05 - Núcleo de Pesquisa Impérios e Lugares do Brasil

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05 - Núcleo de Pesquisa Impérios e Lugares do Brasil
CONSTRUINDO UM ENTENDIMENTO SOBRE O PORTUGAL DOS
FILIPES.
Daniela Rabelo Costa Ribeiro Paiva, Universidade Federal de Viçosa1.
RESUMO: A PESQUISA EM QUE SE BASEIA ESTE ARTIGO SURGIU DE UM
INTERESSE PELA HISTÓRIA POLÍTICA LUSA. PRETENDIA-SE DESENVOLVER UM
ESTUDO SOBRE O PERIODO CONHECIDO COMO UNIÃO IBÉRICA, EM QUE
PORTUGAL FICOU SUBMETIDO AO PODER DO MONARCA FILIPE II, ENTÃO REI
ESPANHOL. POR MUITO TEMPO A HISTORIOGRAFIA PRETERIU ESTE PERIODO.
O PORTUGAL DOS GRANDES FEITOS MARÍTIMOS E DO DESEJO DE SE TORNAR
O MAIOR DOS IMPÉRIOS DESDENHOU-O POR ESTE REPRESENTAR, NÃO SÓ O
FIM DA DINASTIA DOS AVIS E OS TEMPOS ÁUREOS A ELA ASSOCIADOS, COMO
TAMBÉM A PERDA DA SOBERANIA. DENTRE AS DIFICULDADES EM SE
DESENVOLVER ESSA PESQUISA ESTÁ O ACESSO ÀS FONTES PORTUGUESAS.
MEDIANTE
A
DISPONIBILIDADE,
OPTOU-SE
POR
DUAS
FONTES
PUBLICADAS:DO SÍTIO DE LISBOA: DIÁLOGOS (1608) E CORTE DA ALDEIA, NOITES
DE INVERNO (1619) DOS AUTORES LUÍS MENDES DE VASCONCELOS E
FRANCISCO RODRIGUES LOBO, RESPECTIVAMENTE. ESTAS FONTES NOS
RESERVOU UMA GRATIFICANTE SURPRESA POR NOS PERMITIR UMA
COMPREENSÃO ÚNICA DE COMO ESSES AUTORES PENSARAM O REGIME NO
QUAL ESTAVAM INSERIDOS. A PESQUISA PROPORIA, ENTÃO, ANALISAR ESSAS
FONTES, QUE ATÉ ENTÃO FORAM UTILIZADAS POR ESPECIALISTAS APENAS
COMO ALGO ILUSTRATIVO. ESTE ARTIGO VISARÁ REFLETIR SOBRE A
CONSTRUÇÃO DA PESQUISA QUE É FINANCIADA PELA FAPEMG.
PALAVRAS CHAVE: História Política – História Portuguesa – União Ibérica
Certa vez, o historiador do campo político René Remond disse sobre a existência de
um movimento pendular na História. Remond compreendia que a História não seria algo
indiferente ao tempo e à sua ação transformadora. Desta sorte, a construção do conhecimento
histórico estaria em constante modificação, ora privilegiando um campo específico, ora outro.
Caberia então aos historiadores esta compreensão e a disposição de adequar-se às perspectivas
de cada tempo. Remond ainda disse sobre a importância dessas transformações para a
produção do conhecimento histórico; pois, segundo ele, é a partir desse processo que a
história se propõe a renovar (REMOND,1996).
Mediante esta discussão, o presente artigo propõe uma reflexão acerca da construção
de uma pesquisa financiada por a FAPEMIG, que tinha como objetivo inicial estabelecer uma
1
Graduanda do 8° período do curso de História da Universidade Federal de Viçosa. Possui uma pesquisa de
iniciação científica, à qual o artigo se baseia, financiada por a FAPEMG.
compreensão sobre o Portugal Filipino. Nesta reflexão será analisado em que medida as
discussões historiográficas, tanto epistemológicas, como metodológicas, interferiram em sua
execução, principalmente aquelas relacionadas à historiografia portuguesa do período
referendado e à historiografia sobre o âmbito político. O intuito dessa discussão é mostrar a
proximidade da pesquisa com as novas perspectivas históricas.
A literatura da história de Portugal.
Escrito em 1572, Os Lusíadas exerceu significativa influência na forma com que os
portugueses pensaram e escreveram sobre o seu passado. Os poemas, ou cantos, que
compõem esta obra narram toda a história portuguesa, perpassando desde sua formação até as
viagens feitas à Índia por Vasco da Gama. Nesta narrativa histórica, seu autor, Luis de
Camões, defende a magnificência portuguesa, destacando seus grandes feitos marítimos, suas
conquistas e, sobretudo, o heroísmo do seu povo. Como pode ser observado na seguinte
passagem:
“E Também as memórias gloriosas
Daqueles reis que foram dilatando
A fé, o império e as terras viciosas
De África e Ásia andaram devastando,
E aqueles por obras valerosas
Se vão da lei da morte libertanto:
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
Cessem do sábio grego e do troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre lusitano,
A quem Netuno e Marte obedeceram,
Cesse tudo o que a musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta”
A passagem foi extraída das estrofes II e III do Canto Primeiro, em que Camões aduz
algumas de suas propostas. Na estrofe II, o autor português expressa este desejo de cantar as
memórias gloriosas de Portugal. Camões evidencia o processo de expansão marítima, por este
ter permitido a Portugal ampliar os seus domínios políticos e contribuir para a propagação do
cristianismo. A expectativa de seus líricos poemas é imortalizar tais feitos, libertando da
morte, isto é, do esquecimento. Para tal tarefa, o autor espera ter talento e sabedoria. A estrofe
III, por sua vez, destaca-se o povo português e o seu promissor destino. Nesta estrofe também
é possível perceber como esta narrativa histórica está imbuída de um discurso épico, à medida
que se percebe a presença de alguns elementos míticos. Como por exemplo, quando o autor
evoca o sábio grego e troiano, este está querendo referir a Ulisses e Enéias. Ou quando diz
sobre Netuno e Marte, respectivamente, deuses do mar e da guerra, e a interferência destas
entidades mitológicas nas viagens e conquistas portuguesas.
O discurso épico camoniano não fica restrito à cultura greco-romana. Os Lusíadas
também nos oferece elementos míticos próprios da cultura portuguesa. A obra, além de versar
sobre o caráter heróico do português, reforça a imagem deste como um povo predestinado. A
partir dessa percepção, mitos como o do Quinto Império, que diz que o destino de Portugal
era se tornar o maior dos Impérios, e da Ulisséia, em que Lisboa seria a terra do heróico
Ulisses, foram incentivados.
A repercussões desta obra são visíveis em várias âmbitos do pensamento português.
Desta forma, parece razoável propor que a retórica de Camões também esteve presente na
escrita que os portugueses fizeram sobre a sua história. Percebe-se que, assim como nos
cantos camonianos, a literatura da história lusa privilegiou temáticas que destacavam as
ilustres realizações e a magnamidade do povo português. Até mesmo o discurso épico foi
resgatado nesta narrativa histórica. Deste modo, períodos considerados menos “gloriosos”
foram mal estudados por esta historiografia nacional, e nacionalista, dentre os quais, destacase a União Ibérica.
A escrita sobre a União Ibérica.
A União Ibérica foi o período em que Portugal foi incorporado ao Império Hispânico
mediante um processo de substituição dinástica. Esta substituição dinástica se iniciou em
1578 com a prematura morte de D.Sebastião na guerra Alcácer-Quibir.
Sem herdeiros
diretos, o sucessor foi o seu tio-avô Cardeal Henrique de Évora, que por sua atividade
eclesiástica também não possuía descendentes. Antes mesmo da morte do rei substituto,
instalou-se uma disputa dinástica pelo trono português. Esta disputa coroou o rei espanhol,
Filipe II, que, além de possuir legitimidade dinástica, utilizou seu poderio militar e político
para articular uma negociação com as elites portuguesas. Era o fim da longa Dinastia dos Avís
e inicio do reinado dos reis Áustrias, então monarcas do extenso Império Espanhol, que já
havia incorporado aos seus domínios outras províncias e reinos.
O Portugal, que tem sua história associada aos seus grandes feitos marítimos e à
pretensão de se tornar o maior dos Impérios, desdenhou a União Ibérica por esta representar,
não só a perda de uma dinastia e os tempos áureos a ela associados, como também a perda da
soberania. Por essa razão foram reduzidos os trabalhos que se propunham a estudar o período,
sendo estes dotados de uma escrita muito melancólica. Até o final do século XX, este era
referendado, sobretudo, quando se falava da Restauração, que, em contrapartida, era
considerado um evento digno de ser estudado. Como exemplo, podemos citar o Dicionário de
História de Portugal, publicado em 1963, em que não há um verbete destinado à União
Ibérica; a discussão sobre o período é incorporada à verbete sobre a Restauração, escrita por
Vitorino Magalhães Godino (GODINO,1968).
A existência de uma escrita que destacava a Restauração e versava sobre um Portugal
sorumbático durante a União Ibérica estava presente até mesmo em uma produção
internacional. O pesquisador brasileiro Eduardo D´Oliveira França, por exemplo, na década
de 1950, produziu uma História das Mentalidades da União Ibérica. Logo no prefácio desta
tese, França esclarece que o seu estudo tinha o intuito de compreender a atmosfera mental que
permitiu o advento da Restauração, “A insurreição de 1640 seria como que uma projeção
espectroscópica para análise” (FRANÇA, 1997, p.12). Isto é, não obstante estudar a União
Ibérica, a preocupação da sua pesquisa era o período posterior. França também se aproxima
da historiografia lusa na forma com que concebia a União Ibérica. Ao traçar o perfil mental do
português que excitou a Restauração, é possível perceber algumas de suas acepções sobre o
processo que instituiu a união dos reinos. França argumenta que a derrota de Alcácer-Quibir
teria refletido negativamente sobre a auto-estima dos portugueses, impedindo-os de resistir às
investidas espanholas. A mentalidade portuguesa desde então foi marcada por a frustração,
artificialidade e melancolia. Embora faça essa caracterização negativa do português,
definindo-o como um Homem Barroco; França diz sobre o caráter heróico do mesmo. Este o
fez participar da insurreição de 1640, incitada por uma burguesia depauperada. Essa escrita
obscura sobre a União Ibérica feita por França pode ser sintetizada na seguinte passagem:
O homem português não discrepou do seu tempo. O homem que predomina na vida social e lhe
infunde o espírito do tempo é o fidalgo. (…)Esse homem porém foi traumatizado pelas circunstâncias
históricas de seu tempo. Alcácer-Quibir e a perda da independência nacional, pela imposição de um rei
estrangeiro. Sua consciência lhe comandava o heroísmo, saída ao encontro da glória. Mas esse heroísmo
militante ele não o pode realizar porque as condições lhe eram adversas. Sente então um profundo
desgosto de sue tempo, e uma ternura saudosista pelo passado dos reis naturais, quando cada um podia
realizar um destino digno de gente fidalga. (…) Então ele se evade e aliena. (…) Mentalmente, em vez
de planejar a ação redentora, ele se entrega à ruminação do passado, e se distrai com a poesia, com a
musica, com a caça. Alienado pela consciência da frustração do seu heroísmo, ele se artificializa em
requintes de cortesania, e se torna um homem construído e torturado de moralismos e decisões bem
inspiradas. Esse insulamento aliado à idéia de que é um homem decaído pelo pecado com o dever de
procurar a redenção pelo estoicismo da conduta, o faz melancólico e pessimista. Carrega a inércia do
vencido em 1580.(FRANÇA, 1997, p.402)
Todavia, o trabalho de Eduardo D’Oliveira França não deve ser entendido apenas
como reflexo de um posicionamento historiográfico português. Há em sua pesquisa muitas
inovações teóricas que, devido à dificuldade de acesso à sua tese, publicada apenas em 1997,
não se tornaram conhecidas no meio acadêmico. É possível perceber nos trabalhos atuais
muitas das discussões feitas por França. Entrementes, são poucos aqueles que o citam e
admitem a importante contribuição do pesquisador brasileiro à historiografia sobre a União
Ibérica.
Essa historiografia, a partir do final do século XX, assiste a uma reformulação, que
contribuirá para a valorização dos estudos sobre União Ibérica. Historiadores como Fernando
Bouza- Alvarez, Rafael Valladares, Jean-Fréderic Shaub, entre outros, em sua maioria
estrangeiros, se dedicaram a demonstrar a importância histórica do período e questionar a
interpretação tradicional pautada na idéia de um Portugal adormecido, apático. Isso foi feito a
partir de uma análise que não reproduzisse o modelo dicotômico de dominador/dominado e
que valorize a ação portuguesa, mostrando como agentes sociais da época souberam impor e
questionar, durante toda a união dos reinos, a permanência do ordenamento tradicional.
Na proporção que essa tendência revisionista foi se firmando no meio acadêmico,
começou a se ramificar dando origem a novas propostas de abordagem. O debate
historiográfico que se seguiu pode ser entendido a partir da seguinte frase: “Portugal é meu
porque o herdei, o comprei e o conquistei”. Proferida por Filipe II, esta frase pode ser
utilizada como referência à medida que sintetiza a forma com que os historiadores da
tendência revisionista entendiam o processo de instauração da União Ibérica. Segundo eles,
esse processo se deu a partir da junção dos três aspectos referendados na frase. Isto é, a União
Ibérica deveria ser entendida como resultado de uma legitimidade dinástica, uma negociação
de benefícios e uma conquista militar. Entrementes, o que se percebe em seus trabalhos é a
valorização da uma variável em detrimento do conjunto.
Bouza-Alvarez, por exemplo, destaca o caráter de negociação do processo de
Sucessão. Segundo esse prestigiado historiador, a Espanha possuía potencial político e militar
para dominar Portugal, mas enfatiza que aquela preferiu a negociação e, por esta razão, foi
eleita por os portugueses. Estes apoiaram Filipe II por ser o único capaz de naquele momento
contornar a crise instaurada. Essa interpretação destaca o evento ocorrido nas Cortes de
Tomar onde foi selado um compromisso entre Portugal e Espanha, no qual este reconheceu a
autonomia lusa em troca do apoio daquele (BOUZA-ALVAREZ, 1982).
Diferente de Bouza-Alvarez, o último trabalho de Valladares prestigia o caráter militar
da Conquista espanhola, que resultou insatisfações e manifestações de oposição durante todo
o regime. Essa vertente busca persuadir que a união não estava consolidada por laços tão
seguros. Até mesmo quando Filipe II foi reconhecido pelas cortes, optou-se pelo evento em
Tomar, pois havia o receio de haver em Lisboa hostilidade na recepção do novo rei
(VALLADARES, 2000).
É possível ainda uma interpretação que aluminasse a legitimidade dinástica. Como
advogado por A. M. Hespanha, naquela época o nacionalismo não tinha um significado
político. Dessa forma, o processo de sucessão teria seguido parâmetros genealógicos,
desconsiderando a nacionalidade daqueles que concorriam ao trono (HESPANHA, 1989,
p.50). Independente da interferência militar e da negociação, os Filipes tinham condições
genealógicas para ascender ao trono português, o que tornou legitima a sua conquista. Essa
legitimidade dinástica não foi importante apenas no processo de instauração do regime, mas
também na sua manutenção. Percebe-se que as manifestações contra o regime ibérico não
questionavam a figura Real, mas sim a estrutura político-administrativa e aqueles que a
compunham (OLIVEIRA, 1990, p.187).
A pesquisa discutida, então, insere-se nesse atual debate historiográfico, pretendendo
de alguma forma contribuir para com ele. Para isso, a pesquisa se propôs a entender como os
portugueses contemporâneos à união dos reinos interpretaram a sua nova realidade. A partir
dessa reflexão, obtida com a análise das fontes, seria avaliada a importância dos elementos
acima citado na mentalidade portuguesa da época.
Sobre as Fontes e sua análise
A dificuldade de acesso às fontes de origem portuguesa é identificado como um
obstáculo àqueles que pretendem estudar no Brasil o período da União Ibérica. Esta
dificuldade, no entanto, não constitui um impedimento à pesquisa, visto que, dependendo do
enfoque proposto, é possível encontrar no país um considerável acervo documental. Desta
sorte, o enfoque escolhido por a pesquisa discutida não impôs grandes empecilhos à sua
execução. Em sua proposta de compreender como os portugueses contemporâneos à União
Ibérica pensaram e manifestaram sobre as repercussões do novo regime político, optou-se por
a utilização de duas fontes que se encontram publicadas, Do sítio de Lisboa: diálogos (1608)
e Corte da Aldeia, Noites de Inverno (1619) dos autores Luís Mendes de Vasconcelos e
Francisco Rodrigues Lobo, respectivamente. O primeiro foi publicado em 2001 a partir do
incentivo da Câmara Municipal de Lisboa, a editora foi Livros Horizonte. O segundo, por sua
vez, é uma conhecida publicação da Coleção de Clássicos Sá da Costa feita em 1973. Essas
fontes estão disponíveis também na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, em sua sessão
Obras Raras. Esta oferece à consulta publica outros vários livros portugueses de época em sua
edição original. Aliás, este acervo de livros de época, que sofria o processo de deterioração
física, hoje está sendo restaurada e conservada pelo Projeto Fênix, que propõe ainda
disponibilizar alguns desses livros para o acesso eletrônico. Alguns impressos de época estão
disponíveis digitalizados em sites como o da Biblioteca Nacional de Lisboa. O que demonstra
a possibilidade de estudar no Brasil a história lusa no período ibérico.
A escolha por utilizar a publicação atual das fontes supracitadas se deve à facilidade
de manuseio. Entrementes, esse tipo de fonte requer cuidados especiais para sua utilização.
Chartier atenta-nos que o objeto que comunica o texto pode interferir na apreensão que se tem
deste. Durante a manufatura do livro, decisões editoriais ou, até mesmo, o processo industrial
de publicação podem transformar o significado do texto (CHARTIER,2001). Um exemplo de
interferência é a adequação do texto a fim de tornar a leitura mais fácil e assim mais atrativa
aos leitores. Esse tipo de decisão editorial é muito comum em livros de época que foram
escritos em linguagem arcaica. Deste modo, uma etapa importante da pesquisa foi a
comparação das fontes utilizadas com aquelas presentes em sua versão original na Biblioteca
Nacional do Rio de Janeiro. A comparação nos permitiu observar que não houve
modificações substanciais. Inclusive, alguns renomados historiadores utilizam as mesmas
fontes, tais como Rafael Valladares (VALLADARES, 2000) e Eduardo D’Oliveira França
(FRANÇA,1997).
O procedimento escolhido para a análise das fontes eleitas se deu basicamente em três
etapas. Em uma primeira leitura das fontes, buscou-se identificar uma interpretação limitada
às intenções do texto, ou seja, a interpretação de um leitor padrão. Torna-se necessário dizer
que a pesquisa não concebe que exista apenas um tipo de leitura, muito pelo contrário.
Quando o texto se distancia do seu autor fica suscetível a múltiplas interpretações que muitas
vezes fogem da expectativa daquele que o criou e, até mesmo, obstam. Contudo, pode-se falar
de um modelo de interpretação, que se dá a partir da existência de uma convergência entre as
leituras. Esse modelo de interpretação normalmente é uma leitura limitada muito presa às
intenções do texto. Mediante essa primeira leitura, foram observadas todas as discussões
presentes nas fontes, especialmente aquelas que corroboram para o desenvolvimento da
temática proposta na pesquisa, sistematizando-as. Percebe-se que os historiadores que
utilizaram até então as fontes escolhidas ficaram restritos a essa interpretação oficial. Isso
porque, os estudiosos dessa temática não se centraram e não efetivaram uma minuciosa
análise dessas fontes, utilizando-as apenas como instrumento auxiliar ou ilustrativo.
A historiadora brasileira Ana Paula Torres Megiani possui uma estimada pesquisa que
em muito contribuiu para com a historiografia sobre o período da União Ibérica,
principalmente para com aquela produzida no país. Nesta pesquisa, Megiani realiza um estudo
de Cultura Política a partir das festas que ocorreram durante as visitas dos reis Filipes a
Portugal. A pesquisa faz uma interessante discussão sobre como os portugueses pensaram a
ausência real, utilizando para isso as mesmas fontes supracitadas. Apesar do destaque dado
por essa historiadora às fontes, Megiani compartilha do mesmo erro de ilustres historiadores,
realizando uma análise limitada das tocantes. Talvez esse desleixo se justifique por o fato da
análise dessas fontes não ser o foco principal dos historiadores, como é o caso de Megiani
cuja pesquisa se centra nas fontes produzidas sobre as cerimônias que ocorreram
(MEGIANI,2004). Podemos considerar, portanto, a relevância da pesquisa discutida por seu
esforço em explorar as potencialidades das fontes escolhidas, optando por um trabalho mais
qualitativo e menos quantitativo.
Nesse primeiro momento já foi possível observar a riqueza das fontes, proporcionada,
dentre outros aspectos, por a estrutura textual que elas utilizam. O diálogo é um gênero
literário clássico, muito comum após o Renascimento. Sua utilização evidenciaria a influência
de um pensamento grego e romano clássico nas produções escolhidas. Pensadores como
Platão utilizaram o esquema de Diálogos para desenvolver suas reflexões e a realizavam de
duas formas: a primeira forma, menos dinâmica, baseia-se em um colóquio simples cujos
personagens envolvidos se limitam a fazer perguntas e a concordar com um personagem
central que encarnaria Sócrates, reduzindo os Diálogos a simples monólogos; a segunda
forma, por sua vez, mais dinâmica, todos os personagens contribuiriam para o
desenvolvimento da discussão estipulada, tornando aos Diálogos mais teatralizados
(BURKE,1998, p.35-38). Como argumento por os autores dos livros, os diálogos estariam
mais próximos da prática cotidiana da conversação e assim tornavam as discussões mais
didáticas. Além disso, essa estrutura textual tem como figura principal o Autor, que escolhe e
direciona para as matérias que mais o interessa, tornando alguns objetivos evidentes. Essas
matérias eram, geralmente, as discussões em voga na sociedade. O autor então mostrava, a
partir do diálogo entre seus personagens, os diferentes posicionamentos adotados por os
agentes sociais da época, estabelecendo um debate em que, como dito, prevalecia seu ponto
de vista. Logo, essa estrutura textual nos permite uma percepção única da forma com que os
autores se posicionavam diante do novo regime político instaurado.
Ao executar essa primeira etapa da pesquisa, constatamos que as reflexões feitas por
os autores acerca do regime então principalmente relacionadas à problemática sobre a perda
do estatuto de corte régia de Lisboa, que é um assunto muito presente em ambos os livros.
Pode-se dizer que, dentre as repercussões advindas da instauração do regime ibérico, essa foi
uma das mais impactantes. Não só pelas diretas consequências políticas da ausência de uma
figura real, bem como os desdobramentos sociais e culturais implicadas nesse processo.
Lembrando que, com a incorporação de Portugal à Espanha, aquele ficou submetido ao poder
do monarca espanhol que não optou por residir em Lisboa, perdendo assim seu estatuto de
corte régia. Logo, aproveitando-se da recorrência dessa discussão nas fontes, escolheu-se
como recorte temático a compreensão de como os portugueses pensaram e manifestaram o
fim de uma vida cortesã lisboeta, que parece ter bastante influência na mentalidade da época.
A percepção da riqueza das fontes ficou mais clara a partir da segunda etapa da
pesquisa. Nesta etapa houve uma leitura que se pautou em compreender como Luís Mendes
de Vasconcelos e Francisco Rodrigues Lobo representaram a partir de sua escrita a realidade
política em que viviam. Torna-se relevante discutir a forma com que concebemos o conceito
de representação. Esta seria a forma com que o indivíduo representa algo, retrata, simboliza.
Entretanto, qualquer representação construída não apenas diz respeito à forma com que o
indivíduo a apresenta, mas também como esta foi utilizada para apreender e interpretar
determinada realidade. Esse tipo de discussão tem hoje muita importância acadêmica. Inserido
nesse debate está Chartier, que incorpora novas variáveis à questão. O historiador argumenta
que as percepções sociais presentes nas representações não podem ser considerados discursos
neutros. Segundo Chartier, toda apreensão da realidade social reproduz estratégias e práticas
utilizadas por determinado grupo de indivíduos para impor e legitimar sua autoridade, e
justificar as suas escolhas e condutas. Chartier defende que, para além do estudo das lutas
econômicas, é relevante o estudo das lutas de representação para compreender os mecanismos
utilizados por determinado grupo para impor o seu domínio, valores e concepção de mundo
(CHARTIER, 2002). Concebemos o conceito de representação então a partir de sua relação
dialógica com a realidade histórica, advogando que esta realidade estaria repercutida nas
representações criadas, bem como também ser repercussão de alguma representação.
Aluminado por essa relação dialógica entre representação e realidade histórica. Foi
necessário que nesta etapa da pesquisa se reconstituísse o universo dos autores, estudando
suas trajetórias sociais e intelectuais, e analisando em que medida estas interferiu na forma
com que representaram sua realidade. Para isso foram utilizadas fontes auxiliares, tais como
outros livros produzidos por os autores escolhidos e livros daqueles que os influenciaram,
dicionários bibliográficos, entre outros; foi necessário também a leitura de uma extensa
bibliografia, que ajudasse a compreender a realidade e a mentalidade do período ibérico, e a
biografia dos autores. As informações obtidas a partir dessa etapa da pesquisa qualificaram a
leitura dos livros e contribuíram para a compreensão da representação feita por os autores.
Algumas vertentes históricas, literárias e sociológicas contemporâneas abominam o
estabelecimento desse tipo de relação entre a representação e realidade. Utilizando novamente
Chartier, podemos dizer que a pesquisa não concebe que exista uma relação transparente entre
as tocantes. Entretanto, “Jamais o texto, literário ou documental, pode anular-se como texto,
isto é, como um sistema construído segundo categorias, esquemas de percepção e de
apreciação, regras de funcionamento, que remetem às suas próprias condições de produção”
(CHARTIER, 2002, p.56). A partir dessa discussão, Chartier propõe um novo sentido ao real.
“O que é real, de fato, não é somente a realidade visada pelo texto, mas a própria maneira
como ele a visa, na historicidade de sua produção e na estratégia de sua escrita” (CHARTIER,
2002, p.56). Dessa forma, a análise das fontes busca capturar esse novo sentido do real. Não
se buscaria nos textos apenas informações sobre o período estudado, mas sim a forma com
que os autores, e atores sociais, compreenderam e imprimiram em sua escrita esta realidade.
Por fim, a última etapa serviu para o estabelecimento de uma interpretação que se
articulasse com as discussões presentes nos debates historiográficos sobre o período.
Satisfazendo assim um dos objetivos principais da pesquisa, que era a possibilidade de se
posicionar perante esse debate e contribuir de alguma forma para com ele. É interessante
observar como os textos escolhidos foram vislumbrados de formas distintas por os
historiadores que os utilizaram. Isso permite uma reflexão sobre o texto e o ato que o
apreende, mostrando como este não é único, muito pelo contrário, permite um número
expressivo de interpretações possíveis muito pautadas nas experiências coletivas e individuais
daqueles que leram. Outrossim permite uma reflexão sobre o próprio ofício do historiador e a
incapacidade deste em anular o presente em sua apreensão do passado. A importância da
ultima etapa da análise se esclarece com a passagem abaixo:
“O modo de ler, que é ditado pelo próprio livro ou por seus interpretes, oferece o arquétipo de
todas as formas de leitura, não importam quais sejam. A caracterização desses modos de leitura é,
portanto, indispensável a qualquer abordagem que pretenda reconstruir a maneira como os textos
puderam ser apreendidos, compreendidos e manipulados” (CHARTIER, 2002, p.227)
A partir das referências teórico-metodológicas presente na discussão da análise das
fontes, é possível perceber a tentativa de aproximar a pesquisa de alguns aspectos presentes na
Nova História Cultural. Recurso este considerado válido por Xavier Gil Pujol. De acordo com
este historiador, cujos trabalhos se centram no estudo da nova historiografia política sobre a
Idade Moderna, o âmbito político deve ser percebida em vários âmbitos, em múltiplas
manifestações, seja a partir de uma perspectiva social ou cultural. O historiador mostra o
quanto é oportuno estabelecer relações entre historia intelectual, história social e história
política. Pujol delega grande importância à utilização de obras produzidas por atores sociais
como fonte para pesquisas. Segundo ele, essas obras, além de refletirem as repercussões
sociais de certa ação política, definem as prioridades do momento que podem influir em
determinada medida governamental (PUJOL, 2000, p.397-421).
Pujol também argumenta sobre algo que será chamado de rehumanização da história,
algo também bem próprio da Nova História Cultural. Essa tendência iluminaria as ações
humanas. Porém, diferente dos metódicos que faziam uma história que cultualizavam as ações
dos grandes homens, essa tendência destaca na sua interpretação grupos até então
marginalizados pela historiografia, percebendo como a ação desses foi importante para
diversos eventos. Nessa história dos excluídos, os historiadores fazem o esforço de minimizar
o universo de análise, pode-se falar do recurso da microhistória, que mostra como o
entendimento de grupos de ação reduzida pode influenciar e explicar contextos históricos
mais abrangentes (PUJOL, 1995).
As últimas duas variáveis têm muita importância para a pesquisa. Em sua proposta de
desvendar a mentalidade portuguesa no período ibérica, a pesquisa não estaria se
aproximando das perspectivas teórico-metodológicas da História das Mentalidades feita em
meados século XX. Diferente desta, como pôde ser observado, a pesquisa utiliza escalas de
análise reduzidas, que exclui percepções deterministas e preza por uma análise qualitativa das
fontes. Distanciando-se, dessa forma, de uma pretensa história totalizante, que exclui a ação
do indivíduo e privilegia os aspectos quantitativos em sua análise das fontes. Ao estabelecer
essas criticas, portanto, a pesquisa reitera sua confluência com a Nova História Cultura.
Conclusão:
São poucos os trabalhos que se propõem a discutir sobre a construção da pesquisa em
que se baseiam, limitando-se à apresentação dos resultados. Dessa forma, inibe-se uma autoreflexão acerca dos procedimentos, tanto teóricos, quanto metodológicos, que a orientaram. O
intuito deste artigo, então, não foi apresentar as conclusões da pesquisa que o originou, mas
sim refletir sobre a forma com que foi esta foi desenvolvida. Foi possível observar como os
procedimentos teóricos e metodológicos adotados foram orientados por os debates que se
fazem atualmente na historiografia portuguesa sobre a União Ibérica, bem como na
historiografia política. A pesquisa, à qual analisamos o seu processo de construção, tem como
proposta um entendimento sobre a forma com que os portugueses contemporâneos ao período
filipino interpretaram o regime em que estavam inseridos, principalmente no que se refere à
repercussão da perda do estatuto de corte régia de Lisboa. Esta pesquisa, ainda em
desenvolvimento, conta com o apoio financeiro da FAPEMG.
REFERÊNCIAS:
BOUZA-ALVAREZ, Fernando J. Portugal en la Monarquia Hispanica (1580-1640). Madrid,
Universidade Complutense, 1987.
BURKE, Peter. Los avatares de El cortesano. Barcelona: Gedisa, 1998.
CHARTIER, Roger. A História Cultural – Entre Práticas e Representações. Trad. Maria
Manuela Galhardo. 2ª Ed. Difel. 2002.
CHARTIER, Roger. A Beira da Falésia. A História entre certezas e inquietudes. Trad.:
Patrícia C. Ramos. Ed. Universidade/UFRGS, 2002.
FRANÇA, Eduardo D’Oliveira. Portugal na época da Restauração. São Paulo: Hucitec,
1997.
GODINHO, Vitorino Magalhães. 1580 e a Restauração. Ensaios sobre a História de
Portugal. Lisboa: Livraria Sá Costa Editora, 1968, vol2.
HESPANHA, Antônio Manuel. O Governo dos Áustria e a <<Modernização>> da
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