Entrevista com Joel Zito Araújo, diretor de cinema e

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Entrevista com Joel Zito Araújo, diretor de cinema e
Jornal Mulier – Outubro de 2009, Nº 69
Entrevista com Joel Zito Araújo, diretor de cinema e escritor
Foto: Carla Osório
Para Joel Zito vivemos uma tensão midiática entre aqueles que exploram o
corpo feminino para vender produtos e as mulheres que transformam o
imaginário a seu favor
Joel Zito Araújo é doutor em Ciências da Comunicação pela Escola de
Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA /USP) e pós-doutor
pela Universidade do Texas. Dirigiu os filmes “A Negação do Brasil”, vencedor
do festival “É Tudo Verdade” (2001), “Filhas do Vento”, ganhador de 8 kikitos no
Festival de Gramado de 2005, e “Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado”,
que lhe rendeu os prêmios de melhor filme e melhor diretor do 9º Festival IberoAmericano de Sergipe. Joel também é autor dos livros “A Negação do Brasil – o
negro na telenovela brasileira” e “O Negro na TV Pública”, no prelo, além de
vários artigos sobre a mídia e a questão racial no Brasil.
Mulier - Você pode falar um pouco para nós sobre sua origem e formação?
Joel - Nasci na divisa de Minas e Bahia, no município de Nanuque, filho de um mineiro
com uma baiana. Sou, portanto, baianeiro, com muita alegria de pertencer a estes dois
estados muito interessantes. A minha primeira formação universitária foi Psicologia,
depois fiz mestrado em Sociologia da Educação, mas já migrando para o Cinema. O
meu doutorado foi na Escola de Comunicação e Artes da USP. Meu pós-doutorado foi
na Departamento de Cinema-Rádio e TV da Universidade do Texas, em Austin.
Mulier - No seu livro e documentário “A negação do Brasil”, você discorre sobre
a imagem do negro nas telenovelas brasileiras. Quais as principais conclusões a
que chegou e como analisa esta realidade hoje?
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Joel - Inicialmente, a minha intenção era mapear os estereótipos sobre o negro na
dramaturgia televisiva. No entanto, o mais importante foi ter compreendido que, para
além dos estereótipos, o que está na base do nosso racismo televisivo é a ideologia
do branqueamento. Essa ideologia, que foi base da política de Estado no Brasil no fim
da escravidão, criou um imaginário que coloca o ser humano de características
arianas no topo do ideal de beleza e assegurou a perpetuação do poder colonial dos
brancos, naturalizados por ela como “nascidos para o poder”. E transforma o ser
humano de características negras como representação do subalterno, do feio, do
inferior, do atraso.
Mulier - Como vê em geral a imagem da mulher refletida nos meios de
comunicação?
Joel - O movimento feminista influenciou ou criou bons parceiros na dramaturgia
(como Janete Clair e Manoel Carlos), que escreveram ótimos personagens femininos
derrubando a ideia machista sobre o baixo potencial das mulheres para cargos de
poder e de direção na sociedade. No entanto, apesar de termos hoje mulheres com
muito poder na televisão brasileira, a exemplo do telejornalismo da Rede Globo e na
presidência da TV Brasil, ainda persiste uma imagem de mulher objeto, em segmentos
da dramaturgia e da publicidade. E o corpo e a sexualidade da mulher ainda sofrem
uma espécie de apropriação e controle pela indústria do entretenimento. Mas, na
realidade, creio que vivemos uma tensão midiática entre aqueles que se apropriam do
corpo e dos afetos femininos para vender os seus produtos e as próprias mulheres
que se tornam poder e transformam imaginários a seu favor.
Mulier - Qual sua expectativa para a I Conferência Nacional de Comunicação que
acontece em dezembro?
Joel - Vai ser um acontecimento importante, mas sou pessimista quanto à
possibilidade de conseguir efetivamente algum tipo de controle da sociedade civil
sobre nossa TV, que é uma concessão pública, mas se comporta como uma grande
fazenda privada de algumas famílias. Mesmo assim, é bom que exista um fórum
público para apontar a questão.
Mulier - Você também tem vários filmes cuja temática é a mulher. Por que a sua
atenção especial às mulheres? Como analisa a realidade das mulheres negras
no país hoje?
Joel - Somente a Psicanálise pode explicar porque as mulheres têm um lugar tão
especial em minhas narrativas. Eu tenho as minhas desconfianças, mas não arrisco
expô-las (risos). O que é público e notório é que venho de uma família muito feminina,
com uma mãe e irmãs super-poderosas e sedutoras, sou pai de duas filhas mais
poderosas ainda sobre o homem e o artista Joel Zito Araújo, além de ter casado cinco
vezes (risos). Quanto à mulher negra, ela está na base da pirâmide racial, social e
econômica da sociedade brasileira. Sempre trabalharam muito, sempre foram chefes
de família, sempre foram maioria absoluta no segmento das empregadas domésticas,
ganhando quase nada e com poucos direitos sociais e sindicais, desde o fim da
escravidão, além de sofrerem com os estereótipos que as consideram feias diante das
brancas ou quase brancas e de serem predestinadas a servir, a cuidar. E a minha mãe
foi lavadeira, empregada doméstica e operária em uma fábrica de vidros, portanto
conheço essa realidade de dentro de casa. Inegável é que a extrema desigualdade
econômica entre ricos e pobres do Brasil, a nona economia do mundo, recai mais
profundamente sobre as mulheres negras.
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Mulier - Em seu mais recente filme “Cinderelas, Lobos e um Príncipe
Encantado”, o tráfico de mulheres e a exploração sexual são abordados. Qual o
motivo da escolha do tema e o que apreendeu com a pesquisa para a confecção
do trabalho?
Joel - Foi saber que 75% das jovens mulheres que são objetos do desejo do turista
sexual estrangeiro são afrodescendentes. Esse foi o meu primeiro filme sobre a
mulher negra pobre, que para sair da condição de empregada doméstica ou serviçal
com baixíssimo rendimento, opta pelo turismo sexual. Entendi que a entrada nesse
mundo é uma tentativa de ascensão social, de buscar usufruir do mundo do consumo
e dos equipamentos sociais à disposição da classe média. Mas, para além de tudo
isso, namorar um gringo de olhos claros é uma fonte de construção da autoestima, de
empoderamento sexual e afetivo. Os “gringos” veem na mulher negra, ou quase negra,
um conjunto de atributos sexuais e afetivos que os homens brasileiros buscam nas
“louras”. Elas são consideradas mais quentes, mais propensas ao sexo, mais
carinhosas, mais meigas. Partilhar e servir a este tipo de imaginário acaba
possibilitando uma situação de empoderamento pessoal e social. E, diante deste
universo, abre-se também um mundo de perigos, de tráfico de seres humanos, de
violência. É uma loteria que premia com príncipes encantados e pune com lobos.
Mulier - O Estatuto da Igualdade Racial foi aprovado recentemente. Qual sua
opinião sobre a não aprovação no Estatuto das cotas previstas para negros na
TV? O que pensa sobre o Sistema de Cotas nas universidades?
Joel - Creio que as minhas respostas levam facialmente à dedução que sou a favor de
todas as medidas possíveis de redistribuição de renda, de poder, de acesso a bens
públicos, como o direito à universidade subsidiada com dinheiro público, para a
população negra. Foi uma pena que as elites políticas, articuladas pela elite midiática,
tenham conseguido mutilar tanto o Estatuto da Igualdade Racial. O Brasil para se
tornar a grande nação que se anuncia precisa urgentemente de mais e mais políticas
de ação afirmativa. Somente assim sairemos do ciclo de corrupção, de elitismo e de
persistência da mentalidade colonial de casa grande e senzala.
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