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HORIZONTES
FLUTUANTES
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CAPÍTULO I
O inverno de 1871 parecia ser tão rigoroso e gélido como outros tantos já passados em um
lugar onde o tempo se movia calmo pelas noites lentas, e quão lentas eram, quão lentas.
Pelo ar vinham as noites que resvalavam na sombra do tempo lento. Neste lugar não havia
norte, não havia sonhos não havia luas. Na verdade lembrava um tempo esquecido, um
mundo, por assim dizer, inerte, em que se podia esperar o nada, ainda que o nada
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despertasse alguma esperança para que o futuro não repetisse o que outrora veio a ser.
Algumas outras coisas havia sim. Sempre há e existem coisas nos lugares, mesmo em
lugares vazios há o nada, até o nada se conta, se soma a algo! Em fazendas, pastos, nos
recifes corais até. Nas ladeiras dependendo do ângulo em que se olha vê-se desvios, desvios
em toda parte. Tinha céu. E onde tem céu tem horizonte, ainda que alguns destes por sorte
ou por outro fator qualquer apareçam menos ou mais despidos, fatos assim. O mato que
crescia forte e alto num lugar logo se apresentava em tufos minguados entre cá e entre lá.
Alguns animais também tinha, mas estes eram difíceis de se ver pois parecia quase
inabitável para uns tantos, outros se encorajavam de tal maneira que viviam ali mesmo por
qualquer canto e meio. Casas, poucas. Poucas casas pouca gente. Nem carecia de um censo;
o senso das pessoas sabia uma de quantas eram as outras, se quisessem assim mesmo fazer
um, seria fracasso na certa. Necessitava o lugar de uma introdução urgente de gente.
Recifes tem corais, é normal, fazendas tem pastos e isso é quase normal também, onde
terra, mato, óbvio. Em ladeiras, subidas e descidas, idem. Nos céus, horizontes, uns até
mesmo flutuam; a vida flutua no tempo. Mas e gente? Corais, fazendas, mato, céu e
horizonte, fatores, recifes, ladeiras, ângulo, o que cresce, sorte, dependência, partes,
olhares, ter, fatores, visão diferente, tempo, coisa sólida que flutua, tufos, tudo isso se
arranja fácil, talvez. Mas e gente? Sem gente abreviam-se as histórias, que do mundo sem
gente? E as intrigas, o que seria da intriga sem gente? Mato não se intriga com coral, nem
pasto com céu; estes se dão tão bem que é até possível que um floresça para o outro e o
outro em troca irradia-se, um tipo de linguagem, quem sabe.
Um rio continha-se também. O Valdez com a sua trajetória sinuosa, em contraponto
com a sisudez da cadeia de montanhas que o cercava, emanava vida e perfume de flores;
estas tais ciliava a sua margem com harmonia e perfeição, fazendo assim uma bucólica
vista que era lentamente consumida pelo olhar. Campos de diferentes alcunhas e também
diversas variações pelo matiz das cores colaborados pelo ardor ínfero e latente das réstias,
moldava um vicejante tapete de relva. Eram necessários apenas poucos dias para que
formosa alfombra verdejante, ao derredor de garbosas árvores, cobrisse imaculadamente
todo arrogante e intrépido páramo. Ribeirões tinham como ribalta, à noite, a lua que não
existia, mas que estava sempre presente para, de quando em vez, acompanhar o idílio de
alguns poucos, que faziam do lume lunar objeto para cortejar a inspiração.
Coisas magníficas, é incrível, mas existiam e desse modo, assim: Etéreas visões
paisagísticas ganhavam imagens que deixava evidência clara de que a natureza sorriu com
favor atípico nesta montanhosa região contrastante; cúmulos-nimbus, que golpeadas pelo
vento, desenhavam ao léu figuras fulgurantes, enigmaticamente arroladas na imensidão,
quais minúsculas gotículas de água e cristais de gelo na atmosfera enevoada. Fazia-se ainda
esculturas sopradas pelo vento. Coisa igual se repetia em solo, as pedras ganhavam sopro
de vida quando se esculpia nelas formas que pareciam querer respirar.
Havia pontes assim. Carmim e Boa Esperança. Uma atração à parte: adentrava pelas
suas já envelhecidas estruturas relva que servia de abrigo para boanas de monarcas reais
que migravam desde a América para a fim de ali perpetuar a espécie.
Os bosques do parque Avelar tinham um aspecto peculiar; os arvoredos que
cobriam a vegetação rasteira emprestava ao local, além de uma cativante singularidade
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campestre, um tom de sombras que mais pareciam estar atentas ao calor do que fazer a
função para a qual se destina as mesmas, pois ao invés de amainar, ela absorvia e distribuía
em igual proporção abrigo acalorado, como se retesse e depois contornasse a temperatura
fazendo com que quem nelas buscasse abrigo recebesse calorosa e aconchegante recepção,
ainda que sombra e luz não se unam, numa contra-regra, havia equilíbrio de ser e estar, um
equilíbrio remoto, distante.
Trilhas majestosamente arquitetadas revelavam a eficácia de uns diminutos
animaizinhos nativos que demarcavam no solo continuamente úmido uma complicada,
porém eficiente, malha de circulação das quais se serviam para buscar alimentos e se
entocar. Traziam assim de tudo, e ali se escondiam de tudo. Trazia e levava, livravam-se e
trazia.
Em dias brilhantes onde o som dos dormentes raios solares eram traduzidos em
forma de galhos secos a se desprender das articulações e troncos, estes mesmos raios,
quando não produziam secos sons, invadiam incólumes por entre as folhas e refletiam nas
águas cristalinas de nascentes que ali se formavam.
Haviam também lírios montanheses, tão exuberantes quanto raros, e exalavam um
perfume de sonho, que as abelhas ao cumprirem o papel natural da polinização, ficavam em
êxtase ante ao odorífero avassalador.
Este lugar de horizontes desconcertantes e planícies vultosas, se estende na Europa
central delimitada a leste pelos montes Cárpatos. Todo o País é cortado de norte a sul pelo
Rio Danúbio, que divide sua capital em Buda, parte alta, e Peste, parte baixa. Budapeste
abriga palácios, museus e construções monumentais que testemunham sua importância no
passado como a Segunda Capital do vasto império austro-húngaro.
Budapeste, conhecida como a Rainha do Danúbio, consiste principalmente em Buda, na
margem oeste do Danúbio, e Peste, na margem leste.
Com a ascensão e queda de diversos impérios, o Danúbio acompanhou, e sobreviveu, a
contínuas mudanças políticas. Entre os séculos XI e XII era fronteira do império Bizantino.
Mais tarde ficou quase totalmente dentro do império otomano, depois que cidades às suas
margens, como Belgrado, foram tomadas pelos turcos.
Danuvius, seu genuíno nome em latim, língua primitivamente falada no Lácio, antiga
região da Itália, depois adotada como oficial da Igreja Católica, é também, em importância
histórica, o principal rio da Europa. Era uma das grandes linhas divisórias da península
européia. Estabelecido na antigüidade como fronteira do Império Romano no primeiro
século, separava os povos civilizados dos bárbaros. Quando Johann Strauss II compôs a
valsa “Danúbio Azul” em 1867, marcou definitivamente na história o rio, que serpenteia
em dois mil oitocentos e cinqüenta quilômetros para sudeste até se desfazer no Mar Negro.
Várias cidades do Danúbio tiveram papéis importantes na história do Império Romano e,
mais tarde, do que era conhecido como Sacro Império Romano. A cidade de Bratislava,
centro cultural e posteriormente capital da Eslováquia, foi capital da Hungria de 1526 a
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1784. Fora ali também a residência oficial da família real austríaca, quando da ocasião em
que a cidade de Viena foi ameaçada e invadida por tropas francesas e bávaras em 1741.
A Hungria, Magyarország em húngaro, é formada por descendentes da tribo dos Magiares,
cavaleiros oriundos do rio Volga que no século IX fundaram um reino após expulsarem
germânicos e eslavos povo que de tanto sofrer no decorrer da história acabou por ter seu
nome marcado para sempre, tendo a palavra “escravo” derivada de seu nome. Os húngaros
converteram-se ao Cristianismo no século X, sob o reinado de Estevam I. O país perdeu a
maior parte de seu território para os turcos-otomanos em 1526. Os turcos foram expulsos
no século XVII, tempo em que a Hungria fora anexada ao império austríaco dos
Habsburgos, uma dinastia tradicional na Europa Ocidental.
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Nas proximidades do Rio Valdez a leste do parque avelar viviam alguns integrantes do
censo que não se podia realizar. Em meio a construções inacabadas expostas a lama, e ao
ocaso contínuo pela limitada contingência de recursos, remendos nos tijolos, notada falta de
cal paredes a dentro, ruas e vielas arranjadas sem planejamento visível e plena debilidade
nas simplórias moradias contíguas a depressões abertas a olhos vistos, lembravam
casamatas disfarçadas por tijolos que se apoiavam uns nos outros se sustentando entre si e
dando base à abóbadas encurvadas e manufaturadas com indecorosa habilidade que
contribuía com larga participação na modorrenta parcela dada por mãos humanas para
contrastar com a beleza natural de outras cepas, parecia que com notável honestidade a
incipiente e tenebrosa arquitetura pedia, incessantemente perdão aos ícones das paisagens
afora das mãos.
Sam Gérmann. Sustentava ele a família de poucos recursos com o duro ofício de
lenhador, na casa humilde construída com esmero e carinho paternal, viviam Sam Gérmann
e sua dedicada esposa. Madeleine era dessas pessoas tranqüilas, incapaz de perder a
paciência com problemas que fazem parte do cotidiano, de um afetuoso olhar dardejante e
longos cabelos retintos, não demonstrava intemperança a sua face e não se fazia ela rija
nem mesmo quando confrontada com agrúrias rotineiras, não bastasse o visível favor
divino em sua formação física, era dona de uma voz melodiosa, quase lírica, que se lê-se,
na íntegra, todo o Manifesto Comunista, ainda assim, não irritaria a assistência, sustentava
no pescoço um trançado colar com um pesado e brilhante pingente cor de ervilha-ao-azeite,
que com o assentimento da gravidade, moldava em seu peito um v vestal, que quem via de
viés virava veloz à vislumbrar.
Sam Gérmann, era um homem pacato e de hábitos simples, tinha uma lista extensa
de amigos e mesmo conhecendo um vasto número de temperamentos não se achava na
província alguém que não simpatizasse com ele porque sábio em atos e palavras, como
quem avança rumo a água rendido por um inimigo invisível, a sede, não vacilante. Com
olhos que pareciam querer constantemente fugir às órbitas e as mãos sulcadas pelas
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deformidades do cabo da ferramenta com que levava ao chão as árvores, e a pele de poros
que se enxergava a cavidade ao longe, pois castigada penosamente pela flotilha de felpos
que se desprendiam das produtoras de oxigênio que usava sua flotilha numa improvável
mas justificada revolta vingativa contra quem as levava à horizontal.
Seu chamuscado e inseparável redingote cor de pó, repleto de felpos, fazia com que
Gérmann mais parecesse um porco-espinho que anda em duas patas, usava-o até mesmo
quando passeava pelas aléias que ladeavam sua casa, considerava sua segunda pele e por
isso não via motivos para abandoná-lo nas horas de lazer seu par de botas enegrecida e até
um tanto descolorada tinha os bicos que apontavam para cima, parecia querer decolar
levando junto seus pés.
Por força da amizade com o copo, sorvia generosas doses de um destilado por ele
preparado, devidamente enterrados em barris de carvalho novo, a cortiça retirada dos
famosos Sobreiros, (Querkus Suber), do sul da Espanha confeccionava as rolhas, os barris
que o próprio Gérmann manufaturava, imitando a arte da tanoaria, eram moldados e presos
a fitas de cobre a cada lasca de carvalho.
Avesso a uma vida solitária, fazia amigos com a mesma facilidade com que
respirava. Metódico ao extremo, cultivava com anelo cada nova amizade conquistada pois
habitava em seu coração uma irrefreável aptidão para desenvolver simpatia em quem quer
que dele se aproximasse, angariava com notável leveza o bom sentimento dos que o tinham
em alta conta e, mesmo os que ainda não desfrutavam da bonomia e carisma que ele
derramava por vãos e trilhas, guardava num recipiente especial uma reserva de contagiante
otimismo como quem precisa nas aventuranças de um cantil chacoalhante, para dar sem
penhor. Este homem detinha qualidades distantes das comuns; depositava e lançava fé no
impossível, e os homens que costumam assentar suas esperanças no que é irrealizável
dançam uma dança num ritmo diferente da dança da vida que custa tanto a se acabar. Ele
era, por certo, feito da matéria que constitui os heróis, não que se entenda nele agora um
herói precoce. O ideal heróico é aristocrático; todo mundo entende e sabe que apenas
alguns são dotados dessa matéria rara, de modo que nos damos por saciados em apenas e
tão-somente admirá-los de longe, como os britânicos se comprazem no esplendor da família
real. A parte que cabe a vítima, ou o contrário do herói, infelizmente talvez, é acessível a
todos, de modo que não temos dificuldade em nos projetar nele, a matéria da qual são feitas
as vitimas não há dúvidas, é abundante. Há homens e nações que se orgulham de tudo!
Uns, tanto nações como homens, se orgulham de coisas tão poucas e esdrúxulas que fica
difícil imaginar como os dois articulam tamanhas cláusulas de vaidade total e indefinível,
uns homens dão saldo a cor da sua pele em detrimento da do outro, umas nações se jactam
de ser dona primaz de seu próprio idioma! E ainda troçam da outra que nem sequer tem um
idioma e, talvez para não emudecer, pois apenas isso explica o fato de elas se automutilarem ao falar a língua que não as pertencem, adotam a língua muitas vezes do
inimigo, os franceses dizem: temos a nossa língua desde o berço! Os ingleses por sua vez,
fazem coro com os da França, nesses ânimos beligerantes, é bom que os que vivem na
América não se aventurem nesta arenga, pois apenas dominam os nativos que pouco a
pouco vão se despedindo dos ouvidos dos seus.
-
Amigos são para sempre! - costumava dizer.
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- Mas às vezes, se faz necessário balançar a árvore da amizade para que os frutos
podres caiam...
relevava, numa notória e claudicante evidência de que provou dissabores no
passado.
Sam Gérmann era um homem muito sincero e leal, certa vez quando importunado por um
dos que dividiam a laboriosa tarefa de lenhar para que cometesse uma injúria, a fim de
demitir um outro companheiro que não estava rendendo muito no árduo dia a dia de
lenhador, ele foi enfático:
-
Procure saber o motivo pelo qual ele produz pouco e tente ajudá-lo, como aliás
eu já fiz, e por favor, tenha bondade, não crie contendas no nosso ambiente de
trabalho.
O colega de trabalho em questão sofria de um mal incompatível com a profissão:
artritismo.
Não comentava com ninguém por receio de uma iminente demissão.
Sam Gérmann tentava mostrar para as pessoas que o cercavam, que era necessário levar
uma vida simples sem grandes ambições, primando pela observância sólida, sem fixar
pensamento e corpo no que parece ser edificante mas quando se tem, reporta ao que não é.
-
Buscar a riqueza, como já disse o mais sábio dos homens, é um esforço inútil
para alcançar o vento... a vaidade é tudo do que o homem precisa para atrair-lhe
a ruína, o dinheiro, mel que adoça a boca e o ego da humanidade, se disfarça em
várias frentes; ilude por dar-nos o poder de consumir e depois cobra-nos por
sermos escravos perpétuos de sua ilusão. - divagava, subtraindo a atenção, que
estava a serviço das reflexões.
-
Tente viver uma vida descomplicada que você será feliz. O exemplo de homens
que lutaram para conseguir sucesso e poder, e acabaram solitários e
alquebrados, nos revela que o preço não vale a luta.
Corria pelas vias do por vir o ano de 1872 e a expansão das estradas de ferro trazendo
progresso e problemas para o vilarejo aumentou em muito o trabalho de Sam Gérmann.
Abrindo caminhos por entre os álamos, alguns imponentes e antigos de luas, para que os
trilhos da prosperidade ali se estabelecesse, Sam Gérmann entendia que com a Revolução
Industrial, ou o “triunfo de Baal” nas palavras de Dostoievski, iniciada em 1760 na
Inglaterra, que em pouco tempo se alastrou pelo resto do mundo, provocando profundas
mudanças na sociedade e caminhando a passos largos no final do século XIX, tal revolução
mudaria os costumes as pessoas e principalmente o futuro, que se era mudado antes
mesmo de chegar. A guinada sem precedentes na história da humanidade iria canibalizar
um pedaço de noite, pois nela se trabalharia, entre mais.
-
O progresso é perigoso. Existem pessoas que estão muito mais preocupadas em
ganhar do que em viver. E essa desmedida pode levar o homem ao colapso
moral. - profetizava apreensivo.
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Com a chegada da primeira estação ferroviária, trazendo com ela imigrantes
romenos, que fugiam da devastação de uma guerra, o vilarejo estava em polvorosa, “BemVindos ao Novo Lar”, dizia uma hospitaleira e providencial faixa colocada em frente da
recém construída estação ainda cheirando a tinta.
Após uma calorosa e revigorante recepção os noctívagos acomodavam-se como podiam
provisoriamente nas pequenas, porém simpáticas, pousadas antes freqüentadas apenas por
viajantes que vendiam toda sorte de badulaques que a cidade grande produzia.
Em meio ao tumulto de pessoas que desciam dos vagões trazendo muita esperança e
a incerteza de que ali poderiam esquecer o passado de difíceis atribulações, um casal
acabou por chamar a atenção de Sam Gérmann que erguia seu chapéu de abas desniveladas
para cumprimentar as pessoas que se achegavam, por passar por ele e esposa. O casal que
despertou e motivou Gérmann a altear com mais louvor o chapéu a ponto de levá-lo ao
peito e inclinar-se num ato de saudação singular e amorosa, na verdade não pareciam
felizes com a nova perspectiva que os aguardavam. Sam Gérmann tratou logo de ajudá-los
por segurar suas pesadas e amarfanhadas malas e fazer-lhes uma pergunta da qual a
resposta por antecipação lhe rondava a saber:
-
Onde pretendem ficar, senhor e senhora? -
inquiriu-hes com terna brandura.
-
Não temos lugar certo para ficar à noite, mas vou procurar. Não se preocupe
conosco. – disse cabisbaixo o homem visivelmente constrangido, como quem
fala com o solo e este, mudo, faz das cavidades ouvidos moucos.
-
As nuvens prometem descarregar-se com o cair da noite... – fala
simultaneamente tirando o chapéu que não permitia ver o céu num ângulo que
positivasse sua premonição.
-
Águas são apenas um detalhe... não farão diferença. – diz com os braços
estendidos pedindo de volta as malas que, rasgadas, não toleraria por muito
mudanças de mãos.
- Você é um homem de muita sorte meu rapaz! – providenciou, tornando constante
o sorriso cortês.
-
Sorte? O senhor decerto não sabe do meu passado. – contradiz destacando as
sílabas com impaciência.
- É, de fato eu não sei do seu passado mas posso saber do seu futuro...
E o porquê da sorte? – perguntou enquanto desviava os olhos que estavam na
linha do sol.
-
Ora, você disse que iria procurar um lugar para pousar a noite e não vai mais
precisar procurar...
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-
Como não?! – interroga exclamando.
-
Iremos abrigá-los na nossa casa!
Olhe amigo, eu agradeço a sua gentileza mas não posso aceitar. – conclama
enquanto retoma de volta as malas reavivando a possibilidade de ter peças caídas ao chão.
-
Me dê um bom motivo então?
- O motivo é simples, senhor: não temos como lhe pagar hospedagem pois não há
conosco nem sequer um xelim!
-
Mas quem aqui falou em dinheiro?
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medida que o tempo passava a paisagem do vilarejo mudava abruptamente, perdia aos
poucos aquele aspecto provinciano e ganhava nuances típicos de uma mistura de culturas
Àe costumes que atingia até a simples arquitetura local sem inspirações renascentistas que
tanto caracterizou a Europa nos séculos anteriores.
O clima agora reinante é de euforia e o antes pacato vilarejo incorporava ares de
crescimento populacional e hábitos noturnos que antagonizavam com a rotina conservadora
que era até então predominante, as ruas efervescentes dias a fora se tornava como sepulcral
noite adentro pois não conservava os andantes diurnos, mas como numa ressurreição
barulhenta e desordenada, crescia ruidosa.
Os armazéns, empórios, tavernas e portas de diversão sinalizava que novos tempos estariam
por vir, gerando assim uma preocupação exagerada para com o futuro.
Mas nem tudo era motivo para preocupação, afinal o “progresso perigoso” também trazia
benefícios que logo seria sentido pelos citadinos ávidos por saborear e também,
involuntariamente, amargar as conquistas que estão pela frente.
Albert Fazekas trazia na bagagem não só a frustração por ter sido obrigado a deixar sua
terra natal. O sofrimento e a humilhação de ver seus pais e amigos serem torturados e
mortos numa guerra sem sentido deixou profundas marcas que nem o tempo foi capaz de
apagar pois as cicatrizes que não sangram são perpétuas. Por ser de renomada família e ter
muita influência na cidade onde morava Albert Fazekas foi um dos primeiros a conseguir
embarcar nos trens de refugiados provenientes da explosiva Romênia que respirava dor e
expirava torpor.
Infelizmente ele não pôde trazer as pessoas que gostaria que o acompanhassem na fuga
para vida, o tumulto no embarque fez com ele se perdesse de George Fazekas, o
problemático e arguto irmão que maculava o bom nome dos Fazekas, e por ser um espécie
de pária, não gozava de boa reputação. Na desordem do embarque este acabou por se
perder e assim tomou rumo desconhecido, pouco lamentado por Albert.
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Albert Fazekas sofreu muito durante a guerra, viu seus pais serem executados de forma
covarde e só escapou ileso porque foi tardiamente reconhecido pelos verdugos que lhe
fatiaram as esperanças.
Ainda estava em lua de mel quando eclodiu a guerra civil que devastou o país, e estava com
a sua Firma navegando em mares tranqüilos quando viu o maremoto romper as velas de seu
destino à guisa de quase naufragar pelo oceano da morte. A custo de muito suor e trabalho
conquistou respeito admiração e afeição de todos e, ao ver realizadas algumas de suas
petições, teve de renunciar a tudo pela vida.
Albert e Ammy Fazekas encontraram um lugar muito diferente daquele que deixaram na
Romênia. Acostumados com uma condição de vida abastada, se viam obrigados a conviver
com uma difícil realidade.
Sam Gérmann e Madeleine Gérmann foram muitíssimos hospitaleiros para com os Fazekas.
Já era noitinha, e para brindar a chegada do novo amigo à sua urbe convida-o para fazer um
algo que o deixou em suspeição:
- Venha meu rapaz, pegue essa outra pá e me acompanhe. – riu-se, erguendo aos
ombros a ferramenta de fio viciado pelo uso.
- Uma pá? Eu sabia que não iria ser de graça essa gentileza! - falou de si para si.
Chegando embaixo de um imponente Baobá, Sam Gérmann, depois de tirar do bolso um
velho rolo, semelhante a um códice, que continha algumas anotações, começa a olhar para
o céu, deixando Albert cada vez mais intrigado.
-
Está aqui! – diz depois de consultar um mapa.
-
Está aqui o quê? – pergunta Albert repousando ao chão a pá que pesava no seu
ombro.
-
Pare de perguntar e comece a cavar!
-
Já sei, já sei é um mapa do tesouro – brincou Albert já demonstrando melhora
no humor.
-
Pare de resmungar que está quase acabando!
-
Acabando de achar? - tenta em vão.
-
Não! Está acabando a minha paciência! – Se enfurece de vez.
Quando enfim encontraram o barril Sam Gérmann e Albert, degustam em trêmulos tragos
do precioso liquido e Albert comenta:
-
Nunca provei nada igual na minha vida. Tem um sabor estrepitoso! - arrisca,
ainda sóbrio.
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Com a ebriedade chegando a galope os dois ainda comentam:
-
É, de fato tem sabor um cintilante... Mas não se engane pois a bebida é
inebriante. – previne-o.
-
Ótimo, assim afundarei as minhas mágoas, que aliás são muitas.
-
Mas me diga uma coisa, que história é essa de olhar para as estrelas?
-
Sabe filho, isso é um segredo de muito anos...
-
Como assim? – fala levando a boca uma segunda dúzia de gole.
Aqui embaixo tem doze barris enterrados, esse que nós estamos bebendo já tem oito anos e
eu só os desenterro em ocasiões especiais, como esta! – alardeia.
-
E as estrelas? – insiste Albert.
-
Cada barril é posicionado de acordo com a posição da estrela mais brilhante da
noite em que foi enterrado, assim eu fiz um mapa das estrelas e sei exatamente,
em ordem cronológica, onde está cada barril. – tenta explicar a inusitada idéia.
-
Fantástico!! – entusiasma-se Albert - E por que enterrá-los? - diz laico.
-
A umidade da terra e a falta absoluta de luz definem o sabor.
-
Bem, agora chegou a minha vez de fazer perguntas. - diz Gérmann.
-
Pois então comece! – completa Albert.
-
O que aconteceu onde você morava?
-
Uma guerra. Foi muito triste... Não consigo falar. - comenta e, num átimo,
tenta achar forças para não se entregar as lágrimas.
-
Sabe meu rapaz não se entristeça afinal você esta vivo... tentando em vão animá-lo.
-
Não estou certo disso... – Diz já com os olhos em púrpura.
-
É ainda muito jovem... Seus pais ficaram lá?
-
Foram mortos. Mortos de uma forma covarde. Oh Deus! nunca vou me
esquecer. - Neste instante Albert não contém as lágrimas e, copiosamente, perde
a batalha para o pranto.
diz Gérmann
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-
O tempo o ajudará fique certo disso. – Consola-o Gérmann, também a quase se
render ao choro.
-
E o que fazia lá?
-
Advogava.
-
É jurisconsulto?
-
Por assim dizer...
-
E quanto a Ammy?
-
Estamos casados a pouco mais de um ano. – ao falar da amada, seus olhos
encontram luz, e se anima um pouco.
-
São felizes?
-
Sabe Gérmann, ela é tudo o que me restou. Eu e ela somos um. – Dispara
mostrando a afinidade que tem para com a esposa.
Só restam onze barris.
Enquanto Albert e Sam Gérmann estreitavam os laços de amizade Madeleine e Ammy se
entendiam como se fossem velhas conhecidas, convergiam de tal forma que nem parecia
que se conheceram a tão pouco tempo.
Estava tudo pronto para o despertar de uma nova vida tanto para os Fazekas como para os
Gérmann.
A primeira ação de Albert foi observar as oportunidades que a por enquanto diminuta
província oferecia. Quando saiu pela primeira vez para melhor conhecer o novo e
desconhecido lugar, entrou no maior armazém que ali existia e foi ter com o proprietário
por interroga-lo:
-
Precisa o senhor de alguém para ajudá-lo? – falou sem timidez.
-
O que sabe você fazer? – vociferou desdenhosamente o homem de cenho
franzido.
-
O melhor. Apenas o melhor. Mas não seria mais interessante perguntar-me o
que posso aprender ao invés do que sei fazer?
-
É um homem muito pretensioso não acha? Senhor... Como é mesmo o seu
nome?
11
-
Atendo pelo nome de Fazekas, senhor. Albert Fazekas. – respondeu com
firmeza.
O movimento de transeuntes se tornava cada vez mais intenso a medida que o comércio se
expandia e gerava novos empregos. A economia de vocação agrícola baseada no cultivo de
milho, trigo e batata, logo foi se modificando com a exploração de minérios,
principalmente linhita e bauxita, estes tais muito abundantes na região, trazia uma
perspectiva de crescimento econômico que atraía não só pessoas que ali buscavam um novo
eldorado mas também gente que buscava explorar e ampliar seus negócios.
Inter Alia, a vida, as pessoas, e o tempo se encarregavam de moldar as janelas do futuro,
entre erros e acertos a vida segue, as pessoas vivem mas o tempo é um caso à parte; é umas
das formas mais misteriosas da experiência humana, deveras, definir o tempo em termos
simples é uma tarefa hercúlea. Pode-se até falar que o tempo passa, voa e até mesmo que
nós avançamos na corrente do tempo, mas o fato porém é que é difícil explicá-lo. Em
muitas vezes se define o tempo como a distância entre dois acontecimentos. Não obstante, a
experiência parece evidenciar que o tempo não depende de acontecimentos; parece existir
quer haja eventos quer não, e o tempo só o tempo é capaz de mudar a forma de agir das
pessoas. “O tempo é a panacéia para todos os males”. Costumava dizer Gérmann.
Qual que é tempo; o poeta inglês Austin Dobson estava, é fato, mais perto da verdade ao
mencionar em suas crônicas, nos idos de 1877: “O tempo passa, você diz? Não é assim!
Ora, o tempo fica, nós é que passamos.”
O Sr. Zoldan Sachs era um homem muito rude no falar seus largos ombros e a sua
altura descomunal, anunciavam que ele tinha cara jeito e cheiro de poucos amigos, as
frondosas barbas que junto com as sobrancelhas quase lhe chegavam a encobrir os olhos de
brilho apagado, lhe davam um aspecto ainda mais assustador. Com seus ademanes
inconfundivelmente vultosos poderia ser reconhecido mesmo ao longe, onde a voz não
alcança. Era também dono de uma vasta área que compreendia ao equivalente de cem
hectares, e foi para ele que Albert passou a prestar serviços, primeiro começou a fazer
limpeza pelas partes menos nobres do armazém, mas a perspicácia dele ia muito além da
vassoura e dos trapos com que limpava o chão, altruísta, por sempre dar-se aos outros,
Albert vislumbrava em breve uma oportunidade de fazer um trabalho que realmente fosse
compatível com seu talento.
Não demorou muito e o Sr. Zoldan Sachs o chamou ao seu escritório:
-
Vejo que tem se esforçado muito e mantido a sujeira bem longe daqui...
-
É, eu faço o que posso. – disse, sorriso largo, esperando uma promoção.
-
Pois saiba que ainda não está bom! – Surpreende-o com olhar orlado de mal
aceite.
-
O que disse? Eu tenho esfolado as minhas mãos a limpar dejetos e lama seca,
sou o primeiro a chegar e o último a sair e ainda assim o senhor me diz que não
está bom? O que quer que eu faça?
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-
O melhor Albert. Apenas o melhor! – refresca-lhe a memória.
-
Sabe Sr. Sachs, existem duas espécies de homens que nunca mudam; os mais
espertos e os mais estúpidos. - concluiu nevrálgico.
-
E em qual dos dois eu me enquadro?
-
A resposta está em suas mãos...
Sam Gérmann continuava a trabalhar na Salomon & Hoppers já por trinta anos quando
recebeu a notícia do seu chefe, o simpático Sr. Humphrey F. Hesnyi, de que seria
transferido para uma filial em Debrecen distante trezentas milhas a norte de Pécs distrito da
província onde durante longos anos construiu sua vida. Sam Gérmann pediu algum tempo
para pensar, mas adiantou que seria muito difícil convencer a sua esposa a deixar o lugar
onde passaram tantos anos. Ao saber da noticia Madeleine com toda a sua blandície deixou
claro que não queria sair da casa, pois ela já fazia parte da sua vida, porém, disse a
Gérmann que tomasse a decisão que entendesse ser a correta, porque tudo que era bom
para ele também era bom para ela. Gérmann consultou ainda a Albert, que o aconselhou a
não ir embora pois as perspectivas eram promissoras.
-
O que vou fazer então, pedir demissão e viver o resto dos meus dias à mingua?
Isso está fora de questão! O meu trabalho é minha vida!
-
Não... Você não vai viver à mingua... Disso eu tenho certeza! – reanimou Albert
entreolhando as brechas vacilantes que Gérmann deixava escapar, pois não
queria ir-se.
-
Você tem alguma idéia?
-
Tenho!
-
E qual é?
No oitavo mês de trabalho duro, Albert enfim conquistou a confiança do Sr. Zoldan Sachs,
que mesmo não demonstrando, simpatizou em demasia pelo rapaz e queria testá-lo ad
nauseam. Observou nele um talento natural e uma capacidade muito acima da média,
entrementes, Albert já há muito tinha abandonado a vassoura e os trapos com que limpava
o chão, estava administrando com sucesso o armazém e em apenas um ano triplicou o
faturamento. O Sr. Sachs estava tão contente ficou com o seu desempenho que até lhe fez
um afago: permitiu que ele a cada três meses pudesse ficar em casa um dia para
‘descansar’, mas o que chamou atenção e intrigou a Albert foi ele ter pedido alguns
documentos seus para fazer uma espécie de cadastro. Com o pouco salário que ganhava
Albert conseguia a proeza de arcar com as despesas da casa e ainda guardar um pouco para
por em prática sua ‘idéia’, não era uma tarefa fácil tendo em vista as dificuldades que é
começar de novo. Ammy se sentia cada vez mais a vontade a medida que as coisas iam se
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ajeitando e sua bela casa, construída nos limites do terreno dos Gérmann, lhe dava mais
alegria e privacidade podendo assim se sentir em sua própria casa.
Sam Gérmann tomou a dura decisão de se desligar da madeireira pela qual ofereceu longos
e suados anos de detida e fiel dedicação, foi doloroso para ele abandonar os costumes que
adquiriu no decorrer de um longo período tempo, acordava sempre na mesma hora em que
ia trabalhar e nos primeiros dias chegou até a trocar de roupa, vestia o surrado porcoespinho que jazia pelas encostas de um velho baú sem a sua alma. Tãosomente quando
abria a porta se lembrava que não tinha mais para onde ir. Debruçava-se e franzia a testa
querendo por motivos mais entender o que estava acontecendo-lhe, oprimia-se ao tentar se
desvencilhar da tentação de ir até a Salomon & Hoppers com a desculpa de apenas
cumprimentar os anelosos amigos que lá deixou.
Os vizinhos estranharam os primeiros dias em que Gérmann não foi trabalhar por um
motivo prosaico: todas as manhãs ele passava na rua religiosamente na mesma hora, tanto
que alguns até acertavam seus relógios no mesmo momento em que o viam passar;
semelhante ao seu quase contemporâneo, o filósofo alemão Imamanuel Kant (1724-1804).
E, pelo caminho até chegar a Salomon & Hoppers cumprimentava cada morador que
encontrava com a sua alegria de que cada novo sol era uma dádiva dos céus.
Uma das preocupações de Sam Gérmann era com a ociosidade, ele não conseguia se ver em
casa apenas cuidando das plantas e da pequena horta que cultivava em sua casa, assim ao
comentar com Madeleine que não estava mais suportando a dura rotina do nada fazer,
Albert se aproxima e comenta:
-
Seus dias de ociosidade chegaram ao fim meu caro amigo! - alegra-o batendo
em suas costas e esfregando freneticamente as mãos.
Enquanto olha de soslaio para Albert, lhe vem à mente o primeiro dia em que entrou na
porta estreita da Salomon & Hoppers e se dirigiu ao Sr. Humphrey F. Hesnyi, que lhe disse
algo semelhante, é como se ele visse, em perspectiva, o passado voltar ao presente.
-
É sobre aquela sua idéia?
-
Exato! E agora eu vejo que podemos colocá-la em prática. – fulminou com ar de
euforia.
Um sorriso realçou o lânguido rosto de Gérmann.
Em quase três anos de convivência, Albert percebeu que Sam Gérmann era um homem
muito esforçado, sofria de dislexia e, apesar da peia, tentava ler tudo o que estava ao seu
alcance, procurava se informar de absolutamente tudo que se passava, desde de para onde
rumava seu país comunista até as singelas histórias do escritor dinamarquês Hans Crhistian
Andersen. Falava com desenvoltura quando o assunto era a política adotada pelos governos
dos países mais ricos em detrimento dos mais pobres, entendia que deveria haver uma
relação mais perene entre as nações mais desenvolvidas e as que ainda não possuíam
tecnologia suficiente para acompanhar as novas tendências mercadológicas, evitando com
isso um abismo colossal, que consequentemente traria muita desigualdade socioeconômica. Desta forma Albert, um emérito advogado, sabia que com a sua experiência na
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área jurídica aliado com alguém que tinha muita disposição para enfrentar novos desafios e
a carência deste tipo de profissional, poderia repetir o sucesso que o acompanhou enquanto
esteve na Romênia. O primeiro passo de Albert foi tomar conhecimento das leis vigentes no
país se adaptando a uma legislação, que na verdade, não diferia muito da que havia
estudado na Romênia, a se observar que o direito romano, que serve de base para quase
todos os sistemas jurídicos ocidentais, também era usado neste país. Com o pecúlio de três
anos que acumulou trabalhando no armazém do Sr. Zoldan Sachs, Albert guardou o
suficiente para abrir o primeiro escritório de advocacia da região, mas a ajuda financeira
que mais determinou na instalação das salas do acanhado prédio da rua João XXIII, veio da
indenização referente a demissão de Sam Gérmann.
O próximo passo de Albert era informar ao Sr. Zoldan Sachs da sua dispensa, coisa que
ele sabia de antemão que não iria agradar ao ‘Sr. Turrão’, como era conhecido.
****
A debilidade da luz que iluminava a sala onde o Sr. Sachs resolvia suas constantes
pendengas, estava sempre mais apagada do que acesa, ele fazia questão de pouca
iluminação, parecia até sombrio. A mendicância de claridade era tal que às vezes ele se
confundia entre as formidáveis estátuas de bronze que pareciam ser estrategicamente
arranjadas e dispostas em posição de fitar os que ficavam em frente a ele na mesa. Era
preciso três olhos. Um era escalado para tentar inibir o olhar cortante da estátua esquerda, o
outro, sem esguelha, coibir a tentativa ofensiva que a da direita revelava sem o mínimo
pudor, o terceiro, suplente, tinha que enviesar-se e se multiplicar para dar conta dos dois
maiores e intimidatórios mas a peleja se mostrava desigual pois eram, mesmo com um se
desdobrando em dois, seis contra dois que com algum esforço poderia se transformar em
três.
Luz débil, um castiçal com metade da capacidade a funcionar, reportando com tímidos
traços umas faíscas azuis-amareladas em sua base que bailavam numa coreografia cada vez
mais notada porque na sofreguidão do ambiente lúgubre coisa qualquer se destacaria do
viço arenoso, tal qual uma palha cinza num denso nevoeiro cor de chão.
O diálogo que deu rumo de penhasco entre os dois foi de uma aspereza motriz:
-
Você está me dizendo que vai embora? Que vai me abandonar depois de tudo
que eu fiz pra você? – surpreende-se.
-
Lamento muito, mas esta decisão vem sendo amadurecida há algum tempo e eu
preciso levar adiante os meus ideais. – saracoteou com palavras e gestos.
-
É uma atitude típica dos aleivosos, eu deveria saber que não poderia confiar em
você! - exaspera-se.
-
Olhe aqui Sr. Sachs, eu tenho muito respeito pela sua pessoa mais por favor não
me diga que eu sou um traidor! – fala, devolvendo nos olhos a ira recebida.
-
O que quer que eu diga então? Que é o meu melhor amigo? Quando aqui chegou
não tinha lugar onde recostar a cabeça!
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-
A ajuda foi recíproca! E o senhor sabe disso!
-
A única coisa que eu sei é que eu tinha planos para você...
-
Planos para mim? A última vez que o senhor me fez planos foi para me
convencer a não ter uma folga trimestral, os seus planos são unilaterais visando
apenas os seus próprios interesses!
Tão logo findaram a deselegante e rasteira troca de apupos, Albert se retirou da sala do Sr.
Sachs enrubescido, atropelando os ladrilhos que lhe impediam alcançar as portas centrais
que davam acesso direto as ruas, para assim poder respirar um ar menos pesado. Albert
sentiu-se contristado com a atitude intempestiva do Sr. Sachs, que apesar da pouca
afabilidade era uma pessoa extremamente correta em seus tratos, ficou andando em círculos
horas a fio tentando encontrar uma maneira de convencer o Sr. Sachs de que não era e nem
teve uma atitude de felonia como dissera a pouco.
- Sou um homem reto como uma flecha, não admito que alguém venha a altercar a
minha honra.- sussurrou à própria mente.
Chegando em casa Albert relatou o entrevero que teve com o Sr. Sachs e, ainda muito
abatido, perguntou a Ammy se estava agindo de forma errada na situação em que ele
acreditava que de fato estava correto e o que ela falou o fez refletir:
-
Sabe Albert, às vezes adoecer faz muito bem à saúde. – culminou numa evasiva.
A situação em que Albert se encontra agora é de mais um grande desafio. Convencer o Sr.
Sachs da sua nova empreitada foi uma questão de tempo e ele, mesmo a contra gosto,
aceitou de forma passiva o pedido de desligamento do seu melhor funcionário.
Sam Gérmann ficou muito empolgado com o empreendimento de Albert, a ponto de sugerir
a ele que acelerasse as obras das salas, mas Albert, sempre muito equilibrado e criterioso,
lembrou a Gérmann que era preciso acertar alguns detalhes antes de começar trabalhar.
Enquanto esteve trabalhando no armazém Albert fez muitas amizades, extremamente
atencioso, costumava chamar os fregueses pelo nome e era muito gentil, levava as
encomendas dos melhores em casa, para isso providenciou uma carroça, com um velho
cavalo rocinante, que a principio o Sr. “turrão” achava que era desnecessário mas com o
decorrer do tempo se mostrou uma receita infalível para atrair a clientela. Por suas atitudes
Albert despertou a atenção de um homem misterioso que por algum motivo aparecia para
falar com Sr. Sachs, e numa dessas ocasiões lhe fez algumas perguntas, queria saber o que
fazia alguém de tamanha capacidade em um lugar onde as possibilidades de crescer eram
diminutas. Albert lhe respondeu que estava esperando a hora certa para colocar em prática
um plano que tinha na cabeça e, lacônico, disse ao seu interlocutor dos problemas que
enfrentou nos três últimos anos.
O homem da qual Albert ganhou a simpatia se tratava de Thomas Kandisc o poderoso
senhor-mor da exploração de minérios que além de muito rico tinha entre seus asseclas,
gente graúda que englobava autoridades policiais e da política local.
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A visão que se mostra de uma bem sucedida história as vezes busca no imaginário da
razão algum motivo de que a certeza das coisas de fato não existe e, por conseqüência, se
atribui ao acaso o que dá certo e o que dá errado, muito embora nem tudo aquilo que dá
certo é certo mas aquilo que deu errado pode estar errado, a idéia geral é que o destino está
sempre na berlinda seja para coisas positivas e, sobretudo, para as negativas, mas a questão
é: quem nos explica?
****
Soa ao céu um som de sino, um silvo, vez a vez que a locomotiva aporta e traz além de
produtos de primeira necessidade como alimentos e remédios, algumas encomendas
especiais.
Em 1867 o tipógrafo americano Christopher Latham Sholes criou o primeiro modelo de
máquina de datilografar, esse novo conceito de amontoar letras mudaria a partir dali o
modo de as pessoas escreverem, mas Sholes vende seu projeto para a Remington, até então
fabricante de armas, que investe pesado na produção em escala industrial.
E foi um arquétipo Remington novo em folha que Albert mandou importar dos EUA, com
um pioneirismo sui generis, queria, e conseguiu, dar um toque de modernidade no seu
escritório e ficou sabendo da máquina de datilografar através dos periódicos e dos artigos
que Gérmann sempre lia.
Ammy estava radiante com os projetos do marido e não escondia de ninguém o orgulho que
sentia de estar casada alguém que era amado onde quer que fincasse raízes. Eles estavam
passando por um momento muito feliz em todos os sentidos, e nas conversas que
mantinham com os Gérmann, Ammy dizia que estava faltando alguma coisa para a
felicidade ficar completa; neste momento Albert se levanta e diz:
-
É claro que está. Está faltando uma criança! – exclama com alegria.
-
Uma criança? Ora é tudo o que eu gostaria de ter aqui! – enumera Madeleine.
-
E porque vocês ainda não tiveram filhos? – pergunta Ammy.
-
O problema é que não podemos ter filhos. – Conclui Madeleine fazendo o
côncavo globo ocular abrigar uma imensa quantidade de água salubre que se
acomodava entre a cavidade inferior e a emoção.
As diretrizes em que as coisas se encaminham é para que, cada vez mais, se dê ênfase as
coisas mais importantes e às coisas pequenas as devidas proporções. Se encher um vaso
com pedras grandes, ele aparentemente parecerá cheio, mas se colocar alguns pedregulhos
este ocupará os espaços entre as grandes e ele parecerá cheio, mas se colocar areia, esta
ocupará os espaços entre, e ele parecerá cheio, mas se colocar água esta ocupará os espaços
entre, e, assim de fato o vaso estará cheio. Mas, se colocarmos primeiro a água depois a
areia e depois os pedregulhos é verdade que as pedras grandes não irão caber, com efeito,
se as coisas maiores forem priorizadas, as menores terão o seu lugar.
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Sam Gérmann e Albert mesmo sem as esposas saberem já tinham comentado a respeito de
ter filhos mas o mais importante naquele momento era obter estabilidade financeira para
depois então pensar na prole. O que Gérmann escondeu de Albert era que, por um problema
ainda desconhecido, ele e Madeleine não podiam ter filhos.
****
Os ventos alísios que sopram do sudoeste no outono deixam a paisagem com um
colorido sem cor, a que vem após a mais curta, o verão, esta estação é a que, por motivos
primaveris, mais se assemelha, na poética e temática odisséia das estações, com o declínio,
talvez porque as folhas caiam numa cerimônia melancólica em que as árvores ficam
despidas e o chão vestido de uma folhagem sem vida, vidas secas, é para ver e rever; a mais
triste das quatro estações é afinal um instrumento de renovação da vida, cair, perder pode
também significar começar de novo. Reviver.
É neste clima outoniço de variáveis nebulosas que Albert enfim abre o seu escritório e
Gérmann para comemorar vai até a árvore e desenterra mais um barril.
- É mais um momento especial e merece esse brinde! - diz Sam Gérmann.
Só restam dez barris.
Albert também convida para a confraternização alguns dos seus colegas do armazém e,
para sua decepção o Sr. Sachs não comparece, mas num gesto atípico manda um bilhete por
um deles que surpreende a Albert:
“Você sabe que eu não estou muito feliz por ter me abandonado, mas saiba que apesar das
divergências eu o admiro muito e espero que seu novo negócio vá em frente. Fique sempre
bem informado a respeito de uma pessoa que o está observando pois ele pode atrapalhar o
seu progresso, se eu estiver enganado por favor me perdoe. Aqui dentro tem um dossiê
contendo todas as informações que você vai precisar para dar cabo a situação que eu não
estou mais suportando.
Meu coração talvez não resista a mais esta pressão e se eu não resistir peço que leve até as
últimas conseqüências...’’
Ao ler a correspondência Albert ficou atordoado, e não pouco. Antes de ter acabado de ler
as primeiras linhas, ele arregalou os olhos azuis e franziu o cenho horrivelmente; as duas ou
três linhas seguintes fizeram-no coçar a cabeça apressadamente e com um certo incômodo,
foi quase brutal este gesto ainda mais para ele sempre feito a elaborar gestos suaves mesmo
quando em meio à pressões, quando chegou ao fim deu um suspiro melancólico que fez
corar de duvidas os que o estavam vendo-o, esse seu modo incomum indicou um misto de
surpresa e consternação. Logo após dobrar e repousar a carta junto a si, mastigou o
envelope com uma voracidade extrema e, tomando-a novamente para si, leu-a outra vez. A
segunda consulta foi aparentemente mais aterradora e desconfortável do que a primeira pois
mergulhou-o numa abstração da qual só despertou para levar ao fim o que sobrou do
envelope agora por completo destruído. Imediatamente, sem ler o calhamaço de papéis que
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acompanhava o bilhete e jogando ao chão todo o pacote contendo os documentos, foi até a
casa do senhor Sachs e lá chegando encontrou as portas entreabertas e uma confusão
semelhante a passagem de um tornado.
A escrivaninha onde ele costumava guardar os documentos do armazém havia desaparecido
deixando a suspeita de que alguém queria roubar alguma coisa valiosa. Albert foi sozinho
até o local mas Sam Gérmann, ao saber do conteúdo do bilhete, que Albert deixou cair ao
chão, correu em disparada e chegando ajudou Albert a abrir a porta do quarto em que o
senhor Sachs dormia e qual foi a tristeza quando eles a arrombaram; a cama encharcada de
sangue sugeria que alguém no mínimo havia se machucado gravemente, mas aparentemente
não havia sinal de alguém por ali, foram até o banheiro e se depararam com uma cena
bizarra: o corpo de um homem esguio sucumbia na banheira em meio a um mar de água
misturada com o vermelho vivo do sangue, formando um terceiro tom, mesclado, que ainda
jorrava da jugular do pobre infeliz, porque encarnado. Uma cortina de brocado estampado
com motivos florais destoava da dramática cena que ali se apresentava, e foi com ela que
Albert cobriu o corpo abiótico. Alguns objetos quebrados indicava que ali se desenrolou
uma luta sangrenta e o mistério de a quem interessava a morte do senhor Sachs estava
apenas começando. Alguns minutos mais tarde chega o delegado Fiodor Gobery que isola
toda a casa, e começa a interrogar Albert e Gérmann que prontamente colaboram por dar
todas as informações necessárias .
Albert informa ao delegado que possivelmente o senhor Sachs vinha sofrendo algum tipo
ameaça e lhe diz:
-
...Ele me escreveu um bilhete falando sobre alguém que por algum motivo o
estava pressionando... – começou com palavras cambaleantes.
-
E onde está o bilhete? – pergunta o delegado.
- Acho que está aqui – grunhiu enquanto põe as mãos nos bolsos procurando em
vão o bilhete que deixara cair em casa e não tinha percebido - , bom, devo ter
perdido em algum lugar talvez...
-
O que estava escrito no bilhete?
-
Não me lembro exatamente. Mas tem algo relacionado com... bem isso não
importa. – temperando com acidez as palavras, Albert, ainda perturbado,
quebrava as inquirições do delegado sem mesmo saber com exatidão o que lhe
era perguntado.
-
Tudo importa e eu quero saber! – reverbera insuspeito.
Neste momento Sam Gérmann percebe que há algo de errado com a interpelação do
delegado e esconde o bilhete.
-
O senhor acha que o senhor Sachs matou este homem? – quer saber o delegado.
-
Não estou em condições de achar nada doutor. - responde Albert.
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Albert ficou bastante intrigado com a morte do homem, que por falta absoluta de
documentos foi sepultado como indigente, e, isso suscitava uma embaraçosa e difícil
questão: por que o senhor Sachs não se apresentou depois a policia para dar
esclarecimentos? Sendo que ele teve seu domicílio invadido, evidenciado pela porta
arrombada, e o estrago que se fez em toda casa, poderia, amparado pela lei, alegar legítima
defesa o que facilmente seria aceito, ou ainda ter impetrado um pedido de habeas corpus –
expressão latina que significa “apresentar o corpo’’ do prisioneiro, i.e., o preso ainda não
julgado tem direito a sua preservação física – , que também poderia ser aceito, e seu
histórico de nenhum antecedente criminal o ajudaria muito na decisão judicial.
O quebra cabeças estava apenas começando e algum tempo depois daquele dia fatídico não
havia qualquer notícia do senhor Sachs.
Albert comentava com Gérmann que algo de muito obscuro pairava sobre “O Caso do
Armazém ”, como ficou conhecido.
-
Sabe Gérmann... Tem alguma coisa de errado com essa história. Considere
comigo. Eu conheço bem o senhor Sachs e sei que ele não mataria alguém
daquela forma, e por que ele não aparece para dar explicações? É tudo muito
confuso! - raciocina.
-
E o que você pretende fazer? – fala Gérmann, surpreso.
-
Justiça Gérmann, vou me empenhar em buscar a justiça! – diz com voz de
pulso.
-
E em relação aqueles documentos Albert? – calcula Gérmann.
-
Documentos? Que documentos?
-
Os documentos que o senhor Sachs lhe enviou juntamente com o bilhete!
-
É verdade! já estava me esquecendo e onde eles estão?
****
A ciranda de perguntas, onde a verve encontra campo fértil para se proliferar, buscando
amenidades tais como atenuar sentimentos profundos e encontrar certeza para questões
aparentemente insolúveis e de vez em mais achar motivos para buscar um real absoluto
quer em condições normais ou, ainda mais tênue, associar sonho, prazer e vontades no que
é vivo ou mesmo no inanimado; é o que dá sentido a vida.
Ammy, desde os tempos romenos, apreciava plantas e flores e conseguiu trazer consigo,
mesmo em precárias condições, uma verdadeira relíquia oriunda do oriente: um bonsai –
literalmente, planta em bandeja - que ganhou aos quinze anos de sua avó materna. Essas
árvores em miniatura que indianos e chineses desenvolveram a dois milênios para facilitar
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o transporte de plantas medicinais e que os japoneses transformaram em exercício de
paciência, mas que também representa harmonia e equilíbrio, atributos que Ammy tinha de
sobra. O seu exemplar era uma jóia; um bordo arakawa, a árvore cujo a folha adorna a
bandeira canadense, com mais de noventa anos! Sua beleza ficava ainda mais evidente no
outono quando ganhava uma exuberante cor avermelhada. Ammy amava muito aquela
arvoreta, era o único elo que restava para lembrar-se de sua família.
Era páscoa de 1875, e em meio as comemorações da festa cristã, que é celebrada na mesma
época do pessach, festa judaica no início da primavera palestina que rememora a salvação
dos primogênitos hebreus da última praga do Egito à véspera do êxodo, que Ammy se sente
mal e um médico é chamado para atendê-la.
Teria perto de quarenta e cinco anos o recém-chegado médico dotado de um bigode hirto.
Alto, robusto, rosto cheio, os cabelos bem tratados e penteados para um dos lados e
minuciosamente divididos deixava-lhe um corredor sem fios na quina da cabeça, notava-se
nele que era obediente nos passos, de um tanto sereno no olhar que repousava nas
dependências da casa de Albert e embora sua vestimenta não o abandonasse na elegância
era evidente que acabara de enfrentar uma longa viagem a se observar as mangas da camisa
amarfanhadas e o colete tendo sido como uma dobra de grossa espessura vincada em uma
das partes e nesta mesma peça vincada abrigava-se, no bolso direito, um dourado cordão de
ouro. Havia em seus modos um quê de morosidade muito embora o esforço velado de sua
conduta quisesse mostrar o contrário, a saber, percebia-se nele um meticuloso. Todos os de
sua convivência tinha nele um excelente no oficio que se prestava, ainda outros reservavam
receio na sua taciturna pessoa. Examinando com diligência a sua nervosa paciente, tira da
maleta de couro amarronzado, possivelmente de cabra, uma prancheta e pede-lhe, como
numa confissão, que fale de tudo o que vem sentindo nos últimos dias, - Me sinto insegura
e não sei como proceder. - Pois então não proceda, irá colaborar com nós dois se
permanecer tranqüila. Ammy ensaiou por longos momentos até angariar a necessária
coragem para entabular a curta frase que dirigiu ao médico, superado o primeiro passo de
iniciar um diálogo com o atencioso médico, ela ainda custava a manter a calma e, por
gestos mudos e incessantes, pedia para que Madeleine não fosse embora dali nem para a
gentileza de um chá, este prontamente providenciado por Gérmann, que embora servido
numa samovar bem areada, estava queimante. - Todas as pacientes são assim e não de
outro jeito, é comum que fique apreensiva, a ansiedade é quem é a causadora e maior vilã
desses distúrbios, vamos dar um fim a ela? -, O médico usava de psicologia, - Há quanto
tempo se sente indisposta para os afazeres normais?, - Há pouco tempo -, se limitou a falar
com um fragmento de voz, - Sabe doutor, muito me preocupa a grande epidemia da tal
febre nos arredores, argumenta Albert com Gérmann a sua esquerda concordando com um
leve aceno de cabeça, - Embora, naturalmente, tenha fundamento a sua prospecção, lhe
asseguro que o curso da gestação de sua esposa não apresenta maiores abalos nem no
momento bem como nos próximos meses, não obstante, é preciso a máxima atenção pois lá
pelos dias finais é quando se tem um quadro mais preciso e aí sim é que poderemos
assegurar-lhes que tudo irá se encaminhar na mais perfeita ordem, por hora não há nada,
nem medicamentos nem os seus congêneres que possa sê-la ministrado, ao falar essas
palavras ele consultou as horas com mansidão, tomou com tragos mínimos da xícara de chá
da qual a fumaça ziguezagueava pelo ar e em movimentos calculados repousou o pires
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sobre uma mobília junta à sua maleta de cabra, - Há riscos?, Quis saber Gérmann do
médico, - Amanhã, nunca se sabe, a propósito posso falar-lhes, minha mulher, que Deus a
tenha com favor em Sua memória, - Tão jovem e viúvo!, interrompeu Madeleine. Com um
breve olhar ele retribuiu a solidariedade a Madeleine e prosseguiu na linha do seu bom
raciocínio, na Escola de Música que ela freqüentava na sua mocidade, tinha além de seus
encargos, de cuidar de uma vasta papelada, como lá não se lecionava apenas música, ela
mantinha estreito contato com a matemática a física a química a geografia a história a
filosofia a literatura a botânica et cétera e et cétera, e sabe o que ela sempre me dizia? Que
a ciência é um engodo de Deus para amparar as vítimas das complicações, “nada adianta”,
dizia ela, de que adianta pôr um espantalho no milharal se sempre os corvos têm garantido
um banquete abundante? E não é mesmo? Quem já viu tal ave padecer por falta de
alimento? Minha mulher me cobrava menos esforço para viver, esforço para viver! Ora que
diabos! O câncer a levou de mim sem eu sequer poder lutar! E quanto foi o que ela lutou! O
Deus que habita o mais altos dos céus sabe o quanto ela lutou para continuar vivendo a vida
dos outros, sim! A dos outros, pois ela vivia somente para outros fins que não os
dela!...ora! isso não vem ao caso!, - Não se limite na fronteira do seu profissionalismo
homem! Somos todos sabedores da dor de uma perda tão dolorida, confortou-o Gérmann, As artes que sua esposa se referia, disse Albert, talvez tenham algum mérito em toda
questão! – Qual artes! É ela também uma fonte inesgotável de engodo!, fala com amargura
o doutor, - Mencionei as artes como reclusão, pense bem, se todas as obras das artes fossem
postas em questão quem as devolveria ao mesmo monte sagrado em que estão? – É tudo
jogo sujo! As ciências as técnicas de criação! Ao diabo com tantas mentiras!, com a xícara
vazia ele prosseguiu em bebericar do chá sem se dar conta de que já se acabara o líquido
pois estava tão entusiasmado com a discussão que repetiu o ato por umas cinco ou seis
vezes, - E quanto a Shakespeare? É ele também um engodo?, indagou Gérmann mais para
tentar entrar na conversa do que para trazer à baila a natureza do autor, - Há! há! O
instrumental William Shakespeare! É o mais visível e notório caso de embuste de que se
tem notícia! Ele é uma fraude!, já se sabe quem é contra a criatividade das artes, por isso se
faz desnecessário relatar quem pronunciou esta última frase. - É interessante observar que
se ele for deveras uma fraude ou algo que o valha, o seu mito é ainda mais notável, pois
mesmo sem existir, ele atravessou os séculos e chegou até nós e decerto irá estender-se
pelos vindouros sem falta! E observe que não falo isso de modo impessoal, pois tenho
minhas reservas quanto aos mitos inatingíveis. – A questão não é em si filosófica e sim de
fatos, veja a estória de Hamlet que após a morte do rei, sendo este assassinado pelo próprio
irmão, se apoderou do trono e se não bastasse se casou com a rainha... E é ai onde entra o
imponderável: o fantasma do rei morto passa a aparecer para seu filho, o príncipe Hamlet, e
incita-o a vingar o crime, depois de fingir-se de louco e rejeitar a sua amada Ofélia, tendo a
ajuda de um grupo de atores que encenam a morte de seu pai, Hamlet leva o seu tio a
denunciar-se, em seguida mata Polônio, pai de Ofélia, pensando se tratar de seu tio
avarento, seu tio então tenta em vão matar o sobrinho, Ofélia amargurada atira-se num lago
e morre e seu irmão trava um duelo com Hamlet e assim chegamos quase ao final, mas qual
a finalidade de relatar-lhes o infortúnio da peça? A de que uma de suas mais celebradas
obras tem em seu contexto um engodo que causa um engodo e se faz um engodo, é o
engodo do engodo do engodo do engodo, - Mas é apenas uma peça! Rebateu Madeleine
mostrando descontentamento com as idéias do médico, - Mas é aí onde está o nó górdil!
Uma peça e mais uma peça e mais outras! Em Macbeth ele dispensou os mesmos elementos
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de embustes e fraudes para compor a trama! Fraude fraude fraudes e mais fraudes! – Ora
essa! Isso não quer dizer que porque ele tenha usado desses recursos tenha sido ele próprio
uma fraude, a enganação está mais associada à cabeça dos outros do que as nossas próprias!
Porque veja: não parte sempre de outros a idéia de que fulano tem um coração dado a
maldade? E que sicrano pensa em nos fazer mal?, encorajada pela repugnância, Ammy
atentou com sensibilidade a uma direção que surpreendeu até a si mesma, - Mas o nó ainda
não fora desatado, prosseguia o Dr. Rakosi, e talvez nem o será para todo o sempre! Quem
vai desafiar o romantismo? – Se Tomarmos um pouco de vinho talvez possa nos fazer
bem... Que pensas? Aceita Dr. Rakosi? sugeriu Albert, - Vinho? Ele não nos é permitido!
Não segue você os ensinos das Escrituras? – Sim, faço amiúde esforços para conseguir,
mas talvez não se lembre do que Paulo falou ao jovem Timóteo em sua primeira carta a este
no capítulo cinco verso vinte e três: “Não bebas mais água, mas usa de um pouco de vinho
por causa do teu estômago e dos teus freqüentes casos de doença.” Ora, será que tinha o
Apostolo a lei a seu bel-prazer para desvirtuá-la sem a devida punição? – É salutar,
declama o médico decaindo os ombros, é salutar... Preciso apreciar com mais diligência as
minhas premissas...No entanto, lembro-me e lembro-vos: o início é a porta que abre os
dissabores do excesso! E chega de falar neste Edward de Vere!
Mesa posta, pousaram a garrafa de um Chianti Classico adornado por um rótulo eloqüente
cuja elaboração data de mais de seiscentos anos na Toscana e conserva como símbolo o
Galo Negro. A lenda do valente galinho remonta a tempos distantes e resulta da rivalidade
medieval entre Florença e Siena. As duas cidades não se entendiam para estabelecer sua
fronteiras, para por fim à guerra decidiu-se por uma disputa entre cavaleiros, a largada seria
dada ao cantar de um galo, os moradores de Siena selecionaram um galo branco bonito e
bem nutrido ao passo que os de Florença, mais astutos, escolheram uma galinho negro
raquítico e precariamente alimentado, no dia da prova, despertado pela fome, o galo
florentino cantou primeiro...
Violando o invólucro de um chumbo maleável e desgarrando a rolha do gargalo com
delicada atenção o perfume frutado logo tomou conta do recinto e das narinas, com notas
de frutas secas e a garrafa de uma cor âmbar inesquecível, o tinto marcado pela
benevolência do tempo trazia em seu encorpado sabor um perfume que ficou suspenso no
ar por curtos medidos e cultuados segundos, ao girar o bojo da taça com mais tenacidade,
Albert fez desprender-se do tocante liquido macio toda a sua alma; ao movimentar o
quodore em giros contínuos nas paredes internas da taça a alma enclausurada do vinho via
o seu desterro chegar ao fim. Imperava na sala um momento de contemplação, os paladares
ainda mais refinados e sensíveis pela excelência da jóia, foi acompanhado por tentadores
tomates secos servidos na providência de não isolar o expressivo e redondo aroma,
harmonizavam-se com irrefutável transparência como entrando dentro do sabor.
Albert, um dândi por excelência, precisava estar sempre alinhado, conhecera o Sr.
Aldrin Zorn, dono de uma boa alfaiataria, e em certa ocasião foi até lá para fazer
encomendar um terno.
Antes, porém, conversa com Gérmann, sobre o que deveria usar para se posicionar na moda
vigente, e o comentário de Gérmann quase o faz mudar de intenção:
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-
Meu caro e bom amigo... A moda muda...E é muda... Quem a ela da som são
alguns que tem sempre a ganhar, e nós que compramos, sempre a perder...
Sem compreender direito o que Gérmann queria dizer, Albert foi até a loja do Sr. Zorn, lá
chegando, dois homens conversavam com o Sr. Zorn pedindo emprego mas só havia uma
vaga disponível e Albert, depois de cumprimentá-los, deu uma boa sugestão para acabar
com o peditório; sugeriu para que cada um dos alfaiates fizesse um terno preto e o que
fosse melhor cortado ganharia o emprego, o Sr. Zorn achou que era uma excelente idéia e
prontamente aceitou a sugestão de Albert.
Aldrin Zorn deu um prazo de cinco dias para que os ternos ficassem prontos e então
avisaria a Albert.
Uma semana depois Albert vai até a loja do Sr. Aldrin ver como ficaram os ternos e
ajudaria a decidir qual dos alfaiates seria contratado, os dois ternos foram colocados num
manequim e examinados ponto a ponto, cada detalhe foi minuciosamente averiguado,
olharam o forro, mediram as lapelas com uma métrica para ver se estavam perfeitas, e
estavam. As mangas com os punhos caseados à mão revelavam que os dois capricharam na
confecção das roupas, e Albert, se rendendo, não viu qualquer diferença entre os dois,
mesma opinião tinha o Sr. Zorn. Mas um dos alfaiates que pitava um cachimbo, cujo a
fumaça de tão espessa e forte lhe lacrimejava os olhos, e que vestia uma sobrecasaca que
lhe conferia o aspecto de um orgulhoso amanuense, recostado na parede com pose de quem
conhecia muito bem do ofício se adiantou e disse aos dois:
-
Há uma diferença sim! - disse soberbo e alimentando com fogo a brasa que se
dizimava do cachimbo que tamborilava com serena habilidade.
-
E qual é, que nós não conseguimos identificar? – descarrega Zorn.
-
É, por favor nos diga? – completa Albert livrando-se da fumaça que parecia
persegui-lo mesmo depois de despistá-la pela oitava vez seguida.
-
E até mesmo eu quero saber! – remete o outro alfaiate acabrunhado, levantandose do tamborete que usou para refazer o nó que se desfez do sapato esquerdo.
-
A diferença, é que mesmo sendo preto eu alinhavei e, por fim, costurei todo o
terno com linhas brancas... Aprenda, aprenda.
A prenda dada pela relação de plenitude e inclusão de expoentes, trata de redimir as
derrocadas impressas pelas marés de dias rompantes a sublinhação de arcos flexíveis nas
torrentes marcantes que em pleno céu renumera e repõe com desmedida vacilância a
organização de luzes nos dias e assim na noite onde nascem dias e morrem noites e vem as
luzes bem além das pontes orladas de meia cor e abandono, ainda pela orla íngreme,
lagunas insalubres quando vista ao alvorecer em que os raios em luz, do amarelado, talvez
dourado, do ainda acanhado sol resplandece no horizonte se confundindo com os montes de
pináculos embranquecidos pela neve branca, alva, onde almas sôfregas se ali pudessem
depositar os seus sentimentos suas mágoas suas dores e suas confusas emoções não mais
sôfregas seriam. Corta o bosque avelar o veado campestre rumo a leste por entre as folhas
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de pastagem, subindo montanhas com passos lentos sabendo ele, que não se supera colinas
aos pulos e sim vagarosamente medindo o andar e calculando o tempo.
A Boa Esperança foi vencida pelo ventos e pelas torrenciais chuvas de verão que acabou
por despedaçar até mesmo seus tarugos de ferro que não resistiram ao efeito devastador das
intempéries climáticas e com isso levou à extinção algumas espécies de animais alados que,
após a derrocada, não encontrarão mais lugar para abrigar-se. O Avelar, ciliado à
abundância, nunca esteve tão cheio de vida e de cores, pássaros de vivas tonalidades
enfeitavam e, em uníssono, alardeavam coros que em muito lembrava sinfonias de um
mestre que, ao fim da vida, pouco ouvia.
As ruas caminham para lugar nenhum levando também consigo as gentes em idas e vindas
sem fim. Mas, onde é o fim que sempre perguntam agitados aqueles alegres e tristes; isso é
romantismo que ainda é e, talvez um dia não seja mais, poderá ser esquecido não pelas
ruas, mas pelas gentes que pela avidez de evoluir para pior acabam não tendo tempo para
encontrar sequer as perguntas para as respostas. As perguntas para as respostas.
-
Não temos tempo a perder – comenta Albert a Gérmann - , temos que achar
aqueles papéis o mais rápido possível!
-
Será uma tarefa espinhosa meu caro amigo. – dificulta Gérmann.
Albert começou a trabalhar com todas as possibilidades para tentar desvendar o que
realmente ocorreu com o Sr. Sachs mas o sumiço dos documentos dificultou ainda mais a
situação para solucionar o caso.
Passou-se alguns meses e, por força judicial, o armazém continuou fechado, mas o que
chamou a atenção de todos foi o fato de que toda área de terras que pertencia ao Sr. Sachs
começou a ser devastada de forma indiscriminada onde até mesmo as searas foram
dizimadas para uma atividade que só poderia partir de um homem: o Sr. Thomas Kandisc.
Ao tomar conhecimento do assunto, que era o mais comentado nas portas das casas, Albert
foi até a mineradora. Com os nós dos dois dedos maiores bateu firme à porta de uma grossa
e imponente madeira talhada com um brasão simétrico e angular:
-
Bom dia Sr. Kandisc, ainda lembra-se de mim?
-
Como poderia esquecê-lo? Mas me fale! Que bons ventos o trazem aqui?
-
...É sobre as terras do Sr. Sachs.
-
O que há de errado com as terras? – esquiva-se inocentemente.
-
Eu venho acompanhando o caso e a justiça ainda não decidiu o que fazer com os
bens do Sr. Sachs. Logo, o senhor não poderia se apoderar das terras.
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-
Escute aqui filho, eu não tenho satisfações a dar a você além do mais não quero
me indispor com o meu novo inquilino... – disse enquanto, impacientemente,
passa a mão no pescoço.
-
Inquilino?
-
Exatamente. Todas as casas e prédios da João XXIII agora pertencem a mim.
-
Mas isso não muda em nada o sentido da minha visita. - fala Albert com
segurança.
-
Você vai continuar me importunando mesmo sabendo que eu vou precisar dos
seus préstimos?
– surpreende-se Albert.
- Primeiro eu quero esclarecer esses pontos obscuros, depois, dependendo dos
resultados da investigativa, poderemos falar em negócios.
-
Olhe aqui você está dizendo que existe leviandade da minha parte?
-
Essas ilações ganharão vida na sua boca Sr. Kandisc! – encerrou Albert.
O Sr. Kandisc não explica os motivos que o levaram a explorar as terras do Sr. Sachs
deixando dúvidas ainda mais intrigantes de como teve autorização para invadir as
propriedades do Sr. Sachs.
Albert passa a desconfiar cada vez mais do caráter do Sr. Kandisc, que se mostrava não ser
boa bisca, e a estranha atitude de ele comprar o prédio onde estava situada as suas salas o
fez deduzir que uma vez se sentindo ameaçado teria em suas mãos uma ótima prerrogativa
para pressioná-lo.
Não tardou muito e as escavações estavam aceleradas, abrindo enormes crateras onde a
bem pouco existia uma vasta plantação de grãos.
Agora haviam silos que serviam não para abrigar os cereais antes produzidos às toneladas,
mas sim para comportar junto com as ferramentas, o enorme ganancioso e modorrento
instinto cruel de fazer da terra objeto de cobiça.
****
Em meados de 1876 um surto de febre puerperal assola toda Europa causando dores e
sofrimento. Essa terrível doença consistia em atacar principalmente mulheres prestes a dar
a luz tanto que a proporção para óbito era de uma em quatro gestantes. O médico Húngaro
Ignaz Sammelweis fez sua mais importante descoberta em uma clínica obstétrica de Viena,
na Áustria, onde começou a trabalhar em 1844 e, como em toda parte daquele continente a
febre puerperal era ali freqüente.
O Dr. Sammelweis observou que a doença era mais comum numa seção da clínica onde os
estudantes de medicina freqüentava. Eles vinham assistir os trabalhos de parto vindos da
sala de dissecção e o Dr. Sammelweis concluiu que os estudantes levavam alguma coisa
estranha dos corpos das mulheres que tinham morrido de febre puerperal. A solução que ele
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encontrou foi espantosamente simples: mandou que todos os que tivessem contato com os
corpos lavassem suas mãos com uma solução clorada antes de examinarem qualquer
parturiente. A conseqüência foi que ele quase erradicou a doença mas seus superiores
ficaram indiferentes pois não entediam plenamente as idéias do Dr. Sammelweis e
mantiveram a crença de que a doença era inevitável. Seu trabalho só foi reconhecido em
sua terra natal e em 1850 regressou à Hungria, porém as opiniões médicas do resto da
Europa continuavam contra ele. O Dr. Sammelweis passou mais quinze anos lutando contra
as instituições médicas que tanto antagonizarão seu trabalho e, por fim, sucumbiu. Em 1865
foi internado em um hospital para doentes mentais. Na verdade o Dr. Sammelweis estava
na vanguarda do pensamento médico contemporâneo, por volta dessa mesma época Joseph
Lister estabelecia na Inglaterra os princípios da cirurgia anti-séptica, enquanto na França
Louis Pasteur descobria a existência das bactérias. Talvez por ironia do destino a derradeira
parte da conturbada vida do Dr. Sammelweis reservou a ele uma cilada:
Antes de entrar no manicômio ele sofreu um corte na mão ao dissecar o corpo de uma
vítima de febre puerperal, o ferimento infeccionou e ele morreu do mal que tanto buscou
erradicar.
Em um dia de sol de um verão atipicamente fervoroso entrou no escritório de Albert
um homem que ele nunca tinha visto na vida contando uma história no mínimo curiosa: o
homem sexagenário disse-lhe que a pedido de um amigo lhe mandou entregar um pacote
que não sabia do conteúdo e mandou junto com a encomenda um recado ainda mais
curioso, dizia que, num desencargo de consciência, tinha que entregar todos os documentos
endereçados a Albert que o Sr. Sachs havia lhe enviado mas pensando ser algo de valor
surrupiou o pacote.
Enfim Albert tem acesso aos documentos que por tanto procurou e, sem êxito, preferiu
esquecer. Os papéis estavam recheados de provas comprometedoras contra algumas das
mais importantes figuras da província entre as quais constavam os nomes de Fiodor Gobery
delegado do distrito que cuidou do inquérito do caso do Sr. Sachs na ocasião do incidente, e
principalmente do Sr. Thomas Kandisc este aparecia nos manuscritos do Sr. Sachs como
alguém sem escrúpulos que o pressionava insistentemente para vender as terras da qual era
proprietário e usava o delegado para lhe fazer ameaças.
A colheita especialmente naquele ano foi abundante, cada vez mais empregados eram
chamados dos recôncavos circunvizinhos para ajudar na entre safra. Corria à larga uma
história macabra que um dos agricultores teria visto pelas plantações um esqueleto humano
insepulto que pela ação das chuvas emergiu. Mas o caso de um corpo em um lugar de
tamanho remanso mais parecia conversa de algum maluco querendo colocar medo nas
pessoas.
Sabendo da história Sam Gérmann entende por bem averiguar e acompanhado de alguns
amigos vai até onde corre o boato e pede mais informações a respeito da tal caveira. Com o
auxílio de um facão, afiado à cortar luz e um alforje, Gérmann se embrenha no meio do
mato e após alguns percalços e uma longa jornada que lhe lembrou de quando ainda
trabalhava na Salomon & Hoppers acabou por desistir e quando estava voltando se
defrontou com uma bota que lhe chamou a atenção por estar em lugar inesperado: junto de
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uma corda ao lado de algumas peças de roupas que pelo efeito do tempo já estava se
recompondo ao solo. Ao ver os objetos Sam Gérmann concluiu que a história do esqueleto
estava agora amparada em fatos concretos. Andando mais algumas horas pouco antes do
anoitecer Gérmann vê uma trilha feita há algum tempo e resolve segui-la e qual não é sua
surpresa quando encontra um esqueleto semi enterrado. Um detalhe logo lhe desperta a
idéia de que se trata do Sr. Sachs; as barbas frondosas venceu a ação do tempo e
continuava enorme, como se tivesse continuado a crescer após a morte. Atônito, Gérmann
ao lado de seus amigos demarcam o lugar por fazerem uma clareira e ampliando ainda mais
a trilha para que não a perdessem mais.
Vidas que se enlaçam no destino inominável de cada ser vivo, ela sempre a espreita, não dá
qualquer chance de refúgio a quem quer que respire, a única certeza real e nunca aceita e
mesmo sabendo do inevitável destino do sono profundo, ainda se busca lá nas profundezas
do íntimo, às vezes ainda nem por nós mesmo explorado, uma centelha de esperança de que
somos imortais, não imortais como heróis que vencem a tudo e a todos mas esbarram na
última grande batalha, e sim imortais como o tempo sem grandes batalhas sem grandes
lutas mas que apenas vencem em vida, na vida. E como encarar as intransponíveis
cordilheiras do destino e se curvar ante à quimera incomensurável que é o fato de não mais
existir sem se desesperar ou mesmo se entregar em estado físico ou mental a perturbadoras
sensações de impotência e até mesmo, por motivos incompreensíveis, atribuir a nós
mesmos a culpa pelo já sabido desfecho inexorável que nos aguarda? Ter espirito elegante
e corajoso para quando com ela se deparar fazer tal qual o fez o ateísta filósofo grego
Sócrates (c.469-399a.C.) que acusado de corromper a juventude grega fora condenado à
morte, ingerindo uma taça de cicuta. Não obstante, quando informado pelos seus algozes de
que não mais poderia se mover em baixo do sol, apenas sussurrou com sapiência, ante o
terror de receber a noticia da pena capital: “E não estamos todos?”.
O mal estar que Ammy estava sempre sentindo e as constantes visitas do Dr. Rakosi
reservava uma possível boa nova para todos, não tardou muito e as saliências abdominais
denunciavam que um rebento estava por vir, o ambiente lúgubre pelos últimos
acontecimentos deu lugar a uma jactância exacerbada quando confirmada a vinda de uma
criança que selaria de vez a relação dos Gérmann com os Fazekas. Quando em primeira
mão recebeu a notícia, Madeleine não conteve as lágrimas e deixou-se marejar os olhos,
tinha muita afeição por Ammy e estava vendo nela o desejo irrealizado de ter um filho.
Quanto a Albert a sua reação foi delirante. O chão ficou-lhe inacessível. Mostrou-se tão
esfuziante com a surpresa que saiu em disparada ululando em altos brados, e a plenos
pulmões, que iria ser pai, correu por toda vizinhança deixando pelo caminho um rastro de
sapato o inseparável suspensório e o terno de linhas brancas jogados ao chão, sua emoção
foi tão intensa que as veias de seu pescoço se estufavam a cada grunhido entoado, como
que demonstrando todo o furor a fremir até pelos músculos. Gemeu com furor. Teve os
sentidos tolhidos e encurralados numa provocante e incontrolável sensação de vitória. Com
um misto de riso e lágrimas sussurrou a Ammy que entregaria a alma por ela e pelo filho
pois a partir daquele momento sua vida estava inteiramente dedicada à família, e
abraçando-a com ternura disse o que sempre quis lhe dizer:
-
Finalmente somos três! – fala-a com a voz aos pedaços.
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Quando encontrou com Gérmann beijou-lhe fraternalmente o rosto e o encharcou de pranto,
agradecendo por tudo que havia feito por ele e por Ammy:
- Minha vida está recomeçando agora... - balbucia em meio as gotas salgadas
que insistem em lhe cair da face.
-
É motivo de alegrar-se, não de chorar homem!! - inquieta-se Gérmann com o
exagero do amigo. – E sabe o que fazemos quando temos uma notícia assim?
-
Aos barris! - grita Albert, enquanto se livra de alguns espinhos que lhe
fustigavam a pele quando saiu descalço pelas ruas, e só agora se apercebeu que
sangrou-lhe os pés.
Vão mais uma vez ao já célebre ritual de cavar em busca do “liquido dos deuses” como
Albert definiu a zurrapa feita por Gérmann, só que dessa vez a preciosa bebida está com um
sabor diferente um gosto amargo e acre que nunca havia ocorrido até então. O gosto aziago
da bebida escondia algo que não eram atenuantes, mesmo assim eles se entregam a
embriaguez e começam a balbuciar palavras desconexas, deixando que o alto teor de álcool
no sangue por eles falassem:
-
Estou muito preocupado com o nosso futuro... – diz Albert, detendo o olhar para
o nada.
-
O que quer dizer com isso? – completa Gérmann um pouco mais sóbrio.
-
Estou pensando em mudar daqui... quero mais espaço para criar o meu filho...
- In vino in veritas! – estrila Gérmann citando uma expressão em latim que dá a
idéia de que “com o vinho vem a verdade”, levanta-se e vai embora dali entristecido
com o que ouviu do amigo.
Só restam nove barris.
A situação de alguns imigrantes que estão no vilarejo é muito diferente da de quando
chegaram, aquela gente metida em andrajos e maltrapilhos, alguns até mesmo feridos pela
barbárie que sofreram enquanto tentavam o êxodo para um lugar de esperanças menos
mórbidas da que os reservava o país de origem, nem de longe lembra as pessoas de posses
que hoje habita a província que ajudaram a transformar numa grande cidade e, à epígrafe,
mergulharam num mar de prosperidade regado a doses de otimismo e fartura nunca antes
ali vista.
Neste ínterim, Albert amealhou uma excelente clientela basicamente formada por
comerciantes que confiavam a ele a penca burocrática, sendo ele tributarista era muito
assediado até mesmo por outros de regiões circunvizinhas. O dinheiro veio a reboque,
conseguiu estabelecer um condição ainda mais abastada da que tinha na Romênia e, o
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terreno onde a duras penas construiu uma casa simples mas confortável estava ficando
pequena demais para sua posição, tanto que alimentou o desejo de mudar-se antes mesmo
de a criança nascer.
Suas boas relações compreendia aos bons homens de alta estirpe, se tornou muito amigo do
alcaide da província mantendo com ele uma estreita amizade que também em muito ajudou
a formar a sua seleta clientela.
As locomotivas rilhavam cada vez com maior freqüência pelos taludes, que davam
sensibilidade ao som, e a penumbra caindo abria uma dúvida deliciosa de se ter, pois
quando uma nesga de noite anunciava se apresentar, alguns outros pontos do talude
conservava imperiosamente a claridade do dia quando os dois ponteiros do relógio estão
alinhados na vertical, o maior ocultando o menor, fazia um paralelo com os dois astros que
se revezam entre um giro e outro sobre o eixo, parecia um pedaço do fim do começo entre a
noite e o dia, parece que os dois sempre estão juntos mas nunca vemos porque não se pode
ver onde acaba o começo.
Com a expansão do comércio, uma verdadeira chusma de carruagens e diligências que
eram usadas para o transporte de cargas para as baiúcas e os demais estabelecimentos
comerciais causavam um congestionamento digno de uma grande metrópole, as ruas
ficavam lotadas e a qualidade de vida ia se degradando a medida que a região central ficava
entupida num meneio de gente e cavalos.
Em uma de suas muitas conversas com o alcaide da província, Albert sugeriu ao seu amigo
que tomasse uma decisão ousada: lembrou-lhe que na Roma antiga, em função da alta
contingência de quadrigas e carruagens foi tomada uma atitude que resolveu de uma vez
por todas o problema do trânsito: todas as entregas ao comércio deveriam ser feitas à noite.
O alcaide interessou-se pela idéia mas queria, antes de tomar a decisão, ouvir a
comunidade, numa atitude que contradizia os princípios comunistas, portando
antidemocráticos, numa evidência clara de democracia, e por essas atitudes gozava da
amizade de Albert.
A bruma que caía no alvorecer, deixando a atmosfera turva e embaçada, numa cinzenta e
triste manhã em que o regalo era imprescindível para ajudar a aquecer as mãos em função
da nevasca repentina, incomum à época, intempestuosa e fria alterando em minúcias a visão
dos campos agora enleados a uma espessa camada de gelo qual arrasador de verdes e
andejo de terrestres pouco habilitados a caminhar em tão vasta extensão de solidificação
hídrica. Silvava em meio as volumosas torrentes, que maltratava as ainda firmes e
incoercíveis plantas de podar, cigarras que com seus estrídulos rivalizava com a tenebrosa
tempestade fazendo uma combinação de sons que soava aos ouvidos como que eufonia.
Pouco depois de encontrar o corpo do Sr. Sachs Sam Gérmann volta ao local com alguns
policias para resgatar os seus restos mortais e para também periciar o local. Albert ,depois
de todas as medidas cabíveis terem sido tomadas, pôde sepultar o seu chefe que com apenas
um pouco, muito lhe fez.
- Não suporto mais a morte... – fala Albert a Gérmann.
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- Ela faz parte da vida... Temos de aceitar...E a morte se aceita... Não se a
discute... - devolve Gérmann.
-
Eu sei... Mas não consigo...
-
Entendo... O Deus que habita no mais alto dos céus nos incutiu a idéia de nunca
morrer-mos, por isso nunca a aceitamos.
-
Ouça Gérmann: a morte é um corpo estranho, ela não tem razão de ser!
Thomas Kandisc imperava absoluto há algum tempo. Mas a sombra de alguém que não
mais poderia encobrir a luz o incomodava insistentemente.
Por iniciativa de Albert, foi instaurado um inquérito para apurar as apropriações indébitas
promovidas pelo Sr. Kandisc nas terras pertencentes ao Sr. Sachs e, ainda mais grave, uma
acusação por responsabilidade, de modo que através das particulares investigações que, a
mando de Albert, Gérmann realizou, descobriu-se que o homem encontrado eivado de
hematomas e com uma traqueostomia que pela desnecessária incisão, morto na casa do
senhor Sachs, nada mais era do que um ex-funcionário do senhor Kandisc.
O mesmo homem que tempos atrás procurou por Albert para a ele devolver os documentos
que o Sr. Sachs lhe tinha enviado, torna a ver a Albert para lhe entregar mais alguns papéis
que talvez houvesse esquecido de dar-lhe. Prontamente recompensado, o alvíssaras saiu a
correr quando se deu conta da gorda recompensa dada pela agora exata quantidade de
papéis que desde o início tinha como destinatário o próprio Albert. Ao abrir lentamente os
envelopes, Albert se depara com o que seria possivelmente a maior surpresa de sua vida,
entre as cartas lia-se:
“... Ao filho que sempre quis ter mas que o destino cruel me negou por toda vida, delego
todas as minhas, para mim infrutíferas, riquezas que tanto mal me fizeram nesses doloridos
anos de vida em que tive de abdicar dos mais singelos prazeres da vida para me dedicar a
encontrar felicidade em algo que só me trouxe dissabores e sofrimentos. O destino só não
foi ainda mais impiedoso para comigo porque tive a sorte, lamentavelmente no fim da vida,
de conhecer um homem de caráter inquestionável, alguém que sempre tentei encontrar...
quando em certa ocasião lhe falei que tinha planos para você não estava brincando...”
Colocar dúvidas e ser céptico em coisas que na maioria das vezes não conhecemos a fundo
faz parte da cultura humana, e Albert mesmo apesar de ler e reler todas as palavras que
dizia a minuta a ele endereçada, não acreditava no que estava lendo e pôs-se a se perguntar
uma enxurrada de por quês. Por que o Sr. Sachs gostou tanto dele e não demonstrava com
ações o seu sentimento? Por que o deixou ir embora do armazém mesmo em face de
tamanha pressão para se ir. Por que não informou que estava sendo ameaçado pelo Sr.
Kandisc? Essas séries de perguntas aliadas a uma imensa sensação de arrependimento por
não considerar ou mesmo perceber as verdadeiras intenções do Sr. Sachs fez com Albert
gemesse no seu íntimo.
-
Fui traído pela minha intolerância! – murmurou a Ammy.
31
-
Você não teve culpa... Não poderia saber o que se passava pela cabeça dele... –
minimiza Ammy.
-
Ammy... – fala absorto. – ...Temos de saber e observar o que está além dos
olhos... e isso se chama perspicácia...se não enxergarmos o que os outros não
conseguem ver nos tornaremos comuns...e a diferença está em não ser
comum...se quisermos fazer a diferença temos que estar a frente do óbvio. filosofa.
Zoldan Sachs teve o cuidado, como que antevendo o que lhe reservava o destino, de
registrar no cartório da capital todos os documentos em que passava para o nome de Albert
as suas propriedades, na pública-forma ele deixou não apenas a soma póstuma de sua
herança mas também um pouco do que não quis demonstrar em vida. A espinhosa tarefa
que Albert tinha pela frente era danosa: enfrentar a previsível fúria do senhor Kandisc que
não gostaria nem um pouco de saber que as terras de novo tinham dono.
Mas o primeiro passo de Albert foi reabrir o armazém para reabilitar a vida dos dezesseis
funcionários que ficaram sem emprego, conquanto arrumaram alguma maneira de
conseguir fazer trabalhos que garantiram a subsistência no período em que ficaram sem o
emprego.
De posse dos papéis que lhe davam o direito de repatriar as terras que de modo sub-reptício
foram levadas a uso alheio, Albert enfim bate de frente com o temido homem de sete faces
primeiro por lhe entregar um pacote que continha a exata quantia por ele usada para
comprar as salas:
-
Vou ser generoso com o senhor... Thomas Kandisc... E dar-lhe dois dias para
que desapareça de uma vez por todas das terras que agora por direito e por
decreto são minhas! Não quero sentir o seu cheiro repugnante pelo resto da
minha existência! Alguma objeção a fazer? - endurece Albert.
-
Mas vejam todos os aqui presentes! Eis que um homem invade meus aposentos
e me injuria com destemida coragem! Como sabe meu nome afinal?
-
Sua má fama o precede. E se olhar nos meus olhos irá saber quem voz fala...
-
Ora, ora... Não é que o pobre rico garoto que a até pouco tempo atrás estava
carregando carroças e limpando os excrementos do animal que carregava as suas
ilusões está agora a me ameaçar? - disse arrogante.
-
Meus valores são maiores que os seus...E não estou disposto a me contaminar
com a sua asquerosa pessoa, portanto lhe digo que em nenhum momento
alimentei um só resquício de medo do senhor que só a educação me permite
chamar assim. – Diz
Albert muito calmo e medindo as palavras.
-
Está mesmo disposto a medir forças comigo?
32
-
Não meço forças com alguém que tem um espírito de escorpião, logo, dispenso
sua sugestão. – disse levantando-se e apontando a direção para a porta de saída.
-
Você está desafiando o desconhecido garoto! Não sabe do que posso fazer para
impedi-lo!
-
Sei sim senhor e vou provar o que fez a duas vidas inocentes. – ameaça Albert.
-
É melhor ter cuidado no que diz para não se complicar ainda mais... Muito
embora eu lhe pergunte: do que está falando?
-
O senhor sabe muito bem do que falo! – reverbera irado.
-
Se você pensa que poderá impedir meus planos está enganado, e aguarde pois
em breve saberá com quem está se metendo!
-
Gente do seu quilate não se precisa conhecer, se precisa manter distância.
Após exclamar as diatribes, Thomas Kandisc saiu da sala de Albert a bater nos ventos,
encolerizado, e repuxando insistentemente sua calça começou a perceber que tinha
encontrado um rival que realmente lhe fizesse frente e, depois de encilhar seu cavalo, ainda
fitou sombriamente seu oponente, que acompanhava seus passos sem se desvencilhar por
um só minuto até ter a certeza de que o ladravaz iria dali se esvair. Em meio as crispadas
violentas que o animal recebeu ao ser impiedosamente açoitado, levantou-se uma imensa
cortina de poeira nublando a visão de Albert que nela refletiu sobre se valeria realmente a
pena uma cruzada com um homem nefando como o era o senhor Kandisc sendo que estava
prestes a realizar o sonho de ser pai e a carreira cada vez mais promissora poderia dalguma
forma ser abreviada pela fúria do facínora que, pelas mãos do destino, atravessou seu
caminho.
Entreolham-se vinhas, que carregadas em cabazes com torniquetes atravessados a quase
boca, num lugar após outro em épocas de fartas colheitas, a supressão de bom clima para o
cultivo eficaz das videiras, arrematam por vez só, em veredas de verdes vivos, longos e
altaneiros morros, que uns ao lados dos outros fazia às vezes de gelosia, qual imensa janela
esculpida pelos inimagináveis anos e séculos e decênios que a generosa e inesgotável
natureza, com a cooperação singular e insubstituível dos ventos, que dela faz parte, moldou
às vistas de ‘Dois’, estes ímpares, e angelicais miríades qual exército alado, que
testemunharam e, de júbilo, aplaudiram cada assombrosa e interminável, na perspectiva
humana de entender o tempo, nova e gloriosa formação qual quadro de similares
inexistentes.
Budapeste, 18 de Janeiro de 1877
33
Os Gérmann e os Fazekas vão até a capital para providenciar o enxoval do bebê que está
prestes a nascer. Madeleine e Gérmann apostavam num varão, do outro lado, Albert e
Ammy ansiavam por uma menina, a expectativa era tanta que os casais resolveram fazer
um acordo; uma vez sendo o herdeiro um varão, Gérmann se encarregaria de providenciar
todo enxoval indicando a cor respectiva; por sua vez Albert compraria a outra.
-
Tenho certeza de que será um menino! – entrega Madeleine.
-
Meus sentidos estão aflorados... sei que será uma linda garota! – esbalda-se
Ammy em precoces elogios.
-
Tudo isso é bobagem! Tanto faz se for menina ou menino... será amado da
mesma forma... ou vocês afinal querem dois de uma vez para aumentar o
trabalho que terão? – caçoa Albert.
-
Tarefa inglória essa de querer saber do futuro não acham? Só o bom Deus o tem
guardado à portas que apenas Ele tem a chaves! – exclama Gérmann, sempre
introspectivo nas suas reflexões.
Enquanto circulavam pelas margens do Danúbio impávido, se viu uma correria
incontinente que se desenrolava pelas docas e invadiam as amuradas de onde agrupavam-se
as típicas barracas armadas para a venda de almiscaras e também objetos de argila quais
obras artesanais, e alguns frutos que o rio produzia a tento de impedir que a concorrência
de maior tamanho e, portanto de melhor preço, se apossasse de tamanha leva de gente que
compravam de tudo o que necessitavam. O qüiproquó cada vez mais se avolumava e as
pessoas que meneavam por entre as vendas se arremetiam para de fato não serem
arremetidas umas contra as outras e corriam em fração de tempo para abrigar-se de
possíveis pisões tendo em vista a fúria infrene que dominava os homens, que montados a
cavalos tornavam ainda mais perigosa a intentona iniciada por um larápio que a passos de
serelepe prodigiava a enfrentar um regimento de vis enlouquecidos por apalpar as suas
costas. A confusão se fez tamanha, a ponto de aturdir até aos que estavam acostumados a
ver cenas de igual intensidade, e fez com que Gérmann, a cargo de liderar o séquito,
procurasse se esconder nas vagas das enormes balaústres que decorava as imensas e
monumentais construções que fazia da arquitetura local uma espécie de singularidade com
o resto da tradicional Europa.
Quando enfim vencido pela falange de homens que o perseguia sem dar descanso, o lépido
gatuno fora dominado e levado ao opróbrio público, ato comum em casos assim. No meio
de toda aquela gente ávidas para lhe tocar a face, Albert se antecipa à multidão e quando
tenta sem sucesso ver o rosto do pobre infeliz, é atropelado por uns outros que vinham de
trás ainda mais dispostos a saber de quem se tratava, acompanhado de um feroz coro que
dizia “Espanquemos o punguista!, Espanquemos o punguista!”, os soldados bem trajados
em capotes cinza-chumbo com polainas de pele animal logo se macularam de poças de
barro que salpicava para todos os lados a cada passada firme em direção ao meliante e
possível punguista. Em um relance consegue pelas costas ver o homem malfadado à má
sorte, recupera o equilíbrio perdido, repuxa o suspensório que desgarrou-se pelas violentas
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trombadas que sofrera, tenta dar potência adicional à visão e classificar rosto conhecido e
desconhecido memoriza um e descarta outro, reabre a imagem desclassificada e a dilui pela
descarga da mente bombardeada por infinitos lampejos de faces que insistia em permanecer
reais e que ganhavam vozes porque se as ouvia.
Lívido, Albert preferiu nem comentar o que talvez pudesse ter visto, e ajudando a Ammy,
que estava pela sua natural condição frágil, a se levantar e dali se ir de vez.
A nobreza de sentimentos se mede por ações e por poucas palavras, a hombridade porém
requer um senso preceptivo ainda mais aguçado auxiliado de variações invariáveis de
comportamento, admira-se pelo que se é, pelo que se faz, mas não raro, pelo que se torna.
Fortunas se ganham, fortunas se dispersam. Os primeiros signos de valor, as moedas, eram
usados como bem de troca, originalmente, indivíduos cunhavam um símbolo em rodelas de
metal que variavam seu valor conforme o peso. A partir do século XI d.C, o valor passou a
ser representado também em documentos de papel impresso: as notas ou papel-moeda. Mas
a idéia de serem elas redondas partia de uma premissa curiosa; uma vez sendo ela redonda,
um círculo alusivo a continuidade, portanto sem fim, imaginava-se que era para que
circulasse mesmo, sem um dono por tempo integral, mas que rolasse, ir-se e vir-se, fosse e
voltasse, destarte não teria um único senhor por tempo indefinido.
Todo o desenvolvimento sustentável tem suas desigualdades, sempre que alguém ganha,
alguém perde, a paradoxal e hermética matemática do um ter e dois não ter se estende
desde de tempos remotos, seja no berço da democracia, vide Grécia antiga, ou no que se
entende de “moderno método de governo”.
Se valendo da monção de fartura e combinações de eventos a que nem todos os pobres
mortais têm, durante a curta passagem da vida, de usufruir e deleitar, Albert, depois de por
a escabelo tudo o que a ele fora destinado, contemplou tudo que lhe pertencia, avaliou em
minúcias para ter a exata extensão do que representava tamanha riqueza. Contudo, não se
ensoberbeceu, não se deixou esfoguear a tez aveludada, não se encontrou nele qualquer
menção de altivez correlacionada com uma súbita mudança de estilo de vida, que pela
segunda vez lhe vem a acontecer. Atos de nobreza vão escasseando cada vez que as pessoas
mais se preocupam em somar à dividir, se esquecendo que a melhor e mais eficaz forma de
somar é dividindo, neste prisma, quando um ou outro resolve se interpor ao que todos vêem
como normal, este é conduzido a quintessência, como alguém que não existe, que não há.
Passado um solstício, os dias de máxima inclinação do Sol em ralação à linha do Equador
quando o mesmo está a pino, evidencia-se também que se está no dia mais longo do ano no
hemisfério Norte e o mais curto no hemisfério Sul, uma multidão se aglomera em frente a
prefeitura. Lá se entregavam senhas prontamente numeradas e, em eqüidade, para que todos
os ali presentes pudessem em igualdade de condições obter com lisura a sorte que lhes
cabia.
Fora distribuídas entre os de condição menos favorável, em partes iguais, lotes de terra para
que pudessem obter o que deveria ser o básico comum.
Desde a chegada das locomotivas oriundas da Romênia, não se via tamanha ebulição de
ânimos, muitos ficaram até mesmo incrédulos, sem compreender direito o que estava
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acontecendo, mas sabiam que a partir daquele momento teriam um lugar onde poderiam
tocar adiante suas vidas de poucas ambições.
Ao alvor da risonha e ansiada manhã que sucedeu ao dia do sorteio dos lotes, as pás e os
alviões, que serviam para escarafunchar a terra fértil, eram substituídos por um imenso
mutirão de homens envergados a construir uma paisagem menos desértica que a primeira
empreitada, promovida pelo Sr. Thomas Kandisc, tinha desenhado nas vastas extensões de
verde que cobria toda depressão alongada entre os montes e os sopés dos vales qual várzea
de planícies.
Depois de o sol declinar-se a medida da linha do Equador, ouve-se pelas ruas rumores de
que o Sr. Thomas Kandisc estaria envolvido na misteriosa, e ainda insolúvel, morte de
Zoldan Sachs. Em busca de provas que desse cabo a toda mórbida história foi-se, por
iniciativa de Albert, elaborada uma detalhada investigação que culminou com o que já era
esperado: o homem morto tinha uma ligação perene com o Sr. Kandisc, sendo ele um
antigo funcionário que por motivos nebulosos fora sumariamente demitido, tirava a paz do
ex-patrão por lho reivindicar honras obrigatórias em casos de demissão, não satisfeito com
o fato tê-lo mandado andar às ruas, Thomas Kandisc destinou a pedra presa ao pé uma
indefectível e emaranhada cilada: deu o endereço do senhor Sachs para que lá pudesse
enfim acertar as contas, pois depois de tantas discussões convencera o operário de que não
mais queria vê-lo perambulando pela mineradora. Aproveitando o veio, Thomas Kandisc
começa dar alma a sua macabra idéia. Tão logo marca dia e hora com o infeliz, vai até o
armazém e convida o senhor Sachs a ir até a sua casa com a desculpa de que lá chegando
iria lhe propor um negócio irrecusável, muito embora não houvesse da parte do senhor
Sachs qualquer disposição para se desfazer do seu vasto latifúndio. Arquitetado o plano era
hora de executá-lo, enquanto estavam conversando, outros oito homens aguardavam, de
tocaia, por entre as árvores que derredorava a casa do senhor Sachs. O primeiro a chegar foi
o ex-funcionário que de tanto nervoso roía as unhas tão freneticamente que lhe sangrava
impetuosamente os dedos e formava cavidades por onde os dentes ferrenhos encontrava a
morder. Toda exagerada excitação se devia apenas porque lhe havia esperança de quitação
por tantos anos trabalhado, soubesse ele o que lhe reservava o iminente e indesejado futuro,
decerto teria levado à palma todos os dedos da mão.
Passado tempo, tem-se tomado vista o senhor Sachs, que, sem circunver a casa, vem
trotando a passos céleres o alazão, de espesso pêlo amarronzado, exaurido e com a língua
pendente e gotejante ávido por encontrar um dique salvador para lhe saciar a sede. O
senhor Sachs estava como que aprisionado por uma estranha sensação, a ponto de quando
desencilhou o animal foi, ofegante, buscar abrigo numa cipreste de um acanelado rubroso e
irregular formato cônico que se somava a uma estonteante envergadura de galhos flutuantes
e reversos. Em baixo dela, recostou-se, claudicante, e, pausadamente, forçando o enorme
corpanzil a contrapor-se no tronco com raízes à vista.
Achegou-se mais à árvore. E, ao contemplá-la imaginou que seus dias não seriam, em
verdade, como os da árvore. Suas mãos ossudas penetraram a camisa de fio tinto aquosa de
tanto suor, cuidadosamente observou os batimentos cardíacos até se certificar de que
amainaram as nervosas batidas das sístoles e diástoles que, pelas violentas infladas
artériais, pareciam querer expulsar o coração órbita a fora. De súbito, foi então cercado
pelos os homens do senhor Kandisc e, por livre e espontânea pressão, convidado a adentrar
a casa já tomada pelos meliantes que lhe começaram a intimidar com olhares inquisitivos.
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Entrando nas dependências, principiaram a destruir cadeiras e mesas e tudo o mais que lhes
tivesse ao alcance das mãos irrefreáveis prontamente programadas a por termo a objetos e
posteriormente a vida de homens, que pegos desprevenidos e inermes, pouco podiam fazer
para se desvencilhar da matilha que estava disposta a lhes abreviar a existência.
Se desenrolou então um festival de atrocidades. Primeiro fora executado o senhor Sachs, a
muito custo dominado. Depois chegara a vez da outra vítima da emboscada que, como num
amplexo sem defesa, fora agarrado pelos abutres de aluguel.
Uma vez mortos se preparara a cena quase perfeita para uma acusação que aparentemente
não deixaria suspeitas: o corpo do senhor Sachs foi subtraído do local para dar a idéia de
que fora ameaçado em seu domicílio e, em legítima defesa, sacrificou um semelhante com
golpes mortais desferidos por um objeto perfuro cortante.
****
Com as visitas de Ammy do Dr. Rakosi se tornando cada vez mais freqüentes e com elas os
intermináveis debates sobre as artes, aproxima-se a data da chegada do esperado rebento.
Suas contrações começaram a se intensificar exatamente no momento em que Albert, por
força do trabalho, precisava estar sempre ausente em viagens de longa duração.
Não deixando se abater pelos últimos e melancólicos acontecimentos que dava combustível
para que não se parassem de fazer comentários ou mesmo que fossem citados os fatos, Sam
Gérmann providencia uma bem animada reunião de amigos para tentar se dissipar e
esquecer a enorme procela que pairava e insistia em não dar trégua a sua vida e a de seus
amigos.
Em meio a animada confraria, um dos novos amigos de Gérmann se achega e pergunta a
Albert:
-
O que pensa você sobre Deus?
Sobressaltado com a pergunta Albert chega até a procurar chão ante a tão desarrazoada,
para a ocasião, e refletiva inquirição.
-
A que ordem defende o nobre homem? - devolve ao nível.
-
A Ordem de Deus! – alarmou sem titubear, porém vago.
Gérmann observando o quase prélio se agigantar intromete-se ao dizer:
-
Sei da existência de muitos luteranos por esses lados...Talvez faça parte dos que
repudiaram as idéias da Igreja...
-
Repúdio é palavra descabida quando se trata de assuntos sacros, não entende
assim Gérmann? – redargüiu.
-
Noventa e cinco teses foram suficientes para por fim a primazia da Igreja! destaca Albert.
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-
A venda de indulgências talvez não tenha sido a única inquietação do pai da
Reforma na sua cruzada com o Papa Leão X pelas verdades supremas...Talvez,
talvez... – alfineta Gérmann.
-
Onde quer chegar? Entende que as atrocidades patrocinada pelos católicos
realmente tinha o apoio irrestrito de Deus?
-
De modo algum... Mas tinha o apoio dos reformistas, não lembra?
- Que bom seria se todos acatassem os ensinamentos de Cristo! Mas, apenas
apregoam que o segue e o repudiam com as suas ações! – observa Albert.
-
O castelo de Wittenberg encrava em sua parede desde o século XVI, apenas
uma comuta do que se sabe há tempos as religiões no mundo e quando vamos ao
cerne das doutrinas vemos que as idéias são, na sua essência, as mesmas! - diz
ao bojudo protestante.
Antes de recrudescer, alguns preferem se esquivar quando o tema de uma conversa
permeia, primeiro devagar e depois veloz, o assunto que causa náuseas e nefralgias até
mesmo nos mais dados aos assuntos do céu com interesses que dizem respeito à terra:
religião.
Amparado por Gérmann, Albert se delicia com o roliço candidato a teólogo que, de
sopetão, cutucou com vara longa, e se entreveio ao diálogo que por pouco não se tornara
uma algaravia.
Levando em conta e respeitando as idéias prementes do lado oposto, eles encetaram seus
ditos proverbiais tentando, com dificuldade, arrazoar as crenças que se acredita estarem a
todo e irremediável custo certas. Raciocinaram sobre temas polêmicos, perpassaram nos
pontos de vista que invade os que ainda não tem forças para decidir o que na verdade
querem; se desejam ser ateus ou crer que existe um Criador. Considerando e visitando os
meandros dos ensinos filosóficos que em muitas vezes vão de encontro ao que é
considerado a constituição dos assuntos de Deus; a Bíblia.
Continuam a prosear em torno das doutrinas. Albert considera com os seus, o porquê e de
onde vem dogmas que sua compreensão não permite absorver com toda candura a que se é
disposto a entender. Passa a parafrasear interrogando. “Não dizem então todos os da fé que
Deus é amor?, e por que mesmo dizem que Ele deixará às chamas os impenitentes? Teria
mesmo subido ao coração do Soberano tamanha contradição à sua essência que é o amor? E
de onde vem o indigesto trino de deuses? Ora, Ele não é apenas e um? Como entender que
um é três e que três são um, mas um não é três, e três, segundo a álgebra e a razão, não
pode ser um? Sem se aperceber ainda que esse mesmo Deus não é um ser dado a confusão,
antes, Ele é um Deus de harmonia. “A trindade, prossegue Albert sempre interrompido por
contraposições de Nils, é talvez o mais emblemático ensino das igrejas, eu me pergunto
com freqüência como eles chegaram a tal conclusão’, a roda de gente ia ganhando mais
olhares, todos se entreolhavam e alguns até mesmo ficavam se equilibrando nos artelhos
para ouvir o orador que dominava as palavras com rédea forte e explicava como quem tinha
autoridade sobre o tema, prossegue o seu preâmbulo sobre Deus. – Repare bem senhor Nils,
começa, dirigindo o olhar para quem iniciou a contra referenda, e presentes como é difícil,
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à luz da razão, aceitar essa doutrina, não quero fazer cair água onde já está molhado, mas
bem lembram alguns de vocês de quando o mesmo Cristo que uns dizem ser o próprio Deus
estava para ser executado, nas palavras de Lucas o Cristo disse: “Pai, se tu quiseres, remove
de mim este cálice. Não obstante, ocorra, não a minha vontade, mas a tua.” Agora pensem
comigo; primeiro fica patente que ele não tinha na morte um prazer, pois pediu para que
esta lhe fosse afastada, segundo, fosse ele o Deus Todo-poderoso precisaria de fato pedir ‘a
alguém que removesse dele a morte’, não, isso não se mostra aceitável! – Os mistérios de
Deus não são para a nossa exata compreensão Dr. Albert, adverte Heinrik Norman amigo
próximo de Gérmann e professor de filosofia do único Liceu da província, - A razão apenas
nos é aceitável quando se alinham aos nossos interesses, mas quando esta está na
contramão de nossas demandas aí é onde dobra o vento leste! A minha intenção não é a
intenção de vencer uma competição acerca de Deus, me livre Ele de tal maquinação! - Pois
se é assim faça como todos e acolha no seu coração os beneméritos da Santíssima Trindade
e estaremos todos em perfeita conveniência e harmonia! Disparou Heinrik que tinha um
cacoete irresistível de sempre que pronunciava palavras tocava nas pessoas para dar mais
ênfase à sua fala, fazia isso com muita constância; tanta aliás que quando ele franzia os
lábios faciais já se fazia sentir o seu dedo em riste a tocar a pele e a paciência de quem com
ele dividia um ‘dedo de prosa’. – É isso! É isso! As interjeições vinham acompanhadas de
rompantes quase coléricos, Albert cabisbaixo, revolvia a cabeça de um lado para o outro e
sorria sem mostrar os dentes, como numa ironia contida reparava nas feições dos fanfarrões
alegres que gargalhavam felizes como se estivessem prestes a receber uma polpuda cota de
ouro e prata de lei, de si para si cantarolava sem pontuação e desrespeitando as regras
gramaticais ‘são néscios inconseqüentes incompetentes lá rá lá rá lá não vou me confundir
nas suas banalidades lá rá lá rá lá rá eles não irão me tirar do sério são patetas são tolos lá
rá lá rá lá’, entre músicas provenientes da mente e degredos externos que lhe fulminava e
embaralhava às idéias fixas no cérebro; seu rosto delgado foi ficando carminado, ‘ainda não
chegou o desfecho, proseou tendo o cérebro como testemunha, ainda não acabei de expor o
que eu penso, eles não perdem por esperar, não perdem, não perdem, notei no senhor
Heinrik um pretensioso maior do que o senhor Nils...’, ladeando as banquetas da varanda as
esposas de Albert e Gérmann recepcionavam os comensais, lá fora se formavam nuvens de
chuva.
Griger Nils era um bem conhecido protestante que proferia aos quatro ventos sua achegada
relação com assuntos da igreja, eloqüente e extrovertido, logo ganhou a simpatia dos da
redondeza.
Não tardou muito e foi pedir a Albert uma oportunidade de emprego, que se dizia, além dos
conhecimentos de teologia, ter cursado em Oxford, um bem aventurado estudo de
economia, o que lhe dava crédito para oferecer a Albert serviços de boa qualidade em sua
próspera Firma. Fluente na língua de Newton, Griger Nils não escondia de ninguém sua
exagerada, para um cristão, ambição pelo dinheiro, tentou por vezes trabalhar na capital
mas o insucesso de suas empreitadas o fez retornar para a província natal.
Com um bom currículo, Albert não pensou duas vezes em contratá-lo, era o homem ideal
para cuidar de assuntos burocráticos visto que cada vez mais precisava se ausentar da
cidade para ir até a capital.
Em uma de suas curtas viagens Albert deixou a cargo de Nils algumas tarefas de fácil
resolução, o que ele não esperava é que o novo funcionário estivesse tão resolvido a poder
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ajudar que, de pronto, tratou de ir até a estação para lhe reservar o bilhete de ida, surpreso,
Albert viu que tinha alguém de extrema competência por perto para ajudá-lo a empreender
cada vez mais e assim conquistar os objetivos ansiados por uma longa e turbulenta vida de
desafios e desditas.
Os corriqueiros infortúnios e as recidivas que corrobora em uma porção de cantos em
cantos, lembram às vezes o mar revolto; estando ele em desalinho, furioso e de ventos
tórpidos arrematando em contra mão até ilhas que dele tira o sustento, rumando sobre o
silêncio quando cala, e criando, sim, até mesmo quando está destruindo cria, cria órfãos, dá
a luz a tristeza mesmo em lugares desertos onde vida hábil não há, mas há movimentos em
sincrônia perfeita não movimentos calculados que acabam indo bater onde, na verdade, o
que se queria era a catarse mas que invariavelmente dar-se a acalentar o que não se espera,
o colapso. Denota-se por ver as virtuoses do ser e saber o que imaginar se pudesse ancorar
o austero e servil pensamento de andar por não aprumar, como que reinventando o passado
tentando entender onde não requer compreensão como querer saber quem foi maior se
Cervantes ou se Quixote, caso comum onde criador e criatura se fundem num dois que quer
ser um, existiram para ser um, independentes, mas voa anda e nada, estando separados e
sobrevivendo a mudanças de cultura costumes e temperaturas. Incapaz de findar questões
de envergadura que vão além do unidirecional e irredutível passar de dias, dias e noites
certas, essas sim, que circunda e corteja o que se pode esperar e é inalienável por eras,
desde o princípio; depois da luz do dia vem a da noite.
Pelas janelas de aberturas largas e vasos de coloridas e baldias flores que imprimia mais
brilho ao jardim entremeado de riscos de lagos que aprisionavam ariscos peixinhos de tons
aveludados, a casa de Sam Gérmann guardava até no piso, de índole escorregadio, uma
habilidade que propagava os vãos de cima a baixo sem obliterar quais fossem os ângulos
percebidos de volta e vinda, as escadas, de corrimão belicoso, era um convite à queda
constante ora quem as subissem matreiro, ora quem as descesse disperso, pois o desenho
desordenado fazia ligeiras curvas num ponto onde teria que ser reto e, degrau a degrau,
quem nela se aventurasse destemido, assumia deliberadamente o risco de se perder ao chão
semelhantes a cadafalsos sobrepostos e imprecisos. Quão impessoal era pedalar sobre essas
vigas convexas, mais fácil e seguro seria, de déu em déu, procurar aonde os pés colocar a
pisar.
Pelos desalinhos hostis da escadaria em caracol, Gérmann apreciava sentar e ver, numa
visão refratada pelas lágrimas, que em breve poderia ver uma família se desdobrando em
mimos e carinhos assim por vir.
Cabia na divisão da cozinha, que era centralizada entre os cômodos adjacentes para melhor
distribuir o calor, uma convidativa mesa que ficava rente a parede lateral à porta de saída
de um dos quartos de dormir. Lá eles se juntavam para a ceia de todas as noites. Com
costumeiros e sadios hábitos de deboche, Albert erguia a contra luz um minguado pedaço
de pão untado com exagerada economia por Ammy, numa xícara de asa franjada com
filetes dourados, por atropelo, derramava gotas de leite por entre os dedos; a primeira gota
a tocar o indicador logo deslizaria procurando o médio depois o anelar até o mínimo, como
descendo escadas. Comparou o pedaço que Gérmann recebera de Madeleine e, mudando a
voz para um tom de reprovada aceitação, arqueia a testa e franze o semblante rosado e,
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como num monólogo teatral, levanta da cadeira e passa a encenar com direito a trejeitos e
gestos rompantes, mas solilóquio:
-
Será que ainda não me livrei das garras da pobreza que dilareça meu coração e
que deixa vaga as entranhas do meu estômago? Ou meu coração apenas dói
pelas coisas que não estão ao alcance das minhas cegas mãos e apenas bate com
felicidade quando cheio o estômago de ânsia de ter mais? Qual nada! Quero
tudo o quanto agora posso usufruir de bom a melhor que for, porque quando do
fim da minha existência, não mais poderei sentir vontade de fazer sequer o que
não quero. Agora comamos em silêncio e em paz!
Capítulo II
O barulho que se ouvia quando se andava pelas calçadas rochosas com pedras de silhuetas
irregulares, produzia um efeito ótico de retardamento da noção exata nos relevos que se
destacavam quando não o baixo também se fazia confundir. Os sinos tocavam
ininterruptamente a cada meia hora e, pelo efeito do som nos ouvidos, paralelamente,
levava uns e outros a erguer a cabeça e trazê-la de volta a confortável posição ereta, tudo
em sincrônia a cada intervalo de toques, como quem diz sim ao vácuo.
Numa decadente hospedaria com estranhas portas que abriam ao contrário, um cheiro
nauseabundo reinava solitário, uma parede de linhas tortuosas dividia com desnecessária
burocracia a entrada para as áreas internas.
Aparência intrigante e uma palidez cor de marfim vegetal. A violenta calvície começava
logo acima dos olhos, pois era desprovido de sobrancelhas, cabelos sim brancos, sim
pretos, davam-lhe um efeito de outra cor quando visto ao longe; ganhava um tom
cinzelado.
A figura esgrouvinhada e árida os pêlos do bigode espevitados sob o nariz aquilino e um
par de óculos de aros robustos, davam-lhe um avanço na idade ainda longe do crepúsculo.
Andras Forst costumava gritar com quem lhe a aparecesse frente aos olhos, mesmo quando
pedia favores, era bom nisso, tinha uma incrível capacidade de persuasão, era contumaz
também na arte de amaciar situações de risco.
Entrando e abrindo pelo lado certo a porta que abria ao contrário, chega apressado com
passos desmedidos, o mais odiado dos hóspedes que era conhecido por lambuzar com
acidez a relação com todos os outros co-habitantes. O único esperado para reunião
convocada às pressas enfim aparece, atrasado:
- Deu-se falta de um relógio no quarto oito...
anunciou Andras com voz de barítono.
-
Que tenho eu que ver com isso? Acaso pensa o excelente, que fui eu o autor da
vilania?
-
Não imagine que seu vocabulário polido possa salvá-lo da acusação!
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Com todos os hóspedes se entreolhando com intranqüilidade denunciada pela inconstância
nas posições que originalmente estavam antes da inquirição temperada com a gritaria usual
de Andras Forst, o suspeito número primeiro do roubo se retirou sem dar resposta da
hospedaria, abrindo com o peitoral a portinhola reversa, ele se adiantou nos passos, e foi
seguido e ouvindo amiúde exclamações em coro ‘para onde vai, para onde vai’, seguindo a
impaciência ele avista uma taverna; uma escada que descia do passeio dava ingresso ao
subterrâneo. Observou que dali saíam bêbados que se recostavam uns nos outros trocando
injúrias mutuamente. Com cheiro não menos nauseabundo que o da hospedaria, a taverna
de teto amarelado pelo tempo e pelo relaxo, desobedecia os padrões de higiene. Hordas de
moscas marchavam pelos pratos e copos, sem ainda contar as que ficavam se aquecendo na
luz bruxuleante que se erguia do teto amarelo. Após fitar todos os lados de cima à baixo e
passando a travar uma batalha para que as narinas despoluíssem o máximo possível a
imundície do mal cheiro que causava ânsia, apeteceu-lhe beber cerveja e sentou-se num
banquinho de três pés. Emergiu do balcão um rapazote de não mais que catorze anos e um
outro de idade não menos imprópria. Zelosos pela clientela, preparavam postas de peixe e
rodelas maciças de tomates verdes que servidos com azeite cru lubrificava a garganta para
descida queimante dos runs de pouca destilação.
- Eu proponho isto, a ver: se todos vocês creditam a mim o desaparecimento
do relógio, presumo que tenham, no mínimo, um prova que possa me incriminar, certo? E
assim sendo, me darei por vencido e confessarei mesmo tendo em minha sã consciência que
não fui eu o autor do furto, aceitam? Mas adianto-lhes: se não provarem a contento que sou
eu o responsável, porei a mão e os olhos nas suas almas até conhecer não quem fez o roubo,
mas quem me acusou, é justo, não acham?
Como numa assembléia, os acusantes consideraram a possibilidade mas reacendeu-se a
impessoalidade de tamanha contraposição pelo mero acaso de saciar a vontade que lhes
roubava a serenidade.
Desejosos de não ver se alastrar pelos domínios dos salões de versatilidade insuspeita, os
dois pequenos taverneiros se adiantaram em cochichar entre si. Antevendo um inevitável
voou de copos e garrafas pelos ares e focinhos, cogitaram em disparar pedidos efusivos de
calma que, ainda a antever, sabiam, pois empírico, não daria o resultado ansiado, mas num
vulto repentino cai-lhes sobre os pés e ainda quicando pelo piso umedecido até repousar no
estribo que servia também para atenuar a baixa estatura dos servidores de postas, um
reluzente exemplar prateado com mostrador na cor ardósia e ponteiros ainda dançantes.
Conversando pela linguagem dos olhos e sabendo o motivo pelo qual se levantava a
discussão que estavam ávidos a por fim, os dois irmãos não se fizeram de rogado e
tomaram uma atitude ainda mais suspeita que o local onde trabalhavam. Abrigaram no
bolso da calça xadrez a peça motivo de desordem iminente e se revezando em lavar servir e
tirar o que poderia se transformar em eventuais armas de guerra, não deram a mínima
quando um dos aguerridos falantes buscava com ferocidade saber que fim levou o relógio
que julgava ser-lhe de vital importância, estrebuchou de modo a intimidar até os aliados;
pois em punho uma arma de cano longo, mas que denunciava pouco uso a se notar pela
borda interna que ainda conservava uma incômoda sensação de que ainda não fora usada e,
somando-se a isso, a imperícia gritante com que tentava dominar a arma enorme nas mãos
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que tremelicavam a cada vez que surgia uma voz a lhe clamar calma, dava a impressão que
o revólver dominava o homem.
Feito o consumo do ato viril, o inconformado acusador dono de uns trinta e poucos anos,
não mais, e dono também da posse da bacamarte com cabo de madrepérola, apenas não era
dono do seu autocontrole, às bicas, caia-lhe suor perigoso.
Precisando de mais doze voltas do ponteiro ligeiro para se chegar ao meio do dia, dois
polícias invadem o estabelecimento desmanchando as já frágeis mobílias decorativas e
fazendo os ombros dos exaltados bebedores decaírem sem mais arroubos, rende o
circunspecto detentor da bacamarte que àquela altura nem mais sabia para quem estava
apontando, os dois pequenos e sagazes taverneiros provaram por um pouco do alívio da dor
passante quando um dos polícias reteve o olhar neles a esperar uma resposta eficiente do
que faziam ali dois frangotes em idade de leite, dois não; um. Num improviso do instinto
um dos irmãos, o que usava calça xadrez, escorregou por uma fenda miúda que se se
olhasse com olhos de cálculo se veria que não caberia ali nem sequer o chispe de um suíno
magro, mas tomado pelo medo o pré adolescente se tornou fino como um pavio e liso igual
superfície de um lago de gelo.
O lado de fora se revelava menos hostil para o intrépido aventureiro, cortando caminho e
subindo pelas vielas e becos, ele se descontrolou nos passos açoitado por tábuas podres e
despencou de uma altura de uns seis ou sete metros flutuou no vazio e espatifou-se sobre
alguns madeirumes que davam sustentação a uma reluzente construção de alvenaria e,
tendo os sentidos ausentes por um pouco, se via largado à própria sorte, sorte de quem tem
falta dela.
Com os supercílios em estado aberto e o sangue fazendo trilhas de lava em seu rosto
espadaúdo, despertou da queda porque teve as narinas obstruídas pelo sangue que coagulou
nas entradas das vias aéreas. Enxergando como se tivesse levado para o estômago todo o
estoque de run e aguardente da taverna, tentava reouver os sentidos com plena
complexidade, primeiro levou a mão esquerda, que estava livre das toras, ao nariz para
livrar-se do incômodo e poder respirar sem precisar do auxílio da boca pois esta
armazenava outra poça de sangue proveniente de alguns dentes que se quebraram na
violenta trombada. O dificultoso ar que chegava aos seus pulmões era extraído da
atmosfera como se esta fosse e estivesse rarefeita, coisa nem outra. Com o corpo por
completo contorcido e tentando com muita dificuldade erguer-se pelas fendas e vãos na
emaranhada teia de aranha em que se meteu, o pobre infeliz tossia com mais potência e
vigor que um tuberculoso e a cada tossida expirava para fora do corpo estreito nacos de
gengivas e cacos pontiagudos de dentes que antes de sair-lhe, rasgava-lhe pela derradeira
vez o céu da boca, cuspia vermelho. Quando por fim pôs-se de pé, sentia-se ainda meio
atordoado, como grogue, e veio a provar de novo o amargo dissabor da queda, caiu
inconsciente e assim ficou por toda longa e orvalhada noite tendo uma mãe coruja
crocitando nervosamente e lhe fazendo vigília. Ao fim do sonoite, o toque dos sempre
tímidos raios solares em sua face moribunda despertou-lhe do sono e o despertou para dor,
tendo algumas formigas a lhe rondar e cobiçar um tanto de sangue que untava seu corpo,
tentou mais uma vez se sustentar sobre os joelhos e mais uma vez desabou quando se deu
conta de que a perna direita não obedecia aos comandos do seu cérebro e sentiu-se mais
confortável deixado o corpo em L. Sentado, gemia de dor e seus gritos ecoavam manhã a
dentro passando pelas esperanças que queria despertar com a voz gutural, fez debalde
esforços com as cordas vocais, gemeu berrou e esperou que o milagre viesse do espaço ou
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redondezas, redendo-se, deixou o corpo em travessão. A vida era-lhe persistente; não quis
de modo possível desvanecer-se do seu carcomido corpo enfermo.
Lá pelas dez da manhã, ainda com a vida a habitar-lhe o corpo, foi acordado pelo
aconchego de um par de mãos macias a lhe acariciar a face com um pano úmido que se
fazia sentir pois tocavam nas feridas abertas que estavam cheias de areia.
A dona das mãos de veludo vestia um rodado vestido de cetim adamascado com uma cor de
definição que, por ser carregada, detinha outros atributos, os sedosos cabelos roçavam o
peito do pequeno e fragilizado taverneiro pois avançava à frente deixando-lhe as costas
desnudas, agradava-a ainda a postura de uma indefesa e frágil camponesa. Aparentando não
ter mais que dezenove floridas primaveras a moça de cabelos dourados, mais pela
hereditariedade do que pela benevolência do sol que castigava por não estar presente,
acolheu com deleitosa paciência em sua casa o rapazote que encontrara há pouco com a
ajuda providencial do pai e a imprescindível solidariedade de uma Alana Pedrovna.
Refeito e sem mais ter que clamar por alguém o rapaz tinha nas entranhas do pensamento
um luz vívida da imagem, ainda fragmentada, da beleza em forma de rosto que viu se
achegar a ele quando fazia do piso arenoso da terra colchão e alguns pedregulhos de
travesseiro, - Me lembro da moça que me salvou a vida... – grunhiu ainda febril – Onde ela
está, onde ela está... A quero ver de novo, preciso agradecer-lhe... – Balbuciava delirante.
- Teve fraturas múltiplas por todo corpo. - lhe falou uma voz sossegada que sublinhou o
‘fraturas por todo o corpo’ para dar-lhe a dimensão mais adequada aos ferimentos que
sofrera. Um dos olhos sequer podia abrir-se, inchado, seu pequeno rosto abrigava além de
insinuantes cavas rasas, uma deformidade que causava espanto; parecia que a jovialidade
abandonara-lhe a face, estava ela marcada com indelicadeza para o resto dos dias a passar.
Com pedaços de nuvens se formando pelos vincos da visão ainda empobrecida e sem cores
definidas, ele consegue deleitar-se com a flor de luz que parecia a donzela a quem agora
devia metade da vida.
-
-
Como se sente agora? – pergunta-lhe, quase num sussurro para não incomodar
com a gravidade da fala.
-
...Ainda tonto...
Vai ficar bom de novo, papai me garantiu isso...
Ainda tropeçando nos pensamentos e sem poder articular com coesão as palavras que lhe
rondavam à mente ágil, ele tenta se desvencilhar dos grossos cobertores que fazia do seu
mirrado corpo um casulo, foi até o estoque mais fundo de onde queria resgatar um quilinho
de força que fosse mas viu-se obrigado a se submeter à condição imposta pelos
descaminhos da impossibilidade, sem se dar conta de que não poderia se mover sem ajuda
de outrem, tentou por mais uma vez erguer-se forçando o antebraço contra o leito da cama
para ao menos pôr-se sentado numa mais confortável posição, conseguindo êxito no anseio,
começou a recobrar os, como ele próprio, fugitivos sentidos, lembrou-se do que lhe havia
acontecido e, antes de mais nada, pediu a sua atenta salvadora um espelho depois que
deslizou o dorso da mão, de modo que a palma estava impossibilitada, pela testa pelo
sincipúcio que ardia e doía ao toque, pelo queixo o entre a boca e o nariz que agora
abrigava um rasgo horizontal, como um bigode de autópsia.
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Trazendo-lhe o espelho de moldura abstrata, ela se recostou a ele dividindo uma nesga de
cama, condescendente, ela se viu no papel de espectadora solitária do que poderia se
transformar num choque, e, reconsiderando a ação, levantou-se de súbito e afastou dele o
espelho colocando-o em um pequeno móvel que fazia par com uma cadeira.
- Não quero que se veja assim, está muito machucado. A imagem que o espelho
irá lhe refletir talvez o afete de modo a ficar com traumas, o que pode retardar em muito
sua recuperação que não será das mais fáceis, além do mais para que aumentar o seu já tão
dolorido sofrimento? Esqueça o espelho, pense que ficará bem e, assim ficando, poderá
deleitar-se com sua imagem vez após vez que eu não vou fazer oposição como faço agora?
Entendeu?
Ela pronunciou estas palavras enquanto sentada na cadeira do par. A pentear as madeixas
dando as costas para ele que, pelo diâmetro generoso do espelho fazia malabarismos com o
pescoço para tentar ver sua imagem devolvida. Em cada esticada mais forte que dava vinha
acompanhada de gemidos ocultados por um pedaço de colcha que prendia nos dentes
semicerrados que quando comprimia para disfarçar a dor das lesões logo lhe vinha a dor
mais lancinante dos dentes quebrados. Tudo o que o ferido mancebo conseguia deixar em
foco era a nuca rosada e o sobre ombro nu, que se atreveu a imaginar roçando ali os lábios
cálidos.
Ainda sentada, ela entoava uma doce melodia de notas suaves, levava a voz ao limite do
agudo sem que se deixasse perceber a tenacidade do grave, fazia um jogo de altos e baixos
tons, cancionava. Esse singelo espetáculo foi de pronto aplaudido; na coluna da cama, ele
batia intercaladamente um relógio que estava ao alcance da mão num criado mudo de
mogno bem envernizado.
-
Por quê me acudiu no meu sofrimento?
-
Oras, porque você estava deprimido nos seus sonhos, nada mais!
-
Como se chama?
-
Evianym...
-
Evianym... Nunca me ocorreu que alguém pudesse ter um nome assim...Parece
um nome de contos de fada...
Pausa dada, eles se entreolharam com desconfiança, não sabiam explicar porque se
mostravam tão ansiosos um com e pelo outro sem mesmo haver motivos para tanto.
-
E você, não vai perguntar meu nome de modo a estarmos assim...Tão íntimos
um com o outro?
-
Íntimos? Me faz rir. Você tem uma veia engraçada...Íntimos... Nunca fui íntima
de ninguém, nem sequer do meu pai eu sou.
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-
Quem é seu pai?
-
É aquele a quem você deve a vida, esqueceu?
-
Não lembro dele perfeitamente no tempo em que sou dono dos meus sentidos
apenas por um pouco, não julgo ter tido o tempo necessário para por em ordem
todas as coisas que me aconteceram há pouco.
****
Como num soneto de quinze versos, a vida de George Fazekas prosseguia erradia, saindo
dos escombros, se fez livre da acusação do roubo do relógio, pois como este não fora
achado, não havia como incriminar alguém, tanto menos ele. Depois da confusão na
taverna, todos foram dispensados, menos o rapaz que servia as bebidas proibidas a ele de
servir e de beber.
Alavancando a idéia de se por a colocar rédea na vida tortuosa, George tenta encontrar um
novo lugar para continuar a dar vazão ao enigma que se transformou a sua vida desde que
se separou do irmão.
Caminhando sem rumo pelas ruas, ele defrontou-se com uma velhinha que parecia
assustada sem motivo aparente, cambaleante, ela se equilibrava nas finas e rugosas pernas
com extrema dificuldade se aprumando a cada novo passo dado, sem nítida coordenação,
tinha um olhar perdido, o andar trôpego. Essa idosa senhora trouxe a atenção de George por
fazê-lo lembrar de sua mãe, apenas o que diferia uma da outra era a vestimenta, pois a
velhinha estava penosamente coberta num seboso arranjo de chita que ela imaginava estar
vestida com recato, perto de um banco da praça defronte ao Mercado Central, fez por bem
encostar-se sem pudor quando se esperava que apenas sentasse, deitou-se com as pernas
para cima deixado à vista suas vergonhas. Afundando a mão no bolso do jaleco com listas
distintas, George põe-se a tragar com descabida volúpia um cigarro que acabara de comprar
com a labuta de seus biscates, apalpa os seios decaídos da velhinha na esperança de
encontrar algo de valor para saciar sua seca sede de subtrair o que não lhe pertence, não
tardou muito e fora pego de surpresa no seu delito. Um homem de sobreolho arregalado
censura a atitude mais que suspeita de George por dar-lhe um empurrão que fez com que o
cigarro que pitava batesse no seu rosto fazendo, de imediato, aparecer-lhe uma bolha
vermelha, escangalhando no chão o corpo e o orgulho, George levanta-se com demorada
pressa se apoiando na quina do banco da praça que continuava sendo ocupado, por parte,
pela velhinha de identidade e modos obscuros. Ferido na honra, George Fazekas parece de
fato estar apreciando uma nova e saudável atitude de agir quando confrontado com os
resultados quase sempre sofríveis de suas sevícias, levando a dobra do polegar direito ao
olho do mesmo lado que imaginava em condições bem piores do que realmente estavam,
ele pede desculpas e tenta se justificar, num esfarrapo de desculpa, que apenas queria se
certificar de que a pobre senhora poderia ter sua procedência denunciada por documentos
com qual poderia prestar-lhe ajuda.
Fazendo-se de convencido da canastrice de George, o sujeito que lhe impôs uma devida e
simples lição esperava na ação de George que este se limitasse nos movimentos e fizesse
deles rápidos para se lançar dali com pressa de quem rouba, mas se surpreende quando vê
estendida a mão de George num ato típico de quem se conhece e se cumprimenta como
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velhos amigos, tendo pouca crença no que seus olhos vêem, o homem, graduado nos
princípios, coça a lateral do pescoço antes de atender ao pedido inusitado de George que
por uma fração de tempo ficou com a mão estendida, suspensa.
Apresentaram-se mutuamente e passaram a prosear com insuficiência de assuntos para
entabular conversa visto que vieram a saber a existência um do outro de modo nem tão
comum para quem pretende fazer amigos. Primeiro, quis saber do antes agressor, agora não
mais, porque atentava contra uma indefesa velhinha sendo que ele no auge de seu vigor
físico e ela na linha decadente deste, não poderia oferecer resistência a saber que o velhaco
ainda gozava de sobriedade e ela se revelava encharcada de aguardente a se observar pelos
vapores carregados que emitia quando tentava articular palavras ininteligíveis e pelos
passos ziguezagueados que era necessário que e a estrada, para comportar a sua
inconstância, fosse do tamanho do chão.
A aproximar-se o lusco-fusco, o benfeitor da velhinha acalenta na iminência da sua
percepção, que de pouca valia teria saber que proveito tiraria da identidade de um sujeito
de compaixões avessas às suas, mirando um olhar de pena para a velhinha ele passa a tatear
com habilidade médica o peito e verificar a respiração apressada, semelhando ao rumor de
folhas e ao ruído do fole.
Prévio exame feito, sobrecarrega agora suas atenções a George que assistia com detida
atenção aos manejos que, por ignominia não saberia o porquê de fazê-los, param por um
breve período para reparar na horrorosa penúria de um mendigo. - Isso tem se tornado uma
praga por aqui, comenta o nosso benfeitor, - Mas, indaga George, qual o real motivo que
faz desse homem um miserável entre nós? Teria ele sido vitimado por algum mal de
interpretação do destino e o fincado à margem da sociedade?
-
Isso é um algo a se pensar, mas me surpreende sua firme posição e o modo
expansivo como se expressa...
-
Aprendi com meu irmão... Ele sempre fala assim, a bem da verdade ele é, ou
era, de modo que eu não sei que sorte o aguardava por essas terras, um
excelente orador, infinitamente melhor que nosso pai, que era extraordinário!
Continuaram a debater sobre a infâmia do cadáver vivo que fazia ponto defronte o Mercado
Central que, sobretudo às quartas-feiras intensificava seu plantão e, no serão da sua labuta,
arranjava mais provisão do que nos demais seis dias da semana, velhinha abandonada,
prosseguiram a defender tese sobre a melancólica existência do mendigo, que a se ver, não
parecia deprimido tão pouco amaldiçoando e maldizendo a vida, como era o jeito de
George sempre fazer, que talvez se mostrasse dolorida pelas externas mas, como
subterfúgio, poderia estar usando um eficiente mecanismo para não contaminar a aparência
de mendicância física; não deixaria transpor para a vida interna, aquela que a gente não vê
com os olhos, pois ao se ver um bom homem inatingível na boa roupa cortada com
requinte, no alimento soberbo com que mata as fomes do corpo e do espírito, na casa
banhada de imponência pelo arranjos opulentos da varanda, nos sapatos de cromo reluzente
talvez melhores acabados na forma e em fôrmas para os pés do que na forma de bezerro
novo ainda vitelo, nos dentes perfilados com precisa simetria que se parece encomenda dos
homens versados nos dentifrícios, na arte milenar do comportamento dos que se apaixonam
pelo ato de subjugar e ter como subservientes os desejos rebuscados de intolerância e se
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tornar arrogantes nas suas interpretações, pois a quem pertence o mundo que não se vê
fronteiras visíveis a não ser aquelas impostas pelos mares sem fim que quando em formas
de ondas beijam a terra em um apreciável ‘vou, volto, vou, volto’, repleto, eivado de
espumas, o mar devolvendo o mar, de um lado a outro dos continentes falam numa língua
que não carece de intérpretes que apenas criam uma ponte entre mundos mas não o
dividem, não o canibalizam, mas, vai se saber, talvez apenas estejam fazendo uma boa
ação, porque se tivesse mais terra para se domar em forma de latifúndio, o mundo dos
homens não supriria tamanho afã por posses ignorando que o que lhes cabem nesse mesmo
latifúndio é uma metragem que não vai além de três por uns cinqüenta de largura, mas estas
medidas não comportam seus egos sempre inflados e vazando por cima.
Quando ainda era um arteiro garoto tive um sonho que nunca irei me esquecer, comenta o
benfeitor detendo os olhos no mendigo como se ele tivesse legendas para as suas palavras,
eis o delirante e tumultuado sonho do nosso benfeitor. “Estava eu dentro de um caixote
preto, inicia ele, com um monte de furos transversais que rodeavam toda a parte lateral do
caixote, do lado de fora muitas crianças brincavam e sorriam entretidas com uma música
que vinha de uma nuvem que flutuava ao alcance da mão, era colorida esta nuvem, mas eu
via, pelas miúdas frestas, que sempre que as crianças queriam tocar a nuvem ela
desaparecia no céu e voltava repentinamente e isso se sucedeu por um longo e cansativo
tempo, de repente, os risos deram lugar a lamúrios apavorantes, os choros saiam grossos;
não como choro de crianças mas como lamentos de adultos, e isso em corpos de
criancinhas, e me apavorei, e clamei por minha mãe que me procurava mas não me via, não
sabia onde eu estava, os lamentos se tornavam mais intensos e eu que estava com medo do
caixote agora tinha nele uma segurança, pois eu não sabia o que viam as criancinhas, e elas
com olhar inocente choravam sem inocência e suas bocas ganharam dentes enormes
desproporcionais às suas pequenas boquinhas e as nuvens coloridas perderam a cor, se
fizeram opacas, aves gorjeavam com gargantas potentes dando ainda mais temor nos meus
frangalhados sentidos, ao rugido de um animal gigantesco calou-se o pranto das crianças e
a nuvem sem brilho sugou o animal num só golpe, e assustou a mim e as crianças e se
rebelaram todas e cessaram os prantos, começaram a vociferar contra a nuvem pois esta se
mostrou malvada, num dado momento se voltaram para observar o caixote e todas as
frestas se tornaram como olhos a me olharem e me apavorei, clamei de novo por minha
mãe que não encontrara meios de aliviar a minha dor, e os olhos das criancinhas cresciam a
medida que sons terríveis eram ouvidos dos orifícios de suas cabeças; não saiam de suas
bocas os sons, e passaram a empurrar o caixote ladeira a baixo e este obedecia, não oferecia
resistência, nem parecia quadrado, mesmo se deslocando com violência os olhos delas
permaneciam grudados nas frestas a me fitar e eu batia de ombros e de peito e de cabeça
dentro do caixote e ele se abriu numa pancada fortíssima que deu no caule de uma árvore
grossa, e eu tentei correr mas me faltaram as pernas e eu tentei gritar mas me sumiu a voz
as crianças não eram mais crianças tinham uma certa fisionomia de adulto em rosto de
serpente e me atacaram e me agarrei aos galhos da árvore que estavam muito distantes de
mim mas os alcancei porque forjei das pernas do medo molas para chegar aos galhos, mas
estes não suportaram o peso do meu medo e romperam quando estava caindo ao contrário,
como de baixo para cima, foi quando percebi que estava sendo vitima de embuste da minha
mente infantil e acordei do sonho, mas, quando me vi livre do sonho senti que estava
sonhando que aquilo não era um sonho e se prolongou o meu tormento pois me encontrava
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no interior do caixote tendo olhos a me olharem e tive coragem de gritar, e não me faltou a
voz e nem a força dos valentes, os enfrentei de dentro do caixote com franca bravura; não
fiz da minha gaiola um castelo que sabia intransponível para afugentar e intimidar meus
inesperados inimigos, os enfrentei com doída perseverança de que não iria ser sugado por
eles e me atormentava o fato de eu já saber que não se tratava de um sonho, pois acordara
há pouco e minha sã e frágil consciência não me permitia imaginar que eu pudesse estar
acordando de um sonho dentro de outro sonho e ainda sonhando que o sonho que estava me
corroendo a alma não se limitava a um sonho pois me parecia tão real as condições que me
encontrava que eu sentia até mesmo o sabor do suor a descer da testa e encontrar a cisterna
da minha boca e eu bebia do suor para ter a certeza de que em breve me afogaria e seria
despertado do pesadelo ou de vez daria cabo de minha própria vida, mas lá se foram litros e
litros dele e eu permanecia na crueldade da minha triste sina implorando e revelando que
havia blefado na insana idéia de que os poderia enfrentar em igualdade de condições, baixei
a guarda e implorei pela morte serena e rápida mas ela não veio, se ausentou na minha
aflição no momento em que mais ansiava que ela se fizesse presente, quando ouvi gemidos
externos que pressentia serem de outra fonte que não daquele universo macabro, me aliviei
pois minha mãe me embalava no seu aconchegante colo e eu ninei”. Essa triste experiência,
continua ele, ativou minhas francas preocupações com este ser desavisado da sua desgraça,
pois é assim que se insinua, desavisado de sua desgraça, e, creio eu, isto é uma tática para
reverter um quadro irreversível, ou seja, ele sabe na sua combalida percepção que não há
remédio que cesse sua dor, se é que ela existe-lhe, ou, penso eu, quem sofre é quem se dá
por se constranger com esta penúria.
Sem piscar os olhos de superfície metálica, George, tumultua o bate-papo por questionarlhe uma posição menos poética para o sofrimento alheio. Sabia o que estava tramando. Em
sua mente ardilosa ele entendia tudo e mais um pouco do que queria com o nosso benfeitor
de aparência doce e modos aparentemente irremovíveis, sabia ele na sua catastrófica
insanidade como atrair a chama dos inocentes para suas sempre imprevistas e traiçoeiras
investidas contra outros e, quase sempre, a si próprio.
Sua cerebral engenhosidade traria frutos excelentes se aplicada para o bem comum, mas ele
desconhecia este verbo, não tinha noção exata das suas atitudes vis, quando martelava na
sua alma um desejo de se ajeitar, de dar outra estrada à sua vida logo lhe vinha, como um
demônio a lhe soprar, um vento que varria dele a retidão. Mas porque raios se infiltrou nele
um matemática louca de abordar e estar sempre inclinado para fazer da prática do mau o
seu passatempo predileto talvez nem mesmo ele tivesse, a contento, uma resposta a nos dar,
pois se assim o foi durante toda a tortuosa vida, ele não estava disposto a saber ou mesmo
procurar a resposta, que acha o leitor?
Marcaram um próximo encontro dali a uma semana no mesmo Mercado Central que tinha
um amplo pátio ladeado por longas paredes ocre, na mesma praça de bancos enfileirados e
cobertos de uma fina camada de pó que deixava carimbadas nas roupas o decalque dos seus
desenhos. Aglomeravam-se também na proximidades do Mercado Central uma pandilha de
nômades que comerciavam rendas, flores diversas e principalmente o mais conhecidos dos
seus produtos, ler a sorte das pessoas, munidos de suas belas carruagens pintadas, os
ciganos não apreciavam o modo pejorativo com que eram tratados, se chamavam entre si
apenas de viajantes ou ainda como rom ou roma que quer dizer da língua romani. Em meio
à fuligem e a desordem que causava antipatia aos que iam comprar feno no Mercado
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Central, zíngaros cantarolavam armados com instrumentos que percutiam e reboavam nos
umbrais e nos alpendres suspensos com vistosa fadiga, eles se despediram andando para
trás; um de frente para o outro fazendo acenos recíprocos deixando marcada uma nova data
para concluir suas dissertações sobre a amargura.
****
Edmond sentia-se, com a ajuda dos vagarosos poentes e expoentes, pior do que os dois dias
em que ficou preso na armadilha de madeirumes que por pouco não lhe custou a vida, seus
traços de ambigüidade intrigante iam despedindo-se dele a medida que se agravava as suas
afecções, seus cabelos com franjas que chegavam até o limite das sobrancelhas era agora
dividido em várias frentes; onde os cortes foram profusos um pouco acima da testa fez-se
uma divisão sinuosa porém breve, mas que lhe conferia um desarranjo na parte frontal da
face, logo abaixo do olho direito uma outra cicatriz emergia e se destacava do montante de
hematomas que fazia do seu rosto um quase além de assombroso, o olho direito, que fora
vazado, lacrimejava com irritante constância, a íris azul não obedecia mais ao comando do
cérebro; ficava como boba aos movimentos da cabeça e se deformara não sendo mais um
círculo bem defino tornou-se uma geometria indefinida. Ainda tendo o espelho longe do
alcance do olho que ainda enxergava, Edmond ressentia-se quando falava com Evianym
sobre de como estava sua esquartejada aparência, mas sempre achava consolo, ouvia dela
que de mais valia era estar vivo e feio do que se parecer um príncipe morto. Mas o pior de
seu comovente estado era não poder mais se mover com agilidade; uma das fraturas
expostas na altura da tíbia ficou deficiente; a cauterização aconteceu com o encontro dos
ossos desalinhados, deixando-lhe torto o passo o que o forçava a andar manquitolando com
dura dificuldade; a desobediência causou-lhe a tormenta, ele simplesmente ignorava o
conselho dado pelo pai de Evianym de que não poderia se mover tanto e manter a tala
sempre na mesma posição, mas por envergonhar-se da bela donzela, lhe informava que se
tinha livrado das dores, dispensando o urinol com que se servia para fazer as necessidades
fisiológicas ia ao banheiro se apoiando nos móveis, custou-lhe caro o pudor.
Travando uma batalha interminável no seu íntimo, Edmond rareou as palavras, se
alimentava apenas no limite da fome e se recusava a responder as perguntas pertinentes à
sua origem, quando mexia os lábios para pronunciar palavras vagarosas, dizia apenas que
vivia num lugar infestado de ratos e tinha nas baratas, que quase sempre lhe faziam
companhia à noite, um fator certo para desarranjos intestinais. Aludiu a seu irmão a quem
se referia como um janota, lhe desesperava não saber da sorte deste, dizia que preferia que
estivesse entregue a um albergue que recrutam essas pessoas que não têm para onde ir a ter
que ficar como escravo de oportunistas que exploravam a pobreza de garotos como ele.
Contou ainda, voz sumida, que chegava a trabalhar por dezoito horas seguidas numa
taverna imunda, no porão desta, dividia uma cama com roedores e insetos asquerosos. Com
um lenço preto que tornou parte de sua indumentária, usando-o para esconder a parte do
rosto mais castigada pelos ferimentos e secar o lacrimejo constante da vista perdida e
exilando-se no seu rebuço, confessou a Evianym que praticava uns poucos furtos dos
bêbados que se derramavam pelo chão; era para ele como uma recompensa pelos
infortúnios da qual era vítima, tirando dos beberrões as suas posses.
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Uma rala luz líquida iluminava aquele cômodo estreito onde Evianym e Edmond
conversavam, Evianym guardava no seu delicado rosto, grandes e translúcidos olhos furtacor, um pequeno e róseo lábio desabrochava como uma rosa miúda e murchava ao tempo
em que ela enrijecia a face quando não aprovava as crises do seu interlocutor, mas esta
excluía quaisquer possibilidade de arrogância: a figura dela era um pouco mais do que
estonteante; de estatura exata para a distribuição do peso, como o pai, Evianym tinha os
cabelos dourados, porém mais claros. Nos seus olhos se lia aquela confiança típica de quem
é de forte personalidade, mas que não excluía a bondade, mantinha também uma irresistível
convivência com seus longos e dourados cabelos, por motivo algum os faziam de feras
durante o dia e os libertava durante à noite, tinha uma amigável relação de afinidade com
eles exceto quando os tinha que manter reclusos atrás das orelhas, mas os teimosos fios
dourados deslizavam uns sobre os outros e escapavam, os movimentos com os dedos
anelares seguidos dos outros eram constantes e paliativos para mantê-los guardados no
oculto das conchas; eram graciosos estes instintivos gestos, ainda mais quando ela os fazia
sincronizadamente com as duas mãos juntas, Edmond ao perceber a infinita e inconsciente
batalha de mexas para a frente e mexas para trás, dava uma breve trégua no seu
compreensível mal humor e sorria levemente o que a deixava com cara de enigma.
Edmond levava a amizade que estava nutrindo por Evianym com o desvelo de quem
carrega um andor nas costas, ganhando paciência com a sua convalescença ele ia se
acostumando aos fatos que singraram por mares tortuosos, apenas se tornava arisco quando
as condiscípulas dela iam visitá-la para estudar os assuntos do curso de medicina do qual
estava se prestando a fazer mais por pressão do pai do que por vontade própria, quando as
amigas se reuniam na saleta contígua ao seu cômodo a luz tornava-se como sólida, a
temperatura logo subia a patamares preocupantes e só arrefecia quando elas se ausentavam,
ele receava que as amigas de Evianym soubessem que ela abrigava em sua casa por
demorado tempo um indigente de feições empobrecidas pela fatalidade, era para ele um
tormento à parte; todos os dias em que a casa era tomada de gente falando coisas que ele
custava a compreender, os temas alienígenas que invadiam o seu cérebro confuso e
entregue a solidão de sua ignorância, se debruçava na dúvida, dúvida esta que lhe permitia
pensar se era melhor para ele se mostrar não apenas para elas bem como para o mundo
exterior que passou a evitar desde o acidente quando não apenas o corpo mas também a
mente dava claros sinais de saturação da vexatória condição subumana a que ele próprio se
remeteu, a comiseração dos outros não aliviava a densidade de sua culpa, a sua tortura se
expressava pelas frestas do esconderijo em que acompanhava o baile da qual ele era
convenientemente impedido de participar. O seu corpo, sobretudo o rosto, tornou-se um
lugar hostil. Reparava nas vestimentas dos condiscípulos de sua amável Evianym e enojava
os farrapos que lhe aquecia a pele, mirava seu penoso olhar na eloqüência das falas delas e
desabava quando ouvia sua monocórdica voz resvalando baixinho no seus próprios ouvidos
carentes de tanto ouvir, mas era importante para ele olvidar as ranhuras do seu destino e
isso ele mesmo buscava fazer quando falava de si para si “Isto não é nada! Estou aqui e
bem! Vou ser e estar melhor do que hoje e muito melhor no amanhã e com sorte o depois
também me será de melhor proveito que o ontem!”, essa oração que ele decorou e repetia a
baixa voz era um poderoso fortificante para suas indecisões; ele estava aprendendo a lidar
com o inesperado, criou um mundo sem fantasia e omitia da sua penúria o seu bem-estar
ainda oculto por nuvens que passavam devagar e de vez em quando estacionava para deixar
passar os lapsos de alegria que ele teimava em anuviar. Aprendeu no esconderijo onde
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espiava e partilhava anônimo as conferências, que poderia sem nenhum desassossego
reintegrar-se à vida novamente. Apenas o que lhe incomodava nos tempos a se seguir era o
escaldante e indivisível amor que sentia por Evianym, mas ele se rebelava contra este
nocivo sentimento, raciocinava que aquilo era por demais fácil e conveniente de acontecerlhe afinal era o conto de sonhos de qualquer que estivesse em semelhante situação, a bela
garota que salvou-lhe a vida, amável como uma cândida pintura, doce como gotas
cristalinas de mel brilhando e tocando a língua com urgente impaciência. Mas cabia o
pensar naquela mente desgastada pelos contínuos esforços feitos para reaver a sociabilidade
perdida. Fixava nas células da cabeça a idéia de que teria que ser honesto para consigo
próprio, pois até mesmo o dileto leitor se apaixonaria se também por obra da ocasião fosse
submetido a uma combinação de fatores dessa envergadura. Ele teimava com seus
sentimentos e quando estes estavam em relevo tratava de acoberta-los como ovos sob penas
quentes. Quando toda manhã era acordado com chá quente, quase ao ponto de morno,
acompanhado de torradas ora salgadas, ora doces, e o convite para bebericar do chá e
suspender ou não o excesso de açúcar, ele parecia que acordava do sono e entrava no
frenesi da realidade, todas as manhãs se repetia o protocolar cerimonial como sol e sol; o
chá servido, quando não um leite fervendo de quente, o pão a manteiga o leite, enfim.
Curtida pelo sol, a pele frágil e pálida de Edmond ia encorpando uma cor mais alegre; as
suas escapadas tornaram-se parte integrante do seu ocioso dia-a-dia, pouco a pouco lançava
mão da inquietude que lhe assombrava a possibilidade de um eventual contato, sobretudo,
com as achegadas de Evianym, caminhava até chegar próximo de uma encruzilhada
normalmente movimentada e ao menor sinal de gente que pudesse detectar a sua indesejada
presença esquivava-se; ocultava-se nas árvores e no capinzal que amortecia a queda das
folhas, era por si só um desconfiado, esse traço marcante na formação da sua nova
personalidade foi-se moldando na concentração e nos desmedidos esforços feitos com a sua
nova realidade; um peso fortemente potencializado pela sua incessante insistência de fazer
da penúria um pedra de dimensões ainda maiores, ao fim das contas, ele se fazia e se
mostrava até a linha exata do ridículo, mas era também um digno de nossa estima, da nossa
pena às vezes, mas era no somar final um amável que aprendera a lidar com a dificuldade,
não, talvez, com a honraria de um nobre, mas a sensação que ele passava aos que o
conhecia a medida do fim do medo, era que a sua aparência grotesca, seus braços por
demais compridos, seu aspecto desastrado, seu olhar de desconfiança que sempre queriam
imaginar o que pensavam no íntimo as pessoas que o viam, abordava uma dessemelhança
com quem ele teimava não ser semelhante, mas ele não compreendia, nem no fim, que ser
humano é diferente de ser humano, que os olhares nem sempre revelam o que se maquina
por detrás dos olhos. O que lhe preocupava e lhe assaltava o sono era a iminente entrevista
que o pai de Evianym ensaiava fazer no momento que ele entendesse ser o mais apropriado,
o pai dela se compadecia com a situação precária do seu hóspede e mesmo sem querer,
acabou por se transformar além de benfeitor, no tutor que o pobre taverneiro tanto
necessitava.
Chegado o dia da tão temida entrevista, Edmond se sustentava nas pernas com a graça de
qualquer milagre que passou a operar naquele momento, entretendo-se com leituras sobre
literatura médica, da qual não entendia os pingos sobre os ís, ele preparara uma surpresa
que guardara para o dia mais precioso e decisivo daqueles dias em que passou na
companhia do seu penar, na ante-sala, pendurado-se no braço da cadeira com jeito de
garoto traquino, passou a travar diálogo com a ama-seca de Evianym de quem já havia
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roubado a simpatia, perguntou o que ela achava que o pai de Evianym reservava para
aquela conferência; queria saber dela o que seria mais coordenado dizer a ele na quase certa
sabatina que iria enfrentar, pois guardava no seu aflito coração o medo de não satisfazer os
desconhecidos anseios dele e com isso ver sua chance de permanecer na casa, destruída
pela improficuidade de suas palavras. Com seus modos cautelosos, Alana Pedrovna se
limitou a ouvir com atenção as considerações do jovem infeliz, prosseguia cerzindo, na
mais costumeira dedicação, uma peça delicada e querida do vestuário de seu patrão;
aproveitava a deixa e devolvia os botões sumidos aos seus devidos lugares. – Eu prefiro
não lhe adiantar o meu parecer, senhor Edmond, lhe falou a criada com respeitosa
reverência. - ...Sei que tem o poder de mudar a decisão final dele, mas por algum motivo
desconhecido, se sujeita comparticipar da desventura de um pobre diabo como eu...!. Esta
frase foi transcrita reta, mas na verdade saiu completamente fragmentada, ele falou estas
vinte e sete palavras demoradamente, quando não se consome mais do que alguns segundos
para derramar no ar estas tantas palavras, ele precisou de mais tempo para levar até o fim a
simples resolução da sua mente transformada palavras; cada começo meio e fim delas, viam
emparelhadas com um soluço incontido, falava uma palavra e antes de terminá-la a repetia
pois julgava que entre choro e suspiros Alana Pedrovna não compreendia o que ele queria
dizer-lhe ainda levando em consideração a surdez dela que naturalmente já pedia um timbre
mais potente para uma conversa corriqueira. Superando o martírio, ele se pôs a implorar
para que ela interviesse a seu favor e tornando mais audível o seu lamento eis que por fim
as vozes de lamurio chegou até os ouvidos de Evianym que estava compenetrada em seus
estudos, mais que perdera a capacidade de concentração ao ouvir os lamentos de Edmond.
-
O que está acontecendo aqui? Ouvi do meu quarto vozes de choro, ocorreu
alguma gravidade? quis saber Evianym.
-
Não se aborreça minha filhinha... Não é nada que possa preocupar-lhe o sono,
trate de prosseguir nos seus estudos pois sei que está atarefadíssima nos afazeres
da sua matéria! – tranqüilizou-a Alana Pedrovna sempre disposta a acariciar a
sua querida Evianym.
A dominação dos sentidos era para Edmond o equivalente a uma proeza, o relaxamento que
o seu maroto plano de agradar ao pai de Evianym havia lhe dado, se desfez ao trocar apenas
umas simples palavras com Alana Pedrovna; sem que ela sequer lhe falasse das pretensões
do seu patrão, o acanhado porém ardil ex-taverneiro ocupava o seu sonolento pensamento
com conjecturas que beirava a insanidade de um louco, desses que atacam cachorros
ferozes tendo como arma nada mais além que sua insanidade. A chegada de Evianym à sala
onde estavam ele e Alana Pedrovna nublou ainda mais seus delirantes pensamentos, tivera
muito pouco contato com o pai da bela Evianym, e pelos vãos da casa nas raras vezes em
que o pai dela não estava ausente, ouvia perguntas de ‘como andava sua recuperação’ não
foram poucas as vezes em que ouviu da boca de seu benfeitor perguntas dirigidas as duas
damas da casa, perguntas do tipo como esta: “Os meses estão se adiantando no
calendário...a quanto tempo temos como hóspede o garoto? Será que estamos fazendo o
bem por deixar ele se instalar em nosso lar por todo este tempo? Irei providenciar um
último e detalhado exame e de acordo com o resultado deste, tomarei as devidas
providências...”
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Esses comentários quando não eram feitos na frente de Alana Pedrovna e de Evianym
juntas, eram dirigidos em separado, e Edmond percebia no olhar e nos modos que era
indiferente a preocupação de ambas para a sua permanência ou não, e isso lhe afligia por
inteiro; toda vez que ouvia o pai de Evianym tocar no assunto de sua estadia lhe corria um
calafrio demorado que percorria a base da coluna vertebral passando pela cervical e se
alojando na parte oposta onde se encontra o coração; às vezes a barriga sentia o mesmo
calafrio que por uns curtos instantes lhe privavam dos sentidos, quando se tornaram mais
intensos os diálogos a respeito do que iriam fazer com ele, procurou se ausentar das
refeições servidas no mesmo horário de todos os dias; para ele sentar-se à mesa e desfrutar
da necessidade prazerosa da comida era um tanto constrangedor, contrariando uma norma
da casa ele ia comer sempre quando a mesa já não estava mais posta, esperava todos, leiase Evianym e Alana Pedrovna, e vez ou outra o pai da primeira, se servirem e ia se
alimentar no refúgio da solidão que lhe era fiel companheira, nas três refeições diárias o
constrangimento se manifestava, envergonhado ainda mais na refeição servida ao meio do
dia, pois nesta a companhia doce de Evianym não era compartilhada porque esta distribuía
sua simpatia para os colegas da universidade.
Sossegado, paciente e controlando a ansiedade, Edmond mencionou a Evianym porque
estava contristado com a possibilidade de ter que deixar a casa, ela por sua vez no limite de
sua conduta austera, baixou a cabeça e não esboçou reação; preferiu se manter reservada,
pois ignorava as reais pretensões do pai em relação a ele, mas se tornava evidente e claro
como uma crítica desavisada de um superior, que ela não deixava transparecer quaisquer
esforços para que a medida paterna fosse favorável ao seu amigo de ocasião. Um breve
silêncio reinou no ambiente onde estavam os três; ao lado da lareira de tijolos sobrepostos
estava Evianym com os braços cruzados sobre os seios e andando com passos curtos pela
sala, na cadeira semelhante ao um coxim sem as costas, Edmond permanecia imóvel,
realizando movimentos mínimos, com a agulha de coser o manto do seu bem tratado
senhor, Alana Pedrovna seguia firme rumo ao fim da costura da qual empregava além de
uma atenção fora do comum um carinho todo especial. O silêncio perdeu a majestade no
exato instante em que chegou à sala o pai de Evianym. Todos se entreolharam e tentaram
manifestar naturalidade, mais foram em vão os intentos, os sobrolhos dos que já estavam na
sala estavam carregados, como fatigados por uma longa noite em que o sono foge do corpo,
quanto mais se tomavam medidas para parecerem naturais, eles insuflavam seguidamente a
contrariedade do que desejavam; passaram a fazer coisas dissimuladas. Edmond continuava
a entreter-se nas fartas páginas dos livros de literatura médica que desde o começo
simulava ler, Evianym por sua vez descruzou os braços e da mão direita moldou um cone
que levou até a boca para auxiliar a tosse que era encenada com percebida inaptidão,
apenas Alana Pedrovna prosseguia fiel a quando estavam apenas ela e mais os dois na sala,
nem sequer desviou o olhar para cima com o objetivo de tomar nota da chegada do patrão.
Evianym e Edmond olhavam de cima para baixo o que deixava a base do lóbulo ocular por
todo embranquecida. “A continuar devorando esses livros irá transformar-se num
verdadeiro rábula da medicina!”, disse bem humorado o temido pai da princesa. “Estou
apenas dando umas passadinhas pelas páginas para ver se me familiarizo com as conversas
que Evianym tem com as suas condiscípulas...pois eu as ouço e fico como um cego perdido
numa praça pública”, mencionando a comparação com fantasiosa alegria, Edmond
exagerava nos gestos quando estes eram totalmente dispensáveis. “Ora, ora, ora...participa
das conferências de Evianym com a sua chancela, ou se atreve e desafiar o que ignora
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deliberadamente? lhe falou num tom grave o benfeitor. “...Não...”, “espere, espere,
interrompeu o pai salvando sem querer o engasgo que vinha em seguida ao ‘não’ de
Edmond, pois foi a única coisa lhe apareceu no cérebro, “se a sua resposta for um tanto
convincente lhe darei uma oportunidade de alcançar um maior prestígio comigo, pois sou
sabedor da sua angustia...”, as duas damas assistiam a fuga das idéias de Edmond um pouco
irrequietas, mas Alana Pedrovna parecia que não se incomodava com o clima de nuvens
negras que se formava na cabeça do náufrago taverneiro. “Hum... entenda bem senhor, eu
não posso me igualar ao senhor nem nas perguntas que me fará e tão pouco serei páreo para
as respostas que deseja ouvir, mas vou lhe falar com a força do meu pensamento constante,
que tenho anseio pelo que me é desconhecido e vou até no fim lamacento de um poço só
para descobrir o que pede a minha vontade, mas não é isso o que me aflige, o que me deixa
acordado como uma mosca é a indefinição do meu futuro, sei que me perguntará sobre
como eu fui parar naquele calabouço e me estropiei todo e as respostas que lhe devolverei
podem ser afiadas como o fio de uma navalha, mas tenho certeza de que este fio cortará
mais fundo a minha própria carne do que a sua inteligência”. Edmond, depois de falar isso
sem pausa, reabasteceu os pulmões de ar e deixou decair o pescoço de sua formidável
estatura decadente, mas pela articulação e perícia com que se dirigiu ao pai de Evianym,
certamente subiu no conceito do seu tutor.
Puxando para perto de si uma cadeira, o pai de Evianym repousou por um longo tempo os
delicados olhos, semelhantes aos da filha, sobre a face solitária de Edmond e este encolheu
mais uma vez o ombro e pretendia com isso ocupar o mínimo de espaço possível para não
ser notado, cismado e surpreendido pela notável consciência de seu hóspede ele percebia
que teria que usar toda a sua ambivalência para resolver de modo justo o problema que até
a meio ano não lhe pertencia, com todos ainda se entreolhando com emoção denunciada
pelo semblante pesado, Edmond enfia a mão sadia no bolso de trás da calça, pois o modelo
que o servia era desprovido de bolsos na parte frontal, e tira um pacote bem tramado com
fitas prateadas decorando as bordas e por um breve momento estende a palma no ar e fica
como mirando o embrulho, esse misterioso gesto só fez aguçar a curiosidade dos que viam
a cena com incansável desconfiança, com as duas mãos coladas ao rosto e os dois dedos
mínimos se cruzando e tocando as pontas logo acima do nariz, o dono da casa, com seus
lentos pensamentos e rápidas impressões, tinha como alvo não abater as aspirações daquele
que lhe falava num tom até um pouco grave, mas que não deixava transparecer presumível
e insensata arrogância. “...Vamos, dê fim ao que começou, mostre o que tem oculto na
arrumação para presente...”, falou ele para Edmond limpando minuciosamente os aros e as
lentes dos óculos que ele apenas fazia uso quando lhe era necessário ler coisas de
importância tamanha. “Receio que esse meu ato seja entendido pelas avessas, mas como eu
já aprendi, o receio faz de um homem um fraco, muito embora eu não seja um bem formado
homem na estrutura física, o sou na estrutura da consciência, e talvez nem essa segurança
possa servir como álibi para me livrar de uma possível má interpretação, mas isso não
amedronta, o que me vier a acontecer nos dias adiante não poderá ser pior dos que os que já
se passaram...”, franzindo um, e deixando o outro arregalado, o pai de Evianym pareceu
não abonar a impressão que Edmond deixou escapar na atitude, que ele julgava ser
apropriada. As grossas sobrancelhas do pai de Evianym se fizeram desniveladas e a que
estava sobre o franzido fez-se sinuosa como um S horizontal, percebendo a reação quase
colérica que tomou conta da face do seu pai, Evianym apareceu na voz para arrefecer e
tornar menos delicada a situação de Edmond; ela advogou em socorro ao imprudente
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capadócio, - Pai, ele tem sofrido terríveis pressões do cérebro enfraquecido pela gravidade
dos ferimentos, por favor, não leve em consideração... – Por favor Evianym, interrompeu
Edmond, não faça das minhas impressões motivo de um desagravo entre você e seu pai, eu
não quero lhe trazer maiores preocupações, já bastam as que eu lhe dei nesses meses todos,
ademais, estou apenas sendo sincero nas minhas ações, meu único patrimônio é a satisfação
de ser honesto para comigo mesmo antes que com a outros. Encerrou Edmond palpitando a
respiração com insegurança.
-
É impressionante..., conclui o pai de Evianym, ...É impressionante, onde
desenvolveu essa personalidade nas limitações de sua vida contrária a isso?
-
Estou aprendendo com o tempo, senhor, eu sei que posso estar incorrendo num
equívoco que poderá custar minha estadia em sua casa, e creio que o desfecho
dessa minha triste história não me seja tão cruel quanto a minha atual condição,
sabe, senhor...não quero fazer disso um desabafo, mas eu sinto que em tempo
distinto as coisas vão se passando estranhamente iguais na incerteza, nas
polêmicas, nas insinuações que me lacrimeja o espírito, Ah! Tem até os
cochichos que ouço das amigas de Evianym...penso que de fato tenha vazado a
notícia de que vocês dão abrigo a um hóspede que é uma aberração...não desejo
ser motivo de embaraço nem para o senhor que tem me servido com a mesma
importância que uma muleta tem para um coxo, tão pouco para Alana Pedrovna
que cuida de mim como uma mãe cuida de um filho enfermo, e menos ainda
para Evianym a causadora da minha permanência na vida.
Mais por impulso e cacoete do que por necessidade, o senhor a quem se referia Edmond,
perpetuava o ato de passar o lenço alvo de tecido macio e overlocado nas quatro bordas
com uma linha de uma cor tão bem escolhida que pouco se notava a diferença entre a linha
e o tecido, prosseguia polindo a armação seguida pela lente, primeiro a armação ao fim a
lente, situava as duas lentes no sentido contrário ao da luz e era visível que nela não havia
uma única partícula de poeira, mas prosseguia limpando eles e a mente. Tendo ainda a face
torcida pela provável debilidade de seu hóspede, o pai de Evianym se manifestou de forma
que surpreendeu a todos; “Não vejo falta na sua conduta! Oriento minha direita para onde
vai o que é certo! Você uniu imperícia com habilidade! E eis que eu jamais imaginava que
essas duas coisas pudessem se associar! Como nos toma de assalto a vida, não? Alana
Pedrovna! Trago você junto dessa minha consideração? Sei que é inteligente e esconde-se
na postura rigorosa com que maneja as coisas!. A esse tempo a criada despachou para o
patrão um sensível sorriso que só fora notado por quem mirou os olhos nos lábios dela; ela
sorria com maestria, tinha um modo todo particular de sorrir. – Vamos mulher! Diga da
impressão que guarda deste desafortunado que fez amizade com a desgraça!. O senhor
insistiu mas Alana Pedrovna se mantinha como estava, muda como um peixe, desde o
início da entrevista, imóvel, até que deu pausa à imobilidade, recolheu do colo as peças de
roupas consertadas e as acomodou na mesinha ao lado de uma imponente cristaleira. –
Espera em mim para resolver uma questão que não está sob minha guarda? Minha opinião é
reles! Cuido dos serviços da casa e de Nine, a quem tenho e devo responsabilidades, mas
não consta no meu contrato de trabalho que tenho que dar solução para outros fins!. Alana
Pedrovna desmerecia sua importância até com certa rigidez, não se sabia se por desdém ou
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se para impressionar na linha da sua neutralidade, e isso irritava Edmond que nutria pela
criada um carinho que viu se transformar em rancor quando ela fez pouco caso da sua pena,
agora se sentindo à deriva no oceano de incertezas do seu martírio, ele depositava em
Evianym sua confiança, havia abandonado o discurso duro com que começou a entrevista
por um menos pretensioso para a sua posição.
-
-
Trate logo de nos revelar o que guarda neste embrulho! – adiantou o senhor, não fiz cara de bravo em contraposição a sua iniciativa!, estas palavras
penetraram sedosamente nos ouvidos de Edmond que arrependido, porém firme
na posição, reaveu fôlego para dar cabo a sua intenção. – Tome, abra-o, isso é
uma recompensa pelo que me fez por esses dias todos..., - disse Edmond.
O que temos aqui... O que temos aqui – falava o senhor distribuindo as palavras
no meio do barulho que fazia o papel do embrulho – Vejam vocês! Fui
contemplado com um relógio! Donde conseguiu isso, Edmond? Sei que suas
posses não lhe permitem esta proeza!
-
Aceite, senhor, foi um presente do meu avô...Ele faleceu a dois anos e meio...
me deu este relógio para fazer uso dele quando eu entendesse necessário, e é
necessário agora que eu faça uso dele, não poderia ser mais apropriada a
ocasião...
-
Posso quase ler o que se passa na sua memória; deixe-me ser mais claro e verter
na voz o seu pensamento: “Ele não vai aceitar esse agrado, não abrirá as palmas
em gratidão, o seu orgulho não irá permitir que se rebaixe ao meu degrau!”,
acertei? Não, não! Fui intransigente no seu pensamento! Dilua isto ao contrário.
-
Trocou de papéis comigo, senhor. – se limitou a falar Edmond.
Edmond manifestou no olhar enviesado que desencantou-se com Alana Pedrovna pelo
modo conservador e burocrático como tratou o assunto de sua permanência na casa, ela,
apercebida dos olhares medíocres que Edmond lhe desferia, se resguardou e não quis
alimentar uma eventual inimizade com ele.
Alana Pedrovna era uma mulher de caráter instigante e às vezes até um tanto protocolar,
porém muito acima de qualquer instabilidade, sua feição tinha traços fortes, talvez estes na
mesma medida da sua áspera personalidade, o olhar era um olhar grave, sempre, mesmo
quando não havia necessidade de um assim. Tinha salientes bolsas que se projetavam
abaixo dos olhos o que porventura davam-lhe uma certa incompreensão levando ao
equívoco às impressões, inclusive as que são passadas agora. Filha de russos, seu passado
fazia tabela com a personalidade. Os cabelos dela eram cãs, exatamente todos os fios, nem
sequer um escapara do precoce sinal de perda da jovialidade, expressas rugas lhe
separavam a face; a geografia do seu rosto era repleta de relevos, as aletas do nariz se
alinhavam de modo curioso com as cavas e eram também finos os lábios, o superior um
pouco menos que o inferior, o que a deixava com a aparência de estar sempre séria, a pele
extremamente alva requeria cuidados especiais pois ao menor contato ou choque se
formavam hematomas que custavam a desaparecer, a sua constituição óssea era regular e
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frágil porém bem definida, muita alta, dava sinais de que iria encurvar-se com o chegar da
idade.
Na minoria das vezes em que estendeu uma boa prosa nas esmaecidas idéias de Edmond
este lhe fazia confissões de alma, palavras ditas a meio modo e até mesmo surpreendentes
dada a conhecida densidade onde afligiam os arroubos de bandido da sua essência, Alana
Pedrovna tentava desfolhar as impressões de Edmond usando artifícios ora regulares ora até
afoitos, se disfarçava como se nada dele quisesse saber e ao mesmo tempo surpreendia-o
escavando com perguntas feitas nas mais impensáveis situações que, a este modo, não
despertava quaisquer desconfiança de que dele quisesse furtar informação preciosa, seja ela
qual fosse. Ele não compreendia, ou se fazia querer não compreender assim, expelia com
euforia e força, (aí sim!) quando o rumo da prosa pairava sobre o nome doce de Evianym;
ganhava outros contornos a sua face, os olhos não apenas brilhavam com o auxílio das
lágrimas muitas, mas se reparava na vista de Edmond uma quase incrível vestimenta
somada a um malabarismo arriscado; com os olhos ele soletrava o nome da súbita paixão
com descarada ansiedade, nas raras vezes em que piscava lá se ia uma letra que flutuava no
ar do seu pensamento, quando tornava a piscar lá se ia a segunda letra ao encontro da
primeira no ar e assim sucessivamente até que todas se juntassem e, trocando de endereço,
repousavam no santuário do seu coração. Acordando-o do frenesi, Alana Pedrovna,
cutucou-o com a ponta da bengala que ela tinha sempre ao alcance da mão, - Ei rapaz!
Ainda estou aqui!, resmungava ela descontente com a fuga inesperada de Edmond. – Qual
o quê? Porque me bates com esta estaca se nem por pretensão eu ousei dirigir-lhe
desassossego?
- Qual o quê, qual o quê...!! Foi só eu tocar no nome de Nine que você sem pedir licença se
ausentou daqui e tive até a impressão de que deixou solitário o corpo para encontrar
vagando por aí outras.... – Alto lá mandona! Suas impressões podem e estão imprecisas,
não me ausentei daqui nem por um instante, e ademais eu não tenho a mania horrível de
ficar cuidando do mundo!. Quando menos ele esperou eis que buzinou forte um bule que
fervia e isto o tomou de assalto, se assustando, pois estava inquieta e insegura a sua alma o
que revelava que a verdade se ausentou das sua ‘impressões’.
- Vamos guri, o que sente pela senhorita Evianym hum? Hum? Abra o jogo comigo, o que
pretende com o seu ato de presentear o senhorio com aquele relógio que sabemos não
pertencia coisa nenhuma ao seu avó, hein? Hein? Por que forjou aquela fantástica história?.
Duas certezas davam para ser encaixadas nesta fala um tanto rebelde de Alana Pedrovna,
primeiro ela não tinha o hábito de chamar de ‘senhorita Evianym’ a sua amada menina e
segundo, o que lhe garantia que a história do relógio fora forjada já seria por si só obra de
um desses investigadores profissionais, destes que sabem pelo passo da perna aonde se quer
chegar o criminoso, mas toda esta audácia de Alana Pedrovna não amedrontou nem por um
pouco a segurança do raciocínio de Edmond que pensava como um criminoso e como um
investigador profissional ao mesmo, ele fitou-a densamente mas não deixou transparecer
fúria no olhar, a bem da verdade lia-se no seu olhar um quê de fleuma, fleuma esta que
irritava profundamente a Alana Pedrovna, usando a bengala ele se apoiou e dobrou um dos
joelhos, fazia isso com calculado deboche, talvez para ganhar tempo no que dizer e acelerar
o mais depressa que fosse os pensamentos para dissolver de uma vez por todas as cabíveis
insinuações de Alana Pedrovna. Uns cinco minutos depois, ele sorriu com impaciência,
meteu a língua entre os dentes e cerrou os lábios até estes ficarem completamente sumidos
do retrato da sua face, esse seu intempestivo ato irritou definitivamente a Alana Pedrovna
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que lançou para ele um admirável olhar de compreensão dos fatos, era uma batalha em
tanto; de uma lado um menino sagaz que estudava os passos de sua experiente oponente e
de outro uma senhora que se confundia na certeza da má fé que ele deixava escapar pelos
jeitos suspeitos de sua inaptidão.
Até o momento certo de se aceitar o quanto arde a demanda das incertezas e chegar perto
das precisas combinações, as pessoas se sentem por vezes ansiosas talvez até um tanto
meticulosas, e era esta nota que se escrevia na quase tolhida liberdade de pensamento de
Alana Pedrovna, ela, que guardava uma amizade de longa data com uma dama da noite,
(eufemismo para prostituta) e isso, por motivos compreensíveis, maculava seu irretocável
currículo, pois aos olhos dos de cândida honestidade, como poderia se imaginar que alguém
de boa índole e caráter que não carece de observações negativas, alguém que vive sentada
sobre a solidez inviolável de um lar decente, amparada num histórico de bons serviços
prestados aos patrões e aos vizinhos de porta, que não se encontrava nem a metade de coisa
que desse a menor possibilidade de reproche por parte de quem quer que fosse, ela, receava
demais da alma que soubessem dessa amizade oculta, tanto quanto o é o sol na Antártida.
Para ela isso era como um grande, um imenso segredo, desses segredos que não se conta
nem a si mesmo com medo da traição da nossa própria inconstância, e nesse quesito ela
tirava a nota máxima, era muitíssima discreta nas ocasiões em que saltava as horas de folga
para, ao invés de descansar, prestar solidariedade a uma amiga que necessitava de sua
atenção, ela, por vezes, chegou a decretar a sua auto-execução caso acontecesse de vazar o
que considerava o lado sombrio de sua vida. Não eram poucas as vezes em que encontrava
a sua amiga perambulando nas ruas como mendiga oficial, e nestas provações ela se sentia
deprimida, totalmente entregue ao lamento de ver a coitada se misturar às desgraças e
sujeiras das ruas, mas como e o que fazer para mudar a trajetória de quem pareceu nascer
para ser errante na vida de si e na de outros, essa questão fustigava o cérebro de Alana
Pedrovna como um raio afeta e corta desastrosamente a copa das árvores, quando não as
próprias.
Abrindo a janela e o dia, Alana Pedrovna se preparava para a visita dominical que fazia
para a comadre de longas andanças, na pujança que derramava pelos cantos de seu quarto
humilde e cores foscas entremeadas pela da cama, talvez ainda mais opaca, a cadeira de
vime envernizado decorada com almofadas até para as costas, um quadro de madeira nobre
com os dizeres em russo do Sermão da Montanha, num outro um pouco abaixo deste se lia
uma oração da Igreja Ortodoxa Russa. Isso denunciava a devoção religiosa de Alana
Pedrovna, o seu temor a Deus era tão forte e sobreposto a qualquer outro que, ao se
levantar lia concentradamente palavra por palavra, mesmo sabendo de cor, as duas orações,
a segunda era muito longa até cansava o mais teocrático dos subservientes, mas ela não se
importava com lamentos e lia cuidadosamente a oração russa cheia de muitas palavras que
seduziam a alma mas que abusava do direito de repetir ensinamentos e semelhantes coisas
em seqüência, sem saber ela protagonizava um algo, um ensinamento que muitos deixam
de observar, que o Cristo revelou aos seus num dos Evangelhos; de que não se deveria orar
repetindo as mesmas coisas vez após vez, assim como fazem ‘os das nações’, que
imaginam, (palavras de Cristo) “que serão ouvidos por usarem de muitas palavras.”
A tarde estava fraca, fraca de sol fraca de nuvem... de movimento, nem parecia um
domingo, às pencas, rolavam ao chão uns abobados e traquinos garotos se desmanchando
de rir com prestigitadores de uma Companhia de Teatro recém-chegada de um desses
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lugares onde amealham um tanto qualquer de renda somando-se aí um outro tanto
surrupiado dos mais incautos. A Companhia estava já no final de sua estadia na cidade e
quando é final de festa as apresentações não são mais tão entusiasmadas como são as
primeiras apresentações pois a fadiga chega antes da ida, mas apesar do cansaço e do
enfado conseguiam arrancar umas gargalhadas aqui e outra ali; um ventríloquo fazia uma
performance digna dos grandes artistas de tablado e, para fazer frente e não mal julgar o
que é verdade, ele era muito engraçado. Para começar, a identificação era um tanto
complicada de ser feita à primeira impressão; o que dava voz e vida ao boneco tinha um
queixo largo e quadrado, os lábios propositadamente pintados, os cabelos cheios de
pomada, os cílios tratados com essas loções que parecem e os deixam quase artificiais, os
movimentos ritmados matematicamente, ele tinha uma habilidade impressionante; movia o
pescoço e a cabeça como se o ombro e toda parte inferior do corpo fosse e fizesse um
conjunto de outro corpo e, para completar movia a boca com extrema rapidez que parecia
mesmo que o boneco falava, a saber, o boneco parecia até mais humano.
Um anão que parecia saído desses contos fantásticos controlava o caixa; usava uma cartola
de copa alta com um cinto que circundava toda a esfera, a fivela era prateada e brilhava
muito, na ponta do nariz ele abrigava uma enorme verruga exatamente na ponta; nem de
um lado nem de outro e sim na ponta e sua pele era toda perfurada como marcas de furos
que se faz num bolo, as orelhas lhe roçavam o pescoço de tão avantajadas que eram, a parte
superior desta, chegava a dobrar até. Analisando com perícia de profissional, Alana
Pedrovna se deixou fascinar por essas figuras de circo,
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