INCLUSÃO ESCOLAR E O RELACIONAMENTO ENTRE

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INCLUSÃO ESCOLAR E O RELACIONAMENTO ENTRE
INCLUSÃO ESCOLAR E O RELACIONAMENTO ENTRE ALUNOS CEGOS E
VIDENTES
Edinéia Terezinha de Jesus Miranda/Unesp, Bauru/SP
1- Práticas Pedagógicas Inclusivas
Palavras chaves: Inclusão escolar; Deficiência visual; Relacionamento entre alunos
1. Introdução
Sassaki (2007) afirma que passamos por quatro eras das práticas sociais em
relação a pessoas com deficiência: exclusão (antiguidade até o início do século 20);
segregação (décadas de 1920 a 1940); integração (décadas de 1950 a 1980) e inclusão
(década de 1990 até as próximas décadas do século 21), todavia quando se trata da
inclusão escolar, ainda temos muito o que repensar e reformular para que possamos
vivenciar uma educação inclusiva para todos.
Baseado nisso, nesse artigo em especial trataremos da inclusão do aluno com
deficiência visual buscando perceber como se dá o seu relacionamento no ambiente escolar
com alunos videntes. Para desenvolvimento da pesquisa escolhemos duas salas onde havia
alunos cegos matriculados; uma no 1º ano do Ensino Médio (sala de Laura) e a outra no 8º
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ano do Ensino Fundamental (sala de Carlos) . Dessa forma nos questionamos sobre como
os videntes percebem a presença dos alunos cegos no ambiente escolar e de que forma essa
experiência pode contribuir para a aprendizagem de ambos?
Consideramos que além dos professores, os demais alunos mantém contato
direto diariamente com as pessoas Público Alvo da Educação Especial (PAEE) que são
definidos como educandos com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e
altas habilidades ou superdotação.
2. Objetivo geral
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Os alunos receberam nomes fictícios (Laura e Carlos), ambos são cegos congênitos e com diagnóstico de
retinopatia da prematuridade e Síndrome de Leber, respectivamente. A idade dos alunos eram 15 e 13 anos.
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O objetivo dessa pesquisa é elaborar uma compreensão de como os educandos
videntes se sentem em relação a pessoa cego, verificando a postura desses e se sua
escrita reflete uma posição cultural desenhada ao longo de décadas sobre a inclusão
escolar. Portanto, nesse artigo, a intenção é apresentar esse recorte da pesquisa,
mostrando o que foi possível compreender acerca do relacionamento entre cegos e
videntes nos Ensinos Fundamental e Médio.
3. Metodologia
A pesquisa é de abordagem qualitativa, especificamente, um estudo de caso
etnográfico, com dois alunos com deficiência visual de uma escola do estado de São Paulo,
sendo os mesmos estão matriculados em escolas diferentes, portanto, participaram da
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pesquisa duas escolas . Um dos recursos para a produção de dados foi a observação
estruturada das aulas de Matemática nas salas regulares dos educandos envolvidos. Como
dados temos os registros efetuados sobre as pessoas, o cenário das escolas pesquisadas e os
acontecimentos em sala de aula, destacando os mais importantes e até reconstrução de
diálogos e de comportamento. (FIORENTINI e LORENZATO, 2006).
Para verificar alguns aspectos do relacionamento entre alunos cegos e videntes
realizamos uma dinâmica na sala de aula. A dinâmica foi dividida em quatro momentos:
a) Conversa informal sobre a importância dos sentidos, a falta do sentido da visão e
sobre o braile; b) Escrita sobre convivência com pessoas cega em sala de aula; c)
Contato com o braile; d) Atividade de Matemática utilizando venda. Para a análise além
dos dados de observação, separamos a escrita destacando alguns pontos para discussão
sobre a relação entre eles.
4. Desenvolvimento
Desenvolvemos os quatro momentos destacados na metodologia, entretanto vamos
focar apenas no que diz respeito a escrita dos alunos. Dessa atividade participaram 51
adolescentes no total. No decorrer do artigo apresentaremos um recorte do texto escrito por
eles que serão identificados por um código, A1, A2, e assim sucessivamente, seguida das
siglas EF para o 8º ano do Ensino Fundamental e EM para o 1º ano do Ensino Médio.
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Vamos nos referir a escola como E1 (escola de Laura) e E2 (escola de Carlos).
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Vamos destacar algumas características relevantes dos textos dos alunos como por
exemplo, algumas palavras que refletem um certo preconceito em relação ao indivíduo
cego camufladas em palavras de admiração, como por exemplo: “Ela não se abate por
ser cega.”, ou ainda “Deficientes não são monstros e acima de tudo seres humanos como
nós”. Amaral (1994) parte do princípio que a criação dos monstros está claramente
remetida à cultura, indica a manifestação da desordem por defeito ou por
superficialidade em relação a forma inicial e perfeita criada por Deus.
Amaral (1994) ainda cita três possíveis “roupagens” que refletem uma
manifestação da rejeição: abandono; superproteção e negação, sendo que nessa última a
autora faz uma reflexão apontando que pode ocorrer por meio de pensamentos, palavras
e atos sendo manifesta por meio de: atenuação; compensação e simulação. Portanto
notamos que outra marca forte que aparece nos textos dos alunos sobre a pessoa com
deficiência visual reflete a negação, onde os adolescentes mostraram admiração por
terem certas qualidades, como se o fato de serem cegas pudesse ser um empecilho para
que as tivesse, essas qualidades vem precedidas de expressões como por exemplo,
“apesar de” e aparecem em algumas escritas, como no caso: “Apesar dos problemas
dele, ele é um aluno muito bom.” Refletindo a negação apontada por Amaral (1994).
O que nos chamou a atenção foi que alguns alunos têm uma posição contrária a
inclusão escolar, provavelmente por não terem tido informações ou mesmo por terem uma
atitude egocêntrica em relação ao fato de ainda considerarem a escola uma ambiente para
“pessoas normais” e não terem por isso disposição para ajudar, por falta de empatia:
“(...) Ela tem mesmo que saber que se ela vier pra escola, muitas pessoas não tem ética e
fazem bullying até mesmo sem perceber (A5EM).
Outros apontam as condições da sala de aula como dificultadores para que o
aluno esteja matriculada. “Na minha opinião eu acho que os alunos com deficiência
deveriam ter sua própria sala, por exemplo, o Carlos da minha sala é deficiente visual e
o barulho acaba atrapalhando ele” (A16EF).
Para Vigotski (2007) o meio favorece as trocas e somos moldados por ele,
principalmente no ambiente escolar essas trocas favorecem a aprendizagem. Preste
(2010) afirma que por meio da Zona de Desenvolvimento Iminente (ZDI), o aluno com
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melhor desempenho escolar pode contribuir com aquele que tenha mais dificuldade e não
necessariamente a maior dificuldade precisa ser o educando cego.
É uma experiência legal, as vezes você fica de cara com a inteligência deles, com a rapidez, dá de 10 a 0 em
muitos alunos ‘perfeitos’. Concordo totalmente deles virem à escola, assim como todo, o mesmo direito.
Às vezes eles são até mais capacitados do que nós, que não temos nenhuma ‘barreira’ na nossa vida.
(A17EF).
Muitos outros aspectos são percebidos nas falas dos alunos, mas a princípios
destacaremos apenas esses.
5. Conclusão
Não é difícil notar nas breves frases escritas pelos alunos, palavras
preconceituosas que revelam discriminação, às vezes, camuflada quando eles ressaltam
características positivas dos educando cegos como se fosse algo extraordinário,
ressaltando a negação (AMARAL, 1994).
A discriminação também pode ocorrer às avessas, ou seja, situações em que a pessoa
cega é colocada em uma posição melhor do que os outros, neste caso, do que o
vidente. Essas formas de pensamento e ação também são discriminatórias, pois as
pessoas cegas não são nem melhores, nem piores que os videntes (FRANCO, 2011).
Estar diante de uma pessoa cega sem ter informações sobre o que isso significa
pode parecer assustador. Para Amaral (1994) o conceito de perfeição está relacionado a
simetria e o que é diferente ou deficiente é a encarnação da assimetria, representa a
consciência da própria imperfeição, é vista como ameaça, perigo. Porque aquilo que é
“anormal” está fora de controle gerando insegurança, inquietação e terror, convertendose em fonte de perigo. E segundo a autora essa situação de ameaça e perigo leva ao
medo e a necessidade de defesa.
Para Marcone (2015), a normalidade e a anormalidade é uma luta por poder,
seja: a de classificar, definir, estereotipar, sendo assim, não são condições a priori. “A
deficiência é inventada pela normalidade, que não são grupos estáticos, Seres definidos”
(IBID. p. 39). O autor afirmar que um aluno é normal, é cair “novamente na armadilha de se
definir o Ser. O Ser é para ser compreendido, descrito, ainda assim nunca por completo,
nunca definido.” (p. 38). Para Fernandes (2003) é impossível compreender aquilo que nos
afastamos por medo do desconhecido “A desqualificação relegada a tudo que foge às regras
estabelecidas conduziu ao desenvolvimento de relações sociais produtoras da
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interdição que negam acesso ao mundo, para aqueles que são considerados “‘diferentes’”.
(FERNANDES, 2003. p. 6).
É necessário falar sobre o assunto, tomando os devidos cuidados para não expor
o aluno a situações constrangedoras, para isso é necessário conhece-lo, saber o que ele
está ou não disposto a falar sobre si mesmo, percebendo como ele próprio se reconhece,
como formou sua identidade, caso o professor tenha muita dificuldade de abordar o
assunto deve solicitar a ajuda do professor de Sala de Recursos, por exemplo. Conhecer
e respeitar o outro independente de sua condição física, social ou intelectual, favorece a
interação entre o grupo proporcionando um ambiente de ensino e de aprendizagem mais
favorável.
REFERÊNCIA
AMARAL, L. A. Corpo Desviante / Olhar Perplexo. Psicologia USP, São Paulo, v. 5, n.
1/2, p. 245-268, 1994.
ANJOS, H. P. dos. Porque a escola não é azul: Os discursos imbricados na questão da
inclusão escolar. Jundiaí. Paco Editorial, 2015.
FERNANDES, I. A diversidade da condição humana e a deficiência do
conhecimento: no convívio com as diferenças e as singularidades individuais. Revista
Virtual Textos & Contextos. Nº 2, ano II, dez. 2003.
FIORENTINI, D; LORENZATO, S. Investigação em Educação Matemática:
percursos teóricos e metodológicos. Campinas. Autores Associados, 2006.
MARCONE, R. Deficiencialismo: a invenção da deficiência pela normalidade. Tese
(doutorado) - Universidade Estadual Paulista, Instituto de Geociências e Ciências
Exatas. Rio Claro, 2015
MIRANDA, E.T. J. O Aluno Cego no Contexto da Inclusão Escolar: Desafios no
Processo de Ensino e de Aprendizagem de Matemática. Dissertação de Mestrado.
Unesp. Bauru, 2016.
PRESTES, Z. R. ; Quando não é quase a mesma coisa: Analise de traduções de Lev
Semionovich Vigotski no Brasil Repercussões no campo educacional. 2010. 295 f. Tese
(Doutorado em Educação) – Universidade de Brasília, Brasília, 2010.
SASSAKI, R. K. Nada sobre nós, sem nós: Da integração à inclusão – Parte 1. Revista
Nacional de Reabilitação, ano X, n. 57, jul./ago. 2007, p. 8-16.
VIGOTSKI, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
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