Laura Tyson NYT

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Laura Tyson NYT
THE NEW YORK TIMES – 28 DE AGOSTO DE 2010
Porque precisamos de um segundo estímulo
Por Laura Tyson, Berkeley, na Califórnia
Tradução: Mansueto Almeida (IPEA)
O nosso debate sobre a política fiscal tornou-se distorcido, com muito foco sobre o
déficit e pouco sobre o desemprego. Há muita preocupação com o tamanho do Estado
e pouco reconhecimento do papel que os gastos fiscais tiveram como estímulo para
estabilização da economia e quanto os gastos do governo poderiam estimular a
criação de empregos e o crescimento econômico. Ao se concentrar nas coisas erradas,
corremos um grave perigo de não fazer as coisas certas para ajudar a economia a se
recuperar da sua pior crise do mercado de trabalho desde a Grande Depressão.
A principal causa da crise do mercado de trabalho é um colapso na demanda privada o mesmo problema que atormentou a economia em 1930. Na esteira das crises
financeiras no final de 2008, os gastos das famílias americanas e das empresas
despencaram e as empresas responderam reduzindo a produção e despedindo
trabalhadores. Ao final de 2009, em resposta ao estímulo fiscal e monetário sem
precedentes, os gastos das famílias e empresas começaram a se recuperar. Mas no
segundo trimestre deste ano, o crescimento econômico caiu para 1,6 por cento, de
acordo com uma estimativa de governo da última sexta-feira. Claramente, o ritmo de
recuperação é muito mais lento do que o necessário para restaurar os milhões de
empregos que foram perdidos.
Famílias e empresas estão aumentando a poupança para equilibrar seus balanços. Os
gastos em relação à renda cairam mais do que em qualquer período desde o final da
Segunda Guerra Mundial. Assim, há agora uma diferença substancial entre a oferta de
bens e serviços que a economia é capaz de produzir e a demanda por eles. Este gap
ser reflete nos 23 milhões de americanos que estão procurando emprego e outros
milhões que saíram da força de trabalho porque não encontraram emprego.
A situação seria ainda pior sem o pacote de estímulo fiscal de US$ 787 bilhões
aprovado em 2009. A sabedoria convencional sobre o pacote de estímulo está errada:
ele não foi um fracasso. Ele está funcionando como deveria. O aumento das despesas
e os cortes de impostos aumentaram a demanda agregada e geraram cerca de três
milhões a mais de postos de trabalho que não ocorreriam sem o pacote de estimulo
fiscal. Sem esse pacote, a taxa de desemprego hoje seria de cerca de 11,5 por cento.
Como ainda resta 36% do estimulo fiscal programado para ser gasto, serão criados
mais 500 mil novos empregos até o final do ano.
Mas no próximo ano, o estímulo vai acabar e a mudança da política fiscal
expansionista para uma contracionista pode cortar a taxa de crescimento de 1 a 2
pontos percentuais em um momento no qual a taxa de desemprego ainda está muito
acima dos 9%. Nestas circunstâncias, o argumento econômico a favor do crescimento
da despesa pública e redução de impostos é convincente. Infelizmente, as pesquisas
indicam que o argumento político não é.
Os benefícios do seguro-desemprego e a ajuda federal aos governos estaduais são os
dois tipos de gastos com efeito maior e mais rápido sobre demanda . O governo
federal deve se comprometer com aumentos generosos para esses dois programas até
2011. A ajuda federal para os estados é especialmente importante porque serve para
que eles financiem os gastos com educação. Embora a crise do mercado de trabalho
seja principalmente uma crise de demanda, a crise reflete também um descompasso
entre a escolaridade da força de trabalho e a educação exigida hoje pelo mercado de
trabalho. Considere, por exemplo, a variação da taxa de desemprego de acordo com o
nível de escolaridade: é superior a 14 por cento para aqueles sem ensino médio
completo, menos de 10 por cento para aqueles com ensino médio completo, apenas
cerca de 5 por cento para aqueles com nível universitário e ainda menos para aqueles
com pós-graduação. A oferta de trabalhadores com nível superior completo não está
acompanhando o crescimento da demanda. Portanto, mais investimento em educação
poderia reduzir tanto a taxa de desemprego conjuntural, já que mais americanos
ficariam nas salas de aula, e a taxa de desemprego estrutural, quando mais
trabalhadores (com maior escolaridade) entrassem no mercado de trabalho.
Um aumento do investimento público em estradas, aeroportos e outros tipos de infraestrutura pública seria também rentável, quando medido pelo número de empregos
criados por cada dólar a ser gasto. Isso ajudaria a reduzir o congestionamento
rodoviário, os atrasos nos aeroportos e pontos de estrangulamento de mercadorias que
reduzem a produtividade e tornam os Estados Unidos da América um lugar menos
atraente para fazer negócios. A Sociedade Americana de Engenheiros Civis
identificou mais de US$ 2,2 trilhões de investimentos necessários em infra-estrutura
pública e, um estudo de 2008 do Departamento de Orçamento do Congresso, concluiu
que de acordo com uma análise custo-benefício faria sentido aumentar os gastos em
projetos de transporte em cerca de 74 por cento.
Durante os próximos cinco anos, o governo federal deve trabalhar com governos
estaduais e municipais e setor privado para financiar US $ 1 trilhão de investimentos
adicionais em infra-estrutura. Deve também ampliar o programa de estímulo “Build
America Bonds”, que no ano passado ajudou os estados a financiarem $ 120 bilhões
em melhoria de infra-estrutura.
O governo federal deve também criar e capitalizar um Banco Nacional de infraestrutura que possa dar maior segurança ao financiamento da infra-estrutura durante
vários anos, selecionando projetos com base em rigorosas análises de custo-benefício,
investindo em projetos como o transporte ferroviário de alta velocidade interestadual
que exigem uma coordenação entre estados e atrair investimentos privados como
parceiro em projetos de estradas e aeroportos, que gerem fluxo de receita futura.
Mas será que o governo pode pagar esta despesa adicional? A resposta é sim. Apesar
do grande déficit público federal, poupadores de todas as partes do mundo, incluindo
as famílias americanas, estão comprando títulos do governo americano a taxas de juro
muito baixas. E continuarão a fazê-lo enquanto houver folga suficiente na economia e
a inflação continuar controlada. Ao longo dos próximos anos, há pouco risco de que
os déficits federais diminuirão o investimento privado*, precipitarão uma crise de
confiança no governo americano, um aumento das taxas de juro norte-americana ou
uma queda repentina do dólar.
Por outro lado, enquanto a demanda privada continuar fraca é elevado o risco de que
uma tentativa de reduzir o déficit - pelo corte de gastos ou aumento de impostos- leve
a economia para uma recessão e anos de baixo crescimento com desemprego elevado.
Na verdade, qualquer resultado de uma tentativa de reduzir o déficit hoje seria
diminuir ainda mais a receita de impostos e aumentar ainda mais o déficit.
Dado esse risco, enquanto a economia estiver operando muito abaixo do produto
potencial, os formuladores da política econômica devem fazer duas coisas
aparentemente contraditórias. Primeiro, devem aumentar o gasto fiscal para ajudar a
criação de emprego e a retomada do crescimento. Segundo, deveriam aprovar um
plano plausível para estabilizar a relação dívida/PIB ao longo dos anos,
gradualmente, à medida que a economia recupere.
Ao reduzir as preocupações do mercado quanto a necessidade futura de financiamento
do governo, um plano desse tipo permitiria maior déficit e redução mais lenta da
dívida, enquanto o desemprego ainda estiver elevado. O problema da dívida de longo
prazo - resultado de decisões fiscais imprudentes anteriores à recessão, aumento dos
custos do sistema de saúde e envelhecimento da população - deve ser solucionado
quando a economia iniciar seu processo de recuperação. Mas, por enquanto, as
prioridades da política fiscal devem ser a geração de novos postos de trabalho e
investimento.
Laura Tyson, professora da Haas School of Business da Universidade da Califórnia, em
Berkeley, foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos e do Conselho Econômico
Nacional durante o governo Clinton. Ela é membro da comissão que assessora o presidente
Obama no combate a crise econômica.
*
NT: o efeito que Laura Tyson se refere no original em inglês é o conhecido “efeito
crowding-out”, quando o aumento dos gastos do governo pressionam o aumento da
taxa de juros e, assim, reduz o investimento privado. Como a taxa de juros nos EUA
está muito baixa, vários economistas defendem que não há o risco desse efeito
acontecer na economia americana mesmo com uma política fiscal expansionista.