é tudo uma questão de texto: análise do aplicativo

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é tudo uma questão de texto: análise do aplicativo
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
ESCOLA DE COMUNICAÇÃO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
JORNALISMO
É TUDO UMA QUESTÃO DE TEXTO: ANÁLISE DO
APLICATIVO PARA IPAD DA REVISTA NEW
YORKER
LUIZA MACHADO MIGUEZ
RIO DE JANEIRO
2013
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
ESCOLA DE COMUNICAÇÃO
CENTRO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
JORNALISMO
É tudo uma questão de texto: análise do aplicativo para iPad
da revista New Yorker
Monografia submetida à Banca de Graduação
como requisito para obtenção do diploma de
Comunicação Social/ Jornalismo.
LUIZA MACHADO MIGUEZ
Orientadora: Profa. Dra. Cristiane Henriques Costa
RIO DE JANEIRO
2013
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
ESCOLA DE COMUNICAÇÃO
TERMO DE APROVAÇÃO
A Comissão Examinadora, abaixo assinada, avalia a Monografia É tudo uma
questão de texto: análise do aplicativo para iPad da revista New Yorker,
elaborada por Luiza Machado Miguez.
Monografia examinada:
Rio de Janeiro, no dia ........./........./..........
Comissão Examinadora:
Orientadora: Profa. Dra. Cristiane Henriques Costa
Doutora em Comunicação pela Escola de Comunicação .- UFRJ
Departamento de Comunicação - UFRJ
Profa. Cristina Rego Monteiro
Doutora em Comunicação pela Escola de Comunicação - UFRJ
Departamento de Comunicação -. UFRJ
Prof. Paulo César Castro
Doutor em Comunicação pela Escola de Comunicação - UFRJ
Departamento de Comunicação -. UFRJ
RIO DE JANEIRO
2013
FICHA CATALOGRÁFICA
MIGUEZ, Luiza Machado.
É tudo uma questão de texto: análise do aplicativo para iPad
da revista New Yorker. Rio de Janeiro, 2013.
Monografia (Graduação em Comunicação Social/ Jornalismo)
– Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ, Escola de
Comunicação – ECO.
Orientadora: Cristiane Henriques Costa
MIGUEZ, Luiza Machado. É tudo uma questão de texto: análise do aplicativo
para iPad da revista New Yorker. Orientadora: Cristiane Henriques Costa. Rio de
Janeiro: UFRJ/ECO. Monografia em Jornalismo.
RESUMO
Este trabalho tem como objetivo investigar experiências do jornalismo digital que
apontem as novas tendências no esforço de transportar a notícia para o ambiente dos
dispositivos móveis e dos computadores. A pesquisa explicará as questões financeiras
e a crise do impresso como fatos importantes dos tempos últimos da profissão, mas
vai fazer isso de modo que o assunto não se torne central. Mais importantes são as
inovações surgidas em veículos como a revista americana New Yorker, que,
mantendo-se fiel aos seus padrões e tradições, conseguiu traduzir seu sucesso no
impresso para a versão digital. Buscaremos explicar como e por que o aplicativo do
semanário, agora já com três anos, quebrou o paradigma dos textos curtos no
jornalismo digital e superou as matérias digitais sem aprofundamento, investindo em
longas narrativas. O trabalho contém entrevistas exclusivas concedidas pela equipe da
revista em seu escritório na Times Square, Nova Iorque, que revelam pela primeira
vez os bastidores da versão para tablet.
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO
2. DE REPENTE DIGITAL
2.1 Veio a tecnologia...
2.2 ...e tudo mudou
3. JORNALISMO HOJE
3.1 Jornalismo além do papel
3.2 Texto longo na Internet? Pode?
4. ANÁLISE DO APLICATIVO PARA IPAD DA REVISTA NEW YORKER
4.1 The New Yorker: quatro décadas de papel...
4.2 ...e o iPad é lançado
4.3 O aplicativo
4.4 De Nova Iorque para o Mundo
5. CONCLUSÃO
6. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1. INTRODUÇÃO
Conway Berners-Lee e Mary Lee Woods não contavam nem um ano de casados
quando o pequeno Tim nasceu. O casal de britânicos trabalhara junto no projeto Ferranti
Mark 1, da Universidade de Manchester, que, em fevereiro de 1951, construiu o primeiro
computador disponível comercialmente do mundo. Ali, entre fios e silício, o amor
floresceu. Não fossem os pais gênios da ciência da computação, talvez Tim nunca viesse a
crescer e se tornar Timothy John Berners-Lee. Mas essa seria uma reflexão inútil de se
fazer. Pois Tim cresceu, ingressou na faculdade de Física, trabalhou anos no CERN e, em
1990, inventou a Internet.
O destino quis que as contribuições da família Lee alcançassem níveis
astronômicos. É que o computador comercial dos pais e a Internet do filho foram capazes
de mudar tudo, sociedade, cultura, economia. Pegaram de surpresa um jornalismo
adormecido que, desde a inserção da televisão, em meados do século XX, navegava por
mares tranquilos e bem conhecidos. A evolução do jornalismo nas últimas décadas muito
tem a ver com o surgimento de novas tecnologias. Os dispositivos móveis, os
computadores e a rede são exemplos das inovações que modificaram completamente a
estrutura de produção da notícia, suas plataformas e a recepção.
Aparelhos e Internet tornaram-se parte inseparável da vida de muitos indivíduos. E
o jornalista não se afasta dessa condição. Redes sociais, servidores de busca e blogues
fazem parte da rotina dos profissionais de comunicação assim como de qualquer outra
pessoa. Não à toa, permeiam profundamente a produção de conteúdo, especialmente
durante a busca por informações e a distribuição das notícias.
Na história do jornalismo, alguns momentos de renovações despontam como
principais. A invenção da prensa de tipos móveis, do rádio e da televisão são alguns dos
mais relevantes pontos de virada da comunicação, responsáveis por, assim como os
computadores e a Internet, mudarem tudo dentro da área. Mudar dói. Se há um ponto
semelhante em todos esses momentos, esse seria o desespero. Do fim, do recomeço, do
financeiro, das tradições. Nos anos 1920, quando no início da inserção dos programas de
rádio, diversas publicações jornalísticas entraram em pânico e viram suas portas fecharem.
Nos 2000, não foi diferente.
Caíram: as receitas com publicidade, a quantidade de assinaturas, a circulação dos
jornais impressos, o número de veículos e a moral de muitos empresários da comunicação.
1
É preciso destacar nessa equação o desfortuno de uma crise econômica que desestabilizou
a economia tanto para os produtores como para os consumidores. No meio do caminho do
jornalismo, havia 2008.
Os profissionais, então, encaram uma profunda crise de identidade. Afinal, o que
precisa essa nova sociedade? Que tipo de informação quer, como quer, quando quer, aonde
quer? Mais hipertextos, mais multimídia? Tem muita gente pensando em tudo isso e tem
muita gente que já parou de pensar. No fim das contas, o maior problema atualmente é sair
de um estado de desespero e desorientação para a busca de soluções radicais.
Não bastam apenas táticas de sobrevivência. Ir para o digital, criar um site, abusar
de hiperlinks, encher matérias de multimídia e publicar um assunto a cada segundo é dar
sobrevida a um jornalismo preguiçoso e malparado, no qual não se busca a opção mais
arrojada, mas a mais rápida. Essa monografia não falará só sobre isso. O trabalho a seguir
buscará entre os antigos e novos produtores de notícia soluções bastante inspiradas para o
digital.
A maior parte dos veículos estudados é americano, uma vez que o país tem
antecipado com frequência (e em números mais expressivos) as mudanças que
posteriormente são vistas em países como o Brasil. Serão apreciadas, por exemplo, as
produções recentes do New York Times, Huffington Post e The Atavist, que revelam grande
habilidade em misturar ousadia e sofisticação.
Falando em sofisticação, não há outro veículo que venha à mente quando se usa
essa palavra senão The New Yorker. A revista americana da década de 1920 tem uma
história permeada em um jornalismo elegante, inteligente e contemporâneo de seu tempo.
Não fosse suficiente o fato de lá escreverem grandes jornalistas e escritores, há ainda a
habilidade com que New Yorker se adaptou às transições externas (crise econômicas,
reformas no jornalismo) e internas ao longo dos anos. De Harold Ross, o primeiro diretor
do semanário, até David Remnick, atual chefe de redação, ouve-se como em um mantra as
seguintes palavras entre os funcionários da revista: inovação, tradição e sofisticação.
No final de 2009, palpitavam comentários em redações de todo o mundo sobre o
novo gadget que a Apple lançaria no início do ano seguinte. Entre os funcionários da New
Yorker, prevalecia a crença de que seria uma espécie de Kindle, só que maior e em cores.
Foi seguindo essa premissa que, dois meses antes do iPad ser lançado, formou-se uma
equipe de profissionais multimídia e editores da revista para elaborar seu primeiro
aplicativo para tablet. Rumores davam conta que a nova tecnologia tinha tudo para ser a
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plataforma ideal do jornalismo digital. Mais prático que um laptop, de leitura agradável, do
mesmo tamanho de um livro (só que bem mais leve), conectado à Internet, com um layout
atrativo e uma interface bastante cômoda, o iPad demonstraria ser a menina dos olhos para
produtores e, principalmente, consumidores.
Desde o lançamento do tablet, grande parte dos veículos se adiantou para criar seus
aplicativos. O leitor da New Yorker, heavy user de dispostivos móveis e produtos Apple,
imediatamente demandou uma versão digital. Em outubro daquele mesmo ano, a revista
finalmente apresentou aos assinantes aquilo que eles tanto pediram. E tem sido um
sucesso. No momento em que o jornalismo digital se escorava nos novos parâmetros da
web de textos curtos e sem aprofundamento, a New Yorker investiu em um aplicativo que
valorizava suas longas reportagens. Além disso, cuidou para que cada material multimídia
alcançasse o nível de relevância e sofisticação do produto.
“It’s all about text” (é tudo uma questão de texto), resumiu Pamela McCarthy,
editora assistente na revista, em entrevista para esta monografia. O trabalho a seguir
buscará revelar, na sede imaculada do jornalismo narrativo, os bastidores da história de
como nasceu, cresceu e cresce o aplicativo bem-sucedido da New Yorker. O andar 21 do
prédio de número quatro da Times Square só não será melhor esquadrinhado por falta de
tempo. A pesquisa acompanhará, na redação, McCarthy e outros funcionários da casa,
enquanto eles explicam detalhadamente e em primeira mão como funciona o processo de
criação da versão para tablet.
Nick Traverse, americano formado em história na Universidade Harvard, será um
importante personagem. Hoje, ele é o único funcionário que trabalha exclusivamente no
aplicativo. Em entrevista na invejável biblioteca da redação, Traverse contará como
equilibra sua afinidade por tecnologia com o cuidado da revista em valorizar
prioritariamente o texto.
Os bastidores de como a versão digital possibilitou a New Yorker a aumentar seu
preço de capa, incrementar substancialmente o número de assinantes, explorar ainda mais
o público no exterior, subir o preço das assinaturas e manter-se firme economicamente ao
longo da crise econômica, isso tudo sendo fiel à longa narrativa, já é por si só uma boa
história para se contar. No entanto, a monografia não estará completa sem a avaliação de
profissionais do jornalismo digital sobre a inserção do semanário no iPad.
Desde o lançamento do tablet da Apple, em 2010, Pedro Dória, diretor executivo
no jornal O Globo, estudou profundamente as experiências digitais dos principais veículos.
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Dória viajou aos Estados Unidos e conversou pessoalmente com Jesse Angelo, editorchefe do jornal digital de Rupert Murdoch, The Daily, analisou diversas pesquisas e leu as
versões digitais que julgou importantes. Isso tudo para dar conta ele mesmo da revista
digital que o jornal carioca preparava, o Globo a Mais.
Dória irá relatar para esta pesquisa as principais influências incorporadas no
produto final e suas impressões do que tem funcionado no jornalismo digital. O que ele vai
dizer sobre o digital da New Yorker, ancorado na longa e aprofundada reportagem, com
recursos multimídia relevantes, mas nunca exagerados, será importante para compreender
o que tem funcionado e o que gera fidelidade dos leitores no tablet.
Pode-se relacionar o sucesso das longas reportagens e dos trabalhos digitais
apreciados ao tamanho e tradição dos veículos que estão produzindo, além do fato deles
serem anglófanos, de maior alcance de público, portanto. Para elucidar essa questão, serão
importantes os exemplos de start-ups como o Atavist, criado há cerca de dois anos e já
depositário de investimentos de grandes empreendedores digitais. E também o Scrol Kit,
do nova-iorquino Cody Brown. Fundado em 2011, o Scroll Kit é um programa que auxilia
qualquer um a fazer seu projeto de storytelling digital.
A empresa funciona com dinheiro arrecadado entre os usuários e hoje opera com
apenas dois funcionários. No manifesto de lançamento do Scroll Kit, Brown deixou claro
que seu objetivo principal seria um produto que permitisse que o futuro do jornalismo
digital fosse acessível para todos.
Contribuirá para a compreensão e a análise do objeto de estudo “About Town”
(YAGODA, 2001), livro de Ben Yagoda. Yagoda não é só mais um fanático pela revista,
pois desprendeu anos de sua carreira para pesquisar a história da New Yorker e revelar
informações detalhadas das direções do semanário, desde Harold Ross, até David
Remnick. Aficionada por tecnologia e comunicação, Giselle Beiguelman também será
parte importante da monografia.
Seu “O livro depois do livro” (BEIGUELMAN, 2003) é um relato sensato e
completo sobre as possibilidades criativas na narrativa digital e demonstra bastante que ser
inovador e inventivo vai muito além de ter recursos financeiros. Antes de tudo, são
necessários uma cabeça pensante e um coração ousado. Para que isso seja comprovado,
serão analisadas pesquisas de centros de excelência em comunicação como a o laboratório
de jornalismo da Fundação Nieman e o Pew Research Center que têm tido na história a
função de apontar as principais tendências no futuro da área.
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Por fim, e não menos importante, a monografia buscará a opinião de leitores de
longa data da New Yorker, para poder revelar o quanto o aplicativo se aproximou das
necessidades do assinante. Escrita em um dos idiomas mais populares, o inglês, a revista
agora consegue com o digital alcançar cada dia mais leitores pelo mundo. É que a
assinatura internacional digital é muito mais barata do que a impressa. Um novo e imenso
patamar de mercado a ser celebrado na revista octogenária.
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2. DE REPENTE DIGITAL
A fibra óptica é um pedaço de vidro que consegue transmitir luz. Pode ter diâmetro
ínfimo, ou até mesmo vários milímetros (o que para cabos é bastante). Quando um feixe de
luz é lançado em uma de suas extremidades, ele percorre a fibra toda por meio de
sucessivas reflexões. Os cabos de fibra óptica podem atravessar oceanos. Esse é um
processo monumental, que envolve cabos de milhares de quilômetros sob o mar,
atravessando fossas e montanhas submarinas.
Em 1988, custando U$335 milhões de dólares, a primeira “superestrada de
informação” foi implantada. A instalação ligou os Estados Unidos, Inglaterra e França,
com capacidade para 40 mil conversas telefônicas simultâneas. Desde então, aumentou
muito a capacidade dos cabos. Alguns já conseguem suportar até 200 milhões de telefones.
A fibra passou a ter várias aplicações. A Internet é hoje a principal delas.
O mundo entrou no século XXI conectado à rede. A primeira década dos 2000
assistiu a Internet se consolidar, com a expansão do acesso e a unificação das ferramentas
em tecnologias móveis. Unificaram-se também as plataformas de distribuição de
comunicação, rompendo a relação espaço-temporal da informação. O indivíduo precisou se
acostumar a um turbilhão de aparatos e tecnologias digitais.
Se, a cada mês, há um novo aparelho revolucionário para o usuário se adaptar, a
cada dezoito meses esses aparelhos duplicam sua capacidade de processamento. Essa
constatação, conhecida como Lei de Moore, foi elaborada por Gordon Moore (cofundador
da Intel), em um artigo de 1965 em que falava
sobre como as tecnologias tendiam a
dobrar sua eficácia em um ano e meio pelo mesmo custo original.
Psicólogos relatam o sentimento de perceber as grandes estruturas de controle
social ruindo. O governo, as instituições, a comunicação são incapazes de dar conta da
complexidade de uma sociedade em que o pensamento já não é mais linear, e sim
rizomático, embebido em novos padrões de circulação de informação.
Videogame, Internet, smartphone, MP3, iPod, iPad. Os nativos digitais vivenciam
por meio dessas tecnologias digitais grande parte de seu tempo e de sua realidade.
Acostumaram-se eles mesmos a comporem sua grade de programação, ou ainda interferem
nelas, em objetos nos quais não só recebem o conteúdo, mas também produzem. Lêem
facilmente hipertextos e são capazes de conviver com uma leitura aleatória, simultânea,
horizontal, virtual, subjetiva e sensorial.
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Todos se beneficiam da Internet. Um minuto; quase todos. O modelo de negócio
das Comunicações mergulhou em um profundo processo de transição, desde a dimensão
acelerada que a circulação de informações tomou e a criação de novos meios de
publicação, como blogs e redes sociais. Um modo de produção de notícia, que se
encontrava há anos em franca estabilização, precisou ser revisto e modificado.
Trata-se de uma relação complexa entre criação cultural contemporânea e
indústria. Ao jornalista, é exigida uma produção diferenciada, inédita, incessante e, acima
de tudo, rápida. Os veículos passam a lidar com as intersecções de linguagem e de
plataformas comuns ao ambiente digital e desejadas pelos leitores.
Este capítulo fala sobre a presença do digital na sociedade desde a disseminação da
Internet e dos dispositivos móveis. Conta da influência da tecnologia na área da
comunicação e seus efeitos, principalmente os iniciais, no mercado.
2.1 Veio a tecnologia...
Em agosto de 2011, chamava atenção nas bancas uma novidade editorial. A revista
de capa colorida – um azul bebê misturado a tons de rosa, preto e branco – destacava entre
os títulos de reportagens de sua edição inaugural frases como “abaixo a originalidade”,
“nasce a economia criativa”, “a atualidade da apropriação”, “a era das clonebridades” e
outras passagens intrigantes. À esquerda, no topo da capa, lia-se “seLecT – arte, design,
cultura contemporânea e tecnologia”. Na página 16, seguia o primeiro editorial escrito pela
editora Paula Alzugaray:
Num mundo em que o fluxo de informação é vasto e descentralizado,
uma revista deve ser um lugar de conexão e articulação. Num tempo de
discursos multidirecionais, a revista deve ser uma ferramenta de
navegação que facilite o transitar permanente entre áreas. seLecT é uma
revista trans. Atravessamos artes visuais, design, arquitetura, moda,
mídia... Como tema de estreia, elegemos trabalhar sobre os novos
modelos de criatividade, que surgem com as mídias digitais e que
prescindem da originalidade. (seLecT, 2011, nº1)
O nascimento da publicação e seu editorial/manifesto dão uma pista clara da
relação entre cultura, tecnologia e sociedade atualmente. Já desde os primeiros anos do
século XXI, a consolidação da Internet modificou por completo a cara da comunicação. As
novas condições de veiculação de conteúdo, marcadas pela expansão do acesso à banda
larga e pela popularização das tecnologias móveis, obrigam os jornalistas a repensarem a
própria natureza do jornalismo e das convenções e formatos da comunicação.
7
Maximizam-se as possibilidades de distribuição de notícia, com o desenvolvimento
de novas plataformas, e aumenta o volume de informação circulando. O que muda tudo.
Justifica-se, portanto, o esforço de revistas como a seLecT de se conectar a um leitor
urbano, acostumado com uma realidade acelerada e transitória, onde as formas de
percepção e visualização de mundo são constantemente remodeladas.
De repente, redações antiquíssimas, e, claro, as novas também, são obrigadas a
repensar seus padrões de usabilidade e de funcionalidade. Delas, é exigido o diferente, a
adaptação. É preciso ser consistente, espetacular. Mas também se deve ser rápido, audível,
transmídia, imediato. É preciso sobreviver à concorrência, que não é apenas os demais
veículos de comunicação. Blogs, redes sociais, fóruns possuem acesso quase em tempo
real e o processo de produção, na maioria das vezes menos rigoroso, gasta muito menos
dinheiro e tempo.
Para a professora do programa de pós-graduação em comunicação e semiótica da
Universidade de São Paulo (e editora da seLecT), Giselle Beiguelman, o assunto central é a
quebra dos parâmetros e o questionamento da organização burocrática da área. Em “O
livro após o livro” (2003), Beiguelman discute as transformações ocorridas na estética e na
criatividade com o digital, e a condição do leitor e da leitura dentro da cultura das redes.
Ela fala sobre novos paradigmas no processo de produção de informação:
O texto agora se dá a ler em um meio que é também o meio em que se
escreve, e, muitas vezes, no qual também se publica, agenciando um
processo de reciclagem do conhecimento em uma escala sem precedentes,
confundido as práticas da escritura e da leitura. (BEIGUELMAN, 2003, p.
18)
Beiguelman acha importante chamar atenção para a redefinição não só da
experiência da leitura, mas também o lugar de leitura, onde, ainda que a tela do
computador mascare as diferenças entre texto, imagem e lugar, elas definitivamente se
tornam mais relativas.
A comunicação não está sozinha. Antes de se perceberem profundamente alterados
pela tecnologia, jornalistas assistiram ao mercado da música e dos filmes encararem
precocemente os efeitos do digital. Homero já falava em pirataria em sua Odisseia. Os
piratas eram aqueles que roubavam, principalmente em alto mar, riquezas alheias,
pertencentes a mercadores, navios, cidades costeiras.
Quase 30 séculos depois, o termo é agora usado para indicar aquele que viola
alguma coisa. Uma pesquisa publicada na primeira edição da seLecT (2011) mostrou que
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se em 2001 os lucros com venda de CDs eram de 33,07 bilhões de dólares, em 2008 o
número já havia caído para 3,55 bilhões. No mesmo ano, a indústria de softwares perdeu
nos Estados Unidos cerca de nove bilhões de dólares, no Brasil, foi mais de um bilhão. E
esses números só crescem. São complexos os últimos tempos para a indústria criativa.
Em 1996, a Internet Archive, uma organização sem fins lucrativos, imaginou um
arquivo digital que reunisse todo o conteúdo da Word Wide Web. A Wayback Machine
trabalha, desde então, armazenando sites criados e hoje cresce 20 terabytes por mês1. Para
comparar, a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, a maior do mundo, contém 10
terabytes em seus cerca de 33 milhões de livros. Feita a conta, pode-se concluir que a
Internet cresce duas vezes o acervo bicentenário americano. E a Internet tem ainda pouco
mais de 20 anos.
É muita informação. No final de 1999, às vésperas do episódio do “Bug do
Milênio”, um Umberto Eco preocupado falou à Folha de S. Paulo. O escritor italiano
refletiu sobre Internet, memória e informação:
Se me lembrasse de tudo o que se passou, eu seria como Funes, de
Borges. Estaria perdido. Funes, você se lembra, não pode nem agir, nem
sequer se mexer. O que caracteriza a transmissão da memória é a
filtragem. E, com a filtragem, a generalização. A Internet já é um imenso
Funes. Até o presente a sociedade filtrava para nós, por intermédio dos
manuais e das enciclopédias. Com a Web, todo o saber, toda a
informação possível, mesmo a menos pertinente, está lá, a nossa
disposição. (ECO, 1999)2
Há 14 anos, Eco perguntava-se quem filtraria todo esse conteúdo. A própria
tecnologia encarregou-se de enxugar parte do excesso de informação. O comando
<content=no-cache> está inscrito no código fonte da maior parte dos portais. A equação
diz ao computador do receptor que não salve em seus arquivos a estrutura da página
visitada. A ideia é evitar o acumulo pouco saudável à máquina, são muitos os dados em
que se circula durante a navegação.
Isso só para começar. Hoje, sabe-se, viabilizar a circulação de conteúdo é o mínimo
que a tecnologia tem feito. Algo muito maior e muito mais importante se escora nos
algoritmos de programação. E o que seria isso? Curadoria de informação, o mecanismo
responsável por fazer com que, na profusão de dados digitais (mais de cinco milhões de
terabytes de dados disponíveis), o leitor entre em contato com determinado conteúdo.
1
2
Dado disponível em: http://archive.org/about/faqs.php. Acesso: 04/10/2013.
Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs08089909.htm. Acesso: 04/10/2013.
9
O buscador do Google (e outros buscadores) é um bom exemplo para a questão. A
rede social Facebook também. O sistema de recomendações da Amazon, páginas de
música como o LastFM, todos são sites baseados em algoritmos curadores que organizam
informações a partir dos interesses demonstrados na navegação dos usuários. Essa é uma
programação criada para incrementar uma personalização da experiência digital, o que
facilitou em muito um mercado de negócios voltado para o marketing especializado. A
tecnologia tem definido, então, o alcance das informações. Contudo, é necessário
considerar que os algoritmos são antes de tudo o produto do subjetivo processo humano de
fazer escolhas.
Quando a Internet foi projetada, havia a ideia de transformá-la em uma grande
biblioteca, onde se navegasse passivamente, em busca de informações. Não colou. Em
“Cultura da Interface” (2001), Steven Johnson lembra da troca, já nas primeiras redes peer
to peer, de arquivos entre internautas completamente desconhecidos, um comportamento
inesperado que evidenciou precocemente a potencialidade da rede.
Em dezembro de 2006, “Você” foi considerado a personalidade do ano, pela Time
Magazine3. Segundo a revista, “a World Wide Web transformou-se em uma ferramenta
que agrupou as pequenas contribuições de milhões de pessoas e deu para elas relevância”.
A criação de conteúdo pelos usuários e a colaboração entre indivíduos espalhados pelo
globo teria alcançado na última década uma escala nunca antes vista.
É o caso, por exemplo, dos mais de 800 mil artigos4 colaborativos já enviados ao
Wikipédia, ou das 100 horas de material que o canal de vídeos YouTube recebe a cada
minuto5. Os sites de financiamento coletivo e de mobilizações de campanha, como o
Avaaz e o Catarse, revelam o potencial de muitos fazerem bastante por poucos, ajudando
uns aos outros diversas vezes sem ganhar nada em troca.
Na opinião da Time, isso tem mudado não só o mundo, mas também a maneira
como o mundo muda. Auxiliados por novas ferramentas e softwares criados para facilitar
3
Disponível
em:
http://content.time.com/time/magazine/article/0,9171,1570810,00.html.
Acesso
em:
08/10/2013
4
Dado de 08/10/2013.
5
Disponível em: http://www.youtube.com/yt/press/statistics.html. Acesso em: 08/10/2013
10
uma participação maior do internauta, aos poucos, interatividade e compartilhamento
passam a se tornar sinônimos de rede.
E o que isso significa para o jornalismo? Em “Jornalismo 2.0: Como sobreviver e
prosperar” (2007)6, Mark Briggs deu seu diagnóstico: “Leitores não são mais receptores
passivos das nossas mensagens. Eles criam, compartilham e comentam. E ainda esperam
fazer isso em sites de notícia também” (BRIGGS, 2007).
Não há quem saiba com certeza para que lado a comunicação está realmente
caminhando e quais são as oportunidades na produção de notícia que de fato provarão
serem bem-sucedidas. Para Briggs, não saber onde estão indo é parte da dificuldade dos
jornalistas mais antigos em se adaptarem a esse novo contexto.
No relatório de dezembro de 2006 da Fundação Nieman, o jornalista dinamarquês
Ulrik Haagerup escreveu sobre a angústia e a dificuldade do imperativo em se inserir no
digital:
O maior obstáculo é o mental. Nós nos impomos a permanecer na crença
de que nosso trabalho é imprimir tinta em papel e entregar com a ajuda de
jovens garotos usando shorts antes das sete da manhã. Essa mudança
pode ser difícil para jornalistas fazerem. Significa compreender que a
nossa missão é servir as pessoas de nossa comunidade, contanto a eles
histórias úteis e envolventes, qualquer que seja a tecnologia utilizada
(HAAGERUP, 2006)7.
De volta ao “O livro depois do livro” (2003) de Beiguelman, a autora conclui
exaltando a originalidade que surge em momento de transição, implicando em novas
técnicas de produção dos textos e novos suportes e práticas de escrita. A influência das
redes também passa a ter grande relevância nas questões públicas, descentralizando a
comunicação e conectando internautas de diferentes estratos sociais. Nesse cenário, a
mídia assume o papel de formador de opinião com o compartilhamento nos perfis de
notícias e o frenesi dos debates políticos nos meios digitais.
Muito se diz sobre a maneira frívola como as redes muitas vezes conduzem suas
discussões. Na mesa de abertura do “Seminário Nacional Mídia e Psicologia: Produção de
Subjetividade e Coletividade”, Manuel Calviño, professor de psicologia na Universidade
de Havana, preferiu ressaltar o poder das novas mídias na configuração da sociedade e nos
processos de subjetivação.
6
7
Disponível em: https://knightcenter.utexas.edu/Jornalismo_20.pdf. Acesso em: 08/10/2013
Disponível em: http://www.nieman.harvard.edu/reportsitem.aspx?id=100281 Acesso em: 18/11/2013
11
Quando entram em cena as novas tecnologias de comunicação, vemos
emergir uma nova presença do espetáculo na vida íntima e privada. Nesse
contexto, a mediação técnica e a “articulação” próprias ao espetáculo não
representariam uma perda de realidade, mas antes um dos modos pelos
quais a realidade faz sua aparição para nós humanos. Longe de ser uma
operação supérflua ou indigna, a realização do espetáculo participa da
própria tessitura do corpo social. Negar a mediação ou o espetáculo pode
equivaler a negar nossas formas de sociabilidade e de subjetivação. O que
nos leva a colocar questões como: que experiência de si se encontra
presente nessa forma de visibilidade maximamente estendida de
espetáculo contemporâneo?(CALVIÑO, 2009, p. 48)
2.2 ... e tudo mudou
“Não
há profissão mais fascinante que a de jornalista, e não há personagens mais
românticos que os jornalistas. Passar as tardes tomando café com as pessoas mais
interessantes ou derrubando ministros. Tem coisa melhor?” (MOCHKOSKY, 2013). O
relato apaixonado é de Graciela Mochkosky, jornalista há mais de 20 anos, a maior parte
deles trabalhando no jornal Página ½.
No texto publicado na revista piauí de maio de 20138, a argentina contou sobre o
que viu e viveu durante as duas últimas décadas do jornalismo, período em que
acompanhou a profissão ir do glamour, das grandes reportagens e do lucro, às falências e
demissões. Mochkosky lembrou de seus amigos que abandonaram a profissão em busca de
atividades mais rentáveis.
Uma colega do curso de jornalismo da Universidade Columbia que saiu do veículo
em que trabalhava para se lançar em uma carreira bem-sucedida de vendedora de
cosméticos. Outro que agora ganhava muito dinheiro administrando uma ONG. Assustada,
a argentina perguntou-se: “Como fazer jornalismo sem um meio? Como fazer jornalismo
em um meio? Isso é tudo? É o fim?”
Quando escreve para a revista piauí, Mochosky relata um ressentimento
compartilhado por muitos profissionais da comunicação, centrado na perda do papel do
jornalista em ter o poder de dizer o que é bom e o que é ruim, ou seja, ser o gatekeeper
(guardião do portão). Em um universo em que produtores e consumidores se misturam, ele
8
Disponível em: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-80/anais-do-jornalismo/ilusoes-perdidas. Acesso
em 14/10/2013.
12
agora organiza as informações mais importantes que as redes destacam, trabalhando
principalmente como um gatewatcher (observador do portão).
A ascensão da tecnologia digital e a disseminação da Internet fazem parte de uma
importante transformação que mudou profundamente o ecossistema jornalístico. A rede,
global, onipresente e barata, proporcionou a qualquer indivíduo a possibilidade de
produzir, copiar, compartilhar e debater conteúdos. Em um relatório de 2012, o Tow
Center for Digital Journalism, da Escola de Jornalismo da Universidade Columbia9,
constatou “uma frustração causada por velhos processos”.
Apenas incorporar um punhado de técnicas novas não tem sido suficiente para os
veículos impressos se adaptem ao novo ecossistema jornalístico. O mesmo relatório disse:
a Internet acabou com o subsídio da publicidade. “Alguns jornais estão em bancarrota”, diz
a pesquisa, “outros perderam três quartos de seu valor de mercado. Quase um de cada
cinco jornalistas que trabalhavam em jornais em 2001 perdeu seu emprego.” O relatório
concluía que o futuro próximo ainda devia de ser pior.
Na era da Internet, a maior parte dos veículos ainda não descobriu como salvar o
jornalismo impresso. Jornais criaram web sites, mas os lucros ali não se aproximam o
suficiente para repor as perdas com circulação e anúncios. Em “The Vanishing
Newspaper” (2004), o jornalista Phillip Meyer fez um diagnóstico cruel. Para o professor
da Universidade da Carolina do Norte, a crise dos jornais norte-americanos também advém
de uma queda da qualidade do jornalismo praticado. Erros de cobertura e perda de
credibilidade estariam ligados às perdas na lucratividade.
Meyer prevê que a última cópia de um jornal irá aparecer na calçada da casa de
alguém um dia em 2043. Ele afirma que o negócio da imprensa é influência, e não
informação. Para ele, há uma forte relação entre o poder de influir dos jornais e a
rentabilidade. O americano traça um paralelo entre a necessidade de enfrentar a
concorrência, entre elas principalmente a Internet, e os cortes de custo em vários veículos.
A maioria dos administradores da indústria reagiu à crise do seu modelo de
trabalho com cortes de orçamento, reduzindo o tamanho das páginas e colunas fechando
escritórios e diminuindo o staff. Segundo ele, são redações menores e mal pagas, com
muito pouco tempo de preparação de notícia e profissionais com menos experiência.
9
Disponível em: http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/_ed745_o_ecossistema
Acesso em 14/10/2013.
13
O autor diz que não é a descrença do leitor comum que mata a credibilidade de
um jornal, mas sim a da elite política, econômica e social. Para o livro, Meyer realizou
algumas pesquisas que demonstraram como os erros frequentes nas notícias contribuem
para prejudicar a credibilidade no trabalho dos repórteres. Ele polemiza ao dizer que
jornais foram vítimas da cultura do dinheiro fácil. Situação que sofreu mudanças radicais
nos últimos anos, com a perda de anunciantes para a Internet.
Dos entrevistados para o livro, 29% acreditavam que os jornalistas não conhecem
os temas sobre os quais escrevem; 23% acham que a queda na qualidade tem a ver com a
pressa em produzir notícias e 16% afirmaram que o problema está em os jornalistas não
fazerem uma boa pesquisa. Quase a totalidade das razões mencionadas pelos entrevistados
tem a ver com despreparo técnico e falta de cultura dos profissionais.
Erros objetivos, como os de grafia e digitação, erros subjetivos, resultantes de uma
má avaliação ou contextualização equivocada, e erros de cálculo são os que Meyer aponta
como mais problemáticos. Após examinar 5100 reportagens, o jornalista constatou que
53% dos erros são subjetivos, seguidos pelos objetivos (21%) e os de cálculo (18%). Os
8% restantes tinham causas múltiplas.
Sua pesquisa demonstrou que os leitores relacionam precisão dos fatos com
credibilidade do veículo. Em um ensaio para o Columbia Journalism Review10, o autor
formulou um importante ponto de vista: “O único jeito de salvarmos o jornalismo é
desenvolvendo um modelo que ache lucro na verdade, na vigilância e na responsabilidade
social” (MEYER, 2004), disse.
Em março de 2008, Eric Alterman escreveu o seguinte para um artigo da revista
New Yorker:
Junto com os aspectos mais significantes da transição dos jornais de
“árvore morta” para o mundo das informações digitais está a natureza da
notícia. O jornal é pensado para ser atraente a uma grande audiência, com
conflitos de valores e opiniões, em virtude do seu compromisso com a
objetividade. Muitos jornais, na sua ânsia de demonstrar um senso de
equilíbrio e imparcialidade, não permitem que os repórteres coloquem
sua voz publicamente, voluntariem-se em campanhas políticas, ou colem
adesivos em seus carros. (ALTERMAN, 2008)11
10
Disponível em: http://www.unc.edu/~pmeyer/Saving%20Journalism.pdf Acesso em 17/10/2013
11
Disponível em: http://www.newyorker.com/reporting/2008/03/31/080331fa_fact_alterman Acesso em:
16/10/2013
14
No ano anterior, em 2008, ápice da crise econômica nos Estados Unidos, 41
cotidianos americanos fecharam as portas. Em 2009, o número subiria para 112. Segundo
Barbara Basil Marcolini (2012), entre 2004 e 2009 a circulação de jornais teve uma queda
de nove milhões de cópias nos EUA e de 13 milhões na Europa. Em 27 países dos 31 que
integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OECD,
foram registradas quedas totais nas receitas das empresas de notícia impressa.
Em 2013, o Pew Research Center publicou um novo relatório no qual afirmava ter
constatado até 2012 uma erosão continuada dos veículos de comunicação12. As estimativas
de cortes em jornais até 2012 apontam uma redução da indústria em até 30% desde 2000 e,
pela primeira vez desde 1978, um número abaixo de 40 mil funcionários empregados.
No início de 2013, a revista semanal Time desfez-se de 5% do seu staff. Uma lista
cada vez maior de veículos, como a Forbes, usa a tecnologia fornecida pela companhia
Narrative Science para gerar conteúdo por meio de algoritmos, sem que repórteres
humanos sejam necessários. Alguns dos novos veículos sem fins lucrativos, como por
exemplo o Chicago News Cooperative, depois de um lançamento barulhento e
esperançoso, fecharam suas portas.
No Brasil, desde o início dos anos 2000, as estatísticas preocupantes também se
repetem. Se em 1990 a Folha de S. Paulo atingia recorde de mais de um milhão de
exemplares em circulação, em 2012 o Instituto Verificador de Circulação apontava
números iguais ou menores a 330 mil. Em junho de 2013, quase 40 jornalistas e
funcionários do Grupo Folha foram demitidos.
Recentemente, a Editora Abril também revelou dificuldades econômicas,
desfazendo-se de empregados e algumas de suas publicações. As revistas Lola, Alfa, Bravo
e Gloss desde agosto de 2013 deixaram de existir. No Rio de Janeiro, em outubro de 2010,
o Jornal do Brasil anunciaria o fim de sua versão impressa após um longo período de crise
financeira.
A migração para a Internet é cada vez maior. Segundo o mesmo relatório do Pew
Center, o número de visitantes habituais de sites de notícias nos EUA aumento 19% entre
2007 e 2008. O tráfego dos cinquenta sites de notícias mais populares cresceu 27%. O
faturamento com publicidade, antes ascendente na razão de um terço ao ano, está
estagnado. A publicidade acabou não migrando para os portais.
12
Disponível em: http://stateofthemedia.org/2013/overview-5/ Acesso em: 14/10/2013
15
A pesquisa de 2012 “The State of the News Media”13, do Pew Research Center,
mostrou que os anunciantes não têm escolhido o online devido a dificuldade de
contabilizar o efetivo impacto sobre o leitor. Pedro Dória constatou em entrevista 14 que, na
concorrência com sites públicos como Google, YouTube e Facebook, o jornalismo online
tem perdido os investimentos: “Os sites públicos conseguem ofertar um target mais
específico. Em algum momento a gente também vai poder ter isso, mas vai demorar”,
disse.
Em “Abandoning the News”, matéria de Merril Brown para a Carnegie
Corporation15, o jornalista americano cita uma pesquisa que mostrou que 39% dos leitores
com idade abaixo de 35 anos dizem esperar usar a Internet para ler notícias no futuro;
apenas 8% afirmou que deverá ler notícias em veículos impressos. Tomando o lugar dos
jornais, a Internet está a ponto de substituí-los como fonte de informação.
Entre os usuários mais novos, o processo de substituição já é praticamente
completo. Sites de notícia como o Yahoo e o MSN, que publicam notícia em tempo real ao
longo do dia, são frequentemente citados como principal leitura, com 44% dos adultos
entre 18-34 anos acessando ao menos uma vez por dia, segundo a pesquisa de Brown.
Medidos pelo uso diário, o acesso à TV local vem em segundo lugar, com 37%, seguido
por impressos, com 19%,
No artigo de Eric Alterman para a New Yorker ele diz também:
É uma ironia, talvez, que quando um leitor navega pela Web em busca de
notícias políticas ele frequentemente acaba em um site que é meramente
um agregado de trabalho jornalístico feito originalmente em um jornal.
Mas esse fato não vai salvar nenhum emprego nos jornais ou aumentar o
valor de mercado das empresas. (ALTERMAN, 2008)16
O artigo foi escrito quase quatro meses antes de estourar a crise econômica, no
início do segundo semestre. Na ocasião, Alterman também afirmou: “Poucos acreditam
que os jornais da maneira como são produzidos irão sobreviver.” (ALTERMAN, 2008) No
início de 2008, também, Bill Keller, diretor executivo do New York Times entre 2003 e
13
Disponível em: http://stateofthemedia.org/2012/newspapers-building-digital-revenues-proves-painfullyslow/ Acesso em: 14/10/2013
14
Entrevista concedida a autora em 19/08/2013, na redação do jornal O Globo no Centro do Rio de Janeiro.
15
Disponível em: http://carnegie.org/publications/carnegie-reporter/single/view/article/item/124/ Acesso em:
16/10/2013
16
Disponível em: http://www.newyorker.com/reporting/2008/03/31/080331fa_fact_alterman Acesso em:
16/10/2013
16
2011, disse em um discurso em Londres que “em lugares onde editores e publishers se
encontram, a atmosfera é de funeral.”
Pedro Dória é diretor executivo do jornal carioca O Globo. Em um artigo em
novembro de 2012, apresentou a sua hipótese sobre as dificuldades do jornalismo
impresso17: “Não tem a ver com a mudança tecnológica. Tem a ver com uma profunda
crise econômica. Não só jornais fecharam.” (DÓRIA, 2012) A associação da falência do
ecossistema jornalístico atual somente com a economia parece não explicar toda a questão.
Principalmente quando, de acordo com um relatório de 2011 da Associação dos
Jornais Americanos18, 41% dos jovens acreditam que a Internet é o local mais eficaz para o
aprendizado. E 49% deles dizem que a Internet fornece notícias apenas quando eles
querem, um fator importante para esse grupo de idade. Esses, os consumidores do futuro,
abandonam pouco a pouco o jornalismo como conhecemos, e, na opinião do relatório da
Carnegie Corporation, está bem claro que um grande número deles nunca mais irá voltar
aos veículos impressos.
Rupert Murdoch, o magnata da mídia, em um discurso para a Sociedade Americana
de Editores de Jornais em abril de 2005 fez um alerta aos publishers. “Os dias em que as
notícias e informações eram firmemente controladas por poucos editores, que designavam
o que podíamos e o que devíamos saber acabaram”, disse.
Para ele, os consumidores de hoje querem “notícias sob demanda, continuamente
atualizada. Querem um ponto de vista, não só sobre o que aconteceu, mas o seu por quê. E
finalmente, eles querem ser capazes de usar os fatos em comunidades maiores – conversar,
debater, questionar” (MURDOCH, 2012)19.
17
Disponível em: http://oglobo.globo.com/economia/jornais-nao-vao-acabar-6643064 Acesso em:
16/10/2013
18
Disponível em: http://www.naa.org/Topics-andTools/Advertising/Research/~/media/NAACorp/Public%20Files/TopicsAndTools/Advertising/Research/Ho
wAmericaShopsandSpends_2011.ashx Acesso em: 16/10/2013
19
Disponível em:
https://www.google.com.br/url?sa=t&rct=j&q=&esrc=s&source=web&cd=1&ved=0CC0QFjAA&url=http%
3A%2F%2Fcommfaculty.fullerton.edu%2Flester%2Fcourses%2F422%2Frubert_murdock_speech.doc&ei=
WluOUuUxjcuQB7YgNgN&usg=AFQjCNE7zvukHD6mIMrSnGpnq6Irg5ZwAg&sig2=jfAslGrmKVJn49WUZSkDTA&bvm
=bv.56988011,d.eW0&cad=rja Acesso em: 21/11/2013.
17
3. JORNALISMO HOJE
O jornalismo nunca sofreu tantas mudanças quanto neste momento da história.
Novas gerações de jornalistas encontram cada dia mais um mercado de trabalho
completamente diferente do qual seus próprios chefes estiveram acostumados. Isso quer
dizer outros formatos, plataformas, linguagem, interatividade, espaço da comunicação na
sociedade.
Enquanto uns vociferam sobre fins, transformações e mudanças, outros
encontraram no digital possibilidades frutíferas. São os que levam a comunicação a
patamares além do que os primeiros repórteres da era do jornalismo industrial poderiam
imaginar. Profissionais inventivos e ousados, como Arianna Huffington e Jonah Peretti, do
Huffington Post, que criam diariamente novas estratégias de mercado. Ou Arthur Ochs
Sulzberger Jr, publisher do New York Times, que, depois de mais de uma década
oferecendo notícias gratuitas no site do jornal, resolveu mudar as regras do jogo com a
atitude polêmica e necessária de cobrar por assinaturas digitais.
E mais. No meio do digital, o digital também se renova. Dez anos após a inserção
do jornalismo digital e de pesquisas que categorizavam o texto para web como rápido,
certeiro, “chegue logo ao ponto”, “o leitor não gosta mais de ler”, jornalistas levantam a
bandeira dos artigos longos e aprofundados. A sofisticação tecnológica e de conteúdo nos
trabalhos de Nicholas Thompson, Evan Ratliff e Jefferson Rabb, criadores do The Atavist,
retratam uma inserção de sucesso do storytelling no meio digital.
Ao ponto de jornais consagrados como o New York Times e o Globo passarem a
criar peças jornalísticas especiais, com investimento pesado de tempo, de pessoal e de
dinheiro na produção de grandes reportagens digitais. Um ambiente que aos poucos tem
respondido se é possível apostar em textos longos para web.
3.1 Jornalismo além do papel
“A mídia tradicional precisa entender que o mundo digital não é o inimigo. Na
verdade, é o que vai salvá-los, se eles o abraçarem completamente”20, disse Arianna
20
Disponível em: http://www.newyorker.com/reporting/2008/03/31/080331fa_fact_alterman?currentPage=1
Acesso em: 26/10/2013
18
Huffington para Eric Alterman em 2008. A presidente do site Huffington Post, acredita em
absoluto no seu modelo de notícias e no caminho que o jornalismo digital vem trilhando.
Huffington, 63 anos, é uma mulher bem-relacionada. Estudou economia na
Universidade de Cambridge, Inglaterra, e acumulou longa network durante os anos de
trabalho como jornalista. Em 2005, quando assumiu o site, organizou também blogs
coletivos no canal, nos quais seus amigos próximos, escritores de diversas searas, foram
convidados a participar.
Os blogueiros – mais de 1800 até agora – hoje vão de celebridades a pessoas
comuns, que escrevem artigos de opinião no site. O Post não paga a eles, o que pode
parecer um pouco caótico. Mas para Keneth Lerer, chefe do site, o novo jeito de escrever
notícias está transformando a mídia.
Para Janet Murray, professor na Faculdade de Literatura, Mídia e Comunicação do
Instituto de Tecnologia da Geórgia, a autoria nos meios eletrônicos é procedimental. O
americano explica melhor seu conceito em “Hamlet no Holodeck”. Segundo ele, autoria
procedimental significa:
Escrever as regras pelas quais os textos aparecem tanto quanto escrever
os próprios textos. Significa escrever as regras para o envolvimento do
interator, isto é, as condições sob as quais as coisas acontecerão em
resposta às ações dos participantes. O autor procedimental não cria
simplesmente um conjunto de cenas, mas um mundo de possibilidades
narrativas. O interator não é o autor da narrativa digital, embora ele possa
vivenciar um dos aspectos mais excitantes da criação – a emoção de
exercer o poder sobre materiais sedutores e plásticos. Isso não é autoria,
mas agência. (MURRAY, 2001, p. 149).
Se os fundadores do Huffingont Post leram o livro de Murray antes de criar seu site
é difícil saber. Por coincidência, ou não, a fórmula elaborada por eles evidenciou, desde o
início dos trabalhos, um desejo em não “entregar” a notícia, simplesmente. E isso funciona.
Uma pesquisa de outubro de 2013 revelou o site como verdadeiro “monstro dos
compartilhamentos nas redes sociais”21 (ALTERMAN, 2008). É seu o primeiro lugar no
nível de interatividade com o Facebook.
O site do Yahoo, o segundo lugar, recebe quase metade do volume de
compartilhamentos na rede social. Dos escritórios do Post, editores analisam a repercussão
21
Disponível em: http://blog.newswhip.com/index.php/2012/10/ranking-worlds-social-news-sources
Acesso em: 10/11/2013
19
das matérias em tempo real, verificando que histórias foram de maior interesse dos leitores,
tiveram mais comentários e compartilharam mais vezes.
Jonah Peretti, também fundador do site, é um conhecidíssimo desenvolvedor de
conteúdo para web, responsável pela fundação do hit cibernético BuzzFeed e criador do
botão “compartilhar” das redes sociais. O jornalista de apenas 39, formado no Instituto de
Tecnologia de Massachussetts, o MIT, defendeu desde o início do Huffington Post uma
empresa compartilhada de notícias. Um processo produtivo “vivo” de um jeito que o
impresso nunca conseguiria fazer.
Os editores do site acreditam que estão reinventando o jornalismo, o que só poderá
ser confirmado dentro de alguns anos. O sucesso da empresa, no entanto, é muito mais
fácil de medir. Segundo a empresa, o número de visitantes individuais, ou seja, de
computadores que acessaram suas páginas, já ultrapassou a marca dos onze milhões. O
Huffington Post arrecada entre seis a dez milhões de dólares ao ano em publicidade. Perde
em popularidade para apenas oito outros sites de jornais, segundo o conglomerado Nielsen
NetRatings que mede audiência.
“Estratégia do mullet”. Essa é a arma secreta descrita por Peretti para o sucesso
econômico do Post. Negócios na parte da frente, festa na parte dos fundos, é como ele
descreve. “O conteúdo gerado pelos usuários é de todo o tipo, mas a maioria é uma
porcaria”, contou em entrevista para a New Yorker22. O que eles fazem é manter a página
inicial do site em perfeita forma e conteúdo, enquanto nas páginas secundárias colocam o
material colaborativo. “O melhor jeito das empresas aumentarem o tráfego na web é
deixando os usuários terem controle, mas o melhor jeito de vender espaço para propaganda
é uma página inicial bonita e organizada, onde os patrocinadores possam admirar suas
marcas”, disse.
Peretti é um profissional ousado. Com sua ajuda, o Post revelou destreza em traçar
estratégias para fazer dinheiro com o digital. Bolar esse tipo de ideia sem dúvida não é uma
tarefa simples. Anunciar reestruturações financeiras pode ser tão difícil quanto. No final de
2011, Arthur Ochs Sulzberger Jr., publisher do New York Times, precisou redigir uma carta
para os milhões de leitores do jornal. Um comunicado difícil e de grande importância:
Essa semana marca uma transição significante para o New York Times,
estamos introduzindo o serviço de assinaturas digitais. É um passo
22
Disponível em: http://www.newyorker.com/reporting/2008/03/31/080331fa_fact_alterman?currentPage=1
Acesso em: 26/10/2013
20
importante que nos esperamos que você veja como um investimento no
Times, algo que irá fortalecer a nossa capacidade de fornecer jornalismo
de alta-qualidade para leitores em todo o mundo e em qualquer
plataforma. A mudança afetará principalmente aqueles que são leitores
assíduos do nosso conteúdo do web site e dos aplicativos digitais.
(SULZBERGER, 2011)23
A mudança mais drástica era a seguinte: usuários que não fossem assinantes do
jornal impresso teriam acesso limitado às notícias do site. “Se você exceder o limite, você
será convidado a se tornar um assinante digital” (SULZBERGER, 2011). Somente vinte
artigos gratuitos por mês, dizia o texto, e logo a Internet inteira estava em pânico.
“Se eu vou assinar? Há! Eu sei usar o Twitter e o Google. Por que eu deveria
assinar? Eu acho que a abordagem do Times é ridícula em múltiplos níveis”, disse Steve
Buttry, editor na empresa de jornalismo digital Digital First Media, para o site da Fundação
Nieman24, apenas algumas horas depois do anúncio. “Isso não vai funcionar”, sentenciou
Corey Doctorow25, do site de publicações digitais Boing Boing, naquela noite. Os preços
variam entre cerca de quatro e oito dólares. Um investimento menor do que um sanduíche
de rede de fast-food que foi capaz de deixar a rede perplexa. Por quê?
Liberdade. Lawrence Lessig, professor de direito da Universidade Harvard,
demonstra em seu livro “Free Culture” (2004) que a livre circulação de conteúdo é o que a
cultura digital essencialmente é e é isso que o consumidor digital deseja. Na Internet, os
usuários parecem confirmar a questão. No início deste ano, a jovem jornalista Eliza Kern
escreveu em sua coluna no Paid Content26 (ironicamente, um site de notícias gratuito): “É
bem óbvio o porquê da minha geração relutar em pagar por conteúdo”, disse a menina de
22 anos.
O New York Times lançou seu site em 1996. No computador da casa de Eliza, o
jornal era a página principal de seu servidor. E ela nunca precisou pagar por isso,
argumentou. Segundo uma pesquisa do Pew Research Center27, jovens de classe média que
23
24
Disponível em: http://www.nytimes.com/2011/03/18/opinion/l18times.html?_r=0 Acesso em: 04/11/2013
Disponível em: http://www.niemanlab.org/2011/03/please-stop-calling-it-a-wall-first-thoughts-on-the-
times-pay-plan/ Acesso em: 04/11/2013
25
26
Disponível em: http://boingboing.net/2011/03/17/new-york-times-paywa.html Acesso em: 04/11/2013
Disponível em: http://paidcontent.org/2013/03/29/generation-mooch-why-20-somethings-have-a-hard-
time-paying-for-content/ Acesso em: 05/11/2013
27
Disponível em: http://www.pewinternet.org/Reports/2010/Paying-for-Content/Report.aspx?view=all
Acesso em: 05/11/2013
21
possuem diploma de graduação fazem parte do grupo que mais provavelmente pagaria para
ter informação. Eliza e seus amigos encontram-se justamente neste nicho. Só por
curiosidade, a garota perguntou a 15 conhecidos seus quem estaria disposto a gastar
dinheiro com notícias. Praticamente todos disseram que não.
O professor Lessig conta em seu livro sobre a importância incontestável da
Internet, que na última década liberou uma capacidade extraordinária da participação de
muitos na construção e no cultivo da cultura. O professor é um dos grandes defensores de
uma regulação branda da distribuição de informação:
Receptores passivos de cultura produzida em um outro lugar. Viciados
em TV. Consumidores. Esse é o mundo da mídia do
século XX. O
século XXI pode ser diferente. Esse é o ponto crucial: ele pode ser um
século de trocas. (LESSIG, 2004, p. 37)
No meio do caminho do “século de trocas” estava o Pay-Wall do New York Times.
Dez dias depois de seu anúncio, e contra o desejo dos leitores e as previsões dos
especialistas e pesquisadores, o sistema de pagamento passou a operar. Isso já faz mais de
dois anos. Desde então, o jornal foi de nenhum assinante para a marca dos mais de 699 mil
e, mesmo no início de 2013, quando o mercado americano esteve enfraquecido, conseguiu
manter uma média de 100 mil novos usuários por ano. Números divulgados recentemente
indicam um lucro anual de 150 milhões de dólares com o Pay-Wall.
A expectativa para este ano é de que eles alcancem a marca de 210 milhões de
dólares com anúncios digitais. Para comparar, o Guardian por pouco passa de 60 milhões
em ganhos com esses anúncios28. No fim de 2012, Arthur Ochs Sulzberger Jr parecia já
comemorar29: “O leitor precisa estar consciente de que para fazer jornalismo de qualidade
é necessário dinheiro. O cenário geral ainda está cambiante. Em termos de circulação, está
provado que funciona”, disse ele ao Estado de S. Paulo.
E então, anos depois dos primeiros debates sobre o fim do jornalismo e a crise do
impresso, algo de novo começou a surgir por todo o globo. No início dos anos 2000, um
uruguaio desenvolvedor de videogames estava cansado de ouvir falar sobre como o
jornalismo poderia sobreviver. Para ele, a questão não era mais só mercado. Era como
28
Dados disponíveis em: http://www.cjr.org/the_audit/the_nyts_150_million-a-year_pa.php Acesso em:
02/11/2013.
29
Disponível
em:
http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,nossa-preocupacao-e-com-o-bom-
jornalismo-diz-publisher-do-new-york-times,946575,0.htm Acesso em: 10/11/2013
22
realmente utilizar a tecnologia para além da mera adaptação das práticas impressas para o
digital. Gonzalo Frasca enxergou nos seus jogos um novo modo de fazer bom jornalismo.
Quase todo mundo se lembra onde estava no dia 11 de setembro de 2001. Na
manhã daquele dia, dois aviões comerciais haviam sido sequestrados por terroristas. Horas
depois, as aeronaves se chocaram com as Torres Gêmeas no centro de Nova Iorque tirando
a vida de quase três mil pessoas. Gonzalo Frasca estava em um avião no dia 11. O episódio
o marcou. Alguns meses depois, o uruguaio precisou fazer um vôo longo nos Estados
Unidos, indo de uma costa para a outra. A viagem levaria tempo, então, aproveitou para
fazer um experimento: escrever durante o percurso um jogo sobre os últimos
acontecimentos (a guerra no Afeganistão). “Kabul Kaboom”
30
levou apenas algumas
horas para ser feito. Nele, o jogador bombardeava afegãos com bombas e suprimentos,
refletindo sobre a chamada “guerra humanitária”. Naquele mesmo dia, Frasca postou o
jogo em seu blog e deixou o assunto para lá. Horas depois, para sua surpresa, ele estava
sendo jogado por milhares de pessoas.
Frasca é o inventor dos primeiros newsgames, jogos que conseguem informar
interativamente. “Cartuns políticos com que se pode brincar”, segundo ele, em entrevista
para a PBS31. Suas criações são simples. Não há complexidade em “September 12th”32,
jogo lançado em 2003, no qual o designer reflete sobre a contradição em buscar a paz por
ações violentas e guerra. A ideia é manter simples e manter político. Sobre a peça, o New
York Times declarou que se tratava na realidade de um “artigo opinativo composto não de
palavras, mas de ações”33. Um artigo opinativo jornalístico. “Claramente, há algo novo
surgindo ai”, disse o USA Today34.
Na América Latina, a Internet desponta como meio de informar e debater, sem estar
atrelado às antigas amarras dos veículos tradicionais. Em Bogotá, a jornalista colombiana
30
Disponível em: http://ludology.typepad.com/games/kabulkaboom.html Acesso em: 10/11/2013.
31
Disponível em: http://www.pbs.org/idealab/2010/09/the-cartoonist-aims-to-bring-newsgames-to-themasses243/ Acesso em: 10/11/2013.
32
Disponível em: http://www.newsgaming.com/games/index12.htm Acesso em: 10/11/2013.
33
Disponível em: http://www.gamesforchange.org/play/september-12th-a-toy-world/ Acesso em:
10/11/2013.
34
Disponível em: http://usatoday30.usatoday.com/tech/webguide/hotsites/2004/2004-07-12-hotsites.htm
Acesso em: 10/11/2013.
23
Juanita León lança o La Silla Vacía35, site de notícias independente dedicado a fazer “um
bom jornalismo” online. Assim também o fazem o peruano Gustavo Gorriti com o IDLReporteros36 e o casal argentino Gabriel Pasquini e Graciela Mochkosfky no el
puercoespín37.
Em El Salvador, um grupo de jornalistas fundou o jornal digital El Faro que tem
recebido destaque por suas investigações aprofundadas e suas longas crônicas sobre a
violência no país. O Animal Político, no México, o CIPER, no Chile, e a Agência Pública,
no Brasil, são outros modelos de jornalismo digital sem fim lucrativo envolvidos na
produção de reportagens de fôlego. “Frutos da nossa frágil esperança de que desta vez vai,
desta vez será diferente”, nas palavras da jornalista Graciela Mochkosfky38.
3.2 Texto longo na Internet? Pode?
Contar histórias sem limites. Jornalismo digital também pode ser isso. É o que
Nicholas Thompson, Evan Ratliff e Jefferson Rabb, criadores do site The Atavist,
acreditam. Há dois anos, os três se sentaram em uma mesa de bar no Brooklyn para
tomarem umas cervejas e conversar. Não demorou muito até o assunto enveredar para o
caminho óbvio em uma mesa só de jornalistas. Passaram a noite inteira reclamando do
estado atual da mídia, fim do jornalismo impresso, empresas decadentes e todo o resto.
Saíram do bar horas depois com uma ideia de negócio de milhões de dólares.
Assim nasceu a bem-sucedida start-up de jornalismo digital, focada em longos
artigos e publicações de não-ficção em e-books.
Nesta época, dois dos fundadores
trabalhavam em revistas. Ratliff, diretor executivo da empresa, contribuiu por muito tempo
com a revista Wired e Thompson trabalha há muitos anos na New Yorker e é editor do
NewYorker.com. O terceiro elemento, Rabb, chefe do departamento de tecnologia do
Atavist, tinha longa experiência em publicações. Ele é um programador talentoso que
passou a maior parte da vida profissional projetando sites para livros.
35
Disponível em: http://lasillavacia.com/ Acesso em: 02/11/2013.
36
Disponível em: http://idl-reporteros.pe/ Acesso em: 02/11/2013.
37
Disponível em: http://www.elpuercoespin.com.ar/ Acesso em: 02/11/2013.
38
Disponível em: http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-80/anais-do-jornalismo/ilusoes-perdidas Acesso
em: 02/11/2013
24
Em 2012, numa entrevista para a Fundação Nieman, Ratliff explicou as aspirações
do site e o desejo em comum dos criadores em remodelar o jornalismo:
Dois de nós viemos do mundo das revistas, então a nossa perspectiva é
muito próxima desse formato. A ideia original nem estava tão ligada ao
multimídia. Nós só queríamos encontrar um lugar para contar longas
histórias. Outras pessoas diriam: “Vocês não acham que a atenção [do
público] não decaiu e as pessoas não querem ler essas coisas grandes?”
Eu sempre respondia que não há evidencia real de que as pessoas não
lêem mais. Mas depois eu percebi que a gente pode simplesmente dizer
que somos “livros pequenos”. Como um escritor de não-ficção e uma
pessoa que ama livros do gênero eu acho que alguns livros são muito
longos. Então o tamanho tem um certo apelo. (RATLIFF, 2012)39
Esse negócio era estranho, histórias longas em um ambiente digital, tão próprio das
notícias curtas e sem aprofundamento. Mas então o Atavist começou a chamar atenção e a
prosperar. Em 2012, empolgou investidores importantes, a ponto de atrair um milhão de
dólares em investimentos nos cinco primeiros meses daquele ano. Impressionava a quantia,
mas também os contribuintes por trás: Eirc E. Schmidt (do Google), Marc Andreessen
(fundador do Netscape), Peter Thiel (criador do PayPal) e Sean Parker (primeiro presidente
do Facebook) estavam apostando alto na empresa dos jornalistas.
As coisas no Atavist funcionam quase como em uma revista; antes de tudo, traça-se
um objetivo. No site, o usuário decide entre: o plano gratuito, que permite a utilização da
plataforma de programação para criar uma peça multimídia de até 150 MB, ancorada no
próprio site; o plano intermediário de dez dólares por mês, no qual o usuário pode fazer
quantos projetos quiser, com até 5GB de tamanho, e transpor o material para um site
pessoal; e o plano premium de 250 dólares por mês, que cria para o escritor seu app no
iPhone e iPad, possibilita que ele venda seu projeto de maneira independente e venda
inscrições no seu canal de leitura, isso tudo sem limite de tamanho de arquivo.
Dá para escrever pelo Atavist de outro jeito também, outra forma que lembra as
redações tradicionais. Mais old school impossível: o jornalista envia sua pauta e os editores
selecionam as melhores para publicarem. O contrato com os colaboradores é feito de um
modo bastante curioso e eficaz. Ele divide os lucros em 50% entre os escritores e o site
(depois das plataformas, Amazon, Apple, já terem tirado sua parte, que é algo entre 30%).
O preço de capa dos livros está em média entre dois, três dólares, o que parece pouco.
39
Disponível em: http://www.niemanstoryboard.org/2012/05/03/multimedia-storytelling-the-atavist-oneyear-in-hows-it-going-evan-ratliff/ Acesso em: 02/11/2013
25
“Tudo aqui é extremamente narrativo”, disse Ratliff na entrevista para a Fundação
Nieman40. Ele fala sobre o desenvolvimento na empresa de ferramentas que possibilitaram
levar as histórias para outro nível. De texto puro para peças que misturam conteúdo
multimídia. Empresas jornalísticas já se aventuravam nesse tipo de construção, mas o que
eles propuseram era bem maior. Elas simplesmente não tinham tanto recurso financeiro e
tempo disponível quanto eles para investir na construção de artigos elaborados, nos quais
vídeos, interatividades, não estivessem ali apenas, mas também fossem parte da história.
É certo que no começo não foi tão simples explicar para os escritores o conceito de
storytelling digital. Mas agora sim. Ratliff conta que é comum receber as pautas com boas
indicações de material extra. O editor chefe agora precisa orientar seus repórteres quando
eles estão completamente perdidos entre ideias. No fim das contas, o mais importante é o
texto. Ele principalmente quer que eles façam reportagens como normalmente fariam.
Em maio de 2012, um artigo no caderno Negócios do New York Times41
consagrava a experiência multimídia do Atavist. Segundo o jornal, o site funcionou porque
supria uma necessidade dos fundadores em suas próprias vidas, da mesma forma que o
Facebook foi criado, ao invés de ser uma tentativa concebida num esforço de explorar um
mercado. Porque eles também estavam usando suas próprias ferramentas e software, a
tecnologia do Atavist era criada de uma maneira bem prática. O artigo, contudo, concluía
que havia dúvidas sobre se os usuários conseguiriam se adaptar em um processo criativo
multimídia bastante complexo. Sete meses depois, o New York Times lançava seu “Snow
Fall”.
A neve veio por trás das árvores sem nenhum aviso, mas [veio] uma
segunda explosão sonora, uma parede branca de dois andares e um Chirs
Rudolph gritando: “Avalanche!”. Aquilo que os 16 esquiadores estiveram
procurando – neve, fresca e suave – instantaneamente se tornou o
inimigo. Em algum lugar acima, um prado intocado havia rachado na
forma de um raio, e cortado uma estrutura de quase 200 pés de largura e 3
pés de profundidade. A gravidade fez o resto. (BRANCH, 2012)42
40
Disponível em: http://www.niemanstoryboard.org/2012/05/03/multimedia-storytelling-the-atavist-oneyear-in-hows-it-going-evan-ratliff/ Acesso em: 02/11/2013
41
Disponível em: http://www.nytimes.com/2012/05/21/business/media/the-atavist-matures-as-a-publisher-
and-a-platform.html?pagewanted=2&_r=0 Acesso em: 02/11/2013
42
Disponível em: http://www.nytimes.com/projects/2012/snow-fall/#/?part=tunnel-creek Acesso em
02/11/2013
26
O Tunnel Creek é uma trilha de esqui que fica no estado de Washington, Estados
Unidos, ao nordeste de Seattle, na montanha Cascade. Em 19 de fevereiro de 2012, Chris
Rudolph, um gerente carismático de um resort da região, havia convidado 16 dos maiores
esquiadores e snowboarders americanos para fazerem um passeio em conjunto pela pista.
Não era algo comum conseguir reunir tantos profissionais talentosos em um evento que
não fosse para competição, mas assim começava o dia e por isso todos estavam bastante
animados. O que se seguiu foi a explosão no topo da montanha de uma imensa massa de
neve. A cena narrada na citação acima, a trágica avalanche de Tunnel Creek, levou a vida
de três dos esquiadores naquele dia. A de Chris Rudolph também.
Quando criança, o sonho de John Branch não era ser jornalista. O que ele gostava
muito e fazia sempre era memorizar estatísticas de esportes e fatos sobre seus jogadores
favoritos. No entanto, enquanto crescia, a pressão da família exigiu que ele escolhesse uma
profissão, diferente da de ser um banco de dados esportivo. Escolheu ser jornalista. Branch
cobre esportes no New York Times. No início de 2012, o acidente em Tunnel Creek
chamou sua atenção e o repórter partiu para fazer a reportagem.
Na primeira vez que Steve Duenes se sentou para conversar sobre a apuração que
Branch conduzia, ficou claro para o diretor de design gráfico do New York Times o
potencial multimídia da história. Prontamente foi designada uma equipe de 16 pessoas para
trabalhar em conjunto com o jornalista. Fotógrafos, editores de vídeo, outros jornalistas,
artistas gráficos e até um físico foram acionados para colaborar na produção da peça. O
projeto era extremamente ambicioso. Havia o desafio de não desmembrar a reportagem
entre o material extra, mas sim conduzir uma narrativa única através dos elementos.
Incluindo o texto.
Em setembro a produção do material começou a tomar forma. Em dezembro de
2012 “Snow Fall” foi lançado. Em abril de 2013, John Branch ganhou um prêmio Pulitzer
pela reportagem. E de repente em jornais, sites, blogs, só se falava sobre o que isso
significaria para o futuro do jornalismo. O Atlantic Wire escreveu que o projeto era lindo e
deixara muitas pessoas imaginando se “a mídia está prestes a renunciar palavras e fotos por
algo muito maior”43. Foram muitos os tweets, entre eles o do professor da Universidade de
43
Disponível em: http://www.theatlanticwire.com/technology/2012/12/new-york-times-snow-fallfeature/60219/ Acesso em: 02/11/2013
27
Toronto Nathan Cardon, que afirmou que “se esse é o futuro do jornalismo online, podem
contar comigo”44.
A experiência atraiu mais de três milhões de visualizações no site do jornal, cerca
de 2,9 milhões de pessoas, quase um terço delas de novos visitantes da página. Em uma
entrevista no final de 201245, Steve Duenes afirmou que “Snow Fall” fazia parte de uma
reestruturação do site e era uma prévia do tipo de construção de reportagem que os
usuários poderiam esperar no futuro. No mês de outubro de 2013, duas outras longas
matérias multimídia foram lançadas.
“A Game of Shark and Minnow”46 e “A Short Story of the History of the
Highrise”47 utilizam os mesmos componentes da primeira, incluindo a quinta versão da
linguagem HTML lançada em 2010, o HTML5, que trouxe novas funcionalidades e
acessibilidade para páginas da web. O aproveitamento no New York Times do HTML5
serviu de influência imediata, por exemplo, para o jornal carioca O Globo, que no final de
2013 publicou a reportagem “Cidade em transe” tentando reproduzir algumas das boas
ideias do veículo americano48.
“Todo profissional odiou secretamente o ‘Snow Fall’”, ironizou um jornalista em
artigo publicado no site The Awl49. Muito se falou sobre o tempo e o dinheiro
empreendidos na realização do projeto e que a façanha só poderia ter sido alcançada em
uma empresa do tamanho do New York Times. Assim, a matéria não seria representativa
sobre o futuro do jornalismo. Foi nesse impasse que Cody Brown viu uma oportunidade.
Para provar que qualquer pessoa poderia fazer um trabalho multimídia como esse, Brown,
fundador da ferramenta de web design Scroll Kit, recriou sozinho a reportagem feita por 16
44
Disponível em: https://twitter.com/n_cardon/status/281847918166675456 Acesso em: 02/11/2013
45
Disponível em: http://www.theatlanticwire.com/technology/2012/12/new-york-times-snow-fallfeature/60219/ Acesso em: 02/11/2013
46
Disponivel em: http://www.nytimes.com/newsgraphics/2013/10/27/south-china-sea/ Acesso em:
02/11/2013
47
Disponível em: http://www.nytimes.com/projects/2013/high-rise/ Acesso em: 02/11/2013
48
Disponível em: http://oglobo.globo.com/infograficos/gentrificacao-cidade-em-transe/ Acesso em:
02/12/2013
49
Disponível em: http://www.theawl.com/2013/05/snow-fall-v-nate-silver-where-would-you-put-yourmoney Acesso em: 02/11/2013
28
profissionais em muito menos tempo50. Ele fez um vídeo do processo e postou no
YouTube com a seguinte descrição: “O NYT gastou centenas de horas programando ‘Snow
Fall’. Eu fiz uma replica em uma hora.”
A provocação servia para divulgar sua ferramenta de programação, mas de fato
demonstrou que é possível criar narrativas digitais com muito menos tempo e dinheiro. Os
recursos atualmente são muitos, a começar pelo próprio serviço oferecido pelo Atavist. A
importância da ousadia do Times é apontar um caminho que passa por um aproveitamento
consciente, inteligente e elaborado da tecnologia. Além de pontuar, junto com os longos
artigos do Atavist, o caráter aprofundado que o jornalismo digital tem assumido.
50
Disponível em: http://techcrunch.com/2013/05/21/snow-fail-the-new-york-times-and-itsmisunderstanding-of-copyright/ Acesso em: 02/11/2013
29
4. ANÁLISE DO APLICATIVO PARA IPAD DA REVISTA NEW YORKER
Pamela McCarthy arrumou seu terninho e se ajeitou na espaldar da cadeira antes de
responder a pergunta. “Qual é para você o futuro do jornalismo?” A questão que ecoa entre
alunos e professores de comunicação, publishers, redações, pesquisadores, também
rondava o pensamento da editora-assistente da New Yorker. Ela tem 61 anos, cabelos
curtos e claros e carrega na voz bem baixa e mansa um nível exato de autoridade. Observa
pela janela a vista esplendorosa para a cidade de Nova Iorque de seu escritório, que fica
colado à sala de David Remnick, o chefe de redação da revista. McCarthy ocupa há mais
de dez anos o segundo cargo de maior importância do semanário.
“Acho que o futuro do jornalismo está no storytelling. Algo mais como o que a
gente faz aqui, ou sites como The Atavist. Eles integram muito bem as histórias com
tecnologia. Seríamos tolos se não aproveitássemos isso também”, explicou em entrevista
para esta monografia em março de 2013. A editora fala de um processo já encaminhado na
revista de adaptação ao jornalismo atual. Em 2009, ela comandou a equipe que produziu o
aplicativo para iPad da New Yorker, meses antes do dispositivo ser lançado. Neste capítulo,
está história será contada, todo o caminho do desenvolvimento da versão para tablet da
revista. Também serão descritos as características do produto, o método de produção do
conteúdo digital e a recepção dos leitores à novidade.
4.1 The New Yorker: quatro décadas de papel...
Quando Ben Yagoda colocou um anúncio no New York Times Book Review
buscando leitores da New Yorker que quisessem fazer parte de uma pesquisa para seu novo
livro, uma biografia da revista, em poucos dias 700 cartas chegaram. Nelas, muitos leitores
se adiantavam, enviando, sem que fossem pedidos, relatos sobre a relação deles com o
semanário. A carta de uma senhora que fora enfermeira da Cruz Vermelha durante a
Segunda Guerra chamou atenção:
Fui enviada certa tarde para uma das estações médicas. Parei diante de
um dos feridos e segurei a sua mão. Ele me disse: “Se você pudesse ter
alguma coisa agora, qualquer coisa, o que seria?” Sem pensar duas vezes
respondi, “uma edição da New Yorker”. Ele pareceu surpreso, depois
começou a rir. Lembramos dos nossos cartoons e escritores favoritos, e
passamos cerca de quinze minutos em outro mundo, um familiar e
divertido, bem longe daquele em que estávamos (YAGODA, 2001,p. 15).
30
Em suas 425 páginas, o livro de Yagoda conta desde o início a história da revista
octogenária americana. About Town (2001) é sobre como um semanário de humor,
fundado na era do jazz e do champagne, tornou-se em dez anos uma das maiores empresas
literárias dos Estados Unidos. Onde John O’Hara, Irwin Shaw, E. B. White, James
Thurber, S. J. Perelman e outros escritores publicaram seus textos. Uma redação em que
Alva Johnston, Joseph Mitchell e A. J. Liebling fizeram suas reportagens. Páginas nas
quais os desenhos humorísticos de Charles Addams, Helen Hokinsons e Peter Arno
fizeram sucesso.
“Eu comecei esta revista porque eu pensei que seria muito divertido conduzir uma
revista de humor, você iria sentar e rir de contribuições engraçadas o tempo inteiro”, disse
Harold Ross, em 1931, sobre a publicação que fundara seis anos antes. A ideia de um
semanário cosmopolita e sofisticado surgiu em uma conversa de mesa de bar com amigos,
em uma época na qual piadas e textos cômicos eram respeitados tanto, ou mais, do que
outros gêneros.
Era um bom momento para se começar uma publicação graças ao boom econômico
do início dos anos 1920 e a técnicas novas e mais ágeis de impressão. E, claro, havia a
cidade de Nova Iorque. Não havia melhor lugar para se estar naquela década, ali o frisson
escapava dos bares da agitada vida noturna, da música dos cantores de jazz, da farra
econômica em Wall Street.
Ross sabia disso e apreciava o leitor nova-iorquino. A revista que ele criou flutuava
entre o mundano e o sentimental em seções como a Talk of the town, onde as
excentricidades da Big Apple viravam crônicas literárias. As declarações que deu à época
da inauguração não deveriam deixar dúvidas: “Essa revista não é editada para a senhorinha
em Dubuque (pequena cidade em Iowa, Estados Unidos). Esperamos uma circulação
nacional, mas isso virá de leitores que tenham interesse em assuntos da metrópole.”
Igualmente caros ao publisher eram os cartoons e as ilustrações da New Yorker.
Estava no prospecto da revista, escrito por Ross no outono de 1924, a característica nove
das dez que considerava mais importantes: fazer dos desenhos satíricos um de seus fatores
de distinção. Sob a sua supervisão, o diretor de arte Rea Irvin criou um dos layouts mais
conhecidos do mundo. Irvin emprestou seu nome para a fonte art déco que inspirou muitos
designers. Logo nas publicações iniciais, a relação elaborada entre texto e ilustrações foi
considerada uma das primeiras grandes contribuições da revista para a cultura e às demais
publicações.
31
Dez anos depois do lançamento da revista, em 1935, os assinantes haviam passado
de modestos três mil para mais de 67 mil. Durante os turbulentos anos pós-Crise de 1929, a
New Yorker conseguiu passar não apenas incólume, mas alcançando altos lucros. Entre
1920 e 1940, figurou em todos os anos entre as três revistas americanas com o maior
número de anunciantes por página. Já era considerada nesta época uma das mais
importantes publicações literárias do país. Seu jornalismo apurado consagrava-se
mundialmente como singular e de qualidade inegável. No famoso departamento de
checagem, cerca de 30 checadores se revezam, desde os anos 1940, em uma conferência
minuciosa de cada fato, citações e declarações contidos nas reportagens.
Ross manteve-se no comando até 1951, ano em que faleceu. Ele foi sucedido pelo
editor William Shawn, repórter da revista de grande talento para escrever e apurar. Foi
devido a sua influência que a New Yorker publicou em um de seus números uma edição
contendo apenas uma longuíssima reportagem. “Hiroshima”, de John Hersey, conta a
história de moradores japoneses que presenciaram o lançamento da bomba atômica na
década de 1940. A publicação ousada tornou-se um marco do jornalismo literário e é lida
com entusiasmo até hoje nas faculdades de jornalismo.
A Condé Nast comprou os direitos de publicação em 1985. Dois anos depois, um
novo editor assumiu o cargo de chefe de redação. Robert Gottlieb, nascido e criado em
Manhattan, era leitor assíduo da revista desde pequeno e sonhava em assumir a edição do
semanário. Quando no comando da New Yorker, determinou que não faria grandes
mudanças, afinal, era um fã. Em seu período como chefe, editou textos de John Cheever,
John Le Carré, Robert Caro, John Lennon, Bob Dylan, Michael Crichton, Mordecai
Richler, John Gardner, entre outros. Mas seu reinado foi abalado por uma outsider.
“Desde que ela assumiu a New Yorker, a qualidade tem sido muito pior. Ela está
evidentemente tentando atrair outro tipo de leitor, não faz ideia do que a revista costumava
ser. Acha que nenhuma edição está completa sem uma foto com partes do corpo expostas.
Os leitores querem algo um pouco mais intelectual”, dizia uma carta recebida na redação
no início dos anos 1990. “Ela” era Tina Brown, editora que sucedeu Gottlieb em 1992. Os
seis anos do comando da inglesa Brown devem ter sido os mais controversos da história da
New Yorker.
A revista mantinha o mesmo layout e a mesma política editorial há mais de 60
anos. Brown introduziu inovações, tais como o uso de cor e fotografias, com menos texto
por página, além de uma identidade visual mais moderna. Isso em uma revista cujo lema
32
era “it’s all about text” (é tudo uma questão de texto). Ela investiu na cobertura de eventos
e em reportagens factuais, em contraste com as matérias “frias” tradicionais, criando
pequenas matérias nas edições sobre celebridades e negócios.
A revista passou a competir no território hard news com outros veículos que já
atuavam na área há anos, como o New York Times e a Vanity Fair. Os lucros com
publicidade caíram drasticamente e entre 1994 e 1998 a New Yorker teve um déficit
econômico de 60,6 milhões de dólares. No final de 1998, Brown anunciou sua saída da
revista, o primeiro chefe de redação do semanário a deixar seu cargo por livre e espontânea
vontade. Um membro da revista, ex-aluno de John McPhee, vencedor do Prémio Pulitzer
em 1994 e escritor prolífico da redação, assumiu a vaga. Começaram assim os anos de
David Remnick.
Lá se vão 15 anos. É a maior permanência de um chefe de redação desde os
tempos de Harold Ross e William Shawn. “A gente mantém o DNA e adiciona elementos
modernos”, disse Remnick em entrevista recente para o New York Times51. Ele fala sobre o
atual momento da revista em que é preciso alinhar os 88 anos de história com os aspectos
do jornalismo recente. O escritor talentoso revelou ser também um visionário inspirado.
Em um exemplo para vários outros chefes de redação pelo mundo, Remnick abraçou o
digital e as inovações, sempre atento ao peso da tradição que tanto a revista, quanto o gosto
de seus leitores, carregam.
Para ele, as habilidades do jornalista hoje estão potencializadas pela tecnologia 52, e
a New Yorker, sob sua direção, reflete bastante isso. Foram diversas pequenas
modificações que ele fez na revista. A última, anunciada em meados de setembro de 2013,
encarou o desafio de renovar a identidade visual, com mudanças na famosa fonte Irvin, a
introdução de uma nova fonte secundária, Neutraface, além da busca por um layout mais
clean. Remnick brincou que a ideia era manter a revista identificável por um leitor de
longa data, mesmo se ela tivesse caída no chão e a centímetros de distancia dos olhos.
51
Disponível em: http://www.nytimes.com/2013/09/16/business/media/a-subtle-redesign-of-the-newyorker.html?_r=1&. Acesso em: 02/10/2013
52
Disponível
em:
http://www.jotdown.es/2013/08/david-remnick-lets-not-to-be-romantic-about-theuniformed-brilliant-quality-of-all-journalism-in-the-pre-internet-age-there-was-a-lot-of-crap/. Acesso em:
02/10/2013
33
“Nosso pão com manteiga ainda é a linguagem e as reportagens e histórias que
publicamos.”, disse na entrevista para o New York Times.53
A era David Remnick demonstra uma habilidade infinitamente melhor que a
administração de Tina Brown em adaptar a revista aos moldes do jornalismo atual, sem
perder as características principais e o apoio dos leitores. No primeiro semestre de 2013,
em comparação com o primeiro de 2012, driblou as drásticas perdas financeiras sentidas
com maior vigor em outros veículos. A publicidade na New Yorker caiu em 4,4%, uma
taxa ainda menor do que a queda de 4,9% das revistas em geral, segundo dados do
Publisher’s Information Bureau54.
Talvez seja uma questão de perspectiva. Enquanto chefes de redação pelo mundo
apontam um possível fim do jornalismo, Remnick declarou enxergar o momento atual não
apenas de crise, mas sim de grandes oportunidades. Seu entusiasmo é compartilhado pela
redação. Como se Harold Ross nunca tivesse deixado a revista, no 21º andar do prédio de
número quatro da Times Square, ouve-se como um mantra as seguintes palavras: inovação,
tradição e sofisticação.
4.2 ...e o iPad é lançado
Steve Jobs estava confortavelmente sentado em uma poltrona de couro preta,
quando demonstrou as funcionalidades do iPad para o mundo, em janeiro de 201055. Assim
que entrou no palco, o empresário americano profetizou sobre o tablet de 680 gramas que
tinha nas mãos: “Queremos entrar com tudo este ano mostrando um produto realmente
mágico e revolucionário”.56
Em outras apresentações de produtos Apple, a figura de Jobs em frente ao
implacável fundo negro, usando calça jeans e gola rolê tornaria-se marca registrada dos
lançamentos da empresa de tecnologia. Naquele dia 27, a cadeira no canto esquerdo do
palco causava estranhamento. A ousadia nada tinha a ver com seu estado de saúde (estava
53
Disponível em: http://www.nytimes.com/2013/09/16/business/media/a-subtle-redesign-of-the-newyorker.html?_r=1&. Acesso em 02/10/2013
54
55
56
Disponível em: http://www.magazine.org/node/25754. Acesso em: 02/10/2013
Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=jj6q_z2Ni9M. Acesso em: 18/11/2013
Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=jj6q_z2Ni9M, Acesso em: 12/09/2013
34
com câncer em estágio avançado). Jobs sentado na cadeira viria a ser a representação do
que se convencionou veicular sobre o tablet: confortável, prático, leve, portátil. Com 9.7
polegadas de dimensão e 1.2 centímetro de espessura, o primeiro iPad tinha quase o
tamanho padrão de um livro.
Durante uma hora e vinte minutos, Jobs mostrou ao mundo o gadget que
atravessaria os limites nunca alcançados por computadores pessoais, smartphones e
conteúdos impressos. Aliado ao fator conforto, falou na apresentação sobre sua conexão à
Internet e as facilidades multimídia. “Checa e-mails, compartilha imagens, exibe vídeos,
toca música, roda games, livros”, listou. Ainda completou: “É um caminho melhor do que
um laptop, melhor do que um telefone. Ver uma página inteira é sensacional!”
Dois meses antes de o iPad ser lançado, no 21º andar do número quatro da Times
Square, um grupo grande de jornalistas e desenvolvedores multimídia aguardavam o início
de uma enigmática reunião. Tinham sido convocados naquele dia para tratar de um tema
incerto.
Baseando-se em rumores que circulavam no mercado, iriam sugerir propostas
visuais e editoriais para o novo produto que na verdade nem se sabia que cara teria. Pamela
McCarthy, diretora-assistente da New Yorker, deu início aos trabalhos, convocando o staff
a apresentar ideias para o aplicativo iPad da revista. Ninguém ali sabia como seria o tablet
que a Apple prometia para o ano seguinte.
“Estávamos apenas adivinhando”, contou McCarthy em entrevista57. A vicediretora da New Yorker, tem 61 anos, 35 deles trabalhando em algumas das principais
revistas americanas. Formada em literatura inglesa, começou sua carreira na masculina
Esquire, que passava na época por um processo de reestruturação editorial. Nove anos
depois, já na Vanity Fair, McCarthy também fez parte da adaptação da revista para uma
nova fase do jornalismo, que, segundo ela, mudava dramaticamente a cara do negócio.
Eram quase 20 anos de bagagem em revistas prestigiadas e de excelência, quando
ingressou na redação da New Yorker. Nota-se em sua trajetória a habilidade em guiar
veículos em períodos de transição e de tatear o incerto, apontando o caminho para frente.
Pesquisas mostravam que a grande maioria dos leitores da New Yorker amava
tecnologia. E mais, amavam tecnologia sofisticada e principalmente produtos Apple. Na
57
Entrevista concedida a autora em 04/05/2013, no escritório da New Yorker em Nova
Iorque.
35
reunião de desenvolvimento do app da revista, o staff da revista octogenária já contava
com a experiência bem-sucedida de sua versão para Kindle, lançada tempos antes. “A
Apple havia dito que seria grande, então começamos a imaginar um Kindle maior e com
cores”, lembrou McCarthy.
Estava em produção ao mesmo tempo o aplicativo da Wired, publicada também
pela Condé Nast. A versão era a estreia do grupo no tablet da Apple e chamava atenção
pela exploração massiva das possibilidades tecnológicas e velocidade na navegação. O
caminho para os editores da New Yorker era o contrário.
Seu esforço era traduzir
fielmente uma revista com tradição de longas reportagens em um momento em que a
maioria dos desenvolvedores digitais indicava a predominância de textos curtos e
resumidos.
Decidiram serem firmes em sua característica principal; aquela era uma revista para
ler. Tinham isso em mente ao desenhar o app. Para tornar o produto mais atraente,
brincariam com os elementos do impresso, misturando os milhares de caracteres que em
média cada uma de suas reportagens tem, com fotos, ilustrações, cartuns e poesias, os
quais a revista também sempre deu destaque.
A produção para o aplicativo da revista durou dez meses. Foram semanas
discutindo com o departamento de arte como adaptar páginas e páginas de texto para a
navegação digital. Estudaram outras publicações, buscando os bons – e os maus –
exemplos de apps de revistas. Nick Traverse, 27 anos, é editor assistente na New Yorker e
único funcionário exclusivamente do setor de multimídia, explicou esta etapa do processo
de criação: “Nos inspiramos, por exemplo, nos vídeos na National Geopraphic. Já em
outras revistas, como a Men’s Health, notamos que havia diferença grande entre o que elas
eram no impresso, no site, e como estavam no iPad. Consideramos uma distração da
experiência e uma produção extra excessiva. Não queríamos isso.”
58
Não demorou muito tempo após a apresentação que Jobs fez em janeiro de 2010 e
os leitores da New Yorker já escreviam cartas perguntando quando a revista estaria
disponível no tablet. McCarthy recordou deste momento em que sua intuição de que
precisavam se adaptar estrategicamente para o digital se confirmou: “A nossa história
podia até ser no papel, mas no fim das contas a gente precisava estar onde os leitores
58
Entrevista concedida a autora em 04/05/2013, no escritório da New Yorker em Nova
Iorque.
36
queriam nos achar. E se dava para fazer isso de maneira consistente com o que somos,
então queremos fazer”, explicou para a monografia.
A editora sabe da importância do lucro na empresa jornalística, é o que “deixa o
dono satisfeito” (MCCARTHY, 2013). Ela acredita que, acima de qualquer mudança,
sempre será possível fazer dinheiro com jornalismo, as pessoas querem informações,
querem histórias e pagarão por isso, diz ela. Nos últimos anos, tornaram-se comuns sites de
notícia que fornecem as matérias gratuitamente. Para McCarthy, esse foi um enorme erro:
Jornais como o New York Times vão passar um tempo tentando se
recuperar. Acredito que as pessoas irão pagar por qualidade com o tempo,
vão ver que tem muito que se pode encontrar de graça que não é tão bom.
Estou otimista, esse é só um longo e difícil período de transição com um
modelo de negócios em transformação. (MCCARTHY, 2013)
Perguntada sobre a maneira como a redação da revista, na qual transitam jornalistas
famosos como Jon Lee Anderson, Janet Malcolm e John McPhee, reagiu ao aplicativo e às
inovações, McCarthy revelou que nem todo mundo estava tão ansioso com a empreitada.
“Muitos nem notaram. Compram seus impressos e não sabem que existe o digital”, contou.
4.3 O aplicativo
Nick Traverse é americano formado em história pela Universidade Harvard. Ele
começou a trabalhar em 2010 na New Yorker em um cargo na versão impressa da revista.
Seu chefe na época era do grupo que desenvolvia o aplicativo para iPad e aos poucos foi se
envolvendo com o conteúdo multimídia que era produzido para o tablet. A função foi se
tornando cada dia mais a maior parte de seu trabalho e atualmente é o que ele faz
principalmente. Contando com a ajuda de Pamela McCarthy e os demais funcionários da
New Yorker, Traverse é o único funcionário exclusivo do aplicativo.
“Preciso produzir tudo com muita cautela, não queremos nada que distraia das
matérias. Quando estou lendo um texto, mantenho isso em mente, ter ideias sutis que
adicionem significativamente às palavras”, explicou o assistente editorial em entrevista
para esta monografia. A versão da New Yorker para tablet foi lançada em outubro de 2010
e em pouco tempo eles já recebiam feed-back positivo. Um dos retornos importantes foi a
percepção de que o equipamento era confortável para as leituras longas da revista.
Desde então, a produção do material multimídia do iPad é desenvolvida a partir de
uma reunião entre um editor, McCarthy e o editor do site da revista. Eles leem as matérias
37
e sentam para definirem ideias. Traverse é o responsável por pegar essas ideias e executálas. O editor assistente não trabalha sozinho. Conta com contribuições dos demais
departamentos da revista, como o de arte e o de foto, além da ajuda de dois produtores de
vídeo e dois engenheiros de áudio.
O cronograma de produção é de uma semana, período em que a revista está em
fechamento. Na New Yorker, as matérias são muito grandes e o ritmo acelerado de trabalho
não permite que em departamento algum o trabalho se adiante. Traverse contou que em
uma semana comum consegue apenas fazer a edição seguinte.
A revista é famosa pelo seu setor rigoroso de checagem de apuração. São cerca de
30 funcionários do departamento que conferem detalhadamente cada informação das
reportagens. Depois dos repórteres, eles são os que entendem mais a fundo o assunto de
cada matéria. Os checadores em média são jovens e trabalham com desenvoltura no meio
digital. Traverse explica que são deles a maioria das sugestões de documentários,
vídeoclipes, infográficos interativos e entrevistas que acompanham as longas reportagens.
No aplicativo da New Yorker, a navegação se orienta de maneira semelhante à
revista. Ele é editado na vertical, com as páginas dispostas da esquerda para a direita e de
cima para baixo. A ideia é proporcionar a mesma experiência de “passar as páginas” do
impresso. Ícones indicam a presença de conteúdo multimídia (vídeos, infográficos, galerias
de foto). Pela diagramação da revista, eles ficam sempre ao lado esquerdo das reportagens.
A navegação começa pela capa, um dos elementos mais famosos da revista, que no
tablet ganha vida. Frequentemente o departamento de criação da New Yorker consegue
encaixar alguma interatividade nas ilustrações, como na edição de 20 de maio de 2013 em
que o desenho de Isaac Newton, estático na versão impressa, tornou-se um jogo no tablet.
Com o toque dos dedos, o leitor brincava de acertar com maçãs a cabeça do físico.
Logo após o tradicional índice da New Yorker, segue uma seção chamada
“Multimedia Extras”. Nela, estão todas as interatividades da edição, uma facilidade para os
leitores mais dispersos que não atentam para os ícones de extras nas reportagens.
A revista mantém esses extras curtos, afinal, ler matérias de dez mil ou mais toques
leva algum tempo. Traverse explica que tenta produzir vídeos e áudio com no máximo dois
minutos de duração. Na New Yorker, leva-se muito tempo para decidir o que entra de
material. É preciso que o multimídia não interfira na leitura das reportagens, já que o app
busca refletir ao máximo a experiência do impresso. Para isso, há sempre o cuidado das
multimídias terem visual clean e serem opcionais para o leitor. O conteúdo precisa ter um
38
propósito relevante também e alcance o mesmo nível de qualidade e sofisticação do
restante do produto.
Uma inovação prática e eficaz apresentada pela New Yorker, e posteriormente
copiada em aplicativos de outros veículos, foi o conceito de canais de notícia. Navega-se
pelas seções da versão digital escorregando o touchscreen para os lados. Lendo a notícia,
no entanto, o leitor deve escorregar os dedos para cima e para baixo. O mecanismo
permitiu uma organização simples das seções e configura em uma interatividade fácil de
compreender.
Cartuns e fotos são parte importante da New Yorker impressa. A revista digital
mantém-se fiel à identidade visual do papel e o iPad dá destaque para as seções com igual
relevância. No tablet, porém, o leitor pode escolher a mesma experiência de navegação da
revista, ou optar pela interatividade. Cada matéria é acompanhada por uma galeria de
fotos, onde o editor publica as fotos originais da reportagem, além de material inédito.
Os cartuns estão dispostos ao longo dos artigos, como no impresso, mas também
podem ser visualizados em uma galeria de uma só vez, se desejado. Basta escolher a opção
“Galeria de Cartuns” no índice. A seção ainda possui desenhos bônus, um extra valioso
para os apreciadores das famosas tiras humorísticas da revista.
Os atrativos visuais cumprem ainda uma função crucial na diagramação do
aplicativo. “Desenhamos com isto em mente: misturar fotos, ilustrações, cartuns e poemas
foi um jeito de termos páginas e páginas de texto sem parecermos livro”, lembrou
McCarthy. Ao lado esquerdo de cada reportagem, há uma faixa em branco que não tem
precedente na revista impressa. Ela foi idealizada especialmente para o iPad fornecendo
alívio para a visão durante a leitura.
Uma das principais atrações do aplicativo, declaradamente a favorita do chefe de
redação da New Yorker, David Remnick, fica na seção de ficção. Poetas, cronistas,
romancistas, todos são convidados a lerem o seu trabalho. McCarthy ovaciona o podcast:
“Oferecemos os melhores escritores da língua inglesa lendo seus próprios textos. Você
pode até comprar um audiobook, mas quase nunca pode ouvir realmente a voz do escritor”,
disse.
Era um dilema para a revista a impossibilidade de compartilhamento das matérias
do tablet nas redes sociais. Poucas são as reportagens que podem ser compartilhadas. A
revista alega não querer tornar tão fácil o acesso aos textos. A atitude vai de encontro a
resultados de uma pesquisa de 2011 realizada pelo Pew Research Center que mostrou que
39
apenas 16% dos usuários de tablets compartilham notícias a partir de aplicativos nas redes
sociais. “Todos os usuários têm vontade de compartilhar tudo”, afirmou McCarthy.
Conclui-se, portanto, que a baixa porcentagem de compartilhamento deriva não de um
desinteresse do leitor, mas sim a falta de opção dessa interatividade.
A ferramenta pouco explorada pode ser um erro de estratégia da revista. A mesma
pesquisa do Pew Research Center mostrou que 85% dos usuários de tablets comentam com
amigos sobre artigos longos que leram ali. No momento, já é possível compartilhar
matérias pelo iPhone e o veículo repensa os compartilhamentos para iPad: “Sentimos no
iPhone que alguém acessando por lá esperaria essa facilidade e ficaria irritado se não
pudesse fazer. Não queremos que fiquem nervosos com a gente”, explicou McCarthy.
O aplicativo da New Yorker foi projetado utilizando o programa Adobe,
funcionando essencialmente como um leitor de imagens. A revista é visualizada em
formato PDF, o que significa que cada página vira uma foto. São cerca de 173 megabytes
semanais por edição que ocupam bastante espaço de armazenamento nos tablets que
possuem entre 16 e 64 gigabytes de capacidade de memória. Tornar o aplicativo mais leve
é o principal foco tecnológico atualmente.
A revista não está sozinha; Sports Illustrated, Time e Esquire são outros veículos
que encontram o mesmo problema na edição pra tablet. Na New Yorker, chegam com
frequência emails de leitores reclamando sobre o longo tempo de download e a quantidade
de espaço ocupado no iPad. “Passaremos por uma dieta em breve”, respondeu Pamela
McCarthy em uma entrevista em 2012 para o site All Things.59
Não daria trabalho passar a revista para HTML, um formato muito mais leve, mas a
alteração poderia interferir na experiência editorial que a revista propõe. A navegação em
textos HTML é contínua. As longas peças da New Yorker, no entanto, não funcionam nessa
leitura. “É muito claro que, quando você tem uma história de dez mil palavras, a rolagem
suave não é uma boa opção”, explicou McCarthy para o site. Uma vez que o Adobe
encontre um jeito de quebrar o HTML em páginas individuais, a revista garante que fará a
alteração imediatamente.
O aplicativo é disponibilizado para download todo domingo e é referente a semana
seguinte. É preciso baixá-lo na loja da Apple para ter acesso ao conteúdo. O usuário pode
59
Disponível
em:
http://allthingsd.com/20100928/conde-nasts-ipad-apps-are-too-portly-blame-adobe/,
Acesso em: 12/09/2013
40
comprar uma edição avulsa, em que cada edição custa US$5,99 dólares. Já as assinaturas
são de três tipos: apenas o impresso (US$34,99 dólares por seis meses), apenas digital
(US$34,99 dólares por seis meses) e acesso completo (US$39,99 dólares por seis meses).
Isso para clientes americanos. Clientes internacionais podem optar apenas pela versão
completa (US$120 dólares por um ano) ou somente o digital (US$59,99 dólares por um
ano).
Pamela McCarthy contou que começa a leitura das notícias do dia ainda em casa
pelo aplicativo do New York Times. Ela recebe o jornal impresso algum tempo depois e
continua a ler por lá. Com frequência, termina a leitura já no metrô, usando o iPhone. “Li
há pouco tempo uma pesquisa que diz que 90% das crianças abaixo de 13 anos preferem
ler digitalmente”, contou McCarthy, “ir para o digital é uma questão de sobrevivência”,
contou.
A editora da New Yorker profetiza que, embora o papel não deva sumir
rapidamente, é provável termos no futuro o digital apenas. E eles querem estar prontos
para isso. Na revista, a transição vem sendo feita gradualmente e mostra resultados
positivos. As respostas vieram de duas formas: mais pessoas compram revistas individuais,
utilizando o aplicativo, e é crescente o número de assinaturas digitais. Dos um milhão de
assinantes pagos da edição impressa, uma grande porcentagem (não revelada) incluiu o
tablet em sua inscrição. São centenas de milhares de pessoas, segundo McCarthy. A
circulação total da versão digital é de quase 60 mil e o iPad não fez cair as vendas do
impresso.
“As revistas que dependiam de propagandas hoje precisam encontrar novas fontes”,
explicou a editora. A New Yorker ainda conta com um número expressivo de anunciantes,
mas entende que há uma tendência dos clientes migrarem para outros meios, como redes
sociais, sites e blogs. “A gente precisou repor isso. Conseguimos aumentar o preço da
assinatura, dizendo para os assinantes que eles pagariam a mais, porém teriam acesso ao
tablet, ao telefone, ao desktop”, contou. A revista agora também está disponível no Google
Play, no Android e em outros tablets. Embora os números ainda não tenham saído,
McCarthy afirma que os comentários recebidos dos leitores são bastante positivos.
Como em quase todas as redações do mundo, na New Yorker dinheiro também é
uma preocupação central. Custa caro fazer as longas reportagens, que podem durar meses
de apuração. Os diretores equilibram com cautela os investimentos no impresso e no
digital, há uma economia diferente para cada. Um não deve sobrepor ao outro. A revista
41
migra lentamente para o digital e as assinaturas do tablet realmente crescem
exponencialmente; mas a renda com anúncios lá não chegam nem perto do impresso.
Escritores do site recebem menos do que os do papel. É uma relação complexa e
nem sempre fácil de explicar, segundo McCarthy. Para Nick Traverse o orçamento
diferenciado nunca atrapalhou. Ele explicou que nunca deixou de realizar um projeto por
causa de dinheiro. O tradicionalismo e a cautela da editoria digital colocam os pés do
nova-iorquino no chão: “Claro que tem coisas ousadas que queremos fazer, mas a gente
nem se preocupa de ir lá perguntar, sabemos que é demais”, afirmou.
4.4 De Nova Iorque para o Mundo
A atenção dos profissionais de comunicação e pesquisadores de jornalismo digital
estava em São Paulo no início de dezembro de 2012. No dia quatro daquele mês,
aconteceria o sexto seminário MediaOn de Jornalismo Online na sede do Itaú Cultural na
avenida Paulista. Os debates, organizados pelo instituto do banco e pelo portal Terra,
tratariam da comunicação no século XXI e o lugar do novo jornalista neste contexto.
“Qual é o Futuro da Notícia?”, dizia a apresentação projetada ao centro do fundo do
palco do evento. Era a segunda manhã de discussão e a mesa do dia reunia palestrantes
ilustres da área: Amy Mitchell, americana, diretora da Pesquisa em Jornalismo do Pew
Research Center, Terence Reis, diretor de operações da Pontomobi, e Pedro Dória, diretor
executivo de O Globo responsável pelo Globo a Mais, versão para iPad do jornal. Apesar
de dividir o tempo com duas figuras de peso, a fala de Dória era uma das mais aguardadas.
Um mês antes do seminário, o jornal vespertino para tablet que dirige ganhara três prêmios
Esso, incluindo o de melhor contribuição para a imprensa. O público queria ouvir sobre a
experiência bem-sucedida e qual era o futuro da notícia para ele.
Houve quem se coçasse de curiosidade quando Dória listou em suas principais
influências o aplicativo para iPad da New Yorker. A revista americana sempre fora
conhecida pela qualidade dos textos e apuração rigorosa, mas tecnologia não era uma
palavra ao qual estivesse frequentemente associada. Agora, figurava entre uma das maiores
referências do vespertino do Globo, que chamou atenção no Brasil e no exterior.
Desde que o tablet da Apple foi apresentado, em janeiro de 2010, Dória ficou aflito
sobre o futuro do jornalismo e os rumos que o mercado seguiria com o lançamento do
novo produto. “Durante tempo demais a gente definiu jornalismo digital como web. Com a
42
entrada o iPad percebi que a experiência era muito diferente”, contou diretor em entrevista
para esta monografia60. “O lead dessa história era: tem uma oportunidade de fazer outro
tipo de jornalismo, só não está claro o que é”, lembrou o jornalista.
Dória estudou durante um ano e meio as versões digitais, buscando referências para
o tablet do jornal. Aprendeu muito prestando atenção nas pistas do mercado. Logo no
início de 2010, o aplicativo da Wired já enriquecia o jornalismo digital com notícias curtas
e um conteúdo pesadamente multimídia, carregado com infográficos e interações. Um
“troço de frenesi” muito caro, segundo Dória. Outro aplicativo que chamou sua atenção foi
o The Daily, da News Corporation.
Em uma ida para Nova Iorque, conversou com Jesse Angelo e ficou sabendo que
Steve Jobs havia afirmado ao editor-chefe do jornal para tablet que o melhor jeito de usar o
iPad era valorizando fotografias. O Daily, segundo Dória, se abraçou tanto à informação
que passou a cobrir basicamente as duas editorias mais afeitas à fotografia: celebridade e
esportes. A concepção editorial não agradou ao público do tablet, majoritariamente de
elite, e no final de 2012 o jornal encerrou suas atividades. Aquele não era um exemplo a
seguir.
“Então, em 2011, a Condé Nast que tinha investido tanto no aplicativo da Wired
soltou seus primeiros números. Era impressionante a quantidade de gente lendo a New
Yorker em comparação com a Wired”, lembrou Dória. “É essa revista aqui, fundada nos
anos 1920, com uma tradição longuíssima, que essencialmente inventou o jornalismo
literário; era ela o grande sucesso da Condé Nast”, concluiu. E qual era a característica
principal da New Yorker?
60
Entrevista concedida a autora em 19/08/2013, na redação do jornal O Globo no Centro do Rio de Janeiro.
43
Figura 1: Enquanto a New Yorker (à esquerda) mantém layout sóbrio, textos longos e algum material
multimídia, a Wired (à direita) abusa dos extras em suas matérias que, às vezes, apresentam estrutura de
diagramação que segue cliques e interatividades.
Desde a apresentação do iPad com Jobs confortável na poltrona, Dória já
suspeitava sobre qual caminho o tablet deveria tomar. As pesquisas apontavam que o
horário de pico de uso para o tablet era após as seis horas da tarde e que os usuários
estavam dispostos a passar muito mais tempo navegando nele. “O sucesso no fim das
contas foi texto bom de ler, gostoso. Aquele que você quer parar e se largar”, afirmou.
O êxito da revista foi a prova dos nove e elemento chave para a concepção do
Globo a Mais. Ênfase em texto, longas reportagens e mais: descolamento do hard news e
preferência para matérias mais frias, como perfis. O aplicativo de Dória foi lançado em
julho de 2012. “Com um ano e meio de idade, a gente é cada vez mais empurrado para o
estilo editorial da New Yorker. É para ser uma coisa de inteligência e reflexão”, disse.
Bernardo Esteves é mineiro e mora no Rio de Janeiro. É leitor da revista americana
há três anos, assina a newsletter semanal e toda segunda faz uma seleção dos textos que o
interessam na edição daquela semana. Esteves é um dos milhares de leitores da revista pelo
mundo, número que aumentou expressivamente após a ida para o iPad.
Adquirir exemplares ficou muito mais fácil, não é preciso fazer a assinatura do
impresso que, além de mais cara (a assinatura por um ano do impresso custa US$120
44
dólares e do iPad US$59,99), frequentemente sofre atrasos de até três semanas na entrega.
Atualmente, Esteves só lê a New Yorker por meio de plataformas digitais. “Acho o
aplicativo leve, sóbrio e elegante. Gosto da diagramação do texto, que me remete à
diagramação da revista impressa”, contou na entrevista.
Esteves é repórter na revista piauí e considera a leitura da New Yorker essencial
para estar a par do gênero jornalístico que a revista em que trabalha compactua. Na
redação de um dos veículos brasileiros mais respeitados, troca-se a todo hora matérias
digitais do semanário americano e a questão da facilidade de acesso ao conteúdo do tablet
é frequentemente comentada. Quem ainda acompanhe a New Yorker exclusivamente pelo
impresso é avis rara.
O sucesso do tablet não modificou apenas veículos de comunicação pelo mundo. A
New Yorker também influenciou a New Yorker. A revista considera que a inserção no
ambiente digital impulsionou profissionalmente grande parte de seus colaboradores.
Segundo Traverse e McCarthy, os funcionários nos departamentos criativos e multimídia
se desenvolveram expressivamente.
A inexperiência na produção para tablet, a qualidade exigida, a grande demanda e o
cronograma apertado resultaram em algumas semanas difíceis de trabalho. Permitiram, no
entanto, alcançar em pouco tempo o nível de sofisticação que se espera da revista. “Eles
foram ficando realmente bons nisso. Nesse momento, o site também está se tornando muito
mais importante do que era em 2010. Existe mais sinergia entre as plataformas”, controu
Traverse.
Pedro Dória trilha com cuidado a transição do Globo para o digital. Busca na
história do jornalismo um norte para se orientar:
Nos anos 1920, existiam inúmeros jornais em Nova Iorque, a quantidade
de títulos era imensa. Era onde a maior parte da publicidade estava.
Quando estourou o rádio, veio a crise, pois ele sugou muito do dinheiro
publicitário. Vários jornais começam a fechar suas portas. Foi o Henry
Luce, fundador da Time, que começou a separação entre igreja e
jornalismo. Quem adotou esse modelo sobreviveu. Depois você pula para
os anos 1950, com a chegada da televisão. Ela sai matando uma porção
de jornais e quem sobrevive? Quem adota outra inovação editorial,
fornecendo matérias mais neutras. (DÓRIA, 2013)
O jornalista acredita que agora o mercado passa por um novo momento de
reestruturação e que alguma inovação editorial vai surgir e reformular a relevância. “E eu
desconfio que ela passe pelo tablet, pela facilidade de utilização. Teremos uma proporção
menor de leitores, mas pagantes”, sentenciou.
45
A inspiração na New Yorker lhe parece a mais acertada, mas ele também entende
que o exemplo não pode ser seguido à risca pelos demais veículos. “É uma das maiores
instituições do jornalismo ocidental, que, além de ser tradicionalíssima, publica na língua
franca do mundo. É um mercado bem maior”, explicou.
Pamela McCarthy concordou: “Eu não posso ter credito pela história, a New Yorker
é uma revista maravilhosa por muitos anos. Isso inspira todo mundo aqui, nos sentimos
responsáveis. Temos orgulho do que fazemos e acho que é por isso que as pessoas lêem.
Porque é bom.”
46
5. CONCLUSÃO
O mundo conheceu o tablet da Apple, o iPad, em janeiro de 2010. Cerca de um ano
depois, uma segunda versão era lançada, seguida por ainda mais outras três atualizações do
aparelho. Em outubro de 2013, na apresentação do último, o iPad Air, Phil Schiller, vicepresidente de marketing da companhia, gabou-se da nova versão, 72% mais rápida do que
a primeira lançada.
Conectado à Internet, interativo, leve, de leitura agradável e com tela de alta
definição, o aparelho da Apple, diziam, introduzia um período de aprofundamento das
mudanças já empreendidas anteriormente no jornalismo pela disseminação da World Wide
Web. Fundamentalmente, tratava-se da segunda maior revolução na comunicação digital.
Revolução digital é uma palavra que faz tremer até o jornalista mais ousado e
experiente. Desde o início do século XXI, relatórios apontam graves expectativas
financeiras para o jornalismo, com a possibilidade de apenas um em cada cinco jornalistas
que trabalhavam em 2001 ainda terem emprego hoje. De lá para cá, segundo o Pew
Research Center, a indústria caiu em 30%. Para Phillip Meyer, o diagnóstico é ainda pior,
segundo ele relacionado também com a diminuição da qualidade do jornalismo na era
digital. Erros simples de digitação e gramaticais estariam ligados às perdas na
lucratividade.
Os mares revoltos na Comunicação, contudo, impulsionaram efeitos positivos nos
veículos que souberam se renovar e inventar soluções. A jornalista Pamela McCarthy já
havia administrado duas grandes e problemáticas reformulações editoriais de revistas,
primeiro na Esquire e depois na Vanity Fair, quando os primeiros ecos do tablet da Apple
alcançaram a New Yorker, onde trabalha. A americana ouviu aqui e ali: em alguns meses,
Steve Jobs deveria lançar um novo aparelho, destinado principalmente à leitura.
A New Yorker aprontou para ontem seu primeiro aplicativo. Nas entrevistas
concedidas pelos funcionários para esta monografia, ficou clara a orientação de que o que
iriam produzir precisava aproximar-se ao máximo da experiência do impresso. Isso porque,
como já é sabido, o lema da revista sempre fora “it’s all about text”. “Text”, no entanto, era
uma das discussões centrais na maioria das redações. Notícias cada vez menores, falta de
aprofundamento, excesso de interatividade e uso massivo de hiperlinks, vídeos e fotos
eram as principais características do jornalismo digital que despontava.
47
Contrariamente a maioria das expectativas, o aplicativo da revista teve enorme
sucesso, desbancando os de outros veículos, na teoria mais bem ambientados no digital,
como por exemplo a Wired. A versão sóbria, recheada com reportagens longas e de
interatividades milimetricamente pensadas era a que mais vendia. McCarthy relatou para a
pesquisa diversos ganhos financeiros, como aumento do preço de capa, maior número de
assinaturas e inscrições mais caras.
Sobre a aposta ousada da revista octogenária era só do que se falava. E foi neste
momento que a pesquisa encontrou a temática da monografia. Questionava-se o sucesso do
digital da New Yorker e os significados por trás disso. A revista, afinal, nunca antes fora
relacionada com assuntos de tecnologia. Na própria redação, jornalistas de longa data mal
encaravam simples trocas de email.
É impossível desvincular o sucesso do aplicativo da revista americana da sua
enorme qualidade de conteúdo. A tradição de um jornalismo narrativo bem apurado, que
construiu desde a década de 1920, trazia força, claro. No digital, porém, a New Yorker
encontrou o seu lugar, principalmente no tablet da Apple. Pesquisas de público apontaram
a combinação perfeita entre o iPad e leituras longas. Tão logo o aparelho foi lançado, os
leitores da revista, heavy users de tecnologia, já pediam por uma versão digital. O
aplicativo, então, encontrou caminho entre as demandas dos antigos assinantes, além de
abrir espaço para novas inscrições, uma vez que a versão digital internacional poderia ser
veiculada a preços menores.
A inserção bem-sucedida das longas reportagens da New Yorker criou um ambiente
perfeito para experiências digitais recentes de storytelling. O Atavist, o New York Times e o
Globo a Mais são alguns exemplos dos que tem apostado em matérias com mais de 10 mil
caracteres. As referências também estão impressas na estrutura e escolhas editoriais dos
exemplos citados e, ainda, nas próprias falas desses produtores. Pedro Dória do Globo não
se intimidou em dizer que acredita no jornalismo de longas reportagens e de multimídia
sensata e bem colocada para o futuro da comunicação. O jornalista no comando do Globo
a Mais afirmou aproximar seu jornal vespertino cada vez mais da versão digital da New
Yorker.
Pamela McCarthy, por sua vez, não hesitou em admitir que, quanto ao futuro da
New Yorker, esse, sem dúvida, será digital. A afirmação pode assustar a muitos leitores
mais tradicionais, mas é preciso relembrar um outro ponto destacado pela editora. A
publicidade não migrou com vigor para sites e aplicativos, tendo preferido canais como
48
YouTube e Facebook. O jornalismo digital tem trazido muito mais os assinantes para o
centro financeiro da revista, já que a renda com assinaturas tem, por outro lado, expandido
exponencialmente. Em uma área que andava arraigada com as determinações dos
anunciantes e as matérias de “jabá”, isso, sem dúvida, é importante e de grande interesse.
Nick Traverse, funcionário da New Yorker responsável pelo aplicativo, contou
sobre o processo de produção do conteúdo multimídia. É preciso destacar esse momento,
pois ele revela a cautela com que cada extra é pensado. Nada entra a não ser que seja de
absoluto interesse para a matéria. O procedimento é algo louvável. Em muitos outros
aplicativos de revistas, como a Wired, extras pipocam aos montes, por vezes sem terem
muita relevância. Ficam prejudicadas a leitura das matérias e a atenção do leitor.
No tablet, as famosas capas da revista ganham vida na versão digital. Muitas vezes,
é possível interagir com as ilustrações e jogar com os elementos visuais. Na própria
redação, são produzidos os materiais multimídias, que podem ser vídeos, entrevistas,
infográficos, com no máximo dois minutos de duração para que não atrapalhem a leitura.
Os atrativos, além de divertirem e informarem, também servem para descansar a visão ao
longo das reportagens de 10 mil toques. A ideia era criar uma publicação que não se
parecesse tanto com um livro.
A atitude da New Yorker em controlar cirurgicamente o conteúdo digital é
interessante e sem dúvida serviu de inspiração para outros veículos. Mas, como afirmado
diversas vezes pelos funcionários da revista, lá as mudanças são relativamente lentas e os
processos precisam ser cautelosos. O aplicativo ainda não consegue, por exemplo, terçar os
extras com a narrativa do texto e a programação das páginas. No storytelling digital do
New York Times, sendo “Snow Fall” um deles, vídeos, gráficos e fotografia conseguem se
mesclar com a longa reportagem, talvez inaugurando uma segunda fase da história que a
New Yorker deu início.
Nisso, até McCarthy concordou. Perguntada sobre o futuro do jornalismo, ela
também acredita que esse esteja ligado ao estilo dos trabalhos feitos pelo Atavist e pelo
New York Times. Hoje, muitos softwares disponíveis na web já auxiliam na produção desse
tipo de narrativa. O Scroll Kit de Cody Brown é um deles. Há também Shorthand, o
programa que auxiliou o jornal Guardian a produzir uma longa e impressionante
reportagem sobre a rivalidade entre a Inglaterra e a Austrália nos esportes61.
61
Disponível em: http://interactive.guim.co.uk/australia/2013/july/australia-vs-england-rivalry/. Acesso em:
20/11/2013.
49
Ficam, portanto, ainda pontos para avaliar e repensar na versão digital da revista.
McCarthy explicou faltarem diversas modificações para o produto se adequar aos seus
altos padrões. Download mais rápido, menor tamanho das edições e navegações mais
suaves, por exemplo. Para que o aplicativo evolua, a própria ferramenta de publicação
precisa evoluir também. O Adobe ainda não criou uma forma de transformar o HTML em
páginas individuais, o que possibilitaria uma revista bem mais leve para os usuários
baixarem.
Em 2011, a Condé Nast fez uma pesquisa em que comparava o desenvolvimento de
cada um dos seus aplicativos. Em primeiro lugar e desbancando as demais revistas, estava
a New Yorker, demostrando para os desenvolvedores digitais que o leitor gosta de ler sim,
especialmente reportagens de qualidade e com informações multimídia relevantes. De
Nova Iorque para o Rio de Janeiro, para a América Latina, para o mundo, a senhora do
jornalismo americano abriu um importante precedente para o jornalismo digital.
50
BIBLIOGRAFIA
LIVROS:
BEIGULEMAN, Giselle. O livro depois do livro. São Paulo: Editora Peirópolis,
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