Artes, Letras e Lingüística / Linguística / Teoria e Análise

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Artes, Letras e Lingüística / Linguística / Teoria e Análise
Artes, Letras e Lingüística / Linguística / Teoria e Análise Lingüística
PROJETO PRODIP: A PROSÓDIA DO DISCURSO EM PORTUGUÊS
Miguel Oliveira, Jr.
Pesquisador de Pós-Doutoramento, ILTEC, Lisboa, Portugal - Orientador - E-mail: [email protected]
Eva Arim
Bolsista de Iniciação Científica, ILTEC, Lisboa, Portugal
Francisco Costa
Bolsista de Iniciação Científica, ILTEC, Lisboa, Portugal
Tiago Freitas
Bolsista de Iniciação Científica, ILTEC, Lisboa, Portugal
INTRODUÇÃO
A relação sintática, semântica e pragmática que uma palavra estabelece com outra em uma frase determina se
elas formam um constituinte coesivo maior ou não. Da mesma maneira, as frases podem estabelecer diferentes tipos de
relações entre si em constituintes linguísticos ainda maiores que, quando agrupados, formam o que geralmente é
conhecido por “discurso”. Nessa perspectiva, discurso é considerado um estrutura composta por entidades
hierarquicamente dispostas que preservam uma mesma orientação. Na escrita, essas entidades são comumente
conhecidas por “parágrafos” e vêm em geral sinalizadas por meios tipográficos. Na fala, as estratégias para tornar a
organização do discurso transparente são evidentemente diferentes. Entre os vários possíveis dispositivos usados para
esse fim, a prosódia – que é frequentemente definida em termos de seus componentes auditivos “duração”, “tom” e
“altura” – tem papel fundamental. As variações em quaisquer desses componentes são muitas vezes usadas para
sinalizar a estrutura do discurso falado.
O presente trabalho tem por finalidade descrever os primeiros resultados dos estudos realizados pelo Projeto
PRODIP, cujo principal objetivo é, a longo prazo, investigar que elementos prosódicos os falantes usam para marcar a
estrutura da informação do discurso em português e quais desses elementos são identificados como relevantes nesse
processo. O PRODIP é uma iniciativa pioneira ao (ainda incipiente) estudo da prosódia do discurso em português.
METODOLOGIA
Na primeira fase do estudo, dois modelos de segmentação discursiva que se baseiam nas intenções do falante
(Grosz & Sidner, 1986 e Passoneau & Litman, 1997) foram testados. O objetivo aqui foi o de encontrar um modelo
independente da prosódia para ser usado nas análises futuras. Para esse fim, dois excertos de uma entrevista veiculada
em rádio, cada um com aproximadamente 1.5 min. de duração, foram utilizados como material empírico. O critério
utilizado na seleção do corpus foi o grau de espontaneidade, a qualidade da gravação e a unidade discursiva do excerto.
Participaram dessa experiência dezesseis pessoas, as quais foram entregues uma transcrição do excerto. O que
lhes foi solicitado foi que segmentassem o texto de acordo com os modelos acima referidos (uma breve explanação
sobre os modelos, seguido de exemplo foi anexada à transcrição). Metade dos participantes desse experimento tiveram
acesso aos arquivos de áudio, uma vez que o propósito é saber qual o papel da prosódia na estruturação discursiva.
No que respeitam os elementos prosódicos, somente a pausa foi considerada até o momento, numa análise
piloto que objetivou validar os resultados obtidos para o estudo supramencionado. A análise acústica das pausas
(definidas como qualquer interrupção silenciosa da fala com a duração mínima de 100 ms.) foi feita diretamente na
imagem acústica do som.
RESULTADOS
Os resultados revelaram que, em geral, os anotadores concordam entre si na tarefa de indicar a segmentação do
discurso por meio de critérios de ordem eminentemente pragmática em um nível estatisticamente significativo. No que
concerne aos dois modelos utilizados, o de Passonneau & Litman obteve melhores resultados que o de Grosz & Sidner
(kappa=0,73 vs kappa=0,65). Isso provavelmente deve-se ao fato de ser o último um modelo mais complexo que o
primeiro, por envolver a hierarquização das informações. É também importante observar que os anotadores que tiveram
acesso aos arquivos de som obtiveram melhores resultados em concordância do que aqueles que só trabalharam a partir
das transcrições (kappa=0,73 vs kappa=0,69, respectivamente, para o modelo de Passonneau & Litman). Esses últimos
resultados corroboram a hipótese de que a prosódia tem um papel significativo da organização discursiva.
Em relação ao uso da pausa como marca de segmentação discursiva, obtivemos um valor muito abaixo do
esperado (ou daquele que a literatura em geral reporta). Apenas 14% do total da fala é composto por pausas silenciosas.
Esse resultado pode estar relacionado ao contexto, género e tipo do discurso utilizado para análise (diálogo espontâneo,
relativamente formal e público). Ademais, os resultados não indicaram uma relação muito sistemática entre o uso da
pausa e a organização discursiva, o que sugere a possibilidade de serem outros os elementos prosódicos mais
importantes nessa tarefa.
CONCLUSÕES
Os testes pilotos que foram produzidos até o momento pelo Projeto PRODIP apontam um caminho para as
análises futuras. Por um lado, estabeleceu-se que o modelo de segmentação discursiva a ser empregado será baseado
naquele proposto por Passounneau & Litman, uma vez que este obteve um índice de concordância entre anotadores
mais significativo que o proposto por Grosz & Sidner. Por outro lado, observou-se também a necessidade de adaptar o
modelo acima referido de modo a obter resultados mais consistentes (i.e., um valor de kappa superior ao que foi
encontrado).
No que respeita às pausas, o fato de não termos encontrado uma relação significativa entre o emprego destas e
a estruturação do discurso deve ser considerado com cautela. Por um lado, isso pode estar relacionado ao tipo de
discurso utilizado como material de análise, como observamos na seção anterior. Por outro, o material utilizado nesse
estudo piloto, por ser limitado em tamanho, pode não refletir a característica geral do corpus que utilizaremos nas
demais análises. Futuramente, as pausas serão escrutinadas não apenas em suas realizações acústicas, mas também no
nível perceptual. Os resultados podem então revelar algo bastante diverso.
Agência Financiadora: Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), Portugal.
Palavra-chave 1: Prosódia
Palavra-chave 2: Discurso
Palavra-chave 3: Mídia