accordance with the respective pathology”, explains Kitoko. “Hence the need to send six grant holders to that South American country.”
Kitoko’s ‘laboratory’
Whoever enters the office of Avô Kitoko is immediately confronted by a miscellaneous
range of aromas pervading its entire extent. There are dozens of products labelled in plastic bags, flasks and bottles with medicines for the treatment of various diseases, including
O ‘laboratório’ de Kitoko
Quem entra no gabinete de Avô Kitoko é logo recebido por uma miscelânea de aromas que
atravessa todo o compartimento. Há dezenas de embalagens de sacos de plástico, frascos e
garrafas com medicamentos para o tratamento de várias doenças, entre as quais a diabetes,
a infertilidade e a tuberculose. É possível ver-se também semente de moringa, usada para a
produção de lubrificantes para máquinas de costura.
Kitoko é uma pessoa bastante comunicativa. Nota-se pelo seu discurso que tem ‘ene’
coisas para transmitir. Revelou, por exemplo, que o país conta com 36 ervanárias todas
licenciadas, todas são controladas pela Direcção Nacional de Medicamentos e Equipamentos do Ministério da Saúde. Segundo o terapeuta, está prevista, até 2015, a abertura
de três hospitais de medicina tradicional, sendo um em Luanda, outro na Lunda-Norte e o
terceiro na Lunda-Sul. “Vamos valorizar os verdadeiros terapeutas, a tradição e a medicina
tradicional”, sentencia.
Em relação à colaboração entre a unidade coordenada por Avô Kitoko e o Centro de
Botânica, dirigido por Esperança da Costa, o terapeuta aclarou que se deve ao facto de este
último servir de unidade de mobilização dos terapeutas espalhados pelos quatro cantos do
país, “combatendo a consideração empírica que teve a medicina tradicional no início”.
A explicação precipitou, no entanto, uma questão dupla de José Filomeno. “Como é que
uma pessoa consegue diferenciar o terapeuta, de facto, que sabe tratar e dosear medicamentos, de alguém que, eventualmente, os venda de forma aleatória com o único interesse de
ganhar dinheiro? Isto, aliás, descredibilizaria esta classe, não?”
Antes da resposta, a bióloga Esperança da Costa enfatiza: “É verdade. O grande proble54
As plantas servem para fazer unguentos
que combatem as doenças mentais.
The plants are used to make ointments
that fight mental illnesses.
55
“Os terapeutas autorizados a medicar
têm de ser incluídos
no Sistema Nacional
de Saúde.”
“The healers that are
authorised to prescribe medication
have to be included
in the National
Health Service.”
ma que se coloca é esse. Como identificar quem sabe”? A reacção de Kitoko é imediata: “os
terapeutas que estão autorizados a medicar têm de ser oficialmente valorizados e incluídos
no Sistema Nacional de Saúde. Contudo, a inclusão da Medicina Tradicional no Plano
Nacional de Desenvolvimento Sanitário 2012-2025 já foi um passo importante.”
Para José Filomeno, há questões ainda por esclarecer. “O programa que estão a desenvolver faz o levantamento dos vários tratamentos, das plantas usadas e identifica que
treinamento tem de ter o terapeuta para poder ser licenciado, ou ainda é um processo
aleatório?”, questiona. A resposta à questão foi dada pela criação, em 2012, da Câmara
Profissional dos Terapeutas de Medicina Tradicional, que abarca mais de 61 mil profissionais, distribuídos em comissões nacionais de terapeutas, das ervanárias, dos naturalistas e
da rede de mulheres vendedoras de medicamentos tradicionais. “Depois da Conferência
Nacional de Medicina Tradicional e Práticas Complementares, esses foram licenciados”,
esclarece o Avô Kitoko.
Cuidados com a medicina tradicional
Kitoko Maiavângua, nome de registo do terapeuta natural do Uíge, admite que são precisos cuidados na utilização da medicina tradicional, “porque há riscos”. A sobredosagem
ou intoxicação por ingestão de medicamentos mal conservados é o mais frequente, por isso
avança que há intenção de se criar, em Luanda, um grande mercado de venda de medicamentos naturais. Mas desfaz, desde logo, o mito. “A ideia de que a medicina moderna e a
tradicional não se casam deve ser rebatida”, defende, peremptório.
No Centro, o avô Kitoko pratica
exercício regularmente
Avô Kitoko exercises regularly
at the Centre.
diabetes, infertility and tuberculosis. Visitors can also find moringa seeds used to produce
lubricants for sewing machines.
Kitoko is quite a communicative person. You feel from his conversation that he has a
boundless list of things to get across. He revealed, for example, that Angola already had 36
fully licensed apothecaries, all controlled by the National Directorate of Medication and
Infrastructures of the Ministry of Health. According to this doctor, by 2015, there is the
plan to open three traditional hospitals: one in Luanda, another in North-Lunda and the
third in South-Lunda. “We are going to value the true therapists, tradition and traditional
medicine”, he vows.
In relation to the cooperation between the unit coordinated by Avô Kitoko and the
Botany Centre run by Esperança da Costa, the therapist clarified that this stemmed from
the latter serving as the unit to mobilise traditional healers spread across the country, “combating the lack of empirical consideration that tradition medicine had at the outset.”
This explanation, however, triggered a double question from José Filomeno. “How does
it prove possible to differentiate between the healers who in fact know how to treat and provide medically effective dosages from somebody who is just selling them somewhat randomly with the sole purpose of making money? Indeed, doesn’t this discredit the entire sector?”
Before answering, the biologist Esperança da Costa steps in: “That’s true. The major
problem faced is that one. How do you identify just who knows”? Kitoko’s reaction is
immediate: “the healers that are authorised to prescribe medication have to be officially
evaluated and included in the National Health Service. Furthermore, the inclusion of Traditional Medicine in the National Sanitation Development Plan for 2012-2025 was already
an important step.”
However, José Filomeno still has questions. “Does the program that is under development survey the various treatments, the plants used and identify what training the specialist
has to have in order to gain a license or is this still a random process?”, he asks. The response
to the question came with the founding in 2012 of the Professional Council of Traditional
Medicine Therapists, which represents over 61,000 professionals distributed across national
therapeutic commissions, apothecaries, naturalists and the network of female retailers of
traditional medicines. “Following the National Conference of Traditional Medicine and
Complementary Practices, these were all licensed”, explains Avô Kitoko.
Treating by traditional medicine
Kitoko Maiavângua, the registered name of this natural therapist from Uíge, accepts that
precise care is needed in the utilisation of traditional medicines “because there are risks”.
Overdosing or intoxication due to ingesting poorly preserved medicines is the most common problem and hence there is the objective to set up a large market for the sale of natural
medicinal products in Luanda. However, he challenges the myth from the outset. “The idea
that modern and traditional medicines do not go hand in hand should be rebuffed”, he
peremptorily defends.
Kitoko furthermore lists a set of cases for which conventional medicine “is irreplaceable”. The cases of blood transfusions, drips, weight, temperature and blood pressure measurements are not applicable in natural medicine, “hence, in these situations, modern medicine is essential,” he accepts while emphasising the complementarities between the two.
“In sum, the professionals from the two branches should work together, conciliating
the scientific evolution and progress with the discovery of new plants out in the wild”. For
the future, he predicts more and better organisation of its activities due to the founding of
the Professional Council of Traditional Medicine Therapists. “This institution is going to
regulate, control and protect the therapists with an Internet database available in the national languages with the background of all members including photos”, he explains. “This
provides an opportunity to separate the wheat from the chaff, identifying the professional
licensed to practice traditional medicine and tightening the noose on fake healers.”
The final point about natural medicine was in relation to the pamphlets that repeatedly
get distributed by supposed traditional medicine practitioners claiming to cure HIV/Aids.
56
57
Kitoko enumera, entretanto, uma lista de casos para os quais a medicina convencional
“é insubstituível”. Os casos de transfusão de sangue, aplicação de soro, medição de peso,
temperatura ou da tensão arterial não se aplicam na medicina natural, “logo, nestas situações, a medicina moderna é indispensável”, admite, reforçando a complementaridade entre
ambas.
“No fundo, os profissionais dos dois ramos devem trabalhar em conjunto, conciliando
a evolução científica com a descoberta de novas plantas nos matos”. Para o futuro, antevê
mais e melhor organização na sua actividade, com a criação da Câmara Profissional dos
Terapeutas de Medicina Tradicional. “A instituição vai disciplinar, controlar e proteger os
terapeutas, terá uma base de dados na Internet em línguas nacionais, com o histórico de
todos os membros, incluindo fotos”, antecipa. “Será uma oportunidade para se separar
o trigo do joio, identificando o profissional licenciado para exercer funções como médico
tradicional e apertar o cerco aos falsos terapeutas.”
O último ponto sobre a medicina natural foi em relação aos panfletos distribuídos de
forma recorrente sobre pretensos médicos tradicionais que curam o VIH/Sida. Segundo
Esperança da Costa, os medicamentos, na verdade, não curam a doença, apenas ajudam a
combatê-la em algumas fases do seu estágio de propagação, como é o caso dos eczemas, na
medida em que “diminuem a carga viral.”
Protecção à biodiversidade
Num outro campo, “também de grande relevância”, Avô Kitoko lança um olhar sobre a
preservação da biodiversidade em Angola. “Devemos respeitar a fauna e a flora do nosso
país, visto que, em muitas áreas, somos chamados para a conservação do meio ambiente e,
por conseguinte, da vida humana.”
A preocupação do terapeuta tradicional refere-se aos “comportamentos menos positivos de alguns cidadãos”, envolvidos em queimadas e “no desmatamento desenfreado”
de diversas florestas, “erros que muitas vezes acontecem por falta de informação”. Para
Esperança da Costa há outras considerações a ter-se em conta. Segundo observa a bióloga,
a atenção dos americanos e dos europeus em relação ao continente africano, e particularmente a Angola, deve-se ao facto de a maioria esmagadora dos fármacos possuírem extractos vegetais. “É por isso que os países dos trópicos estão sob os holofotes. Há uma clara
intenção de se fazer dinheiro”, afirma, serena. Por outro lado, Esperança Costa mostrou-se
preocupada quanto à necessidade de preservação dos mangais nas províncias do Zaire e
de Cabinda. “É ali onde os peixes se reproduzem e há uma grande biodiversidade. Vamos
preservá-los”, desafiou.
As perspectivas imediatas para o país revelam-se, entretanto, mais ambiciosas, na observação de Avô Kitoko. No espaço de um ano, o terapeuta prevê o início da fabricação de
medicamentos, mas também da produção de sabonetes com raízes e folha de mamoeiro. O
plantio de algumas espécies nos municípios e nas aldeias do interior, o arranque do projecto
de replantação e a construção de jardins botânicos, estufas e hortas são, segundo Kitoko,
“projectos fundamentais” para que haja medicamentos e as pessoas sejam assistidas nas
zonas rurais no limiar de uma doença.
“No fundo, queremos apoiar a nossa economia, servindo de tampão às várias patologias, reduzindo os seus índices e permitindo ao Estado canalizar parte dos fundos destinados à saúde para outros sectores”, comenta. E mais: “queremos também ser mais prestativos nas áreas culturais e sociais, criando novas pomadas, xaropes e mais medicamentos
naturais”, desafia, terminando com um caloroso aperto de mão.
58
“A construção de
jardins botânicos é
fundamental para
que as pessoas
sejam assistidas nas
zonas rurais.”
“The construction of
botanical gardens
is fundamental to
help people in rural
areas.”
Avô Kitoko
Kitoko Maiavângua nasceu a 29 de
Maio de 1957. Concluiu a sua licenciatura em Economia, com a especialidade de Contabilidade e Gestão
de Empresas, em 1979 na República
Democrática do Congo. Participa em
cimeiras, simpósios e palestras sobre
medicina tradicional em diversos países.
Iniciou este trabalho em 1981. Gere o
Centro de Medicina Avô Kitoko, que se
especializa no tratamento de doenças
mentais, epilepsia, trombose e outras
patologias. É coordenador da Unidade
Técnica de Investigação Africana desde
2005 e em 2012, foi coordenador da
‘Conferência Nacional de Medicina Tradicional e Práticas Complementares’. É
um activista acérrimo do uso de plantas
para tratamento de patologias diversas
e o maior impulsionador da regulamentação da Política Nacional da Medicina
Tradicional.
Kitoko Maiavângua was born in
Mbanza Congo, Uíge, on the 29th
of May, 1957. In 1979 he concluded
his degree in Economics – Account
and Business Management, in the
Democratic Republic of Congo. He has
participated in several conferences and
symposiums on traditional medicine
around world. He started working in this
area in 1981. In Luanda he is responsible
for the Medicine Centre Avô Kitoko, an
institution that deals with mental illness,
epilepsy, strokes and other pathologies.
Since 2005 he is the coordinator of the
African Research Technical Unit and,
in 2012, he was the coordinator of the
‘National Conference on Traditional
Medicine and Other Practices’. Kitoko
has been working hard to implement the
regulation of the National Traditional
Medicine Policy and strongly believes in
the healing power of plants.
According to Esperança da Costa, the medication does not in truth cure the disease but
only helps in combating it in some phases of its propagation as is the case with eczemas to
the extent that they “lower the viral charge.”
Protecting biodiversity
In another area, “also of great relevance”, Avô Kitoko casts a glance at the objective of
preserving biodiversity in Angola. “We should respect the fauna and flora of our country,
given that, in some parts, we are called upon to preserve the environment and, consequently, human life.”
The concerns of the traditional therapist derive from “the less positive behaviours of
some citizens,” involved in setting fire to lands and “the unrestrained felling” of various
forests, “errors that so commonly happen due to a lack of information.”
According to Esperança da Costa, there are other factors to be taken into account. The
biologist observes that the attentions of Americans and Europeans in relation to the African
continent and especially to Angola are because most of the pharmaceuticals contain vegetal
extracts. “This is the reason why tropical countries are in the spotlight. There is a clear intention to make money”, she calmly affirms. Furthermore, Esperança Costa expressed her
concern over the need to preserve the mango groves in the provinces of Zaire and Cabinda.
“That is where fish reproduce and there is a great deal of biodiversity. We shall preserve
them”, she affirms.
The immediate perspectives for the country prove far more ambitious according to Avô
Kitoko. Within a year, he expects the launch of a medication factory as well as beginning
production of soap made with papaya roots and leaves. The planting of species in municipalities and villages inland and the launch of the project for replanting and building botanical gardens, greenhouses and orchards are, according to Kitoko, “fundamental projects”
to ensure the supply of medication and enable assistance to people facing ilnesses in rural
zones.
“Overall, we want to support our economy, serving to cap various pathologies, reducing
their prevalence and enabling the state to channel part of the funding destined to healthcare
into other sectors”, he advocates. Still furthermore: “we also want to be more active in the
cultural and social areas, coming up with new natural balms, syrups and more types of
natural medicine”, he states challengingly bfore ending with a warm handshake.
59
“O nosso
objectivo é
servir a
população”
A OMS África estima que 1% da população
do nosso continente sofre de cegueira
“Our purpose is to serve
the population”
WHO Africa estimates that 1% of our
population suffers from blindness
“A catarata é uma
doença que torna a
lente opaca.”
“A cataract is a
disease that makes
the lens opaque.”
Jean-Pierre Bréchet é consultor médico da Solidariedade Evangélica – SOLE Angola – instituição sem fins lucrativos que nasceu com a ‘Casa de Saúde Boa Vista’, um pequeno centro
médico de oftalmologia, que iniciou em 1995, com Urspeter Beerli, especialista em cirurgia
da catarata.
Bréchet trabalhou com Beerli no hospital de Caluquembe, abandonando-o devido ao
escalar da guerra, sobretudo em 1992. Fluente em inglês, português, francês, italiano e
umbundo, Bréchet monitora e melhora o conhecimento de vários técnicos de saúde e não é
raro vê-lo a falar com os pacientes na língua dos autóctones. Acompanhe a entrevista feita
em Benguela:
Jean-Pierre Bréchet is the consultant doctor of Solidariedade Evangélica – SOLE Angola
– a non-profit institution that was founded with the ‘Boa Vista Health Centre’, a small
ophthalmology medical centre that he opened in 1995 with Urspeter Beerli, a specialist in
cataract surgery.
Bréchet worked with Beerli at Caluquembe Hospital but had to flee due to the civil war,
especially in 1992. Fluent in several languages: English, Portuguese, French, Italian and
Umbundu, Bréchet supervises and improves the knowledge of various healthcare specialists
and it is not unusual to find him conversing with patients in their own indigenous language.
This interview took place in Benguela:
A ‘Casa de Saúde Boa Vista’ foi reabilitada em 2008, com dois blocos operatórios e 30
leitos. Além disso, conta com os préstimos de dois médicos oftalmologistas. Com essas
condições, quantas cirurgias faz anualmente?
The ‘Boa Vista Health Centre’ underwent renovation in 2008 and was equipped with two
operating theatres and 30 beds. Furthermore, it also counts with two ophthalmologists.
Taking into account these conditions, how many operations do you complete annually?
jean-pierre bréchet – No princípio, fazíamos 300 cirurgias por ano, depois subimos
para 1000, posteriormente para 1500, mas, até ao momento, o nosso máximo foi de 3300
operações ao ano. Diariamente, atendemos em média 120 pessoas, 90 das quais novos
casos. Os outros 30 são, sobretudo, casos de revisão. Normalmente, em cada 10 consultas
é diagnosticada uma catarata, a também chamada ‘cegueira evitável’, uma doença que
provoca a opacificação da lente (torna-se opaca), deixando a pessoa cega. O que fazemos é
retirar a catarata e colocamos, de seguida, uma lente intra-ocular para que o paciente volte
a enxergar.
jean-pierre bréchet – At the beginning, we were doing 300 operations per year, then we
increased the number to 1,000 and, after that to 1,500. Our maximum is 3,300 operations
per year. We attend an average of 120 persons daily, 90 of whom are new cases. The other
30 are, above all, check-ups. Usually, one in every ten appointments results in a cataract
diagnosis, also called ‘avoidable blindness’, a disease causing the opaqueness of the lens and
leaving the person blind. What we do is remove the cataract and then replace it with an
intra-ocular lens so that the patient can see again.
What are the causes of blindness? Is it true that hypertension is one of them?
Quais são as causas da cegueira? É verdade que a hipertensão é uma delas?
A principal causa da cegueira é a catarata. Mas é verdade que também podem contribuir,
entre outras, doenças como o glaucoma, que é uma hipertensão dentro do olho; a diabetes
e a oncocercose, que é uma patologia provocada por um verme, comummente conhecida
como ‘cegueira dos rios’. Em relação ao nosso trabalho, contamos com alguns parceiros em
Celestino, 51, Luzia, 82 e Bibiana, 70,
doentes de lepra em tratamento.
Celestino, 51, Luzia, 82 and Bibiana, 70,
leprosy patients under treatment.
The main cause of blindness is cataracts but also other diseases like, for example, glaucoma, which is hypertension of the eye, diabetes and onchocerciasis, a pathology caused
by a worm commonly known as ‘river blindness’. We count upon different partners in
different provinces such as churches that have medical centres as is the case with IEBA
– the Evangelic Baptist Church of Angola. Usually, the local nurses evaluate the patients’
condition and when they number more than 30, we send out a team of surgeons to operate in that place.
Statistically, how is Angola doing concerning cases of cataracts and blindness?
WHO considers that 1% of the population in our continent suffers from blindness and,
within this group, around 60% have cataracts. If we consider Angola, with its estimated
population of 20 million inhabitants, we may estimate that there are around 100,000 people with cataract problems. Our project has permanent infrastructures in Zaire and Huíla
and also regular visits to Huambo, Cuanza Sul, Cuando Cubango, Cunene and Uíge. Our
objective is to serve the population that doesn’t have access to such services. That character
of a blind person begging and being ignored by the others touches my heart. We want him
to be treated with the necessary affection, to have someone to take him to an appointment
with the doctor.
On the fight against leprosy, what is the current framework?
As a consultant to the “National Anti Leprosy Program” since 1997, we have worked to
reduce the prevalence of this disease to less than 10,000 citizens. In 2002, with the end of
the civil war, the prevalence of leprosy rose due to the amount of people travelling in search
of treatment because these people lived in areas affected by the war or too isolated to have
help. With the awareness project, we already reach about 15,000 persons per year. We also
work on preventing disability and provide support to around 200 lepers in partnership
with provincial healthcare structures and in parallel with SOLE’s projects.
In public health terms, what are the potential threats to the country in the near future?
Infectious and contagious diseases are going to be better controlled. Mortality is going to
become increasingly caused by cardiovascular diseases such as strokes, hypertension, heart
attacks and cancers. Thus, pathologies connected with an improvement in nutrition will
become the main causes of death. This is, after all, what has already happened in Europe.
62
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“Com a cirurgia
da catarata, os
pacientes abrem os
olhos para um
novo horizonte.”
“With cataract
surgery, the patients
open their eyes
towards a new
horizon.”
Leo Chipango, 92, Laura Camana, 54,
António Quintas, 49 e Arão Hossi, 76,
sorriem. Já podem ver.
Leo Chipango, 92, Laura Camana, 54,
António Quintas, 49 and Arão Hossi, 76,
smile. They can now see.
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várias províncias, como as igrejas que têm centros médicos, tal é o caso da IEBA – Igreja
Evangélica Baptista de Angola. Normalmente, os enfermeiros locais fazem uma triagem e,
quando atingem mais de 30 pessoas, fazemos deslocar uma equipa de cirurgiões que opera
no local.
“Na sensibilização
já alcançamos 15
mil pessoas/ano.”
“The awareness
campaign reaches
15,000 people per
year.”
Estatisticamente, como está Angola em relação a casos de catarata e cegueira?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera que 1% da população do nosso continente sofre de cegueira e que, dessa cifra, cerca de 60% sofre de catarata. Se considerarmos
Angola, com uma população estimada de 20 milhões de habitantes, podemos estimar existirem mais de 100 mil pessoas com problemas de cataratas. O nosso projecto está ramificado
nas províncias do Zaire e Huíla. Visitamos regularmente o Huambo, Cuanza Sul, Cuando
Cubango, Cunene e Uíge. O nosso objectivo é servir a população que não tem acesso a estes
cuidados. Aquela figura de um cego a mendigar e ninguém dá conta dele toca o meu coração. Pretendemos que essa pessoa tenha o carinho necessário, que alguém a leve à consulta.
Sobre o combate à lepra, qual é o quadro actual?
Como assessor do “Programa Nacional de Combate à Lepra”, desde 1997, trabalhamos
para reduzir a doença até menos de um caso por 10 mil habitantes. Isso foi possível em
2005. Em 2002, com o fim da guerra civil, a prevalência da lepra aumentou, devido à facilidade de deslocação do povo em busca de tratamento, designadamente doentes que viviam
nas zonas isoladas ou em guerra. Dentro do projecto de sensibilização, já alcançamos cerca
de 15 mil pessoas por ano. Trabalhamos igualmente na prevenção da incapacidade e no
acompanhamento de cerca de 200 leprosos, em parceria com as estruturas provinciais de
saúde, em paralelo com os projectos da SOLE.
Em termos de Saúde Pública, quais são as potenciais ameaças para o país nos próximos
tempos?
As doenças infecto-contagiosas vão ser melhor controladas. A mortalidade vai passar destas para as doenças cardiovasculares, como acidentes vasculares cerebrais (AVC,s), hipertensão, enfartes do miocárdio e os cancros. Ou seja, patologias ligadas à melhoria da nutrição serão a maior causa de morte. Isso é, aliás, um pouco do que já aconteceu na Europa.
O melhoramento do atendimento nos hospitais não poderá contrariar este quadro
menos animador que desenha?
A esperança de vida, em Angola, é de 50 anos, ou seja, é ainda muito baixa. Todavia,
com as melhorias na saúde, a população vai envelhecer e vai haver mais pessoas idosas,
por conseguinte mais cancros vão aparecer nesta população. O Ministério da Saúde e a
OMS já estão conscientes de que as doenças não-contagiosas vão tomar um lugar mais
importante. Doenças como a diabetes e a hipertensão, não têm cura e requerem tratamento
para sempre. Isto significa que os meios financeiros para os hospitais vão ser cada vez mais
complexos. Em vez de se tratar de doenças infecto-contagiosas que curam e os doentes não
voltam mais, vamos ter mais doenças crónicas com pacientes que vão precisar de tratamento e seguimento constantes.
Por agora, a primeira causa de morte é infecciosa. As pessoas morrem mais de malária,
tuberculose e HIV/Sida, mas o que mais me toca é a saúde materno-infantil. O atendimento
nas maternidades na altura do parto e pós-parto ainda não é o desejável.
Até ao momento que melhorias é que destaca na saúde e o que deve ser reforçado?
Houve várias melhorias. A mortalidade infantil baixou. Em 2002, eram 150 mortes por
1000 nados-vivos; em 2013, descemos para 93 mortes por 1000 nados-vivos na zona urbana. Na zona rural, houve um decréscimo de 141 falecimentos. A competência dos enfermeiros ainda não é muito boa. É necessário ter cuidado com a arte da enfermagem, para
que o cuidado ao doente seja mantido. Por outro lado, desde o alcance da paz, estradas,
escolas, hospitais e centros de saúde foram construídos. Os progressos são enormes e as
mudanças rápidas.
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Jean-Pierre Bréchet
Nasceu a 19 de Janeiro de 1948, em
Genebra, Suíça. Jean-Pierre Bréchet é
um médico dedicado a Angola, país que
‘pisou’ pela primeira vez com três meses
de vida, com os pais Rodolphe e Ana
Bréchet, sendo o seu progenitor missionário da ‘Missão Evangélica Filiafricana’
actualmente Igreja Evangélica Sinodal
de Angola (IESA) e médico fundador do
hospital de Caluquembe, Huíla, em 1947.
Licenciou-se em Medicina pela Universidade de Genebra, doutorado na
Universidade de Lausanne, em Medicina Tropical e Medicina Interna Geral
naquele país europeu. Bréchet saiu de
Angola em 1966, para continuar os estudos na Zâmbia e na Suíça, mas voltou
à Pátria em 1977. Depois regressou à
Suíça em 1990, por questões familiares. Está em Angola permanentemente
desde 1997 e trabalha no programa de
combate à lepra.
Born on 19th January 1948, in Geneva,
Switzerland. Jean-Pierre Bréchet is a
doctor dedicated to Angola, a country
he first set foot in at just three months of
age with his parents Rodolphe and Ana
Bréchet, with his father being a missionary for the Missão Evangélica Filiafricana’ now IESA, the Igreja Evangélica
Sinodal de Angola (Evangelic Synodal
Church of Angola) and a founder of
Caluquembe Hospital in Huíla in 1947.
He graduated in Medicine from the
University of Geneva before completing
his PhD at the University of Lausanne in
Tropical Medicine and General Internal
Medicine. Bréchet left Angola in 1966
to continue his studies in Zambia and
Switzerland but returned to his homeland in 1977. After having returned to
Switzerland in 1990 for family reasons,
he has been permanently resident in Angola since 1997 and works on the anti
leprosy program.
A Associação Provincial de Deficientes
Visuais enfrenta carências.
The Provincial Association for the Visual
Impaired faces shortages.
Couldn’t the improvement in hospital services counter this less than positive framework
that you describe?
In Angola, life expectancy stands at 50 years of age and it is still very low. However, with
all the health improvements along the years, the population will age and there shall be more
elderly people and consequently more cancers will emerge in the population. The Ministry
of Health and the WHO are already aware that non-contagious diseases are going to play a
more important role in the future, replacing the contagious diseases. For instance, diseases
such as diabetes and hypertension have no cure and require constant treatment. This means
that financing hospitals is going to become ever more complex. Instead of treating infectious and contagious diseases that get cured and the diseases do not return, we are going to
get more chronic diseases with patients that are require constant treatment and monitoring.
For now, the leading causes of death are infections. People die most of malaria, tuberculosis
and HIV/Aids but what particularly afflicts me is maternal-infantile health. Maternity services at the time of birth and post-birth are not yet what would be desirable.
Thus far, what improvements would you highlight in health and what should be reinforced?
We had several improvements in terms of heatlh. The infant mortality rate is low. In 2002,
there were 150 deaths per 1,000 new births; in 2013, this was down to 93 deaths per 1,000
new births in urban areas. In rural regions, there was a decrease to 141 deaths. The skills
and competences of nurses are still not very good but they will improve. We need to be careful with the art of nursing so that patient care is continuous. Furthermore, since we reached
peace, roads, schools, hospitals and healthcare centres have been built. The progress has
been huge with quick changes.
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Meu Futuro
Superação
Dominique Neto viaja quinze quilómetros para ganhar a vida como
mecânico. O seu maior sonho é ter o seu próprio negócio.
OVERCOMING
Dominique Neto travels fifteen kilometers to work as a
mechanic. His biggest dream is to have his own shop.
“As pessoas ficam impressionadas quando passo por elas ao
volante de uma motorizada”, disse à todos, o mecânico Dominique, com um gracejo estampado no rosto.
Esta apreensão tem razão de ser, porque, não é muito seguro
para o jovem de 20 anos, conduzir dada a deficiência nos membros inferiores, todavia, isso não tem sido impedimento para
este luandense oriundo do bairro Petrangol, Sambizanga.
Os exemplos de superação de Domingos Neto, nome do BI,
não se resignam às voltas de moto que dá no seu bairro, porquanto, sai de casa, na cadeira de rodas da Petrangol ao Maculusso, cerca de 15 quilómetros, de segunda a sábado, para
trabalhar e ajudar a sua mãe nas despesas de casa.
“Fiquei paralítico aos 5 anos, por doença, hoje recomendo
aos pais a terem maior precaução com os filhos doentes”, frisou
o técnico ‘forjado’ no seu bairro, aos 12 anos por um vizinho,
“aprendi a profissão por curiosidade”, conta.
Há oito anos que Dominique usa cadeira de rodas, período
que coincide com o tempo que aprendeu a arte de concertar
motores, trocar pneus e outros traquejos da mecânica.
Dentro de 10 anos, o jovem que ama a profissão e as motorizadas quer ter a sua própria oficina, ser patrão e ter uma frota
de motociclos, “quero trabalhar por conta própria, processar
salários e outras benesses conferidas a quem é patrão.”
“O futuro desenha-se brilhante no horizonte. É só trabalhar”, sublinha confiante. Pode-se depreender que o rapaz tem
muitos sonhos, um deles é caminhar na estrada da vida rumo
ao sucesso.
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“People are impressed when I pass them on a motorcycle, “ says
the mechanic Dominique to todos, with a smile on his face.
There is a reason for this apprehension, since it is not very
safe for the 20-year-old young man to drive because of his lower
limb disability. However, that does not prevent Dominique from
riding a motorcycle.
Domingos Neto, a native from Luanda from the Petrangol
neighborhood, Sambizanga. does more than riding a motorcycle. He travels approximately fifteen kilometers from Petrangol
to Maculusso, from Monday to Saturday, to work and help his
mother with the house expenses.
“I was left paralyzed from the lower limbs at the age of five
by illness. I advise parents to be careful with their sick children”,
stressed the technician who, at the age of twelve, was taught by
his neighbor. “I started learning out of curiosity”, he says.
Dominique began using a wheelchair eight years ago and
during that period he also started learning how to fix motors,
change tires and other mechanic related skills.
Ten years from now this young man, who loves motorcycles,
wants to have his own shop, be his own boss and have a motorcycle fleet: “I want to work for myself, have employees and
enjoy the benefits of being the boss.”
“The future is shaping up to be brilliant. I just need to work”,
he says with self-assurance. One might say that this boy has
many dreams and one of them is to walk the road of life towards success.
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