Etigenia. Ética, Moral e Engenharia. Uma

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Etigenia. Ética, Moral e Engenharia. Uma
Paul Fernand Milcent
ETIGENIA
ÉTICA, MORAL E
ENGENHARIA
Análise do Ethos para Engenheiros
1a edição
Edição do autor
© Paul Fernand Milcent, 11/2014
Revisão: Deriana Miranda
Dilah Cunha Milcent
Dione Maria Silveira Milcent
Paul André Alain Milcent
Edição, preparação dos originais e capa: Paul Fernand Milcent
Milcent, Paul Fernand
Etigenia. Ética, moral e engenharia: análise do ethos para
engenheiros / Paul Fernand Milcent. - recurso eletrônico - Curitiba,
PR : Edição do Autor, 2014. 1a Edição.
344 p.; 16 x 23 cm. dados eletrônicos: 1 arquivo; .pdf; 2,0 MB
ISBN 978-85-918574-0-1
1. Engenharia. 2. Ética. 3. Ethos. 4. Etigenia. 5. Moral. I.Título
CDD 620
CDU 62:17
Todos os direitos reservados a
Paul Fernand Milcent
Rua Gustavo Rattman, 860 - Curitiba / PR CEP 82520-630
Telefone: (41)3264-2827
[email protected]
www.paulfmilcent.net
A difusão parcial ou total da presente edição virtual é gratuita.
Agradecimentos à preservação do sentido de seu conteúdo e a citação do
autor e do título da obra.
A existência de cada um de nós precisa ter sentido. Este livro é um
presente a mim mesmo. É algo que me faz considerar que apesar das
dificuldades pelas quais já passei, a razão de minha existência foi
inteligível.
Agradeço a Jesus Cristo e a Maria de Misericórdia. Graças aos dois,
existo pelo menos desde 2002.
Agradeço a meu pai Paul Milcent, minha mãe Dilah Cunha Milcent,
minha esposa Dione Maria Silveira Milcent e meu filho Paul André Alain
Milcent. Agradeço também aos demais irmãos na humanidade, com suas
atitudes de bondade. O Amor do Pai se reflete neles e me sustenta.
Agradeço aos meus ex-alunos de Ética. As nossas discussões e interrelacionamento efetuaram significativa contribuição à obra tal como é
agora apresentada.
Agradeço a Deriana Miranda por sua amizade. Altruística e gratuitamente
se dispôs a realizar a revisão final do presente texto.
Dedico este livro a você amigo, e provavelmente colega engenheiro.
Diz-se que um amigo é um outro nós mesmos. Espero que ele lhe auxilie
a ter uma vida mais feliz!
SUMÁRIO
Prefácio
1.
2.
3.
4.
5.
PRIMEIRA PARTE. CONCEITOS FUNDAMENTAIS
Significados
Moral e ética
Ética deontológica e ética teleológica
Uma discussão quanto a censuras éticas
Materialismo e espiritualismo
6.
7.
8.
9.
10.
SEGUNDA PARTE. UMA ANÁLISE DO HOMEM
Os sofistas
Sócrates
Freud e Lacan
Carl Gustav Jung
Ética evolucionária
11.
12.
13.
14.
15.
16.
17.
18.
19.
20.
TERCEIRA PARTE. PRINCÍPIOS ÉTICOS
Jesus
Hinduísmo e budismo
Aristóteles
Considerações
Justiça.
Os estóicos
John Stuart Mill
Immanuel Kant
Autoestima e Respeito.
Motivos para a vida
QUARTA PARTE. ÉTICA PROFISSIONAL
21. Análise do código de ética. CONFEA
22. Análise do código de ética. CFQ
23. Ampliação dos paradigmas da ética profissional
7
13
15
21
29
45
51
61
63
73
93
101
121
131
133
157
169
181
187
195
205
213
231
247
255
257
265
271
279
Síntese
A.
B.
C.
D.
E.
F.
G.
H.
ADENDOS
Planejamento de uma disciplina de ética e engenharia
Íntegra do código de ética. CONFEA
Íntegra do código de ética. CFQ
Sumário de ética
Comportamentos que visam à felicidade
Versos de Ouro de Pitágoras
Mensagem dos milênios
Aforismos selecionados de Benjamin Franklin
Referências
283
285
287
297
307
311
323
327
333
341
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Prefácio
Prefácio
Minha atividade profissional é a de professor universitário,
servidor público federal. Formei-me em Engenharia Química e há mais
de 30 anos ministro aulas na Universidade Federal do Paraná,
principalmente para pretendentes à Engenharia. Nesta atividade
colaborei com a formação de mais de dois mil jovens, os quais no Brasil
e fora dele buscam a sua felicidade, o bem de seus amados e mesmo um
maior bem estar geral em nossa civilização.
Este livro surgiu de uma reflexão semiconsciente iniciada há
muitos anos atrás. A busca por uma tarefa que se revelasse a mim
mesmo com maior sentido. Professores são extremamente valiosos
numa sociedade. Transmitem conhecimentos às pessoas, lhes ensinam a
pensar, transmitem uma visão de mundo e valores mesmo sem o
emprego de palavras. Professores universitários, inclusive de Engenharia,
proporcionam uma profissão potencialmente útil para a realização e a
concretização de sonhos, para a busca do conforto pessoal e coletivo.
No entanto parcela significativa dos jovens que passam por
nossas mãos nas universidades jamais chegam a exercer a profissão na
qual se formaram. Numerosos jamais empregam os conhecimentos que
obtiveram através de um professor em particular. Provavelmente muitos
ainda, apesar de formados e atuantes, jamais chegam a sentir-se
efetivamente realizados.
Deste modo minha ambição e sede de sentido e heroísmo,
dirigiram meus esforços a um algo mais. A tentar colaborar com a
juventude não apenas enquanto estudantes de Engenharia de destino
profissional incerto, mas também como seres humanos em busca de
felicidade, desenvolvimento e realização.
Com base em estudos paralelos iniciados já na adolescência,
adotei a prática de anexar aos textos técnicos, outros que me pareciam
ser úteis para a vida. Criei também uma página na internet para a
divulgação, visando auxiliar um público maior.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Prefácio
Numa escalada contínua de construção passei a oferecer desde há
cerca de quatro anos, uma disciplina optativa a Engenheiros Químicos
cujo tema é o de Ética e Moral para Engenharia, e há um ano envidei
esforços para disponibilizá-la a todos os estudantes da Universidade
Federal do Paraná.
Tal disciplina se baseava em slides. Posteriormente tais slides
foram transformados em textos. Tais textos, através da atividade didática
de inter-relação e diálogo com os estudantes, foram em parte
substituídos, vários acrescentados e sempre melhorados. O livro que
você tem agora em mãos é o fruto deste trabalho.
Em julho deste ano foi disponibilizado o livro 'Felicidade pela
Ética', voltado aos interesses e necessidades do grande público. A
presente obra é essencialmente uma ampliação, que procura atender mais
especificamente aos estudantes e profissionais da engenharia.
No título do presente livro encontra-se o termo ETIGENIA. A
palavra ética tem sua origem no grego 'ethikos', que se refere àquilo que
pertence ao 'ethos'. O 'ethos' grego hoje seria considerado um campo
multidisciplinar de estudo. Indica hábitos, costumes, comportamentos e
valores; expressões da própria natureza humana. Inclui o estudado não
só na filosofia, como também na psicologia, antropologia, sociologia,
religiões comparadas e outros campos do conhecimento humano.
Ao tratar de uma área de estudos de tal abrangência, um maior
número de falhas é esperado. Desde que se tenha convicção dos
benefícios, melhor é aceitar tais inconvenientes, do que não procurar
realizar a contento a empreitada.
A partir de vários troncos linguísticos ancestrais, encontra-se no
grego remoto o termo 'gennán' com significados de gerar, criar, formar...
Tal palavra deu origem no francês moderno a 'geníe' que tem como um
de seus significados 'engenharia'. Ou seja, aquele ramo do conhecimento
dedicado precipuamente a criar ciência e tecnologia em prol do bem
estar humano e mesmo da vida.
Etigenia, portanto, (ethos + gennán) é a proposta de
denominação de uma nova área de conhecimento na qual se busca
avaliar as melhores soluções éticas possíveis às questões inerentes ao
exercício profissional da engenharia.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Prefácio
Etigenia é próxima à palavra etogenia, que indica o ramo da
ciência dedicado ao estudo da origem dos costumes, paixões e caracteres
dos seres humanos.
Engenheiros criam, concretizam e mantém ou não sistemas,
processos, equipamentos, construções e tudo o mais abarcado por sua
atividade laboral. A história da humanidade demonstra o frequente mau
uso destrutivo daquilo que é proporcionado por tais profissionais. O
desenvolvimento da fissão nuclear acarretou na destruição de duas
cidades e na morte de dezenas de milhares de pessoas. O avião foi usado
para lançar bombas ao longo da Primeira Grande Guerra Mundial e tal
prática ainda é corriqueira nos dias atuais. Os balões foram usados para
tornar mais eficiente, a sangrenta guerra de trincheiras também no
evento anteriormente citado. O que era aeromodelismo, para a diversão
de crianças e adultos deu origem às insensíveis máquinas de matança,
hoje denominadas por drones. Como estes, inumeráveis outros exemplos
poderiam ser citados.
Tal panorama demonstra claramente fato sobejamente conhecido.
Enquanto o desenvolvimento ético da humanidade caminha a passos
bem lentos, o desenvolvimento técnico e científico segue um
crescimento exponencial. Como tal conhecimento é neutro - dele
podemos fazer bom ou mau uso - ao menos uma clara necessidade se
manifesta: elevar o padrão ético da população como um todo de modo
geral, e em relação ao proposto neste livro, generalizar reflexões éticas
junto a todos os universitários de engenharia através da implantação
curricular de disciplinas de Ética, Moral e Engenharia.
Não considero consistente tentar-se falar sobre ética a um público
específico sem que antes tal grupo tenha algum esclarecimento dos
conceitos fundamentais e gerais a respeito do tema. Não são poucos os
que fazem juízo ético ignorando até mesmo os aspectos mais
fundamentais desta área de saber. Na verdade me parece que tal tentativa
seria danosa. As discussões poderiam ser vazias; poderia ocorrer a
cristalização e repetição de preconceitos ou lugares comuns; o orientador
poderia com sua retórica e autoridade apenas alterar opiniões para
aquelas de sua preferência. Qualquer análise ética exige preliminarmente
o esclarecimento racional dos indivíduos. Desta forma 'Ética, Moral e
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Prefácio
Engenharia' é uma obra que pretende apresentar as bases da Ética muito
frequentemente ignoradas e só então, graças a tal embasamento, procurar
analisar a adequação dos comportamentos pessoais e profissionais.
A obra se divide em quatro módulos compreendendo vinte e três
capítulos, além da conclusão e dos anexos, com textos considerados
valiosos e complementares. O primeiro módulo é dedicado a esclarecer
conceitos frequentemente ignorados ou mal entendidos referentes ao
estudo em questão, inclusive os dois pontos de partida que podem ser
utilizados na construção de diretrizes comportamentais. Considerando a
grande influência das crenças sobre a conduta, introduzimos aí também
uma análise racional comparando a convicção materialista em relação
àquela espiritualista.
Como já mencionado, a Ética trata do comportamento humano.
O segundo módulo, portanto, tem por ênfase ter-se uma maior
compreensão daquele que age. Isto é, compreender o próprio ser
humano e um pouco dos motivos de suas escolhas.
O terceiro módulo pode ser entendido como o detalhamento da
base fundamental da Ética, suportado por notáveis expoentes do
pensamento humano, para auxílio na sua aplicação cotidiana.
O quarto e último módulo é constituído por três capítulos. Nele
analisamos as disposições normativas vigentes, referentes ao exercício
profissional da Engenharia no Brasil. Em anexo, as normas podem ser
encontradas na íntegra e na forma original. Também neste módulo,
apresentamos a ampliação de paradigmas da ética profissional, que se
associa naturalmente ao conceito de Etigenia.
Tal material é empregado como bibliografia em disciplina de
graduação optativa com carga horária de 30 horas. Em um dos anexos é
possível encontrar a sugestão de um modelo de programação para uma
disciplina de tal natureza. Tal modelo já foi utilizado com sucesso. As
duas primeiras horas do curso são dedicadas à apresentação da disciplina
e do planejamento do desenrolar dos trabalhos. As duas últimas a uma
revisão e conclusões gerais. As aulas iniciam com a aplicação de testes
simples que visam exclusivamente incentivar e avaliar a leitura prévia no
âmbito extraclasse, dos capítulos a serem discutidos. Após efetuar-se um
resumo expositivo dos textos e encorajar o debate e a discussão, e em
10
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Prefácio
conformidade com as disponibilidades de tempo, filmes adequados
costumam ser projetados e comentados.
No âmbito da Engenharia e salvo melhor entendimento, não se
mostraria eficiente um estudo da Ética que não resultasse, numa mesmo
pequena alteração comportamental objetiva visível. Neste sentido em
todos os semestres se procura incentivar, planejar e executar atividades
éticas paralelas voluntárias, em parceria com instituições idôneas.
Trabalhos acadêmicos complementares são solicitados.
Corriqueiramente constituem-se na análise de dilemas éticos e estudos
dirigidos de outras obras de referência. Experiências já foram realizadas
com seminários nos quais alunos em grupo expõem sua analise ética a
respeito de alguma empresa situada em território nacional, afim à
atividade da engenharia.
O material contido neste livro permite a criação de uma
disciplina, de carga horária significativamente superior a 30 horas.
Superior ainda em função do esforço colaborativo e habilidades dos
professores ministrantes.
Considero adequado que uma disciplina desta natureza seja
ministrada por vários professores, de modo que diferentes pontos de
vista possam ser ofertados. A criação de uma nova disciplina num curso
universitário é basicamente função da vontade ativa dos professores que
almejem ministrá-la.
A palavra Ética significa comportamento. Um estudo da Ética é a
rigor buscar diagnosticar qual o melhor comportamento para cada um de
nós. O tratamento corriqueiro deste tema é normalmente nebuloso e
indefinido, baseado em inumeráveis regras de conduta, variáveis com o
período histórico, o local geográfico e inclusive, conflitantes entre si. Tal
emaranhado de conceitos, tal confusão, pode acarretar que na busca por
sermos éticos, terminemos por nos comportar inadequadamente, o que é
uma contradição, ou ainda nos mantermos escravos ao modo de pensar
de outros.
Este livro pretende mostrar que há algo de fundamental,
consistente e perene para a conduta adequada e que se este algo for
obedecido seremos a um só tempo verdadeiramente éticos, como
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Prefácio
também felizes e em contínuo processo de crescente realização e
desenvolvimento.
A Ética trata do comportamento individual. O enfoque deste
livro é o de entender tal tema através de todos os recursos atualmente
disponíveis e armazenados do conhecimento humano. Não nos
restringimos deste modo apenas ao campo da filosofia tal como é
atualmente entendida, mas também ousamos efetuar incursões nos
campos da psicologia, da antropologia e do estudo comparado de
religiões, dentre outros.
Quando um autor tem uma ideia é necessário que a represente
por palavras. Nesta passagem um pouco da mensagem original se altera.
Quando o leitor entra em contato com tais palavras, há uma nova
modificação ocasionada pelas diferenças na compreensão de tais termos
pelos dois. Tais mudanças tendem a ser tanto maiores quanto maior o
número de indivíduos que retransmitem os conceitos originais. Esta
observação deve ser considerada como um alerta. Em todo o presente
trabalho, mesmo quando um notório pensador é mencionado, sempre
haverá ao menos a minha própria influência e visão de mundo. Mais
claramente tal obra não pretende ser imparcial. Há a marca do meu
próprio pensamento em todos os textos. Caso o leitor almeje, é mesmo
benéfico que procure explorar as ideias dos baluartes de nossa
civilização, procurando entrar em contato com os textos que eles
mesmos tenham escrito, sempre que isto seja possível.
Na conversão do arquivo de texto para o 'Portable Document
Format', eventualmente uma ou outra letra ou sinal podem ser omitidos
ou trocados. Quanto a isto desde já me desculpo.
Espero que você, amigo leitor, tenha uma existência um pouco
mais feliz a partir de sua leitura. O comportamento adequado ao ser
humano e por definição ético é aquele capaz de lhe realizar, desenvolver
e lhe tornar feliz. Nele exploraremos juntos a essência e alguns detalhes
quanto às diretrizes de conduta capazes de possibilitar atingir-se tal
resultado.
Paul Fernand Milcent
Novembro de 2014.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
PRIMEIRA PARTE. CONCEITOS FUNDAMENTAIS
PRIMEIRA PARTE
CONCEITOS FUNDAMENTAIS
13
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
1
Significados
Significados
Muitos de nós sabemos que as palavras que empregamos como
meio de expressão e comunicação são essencialmente sinais. Isto é,
signos ou símbolos, os quais representam algo diferente e, ou além de si
mesmos. Desta forma, quando as escrevemos ou pronunciamos, é como
se expuséssemos ao interlocutor ou ao leitor uma pintura, esperando que
este a veja de modo similar a nós. A comunicação é tanto mais eficiente
quanto maior a semelhança da correspondência que os dois sujeitos tem,
entre o signo e a realidade particular representada. Ou seja, é desejável
que o significado das palavras empregadas seja o mais próximo possível,
para todos os envolvidos.
No estabelecimento de significados, a etimologia, isto é, a origem
de um dado termo bem como seu significado original, fornece uma base
conceitual, uma base de conhecimento que esta palavra representa. A
base é como o alicerce de um prédio, ou a raiz de uma árvore, que serve
de apoio às construções mentais subsequentes.
A busca, num bom dicionário, de seus sinônimos, nos apresenta
signos que expressam realidades mais ou menos próximas. Ora, o
conhecimento humano não consegue surgir do nada. Conhecemos
realidades complexas, a partir daquelas um pouco mais simples.
Entendemos verdades desconhecidas pela realização de analogias com
outras conhecidas que lhes sejam parecidas e assim por diante. Desta
forma, o conhecimento humano e as realidades que o ser humano
consegue perceber são representados por uma teia de signos; por
sistemas de significação. Tal é o ponto de vista da assim chamada
semiótica.
Quanto melhor conhecermos, numa determinada área de
conhecimento, a interligação de significados, maior será o próprio
conhecimento específico, bem como a comunicação. Por exemplo, um
engenheiro só consegue se comunicar eficientemente em área muito
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Significados
técnica, com outro profissional do mesmo ramo. Um japonês só se
comunica com outro que conheça a mesma língua.
A dedicação de nossos esforços será focada na ética e na moral,
pretendendo com isto a sua maior felicidade. Para tal é muito desejável
que entendamos uma mesma 'língua'.
Deste modo, o que propomos neste capítulo inicial é análogo a
uma visita guiada a uma galeria de exposições. Nela encontraremos
pinturas: a pintura intitulada ética, aquela denominada moral e algumas
outras. Vou tomar a liberdade de descrevê-las, discuti-las e mostrar quais
pinturas estão próximas de outras. O objetivo disto é formar uma interrelação de significados que nos serão úteis ao longo do estudo ao qual
nos propomos. Estudo que pretende basicamente o seu bem.
O termo 'ética' tem sua origem no grego ethos, que por sua vez
significa hábito ou costume. Daí ethiké se traduz por aquilo que tem
relação com o costume. Futuramente será de alguma valia observar que é
um substantivo singular.
Já moral, provém do latim mores e significa também costumes,
mas é um termo plural.
Exploremos, portanto, tal base conceitual. Costumes são
entendidos como atitudes habituais. Atitudes estabelecidas pela
repetição, as quais formam uma tradição, transmitida de geração em
geração, ou consolidadas num dado indivíduo ao longo do tempo.
Na língua francesa o termo costume assume um significado
paralelo muito rico, ou seja, indica o vestuário, o traje característico do
indivíduo. Isto sugere que o modo como um dado indivíduo ou uma
coletividade se apresenta aos outros, e provavelmente até frente a si
mesmo, se dá através das suas atitudes, sendo aquelas atitudes de mesma
natureza e repetitivas, uma peça de vestuário habitual empregada perante
o mundo.
Podemos observar que tais costumes podem surgir de forma
fortuita, por necessidade natural, adotados por uma escolha livre ou
ainda impostos por um agente qualquer.
Desta forma nos alimentamos e nos relacionamos sexualmente
por necessidade natural. Podemos por livre arbítrio abandonar o sexo e
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Significados
assim seremos celibatários. Podemos ainda ser castrados de algum modo,
e assim nos tornaremos celibatários não pelo exercício da liberdade, mas
sim pela imposição.
Dentre outros, três termos estão muito próximos da palavra
costume, quais sejam: procedimento, conduta e comportamento.
Destes três termos, aquele de significado mais complexo me
parece ser 'procedimento'; modo de proceder ou ainda de portar-se.
Etimologicamente o termo advém do latim procedere, que por sua vez
significa 'emanar de', ou ainda, 'ir adiante de'. Este significado sugere que
nossos costumes tem origem em algo que nos é característico; nossa
própria natureza. Mais uma vez surge também a ideia de que nossos
costumes estão como que a nossa frente, nos caracterizando, nos
definindo frente aos demais e provavelmente também, frente a nós
mesmos.
Conduta provém do latim conducta e há palavras também do latim
extremamente próximas. Do latim, conducto, isto é, conduto e do latim
conductore, condutor. Outra interessante analogia nos sugere esta nossa
visita à galeria de arte. A ideia é a de que nossas atitudes mais ou menos
habituais, guiam, orientam, levam, transportam, carregam as nossas
vidas. O que nos é aqui proposto é que nossas atitudes são as nossas
senhoras. Por outro lado, é possível aceitar que temos a possibilidade de
alterarmos numa certa medida os nossos hábitos.
Comportamento por sua vez significa o modo de comportar-se.
Comportar-se é o modo de suportar-se, conter-se e compreender-se em
si, admitir-se e tolerar-se. O termo sugere sermos de certo modo como
um copo, incapaz de reter mais água do que a sua plena capacidade.
Neste sentido os nossos hábitos demonstrariam, pelo menos num certo
ponto de vista, as nossas reais capacidades interiores, nossos limites e
nossa liberdade, num determinado momento de nossa história. Um
copo, num determinado momento, apresenta uma capacidade máxima de
conter água. Por outro lado se admitirmos que este copo possa crescer,
sua capacidade aumentará.
As três palavras acima citadas, levam diretamente, pela consulta a
um dicionário, aos termos portar-se, haver-se e possuir.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Significados
Portar-se significa carregar consigo. Haver-se se refere a ter-se em
seu poder, como também o termo possuir-se. Isto nos dá a visão de que
nossas atitudes indicariam como nos possuímos, bem como a amplitude
desta posse.
É interessante observarmos as conotações daquilo que chamamos
liberdade. Dizemos: Eu sou livre; posso ter o emprego que quiser. Eu
sou livre; posso viajar quando quiser para qualquer lugar. Eu sou livre;
posso morar onde quiser, e assim sucessivamente. É fácil observar, por
estes e milhares de outros exemplos similares, que o conceito de
liberdade individual está intrinsecamente relacionado à quantidade de
poder de cada indivíduo. E fica clara a ideia de que uma medida de nossa
liberdade é a medida de nosso poder de autodeterminação sobre os
nossos costumes; nossas atitudes mais ou menos corriqueiras.
Neste sentido, um dos aspectos mais importantes de um curso de
ética, de caráter positivo, é o da libertação individual. Libertação
realizada pelo conhecimento, pelo autoconhecimento e por meio da livre
reflexão individual. Dar critérios de escolha para cada um, de quais
seriam os melhores comportamentos para si mesmo, que nem sempre
condizem com os comportamentos que o meio social onde estamos
inseridos considera adequados para cada um de nós.
O estudo da ética, no entanto, também pode ser usado para
escravizar. Poderia partir do pressuposto que você não é livre para
escolher o seu próprio comportamento. Poderia tentar convencê-lo a
fazer ou não fazer coisas, justificando isto por afirmações que isto ou
aquilo é ou não 'ético'.
Como veremos, as análises éticas propriamente ditas, ou seja, o
estudo de quais seriam comportamentos adequados, pressupõem o
emprego da razão. O emprego da razão do indivíduo que estuda, visando
o seu aperfeiçoamento e autogestão. A autogestão obviamente é
incompatível com a gestão de terceiros sobre as nossas vidas. É
adequado que empreguemos a autogestão para, dentre outros aspectos,
conhecermos e controlarmos para o nosso próprio bem e o da
coletividade, nossos impulsos interiores, nem sempre benéficos ou
construtivos. Convém também, empregarmos a autogestão para
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Significados
colhermos, do seio da enorme cultura humana, princípios racionais
adequados para conduzirmos nossas existências.
Nossa liberdade individual aumenta, pelo conhecimento crescente
de tudo aquilo que nos condiciona. Cresce pelo conhecimento das
implicações e das consequências oriundas das nossas atitudes, frente às
situações concretas nas quais nos encontramos. O conhecimento é
requisito para que nosso poder de conservar ou de transformar nossas
atitudes aumente.
De condutas impensadas, condicionadas ou impostas, podemos
passar a comportamentos livres. Procurar prever aonde tais
procedimentos irão nos levar me parece ser de suma importância.
Podemos empregar nossa liberdade e com ela nos conduzirmos a
pântanos tenebrosos ou a vales e montanhas aprazíveis. Dependerá de
nós. Dependerá de nós sermos prudentes avaliando com cuidado os
resultados que cada novo exercício da liberdade individual nos acarretará.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Moral e ética
2
Moral e ética
Existem inumeráveis definições para a Ética, das mais restritivas e
ortodoxas até aquelas de maior abrangência de conteúdo. Tendo em vista
os propósitos que pretendemos alcançar, podemos propor:
Ética pode ser conceituada como o estudo do comportamento
humano no passado, no presente e numa perspectiva de futuro, bem
como suas causas. A proposta racional de diretrizes para indicar os
comportamentos mais adequados; o estudo de tais propostas e a análise
das aplicações também racionais das mesmas à vida cotidiana. Por fim
ainda, a análise dos valores que servem como seus princípios
fundamentais.
Por meio de tal definição, introduzimos neste campo de estudo, o
conhecimento do ser humano em si, bem como a chamada metaética,
isto é, o estudo dos conceitos que fundamentam a ética propriamente
dita. Englobamos também a ética conceitual, que pretende definir os
princípios gerais que norteiam a opção por comportamentos humanos
adequados, bem como a ética aplicada, que pode ser entendida como a
aplicação dos princípios gerais a dilemas comportamentais cotidianos.
Podemos destacar dois objetivos gerais a se visar com tal estudo,
quais sejam: facilitar um aperfeiçoamento do comportamento de cada
indivíduo e libertá-lo essencialmente da ignorância que todos nós
portamos em alguma medida, quer reconheçamos isto ou não, através do
conhecimento, do esclarecimento e do entendimento.
Entretanto cabe aqui destacar mais uma vez, que o estudo da ética
pode ser empregado também para escravizar consciências a ideias
supostamente 'corretas', mas não racionais. Para que o leitor se
precavenha de tal risco, mesmo salientando que este absolutamente não
é meu objetivo, cabe a recomendação milenar: conheça todas as
opiniões, porém sempre decida com sua própria consciência.
21
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Moral e ética
É razoável supor que o leitor tenha a intenção de ser ético, ou o
que é mais provável, que já se suponha ético. No entanto, para se
alcançar um aperfeiçoamento de conduta, a informação qualificada dos
melhores rumos será sempre conveniente. Por outro lado, em matéria
comportamental, o mundo oferece infinitas orientações, frequentemente
discordantes entre si. Desta forma se mostra altamente oportuno
classificar-se tais orientações em dois grandes grupos: a moral e a ética
propriamente dita. Como já visto, moral é uma palavra de origem latina,
plural, e ética uma de origem grega, singular. Aproveitando tal distinção
em termos de número, podemos conceituar:
A moral trata de comportamentos defendidos por argumentos
não racionais, cujas orientações tendem a variar fortemente com a
coletividade considerada e o período histórico analisado. As aplicações
cotidianas seguem princípios não racionais ou não seguem nenhum
princípio. As orientações são seguidas pelo indivíduo de modo não
racional.
A moral trata de costumes ou regras de comportamento
particulares e específicos, seguidas por um povo, num determinado
período histórico. Uma abordagem moral impõe regras que são
altamente variáveis ao longo da história, do espaço geográfico e da
cultura de uma determinada coletividade.
A ética trata de comportamentos defendidos por argumentos
racionais, onde os princípios norteadores das condutas específicas se
mostram essencialmente perenes, ao longo do tempo, e para qualquer
coletividade humana. As aplicações cotidianas seguem princípios
racionais. As orientações são seguidas pelo indivíduo racionalmente. É
assim característico do campo da ética o emprego da razão, como
também o é partir-se de conceitos e princípios gerais logicamente válidos
na tomada de decisão quanto a um comportamento específico do dia a
dia. E por serem tais conceitos testados pela lógica, passam a ser
conceitos perenes e universais.
A ética busca empregar os princípios fundamentais por trás dos
comportamentos benéficos e tem um enfoque racional. Almeja
22
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Moral e ética
compreender a conduta humana e estabelecer qual seria o melhor
comportamento frente à vida e a uma dada situação.
Assim, a título de exemplo, impor um dado comportamento sem
grandes explicações racionais, às vezes defendido com grandes ameaças
de dor e ou grandes promessas de alegrias, está no campo da moralidade.
Por outro lado, um determinado comportamento ou orientação moral,
pode ingressar no campo da ética, desde que defensável do ponto de
vista racional.
Algo considerado como moral, pode ser uma conduta baseada em
superstições sem fundamento, ou instintiva ou ainda de fundo
emocional. Entretanto podemos observar que a razão tem limites. Desta
forma, ao contrário, algo classificado como no interior do campo da
moral, pode ter sua origem em capacidades humanas que excedem a
nossa capacidade intelectual normal ou que tenham natureza espiritual.
Neste último caso, ousamos afirmar, tal orientação se confirmará pela
lógica, enquanto que aquelas meramente supersticiosas serão refutadas.
Observe o leitor de orientação materialista, que podemos
considerar como de natureza espiritual, aquilo que não pode ser
experimentado através de nossos cinco sentidos convencionais, porém
que todos nós reconhecemos existir, graças as nossas experiências de
vida.
A principal abordagem da ética é a chamada abordagem
teleológica. O termo teleologia é pouco usual, porém estamos muito
familiarizados com o conceito que transmite em nosso dia a dia. A
orientação teleológica é aquela que se volta aos fins, ao propósito, ao
objetivo e à finalidade de algo. Este livro, por exemplo, tem como uma
de suas orientações teleológicas o seu maior desenvolvimento. Quando
se diz que um sistema químico tende ao equilíbrio, se está fazendo uma
abordagem teleológica do fenômeno. Do mesmo modo, a gestão de uma
empresa por metas a serem atingidas, bem como muitíssimos outros
exemplos que poderiam ser aqui citados.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Moral e ética
A abordagem teleológica da ética considera que o essencial e
fundamental do comportamento ético, isto é, da conduta adequada ao
ser humano, é 'fazer o bem'. Fui pela primeira vez apresentado a este
conceito, que tem a propriedade de esclarecer a enorme confusão que o
nosso povo tem a respeito deste tema, pelo eminente professor Rosala
Garzuze. Médico que ministrou ética e várias outras disciplinas na
Universidade Federal do Paraná, Brasil, além de outros estabelecimentos
de ensino do Estado.
Conhecido o fundamental da ética, podemos considerar que os
pensadores da área se dedicam a melhor esclarecer tal orientação geral. O
melhor esclarecimento de tal fundamento, no meu entendimento, advém
da moral judaico-cristã, que recomenda fazermos ao outro o que
gostaríamos que fosse feito a nós mesmos, caso nos encontrássemos em
situação parecida. Apesar de sua origem religiosa, em outro texto
tomaremos o cuidado de demonstrá-lo rigorosamente por meio da
lógica. Desta forma tal orientação apresentada inicialmente como uma
orientação moral se constitui também numa orientação ética, visto ser
plenamente defensável pela razão.
Neste ponto já temos assim um critério para procurar avaliar se
um dado comportamento é ético ou não. Já os comportamentos morais,
como já classificamos, são aqueles comumente seguidos por uma certa
coletividade, num determinado período histórico. Com tais ferramentas
podemos realizar algumas análises específicas, a título de ilustração:
Como uma análise ética tem sempre um caráter subjetivo,
vejamos alguns exemplos de comportamentos provavelmente tanto
éticos quanto morais:
Zelar pela prole. Todos os povos e também a maioria dos animais
apresenta tal conduta. Faz, portanto, parte de nossa moral. Por outro
lado, quando estávamos indefesos na situação de filhos, gostávamos e
necessitávamos dos cuidados de nossos pais. Assim é uma conduta
igualmente ética.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Moral e ética
Liberdade de expressão da opinião; de convicção religiosa.
Algumas das nações modernas dão tal liberdade aos seus cidadãos. É,
portanto, uma conduta que faz parte da moral de tais povos. Por outro
lado, eu e você desejamos poder manifestar sem coações as nossas
opiniões, como também desejamos praticar qualquer religião de nosso
agrado. Desta forma é também um comportamento ético.
Tolerância; cordialidade. Vários povos apresentam condutas que
contemplam estas características. É, portanto, moral para eles. Por outro
lado, eu e você desejamos receber a tolerância pelas nossas diferenças ou
imperfeições ou particularidades. Desejamos também sermos tratados
com cordialidade. Desta forma são também comportamentos éticos.
Ainda lembrando a subjetividade inerente às avaliações éticas,
vejamos alguns exemplos de comportamentos morais, mas, pelo menos
provavelmente antiéticos:
No passado remoto, a escravização dos prisioneiros de guerra.
Apesar de ser um comportamento padrão para a época, tanto no
contexto do passado, quanto no presente, nem eu nem você gostaríamos
de prestar serviços contra a vontade ou como máquinas. Desta forma,
apesar de moral, pode ser considerado antiético em qualquer época.
No passado recente, a escravização dos prisioneiros de guerra e a
escravidão negra. A escravidão era moral, legal e defendida por
lideranças religiosas. Promover a libertação de escravos era considerado
imoral e ilegal. No entanto nem eu nem você gostaríamos de sermos
feitos escravos. Portanto em qualquer época a escravidão é antiética.
No passado recente, algumas tribos aborígenes abandonavam
seus idosos para a morte. No passado remoto os gregos espartanos
matavam seus recém-nascidos com deformidades.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Moral e ética
No passado recente promoveu-se o extermínio de povos e grupos
'inferiores'. A ciência da época inclusive dava apoio a tal medida, através
das ideias de eugenia. A maioria dos habitantes de certos países,
considerava 'certa' e apropriada tal medida, a qual era também legal. Por
outro lado, mesmo que você fosse 'inferior', você não gostaria de ser
exterminado, não é?
Quando esta classificação é apresentada aos meus estudantes,
costuma gerar estranheza. O conceito de que o comportamento seguido
pela maioria é o 'certo' e o emprego de ética e moral como sinônimos é
muito frequente. Costuma haver grande dificuldade em realizar-se tal
distinção e observar a existência de uma clara diferença em termos de
qualidade dos comportamentos deste modo divididos e encarados. A
própria constatação que ética e comportamento humano são uma só
coisa e sua enorme abrangência igualmente costuma aturdir as pessoas.
Os conceitos da maioria costumam ser relativamente superficiais.
Quando se fala em não matar, todos concordam ser uma questão ética.
Se falarmos, no entanto, em respeitar a vida ou boicotarmos guerras,
começaremos a encontrar resistências. Quando colocamos a cordialidade
como algo ético, apesar de não necessariamente uma prática social
consagrada como adequada, as resistências podem mesmo ser maiores. A
consideração de que o mais adequado e portanto o mais ético, não se
iguala necessariamente ao comportamento e à opinião da maioria nos tira
de nossa região de conforto, pois se torna um questionamento veemente
de nossos valores e condutas atuais. A própria ideia de que o mais ético é
o comportamento mais adequado para cada um, encontra como uma das
barreiras, a tendência de censurarmos e julgarmos o comportamento de
outros, a partir de nossos próprios valores, ou a partir dos valores de
uma determinada coletividade.
Caso você tenha se surpreendido com o que foi aqui colocado,
leve em consideração que esta obra foi escrita não com a intenção de
confirmar eventuais opiniões de que você já seja portador, mas sim de
enriquecer sua mente com novas, e penso, melhores conceituações. Após
a leitura você sempre será livre para permanecer com as mesmas ideias
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Moral e ética
que agora tem. Por outro lado, esta obra necessita fundamentalmente ser
transformadora e não se realizam transformações sem mudança. Você
quer ser mais feliz? Quer melhorar? Um maior desenvolvimento só será
obtido com comportamentos mais adequados e para isto é importante
que seu entendimento das questões comportamentais aumente em
alguma medida.
A classificação que fizemos, distinguindo ética de moral pode ser
aperfeiçoada.
Observemos a título de exemplo, que no passado a informação
que o europeu possuía era a de que o negro era inferior e acostumado a
escravizar e ser escravizado. Sob tal base, a racionalidade ou ao menos
uma rudimentar razão, poderia justificar a escravização. Em acréscimo, a
história humana demonstra um aperfeiçoamento dos costumes. No
passado, nos divertíamos com a luta de gladiadores até a morte ou
jogando futebol com a cabeça do adversário vencido. Hoje raras são as
lutas que redundam em morte acidental e a bola que empregamos é de
couro animal. Frente a isto é mais razoável considerarmos que uma parte
das determinações morais apresenta ao menos uma pseudo racionalidade
e ainda, na medida em que nossas bases de informação melhoram em
qualidade e nossos costumes são direcionados por meio de uma razão
mais esclarecida, a nossa moral evolui.
Por outro lado é radical afirmarmos que os princípios éticos, por
melhores que sejam, forneçam uma solução objetiva perfeita para todas
as conjunturas possíveis. A título de exemplo, no passado, quando de
invasões armadas, os guerreiros vencidos eram exterminados e o restante
da população normalmente escravizada. Se não houvesse a perspectiva
de lucro com a venda dos escravos, provavelmente seu destino seria
também a morte. Eventualmente o feito escravo iria apreciar sua situação
frente à alternativa de sumariamente morrer. Por outro lado, se não
houvesse o comprador, não haveria escravização e novamente surgiria a
alternativa de morte a todos os vencidos. O comprador poderia comprar
um escravo com a intenção de lhe salvar a vida. Gostaria do
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Moral e ética
procedimento caso fosse ele o escravizado. O derrotado e escravizado
poderia apreciar ser vendido para ter sua vida salva. Em consequência, a
solução ética para um dilema constituído numa determinada conjuntura
(histórica, geográfica...) pode não ser a mesma que em outra. De
qualquer modo, se as soluções concretas são variáveis, é possível afirmar
que os princípios éticos racionais tem a capacidade de apresentar as
melhores soluções possíveis para uma conjuntura particular.
Encerraremos este capítulo adiantando um pouco do conceito
socrático fundamental: O motivo básico dos enganos do homem é a sua
ignorância, o que inclui avaliar mal as consequências de suas atitudes. O
entendimento dos motivos que levam a um dado comportamento - a
remoção da ignorância - leva a uma alternativa melhor de conduta e
gradualmente a melhor conduta possível. O estudo da ética nos incentiva
a procurarmos compreender-nos racionalmente, bem como as nossas
inter-relações. Como consequência diminuir-se-ia à ignorância, fazendo
com que cada indivíduo, a seu tempo e frente às suas limitações, superese a si mesmo e adote naturalmente uma forma de viver melhor. Na ética
se estuda racionalmente o homem, esperando-se que tal compreensão
redunde numa melhor conduta.
Friedrich Nietzshe na obra 'Assim falou Zaratrusta' fez a seguinte
citação: 'O homem é uma corda esticada entre o animal e o superhomem ; uma corda sobre um abismo.'
E é verdade. O evolucionismo nos mostra nossas origens em
animais mais primitivos e nossos olhos nos permitem perceber como
próximo um horizonte no qual viveremos mais e seremos mais saudáveis
e inteligentes. No entanto estamos como que num corredor longo, a
maioria de nós quase que completamente às escuras. Não enxergamos as
paredes nem o piso. Nem o que está adiante nem o que está atrás de nós.
Tal situação pode levar tanto à angústia quanto à alienação. A ética pode
ser encarada como um estudo que fornece pelo menos uma pequena vela
acesa ao viajor.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
3
Ética deontológica e
Ética teleológica
Uma linha defendida por inúmeros pensadores e fortemente
justificável, considera o bem como valor máximo e fundamental da
Ética. Outra o considera a obrigação.
Quanto a este último conceito, recorramos mais uma vez a um
bom dicionário, com vistas a esclarecer significados. São termos
sinônimos, diretamente correlacionados à obrigação: dever (como ter
obrigação de); imposição; encargo, carga, tarefa; benefício ou favor.
Por sua vez, imposto significa feito aceitar ou realizar à força. Tal
apresentação de conotações faz surgir uma série de perguntas, dentre
elas: Quem estabelece a obrigação, o dever, o encargo? Com qual
objetivo tais deveres, obrigações e encargos são impostos? Quão lícito é
se fazer realizar algo à força e com que objetivo tal força é exercida?
Quanto ao sentido de obrigação como sinônimo de benefício ou
favor, o termo obrigação é empregado como sinônimo de fazer o bem.
Interessante observar que estes dois termos, obrigação e bem, ao
nível de sentimento, correspondem a medo (de punição) e amor (no
contexto de fazer o bem). Ao nível racional, que escolheremos para
nortear nossas vidas?
Pertinente a uma discussão quanto a validade do emprego da
força para coagir o indivíduo a um determinado comportamento,
podemos considerar uma das mais importantes máximas do filósofo
Immanuel Kant:
'Age de tal modo que sempre trates a humanidade, seja na tua
própria pessoa, ou na de qualquer outro, nunca simplesmente como um
meio, mas sempre também como um fim.'
Duas mensagens surgem desta diretriz geral. O fim de uma ação
deve ser sempre o bem do indivíduo. Nenhuma pessoa pode ser
considerada ou tratada apenas como um instrumento, uma peça de
máquina ou de uma engrenagem. Nestes sentidos não seria lícito
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
menosprezar ou comprometer o poder individual de efetuar escolhas
racionais. Assim não é lícita a imposição, a proibição, a coação, pois
cerceariam a liberdade de escolha (que é um bem superior). Também não
é lícito corromper a verdade, comprometendo assim suas escolhas
racionais (sendo também a verdade um bem maior).
Observa-se portanto, uma relação de ilicitude da coação frente à
habilidade racional do indivíduo, como também o bem como valor
primordial. Podemos conceber neste contexto uma situação cotidiana
onde uma coação redunde num bem?
Digamos que um pai de um filho pequeno mora num
apartamento com sacada sem proteção. Ele poderia dizer à criança: não
suba na sacada, pois é perigoso; você pode se desequilibrar e cair e
morrer. Tal tenra criança entenderia? Compreenderia 'sacada', 'perigo',
'desequilíbrio', 'morte'? Será que não desejaria morrer para saber como é
que é? Ao contrário, o bom pai provavelmente dirá: você não deve ir à
sacada; você está proibido de ir à sacada. Caso a criança mesmo assim lá
fosse, seria retirada a força e correria o risco de levar umas palmadas
devido a isto. À medida que a capacidade racional desta criança aumente,
o que antes era seguido por coação, passa então a ser seguido visando
um bem. Do mesmo modo um adulto irá à sacada quando houver
motivos para isto, tomando os cuidados pertinentes que a razão
apresentar para o caso.
Mas ao contrário do que este pequeno exemplo, dentre inúmeros
ilustra, quanto ao comportamento de um bom e sábio pai, que podemos
dizer quanto a um estranho que é apenas forte? Como distingui-los?
De qualquer forma a obrigação como valor fundamental, não tem
sustentação lógica, e isto será oportunamente mais discutido.
Quando se pretende um bem através de uma determinada
conduta, a conduta em si assume significado, pois é realizada
pretendendo um objetivo, uma consequência. Por outro lado, a
associação da conduta ética ao dever ou à obrigação, leva claramente a
um pensar circular e portanto não lógico. Uma conduta adequada seria
aquela que corresponderia a um dever. O dever pelo simples fato de
assim ser considerado, estabeleceria uma conduta adequada.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
Uma obrigação ou um dever a rigor, apenas se sustenta por um
valor mais primordial. Mesmo se o dever seja estabelecido pela
consciência do indivíduo, tal consciência o dita não pela obrigação em si
mesma, mas sempre visando um bem.
Assim o princípio fundamental da ética pode ser expresso: o
comportamento adequado, conveniente, é fazer o bem e evitar o mal.
Fazer o bem é o aspecto ativo da conduta ética individual. Evitar o mal
por sua vez é um aspecto passivo desejável da conduta de cada um de
nós.
Conforme Aristóteles, pensador antigo, mas cujas ideias são
importantíssimas ainda nos dias de hoje, seguramente ocorrem
divergências nas avaliações de atitudes específicas como boas ou más,
mas claramente qualquer indivíduo nas suas ações e mesmo nas inações
busca um bem. Por exemplo, um ladrão busca o bem que o resultado do
roubo lhe proporcionará.
Este exemplo mostra também a importância da compreensão
individual, para a adequada vivência ética, vivência ética esta, conforme o
bem, que exige de cada um de nós uma reflexão constante diante de cada
situação. Dentre as quais a avaliação do que é um maior bem.
A ética deontológica tem sua concepção e roupagem modernas
estabelecidas em 1930. O nome origina-se do grego deon que por sua vez
significa dever ou obrigação. É uma linha de pensamento baseada e
fundamentada na ideia do cumprimento da obrigação; do dever. Seu
foco está colocado no juízo de valor de atitudes particulares e não em
diretrizes gerais de comportamento.
Aqui as atitudes humanas são classificadas em dois grupos:
Atitudes particulares que podemos praticar, ou seja, ações específicas
permitidas de caráter opcional. E ações particulares que não devemos
praticar. Ou seja, atitudes específicas proibidas, restrições estas efetuadas
em geral de modo absoluto.
No momento que se estabelece o foco em ações particulares
permitidas ou proibidas, surgem naturalmente as regras de conduta
específicas.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
De modo análogo ao que já efetuamos um pouco antes,
perguntamos: Quem estabelece tais proibições ou permissões? Com que
intenção? Com que propriedade ou sabedoria? Com que licitude?...
Se por um lado o estabelecimento de uma linha de pensamento
ética embasada em obrigações e proibições é de pouca sustentação
racional, por outro podemos observar que proibições e permissões
específicas tem balizado a humanidade ao longo dos séculos, como
instrumento religioso ou de gestão de coletividades, entre outros. Seu
uso como mecanismo de controle social é frequente. No entanto, vários
avanços da humanidade foram ocasionados por meio de transgressões a
estas regras; dentre elas aquela que proíbe a insurgência contra uma
determinada ordem instituída.
Da disposição de proibição e morte de homossexuais, do
judaísmo antigo e contido no velho testamento, caminhamos
gradualmente para a tolerância à orientação sexual de cada um. Da
escravatura e da segregação racial permitidas e consideradas lícitas,
passamos à igualdade de direitos entre raças. Da consideração instituída
da mulher como inferior migramos para a igualdade de gênero. Das
monarquias e do colonialismo estamos a passar gradualmente a regimes
de maior liberdade e autodeterminação do destino de cada coletividade.
Observe que em todos estes casos, temos a ação propriamente
ética de indivíduos, terminando por repercutir no modo como as
coletividades são geridas, ou seja, no comportamento coletivo, isto é, na
política.
Na ética deontológica o bem e a obrigação estão em mesmo nível
de valor, ou em alguns casos, a obrigação é supostamente superior ao
bem. Nela supostamente também, existem características dos atos, que
não os tornam justificáveis apenas pelo valor que trazem à existência,
mas por outros tais como: manter uma promessa, ser justo, obedecer
uma ordem de Deus ou do Estado. Tais justificativas são as que fazem
tais atitudes se tornarem regras e se caracterizarem como obrigatórias e
restritas.
Na ética deontológica os deveres, as obrigações e as regras
específicas de conduta, estabelecidas por estes mesmos deveres e
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
obrigações seriam intrinsecamente bons. Seriam bons por si mesmos,
devido à sua própria natureza, independentemente de qualquer
circunstância ou consequência. Isto é, pelo menos certas ações
particulares seriam por si só certas ou erradas, boas ou más, não
importando suas consequências ou as circunstâncias nas quais ocorrem.
Da mesma forma, os atos proibidos seriam ruins em si mesmos.
Isto quer dizer que uma certa ação é avaliada por ela mesma. Uma
ação é boa porque é boa. Outra não relacionada à primeira é ruim
porque é ruim.
Julgo muito oportuno que você agora faça uma reflexão.
Porventura sua mente alguma vez avaliou algo de maneira
completamente isolada e fechada? Conseguimos fazer entender
propriamente a um cego de nascença uma imagem visual? Se você
conhece alguém com tal limitação, sabe que não. Porventura não avalia e
apreende a mente humana através do contraste e da comparação? Teria
para nós sentido a palavra luz se não houvesse treva? Se suas respostas
são semelhantes às minhas, como seria possível à mente humana avaliar
uma atitude sem qualquer referencial? Sem no caso, os referenciais de
consequências ou circunstâncias?
De qualquer modo, na linha deontológica, o acerto de qualquer
ação depende de que esta ação seja realizada porque é um dever, não por
qualquer boa consequência decorrente da mesma. Se um indivíduo age
de acordo com uma regra, porque esta é um dever, age corretamente. Se
não segue uma determinada regra, mesmo que visando um bem, sua
atitude seria considerada imoral.
Os comportamentos específicos podem ser avaliados por três
abordagens distintas: Por meio de suas consequências, nas circunstâncias
específicas onde são praticados; considerando-os bons por si mesmos ou
maus por si mesmos; e finalmente numa abordagem mista onde
comportamentos supostamente maus por si mesmos se tornam éticos
frente a consequências ou circunstâncias especiais.
Na linha de comportamentos considerados bons ou maus em si
mesmos temos o assim chamado absolutismo deontológico ou
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
absolutismo moral. É como o próprio termo indica, uma forma
deontológica radical. É uma linha que não admite a relatividade ou
exceções. Isto é, nela não se admite que hajam casos nos quais uma ação
intrinsecamente má, por suposição que isto exista, possa vir a ser
considerada moralmente correta, em vista das circunstâncias em meio às
quais é praticada e/ou devido às suas consequências. Isto é, pelo menos
parte das proibições é absoluta. Certas ações são absolutamente certas;
outras absolutamente erradas e proibidas.
Cabível aqui um exemplo: Matar é uma das maiores proibições
absolutas nesta abordagem. No entanto, como ocorre com relativa
frequência mesmo nos dias de hoje, uma mãe entende mal a prescrição
de um pediatra que recomenda dar ao seu bebê muita água e
compreende justamente o inverso, isto é, privá-lo de água, e o bebê
morre. Ou seja, a ação da mãe zelosa, mas ignorante mata o bebê. Esta
mãe na sua opinião, foi antiética?
Na mesma linha, uma mãe atendendo a prescrição pediátrica, de
dar um banho morno no bebê, lhe dá um banho morno 'demais' e o
bebê também morre. Esta segunda mãe foi porventura imoral?
Um pai vê seu filho na iminência de ser assassinado e podendo,
impede antes o agressor. O que você acha do conceito inclusive jurídico
da legítima defesa? Da tentativa de um pai de preservar a vida de seu
filho?
Roubar seria uma outra importante proibição absoluta. Um pai vê
seu filho na iminência de morrer de inanição. Não tendo outra
alternativa, em desespero, furta um pacote de leite ou pão do
supermercado. O que você acha disto?
De qualquer forma o absolutismo moral se origina diretamente de
interpretações de cunho religioso, em especial, das religiões judaica e
cristã. Neste tópico se insere a assim chamada teoria do comando
divino, que se constitui num aglomerado de ideias relacionadas que
defendem que uma dada ação específica é absolutamente certa ou errada
devido à prescrição divina.
Passemos a algumas questões: Se foi Deus que efetuou tais
decretos e como racionalmente não se pode negar ou confirmar a
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
própria existência de Deus, qual a fundamentação racional de uma
abordagem para avaliar o comportamento humano adequado (ético),
com base nesta teoria? Se foi Deus que efetuou tais decretos, porque há
diferenças entre tais decretos em função do povo e da época
considerada? No mundo atual, cada vez mais globalizado, se tais decretos
são efetuados por Deus e alguns são conflitantes e diferentes, quais
somos obrigados a seguir? Quais é nosso dever seguir? Quais são
intrinsecamente bons ou maus?
A partir da teoria dos mandamentos divinos, as obrigações ou os
deveres morais surgem dos mandamentos de Deus. Para um materialista
tal abordagem não faz sentido. Para um espiritualista surge a questão:
como conhecê-los com segurança?
Observemos um exemplo: Um dos dez mandamentos
fundamentais do judaísmo é guardar o sábado, que tem o significado
histórico de neste dia não se executar qualquer atividade produtiva. Jesus
por sua vez, há dois mil anos, se opôs francamente a este mandamento,
afirmando: 'O sábado foi feito para o homem e não o homem para o
sábado.' O sábado nesta visão deixou de ser um dia consagrado a Deus e
sim a serviço do homem. As lideranças do cristianismo, em particular
após 300 d.C., consagraram o domingo a Deus e a Cristo. Os
muçulmanos, pertencentes à mesma família religiosa, consagram a sextafeira. Algumas facções neocristãs da atualidade retornaram, tal como
ocorre no judaísmo, a consagrar o sábado.
Analisemos este caso concreto. Assumindo a possibilidade de
uma sugestão superior, o que há de comum em meio a tais divergências
que se manifestam ao longo do tempo e de acordo com o local
considerado? Este ponto em comum se refere a um ato específico ou a
uma orientação geral?
Concluímos deste exemplo a relatividade da própria regra, ao
menos nos seus primórdios, regra esta considerada imutável e absoluta.
Em síntese, mesmo num contexto religioso absolutista, as regras se
mostram por meio de análise racional, a rigor relativas, indicando
orientações gerais.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
Na assim chamada deontologia moderada, existem atitudes por si
mesmas boas ou más, mas que frente a circunstâncias e consequências
especiais se tornam más ou boas. Surge então uma questão: Como algo
por si mesmo intrinsicamente mau pode logicamente se tornar
fortuitamente bom? Você não concorda que é uma clara inconsistência
racional ?
Tal concepção faz ainda surgir outra questão: Até onde e em que
medida circunstâncias e consequências convertem um ato mau em algo
bom ? Por exemplo, matar um indivíduo - mesmo um terrorista ou um
tirano sanguinário - é mau em si. Por outro lado, quantos deveriam ser
salvos com esta morte para converter tal ato em bom? 2, 5, 10, 100,
1000...? Este pensamento torna as regras absolutas ou relativas? Este
pensamento confere um valor absoluto ou relativo às regras?
Por fim, podemos avaliar e nortear os comportamentos
específicos de nossas vidas cotidianas, por meio da previsão de suas
consequências, nas circunstâncias específicas onde são praticados. Esta
linha de critério de decisão de conduta não depende do uso de regras ou
proibições como critérios primários de escolha.
Vejamos uma ilustração clássica: Aristóteles dentre inúmeros
expoentes, observou e estabeleceu o bem como princípio fundamental a
nortear o comportamento humano. Este mesmo grande pensador
analisou e concluiu que o maior bem, o sumo bem para o ser humano é a
eudamonia, palavra de sentido plural, que denota felicidade,
autorrealização e desenvolvimento pessoal. Nesta mesma linha,
personalidades notáveis: Jeremy Bentham e John Stuart Mill, detalharam
tais conceitos, desenvolvendo racionalmente tais ideias no princípio de
que o ético é 'promover a maior felicidade, para o maior número de
pessoas'. Ou seja, um dado comportamento individual é tanto mais
adequado, quanto mais promova o bem - a felicidade - para o maior
número de pessoas possível. Desta forma, pelo conhecimento, aceitação
da correção e opção por este princípio geral, as decisões quanto às
nossas condutas do dia, seriam efetuadas.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
Observe que as decisões são tomadas visando um objetivo, qual
seja, o maior bem; a maior felicidade. Desta forma as condutas não são
avaliadas por si mesmas, por um processo circular ilógico, mas sim,
sempre tendo em vista o contexto onde se inserem e pela previsão de
suas consequências benéficas.
Observe também que tal princípio absolutamente não afasta a
opção do uso de proibições, tão somente as coloca como de valor
acessório e secundário. Tais proibições se justificariam, por exemplo,
quando está sob a guarda do indivíduo, um outro, cuja capacidade
racional esteja comprometida. Isto já foi ilustrado no texto anterior,
quando o bom pai, visando o bem de seu pequeno filho, o proíbe de se
aproximar da sacada do apartamento.
Do mesmo modo, nesta linha de reflexão filosófica é admissível o
conceito de dever, porém este se torna aqui dependente do princípio
básico de bem. Assim no pensamento Kantiano, os deveres devem ser
estabelecidos pela consciência de cada indivíduo e esta por sua vez tem
suas bases de valor, a nível de aplicações em situações particulares, quer
adequadamente direcionadas quer não, sempre baseadas no bem ou na
boa vontade.
Em abordagem similar, sempre visando o bem, comprovável por
meio de efeitos futuros, pode-se propor a existência individual baseada
em valores, tais como: os da liberdade individual ou coletiva, a igualdade
no provimento dos anseios e necessidades de todos e o espírito fraternal
e solidário, propugnados pelos pensadores do iluminismo do século
XVIII. Ou ainda baseando também a existência, no pacifismo e na não
violência, ideia que ganhou projeção e notoriedade no século XX, por
meio de Mahatma Gandhi. Ou ainda no valor de veracidade e busca da
verdade, que impulsiona os verdadeiros homens da ciência ao longo da
história.
Vale, no entanto, a ressalva que a cada único dia, tomamos
centenas senão milhares de decisões. É altamente discutível se teríamos
capacidade racional para análise prévia de cada uma delas. Se é assim,
necessitamos na nossa existência de uma série de comportamentos
automatizados, que se estabelecem pelo hábito e que se constituem num
37
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
conjunto particular de regras para a vida. É possível afirmar que o
exercício da ética pressupõe liberdade e autonomia. Neste sentido é
desejável que algum número de tais regras sejam estabelecidas por nossas
próprias consciências, visando o bem.
Todos os deontologistas concordam, na real aplicação do termo e
na correta classificação desta linha de pensamento, que há ocasiões em
que o dever deve ser cumprido por obrigação, contrariamente àquela
atitude que resulte em maior bem. Neste caso não se realizaria um bem
maior porque com isto estaríamos violando um dever ou uma obrigação.
Pelo menos certos atos específicos seriam bons ou maus em si mesmos.
Tal juízo de valor seria fixado por regras também específicas e os atos
seriam avaliados independentemente das circunstâncias nas quais são
efetuados e de suas consequências. Neste sentido, lembrando apenas
dois exemplos históricos, militares nazistas conduziram milhares de
judeus, ciganos, homossexuais e outros ao extermínio, justificando tal
comportamento muitas vezes pelo cumprimento zeloso do dever. E
também eventualmente em nome do dever duas bombas atômicas foram
desenvolvidas e lançadas sobre milhares de civis japoneses.
Para Jeremy Bentham e inúmeros outros, a deontologia não é
racional e sim apenas uma questão de opinião não fundamentada
daqueles que a defendem. Os argumentos que comprovam tal análise
estão contidos no presente capítulo.
Para Robert Nozick é claramente lógico tentar minimizar as
violações ao conceito dos direitos. A ética deontológica proíbe tais
tentativas, inclusive quanto aos direitos mais fundamentais. Assim a ética
deontológica não é ética ou lógica. Por exemplo, se reconhece o direito
fundamental do indivíduo à vida, mas é seu dever não furtar, o que o
levaria a morte caso não tenha outra alternativa para aplacar a
desnutrição grave.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
Para John Stuart Mill, os deontologistas não especificam as
prioridades com respeito aos deveres e as regras. A vida cotidiana está
repleta de escolhas complexas. A deontologia não fornece os meios para
decidir entre deveres muitas vezes conflitantes. Desta forma não é útil
para fornecer uma orientação ética satisfatória. Quanto a isto um
acontecimento recente é boa ilustração. Procurando forçar a que os
motociclistas fizessem uso de equipamentos de segurança pessoal, foi
estabelecida uma lei de trânsito proibindo o tráfego sem capacete, sem
excessões, como é de costume no estabelecimento das regras. Por outro
lado, frente ao número de assaltos realizados por motociclistas nos
postos de gasolina da cidade de São Paulo, que permaneciam de capacete
de modo a manterem-se irreconhecíveis, foi estabelecida uma lei
municipal proibindo o uso de capacetes no espaço do posto. Deste
modo, por força de norma, os capacetes deveriam 'desaparecer' naquela
fração de distância e segundo que separa a auto pista da entrada do
posto.
Para Shelly Kagan, na deontologia os indivíduos estão ligados a
restrições proibidas. Por exemplo, não matar. E permissões opcionais.
Por exemplo, não fazer caridade se não quiser. Mas as restrições
absolutas agridem nossas noções mais básicas de moralidade, como
frente a um pai que vê passivamente um filho morrer de fome, e as
opções são sentidas igualmente como profundamente imorais se não
houverem restrições, como frente a alguém morrendo sem auxílio, ou
em caso de fuga sem socorro, após atropelamento acidental.
Pelo exposto, um ato pode permanecer proibido, mesmo que
viesse a evitar a realização de um maior número de atos igualmente
proibidos. Ou seja, a execução de um ato proibido permanece proibida
mesmo que sua execução impeça violações generalizadas, como por
exemplo, a deposição de um tirano insano. Fácil observar que tal
princípio com base em proibições absolutas pode resultar na extinção
também absoluta de toda uma coletividade. Uma pergunta pertinente de
Samuel Scheffler é: 'Como pode ser racional ou razoável proibir algo que
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
teria como efeito diminuir ações posteriores que seriam igualmente
proibidas e moralmente proibidas e que não teria outras consequências
indesejáveis?' Observe que no estabelecimento da ideia de dever com
valor primordial, o mesmo deve ser sempre exercido, não importando
circunstâncias ou consequências. Porém tais deveres, como princípio
fundamental, tem a propriedade de se autodestruir e de se inviabilizar,
pois são capazes de impedir a realização até mesmo de todos os deveres
subsequentes.
Uma observação cuidadosa e atenta da história da humanidade
nos esclarece que as coletividades, mesmo que cerceadas por proibições
e regras diversas, sempre tem, como meio de sobrevivência, indivíduos
ou uma classe detentora de uma parcela de poder, que absolutamente
não se sujeita primariamente às mesmas, e sim, quando adequadamente
direcionada, se baseia no princípio do bem. Salvo melhor entendimento,
são tais atitudes tomadas contrariamente às regras, aquelas que permitem
a própria sobrevivência do tecido social, bem como o desenvolvimento
da coletividade. Seriam tais perturbações aquelas que permitem o
surgimento de novas e melhores regras que tendem a orientar o
comportamento coletivo. A título de exemplo, Mahatma Gandhi jamais
teria libertado a Índia caso se mantivesse submetido aos deveres de
obediência à Inglaterra. Pode-se até mesmo, quem sabe afirmar, que o
primeiro passo para a extinção ou deterioração de uma organização ou
coletividade ocorre quando as regras se superpõem e se tornam mais
relevantes que os ideais que, originalmente, as inspiraram.
Como vimos, o grande objetivo do estudo da ciência da ética é o
de facilitar a que cada um de nós determine racionalmente o
comportamento adequado ou mais adequado – comportamento ético –
para cada um de nós mesmos. Ou seja, é normalmente um item de
utilidade para o próprio indivíduo. Podemos classificar as abordagens em
dois ramos distintos: O da deontologia, baseado em deveres, proibições
e permissões, com regras para um número provavelmente infinito de
atos particulares específicos. E outro defendido pela esmagadora maioria
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
dos pensadores deste campo, que defendem orientações gerais,
princípios e valores, que norteiam e sugerem todas as condutas frente a
todas as situações particulares.
Diversas ciências tratam direta ou indiretamente do agir humano.
Cada uma tem um ponto de atenção mais ou menos específico. Dentre
elas temos a história, a antropologia, a arqueologia, a sociologia, a
economia, a teologia, o estudo das religiões comparadas, o direito, a
biologia e a psicologia. O estudo bem fundamentado do comportamento
humano adequado permeia todas estas áreas.
Para efeitos formais, a política e a ética são ramos distintos da
ciência. A ética tem seu foco no bem do indivíduo e na tentativa da
determinação de seus comportamentos mais adequados. É o estudo dos
elementos e das condições do seu bem, até onde possa ser atingido por
sua própria atividade racional ou ainda de outros indivíduos particulares,
sem considerações quanto a estruturas, funções e atribuições de
governos (exceto aquelas que seriam eventualmente baseadas nos ideais
filosóficos da anarquia). A verdadeira política se volta ao bem ou ao
bem-estar das coletividades humanas. Tal distinção tem sua origem na
própria etimologia do termo. Política se origina do grego e significa a
ética na cidade, ou seja, o estudo dos adequados comportamentos
coletivos. Assim, quando falamos de ética, nos referimos ao
comportamento individual; no bem ou no bem-estar do indivíduo e ao
falarmos de política, nos reportamos adequadamente ao bem do coletivo.
No entanto estes dois ramos da ciência se inter-relacionam intimamente.
Não concebemos um incremento da ética de indivíduos, que não se
repercuta no bem coletivo e igualmente não é possível um verdadeiro
bem coletivo que não se reflita ao menos no bem de parcela significativa
dos indivíduos que o compõe.
Ainda, a qualidade do comportamento individual é demonstrável
basicamente em suas relações com seus semelhantes, sendo os prazeres e
as dores fortemente derivados disto. O bem não é atingido pelo
isolamento, sem consideração ao bem do outro.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
A princípio, possivelmente foi demonstrada a relatividade das
regras específicas e também possivelmente mostrou-se a propriedade do
critério de bem como valor e princípio fundamental, para reger
racionalmente a conduta humana. Poderemos ainda nesta obra, analisar a
correção do emprego de tal princípio, para a solução de questões
específicas, por meio da observação das consequências dos atos
praticados. O acerto de comportamentos específicos, baseados na busca
do bem, pelos resultados angariados com as ações, bem como o nortear
de cada um, pela previsão dos efeitos a serem obtidos.
Ponto muito importante necessita ser lembrado ainda neste
capítulo. Porventura as regras, as leis e os costumes estabelecidos com os
quais as sociedades convivem imemorialmente seriam tolices? Aqueles
que os defendem seriam mal intencionados? A resposta óbvia é não. Tal
estrutura é plenamente justificável. Quantos de nós, mesmo os mais
esclarecidos, pautamos nossas atitudes costumeiramente pela razão?
Muito poucos, com certeza. A imensa maioria de nossas respostas a
estímulos externos é automatizada. Não teríamos condições de a cada
instante fazermos um raciocínio complexo de qual a melhor atitude
tomar. E o que é também verdadeiro, poucos de nós teríamos condições
de realizar um tal raciocínio de forma a prever adequadamente as
consequências de um determinado ato. Deste modo, verdadeiramente
necessitamos de uma base de diretrizes comportamentais estabelecida,
mesmo que tal base apresente na sua aplicação, algumas imperfeições. É
a partir de tal base, que nossa capacidade racional crescente, de forma
madura, poderá fazer com que nossas atitudes pessoais sejam
melhoradas. Erro maior do que acreditar que toda a norma seria ética,
seria o de contestar indiscriminada e frequentemente qualquer norma,
pressupondo que nenhuma seria válida ou adequada.
Uma esfera só é definida por suas fronteiras. Uma criança e
posteriormente um jovem ou adulto só adquire identidade e humanidade
graças aos limites que lhe são impostos, no convívio familiar e no
processo educativo, estabelecido no meio social. São estes limites, a
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética deontológica e ética teleológica
matéria prima indispensável que admitirá aperfeiçoamentos através de
um processo gradual e cuidadoso de crescimento pessoal.
Importante também lembrar que a violação de regras
reconhecidas, mesmo que não éticas, não exime o transgressor das
retaliações. Exemplos disto, a história nos traz aos milhares. Neste
sentido é oportuno efetuar-se a avaliação de um comportamento
consagrado numa coletividade e num momento histórico como ético,
não ético ou neutro, como também a conveniência e a prudência em
eventualmente contestá-lo.
De qualquer modo este livro se destina a um público mais
esclarecido. O seu título, forma e conteúdo, dentre outros pontos,
garante isto. A Ética proposta aqui é uma ética teleológica com base na
consequência do bem e da felicidade e não deontológica, fundamentada
na imposição de regras.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Uma discussão quanto a censuras éticas
4
Uma discussão quanto a
censuras éticas
Uma intuição verdadeira sempre é confirmada pela razão. O fato
de uma ideia ter sido primariamente apresentada a uma coletividade num
contexto religioso, não impede que venha a ser incorporada ao campo
científico ou da ética – estudo do comportamento adequado individual –
desde que satisfaça ao crivo racional.
Immanuel Kant defende que as atitudes humanas são
compreendidas em termos de intenções. Desta forma uma determinada
ação seria considerada certa ou errada, não por ela mesma, mas sim pelos
motivos reais do agente. A veracidade de tal conceito pode ser
demonstrada pelo exemplo já apresentado, que efetivamente ocorre de
tempos em tempos no cotidiano. O daquela mãe, que procurando
atender à prescrição do pediatra e na tentativa de baixar a febre de seu
bebê e o curar ou salvar-lhe a vida, inadvertidamente lhe dá um banho
quente demais, o escalda e o mata. Observe que foi a ação desta mãe que
tirou a vida de seu filho, de modo que objetivamente ela o matou. No
entanto, apesar de nosso espanto com o ocorrido, não a rotulamos de
assassina, pois conhecemos os profundos laços naturais de amor que
ligam as mães à sua prole e deduzimos que a real intenção desta mãe era
de fazer um bem à criança e não de a matar. Se por outro lado, um
estranho efetuasse exatamente a mesma ação, tenderíamos a considerar
que esta teve uma motivação extremamente má e seríamos levados a
condená-lo. Observe mais uma vez que a ação foi exatamente a mesma,
mas a suposição dos motivos que levaram a ela, efetuaram toda a
diferença na sua avaliação. Por outro lado, observe também que os
motivos das pessoas para as suas condutas são por norma, ignorados.
Desta forma, a mãe que foi inocentada, poderia ser insana e ter realizado
o ato com a intenção de tirar a vida de seu filho. Já o estranho
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Uma discussão quanto a censuras éticas
condenado, poderia na verdade estar tentando fazer um bem ao bebê.
Consequentemente, na perspectiva acima exposta, não são os atos
objetivos que recebem uma avaliação ética e sim os motivos que levam a
eles. Mas como os reais motivos dos indivíduos são ignorados, não se
pode com segurança censurar o comportamento de ninguém.
Sócrates foi um dos maiores pensadores da humanidade. Sua
importância para a filosofia é tal que, por exemplo, classifica-se a
filosofia antiga em pré-socrática e pós-socrática. No campo da ética, suas
conclusões estão fundamentadas no binômio: ignorância e
conhecimento. Segundo ele, o mal resulta em não saber avaliar os
resultados das ações, sendo em absolutamente todos os casos, fruto da
ignorância. Já o conceito “conhece-te a ti mesmo”, gravado no Templo
de Delfos, é a primeira espécie de sabedoria e o único caminho que leva
à virtude e à ética. De qualquer modo, segundo ele, o meio de se alcançar
a Ética é o conhecimento e a busca deste conhecimento é o objetivo do
"método socrático" a ser apresentado oportunamente.
No contexto da presente discussão, retornando ao exemplo da
mãe que mata acidentalmente seu filho, observe que tal ocorreu por sua
falta de conhecimento. Falta de conhecimento dos limites da natureza
humana, no caso, dos limites fisiológicos da criança. Falta de
conhecimento também das reais consequências de sua atitude, ou seja,
uma falha na avaliação correta da mesma. Em outras palavras, pela
ignorância da natureza humana, inclusive da sua própria capacidade e
pela ignorância dos reais efeitos de seu ato.
Observe que vivemos num mundo plural onde a regra é a
diversidade. Convivemos num meio onde o nível de esclarecimento
apresenta enorme dispersão. Lado a lado estamos com grandes sábios e
outros, pobres em esclarecimento, e o conhecimento aplicável ao
adequado comportamento muito pouco ou nada tem a ver com títulos
ou escolaridade. Desta forma, a princípio desconhecemos quão sábios ou
ignorantes são aqueles que nos rodeiam. Da mesma forma o
conhecimento utilizável para o norteamento de condutas seguramente
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Uma discussão quanto a censuras éticas
não é o mesmo para todas as possibilidades existentes. Seria a nossa
deficiência de conhecimento ou a de qualquer outro, um motivo de
censura? Se não podemos censurar a ignorância que envolve a todos nós,
quer reconheçamos isto ou não, igualmente não é racional censurar
condutas inapropriadas que essencialmente são causadas por ela.
Aristóteles há 2.300 anos atrás nos fez ver, pela obra que chegou
a nós com o nome de Ética a Nicômaco, que não podemos censurar
eticamente animais, pois o exercício da ética pressupõe o uso da razão e
neles tal habilidade é inexistente ou muito escassa. Na mesma linha, este
notável pensador nos faz ver que o mesmo se aplica às crianças,
exatamente pelo mesmo motivo. Immanuel Kant, dentre outros,
reafirma tal conceito, nos fazendo ver que a ética não se aplica a seres
incapazes de fazer escolhas racionais. Desta forma, apesar de nos
precavermos com cobras, racionalmente não as taxamos de más. O
mesmo ocorre quando uma criança encontra o revolver do pai e ao
brincar de policial com o amiguinho, termina por matá-lo.
Novamente podemos observar que estamos inseridos num
processo evolucionário, tanto em termos coletivos quanto individuais.
Os membros de comunidades indígenas são por tal fato entre outros,
normalmente considerados para fins legais, como menores de idade e
não criminalmente imputáveis. No contexto pessoal, a habilidade
racional apresenta uma curva onde os indivíduos são seus pontos. Até
mesmo um mesmo indivíduo ao longo dos anos, apresenta capacidade
racional diversa.
Mais uma vez observamos assim alguns pontos pertinentes a
presente discussão. Os indivíduos tem capacidade racional diferente. Se
uma criança não pode ser censurada eticamente por ter sua habilidade
racional não desenvolvida, a censura aos indivíduos é sempre relativa,
pois tal capacidade não é uma constante em nossa espécie. Do mesmo
modo indivíduos com anormalidades neurológicas ou distúrbios
psiquiátricos igualmente poderão ter sérios comprometimentos ao nível
intelectual.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Uma discussão quanto a censuras éticas
Outra questão de grande importância é em que medida um dado
indivíduo rege seu comportamento por meio da razão. Se observarmos
as sociedades humanas, veremos que apenas uma minoria se deixa
conduzir pela inteligência. Isto por sua vez nos faz reportar aos limites
da natureza humana e obviamente não é racional censurarmos os limites
que temos, via de regra, sempre indesejáveis. Isto é, nenhum de nós
aprecia sermos criaturas limitadas ou de inteligência limitada. Mais uma
vez, neste contexto, os erros que cometemos, pelo menos em grande
medida, não podem ser censurados. Alguns de nós aprendemos mais
facilmente e outros mais arduamente, a arte de viver.
"O essencial da ética – comportamento adequado – é fazer o bem
ao outro." Porém um problema que surge a partir deste postulado é o
que é o "Bem"? Sabemos que cada um de nós pode concebê-lo de modo
diferente. Pode-se esperar que nenhum comportamento extremamente
inadequado possa ser efetuado com base neste princípio. Mas também é
razoável esperar ao longo do cotidiano, que atitudes consideradas
benéficas por uns possam ser avaliadas como maléficas por outros.
Assim, por exemplo, um indivíduo que exerce no dia a dia a civilidade e a
cordialidade pode eventualmente ser considerado como um falso, mal
intencionado.
O comportamento de um indivíduo se faz num determinado
meio específico, em relação aos que o cercam e depende de inúmeros
fatores circunstanciais. Quando tentamos avaliar as atitudes de um outro,
que não nós mesmos, jamais estaremos inseridos nas mesmas
circunstâncias que ele. Isto é, nossa avaliação será sempre relativa, pois
não somos o mesmo agente que executa a ação considerada.
Como sabemos, o foco da ética é diferente do da política. A ética
busca auxiliar o indivíduo para que este encontre o comportamento mais
adequado a si mesmo. Neste sentido ninguém melhor que o próprio
indivíduo para decidir livremente a conduta a adotar. O contexto da ética
não é o de condenação, mas sim o de auxílio.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Uma discussão quanto a censuras éticas
Sigmund Freud analisou a natureza humana e concluiu existir em
nosso ser uma região da qual não temos consciência, o nosso
Inconsciente. Tal inconsciente teria como uma das regiões aquela que
denominou por Id. O Id seria a sede de nossas energias caóticas inatas:
os impulsos sexuais desenfreados; os de agregação e de preservação,
graças aos quais temos a esmagadora maioria das criaturas viventes sobre
a Terra. Ou seja, espécies que não se reproduzem não persistem.
Também residem no Id os impulsos de morte e perversos, que existem
devido ao fato que novamente a grande maioria das criaturas necessita
para que possa sobreviver, matar direta ou indiretamente o que irá
comer. Tal necessidade é observada inclusive em muitos organismos
unicelulares.
Equilibrando também tais forças no Inconsciente e controlando
inclusive nossas ações a nível consciente – do Ego - existiria o Superego
ou SuperEu. O Superego pode ser considerado como análogo a um juiz
rigoroso e poderoso, porém tolo. Nos nossos primeiros anos de vida tal
juiz redige seu código penal através da influência de tudo aquilo que o
rodeia. Com o passar dos anos, nossos julgamentos conscientes são
incorporados também, como base de juízo de valor do Superego. O
Superego como dissemos é tolo, mas bastante criativo: pontos obscuros
de seu código de julgamento são preenchidos por analogia com aquilo
que já foi estabelecido.
Nos casos em que um indivíduo tem algum domínio sobre
outros, pode ocorrer que os efeitos deste juiz repressor possam ser
sentidos pelos dominados. Por outro lado há sempre, 24 horas ao dia e
todo dia, uma pessoa sujeita a tal juiz, que é o próprio indivíduo que
colaborou ativamente, mesmo que deste fato não tenha conhecimento,
com a sua formação.
Desta forma, podemos dizer que todas as vezes que julgamos e
condenamos aos que nos cercam e todas as vezes que lhes imputamos
penas hipotéticas, estamos ensinando uma parcela inconsciente de nós
mesmos como julgar, condenar e com que rigor penas imputar.
Tal fato curiosamente já era conhecido pelos sábios sacerdotes
médicos da Grécia antiga, que afirmavam que a deusa justiceira e cruel
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Uma discussão quanto a censuras éticas
denominada por Nêmesis, residia no interior de cada um de nós.
Provavelmente não é necessário enfatizar os severos distúrbios de ordem
psicológica que tal Superego pode ocasionar.
Desta forma, pela abstenção de julgamentos quanto às atitudes de
outros, nos preservamos de condenações por nós mesmos, passando
gradualmente à esfera do Consciente racional, o controle e o equilíbrio
de nossos impulsos primitivos.
Tenho a convicção que este texto é potencialmente bom para
você. Entretanto, apenas a teoria, mesmo que bem fundamentada,
provavelmente não será útil. Se você porventura se convenceu que não
há base racional para condenações de indivíduos devido a seus
comportamentos eventualmente inadequados, o passo seguinte é o de
adotar um comportamento compreensivo e tolerante em relação ao
outro. E para finalizar o presente capítulo, deixo algumas questões: Cada
um de nós tem a tendência de se considerar sabido; inteligente; conhecer
as coisas verdadeiras. Não estaríamos sendo pretensiosos? Não seria
presunção nossa julgarmos que a nossa noção de ‘certo’ é única? O que
você acha de transferirmos a responsabilidade por deliberar sobre o que
é ‘certo’ ou ‘errado’ para um outro? Você acha que o acima exposto
invalida as tentativas de mútua orientação e o diálogo quanto a questões
éticas? Você acha que o acima exposto invalida manter na memória as
atitudes anteriores bem como as tentativas de previsão dos
comportamentos esperados daqueles que nos rodeiam
?
.
50
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Materialismo e espiritualismo
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Materialismo e espititualismo
Espiritualistas são aqueles que aceitam como verdadeira a
existência de um ser eterno, causa de tudo, que não pode ser observado
por meios convencionais e que em grande parte não pode ser
compreendido. Os materialistas consideram esta afirmação como falsa.
Numa posição intermediária, há aqueles que pelo menos tentam
manter-se neutros ou alheios a esta questão, por indiferença, por
testemunho de ignorância ou outro motivo qualquer.
Além da capacidade criadora e da eternidade deste ser, outras
costumam estar a ele associadas, tais como a capacidade de manter e
sustentar a sua criação; a capacidade de transformá-la; sua presença em
toda a obra; seu conhecimento de tudo o que nela ocorre; seu poder
absoluto; seu amor ilimitado por tudo o que cria...
Tais ideias influenciam fortemente a visão do mundo e da vida
dos indivíduos, bem como suas posturas diante desta mesma vida e deste
mesmo mundo. Consequentemente tendem a influir significativamente
no comportamento de cada um.
Tal questão, fundamental do saber humano, exerce influência
maior ou menor em quase todos os ramos da Filosofia: Ética, Política,
Metafísica, Filosofia da Mente, Religião, Ciência...
O debate entre materialistas e espiritualistas é antigo.
Anselmo propôs o argumento chamado de ontológico: Por
definição, Deus é um ser tão grande que maior não pode ser concebido.
Deus pode ser concebido como mera ideia ou como realmente existindo.
Mas existir é maior que não existir. Portanto Deus existe.
Tal argumento foi rebatido, por sinal por outros espiritualistas: O
argumento só prova a existência de um tudo que abarca tudo e não
necessariamente a existência de Deus. Materialistas rebatem o argumento
ontológico afirmando que a existência de algo tão grande que maior não
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Materialismo e espiritualismo
pode ser concebido é uma definição e não um fato, de modo que a
existência de um tudo pode ser falsa. Ou ainda, que a mera ideia de
existir um tudo não implica que o tudo exista. Um espiritualista
questionaria então, se o tudo não existe, existe então o nada e é então no
nada que todos nós existimos e vivemos o que obviamente não faz
sentido.
Kant observou quanto a esta polêmica, que quando dizemos que
algo existe, na verdade estamos afirmando que este algo corresponde ao
seu conceito, tal como uma esfera existe por corresponder à ideia de uma
esfera. Desta forma Deus existe ou não conforme o modo que o
concebemos. A consequência a meu ver desta brilhante colocação de
Kant é a de que pelo menos a maior parte da polêmica entre
espiritualistas e materialistas não se baseia em fatos, mas sim em
concepções, ou ainda no modo como tais fatos são interpretados. Mais
claramente, o possível fato Deus independe de expressões tais como
Deus existe ou Deus não existe.
O ponto de partida para o argumento dito cosmológico é a
questão do porque qualquer coisa ou tudo existe.
Uma versão deste argumento é o argumento Kalam que indaga
sobre causas: Tudo o que existe teve uma origem, isto é, é um efeito de
uma causa. Desta forma temos uma sucessão de causas que teria sua
origem no início do Universo, o que pela ciência moderna ocorreu há
cerca de 13 bilhões de anos. Mas pela racionalidade não é possível que
algo surja do nada. Desta forma surge a pergunta, donde o Universo
surgiu?
O materialismo rebate que não podemos afirmar que é impossível
que algo surja do nada, porque nada sabemos quanto ao surgimento de
Universos. Pragmaticamente neste sentido, Bertrand Russel afirma: "O
Universo simplesmente está aí, e isso é tudo".
Um observador do debate ponderará que do mesmo modo que
não podemos afirmar que é impossível que algo surja do nada, também
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Materialismo e espiritualismo
podemos afirmar que é mais provável e mais simples aceitar que algo
surja de uma outra coisa.
Georges Lemaître propôs o que ficou conhecido como a teoria
Big Bang da origem do Universo, embora tenha chamado como
Hipótese do Átomo Primordial. Por esta teoria, algo de dimensões
tendendo a zero e com massa e energia tendendo ao infinito entrou em
colapso e explodiu, dando origem ao Universo em expansão que temos
hoje.
A mesma questão é retomada: Por que tal átomo primordial
existiu?
Um materialista acrescentaria um novo aspecto à discussão: Se a
divindade deu origem ao Universo e se é impossível um efeito sem causa,
qual foi a causa de Deus; porque Deus existe?
O espiritualista contra-argumentaria que Deus é a Causa sem
Causa. E o materialista voltaria a carga afirmando que se aceitamos que
Deus seja a Causa sem Causa, porque não aceitar que o Universo, ele
mesmo seja esta causa sem causa, ou a causa primordial.
A ciência levanta hipóteses de que Big Bang tenha sido precedido
por outro Universo e este por sua vez por outros, numa sucessão infinita
de causas. Desta forma o Universo sempre existiu e não há
absolutamente um começo. O Universo existe e existirá eternamente. O
Universo é auto-gerante; se cria continuamente.
Por outro lado, pelo conhecimento científico atual, com o Big
Bang, o próprio espaço e o próprio tempo vieram também a existir.
Assim a capacidade intelectual humana se torna totalmente impotente
para analisar algo que está além do espaço e do tempo.
E claramente se chega a uma questão que me parece
irrespondível, que transcende a polêmica entre materialistas e
espiritualistas, na qual a observação de Kant, já transcrita, também me
parece bastante pertinente: o que explica este algo além do espaço, do
tempo, e de tudo o mais que conhecemos? Seria este algo essencialmente
cognoscível ou incognoscível pelo ser humano ?
Quanto ao argumento cosmológico, me parece interessante
destacar o pensamento do filósofo Richard Swinburne que o
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Materialismo e espiritualismo
compreende como uma inferência de que Deus é a melhor explicação
para a existência do Universo, assim como a melhor explicação para a
existência de uma pintura é que um artista a pintou.
Interessante também observar os limites das ciências naturais, que
explicam fatos por meio de leis fundamentais ou pressupõe sua
existência. Tais ciências simplesmente não tem condições ou intenção ou
mesmo a percepção da importância de explicar de onde vem tais leis e
por que tais leis são como são. Frente a isto um espiritualista
questionaria, o que lhes sustenta e lhes permite atuar.
O argumento teleológico conclui que só a existência de uma
mente; de um projetista, pode explicar satisfatoriamente a ordenação que
observamos a nossa volta e em nós mesmos. O materialista afirma que a
aparência de planejamento e ordem pode ocorrer por meio de leis
naturais (apesar de que não se interesse por explicar por que as referidas
leis são como são), de modo que as coisas do Universo, embora pareçam
projetadas, são o produto de uma série aleatória de coincidências.
O materialista defende a idéia que tudo surgiu por ação do acaso,
sem nenhuma interferência inteligente.
Em defesa do espiritualismo, surge o argumento que podemos
chamar de probabilístico, oriundo do conhecimento científico atual. Por
tal conhecimento, a probabilidade de que a partir do Big Bang; da
explosão do átomo primordial, se forme as estrelas é de 1 para 1060. Se
considerássemos a probalidade de a partir do Big Bang surgisse
aleatoriamente a vida, o número no expoente seria muito maior. Para
recordar a dimensão deste número, a chance de acertar a mega-sena com
uma aposta única em seis algarismos é de uma em 50 milhões de
tentativas ou 1 : 5 x 107. De modo que a probabilidade (apenas de
existirem estrelas) por um processo aleatório é mais remota do que
aquela de um único indivíduo acertar 8 vezes na mega-sena. Por outro
lado, não se observa a existência de outras premiações, isto é, a existência
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Materialismo e espiritualismo
dos outros Universos alternativos. De modo que aleatoriamente deverse-ia jogar apenas 8 vezes, acertando a mega-sena em todas as oito.
Frente a isto o materialista responde que num único lance, uma
60
das 10 possibilidades se concretiza e foi exatamente isto que aconteceu!
Qualquer experiência perceptual é verdadeira e baseada na
realidade até prova em contrário. Quando mais de um indivíduo tem
experiência perceptual similar o fato atesta a veracidade da descrição.
Neste sentido, em prol do espiritualismo, personagens de nossa espécie
afirmam ter passado por uma experiência mística. Como experiência
mística se entende aquela na qual o indivíduo que por ela passa ter tido o
conhecimento direto de Deus. No caso de experiências místicas, há
notáveis similaridades mesmo ocorrendo em indivíduos e circunstâncias
muito diferentes entre si, o que atestaria a sua veracidade.
William James, nos seus estudos, observou que tais experiências
não envolvem o pensamento e não estão ligadas a nenhuma forma
específica de órgão sensorial, como olhos ou ouvidos. São visões e
audições, independentes dos órgãos sensoriais convencionais. O
indivíduo fica cônscio da divindade e por vezes desaparece a distinção
entre os dois, o que é conhecido como união mística. No entanto, é
considerado que só uns poucos tem tal experiência mística e ainda em
raras ocasiões. Desta forma o materialista contra-argumenta ponderando
que por ser a experiência mística tão rara, não podemos ter certeza de
sua veracidade, pois se confia numa percepção, em parte, por ser
corrente, comum e informativa. O espiritualista retomaria a discussão,
também ponderando que, por exemplo, a ciência mais convencional
considera como verdadeira uma série inumerável de informações, que
apenas uns poucos comprovaram em seu laboratórios de muito difícil
acesso, por meio de equipamentos de muito trabalhosa e onerosa
construção, de modo que o fato de que poucas pessoas possam
testemunhar algo, não implica ou justifica duvidar do conhecimento das
que podem. Ou seja, em outras palavras, não podemos atestar se algo é
verdadeiro ou não, por sua frequência ou pelo número de testemunhas.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Materialismo e espiritualismo
Numa linha um pouco diferente de raciocínio, o materialista
salienta que a experiência mística não é comprovada por outros sentidos:
não se pode, por exemplo, ver Deus ou apalpar Deus. E ainda, se por
um lado a experiência mística de diferentes indivíduos em diferentes
circunstâncias tem muitos pontos gerais em comum, seus detalhes são
fortemente influenciados pelas crenças que carregam. Alguns podem ver
anjos, outros santos, outros ainda as mais diferentes formas e entidades,
de modo que em parte a experiência é condicionada pelas expectativas
do sujeito. Admitir que tais experiências sejam, pelo menos em parte,
uma criação nossa, suscita a possibilidade de que sejam inteiramente
criação nossa. O espiritualista salienta que um grande número de
indivíduos pode testemunhar exatamente um mesmo fato, mas
provavelmente irão discordar em alguma medida sobre o que viram. Tal
discordância não implica na falsidade do fato em si.
Freud defende a ideia de que as experiências místicas são
alucinações oníricas desencadeadas por ansiedades e desejos profundos e
não expressados. São alucinações que ocorrem em indivíduos enquanto
despertos, que nascem de um anseio por segurança e por um sentido à
vida. Pelo emprego de argumento estatístico e em contraponto, pode-se
observar que numa distribuição gaussiana de uma dada população,
teremos indivíduos fora da norma não só em uma, mas sim nas duas
extremidades. Por certo há a ocorrência, representada forçosamente
numa destas extremidades, de obscurecimento da capacidade racional ou
em outras palavras de alucinações. Mas matematicamente na outra
extremidade, teremos que encontrar indivíduos que apresentam também
de modo esporádico, um esclarecimento supranormal da razão. Desta
forma, os modos alternativos de perceber a realidade não se explicam
pela afirmação de que todos que apresentem tal característica sejam
alucinados. Ou de modo mais objetivo, se há aqueles que percebem a
realidade de forma mais distorcida do que a percepção da maioria, deve
haver também um número de indivíduos que a percebe ocasionalmente
de modo mais fiel. Suplementarmente é possível levantar a hipótese que
em alguns casos, sejam semelhantes os processos que levam a uma
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Materialismo e espiritualismo
percepção distorcida ou privilegiada da realidade, sendo a qualidade de
tais percepções uma função das características pessoais do sujeito que as
tem.
O materialista argumenta que o ser humano historicamente sentese vulnerável e frustrado por estar sujeito às forças e às leis naturais,
basicamente fora de seu controle. Deste modo, como criança insegura,
anseia por proteção e esta é dada pela crença religiosa. O espiritualista
provavelmente concordaria com tal gênese histórica, mas contraargumentaria que parcela significativa das crenças religiosas mundiais da
atualidade, tais como o taoísmo e algumas formas de budismo e
hinduísmo, absolutamente não tem inserida em seus corpos doutrinários
qualquer conceito de proteção ou de controle sobre leis naturais. Oitenta
e cinco por cento da população mundial tem alguma crença religiosa.
Apenas as três citadas representam 26% da população (pesquisa da
Encyclopaedia Britannica em 2005). A opção espiritualista é
extremamente corrente e comum.
Existem pelo menos outras duas posturas, que podem ser
consideradas não exatamente em defesa do materialismo, mas sim de
revolta ao espiritualismo.
A mais amena delas pode ser expressa: Se Deus existe porque Ele
não se mostra a mim? Salvo melhor entendimento é uma postura bem
egocêntrica. Por analogia e aceitando, para efeito de raciocínio, que Deus
exista, talvez seja o mesmo de julgar que um jardineiro teria vontade de
se exibir para uma flor de seu jardim ou que esta flor, enquanto uma
mera flor, tivesse condições de ser consciente dele.
Ou poeticamente uma situação paradoxal em que um bebê no
colo de sua mãe peça que esta se mostre a ele. Daí a mãe lhe acaricia a
cabeça e o bebê exclama: Que bom; mas mamãe, se mostre para mim.
Daí a mãe o faz arrotar e o bebê exclama: Que ruim; mas mamãe se
mostre para mim. Daí a mãe canta para ele, mas ele está agora tão
distraído com a chupeta que ela lhe deu, que nem escuta.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Materialismo e espiritualismo
Tal questão passa ainda pela teoria do conhecimento, plenamente
válida, de Platão: "O conhecimento é uma crença que se mostra
posteriormente verdadeira." Esta frase se aplica a qualquer tipo de
conhecimento. O primeiro e indispensável passo para a construção de
um conhecimento é o de aceitar uma hipótese como verdadeira. Só
posteriormente à sua aceitação é que a hipótese pode ser demonstrada
como verdadeira ou não. Nos dois casos o conhecimento se constrói,
pelo surgimento da tese ou pela refutação da mesma.
A mais severa revolta pode ser expressa: Se Deus existe, porque
existe a morte e tudo o mais que me faz sofrer? Por que alguns vivem
mais e outros menos; porque alguns sofrem mais e outros menos? Tais
posturas claramente não estão ligadas à existência ou não de Deus, mas
sim às concepções particulares associadas a este Deus (relembre a
observação de Kant já mencionada) e ainda mais à concepção vulgar do
próprio ser humano em particular e de tudo o mais de modo geral. Se o
sofrimento, a título de exemplo, não fosse encarado como o sumo mal,
mas um mecanismo de correção de rumo ou de impulsão a um melhor
estado por certo, a revolta ao espiritualismo amenizar-se-ia. Se o
conceito popular da finitude e da unicidade da existência humana fosse,
por exemplo, substituído pela concepção de que seríamos, de algum
modo tão eternos quanto a entidade criadora, possuindo, portanto,
infinitas possibilidades de sofrimentos e felicidades; que a vida não se
limita a um curto lapso de tempo, igualmente a sensação de injustiça
tenderia a desaparecer.
Até este ponto, você foi convidado à leitura e análise de várias
páginas de texto. O que justifica o esforço e o tempo despendido? Se a
motivação fosse convencê-lo a respeito de um ou outro ponto de vista a
tarefa não valeria a pena. Ela se justifica para o seu esclarecimento
quanto à multiplicidade de argumentos que tal controvérsia pode
sustentar e ainda muito mais para mostrar que a nível racional não é
possível se chegar a uma solução definitiva. Pelas características da mente
humana, uma discussão deste tipo é como o combate entre dois
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Materialismo e espiritualismo
espadachins imortais. Um desfere um golpe, defendido pela espada do
outro. Mas no momento que o golpe é desferido se abre uma brecha nas
defesas do primeiro. Assim, na sequência, o segundo desfere um golpe
visando atingir tal brecha, o primeiro se defende e a batalha não tem fim.
Além do esclarecimento, o objetivo é mostrar a veracidade de um
dos aforismos de Albert Einstein (por sinal um espiritualista): "Há
apenas dois modos de explicar o mundo: ou tudo é milagre ou nada o é."
Ou o Universo e as leis que o regem são causas sem causas ou há uma
divindade que cria, sustenta e rege a tudo. E mais uma vez salientamos
que por meios racionais, o que é demonstrado pela disputa intelectiva
que perdura por milhares de anos, não é possível se chegar a uma
solução unânime não questionável ou não sujeita a controvérsias.
Através da pesquisa realizada pela Enciclopédia Britânica de 2005,
sabemos que o montante daqueles que se declaram ateus perfaz cerca de
2 % da população mundial. É discutível se quantificar dentre estes,
quantos concordam e tem ciência que a defesa lógica de tal postura
exige, como vimos, considerar-se o Universo como causa sem causa;
causa primordial; eterno; autogerante; além do espaço e do tempo;
essencialmente incognoscível.
Retornemos à teoria do conhecimento de Platão. Suponhamos
que um indivíduo venha a saber que outro afirma ter tido uma
experiência sobrenatural. A ele sempre se abrirão opções: tal testemunho
é falso; o indivíduo que afirma o fato teve uma alucinação ou foi
enganado; o testemunho é verdadeiro. Suponhamos agora que o próprio
sujeito tenha uma experiência sobrenatural. Este continua tendo opções:
eu sofri uma alucinação; eu fui enganado; a experiência foi real. Se forem
várias as experiências, permanece a opção de crer nelas ou não. Isto
também ocorrerá se um grupo de indivíduos tiver tais experiências: O
grupo foi enganado; o grupo sofreu uma alucinação coletiva; o grupo
teve uma experiência autêntica.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Materialismo e espiritualismo
Diz-se que o conhecimento evolui não tanto pelas respostas, mas
sim pela adequação das perguntas. Como observamos acima cada um de
nós terá plenos motivos racionais para viver num mundo materialista ou
espiritualista. Faço votos a você amigo leitor, que responda por si mesmo
à pergunta: Por que é assim?
Por tudo o que expusemos, talvez possamos afirmar sem erro,
que a polêmica na verdade passa pela questão: No que cada um quer
confiar? O que cada um escolhe acreditar?
Quanto à influência que cada uma destas duas convicções
antagônicas tem sobre o ser humano, algumas posições polêmicas,
eventualmente verdadeiras, poderiam ser levantadas. (Qualquer coisa
pode ser polemizada.) Com respeito a apenas uma delas observamos, que
imerso na tristeza e no pessimismo de uma vida finita e débil,
essencialmente sem sentido, provavelmente o mais eminente materialista
brasileiro da atualidade, Oscar Niemeyer afirmou: "A vida é um sopro".
Um espiritualista, no otimismo de uma vida infinita, plena de
possibilidades, associada ao seu criador, o Criador do Universo,
exclamaria: "A vida é uma melodia sem fim".
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
SEGUNDA PARTE. UMA ANÁLISE DO HOMEM
SEGUNDA PARTE
UMA ANÁLISE DO HOMEM
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os sofistas
6
Os sofistas.
Para o contexto histórico é oportuno observarmos que antes dos
sofistas no ambiente grego, os pensadores se dedicavam talvez
prioritariamente a investigar questões cosmológicas e ontológicas. Ou
seja, sobre o cosmos, o mundo e o ser em si. O surgimento da
democracia senatorial grega generalizou as discussões quanto ao bem das
comunidades (política) e ao bem do cidadão (ética) em suas relações com
os demais. Antes do surgimento da sofística, os pensadores gregos
desenvolveram múltiplas concepções que se contradiziam entre si, tais
como o princípio de todas as coisas, do cosmos e da natureza. Apesar da
discordância quanto a tais concepções, os sofistas observaram serem elas
igualmente defensáveis pela razão. Dai deslocaram sua atenção para o ser
humano e para tudo que é tipicamente humano. Ou seja, para aquele ser
que cria e gera tais concepções, voltando-se, portanto, à cultura
humanista e dentro dela à ética, à política, à arte, à religião e à educação.
Outros fatores que fizeram eclodir esta escola filosófica foram: a
transição do regime aristocrático para o democrático senatorial, com a
valorização das discussões e do convencimento, bem como o afluxo de
estrangeiros, que para espanto dos gregos tinham diferentes leis, usos e
costumes, o que tornou evidente o relativismo daquilo que se pode
considerar uma conduta apropriada. O que era considerado eternamente
válido passou a se mostrar como relativamente adequado.
Salvo melhor juízo, os sofistas - palavra, que em grego, significa
sábios - podem ser considerados precursores de algumas das concepções
kantianas, apresentadas séculos depois. Por Kant, os órgãos dos sentidos
através dos quais percebemos o mundo externo a nós, são os órgãos de
sentido humano. O nosso cérebro, mente e outros sistemas que decifram
tais sinais são igualmente sistemas humanos. Os instrumentos que
desenvolvemos, são os instrumentos desenvolvidos pelo ser humano,
para constatar fatos passíveis de constatação pelo próprio homem. Ou
seja, absolutamente toda a informação que o homem tem notícia é uma
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os sofistas
informação moldada pelas características do próprio homem. Desta
forma o homem absolutamente não conhece a realidade em si. Todo o
conhecimento humano, na verdade, é um conhecimento indireto do
próprio homem.
Nesta linha e em um aspecto particular, mais recentemente Albert
Einstein afirma, 'Os conceitos e princípios fundamentais da ciência são
invenções livres do espírito humano.'
Protágoras de Abdera (491/481 a. C. - 421/422 a. C.), o maior
dos filósofos sofistas, contemporâneo de Sócrates, estabeleceu o seu
célebre dito: "O homem é a medida de todas as coisas..."
O homem avalia os fatos do modo como o homem mesmo os
percebe e não como a possível realidade maior, é em si mesma. No
entanto os sofistas avançaram ainda mais. Kant estabeleceu o
condicionamento do conhecimento humano pelo próprio homem,
enquanto coletividade. Os sofistas observaram tal condicionamento,
como existente inclusive a nível individual.
Estruturalmente podemos então conceber a realidade em três
níveis: A realidade tal como ela é, que o ser humano não teria condições
de abarcar. O modo como a humanidade ou coletividades consonantes,
enquanto grandes famílias, a percebe. E ainda neste conjunto, num
terceiro nível, a realidade para cada indivíduo; as variações das
percepções de cada um de nós.
Possivelmente nisto se insere a célebre afirmação socrática: 'só sei
que nada sei'; 'o mais sábio é aquele que sabe que nada sabe'. Em
complemento, caso um indivíduo tenha certeza de algo, não há como
colocar algo diferente em seu lugar. Ou seja, somente a aceitação de
alguma ignorância, dá a possibilidade de acréscimo em conhecimento.
A frase de Protágoras é na verdade mais extensa: "O homem é a
medida de todas as coisas, das que são pelo que são e das que não são
pelo que não são." Possivelmente podemos entender este dito, como
uma afirmação de que aquilo que o indivíduo aceita ou refuta - qualquer
fato - condiciona a realidade particular na qual ele vive. Pelo menos em
certo sentido a concepção individual seria a verdade. Tal verdade seria
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os sofistas
tão mais verdadeira quanto maior o número dos que a compartilhassem.
Este é o máximo princípio de relativismo que se observa no mundo
ocidental. Por ele, não há critério absoluto para o que é ou o que não é.
Para um homem, qualquer coisa é verdadeira ou falsa em função de seu
próprio julgamento. 'Tal como as coisas me parecem, tais são para mim.'
Para quem sente frio é frio, para quem não sente, não é.
Em capítulo anterior já comentamos que é corrente a afirmação
que o conhecimento evolui não tanto pelas respostas, mas sim através de
perguntas adequadas. Como observamos acima, caso consideremos a
ponderação de Protágoras como verdadeira, cada um de nós até certos
limites razoáveis, vive na realidade que ele mesmo condiciona. Mais uma
vez almejo que você amigo leitor, encontre uma resposta libertadora à
pergunta: Por que é assim? Talvez você chegue através dela a uma
conclusão de máximo absolutismo para o ser humano, dentro de um
máximo relativismo.
Para Protágoras não há uma moral absoluta e um bem absoluto,
mas sempre algo que é mais útil, mais conveniente e por isto mais
oportuno. Ao associar o bem à utilidade, foi um precursor da chamada
Ética Utilitarista, surgida muitos séculos depois. O sábio não seria o que
supõe conhecer valores absolutos, mas o que conhece o relativamente
mais útil e sabe fazê-lo prevalecer.
Ninguém consegue pensar sobre coisas que absolutamente
desconhece ou pondera sobre coisas estranhas à sua convicção no
momento.
Tal concepção filosófica coloca as convicções individuais num
patamar de máxima prioridade. Melhorando a opinião de um indivíduo,
o próprio mundo no qual tal indivíduo vive melhorará. Melhorando a
opinião de uma coletividade, pelas melhorias individuais, o mundo no
qual tal coletividade vive igualmente se tornará melhor.
Protágoras afirmava haver em torno de cada coisa dois raciocínios
que se contrapõem entre si. Desta forma possivelmente mostrava aos
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os sofistas
seus alunos tal fato e os ensinava a 'tornar mais forte o argumento mais
frágil'.
Nesta mesma linha, como veremos adiante, Sócrates consideravase um parteiro, que auxiliava o aborto de opiniões mal formadas de seus
alunos e dava à luz e desenvolvia aquelas saudáveis. E aqui também
podemos citar mais uma vez a pergunta que efetuamos no capítulo onde
discutimos o materialismo e o espiritualismo, agora com uma
aplicabilidade muito mais estendida: Em todos os casos, caso as
concepções filosóficas dos sofistas seja verdadeira e dentro de limites
razoáveis, em qual mundo cada um de nós quer viver. Num mundo
doentio ou saudável?
Pelo que se tem notícia, Protágoras mostrava como chegar a
argumentos racionais favoráveis ou desfavoráveis a qualquer coisa.
Lançava, portanto, as bases da retórica, a arte da persuasão, 'o verdadeiro
timão nas mãos do homem de Estado'.
A partir desta ideia, haverá uma realidade independente das
convicções do homem? Se todos os homens não julgassem existir o sol,
o sol existiria? Eu em particular tenho certeza que sim. O sol deve ser
algo bem mais amplo e em alguma medida diferente do que as nossas
percepções e entendimento indicam. Mas há muito mais, além da nossa
compreensão. Se há então uma realidade independente, as conclusões
dos sofistas demonstram que a mente humana é incapaz de entendê-la
com clareza. Desta forma os sofistas, fazendo prevalecer um ou outro
ponto de vista, ambos igualmente defensáveis pela razão, trabalharam
com a existência de limites para a capacidade racional humana. Os
sofistas ganharam renome como sendo professores das técnicas de
convencimento quanto a qualquer dos múltiplos pontos de vista
possíveis, através da retórica e da oratória.
O sofista se considera sábio para saber o que é útil num
determinado momento e em determinadas circunstâncias para uma dada
coletividade. Ao ensinar aos seus alunos as técnicas de convencimento,
parte do pressuposto que os mesmos igualmente são detentores de tal
saber e que utilizarão suas novas habilidades para o estabelecimento de
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os sofistas
um maior bem. Foram as imprecisões ligadas a tal pressuposto o que
ocasionou a degeneração histórica da sofística.
Pelo que se sabe de seus escritos destruídos ou perdidos,
Protágoras desenvolveu a 'antilógica'; a técnica de argumentação pró e
contra determinada posição, sabendo de antemão que ambas seriam
igualmente defensáveis, e sob certo ponto de vista, igualmente
verdadeiras. Segundo alguns, a sua obra 'Antilogia' discutia sobre o bem
e o mal. O bem para alguns como o mal para outros; o bem num
momento como o mal em outro; o bem podendo ser um mal e o mal
podendo ser um bem. E a mesma linha de raciocínio para o belo e o feio
e outros conceitos considerados opostos.
No seu pensamento, os homens apresentam diferenças entre si e
por isto as coisas parecem e são para um de um modo e para outro de
outro. A um enfermo um dado alimento parece ruim; a um sadio parece
bom. Não seria inteligente considerar que um é ignorante e outro sábio.
Antes caberia converter o enfermo em sadio. Do mesmo modo um tem
hábitos piores, outro melhores. O sofista pelo discurso atua sobre o
homem tal qual o médico com seus remédios sobre o doente. Vislumbrase neste pensamento a intenção de Protágoras e dos primeiros sofistas,
não só em modificar as atitudes das pessoas, mas também por meio
disto, alterá-las interiormente para melhor.
É o juízo individual que faz com que algo seja considerado por ele
bom ou mau. No entanto, por Protágoras caberia ao sofista promover o
mais útil, que é um critério objetivo. Tal mais útil objetivo é
aperfeiçoável e mutável. A utilidade tem caráter empírico e depende de
uma série de fatores: do sujeito ao qual o útil se refere; o fim pretendido;
as circunstâncias que fazem algo ser útil; etc.
No contexto histórico, o surgimento do senado nas cidades da
Grécia, tornou importantes as técnicas de convencimento, por meio das
habilidades de discurso e argumentação. Os sofistas se dedicavam a
ensinar a retórica e a oratória, como instrumentos eficazes de fazer
prevalecer uma decisão política. Os sofistas ensinavam a técnica de fazer
prevalecer qualquer ponto de vista sobre outro, através da fala.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os sofistas
Protágoras priorizou seu trabalho desenvolvendo a persuasão, pelo
conhecimento da defensabilidade racional de opiniões opostas.
Górgias de Leontina na Sicília (487/480 a.C. - ~380 a.C.), aluno
de Empédocles, faz uma afirmação talvez ainda mais dura: "Nada existe
que possa ser conhecido; se pudesse ser conhecido não poderia ser
comunicado; se pudesse ser comunicado não poderia ser
compreendido."
Como já mencionamos potentes filósofos, pelo uso da razão,
concluíram teses antagônicas, mas que se contradiziam entre si. Uns pelo
Ser Uno, outros pelo Ser Múltiplo. Uns pelos entes gerados, outros pelos
entes não gerados. A consequência é a conclusão que a razão humana
não é capaz de compreender com precisão alguma coisa e não é possível,
portanto, explicá-la ou fazer que outra razão realmente venha a entender
algo.
Talvez possamos interpretar este dizer como transmitindo a ideia
que a mente humana não é capaz de compreender a realidade tal como
ela é em si e como um todo e se a compreendesse não conseguiria fazê-la
ser conhecida por outras mentes. O que supomos como sendo
conhecido seria relativo e tal conhecimento seria restrito e dependente
do próprio homem.
Por sermos incapazes de alcançar a verdade absoluta (alethéia),
nos atamos ao campo das opiniões (doxa). Caberia a nós, desta forma,
analisar em cada situação, o adequado ou o inadequado. Com isto,
Górgias faz uma das primeiras propostas de uma Ética de situação,
dependente do sujeito, do objeto e da conjuntura.
O público foco de seus ensinos, os alunos de Górgias, já seriam, a
princípio, portadores do conhecimento, dos valores morais de sua
cultura, em conformidade com as convicções comuns, bem como teriam
entendimento para alterá-los para comportamentos mais adequados.
Ensinava, portanto, tal como os demais sofistas da primeira fase
desta escola, a retórica para que seus alunos promovessem o mais
adequado para a coletividade considerando o mais adequado aquilo que a
razão esclarecida defendia frente a uma determinada situação. O risco da
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os sofistas
decadência do sofismo na sua prática da arte da oratória foi o seu uso,
não para a busca do bem coletivo, mas de interesses menores tais como
o bem do próprio orador.
Górgias priorizou em seu trabalho as técnicas de persuasão em si.
Platão relata a afirmação de Sócrates, de ter sido ele aluno de
Pródigo de Céos (470/460 a.C. - 395 a.C.), outro importante filósofo
sofista. Há controvérsia se a afirmação foi a sério ou a título de
brincadeira, tendo em vista a discordância de Sócrates em relação a
algumas ideias sofistas. No entanto o anteriormente relatado permite
vislumbrar um importante ponto comum entre as duas linhas filosóficas.
Pródigo desenvolveu a arte de discursar e convencer através da
sinonímica, que se caracteriza pela análise das várias palavras sinônimas
àquela que se refere a uma dada ideia, bem como às nuanças encontradas
em tais significados. Trabalhou principalmente com a técnica de
persuasão baseada na linguagem como veiculadora e transmissora de
ideias presentes em cada ser humano.
A Ética de Pródigo pode ser encontrada na versão que ele
elaborou do mito de Héracles (Hércules para os romanos) na
encruzilhada. Na encruzilhada o semideus encontra duas damas: Kákia (o
vício e a depravação) e Areté (a virtude). Kákia lhe diz: Goze dos
prazeres de modo fácil e intenso; goze de tudo o que deseja; se aproveite
ao máximo e sem escrúpulos do esforço e do trabalho dos outros; extraia
sempre vantagens pessoais de tudo.
Já Areté diz que aconselha a Héracles, pois sabe da boa educação
que este já recebeu. Se ele seguir o caminho que conduz a ela, será um
realizador de ações generosas e elevadas. Nada do que é bom,
verdadeiro, e belo é alcançado sem esforço. Caso deseje o afeto dos
outros, deve lhes fazer bem. Caso deseje ser admirado deve fazer o bem.
Caso queira que a terra seja fértil, deve cultivá-la. Caso queira enriquecer
com o gado, deve cuidar do gado ...
É, portanto, uma ética voltada para o que é útil. Ações adequadas
específicas gerando em consequência vantagens objetivas.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os sofistas
Os dois caminhos propostos pretendem o mesmo objetivo geral,
porém são diametralmente opostos.
Diz Kákia: Esta mulher lhe propõe um caminho difícil e longo.
Eu lhe proponho um caminho fácil e curto para alcançar a felicidade.
Comenta Areté: Desventurada! Come e bebe antes de ter fome ou
sede. Dorme não por estar cansada, mas por não ter nada o que fazer.
Faz sexo antes de sentir desejo. Não contempla o melhor dos
espetáculos, pois nunca fez uma bela obra. Ninguém confia e ninguém
socorre você.
Por outro lado, Areté falando de si, afirma com satisfação que é
companhia dos homens honestos e que é a auxiliar de todas as belas
obras. Que é honrada por todos os que merecem estima. Vindo o desejo
e só então, seus fiéis os satisfazem com moderação. Dormem um sono
mais doce. Os jovens são louvados pelos anciãos. Os anciãos são
louvados pelos jovens, se recordam com prazer de seus feitos passados e
tem prazer de cumprir com nobreza aos atuais. Quando chegam ao
termo fatal são recordados e exaltados. E conclui afirmando: Se tu
Héracles, que já recebeu boa educação, seguir os fundamentos que lhe
apresento, ser-te-á possível possuir a felicidade mais duradoura.
Hípias de Élida (século V a.C.), também contemporâneo de
Sócrates, apresenta uma proposta igualitária baseada nas leis naturais
frente as quais os homens pertencem a uma só espécie e onde as
distinções de cidade natal, as diferenças no interior desta, a nacionalidade
e outras são meramente artificiais. É uma proposta muito inovadora para
a cultura grega de então. As leis humanas, o chamado direito positivo,
são consideradas fruto de pura convenção e arbítrio, indignas da
respeitabilidade que lhes são conferidas, essencialmente tiranas e
potencialmente divisoras da humanidade. Com respeito ao desprezo de
Hípias por algumas leis, possivelmente tal filósofo poderia ser taxado de
radical.
Para Antifonte (século V a.C.) a verdade são as leis naturais
enquanto as leis humanas são mera opinião. Uma classe social é igual à
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os sofistas
outra. O aristocrata é igual ao servo. Um cidadão é igual a outro. Um
grego é igual a um bárbaro. '...Todos respiramos o ar com a boca e as
narinas; rimos com alegria na alma ou choramos sofrendo, e com o
ouvido recebemos os sons e graças à luz vemos com a visão, e com as
mãos operamos e com os pés caminhamos...'
A sofística apresenta três fases. A primeira encabeçada pelos seus
grandes pensadores, tais como Protágoras e Górgias. A segunda
degenerou para a transformação da dialética sofística numa arte de
exibicionismo e autopromoção, isenta da meta do emprego do
convencimento para alcançar melhorias coletivas. É a erística, a
destruição de qualquer concepção racional sem o objetivo de estabelecer
um bem maior e deu origem ao termo 'sofisma' empregado na
atualidade. A terceira ainda mais deteriorada, onde as técnicas e
conceitos, desenvolvidos pelos sofistas, foram empregados visando
objetivos escusos particulares. Para destruir na mente dos cidadãos,
concepções universais de comportamentos adequados, princípios básicos
da justiça e as leis e assim justificar sua violação.
As concepções centrais dos sofistas perturbam os pensadores até
os dias de hoje. Basicamente aqueles que supõem o conhecimento como
absoluto e inquestionável. Tais filósofos frequentemente criticavam
quem afirmava ter algum conhecimento específico.
A cultura grega valorizava muito o conceito da areté. Tal termo
adquiriu o significado de virtude. No entanto originalmente tem a
conotação de uma habilidade a ser adquirida e desenvolvida. Os sofistas
ao ensinar aos seus alunos as técnicas de convencimento e mudança de
opinião, se dedicaram a desenvolver a areté com este último significado.
O termo sofismar, empregado de forma pejorativa, se refere à sofística.
No entanto hoje profissionais do direito e políticos, pelo uso da retórica
e da oratória, nada mais fazem do que empregar as técnicas das quais os
sofistas foram os precursores.
Sócrates pode ser considerado como sendo em parte um fruto
deste movimento e em parte um opositor
.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
7
Sócrates.
Sócrates (470/469 a. C.- 399 a.C.) nasceu em Atenas. Teve como
pai um escultor (Sofronisco) e como mãe uma lavadeira e parteira
(Fenarete). Foi casado com Xantipa que entrou na história como sendo
feia, neurótica, irascível, insatisfeita e em permanente desarmonia
consigo mesma, com tudo e com todos. Sócrates com ela teve filhos e
junto a ela permaneceu até o final da vida. Xantipa quando de sua morte
era a mais desesperada e inconsolável...
Era um grego de aparência grosseira que não tinha cuidados com
as roupas. Costumava ficar parado por horas, pensando em silêncio. Seu
interesse é voltado, sobretudo, a questões éticas: como deveríamos viver
e o que é uma vida boa para o homem.
Dentre seus professores está Arquelau, por sua vez aluno de
Anaxágoras.
Sócrates pode ser considerado em parte um filósofo sofista. Mais
popularmente é visto com um crítico deste movimento. Nada escreveu.
Dedicou-se exclusivamente ao ensino oral. Seu pensamento é conhecido
por meio de Platão, Xenofonte e Aristófanes. Este último o satirizou
como sofista, amoral, interesseiro e andrajoso. Um naturalista, na linha
de Diógenes de Apolônia. Aristófanes observa suas ideias por volta da
idade de 40 anos de Sócrates.
Platão o contempla na idade de cerca de 60 anos, como precursor
das sementes que ele posteriormente desenvolveu. O vê como um
mestre ético, moderado, sábio e justo. Considera-se impossível separar
claramente o que é de autoria de Sócrates do que é de autoria do próprio
Platão. Xenofonte o retrata ao final da vida enquanto Aristóteles apesar
de lhe fazer alusão, não lhe é contemporâneo.
Para Sócrates o bom político é o que cuida da alma dos outros
(conforme Górgias de Platão). Tinha forte aversão pela política militante.
Não gostava do modo como a coisa pública era administrada e não
73
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
ingressou na vida política no sentido comum do termo. Entretanto
tendia à formação de homens que bem pudessem gerir a coletividade. O
ensinamento socrático tinha uma natureza política, no sentido de influir
na sociedade. Pode ser considerado um revolucionário pela via da não
violência, empregando a arte da persuasão e este é um dos pontos de
similitude com a sofística.
Era intensamente religioso, porém rejeitava a visão
antropomórfica das divindades com paixões físicas e costumes humanos.
Considerava Deus Uno, múltiplo em suas manifestações e chave
geral, cosmológica e ética.
O Deus sapiente disporia das coisas como Lhe agrada e seria
capaz de ocupar-se ao mesmo tempo de tudo. Os deuses invisíveis se
revelariam por suas obras visíveis. Tais obras recomendariam veneração
e respeito. O mesmo Deus que ordenaria e manteria todo o Universo,
sede de toda a Beleza e todo o Bem, sempre ofereceria a nós as coisas
intactas, sãs, imunes ao perecimento, prontas a servir com agilidade e
sem falha. Deus manifestar-se-ia na produção de obras grandiosas, mas
não se deixaria observar governando-as. A alma humana teria ligação,
mais do que tudo o que é humano, com o divino. Segundo ele,
refletindo-se sobre tudo, não se pode desprezar o invisível, mas
reconhecer seu poder através de seus efeitos e honrar a divindade.
(conforme Memoráveis de Xenofonte).
A Providência Divina aspiraria sempre o bem do homem. O Bem
é a Suprema Realidade Universal. Deus é Amor e se manifesta por esta
via.
Sócrates considerava-se um missionário. Considerava um desígnio
divino sua missão de exortar os atenienses a cuidar da alma e da virtude.
Declarava ter tido experiências místicas na forma de elevações
extáticas, uma delas ao longo de todo um dia e uma noite.
Para os gregos de modo geral e Sócrates em particular, a
intermediação entre Deus e o homem é efetuada por meio de entes
denominados daimones. As lideranças cristãs posteriores, avessas a
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
manifestações religiosas diferentes, fizeram surgir o termo demônio, com
a sua conotação negativa atual. Sócrates afirmava que um daimónion o
aconselhava quanto ao que devia ou não fazer. Considerava tal voz de
origem divinal e poder contar com ela, um privilégio totalmente
excepcional. Tal voz, certa ocasião, lhe sugeriu não acolher um candidato
a aluno. Em outra, não exercer política militante e assim sucessivamente,
manifestando-se em diversas ocasiões. Seguir tal orientação, segundo ele,
se mostrava posteriormente algo muito adequado.
Seus sonhos esporadicamente também lhe orientavam na vida
cotidiana.
A célebre frase: 'A única coisa que sei é que nada sei', é um
importante vínculo seu com o sofismo, pois é este movimento o que na
época reconhecia ser impossível ao homem ter qualquer conhecimento
quanto à realidade em si. O mais sábio seria aquele que sabe que nada
sabe.
Também pode ser considerada uma postura estratégica. Como
seu objetivo era o de melhorar o entendimento ético de seus
contemporâneos, ao não defender qualquer conceito, evitava que o
orgulho forçasse seu interlocutor a defender como questão de honra
uma determinada concepção mais imperfeita de que fosse portador.
Entretanto, os relatos demonstram e é também óbvio que Sócrates
detinha conhecimento e o considerava adequado para conduzir o
aprimoramento de seus alunos.
Podemos dizer que os sofistas clássicos da primeira geração,
consideravam qualquer opinião benéfica como aceitável e ensinavam
técnicas de convencimento para fazê-la prevalecer, visando o bem das
coletividades. Sócrates visava a melhoria das concepções individuais, em
primeira instância, para o bem do próprio interlocutor.
Daí a diferença entre os sofistas clássicos e Sócrates: os sofistas
por sua noção de relatividade ensinavam como convencer outros de
qualquer opinião que o orador julgasse oportuno defender. Facilitavam o
estabelecimento de opiniões consensuais. Com base na ação de
indivíduos, convencendo a outros quanto às suas boas opiniões,
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
pretendiam a melhoria do coletivo. Sócrates procurava fazer com que
cada um aperfeiçoasse a sua própria opinião. Promovia o
aperfeiçoamento das opiniões individuais. E esta opinião seria cada vez
mais aperfeiçoada, a cada vez que fosse analisada.
Seu modo de proceder parece deixar claro, dois conceitos básicos.
A realidade não pode ser compreendida pelo homem. Tal conceito pode
ser observado em seus discursos, pois são sempre inconclusivos. Sobre a
realidade tal como ela é, total e profunda, por Kant e por outros
pensadores, nada sabemos. Entretanto podemos gradualmente nos
aproximar desta realidade e esta realidade - desculpem a redundância - é
real. Daí seu método e todo o seu trabalho neste sentido.
Para Sócrates o meio de aprimorar o comportamento é o da
obtenção de conhecimento. Tal aprimoramento só seria possível se o
sujeito estivesse consciente e insatisfeito com a sua ignorância. Quanto
mais ciente da ignorância, maior seria a abertura para procurar
aproximar-se mais da verdade. Aqueles que conseguissem reconhecer a
própria ignorância seriam por isto mesmo, os que estariam mais
próximos da sabedoria.
O reconhecimento da ignorância seria o princípio da sabedoria.
Só aquele que reconhece que seu saber é inexistente ou incompleto se
abre para o saber. Somente quando nos damos conta que não sabemos o
que supúnhamos saber é que iniciamos a busca por descobri-lo. O
processo de aprendizagem e aperfeiçoamento do conhecimento passa
pela humildade e a aceitação de novas possibilidades. O reconhecer da
própria ignorância. Por outro lado o conhecimento é do nosso maior
interesse e deve ser objetivo essencial.
O centro da concepção socrática está no eixo conhecimento e
ignorância. O motivo é simples: seu objetivo e sua missão é o bem do
homem; é a melhoria de seu comportamento na direção do mais
adequado e o comportamento mais adequado é o comportamento que
envolve o maior bem. Para ele todas as boas ações são fruto do
conhecimento. Todas as más ações são ocasionadas pela ignorância. O
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
mais valioso ao ser humano seria portar conhecimento. É esta posse
autêntica que faria a alma ser do modo como deve ser e deste modo
realizaria o homem que seria essencialmente alma. Sua alma é sua
consciência, sua inteligência. O que atualiza esta consciência é o
conhecimento, o apreender.
Minha experiência no curso de Ética que ministro há anos na
Universidade Federal do Paraná, Brasil, para estudantes de Engenharia,
tem tornado evidente a resistência à concepção de que toda conduta
questionável eticamente se deve unicamente à ignorância. Cabe assim
investigar o significado mais profundo dos termos que costumeiramente
empregamos e que estão diretamente relacionados a esta conclusão:
Ignorância provém do latim 'ignorantia'. Ignorar significa
desconhecer; ser incapaz de; não usar de; não praticar. Ou seja, o termo
carrega em si a noção de uma incapacidade para fazer uso de algo bem
como a incapacidade de executar e praticar uma determinada coisa.
Desta forma, afirmar a ignorância de algo bom é por definição
reconhecer que não a praticamos.
Ciência, de modo mais usual, se refere ao conjunto de
conhecimentos socialmente adquiridos ou produzidos, que visam
compreender e orientar o homem. Neste sentido, quem é portador de
ciência se conhece e é capaz de se orientar na existência. A recíproca
seria verdadeira. Quem não é portador de ciência não se conhece e não
está apto a conduzir-se por comportamentos que lhe sejam adequados.
A palavra conhecimento é formada pela junção de conhecer +
mento. Se refere à apropriação de um objeto pelo pensamento como
definição, como percepção clara. Uma apreensão completa. Algo
completamente analisado e sintetizado. Conhecimento não é, portanto, a
mera 'notícia' de que algo é mau. Envolve a interiorização; a plena
convicção fundamentada na razão, de que algo é bom ou mau.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
O radical mente, provem do latim 'mente'; 'mens'; 'mentis'.
Refere-se à alma ou espírito e também ao modo de ser. Conhecimento é,
desta forma, o ser em conformidade com a informação que este mesmo
ser detém.
O termo conhecer tem origem no latim 'cognoscere'. Significa ter
previsto, experimentado e avaliado. O vínculo de conhecer com a
capacidade de previsão é igualmente importante. Ajuda analisar tal
importância, a observação do significado de outro termo usual em nossa
cultura que é pecado. Pecar em latim significa simplesmente tropeçar. E
quais seriam as causas de nossos tropeços em nosso caminho? Não
enxergarmos os obstáculos, que é essencialmente ignorância, e não
prevermos que iremos cair e nos machucar, que também o é. Daí a outra
ideia associada ao conhecer que é experimentar. Só nos tornamos aptos a
resolver um determinado problema quando nos propomos a solucionálo, nos expondo à possibilidade de encontrarmos soluções inadequadas
antes de chegarmos àquelas mais apropriadas.
Apreender origina-se do latim 'apprehendere'. Significa apropriarse, pegar, agarrar, assimilar, incorporar mentalmente, entender,
compreender. Aprendizado é, deste modo, tomar posse de uma
informação. Estar plenamente convencido dela e dela fazer uso.
A palavra sapiente refere-se aquele que é conhecedor; sábio. A
sabedoria é a qualidade do sábio. O sábio é o que tem o conhecimento; a
ciência. ' Sábio é aquele que, conhecendo as coisas boas e belas, sabe usálas'.
A palavra ciência provém do latim 'scientia'. Numa busca de suas
origens o termo significa 'o caminho em si'. Faz alusão à própria jornada
do ser humano e encontra paralelo, a título de complementação, com a
visão do cristianismo gnóstico, perseguido após a estatização da religião
cristã, pelo Imperador Constantino, por volta de 300 d.C. Segundo tal
concepção, o homem, após casar-se simbolicamente com o Amor
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
(Christos em latim), culmina por casar-se também simbolicamente com a
Sabedoria (Sophia). Numa interpretação livre poderíamos dizer que o ser
humano, após fixar sua vontade em realizar o bem, termina por
efetivamente concretizá-lo.
Quem faz o mal o faz só por ignorância e não porque queira o
mal sabendo que é mal. Quando um indivíduo pensa, por exemplo: eu
sei que tomar tal atitude é errado, mas irei tomá-la assim mesmo, na
verdade estaria considerando que tal ação é benéfica a ele. Por Sócrates,
é justamente a ignorância que faz supor ao indivíduo, que uma dada
atitude errada lhe será benéfica. 'Creio que todos os homens escolhem
com todos os meios possíveis o que é mais vantajoso aos seus interesses
e isso realizam. E penso que os que seguem um caminho errado não são
nem portadores de conhecimento (sapientes) nem sábios.'
Todas as virtudes seriam a posse verdadeira de conhecimento.
Não um conhecimento exterior, mas um conhecimento já interiorizado;
que já faz parte do próprio ser. Para promover tal interiorização
Aristóteles nos mostra que as virtudes tem origem em raciocínios. Cada
indivíduo necessita explicar e justificar a si mesmo e a seu modo cada
uma delas para delas se apossar.
Para Sócrates o bem, ou a virtude, não é a adequação aos
costumes, aos hábitos e convicções de uma coletividade. É algo
motivado, justificado e fundado no conhecer individual. Conhecer o que
é o homem e o que é bom e útil a ele.
Qualquer indivíduo sempre almejaria o que considera ser um bem
e nunca um mal. O homem frequentemente diz fazer e faz um mal,
malgrado seja um mal. O homem faz o mal porque espera erroneamente
tirar dele um bem. Na medida que o homem estivesse convencido, tanto
como está convencido de que existe, que um bem lhe é útil e bom; que
ao contrário, um mal é prejudicial e mau; neste caso jamais cometeria um
erro. Fazer o mal repousa sempre sobre uma falsa avaliação do que são
bens. Como todo o ser pretende o bem de si mesmo, não se pode
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
conhecer o bem e deixar de fazê-lo. Não se pode fazer o bem sem
propriamente, no sentido preciso do termo, conhecê-lo.
O que gera; o que move, portanto, a vontade humana? O que
converte a má vontade em boa vontade? Segundo Sócrates a resposta a
esta questão é conhecimento.
Para Sócrates, o bem é útil e vantajoso a quem o pratica
(conforme Xenofonte e Platão). A ética de Sócrates visa o bem e a
utilidade para o indivíduo.
A areté, ou virtude, é uma capacidade ou habilidade que
posteriormente Aristóteles demonstra ser obtida pela repetição; pelo
hábito. A maior capacidade humana não pode ser senão a que permite a
sua alma ser boa, isto é, ser aquilo que, pela sua natureza, ela deve ser.
Cultivar a virtude significa tornar a alma ótima. Realizar o ser, alcançar o
fim próprio do homem interior e com isto também a felicidade.
Para Sócrates só há uma virtude: conhecimento. Todas as
subclassificações incluídas neste mesmo termo, isto é, como virtudes,
seriam modalidades de conhecimento ou, em outras palavras,
comportamentos oriundos do conhecer. De acordo com Sócrates, é
impossível conhecer em profundidade uma virtude sem com isto,
conhecer as demais. O máximo bem que abarca todos os bens parciais é
a ciência. Da mesma forma os vícios seriam manifestações de ignorância.
O pior dos males e que os abarca a todos é a ignorância.
O que leva o homem a agir bem é ponderar os resultados que
advirão das suas ações. A este saber - conhecimento - Sócrates o
denomina por 'arte do comedimento' (Prudência). Ponderar os
resultados que advirão das ações, é o conhecimento do bem. Sem
conhecimento não é possível a realização da “vida boa”. Viver bem
obviamente é bom. Desta forma progredir em conhecimento; progredir
em comportamentos virtuosos é bom e útil ao homem. Progredir em
conhecimento e virtude é o resultado esperado de qualquer
aprendizagem.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
Segundo Sócrates a Virtude (areté) não pode ser ensinada de
modo formal. A virtude tem que ser descoberta e encontrada na mente
de cada um. Para ilustrar tal conceito socrático, imaginemos que o
próprio Einstein deduzisse para nós em classe, no quadro negro, sua
teoria da relatividade. Se você quiser dar uma olhada, consulte o artigo
que ele publicou. Eu não entendo quase nada da dedução.
Provavelmente você também não. O que captaríamos seria talvez apenas
uma 'notícia' de uma ou outra de suas conclusões, que só seriam
consideradas por nós porque Einstein é Einstein. Isto é, devido a sua
credibilidade.
Desta forma nossa mente pode ser encarada simbolicamente
como um copo, que só pode ser preenchido com líquido até atingir sua
capacidade máxima correspondente àquela que tem em um determinado
momento da existência. E qual seria a técnica mais eficiente de preencher
tal copo? Incentivando e orientando o indivíduo a que ele mesmo
construa o entendimento de um determinado tema até onde ele seja
capaz de chegar. Embora não seja possível transmitir de modo eficaz a
verdade, através do uso de uma técnica expositiva tradicional, é possível
e desejável dizer aos homens que é benéfico a eles procurar encontrá-la.
A vida é uma série infindável de experiências. Tais experiências
geram conhecimento caso sejam analisadas e estudas. Para Sócrates, a
existência necessita ser examinada e questionada. 'Para o homem o bem
maior é refletir todo o dia sobre a virtude e sobre os argumentos sobre
os quais me haveis ouvido disputar sobre mim mesmo e sobre os outros
e que uma vida sem tais pesquisas não é digna de ser vivida.' (conforme
Apologia de Platão).
Neste sentido, o auto-exame diário proposto por Pitágoras é
potencialmente útil. 'Que não se passe um dia, amigo, sem buscares
saber: que fiz eu hoje e hoje que olvidei? Se foi o bem, persevera, se foi o
mal, abstém-te. Meus conselhos preza, medita e pratica e te conduzirão
às virtudes divinas...' (conforme Versos de Ouro de Pitágoras).
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
Ao analisarmos nossas experiências, a rigor estaremos analisando,
como nós mesmos consideramos, percebemos e processamos um
determinado estímulo oriundo de nosso mundo exterior. Ou seja, a
relação entre o nosso ser interior e um acontecimento qualquer. Desta
forma passamos a compreender gradualmente melhor a nós mesmos: o
que nos fez sofrer e o que nos deixou feliz e por que. Observamos que
felicidade e sofrimento são coisas internas a nós mesmos. Como nós
mesmos encaramos um determinado acontecimento. E assim
paulatinamente chegamos ao “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás a
Deus e o Universo”, gravado no Templo de Delfos. A exortação à forma
de conhecimento essencial e o caminho eficaz que conduz à virtude.
Toda doutrina socrática se resume em conhecer a si mesmo e
cuidar de si mesmo. Ensinar os homens a conhecer e a cuidar de si
mesmo é a tarefa suprema da qual Sócrates considera ter sido investido
como um missionário de Deus. 'Teríamos conhecido qual é a arte que
torna melhor os calçados, se não conhecêssemos o calçado?...A arte que
torna melhor os anéis, caso ignorássemos o anel?... Então... jamais
poderemos saber qual é a arte de tornar melhores a nós mesmos, se
ignorarmos o que nós mesmos somos...'
Para Sócrates o que mais importa é o próprio homem e os
problemas do homem. 'Ele por sua vez, discorria sempre sobre os
valores humanos... e as outras coisas cujo conhecimento, segundo ele,
tornava os homens excelentes e cuja ignorância, ao contrário, fazia
merecer, justamente, o nome de escravos' (conforme Ditos... de
Xenofonte).
Para Sócrates o homem é sua alma, identificada com a mente e o
mundo emocional do indivíduo, bem como com suas opções
comportamentais (ética). A boa vida estaria relacionada à pureza da alma.
A integridade ética seria a própria recompensa de quem a tem. Para ele
sempre é preferível sofrer o mal, do que praticá-lo. Fazer o mal
prejudicaria muito mais o perpetrador do que aqueles a quem o mal é
feito.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
O bem não é o abandono ao prazer e não é isto o que leva à
felicidade profunda e verdadeira. O bem é a mensuração do prazer
adequado, devidamente discriminado e dosado. Tal arte de escolher
prazeres faz parte do que se entende por apreender e conhecimento.
Quanto ao domínio de si, Sócrates sugere que sentimos prazer em beber,
comer, fazer sexo, após termos suportado sede, fome e os desejos
sexuais. Isto é, é o controle dos instintos que permite ter-se prazer
memorável em satisfazê-los. Quem se ocupa com a satisfação de
prazeres fugazes e momentâneos, se afasta da possibilidade de satisfazer
prazeres maiores e duradouros. Os prazeres do corpo e exteriores não
são nem um bem em si nem um mal em si. A felicidade não depende
deles. São bens desde que submetidos ao autodomínio e ao
conhecimento.
Autodomínio é 'o bem mais excelente para os homens' (conforme
Ditos... de Xenofonte). Autodomínio (eukratéia) é termo e conceito
criado por Sócrates. É considerado por ele o poder de dispor de si
mesmo, no prazer ou na dor, no cansaço ou na disposição, no impulso
ou sob pressão.
A liberdade para Sócrates é o mais precioso dos bens. O
autodomínio lhe seria equivalente. Os privados do domínio sobre si, em
particular em relação aos seus comportamentos, seriam aqueles
submetidos a pior das servidões.
Desenvolveu o conceito de autarquia. Significa autonomia,
independência. A capacidade de saber ou poder fazer por si tudo que for
necessário. Aquele que supõe depender de coisas e pessoas para se
plenificar e alcançar a felicidade, está iludido. Não é livre; não alcança
nem a paz nem a felicidade. A alma é a condicionadora exclusiva da
felicidade. Cabe à alma governar as necessidades e impulsos físicos.
Cabe a cada um governar e vencer os monstros que residem em
seu interior. Tal como Héracles, só aquele que após uma longuíssima
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
jornada venceu seus monstros interiores é verdadeiramente suficiente a si
mesmo e senhor de si mesmo. Aproxima-se da divindade, no sentido de
nada necessitar.
O próprio Sócrates buscava alcançar a felicidade, o
autodesenvolvimento e a realização pessoal. (eudamonia). Seu filosofar
pretendia ensinar os homens a serem verdadeiramente felizes. É
nitidamente eudamonista, como por sinal, os filósofos gregos em geral.
A felicidade não é dada pelos bens do corpo e exteriores, mas sim pelos
bens da alma. Pelo seu aperfeiçoamento pelo conhecimento. A felicidade
depende exclusivamente do interior do homem, consignada ao seu pleno
domínio. A bondade gera felicidade. A maldade gera infelicidade
(conforme Górgias de Platão). A infelicidade real não vem de fora nem
de outros. Somente nós mesmos podemos nos fazer grandes males.
(conforme Apologia de Platão). Mesmo matar é um grande mal a quem
mata e pode não sê-lo a quem morre.
A condição primeira para conquistar amigos bons é a de nos
tornarmos bons nós mesmos. Só quem é bom pode ser amigo de quem é
bom. Não pode surgir amizade entre o bom e o mau. Sócrates se
vangloriava de ser particularmente dotado da arte do amor. Seu amor se
expressava através da arte de cuidar das almas daqueles que se expunham
a sua influência. Não considerava seus alunos como seguidores, mas sim,
amigos.
O método socrático é o do diálogo dirigido. Os que estão abertos
a um conhecimento melhorado, através da conversação, podem
encontrar significados mais profundos para a virtude, temperança,
coragem, justiça, piedade, etc. Com a sucessão de perguntas adequadas e
dirigidas, a reflexão pessoal para encontrar as respostas, e o uso de
exemplos concretos, as controvérsias se suavizam e se chega a ideias
mais verdadeiras. Os interlocutores reexaminam as suas próprias
convicções; questionam os seus dogmas (pretensas verdades não
comprovadas) e são levados a abandonar as suas crenças e opiniões
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
inconsistentes. Os que se permitem transformar, espontaneamente
substituem as ideias e opiniões inadequadas por novas ideias; opiniões e
conceitos mais claros e mais próximos da verdade. A verdade absoluta
final; a realidade, no entanto, não pode ser atingida. A realidade tal como
ela é não está acessível às percepções e mente humanas, devido aos seus
próprios limites e imperfeições.
A maior parte daqueles que se julgam sábios, nem sequer se
apercebem da sua ignorância. Pelo contrário, Sócrates dizia saber que
não sabia nada e, por isso, estava em melhores condições para procurar o
conhecimento. O método socrático leva a profundas reflexões pessoais e
a uma crescente descoberta de verdades interiores. É também um
método de autoconhecimento.
Sócrates empregava o método da análise conceitual. Começava o
diálogo com seus alunos pela célebre forma de pergunta: o que é? (o
amor, a coragem, a amizade,...).
A mente humana pode ser encarada como análoga a um pequeno
macaco, em contínuo movimento, saltando de galho em galho. Uma
dúvida é um estímulo que coloca este macaco numa posição de avaliação
entre duas ou mais novas posições nesta floresta imaginária. Trabalhar
com contrastes é outra das características da mente. O método
conceitual de Sócrates faz isto. Gera uma dúvida que por sua vez tende a
gerar várias hipóteses explicativas, boa parte delas inadequadas. Quando
o macaco em questão salta para um novo galho, em termos
termodinâmicos e também estóicos, é como se a mente migrasse de um
estado de equilíbrio a outro. O trabalho de Sócrates pode ser encarado
como garantir que o novo galho; a nova concepção na mente de seu
aluno estivesse repousada num galho saudável e seguro. Para isto usava
seu discernimento; sua capacidade de distinguir uma solução boa de uma
solução má. E neste caso o referencial básico era ele mesmo.
Obviamente o excesso de estímulo; neste caso o excesso de dúvidas
hipersensibiliza o macaco que simboliza aqui a mente. Neste caso a
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
melhor solução, salvo melhor juízo, é a de acalmar a mente por alguma
técnica científica, ou postura espiritualista ou por alguma postura
filosófica tal como, por exemplo, a própria estóica. Mais adiante
analisaremos com mais cuidado alguns dos recursos que a filosofia nos
deixa à disposição.
A palavra discernimento vem do latim discernimentum, junção do
verbo discernere, discernir, (separar, seccionar, dividir, decidir, distinguir)
com o sufixo mentum, mento (meio, instrumento). Discernir significa
também decidir, estabelecer conveniente diferença (entre coisas ou
pessoas) e discriminar.
A palavra indica, portanto, o instrumento para separar e distinguir
o que seja adequado do inadequado. É também a faculdade de escolher o
preferível e ser portador de critérios para fazê-lo. É possuir meios de
fazer distinções e escolhas, por exemplo, do pior e do melhor.
É de se esperar que a presença de algum nível de discernimento
dê a possibilidade de atitudes razoavelmente adequadas frente às
necessidades do momento.
Discernir se relaciona com outras palavras do latim: cribrum
(peneira, peneirar), crimen (juizo) e scribere (traçar, cortar, marcar,
escrever).
Alguns sinônimos de discernimento seriam: critério, discrição,
tino e conhecimento.
A palavra tino, por exemplo, encontra como sinônimos os termos
juízo, sensatez, prudência, cuidado, tato e habilidade de andar às escuras.
A palavra critério se relaciona à capacidade de avaliar, negar ou
confirmar, um dado estímulo, tal como uma informação. A ponderar
com temperança e equilíbrio. Em termos estéticos, a apreciar e distinguir
o belo, bem formado e proporcional, do defeituoso, desordenado e
errático.
Os critérios para expurgar más formações e cultivar as belas
podem ser de vários tipos.
O mais pertinente a este livro é o critério do bem, que será ainda
muito mais analisado nos próximos capítulos. É, portanto, um critério
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
ético-filosófico que pode ser encarado também como um critério
científico e religioso como veremos adiante.
Tal critério pode ser considerado também um critério residente
no mais íntimo de cada ser. Daí termos uma nova ligação agora com o
exercício da vontade. Ou seja, o que se considera aceitável ou não
conforme a vontade, por exemplo kantiana, ou seja a vontade boa.
Em particular para espiritualistas, a boa fé ou a boa confiança tem
também a propriedade de atuar como meio de, novamente ao dizer de
Sócrates, abortar as más formações da mente e dar à luz e desenvolver as
belas e adequadas.
O assim chamado juízo de valor, analisa a utilidade de algo,
baseado num ponto de vista pessoal. Tem uma abordagem que se
enquadra filosoficamente como consequencialista. Pode referir-se a um
julgamento baseado num conjunto particular de valores ou num sistema
de valores determinado, tais como liberdade, auto determinação e
bondade. Um significado conexo de juízo de valor é o de um recurso de
avaliação para a tomada de decisões, baseado em poucas informações
disponíveis.
A recomendação ao se fazer um juízo de valor, é que se considere
cuidadosamente para evitar arbitrariedades e impetuosidade, e buscar
consonância com as convicções mais profundas que se tenha.
Juízo de valor também pode referir-se a uma tentativa de
julgamento baseada numa avaliação estudada das informações
disponíveis, tomadas como sendo incompletas e em evolução. Neste
caso, a qualidade do julgamento sofre porque a informação disponível é
incompleta e sujeita às limitações culturais ou pessoais.
Alguns argumentam que a objetividade verdadeira é impossível, e
que mesmo as mais rigorosas análises racionais fundamentam-se no
conjunto dos valores aceitos no curso da análise. Consequentemente,
todas as conclusões são necessariamente juízos de valor.
O bom senso pode ser encarado como a capacidade de adaptar
com razoabilidade, condutas a determinadas realidades considerando as
prováveis consequências, e assim poder fazer bons julgamentos e
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
escolhas. Supõe certa capacidade de organização, auto-controle e
independência de quem analisa a experiência de vida cotidiana.
O bom senso é por vezes confundido com a ideia de senso
comum, sendo no entanto, muitas vezes o seu oposto. Ao passo que o
senso comum pode refletir muitas vezes uma opinião por vezes errônea
e preconceituosa sobre determinado objeto, o bom senso é ligado à ideia
de sensatez, sendo uma capacidade intuitiva de distinguir a melhor
conduta em situações específicas que, muitas vezes, são difíceis de serem
analisadas mais longamente.
A partir da pergunta: O que é? Sócrates então praticava a
maiêutica (palavra que significa fazer dar a luz; fazer o parto). Isto é, tal
como uma parteira, auxiliava-os a dar à luz um conhecimento
melhorado. Arrancava do interior dos seus interlocutores as suas
monstruosidades e os fazia parir ideias sadias. Parir novos conceitos.
Pressupõe o entendimento de que há uma melhor compreensão ou uma
capacidade de obter uma melhor compreensão, na forma fetal, no
interior de cada um de nós. Uma investigação do que cada um já tem em
germe em seu interior.
A enorme maioria de nós não dispõe de um professor a altura de
Sócrates. Por outro lado a realidade de cada um de nós também leva a
fazer surgir em nossas mentes, vez ou outra, alguma monstruosidade
mental. Uma primeira ferramenta para lidar com ela pode ser a nossa
capacidade racional. Porém tais monstros podem nos parecer racionais.
Os tiranos e os carrascos registrados na história da humanidade, por
certo tinham argumentos 'racionais' para seus atos. Uma segunda
ferramenta é a observação tranquila dos mesmos. O ato de observar é
promotor de saúde e equilíbrio e usado tanto pelas técnicas meditativas
orientais quanto pela psicanálise ocidental. Implica também no
reconhecimento e o discernimento entre o saudável e o não saudável; o
desejável e o não desejável. Outro instrumento é a força da vontade
humana, explorada por filósofos como Arthur Schopenhauer. Um
monstro mental só pode nos importunar e influir em nossos
comportamentos, em síntese, se nós assim permitirmos e em certo
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
sentido se nós mesmos lhe dermos forças para tal. O mundo de um
monstro só tem vida se nós nos permitirmos viver no mundo dele. Por
fim, para os espiritualistas surge ainda a opção da boa e confiante fé. A
luz de uma fé saudável dissolve qualquer má formação importuna. Onde
há luz, as trevas não podem existir.
Sócrates escolhia como alunos os angustiados por respostas e
gerava inquietação. Angústia e inquietação eram consideradas análogas às
dores de um parto. Os não inquietos não estariam ainda prontos para dar
a luz. Para os candidatos que não julgavam importante aprender mais,
indicava outros professores.
A maiêutica pode ser considerada a aceitação da existência de um
patrimônio apriorístico de conhecimento latente na alma humana. A
existência de um conhecimento fundamental.
Pela sucessão de perguntas e respostas entende-se o emprego do
método da dialética; reunir para discutir e distinguir. A cada resposta
mostrava ao interlocutor as inconsistências ou imperfeições das
respostas, eventualmente fazendo uso de exemplos do cotidiano e
propunha novas perguntas, conduzindo assim o modo de pensar do
estudante.
A discussão era conduzida sempre a partir das bases conceituais
do próprio aluno. Com as experiências e forma de pensar do próprio
estudante, um melhor conhecer era gradualmente alcançado. Levava o
inquirido a tomar ciência de que ele não sabia o que pensava saber e a
colocar conceitos melhorados em seu lugar. Discutia e questionava os
valores e atitudes da sociedade da época. Mostrava que muitas das
concepções comuns levam ao paradoxo e ao absurdo. Mostrava os
perigos da abertura e aceitação acrítica da ortodoxia. Ao semear dúvidas,
dois comportamentos padrão encontrava. De uns o aperfeiçoamento de
concepções. De outros o orgulho ferido, o que resultava em
ressentimentos e antipatia.
O método envolve desta forma o questionamento da opinião
(doxa) e das crenças. Expõe suas imprecisões, parcialidades,
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
incompletudes e nebulosidades. E se descobria que com frequência não
sabíamos aquilo que pensávamos saber. Partindo sempre de um
entendimento já existente, levava o interlocutor a ir além dele, em busca
de algo mais perfeito e completo. E a grande capacidade de
transformação está centrada no fato de que o resultado da reflexão é
obtido pelo próprio indivíduo, que descobre, a partir de sua experiência,
o sentido que busca. Sócrates não respondia conclusivamente as
questões que fazia. Apenas mostrava se porventura a resposta
encontrada era insatisfatória e porquê. Seus diálogos eram aporéticos,
isto é, inconclusivos. 'Não aprenderam nada de mim mas unicamente por
si mesmos geraram muitas e belas coisas. Porém o mérito de tê-los
ajudado cabe a Deus e a mim.' (conforme Teeteto de Platão). Indicava o
caminho a ser percorrido pelo próprio indivíduo. A própria palavra
método significa através de um caminho.
A cada vez que retornamos a um dado conhecimento, nossa
capacidade de aprofundá-lo aumenta. A cada vez que ouvimos
novamente uma mesma música, percebemos maiores detalhes nela. A
cada vez que relemos um livro, a leitura é diferente e melhor. A
capacidade de nosso copo mental tende a aumentar à medida que este
aumento é solicitado. 'Mas se você voltar a conceber, estará mais
preparado após esta investigação, ou ao menos terá uma atitude mais
sóbria, humilde e tolerante em relação aos outros homens, e será
suficientemente modesto para não supor que sabe aquilo que não sabe.'
O objetivo geral do método é o de conduzir o interlocutor ao
conhecimento. À convicção interior de temas relacionados ao
comportamento adequado: ética e virtudes. A consequência visada era o
maior bem do homem por uma vida mais ética e um maior cuidado de
sua própria alma. Libertá-la de concepções errôneas, aproximando-a de
concepções mais verdadeiras.
Investigava as experiências do interlocutor, angariadas ao longo
de sua vida passada. Analisava como este estaria vivendo no presente e
finalmente como poderia viver melhor no futuro. Promovia o
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
desnudamento da alma e a contemplação de si mesmo, interrogando,
provando, refutando e incentivando seu aluno a esforçar-se para ser
melhor.
Em síntese, Sócrates através de seu método, pretendia aumentar o
conhecimento das pessoas e consequentemente melhorá-las eticamente.
Visava a promoção de comportamentos gradualmente mais adequados,
através do aprofundamento das concepções quanto às virtudes.
A existência de Sócrates encontrou seu término quando da
acusação senatorial de estar corrompendo a mente da juventude
ateniense com ideias revolucionárias e não ortodoxas. O caráter
corrosivo e subversivo do seu método que faz pensar de modo
independente e não aceitar informações tradicionais e impostas como
verdades, foi o que conduziu Sócrates à condenação e à morte. A sua
fuga, apesar de possível, contestaria não somente os poderosos
governantes juízes, mas sim as leis, a estrutura e a ordem da cidade.
Comprometeria também de certa forma, a credibilidade na veracidade de
seus ensinos. Sendo sua ação através de seus ensinos para a juventude, a
sua própria razão de ser, seria uma negação à sua própria vida numa
perspectiva maior. Desta forma, submetendo-se à penalidade fatal
imposta, permaneceu conversando e ensinando até seus últimos
momentos.
A título de conclusão, o fato de conseguirmos verdadeiramente
reconhecer a nossa profunda ignorância, é o primeiro passo para nos
tornarmos mais sábios. Através da reflexão e da exploração de nosso
universo interior, das nossas opiniões e crenças e de nossas experiências
cotidianas, nos tornamos mais cientes; mais sábios. Tais descobertas tem
caráter essencialmente individual. Podem ser tutoriadas, mas dependem
na verdade, do buscador e da sua abertura a novos pensamentos.
Todas as virtudes e toda a possibilidade de uma vida boa e de
bem tem como base o conhecimento, que não é apenas ter a 'notícia de
algo', mas sim ter este algo interiorizado profunda e verdadeiramente em
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sócrates
si como verdadeiro e útil. Conhecendo-se em profundidade uma dada
virtude particular e sua essência, automaticamente se passaria a conhecer
o essencial de todas as demais. A virtude é o conhecimento daquilo que é
bom para o homem. A virtude é útil ao homem. Uma vida virtuosa torna
o homem feliz. O mal resulta em não saber avaliar os resultados das
ações e é sempre fruto da ignorância.
Para o mundo ocidental até o presente, Sócrates é um dos grandes
expoentes e talvez o maior a enfatizar a importância do Saber e do Auto
- Conhecimento para o homem. Jesus enfatiza o Amor como forma
extraordinária de transformação do indivíduo, dentre outros aspectos,
para sua felicidade e realização. O verdadeiro Saber leva ao Amor. O
verdadeiro Amor leva ao Saber. Tais abordagens, portanto se
complementam na construção do homem e da humanidade.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Freud e Lacan
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Freud e Lacan
"Te advirto, sejas tu quem fores!
Oh! Tu que desejas sondar os arcanos da natureza, se não achas dentro de ti
mesmo aquilo que buscas, tão pouco poderás achar fora.
Se tu ignoras as excelências de tua própria casa, como pretendes encontrar
outras excelências?
Em ti está oculto o Tesouro dos Tesouros. Oh! Homem! Conhece a ti mesmo
e conhecerás o universo e os Deuses..."
Tales de Mileto
Já bem sabemos que podemos considerar a Ética como uma
busca do comportamento adequado do ser humano. Para fundamentar
tal busca é conveniente conhecermos o que rege e condiciona tais
condutas e desta forma, em primeiro lugar procurarmos compreender a
nós mesmos. Neste sentido o conhecimento do próprio homem é
fundamental e o valor da psicologia inestimável.
Sigismund Schlomo Freud, posteriormente conhecido como
Sigmund Freud, nasceu no Império Austríaco, atual República Tcheca,
em 1856. De lar judeu, casou-se e teve seis filhos. Quatro de suas irmãs
morreram em campos de concentração nazistas. Faleceu em 1939.
Ao longo de sua carreira, chegou a empregar a hipnose
terapêutica; conceituou inconsciente, mecanismos de defesa, doenças
psicossomáticas, repressões psicológicas e criou a assim chamada
psicanálise.
Na psicanálise o sujeito expressa com liberdade e sem censura
externa, seus sentimentos e pensamentos, os quais provavelmente estão
relacionados às suas angústias, dúvidas, questões e sintomas indesejáveis.
O psicanalista basicamente é um bom e compreensivo ouvinte, que
procura ajudar o sujeito quando oportuno, a compreender-se e
compreender e aceitar sua realidade interior. Ao longo das sessões, tal
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Freud e Lacan
mundo interior vai sendo conhecido, entendido e aceito e graças a este
processo de exteriorização pela fala, as desordens naturalmente
desaparecem. Em certo sentido, o psicanalista atua somente como uma
tela de projeção aos pensamentos e sentimentos daquele que o procura.
Por esta descrição podemos interpretar a psicanálise como um processo
de autoconhecimento.
O entendimento do homem por Freud, pode ser considerado
como uma hipótese não comprovada, mas que tem dado ao longo das
décadas excelentes resultados. Para ele, são duas as energias básicas e
motivacionais do ser humano: a sexualidade e a agressividade. Quase
nenhum ser vivo existiria sem o sexo, de forma que a sexualidade é um
impulso primitivo importantíssimo para o homem. Por outro lado,
temos que matar praticamente tudo que comemos, no passado
diretamente, no presente, ao menos indiretamente.
Freud entende a mente como constituída por três regiões: A
região da qual temos plena consciência, denominada por Ego. Uma
região da qual não temos consciência, mas que atua de forma autônoma
(Id e SuperEgo). Por fim uma região de transição da qual temos uma
fraca consciência ou que antecede a consciência, denominada de PréConsciente ou Subconsciente.
Na região do inconsciente residiriam dois elementos: O elemento
denominado por Id, sede das energias caóticas inatas; dos impulsos
sexuais, de agregação e de preservação e ainda dos impulsos de morte e
perversos.
O segundo elemento é denominado por SuperEu ou SuperEgo e
atua como repressor e censurador do Ego e do Id.
Por tal estrutura, ao nível do inconsciente podemos visualizar
uma situação de contínua pressão: O Id procura se expandir enquanto o
SuperEu busca continuamente reprimir tal expansão.
Através do Subconsciente, ocorre a transferência de informação
entre o Inconsciente e o Consciente e vice-versa. Os sonhos por meio de
sua estrutura simbólica particular e a livre associação expressam os
desejos e conflitos inconscientes e os trazem a tona para o nível
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Freud e Lacan
consciente. O relato de sonhos para um especialista que conheça tal
simbologia, revela a natureza destes conflitos.
O modo de ser do Id é natural e comum a todos os seres
humanos. O SuperEu, o juiz repressor, censurador, condenador e
punidor pode ser interpretado como aquele que gradualmente aprende o
código penal que empregará. Os juízos de valor e os itens de repressão
são introduzidos na infância por meio das informações recebidas do
meio externo, tais como aquelas oriundas dos genitores. Gradualmente, à
medida que o sujeito começa a empregar tais julgamentos aos fatos do
mundo exterior, ele retroalimenta tais juízos e os fortalece. Por outro
lado, se é reduzida a capacidade deste SuperEu em executar ações
boicotadoras e condenatórias sobre outras pessoas, há uma que está
permanentemente sob o seu jugo, que é exatamente aquela que o possui
e o treinou. Daí a conveniência de não julgar ao outro, evitando-se assim
o treinamento do SuperEu em julgar a nós mesmos quando de nossos
múltiplos e diferentes enganos ao longo da vida.
Pensamentos e sentimentos dolorosos, bem como recordações
ligadas aos mesmos, caso sejam reprimidos, não analisados e não
avaliados racionalmente pelo ego, são lançados ao inconsciente e lá
passam a gerar perturbações. Perturbações que surgem por uma postura
do tipo: não quero pensar sobre isto ou não quero enfrentar tal
acontecimento. Pessoas diferentes reprimem fatos diferentes e
apresentam do mesmo modo diferentes desequilíbrios. Assim sendo, a
observação e análise isenta, imparcial e fria dos sentimentos e
pensamentos que aleatoriamente nos ocorrem é um processo natural de
autoconhecimento, saúde preventiva e catarse.
Os nossos impulsos sexuais e agressivos estão continuamente
reprimidos em algum grau. No entanto fazem parte essencial de nossa
natureza. Caso haja bloqueio excessivo, a tendência é o surgimento de
depressões, compulsões, distúrbios de humor, síndromes como a do
pânico, etc. A solução usual para esta questão na atualidade é a ingestão
de fármacos, os quais neutralizam quase de imediato as manifestações
inconvenientes e apresentam um custo bem menor do que um
provavelmente longo tratamento psicanalítico.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Freud e Lacan
Na continuidade de tal desequilíbrio entre os impulsos e as
repressões e na existência de possibilidade de alívio, o indivíduo rompe
as últimas barreiras sociais e tal como uma panela de pressão que
explode, comete por exemplo, crimes sexuais e violentos. Desta forma
sacerdotes coagidos ao celibato podem terminar cometendo atos de
pederastia. Um jovem sujeito ao bullying e tendo a sua agressividade
natural reprimida, pode terminar invadindo a sua escola armado e
promover a matança de todos ao seu alcance. A resposta que a sociedade
atual tem dado a tais fenômenos é a de intensificar as barreiras, através
de uma justiça cada vez mais opressora.
A solução geral é o equilíbrio. É por um lado o conhecimento e
aceitação de nossos impulsos primitivos e caóticos fundamentais que, de
um certo ponto de vista, se constituem em nossa força e energia
primárias. Por outro, transferir em parte o controle de tais forças para o
nível consciente e deste canalizar tais energias para atividades subjetivas
de criação e autorrealização. Assim, do mesmo modo que podemos
observar celibatários que se transformam em pederastas, podemos
encontrar grandes expoentes da espiritualidade e de auxílio à
humanidade.
A mente saudável equilibra adequadamente o id e o superego. Tal
equilíbrio é obtido basicamente pelo autoconhecimento e a
autoaceitação, que termina por incluir o conhecimento e a aceitação do
outro. Afinal, todos nós somos seres humanos.
Numa visão ortodoxa, tal autoconhecimento pode ser obtido pela
psicanálise.
De um ponto de vista menos usual, pode ser obtida também pela
dedicação de algum tempo diário para observar e procurar compreender
e refletir sobre os próprios sentimentos e pensamentos. Uma análise das
consequências dos acontecimentos do dia sobre nosso mundo interior
pode ser considerada um procedimento de saúde preventiva. A este
respeito, várias culturas orientais valorizam as práticas de meditação.
Uma outra alternativa heterodoxa seria a de conversar com Deus
sobre nossos conflitos, sentimentos, angústias e problemas. Deus é um
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Freud e Lacan
bom ouvinte e jamais nos reprime ou censura. Orar a Deus é uma prática
apreciada em inúmeras culturas ocidentais.
Jacques Lacan nasceu em Paris, em 1901 e faleceu nesta mesma
capital em 1981. De família próspera católica, casou-se por duas vezes e
foi pai de quatro filhos. Formou-se em Medicina, estudando em paralelo
Literatura e Filosofia.
Conta-se que em certa oportunidade uma estudante
inconformada com a visão de Freud a respeito do homem, e
entusiasmada com os estudos de Lacan, o abordou, e ao exprimir seus
sentimentos ficou surpreendida com sua afirmação de que era um
psicanalista da linha Freudiana.
Uma de suas colocações é a de que o Inconsciente é autônomo
em relação ao Eu consciente e pode se revelar por gracejos, atos falhos,
além de sonhos, etc...
Lacan analisou os efeitos da figura paterna sobre nós, que pode
ser transferida para um outro personagem, tal como uma liderança
política ou religiosa. Mais precisamente do pai presente e do pai ausente.
O pai presente é aquele que de alguma maneira se envolve com o
filho. Um pai agressor, apesar de que suas agressões possam redundar
em morte e tendam a gerar novos indivíduos agressores, é um pai
presente: o toque físico transmite uma mensagem interior de
envolvimento e importância. O pai presente ama a seu modo o filho:
indica zonas de comportamento consideradas seguras e estabelece limites
ditados pelo seu interesse no bem estar dos descendentes. É um pai que
assume seu papel.
O pai ausente é aquele que demonstra indiferença. O verdadeiro
sentimento oposto ao amor não é o ódio. O ódio é uma manifestação de
amor distorcida. O oposto do amor é a indiferença. O pai ausente não
demarca territórios comportamentais a princípio seguros e nem limites
que caso ultrapassados possam ocasionar risco.
O pai presente tende a gerar um filho confiante e seguro. Por
outro lado leva a uma situação de disputa por amor entre irmãos e juízos
de valor do tipo: o meu pai é melhor do que o seu. Tais efeitos tendem a
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Freud e Lacan
criar indivíduos seguros, porém amantes da competição: que buscam a
superioridade ou que já se consideram superiores aos demais.
O pai ausente tende a gerar indivíduos inseguros. Na medida que
não receberam uma base preliminar do que pode ou não ser feito,
procuram tão logo quanto possível e ao seu jeito imaturo, delimitar tais
territórios através do que pode ser chamado de vida de risco; uma vida
sem limites e de perigo, do tipo salve-se quem puder ou adotando
comportamentos anti sociais ou exóticos.
Na busca por segurança é possível recair em qualquer tipo de
fundamentalismo religioso ou político, do tipo: a minha religião ou
partido é o único certo; todos devem segui-lo. A ausência de
questionamentos sobre uma pretensa verdade é repousante. Opiniões
diversas são detestadas tanto quanto a instabilidade interior é temida.
A solução ao problema que se apresenta: indivíduo seguro e
competitivo ou inseguro e radical, estaria na capacidade de transferir ao
longo do crescimento da pessoa, o papel do pai para os irmãos, isto é
para a coletividade fraterna em sua humanidade. Na medida que tal
transferência possa ser realizada, ao invés da competição entre filhos de
diferentes pais, passa a predominar a colaboração entre irmãos. Ai ao
invés da insegurança e radicalidade por um pai ausente, a segurança na
coletividade e um clima de tolerância e concórdia.
O autoconhecimento permite perceber e controlar a insegurança,
a intolerância a competitividade e o orgulho.
No passado, sentávamos em torno da fogueira e repartíamos a
pequena caça com todos os membros da tribo. Quando um de nós
adoecia, todos nós nos uníamos numa mesma dança de cura e saíamos à
cata de ervas mágicas. Nossa tribo era uma grande família que
permanecia unida e se ajudava em todas as situações. Mas os clãs e as
tribos se fundiram e formaram Cidades-Estado e Nações. Com isto a
humanidade atingiu um patamar de prosperidade jamais alcançado
anteriormente. Vivemos mais, comemos melhor e obtivemos enormes
níveis de comodidade e conforto. Se a hostilidade com tribos diferentes
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Freud e Lacan
diminuiu, paradoxalmente a indiferença com o vizinho aumentou e
nossas famílias não raro são constituídas na prática, por uma só pessoa.
O que analisamos acima leva a um tipo de existência que
podemos denominar por vida nua. É aquela caracterizada pela
competição, pela discórdia, pela vida de risco, pela insegurança e pelas
repressões. Tal vida se caracteriza pela perda da dimensão de
subjetividade do ser; pela coisificação do ser. São consideradas
características de tal estado a preocupação obsessiva pelo corpo; afinal só
isto restou. Ainda a busca insaciável de satisfação dos desejos e por
prazer.
Porém há uma outra possibilidade de existência que pode ser
denominada por vida qualificada. É a vitória sobre o individualismo. É a
segurança na coletividade fraterna. É a postura de colaboração e
concórdia. É a retomada da dimensão da subjetividade do ser, com a
canalização de suas energias para a criatividade, sonhos, poesia, literatura
e o exercício do pensamento. É a dedicação ao trabalho de
autorrealização no contexto da realização de todos.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
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Carl Gustav Jung
"Aqui se ergue a pedra feia e ruim. Seu preço é muito baixo! Quanto mais a
desprezam os néscios, mais a amam os sábios."
Frase do alquimista Arnaldus de Villanova, gravada em pedra por
Carl Jung.
"Um círculo e no centro um homenzinho diminuto: pupila; tu mesmo, tal
como te vês na pupila do olho de um outro."
Carl Jung; gravado em pedra por ele mesmo.
O presente texto se insere no segundo módulo do presente curso;
o que trata do ser humano em si e que procura mostrar dentre outros
pontos os condicionadores da conduta (ética) humana. No entanto o que
é aqui visto, já enriquece o que será apresentado no módulo seguinte, de
detalhamento, na visão de pensadores extraordinários, dos melhores
caminhos para o bem de nós mesmos e dos demais.
Carl Gustav Jung (pronuncia-se Iung,) é um dos fundadores, ao
lado de Freud, da psicanálise moderna; da análise sistemática da mente
humana. Nasceu na Suíça em 26 de julho de 1875; produziu ao longo de
toda a existência e faleceu após curta enfermidade em 6 de junho de
1961. Seus trabalhos preenchem 19 volumes e muitos ainda não foram
traduzidos para o Inglês. Criou um ramo da ciência conhecido como
Psicologia Analítica ou Junguiana ou ainda Complexa, que se distingue
da Psicanálise Freudiana, por uma noção mais alargada da libido e pela
introdução dos conceitos de inconsciente coletivo, sincronicidade e
individuação. Ou seja, Freud concebe o inconsciente dentro de limites
estritamente pessoais. Jung estuda o inconsciente não só a nível pessoal,
mas também como inconsciente comum a toda a espécie humana e
mesmo transcendente a esta. Ambos basearam suas conclusões em
experimentação e observação. Freud não tinha formação filosófica e
portava uma visão de mundo materialista. Jung era amante da filosofia,
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
de outras áreas do conhecimento humano e profundamente
espiritualista. A tendência da psicanálise no momento é basicamente
freudiana.
Embora cientista renomado da área médica e médico atuante,
muito de seu trabalho foi a exploração de outras áreas do conhecimento
e cultura humanas, incluindo filosofia ocidental e oriental, alquimia,
astrologia, antropologia, arqueologia, sociologia , bem como literatura e
artes. Buscava, portanto, e tinha uma postura de integração de saberes.
Carl é filho de Paul Achilles Jung, pastor rural da Igreja Luterana
e de Emilie Preiswerk Jung, oriunda de família abastada. Emilie passava
boa parte de seu tempo em seu próprio quarto, isolada e encantada com
os espíritos que ela dizia que a visitavam durante a noite. Jung tinha um
melhor relacionamento com seu pai, devido à excentricidade de sua mãe.
Embora normal durante o dia, Jung afirmava que durante a noite a sua
mãe tornava-se misteriosa. Em uma destas noites, ele viu uma figura
levemente luminosa e indefinida vindo de seu quarto, com a cabeça
separada do corpo e flutuando no ar frente a este.
Ainda menino, esculpiu um pequeno boneco na ponta de uma
régua de madeira e colocou-o dentro de uma caixa. Em seguida,
adicionou uma pedra que ele havia pintado em duas metades: superior e
inferior e escondeu a caixa no sótão. Periodicamente, visitava o boneco
da caixa, muitas vezes trazendo pequenas folhas de papel com
mensagens escritas sobre eles, numa língua secreta sua. Mais tarde, ele
refletiu que este ato cerimonial lhe trazia uma sensação de paz e
segurança internas e descobriu semelhanças entre esta experiência
pessoal e o emprego de totens por civilizações primitivas. Concluiu bem
mais tarde, que tal ato cerimonial era um ritual intuitivo inconsciente,
praticado de forma muito semelhante em locais distantes e
desconhecidos dele quando criança. Suas descobertas, dentre elas,
aquelas referentes aos arquétipos da psique humana e inconsciente
coletivo foram inspiradas em parte, por experiências pessoais.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
Para a escolha da futura profissão, além da questão financeira,
fazer algo de útil como ser humano lhe atraía. Após estudar medicina na
Universidade de Basel, iniciou sua vida profissional em hospital
psiquiátrico de Zurich. Em 1903, casou com Emma Rauschenbach e
com ela teve cinco filhos. O casamento se manteve até a morte de
Emma, em 1955.
Em 1906, aos 30 anos, publicou e enviou uma cópia de um de
seus livros a Sigmund Freud. Os dois se encontraram pela primeira vez
no ano seguinte, quando conversaram quase que sem intervalos por
cerca de treze horas. Seis meses depois Freud, então com 50 anos de
idade, enviou a Jung uma coleção de seus últimos ensaios publicados, o
que se constituiu no início de amizade, intensas troca de cartas e
colaboração. Os dois influenciaram-se mutuamente. Jung familiarizou-se
com a ideia de inconsciente e passou a defender a interpretação de
sonhos e a nova abordagem psicanalítica. Freud necessitava de
colaboradores para validar e difundir seus estudos; a clínica psiquiátrica
de Zurique onde Jung atuava era renomada e suas pesquisas já lhe davam
reconhecimento internacional. Freud chamava Jung "seu filho adotivo
mais velho, seu príncipe herdeiro e sucessor".
Jung enfatizava a importância do desenvolvimento sexual e
reconhecia a existência de uma parte inconsciente que contém a seu
modo, a cultura de nossa espécie. A libido seria uma fonte importante
para o crescimento pessoal e formação do núcleo da personalidade.
Freud não aceitava tais considerações.
Jung não concordava com a abordagem personalista freudiana,
que negligenciava as condições históricas e o meio onde o homem estava
inserido. Argumentava que dependemos muito de nossa história. Que
somos moldados através da educação e pela influência dos pais, que por
sua vez não está relacionada apenas a uma questão pessoal deles. Portam
preconceitos e são por sua vez influenciados por conceitos históricos e
este é um fator muito importante na psicologia. Não seríamos de hoje ou
ontem, mas fruto de um período histórico imenso.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
Em 1912 Jung publicou a 'Psicologia do Inconsciente', que se
constituiu em marco final da dissolução da amizade e da divergência de
ideias e conclusões freudianas. Em seguida Jung renunciou ao cargo de
presidente da Associação Psicanalítica Internacional, para o qual tinha
sido eleito com o apoio de Freud.
Como é usual entre os psicanalistas até os tempos atuais, Jung
explorou ele mesmo seu inconsciente. Os sonhos são manifestações
simbólicas deste universo. Sonhos seus transcritos em papel logo após o
acordar eram analisados por Freud e vice versa. Pelas conclusões
posteriores de Jung, nas primeiras análises, tende a aflorar o mundo
inconsciente pessoal de cada um e por Freud, nele, os impulsos caóticos,
os desequilíbrios e as repressões. Só mais tarde o inconsciente coletivo é
mais facilmente observado, juntamente com suas características
ordenadoras e pacificadoras.
Após o desentendimento com Freud, Jung passou por uma
transformação psicológica fundamental e difícil, que foi agravada pela
notícia da Primeira Guerra Mundial. Nela atuou como médico do
exército e comandante de um campo hospitalar suíço, país
tradicionalmente neutro. Jung trabalhou para melhorar as condições dos
soldados refugiados das duas facções em combate e encorajou-os a
participar de cursos universitários.
Em 1913, com a idade de trinta e oito anos, Jung experimentou
segundo ele, um horrível 'confronto com o inconsciente'. Ele tinha
visões e ouvia vozes. Supôs-se por vezes psicótico ou esquizofrênico.
Frente a qualquer dificuldade da existência, duas são as
alternativas naturais: o medo, a paralisação ou a fuga ou então o combate
e a confrontação.
Ele concluiu que o que vivenciava era uma experiência valiosa e
terminou por induzir, observar e analisar e não reprimir suas alucinações,
ou em suas palavras, sua 'imaginação ativa'. Registrou tudo o que sentia
e imaginava e transcreve suas anotações em um grande livro vermelho,
no qual ele trabalhou intermitentemente por 16 anos. Jung deixou
instruções póstumas sobre a disposição final deste manuscrito. Por
décadas menos de duas dezenas de pessoas o tinham visto e
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
parcialmente fotografado, armazenado que estava em cofre bancário. Em
setembro de 2009 um seu neto, gerente dos arquivos Junguianos, decidiu
publicá-lo. Durante o período em que trabalhou no livro, Jung
desenvolveu suas principais teorias de arquétipos, inconsciente coletivo,
e processo de individuação. Dois terços das páginas trazem pinturas
alusivas aos textos, criadas pela mente e fixadas pelas mãos do próprio
Jung.
Em 1924 viajou ao Novo México estudando a cultura dos povos
de lá. Em 1925 para países da África Oriental, para compreender a
'psicologia primitiva', através de conversas com habitantes culturalmente
isolados. Concluiu que os padrões principais eram comuns aos dele
próprio e aos da psicologia dos povos europeus. Em 1937 realizou uma
longa viagem para a Índia. A filosofia hindu tornou-se um elemento
importante na compreensão do papel do simbolismo e da vida do
inconsciente.
Na época o famoso instrutor Ramana Maharshi, focado na
realização do ser, lá habitava. Jung o reconheceu como absorvido no
Self, no Eu total Junguiano, mas admitiu não compreender seu processo
particular de autorrealização.
Jung ressaltou a importância dos direitos e dos espaços
individuais no Estado e na sociedade. O Estado frequentemente seria
tratado como uma personalidade semi animada de quem tudo se espera.
Tal personalidade apenas camuflaria os indivíduos que o manipulam e
seria um tipo de escravizador. O Estado tenderia a se sobrepor à
espiritualidade, procurando usurpar o lugar de Deus, a política partidária
seria comparável a uma religião e a escravização ao Estado, basicamente
uma forma de adoração. Bandas de música, bandeiras, banners, desfiles
e manifestações monstro não seriam essencialmente diferentes, em
princípio, a procissões eclesiásticas, e os tiros de canhões ao fogo para
afugentar os demônios. Do ponto de vista de Jung, esta substituição de
Deus pelo Estado em sociedades massificadas leva ao mesmo fanatismo
da Era das Trevas observado no ocidente a partir do século terceiro.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
Quanto mais o Estado é adorado, mais a liberdade é reprimida. Tal
repressão deixaria os indivíduos, impedidos de livre expressão,
psiquicamente subdesenvolvidos e com sentimentos extremos de
marginalização.
Jung propôs que a arte pode ser usada para aliviar ou conter
sentimentos desagradáveis oriundos de traumas, o medo ou a ansiedade
e também para reparar, recuperar e curar. Em seu trabalho com os
pacientes e nas suas próprias explorações pessoais, afirmou que a
expressão artística do imaginário pessoal pode ser útil na dissolução de
sofrimentos emocionais. Em momentos de estresse, ele mesmo
desenhava, pintava, esculpia ou construía considerando tais atividades
mais do que apenas lazer.
O trabalho de Jung exerceu significativa influência cultural. Livros
de Hermann Hesse ou filmes de Federico Fellini são apenas dois dos
inúmeros exemplos que poderiam ser observados.
O desacordo primário de Jung com Freud surgiu como já
mencionado, de visões diferentes do inconsciente. A teoria do
inconsciente freudiana seria incompleta e desnecessariamente negativa.
Freud concebeu o inconsciente apenas como um repositório de emoções
reprimidas e desejos. Jung concordou em parte com tal modelo,
chamado de 'inconsciente pessoal freudiano', mas ele também observou
a existência de um segundo nível, muito mais profundo e subjacente a
um pessoal. Este seria o inconsciente coletivo, sede de arquétipos
primários fundamentais. Na psique, haveriam conteúdos que não são
produzidos por nós mas que teriam vida própria.
Muitos fatos levaram Jung a tal constatação. Cita como exemplo o
relato de um esquizofrênico quanto a suas observações do sol e da
origem do vento, semelhantes ao descrito em papiro antigo, cujo texto
só foi divulgado quatro anos depois. Um texto inédito que o doente não
teria como ter tido conhecimento prévio.
A rigor Freud chegou a mencionar a existência de um nível
coletivo para o funcionamento psíquico, os '...remanescentes arcaicos:
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Carl Gustav Jung
formas mentais cuja presença não pode ser explicada por qualquer coisa
na vida do próprio indivíduo e que parecem ser primitivos, inatos, e
herdados... ', mas o viu como meramente secundário e marginal. Para
Jung, neste nível inconsciente residem as estruturas e predisposições a
partir das quais as experiências do indivíduo seriam interpretadas e
organizadas. Tal dinâmica de organização seria semelhante para qualquer
membro da humanidade. '... existe um segundo sistema psíquico de
natureza coletiva, universal e impessoal, que é idêntico em todos os
indivíduos. Este inconsciente coletivo não se desenvolve
individualmente, mas é herdado. Trata-se de formas pré-existentes; os
arquétipos, que podem tornar-se conscientes e secundariamente dão
forma definitiva a certos conteúdos psíquicos'.
A palavra arquétipo provém do latim e do grego; archetypum e
arkhétypon, significando modelo ou tipo primitivo ou original. Refere-se
ao modelo ou ainda paradigma a partir do qual se faz uma obra material
ou intelectual. A palavra paradigma alude ao conjunto de regras, normas,
procedimentos e processos. A um certo modo de interpretar fatos.
Para Platão os arquétipos seriam modelos ideais, inteligíveis,
supremos e perfeitos, a partir dos quais toda a coisa sensível, perceptível
pelos sentidos, seriam cópias imperfeitas. A partir dos quais tudo seria
copiado.
Na resignificação Junguiana, seriam adicionalmente estruturas
residentes no inconsciente de todo o indivíduo, comuns a nossa espécie,
que tendem a emergir nos mitos, nos contos, nas lendas e tradições
populares e em todas as produções imaginárias do homem. Imagens
psíquicas e símbolos ancestrais em contínuo movimento, presentes na
parte mais profunda do inconsciente humano, os arquétipos seriam
herdados e basicamente independentes de grupo, etnia ou povo. Os
arquétipos não seriam memórias coesas e palpáveis no contexto ou
definição clássica de memória, mas são o conjunto de crenças, valores e
comportamentos básicos e informações comuns, inconscientes, que nos
impulsionam na existência.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
Muitos reconhecem não haver nenhuma dúvida de que Jung
estava convencido de que os arquétipos proporcionam prova de alguma
forma de comunhão com a divindade.
Como comentário suplementar, suponhamos que os estudos de
Jung sejam corretos: que existem padrões culturais gravados
indelevelmente, que se manifestam de forma simbólica ao consciente.
Sabemos por outro lado, e isto já foi discutido, que as palavras e sons
que usamos para comunicação são essencialmente signos de ideias
residentes em nossas mentes. Constituem-se numa expressão simbólica
do modo como percebemos e compreendemos as coisas do universo. Se
a compreensão humana característica está gravada em arquétipos que se
exteriorizam ao mundo consciente e se palavras são símbolos de nossa
interpretação do mundo, natural esperar que tais palavras e sons não
sejam tão somente rabiscos e balbucios estabelecidos por mera
convenção, mas sim num estudo mais profundo, mostrem relação direta
com os padrões primitivos característicos do ser humano. O estudo de
um bom dicionário, analisando significados básicos das palavras, bem
como seus sinônimos, a princípio permitiria perceber parcialmente tais
padrões.
A meta final da Psicologia Analítica é a individuação. Jung
considera a individuação o processo central do desenvolvimento
humano. Seria o processo de passagem de conteúdos, da esfera
inconsciente para o campo consciente da psique, com a manutenção do
equilíbrio e da autonomia do Ser. A gradual integração do consciente
com o inconsciente coincidiria com o gradual crescimento da criatura
humana. Tal ampliação da consciência promoveria a evolução do ser
humano de um estado infantil e indiferenciado, para outro de crescente
maturidade e diferenciação. Possibilitaria a integração dos opostos e a
dissolução dos conflitos.
Através desse processo, o indivíduo identificar-se-ia menos com
as condutas e valores encorajados pelo meio no qual se encontra e mais
com as orientações emanadas do si mesmo; da totalidade do seu ser.
Entretanto Jung ressaltou que o processo de individuação não entra
necessariamente em conflito com a moral geral coletiva do meio no qual
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
o indivíduo se encontra, uma vez que esse processo, no seu
entendimento, leva o ser humano a adaptar-se e inserir-se com sucesso
dentro de seu ambiente, tornando-se um membro ativo de sua
comunidade.
Eventuais resistências em permitir o desenrolar natural do
processo de individuação seria uma das causas do sofrimento e da
doença psíquica, uma vez que o inconsciente tenta compensar a
unilateralidade do indivíduo, limitado ao seu pequeno e restrito ego.
A individuação seria um processo a rigor infindável, obtida pelo
paulatino conhecimento de si mesmo, o que inclui a observação e
entendimento do mundo ainda não consciente em cada um. Seria um
processo de transformação, pelo qual o inconsciente pessoal e coletivo é
trazido à consciência, por meio de sonhos, imaginação ativa ou livre
associação, para dar alguns exemplos, para terminar por ser assimilado e
compreendido por todo o ser. Seria um processo necessário para que a
integração da psique tenha lugar.
Além de alcançar a saúde física e mental, as pessoas que teriam
avançado em direção à individuação, tenderiam a ser harmoniosas,
maduras e responsáveis. Eles incorporariam em suas vidas os valores
humanos característicos, tais como liberdade e justiça e teriam um bom
entendimento sobre o funcionamento da natureza humana e do
Universo .
Tal pensador observou a meta da individuação como sendo
equivalente à "Opus Magna", ou "Grande Obra" dos antigos e mais
esclarecidos alquimistas, ou seja, à autorrealização.
O trabalho e os escritos de Jung a partir de 1940 focaram-se na
alquimia . Em 1944 publicou Psicologia e Alquimia, onde analisou os
símbolos alquímicos e mostrou uma relação direta com o processo
psicanalítico. Argumentou que o processo alquímico é a transformação
da alma impura (chumbo), através das etapas de enegrecimento,
clareamento, vermelhidão e amarelecimento até a alma aperfeiçoada
(ouro), e uma metáfora para o processo de individuação. Em 1963 foi
publicado pela primeira vez o Mysterium Conjunctionis onde Jung
discute o arquétipo da união sagrada entre o sol e a lua.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
A estrutura do ser humano como um todo, pelas conclusões
Junguianas, poderia ser descrita: O ego através da persona, interagindo
com o mundo externo, na região consciente. Nas regiões mais
superficiais do inconsciente, aquele pessoal, com suas forças caóticas (id),
seus mecanismos repressores (superego) e seus conflitos inerentes. Por
fim o inconsciente coletivo com seus arquétipos de harmonia, de luz e
sombra, animus e anima e outros. Além disto, o mestre suíço constatou
algo impressionante para a época. Que haveria uma ligação profunda
entre toda a humanidade e entre todos os seres vivos (Unus Mundus).
Anima seria o arquétipo do feminino e animus do masculino no
ser humano. Quando um homem se apaixona por uma mulher, estaria
projetando nela, sua anima residente e por tal motivo ela lhe pareceria
irresistível. Mecanismo complementar seria o da paixão de uma mulher
por um homem.
Nenhum ser humano tolera uma vida sem significado. Temos a
necessidade de autorrealização, na qual o ego seja herói, espelhando
harmonia com sua realidade interior.
Ao rumarmos para o autoconhecimento que é a conscientização
do ego de seu próprio self, passamos a nos confrontar com nossos
aspectos mais luminosos e também com os sombrios.
O ego pode resistir ao apelo natural por realização. Por outro
lado, tem a necessidade de se autoconhecer e analisar-se, de modo a
explorar seu Inconsciente profundo (self) e entender o que tem a fazer
para realizar-se. O sonho, a imaginação ativa, o observar de
coincidências, permitiriam restabelecer o diálogo entre a consciência e o
inconsciente, percebido inicialmente como ameaçador pelo ego. O ego
que teria efetuado longa jornada se distanciando de sua origem, agora
pretenderia um retorno proximal.
O inconsciente pessoal resultaria da história de vida de cada um
enquanto o inconsciente coletivo, da história e cultura da humanidade
em cada pessoa, e em nível mais profundo, de todos e de tudo vivente.
As várias imagens arquetípicas apresentam dualidade de luz e
sombra; bem e mal.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
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No inconsciente pessoal reside o conflito do id com o superego.
No coletivo, a dualidade de luz e sombra e a própria ciência do coletivo.
Quando processamos adequadamente os conflitos, as dualidades e os
saberes, ocorreria integração. O processo adequado inclui conhecer,
observar, enfrentar e aceitar.
Algumas pessoas podem se transtornar. Alguns abandonam
completamente seu modus vivendis, com troca de emprego, casamento,
fé religiosa, cidade, país, e apresentam outros comportamentos
inesperados. A pressão interna oriunda da urgência por autorrealização
pode ficar insuportável. Eventualmente ocorrem doenças graves, físicas
ou mentais e há ainda quem não sobreviva.
Em sua teoria psicológica, que não está necessariamente ligada a
uma determinada teoria de estrutura social, o ego consciente aparece
como uma personalidade gerada pelo próprio indivíduo ou através da
socialização, aculturação e suas experiências.
A palavra persona, como a maioria tem conhecimento, alude às
mascaras, trajes característicos básicos, que os atores gregos empregavam
para determinar quem representavam nas peças teatrais. O ator, por trás
delas é quem lhes conferia vida. As personas como que distorciam e
limitavam o ator, para fazê-lo adequado ao papel que executava.
Jung considerava tal máscara como um sistema complexo que
intermedia a consciência com o meio social. Um compromisso entre o
indivíduo e a sociedade, naquilo que é conveniente que um homem
pareça ser. Exerceria a função de fazer uma determinada impressão para
os outros e de esconder pelo menos parte da verdadeira natureza do
indivíduo. A individuação seria um processo de conhecimento tanto
desta máscara, quanto do que se encontra por trás dela, permitindo
dentre outros pontos, modificações adequadas, a solução de conflitos e o
controle dos impulsos interiores.
No campo profissional as ideias Junguianas são frequentemente
empregadas com objetivo diametralmente oposto. Procura-se
transformar a persona dos executivos em máscara corporativa
convincente aos outros, a eles mesmos e adequada aos objetivos não do
indivíduo, mas do meio empresarial no qual se encontram. A
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
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personalidade dos subordinados é avaliada e testada, facilitando assim
seu controle e gestão. Jung, num certo sentido, pretende o afrouxamento
da persona enquanto que o descrito pode ser considerado em parte um
enrijecimento e afastamento do que há por trás dela. As próprias
ambições profissionais de cada um são capazes de provocar tal distorção.
Cada um tende a se comportar como os demais esperam e
termina por acreditar que aquela máscara que está a usar é ele mesmo. É
uma máscara gerada em parte pelas expectativas sociais e em parte pelas
expectativas do próprio sujeito. Mas não é absolutamente o eu real. O
indivíduo pode terminar por usar uma persona em casa, outra no
trabalho e assim sucessivamente e quanto mais pronunciadas as
diferenças entre as máscaras que a mesma pessoa assume e dá veracidade
como sendo ela própria, mais neurótica ela se torna, pois as conduta
destas personas se chocam e contradizem. O indivíduo perde a unidade e
se dispersa.
A vida do homem contemporâneo estaria tão voltada a
exterioridades; seria de tal ordem unilateral, ignorando as realidades de
seu mundo interior que o universo de cada indivíduo de hoje, encontrarse-ia em franca rebelião contra uma forma de vida totalmente inumana.
Precisariam ter algo para compensar a dissociação com sua própria
natureza e continuamente recorrer a subterfúgios para pacificar seu
inconsciente, em contínua comoção.
O maior conhecimento de si mesmo e a indiferença pelas
expectativas do meio, possibilitaria a realização das expectativas mais
profundas do próprio ser e desta forma, tendo-se nascido com potencia,
o indivíduo paulatinamente torna-se aquilo que em potência já é.
De acordo com Jung, uma criança não nasce como uma 'tabla
rasa' como anteriormente se supunha. A criança seria um ser muito
complexo, com determinantes, predisposições e orientações que se
manterão por toda a vida. É portadora, desde o nascimento, de um
caráter; de uma complexidade herdada definida. Nasceríamos de um
padrão e seriamos em certo sentido um padrão. Um padrão que nos faz
especificamente humanos e não haveria ninguém que nascesse sem ele.
Entretanto seriamos profundamente inconscientes deste fato, porque
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
vivemos pelos sentidos e fora de nós mesmos. Se observássemos o
mundo interior descobriríamos isto, mas tal atitude seria totalmente não
usual em nossos tempos.
O padrão de funcionamento e de conduta se manifesta através de
imagens arquetípicas. O costume dos povos de contar histórias seria o
conhecimento da necessidade que todos tem de conhecer e agir em
conformidade com tais padrões.
As fantasias do ser humano seriam fatos reais e é fato que o
indivíduo as tenha. Pela fantasia de um indivíduo outro morre ou uma
ponte é construída. Tudo de palpável surge de uma fantasia. Não ser
palpável uma fantasia, não significa que não seja real. A fantasia tem
realidade, seria uma forma de energia que ainda não poderíamos
mensurar e é a manifestação de algo. Quando se observa as imagens ou
fantasias da mente, se observa os fatos deste mundo interior.
Por vezes o inconsciente tem a dizer coisas tão desagradáveis ou
inconvenientes que optamos por não escutar. Na maioria das vezes
seríamos menos neuróticos se pudéssemos, apesar da existência de um
grau usual de repressão, admitir e aceitar tais coisas.
Os sonhos são manifestação do inconsciente e este encontra-se
em relação compensada com o consciente. A cada mensagem do
inconsciente decifrada pelo consciente, uma nova e mais rica mensagem
é gerada no inconsciente. Entendido um determinado problema cabe ao
homem ajustar sua conduta. Utilizar ou não o conhecimento que gera o
seu comportamento para alterá-lo adequadamente é a verdadeira questão
moral.
Num contexto mais geral, podemos dizer que talvez o diagnóstico
de qual seja a conduta mais adequada, não seja o problema mais difícil ou
árduo, mas sim convencer-se disto e agir efetivamente de modo mais
ético.
O homem sempre viveu dentro de uma estrutura de mitos. Agora
ele estaria mutilado, sendo levado a viver sem mitos e sem história, a que
está naturalmente conectado.
A mitologia seria uma série de imagens que constituiriam a vida
dos arquétipos. São uma exteriorização dos processos mitológicos
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
interiores. O homem não seria completo se não estivesse consciente de
tais aspectos ligados aos fatos da existência. É o modo padrão interior
natural de interpretação dos fatos pelo homem. O homem não seria
completo caso enxergasse o mundo e vivesse de acordo com a visão de
um mundo probabilístico e estatístico. Por outro lado, tenderia a
completude se vivesse de acordo com a sua realidade humana. A visão
atual é uma visão de médias. As qualidades humanas que por definição
fogem da média são eliminadas e isto não seria apropriado ou saudável.
Privaria as pessoas de seus valores específicos que os fazem indivíduos e
o que seria a experiência mais importante da vida. O experimentar o seu
próprio valor, que se encontraria na singularidade, apesar de inserida no
coletivo. Viver sem mitos e sem história é totalmente anormal e doentio
e abafaria os valores criativos da personalidade.
Por trás do mundo consciente de um indivíduo há um mito
atuando a nível inconsciente que se estende através dos séculos. Um
padrão para o ser humano e seu comportamento. Ideias arquetípicas
emanando de outras. Ações promovidas por condicionantes
comportamentais coletivos originam outras, do mesmo modo regidas
pelas mesmas estruturas de resposta comportamentais. A capacidade de
observar esta estrutura possibilitaria prever em alguma proporção o
futuro das coletividades humanas. Assim, por exemplo, Jung afirmou ter
previsto por volta de 1919, o advento de grandes perturbações na
Alemanha, através do estudo da mente de seus pacientes alemães.
A segunda guerra mundial foi um fato histórico marcante. Diria
mais tarde que Hitler parecia o dublê de uma pessoa real. O verdadeiro
Hitler estaria deliberadamente escondido a fim de não perturbar o
processo histórico. Não se poderia falar com ele porque não haveria
ninguém lá. Ele não seria um indivíduo, mas sim uma nação inteira.
A obra de Jung sobre si mesmo e seus pacientes convenceu-o de
que a vida tem um propósito espiritual, além dos objetivos materiais.
Nossa principal tarefa, ele acreditava, é descobrir e cumprir o nosso
potencial inato em profundidade. Baseado em seus estudos sobre
cristianismo, hinduísmo, budismo, gnosticismo, taoísmo e de outras
tradições, concluiu que a jornada de autotransformação, que ele chamou
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
de individuação, é o centro místico de todas as religiões. É uma viagem
ao encontro do Eu total e que vai além dele até o Divino. Ao contrário
de visão de mundo materialista de Sigmund Freud, Jung tendia ao
panteísmo e estava convencido que a experiência espiritual era essencial
para nosso bem-estar. Freud encarava a religiosidade como uma doença
humana necessária. Jung como um bem, relacionado à sanidade mental.
A individuação é o processo de integração do consciente ao
inconsciente, onde residiria o conceito profundamente arraigado de algo
ordenado e ordenador que transcende ao próprio homem. Vale lembrar
que a palavra religião vem do latim religare; ligar a pessoa àquilo que lhe
transcende.
As conclusões de Jung sobre religião e o entendimento de seu
valor prático para a individuação são um contraponto histórico ao
ceticismo e censura freudianas.
Deus e o Eu, psicologicamente estariam intimamente
relacionados. Isto, pelo pensamento junguiano, não significaria que Deus
e o Eu seriam a mesma coisa.
As mandalas, as representações geométricas ordenadas, expressas
pelo inconsciente e representadas pelas culturas humanas, seriam
exemplos de arquétipos que representam ou esquematizam tanto o Eu
residente no inconsciente mais profundo, quanto Deus, o Universo e a
Totalidade. Em momentos de desordem do indivíduo, tais mandalas
surgiriam como uma busca pela ordenação da mente. Os conflitos
residentes no inconsciente pessoal freudiano seriam solucionados pela
ordem observável ao nível do inconsciente coletivo. Tais representações
sugerem um centro que não coincide com a personalidade e alude sim, à
totalidade, ao Eu que não pode ser abarcado pela personalidade
consciente. Tais mandalas seriam os arquétipos fundamentais.
A disputa por correligionários, entre espiritualistas e materialistas
costuma ser acirrada. Materialistas veem nas religiões a origem de todos
os males da humanidade e nesta disputa tentam provar que grandes
cientistas, principalmente os mais atuais, pretensamente mais
esclarecidos e a princípio imunes à ignorância, seriam ateus. Interessante
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
observar que o maior número de fatalidades humanas provocadas no
século XX, foram ocasionadas por dois movimentos políticos de origem
em teorias racionais: o nazismo e o comunismo. O primeiro de
orientação francamente egocêntrica; o segundo institucionalmente
materialista. Cabe assim transcrever literalmente o testemunho de viva
voz de Carl Jung para a televisão inglesa:
Entrevistador: 'E o senhor acreditava em Deus?
Jung aos 84 anos: 'Oh sim!'
Entrevistador: 'E acredita agora?'
Jung: 'Agora? Difícil responder. Eu sei! Não preciso acreditar. Eu sei!'
Deus é uma verdade pessoal. De acordo com Platão qualquer
conhecimento é uma crença que posteriormente se confirma, de modo
que sem crença inicial, nenhum conhecimento posterior se realiza.
Jung descreve um tipo de experiência pessoal que chama de
numinosa. 'O numinoso, indiferentemente quanto a que causa possa ter,
é uma experiência do sujeito independentemente de sua vontade... O
numinoso é tanto uma qualidade pertinente a um objeto visível como a
influência de uma presença invisível que causa uma peculiar alteração da
consciência.' Desafia explicações, porém parece conter uma mensagem
individual que, embora misteriosa e enigmática, também é
profundamente impressionante. Jung observava que a crença, consciente
ou inconsciente; uma disponibilidade prévia para confiar em um poder
transcendente, era uma condição prévia para a experiência do numinoso.
O numinoso não poderia ser conquistado; o indivíduo poderia somente
abrir-se para ele. Porém, uma experiência do numinoso seria mais que
uma experiência de uma força tremenda e compulsiva; é um confronto
com uma força que encerra um significado ainda não revelado, atrativo e
profético ou fatídico. Jung via o encontro com o numinoso como uma
característica de toda experiência religiosa. A numinosidade seria um
aspecto de uma imagem de Deus supraordenada, quer pessoal quer
coletiva.
Investigações de experiências religiosas convenceram-no de que,
em tais ocasiões, conteúdos previamente inconscientes rompem as
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
barreiras do ego e dominam a personalidade consciente da mesma
maneira como o fazem as invasões do inconsciente em situações
patológicas. Contudo, uma experiência do numinoso não é
habitualmente psicopatológica. Diante de relatos de encontros
individuais com o divino, a ele apresentados, Jung sustentava que
necessariamente não seriam prova da existência de Deus; porém, em
todos os casos, as experiências eram de uma profundidade tal que meras
descrições não poderiam dar conta de seus efeitos. A psicologia
humanista contemporânea denomina tais experiências como experiências
máximas dos seres. (conforme Samuels et al.)
Por Jung as pessoas buscam uma experiência arquetípica que lhes
dê um valor incorruptível. As pessoas dependeriam de condições
externas: de seus desejos, de suas ambições, de outras pessoas, porque
não teriam ciência de valor nelas mesmas; não teriam se apossado de um
tesouro que os faria independentes. Tal valor resultaria em liberdade.
Com tal experiência espiritual o indivíduo seria capaz de continuar seu
caminho, sua senda, sua libertação e sua individuação. Ele se converteria
naquilo que é desde o princípio.
Cada homem é chamado a tornar-se aquilo que potencialmente é,
tal como uma semente se converte numa árvore. No entanto alguns
teriam tal destino obstaculizado. Segundo Jung, poderia ser diferente se
tivessem tido o conhecimento e informações apropriadas ou se tivessem
dedicado mais tempo a si mesmos no sentido de explorar-se e conhecerse. Mas isto não seria popular, usual, comum, propagandeado. As
pessoas seriam chamadas a uma vida não refletida e superficial. O ponto
de vista usual é totalmente voltado para o que ocorre fora de nós
mesmos.
Por outro lado o homem não suporta uma vida sem significado;
não aceita que sua vida não seja significativa.
Quanto à morte, para Jung, uma parte das faculdades da psique
humana, não está limitada ao espaço e ao tempo e tal fato seria evidente
e observável no presente e em todos os períodos da história da
humanidade. Se há tal parcial independência, a consequência é a de que
uma parcela da psique não está sujeita às leis que regem o tempo e
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Carl Gustav Jung
espaço, o que indicaria uma continuidade prática de algo do ser humano,
mesmo após o eventual desaparecimento no espaço e uma eventual
interrupção no tempo.
A atitude de Jung com relação ao mal era pragmática. Como
repetidamente dizia, não estava interessado nele em uma perspectiva
filosófica, mas, sim, de um ponto de vista empírico. Como
psicoterapeuta, era com o julgamento subjetivo da pessoa quanto àquilo
que constituía o bem e o mal que ele percebia ter de lidar em primeiro
lugar. O que poderia, em determinadas circunstâncias, parecer o mal ou,
ao menos, sem significado e sem valor, poderia, a um nível mais elevado
da consciência, parecer uma fonte de bem.
Quando menino, Jung foi levado a encarar o lado escuro, impuro
e naquele tempo inadmissível de Deus em uma visão que conceituou
posteriormente como a sombra do Deus cristão. Bem mais tarde
observou que nas profundezas do inconsciente, luz e sombra; bem e mal
formam uma unidade paradoxal.
A noção de bem e mal seriam princípios de nosso julgamento
ético, e como princípios, de ordem superior e mais poderosos que o
julgamento pessoal, não podendo, portanto ser relativizados. Ao ser
humano não seria permitido dar-se ao luxo de direcionar-se ao mal
impunemente. Os humanos têm de lidar com o mal como tal. Em
diferentes épocas de sua carreira, Jung foi duramente criticado por
teólogos por sua insistência na realidade do mal. Não podemos saber o
que o bem e o mal são em si mesmos, insistia ele, porém os percebemos
como julgamentos e em relação à experiência. Ele os via não como fatos,
mas como respostas humanas a fatos e, assim, em sua opinião, nenhum
dos dois poderia ser considerado como diminuição ou privação do outro.
Psicologicamente, aceitava ambos como 'igualmente reais'. O mal assume
seu lugar como uma realidade efetiva e ameaçadora em oposição ao bem,
uma realidade psicológica que se expressa simbolicamente tanto na
tradição religiosa como o demônio, como na experiência pessoal.
A contribuição de Jung no campo da ética e da moralidade era do
ponto de vista de um analista e psiquiatra: 'Por trás da ação de um
homem não se encontra nem a opinião pública nem o código moral, mas
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Carl Gustav Jung
a personalidade da qual ele ainda é inconsciente'. O problema da moral
se apresenta psicologicamente quando uma pessoa encara a questão de
saber no que ela pode se tornar em comparação com o que ela irá se
tornar se determinadas atitudes forem mantidas, decisões tomadas ou
ações estimuladas. Jung reconhece deste modo a orientação natural,
francamente consequencialista de toda a criatura humana. Afirmava que
a moralidade real não é invenção da sociedade, mas sim inerente às leis
da vida. É o homem agindo com consciência de sua própria
responsabilidade para consigo mesmo.
Contrastando com o superego Freudiano, Jung sugeria que era o
princípio de individualidade inato que compele toda pessoa a fazer
julgamentos morais em concordância consigo própria. A
responsabilidade primária com o ego, por um lado, e, por outro, as
necessidades do Eu integral, relacionadas àquilo que este tem por destino
se tornar é capaz de fazer as mais difíceis solicitações. Tais apelos
pareceriam ter pouca ou nenhuma relação com o convencionado nos
meios sociais, contudo manteriam equilíbrio com eles.
A capitulação, a renúncia e o sacrifício consciente do ego em prol
das necessidades do Eu, aparentemente não traz uma satisfação exterior
pessoal e imediata, mas 'funciona', usando a expressão de Jung.
Qualquer encontro com um arquétipo apresenta um problema
moral. Jung parece dizer ser possível dizer um não ou ao contrário, agir
em conformidade ao clamor do Self . Porém, tentar ignorar ou negar o
Self seria imoral, porque nega o único potencial de alguém para ser.
Jung é de opinião que o que faz os grandes homens e a diferença
entre eles está no que conhecem deles mesmos e nas coisas que ocorrem
em seu interior.
'Precisamos de maior entendimento do homem; da natureza
humana. O único perigo real existe em nós mesmos e não temos
consciência disto; não sabemos nada do homem.'
A natureza não cria métodos de extermínio em massa ou de
destruição do meio vital. A natureza não os constrói ou aciona. A
natureza não delega poder a poucos indivíduos para decidir a existência
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de todos e de tudo. 'Somos o maior perigo! A psique é o maior perigo!
Quão importante é saber sobre ela! Mas não sabemos nada sobre ela!'
O Eu é meramente uma palavra que descreve a totalidade da
personalidade, mas a personalidade total de um homem é inalcançável.
Sua consciência pode ser descrita, mas seu mundo inconsciente não,
porque do inconsciente nada se saberia realmente. Não conhecemos
nossa personalidade inconsciente; temos apenas pistas e certas ideias.
Não se pode dizer onde termina o homem.
De acordo com Jung, nós necessitamos desenvolver o homem
espiritual interior. O indivíduo único cujo tesouro está oculto nos
símbolos de nossa tradição mitológica e em nossa mente inconsciente.
'...Não vem o Reino de Deus com uma visível aparência... Nem dirão: Ei-lo
aqui! Ou: Lá está! Porque o Reino de Deus está no meio de vós.'
Lucas 17: 20-21. João 10:30 /10:34 /14:28 Mateus 11:28-30.
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Ética evolucionária
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Ética evolucionária
A Ética Evolucionária tem sua origem, a rigor, com Charles
Darwin (1809-1882). Graças às suas observações, possibilitadas por suas
viagens pelo planeta, foi desenvolvida a Teoria da Evolução a qual hoje
está sobejamente comprovada. As bases de tal teoria são simples: a cada
geração surge um certo grau de variação entre os indivíduos de uma dada
espécie. Isto é, irmãos não são normalmente rigorosamente semelhantes
entre si, de modo que indivíduos de uma mesma espécie apresentam
ligeiras variações entre eles. Tais variações tendem a ser transmitidas para
as próximas gerações. Os portadores de variações que num determinado
meio e conjuntura se mostram mais favoráveis à sobrevivência e
reprodução tendem a predominar e se estabelecer ao longo do tempo
como maioria. Ou seja, as características favoráveis à sobrevivência
tendem a permanecer graças à maior reprodução. Já as características
desfavoráveis, por sua vez, tendem a desaparecer. Com isto as
características das espécies são variáveis ao longo do tempo, conforme as
variações ambientais, isolamento geográfico, colonização de novos
territórios e outras razões. Por fim, o acúmulo de tais variações termina
por fazer surgir novas espécies.
Em termos estritamente biológicos, pelos conhecimentos que se
tem hoje, a evolução é explicada pelo mecanismo da mutação gênica e da
transmissão hereditária.
Na época de Darwin, a ideia do Criacionismo era fortíssima e
questão de dogma religioso indiscutível no mundo ocidental. Por tal
concepção, todas as espécies do planeta surgiram numa mesma semana,
que os "especialistas" localizam como tendo ocorrido a cerca de 6.000
anos atrás. Interessante observar que ainda hoje existem Criacionistas
ferrenhos, o que permite inferir a força de tal concepção quando da
descoberta efetuada por Darwin.
É sabido que desde o início, o autor percebeu a aplicabilidade de
sua descoberta ao ser humano, e ao ser humano não somente por sua
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética evolucionária
estrutura corpórea, como também psicológica e comportamental. Ou
seja, a influência do mecanismo evolucionário na alma e na ética de cada
um de nós. No entanto, devido às resistências esperadas e às suas
responsabilidades e conflitos interiores, num primeiro momento, a
Teoria da Evolução foi divulgada apenas numa abordagem genérica para
espécies não humanas. Assim, a partir de estudos iniciados em 1838,
publicou 21 anos após a 'Origem das Espécies', obra que teve sua
primeira edição esgotada em apenas um dia. Somente após outros 12
anos, em 1871, mostrou a abrangência da teoria aos aspectos
estritamente biológicos da espécie humana, pela publicação da obra 'A
Descendência Humana'. Nela demonstra o parentesco inegável entre o
homem e os demais primatas, principalmente aqueles africanos de
grande porte. Desta forma inferiu corretamente aquilo que a
paleontologia e a genética atualmente comprovam como verdadeiro: que
nossa espécie surgiu no continente africano, a partir de um ancestral
comum ao homem e aos demais primatas antropóides (chimpanzé,
gorila...).
Há muito, a evolução biológica e inclusive humana é comprovada
como fato concreto e as ideias de Darwin de modo geral confirmadas.
Em 1942, Julian Huxley publica 'Evolução: a síntese moderna.' Nesta
obra, trás a Teoria de Darwin fundamentada pelos estudos de genética,
paleontologia, zoologia, anatomia comparada e de outras áreas
transmissoras do avanço científico até então. Tal confirmação das
concepções darwinianas passaram a ser conhecidas como 'Darwinismo
Renovado', ou 'Neo Darwinismo', ou ainda por 'Teoria Sintética da
Evolução'.
Infelizmente parece ser regra geral que nossa espécie num
primeiro momento faz muito mau uso dos avanços científicos que
obtém. Isto ocorreu também com o conhecimento do processo
evolucionário. Logo após a segunda publicação de Darwin, cientistas
observaram que as raças aparentemente mais desenvolvidas do planeta
eram as de origem europeia, digamos a branca ariana. As demais seriam
raças evolutivamente inferiores, o que seria testemunhado devido a um
desenvolvimento também inferior. Assim tornou-se científica a
122
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética evolucionária
conclusão de que se a seleção natural é boa para a evolução da espécie,
permitindo que apenas os mais aptos sobrevivessem, dever-se-ia suprimir
políticas sociais de ajuda a pobres, fracos, doentes, menos capazes,
deixando prevalecer os mecanismos de competição sem restrições, de
modo que os mais fortes, competitivos e empreendedores fossem
favorecidos.
Observou-se também que tais raças pretensamente
inferiores eram aquelas que tinham maior capacidade reprodutiva (que
por sinal é um critério positivo na avaliação de superioridade
evolucionária). Como conclusão, também científica, tal fato fazia
concluir que as raças supostamente superiores (que se reproduziam
menos) tendem a desaparecer em favor daquelas pretensamente
inferiores (que se reproduzem em maior número).
Tais conclusões, oriundas dos homens de ciência da época, levou
ao estabelecimento, velado num primeiro momento, de políticas
artificiais de auxílio ao processo evolucionário humano, por meio de
técnicas grosseiras de seleção artificial, análogas àquelas que os homens
desde há muito executavam com espécies vegetais e animais (por
exemplo, cães e pombos). Tal movimento se estabeleceu com força num
primeiro momento nos EUA. Aí se principiou a esterilizar 'anormais',
como por exemplo, doentes mentais. Tais ideias justificaram também em
parte a segregação racial neste e em outros países dominados por povos
de origem europeia. Rapidamente tais concepções científicas se
estabeleceram também fortemente na Alemanha, fazendo surgir o
movimento da Eugenia ou da 'Raça Pura'. Doentes mentais, ciganos,
homossexuais, semitas, foram paulatinamente conduzidos ao extermínio.
Tal assassinato generalizado foi considerado por longo tempo tolerável
ou justificável, com a manutenção da neutralidade internacional, por
estar em sintonia com os conhecimentos científicos então em vigor.
O horror devido ao extermínio em massa fez surgir após a
Segunda Guerra Mundial um movimento contrário, de demonização do
conceito de subespécie e de raça humana, por temor de vir a justificar o
recrudescimento de práticas racistas. Censura tem sido executada ao
pensamento pseudocientífico concernente a este tema de nosso passado
recente. Tanto é que, como ilustração, há até pelo menos dois anos atrás,
123
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética evolucionária
os textos concernentes a isto, existentes na Biblioteca Pública do Paraná,
só podiam ser consultados por autorização expressa da direção ou por
mandato judicial.
A ideia de Eugenia apresenta várias falhas lógicas. A fertilidade
reprodutiva denota uma vantagem para a sobrevivência, e portanto, é um
aspecto positivo do ponto de vista evolucionário. O conceito de que uma
raça humana seja superior à outra é no mínimo muito relativo. Neste
aspecto, pesquisa recente demonstra que a percepção interior de
felicidade e realização dos povos costuma ser inversamente proporcional
ao assim considerado progresso social, econômico e cultural. As maiores
taxas de suicídio são observadas nos países e classes prósperas, e muitos
dos indivíduos considerados pelos padrões atuais como bem sucedidos
tornam sua existência tolerável pelo uso de medicamentos psicoativos.
Por sua vez a diversidade de raças é o que garante a sobrevivência
de uma espécie e historicamente se observa que é a diversidade de
espécies que tem garantido a manutenção exuberante da vida sobre o
planeta. Ou seja, as variações entre os grupos de indivíduos é uma
garantia de existência, frente à mutabilidade das condições ambientais e
conjunturais, facilmente observável ao longo da história. Ainda podemos
observar que indivíduos portadores de características significativamente
distintas, num prazo curto do ponto de vista evolutivo, de uns poucos
milhões de anos, são igualmente aptos e capazes de sobreviver num
mesmo meio e numa mesma conjuntura. Ou seja, a estrada evolutiva não
é única, mas apresenta inúmeros caminhos alternativos. Neste sentido,
Darwin demonstrou que os organismos bem adaptados a um meio,
apresentando boas características de reprodução e sobrevivência,
permanecem a existir em tal ambiente. Como consequência, podemos
observar em um mesmo local, milhares de diferentes espécies e muitos
bilhões de diferentes indivíduos, que costumamos taxar de menos
evoluídos, mais fracos, menos perfeitos, etc. Digno de nota é o fato que
são justamente tais espécies e indivíduos considerados menos evoluídos
os que sobrevivem em situações extremas.
Apesar de comprovada, ainda há muita resistência ao
reconhecimento da evolução da estrutura física humana. No entanto
124
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética evolucionária
resistência muito maior e mesmo desinformação, intencional ou não, se
observa ao reconhecimento da relação entre os mecanismos
evolucionários em ação multimilionar e o comportamento humano na
atualidade.
Em 1975, Edward O. Wilson publica 'Sociobiologia: a nova
síntese'. Na obra propõe o estudo do comportamento dos organismos
desde um ponto de vista Darwinista e a integração deste estudo com
outros ramos da ciência, em especial com a Etologia (Biologia do
comportamento, fundada por Nikolas Tinbergen e Konrad Lorenz) e a
Ecologia, que pretende o estudo das múltiplas relações entre os
organismos e seus ambientes. Também nesta obra sustenta a aplicação
dos modelos que explicam o comportamento social dos animais ao
estudo do comportamento social humano. Ou seja, estabelece-se assim a
ligação formal entre a Lei da Evolução e a Ética, visto que sabemos que
as questões éticas tratam especificamente das atitudes que os indivíduos
executam nas suas relações com os outros.
A concepção da evolução permite explicar o comportamento
humano em diferentes circunstâncias, bem como a origem dos valores
que o balizam. Neste sentido, a Ética Evolucionária é uma teoria da
Metaética, ou seja, a análise do que está além ou por detrás da conduta
humana. Ou seja, explica a origem, a estrutura, o funcionamento e o
comportamento dos seres vivos, inclusive o homem. Em 1978, ainda
Edward O. Wilson publica 'Da Natureza Humana', onde amplia e
aprofunda o estudo do comportamento humano.
Dentre os traços marcantes de origem evolutiva, temos o da
sexualidade, o da autopreservação, a agressividade ou egoísmo e o
altruísmo.
Tanto a força da sexualidade quanto a da agressividade já haviam
sido observadas por Freud, residentes nas profundezas do inconsciente
de todos nós.
A sexualidade é muito facilmente explicável do ponto de vista
evolucionário, visto que os organismos que não se reproduzem
simplesmente não se perpetuam de geração para geração. Do mesmo
modo os indivíduos necessitam sobreviver para existir. Basicamente a
125
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética evolucionária
sobrevivência de um dado indivíduo é essencial somente até a ocasião da
reprodução. Em espécies mais complexas, até o momento no qual a
prole possa sobreviver por si.
Nas espécies sexuadas, inclusive humanas, a busca de parceiros
mais favoráveis à sobrevivência da prole e à geração de uma
descendência de maior aptidão é procedimento padrão. A atração por
parceiros simétricos (beleza), saudáveis, de seios grandes, quadris
largos,... é um exemplo.
Quanto à agressividade e ao egoísmo existem vários níveis de
justificação. Os pais tem que apresentá-la em certa medida no
acasalamento e também posteriormente para garantir a sobrevivência de
sua prole dentro do grupo. As fêmeas devem tê-la para com os filhos
para promover o desmame e a autonomia. Já os indivíduos de nossa
espécie se viam forçados a matar para comer e portanto, subsistir. O
poder dentro do grupo, tanto das fêmeas quanto dos machos
dominantes, permitia um maior número e uma maior opção de parceiros
e a geração de filhos mais numerosos e mais aptos. Tal poder exigia a
agressividade e o egoísmo para a sua manutenção e a agressividade e o
egoísmo para a manutenção da estrutura social e comportamental
vigente. Por fim nossa espécie ao longo da história conseguiu sobreviver,
não só fugindo das situações de risco, como também superando-as,
graças à agressividade que possibilitava a realização de contra-ataques e o
extermínio de nossos predadores.
Historicamente, como já mencionamos, surgimos como tipo há
cerca de dois milhões de anos, na região central da África, que,
inicialmente uma exuberante selva, se transformou por modificações
climáticas em savanas, levando-nos de arborícolas a bípedes. Nossa
estrutura social primitiva era a de 15 a 20 indivíduos de uma mesma
família. Neste contexto há mais um motivo para a agressividade humana
que é a relativa à defesa de território. Uma gleba de terra se mostrava
essencial à sobrevivência para fornecer água e alimento através da coleta
ou da caça. Enquanto a proteção e cooperação com os próximos, os
indivíduos do mesmo grupo, era essencial, como discutiremos adiante, a
126
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética evolucionária
agressividade, o egoísmo e a competição para com os de outras
coletividades se mostrava útil e perdurável hereditariamente.
Todos os motivos acima enumerados nos tornam uma espécie
com um componente inato de egoísmo.
Guerras são técnicas de agressão organizadas e historicamente
endêmicas em nossa espécie, desde os primórdios, entre os bandos de
coletores até o presente.
Segundo Konrad Lorenz a agressividade humana necessita ser
aliviada de algum modo, por exemplo, através de esportes de
competição.
Interessante observar que em condições naturais o instinto de
agressividade é contrabalançado com o instinto de sobrevivência, pois a
raiva e mais especificamente o combate potencialmente geram dano, do
qual temos medo. Neste sentido a ameaça, a intimidação e em outros
níveis, o fingimento e a dissimulação, com pouca agressão física efetiva,
podem ser mais favorecidos pela seleção. Em outras palavras, estratégias
intermediárias tendem a ser mais eficazes e prevalecer, em relação a
estratégias extremas.
Paradoxalmente ao que discutimos quanto ao egoísmo, a
investigação científica mostra que o altruísmo é uma realidade vital,
também fruto da evolução. Tal componente é uma das formas de
comportamento mais ampla e sistematicamente estudadas pela
Sociobiologia.
Um organismo altruísta revela-se por vezes um ser mais bem
sucedido para disseminar um maior número de cópias suas, que por sua
vez tenderão a continuar a apresentar comportamentos altruístas.
Como exemplo, podemos citar o 'altruísmo de parentesco' onde o
comportamento de um indivíduo que favoreça a sobrevivência e
reprodução de parentes próximos é o selecionado e é o que tende a
perdurar, pois pela hereditariedade se tornará predominante àquele
comportamento que pretenda a sobrevivência apenas do próprio
indivíduo considerado. Assim, aquela conduta na qual um indivíduo do
grupo se arrisque e eventualmente morra ou deixe de se reproduzir, mas
127
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética evolucionária
que permita que irmãos – os nossos geneticamente mais semelhantes sobrevivam e se reproduzam, é o favorecido pela seleção natural.
Do mesmo modo um grupo humano com traços altruístas e de
conduta cooperativa tende a se perpetuar e crescer enquanto que aquele,
onde os indivíduos são egoístas e competitivos entre si, se dissolve ou
diminui.
Outros comportamentos que a nossa espécie está propensa a ter
são demonstrações concretas de simpatia para com aqueles que
concretamente beneficiam outros e demonstrações concretas de aversão
àqueles que causam danos a outros. Atitudes de favorecimento para com
indivíduos com pontos de semelhança e de rejeição aos diferentes,
mesmo a partir de muito reduzidos dados da análise de diferenças e
semelhanças e mesmo que tais informações sejam de ordem sutil. Ainda
uma propensão a atos de simpatia aos agentes que punem outros agentes
causadores de danos. Ou seja, a tendência à vingança é igualmente de
origem evolutiva e salvo melhor entendimento o mesmo se poderá
afirmar de todos os vícios e virtudes do ser humano.
A presença destas e outras tendências comportamentais,
estudadas pela Sociobiologia, se deve a assim chamada 'Eficácia
Darwinista', que é a capacidade de uma característica se disseminar e se
perpetuar em uma dada população.
Talvez só o fato de entendermos quais são as nossas tendências
comportamentais e o mecanismo como elas se estabelecem e como
podem ser explicadas, nos torne mais aptos a gerenciar os costumes por
meio da razão.
A Teoria da Evolução estabeleceu provavelmente de forma
definitiva uma abordagem na qual as reflexões éticas até então levadas a
cabo principalmente de forma especulativa, retornassem a ser
influenciadas pela inferência, na observação e experimentação. A
Sociobiologia – o entendimento do comportamento humano por
mecanismos biológicos – afasta uma parte da subjetividade no processo
de nosso autoconhecimento. O entendimento dos motivos pelos quais
os diferentes comportamentos surgem num determinado indivíduo,
128
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ética evolucionária
auxilia-nos em nosso processo pessoal de autoexploração, bem como
pode amenizar um pouco as cargas psicológicas de culpa, erro, pecado,
estabelecidas há centenas de anos por algumas religiões ocidentais.
Por outro lado a Ética Evolucionária é um conhecimento
científico recente, e como já mencionamos aqui, frequentemente nossa
espécie faz um mau uso inicial do seu conhecimento novo.
Neste sentido é sumamente importante salientar que o
Evolucionismo como acima exposto, baseado na seleção natural, não
permite o estabelecimento de qualquer obrigatoriedade comportamental.
Explica a gênese de instintos que fazem haver tendência a certas atitudes
específicas. Tais tendências se manifestam, influenciadas pelo ambiente e
conforme o desenvolvimento e a história de cada indivíduo.
A título de conclusão deste breve capítulo e pelo que vimos,
temos uma tendência hereditária a ações egoístas para com os distantes e
atitudes altruístas para com os que nos são de algum modo próximos.
Aproximarmo-nos dos parecidos e rejeitarmos os diferentes. Sendo a
ética a prática do bem, a disseminação e a intensificação de
comportamentos éticos se dá na medida que os considerados distantes e
diferentes passem a ser vistos como próximos e iguais. Na medida que
nos conscientizemos sermos todos nós, os cerca de 7 bilhões de seres
humanos sobre o planeta, uma só família, uma única fraternidade. Que
desenvolvamos a tolerância. Que a visão das diferenças tome um lugar
secundário em relação à observação das intensas semelhanças entre
todos nós.
129
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
TERCEIRA PARTE. PRINCÍPIOS ÉTICOS
TERCEIRA PARTE.
PRINCÍPIOS ÉTICOS
131
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
11
Jesus
Os ensinos ministrados por Jesus referem-se em grande medida,
ao comportamento e tal fato justifica serem considerados aqui. Seus
ensinos que tratam da conduta estão essencialmente inseridos no campo
da moral, segundo a classificação já efetuada, e não da ética, no sentido
que estão apresentados sem a preocupação de maiores explicações a
nível racional. Por sua vez me parece mais adequado neste curso manter
o enfoque principal na ética e na racionalidade. Em acréscimo, também
já manifestamos o conceito de que pensamentos oriundos de esferas tais
como da espiritualidade e da religião se inserem no campo da ética, desde
que racionalmente justificáveis.
Interessante relembrar o fato de que a população brasileira e
mundial tem de modo geral, suas atitudes fortemente influenciadas pela
religião. Também de modo geral, podemos dizer que é das religiões a
origem básica das regras morais. Através da pesquisa realizada pela
Enciclopédia Britânica em 2005, a maioria da população mundial
(33,06%) declara-se como seguidora de um dos diversos ramos do
cristianismo. Segundo o censo de 2010, realizado pelo IBGE, 86,8% da
população brasileira declara-se cristã.
Tendo em vista o exposto, fiz o esforço de procurar transmitir os
pontos que me parecem mais importantes das orientações deste
expoente de nossa espécie, o que penso justificar-se-ia por si mesmo,
como também procurar analisar e discutir e justificar racionalmente, na
medida de minhas limitações, suas orientações. Como já comentado, as
propostas morais, defensáveis pela lógica e pela indução, passam
também à esfera da ética.
Fontes não bíblicas esparsas confirmam que Jesus é um
personagem histórico bem como uma liderança judia que foi julgada e
executada. As demais fontes são as bíblicas do Novo Testamento, além
de inúmeras consideradas "não inspiradas" pelas lideranças cristãs,
133
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
séculos após seu advento, rotuladas costumeiramente pelo termo
"apócrifas".
Para a elaboração deste trabalho analisamos quatro textos que nos
parecem mais pertinentes e fundamentais: O evangelho, ou boa nova de
João, essencialmente místico, e as boas novas de Marcos, Lucas e
Mateus, descritivas, sendo a última a mais completa. Por sua vez, estes
três últimos textos, segundo parte dos estudiosos do assunto, tem sua
origem em dois outros mais primitivos, atualmente perdidos e
conhecidos em alguns meios, pelos nomes de Proto-Evangelho de
Marcos e o Manuscrito Q. Se considera a primeira redação destes quatro
textos, como tendo ocorrido nos séculos I a III d.C.
Salvo melhor juízo, a maior parte dos demais textos do Novo
Testamento, refletem as práticas e os costumes das diversas
comunidades cristãs e os ensinamentos veiculados por suas lideranças. É
oportuno destacar que a partir do Imperador Constantino, por volta de
300 d.C., a pluralidade de interpretações quanto à doutrina do Mestre foi
proibida. Até então prevalecia uma interpretação mais ou menos livre
quanto aos seus ensinamentos. No entanto, a partir daquela data, apenas
uma linha de pensamento foi tolerada, sendo as demais, de uma ou outra
forma, suprimidas ou pelo menos perseguida. Assassinatos, coerções,
queima de textos antigos foram algumas das medidas efetuadas em prol
desta causa. Os cristãos discordantes da linha oficial estabelecida pelo
Império Romano, foram perseguidos e eventualmente dizimados por
heresia. Os não cristãos foram perseguidos e eventualmente dizimados
por paganismo.
Por consequência e a princípio, o veiculado no Novo Testamento
seria apenas o que não contradiz tal linha considerada oficial e a
"correta", com exceções esparsas encontradas nos textos que
possivelmente já não poderiam ser censurados, sob risco de extinguir o
próprio fundamento bibliográfico da religião em fase de consolidação.
(Para maiores esclarecimentos quanto ao acima exposto, o leitor tem a
opção de consultar qualquer livro redigido por autor competente e
imparcial, que trate da história do cristianismo.)
134
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
Jesus é reconhecido como oriundo de Nazaré, da região da
Galiléia. (Mt 21,11) Entre a região da Galiléia ao norte e a Judéia ao sul,
onde se encontra Jerusalém, tínhamos na época de Jesus, a Samaria. A
Samaria era ocupada por um povo diferente do povo judeu, com
costumes, numa certa medida, distintos. Na região da Galiléia existiam
cidades com forte influência grega. Segundo alguns apócrifos, nestas
cidades o pai de Jesus, juntamente com seus irmãos, exerciam com
frequência a profissão de construtores. Sendo da Galiléia, Jesus era um
cidadão do "interior" e como interiorano, facilmente reconhecido através
do sotaque por aqueles da metrópole.
O ponto central da orientação para a conduta humana efetuada
por Jesus me parece um bom ponto de partida para este texto e
felizmente há o relato literal feito por ele quanto a isto. Perguntado
quanto qual seria o maior mandamento da Lei, ele respondeu: "Amarás o
Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a
tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. O segundo é tão
importante como o primeiro: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Nestes dois mandamentos se resume toda a Lei e os Profetas." (Mt 22,
37-40; Mc 12, 29-31; Lc 10,27)
Para compreender racionalmente esta orientação é essencial
entender por meio da razão o verbo amar, que tal como os verbos em
geral, refere-se à ações. Ou seja, responder à pergunta, o que significa
amar, da melhor maneira possível.
Para procurar entender o que amar significa, vamos analisar os
sentimentos e as atitudes de algumas pessoas arquetípicas (indivíduos
padrão) em relação a outras, pois amar se relaciona basicamente a um
algo que é o objeto deste amor.
É bem clássica a consideração de que não há amor maior e mais
puro do que a de uma mãe por seu filho. Por que afirmamos isto ou
quais são as atitudes – comportamentos - desta mãe que nos fazem
efetuar tal afirmação? Em síntese, uma mãe é capaz de se expor e
135
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
suportar qualquer sofrimento em favor da prole. Tal comportamento é
observável inclusive num sem número de espécies animais. Tal
sofrimento é abraçado em prol do bem, como a própria sobrevivência ou
em alguma medida, em nome da felicidade de tais pósteros. Mais uma
vez, em síntese, uma mãe faz bem ao seu filho, inclusive, se necessário
sofrendo, e eventualmente ao preço de sua própria vida.
Analisemos agora o sentimento que envolve um casal. Para a
primeira aproximação há normalmente uma forte atração,
costumeiramente calcada nas características físicas de cada um. A ciência
atual tem demonstrado neste sentido a influência inconsciente de
qualidades relevantes ao interesse reprodutivo, como normalidade,
simetria, características estruturais (por exemplo, quadris largos e seios
grandes) e até mesmo o cheiro (ao que parece numa análise automática
inconsciente de compatibilidade genética). Outras características também
são mais ou menos inconscientemente analisadas como tom de voz e o
desenvolvimento muscular. A maioria de nós tem experiência dos passos
seguintes: aproximação e alguma forma de exibicionismo, o tocar (por
exemplo, pegar nas mãos e abraçar), o beijar, o apalpar o corpo e suas
zonas erógenas, e o fazer sexo.
Nesta fase pode-se observar que o interesse de cada um resumese de modo simplificado à busca egoísta por prazer. Ao sentimento
associado a esta busca, podemos denominar "paixão". Tal busca pode ser
considerada a intenção da realização de um importante e intenso bem
para si mesmo.
Caso ambos tenham obtido um bem satisfatório e haja a
possibilidade que este se repita e aumente é bem possível que novos
encontros ocorram. Associada à dinâmica da paixão, outros bens podem
ser acrescentados. O parceiro pode nos proporcionar alegrias, novas
experiências, novos conhecimentos...
De qualquer modo surge um novo impulso no casal, que é o
desejo de "ficar junto". É mais ou menos clássica a postura dos
namorados em se tornarem inseparáveis, permanecendo sempre que
136
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
possível e adequado um ao lado do outro, tanto no cotidiano como em
viagens.
Por outro lado, desde a fase que denominamos por paixão, pode
começar a ocorrer um gradual enriquecimento dos sentimentos: cada
indivíduo não busca agora apenas a sua felicidade e seu prazer, mas
também gradualmente o prazer e a felicidade do outro. Ou seja, cada um
não busca agora apenas o seu bem, mas também o bem do outro.
Por fim, observemos o que sente um filho em relação a sua mãe.
Tal sentimento, quem sabe melhor denominado como impulso, pode ser
visto de modo mais isento e puro em inumeráveis outras espécies
animais. Os filhotes no que nascem se agarram desesperadamente às suas
mães ou delas ficam o mais próximo possível. Tal conduta é essencial
para sua sobrevivência. Do mesmo modo, se é que podemos dizer que
um bebê quer algo, é o de estar o mais próximo possível de sua genitora.
Tal proximidade pretende obvia e exclusivamente o seu próprio bem.
Tal filho, numa etapa já bem mais avançada de seu
desenvolvimento pode começar a ansiar não só por seu próprio bem
estar, mas também pelo bem de sua genitora. Permanece, porém,
normalmente constante a vontade de não se afastar da mãe e com ela
manter vínculo.
Pelo exposto podemos concluir que aquilo que chamamos por
amor é um sentimento complexo, com duas características fundamentais:
uma essencialmente passiva que é a de desejar permanecer junto; unido.
Outra basicamente ativa, de fazer o bem ao outro. Tanto uma como a
outra forma de amor não afasta necessariamente a busca do bem a si
mesmo. Em situação extrema, no entanto, como podemos observar no
comportamento de uma mãe em relação ao seu filho, a ação de fazer o
bem se torna prioritária em relação àquela de recebê-lo.
O relatado acima é verdadeiro e facilmente observável no
presente, e obviamente na época de Jesus. Desta forma a sua
recomendação moral pode ser reescrita:
137
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
"Permaneceis unidos, em união, em comunhão e fazeis o bem ao
Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a
tua mente. Permaneceis unidos, em união, em comunhão e fazeis o bem
ao teu próximo como a ti mesmo."
A primeira frase é uma questão que envolve comportamento, mas
também a crença em Deus. Não iremos analisá-la aqui. Entretanto é
oportuno comentar que o único modo de procurar fazer bem a um Ser
Onipotente e Pleno é de modo indireto, fazendo bem àqueles que este
Ser ama. Passemos a observar a segunda afirmação.
Pela leitura da parábola conhecida como a do bom samaritano,
pode-se entender que o termo "próximo" se refira a qualquer pessoa que
estiver dentro de nossa área de atuação, independente de qualquer tipo
de divergência. (Lc 10,29-37)
Tal noção de que próximos sejam todos aqueles ao nosso alcance
é auxiliada pela recomendação de estarmos unidos com todos. Ou seja,
sermos solidários ou termos por todos, empatia.
Em outro texto já mostramos que a principal linha de
pensamento ético tem como seu postulado fundamental o de fazer o
bem. A segunda das afirmações de Jesus reescrita acima implica
diretamente, frente a isto, sua recomendação a sermos éticos fazendo o
bem ao outro como a nós mesmos.
Porém o que é bem? É razoável afirmar que em muitos livros de
filosofia se debate tal questão. Não me parece que se tenha chegado a
uma base de consenso a respeito disto. Por outro lado, em termos
práticos, cada um de nós tem um conceito formado do que é bom ou
mau para si mesmo. A grande maioria das pessoas considera, por
exemplo, ser mal ter fome ou sede e bom ser saudável, de modo que me
parece o critério mais objetivo de fazer o bem, o se fazer aquilo que
julgamos um bem a nós mesmos. Ou seja, por exemplo, se virmos
alguém com sede, já que nós consideramos a sede ruim para nós, aplacar
tal sede na medida de nossas limitações. (Me parece oportuno confirmar
se o outro efetivamente deseja ter sua sede saciada.)
138
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
Ao que tudo indica esta era a linha de pensamento de Jesus, pois
no contexto da explicação de como o "Pai que está nos céus" se
comporta, ele fez a recomendação com palavras tais como: "Portanto,
tudo o que quereis que os outros vos façam, fazei o mesmo também vós
a eles: nisso está a Lei e os Profetas." (Mt 7,12) Ou então: "Fazei aos
outros como quereis que os outros vos façam." (Lc 6,31)
Assim chegamos a uma redação mais esclarecida do princípio
fundamental da ética proposta por Jesus: Fazer ao outro o que gostaria
que fosse feito a mim, caso eu me encontrasse na mesma situação que
ele.
Se analisarmos criticamente o que efetuamos até aqui, me parece
que concluiremos que apenas procuramos entender melhor o significado
de termos; palavras. Também me parece que conseguimos entender um
pouco melhor a orientação fundamental de Jesus. No entanto, por falta
de justificativa racional ainda nos encontramos no campo da moral. Não
julgo que cometo algum erro, demonstrando agora que este também é
um princípio ético – racional – através do emprego das técnicas de
dedução e da indução.
O raciocínio dedutivo baseia-se na lógica. Por ela, duas ou mais
afirmações verdadeiras chegam a uma conclusão, uma nova afirmação,
verdadeira, desde que tais afirmações, premissas sejam verdadeiras e de
que tais premissas acarretem logicamente na conclusão. Ou seja, a partir
de duas premissas, se elas acarretam logicamente na conclusão, dizemos
que o raciocínio é válido e caso as premissas sejam verdadeiras,
consideramos a conclusão também verdadeira.
Passemos à argumentação:
Premissa 1: "Pessoas normais - racionalmente orientadas e sadias
- almejam o bem para si mesmas."
Talvez pudéssemos considerar a restrição: "racionalmente
orientadas e sadias" até mesmo um excesso de rigor em nossa
argumentação, pois até anormais ou doentes, quando ao nosso ver,
cometem loucuras contra si, as estão considerando um bem.
139
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
Premissa 2: "A concepção do que é 'bem' é variável de um
indivíduo para outro."
Por exemplo, alguns consideram um bem comer carne e outros
não.
Conclusão 1: "A conceituação individual de bem consiste naquilo
que é almejado."
Salvo melhor juízo, tais premissas acarretam logicamente na
conclusão, tornando o raciocínio válido. Salvo melhor juízo também, tais
premissas são verdadeiras, de modo que a conclusão também o é.
Passemos a uma próxima dedução:
Façamos uma nova premissa, que é aquela que comprovamos no
raciocínio anterior:
Conclusão 1 = Premissa 3: "A concepção individual de bem
consiste naquilo que é almejado."
Acrescentemos agora uma nova premissa:
Premissa 4: "O essencial da ética (, comportamento individual
adequado, ) é fazer o bem (a princípio ao outro).
Tive a oportunidade de ouvir tal afirmação diretamente do
professor Rosala Garzuze, eminente docente de ética e de outras
disciplinas da Universidade Federal do Paraná. Pelos textos já
apresentados também já informamos que "fazer o bem" é considerado o
fundamento mais consistente de toda a ética, pela enorme maioria dos
estudiosos do assunto.
Podemos chegar então à Conclusão 2: "(Um modo de exprimir) o
essencial da ética é ' fazer ao outro o que é almejado para o próprio
individuo'"
É nosso entendimento, mais uma vez, que as premissas acarretam
logicamente na conclusão, e como elas são verdadeiras, a conclusão
também o é.
Como a última conclusão é a expressão da orientação moral
fundamental efetuada por Jesus e como nos parece que está
racionalmente comprovada, podemos afirmar que também é uma
expressão fundamental do campo da ética propriamente dita.
140
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
No entanto o leitor observará eventualmente a necessidade de
uma complementação, referente à inserção do conceito de bem "a
princípio ao outro".
Para tanto é nossa opinião a utilidade do raciocínio indutivo
frente à ética evolucionária (ou natural).
O raciocínio indutivo é aquele que permite obterem-se conclusões
provavelmente verdadeiras a partir da observação de fatos objetivos e é
muito empregado numa série de ciências, tal como as de engenharia. É
ele que nos permite considerar que se algo é verdadeiro em um
determinado laboratório, provavelmente o será em todos os demais. Ou
ainda, se um equipamento ou processo projetado ou desenvolvido com
uma determinada técnica cumpre seus objetivos, outros do mesmo modo
projetados ou desenvolvidos também o farão. É em síntese aquele que se
baseia na observação.
A ética evolucionária consiste na observação da seleção e
consolidação de comportamentos de seres vivos em geral e do homem
em particular devido ao processo evolucionário.
No texto por nós elaborado sobre a ética evolucionária,
procuramos mostrar que o altruísmo é um comportamento que vem se
estabelecendo ao longo das eras nos seres vivos que vivem em
coletividade, inclusive o próprio ser humano. O altruísmo individual
favorece a sobrevivência dos grupos humanos e se consolida e
desenvolve de geração em geração. Intensifica-se como instinto ou
impulso inconsciente do ser. Tal impulso se constitui numa necessidade
interior fundamental para o bem estar, a realização e a felicidade do
próprio indivíduo que a pratica. Sendo a ética o estudo do
comportamento adequado ao indivíduo e como o adequado a ele é o seu
bem, sua realização e felicidade, justifica-se o porquê do fazer o bem ao
outro. Em outros termos, fazer o bem ao outro atende um anseio
fundamental do indivíduo; uma necessidade interior sua de ser útil,
constituindo-se assim no bem também a si mesmo.
Fazer o bem ao outro é uma proposta vantajosa em relação àquela
de fazer o bem exclusivamente a si mesmo. Num caso o benefício, se
houver, é só daquele que pratica a ação. No outro, o benefício ocorre
141
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
tanto para o agente da ação, quanto para o indivíduo foco do ato
executado.
Outro ponto que me parece importante da ética de Jesus é a
recomendação de não julgar eticamente a ninguém. Isto pode ser lido no
livro de Mateus (Mt 7,1-5) e também no de Lucas (Lc 6,37-42). "Não
julgueis para não serdes julgados, porque com o julgamento com que
julgardes sereis julgados e com a medida com que medirdes sereis
medidos."
Quanto à justificativa de tal conselho frente à ética propriamente
dita, já elaboramos um texto específico. Nele, dentre outros pontos,
comentamos o pensamento de Kant quanto à motivação e o de Sócrates
quanto à ignorância humana.
Com respeito à ideia de reciprocidade contida na recomendação,
já comentamos também um ponto de vista a respeito da psicologia
humana. Na tenra infância, os julgamentos nos são introduzidos pelo
meio externo. Gradualmente formamos critérios adicionais de
julgamento e penalização de forma autônoma, como que treinando o
nosso juiz e carrasco interior (superego). Se o poder deste juiz sobre a
vida dos demais é relativo, é bem claro que ninguém está mais sujeito a
ele que o próprio indivíduo que o treinou. Em complementação, é
interessante observar que na época de Jesus e também hoje, quem julga é
também aquele que estabelece a pena e que providencia a execução da
mesma.
Neste contexto nos parece estar também a recomendação de
perdoar sempre a todos e a tudo, conforme Mt 18,21-22 e Lc 17,4 visto
que não condenar é outra face de perdoar. É possível que possamos
afirmar que o mesmo entendimento racional que nos permite não
censurar eticamente a ninguém por qualquer atitude, acarreta em não
desejarmos revanches nem guardarmos rancor. A propósito disto, como
tem circulado nas redes sociais, guardar rancor de alguém é o mesmo que
tomar veneno esperando que o outro morra.
Interessante observar que a moral mosaica defende, com a assim
chamada lei do Talião (olho por olho, dente por dente...) a reciprocidade
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
de males. Se considerarmos o perdão um bem, tal recomendação de
Jesus pode ser encarada como a neutralização dos mesmos.
Já comentamos em outras oportunidades que ninguém pode se
considerar ético apenas em teoria. Ética é conduta adequada e conduta é
ação. Este é claramente o pensamento de Jesus. "Pelos seus atos os
haveis de reconhecer. Será que se colhem uvas de espinheiros, ou figos
de urtigas? A árvore boa é que produz bons frutos, enquanto a árvore
má é a que produz maus frutos." Mt 7,15-20 Mt 12,33 "...Todo aquele
que põe em prática estas palavras é semelhante a um homem ajuizado,
que constrói sua casa (a si mesmo) sobre a rocha." Mt 7,24-27 "Assim
brilhe vossa Luz diante dos homens, para que, vendo as vossas boas
obras, glorifiquem a vosso Pai que está nos céus." Mt 5,16 "...Mais felizes
são os que ouvem a palavra de Deus e a praticam." Lc 11,28.
Caridade é uma palavra originária do latim e se relaciona
diretamente à palavra amor. A beneficência é uma de suas facetas mais
facilmente visíveis. A prática da caridade é amor ao próximo. Quanto a
isto afirma Jesus: "Felizes os misericordiosos porque serão tratados com
misericórdia." Mt 5,7 "...Vinde, benditos de meu Pai! Porque tive fome e
me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era um estrangeiro
e me acolhestes. Estava nu e me vestistes, doente e me visitastes, na
prisão e me viestes ver. Cada vez que fizestes isso a um dos menores
desses meus irmãos, a mim o fizestes." Mt 25,31-46 "Dai aos outros e os
outros vos retribuirão; derramarão em vosso avental uma boa medida,
bem cheia, sacudida e transbordante. Porque com a medida com que
medirdes sereis medidos." Lc 6,38.
Digno de nota é o fato que de acordo com Jesus, o valor absoluto
da doação é irrelevante. Seu valor real é sim proporcional ao quanto se
tem, conforme Lc 21,1-4. Interessante também observar que a maioria,
senão a totalidade das religiões mundiais, defende a caridade como ponto
importante de conduta.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
No passado e no presente vivemos numa perspectiva egoísta de
vida. Almejamos que os outros nos façam coisas boas, mesmo
considerando que pelas conclusões da ética evolucionária, nosso anseio
inconsciente é o inverso. Ou seja, de sermos nós mesmos úteis aos
demais. A postura de Jesus é a defesa do comportamento altruísta
consciente, por meio da defesa do valor de servir. "Quem quiser fazer-se
grande entre vós, será vosso servidor e quem quiser ser o primeiro
dentre vós será o vosso empregado." Mt 20,24-28. "O maior dentre vós
se faça vosso servidor. Quem se exaltar será humilhado e quem se
humilhar será exaltado." Mt 23,11-12
Neste contexto o esforço produtivo humano pode ser encarado
de dois modos. O primeiro como um trabalho; algo penoso e duro e cuja
retribuição nunca é suficiente para recompensar o esforço que
executamos em prol de nossos próprios interesses. A palavra trabalho
vem do latim tripalium, que designava um instrumento de tortura,
formado por três (tri) estacas agudas (palum). Esta palavra passou ao
francês como travailler, que significa originariamente sofrer; sentir dor.
.
O segundo modo de encarar a questão, é considerar o esforço
produtivo como uma prestação de serviço; como um servir ao outro e
neste enfoque de esforço como uma dádiva ao outro, qualquer dádiva
tem um enorme e indeterminado valor.
Nesta linha, transmitindo um pouco de minha experiência
pessoal, o exercício do magistério visando interesses pessoais ocasiona
um sofrimento insuportável. A mesma atividade, almejando
sinceramente o bem de outros, leva a uma satisfação indescritível.
Alguns mandamentos do judaísmo foram destacados por Jesus.
Mais especificamente: não matar, não cometer adultério, não roubar, não
proferir falso testemunho (mentir) e honrar pai e mãe. Tais regras
facilmente se justificam através do princípio "fazer ao outro o que
gostaríamos que fosse feito a nós mesmos, caso nos encontrássemos em
situação semelhante". Ou melhor, se enquadra na base ética em sua
forma passiva: "Não fazer o mal". Esta forma, por sua vez, gera um
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
princípio também passivo: "não fazer ao outro, aquilo que não
gostaríamos que fosse feito a nós mesmos".
Claramente uma pessoa normal não deseja ser assassinada, ou
traída, ou roubada, ou enganada, ou ainda ser destratada e
desconsiderada pelos filhos.
Cada um de nós tem sede de amor. Tal ponto também pode ser
explicado pela ética evolucionária, pois a tendência de um grupo humano
é a de descartar os indivíduos indesejáveis. Todos nós tendemos a
desejar sermos bem quistos e vivermos em harmonia com todos. Desta
forma, podemos ler as recomendações de não matar o irmão. Mas
também não odiá-lo. Não menosprezá-lo. Reconciliar-se com ele. Mt
5,21-26 Isto é, justamente o que almejamos para nós mesmos.
Há dois mil anos atrás no Oriente Médio, a sociedade tinha uma
estrutura fortemente patriarcal. As mulheres eram totalmente
dependentes do pai e depois do marido. Desta forma, repudiar uma
mulher, dando-lhe carta de divórcio, praticamente a condenava à
miserabilidade e/ou à prostituição. Penso que neste fato está baseada a
recomendação de não divorciar. Mt 5,31-32 Mt 19,1-9.
As fórmulas de comprometimento antigas tinham a estrutura: Se
eu fizer tal coisa, me aconteçam tais e tais coisas boas. Caso contrário,
caso eu não as faça, me aconteçam tais e tais coisas ruins. Desta forma é
uma estrutura que o próprio indivíduo impõe penas a si. No entanto o
pensamento de Jesus se baseia fortemente no perdão, na não
condenação e na não punição, como já mencionamos. Por outro lado
podemos nos conceber como seres em contínua evolução e portanto, em
contínua transformação. Consequentemente comportamentos passados
tendem a ser modificados e aperfeiçoados. Uma fórmula de
comprometimento tende assim mais a uma estagnação do que a uma
evolução. Por fim, me parece fácil notar que com a dinâmica da vida,
sujeita a contínuas modificações, jurar algo é o único e indispensável
passo para se tornar perjuro.
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Jesus
Estas reflexões me parecem justificar a recomendação de não
fazer juramentos de forma alguma. Que vosso falar seja: sim, se for sim;
não, se for não. Mt 5,33-35. De qualquer forma, juramentos
praticamente já caíram em desuso na atualidade.
O orgulho pode ser considerado a raiz de todos os males
humanos. Orgulho é por definição considerar-se e crer-se mais, maior,
mais importante que os demais. A crítica realizada por alguém tem sua
origem em geral, no fato que este alguém considera sua opinião superior
a do outro. O criticado se ofende basicamente porque considera que um
indivíduo inferior o está questionando. Um exército invasor e/ou
saqueador considera os interesses do seu povo mais importantes do que
o do povo invadido ou pilhado. Um ladrão quer um determinado bem a
despeito do querer do proprietário. Os conflitos religiosos surgem pela
crença de que uma é superior a outra. A escravatura negra se justificou
pelo conceito que o homem branco era superior ao homem negro. A
exploração econômica e a concentração de riquezas, se estabelece pelo
conceito da diferença de valor entre os homens.
O orgulhoso quando circula entre os demais, pensa consigo
mesmo: me apreciem; contemplem a minha superioridade. Em geral não
é isto que ocorre, quanto mais se considerarmos a flutuação das opiniões
das sociedades ao longo do tempo. E neste fato talvez resida o maior
sofrimento ao qual o orgulhoso esteja sujeito.
Ninguém dentro da normalidade ama qualquer forma de agressão,
quer seja física, emocional ou mental. Ninguém dentro da normalidade,
diretamente envolvido numa guerra, ama a guerra. O nosso estado
padrão para o bem estar e a felicidade é a ausência de conflitos. É a
tranquilidade. Tal tranquilidade depende basicamente de nossa postura
interior; de nossas próprias ações. Pelo menos na maior parte dos casos
permanecemos numa zona de conflito porque assim desejamos. Se não
há agente agressor não há conflito. O mesmo ocorre se não há
resistência a este. Etimologicamente a palavra confito se origina do latim
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
conflictus, particípio passado de confligere, formada por com (junto) e
fligere (golpear, atacar).
Se todos amam a tranquilidade porque da discórdia? (Do latim
discordia; dis = fora do cor = coração). Pelo que expusemos no
parágrafo anterior, conflito e orgulho estão fortemente interrelacionados.
É bem possível que uma linha de raciocínio similar seja a responsável
pelo incentivo de Jesus à paz, à humildade e à mansidão. Felizes os
mansos e humildes porque herdarão a terra da promessa. Mt 5,5 Felizes
os promotores da Paz, porque serão chamados filhos de Deus. Mt 5,9
A comunicação é uma ação. É um procedimento. É uma conduta.
As palavras tem força: um líder político, como é fácil observar no
presente e por meio da história, é capaz de mover multidões meramente
através de seu discurso.
Na medida do bom senso, falamos o que pensamos e sentimos.
No entanto, como ilustrado em outro texto, e recíproca é verdadeira.
Terminamos por nos convencer daquilo que falamos. E na medida em
que nos convencemos de algo, passamos a agir em conformidade com
esta crença. Daí a importância das palavras e a origem provável do
incentivo efetuado por Jesus: 'Os homens darão conta no dia do Juízo,
de toda a palavra inútil ou má que tiverem pronunciado. Conforme as
tuas palavras serás declarado justo ou condenado.' Mt 12,34-37
A exploração da relação existente entre nosso mundo interior,
subjetivo e o mundo exterior merece a elaboração, ao menos, de todo
um capítulo. Nossos órgãos de sentidos captam os estímulos oriundos
do mundo exterior, porém toda a interpretação de tais estímulos é
interior. Nada do captado tem intrinsecamente algum conteúdo
emocional ou alguma base racional de valor.
Sendo assim, o estudo da natureza de nossas percepções
subjetivas de uma realidade essencialmente neutra, apresenta a grande
utilidade de nos permitir efetuar um diagnóstico daquilo que
consideramos o nosso próprio ser, isto é, da realidade interna na qual
vivemos. Possivelmente para nos fornecer uma ferramenta útil de
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
diagnóstico de nós mesmos, Jesus há cerca de 2000 anos, nos chama a
atenção para isto. Se teus olhos estão bons (veem o lado bom dos
acontecimentos; as coisas de modo positivo, de modo otimista), todo o
teu corpo (ser) estará na luz. Se teus olhos estão doentes (vêem a face
ruim dos acontecimentos; as coisas de modo negativo, de modo
pessimista), todo o teu corpo (ser) estará nas trevas e quão grande serão
estas trevas. Mt 6,22-23
Tomemos a liberdade de tentar analisar um pouco mais esta
questão. Nas palavras figuradas de Jesus acima expostas, podemos
conceber uma estrutura composta de três entes. O observador (os olhos
do sujeito), a parte passiva do sujeito (luz e trevas) e a realidade externa
(o que é observado). Com esta estrutura, pelas palavras encontradas em
Mateus, o sujeito observa a realidade através de seu mundo passivo
interior, colorindo a realidade exterior em conformidade com ele.
Surge então uma pergunta: o que condiciona a parte passiva do
sujeito? Para respondê-la somos levados a reconhecer um quarto
elemento estrutural, qual seja uma parte ativa do sujeito que promove
ações adequadas ou inadequadas por meio da vontade pessoal. Um dos
fatores condicionantes das características desta parte passiva, seria a
frequência e a qualidade de tais atitudes e estas podem estar voltadas a
duas direções. Podemos voltar nossas ações para o próprio mundo
interior, cultivando sentimentos e pensamentos mais adequados.
No entanto, por mais espantoso que possa parecer, pensadores
respeitáveis defendem a ideia que através de atitudes adequadas dirigidas
ao mundo exterior, terminamos por tornar melhor a parte passiva de
nosso mundo interno. Podemos considerar que é na resposta à questão
de quais seriam as atitudes adequadas capazes de promover uma
melhoria de nossas percepções subjetivas, por exemplo, o aumento de
nossa felicidade e bem estar; é na resposta a esta questão, que nos
dedicamos no presente curso de Ética.
Já circulou nas redes sociais um fluxograma lógico que cabe aqui
recordar: A primeira questão é: você tem um problema? Se a resposta for
não, a conclusão é a de que então não há razão para se preocupar. Caso a
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
resposta seja sim, surge então uma nova pergunta: Tal problema tem
solução? Se a resposta for não então não há motivo lógico para se
preocupar. Se a resposta for sim, poderíamos até introduzir uma nova
questão: O problema vai terminar sendo resolvido? Se a resposta for sim
então não há porque se preocupar. Se ao contrário, por um motivo
qualquer o problema apesar de solucionável, não for resolvido, da
mesma forma não há por quê; de nada adianta se preocupar.
Ou seja, as preocupações apenas ocasionam desgaste emocional e
não trazem qualquer benefício concreto racional. Assim encontramos a
recomendação de não se preocupar: Não se preocupe (pré – ocupar). Se
dedique à Justiça (que penso poder ser traduzido por ética) e tudo se
resolverá. A cada dia bastam as suas penas. Mt 6,25-34
Só há um modo de não realizar atos falhos que é o de não realizar
atos de modo algum. Se não enfrentarmos nosso medo de errar,
absolutamente nada realizaremos. Por sua vez, como já comentado, é
por meio de atitudes que podemos ser propriamente éticos e também é
por meio de atos que podemos nos desenvolver e nos autorrealizar.
Neste sentido temos a exortação de fazer crescer nossos próprios
talentos, que pode ser encontrada em Mateus 25,14-30
Me parece ser fácil entender que não há nada de racional em
lamentarmos um estado presente eventualmente indesejado ou
desfavorável. Por outro, igualmente não é sábio não procurarmos
melhorar a qualidade deste estado desde que isto seja possível e
adequado. No dizer de um antigo provérbio, que tem sido apresentado
em diferentes versões ao longo dos séculos, por pensadores das mais
diferentes linhas de pensamento: 'Concedei-nos, Senhor, a Serenidade
necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar. Coragem
para modificar aquelas que podemos, e Sabedoria para distinguir umas
das outras.' Se acreditarmos na veracidade de alguns apócrifos, o destino
de Jesus seria o de construtor, por certo muito bem sucedido, tal como o
de seu pai e irmãos. Ou então um líder por certo muito conceituado, de
alguma comunidade sacerdotal. No entanto nenhum destes destinos foi
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
de seu agrado e por meio de sua vontade e ação um outro bem diferente
se descortinou. Se julgarmos verdadeiras as narrativas de cura realizadas
por Jesus, estas só ocorreram porque os doentes acorreram a ele.
Por outro lado, pelas narrativas que podem ser lidas, Jesus ao
efetuar a sua última viagem a Jerusalém, aceitou voluntariamente o
destino de ser assassinado, o que foi doloroso e pode ser avaliado como
algo desfavorável, mas que foi avaliado por ele como um acontecimento
adequado. Caso contrário bastaria, por exemplo, não ter realizado tal
viagem, ou então por maior segurança, ter-se mudado de nação. Daí a
relevância da assim chamada Oração da Serenidade ao analisarmos os
dizeres: Quem não toma sua cruz e não me segue (seus exemplos; seus
ensinos) não é digno de mim. Mt 10,38
Como mencionaremos mais uma vez em outra parte desta
discussão, a leitura dos textos que nos servem de referência, permite
concluir, que em resumo, toda a parcela conhecida da vida de Jesus foi
dedicada a amenizar alguma forma de sofrimento alheio, ou a ignorância,
por meio da instrução.
Creio que já discutimos o suficiente quanto ao binômio altruísmo
e egoísmo. Neste sentido podemos ler: 'Se alguém quer me seguir,
renuncie a si mesmo (ou seja, ao egoísmo), tome a sua cruz e siga-me
(seus exemplos e seus ensinos)' Mt 16,24. Cabe lembrar que o egoísmo
ou egocentrismo; ter-se como foco da atenção, é condição básica para o
orgulho, e como comentado, o orgulho pode ser considerado a fonte de
todos os males humanos.
'Quem quiser conservar a sua vida (seus interesses egoístas,
menores e materiais) a perderá; e quem, por amor de mim, perder a vida,
a reencontrará.' Mt 10,39 Mt 16,25 'Que adianta ao homem ganhar o
mundo inteiro, se com isso perder a sua vida?' Mt 16,26. Lc 12,13-21
As afirmações imputadas a Jesus, bem como o que é conhecido
de sua própria vida nos fazem crer que para ele o sentido profundo da
existência se encontra nos valores humanos e não nos bens materiais. Os
valores humanos fazem parte do mundo interior do ser. É deste mundo
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
a origem das percepções de felicidade, bem estar, autorrealização e
desenvolvimento pessoal. De que a vida está fazendo algum sentido ou
não. Se uma pessoa deprimida, mas com bons recursos materiais pode
curtir sua depressão em Paris ou no Havaí, tal fato não altera a realidade
de sua desolação.
Podemos observar pobres e ricos, tanto felizes como infelizes.
Portanto não é a riqueza ou a pobreza que condiciona a qualidade da
vida subjetiva de alguém. Já a riqueza tende a condicionar nossa maior
ou menor liberdade e poder de ação. Como vimos, as ações por sua vez,
tendem a condicionar o estado de nosso mundo interior. Assim o
relevante parece ser não a pobreza ou a riqueza em si, mas sim o que
fazemos com elas e por quais meios chegamos a elas.
Relacionadas a tais considerações, temos alguns pensamentos que
podemos encontrar em Mateus. 'Não junteis tesouros na terra (materiais)
mas no céu (espirituais). Onde estiver o teu tesouro, ali estará também o
teu coração (alma).' Mt 6,19-21
'Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um
e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis
(conseguireis) servir a Deus (cultivar o espírito) e a Mamom ao mesmo
tempo.' Mt 6,23-24
Mamom em termos mitológicos é um dos sete servos do
demônio e representa a cobiça, a ganância, a sede de lucro, que tende a
resultar na avareza. O pensamento de Jesus pode ser considerado como
sugerindo que não se obtem bons resultados caso nos deixemos
escravizar pelo amor à riqueza material ou então que suavizemos nossas
inseguranças naturais, depositando a nossa confiança nas mesmas.
Num cunho absolutamente não religioso é fácil observar que inúmeros
indivíduos vendem a sua própria alma, seus anseios, seus sonhos, seus
ideais, sua liberdade, sua felicidade, seus amores, etc, em prol de um
relativo bem estar material.
Jesus, numa análise atenta e contrariamente ao que se propaga
hoje, se opôs a uma série de regras então vigentes da fé judaica e
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Jesus
atualmente contidas no Velho Testamento. A proposta de abolição da lei
do Talião, de reciprocidade exata de males é um claro exemplo. Podemos
ler nos textos: 'Ao invés disto, não resistir. Não revidar. A quem te pede
uma coisa, dá.' Mt 5,38-42
Quanto a amar o próximo e odiar o inimigo: 'Ao invés disto, amar
os inimigos e rezar pelos perseguidores.' Mt 5,43-48
'Fazei o bem aos que vos odeiam; falai bem dos que falam mal de
vós; rezai pelos que vos difamam. A quem te bater numa face, oferece a
outra. Não reclames de quem tira o que é teu.' Lc 6,27-35
O choque de seus pensamentos com a moralidade e conjuntura
vigente foi o responsável por sua condenação e morte. Caracterizou-se
por uma liderança indesejável para Roma visto que grandes multidões
começaram a segui-lo, conforme Mt 4,25 e outras passagens. Digno de
nota é o fato histórico de que todas as lideranças contemporâneas a
Jesus, ou de períodos próximos, tiveram o mesmo destino.
Violou abertamente o mandamento do sábado, um dos dez da lei
mosaica. Apenas isto bastaria para sua execução. Neste sentido afirmou
que o 'filho do homem' é senhor do sábado. É permitido fazer o bem em
dia de sábado. Mt 12,1-14. 'O sábado foi feito para o homem, e não o
homem para o sábado.' Mc 2,27 e outras passagens.
Violou as leis de pureza então vigentes, declarando que 'não é o
que entra pela boca e sim o que sai dela, o que torna o homem impuro.
O que sai da boca vem do coração. Do coração procedem maus
pensamentos, homicídios, adultérios, prostituições, roubos, falsos
testemunhos e injúrias.' Mt 15,1-17. 'Purifica primeiro o interior do
corpo, para que também o exterior se torne limpo.' Mt 23,25-26
Violou a norma de executar os que violavam as normas morais
então em vigor, como na passagem da adúltera prestes a ser apedrejada.
('Quem dentre vós estiver sem pecado, atire a primeira pedra...' Jo 8, 111)
Aparentemente violou o primeiro mandamento, colocando-se à
altura de Deus. ('Sois o Cristo, o Filho do Deus vivo.' Mt 16,16. 'Vereis o
Filho do homem sentado à direita do Todo-poderoso e vindo sobre as
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
nuvens do céu.' Mt 26,64 'És o Santo de Deus.' Mc 1,24. e outras
passagens. 'Meu Pai continua a trabalhar até agora, por isso eu também
trabalho.' Jo 5,17). 'Eu e o Pai somos um' ('mas o Pai é maior do que
eu').
Como último exemplo, entrou em choque com o comércio no
Templo de Jerusalém, que favorecia os levitas. Mt 21,12-13. Mc 11,1519.
A observação das três diferentes correntes de pensamento que o
condenaram à morte pode ser instrutiva para nossa própria conduta na
atualidade.
A primeira que se destaca é o choque com a ética deontológica
então em vigor. Ou seja, como visto acima, a violação da ética prática,
dos costumes e das leis vigentes (violação da moral).
A segunda é o emprego da ética utilitarista, que será apresentada
em outro texto. Isto fica claro na passagem de seu julgamento relatado
por João. A ética utilitarista defende que um procedimento é tanto mais
ético quanto maior for o bem proporcionado para o maior número de
pessoas. Tal linha de pensamento é muito empregada atualmente,
principalmente pelos grupos mais esclarecidos que dirigem o destino de
coletividades humanas. Por ela, por uma visão distorcida, a morte de um
indivíduo é justificável caso em contrapartida se evite a morte de um
grande número de outros. Exatamente foi este um dos argumentos
responsáveis pela condenação do Mestre. 'Que faremos? Este homem
está fazendo muitos sinais. Se o deixarmos continuar assim, todos crerão
nele, depois virão os romanos e destruirão nosso lugar santo e nossa
nação. É melhor para vós morrer um só homem pelo povo, do que ser
destruída toda a nação.' Jo 14,47-50
A última das razões em destaque para a condenação, foi a
necessidade política de descarte de uma liderança (um rei), possível
precursor de um levante contra Roma. Tal caracterização fica clara
quando de sua entrada em Jerusalém: 'Bendito o que vem em nome do
Senhor, o Rei de Israel.' Jo 12,13 Ao longo de seu julgamento sua
afirmação também vale a pena ser mencionada: 'Tu o dizes, eu sou rei.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
Para isto nasci. Para isto vim ao mundo: para dar testemunho da
verdade.' Jo 18,37 Por fim a situação perigosa na qual as lideranças
judaicas colocaram o representante local do poder de Roma: 'Se o
soltares, não serás mais amigo de César: todo aquele que se faz rei se
opõe a César.' Jo 19,12
A análise do comportamento do próprio Jesus, conforme
documentada, também me parece oportuna. Nos quatro evangelhos, em
pelo menos a enorme maioria dos relatos, duas ações podem ser
facilmente observadas, as quais são a remoção do sofrimento humano e
o ensino. Não me parece ser questionável que a remoção do sofrimento
seja uma atitude benéfica. Por outro lado a atitude de esclarecer
consciências também é algo bom. Neste caso merece destaque o
pensamento socrático de que todos os erros humanos e suas mazelas se
devem à ignorância.
Quanto ao conteúdo ensinado, independentemente de minha
convicção pessoal de que são verdadeiros, principalmente se
adequadamente estudados, me parece oportuno retomar o conceito de
Kant, de que o ético depende basicamente da motivação de quem realiza
a ação. Como também me parece de muito difícil questionamento as
boas intenções de Jesus, pode-se concluir que ao longo dos cerca de três
anos em alguma medida conhecidos da sua vida, ele dedicou-se
fortemente a praticar exatamente o que defendia. Ou seja, a fazer o bem.
E como é bem razoável supor que ele não julgasse bom o sofrimento ou
a ignorância, dedicou-se a fazer o bem ao próximo como gostaria que
fosse feito a ele, caso se encontrasse na mesma situação.
Para ilustrar tal comportamento, cito dentre inúmeras opções:
'Jesus circulava por toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas,
proclamando a Boa Nova do Reino e curando toda a espécie de doença e
enfermidade que havia no povo.' Mt 4, 23-24 ; Lc 6,18-19. Ou então,
'cegos recobram a vista e coxos andam; leprosos são curados e surdos
ouvem; mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres.' Mt
11,5 ; Lc 7,21-22
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
Outra atitude que gostaria de destacar, seria a sua conduta
compreensiva e não preconceituosa. Quanto a isto podemos observar
que tinha como seguidor proeminente um ex-cobrador de impostos de
Roma. Ou seja, um indivíduo que outrora auferia benefícios pessoais,
auxiliando o invasor estrangeiro a sugar continuamente os recursos da
colônia. Convivia com pecadores conhecidos. (Lc 7,36-39) e se
aproximava de samaritanos (Jo 4,39-40), povo que, como já
comentamos, era mal quisto pelos judeus, por sua etnia, religião e
costumes distintos.
Outro ponto de destaque é o da universalização da ideia de
próximo e de irmão, como a parábola do bom samaritano nos permite
ver. Lc 10,25-37
A título de conclusão, Jesus, ao longo dos três anos conhecidos
de sua existência, se opôs a uma série de pontos do judaísmo e criou uma
nova religião.
Se caracterizou como em união com o Altíssimo; como
mensageiro Deste; como transmissor da Verdade; e como exemplificador
do caminho que conduziria à verdadeira vida.
O ponto central de sua religião é amar o próximo como a si
mesmo. Este é um princípio geral, que seguido, penso acarretaria no
cumprimento da maioria das normas específicas de comportamento
defendidas por Jesus, como também, por uma série de outras correntes
morais e religiosas e pela maioria dos princípios éticos e filosóficos
vigentes. É portanto, uma chave geral da ética e da moral. Se é o
comportamento ético o caminho para a felicidade humana, a
universalização e a intensificação da prática desta compacta exortação
geral, tem a capacidade de consolidar um verdadeiro paraíso sobre a
Terra.
Perdoar sempre, não julgar e devolver sempre amor em troca do
ódio. Tais pontos, também destacados na religião de Jesus, teriam pelo
menos a princípio, a capacidade de promover a plena harmonia do
indivíduo com o seu ambiente externo e também a plena paz e
tranquilidade no universo interior de cada um.
155
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Jesus
Jesus enfatiza a importância das ações e defende que é através dos
atos, que podemos avaliar a nós mesmos e os demais. Defende a
beneficência e a misericórdia e garante que tais condutas serão
retribuídas e recompensadas. Enfatiza a importância das palavras e da
despreocupação. Defende que o sentido profundo da existência é
encontrado nos valores humanos e espirituais e não nos materiais. Por
fim, defende também a aceitação, o que ao nosso ver não significa não
tentar modificar as ocorrências objetivas da existência, eventualmente
inadequadas.
Outros pontos foram destacados nos textos estudados porém não
foram expostos aqui. Dentre eles os de cunho religioso, teológico,
cosmológico, bem como outros que a consciência de minha inabilidade
mostrou a impossibilidade de uma adequada análise. Neste conjunto
temos a recomendação de não tirar proveito da ação religiosa ou
caritativa Mt 6,1-6. Mt 6,16-18; limpidez interior Mt,5,8 ; o valor da
espontaneidade e inocência Mt 18,1-5 Mt 19,14 ; a recomendação de
prudência e de simplicidade Mt 10,16, e a regra da retribuição, tanto
pelas boas quanto pelas más ações Mt 26,52.
'Os judeus responderam-lhe: Não é por causa de alguma boa obra que te
queremos apedrejar, mas por uma blasfêmia, porque, sendo homem, te fazes Deus.
Replicou-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: Vós sois Deuses?' Jo
10,33-34
156
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Hinduísmo e budismo
12
Hinduísmo e budismo
Bem sabemos que as religiões exercem fortíssima influência sobre
a moralidade dos povos. Em 2005, respectivamente, cerca de 13% e 6%
da população mundial professava o hinduísmo e o budismo.
(Enciclopédia Britânica)
Em 31 de outubro de 2011 atingimos a marca de sete bilhões de
seres humanos sobre o planeta. (Wikipédia). Desta forma, no presente,
somos aproximadamente 900 milhões de hinduístas e 400 milhões de
budistas. O hinduísmo é a terceira religião mundial enquanto o budismo
a quinta em número de seguidores. O hinduísmo é a principal religião da
Índia enquanto o budismo exerce forte influência nos países localizados
ao norte e a leste desta, tais como a China e o Japão. Tais países tem
influência e importância econômica considerável nos dias de hoje.
As duas religiões surgiram sobre a placa tectônica indiana, que
atualmente em termos políticos, é ocupada em sua maior parte pela
Índia. O desenvolvimento do povo desta região seguiu as etapas
clássicas, começando como tribos nômades coletoras e passando
posteriormente para a fase de assentamentos permanentes graças ao
desenvolvimento da agricultura e a pecuária.
A religiosidade que chegou até nós começou a ser documentada
em 3.400 a.C. pela redação de textos considerados sagrados, conhecidos
como os Quatro Vedas. Em 600 a.C. ocorre o advento do príncipe
Siddharta Gautama e o início do Budismo.
Em 300 a.C. temos a unificação dos reinos existentes naquela
região e o Rei Asoka, o Grande, decide tornar o Budismo a religião
oficial da Índia, enviando missionários às nações vizinhas, promovendo
deste modo sua expansão extra territorial.
Os séculos que se seguiram testemunharam um grande
desenvolvimento cultural na região, observável em inúmeros campos,
tais como ciências, tecnologia, arte, lógica, literatura e linguística,
matemática, religião e filosofia.
157
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Hinduísmo e budismo
No século XII ocorre a invasão mongol e no seguinte o
desaparecimento quase completo do Budismo na Índia, permanecendo,
no entanto, vivo nos países vizinhos. No século XVI começa a
colonização europeia e o controle político de toda a região passa a ser
exercido pela Companhia Britânica das Índias Ocidentais. De modo a
tentar conter a população revoltada com o colonialismo, em 1856 o
controle passa ao governo britânico. No século seguinte, século XX,
Mahatma Gandhi lidera a desobediência civil não violenta e em 1947
ocorre a independência. Como nesta época já era grande o número de
muçulmanos na região e devido à possibilidade de choques violentos por
razões de religião, a Índia foi politicamente dividida em dois países: a
agora Índia propriamente dita ao sul, hinduísta e a formação do país
islâmico do Paquistão ao norte.
A teologia hinduísta age diretamente sobre a moral, as leis e a
política. O hinduísta é tolerante; considera que a verdade tem muitas
aparências. Tal como no cristianismo dos primeiros tempos, antes que o
Imperador Romano Constantino tivesse proibido todas as outras
interpretações, exceto a de uma seita em particular, o hinduísmo até hoje
admite uma pluralidade de visões, diferentes conceitos filosóficos e
reconhece múltiplos modos de salvação.
O Hinduísmo, e mais especificamente o Monismo Advaíta
Vedanta, enxerga Deus como Brahman: o Real que se manifesta como
aquilo que denominamos criação, mas que também está além; transcende
a esta. O Onisciente, Onipresente e Eterno.
Na constituição do ser humano haveria o Atman; o Espírito
Superior Individual, o Eu Real. Atman e Brahman, são essencialmente
um só, tal como uma parte do mar é também oceano.
No entanto nós temos a consciência mergulhada em ilusões
(maya) que basicamente, em uma de suas consequências, é a ilusão de
separatividade.
A trindade básica hinduísta é constituída por aspectos de
Brahman sobre o mundo da ilusão: Brahma, o Criador; Vishnu, o
Sustentador e Preservador; Shiva, o Transformador e Destruidor.
158
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Hinduísmo e budismo
Tudo no mundo dos fenômenos; da ilusão, segue um ciclo
interminável de eventos: criação, manutenção, destruição, repouso,
criação, manutenção, etc.
Para todas as linhas de interpretação do hinduísmo há dois
princípios fundamentais que regem os fenômenos: o Karma e o Samsara.
O Karma se refere ao ciclo infindável de causas e efeitos. Causas gerando
efeitos e efeitos sendo causas de novos efeitos. As ações passadas
condicionando os acontecimentos futuros. O Samsara é a existência
condicionada nas garras da ilusão; do apego, do sofrimento, da
ignorância; no ciclo interminável da vida de renascimento a
renascimento. Apego ocasionado pela ilusão de separatividade.
Ignorância da realidade que gera o sofrimento.
A partir destas duas hipóteses o hinduísta direciona a sua vida
com duas soluções éticas.
Frente à convicção de uma lei de causa e efeito, que imperaria
também sobre as consequências dos comportamentos, procura adotar a
postura Ahimsa. Tal posicionamento é o de não causar mal e dano a
ninguém e a nada. É a de não ser violento, respeitar todas as formas de
vida e cultivar a benevolência. Claramente, se a hipótese do Karma é
verdadeira, tal postura seria a mais lógica a seguir de modo a evitar
sofrimento futuro e favorecer o bem estar vindouro.
Já o ciclo interminável de renascimentos sucessivos é visto pelo
hinduísta como algo desagradável. A criança sofre ao nascer. O jovem
sofre ao crescer e se desenvolver. O adulto sofre ao se manter. O idoso
sofre ao envelhecer e ao morrer. Para obter a libertação deste ciclo, a
solução vista por eles é a de conseguir transferir a consciência do mundo
da ilusão para o mundo da realidade. No mundo ilusório nos
consideramos separados e diferentes. A ideia de separação gera o apego.
A ideia de diferente gera a aversão. No mundo da realidade seriamos
uma só coisa. Tal como a mente ama cada pedaço do corpo, prevaleceria
o amor. No mundo da ilusão é possível o orgulho; considerar-se superior
ao outro. No mundo da ilusão é possível o ódio, mas o ódio é uma
manifestação da ilusão, pois só odiamos aquilo que de algum modo nos
está próximo. O ódio é uma manifestação de amor disfarçada. No
159
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Hinduísmo e budismo
mundo da realidade, orgulho e ódio não fazem sentido, como não faria
sentido tais sentimentos de uma mão ou uma perna em relação à outra.
De qualquer forma, de modo a se livrar do sofrimento, o
hinduísta procura libertar-se da ignorância, isto é, da ilusão da
separatividade. Obter a consciência da união da Alma Superior
Individual (Atman) com a Alma Universal (Brahman), atingindo assim o
consequente estado de eterna felicidade. Para tal são reconhecidos quatro
caminhos para a libertação da ilusão da separatividade e dos
determinantes internos que causam sofrimento:
Karma Marga: o caminho da ação. Tal caminho pode ser trilhado
por meio de ações altruístas e de serviço. Poderia ser trilhado também
pelo ascetismo, buscando extinguir todas as manifestações de apego ou
aversão.
Jnana Marga: o caminho do conhecimento transcendental.
Através do estudo, da reflexão e da meditação, seria o de buscar entender
a esfera da Realidade, que estaria oculta pelos véus da ilusão.
Raja Marga: o caminho da mente. Por meio da meditação e da
reflexão, conhecer-se a si mesmo e na medida deste autoconhecimento
identificar-se com o Eu Real, com a Realidade, com a Realidade
Universal.
Bhakti Marga: o caminho do amor. É o caminho da adoração e
devoção por Brahman ou algum de seus aspectos, que levaria à
identificação do devoto com a divindade. Este é considerado pelos
teólogos hinduístas o caminho mais fácil de trilhar. Texto védico clássico
referente a isto é o romance Mahabarata (A Grande Batalha), que tem
como parte mais conhecida o Bhagavad Gita. Tal romance pode ser
interpretado como a luta do ser humano, iluminado por sua consciência,
para vencer gradualmente a separatividade e o egoísmo e integrar-se na
união e no altruísmo.
Caso seja possível uma correspondência, podemos observar que
no Cristianismo, através de seus rituais, orações e cânticos, segue-se
principalmente o Bhakti Marga.
A título de conclusão a ética hinduísta se direciona a três pontos
principais: Não causar mal a ninguém e se possível, a nenhum ser vivo.
160
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Hinduísmo e budismo
Cultivar uma conduta benevolente e pacífica. Buscar a remoção da
ignorância, alcançando assim a integração, a união, a libertação, a
sabedoria, e a paz.
O príncipe Siddhartha Gautama nasceu no clã Sakia, na casta dos
xátrias (guerreiros nobres) e devido a isto, também é denominado pelo
termo Sakiamuni: o sábio dos Sakias. Supõe-se que tenha nascido em
Lumbini, em 536 a.C., e crescido em Capilvasto, ambas localidades do
atual Nepal.
Logo após o nascimento, um adivinho visitou o pai do jovem
príncipe e profetizou que Siddhartha iria se tornar um grande rei e que
renunciaria ao mundo material para se tornar um homem santo, se ele,
porventura, visse a vida fora das paredes do palácio. O pai assim,
desejando te-lo como sucessor, manteve o príncipe dentro das paredes
dos palácios e cercou-o de prazeres, riquezas e beleza, mantendo-o em
contato apenas com jovens saudáveis. Nestas condições Siddharta
cresceu, casou e teve filhos. No entanto com grande curiosidade de
como seria o mundo externo, convenceu um criado a conduzi-lo por
uma visita a cidade. Nela, a lenda diz que avistou pessoas claramente
indispostas na beira da estrada e indagando ao seu criado, soube que
eram pessoas doentes e ficou sabendo assim da existência da doença. Na
beira da estrada também avistou pessoas enrugadas e feias e com nova
pergunta ficou sabendo da realidade da velhice. Ao avistar corpos
inertes, tomou ciência da morte. E assim, de descoberta em descoberta
(miséria, fome, feiura) e no estado perturbado em que ficou, terminou
por observar um asceta; um magro e austero personagem que embora
imóvel, deixava transparecer uma profunda paz interior naquele meio
que lhe parecia tão desagradável.
Chocado com fatos que até então desconhecia, decide então fugir
da corte e assim o faz. Anteriormente como mencionado, viu um asceta
transparecendo paz, mesmo imerso naquela realidade dolorosa e começa
assim a seguir o caminho do ascetismo e da mortificação. Nesta jornada
faz loucuras contra sí: não toma banho ou se veste, assume posturas
dolorosas e não se alimenta. Já quase à beira da morte, se convence que
161
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Hinduísmo e budismo
não seria este o caminho para a solução dos problemas e o de alcançar a
paz. Aceita alimento de uma pessoa caridosa, senta-se debaixo de uma
figueira e se dedica a pensar; meditar. A lenda diz então que Siddhartha
se viu tentado pelo demônio Mara, representado pela serpente naja.
Mencione-se que a serpente é um símbolo antigo que pode representar
certas peculiaridades da mente humana, por exemplo a de só conseguir
trabalhar por classificações, ou seja, efetuando distinções; concebendo
um algo como diferente de um outro. De qualquer modo,
ortodoxamente, Mara é considerada um símbolo do mundo das
aparências.
Vencendo Mara, Siddhartha terminou por conseguir libertar-se
das ilusões e do sofrimento interior, atingindo assim a Iluminação; o
despertar para a Realidade.
O termo Buddha vem do sânscrito, uma das mais antigas línguas
da família Indo-Européia, e significa 'desperto'. É um título dado no
budismo àqueles que despertaram plenamente para a verdadeira natureza
dos fenômenos e se puseram a divulgar tal descoberta aos demais seres,
procurando amenizar seus sofrimentos.
Atingida tal realização, Buda transmite o que descobriu, primeiro
aos seus próximos que seguiram com ele o caminho do ascetismo e
depois, pelos cerca de 40 anos seguintes, para os povos do norte da
Índia. Além de procurar ensinar o caminho que levaria à libertação do
sofrimento, acrescenta a mensagem de esperança de que a Iluminação é
acessível a todos.
A transmissão do budismo nos primeiros tempos foi feita
exclusivamente de forma oral. Talvez devido a isto, todo o
conhecimento está rigorosamente organizado, classificado e referenciado
por expressões chave, o que facilita muito a memorização. O
ensinamento budista começa com as chamadas Quatro Nobres
Verdades.
A primeira é o diagnóstico e a constatação do problema central
que envolveu Buda desde o início:
(*) A verdade do sofrimento.
162
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Hinduísmo e budismo
O sofrimento é algo que se abate sobre todo o ser humano,
ocasionado por inúmeros fatores, tais como miséria, doença, velhice e
morte.
A segunda Nobre Verdade é um diagnóstico da causa do
problema:
Pelo budismo a causa básica do sofrimento é o (*) desejo e
apreensão por acontecimentos agradáveis e a aversão e apreensão por
acontecimentos desagradáveis. É o viver na ilusão.
Desejamos algo e como nos consideramos separados disto,
sofremos. Obtemos algo e daí supomos que deste algo podemos ser
separados e então sofremos. Consideramos algo como desagradável e
então novamente sofremos, quer pela expectativa que venha a ocorrer
conosco, quanto se este algo já se manifesta em nossas existências.
A causa básica do sofrimento também inclui a ignorância das
chamadas Três Características da Existência.
(1) Nada no mundo concreto tem existência real e é independente
em si mesmo. A separatividade é uma ilusão.
(2) Tudo está em constante mudança. Nada é permanente.
(3) Nada pode ser satisfeito ou concluído ou realizado de forma
definitiva.
Tais características apresentam validade universal. São verdadeiras
para todos os momentos, todas as coisas e todos os lugares. A
Iluminação permitiria transcender (ficar além) de tais características.
A Terceira Nobre Verdade é uma mensagem de esperança. É a
afirmação que o problema do sofrimento tem solução.
(*) É possível extinguir o sofrimento. É possível extinguir o
desejo e a apreensão. É possível se libertar da ignorância e das ilusões.
A Quarta e última Nobre Verdade trata precisamente do que falta
dizer, isto é, como resolver a questão. É a proposta do método para a
solução do problema.
(*) O Sofrimento pode cessar; a ignorância pode ser extinta; a Paz
Interior pode ser alcançada pelo denominado Caminho do Meio ou
Nobre Caminho Óctuplo. É chamado de caminho do meio porque
propõe evitar soluções extremadas: quer uma vida entregue à saciedade
163
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Hinduísmo e budismo
de prazeres, quanto aquela de ascetismo e mortificações. É de certa
forma, em primeiro lugar uma recomendação de adotar-se a virtude da
temperança, bem defendida também por Aristóteles.
O Caminho Óctuplo seria aquele que permitiria fazer cessar o
sofrimento; de alcançar a libertação. Seria um caminho de iluminação; de
derrotar a ignorância e fazer prevalecer o entendimento. De ver a
realidade como ela é e não como parece ser. Do ponto de vista budista, a
conduta adequada (ética) não se resume a agir adequadamente, mas
também a falar e pensar adequadamente. Isto porque se pressupõe que
pensamentos inadequados terminam por gerar palavras inadequadas e
pensamentos e palavras inadequadas, terminam por gerar atitudes não
apropriadas. Deste ponto de vista, os oito pontos do Caminho Óctuplo,
são todos preceitos éticos ou morais.
O Caminho Óctuplo é constituído por oito condutas a serem
perseguidas simultaneamente. Estes oito elementos são normalmente
apresentados na forma classificada em três divisões; a Estrada Tripla. As
estradas da sabedoria, da ética e da meditação.
A Estrada da Sabedoria é constituída por dois elementos:
(1) Entendimento Perfeito / Compreensão Correta.
Pode ser entendido como buscar entender perfeita e
profundamente as Quatro Nobres Verdades.
(2) Pensamento Correto
Numa interpretação consiste em buscar se desprover de ganância,
de ódio e da ignorância. Procurar ter apenas um pensamento de cada
vez. Engloba também evitar os assim chamados Três Venenos da Mente.
(A) Ganância. Desejar possuir mais que os outros. Apegar-se
às coisas e às pessoas. Interessante ressaltar que justamente a ganância
tem motivado uma série incontável de conflitos, tanto no passado
quanto no presente.
(B) Raiva. Quanto a isto mencionamos anteriormente que só
sentimos raiva de pessoas que psicologicamente falando, nos estão
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Hinduísmo e budismo
próximas, de modo que o ódio, sob tal ponto de vista, é um amor
disfarçado entre amantes.
(C) Ignorância e indiferença.
Algumas Escolas Budistas acrescentam ainda a estes três venenos:
(D) Ciúme.
(E) Orgulho. Salientamos em outro texto que do ponto de
vista de grandes pensadores da humanidade, o orgulho é a origem
fundamental de todos os vícios do ser humano.
Tais venenos como o leitor provavelmente notou, coincidem com
vários dos chamados pecados capitais do Cristianismo; isto é, aqueles
que gerariam todos os demais pecados.
Estrada da Ética contem três orientações de conduta.
(3) Linguagem Correta
Procurar não mentir (falar verdadeiramente). Procurar não semear
discórdia ou desunião. Procurar não empregar linguagem chula. Procurar
não falar sem objetivo ou imprecisamente. Procurar não ofender.
Procurar cumprir o que fala.
(4) Ação Correta
Procurar agir de modo não prejudicial e assim buscar seguir os
chamados Cinco Preceitos e os Dez Mandamentos Budistas.
Tais preceitos e mandamentos podem ser expressos em termos de
abstenções ou então, em termos de um número um pouco diferente, de
condutas a realizar.
- Os Cinco Preceitos –
(A) Esforce-se para não fazer mal a nenhum ser vivo e não lhes
tirar a vida. (Ação benevolente)
(B) Procure não tomar o que não lhe pertence ou não lhe é dado.
(Ação generosa)
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Hinduísmo e budismo
(C) Procure não ter conduta sexual imprópria, ilegítima ou imoral
(inclusive o adultério). Procure controlar seus impulsos. (Simplicidade,
calma e alegria)
(D) Procure não usar palavras falsas, erradas, imprecisas ou
enganosas. (Comunicação eficaz)
(E) Procure abster-se de álcool e outras drogas. (Sobriedade)
- Os Dez Mandamentos Budistas –
(A) (B) (C) (D) Os quatro primeiros dos cinco preceitos.
(E) Procure não usar palavras ásperas ou ofensivas. (Propagação
da harmonia)
(F) Procure não falar coisas desnecessárias. (Gentileza e cortesia)
(G) Procure não caluniar. (Gentileza e cortesia)
(H) Esforce-se por não cobiçar. (Propagar a Paz)
(I) Procure não cultivar animosidade. (Agir com compaixão)
(J) Procure não ter opiniões falsas. (Conversão da ignorância em
Sabedoria)
O leitor pode constatar que tais mandamentos budistas coincidem
com vários dos mandamentos judaico - cristãos.
Retornando ao Nobre Caminho Óctuplo e mais especificamente à
Estrada da Ética, a quinta conduta geral seria:
(5) Vida Correta. Profissão correta. Meio de vida correto.
Assim, por exemplo, seria difícil a um indivíduo obter a
Iluminação, caso de algum modo iludisse seus clientes no exercício de
sua ocupação cotidiana ou exercitasse corriqueiramente a agressividade.
Por fim chegamos à ultima das Estradas e aos três últimos
comportamentos gerais necessários para extinguir o sofrimento.
Estrada da Meditação / Concentração
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Hinduísmo e budismo
(6) Esforço Correto / Perseverança.
Procurar superar as dificuldades e realizar o que é adequado ou
prioritário. Procure esforçar-se para melhorar.
(7) Atenção Plena Correta.
Procurar manter a atenção focada. Procurar manter a atenção no
que é verdadeiro e real e justo. Estar atento para enxergar as coisas com
a consciência clara. Prestar atenção no seu próprio mundo interior, sem
julgamentos, expectativas, desejos ou aversões.
(8) Concentração Correta (focada na Iluminação)
Procurar obter a consciência clara da realidade presente em si
mesmo (autoconhecimento). Procurar não sentir atração/desejo ou
aversão/apreensão. Procurar manter-se desperto. Interessante observar
que o Caminho Óctuplo pela visão budista, nunca acaba. Uma vez
iluminado ou desperto, se recomenda ao indivíduo não se descuidar e
evitar mergulhar novamente sua consciência nas ilusões.
Os que conseguem tal libertação da ignorância, do sofrimento e
das ilusões são denominados Budas ou Bodhisattvas (sábios despertos).
Tais seres inundados pela compaixão por aqueles que ainda dormem,
supõe-se que continuem suas existências procurando levar outros
também à Iluminação. Supõe-se que tais seres também tenham
desenvolvido em si, plenamente, as chamadas Quatro Linhas de
Sentimentos Piedosos ou ainda, os Quatro Imensuráveis, pois são
orientações que podem ser desenvolvidas por tempo indeterminado:
→ Benevolência Universal a tudo.
→ Compaixão. A benevolência tocada pelo sofrimento dos
outros.
→ Alegria interior e também com a felicidade dos outros.
→ Paz Interior sob qualquer circunstância externa.
O budismo atual apresenta uma série de linhas de pensamento ou
Escolas: A Theravada (doutrina dos Anciãos), o Mahayana (Grande
Veículo), o Vajrayana, que engloba os budismos tailandês, tibetano,
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Hinduísmo e budismo
chinês, Zen (Japão) e vietnamita. Em conjunto representam a
religiosidade de grande parte dos povos da Ásia.
A Título de Conclusão, o budismo de certo modo é uma
continuação do hinduísmo. Principalmente na Escola Theravada tem os
mesmos princípios fundamentais: a origem do sofrimento na Samsara e
no encadeamento de causas e efeitos. Visa a libertação da ignorância, a
Paz, a Felicidade obtida por meio da destruição das ilusões, inclusive a
que causa o desejar.
Do ponto de vista do hinduísmo, quanto aos caminhos que levam
à libertação da ilusão da separatividade e dos determinantes internos que
causam sofrimento, o budismo na sua forma ortodoxa, pode ser
considerado como fazendo uso dos caminhos da Karma Marga (caminho
da ação, do altruísmo, do serviço, etc), bem como da Raja Marga
(caminho da meditação, reflexão e autoconhecimento). Por outro lado,
não costuma empregar os caminhos da Bhakti Marga (caminho da
adoração e devoção) ou da Jnana Marga (caminho do conhecimento
transcendental). Seus seguidores autênticos e avançados adotam uma
bem estruturada e clara ética e são levados a uma postura altruísta.
Pretendem o bem estar e a felicidade para todos os seres. Tem
compaixão para com todas as formas de vida. O surgimento desta
tendência comportamental já é considerada o início de um despertar; de
uma Iluminação.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aristóteles
13
Aristóteles
'O fim não é o conhecimento da ética e sim o agir eticamente. O pretendido é
que o conhecimento se transforme em ação.'
A Ética proposta por Aristóteles, apesar de antiga é uma das mais
importantes mesmo na atualidade. Aristóteles nasceu em Estagira, na
região grega da Macedônia em 384 a.C. e faleceu também na Grécia, em
322 a.C. Por sua origem, também é conhecido como o Estagirita. Platão
foi aluno de Sócrates e Aristóteles foi aluno de Platão, tornando-se
proeminente em sua Escola. Com a morte de Platão, não sendo
escolhido como sucessor, fundou em Atenas, em 333 a.C. a sua própria
instituição de ensino denominada por Liceu, por se localizar próxima ao
Templo consagrado ao Deus Apolo, nos seus aspectos simbólicos de
lobo (licos). Aristóteles costumava instruir seus alunos enquanto
caminhava. Deste modo a instituição também é conhecida como Escola
Peripatética, pois em seu 'peripatos', termo grego para passeio, os
estudantes e ele caminhavam e debatiam sobre os assuntos dos cursos.
Lá passou 13 anos ensinando e escrevendo a maior parte de suas obras.
Foi grande colecionador de textos possuindo uma biblioteca particular
de grande expressão para a época. Tem cerca de 20 publicações,
conhecidas graças ao seu seguidor posterior Andrônico de Rodes o qual
organizou seus inumeráveis escritos. No entanto vários outros livros seus
se perderam. A Ética Aristotélica está concentrada no livro 'Ética a
Nicômaco', sendo Nicômaco o nome de um de seus filhos. Seu aluno
mais notório foi Alexandre, o Grande, o qual tinha o sonho de criar um
só povo irmão, liberto dos inúmeros conflitos bélicos comuns entre os
pequenos reinos da época. Seu sonho se frustrou com a sua morte
prematura e devido à ganância de seus generais.
Ao final da vida, Aristóteles foi perseguido pelos Atenienses e
refugiou-se em Cálcide, onde faleceu.
169
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aristóteles
Com a transformação de uma crença particular cristã como a
única tolerada pelo Império Romano no século IV e a consequente
queima e destruição de textos, o pensamento grego dentre outros foi
varrido do Ocidente. Após as Cruzadas tais ideias foram gradualmente
reintroduzidas a partir do Oriente, apesar da grande resistência inicial e
por fim o pensamento Aristotélico passou a ser relevante na Ética Cristã
contemporânea.
Aristóteles observou que todo e qualquer comportamento
humano sempre tem como motivação a busca, mesmo que equivocada
de um bem qualquer. Quando alguém mata, está procurando, por
exemplo, satisfazer sua vingança. Quando alguém rouba, está
procurando aumentar seu bem estar. 'Toda a arte e toda a investigação,
bem como toda a ação e toda a escolha, visam a um bem qualquer; e por
isso foi dito, não sem razão, que o bem é aquilo a que as coisas tendem.'
Tudo que o homem faz visa a um bem qualquer; tudo tende para o bem.
Em acréscimo, pode-se observar que existem inúmeras coisas
boas e uma hierarquia entre elas. Se há uma hierarquia, deve haver um
bem maior que todos os demais e este bem maior é o mais almejado.
Este bem maior, tal sumo bem, é aquilo que os homens verdadeiramente
buscam quando pretendem satisfazer seus desejos menores.
Necessário então procurar diagnosticar que bem máximo é este.
Como ponto de partida Aristóteles sugere começar a busca pelos desejos
mais comuns da cada um. Isto é, pelas coisas boas já bem reconhecidas,
tomando, no entanto, o cuidado de não agir analogamente a um
maratonista que corre por uma pista oval. Ao chegar ao ponto mais
distante imediatamente começa a retornar ao ponto de partida. Ou seja,
devemos buscar o essencial com o cuidado de, chegando a este ponto,
não retornar a pontos mais superficiais.
O sumo bem deve ser o mais absoluto e incondicional. Aquilo
que é sempre desejável em si mesmo e nunca no interesse de outra coisa.
Como absoluto e incondicional, o sumo bem tem que resistir à prova do
tempo. Ser bom para todos os antepassados, para todos os pósteros,
para cada um de nós e para toda a humanidade. Isto é, ser universal.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aristóteles
Nesta busca podemos chegar à conclusão provisória que o sumo
bem é uma vida de prazer. No entanto tal estilo de vida seria a de um
escravo, que alterna grande prazer com grande sofrimento. Uma
ilustração deste pensamento Aristotélico no contexto da pósmodernidade seria a de um viciado em crack. Tal vício se dá, por
mecanismo idêntico à todas as demais drogas, porque o produto no que
é consumido, confere uma enorme sensação de prazer. No entanto tal
prazer passa e advém ao usuário grande sofrimento e angústia o que gera
um impulso premente por amenização que leva ao consumo de uma
nova dose. Ocorre deste modo fenômeno exatamente como descrito
por Aristóteles: um escravo que goza alternadamente grandes prazeres e
grandes sofrimentos.
Nesta busca poderíamos também concluir que o sumo bem seria
a honradez, ou a fama, ou a respeitabilidade, ou ainda a credibilidade ou
a fortuna. Aristóteles neste caso pondera que o sumo bem deve ser algo
próprio do homem, que dependa dele mesmo e que dificilmente lhe
possa ser tirado. Neste caso, a honradez e os demais itens citados
dependem mais de quem os concede do que de quem os recebe. Isto é,
não depende do próprio indivíduo, mas sim do meio onde se encontra e
daqueles que o rodeiam. É relativamente fácil observarmos pobreza,
convertendo-se em riqueza e depois novamente em pobreza. Ou riqueza
convertendo-se em pobreza e eventualmente mais uma vez em riqueza.
Efetuadas tais ressalvas preliminares, podemos tentar diagnosticar
qual seria tal sumo bem, por uma série de auto questionamentos. Quero
concluir um curso superior; isto é bom. Porém perguntemo-nos agora:
Por quê? Quero obter um bom emprego. Por quê? Quero viajar. Por
quê? Através de tais perguntas sucessivas quanto às nossas atitudes,
terminamos por descobrir que na verdade, o que estamos realmente
buscando com todas elas, segundo Aristóteles é a felicidade, o
desenvolvimento pessoal e a autorrealização. A este anseio composto, se
confere o termo grego Eudamonia. A Eudamonia, acima de qualquer
outra coisa, é considerada como esse sumo bem.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aristóteles
Se o estudo da Ética é a busca do comportamento adequado
individual e se a pretensão de todos é a Eudamonia, o comportamento
adequado e portanto ético, é exatamente aquele capaz de promove-la.
Diagnosticado aquilo que cada um de nós busca, cabe agora
descobrirmos como obtê-lo.
Aristóteles passa então de um raciocínio lógico e dedutivo para
uma abordagem indutiva e experimental, de uso comum em diversos
ramos da ciência e cita uma regra de inestimável valor, cujas aplicações
transcendem em muito o escopo deste texto: 'Para explicar as coisas
invisíveis, devemos recorrer à evidência das coisas sensíveis.' Ou seja,
para podermos explicar o que está além e causa as manifestações,
devemos recorrer ao estudo dos efeitos manifestados em si. Desta
forma, como desejamos saber como nos tornarmos felizes, realizados e
desenvolvidos, cabe observar como agem os homens que alcançam tais
características.
Aristóteles observou que o homem feliz vive bem e age bem. Que
bem viver e bem agir corresponde diretamente a ser feliz.
Em nossas vidas cotidianas frequentemente supomos que alguns
indivíduos que fazem o mal, antiéticos, terminam por alcançar a
felicidade. Isto talvez ocorra porque observamos apenas o mundo
exterior das pessoas e não o seu mundo interior. Não vemos suas
despesas com médicos e com a farmácia; seu consumo de psicoativos,
seus conflitos e isolamento interpessoal. Talvez também porque nossa
capacidade de estudar os acontecimentos seja limitada. Observamos o
que ocorre hoje, mas hoje não somos capazes de observar o amanhã. De
qualquer modo Aristóteles desconsiderou eventuais exceções.
Porém quais seriam as características destas pessoas que agem
bem? Como descrever e classificar a natureza de suas atitudes? Neste
ponto Aristóteles faz uma abordagem compatível com o pensamento
grego então vigente. Enquadrou as atitudes destes homens felizes em
classes denominadas por virtudes. No entanto seria um contrassenso que
a prática de tais comportamentos fosse desagradável, pois afinal é
exatamente a prática de tais virtudes que leva à felicidade e à eudamonia
de modo geral.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aristóteles
Os homens virtuosos são felizes e por serem felizes são
classificados como éticos, de modo que os homens éticos são virtuosos.
As ações virtuosas devem ser necessariamente aprazíveis em si mesmas.
A Eudamonia, que é obtida agindo-se virtuosamente é portanto também,
a melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo.
Ser louvada é característica das virtudes e da ética como um todo.
Fácil observar que em geral mesmo indivíduos não éticos prezam a ética.
Assim, por exemplo, um patrão desonesto e antiético desejará um
empregado fiel a ele, honesto a ele e laborioso para ele. Desta forma,
mesmo os não virtuosos louvam a virtude, desde que os virtuosos não se
voltem contra eles e desde que coadunem com seus erros. Os filósofos e
os éticos são perseguidos e assassinados não por serem éticos, mas sim
por suas ações políticas, defendendo uma ética comunitária.
Pelo pensamento Aristotélico, o comportamento ético independe
do meio externo. Alguns homens tornam-se éticos; amealham inúmeras
virtudes. Outros não o fazem portando-se de um ou outro modo nas
mesmas circunstâncias.
O estagirita considera que a alma humana tem uma parte racional
e outra irracional, que são distintas, porém inseparáveis por natureza.
Segundo ele, o princípio racional impele para o bem e (uma parte) do
princípio irracional atua no sentido inverso.
Quanto mais ético seja um indivíduo mais a irracionalidade estará
em todos os casos em sintonia com o princípio racional. Desta forma o
primeiro passo para atingir a Eudamonia através do comportamento
virtuoso é agir racionalmente e controlar as paixões com o emprego da
razão. Surgem assim duas virtudes, quais sejam o controle da
impulsividade e a continência. No homem continente o elemento
irracional indesejável obedece ao princípio racional. Por fim, 'em todas as
coisas, contra o que mais devemos nos precaver é o prazer e o que é
agradável, pois não podemos julgá-lo com imparcialidade.'
O aperfeiçoamento de nossa conduta é a rigor um processo
gradual de longo prazo. Ninguém pode ou deve transformar
abruptamente o seu modo de ser. Ninguém pode ou deve ficar muito
diferente de uma hora para outra. De acordo com Aristóteles, para
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aristóteles
iniciar tal jornada é conveniente começarmos com as nossas
características comportamentais já razoavelmente satisfatórias e
progredirmos eticamente a partir dai.
Aristóteles toma o cuidado de indicar a estratégia a ser usada para
estabelecer em nós mesmos os comportamentos Éticos; aqueles capazes
de nos fazer atingir a Eudamonia. Segundo ele, confiar ao acaso o que há
de melhor e de mais nobre seria um completo contrassenso.
As virtudes seriam intelectuais ou morais. A geração e o
crescimento das virtudes intelectuais se devem em grande parte ao
ensino e requerem experiência e tempo. As virtudes morais são obtidas
pelo hábito; pela prática. Aristóteles, consonantemente à moderna
Programação Neuro Linguística, considera cada um de nós, ao mesmo
tempo, o treinador e aquele que é treinado por nós mesmos. Assim, por
exemplo, caso desejemos nos tornar mais cordiais devemos, antes de
mais nada, começar a exercitar continuamente a cordialidade, até que
esta característica se torne automática em nós. Assim, tornamo-nos
virtuosos praticando a virtude e é pela ação que se gera ou se destrói uma
virtude. Isto é, agindo-se bem ou agindo mal nos atos que praticamos em
nossas relações com outras pessoas.
Para ilustrar a importância do treinamento, Aristóteles cita que
um sábio foi convidado a dar uma palestra sobre educação. Este pediu
um longo prazo para se preparar, o que surpreendeu os interessados,
frente à sua notoriedade e domínio sobre o assunto. Chegada a data da
apresentação, o palestrante se colocou no centro do anfiteatro e sem
dizer palavra chamou auxiliares que trouxeram duas gaiolas: uma com
uma lebre e outra com um lobo. Após outro sinal as gaiolas foram
abertas: a lebre correu e o lobo também ao seu encalço terminando por
despedaçá-la frente à audiência atônita. Passados alguns momentos o
sábio fez outro sinal e outras duas gaiolas foram trazidas. As portas se
abriram e a plateia aguardou idêntica cena. No entanto, desta feita, a
lebre e o lobo correram um em direção ao outro e começaram a brincar
afetuosamente. Com isto o sábio falou: Vocês me pediram para falar
sobre educação. A diferença do primeiro para o segundo par de criaturas
é a de que a segunda foi educada.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aristóteles
Fica claro assim que podemos alterar nossas próprias
características pessoais indesejáveis com o devido treino. O primeiro
passo para atingir a Eudamonia é procurar empregar a razão no
direcionamento de nossas atitudes. O segundo é o de autocondicionarmo-nos. Habituarmo-nos a agir virtuosamente. A repetição
de uma ação gera um hábito; um costume; uma maneira de agir
fortalecida e condicionada. Desta forma se a virtude é condicionada, o
erro se torna mais difícil. Para a posse das virtudes apenas o
conhecimento é de pouco ou nenhum valor. A prática reiterada de atos
virtuosos, e portanto éticos, é de importância fundamental. É por sua
prática que o homem torna-se efetivamente ético. Sem essa prática
ninguém teria sequer a possibilidade de tornar-se bom. '...Porém, a
maioria das pessoas não procede assim. Refugiam-se na teoria e pensam
que estão sendo filósofos e dessa forma se tornarão bons, de certo modo
parecendo com enfermos que escutassem atentamente os seus médicos,
mas nada fizessem do que estes lhes houvessem prescrito. Assim, como
a saúde destes últimos não pode restabelecer-se com esse tipo de
tratamento, a alma dos primeiros não se tornará melhor com um tal
curso de filosofia...'
O estagirita considera que há uma necessidade fundamental a
toda a ação ética que é a sua tempestividade. Ou seja, deve ser pertinente,
buscar alguma utilidade. Deve também ser realizada em momento
oportuno e em local conveniente. A orientação por ações úteis permite
classificar a ética Aristotélica como uma forma de utilitarismo. Por se
ajustar às condições de local e época não se caracteriza pelo
estabelecimento de regras específicas e sim como já foi percebido,
fundamenta-se exclusivamente no agir bem, que por sua vez se realizará
caso a caso, graças ao bom discernimento do indivíduo. A ética de
Aristóteles frequentemente é denominada como ética das virtudes.
Após o acima exposto cabe-nos agora mencionar algumas das
virtudes exploradas pelo filósofo e é difícil escolher a melhor ordem para
tal.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aristóteles
Aristóteles salienta o que estrutura seu modo de pensar. Em certo
aspecto a principal e a rainha das virtudes é a temperança ou moderação.
Por descrição pitagórica anterior, buscar em tudo o meio justo e bom.
Ele observou que a grande maioria das virtudes tem um extremo
de excesso e outro de deficiência. Os pontos médios seriam as virtudes e
os extremos os seus vícios correspondentes. As virtudes seriam
destruídas pela deficiência ou excesso e preservadas pela mediania.
Aos extremos da temperança, tanto seu excesso quanto sua
deficiência, denominamos pelo mesmo termo, intemperança.
A prudência é outra das virtudes de enorme importância, talvez
equivalente ou ao menos logo após a moderação. Pitágoras quanto a ela
nos sugere pensar antes de falar ou agir. A prudência e a coragem são
como as duas faces de uma mesma moeda. Os excessos de ambas são
respectivamente conhecidos pelos termos covardia (até eventualmente a
inação) e temeridade. As deficiências, respectivamente a temeridade e a
covardia. Eventualmente fosse um exercício interessante, para cada
virtude, buscar encontrar os termos caracterizadores dos vícios de
excesso e de deficiência. Analisando a persistência, encontraríamos a
inconstância e a teimosia. A liberalidade teria os extremos de avareza e
prodigalidade. Prodigalidade extrema é considerada atualmente um
desarranjo psíquico e se caracteriza por dar-se aquilo que não se tem. O
ponto ótimo entre o desprezo e a idolatria seria o da admiração. O
equilíbrio entre a impureza e o puritanismo é a pureza. O ótimo da
mansidão teria como desvios a ira e a indefensabilidade. A simplicidade
estaria entre a luxuosidade e a simploriedade. A humildade entre o
orgulho e a pusilaminidade. O exercício pode ser estendido para todas as
afecções humanas.
O meio termo; a atitude virtuosa adequadamente distante das
extremidades opostas é determinada de modo relativo. É um diagnóstico
pessoal. Para auxiliar tal análise é útil observar o que é nobre versus o
que é vil; o que é vantajoso versus o que é prejudicial; o que é agradável
versus o que é doloroso. Observe que pelo pensamento aristotélico e
pelo menos a longo prazo, não há nada que gere maior prazer do que ser
ético; virtuoso. Desta forma, apesar do fato que cada um de nós
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aristóteles
intimamente e sempre tendamos a nos considerar suficientemente bons,
caso estejamos a sofrer, tal sofrimento é evidência que nosso
comportamento não tem sido tão adequado quanto poderia. A natureza
de cada um de nós pode ser considerada simbolicamente análoga a
nossos pés. Os sapatos como nosso comportamento individual. Caso
usemos sapatos de tamanho menor, ele machucará, eventualmente até
não conseguirmos andar e nossos pés se ferirão. Por outro lado, se
usarmos sapatos folgados demais, será também difícil caminhar. Eles
machucarão. Podem cair dos pés e estes se ferirão no caminho
pedregoso da existência. Em suma cada um tem um comportamento que
lhe é adequado. O ponto ótimo para cada virtude e o diagnóstico de tal
ponto cabe a cada um de nós fazer, através da razão e do
autoconhecimento.
Em suma, por Aristóteles, o prazer e a dor que experimentamos
são indicativos da qualidade de nossos comportamentos.
A tendência natural do ser humano quando porta um
determinado vício é o de considerar um outro que porta a virtude de
mesma modalidade, como manifestando o vício oposto. Assim um
temerário ao observar um prudente tenderá a considerá-lo covarde. Um
puritano ao observar uma pessoa pura, o considerará um libertino.
Uma vez que o indivíduo consiga diagnosticar que se encontra
fora do ponto médio para si, em relação a uma virtude qualquer,
Aristóteles sugere um procedimento corretor. Forçar-se seguidamente na
execução do comportamento contrário, também não correspondente ao
ponto médio. Assim, se alguém considera que está amando de menos,
deve esforçar-se por algum tempo a amar demais. Se é autodiagnosticado
como pouco amigável que procure por algum tempo ser amigável além
da conta. Se rigoroso demais, por algum tempo e repetidamente por
atitudes, uma pessoa complacente. Aristóteles observa que este é
procedimento análogo ao de endireitar uma tábua empenada. Ela é
molhada e forçada repetidamente para o lado contrário ao do
empenamento. Ou seja, para atingir o ponto ótimo, deve-se cultivar por
algum tempo o hábito de ultrapassá-lo.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aristóteles
Poderíamos considerar que alguns princípios não apresentam nem
excesso nem falta. Seriam exemplos a veracidade e o amor. No entanto
podemos ser verdadeiros com rudeza na hora inoportuna ou verdadeiros
com gentileza na hora oportuna. Ou podemos voltar o amor
exclusivamente a nós mesmos (egoísmo) ou voltá-lo exclusivamente aos
outros.
A justiça, além da temperança e da prudência é outra virtude
muito apreciada por Aristóteles. A temperança e a justiça são como
virtudes irmãs. Aristóteles considera a justiça uma virtude completa, pois
está ligada a atuação do indivíduo não somente para consigo mesmo,
mas também em relação ao próximo. A justiça é também o bem de um
outro. A justiça seria uma síntese de todas as virtudes. Em relação a ela,
recomenda agir na consideração das leis ideais, além e acima das leis
formais. Acima das leis convencionadas pelos homens, aquelas que
reflitam o bem. A justiça de acordo com o estagirita é distributiva e
proporcional. A reciprocidade dever-se-ia fazer de acordo com uma
proporção e não na base de uma retribuição exatamente igual e seria pela
retribuição proporcional que uma coletividade se manteria unida. Ou
seja, se um de nós recebe algo bom é oportuno que ofereça algo em
troca, proporcional às nossas possibilidades. Se um chefe nos contempla
com uma promoção que jamais poderíamos dar igual a ele, que tal
lembrar de seu aniversário ou lhe desejar bom dia?
O homem que age injustamente ficaria com uma parte muito
grande daquilo que é bom, e o que é injustamente tratado ficaria com
uma parte muito pequena. A justiça corretiva seria o meio termo entre a
perda e o ganho. Deveríamos, segundo Aristóteles, tanto subtrair do que
tem mais, como acrescentar ao que tem menos. Justiça seria equilibrar os
pratos da balança.
Pelo exposto observamos, que tal como os demais maiores
pensadores da área da ética, Aristóteles também defende a igualdade
entre todos os seres humanos. Não apenas igualdade de oportunidades,
mas também plena e indistinta igualdade de meios e fins.
O pensamento de Aristóteles é de extrema valia. Ele nos mostra
que todas as ações humanas, normalmente impensadas e de motivação
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aristóteles
não consciente, pretendem a felicidade, a autorrealização e o
desenvolvimento pessoal. A pessoa que se sente em autorrealização e
desenvolvimento, sente-se bem. Observa que a prática de virtudes leva a
tais resultados e a prática de vícios a resultados opostos. O
comportamento adequado ao homem é o que lhe traz a felicidade, a
autorrealização e o desenvolvimento. Como isto é alcançado por uma
vida virtuosa, uma vida virtuosa é uma vida ética.
Tornamo-nos virtuosos agindo racionalmente e habituando-nos a
ações virtuosas. A virtude se obtém pela prática. Se por acaso sofremos,
cabe a nós observar quais virtudes não estamos praticando
adequadamente e procurar nos ajustar melhor ao seu ponto de equilíbrio.
Várias virtudes são comentadas por Aristóteles.
A virtude fundamental é a temperança, concebida como o meio
justo e bom entre opostos de mesma natureza (vícios). Tal meio justo,
bom e adequado depende de cada indivíduo. A prudência é
magistralmente descrita por Pitágoras séculos antes: 'pensa antes de falar;
pensa antes de agir.' A justiça é uma virtude que sintetiza as demais. Na
sua ação, deve-se buscar o equilíbrio, o meio termo e a igualdade, através
de ações proporcionais aos desvios. A justiça Aristotélica visa a plena e
efetiva igualdade entre todos.
Mas não poderíamos encerrar este texto sem pelo menos
mencionar mais umas poucas virtudes, dentre as aristotélicas.
A fortaleza, ou seja, não fraquejar ante os obstáculos ou a
oposição; persistir.
O autocontrole e gestão, sinônimo de autonomia, termo criado e
virtude valorizada anteriormente por Sócrates.
A amizade, que é dar amor a outro.
A magnanimidade (bondade) e a magnificência (generosidade) tão
profundamente valorizadas pelos grandes pensadores de todos os
tempos.
Se Aristóteles está certo, o que é verdadeiramente de valor na vida
é obtido através das virtudes. O que é detestado por todos, através dos
vícios. Cabe a cada um de nós confiar ou não no diagnóstico deste
filósofo; experimentar e nos convencermos ou não que está certo.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Considerações
14
Considerações
O maior bem almejável a qualquer ser humano é a sua felicidade.
Como ética justamente significa tão somente comportamento, o melhor
comportamento e a melhor ética é aquela capaz de nos tornar
verdadeiramente felizes. Tal afirmação é assustadora. Não seria isto uma
antiética a violar todo o conceito verdadeiro da moral? Não seria a ética
ao contrário, uma vida de contínuo sofrimento e desilusão?
Não! A constatação é a de que os indivíduos felizes são aqueles
que agem bem. Quem age bem é ético e também feliz.
Isto vai de encontro à opinião comum. Supomos ser possível e
supomos observar indivíduos não éticos felizes e indivíduos éticos
infelizes. Como nós mesmos temos a forte tendência de interiormente
nos considerarmos éticos, na medida que sejamos infelizes, seríamos
levados a discordar. Este é justamente o primeiro ponto a considerar, a
respeito da discordância entre a opinião comum e a conclusão que
estamos a considerar. Será que somos tão éticos quanto pensamos, para
sermos tão felizes quanto almejamos?
Quanto à observação que fazemos das pessoas ao nosso redor,
concordaremos que o que vemos é apenas o mundo exterior de cada um.
Vemos alguém com uma boa casa ou um bom carro e concluímos: ele é
feliz. E a ideia de felicidade associada a bens de consumo nos é
bombardeada a cada instante por pessoas que nos rodeiam e pela
propaganda. Talvez desde pequeno nos tenham vendido a meta de
estudar para ganhar dinheiro e assim ser feliz, ou ganhar dinheiro de
qualquer outro modo e assim o ser. Não me parece que haja mal objetivo
em possuir-se bens. Porém correlacionar bens com a felicidade é, dentre
outros pontos, ignorar fatos tais como o de que por pesquisas sérias, as
pessoas que se consideram mais felizes tendem a ser justamente aquelas
portadoras de menor quantidade de bens.
Quando observamos pessoas ao nosso redor, com conduta que
nos parece inadequada e as vemos felizes, vemos apenas exterioridades.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Considerações
Não vemos seu sofrimento interior ou não vemos a quantidade diária de
medicamentos que precisam ingerir para dormir ou viver. Uma face
sorridente pode esconder um inferno ardente interior. Uma face sóbria,
o paraíso.
Como observadores temos ainda a limitação de ver as coisas
como se apresentam no agora e não ao longo do tempo. Alguém hoje é
efetivamente feliz e efetivamente apresenta um comportamento
inadequado? Isto é hoje. O que podemos dizer sobre o amanhã, ou daqui
a um mês ou um ano? Esta felicidade passageira não seria tal como uma
brisa prenunciando uma tempestade promovida por seus atos
equivocados? E o sofrer de hoje porventura não seria apenas um ajuste e
arranjo a alegrias indescritíveis?
Quando observamos o comportamento de alguém e o julgamos
como adequados ou inadequados, a rigor estamos empregando como
padrão para comparação os modos de proceder que nós próprios
preconcebemos como certos ou errados. Ou como o meio social onde
nos inserimos assim considera. Não é por vezes considerado certo
criticar ou fazer sofrer a outros? Não é considerado por muitos, algo
totalmente independente da ética, fazer ativamente o bem? Mas será que
nós estamos certos quanto a isto? Será que a opinião comum do meio
social onde estamos inseridos está correta? O que achamos ético não
pode ser na verdade antiético e vice-versa? Se vejo alguém feliz e eu
mesmo me sinto infeliz, não seria na verdade ele o ético e eu o antiético,
apesar de todos os preconceitos que carrego e toda a massa popular de
opiniões e costumes concernentes a tais fatos? 'Eu não pago impostos
porque os impostos são mal geridos e sou ético.' 'Eu traio o consorte e
sou ético.' 'Eu sou rancoroso e vingativo e sou ético.' 'Eu não respeito e
desprezo e sou ético.' ... O conceito popular de ética será mesmo a
melhor ética?
Figuras há na história, de ética que poderíamos considerar
inquestionável. Para o mundo ocidental o mais importante nome para a
maioria é o de Jesus. Mas muitas coisas terríveis foram feitas por
pretensos seguidores seus. Guerras, assassinatos, fogueiras, destruições.
Destruições inclusive efetuadas sobre o saber e a cultura humanas.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Considerações
Monges usando por debaixo de seus mantos faquinhas para
autoflagelação; fiéis ferindo inutilmente seus joelhos em longas jornadas
ou se chicoteando freneticamente. Não há uma única palavra que tenha
saído da boca de Jesus e que pode ser lida em um dos quatro evangelhos
que sequer sugira isto. De onde saiu tanta insanidade e ignorância e
maldade? De Jesus ou daqueles que se dizem porta vozes de seus
ensinos?
De qualquer forma, ao passarmos defronte de templos, o que
vemos é um instrumento de suplício romano. O que relembramos em
seu interior está associado às horas próximas de tal tortura.
Automaticamente passamos a associar ética com dor e morte. Mas será
mesmo assim? Porventura Jesus não era feliz? Porventura estava triste
quando centenas acorriam a ele para ouvir um pouco de seus ensinos?
Ou estava triste quando amenizando a dor de doentes os curava?
Cristãos costumam crer que Jesus após a morte tornou-se um príncipe
regente dos céus. Serão esta função e este local desconfortáveis? Cristãos
tem em mente dias de sofrimento e dor e ignoram a felicidade de antes e
depois.
E quanto ao próprio Aristóteles, refugiado longe de Atenas ao
final da vida? Seria ele infeliz ao longo das décadas que ensinava aos seus
alunos enquanto passeava pelo parque?
Ou Sócrates, condenado a beber veneno, estaria ele deprimido
enquanto por muitos e muitos anos, ao redor das mesas de banquete e
rodeado por seus admiradores, calmamente os ajudava no caminho do
conhecimento?
Gandhi então, adorado quase como um deus, passeando sem
seguranças e apenas apoiado em suas netas e rodeado por multidões
gratas e embevecidas; como estaria se sentindo ele. No momento do
assassinato elevou seu pensamento a Brahma; enquanto aprisionado
pelos ingleses, mostrava ao fiar tecidos, a sua liberdade e a sua verdade a
todos.
Mandela por anos aprisionado, por uma vida inteira e além dela,
adorado por toda uma nação.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Considerações
Mas este ainda não é o ponto principal. O que você acha? Tais
personagens e inúmeros outros reconhecidamente éticos, sofreram
dificuldades por serem éticos? Por serem éticos ou na verdade por algo
mais?
Médicos salvam vidas e como vidas não tem preço, recebem
como retribuição um nada em comparação ao que dão. Médicos
enquanto analisados estritamente como médicos podem ser considerados
éticos e normalmente assim até mesmo o povo os reconhece e respeita.
Pelo menos a maioria não sofre perseguições ou torturas ou assassínios
ou é aprisionada.
Volto à pergunta. Os éticos tem períodos de sofrimento apenas
por serem éticos? O essencial da ética é fazer o bem. Os que sofrem
percalços por eles passam, apenas porque fazem o bem? Não seria a
rigor devido a uma orientação particular ao bem que fazem?
Um médico é ético. Faz bem ao seu cliente. Um pai ou mãe são
éticos. Fazem bem aos seus filhos e costumam ser felizes e realizados.
Mas qual bem Gandhi tentou e conseguiu fazer. O seu bem
particular foi o de libertar todo um povo do império inglês. O bem de
Mandela foi o de igualar negros e brancos em uma nação inteira. A uma
tal ação não chamamos apropriadamente por ética e sim por política.
Tais personagens não eram apenas éticos, mas alteraram em grande
medida o comportamento coletivo. Foi sim esta ação política que os fez
sofrer e não o fato de serem éticos.
Sócrates e Aristóteles libertaram parcialmente da ignorância a
juventude de Atenas, uma das mais importantes cidades da Grécia.
Alteraram seu modo de pensar. Mostraram-lhes os erros e as injustiças
associadas ao pensamento comum. Procuraram não somente serem
éticos, mas tornar também os que os rodeavam assim. Procuraram não
somente a felicidade individual, mas também a felicidade coletiva. E
pessoas que agem de modo mais esclarecido, de modo mais ético,
normalmente desagradam muitos. Ambos, dentre outros tantos,
acenderam inúmeros archotes e a luz perturbou as trevas e as trevas em
revolta buscaram a vingança.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Considerações
Jesus foi ainda mais longe: Foi ético e feliz e procurou fazer com
que outros fossem éticos e felizes. Mas além disto, incentivou seus
alunos a fazer bem do mesmo tipo que ele mesmo fazia. Isto é, a fazer o
bem, mas também incentivando a outros a também fazer o bem e
incentivar ainda a outros a fazer também o bem. E desta forma o seu
trabalho, na medida que seja imitado e bem entendido - vale repetir, bem
entendido - tem a possibilidade de transformar gradualmente todo o
mundo, em um mundo ético; todo o mundo, em um mundo feliz.
Salvo melhor juízo, é conveniente passarmos de uma ilusão de
ética para a verdadeira ética. O prêmio é um cavalo valioso e fogoso - a
felicidade - que nos incentiva, conduz e impulsiona ao longo da vida.
Somos felizes com o bem. No bem somos éticos. Somos felizes
recebendo amor e o único meio seguro e inabalável de recebê-lo é o
doando. Num bar e numa festa com outros, compramos a felicidade
com a única moeda que efetivamente existe; trocando amor. Você já foi
a algum destes eventos e conversou e dançou com outros? Interagiu
afetuosamente com eles? Foi bom, não foi? Ao contrário você já foi a
um lugar destes sem conhecer ninguém, não interagindo com ninguém,
ninguém interagindo com você?
Pessoas não se tornam felizes com um certo trabalho. Ficam
felizes na medida que consideram em seus corações que o trabalho que
executam é útil, é bom, é um bem a outros. E o bem que visam aos
outros alegra seus próprios corações.
Nenhum ser humano suporta bem uma vida não significativa.
Temos a necessidade de sermos heróis de algum modo. O modo,
compete a nós mesmos escolher. Damos sentido às nossas existências
nos sentindo verdadeiramente úteis a outros. Verdadeiramente nos
sentindo; não apenas racionalizando a respeito. Ser útil é uma
necessidade inconsciente que a teoria da evolução ou a psicologia
explicam. Dar significado à vida trás efeitos colaterais: um sentimento
contínuo de bem estar e felicidade, autorrealização e desenvolvimento
pessoal. Quem se sente útil atua de algum modo em seu meio social e
como atende ao apelo interior de ser útil, também se desenvolve. Fazer o
bem é a grande receita geral para a vida, dada insistentemente pelos
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Considerações
grandes pensadores da humanidade de todos os tempos. É o cerne
verdadeiro da ética. Quais bens fazer compete ao coração de cada um de
nós escolher.
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Justiça
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Justiça
O conceito básico de Justiça é a ideia de correção do erro, da
falha, do desequilíbrio e outras concepções análogas. Suas bases são
encontradas dentre outros fundamentos, na moral, na Ética, nas leis, nas
leis naturais e nas religiões. Descobertas recentes demonstram que o
cérebro humano responde automática e naturalmente a situações justas
ou injustas no campo da desigualdade das inter-relações sociais. Tal
constatação sugere que um ambiente justo tenha a propriedade de
satisfazer necessidades humanas básicas naturais. Da mesma forma,
pesquisas também demonstram que também macacos reagem a situações
justas ou injustas de igualdade ou desigualdade social. Isto sugere que o
princípio da justiça está ligado aos instintos e aos sentimentos de parte
dos seres vivos.
Podemos observar algumas abordagens ou concepções filosóficas
básicas no estudo da Justiça.
Sócrates concebia a Justiça como Harmonia; como uma busca
para a promoção do inter-relacionamento humano harmonioso. Para
Platão, para se atingir tal harmonia, seria necessário que o indivíduo
retribuísse o correspondente exato de todos os benefícios que recebesse.
Outra abordagem é a da Justiça como ordem divina. Daí surge
um dilema clássico conhecido como dilema Eutífron. Se Deus impõe a
justiça, por impô-la é essencialmente tirano. Se Deus subordina-se à
justiça, por estar subordinado, é vassalo. Uma proposta de solução é a de
que Deus é bom, e por ser bom, a justiça divina é expressão de Sua
bondade. Se esta é uma solução aceitável, Deus planejaria o melhor à sua
criação e a Sua Justiça levaria a isto.
Na concepção de Justiça natural, as consequências resultam
naturalmente, por meio de leis naturais, das ações ou das escolhas.
Na ideia de Justiça como criação humana, se afastam as
concepções de harmonia natural, ordem divina, lei natural, etc.
187
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Justiça
Na abordagem da Justiça como artifício, considera-se a Justiça
como uma construção para que os detentores do poder dominem os
fracos.
Na Justiça de comum acordo, considera-se a Justiça como criação
humana e um pacto entre os indivíduos de uma coletividade para
adequado convívio social.
Na Justiça como valor subordinado, segue-se a orientação da
Ética Utilitarista e considera-se que a Justiça deve ser exercida com o
único propósito de produzir a maximização do bem, através da previsão
das melhores consequências.
Podemos considerar que são em número de quatro, as grandes
teorias da Justiça: Consequencialista, Distributiva, Retributiva e
Restaurativa.
A Justiça Consequencialista é a aplicação direta da Ética
Utilitarista. Por tal pensamento uma ação é tanto mais ética quanto
promova o maior bem para o maior número de pessoas. Desta forma, o
valor de qualquer ação é medido pelo resultado alcançado, frente ao
objetivo de maximização do bem. Do mesmo modo, a reação a qualquer
ação deve buscar do mesmo modo tal maximização; o maior bem.
Na Justiça Distributiva, o exercício da Justiça deve pretender a
distribuição adequada de coisas boas entre pessoas diferentes. Como
critérios de distribuição, podemos citar quatro conceitos: Igualitarismo,
Meritocracia, Consequencialismo e Imparcialidade.
Pelo Igualitarismo é papel da Justiça promover plena igualdade no
usufruto das coisas boas, tais como direitos, oportunidades, resultados,
bens e serviços.
Pela Meritocracia, o usufruto das coisas boas deve ser
proporcional ao mérito individual. Já os critérios de mérito podem ser o
volume do trabalho, a qualidade do trabalho, a inteligência, a simpatia, a
boa aparência e assim sucessivamente. A ideia de mérito pode possibilitar
uma interessante discussão. Numa visão materialista, os critérios acima
citados dependem fortemente, quando não exclusivamente de fatores
genéticos e ambientais e muito pouco ou nada do indivíduo em si. O
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Justiça
mesmo se aplica para algumas concepções espiritualistas nas quais a
situação do indivíduo no presente é essencialmente arbitrária.
Pelo Consequencialismo, o usufruto das coisas boas entre os
indivíduos deve ser feito de modo a maximizar o bem.
Por fim, pelo critério da Imparcialidade, o exercício da Justiça
deve se mostrar imparcial quanto à questão de usufruto de coisas boas.
Neste ponto, salvo melhor entendimento, cabe algumas reflexões
do filósofo John Rawls. Segundo ele, no exercício da Justiça, devemos
nos abstrair de tudo a respeito de nossos interesses pessoais e escolher a
ação, ou a reação, ou a decisão que seria melhor para todos. Devemos
ainda buscar o maior benefício dos menos favorecidos e quanto ao
direito de Liberdade, garantir que cada pessoa tenha a maior liberdade
possível, compatível com a maior liberdade para todos.
Pela Justiça Retributiva, retribui-se uma ação individual
inadequada, com uma reação temida ou desagradável. No exercício da
Justiça com tal orientação surgem três questões: Por que reagir? Como
reagir? Quando reagir (ou não)? Na Justiça Retributiva há duas
orientações: Novamente o Consequencialismo, com base na Ética
Utilitarista e o Retributivismo, baseado na Ética Deontológica.
Pelo Consequencialismo a ameaça de punição ou a punição
eventual pretende a dissuação de ações que redundem em más
consequências, que poderiam ser realizadas por outros membros da
coletividade. Na mesma linha, a punição exemplar ou a mais amena de
cerceamento da liberdade tem por fim desencorajar a repetição de ações
que redundem em más consequências, por outros indivíduos. Por fim, a
reabilitação do indivíduo transgressor visa impedir a repetição da ação
indesejada por este.
No Retributivismo não se pretende que a ação da Justiça interfira
no comportamento da coletividade como um todo. Considera-se que a
reação deva ser proporcional à ação, justamente correta e merecida,
focada exclusivamente nos seus autores. Outra interessante reflexão que
deixo ao amigo leitor é de como, por exemplo, retribuir um dano, aos
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Justiça
moldes da lei bíblica do Talião (olho por olho...) causado digamos por
um assalto: 1 ano de cadeia, 10, 20, 30 ? Como se quantificar
racionalmente tal vingança?
A quarta grande teoria da Justiça é a Justiça Restaurativa. Por
meio desta orientação, a Justiça não apresenta o conceito de punição ou
vingança ou ainda o papel de coersora de comportamentos da
coletividade. Frente a uma ação individual inadequada ao meio social,
seria papel da Justiça apenas promover adequadamente a correção do
indivíduo que a praticou, através de, por exemplo, ações de caráter
educativo. Nela o indivíduo que comete atos claramente danosos a
outros permaneceria em processo educacional por prazo indefinido, até
correção de suas tendências inadequadas.
Além destas quatro correntes principais, há outras teorias que se
constituem numa mesclagem das mesmas.
As representações estéticas humanas e mais apropriadamente
nossas representações simbólicas, pela linha de pensamento junguiano e
salvo melhor juízo, revelam as nossas bases conceituais comuns. Muito
do pensamento contemporâneo se deve à antiga cultura grega, e por sua
mitologia, a Deusa que representa a Justiça é Têmis, por sua vez, filha do
Céu (Urano) e da Terra (Gaia). Têmis é prima e irmã de criação da cruel
Nêmesis, a Deusa da Retribuição. É uma das esposas e conselheira de
Zeus, o Deus máximo Criador, Mantenedor e Governador da criação.
Têmis representa ou personifica simultaneamente a sabedoria, a ordem
divina, a ordem natural, a ordem social, a estabilidade e a Justiça. Seus
atributos são a beleza (ela é bela), a dignidade (ela inspira respeito) e a
atratividade (ela atrai e exerce fascínio). Algumas das filhas de Têmis com
Zeus ou algumas das características que surgem e ou estão relacionadas
com ela, são: Astréia (Pureza e Inocência), Irene (Paz), Diké (as reflexões
que levam ao comportamento justo) e Eumônia (Disciplina).
Nas representações estéticas, Têmis segura uma balança de dois
pratos iguais, como que garantindo o equilíbrio preciso entre todos os
aspectos de uma ou mais questões. Têmis por ser uma Deusa é
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Justiça
absolutamente imparcial e plenamente sábia, estando alheia às
preferências humanas. No entanto a partir do século XVI os artistas
decidiram reforçar este seu aspecto, colocando uma venda sobre seus
olhos. Cabe lembrar, no entanto, que pela concepção grega original,
Têmis tem seus olhos bem abertos.
Outro acréscimo recente é o de uma espada. No passado, a
capacidade da Deusa de corrigir o desequilíbrio e o erro e de restaurar e
manter a ordem, não era de forma alguma questionada. A espada foi
acrescentada para reforçar a ideia desta capacidade.
Finalizando estas rápidas noções a respeito da Justiça, podemos
enfatizar que todas as teorias visam o bom inter-relacionamento humano
e todas buscam o que é certo e as melhores soluções para as nossas
inúmeras questões de convívio.
As leis se constituem idealmente nas regras mais fundamentais
para o atingimento do bem comum. Tendem a representar o que há de
mais fundamental numa determinada moral coletiva.
No caso de legisladores não representativos; por exemplo,
ditadores ou oriundos de Estados invasores, as leis representam
interesses estranhos ao coletivo, eventualmente não sendo nem morais,
nem éticas.
Numa democracia auto-representativa ou numa democracia
representativa na qual os legisladores se constituam numa amostra
rigorosamente precisa do padrão ético e moral de uma comunidade, as
leis se constituem nas regras mais fundamentais da moral da nação.
Daquela que representa a moralidade da maioria. Podemos dizer que
neste caso, todas são morais, mas não necessariamente éticas. Em tal
condição é razoável afirmar que há uma tendência de estagnação no
processo de aperfeiçoamento moral da população.
Em relação a isto Aristóteles afirma que o principal papel do
legislador é o de proporcionar a evolução moral de seu povo. Para que
isto se concretize é necessário que os legisladores sejam portadores de
padrões éticos superiores ao da média da população considerada. Com
isto se estabelece uma tendência a leis éticas, mas que não correspondem
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Justiça
necessariamente à moralidade vigente. A Grécia antiga nos agraciou com
um notável avanço da cultura e das instituições humanas. Naquela época
muitos dos legisladores eram também os grandes filósofos que
estudamos ainda na atualidade.
Concluindo este rápido comentário quanto às leis, lembramos que
estas cerceiam a liberdade individual em troca e a princípio, de garantir
um maior bem estar coletivo.
Epiquéia é conceito de origem grega, de uma Justiça ou Ética
Superior que se sobrepõe às leis e a moral. Graças a ela, se torna lícito ao
homem, frente à sua própria consciência, agir contrariamente às mesmas.
Seriam exemplos que justificariam a aplicação deste conceito, o rigor
exagerado de uma dada lei, seu caráter insuportável, o choque da lei com
valores profundos do indivíduo, a dificuldade extrema de cumprir a lei
em plenitude, ou seu caráter estranho à vida e à sobrevivência.
Poderíamos simplificar tal ideia por meio da classificação que já
efetuamos, afirmando que seria o agir conforme a Ética e não a moral.
Mesmo a mera citação deste conceito exige comentários:
* A aplicação da Epiquéia de modo algum implica no perdão das
penalidades impostas pelos legisladores.
Por exemplo, o cidadão que convocado em tempo de guerra se
recusar a guerrear, eventualmente será punido. Neste contexto é
interessante observar que tal cidadão possivelmente morrerá se for
guerrear, como também se for guerrear e propositalmente errar todos os
tiros. Assim em muitos casos a Epiquéia é uma questão de consciência
pessoal e não de resultado. No exemplo citado o de um pacifista morrer
ou não em paz com sua consciência.
Sócrates poderia fugir de Atenas traindo a sua vida pela traição de
seus ideais, ou beber o veneno que o Imperador lhe ordenara.
Jesus poderia se conformar às antigas leis judaicas ou ainda
simplesmente fugir da Judéia, ou então enfrentar a crucificação.
* Nossa capacidade racional é facilmente comprometida por
fatores psicológicos. A existência de terroristas e assassinos alucinados é
192
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Justiça
facilmente observável. Podemos sempre estar errados em nossos
julgamentos.
* A Epiquéia não se aplica para justificar a quebra de leis; cometer
um delito, por interesses menores ou excusos.
* Antes de cogitar não obedecer a uma lei é da maior propriedade,
trocar ideias com aquelas pessoas que nos amam e ou que admiramos e
ou gozam de maior experiência vivencial, tais como os pais, avós, irmãos,
professores, religiosos. Amigos respeitáveis, cultos, íntegros, experientes,
sábios, inteligentes...
Como síntese, a Epiquéia sempre está voltada para o bem maior.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os estóicos
16
Os estóicos
De modo similar ao sofismo e a outros movimentos, o estoicismo
apresenta várias personalidades de peso. Seus principais expoentes
podem ser considerados como o cipriota Zenão de Cítio (334 a.C. - 262
a.C.), o consul romano Marco Túlio Cícero (106 a.C. - 43 a.C), o senador
também romano Lúcius Sêneca (4 a.C. - 65 d.C.) e o imperador-filósofo
Marco Aurélio (121 d.C. - 180 d.C.). Iniciada no século IV a.C. na
Grécia, tornou-se a visão filosófica dominante do Império Romano até o
terceiro século da era cristã. Se há uma diretriz que caracterize esta linha
de conduta é a de que deveríamos nos resignar calmamente ao que nos
acontece, pois tudo está regido por uma ordem natural. Na concepção
cosmológica, o Universo seria um contínuo ordenado, governado por
uma Alma do Mundo. Interessante observar que nenhum grande estóico
se absteve de tentar melhorar o mundo no qual vivia. Desta forma se a
mudança efetivamente acontecia, ótimo! Esta estaria de acordo com um
princípio ordenador maior. Caso contrário, restaria apenas aceitar os
fatos, pois novamente tudo estaria em conformidade com tal ordem.
Eventualmente poderíamos entrever nas concepções deste movimento,
uma visão termodinâmica dos acontecimentos que se desenrolariam no
tempo por uma sucessão de estados de equilíbrio.
Zenão de Cítio foi o fundador da escola denominada por Escola
do Pórtico. Segundo ele o homem deve aceitar a fatalidade universal,
refugiar-se na sua interioridade da qual poderá chegar a ser dono e
senhor, bem como organizá-la convenientemente. Viver adequadamente
seria responder com elegância a impotência objetiva e ter ciência da
própria situação. A liberdade atingir-se-ia quando as paixões estivessem
controladas. Estas seriam impulsos que pretenderiam inutilmente alterar
a ordem universal, mas que apenas alterariam a ordem interior do
indivíduo. Seriam, portanto, enganosas. Caberia ao estóico dominá-las
esforçando-se por nada desejar. Caso conseguisse tornar-se indiferente
195
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os estóicos
aos bens exteriores, nunca sentiria falta daquilo que não tem e
permaneceria em paz e imperturbável.
Os estóicos atribuem uma natureza material a todas as realidades
admitidas, tais como Deus, a alma, as virtudes, os sentimentos como o
amor, as ações como o andar e assim sucessivamente para tudo. Desta
forma a realidade universal seria objeto da física; das ciências naturais.
Nada se encontraria além deste plano da materialidade e a metafísica
seria desta forma essencialmente uma ilusão tal como seria igualmente
uma ilusão considerar a divindade apartada da materialidade. A realidade
considerada deste modo serve de pressuposto à ética e esta é a única
divisão da filosofia que recebe a atenção dos estóicos. Para eles o
supremo bem estaria em viver de acordo com a natureza.
As pessoas comuns correriam atrás de suas paixões, submeter-seiam aos seus desejos e com isto apenas conseguiriam intranquilidade e
angústia. O estóico, pelo contrário, saberia que praticamente tudo o que
acontece não pode deixar de acontecer, pois quase nada se pode evitar.
Desta forma, nada há a deplorar e nada o que perseguir. Ao homem
fundamentalmente apenas restaria a sua liberdade em seu mundo
interior. A paz nesta região só seria atingida pelo autodomínio.
Para um estóico, a responsabilidade ética de cada um se assenta
naquilo que efetivamente depende dele. As deliberações éticas se
relacionariam à distinção entre o que podemos ou não interferir ou atuar.
Marco Túlio Cícero foi influenciado pelos pensamentos de
Aristóteles e Platão. Colecionou muitos inimigos poderosos e foi
assassinado a mando do imperador Marco Antônio.
O princípio fundamental do mundo e da realidade seria a razão.
Deveríamos nos devotar ao autocontrole; ao autodomínio. Haveria um
Deus único e todos nós seríamos seus filhos. Todos os homens seriam
iguais, membros de uma só família. Cícero defende a ideia de um Estado
Mundial e de uma Cidadania Universal. Ainda, que haveria um direito
natural de origem divina.
O homem bom deveria procurar a virtude na sua ação diária.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os estóicos
Quanto à política, seria na pólis que a virtude melhor poderia ser
exercida. O político seria mais importante que o filósofo, porque
enquanto este conseguiria persuadir apenas um pequeno número de
pessoas a seguir seus conselhos, o político, através das leis que faz
aprovar e do poder de comando que exerce, é capaz de levar todo um
povo a fazer aquilo que os filósofos indicassem.
Quanto ao sistema de governo, a monarquia se prestaria a abusos
quando houvesse um mau rei. A aristocracia seria elitista e tenderia a
descuidar dos direitos do povo. A democracia é exercida pelo povo que
por sua vez estaria entregue às paixões, aos apetites e à inveja. No
sistema ideal, o governo deveria ter suficiente poder para governar; o
parlamento, suficiente autoridade para fazer Leis; e o povo, suficiente
liberdade para fiscalizar e controlar o governo e o parlamento.
Cícero defende uma postura altruísta de vida. '... o cidadão deve
mostrar uma grande disponibilidade para dar generosamente à pátria sua
vida, que sempre seria necessário dar um dia à natureza. Não há que
hesitar, assim, em adquirir pelos nossos próprios perigos, a tranquilidade
de todos os cidadãos.'
Cícero também faz distinção entre um direito natural, real,
superior e anterior e o denominado direito positivo, estabelecido pelo
Estado. Quanto ao direito natural afirma que há '... uma lei verdadeira,
que é a reta razão, conforme a natureza, presente em todos os homens,
constante e sempre eterna. Essa lei conduz-nos imperiosamente a fazer o
que devemos, e proíbe-nos o mal, desviando-nos dele. O homem
honesto não é nunca surdo aos seus comandos e proibições: mas estes
não tem efeito sobre o perverso. A essa lei nenhuma alteração é
permitida, e não é lícito revogá-la no todo ou em parte.' Tal lei natural
estaria enraizada na ordem natural, que foi criada por Deus e poderia ser
descoberta pela razão humana.
O pensamento acima pode ser considerado como uma
antecipação de algumas consequências da ética evolucionária natural ou
ainda das conclusões junguianas. Pode também ser encarada como uma
das primeiras propostas de direitos humanos independentes dos direitos
estabelecidos pelos homens.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os estóicos
Para Marco Túlio os deveres éticos do indivíduo, ao longo de sua
vida, são fundamentais, sendo imperativo evitar-se o mal em todas as
situações. Deveríamos procurar fazer com que a razão dominasse os
sentimentos e os apetites, o que seria o mais importante para o
cumprimento das obrigações individuais. O conhecimento ocupar-se-ia
com a investigação da verdade e a vontade com as ações individuais. A
educação ética ocorreria primeiramente no seio familiar. A posse das
virtudes seria superior à de todos os bens materiais.
Lúcius Sêneca nasceu na província romana da Espanha. Autor da
carta intitulada 'Clemência' dirigida ao imperador Nero, na qual defendia
uma monarquia moderada, sem o uso do terror e a tirania. Um pouco
mais tarde foi assassinado a mando deste mesmo imperador.
Digno de nota mais uma vez o fato que os pensadores e filósofos
não sofrem perseguições ou são mortos por apresentarem um
comportamento ético e sim quando se veem impulsionados e atuam no
sentido de promover uma ética comunitária. Ou seja, são condenados
por suas ações políticas.
Para ele, apesar da formação ética individual começar no seio
familiar, a interação professor-aluno igualmente seria importante.
A sabedoria estaria '... em conduzir a própria vida conforme a
razão, cumprindo um programa duplo: o domínio dos afetos da alma e o
saber enfrentar impassivelmente as mudanças da fortuna.'
Todas as pessoas trariam em si as sementes de uma vida honesta,
embora os bons hábitos e os bons exemplos ao longo da existência
tivessem um papel primordial na adoção das virtudes. A educação ética
consistiria em fazer com que os atos correspondessem aos princípios
éticos. Por outro lado, nem sempre o indivíduo possuiria força de
vontade e sabedoria suficientes para a adoção do bem e a rejeição do
mal. Desta forma justificar-se-ia a ação de um tutor espiritual, que
através de sua vigilância e bons conselhos, orientaria e fortaleceria o
aluno.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os estóicos
Para Sêneca não é necessário que alguém seja semelhante aos
melhores. Bastaria que fosse melhor que os maus e que a cada dia
diminuísse um pouco seus vícios e evitasse os erros.
Conclama a que fujamos do luxo e que meçamos as coisas pela
utilidade que nos proporcionam. Que aprendamos a nos apoiar em nós
mesmos. '... A temperar o desejo de glória, a mitigar a ira, a olhar com
bons olhos a pobreza, a praticar a frugalidade, ainda que muitos se
envergonhem dela.'
Encoraja-nos também a seguir a nossa própria razão, fugir da
opinião da maioria e desenvolver um pensamento superior. '... É por isso
que a primeira coisa a fazer é não seguir, como uma vaca, o rebanho das
pessoas que nos precedem, pois nesse caso encaminhar-nos-íamos, não
para onde é necessário ir, mas para onde vai a multidão. No entanto,
nada nos arrasta mais para grandes males do que a conformação à voz
pública; pensar que o melhor está ligado ao assentimento de grande
número, de tal modo que vivemos, não de acordo com a razão, mas por
espírito de imitação ... A opinião da multidão é indício do pior.
Procuremos, pois, aquilo que é o melhor e não o que é mais comum;
aquilo que nos colocará na posse de uma felicidade eterna e não o que
tem a aprovação do vulgar, que é o pior intérprete da verdade.'
A felicidade atingir-se-ia com a conformidade com a lei natural. A
vida feliz seria aquela que respeita a natureza A existência que procura a
beleza no interior de tudo. As coisas verdadeiras e não as aparentes. Seria
à natureza que cada um deveria dar a sua consciência, porque segundo
ele, a sabedoria residiria em não nos afastarmos dela. Em nos
conformarmos com a lei natural, mantendo a alma sã, o corpo saudável e
afastando-nos das inquietações e dos prazeres aparentes e fugidios. Uma
vida de apaziguamento da alma e de cultivo da tranquilidade. Mantendo
alegria perene e não a exaltação. Guardando ausência de admiração em
relação aos bens exteriores, porque o verdadeiro prazer relacionar-se-ia
justamente no desprezo pelos prazeres. Na vida feliz a alma seria livre,
elevada, sem medo, constante e inacessível ao receio e ao desejo. A vida
feliz seria para aquele para quem só existe um bem, a beleza ética, e um
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os estóicos
único mal, a indignidade. A verdadeira felicidade seria encontrada numa
vida enriquecida pelas virtudes.
Os bens exteriores, a fama e as honrarias não passariam de
algazarras confusas que não retirariam nem acrescentariam nada à
felicidade e que tendem a desaparecer tão rápido quanto surgem. Pelo
contrário, os bens interiores confeririam uma satisfação contínua, uma
alegria profunda que vem do fundo do ser, porque a alma satisfar-se-ia
com as suas próprias riquezas interiores e nada desejaria que lhe fosse
estranho. 'O que valeria, em comparação, as emoções: tênues, fúteis e
sem duração? No dia em que fôssemos vencidos pelo prazer, seríamos
também vencidos pela dor. E é por isso que o homem vencido pelos
prazeres fica prisioneiro também das dores.' A liberdade só poderia ser
reencontrada com o repouso da alma, a elevação do espírito, o
afastamento dos medos, a bondade de um coração satisfeito com o que
recebe e o olhar satisfeito para o que existe no mais profundo de cada
um de nós.
Ninguém pode ser feliz fora da verdade. Sem um juízo reto e
firme, a alma é uma vagabunda que vagueia, sem abrigo, à procura de
tudo aquilo que reluz. Mas a intensidade do brilho dos bens exteriores é
apenas aparente, pois o prazer desvanece-se ao alcançar o ponto mais
elevado; tem um espaço limitado e por isso o ocupa depressa; depois
vem o aborrecimento e após um primeiro impulso, o prazer murcha.
Quanto mais a alma se fixa na aparência das coisas, mais insatisfeita fica.
Ao invés, seria feliz a alma que se contentasse com o que tem e que
amasse aquilo que tem.
Sêneca salienta que o prazer é um fato tanto nos bons como nos
maus. No entanto os seres baixos encontram prazer nas suas infâmias
enquanto as pessoas boas, nas suas boas ações. Recomenda que se
busque a vida mais virtuosa e não a mais agradável, de modo a que o
prazer não seja o guia, mas sim o companheiro de uma vontade íntegra e
boa. 'O homem bom terá uma vida equilibrada e ordenada, e será
benévolo e magnânimo nos seus atos.' Os prazeres da alma seriam
calmos e inesgotáveis, ternos, moderados e discretos.
200
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os estóicos
Dentre as virtudes recomendadas por Sêneca encontramos o
autodomínio, a harmonia interior, a força de vontade, a frugalidade em
seu sentido amplo, a modéstia e a moderação (temperança).
Alguns vícios enfatizados seriam a arrogância, o amor próprio
exagerado, a presunção, a inveja, o orgulho a preguiça e a mordacidade.
Afirma o famoso educador e filósofo brasileiro, Paulo Freire, que
o objetivo último de cada um de nós é o de que nossas ações terminem
por refletir os nossos ideais. É uma tarefa árdua. Quando um pensador
ousa falar sobre ideais, vez ou outra é confrontado com suas próprias
atitudes, eventualmente tentando-se com isto desmerecê-lo. Ignora-se
assim que raríssimos são os casos nos quais os ideais de cada um não
sejam superiores às suas ações. A respeito disto, Sêneca afirma: 'É da
virtude que falo e não de mim. Quando me ergo contra os vícios é antes
de mais nada contra os meus mesmos que o faço. Quanto puder, viverei
como deve ser.'
Marco Aurélio é denominado com razão o imperador-filósofo.
Sua tábua de virtudes é análoga a condutas propostas anteriormente por
Jesus. Nesta tábua encontramos, dentre outras, a piedade, a simplicidade,
o autodomínio, o respeito a si mesmo e a gentileza. Ele pretende uma
integração: busca a harmonia da alma com o corpo e da razão com a
ação.
A vida ética consistiria em viver de acordo com a natureza, que
seria o mesmo que viver respeitando-se a razão e de acordo com a
virtude. A razão seria o único instrumento de uma vida ética. Ela daria
sentido à existência de cada um, ao universo e sua ordem inerente. A
vida feliz seria obtida pelo controle adequado das paixões, emoções, dos
instintos por parte da razão e pelo foco nos bens da alma.
Quanto à paz interior tantas vezes desejada por cada um de nós,
Marco Aurélio é taxativo: 'Há quem procure lugares de retiro no campo,
na praia, na montanha; e acontece também desejar estas coisas
intensamente. Mas tudo isso revela uma grande simplicidade de espírito,
porque podemos, sempre que assim o quisermos, encontrar retiro em
nós mesmos. Em parte alguma se encontra lugar mais tranquilo, mais
201
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os estóicos
isento de ruídos, que na alma, sobretudo quando se tem dentro dela
aqueles bens sobre os quais basta se inclinar para que logo se recobre
toda a liberdade de espírito, e, por liberdade de espírito, outra coisa não
quero dizer que o estado de uma alma bem ordenada.'
Com respeito à piedade e à veracidade, este filósofo, como usual
não deixa dúvidas a respeito do modo como pensa. 'A natureza
universal, tendo formado os seres racionais uns para os outros, quis que
se ajudassem entre si, segundo os dons que cada um recebeu, sem se
danarem de modo algum. O homem que transgride este desígnio da
natureza comete evidentemente uma impiedade para com a mais
venerável das divindades... A mentira é, por igual, uma impiedade para
com o mesmo nome... Portanto o homem que mente voluntariamente
atenta contra a piedade, pois que, intrujando, comete uma injustiça; o
mesmo se diga do que mente involuntariamente, porque destoa da
natureza universal enfrentando-a; hostilizando a natureza do mundo.'
Pela linha filosófica que tratamos aqui, pouco ou nada podemos
fazer quanto aos fatos objetivos da existência. Por outro lado, quase tudo
podemos, com respeito ao nosso mundo interior. A Paz seria atingida
quando nos desapegássemos interiormente das ocorrências sempre
transitórias e fugazes da vida. É um pensamento similar à proposta
comportamental budista que já analisamos, apesar de não haver
evidência da influência entre a cultura romana e a indiana. Por sinal,
quando estudamos o pensamento antigo dos povos, encontramos
enormes similitudes, mesmo entre aqueles que pelo que se sabe, não
haviam efetuado contato entre si. A razão humana chega a idênticas
conclusões mesmo quando empregada por indivíduos a princípio
isolados.
Existiria no universo uma lei e uma ordem natural. Caberia ao
homem, criatura racional, em sintonia com tal ordem, agir pelo uso da
razão. E com a razão seria possível determinar quais seriam tais leis e tal
ordem natural. Caberia à razão individual igualmente dominar as
emoções, os impulsos e os instintos de cada um. A felicidade e o sumo
bem seriam também alcançados, desde que seguíssemos estas leis
202
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os estóicos
naturais, bem como a razão e a virtude. A felicidade se relacionaria
intimamente com uma vida virtuosa; a verdadeira felicidade seria atingida
com ela. Um ser humano virtuoso é também bom; o homem bom deve
procurar a virtude na sua ação diária. Os maus fariam da busca do prazer
seu objetivo. Os bons buscariam a virtude; a ética. Com isto alcançariam
automaticamente prazeres profundos, permanentes e duráveis.
A verdadeira paz seria encontrada em nosso interior. O apego aos
fatos objetivos da existência e às paixões levaria à dor e à escravidão.
As pessoas nascem essencialmente boas. Bons exemplos e bons
hábitos reforçam tal tendência. A educação ética consistiria em fazer
com que os atos correspondam aos princípios éticos. Bastaria ao longo
de tal jornada de aperfeiçoamento, fazer a cada dia alguma poda nos
vícios e evitar os erros.
Inúmeras são as virtudes defendidas pelos estóicos: simplicidade;
gestão de si mesmo; respeito a si mesmo; suficiência; liberdade e
independência de pensamento e opinião; autodomínio; indiferença às
honrarias e aos bens materiais; calma; piedade; altruísmo; frugalidade em
geral; harmonia interior; força de vontade; modéstia; moderação;
gentileza; ajuda mútua; veracidade...
A ética grega e outras por ela influenciadas apresentam a
tendência de focar virtudes específicas. Isto me parece gerar uma questão
objetiva relacionada à sua aplicação. Talvez possamos afirmar que à
medida que as virtudes pretendidas se multiplicam, mais difícil é ter-se
um rumo claro quanto ao modo de se realizar um aperfeiçoamento
pessoal da conduta. É mais ou menos óbvio que existem inumeráveis
virtudes desejáveis. Caso o amigo leitor pretenda uma
autotransformação, eventualmente talvez caiba uma pré-seleção daquelas
que sejam consideradas as mais importantes e/ou as mais fáceis e
mantendo a atenção diária nelas, principiar daí.
Por outro lado quanto a minha própria atenção à ética, me parece
melhor considerar o princípio geral e não detalhes: fazer o bem e não
fazer o mal. Por outro lado todos nós somos falíveis e seria ilusório
supor que absolutamente não façamos o mal. Quanto a isto há uma
203
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Os estóicos
consideração interessante, que não chegou a ser discutida neste curso.
Uma pequena quantidade de bens realizados tende a contrabalançar uma
grande quantidade de males. Ilustrando por um exemplo doméstico, pais
e mães costumam ser muito apreciados, apesar de suas inúmeras falhas,
apenas pelo fato de terem sido verdadeiros pais e mães.
Se isto é verdadeiro e eu particularmente considero deste modo, o
foco fundamental do comportamento ético é fazer o bem. Frente a uma
situação de dúvida cabe então diagnosticar o que seria o bem. Para isto o
método que me parece melhor é o de a cada situação tentar se colocar no
lugar da pessoa ou pessoas que estarão sujeitas a nossa ação. Nisto
estaria a ética voltada ao outro. A ética voltada a nós mesmos, pelo
menos em grande medida me parece ser obtida através daquela. E se
houvessem virtudes a sugerir a você, dentre aquelas voltadas
prioritariamente a nós mesmos, eu ousaria recomendar dentre outras o
consequencialismo, isto é, procurar explorar as prováveis consequências
dos atos, a tempestividade, a prudência, a temperança, a autoestima e a
confiança.
204
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
John Stuart Mill
17
John Stuart Mill
A classificação usual da Ética: em Metaética, Ética Normativa e
Ética Prática, emprega termos que tendem a ocasionar confusão. O
Utilitarismo trata de questões ligadas à Metaética, isto é, dos princípios
básicos que fundamentam os juízos na área comportamental. Por
exemplo: o que é o 'Bem'.
Trata também da chamada Ética Normativa, que apresenta os
princípios gerais para o adequado comportamento racional do ser
humano. Por exemplo: 'o comportamento ético é aquele que busca a
maior felicidade para o maior número de pessoas'.
Não entra, no entanto, em considerações da assim chamada Ética
Prática, que tem por base um conjunto de regras específicas e que de
modo geral podemos chamar de 'Moral'. No entanto, na acepção exata
da palavra, a 'Ética Normativa', isto é, aquela que propõe princípios
gerais, é profundamente prática, pois tais princípios gerais estabelecem
com precisão todos os comportamentos adequados da vida cotidiana.
Já comentei sem temor em outras oportunidades, a opinião
pessoal que a transição do norteamento dos rumos da existência por
regras específicas para princípios gerais estabelece uma maior libertação
do ser e denota um amadurecimento da individualidade.
Parece que a associação do termo 'utilitarismo' ao termo 'ética',
tende a levar a uma primeira aversão e resistência do leitor ao tema.
Desta forma é oportuno esclarecer desde já o porquê do termo. Já vimos
que Aristóteles concluiu que cada um de nós almeja a felicidade e que
não há coisa melhor que esta. Caso seja a felicidade o maior bem,
logicamente devemos buscá-la e nossos comportamentos são tanto mais
objetivos e úteis quanto mais sejam capazes de promovê-la. Ainda, no
estabelecimento de uma base de comparação do valor de uma atitude em
relação à outra, a atitude mais essencialmente útil é aquela capaz de
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
John Stuart Mill
promover a maior felicidade. Este é o assim chamado Princípio da Maior
Felicidade ou ainda Princípio da Utilidade.
Desta forma o Utilitarismo tem por base o pensamento
Aristotélico, e talvez pudesse ser melhor denominado como uma 'Ética
da Universalização da Felicidade'. Ou seja, de forma sintética e em
resumo, o bem máximo é a felicidade. Sendo assim, as atitudes mais úteis
ao ser humano são aquelas que maximizam tal bem maior. Desta
consideração surge o termo Utilitarismo.
Em contraponto à Ética Deontológica, a única base ou padrão de
obrigação do utilitarismo está relacionada às consequências das ações,
com vistas a maximizar o bem. O “certo” ou o “errado” do ponto de
vista ético seria aquilo que, avaliado por suas consequências, de forma
estritamente imparcial, dê origem ao maior bem, de modo que o “certo”
é maximizar a Felicidade.
Já comentamos que de acordo com Sócrates, todos os tropeços
humanos se devem à ignorância, que na maioria dos casos se resume a
uma previsão defeituosa das consequências oriundas das atitudes
executadas. Desta forma, em sintonia ao pensamento socrático, a Ética
Utilitarista é fundamentalmente consequencialista; pode ser considerada
e chamada como uma expressão do Consequencialismo.
Como já comentamos de passagem em outros textos, a aplicação
do Utilitarismo na vida cotidiana dos povos é muito antiga. No passado e
no presente tem sido empregado e é fácil observar nas decisões das
lideranças das coletividades humanas. Por outro lado é temerário afirmar
que a aplicação de um princípio racional geral de comportamento resulte
em todos os casos num Bem, mesmo um de Universalização da
Felicidade.
O argumento utilizado pelo sumo sacerdote israelita para a
condenação à morte de Jesus, citado pelo apóstolo João, serve de
exemplo: 'Se não o condenarmos, Roma nos destruirá a todos.'
206
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
John Stuart Mill
Apesar de se constituir num princípio aplicado já há muito, sua
fundamentação racional para o norteamento da conduta humana,
começou a ser realizada nos tempos modernos, por Jeremy Benthan
(1748 - 1832). Tal fundador teve como seguidor James Mill (1773 1836). Por sua vez, este último teve como filho a John Stuart Mill (1806 1873) o qual foi preparado desde a infância para ser um filósofo defensor
do pensamento de Benthan e se tornou o filósofo de referência para o
Utilitarismo, sendo considerado por muitos, como o maior filósofo
inglês do século XIX.
Tal como em outras conceituadas escolas filosóficas, no
Utilitarismo o prazer é considerado um bem e as diferentes formas de
dor e sofrimento, um mal. Assim as ações são avaliadas pela capacidade
de gerar o predomínio do prazer sobre a dor. Em aprofundamento, os
prazeres são diferentes; ocasionam bens com diferentes intensidades. Há
uma escala de prazeres; um tipo de prazer é superior ao outro. Desta
consideração surge uma base de avaliação dos prazeres e o prazer, bem
como o comportamento que o ocasiona, passa a ser avaliado por sua
duração, sua intensidade, sua qualidade, ... Nesta linha, Mill concluiu pela
observação dos indivíduos, que os prazeres corporais são inferiores aos
emocionais e intelectuais.
Passemos agora a empregar o raciocínio lógico para assim
justificar o princípio básico do Utilitarismo:
Premissa 1 - 'Ético é o agir de modo adequado.' Pouco há o que
ponderar quanto a esta primeira premissa, visto que é essencialmente a
definição do termo.
Já neste ponto cabe relembrar os limites do ser humano. As
considerações referentes a tais limites, já efetuadas em outros textos,
dentre eles o de 'uma discussão quanto a censuras éticas', nos leva a uma
redação mais realista desta primeira premissa: 'Ético é procurar agir de
modo adequado.'
207
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
John Stuart Mill
Premissa 2 - 'O comportamento adequado é fazer o bem.' Já em
várias de nossas discussões anteriores cremos ter demonstrado que é esta
a única base ou essência racional da ética. Nessa jornada nos
acompanharam a maioria esmagadora dos grandes filósofos de todos os
tempos. Complementarmente, um bem a um indivíduo é algo que direta
ou indiretamente lhe é útil.
Destas duas primeiras premissas, chegamos à Conclusão A 'Ético é procurar fazer o bem.' Consideraremos tal conclusão como
nossa Premissa 3.
Na sua breve discussão na área da Metaética, Mill confirma a
conclusão de Aristóteles: 'O sumo prazer, bem e bem estar corresponde
à Felicidade.' Tal afirmação já profundamente analisada ao longo dos
séculos, será nossa Premissa 4. Vale a pena relembrar que o termo
Felicidade na concepção Aristotélica, também envolve desenvolvimento
e realização pessoais. Complementarmente, se o sumo bem é a
Felicidade, nada há que possa lhe ser mais caro e útil. Ou seja, a
Felicidade é de máximo valor e utilidade.
Destas duas últimas premissas, chegamos à Conclusão B - 'Ético é
procurar promover a Felicidade'. Tal conclusão passará a ser também
nossa Premissa 5.
Já para a nossa sexta premissa, consideraremos que um
determinado indivíduo padrão tende a considerar o seu próprio bem
como prioritário. Ou seja, cada indivíduo tende a fazer esta mesma
consideração.
Se um observador imparcial e isento considerar outros dois
indivíduos, tenderá a uma percepção diferente. Isto é, o bem dos dois
indivíduos observados é igualmente importante. Desta forma, a
concepção de prioridade com vistas a realizar o bem depende apenas de
quem é o sujeito que observa. Ou seja, depende do ponto de vista. E na
medida que aumenta o nível de imparcialidade e isenção, o bem de todos
208
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
John Stuart Mill
é igualmente importante. O meu bem estar e o bem estar do outro tem a
mesma importância. Por meio de tais considerações, podemos
estabelecer a Premissa 6 - 'A Felicidade de cada um é igualmente
importante.'
Destas duas últimas premissas, obtemos a Conclusão C - 'Ético é
procurar promover generalizadamente a Felicidade.' Ou seja, a ética
fundamental é a promoção imparcial da Felicidade. Faremos tal
conclusão a nossa Premissa 7.
Por fim, como Premissa 8 e pelo acima exposto, uma ação é
“errada” se promove o mal; a infelicidade e “certa” se promove o bem; a
felicidade. No estabelecimento de um critério de prioridades, uma atitude
pode ser considerada “mais certa” se promove uma Felicidade maior e
tal atitude seria “ainda mais certa” se promove uma felicidade maior para
um número maior de pessoas. Esta última consideração é conhecida
como o Princípio Geral do Utilitarismo e se constitui na Conclusão
Final. Pode ser observado que tal princípio tem por base as premissas
anteriores, dentre elas a de que a felicidade de todos é igualmente
importante.
Passemos a analisar uma aplicação prática do princípio acima
mencionado. Um determinado indivíduo tem reservado em seu poder
$100.000,00. Pelas condições de troca vigentes, com tal quantia o mesmo
pode obter um automóvel ou então duas casas populares. O automóvel
que tal indivíduo possui não é tão luxuoso e tão novo quanto aquele que
poderia ser adquirido, mas este já reside com sua família numa residência
própria confortável. No entanto podemos considerar que o sujeito em
questão vive num meio social desequilibrado que apresenta inúmeras
famílias que não tem casa para morar. Se abrem, portanto, algumas
opções, dentre elas (a) comprar um carro novo que trará mais conforto
para si e sua família ou então (b) doar duas casas populares para duas
famílias sem teto. Comparando estas duas opções através da ética
utilitarista, um carro novo representa um pequeno bem para apenas uma
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
John Stuart Mill
família e duas casas populares representam um maior bem para duas
famílias sem teto. Assim a Ética Utilitarista não afirma que a opção (a)
seja necessariamente antiética, visto que se estaria realizando um bem a
um grupo de pessoas, entretanto por ela, a opção (b) seria a mais ética.
Por meio de tal exemplo e muitos outros que poderiam ser concebidos,
podemos observar que a aplicação do Utilitarismo tende a levar, na
medida que é aplicada e ao longo do tempo, à plena igualdade social. Isto
é, à plena generalização da felicidade e bem estar. Os esforços dos
indivíduos mais felizes seriam direcionados para promover um aumento
da felicidade dos menos felizes ou infelizes.
A aplicação do princípio ético geral de Jesus, fazer ao outro aquilo
que gostaríamos que fosse feito a nós mesmos, caso nos encontrássemos
em situação semelhante, o qual é analisado em outro texto, leva
exatamente ao mesmo resultado. O mesmo pode ser dito a respeito dos
princípios éticos propostos por alguns outros pensadores.
Fácil observar que tal princípio esbarra fundamentalmente no
egoísmo dos seres humanos. Como uma resistência à conclusão a qual se
chega no exemplo mencionado, surge a interposição de um pensamento
do tipo: “Angariei a minha poupança com o meu esforço. Assim, vou
empregá-la para a minha própria felicidade.” O egoísmo eventualmente
tenderá a clamar intempestivamente também por Justiça. Entretanto,
como exposto em outro texto, toda a fundamentação de Direito e de
Justiça é efetuada precisamente sobre um determinado pensamento ético
adotado. Ou seja, na proporção que varia a conceituação do que é
"certo" e do que é "errado"; do que é "adequado" ou "inadequado",
também varia o conceito do que é "direito" ou do que é "justo".
Como todo princípio ético geral, o Utilitarismo é relativo. O
conceito de felicidade, das ações que são capazes de promovê-la, o prazo
para que seja obtida e outras variáveis dependem da percepção e
avaliação individual. A eficácia da aplicação desta linha ética depende
claramente da capacidade do indivíduo de prever as consequências de
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
John Stuart Mill
suas ações. Depende da sua capacidade de prever qual atitude resultará
num maior bem.
O Utilitarismo se baseia no Empirismo e no Associacionismo.
Por Empirismo se entende o conceito, de que o conhecimento e a ética,
tem como única base os sentidos e/ou a experiência. Assim é indutivista:
Os princípios éticos são obtidos por meio da experiência e observação.
Assim se considera haver fatos concretos suficientes para defender o
Utilitarismo. Associacionismo é o princípio que os conhecimentos são
relacionados em nossas mentes, por leis gerais de associação. Tais
associações governariam o comportamento humano. Em síntese, pela
associação experimental de ética e felicidade; comportamento adequado
e eudamonia, que Aristóteles, Mill e outros observaram, e sendo a
felicidade o bem máximo almejado, o ser humano numa ação racional,
procuraria adotar uma postura ética. Como já comentamos no início
deste curso, o incentivo lógico que se dá para a prática do
comportamento adequado é o de que, através de tal comportamento
geral a qualidade de vida do indivíduo que o exerce melhorará.
O comportamento tem por base o hábito. O comportamento
popular é regido por impulsos emocionais e por conceitos arraigados de
obrigação ou deontológicos, frequentemente de base religiosa. A Ética
Utilitarista tem base experimental e racional, como todas as demais éticas
normativas. Sabemos que todos nós desejamos ser amados pelo grupo
social onde estamos inseridos. Desejamos ser úteis e aceitos por este
grupo. Se atendermos aos interesses dos membros do grupo, a nossa
própria vida melhora, pois nós mesmos fazemos parte do grupo.
Quanto a este tema cabe ainda uma consideração. Como vimos,
no estabelecimento de prioridades desta linha ética, uma atitude é
considerada “mais certa” se promove uma felicidade maior e é “ainda
mais certa” se promove uma felicidade maior para um número maior de
pessoas. Tal consideração pode levar ao pensamento que a maior
felicidade de um grupo maior de pessoas justificaria a infelicidade de um
grupo menor. Ou um bem da maioria justifica um mal da minoria. Com
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
John Stuart Mill
tal leitura a Ética Utilitarista deixa de ser uma ética de universalização e
generalização da felicidade, e passa a ser uma ética de promoção do bem
estar de maiorias.
O Utilitarismo com tal enfoque, por exemplo, justificaria a
condenação de Jesus já mencionada, como também o extermínio de um
grupo terrorista, de indivíduos pertencentes a um grupo político opressor
de uma população, de um ditador ou, de modo geral, de qualquer
minoria incômoda. Estes e muitos outros exemplos podem ser
observados nas ações políticas, tanto do passado quanto do presente.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
18
Immanuel Kant
Segundo Stephen Law, há três principais linhas de pensamento na
Ética Normativa, enquanto encarada de modo ortodoxo: A Ética das
Virtudes de Aristóteles; O Utilitarismo de John Stuart Mill; e a Ética do
Dever (deontológica), em cuja categoria se insere o pensamento moral de
Immanuel Kant. Por outro lado, cabe salientar desde agora, que para este
eminente pensador, o dever é estabelecido pela consciência, ou como ele
mesmo denomina, a Boa Vontade do sujeito que executa a ação
considerada.
Kant nasceu em Königsberg, capital da então Prússia Oriental em
22 de abril de 1724, atualmente Kaliningrado, Rússia. Nesta mesma
cidade permaneceu por toda a vida, não se afastando dela por mais de
um dia, falecendo em 12 de fevereiro de 1804. A causa provável que
levou a morte foi o que atualmente se entende como Mal de Alzheimer.
Foi o quarto de nove filhos de um artesão fabricante de correias
para carroças. Nasceu em lar protestante luterano e permaneceu como
cristão por toda a vida. Seguiu, no entanto, um cristianismo não
caracterizado pelo seguimento ou concordância com os dogmas e rituais
de uma seita em particular.
Apesar de que ele próprio provavelmente não viesse a concordar
e eventualmente discordasse, o motivo provável de sua orientação
deontológica é a sua formação básica religiosa e sua vivência num Estado
cultivador de fortes valores militares, como era a Prússia em sua época.
Viveu sob o império do rei Frederico II, considerado
razoavelmente tolerante e simpatizante do Iluminismo, o qual trouxe
para sua corte, vários pensadores, dentre eles Voltaire. Em 1773, tal rei
concede refúgio em sua nação protestante à Ordem Católica Jesuíta
banida pelo Papa. Em 1789, após a manifestação de Kant, favorável à
Revolução Francesa, o rei o proíbe de se expressar sobre quaisquer
temas religiosos.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
Na idade adulta apresentava um comportamento rotineiro
sistemático. Todos os dias, às 15:30h saia a caminhar e sua pontualidade
era tamanha, que a vizinhança podia acertar os relógios por ele. Por
outro lado tinha uma conduta muito sociável e enfatizava que a
companhia humana era importante para a manutenção da saúde do
indivíduo. Na época da juventude não se mostrava um estudante
brilhante, apreciando as ocasiões de diversão. Na maturidade ganhou
notoriedade pelo brilhantismo de suas palestras. É atualmente
considerado um dos mais influentes filósofos da cultura ocidental.
Em 1740 ingressou como aluno na Universidade municipal e por
esta época estudou em especial, a obra filosófica de Gottfried Wilhelm
Leibniz (1646-1716), aquele que dentre inúmeras outras coisas, foi um
dos descobridores independentes (em paralelo a Newton) do cálculo
diferencial e integral.
Leibniz escreveu obras de advocacia, geologia, física, engenharia,
filosofia... Foi inventor (p. ex. uma máquina de calcular), diplomata,
bibliotecário... Na área da filosofia formulou pensamentos intimamente
interligados e coerentes entre todas as suas subdivisões. Ainda segundo
Leibniz, em sintonia às concepções taoistas na época ignoradas na
Europa, o mundo no qual vivemos é o melhor possível; tudo ocorre
segundo um plano harmônico e nada pode acontecer de modo diferente
do que acontece.
O pensamento filosófico de Kant também foi fortemente
influenciado por Descartes, que considerava a razão como autorreferente
e critério exclusivo das certezas possíveis.
Com a morte do pai em 1746, Kant é obrigado a se sustentar e
passa assim a dar aulas particulares de Geografia para crianças em
vilarejos próximos, permanecendo nesta atividade por seis anos.
Além de artigos, muitos foram os livros publicados de sua autoria.
Em 1755 publica a "História Natural Genérica e Teoria dos Céus". Com
isto consegue o título de Mestre e o direito de dar aulas na Universidade
de Königsberg como docente privado, isto é, pago diretamente por seus
alunos. Passa a dar aulas ligadas a matérias como: geografia, ciências,
física, matemática, antropologia e filosofia. Em Geografia Moral, ensinou
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
os costumes e o caráter do homem em relação ao meio ambiente. Em
Geografia Teológica ensinou a distribuição das religiões no mundo.
Por esta época desenvolveu uma teoria para a formação do
sistema solar, conhecida atualmente como Hipótese de Kant-Laplace. É
a primeira concepção moderna, a hipótese de uma nuvem de matéria e
energia que se concentra, precursora das atuais teorias de formação
estelar.
Em 1770, aos 45 anos foi nomeado professor catedrático - dono
da cadeira - de Lógica e Metafísica. Para a aprovação no concurso de sua
cátedra, publicou a dissertação: "A Forma e os Princípios do Mundo
Sensível e Inteligível". A partir daí passou 11 anos sem nada publicar.
Por esta época estudou a obra filosófica de David Hume, que
defendia que o conhecimento do mundo requer experiência sensorial;
que é impossível estender este conhecimento usando apenas a razão.
Tais ideias perturbaram fortemente a Kant e são consideradas o ponto
de partida para a produção incessante de obras a partir de seus 56 anos.
Frente ao pensamento de Hume, propôs uma fusão entre a
dedução e a indução. Concluiu que podemos descobrir verdades por
meio da razão pura, desde que com o auxílio da experiência.
Em 1781 publica o livro "Crítica da Razão Pura" Nesta obra
aborda algumas questões: Nosso conhecimento reflete precisamente a
realidade? Como a realidade influencia nosso entendimento? Analisa as
condições segundo as quais a razão funciona, a maneira como opera e
seu objetivo. Em suma, tal obra trata do que é possível ao homem
conhecer e se constitui naquela mais lida e mais influente.
Em 1783 apresenta um resumo de suas ideias em "Prolegômenos
Para Toda a Metafísica Futura que se Apresente como Ciência." Em
1784 redige o artigo "O Que é o Esclarecimento?" Em 1785 publica a
sua primeira obra sobre filosofia moral: "Fundamentação da Metafísica
dos Costumes". Nela analisa a ação moralmente fundamentada. Também
aí apresenta pela primeira vez os conceitos de Imperativo Categórico e o
da Boa Vontade. No mesmo ano publica os "Fundamentos da Metafísica
da Moral". Em 1786 surgem os "Primeiros Princípios Metafísicos da
Ciência Natural". Em 1788 divulga a "Crítica da Razão Prática". Nesta
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
obra analisa a escolha livre dos seres racionais que podem se submeter
ou não a uma lei moral. Pode ser considerado o seu principal trabalho na
área da filosofia moral. Em 1790 surge a "Crítica do Julgamento". Nela
analisa os usos da capacidade mental no julgamento estético; daquilo que
é belo e sublime e o julgamento teleológico; das coisas como tendo
finalidades. Em 1792 redige a "Carta a Maria von Herbert". Neste ano
também escreve a "A Vitória do Princípio Bom Sobre o Princípio Mau e
a Constituição de um Reino de Deus Sobre a Terra". Nesta última obra
defende a ideia de que "a passagem gradual da fé eclesiástica ao domínio
exclusivo da pura fé religiosa constitui a aproximação do Reino de Deus"
Ou seja, a libertação gradual do indivíduo de dogmas não racionais para
a busca da comunhão direta com o divino. Tal passagem segundo ele
poderia ser apressada graças ao advento da Revolução Francesa ocorrida
três anos antes. Em 1793 divulga o trabalho "Sobre a Relação entre a
Teoria e a Prática na Moral em Geral" como também a "Religião Dentro
dos Limites da Mera Razão". Em 1795 apresenta dois trabalhos: "O Fim
de Todas as Coisas" e "Para a Paz Eterna". A primeira obra tem um tom
apocalíptico onde levanta a hipótese da derrota do bem pelo mal. Em
1796 publica a "Doutrina do Direito" e em 1797 a "Metafísica da Moral".
Em 1798 é apresentada a "Antropologia do Ponto de Vista Pragmático".
Além do que não foi citado acima, a humanidade possui ainda
obras incompletas suas, publicadas após a sua morte. Inclui aquela que
Kant pretendia denominar como a "Quarta Crítica" que viria a
aperfeiçoar as anteriores.
Parte das obras mais tardias, bem como as póstumas, passam a
considerar, de um ponto de vista ético, as emoções e os sentimentos
humanos, indo além do forte racionalismo da Crítica da Razão Prática.
No entanto aqueles que estudaram e estudam este grande pensador tem
a tendência de se restringir ao período de vida da obra de 1788.
Kant considera que existem quatro questões fundamentais na
Filosofia: O que posso saber? O que devo fazer? O que é lícito esperar?
O que é o homem? Respectivamente tais questões seriam respondidas
em quatro grandes subáreas: A Metafísica, a Moral, a Religião e a
216
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
Antropologia, ou seja aquela ciência geral que estuda o próprio ser
humano. De acordo com ele todas as questões na verdade podem ser
respondidas pela Antropologia, pois as três primeiras questões
fundamentais remetem essencialmente à última. No seu entendimento
cabe à Antropologia a síntese dos conhecimentos quanto ao próprio
homem e tal conhecimento seria capaz de solucionar todas as questões
da Filosofia.
Na análise da natureza humana Kant observou que o que
supomos conhecer é função absolutamente dependente do nosso sistema
sensorial e do nosso sistema cognitivo, o qual ordena aquilo que se
percebe pela visão, audição e demais sentidos. Por sua vez qualquer
experiência sensorial está ligada à sua extensão no espaço e sua sucessão
no tempo. Isto é, espaço e tempo são estruturas fundamentais às nossas
percepções. Já a capacidade humana de organizar aquilo que é percebido,
depende de fatores tais como o de causalidade, ou seja, da ideia de
relações entre causas e efeitos. Assim a concepção de causas e efeitos
que se constitui num dos dois pilares da moral hinduísta é vista por Kant
como uma forma própria da mente humana para compreender o mundo
exterior no qual vive, bem como os fenômenos aos quais está sujeito. A
partir de tais fatos, Kant conclui que espaço, tempo, causalidade e outros
fatores, são as características do mundo tal como ele nos parece, mas não
necessariamente como ele é em si mesmo. Cada evento nos parece
conectado a outros numa sucessão de causas e efeitos. Apresenta
também a eventual ilusão de estar condicionado no espaço e no tempo e
assim obedecendo às leis da geometria, da aritmética e da física. Ao
homem só é possível conhecer as coisas como estendidas no espaço e
sucessivas no tempo enquanto se manifestam numa aparente
dependência de causalidade, ou seja, enquanto fenômenos. O tempo e o
espaço são as nossas formas fundamentais de percepção. São as
ferramentas da mente que só podem ser usadas no mundo que se
manifesta e que pode ser percebido e essencialmente nada podemos
conhecer fora do espaço e do tempo. Já o entendimento nos fornece
217
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
categorias como causa e efeito que nos permitem avaliar os fenômenos,
ou seja, o mundo.
Assim devemos fazer uma distinção entre o que é; o que é em si
mesmo; o que é real, que Kant denomina por "noumena" ou "númeno"
e aquilo que nos parece; aquilo que aparenta ser, que Kant denomina por
"phenomena" ou "fenômeno". A realidade pode não ser espaçotemporal; pode não conter materialidade ou substância; não obedecer leis
de causa e efeito. Assim o ser humano nada pode dizer de preciso a seu
respeito e podemos apenas aplicar a razão àquilo que nos parece. Não
podemos saber com certeza as verdades do mundo como ele é em si.
Mas podemos saber com certeza um grande número de coisas sobre o
mundo tal como ele nos aparece. "Assim a ordem e a regularidade nas
aparências, o que chamamos natureza, nós mesmos as introduzimos."
Desta forma, não podemos descobrir o que nos é possível conhecer
focalizando o mundo. O centro de nossas investigações deve ser a
estrutura de nossas capacidades cognitivas e o modo como elas moldam
o mundo que experimentamos. As mesmas características humanas que
nos permitem compreender a fenômenos, removem do nosso
entendimento o mundo real (o mundo numenal ou númeno) da cena da
percepção humana. A validade, a legitimidade e a universalidade de um
conhecimento, não depende da sensibilidade, isto é, das percepções
sensoriais, mas sim do observador, do sujeito transcendental, daquilo que
reside em seu interior. Isto é, o conhecimento não se condiciona pelo
fato observado, mas sim, pelo modo que o observador conhece. Kant
salienta assim as condições subjetivas ou transcendentais da objetividade.
Como o conhecimento é uma relação entre o sujeito que conhece e o
objeto conhecido, julgamos oportuno reafirmar o conceito de que não se
pode conhecer as coisas em si mesmas, mas sim, as coisas como nos
parecem. Desta forma ele deixa exposta a chamada 'Inversão
Copernicana'. Não é o objeto que determina o sujeito, mas sim, o sujeito
que determina o objeto. Um objeto só pode ser conhecido, na medida
que o sujeito determina o objeto. O objeto só se torna cognoscível na
medida em que o sujeito cognoscente o reveste das condições de
cognoscibilidade. Na demarcação dos limites da razão desvinculada da
218
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
experiência, Kant demonstra que esta comprova de forma totalmente
indiferente conceitos tais como a Liberdade ou o Determinismo; a
Existência ou a Inexistência, e Deus. Já apenas a experiência, através do
raciocínio indutivo desvinculado do raciocínio lógico, corre o risco de
chegar a relações de causalidade restritas e equivocadas. Apesar da
postura fortemente racionalista, Kant conclui assim que isoladamente
nem o empirismo nem o racionalismo são suficientes para a
compreensão adequada dos fenômenos sendo necessário o emprego
simultâneo das duas abordagens.
Assim, a título de exemplo, um determinado indivíduo só pode
conhecer Deus a partir de algum tipo de experiência mística. Porém para
que ele possa ter tal conhecimento através de tal experiência, é necessário
que este crie as condições para ela a partir de uma crença inicial. O
pensamento kantiano é um referendo à teoria do conhecimento de
Platão: O conhecimento é primeiramente uma crença que só
posteriormente se mostrará verdadeira. Ou seja, a crença preliminar
condiciona totalmente o que será conhecido. A análise de Kant quanto
ao conhecimento possível ao homem geraria a dificuldade humana de
conhecer a Deus. O judaísmo denomina a Deus como "Aquele que É"
ou aquele que é em si mesmo. A dificuldade humana de entender as
coisas tais como são é a mesma de conhecer Deus. Só é possível
conhecer parcialmente a Deus por Sua ação e por Suas obras...
Kant faz uma classificação clara e fundamentada da realidade: As
coisas como elas são e as coisas como são para nós. Além da realidade
que um materialista denominaria de natural e um espiritualista como
natural e divina, há o conhecimento, a realidade ou ainda a verdade de
nossa espécie como um todo e ainda há o conhecimento de cada um de
nós enquanto indivíduos. Há o conhecimento humano, com base na
Antropologia; no Inconsciente Coletivo de Jung e há o conhecimento do
indivíduo, ditado por seu mundo interior particular. Há a verdade natural
ou natural e divina. Há ainda a verdade coletiva influenciada pela
primeira. Há também a verdade individual influenciada pela primeira e
pela segunda. O conhecimento individual, fruto destes três níveis de
realidade é essencialmente o mundo no qual cada indivíduo vive. O
219
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
entendimento individual tem consequências neutras: ao lado de
indivíduos extraordinariamente diferenciados, realizados e felizes
encontramos profundos sofredores, muitos dos quais lotando nossos
manicômios e presídios.
O indivíduo deve buscar a autonomia no exercício da própria
razão. Desta forma adquire a maturidade e é nestes termos que se
caracteriza a liberdade. Vivemos não numa época esclarecida, ou de luz,
mas sim de esclarecimento ou de iluminação. O estado de iluminação se
traduz pela coragem e pela ousadia de pensar por si mesmo e de agir em
conformidade com tais pensamentos. Por sua vez a maioria das pessoas
encontra-se num estado infantil, que Kant denominava por menoridade,
estado este caracterizado pela aceitação da autoridade de outrem para
raciocinar e decidir por nós. Iluminação é fundamentalmente querer usar
a própria razão, liberta das tutelas, tais como as oriundas de cleros e de
políticos, como também livre do medo, da covardia, do comodismo e do
egoísmo. A razão em processo de esclarecimento é aquela que quer ser
autônoma, no sentido de estabelecer as suas próprias regras de viver. "O
Esclarecimento (Aufklärung; Iluminismo,) é a saída do homem da
condição de menoridade... Menoridade é a incapacidade de servir-se de
seu entendimento sem a orientação de um outro. Esta menoridade é
autoimposta quando a causa da mesma reside na carência não de
entendimento, mas de decisão e coragem em fazer uso de seu próprio
entendimento sem a orientação alheia ..." O lema do estado de
iluminação (e não ainda de iluminado) seria o de ter a coragem de fazer
uso de seu próprio entendimento. Muitos permanecem menores mesmo
muito após a natureza tê-los declarado livres da orientação alheia. Por
outro lado nos parece que algum nível de orientação é a princípio boa. O
fundamental nesta questão me parece ser, a autodeterminação.
Depois de terem sido libertados das limitações de julgamento, a
preguiça e a covardia seriam as responsáveis por se permanecer na
menoridade.
É fácil que outros se tornem tutores. É cômodo ser menor. Um
livro que entende por mim; um pastor que tem consciência por mim; um
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
médico que zela por minha saúde... Desta forma não me é necessário
pensar. "... Após terem previamente embrutecido e cuidadosamente
protegido seu gado, para que estas pacatas criaturas não ousem dar
qualquer passo fora dos trilhos nos quais devem andar, os tutores lhes
mostram o perigo que as ameaça caso queiram andar por conta própria.
Tal perigo, porém, não é assim tão grande, pois após algumas quedas,
aprenderiam finalmente a andar; basta, entretanto, o exemplo de um
único tombo para intimidá-las e aterrorizá-las por completo para que não
façam novas tentativas."
É possível ao povo esclarecer-se a si mesmo e apreciar
racionalmente seu próprio valor. Pensar por si mesmo é tarefa de cada
ser humano. Por outro lado, é provável esperar que para a grande massa
ignorante, servirão de guia, apenas novos preconceitos, no lugar dos
antigos impostos por seus antigos tutores.
A condição necessária ao esclarecimento é a de poder comunicar
seus próprios pensamentos "Mas agora escuto em todos os cantos: não
raciocineis! O militar diz: não raciocineis, exercitai-vos! ...O líder
espiritual: não raciocineis, crede! ...Os tiranos: raciocinai o quanto quiser
e sobre o que quiser, mas obedecei!"
No entanto, na medida que não haja conflito com a própria
consciência, é conveniente manter-se numa posição passiva frente a
ordem vigente, visando a manutenção desta mesma ordem mesmo que
imperfeita, para o bem da coletividade como um todo. Ou seja, se um
grande número de pessoas, ocupando posições de influência decidissem,
de forma independente uma das outras, agir sobre a sociedade de modo
racional, a perturbação do sistema social seria de tal ordem que o risco
de malefícios seria maior do que de benefícios. Com esta linha de
pensamento Kant assume uma posição claramente de prática
consequencialista. Desta forma, um militar ou um sacerdote deveriam se
enquadrar às suas funções de cargo sem, no entanto, abrir mão de
comunicar a um público seleto as suas ideias discordantes. E para evitar
o risco de estagnação em comportamentos primitivos, "a pedra de toque
de tudo o que pode ser decidido sobre um povo reside na pergunta: ' um
povo formularia para si mesmo tal lei?' " Tal lei possível num dado
221
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
momento seria boa enquanto se aguardasse a viabilidade de outra melhor
para o estabelecimento de uma nova ordem.
Em acréscimo, para qualquer ser humano; para o sujeito na sua
própria pessoa e de seus descendentes, renunciar a este Esclarecimento
significaria "violentar e pisar sobre os direitos sagrados da humanidade".
Para minha alegria, segundo Kant, a liberdade de expressar ideias
de um professor é irrestrita, desde que não assuma outras funções que
venham a influir diretamente sobre a população em geral.
Neste contexto, sabemos que os profissionais da área de direito
no Brasil costumam ter boa formação teórica na área da Ética. Assim,
quando um juiz condena um réu, à revelia do pensamento ético,
podemos interpretar seu procedimento, como em conformidade com o
pensamento kantiano acima descrito. A de que uma ordem, mesmo que
muito imperfeita, é melhor do que nenhuma ordem.
Nas decisões do campo da ética imperaria um modo de ser
peculiar da vontade que Kant denomina de Boa Vontade, que teria como
uma de suas características, o fato da determinação por agir estar nela
mesma. Isto é, a de ser uma vontade boa. As leis da Boa Vontade
estariam nela mesma e não fora dela. A Boa Vontade seguiria as leis
morais derivadas da razão pura prática a qual prescreve o que deveria ser
desejado por um determinado indivíduo.
Kant procura opor-se aos conceitos consequencialistas. A Boa
Vontade se caracterizaria pelo próprio querer, e não em função dos
resultados que sua prática poderia proporcionar. A rigor a Boa Vontade
se caracteriza por um querer bem. Um querer por que é bom. Um querer
porque é um maior bem e gera melhores resultados do que uma outra
opção de querer ou de apenas não querer.
Se há algo bom sem limitação isto seria a Boa Vontade. Não é
boa por aquilo que promove ou realiza; por sua aptidão de ser capaz de
alcançar um determinado fim. É boa pelo bem querer em si mesmo.
Assim, caso uma disposição especial do destino; se por motivos naturais,
faltar o poder de realizar as intenções; mesmo que nada pudesse ser
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
alcançado a despeito dos maiores esforços e ao final, só restasse a Boa
Vontade; só restasse a Boa Vontade após o emprego de todos os meios
de que nossas forças dispusessem; a Boa Vontade continuaria a brilhar
como tendo em si mesma a plenitude de valor. Desta forma Kant não
considera como fundamental na ética o fazer o bem, mas de forma ainda
mais básica o querer bem; o querer fazer o bem. Ou seja, mais valoroso
que o ato bom é a intenção de realizá-lo. Neste querer engajado, ativo,
operativo e determinado se encontraria aquilo que é essencial.
E é na verdade neste querer que reside a questão por detrás do
curso que elaboramos. Após se entender os princípios que regem o
comportamento adequado com razoável clareza; após termos
instrumentos para decidir o que é mais ou menos ético, resta claramente
o agir eticamente. E a transição entre o saber e o fazer reside exatamente
no querer. Ou seja, exatamente naquilo que Kant denomina por Boa
Vontade.
Somos livres e, portanto, mais que seres fenomênicos. Isto é, mais
que seres aprisionados a uma sucessão infindável de causalidades. O Eu
numênico deve ser a fonte do livre arbítrio, enquanto o eu fenomênico
está aprisionado à cadeia contínua de causas e efeitos. É o livre arbítrio
que dá margem à ação ética, pois só agentes capazes de deliberar
racionalmente quanto às suas escolhas poderiam ser ditos livres e,
portanto, éticos. A liberdade é condição fundamental para a ação
verdadeiramente ética. Desta forma não existe por abordagem filosófica
básica uma ação ética quando esta for imposta ou prescrita por uma
autoridade qualquer. A vontade individual não deve ser ditada por algo
que lhe é exterior. Um indivíduo não age moralmente no caso de sua
ação ser impulsionada pelo temor de punição ou a ambição por uma
recompensa ou aceitação. Neste caso a vontade que imperaria seria a de
um outro agente e não a daquele que executaria a ação. Do mesmo
modo, se o motivo da ação é a necessidade de pertença e aceitação ou
medo de rejeição, não poderia ser considerada moral, pois se vincularia
ao império dos padrões de comportamento e costumes vigentes.
223
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
Age moralmente aquele que é capaz de se autodeterminar. O
conhecimento fisiológico investiga o que a natureza fez do homem. O
conhecimento do ser humano e o estudo da ética investiga aquilo que o
homem, na medida de sua liberdade faz ou pode ou deve fazer de si
mesmo.
Gado conduzido por vaqueiros não pode ser considerado nem
moral nem imoral. Cabe, no entanto, uma gradação e não apenas uma
postura de sim ou não. Ou seja, um determinado indivíduo, vai tomando
atitudes que podem ser consideradas mais ou menos éticas, na medida
que for passando do estado infantil de absoluto tutoriamento para aquele
de gradual autodeterminação.
O pressuposto da ética kantiana é o da autonomia da razão, pelo
menos de acordo com as suas obras mais estudadas. Sempre é oportuno
lembrar que um ser humano pensador tende a alterar em certa medida
seus conceitos à medida que se enriquece com novas informações e
reflexões. Kant buscou um princípio universal que apontasse condutas
apropriadas para qualquer ser racional em quaisquer circunstâncias.
Seguindo a orientação quase que unânime nesta área do saber humano,
considerava que a razão é o fundamento da ética, chamando por razão
pura prática a faculdade racional de avaliar as condutas humanas e os
objetivos da existência.
Pelos mesmos motivos que justificam a 'Inversão Copernicana'
justificada por Kant, a avaliação de uma dada conduta como apropriada
ou não, não se relaciona com aquilo que é percebido, mas sim com o
mundo interno do agente. E na medida que seja válido restringir a análise
ética à capacidade racional, tal avaliação se liga ao campo racional do
indivíduo.
Os princípios morais poderiam ser derivados exclusivamente da
razão e com ela poderíamos explicar as características da moral. A razão
seria a mesma em todos os seres racionais, sendo universal. Desta forma
as leis morais podem ser aplicáveis a todos os seres racionais como tal.
Tanto a moralidade quanto a racionalidade seriam categóricas; isto é,
incondicionais. Não mudariam conforme aquilo que desejássemos ou
224
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
conforme nossos desejos particulares. Por outro lado, Kant concorda
com o pensamento de Aristóteles e outros de que a moral não se aplica a
seres incapazes de fazer escolhas racionais. Quando uma ação está
desvinculada da razão, tal ação não poderia ser considerada como moral.
Neste sentido Kant se afasta da realidade e ignora o fato objetivo
facilmente constatável, da grande variabilidade da capacidade racional
dos indivíduos. Claramente a razão não é a mesma em todos os homens
e desta forma não são semelhantes as supostas leis morais que os
regeriam. Se assumirmos que a capacidade de fazer escolhas racionais é
variável, variável também é a aplicabilidade das regras morais.
Das considerações quanto a liberdade e a razão, surge um dos
importantes imperativos kantianos: "Age de tal modo que sempre trates
a humanidade seja na tua própria pessoa ou na de qualquer outro, nunca
simplesmente como um meio, mas sempre também como um fim."
Devemos sempre tratar os outros como fins em si mesmos e nunca
como meios para nossos fins. Devemos respeitar os objetivos dos outros
ao invés de usá-los como um meio para alcançar nossas próprias metas.
Pelo termo humanidade se entende a capacidade humana de fazer
escolhas racionais e livres quanto aos objetivos a serem perseguidos e
adotados. Tratar a humanidade de alguém como mero meio e não como
um fim é comprometer seu poder de fazer uma determinada escolha
racional. A instrumentalização de um ser humano seria efetuada, por
exemplo, por sua coação; por impor-lhe um determinado
comportamento, ou ainda de mentir-lhe; subverter a verdade,
impedindo-o de fazer uma escolha racional bem fundamentada. Ou seja,
a criatura humana não deveria ser tratada como uma ferramenta ou
manipulada.
Ainda na época em que os estudos da obra kantiana se
concentram, este filósofo defende que a busca pelo prazer e a fuga do
sofrimento seriam agentes móveis sensíveis, do campo emocional e não
seriam válidos como critério de decisão quanto às atitudes adequadas dos
indivíduos. As ações que nos são adequadas deveriam ser descobertas
225
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
por nós mesmos, mediante o uso da razão. Só a razão por Kant seria
universal e poderia fazer exigências ao nosso comportamento.
Caberia ressalvar que os sentimentos superiores do homem são
parcela essencial de sua humanidade. Difícil considerar que uma mãe
amorosa, agindo de forma autônoma e livre não seja, devido à força
motriz de sua ação frente ao filho, uma criatura ética. O texto que
elaboramos sobre a ética evolucionária esclarece que em grande medida
os comportamentos que nos são apropriados são inconscientes e
instintivos. Afastar a dimensão da sensibilidade da análise do
comportamento humano pode ser considerada uma tentativa fadada ao
fracasso de apartar o ser humano de sua humanidade. Este mesmo texto
mostra que a evolução é também a origem das disposições altruístas.
A regência do critério de maior felicidade para o estabelecimento
de comportamentos, ao qual Kant se opunha, pode dar origem a
condutas extremamente inadequadas. É razoável supor que na época na
qual Kant viveu, o nível de esclarecimento a respeito disto fosse ainda
menor do que se observa hoje. Um projeto de conduta baseado numa
felicidade que por sua vez se fundamentasse nas circunstâncias nas quais
o indivíduo vive, ou ainda em termos de suas preferências e desejos por
bens concretos, como um certo emprego ou uma determinada casa, seria
claramente instável.
Por não aceitar a observação da correlação entre felicidade e
conduta adequada efetuada por Aristóteles e outros pensadores, Kant
optou por propositalmente autorrestringir suas avaliações éticas. Ou seja,
neste campo aceita apenas o raciocínio dedutivo e de forma alguma o
raciocínio indutivo, negando assim uma importante linha do pensamento
iluminista contemporânea sua; a de que o conhecimento tem origem na
observação. Se há a dificuldade de ser o observado inteiramente
dependente do observador, por sua vez o que se pretende estabelecer é o
comportamento do observador enquanto fenômeno, tal como o fato
observado também o é.
Kant afirmou que a aplicação das leis poderia ter caráter universal.
Isto é, não variaria com o momento histórico, conjuntura, o local em
226
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
consideração e ainda todos os demais fatores. Seriam princípios que
poderiam e deveriam ser seguidos por todos os seres humanos sem
distinção. A moral verdadeira seria constituída por um conjunto de
regras ou um princípio geral que seriam as mesmas a serem seguidas por
todos os demais. Uma lei moral seria aquela aplicável de forma
generalizada. Que permanece a mesma em todos os casos.
Como comentamos em outros textos, condutas específicas jamais
tem tais características. O que é apropriado numa determinada
conjuntura, para um determinado indivíduo, num determinado momento
frequentemente não o é em outra situação. O que efetivamente pode ser
universalizado são as orientações e os princípios gerais de conduta que,
de forma flexível, orientam os comportamentos cotidianos.
Kant refuta que interesses individuais sejam bons critérios na
avaliação de comportamentos. Tal imparcialidade nas avaliações é um
fator bem conhecido e defendido por filósofos da antiga Grécia e de
outras regiões do planeta. Kant exige desinteresse completo.
Por Kant uma lei moral deve ser obedecida por respeito ao dever
e não apenas em conformidade com ele. Apenas obedecer a um dever
não seria suficiente. A lei moral deve ser obedecida devido a uma
vontade qualificada, ou seja, uma vontade boa. Agir em respeito pelo
dever é estar movido pela vontade desinteressada. É um agir
determinado exclusivamente pela própria lei que a razão e a boa vontade
estabelecem.
Uma máxima seria a motivação individual. O querer individual
subjetivo. Caso ela possa ser encarada como uma lei moral, ela deveria
ser seguida e realizada pelo indivíduo. Fazemos escolhas com base em
máximas, isto é, em intenções. Nossos princípios pessoais que
corporificariam nossas razões para fazer algo.
Um Imperativo categórico se entende como a ordem por uma
ação válida em si mesma, independente de qualquer outro fim ou
circunstância ou interesse ou consequência. Um imperativo ordenaria ou
proibiria uma ação determinada. Imporia um dever. Seria diferente de
um mandamento de origem em geral religiosa, exterior ao sujeito. Da
227
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
mesma forma seria diferente de uma norma jurídica, que proíbe ou coage
comportamentos exteriores. O imperativo seria então uma prescrição da
razão individual sobre a sua própria vontade e caracterizaria uma
obrigação que lhe é própria.
O dever moral é uma exigência incondicional ou "categórica" ao
nosso comportamento. Não requer que façamos algo pelo que podemos
ganhar; diz o que devemos fazê-lo só porque essa é a nossa obrigação.
Nossa obrigação deveria ser agir sempre como desejaríamos que
todos os outros agissem, reconhecendo que o desejo de cada um é
variável.
Os imperativos categóricos de Kant obviamente são relevantes no
contexto do estudo da Ética. No entanto o teste real de validade de um
determinado imperativo não é lógico, como superficialmente é
apresentado, mas sim está ligado aos julgamentos de bem ou mal
pertinentes ao indivíduo que aplica o teste. Ainda em acréscimo, só é
adequadamente aplicável para imperativos cuja generalidade e
flexibilidade admitam a sua universalização. Desta forma pelo menos um
grande cuidado deve ser tomado na abordagem da avaliação pela ética
kantiana. É exatamente o da escolha apropriada da máxima a ser seguida.
Ou seja, de uma intenção de comportamento generalizada e flexível que
permita a sua universalização. Somente a partir disto que a ideia de
universalização pode ser apropriadamente aplicada. Por outro lado é
relevante se observar que o que efetivamente está sendo considerado é o
nosso julgamento de bem ou mal, que eventualmente será diferente de o
de um outro. E na medida que vislumbramos sua aplicabilidade
universal, tal julgamento automaticamente se insere numa dimensão
consequencialista. Isto é, somos levados a vislumbrar as consequências
de sua universalização. Em conformidade com isto não é admissível se
tentar estabelecer uma obrigatoriedade generalizada, mas tão somente,
aquilo que se caracteriza na realidade como uma orientação de conduta.
Por fim, a postura de desapego e de não egoísmo defendida por Kant é
válida e clássica entre os grandes pensadores da Ética.
Creio que o presente texto dá uma noção da grande contribuição
de Kant ao entendimento humano. A máxima a ser escolhida precisa
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Immanuel Kant
contemplar a dimensão humana como um todo, inclusive a da sua
fragilidade. A conclusão ética a que se chegar precisa levar em conta as
diferenças dos valores; de julgamento de certo e errado; de bom ou mau,
presentes nas consciências dos indivíduos que compõe nossa
coletividade de mais de sete bilhões de criaturas.
Devemos ainda observar o caráter impositivo e portanto não
esclarecido, pelas próprias concepções kantianas, de dever e de
obrigação. Por fim, para que uma máxima possa ser universalizável é
necessário que guarde uma razoável relatividade e flexibilidade, inclusive
tendo em vista o próprio indivíduo que decida pautar sua vida por ela.
229
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
19
Autoestima e Respeito
Como já efetuamos em outras oportunidades, vamos procurar
explorar o significado das palavras intimamente ligadas aos conceitos
correntes de estima e respeito e assim procurar compreender com maior
profundidade o que representam. Seriam elas nesta análise: consideração,
reconhecimento, apresar, encarecer, apreciar, admirar, gostar, prezar,
honrar, reconhecer e amar.
A palavra portuguesa respeito tem sua origem no latim, respectu,
e apresenta significado original de ação de olhar mais uma vez para trás
ou prestar atenção. Como já discorremos em outro capítulo, a palavra
amor tem dois aspectos: um passivo de procurar estar o mais unido
possível ao objeto amado e outro ativo de proporcionar-lhe coisas boas.
Mencionamos igualmente o nosso entendimento de que o verdadeiro
antônimo do amor não é o ódio. O ódio seria apenas uma manifestação
de amor distorcida. O oposto real do amor nos parece ser a indiferença.
No contexto da palavra respeito, quando transitamos por uma rua
movimentada e não prestamos atenção às pessoas que encontramos,
manifestamos por elas a indiferença. Se por outro, prestamos atenção
nelas ou mesmo nos voltamos para dar mais uma olhada, isto indica que
nos envolvemos com ela de alguma forma. Ela nos revelou algo que
merece ser considerado. Algo que merece ser mais analisado e acolhido
em nosso mundo interior. Um algo que merece ser estimado.
Reconhecer significa conhecer mais uma vez e engloba também a
ideia de conhecer a própria imagem, digamos em um espelho; distinguir
como semelhante um dado aspecto do observado. Ter como bom,
legítimo e verdadeiro.
A palavra portuguesa consideração tem também sua origem no
latim, consideratio. Significa refletir, examinar mentalmente, contemplar.
Examinar mentalmente é como trazer à luz de nossa consciência aquilo
que nos chama a atenção. Vários filósofos defendem que a forma mais
sutil e ao mesmo tempo mais elevada e gratificante de prazer está
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
justamente na contemplação. Aquilo que observamos está de alguma
forma em sintonia conosco; encontra algo de similar dentro de nós
mesmos. Contemplar seria então ver-se de algum modo naquilo
observado e assim revelar um pouco de nós mesmos.
O termo apresar tem como sentido o de tomar algo como presa,
capturar, apreender, agarrar.
Tanto a palavra consideração quanto contemplação, apresentam o
radical 'con' o qual indica uma ação conjunta ou uma comunhão entre o
observador e o observado. Enquanto indicativas de comunhão, os dois
termos podem ser considerados expressões veladas de amor.
A palavra portuguesa estima tem sua origem no latim arcaico
aestumare. Supõe-se que originalmente tal termo, que indica estabelecer
valor, se refira ao ato de dividir em tomos, isto é, pedaços, tal como se
faz quando do estudo de um assunto qualquer, que se entende
atualmente pelo termo análise. Podemos propor que seja uma busca de
entendimento e compreensão daquilo que é observado, através de nossos
referenciais anteriores. O termo reverenciar tem conotação análoga,
incluindo aqui um gesto visível de aprovação e respeito.
Encarecer significa estabelecer alto valor a algo.
A palavra apreciar tem conotações semelhantes. Indica qualificar
algo ou alguém. Efetuar um juízo de valor. Efetuar uma análise do
observado comparando com os padrões de idealidade de que se é
portador e inclui avaliar a adequação do observado ao seu propósito.
Neste ponto é oportuno relembrarmos a diferença sutil entre
avaliar e condenar. Alguém pode apresentar uma baixa correspondência
com os padrões que possuímos, mas como já amplamente discutido em
outro capítulo, não é racional, apesar de compreensível no campo das
emoções, julgá-lo desfavoravelmente por isto. Mais uma vez aqui surge
nossa tendência primitiva de atração pelo semelhante e rejeição pelo
diferente e a necessidade do cultivo da tolerância para a promoção da
paz e do bem estar na enorme diversidade de sete bilhões de seres
humanos sobre o planeta.
Admirar, do latim admirari denota um sentimento prazeroso
ocasionado pelo espanto ou surpresa frente a algo extraordinário, belo
232
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
ou inesperado. A olhar com grande interesse uma obra de arte ou a
olhar-se ao espelho.
Admirar é sermos atraídos por algo, não ficando indiferente a ele.
A admiração nos coloca em movimento para tentar compreender o que
poderia ser evidente, mas que nos parece apresentar aspectos obscuros
que necessitam maior esclarecimento. Tal sentimento prazeroso denota
um apreciar; um gostar.
A palavra portuguesa gostar provém do latim gustare e significa o
ato de saborear ou provar. Trazer para o campo de nossas percepções
aquilo que entra em contato conosco, concluindo como promotor de
algum nível de prazer. Trazendo após a experiência de contato, algum
deleite, satisfação ou compatibilização e afinidade com algo de nós
mesmos.
O termo prezar tem como sentidos o ato de almejar, ambicionar e
amar.
Honrar significa distinguir ou enobrecer alguém por suas ações e
qualidades. Prezá-lo e demonstrar também por atos este respeito.
O conjunto de palavras que acabamos de estudar, empregadas
para expressar nossos sentimentos, sensações e pensamentos e de origem
ancestral e coletiva, trazem algumas ideias gerais, dentre as quais: prestar
atenção naquilo que nos atrai; que se mostra capaz de nos revelar algo e
nos dar prazer. Examiná-lo, analisá-lo, contemplá-lo e avaliar seu valor.
Ver-se de algum modo naquilo que é observado e desta forma aprecia-lo.
Determinar se o observado corresponde aos nossos padrões e ao seu
propósito. Por fim manifestar por atitudes tal apreço. Surgiram deste
modo, para o acionamento da dinâmica de respeito a um outro, os
critérios de semelhança, correspondência a padrões e a propósitos préestabelecidos.
Quanto à semelhança já estudamos no capítulo da ética
evolucionária, que temos a tendência de sermos atraídos pelo semelhante
e a rejeitar o diferente, primitivamente mesmo que tais diferenças sejam
muito sutis. As semelhanças ou diferenças são estabelecidas por padrões
de comparação.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
O mecanismo de controle social atua, através da rejeição e do
desrespeito, quanto menor for a correspondência de um indivíduo com o
padrão comportamental esperado, isto é, quanto mais seja diferenciado o
sujeito. Este mecanismo proporciona a estabilidade do coletivo e sua
resistência à alteração.
Curiosamente, no entanto, pessoas muito normais; muito
correspondentes a um padrão, não nos chamam a atenção e tendemos a
ser indiferentes a elas. Elas tendem a não apresentar nada a nos revelar e
assim não são também respeitadas na exata acepção do termo. É possível
interpretar tal constatação como uma dinâmica natural para gradativa
evolução das estruturas sociais.
Os padrões de avaliação são em parte coletivos e em parte
individuais. Consequentemente não é provável que sejamos apreciados
por todos, todo o tempo, nem mesmo pela maioria. No decorrer de
nossas existências é razoável supor que a grande maioria de nós será
apreciado por alguns e por algum tempo.
É de se esperar também que aqueles que apresentem um respeito
pelos demais, mais duradouro, sejam os que são portadores de uma visão
mais ampla da vida e do ser humano: criaturas complexas, com virtudes e
vícios, muito semelhantes a cada um de nós.
Também podemos considerar que tendemos a amar aquilo que
conhecemos e tendemos a conhecer o que nos é íntimo. Desta forma é
razoável que tenhamos o respeito de nossos familiares e das pessoas com
as quais nos relacionemos mais proximamente.
O respeito por aqueles pertencentes às mesmas associações,
clubes, partidos, agremiações religiosas é esperado mais uma vez, caso aja
mútua correspondência com os padrões comportamentais esperados por
seus membros. Por outro lado é de se prever intolerância pelos que
correspondam aos padrões das outras facções.
Sendo a Ética a ação de fazer o bem ao outro e sabendo que
todos nós temos a necessidade básica de sermos amados, considerados e
respeitados, cabe procurarmos agir de tal modo com os demais, seguindo
a máxima de fazer ao outro o que gostaríamos que fosse feito a nós
mesmos.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
Por outro lado surge o desafio de sermos éticos em ocasiões nas
quais somos rejeitados. Salvo melhor juízo tal questão pode ser
solucionada, mantendo-se o referencial de bem em nossa própria
consciência. Novamente pela máxima, fazer ao outro o que nós próprios
gostaríamos que fosse feito a nós.
Fácil observar que a universalização do respeito e da consideração
é um processo dificílimo. Tão difícil quanto a possibilidade de aplicação
plena da regra de ouro da ética que acabamos de citar e o
estabelecimento de uma plena fraternidade universal.
Vimos que apreciar inclui analisar o sujeito observado quanto a
sua adequação ao seu propósito. Aristóteles nos esclareceu que o bem
maior para todos os indivíduos é a felicidade. O propósito fundamental
de cada um de nós é o de sermos felizes e a felicidade, como
discorremos nesta obra, tem pouca relação com fatores externos a nós
mesmos. A princípio não é uma tarefa difícil aceitarmos para nós
mesmos tal constatação. O que é muito mais trabalhoso é aceitarmos tal
objetivo naqueles que nos cercam, pois pelas tendências egocêntricas que
possuímos, somos levados a encará-los como ferramentas ou
instrumentos para a consecução de um determinado objetivo
supostamente almejado, apartado de suas características de humanidade.
A intolerância com as diferenças dos demais termina por exercer
censura sobre nossas próprias diferenças em relação a eles. A intolerância
pela busca da felicidade pelo outro igualmente exerce censura
comportamental sobre a nossa própria viagem em direção ao bem maior.
Por outro lado defendemos por várias vezes que a felicidade é
obtida através do comportamento adequado e desta forma, por
definição, ético. E que o comportamento ético é basicamente fazer o
bem. Neste sentido quem busca apropriadamente a felicidade
eventualmente não corresponde a critérios de semelhança, padronização
e propósito que os demais tenham. No entanto por se apresentar como
sujeito bom e útil aos demais indivíduos e à coletividade a que pertence
tenderá a não ser demasiadamente rejeitado.
Cabe aqui ainda um comentário quanto ao pensamento de
Immanuel Kant, que distingue claramente a realidade daquilo que
235
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
efetivamente percebemos. Graças a isto podemos compreender que
podemos nos considerar respeitados ou desrespeitados sem que tal
intenção efetivamente exista naqueles que nos cercam. O respeito ou
desrespeito pelos demais são basicamente percepções interiores que
podem estar bem apartadas da realidade. Nosso orgulho pode nos levar a
sobrevalorizar meras manifestações de indiferença.
Por outro lado, quem procura respeitar ou desrespeitar um outro,
efetivamente o faz em relação a uma representação perceptiva do
mesmo. Isto é, da imagem que ela formou daquele que é sujeito de sua
ação. Tal imagem mais uma vez, que se procura enaltecer ou agredir
pode ter muito pouca relação com o indivíduo em si.
Por fim, pelo entendimento de Aristóteles, não é sábio deixarmos
nas mãos de outros a nossa própria felicidade. Sermos ou não
respeitados é algo que não se encontra totalmente em nossas mãos.
Desta forma, analisemos agora os conceitos de respeito e estima,
voltados a nós mesmos. Assim entraremos numa área na qual possuímos
um controle bem maior.
Quem se respeita se acolhe. Carl Rogers, o maior expoente da
psicologia humanista, defende que frequentemente as pessoas que
desprezam a si mesmas assim o fazem porque se consideram indignas de
serem amadas. Seria a aceitação e a autoaceitação incondicional, a melhor
forma de melhorar a autoestima. Também por esta linha psicológica o
respeito é um direito inalienável de cada pessoa: "Todo ser humano, sem
exceção, pelo simples fato de sê-lo, é digno de respeito incondicional de
todos os outros; ele merece se estimar e ser estimado. " A alternativa
mais saudável para a autoestima de acordo com ele é autoaceitação
incondicional e incondicional aceitação do outro.
Uma pessoa com uma autoestima saudável se aceita e se ama
incondicionalmente. Reconhece tanto suas virtudes quanto seus
defeitos. No entanto, apesar de tudo, é capaz de continuar a amar .
Se há sofrimento há uma causa. Supomos que se há uma causa há
um culpado e o conceito de culpa nos inspira punição. Mas cabe
ponderar que as causas eventualmente não poderiam ser diferentes do
236
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
que foram e os contextos igualmente foram os determinados no tempo
nos quais os acontecimentos se deram. Não é razoável culpar e pretender
a punição do que não poderia ser diferente.
Podemos considerar que o auto-respeito e a autoestima sejam
construidas e facilitadas pela manutenção da fidelidade a si mesmo. Isto
gera um algo mais que é a confiança em si. O termo confiança; com fé;
pressupõe dois sujeitos e a existência de uma aliança entre eles. No
âmbito da Ética, que os atos e as intenções sejam compatíveis com os
valores mais profundos do ser. Pode ser entendido como uma relação de
tolerância entre o que se manifesta externamente num mundo repleto de
resistências de todas as ordens e aquilo que se idealiza ser.
Um arranhar desta aliança compromete o respeito, a estima e a
confiança. Sua ruptura caracteriza uma auto-traição.
Na porta do confessionário de uma antiga igreja em Curitiba há
uma representação pictórica. É notória a capacidade que as obras de arte
possuem de transmitir realidades profundas sobre o ser humano. Tal
representação é a de uma alma estilhaçada. No contexto que estamos a
abordar, as ações que executamos, dissonantes e incompatíveis com o
que portamos no mais profundo de nós mesmos, tem a capacidade de
nos desestruturar e nos decepcionar conosco mesmos.
A história está repleta de biografias de personagens heróicos que
preferiram até mesmo a morte física do que trair seus valores e a si
mesmos, alguns deles inclusive citados neste livro. Por outro lado, a
manutenção da própria vida pode se mostrar muito difícil para aquele
que trai a si.
Eventualmente a psicologia nos dirá que a auto traição gera uma
ânsia de morte que tende a se refletir na representação que o sujeito faz
de seu mundo exterior.
Deste modo, o que há de destacar fortemente neste capítulo é a
exortação de que o amigo leitor preserve a fidelidade consigo mesmo.
O termo fidelidade alude a uma precisa correspondência entre
dois entes o que inclui dentre outras, a compatibilidade entre uma
representação e o que é representado. Tal correspondência é a rigor o
237
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
critério de veracidade, tema instigante e amplamente estudado na
filosofia.
Aristóteles em seus estudos concluiu que o movimento - a
alteração da realidade - é o que caracteriza a própria existência.
Outro tema apaixonante é buscar-se o que caracteriza a vida e na
listagem do observável num ser vivente mais uma vez encontramos de
forma recorrente o conceito de movimento.
Surge deste modo a conjuntura de ser-se fiel e verdadeiro consigo
mesmo, mantendo ao mesmo tempo a mudança e o desenvolvimento de
si mesmo, o movimento e desta forma a própria vida.
Retornando aos estudos da verdade, há dois conceitos que
julgamos oportuno destacar. O primeiro é o de que a verdade se
encontra em contínuo processo de desvelamento e manifestação. Neste
caso a verdade se revela gradualmente e jamais chega a ser totalmente
compreendida, o que não implica que não haja uma verdade última a
atingir. Outro é o de que a verdade é um ponto de vista e uma
interpretação reforçada na convicção de cada um.
Deste modo, ser fiel a si mesmo e verdadeiro consigo mesmo
apresenta um duplo aspecto. No âmbito comportamental, ter-se atitudes
sintonizadas aos valores mais fundamentais que temos. De outro,
mantermos a possibilidade de aperfeiçoarmos e desenvolvermos tais
valores. E sempre mantermos como valor essencial a aliança que temos
conosco mesmos, e nos mantermos sempre dispostos a restaurá-la caso
as fatalidades da existência a comprometam.
Tal restauração igualmente se justifica filosoficamente. Pelas
palavras poéticas de Heráclito, as águas de um rio nunca são as mesmas,
embora alguma coisa da água e do rio permaneçam. Há um algo num
determinado rio que o faz sempre ser o mesmo rio.
Pelo pensamento de Zenão, apesar e além do movimento, há a
realidade imutável.
No campo da Ética há deste modo um algo real e perene que
sempre está em sintonia conosco mesmo que algum comportamento
nosso venha a temporariamente romper nosso elo com nossos valores
mais fundamentais.
238
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
As experiências pregressas influenciam o desenvolvimento da
autoestima e se pode incluir na esfera da fidelidade a si mesmo o respeito
e a preservação da própria história. É patente em toda a psicanálise que
nos curamos e equilibramos lembrando. É com o reavivar da memória
que trazemos para toda a bagagem cognitiva e experimental que temos
no presente, as nossas vivências do passado e com isto damos à nossa
história um significado maior e melhor.
O conhecimento de nós mesmos e de nossas emoções passa por
tomarmos posse de nossa história. A jornada para a saúde e o equilíbrio
e a cura das desordens é sempre um processo de ruptura, inclusive da
ignorância. Um autoexame cotidiano; a busca pelas razões que nos
fizeram agir de um ou outro modo parecem ser mecanismos eficientes
para a promoção do autoconhecimento de forma autônoma. A
autoestima está intimamente associada à autoconsciência.
Um risco que penso o leitor desta obra estar propenso é o
desenvolvimento de um desejo por sofrer. O masoquismo é uma forma
distorcida de obtenção de satisfação através da violência contra si
mesmo. Segundo Freud, além do masoquismo erótico, há ainda dois
outros tipos. O masoquismo 'feminino' e o masoquismo 'moral'. O
primeiro se mostra em fazer-se servil, aviltar-se e humilhar-se, o que cabe
lembrar a você amigo leitor, é diferente de procurar servir aos demais e
cultivar a humildade. O masoquismo 'moral' revela-se pela obediência
cega a regras, mesmo que não éticas, assumir culpas por erros
inexistentes e boicotar-se. É o SuperEu que já mencionamos em outro
capítulo, fortalecido e agindo contra o próprio indivíduo. A solução
parece passar pelo autoconhecimento e racionalização bem como
permitir-se um controlado nível de agressividade a agentes externos.
As nossas tendências de orgulho, egocentrismo ou narcisismo
fazem-nos sentir satisfação em supormo-nos superiores e fortes. As
nossas origens de vida em coletividade em sermos aprovados. Mas
também pode haver satisfação caso nos coloquemos numa posição de
mártires. O sofrimento pode ser gerado como mecanismo para que nos
239
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
sintamos tanto aprovados e amparados quanto superiores e fortes. Sofrer
pode ser instrumento para a obtenção da atenção dos demais.
No masoquismo há um sentimento de culpa: o indivíduo presume
que cometeu algum erro e faz com que seja expiado por alguma forma
de sofrimento.
O gerador deste sentimento é o SuperEu. Esta parcela do
inconsciente é passível de contínua modificação e traz em si um modelo
ideal de adequação ao mundo externo, tal como o próprio sujeito o
percebe e lhe dá significado.
No masoquismo, a ira, a sede de dominação e de destruição de
agentes externos volta-se contra o próprio indivíduo. O SuperEu abafa a
agressividade e a transfere contra si mesmo.
O próprio sofrimento é o que importa: o verdadeiro masoquista
sempre oferece a face onde quer que tenha a oportunidade de receber
um golpe.
A fim de promover a punição o masoquista age de modo
imprudente e contra seus próprios interesses e boicota suas perspectivas
positivas de futuro.
Como vemos, criamos circunstâncias que promovem o nosso
sofrer por uma parcela de nosso inconsciente que traz em si um modelo
de ajuste ao mundo externo, tal como o concebemos. Sendo tal parcela
do inconsciente passível de contínuo aperfeiçoamento, na medida que
nossas percepções inocentarem o mundo no qual vivemos, seremos
também inocentados por nós mesmos. Quanto mais bondosos formos,
mais bondosos seremos conosco.
Num texto datado de 1692 e encontrado no interior de uma igreja
de Baltimore pode-se ler: '... Para além de uma saudável disciplina, sê
gentil para contigo mesmo. És um filho do Universo, não menos que as
estrelas e as árvores; tens o direito de estar aqui. E seja ou não seja clara
essa ideia para o teu entendimento, não duvides de que o Universo se
esteja desenvolvendo como deve. Portanto fica em paz com Deus, seja
como for que o concebas, e sejam quais forem teus trabalhos e tuas
aspirações, mantém na ruidosa confusão da vida, a paz com a tua alma.
240
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
Com todos os seus penosos trabalhos e seus sonhos desfeitos, este
mundo ainda é belo ...' Estrelas e árvores não necessitam de aprovação.
São honradas, contempladas e admiradas por si mesmas.
Sigmund Freud revelou a aplicação do mito de narciso ao ser
humano que em síntese é a nossa propensão de estarmos voltados para
nós mesmos. Tal condição é fundamental na infância para a formação da
personalidade. O egoísmo tem origem evolutiva. O indivíduo necessita
proteger e preservar sua integridade. O narcisismo em criaturas infantis é
exacerbado. Uma criança não admite ficar em segundo lugar ou ser
desvalorizada, muito menos excluída. As crianças expressam claramente
as necessidades humanas: justificar-se como um objeto de valor, se
destacar, ser um herói.
As bases da autoestima, provém da infância. Podemos supor que
algumas crianças não tenham autovaloração bem estabelecida, mas numa
família saudável é de se esperar que elas se estabeleçam satisfatoriamente.
Afinal os pais verão nos filhos, uma metade eles mesmos e outra o
reflexo do parceiro amado com o qual decidiram passar o restante da
vida e constituir família. Os pais saudáveis admirarão naturalmente seus
filhos, os respeitarão, gostarão deles, os amarão. A criança se sentirá
amada; merecedora de amor irrestrito e formará graças a isto uma base
de respeito a si duradoura.
A entrada na vida escolar é crítica. É de se esperar que aí
comecem os mecanismos de controle social, eventualmente através de
cerceamentos para o estabelecimento de padrões comportamentais
coletivos. Em particular as diversas formas de 'bullyng' sistemático
poderão vir a corromper os padrões de autoestima já estabelecidos.
Provavelmente a melhor solução seja a de afastar a criança do ambiente
negativo através de troca de escola. Eventualmente consultar um
especialista para ensinar a criança a superar ou neutralizar tal ambiente
hostil. Eventualmente também a solução passe pela liberação de alguma
agressividade sobre os agentes agressores, de modo a garantir o espaço
vital e a preservação de limites. Como vimos na análise do
comportamento de origem evolucionária, as pessoas estão muito mais
241
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
dispostas a efetuarem agressões simuladas para afirmar sua dominância
do que arcar com o ônus de uma agressão real.
Pais geradores de autoestima básica nos filhos, são pais presentes
que estabelecem limites claros, mas ao mesmo houvem a opinião dos
filhos nas tomadas de decisões. Conversam com eles. Não abrem mão de
seus papeis de pais apoiadores e responsáveis. As crianças precisam ser
ouvidas com respeito, atenção e carinho. Ter suas realizações
reconhecidas e falhas aceitas.
A crítica, as diversas formas de agressão, de física, sexual, a
emocional e mental, ser ignorado, ridicularizado e não ter sua falibilidade
aceita corrompem o amor próprio dos jovens.
A aceitação pelos colegas e amigos gera confiança e autoestima
elevada. A rejeição e a solidão exercem efeito contrário.
Críticas severas tais como a respeito do valor, moralidade,
realizações, dirigida a indivíduos com a autoestima já abalada podem ser
devastadoras. Indivíduos com baixa autoestima são mais auto-críticos e
mais dependentes do sucesso, da aprovação e elogios dos outros.
Fundamentada adequadamente a personalidade pelo amor
voltado para si, cabe ao homem migrar a um novo e superior patamar.
Na filosofia de Rousseau, o orgulho narcisista incentiva o homem a
comparar-se com os outros, criando assim, medos injustificados e
levando a que os homens tenham prazer na dor ou fraqueza dos outros.
Orgulho é supor-se mais que outro. Tal suposição precisa a todo
momento ser confirmada. O orgulho como o gerador de ânsia por se
comparar com os demais e obter seu reconhecimento sugere que tal
pretensão de superioridade necessita a todo o momento de confirmação.
Também para Rosseau, as enfermidades do corpo, bem como os
vícios da alma, são o efeito infalível desta competição.
Caracteriza o narcisista uma incerteza oculta de seu próprio valor
que gera manobras de autoproteção e a manutenção de um sentimento e
tentativa de projeção de grandeza.
Possuem uma autoestima alta. No entanto inconstante, sujeita aos
episódios de aprovação ou rejeição pelos demais. A fragilidade interior é
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
compensada justamente pela aparência de elevada autoestima e
confiança. O narcisista é ufanista: se vangloria de seus feitos frente aos
demais para velar sua fraqueza e tende a ter poucas habilidades sociais.
Os olhos dos homens comuns em sociedade, que se auto
contemplam, não são os dele mas sim a maneira como supõe ou então
como em certa medida os olhos de outros os veem. A busca da riqueza
material, ou de um carro um pouco mais luxuoso pode ser encarada
como a busca da confirmação do valor e da importância pessoal. Quanto
a automóveis, se me permite o amigo leitor um comentário, um de
volume de cilindro de 1000 cm3 (1.0) o leva a todos os lugares que um
3.0 ou mais o faz. Com as limitações legais de velocidade, inclusive
exatamente no mesmo tempo. Já aquele que dirige um carro sempre
contempla a beleza dos demais, mas sempre está impossibilitado de
contemplar a beleza externa de seu carro, simplesmente pelo fato de
estar em seu interior. A compra de carros luxuosos é em geral a uma
nítida expressão de vaidade. A vaidade se define como a tentativa do
indivíduo de aparentar ser maior do que ele conscientemente sabe que é.
É curiosa a observação de residências muito humildes com carros
luxuosos nas garagens e mega empresários trafegando com fuscas.
Eventualmente pode ser efetuado o raciocínio: sou infeliz, porém tenho
um veículo luxuoso. Melhor seria que fosse feliz com um meio de
transporte menos ostensivo. Para atingir tal objetivo é conveniente uma
visão de mundo não convencional, mas sim realista com respeito àquilo
que leva ao contentamento interior.
A comparação é uma atitude que sempre leva a frustação.
Ninguém consegue agradar a todos, todo o tempo, nem mesmo uma
maioria. Ninguém se destaca em todo os aspectos da vida em
comparação com os demais. Sempre haverá aqueles que supostamente
são superiores a nós. A tentativa de se adaptar ao agrado dos que nos
rodeiam será sempre esmagadora e apresentará sempre sentidos
conflitantes.
Quem adquire sentimento de valor, tende a fazê-lo por meio de
pressupostos. Através de uma certa visão de mundo. O impulso por se
243
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
sentir um ser destacado do meio e valoroso leva o sujeito a se comparar
com outros. Claramente tal comparação poderá ser dolorosa, pois que se
é verdade que numa visão da existência coletiva, sempre existirão
indivíduos aparentemente inferiores a nós, haverá também aqueles
supostamente superiores.
Quando contemplamos uma colmeia vemos abelhas. Quando
contemplamos um formigueiro vemos formigas. Cada abelha e cada
formiga tem um valor inerente. Cada uma destas criaturas é importante e
exerce papel relevante para si e para o meio onde se insere. Os anseios
de um destes seres é tão relevante quanto os de um outro. O alcance da
visão de que neste planeta somos sete bilhões de seres muito
semelhantes e irmãos, na busca comum por felicidade, realização e
autodesenvolvimento talvez tenha a propriedade de enfraquecer um
pouco o anseio por competição e comparação.
O modo como os outros nos encaram são apenas referenciais.
Referencias eventualmente úteis para um ajuste de rota. Não é
conveniente no entanto que deixemos que tal modo de ver comprometa
nossa conduta, basicamente a respeito daquilo que racionalmente
concluímos ser adequado. Se permitirmos que a opinião de outros nos
afete, comprometemos as virtudes de autogestão, autodomínio,
autonomia, ... virtudes estas sobejamente enaltecidas por vários dos
pensadores principais da Ética, como pudemos observar no transcorrer
deste trabalho. Abalar-se com a opinião alheia tem a possibilidade
inclusive de ferir o próprio amor-próprio, fundamental à saúde individual
conforme os conhecimentos da psicologia humana.
Temos a tendência de nos enfeitiçar pela ilusória tentativa de
agradar a todos. No entanto, essencialmente temos que agradar com as
nossas existências basicamente nós mesmos.
Parece já estar comprovado que é apenas quando as pessoas se
envolvem pessoalmente em esforços significativos em prol de um bem é
que sentem-se bem consigo mesmas, a autoconfiança cresce e maior
número de ações de sucesso se viabilizam. Isto faz com que as pessoas
concordem que merecem ser felizes.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
A autoestima se relaciona a uma comparação entre como cada um
se vê ou se manifesta e como gostaria de ser, bem como a
correspondência com seus próprios ideais. A saúde psicológica depende
desta aceitação, amor e respeito por si mesmo.
As leis que regem a evolução da raça humana, criaram a
necessidade interior de fazermos coisas que intimamente consideramos
verdadeiramente úteis e boas aos demais. Com isto adquirimos valor real
frente aos nossos próprios olhos e desta forma nos temos em elevado
apreço.
O ser humano anseia por destacar-se da natureza. Realizar ou
contribuir com algo. Ser um agente modificador do meio, tornando-se
filosoficamente aquilo que em potência já é. O papel natural e saudável
para um ser humano é ser um herói, valoroso, útil, significativo,
contribuindo de algum modo para a sociedade. A concretização desta
realização heróica - ser útil - pode ser desvirtuada por uma estrutura de
conceitos e convenções coletivas inapropriadas.
Creio que já mencionamos em outro capítulo que as sociedades
humanas ao longo de toda sua história, jamais se ativeram apenas à
sobrevivência. Sempre procuraram deixar legados mais duradouros que
elas mesmas. Em termos individuais dificilmente há uma cultura coletiva
que automatize tal sentimento heróico. Cabe ao indivíduo ele mesmo
analisar com que olhos verá o papel representado na vida e o que
realizará.
O sentimento de heroísmo pode ser equivalente, tanto para
aquele que se apresenta como um líder religioso, um político ou um pai e
mãe que procuram manter convenientemente seus lares. Um homem
pode dedicar sua vida à sua família. Pode ser generoso ou se sacrificar. É
fundamental para a felicidade, no entanto, que sinta e acredite que o que
faz é útil, significativo, transcendente ao tempo.
Relembrando o pensamento de Aristóteles, a felicidade pessoal
sempre será extremamente volátil e transitória, caso baseada em coisas
tais como riqueza, fama ou poder. Tais bens tendem a ir e vir de acordo
com a ação de outros. Por outro lado podem ser empregados com vistas
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Autoestima e Respeito
a ações altruístas e tais ações serão vistas como úteis e mais duradouras
do que aquele que as faz.
O amor é característico do ser humano e da vida. Amor ao
próximo e a si mesmo não são independentes. Quem ama o outro é
aquele que ama a si mesmo. Quem ama a si mesmo também ama outros.
Quem ama a si mesmo e a outros manifesta por atos esta condição.
Em conclusão deste importante capítulo, citamos a exortação de
Pitágoras, o sábio de Samos: 'Mais que tudo a ti mesmo respeita.'
246
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Motivos para a vida
20
Motivos para a vida
Usando uma técnica já empregada nesta obra em outras
oportunidades, é muito pertinente iniciarmos por analisar com cuidado o
título do presente capítulo.
Motivo vem do latim 'motivus'. É formada com a raiz do verbo
mover e o sufixo '-ivo', que por sua vez indica uma relação passiva ou
ativa. É uma palavra relacionada ao movimento. A palavra motivo está
relacionada também aos termos estímulo, dilema e crise. É aquilo que faz
mover e o que dá origem, determina, causa ou resulta em algo. Em
termos musicais o motivo é o que caracteriza e particulariza uma
melodia.
A palavra movimento igualmente tem sua origem no latim
(movimentu). Se refere ao ato de se mover, ao mudar, ao agir e estar
animado, isto é, com alma. Ao impulso interior promovido pela alma. À
variedade e à diversidade. Em termos musicais, a cada uma das partes
que apresenta andamentos contrastantes.
O termo mudança se refere à alteração, modificação ou variação.
De algo a partir de um lugar, estado, condição, atitude ou sentimento,
para outro.
A palavra emoção também proveniente do latim, esta relacionada
ao termo motivação. É palavra derivada de 'movere'. Em emoção,
'emotione', 'emovere', a vogal 'e' indica 'para fora' e 'movere' significa
'movimento, ação, comoção, gesto'. O termo se refere ao ato de mover o
mundo interior do indivíduo. A uma perturbação ou variação do espírito
oriunda de diferentes situações e uma agitação da mente ou do espírito.
Como observamos, todas as palavras acima estão relacionadas ao
mover. E também como já observado, o mover que origina uma
modificação qualquer, se define como ser capaz de corresponder a um
estímulo da alma ou do espírito, ou do mais profundo do ser, conceitos
estes, a serem entendidos em conformidade com as suas preferências
pessoais, amigo leitor. O mover caracteriza também uma situação
247
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Motivos para a vida
polarizada ou um dilema: O estado no momento e aquele para o qual
tendemos; o que não se quer e o que se quer; e como estes dois
exemplos, infinitos outros. O modo como se dá o movimento permite a
diversidade e a distinção de um corpo em relação aos demais.
Salvo melhor juízo podemos afirmar que num estado
absolutamente inerte não há contrastes e sem contrastes não é possível
qualquer existência. Caso a existência vital não consiga corresponder
minimamente aos movimentos exigidos pela psique, tal existência não se
torna viável. Se a existência sem movimento não é possível, igualmente a
vida sem ele, tal como a entendemos, também não o é. O que
expusemos aqui deste modo particular, em sintonia com as
conceituações de outros é que, muito verdadeiramente, a vida para que
possa existir, necessita de alguma forma mesmo mínima de mudança e
que tais mudanças basicamente se dão numa forma ativa, através das
motivações individuais. Um pensar ou um sentir já são mudanças. O que
dá origem ao pensar ou ao sentir é a motivação e o querer.
Heráclito de Éfeso afirmava a mudança de todas as coisas e sua
impermanência, de modo idêntico ao pensamento budista por nós já
estudado. O mundo todo é visto como um fluxo incessante, onde só
permanece estável e inalterável o Logos que rege a inevitável
transformação de tudo. Tudo está em movimento e o movimento se
processa por meio de contrários. 'Em nós, manifesta-se sempre uma e a
mesma coisa: vida e morte, vigília e sono, juventude e velhice. Pois a
mudança de um dá o outro e reciprocamente'
.
.
Parmênides de Eléia afirmava a unidade e a imobilidade do ser. No
poema em que expõe seu pensamento, dois caminhos são colocados: 'o
que é' e 'o que não é'. O segundo revela-se impossível, pois nada
corresponde a 'não-ser'. A busca racional do 'ser' leva a conclusões de
unicidade, imutabilidade, imobilidade e eternidade.
Aristóteles efetua a união conceitual entre a existência em
movimento de Heráclito e o ser imóvel de Parmênides. O movimento
manifestado é o ato determinado pela potência do ser que se encontra
248
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Motivos para a vida
além da existência e assim é transcendente a esta. As mudanças ocorrem
no substrato da realidade imutável. O ser não é apenas o que já existe,
em ato. É também o que pode ser em potência. A passagem da potência
ao ato é o que constitui o movimento e o devir. As construções, o
aprendizado, o crescimento, o desenvolvimento, são realizações de
potencialidades. A potência pode em certa medida ser dirigida e possuir
aptidão para efetuar uma certa transformação.
Paulo tem a potência para possuir conhecimento. Paulo
possuindo conhecimento é conhecedor em ato. A passagem de potência
a ato é o movimento. Isto é, a potência do ser se manifesta na existência
pelo movimento; pelo motivo. Algo pode estar em potência, mas a
ausência de motivo pode impedir que se manifeste em ato.
Para Aristóteles movimento é entendido por todo e qualquer tipo
de mudança e o fundamento de todo movimento ou motivo é o amor.
Em relação a motivos podemos, portanto, analisar três casos: A
sua ausência gera uma barreira a que a potência do ser se manifeste em
atos. A potência dirigida de um indivíduo, atuando sobre o movimento
de outros e determinando desta forma seus atos. As ações do próprio
indivíduo, dirigidas por sua potência. Quanto aos atos e motivos,
retornemos ao pensamento de Parmênides: o ser é único. Isto significa,
caso dermos credibilidade a este filósofo, que na mais elevada
transcendência do ser, tudo é uma só coisa, inclusive eu e você. Deste
modo a potência do ser está voltada a todos. Caso direcionemos a
potência em detrimento de nós mesmos ou de um outro, por
Parmênides, um outro nós mesmos, criamos uma incompatibilidade do
ser com o existir. Caso tal potência se dirija à abstenção de prejuízos e ao
benefício, ocorre uma sintonia entre o ser e o existir que resulta em
felicidade, bem estar, realização e desenvolvimento pessoal.
O altruísmo é encontrado nos seres nos quais as ações de um
indivíduo tendem ao beneficio de outros. São termos correlatos a
solidariedade e a bondade. Como já observamos nesta obra, o altruísmo
é disposição natural do ser humano. É recomendação de pelo menos a
maioria das religiões mundiais. É o que há de fundamental na construção
racional da Ética. É uma manifestação de amor voltada ao outro. A
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Motivos para a vida
amizade é uma relação de troca de amor. O amor-próprio é uma
manifestação de amor fundamental para a existência sadia que
absolutamente não compromete a realização de atos de amor voltados
aos demais.
Para que haja existência são necessários motivos. Para que a nossa
existência seja justificável é necessário que os motivos sejam nossos. Para
que nossa existência seja feliz é necessário que os motivos sejam bons.
Assisti recentemente a um depoimento de um operário de uma
plataforma de petróleo que se gabava porque sua atividade permitia que
seus patrícios tivessem combustível para poder se deslocar de um lado
para outro. Ex-alunos meus diariamente, tratam de garantir o
abastecimento de combustível para conjuntos inteiros de Estados do
Brasil. Outros, do fornecimento de água potável. Outros ainda do
fornecimento de alimentos e assim por diante.
É famoso o desempenho de um dos garis que varrem o
sambódromo do Rio de Janeiro, após a passagem de cada uma das
escolas de samba. Varre a avenida com alegria, sambando e sob aplausos.
Caso um gari não removesse o lixo defronte de minha casa algumas
vezes por semana, em muito pouco tempo haveria aqui uma montanha
mal cheirosa, berço das mais diferentes pragas.
Caso os pais de, digamos Sócrates, não houvessem criado
adequadamente seu filho, toda a filosofia ocidental estaria
comprometida.
Em sintonia com o pensamento kantiano, o que você
efetivamente faz tem um papel secundário em relação aos motivos graças
aos quais você os executa.
A minha atividade laborativa é a de professor universitário e a
exerço a cerca de trinta anos. No início minha postura poderia ser
caracterizada por ser rigidamente deontológica. Neste sentido meu
contrato de trabalho previa oito horas de trabalho ao dia. Houve época
que cronometrava a minha atividade e após nove ou dez horas de
permanência, chegando por vezes à exaustão mental, não me
250
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Motivos para a vida
conformava por ter trabalhado em termos de carga horária líquida,
apenas seis ou seis horas e meia. Ministrava apenas uma ou duas
disciplinas com uma qualidade por vezes muito questionável e a
preocupação era grande em dar aulas vistosas e relevantes.
Atualmente a minha postura ética é fortemente teleológica, apesar
de obviamente me submeter a inúmeras regras razoáveis do adequado
viver em coletividade. Neste semestre ministrarei pelo menos seis
disciplinas e possuo atividades de pesquisa e extensão que considero
razoavelmente ativas. Minha produtividade, eficiência e eficácia são
muitíssimo maiores e o tempo gasto muitíssimo menor. Isto não se deve
apenas ao acréscimo de experiência, mas talvez muito mais a uma
mudança de postura de egoísta para altruísta. As atividades que executo
em sua maior parte fazem pleno sentido para mim. As não relevantes,
me são valiosas porque úteis às atividades que me são importantes. E as
atividades que considero importantes são aquelas, que considero
efetivamente úteis, a ao menos um outro.
A vida precisa veementemente fazer sentido para nós. O sentido é
o de realizar algo que julguemos verdadeiramente bom aos demais e
pode ser, se pensarmos bem, algo que façamos sentados em nossa sala
de estar. Não necessita ser mirabolante ou complicado ou difícil. Se quer
o destino que sejamos levados a alguma atividade laboral, há pelo menos
três alternativas: Caso não encontremos sentido em uma atividade,
podemos mudar para uma outra. Podemos interpretar nossa atividade de
um modo diferente, em geral uma versão mais altruísta, e passarmos a
ver sentido nela. Podemos adaptar a atividade laboral que já exercemos
para que ela passe a fazer sentido para nós.
Em períodos muito difíceis pelos quais passei, por vezes qualquer
tipo de ação foi altamente impossibilitada. Justamente nestas condições,
são as pequeníssimas ações altruístas aquelas que assumem máxima
importância e são mesmo quase que essenciais para a restauração de um
estado de saúde e equilíbrio.
Por algum tempo exerci atividade voluntária de assistência
material a pessoas atingidas pela carestia em instituição religiosa católica
251
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Motivos para a vida
próxima a minha residência. Mantenho assistência financeira a algumas
organizações filantrópicas. Tive uma família de professores que
mantinham atividade constante em instituição espírita. Os que conhecem
o perfil de tais organizações sabem que seus trabalhos abertos ao público
sempre são realizados objetivando o bem. Um outro ilustre professor,
juntamente com amigos apoiou por anos uma família carente, na prática
adotando-a. Um outro respeitável professor, juntamente com sua esposa,
exerce serviços semanais em outra organização espírita. Uma digna
colega professora ajuda a manter um asilo de idosas. Um amigo se dedica
a cuidar de sua mãe já bem limitada.
Na televisão observamos inúmeros padres, conselheiros,
astrólogos, místicos, pastores, seguidores das mais diversas religiões,
procurando dar a outros o que consideram boas orientações para a vida.
Os exemplos de serviços sociais realizados voluntariamente por
pessoas ao nosso redor são inumeráveis, mesmo considerando que pelas
orientações da religião cristã, seja conveniente que tais ações sejam
efetuadas discretamente. Caso questionemos qualquer um destes
benfeitores, por certo responderão que se sentem felizes por realizar tais
ações. Suas atitudes voltadas para o bem, se não justificam totalmente a
vida, ao menos colaboram para que tenham razões de existir.
Em síntese, a potência do querer gera os movimentos; os motivos
que culminam em contribuições para coletividade e auxílio social.
Motivos bons frutificam em felicidade, autorrealização e
desenvolvimento pessoal. Cabe, portanto, tê-los. Querer tê-los.
Envolvermos nossos corações com tais objetivos e sonharmos com sua
realização.
Frequentemente nossos sonhos não correspondem às
expectativas dos que nos rodeiam. Eventualmente, por vezes, porque os
que nos rodeiam almejam que os outros sirvam de instrumentos para a
realização dos sonhos que eles mesmos portam. Ou eventualmente
porque esperam uma concordância universal com a visão de mundo que
tem. Já discutimos a tendência que temos de gostar do igual e ter aversão
pelo desigual. Tendemos a nos sentir seguros quando estamos rodeados
252
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Motivos para a vida
por semelhantes a nós. Podemos conceber que todos estamos a jogar um
grande jogo chamado vida. No entanto existem infinitos jogos 'vida',
tantos quantos sejam os seres humanos sobre o planeta. Tendemos a
algum desconforto quando um próximo joga um jogo 'vida' de modo
diverso ao jogo 'vida' que jogamos. Cada um está fadado à absoluta
vitória quando o jogo foi determinado por si. Cada um está fadado, a
longo prazo, à absoluta derrota, quando procura jogar um jogo definido
por um outro. Se há um grande jogo no qual está inserida toda a
coletividade humana, a autogestão e a consideração dos padrões pessoais
é o que garante uma verdadeira individualidade. A individualidade é
remédio para a normose da massificação e os legítimos e necessários
contraste e distinção na igualdade.
A questão de aceitação externa já foi estudada por inúmeros
pensadores. A regra de não se envolver com os resultados de uma ação
bem intencionada é amplamente conhecida por várias abordagens do
conhecimento humano (filosofia, religião, psicologia). A contradição
entre procurar ser útil ao outro e não se importar com a opinião do
outro é superada quando lembramos ser impossível que nossas atitudes
agradem a todos.
Os compromissos que temos são sempre conosco mesmos. Pela
psicologia junguiana, todos nós já nascemos com um estado de ser
definido. A meta de cada um de nós é a de nos tornarmos algo o mais
próximo possível daquilo que já somos e absolutamente não de nos
preocuparmos com as opiniões daqueles que nos rodeiam. As reações
externas a nós são basicamente oportunidades de aprendizado;
essencialmente oportunidades de nos conhecermos a nós mesmos
melhor.
253
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
QUARTA PARTE. ÉTICA PROFISSIONAL
QUARTA PARTE.
ÉTICA PROFISSIONAL
255
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Análise do código de ética. CONFEA
21
Análise do código de ética.
CONFEA
Para o exercício de uma profissão regulamentada, o trabalhador
no Brasil necessita estar registrado num Conselho, o qual é dirigido por
representantes colegas de ofício e tem poder delegado pela União para
legislar dentro de sua área de atuação. Engenheiros, Agrônomos,
Geólogos, Geógrafos, Meteorologistas e outros estão vinculados ao
Conselho Federal de Engenharia e Agronomia - CONFEA. O Código
de Ética (Moral) em vigor para Engenheiros de modo geral está
estabelecido pelo CONFEA, através da Resolução 1.002 de 26/11/2002.
Tal material normativo pode ser encontrado no site do Conselho, como
também, na forma integral e literal, nos anexos. O texto abaixo desta
forma não pretende comentar a totalidade do Código, mas sim uma
parte das disposições lá expressadas.
O CONFEA no uso de suas atribuições legais obriga todos os
profissionais inseridos em seu sistema a observância e o cumprimento do
Código de Ética por ele firmado, por todos os profissionais em todas as
modalidades e níveis de formação. Cabe salientar que tal órgão federal é
gerido por representantes democraticamente escolhidos pelos próprios
profissionais a ele ligados. A ética é declaradamente considerada tema
central da vida brasileira, visando uma conduta profissional cidadã. O
código é composto de oito capítulos. O primeiro é o de proclamação. Os
três seguintes tem uma orientação teleológica: pretendem expressamente
a disseminação do bem coletivo. Na sequência, outro grupo de três
capítulos apresenta uma orientação deontológica, estabelecendo deveres,
proibições e direitos. O último caracteriza a infração ética.
A meta a ser atingida é a 'boa e honesta' prática profissional (Art.
1º). Para tanto, são colocados fundamentos gerais e regras específicas de
comportamento profissional. Considera-se fator característico de uma
dada profissão, os 'resultados sociais, econômicos e ambientais do
trabalho' realizado (Art. 4º). É possível considerar-se que as atividades
257
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Análise do código de ética. CONFEA
culturais estejam aqui inseridas, como resultados de avanço na área
social.
Os profissionais por sua vez são encarados como agentes 'próativos do desenvolvimento' (Art. 5º). Enfatiza-se que o 'objetivo das
profissões e a ação dos profissionais voltam-se para o bem-estar e o
desenvolvimento do homem, em seu ambiente e em suas diversas
dimensões: como indivíduo, família, comunidade, sociedade, nação e
humanidade; nas suas raízes históricas, nas gerações atual e futura' (Art.
6º). A profissão é bem social da humanidade e o profissional é o agente
capaz de exercê-la, tendo como objetivos maiores a preservação e o
desenvolvimento harmônico do ser humano, de seu ambiente e de seus
valores (Art. 8º, alínea I). Tais constatações delineiam os objetivos finais
visados.
Considera-se a profissão como colocada 'a serviço da melhoria da
qualidade de vida do homem' (Art. 8º, alínea II). Por sua vez considerase que a prática da profissão 'exige conduta honesta, digna e cidadã' (Art.
8º, alínea III). O termo 'digno' leva diretamente aos conceitos de elevada
moral, honradez, respeitabilidade e nobreza. Praticamente tudo do que
foi visto no presente livro em capítulos anteriores permite aquilatar as
condutas que seriam enquadradas pela indicação da elevada moralidade.
Igualmente as ideias de honradez e respeitabilidade já foram discutidas
anteriormente. Aristóteles associa diretamente a nobreza a uma conduta
pautada desinteressadamente em determinadas virtudes que tal pensador
tem o cuidado de listar e analisar. A cidadania engloba direitos e deveres
políticos, civis e sociais. O dever civil básico é o cumprimento das leis
que vigoram no País onde se reside no momento. Apesar do estudo de
todas as leis vigentes possa ser extremamente trabalhoso e mais afeito
aos profissionais do direito, podemos afirmar que os deveres de um
cidadão tendem a ser tranquilamente seguidos através de um
comportamento verdadeiramente ético.
O código exorta uma ação responsável, a busca pela competência
e a execução dos resultados propostos com qualidade, através do
emprego de técnicas adequadas e os devidos cuidados com a segurança.
258
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Análise do código de ética. CONFEA
O termo responsabilidade apresenta por definição três dimensões:
I. Aceitar as consequências oriundas dos atos praticados. II. Reconhecer
a autoria de seus próprios atos. III. Realizar reparações quando seus atos
ocasionam danos. O termo, portanto, tem pontos em comum com o
conceito de autogestão, muito valorizado por vários pensadores, tais
como Sócrates ou Jung, além do de veracidade, virtude quase que
unanimemente vinculada à ética.
Visar competência é buscar a aptidão para apreciar e resolver os
problemas que se pretenda solucionar. Buscar a qualidade é perseguir a
perfeição, a excelência e a precisão. Laborar com segurança é visar a
confiabilidade e a infalibilidade; é minimizar a insegurança, o risco e o
perigo; é a previsão de garantias que contornem eventuais acidentes.
O Código conclama ainda ao inter-relacionamento honesto e
justo com todos, bem como conduta igualitária e leal. Compreende-se
igualitarismo como a promoção de idênticas condições para todos os
membros da coletividade. Já lealdade implica em probidade, honradez,
dignidade, veracidade e a fidelidade.
É estabelecido que a profissão, neste caso específico, de alguma
modalidade de engenharia, é exercida com base nos preceitos do
desenvolvimento sustentável quando da intervenção sobre os ambientes
natural e construído e da incolumidade das pessoas, de seus bens e de
seus valores (Art. 8º, alínea VI). Incolumidade significa estado do que é
livre de perigo, salvo, são e conservado. Base fundamental de enorme
importância colocada deste modo no Código ora descrito é a não
colocação de vidas humanas em risco. A preservação e o zelo pelo
patrimônio individual e coletivo. E mais ainda, salvo uma interpretação
mais adequada, o respeito aos valores humanos dos cidadãos, tanto
aqueles usuários dos resultados finais, como também do corpo de
colaboradores que permite a consecução da atividade pretendida. A
atenção ao desenvolvimento sustentável, tem ganho cada vez maior
ênfase, ano a ano. Notável a tônica atual do presente código, redigido há
cerca de doze anos atrás.
Desde que o cidadão seja portador da qualificação necessária, o
exercício profissional é livre e a segurança do exercício profissional é
259
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Análise do código de ética. CONFEA
considerada de interesse coletivo. (Art. 8º, alínea VII). Tal ressalva é
importante: a alusão não é efetuada de modo direto à posse de um título
e sim ao conhecimento e experiência adequados. Por outro lado, a
realização de um trabalho de engenharia sem a posse de título no Brasil é
considerada exercício ilegal de profissão. Conclui-se deste modo que o
título se constitui em apenas um dos pré-requisitos necessários à
realização de um trabalho técnico.
Os primeiros oito artigos analisam como vimos, os aspectos
teleológicos do exercício da profissão de engenheiro. Isto é, aqueles
aspectos voltados expressamente e de modo generalizado a obter como
consequência o bem. O quinto capítulo iniciado pelo nono artigo,
expressa com clareza regras objetivas para pautar direitos e deveres
profissionais. A orientação a partir deste ponto é assim deontológica, isto
é baseada em normas e deveres.
São considerados deveres do engenheiro de todas as modalidades,
no exercício da profissão, frente ao ser humano e seus valores, oferecer
seu saber para o bem da humanidade, harmonizar os interesses pessoais
aos coletivos, contribuir para a preservação da incolumidade pública e
divulgar os conhecimentos científicos, artísticos e tecnológicos inerentes
à profissão. (Art. 9º, alínea I). Deste modo consequências fundamentais
da ética teleológica são também expressos através de uma abordagem
deontológica. Isto é, realizar o bem do coletivo sem olvidar que cada um
também faz parte de tal coletividade, bem como preservar a sociedade de
danos e ainda adicionalmente, efetuar uma ampla divulgação do
conhecimento, obviamente desde que tal divulgação generalizada não
comprometa o anteriormente disposto.
É considerado dever do engenheiro de todas as modalidades,
frente à própria profissão, desempenhá-la de modo amplo ou em termos
das funções que lhe são inerentes, nos limites de suas atribuições e de sua
capacidade pessoal de realização e empenhar-se junto aos organismos
profissionais no sentido da consolidação da cidadania, da solidariedade
profissional e da coibição das transgressões éticas. (Art. 9º, alínea II).
Deste modo a omissão frente ao conhecimento de eventuais
transgressões da ética, consiste a própria omissão, em uma transgressão
260
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Análise do código de ética. CONFEA
do código e ética profissional de quem a pratica. É razoável supor que
muitos procurem se preservar de conflitos pela alegação de que não são
responsáveis diretos por transgressões, mesmo tendo ciência até mesmo
em detalhes das mesmas.
Exorta-se dispensar tratamento justo a terceiros, quer clientes,
empregadores ou colaboradores, citando-se inclusive a própria
fundamentação da justiça que é a equidade. A veracidade é defendida na
propaganda e na publicidade pessoais, através do incentivo ao
fornecimento de informação precisa, certa e objetiva. E mais uma vez os
fundamentos da justiça são conclamados em atos arbitrais e periciais,
através da expressão dos deveres de imparcialidade e impessoalidade
(Art. 9º, alínea III). Na presença de conflitos de interesse ou de
consciência, tal fato deve ser claramente expresso.
O respeito ao outro é lembrado: deve-se dar ao destinatário dos
serviços, as alternativas viáveis e adequadas às demandas de suas
propostas. Na engenharia, como possivelmente em todas as outras áreas,
jamais encontramos uma única opção de solução. O matemático e
também filósofo grego Pitágoras, já recomendava a generosidade de
advertir a respeito de um erro eminente, bem como a desvinculação
honesta do erro caso o mesmo viesse a prevalecer, através do sábio e
prudente afastamento. Na versão de seu pensamento: 'advirta com
calma, e caso o erro triunfe, se afaste e espere'. Neste sentido o Código
profissional estabelece a prática de 'alertar sobre os riscos e
responsabilidades relativos às prescrições técnicas e as consequências
presumíveis de sua inobservância' (Art. 9º, alínea III).
A preocupação com o meio vital, como já visto, está
contemplada. Cabe ao engenheiro 'orientar o exercício das atividades
profissionais pelos preceitos do desenvolvimento sustentável; ... atender,
quando da elaboração de projetos, execução de obras ou criação de
novos produtos, aos princípios e recomendações de conservação de
energia e de minimização dos impactos ambientais; ... considerar em
todos os planos, projetos e serviços as diretrizes e disposições
concernentes à preservação e ao desenvolvimento dos patrimônios
sócio-cultural e ambiental.' (Art. 9º, alínea V).
261
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Análise do código de ética. CONFEA
É expressamente proibida a discriminação bem como o uso de
má-fé - isto é, fazer supor uma convicção na verdade falsa, quanto à
adequação ou correção - na prestação de orientação, proposta, prescrição
técnica ou qualquer ato profissional que possa resultar em dano às
pessoas ou a seus bens patrimoniais (Art. 10º, alínea I).
É proibido 'aceitar trabalho, contrato, emprego, função ou tarefa
para os quais não tenha efetiva qualificação' (Art. 10º, alínea II).
Interessante, no entanto observar, que cada atividade profissional
específica, por suas características particulares, exigirá um certo grau de
esforço visando a qualificação adicional. Todo o acréscimo solicitado na
quantidade e na qualidade das tarefas realizadas, serve de incentivo à
angariação dos poderes específicos para realizá-las. Cabe neste caso e
sempre, o bom senso na avaliação não só das possibilidades que cada um
já é portador, mas também de quais outras será capaz de desenvolver no
nível e no tempo solicitados, bem como a disponibilidade ou não de
outros tão ou mais adequados do que o profissional em questão para a
execução da tarefa cuja realização se mostra necessária.
Igualmente se enquadra expressamente no Código de Ética dos
Engenheiros brasileiros 'omitir ou ocultar fato de seu conhecimento que
transgrida a ética profissional (Art. 10º, alínea II).
A corrupção ativa ou passiva é claramente prevista. Veda-se o uso
'de artifícios ou expedientes enganosos para a obtenção de vantagens
indevidas, ganhos marginais ou conquista de contratos'
O zelo pelos colaboradores na atividade laboral é enfatizado. São
infrações éticas impedir seu acesso a promoções legítimas, o seu
desenvolvimento profissional, o descuido com as medidas de segurança e
de saúde e a imposição de ritmo de trabalho excessivo, pressão
psicológica e assédio moral (Art. 10º, alínea III).
Cabe lembrar aqui que a previsão de infração ética não elimina,
mas sim na verdade, é somada ao juízo da lei. Uma eventual suave
medida de um Conselho Profissional, não diminui o rigor legal.
Não é considerada legítima a interferência não solicitada à
atividade de outro profissional, como também a expressão de
262
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Análise do código de ética. CONFEA
discriminação ou preconceito sobre ele, o atentado a sua liberdade e a
seus direitos (Art. 10º, alínea IV).
Em contraponto ao disposto no Art. 9º, alínea V, se expressa de
modo proibitivo a prestação com má-fé de 'orientação, proposta,
prescrição técnica ou qualquer ato profissional que possa resultar em
dano ao ambiente natural, à saúde humana ou ao patrimônio cultural'
(Art. 10º, alínea V).
O capítulo sétimo, artigo 12, enumera direitos individuais
inerentes, reconhecidos e universais. São considerados necessários ao
adequado exercício profissional. A violação de tais disposições
eventualmente pode mover o Conselho Federal de Engenharia a tomar
medidas ativas cabíveis. Dentre eles citamos:
Liberdade de escolha de especialização.
Liberdade de escolha de métodos, procedimentos e formas de
expressão.
Provimento de meios e condições de trabalho dignos, eficazes e
seguros.
À recusa ou interrupção de trabalho, contrato, emprego, função
ou tarefa quando julgar incompatível com sua titulação, capacidade ou
dignidade pessoais.
À proteção da propriedade intelectual sobre sua criação.
À competição honesta no mercado de trabalho.
À propriedade de seu acervo técnico profissional.
Os dois artigos finais, tratam o primeiro da declaração da violação
do presente código como infração ética e o segundo, da tipificação da
infração ética para efeitos de instauração de processo disciplinar.
Cabe ao finalizar o presente capítulo, um elogio respeitoso à
capacidade e visão da comissão que elaborou o presente código de ética
e de moral. Sua primeira parte é fundamentalmente consequencialista,
visando o que há de mais fundamental na ética, que é o se buscar a
realização do bem. A segunda se subdivide em três orientações. A
primeira estabelecendo obrigações que reforçam o já disposto pela
abordagem teleológica. A segunda fixando proibições à violação ao
263
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Análise do código de ética. CONFEA
estabelecido anteriormente. E a terceira garantindo privilégios adequados
àqueles que prestam serviços de tamanha relevância e responsabilidade
pelo desenvolvimento do bem comum.
264
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Análise do código de ética. CFQ
22
Análise do código de ética.
CFQ
As atribuições dos profissionais da área da Química estão
legalmente estabelecidas e em vigor pelo Decreto No 85.877, de 07 de
abril de 1981. No Brasil o Engenheiro Químico é considerado um
profissional desta área, conforme o artigo terceiro deste decreto. Em
conformidade com o artigo oitavo, compete ao Conselho Federal de
Química regulamentar a profissão.
Um Engenheiro Químico, por opção, pode registrar-se também
no Conselho Federal de Engenharia, porém não há obrigatoriedade neste
sentido. A obrigatoriedade restringe-se a um único Conselho de Classe.
Quanto ao Código de Ética (Moral) dos Profissionais da Química,
o Conselho Federal de Química, no uso de suas prerrogativas legais
elaborou a Resolução 927/70 de 11/11/1970 e a 9593/2000 de
13/07/2000, ambas vigentes. Tal material pode ser encontrado na
íntegra e de forma literal nos anexos. Desta forma tomamos a liberdade
aqui neste capítulo de analisar apenas uma parte do mesmo.
O presente Código, analogamente a outros se subdivide em duas
partes. A primeira, seguindo uma linha consequencialista e portanto,
teleológica. A segunda, estabelecendo obrigações e assim deontológica.
O primeiro item de conceituação geral segue o princípio básico da Ética
que é o de fazer o bem ao outro, direcionado pela concepção de seus
autores, àquela parte da vida dos indivíduos enquanto exercendo
atividades produtivas na área da Química. O restante apresenta listas de
proibições e permissões; enumerando o que se deveria ou não fazer.
O profissional nesta norma é caracterizado como aquele que
serve à coletividade de modo fiel e honesto, e dela é um membro agente
do progresso e do bem. A palavra servir tem uma dimensão muito
valiosa. O profissional, etimologicamente aquele que professa uma
determinada fé, não é considerado um explorador do meio onde se
insere, mas sim um colaborador ativo na disseminação do bem comum.
265
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Análise do código de ética. CFQ
A Química é considerada como facilitadora do progresso da
humanidade, operando em prol do sistemático usufruto e benefício do
homem. O químico é um agente da coletividade que recebe desta o aval
para atuar nesta área do conhecimento humano. Considera-se que tal
fato exija uma 'exata compreensão de sua responsabilidade, defendendo
os interesses que lhe são confiados' e 'atento aos direitos da coletividade
...'.
A posse de certos privilégios 'exige, com maior razão para o
exercício do seu mister, uma conduta moral e ética que satisfaça ao mais
alto padrão de dignidade, equilíbrio e consciência, como indivíduo e
como integrante do grupo profissional'.
O Código o exorta a agir como profissional e como indivíduo
com equilíbrio e consciência e a considerar seus próximos como
semelhantes a si mesmo. Desta forma a diretriz implícita é a de fazer o
bem ao outro como se este outro fosse ele mesmo. Seguramente a busca
por orientar-se por tal princípio geral torna altamente provável o
diagnóstico das melhores alternativas éticas nos inúmeros dilemas do
cotidiano.
Já na área dos deveres há a exortação do 'proceder com dignidade
e distinção' e a de 'ajudar a coletividade na compreensão justa dos
assuntos técnicos de interesse público'. (II.I) Eventualmente podemos
observar nos canais de comunicação populares a difusão de informação
falsa ou altamente parcial com fins de com isto auferir vantagens
questionáveis. Todos os organismos superiores do planeta convivem
com bilhões de microorganismos dentro e fora de si. O que nos mantém
saudáveis essencialmente não é a esterilidade do meio e sim o sistema de
defesa de cada um de nós. Produtos industriais semiprocessados são
tecnicamente não naturais; simplesmente sujos e repletos de impurezas
inclusive as oriundas do próprio processamento parcial. Produtos de
origem vegetal naturalmente não apresentam componentes
característicos daqueles de origem animal e vice-versa. A alegação de um
fato tal como este, especificado para um determinado produto ou marca
é uma informação parcial e tendenciosa. Gordura hidrogenada é
alardeada como benéfica em alguns produtos e como maléfica em
266
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Análise do código de ética. CFQ
outros. Fatos científicos sobejamente conhecidos, volta e meia surgem
como grandes e inéditas descobertas nacionais. Nestes exemplos e em
inúmeros outros casos de desinformação, cabe a reflexão de que as
responsabilidades éticas de um profissional não se restringem à sua ação
direta, mas também aos resultados que suas ações possam provocar.
Colaborar com a diminuição da ignorância é uma meritória
atitude pessoal. Por outro lado há exemplos de profissionais que tentam
e por vezes conseguem prestígio e lucro através da manipulação de
informações de caráter técnico e sua difusão ao público leigo.
A prudência é considerada uma das mais importantes virtudes
aristotélicas. Neste sentido o presente código conclama o agente de
transformação a 'examinar criteriosamente sua possibilidade de
desempenho satisfatório de cargo ou função que pleiteie ou aceite'. Tal
recomendação exige reflexões profundas. Como ilustração, a filosofia
oriunda de Pitágoras argumenta que o poder se une à necessidade. Ou
seja, em condições normais terminamos por obter as habilidades que
uma determinada conjuntura se nos impõe. Por outro lado a Escola
Pitagórica recomenda que não se tente fazer o que não se sabe e que
antes se efetue os estudos necessários para desenvolver as habilidades
necessárias. A resposta de tal paradoxo e de todos os outros, passa pelo
equilíbrio e pela temperança aristotélica.
'O profissional da Química não deve aceitar interferência na
atividade de colega, sem antes preveni-lo' (II.II) Ou em outras palavras,
executar uma tarefa a cargo de outro colega, a revelia deste. Consiste em
desrespeito ao profissional e ao indivíduo. Indica deslealdade e falta de
solidariedade.
'O profissional da Química não deve usar sua posição para coagir
a opinião de colega ou de subordinado.' (II.II) Como já visto de modo
geral, qualquer coação é um desrespeito à dimensão de nobreza do ser
humano enquanto indivíduo. Linhas consistentes do pensamento
colocam a ética no campo da 'doxa'; da opinião. Neste sentido forçar um
juízo crítico é atentar contra as bases de valor individuais. É colocar o
profissional frente a um difícil dilema de se corromper ou se afastar.
267
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Análise do código de ética. CFQ
'O profissional da Química não deve cometer, nem contribuir
para que se cometa injustiça contra colega ou subordinado' bem como é
procedimento indevido 'efetuar o acobertamento profissional ou aceitar
qualquer forma que o permita'. (II.II) A preservação e o respeito ao
campo onde cada um atua é uma proposta adequada e justa do ponto de
vista ético. O progresso profissional dos colegas naturalmente promove
a abertura de novos espaços de atuação. Por sua vez a ideia de não
acobertamento expressa no código incorpora também as infrações à ética
das quais se tenha conhecimento.
A alegação de qualificação indevida a si ou a outrem prevista no
presente dispositivo legal, consiste simplesmente em fraude, engano,
mentira e falso testemunho. É uma proibição moral e legal quase que
universal.
O profissional não deve 'usufruir concepção ou estudo alheios
sem fazer referência ao autor' ou 'usufruir planos ou projetos de outrem,
sem autorização'. (II.II) Se por um lado, em alguns casos, a referência de
todos os colaboradores é algo extraordinariamente difícil tendo em vista
que o conhecimento humano é uma construção contínua que se perde
no tempo, em outras circunstâncias específicas a omissão do autor ou
uso de trabalho sem autorização é fortemente censurável do ponto de
vista ético. Uma usurpação; um furto que pode vir a trazer inúmeras
consequências inadequadas.
O profissional não deve 'procurar atingir qualquer posição agindo
deslealmente', por exemplo, procurando denegrir o colega de profissão.
Diminuir um colega frequentemente representará um comprometimento
da imagem da própria profissão e de todos os que a exercem.
'É vedado atividade profissional em empresa sujeita à fiscalização
por parte do órgão técnico oficial, junto ao qual o profissional esteja em
efetivo exercício remunerado.' (II.III.2) Ou seja, um prestador de
serviços não pode ser ao mesmo tempo o fiscalizador e o fiscalizado. Tal
princípio se estende ao binômio contratante e contratado, bem como a
outros de mesma natureza. Tal ocorrência caracteriza o que se conhece
pela expressão 'conflito de interesse'. Mesmo que um determinado
conflito não seja caracterizado como infração à ética é procedimento
268
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Análise do código de ética. CFQ
ético, sempre declará-lo expressamente em cada situação. Deste modo,
por exemplo, caso um técnico efetue uma palestra sobre as vantagens de
um determinado produto, cujo consumo lhe trará benefícios pessoais é
adequado em termos comportamentais, que tal fato seja expresso
claramente na mesma ocasião.
O profissional 'não deve prevalecer-se de sua condição de
representante de firma fornecedora ou consumidora, para obter serviço
profissional', como também 'não deve prevalecer-se de sua posição junto
ao contratante de seus serviços para forçá-lo a adquirir produtos de
empresa com que possua ligação comercial.' (II.III.2)
O profissional 'deve exigir de seu contratante o cumprimento de
suas recomendações técnicas, mormente quando estas, envolverem
problemas de segurança, saúde ou defesa da economia popular.' (II.III.2)
Certamente muitos exemplos podem ser coletados da história onde esta
disposição não foi seguida. Nestes casos a conduta viola todos os
princípios éticos fundamentais. O profissional coloca seu interesse
menor e egoísta de, por exemplo, manter um emprego, acima da
sobrevivência de uma coletividade. O profissional da química não é
responsável apenas por seus atos diretos. Como uma empresa da área da
química só pode atuar graças a presença de um profissional da química
devidamente credenciado, este se responsabiliza eticamente ao menos,
pelas ações que sua presença permite ser realizadas.
A concorrência é eticamente limitada: o colega não deve oferecer
serviço idêntico por remuneração inferior. (II.III.4)
O prestador de serviço deve 'informar ao seu contratante
qualquer ligação ou interesse comercial que possua e que possa influir no
serviço que presta' como também 'não deve aceitar, de terceiros,
comissão, desconto ou outra vantagem, direta ou indireta, relacionada
com a atividade que está prestando ao seu contratante'. (II.III.5)
O profissional, como cidadão ou técnico, não deve 'recusar-se a
opinar em matéria de sua especialidade, quando se tratar de assunto de
interesse da coletividade' ou 'criticar, em forma injuriosa, qualquer outro
profissional.' (II.III.6)
269
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Análise do código de ética. CFQ
As sanções aplicáveis no caso de infração ética são mencionadas
no item quarto da presente resolução e melhor definidas na Resolução
Ordinária n.º 9.593 de 13 de julho de 2000. Interessante observar que as
leis de um país, representam normalmente o que há de mais essencial da
sua moralidade. Desta forma, as sanções do presente código de ética,
podem ser consideradas leves, pois desrespeitos graves da moralidade, já
se encontram previstos no código penal.
Contra as infrações, os Conselhos Regionais de Química, ou o
Conselho Federal de Química, pode aplicar advertência por escrito,
confidencial ou pública; suspensão do exercício profissional, por
períodos variáveis de um mês a um ano, de acordo com a extensão da
falta, ressalvada a ação da Justiça Pública. (II)
Dentre as infrações, podemos enfatizar a de 'concorrer com seus
conhecimentos científicos e/ou tecnológicos para a prática de crimes em
atentado contra a pátria, a ordem social ou a saúde pública'. (III)
Os processos de infração ao Código de Ética serão instaurados a
partir de denúncias, por escrito, feitas por qualquer pessoa física ou
jurídica. (V)
Como já mencionado, a íntegra do disposto nas duas resoluções
acima comentadas pode ser encontrada nos anexos. Cabe ao profissional
da química lê-las e tomar ciência de todo o seu conteúdo, inclusive
desvinculado da hermenêutica particular aqui empregada.
Salvo melhor entendimento, podemos afirmar que a parte
teleológica de um determinado código aponta condutas eticamente
desejáveis e adequadas que podem ser alcançadas e diagnosticadas por
consciências saudáveis. A parte deontológica a qual estabelece deveres e
obrigações, procura preservar ou obstar de modo claro e objetivo, um
conjunto mínimo de procedimentos sugeridos por um momento
histórico ou ambiental específicos.
270
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ampliação dos paradigmas da ética profissional
23
Ampliação dos paradigmas
da ética profissional
Podemos classificar as condutas em dolosas e culposas, seguindo
linha análoga ao de códigos penais, quando tais códigos caracterizam os
atos criminosos.
A conduta dolosa seria aquela voluntária, na qual o agente
pretende o resultado danoso. O objetivo é o de intencionalmente
ocasionar dano. A conduta culposa pode ser entendida pela ação
voluntária que não pretende o dano. Porém o dano que porventura
venha a ocorrer seja claramente previsível.
Ao ingressar-se no campo da caracterização de condutas, com
base em previsibilidades, é de interesse ter-se em mente a máxima que
nos atesta que o único modo seguro de não cometer erros é o de nada
fazer. Ainda de que nada podemos afirmar com segurança quanto ao
futuro. Assim quando decidimos dar uma caminhada, sempre haverá a
possibilidade em algum grau previsível, de cairmos. Quando dirigimos
um automóvel sempre haverá a possibilidade de nos envolvermos em
um acidente. Num trabalho de engenharia, sempre há tal possibilidade.
Quando, como professores, ensinamos, sempre há a previsibilidade que
algo que transmitimos seja errôneo e que o que ensinamos de correto
seja empregado para causar dano.
Neste sentido, um termo mais objetivo do que 'previsibilidade',
seria a de possibilidades ou a de probabilidade. Ou seja, a que as nossas
condutas frente ao nosso entendimento sejam capazes de ocasionar um
maior bem, ou então sejam neutras, e não um mal. A qualificação de bem
já foi efetuada em capítulos anteriores. Por outro lado, sendo os
engenheiros, o ser humano e os seres viventes em geral, agentes de
transformação, dificilmente qualquer uma de suas ações pode ser
considerada como neutra. O crescimento mesmo de um pequeno
arbusto altera a paisagem e a paisagem se mantém harmônica ao longo
do processo de crescimento.
271
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ampliação dos paradigmas da ética profissional
Ainda em analogia aos códigos penais, uma conduta culposa é o
resultado da imprudência, da negligência ou da imperícia. A prudência,
como vimos, é para Aristóteles uma das mais importantes virtudes éticas.
Pitágoras recomenda: 'Pensa antes de falar; pensa antes de agir.'
Entende-se imprudência como um comportamento de precipitação; de
falta de cuidados. Agir de forma imponderada, impensada. Podemos
considerar exemplos de imprudência, o dar um parecer técnico ou
executar um trabalho de engenharia sem estudo aprofundado do tema.
Neste sentido a formação de médicos merece análise. Os estudantes
desta área de conhecimento passam no Brasil, seis anos estudando o
corpo humano, sendo que os últimos um ou dois anos atuando na
prática no interior de hospitais escolas. Após isto passam mais três ou
quatro anos em especialização em um setor específico, em contato
prático com a profissão e sob a supervisão de outros médicos altamente
qualificados, com alta experiência no exercício da medicina. Só então,
após cerca de dez anos de estudos, seis dos quais com vivência prática da
profissão, e sob supervisão, é que passam a atuar de forma autônoma em
atividades especializadas. No modelo brasileiro de ensino de engenharia,
a experiência prática dos estudantes se restringe a estágios e o corpo
docente apesar de costumeiramente com alta qualificação teórica para a
realização de pesquisas, por força de legislação, tem baixa experiência na
aplicação do conhecimento técnico. Cabe, portanto, ao engenheiro,
realizar tarefas de maior ou menor complexidade conforme sua
formação, lembrando que a formação de um tal profissional não se
encontra concluída ao fim de sua vida acadêmica. Um curso de
graduação em engenharia não pretende e não pode formar profissionais
com qualificação plena e satisfatória em todas as suas subáreas e
especializações.
Define-se imperícia como a falta de habilidade específica para a
realização de uma atividade. A causa de uma conduta inapropriada por
imperícia é em primeiro lugar devida ao fato que o indivíduo age. Em
segundo lugar a ignorância. Quando um bebê começa a caminhar ele é
um não perito em caminhadas e muito provavelmente levará alguns
tombos. Os tombos diminuem à medida que a criança caminha e ganha
272
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ampliação dos paradigmas da ética profissional
experiência nesta atividade. Também serão em número menor se houver
o auxílio de caminhantes experimentados que o auxilie nos primeiros
tempos. Desta forma, soma-se ao aspecto positivo da ação, o empenho
pela redução da ignorância, ao aprendizado e à aquisição de
conhecimento e a conveniência do auxílio inicial dos mais
experimentados.
Negligência designa falta de cuidado, ausência de reflexão ou de
empenho. Pode também englobar os conceitos de inação e passividade.
Teríamos como exemplo a de um engenheiro que se mantém associado
passivamente a uma organização causadora de dano. Dela seria cúmplice,
mesmo que eventualmente não do ponto de vista penal e estaria a
assumir, a princípio uma conduta que poderia ser considerada eticamente
negligente. A falha na conduta do indivíduo também pode se assentar
quando o mesmo não evita o dano, apesar de capaz e em condições de
fazê-lo.
Imprudência, negligência e imperícia ficam englobadas facilmente
dentro do conceito socrático de ignorância, o motivo fundamental de
todos os tropeços humanos.
O avanço científico, como todos nós podemos observar, tem sido
enorme nas últimas décadas. Graças a isto morremos mais tarde,
adoecemos menos, nos recuperamos mais facilmente das enfermidades
ou neutralizamos em grande medida seus efeitos prejudiciais. Desta
forma o planeta apresenta uma população jamais registrada na história
humana. Alimentamo-nos mais facilmente e todas as demais
necessidades básicas que a sociologia cataloga, são atendidas numa
medida igualmente jamais vista. Em termos materiais nunca estivemos
tão bem em termos de coletividade. Boa parte de nosso material
bibliográfico técnico é rapidamente considerado como obsoleto e
substituído por outros.
O desenvolvimento de meios físicos cresce quem sabe numa
escala exponencial enquanto que o desenvolvimento comportamental se
dá muito lentamente, pois a evolução de nossos universos interiores se
dá da mesma forma, de modo lento. Parcela significativa das reflexões
273
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ampliação dos paradigmas da ética profissional
éticas, muitas delas de origem milenar, realizadas pelos expoentes de
nossa espécie, permanecem plenamente atuais.
Empregando uma visão de mundo kantiana, parcela muito
significativa da população encontra-se num estado de 'menoridade'. Pela
visão junguiana, numa condição dissociada e 'não individualizada'. Em
consequência, há muito ainda a fazer no campo da conscientização de
mesmo os aspectos básicos da ética, que necessitam ser entendidos e
internalizados por muitos.
Por outro lado, mesmo reconhecendo a necessidade da
disseminação dos conceitos morais mais simples e superficiais, as
circunstâncias nas quais estamos inseridos, apontam fortemente no
sentido que os conceitos de boa conduta devam ser ampliados, se
possível, de modo generalizado e principalmente, sobre aqueles
indivíduos detentores de um maior poder de alteração do meio vital. Nas
últimas décadas, a ciência convencional empobrecida dos valores éticos
mais profundos, foi responsável por muitos milhões de mortes e chegou
mesmo a colocar a existência da própria humanidade em risco. Diz-se
que saber é poder. Pode ser encarado como urgente, portanto, que os
detentores de maior conhecimento técnico sejam também os portadores
de uma visão mais ampla e consistente da ética. Com os meios que a
ciência dispõe na atualidade, um avanço comportamental possibilitaria a
instauração num curto período de tempo, de condições paradisíacas
sobre a Terra.
A meu ver, a conjuntura atual exige uma ampliação dos
paradigmas; dos modos de compreensão e das abordagens; da ética
convencional.
(*) Tal área de conhecimento, a princípio, necessita ampliar os
seus meios de comprovação e deste modo os de conscientização e
motivação para o aperfeiçoamento das condutas.
(*) Ainda a ética teleológica necessita através de seus princípios
fundamentais, atuar mais amplamente nas condutas específicas dos
274
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ampliação dos paradigmas da ética profissional
homens direta ou indiretamente responsáveis pela geração e aplicação do
conhecimento, inclusive a dos engenheiros de todas as modalidades.
Na busca do homem para compreender tudo, tal como tudo é, o
'númeno' de Kant, podemos considerar que temos à nossa disposição,
três ferramentas indispensáveis e complementares.
Uma delas a experimentação. A observação dos fatos, do
'fenômeno' kantiano. Pelas palavras de Aristóteles já citadas em outro
capítulo, 'pela evidência das coisas sensíveis, podemos compreender as
invisíveis.' E a ética, envolvida com as paixões e motivações humanas,
claramente trata de tais questões.
Outro instrumento é a lógica e a razão. Por outro lado, já os
sofistas gregos, até mesmo pela observação de reflexões filosóficas
anteriores, efetuadas por outros possantes pensadores, concluíram a
respeito dos limites, frequentemente ignorados da racionalidade humana.
Se por um lado a experimentação pressupõe a validade de generalização,
toda a racionalidade é dependente de premissas fundamentais.
A terceira ferramenta que o ser humano dispõe em sua incansável
busca de se aproximar da verdade, pode-se considerar associada aos
padrões de Jung constata estarem presentes nas esferas inconscientes da
mente humana, padrões estes um patrimônio coletivo e em certa medida
comum a toda a vida no planeta. A tal instrumento, por falta de um
melhor termo, passaremos a denominar por 'inspiração'.
Estas três abordagens, na antiguidade, e em civilizações de longa
tradição, eram empregadas de forma integrada. O mundo das ideias, tal
termo sendo aqui empregado de modo amplo, interagia a colaborava
com as conclusões da lógica e com o entendimento daquilo que se podia
observar.
No entanto os acontecimentos históricos observáveis na Europa,
a partir do terceiro século, que terminaram por influenciar todo o
desenvolvimento humano no presente, ou destruíram ou ao menos
fragmentaram fortemente tal integração. Uma muito particular
concepção, na verdade contrária à originalmente universal e
multifacetada visão cristã, paralisou a busca da verdade pela
275
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ampliação dos paradigmas da ética profissional
experimentação e manietou a exploração da realidade pela razão. O
conhecimento técnico, aquilo que hoje se entende por ciência estagnou
ou retroagiu. O conhecimento proveniente da lógica, que denominamos
hoje por filosofia, também retroagiu e em grande medida foi empregado,
graças às limitações inerentes já comentadas, como meio de corroborar
uma muito particular visão inspirada ou ainda pseudoinspirada.
O diagnóstico das consequências indesejáveis do processo
histórico tem responsabilizado o emprego daquilo contido em campos
supra racionais na busca objetiva da melhor compreensão do 'númeno'.
No entanto a causa objetiva pode ser encarada como sendo o emprego
exclusivo de tal ferramenta bem como a impregnação da mesma com
superficialidades supersticiosas e o fanatismo. Ou seja, o problema não
reside na 'inspiração' em si, mas sim no desvirtuamento empregado em
seu uso.
Roger Bacon (1214-1294) pode ser considerado um marco na
retomada da recuperação e ampliação do conhecimento humano,
recolocando o fruto da experimentação como relevante à compreensão.
É um nome respeitável na história da ciência, tal como hoje é
compreendida.
Immanuel Kant (1724-1804) defendeu com clareza que a
especulação filosófica só chega à comprovação, se associada à indução.
Segundo tal notável filósofo, a reflexão sem a constatação objetiva fica
sem ponto de apoio e desta forma em grande parte sujeita à opinião.
Mais recentemente, os estudos inter-relacionados das
manifestações psíquicas, religiosas e supranormais, realizados em
particular por Carl Jung (1875-1961) e outros, recoloca tal área, no status
de ferramental humano comprovável, autêntico e veraz.
No entanto ainda no presente, em vista do muito lento
desenvolvimento da humanidade, o conhecimento e o ser humano que o
detém está fortemente fragmentado. O que poderia ser considerado um
desastre histórico ao longo da assim chamada 'era das trevas', encoraja
ainda muitos a manterem tal divisão. Os acadêmicos são rotulados (e
mesmo se enxergam) ou filósofos ou cientistas, e o mundo 'inspirado' e
intuitivo é concebido como uma esfera independente destas outras duas.
276
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ampliação dos paradigmas da ética profissional
Por outro lado, nas últimas décadas, homens de ciência tem
divulgado análises metafísicas a partir dos conhecimentos físicos. Os
cientistas prosseguirão a analisar realidades impalpáveis frente às
evidências concretas. Os filósofos cada vez com maior frequência se
valerão das experiências empíricas para comprovar suas conclusões.
Como pudemos ver neste livro, inúmeros pensadores da antiguidade e da
atualidade, tais como Aristóteles ou Kant, demonstram que a análise
lógica é indissociável do indutivismo em qualquer área na qual se
pretenda aproximar da verdade. A comprovação experimental necessita
cada vez mais ser empregada para confirmar as conclusões que a lógica
oferece às questões metafísicas, dentre elas às éticas. O estudo da ética
necessita ampliar suas fronteiras e integrar-se às demais áreas do
conhecimento humano, cuja notável compartimentação, não se mostra
mais adequada às necessidades da sociedade pós-moderna. Discussões
quanto a profundas modificações no sistema educacional, naturalmente
vinculadas a uma nova concepção filosófica, tanto a nível formal, quanto
conceitual, podem facilmente ser encontradas através dos meios de
informação atualmente disponíveis.
Como inserção a tal contexto, a tônica da presente obra é o
'Ethos' tal como entendido no mundo grego antigo. Um estudo
abrangente e integrado do ser humano e a origem do termo Ética atual.
A Ética necessita ampliar os seus meios de comprovação e deste modo
os de conscientização e motivação para o aperfeiçoamento das condutas.
A segunda meta é a de que a ética teleológica atue através de seus
princípios fundamentais, de modo mais amplo, nas condutas específicas
dos homens direta ou indiretamente responsáveis pela geração e
aplicação do conhecimento, inclusive a dos engenheiros de todas as
modalidades.
O respeitável filósofo contemporâneo Hans Jonas propõe a
diretriz: 'Aja de modo a que os efeitos da tua ação sejam compatíveis
com a permanência de uma autêntica vida humana sobre a Terra.'
A nossa existência absolutamente não é uma questão menor. O
avanço do conhecimento proporcionou numerosos ganhos ao bem estar
277
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Ampliação dos paradigmas da ética profissional
humano. No entanto tal patrimônio é neutro. Pode ser empregado a
favor ou em detrimento da vida e os exemplos da história são
inumeráveis neste sentido. Os danos da ciência contra a vida podem
ainda ser muito mais graves e cada vez mais um único agente devido aos
meios proporcionados, pode vir a extingui-la em quase a sua totalidade.
Se o desenvolvimento científico foi obstaculizado no passado por
interesses de uma vertente política e religiosa particular, cabe no presente
e no futuro sua avaliação por razões éticas universais. Julgo de grande
conveniência que os profissionais da engenharia passem a avaliar com
maior cuidado e eticamente as consequências de suas criações bem como
das realidades que através de seus esforços, colaboram em manter.
Sempre será cabível a reflexão de que as responsabilidades éticas
de um profissional não se restringem à sua ação direta, mas também aos
resultados que suas ações possam provocar.
Surge deste modo a proposta do campo de estudo da Etigenia. É
a denominação de uma área de conhecimento de origem multidisciplinar
e integrada, na qual pela análise do Ethos - costumes e comportamentos
intrínsicos à natureza humana - se busca avaliar as melhores soluções
éticas possíveis, para a vida do Engenheiro de todas as modalidades,
enquanto ser e enquanto profissional, facilitando pelo esclarecimento
racional, as suas aplicações no cotidiano. A Etigenia não está restrita à
Filosofia tal como é entendida no presente. Busca conhecimentos úteis
ao aperfeiçoamento ético em todos os ramos do saber humano.
278
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Síntese
Síntese
O estudo da ética pretende diagnosticar os comportamentos
adequados ao ser humano. As reflexões éticas seguem duas grandes
linhas: A Ética Teleológica, onde os comportamentos visam a obtenção
de boas consequências e a Ética Deontológica, que impõe o
cumprimento de deveres.
As principais escolas de ética ortodoxa da atualidade são: A Ética
Aristotélica, com base em virtudes; a Ética Utilitarista, de maximização
da felicidade; e a Ética Kantiana, com base na Boa vontade. As duas
primeiras são teleológicas e a terceira deontológica.
Na Ética Aristotélica a consequência visada é o Bem e a
Felicidade de quem a pratica. Na Ética Utilitarista a consequência visada
é a maximização da Felicidade e do Bem. A Ética Kantiana, surgida no
Iluminismo, pretende o cumprimento de deveres impostos pela Boa
Vontade (vontade boa) residente na consciência do próprio indivíduo
que age. Desta forma o princípio; a diretriz que sustenta toda a ética é o
de Fazer o Bem. O diagnóstico do que é o bem em cada caso faz parte
do campo da Metaética (do que está além do comportamento em si). De
qualquer modo, pelo que vimos, os grandes pensadores da área
concluem que uma pessoa ética é aquela que se pode adjetivar como boa
ou bondosa e sua característica distintiva é a manifestação de bondade.
Tal conclusão contradiz pelo menos em parte os preconceitos
populares sobre o que seja ético. Esta confusão se deve ao fato de que a
ética pode ser classificada em duas categorias: A Ética propriamente dita,
baseada na realização do Bem, e a Moral, variável com o povo estudado,
com a época analisada, etc. A situação ideal é quando os
comportamentos éticos coincidem com os comportamentos morais.
As pessoas que seguem as convenções tem como prêmio, ao
menos, uma posição neutra frente ao meio social no qual estão inseridas.
Nenhum de nós é capaz de viver ao largo da maioria das regras
da sociedade onde estamos e mesmo se pudéssemos tal atitude se
279
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Síntese
mostraria fortemente inadequada ou pelos menos arriscada. As pessoas
éticas (boas) tendem a ser queridas, aceitas, felizes e transformadoras do
meio onde se inserem.
A conclusão de Aristóteles, em suas reflexões e observações, e de
outros tantos é a de que a conduta adequada leva à Felicidade, à
Realização e ao Desenvolvimento Pessoal e a conduta inadequada leva à
infelicidade.
Na ética, portanto, há um triângulo de conceitos fortemente
interligado: Pessoas que manifestam Bondade são Éticas e pessoas Éticas
são Felizes.
Cabe salientar que por nascimento e ambiente muitos enfrentam
condições fortemente adversas ou favoráveis. Boa parte dos seres
humanos encontra na existência uma sucessão de ciclos favoráveis e
desfavoráveis.
No dizer do pensador religioso Francisco Xavier: "Aguarda as
surpresas do tempo, agindo sem precipitação. Se cada noite é nova
sombra, cada dia é nova Luz". Pelo dito popular, 'Após a tempestade
vem a bonança.'
Nas situações de crise sempre é conveniente ponderar que todos
nós tendemos a nos considerar bons o suficiente, mas que
provavelmente não somos tão bons quanto pensamos, para sermos tão
felizes quanto almejamos.
Todas as situações de crise são oportunidades de aprendizado.
Também Aristóteles recomenda que ao passarmos por momentos
infelizes é recomendável tentarmos diagnosticar dentro de nossos
próprios comportamentos, o porquê. Neste sentido a recomendação
pitagórica de um exame dos acontecimentos do dia se mostra útil.
Se a causa de uma condição de infelicidade é uma conduta
inadequada ou uma interpretação inadequada desta conduta, em tal
condição é oportuno manter e melhorar tanto a conduta quanto a sua
interpretação. Se em momentos infelizes se fizer o bem possivelmente a
situação melhorará. Caso ajamos pior, a tendência é a de que a situação
piore.
280
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Síntese
Podemos considerar que em nossa existência estamos a percorrer
um caminho rodeado por espinheiros. Alguns percorrem tal caminho a
noite, com a ajuda de vagalumes, estrelas e o luar com suas sombras.
Nesta jornada cabe, portanto, seguir o grande conselho de
Aristóteles, 'Temperança', detalhado por Pitágoras cerca de 300 anos
antes: 'busca em tudo o meio justo e bom'. Seguindo tal conselho
tentamos nos manter no meio da estrada, fugindo dos espinhos que a
ladeiam.
Cabe também seguir outro conceito aristotélico: 'Prudência'. Na
descrição de Pitágoras: 'pensa antes de falar; pensa antes de agir'. Com tal
conselho, seguiremos com cuidado pela estrada. Neste sentido é sempre
oportuno avaliar o tamanho do passo que se pretende dar. Uma passada
mais ampla acarreta num maior risco de dor.
Por fim é importante lembrar que nenhum grande ser da
humanidade agrediu, traiu ou negou a si mesmo. Desta forma, se o
objetivo do comportamento adequado é o Bem de cada um, não há
sentido em agirmos em prol do nosso mal. E nesta conjuntura temos o
Auto-respeito e o conselho também de Pitágoras: 'mais que tudo a ti
mesmo respeita'.
Pensemos por um instante o que faz com que as crianças sejam
naturalmente felizes. A resposta que encontro são os seus sonhos e mais
do que isto, viver na imaginação, tais sonhos. Viver na imaginação bons
sonhos. Não permitamos, portanto, que as circunstâncias que
enfrentemos ao longo da existência nos tirem a capacidade de sonhar
bons sonhos.
Nenhum de nós consegue propriamente viver sem um sentido
para isto. Sem uma razão para estar vivo. Tal tema já foi explorado por
pensadores que observando fatos concretos e reais concluíram que muito
frequentemente o que mantém indivíduos biologicamente vivos em
situações as mais críticas e desesperadoras é justamente a posse de algo
que lhes dê razões para viver. Algo que em certo sentido seja mais forte
do que a própria morte. Poderíamos chamar este algo de um ideal ou um
281
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Síntese
conjunto de ideais. Cultive, portanto, amigo leitor, bons ideais. Ideais que
pretendam beneficiar ao menos um outro ser vivente.
A força para superar qualquer questão de nosso mundo interior é
a vontade. Uma vontade boa governa uma realidade individual favorável
a cada um de nós. E, se porventura a nossa própria boa vontade fraqueje,
há ainda o poder pleno da confiança na boa vontade de algo que seja
maior que nós.
Existe uma solução geral para todos os problemas que um ser
humano possa se deparar em seu mundo interior e na relação deste com
o mundo exterior. Tal solução é o amor e a necessidade de sua aplicação
é tanto maior quanto mais terrível é a situação pela qual passamos.
Portanto em situações de crise são ainda mais importantes os ideais. Faça
o bem. Pretenda com suas ações fazer o bem. Fale o bem. Pretenda com
sua fala falar o bem. Ao menos pense o bem e pretenda com seus
pensamentos o bem.
Em síntese: Procure ser feliz. Procure ser bondoso. Procure ser
temperante. Procure ser prudente. Procure respeitar a si mesmo. Procure
não julgar. Procure perdoar.
Seja cada vez mais feliz !
Seu amigo,
Paul Fernand Milcent.
282
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
ADENDOS
ADENDOS
283
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Planejamento de uma disciplina de ética e engenharia
A
Planejamento de uma disciplina
de ética e engenharia
Dinâmica: A cada semana é solicitada a leitura de textos, como
atividade extraclasse. No início da aula seguinte, são realizados testes
simples. Os testes pretendem avaliar a leitura dos textos. Após a
realização dos testes e graças às leituras, é efetuada uma discussão.
Eventualmente são projetados filmes complementares e slides. A
frequência é um critério de avaliação. Ao longo do semestre o estudante
é incentivado a participar voluntariamente de atividade ética prática,
definida consensualmente pela turma. Trabalhos suplementares
igualmente fazem parte da avaliação. (Cada aula corresponde a duas
horas em classe.)
No
da
aula
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
Tema
Introdução à disciplina e apresentação do Curso.
Testes e discussão dos Capítulos 1 e 2 do livro texto.
Testes e discussão dos Capítulos 3 e 4 do livro texto.
Testes e discussão dos Capítulos 5 e 6 do livro texto.
Testes e discussão dos Capítulos 7 e 8 do livro texto.
Testes e discussão dos Capítulos 9 e 10 do livro texto.
Entrega do Estudo Dirigido da Obra 'Ética a Nicômaco' de
Aristóteles.
Testes e discussão dos Capítulos 11 e 12 do livro texto.
Testes e discussão dos Capítulos 13 e 15 do livro texto.
Testes e discussão dos Capítulos 16 e 17 do livro texto.
Testes e discussão dos Capítulos 18 e 19 do livro texto.
Teste e discussão do Capítulo 20 do livro texto.
Teste e discussão dos Capítulos 21 e 22 do livro texto.
A Ética no ambiente corporativo.
285
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Planejamento de uma disciplina de ética e engenharia
14
15
16
Seminário: Ética Empresarial.
Entrega do Trabalho 'Reflexão Dialética quanto a um Dilema
Ético.'
Teste e discussão do Capítulo 23 do livro texto.
Último dia letivo. Comentários finais, síntese
e conclusão da disciplina.
Não há previsão de exames finais nesta disciplina.
Cálculo das Médias: Frequência e Participação + Testes + Trabalhos
+ Seminários + Conceitos
Testes: Pretendem exclusivamente avaliar se o estudante realizou a
leitura prévia dos textos.
Não se avalia a correção ou incorreção dos textos ou a opinião pessoal
do estudante.
Material de Apoio: Os textos para leitura prévia e outros de apoio estão
contidos em www.paulfmilcent.net.
Trabalho I: Estudo da Obra 'Ética a Nicômaco' de Aristóteles.
Trabalho II: Reflexão Dialética quanto a um Dilema Ético.
Seminário: Estudo de Caso de Ética Empresarial.
Conceitos: A critério dos Professores da Disciplina.
Critério de Aprovação: Média maior ou igual a 7,0 e frequência.
Critério de Reprovação: Média inferior a 5,0 ou faltas.
"O essencial da Ética é fazer o Bem.' Professor Rosala Garzuze.
'Só sei que nada sei.' Sócrates.
Felicidades!
286
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CONFEA
B
Íntegra do código de ética.
CONFEA
RESOLUÇÃO Nº 1.002 , DE 26 DE NOVEMBRO DE 2002 –
CONFEA
Adota o Código de Ética Profissional da Engenharia, da Agronomia, da
Geologia, da Geografia e da Meteorologia e dá outras providências.
O CONSELHO FEDERAL DE ENGENHARIA E AGRONOMIA Confea, no uso das atribuições que lhe confere a alínea “f” do art. 27 da
Lei nº 5.194, de 24 de dezembro de 1966, e Considerando que o disposto
nos arts. 27, alínea “n”, 34, alínea “d”, 45, 46, alínea “b”, 71 e 72, obriga
a todos os profissionais do Sistema Confea/Crea a observância e
cumprimento do Código de Ética Profissional da Engenharia, da
Agronomia, da Geologia, da Geografia e da Meteorologia; Considerando
as mudanças ocorridas nas condições históricas, econômicas, sociais,
políticas e culturais da Sociedade Brasileira, que resultaram no amplo
reordenamento da economia, das organizações empresariais nos diversos
setores, do aparelho do Estado e da Sociedade Civil, condições essas que
têm contribuído para pautar a “ética” como um dos temas centrais da
vida brasileira nas últimas décadas; Considerando que um “código de
ética profissional” deve ser resultante de um pacto profissional, de um
acordo crítico coletivo em torno das condições de convivência e
relacionamento que se desenvolve entre as categorias integrantes de um
mesmo sistema profissional, visando uma conduta profissional cidadã;
Considerando a reiterada demanda dos cidadãos-profissionais que
integram o Sistema Confea/Crea, especialmente explicitada através dos
Congressos Estaduais e Nacionais de Profissionais, relacionada à revisão
do “Código de Ética Profissional do Engenheiro e do Engenheiro
Agrônomo” adotado pela Resolução nº 205, de 30 de setembro de 1971;
Considerando a deliberação do IV Congresso Nacional de Profissionais
287
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CONFEA
– IV CNP sobre o tema “Ética Profissional”, aprovada por unanimidade,
propondo a revisão do Código de Ética Profissional vigente e indicando
o Colégio de Entidades Nacionais - CDEN para elaboração do novo
texto, RESOLVE: Art. 1º Adotar o Código de Ética Profissional da
Engenharia, da Agronomia, da Geologia, da Geografia e da
Meteorologia, anexo à presente Resolução, elaborado pelas Entidades de
Classe Nacionais, através do CDEN - Colégio de Entidades Nacionais,
na forma prevista na alínea "n" do art. 27 da Lei nº 5.194, de 1966. Art.
2º O Código de Ética Profissional, adotado através desta Resolução, para
os efeitos dos arts. 27, alínea "n", 34, alínea "d", 45, 46, alínea "b", 71 e
72, da Lei nº 5.194, de 1966, obriga a todos os profissionais da
Engenharia, da Agronomia, da Geologia, da Geografia e da
Meteorologia, em todas as suas modalidades e níveis de formação. Art.
3o O Confea, no prazo de cento e oitenta dias a contar da publicação
desta, deve editar Resolução adotando novo “Manual de Procedimentos
para a condução de processo de infração ao código de Ética
Profissional”. Art. 4o Os Conselhos Federal e Regionais de Engenharia e
Agronomia, em conjunto, após a publicação desta Resolução, devem
desenvolver campanha nacional visando a ampla divulgação deste
Código de Ética Profissional, especialmente junto às entidades de classe,
instituições de ensino e profissionais em geral. Art. 5° O Código de Ética
Profissional, adotado por esta Resolução, entra em vigor à partir de 1° de
agosto de 2003. Art. 6º Fica revogada a Resolução 205, de 30 de
setembro de 1971 e demais disposições em contrário, a partir de 1º de
agosto de 2003. Brasília, 26 de novembro de 2002. Eng. Wilson Lang
Presidente Publicada no D.O.U do dia 12 DEZ 2002 - Seção 1, pág.
359/360
CONSELHO FEDERAL DE ENGENHARIA E AGRONOMIA.
...
CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL DA ENGENHARIA, DA
AGRONOMIA, DA GEOLOGIA, DA GEOGRAFIA E DA
METEOROLOGIA.
288
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CONFEA
1. PROCLAMAÇÃO
As Entidades Nacionais representativas dos profissionais da Engenharia,
da Agronomia, da Geologia, da Geografia e da Meteorologia pactuam e
proclamam o presente Código de Ética Profissional.
2. PREÂMBULO.
Art. 1º O Código de Ética Profissional enuncia os fundamentos éticos e
as condutas necessárias à boa e honesta prática das profissões da
Engenharia, da Agronomia, da Geologia, da Geografia e da Meteorologia
e relaciona direitos e deveres correlatos de seus profissionais.
Art. 2º Os preceitos deste Código de Ética Profissional têm alcance
sobre os profissionais em geral, quaisquer que sejam seus níveis de
formação, modalidades ou especializações.
Art. 3º As modalidades e especializações profissionais poderão
estabelecer, em consonância com este Código de Ética Profissional,
preceitos próprios de conduta atinentes às suas peculiaridades e
especificidades.
3. DA IDENTIDADE DAS PROFISSÕES E DOS PROFISSIONAIS
Art. 4º As profissões são caracterizadas por seus perfis próprios, pelo
saber científico e tecnológico que incorporam, pelas expressões artísticas
que utilizam e pelos resultados sociais, econômicos e ambientais do
trabalho que realizam.
Art. 5º Os profissionais são os detentores do saber especializado de suas
profissões e os sujeitos pró-ativos do desenvolvimento.
Art. 6º O objetivo das profissões e a ação dos profissionais voltam-se
para o bem-estar e o desenvolvimento do homem, em seu ambiente e
em suas diversas dimensões: como indivíduo, família, comunidade,
sociedade, nação e humanidade; nas suas raízes históricas, nas gerações
atual e futura.
289
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CONFEA
Art. 7o As entidades, instituições e conselhos integrantes da organização
profissional são igualmente permeados pelos preceitos éticos das
profissões e participantes solidários em sua permanente construção,
adoção, divulgação, preservação e aplicação.
4. DOS PRINCÍPIOS ÉTICOS.
Art. 8º A prática da profissão é fundada nos seguintes princípios éticos
aos quais o profissional deve pautar sua conduta:
Do objetivo da profissão:
I - A profissão é bem social da humanidade e o profissional é o agente
capaz de exercê-la, tendo como objetivos maiores a preservação e o
desenvolvimento harmônico do ser humano, de seu ambiente e de seus
valores;
Da natureza da profissão:
II – A profissão é bem cultural da humanidade construído
permanentemente pelos conhecimentos técnicos e científicos e pela
criação artística, manifestando-se pela prática tecnológica, colocado a
serviço da melhoria da qualidade de vida do homem;
Da honradez da profissão:
III - A profissão é alto título de honra e sua prática exige conduta
honesta, digna e cidadã;
Da eficácia profissional:
IV - A profissão realiza-se pelo cumprimento responsável e competente
dos compromissos profissionais, munindo-se de técnicas adequadas,
assegurando os resultados propostos e a qualidade satisfatória nos
serviços e produtos e observando a segurança nos seus procedimentos;
Do relacionamento profissional:
V - A profissão é praticada através do relacionamento honesto, justo e
com espírito progressista dos profissionais para com os gestores,
ordenadores, destinatários, beneficiários e colaboradores de seus
serviços, com igualdade de tratamento entre os profissionais e com
lealdade na competição;
Da intervenção profissional sobre o meio:
290
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CONFEA
VI - A profissão é exercida com base nos preceitos do desenvolvimento
sustentável na intervenção sobre os ambientes natural e construído e da
incolumidade das pessoas, de seus bens e de seus valores;
Da liberdade e segurança profissionais:
VII - A profissão é de livre exercício aos qualificados, sendo a segurança
de sua prática de interesse coletivo.
5. DOS DEVERES.
Art. 9º No exercício da profissão são deveres do profissional:
I – ante o ser humano e seus valores:
a) oferecer seu saber para o bem da humanidade;
b) harmonizar os interesses pessoais aos coletivos;
c) contribuir para a preservação da incolumidade pública;
d) divulgar os conhecimentos científicos, artísticos e tecnológicos
inerentes à profissão;
II – ante à profissão:
a) identificar-se e dedicar -se com zelo à profissão;
b) conservar e desenvolver a cultura da profissão;
c) preservar o bom conceito e o apreço social da profissão;
d) desempenhar sua profissão ou função nos limites de suas atribuições e
de sua capacidade pessoal de realização;
e) empenhar-se junto aos organismos profissionais no sentido da
consolidação da cidadania e da solidariedade profissional e da coibição
das transgressões éticas.
III - nas relações com os clientes, empregadores e colaboradores:
a) dispensar tratamento justo a terceiros, observando o princípio da
eqüidade;
b) resguardar o sigilo profissional quando do interesse de seu cliente ou
empregador, salvo em havendo a obrigação legal da divulgação ou da
informação;
c) fornecer informação certa, precisa e objetiva em publicidade e
propaganda pessoal;
d) atuar com imparcialidade e impessoalidade em atos arbitrais e
periciais;
291
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CONFEA
e) considerar o direito de escolha do destinatário dos serviços, ofertandolhe, sempre que possível, alternativas viáveis e adequadas às demandas
em suas propostas;
f) alertar sobre os riscos e responsabilidades relativos às prescrições
técnicas e as conseqüências presumíveis de sua inobservância,
g) adequar sua forma de expressão técnica às necessidades do cliente e às
normas vigentes aplicáveis;
IV - nas relações com os demais profissionais:
a) Atuar com lealdade no mercado de trabalho, observando o princípio
da igualdade de condições;
b) manter-se informado sobre as normas que regulamentam o exercício
da profissão;
c) preservar e defender os direitos profissionais;
V – Ante ao meio:
a) orientar o exercício das atividades profissionais pelos preceitos do
desenvolvimento sustentável;
b) atender, quando da elaboração de projetos, execução de obras ou
criação de novos produtos, aos princípios e recomendações de
conservação de energia e de minimização dos impactos ambientais;
c) considerar em todos os planos, projetos e serviços as diretrizes e
disposições concernentes à preservação e ao desenvolvimento dos
patrimônios sócio-cultural e ambiental.
6. DAS CONDUTAS VEDADAS.
Art. 10. No exercício da profissão, são condutas vedadas ao profissional:
I - ante ao ser humano e a seus valores:
a) descumprir voluntária e injustificadamente com os deveres do ofício;
b) usar de privilégio profissional ou faculdade decorrente de função de
forma abusiva, para fins discriminatórios ou para auferir vantagens
pessoais.
c) Prestar de má-fé orientação, proposta, prescrição técnica ou qualquer
ato profissional que possa resultar em dano às pessoas ou a seus bens
patrimoniais;
II – ante à profissão:
292
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CONFEA
a) aceitar trabalho, contrato, emprego, função ou tarefa para os quais não
tenha efetiva qualificação;
b) utilizar indevida ou abusivamente do privilégio de exclusividade de
direito profissional;
c) omitir ou ocultar fato de seu conhecimento que transgrida a ética
profissional;
III - nas relações com os clientes, empregadores e colaboradores:
a) formular proposta de salários inferiores ao mínimo profissional legal;
b) apresentar proposta de honorário s com valores vis ou extorsivos ou
desrespeitando tabelas de honorários mínimos aplicáveis;
c) usar de artifícios ou expedientes enganosos para a obtenção de
vantagens indevidas, ganhos marginais ou conquista de contratos;
d) usar de artifícios ou expedientes enganosos que impeçam o legítimo
acesso dos colaboradores às devidas promoções ou ao desenvolvimento
profissional;
e) descuidar com as medidas de segurança e saúde do trabalho sob sua
coordenação;
f) suspender serviços contratados, de forma injustificada e sem prévia
comunicação;
g) impor ritmo de trabalho excessivo ou, exercer pressão psicológica ou
assédio moral sobre os colaboradores;
IV - nas relações com os demais profissionais:
a) intervir em trabalho de outro profissional sem a devida autorização de
seu titular, salvo no exercício do dever legal;
b) referir-se preconceituosamente a outro profissional ou profissão;
c) agir discriminatoriamente em detrimento de outro profissional ou
profissão;
d) atentar contra a liberdade do exercício da profissão ou contra os
direitos de outro profissional;
V – ante ao meio:
a) prestar de má-fé orientação, proposta, prescrição técnica ou qualquer
ato profissional que possa resultar em dano ao ambiente natural, à saúde
humana ou ao patrimônio cultural.
293
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CONFEA
7. DOS DIREITOS
Art. 11. São reconhecidos os direitos coletivos universais inerentes às
profissões, suas modalidades e especializações, destacadamente:
a) à livre associação e organização em corporações profissionais;
b) ao gozo da exclusividade do exercício profissional;
c) ao reconhecimento legal;
d) à representação institucional.
Art. 12. São reconhecidos os direitos individuais universais inerentes aos
profissionais, facultados para o pleno exercício de sua profissão,
destacadamente:
a) à liberdade de escolha de especialização;
b) à liberdade de escolha de métodos, procedimentos e formas de
expressão;
c) ao uso do título profissional;
d) à exclusividade do ato de ofício a que se dedicar;
e) à justa remuneração proporcional à sua capacidade e dedicação e aos
graus de complexidade, risco, experiência e especialização requeridos por
sua tarefa;
f) ao provimento de meios e condições de trabalho dignos, eficazes e
seguros;
g) à recusa ou interrupção de trabalho, contrato, emprego, função ou
tarefa quando julgar incompatível com sua titulação, capacidade ou
dignidade pessoais;
h) à proteção do seu título, de seus contratos e de seu trabalho;
i) à proteção da propriedade intelectual sobre sua criação;
j) à competição honesta no mercado de trabalho;
k) à liberdade de associar-se a corporações profissionais;
l) à propriedade de seu acervo técnico profissional.
8. DA INFRAÇÃO ÉTICA
Art. 13. Constitui-se infração ética todo ato cometido pelo profissional
que atente contra os princípios éticos, descumpra os deveres do ofício,
pratique condutas expressamente vedadas ou lese direitos reconhecidos
de outrem.
294
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CONFEA
Art. 14. A tipificação da infração ética para efeito de processo disciplinar
será estabelecida, a partir das disposições deste Código de Ética
Profissional, na forma que a lei determinar.
295
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CFQ
C
Íntegra do código de ética.
CFQ
RESOLUÇÃO ORDINÁRIA N.º 927, DE 11.11.1970 - CFQ
O Conselho Federal de Química, atendendo às reiteradas recomendações
dos diversos Congressos de Conselheiros Federais e Regionais de
Química, resolve aprovar o seguinte Código de Ética dos Profissionais
da Química, que entrará em vigor na data de sua publicação no Diário
Oficial da União:
CÓDIGO DE ÉTICA DOS PROFISSIONAIS DA QUÍMICA
I — Conceituação Geral
É fundamental que o serviço profissional seja prestado de modo fiel e
honesto, tanto para os interessados como para a coletividade, e que
venha contribuir, sempre que possível, para o desenvolvimento dos
trabalhos da Química, nos seus aspectos de pesquisa, controle e
Engenharia.
A Química é ciência que tende a favorecer o progresso da humanidade,
desvendando as leis naturais que regem a transformação da matéria; a
tecnologia química, que dela decorre, é a soma de conhecimentos que
permite a promoção e o domínio dos fenômenos que obedecem a essas
leis, para sistemático usufruto e benefício do Homem.
Esta tecnologia é missão e obra do profissional da Química, aqui, agente
da coletividade que lhe confiou a execução das relevantes atividades que
caracterizam e constituem sua profissão. Cabe-lhe o dever de exercer a
profissão com exata compreensão de sua responsabilidade, defendendo
os interesses que lhe são confiados, atento aos direitos da coletividade e
zelando, pela distinção e prestígio do grupo profissional.
É essencial que zele pelo seu aperfeiçoamento profissional, com espírito
crítico em relação aos seus próprios conhecimentos e mente aberta para
297
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CFQ
as realidades da prática tecnológica, que só o íntimo contato com as
operações industriais proporciona. Deve aprofundar seus conhecimentos
científicos na especialidade, admitindo, estudando e buscando
desenvolver novas técnicas, sempre preparado para reformular conceitos
estabelecidos, já que química é transformação.
Seu modo de proceder deve visar o desenvolvimento do Brasil, como
Nação soberana e, frente aos colegas e contratantes de seus serviços,
considerá-los como semelhantes a si próprios.
Esse trabalho que proporciona ao profissional da Química certos
privilégios, exige, com maior razão para o exercício do seu mister, uma
conduta moral e ética que satisfaça ao mais alto padrão de dignidade,
equilíbrio e consciência, como indivíduo e como integrante do grupo
profissional.
II — Diretrizes
I — Procedimento devido
O profissional da Química deve:

instruir-se permanentemente;

impulsionar a difusão da tecnologia;

apoiar as associações científicas e de classe;

proceder com dignidade e distinção;

ajudar a coletividade na compreensão justa dos assuntos técnicos
de interesse público;

manter elevado o prestígio de sua profissão;

manter o sigilo profissional;

examinar criteriosamente sua possibilidade de desempenho
satisfatório de cargo ou função que pleiteie ou aceite;

manter contato direto com a unidade fabril sob sua
responsabilidade;

estimular os jovens profissionais.
II — Procedimento indevido
O profissional da Química não deve:
298
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CFQ
aceitar interferência na atividade de colega, sem antes preveni-lo;
usar sua posição para coagir a opinião de colega ou de
subordinado;

cometer, nem contribuir para que se cometa injustiça contra
colega ou subordinado;

aceitar acumulação de atividades remuneradas que, em virtude do
mercado de trabalho profissional, venha em prejuízo de oportunidades
dos jovens colegas ou dos colegas em desemprego;

efetuar o acobertamento profissional ou aceitar qualquer forma
que o permita;

praticar concorrência desleal aos colegas;

empregar qualificação indevida para si ou para outrem;

ser conivente, de qualquer forma, com o exercício ilegal da
profissão;

usufruir concepção ou estudo alheios sem fazer referência ao
autor;

usufruir planos ou projetos de outrem, sem autorização;

procurar atingir qualquer posição agindo deslealmente;

divulgar informações sobre trabalhos ou estudos do contratante
do seu serviço, a menos que autorizado por ele.



III — O profissional em exercício
1
— Quanto à responsabilidade técnica
1.1 — A responsabilidade técnica implica no efetivo exercício da
atividade profissional.
2
— Quanto à atuação profissional
2.1 — Deve ser efetivo o exercício da atividade profissional, de acordo
com o contrato de trabalho.
2.2 — É vedado atividade profissional em empresa sujeita à fiscalização
por parte do órgão técnico oficial, junto ao qual o profissional esteja em
efetivo exercício remunerado.
2.3 — Não deve prevalecer-se de sua condição de representante de firma
fornecedora ou consumidora, para obter serviço profissional.
299
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CFQ
2.4 — Não deve prevalecer-se de sua posição junto ao contratante de
seus serviços para forçá-lo a adquirir produtos de empresa com que
possua ligação comercial.
2.5 — Deve exigir de seu contratante o cumprimento de suas
recomendações técnicas, mormente quando estas, envolverem problemas
de segurança, saúde ou defesa da economia popular.
3 — Quanto à remuneração
3.1 — Não pode aceitar remuneração inferior àquela definida em lei ou
em termos que dela decorram.
3.2 — Não deve aceitar remuneração inferior à estipulada pelos órgãos
de classe.
4 — Na qualidade de colega
4.1 — Não deve ofertar prestação de serviço idêntico por remuneração
inferior a que está sendo paga ao colega na empresa, e da qual tenha
prévio conhecimento.
4.2 — Não deve recusar contato com jovem profissional ou colega que
está em busca de encaminhamento para emprego ou orientação técnica.
4.3 — Deve colaborar espontaneamente com a ação fiscalizadora dos
Conselhos de Química.
5 — Na qualidade de prestador de serviço profissional
5.1 — Não deve divulgar ou utilizar com outro cliente
concomitantemente, detalhes originais de seu contratante, sem
autorização do mesmo.
5.2 — Na vigência do contrato de trabalho não deve divulgar dados
caracterizados como confidenciais pelo contratante de seu serviço ou de
pesquisa que o mesmo realiza a menos que autorizado.
5.3 — Deve informar ao seu contratante qualquer ligação ou interesse
comercial que possua e que possa influir no serviço que presta.
5.4 — Não deve aceitar, de terceiros, comissão, desconto ou outra
vantagem, direta ou indireta, relacionada com a atividade que está
prestando ao seu contratante.
300
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CFQ
6 — Como membro da coletividade
O profissional, como cidadão ou técnico, não deve:
6.1 — Apresentar, como seu, currículo ou título que não seja verdadeiro;
6.2 — Recusar-se a opinar em matéria de sua especialidade, quando se
tratar de assunto de interesse da coletividade;
6.3 — Criticar, em forma injuriosa, qualquer outro profissional.
IV __ Sanções Aplicáveis
Contra as faltas cometidas no exercício profissional e descritas no
Capítulo III poderão ser aplicadas, pelos Conselhos Regionais de
Química, da jurisdição, advertências em seus vários graus e, nos casos de
improbidade, suspensões do exercício profissional, variáveis entre um
mês e um ano, assegurando-se sempre pleno direito de defesa. Das
sanções caberá recurso ao Conselho Federal de Química, que expedirá as
normas processuais cabíveis.
Peter Löwenberg — Presidente
Gastão Vitor Casper — Secretário
Publicada no D.O.U. de 27.11.70
_____________________
RESOLUÇÃO ORDINÁRIA N.º 9.593, DE 13.07.2000 - CFQ
O Conselho Federal de Química, em sua quatrocentésima terceira (403ª)
Reunião Ordinária, aprovou a Resolução Ordinária n.º 9.593, com a
seguinte redação:
O Conselho Federal de Química, no uso das atribuições que lhe são
conferidas pelo art. 8º da Lei n.º 2.800/56 e considerando a necessidade
de estabelecer diretrizes para a aplicação do Código de Ética dos
Profissionais da Química, Resolve aprovar as Diretrizes Relativas ao
Processo de Infração ao Código de Ética.
301
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CFQ
I —Foro Administrativo para Julgamento das Infrações ao Código
de Ética
Constituem foros para julgamento administrativo das infrações ao
Código de Ética:
O Conselho Federal de Química quando se tratar de infrações praticadas
por membros, ex-membros dos colegiados dos sistemas CFQ/CRQ's,ou
por titular de Delegacias dos CRQ's
O Conselho Regional de Química – quando se tratar de pessoas não
incluídas no caso precedente:
II —Das Sanções Aplicáveis
Contra as infrações ao Código de Ética dos Profissionais da Química,
poderão ser aplicadas pelos Conselhos Regionais de Química, com
recurso para o Conselho Federal de Química, as seguintes penalidades:
Advertência por escrito, confidencial ou pública;
Suspensão do exercício profissional, por períodos variáveis de um (01)
mês a um (01) ano, de acordo com a extensão da falta, ressalvada a ação
da Justiça Pública.
III —Infrações ao Código de Ética
Constituem infrações ao Código de Ética:
- improbidade profissional;
- falso testemunho;
- quebrar o sigilo profissional;
- produzir falsificações;
- concorrer com seus conhecimentos científicos e/ou tecnológicos para a
prática de crimes em atentado contra a pátria, a ordem social ou a saúde
pública;
- deixar de requerer, para o exercício da profissão, a revalidação e
registro do diploma estrangeiro, no prazo legal, e/ou registro profissional
no Conselho Regional de Química de sua jurisdição.
IV —Constituição da Comissão de Ética Profissional (CEP)
302
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CFQ
Ficam criadas as Comissões de Ética Profissional nos Conselhos
Regionais e no Conselho Federal de Química, formadas cada qual por 03
(três) Conselheiros, dos quais, um (01) será designado Presidente da
Comissão.
Os membros das Comissões serão designados pelos Presidentes dos
respectivos Conselhos, mediante a instauração de cada processo de ética.
V — Dos Processos de Infração ao Código de Ética nos CRQ'S
1 — Os processos de infração ao Código de Ética serão instaurados a
partir de denúncias, por escrito, feitas por qualquer pessoa física ou
jurídica;
2 — Ao receber denúncia de infração ao Código de Ética, o Presidente
do Conselho Regional de Química a encaminhará, acompanhada de
todos os subsídios existentes, à CEP, formando-se um processo sigiloso.
3 — Quando da instauração do processo de infração, o presidente da
CEP cientificará, por escrito, ao Profissional envolvido quanto ao
conteúdo da denúncia, enviando-lhe cópia do referido documento e
concedendo-lhe o prazo de 30 (trinta) dias a partir do recebimento para
apresentação de sua defesa, findo o qual, o não atendimento implicará
em julgamento à Revelia. O documento acima referido deverá ser
encaminhado com A. R.
4 — A Comissão poderá solicitar ao profissional envolvido ou a
terceiros, os esclarecimentos que julgar necessários, inclusive utilizar-se
de assessoria.
5 — O Presidente da CEP encaminhará o relatório final com parecer
conclusivo, no prazo de 60 dias a partir do recebimento da defesa,
prorrogável por mais 10, ao Presidente do Conselho Regional de
Química.
6 — Recebido o relatório final, o Presidente do Conselho Regional de
Química encaminhará o processo para apreciação do plenário em sua
primeira reunião.
7 — Caso julgue necessário o Conselho Regional de Química poderá
convocar as partes interessadas para prestar esclarecimentos adicionais,
em reunião que será marcada pelo Presidente do CRQ.
303
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CFQ
8 — Prestados os esclarecimentos, as partes se retirarão do plenário do
CRQ.
9 — O julgamento pelo Conselho Regional terá caráter sigiloso e a
decisão será tomada pelo voto da maioria absoluta dos membros do
Plenário, em votação, secreta, devendo a mesma ser encaminhada às
partes, pelo Presidente do Conselho Regional de Química.
VI — Do Direito de Recurso
No prazo máximo de 15 dias úteis, após a notificação da Decisão do
CRQ, as partes interessadas poderão recorrer, via Conselho Regional, ao
Conselho Federal de Química.
VII — Da Comissão de Ética do Conselho Federal de Química
1 — A Comissão de Ética do CFQ tem por atribuições:
a — Receber e julgar as denúncias contra os membros e ex-membros
dos Conselhos Regionais e do Conselho Federal de Química, conforme
os termos do item 1.1.
b — Receber e julgar os Recursos de Infração ao Código de Ética,
oriundo dos Conselhos Regionais.
2 — A metodologia de análise e julgamento, obedecerá ao disposto nos
itens II e V descrita para o julgamento em 1ª instância.
3 — O julgamento do Recurso terá sempre caráter sigiloso.
4 — A decisão do CFQ será comunicada às partes interessadas através
do Conselho Regional de Química, quando se tratar do julgamento do
Recurso oriundo do CRQ, previsto no item VII-1-b. Em se tratando de
processo originário do item VII-1.a, a decisão será comunicada
diretamente às partes envolvidas.
5 — A decisão somente poderá ser tornada pública após esgotado o
prazo de recurso referido no item VI ou quando for o caso, após o
julgamento pelo Conselho Federal de Química.
6 — Da decisão do CFQ referente ao item VII-1, cabe apenas um (01)
pedido de reconsideração.
304
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Íntegra do código de ética. CFQ
Brasília, 13 de julho de 2000. Adauri Paulo Schmitt – Secretário “ad
hoc”. Jesus Miguel Tajra Adad – Presidente. Publicada no D.O.U. de
21.08.2000.
305
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sumário de ética
D
Sumário de Ética.
Ética, a partir do grego, significa conduta ou comportamento
(individual).
Etiqueta significa pequena ética e se refere a comportamentos
considerados convenientes em situações específicas. Política também do
grego (polis + ethica) se refere ao comportamento coletivo. Desta forma
o estudo da Ética é a busca livre e individual da melhor conduta para si.
Pode-se provar que julgar e condenar o comportamento de
outros não apresenta sustentação lógica. No entanto, podemos analisar
tais comportamentos e agirmos em conformidade com tais análises.
É um princípio e uma constatação que todos os seres humanos
(inclusive eu e você) visam, por meio de suas condutas, essencial e
fundamentalmente a Felicidade. Todos os desejos humanos a rigor
objetivam alcançá-la.
O Fundamento da Ética é bastante simples: 'O essencial da Ética
é fazer o Bem.' Fazer o Bem ao outro; ser útil ao outro, é necessidade
interior inconsciente do ser humano, estabelecida por processo
evolucionário. (Ao longo das eras os indivíduos mal quistos tendem a ser
descartados. Este é um conhecimento oriundo do Darwinismo
Comportamental.) Cumprida satisfatoriamente esta necessidade, o
indivíduo sente-se bem. Não cumprida, sente-se mal.
O ser humano em si muda pouco ao longo dos séculos. As
principais orientações éticas da atualidade são:
ARISTÓTELES: Propõe a Ética baseada em Virtudes. Virtudes
são habilidades a serem desenvolvidas pela repetição de ações. As
307
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sumário de ética
principais podem ser consideradas: A Prudência (Pensar antes de falar e
agir). A Temperança (Buscar o meio termo justo e bom em todas as
ações). A Fortaleza (Agir ou não agir em conformidade com o Bem;
Persistência). A Justiça (Promover a retribuição proporcional de Bens; o
Equilíbrio). A Amizade (Amar).
JOHN STUART MILL: Ético é procurar promover o maior Bem
e a maior Felicidade para o maior número de pessoas. Se o Bem é maior,
a ação é mais Ética. Se o Bem é maior para um maior número de
pessoas, a atitude é ainda mais Ética.
IMMANUEL KANT: Ninguém deve ser tratado como um
simples meio, mas sempre como um fim. Ninguém deve ser considerado
como uma peça ou uma ferramenta, mas sempre como um ser humano.
Mentir a ele, manipulá-lo ou coagi-lo é desrespeitar a dignidade humana.
JESUS: Procurar fazer aos outros, o que gostaríamos que fosse
feito a nós mesmos, caso nos encontrássemos em situação análoga. A
base segura para sabermos o que é bom, ou seja, o melhor dos critérios é
observarmos o que nós mesmos consideramos bom.
SÓCRATES: Indica porque não agimos sempre eticamente. Os
erros se devem à ignorância; à falta de conhecimento. Não basta ter a
'notícia' do que é certo ou errado. Conhecimento envolve a
interiorização no ser, de que uma determinada linha de ação é realmente
benéfica a ele. Envolve olhar para si mesmo; auto conhecer-se. Saber que
ser bom é bom.
Pela filosofia oriental, buscar ser ético não se restringe apenas em
procurar agir bem, mas também procurar pensar bem e falar bem. Bons
pensamentos geram boas palavras e bons sentimentos. Boas palavras e
bons sentimentos geram boas ações.
Exercitar a melhor conduta para si; ser Ético; gera Felicidade,
Autorealização e Desenvolvimento. Ocasiona excelentes resultados para
308
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Sumário de ética
o próprio indivíduo. Desta forma fazer o Bem é um Consequencialismo
Esclarecido.
'A meta de todos nós é a de que nossas ações terminem por
corresponder aos nossos ideais.' Paulo Freire.
Paul Fernand Milcent,
um seu amigo.
309
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Comportamentos que visam à felicidade
E
Comportamentos que visam
à felicidade
Em um evento promovido pela Universidade de Nevada, um
jovem discutiu a questão de métodos educacionais voltados para a
felicidade.
A felicidade humana foi tema extensamente analisado pelo
filósofo Aristóteles e suas reflexões podem ser lidas em sua obra 'Ética a
Nicômaco'. Sua conclusão, referendada posteriormente por inúmeros, é
a de que o maior dos bens para qualquer ser humano é a sua felicidade.
A felicidade humana é o que importa. Tudo o mais é periférico. A
felicidade crescente de todos acresce a felicidade de cada um.
Quanto ao investimento de tempo e esforço para a nossa
felicidade, é importante lembrar que a felicidade é o nosso objetivo
essencial e nosso estado arquetípico, isto é, o estado que nossa existência
tende a manifestar. Que o nosso tempo é patrimônio nosso. Que por
mais incrível que possa parecer a alguns, que nossa agenda é nossa.
Na palestra acima mencionada é citado um pequeno resumo do
trabalho 'Estilo de Vida e Saúde Mental' do Dr. Roger Walsh, professor
de Psiquiatria, Filosofia e Antropologia da Universidade da Califórnia.
Seu método, 'Terapia de Mudança no Estilo de Vida (TLC)' tem por base
oito atitudes. Abaixo a citação de tal listagem com comentários pessoais:
Exercícios Físicos. No meu caso, aprecio caminhar mais de trinta
minutos ao dia ou nas imediações de casa, ou em parques ou pelo centro
da cidade. Procuro realizar tal prática sempre que minha tendência ao
comodismo permita. Em épocas críticas já adotei tal comportamento
com chuva ou com sol, de dia ou de noite, todos os dias. Entendo como
uma espécie de Hatha Yoga, onde o equilíbrio e o ritmo da alternância
das passadas e do balançar dos braços bem como a segurança do apoio
dos pés sobre o solo, se reflete num equilíbrio emocional e mental. Em
termos bioquímicos, a liberação de alguns hormônios acresce a calma e o
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Comportamentos que visam à felicidade
bem estar. O apreciar do céu, da vegetação, da paisagem e dos
transeuntes, eventualmente cumprimentando-os e com eles trocando
palavras cordiais, provavelmente exerce igualmente efeito psicológico
positivo.
Os grandes pensadores do passado não teriam razões para
recomendar tal comportamento visto que a atividade física era então fato
cotidiano e generalizado.
Dieta e Nutrição. Além de uma alimentação adequada, me parece
que este item inclua alguma forma de auto-gratificação. Aqueles com
maior número de anos observaram os inúmeros modismos a respeito da
melhor alimentação humana, inclusive revestidos por uma roupagem
científica. Em tudo e inclusive neste item me parece válida a
recomendação Aristotélica, Pitagórica e de outros tantos grandes
pensadores da humanidade que é a da busca do meio termo.
Tempo com a Natureza. Gosto e convivo com meu cão e volta e
meia trabalho como jardineiro no quintal. Em épocas críticas sento e
converso relaxadamente com os cedros que lá plantei. O contato com a
terra possivelmente nos conecta às nossas raízes ancestrais e à
concretude das coisas simples e calmas que realmente são importantes
nas nossas existências. Somos todos nós criaturas simples, maravilhadas
com as formas de vida que nos cercam. No entanto artificializadas por
uma cultura repleta de complexidades frequentemente sem sentido ou
importância. Animais de estimação igualmente tem a capacidade de nos
conectar com tal simplicidade. Nos conectar com a espontaneidade. A
espontaneidade da alegria ou da tristeza; do querer e pedir alimento ou
carinho. Com a segurança oriunda exclusivamente da sensação de
pertencimento a um grupo. Já é hoje bem sabido o efeito curativo,
benéfico dos animais de estimação. Em rede social já observei uma
charge na qual farmácias comercializavam o mais novo e potente
medicamento para desordens emocionais, que era um cachorro.
Também a respeito deste item os filósofos antigos não teriam
razões para recomendar, pois que atitude imensamente comum. Como
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Comportamentos que visam à felicidade
curiosidade vale lembrar que a disciplina seguida nos monastérios
ocidentais, ao longo de muitos séculos, recomendava o contato diário
com a terra.
Recreação. A recreação, o sentido de vida, e o próximo item
(controle do stress), me parecem estar interligados. No meu caso faço
jardinagem, caminho, pinto quadros e toco teclado. Nos três casos a
atividade é minha: não há o acertar ou o errar. Para mim são atividades
agradáveis simplesmente porque eu as faço. Certa vez me perguntaram
'você fez curso de jardinagem?' Eu respondi sinceramente: 'Não.' Me
perguntaram também como você fez para aprender a pintar ? Eu
respondi: 'Pintando.' Recreação talvez seja exatamente isto: fazer algo
agradável sem qualquer cobrança por resultados. Sempre, em última
análise, quem cobra resultados somos nós mesmos. Uma atividade
laboral que faça sentido, sem qualquer preocupação com a aceitação dos
resultados por agentes externos a nós, é também recreação.
Neste ponto, amigo leitor, talvez você esteja questionando como
ser feliz com o estilo de vida que você tem. Tal questão, penso que ficou
mais esclarecida no capítulo quanto a razões para viver. Também aqui
cabe lembrar que as maiores das prioridades racionais são a felicidade e a
vida. Neste sentido eventualmente serão necessários ajustes de
prioridades acarretando igualmente em ajustes no estilo de vida.
Consideramos como necessidades fisiológicas para a permanência
da vida o respirar, o comer, o dormir. O não atendimento de tais
necessidades acarreta numa vida mais curta. É razoável considerar que a
colocação de pelo menos parte das recomendações deste capítulo ao
nível de prioridade das necessidades fisiológicas venha a lhe ser
extremamente benéfica.
Relaxamento e Controle do Estresse. Entende-se por estresse
como o conjunto de alterações no indivíduo, provocadas por estímulos
externos, aos quais este mesmo indivíduo se permite submeter, como
também pelo modo como tais estímulos são interpretados por ele. Em
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Comportamentos que visam à felicidade
condições saudáveis, tais estímulos e as reações internas a eles não
chegam ao nível do mal estar. Numa condição de sobrecarga de
estímulos e em conformidade com as interpretações dos mesmos, o
efeito resultante é o de um desgaste geral em todos os níveis, que pode
inclusive chegar a afetar a sanidade mental, emocional e física.
Neste sentido cabe a recomendação pitagórica contida em seu
código comportamental: 'quanto aos males, julga-os pelo que são;
procura quanto lhe seja possível o rigor abrandar-lhes.' Ou seja, o
estresse tal como costumeiramente entendido é um mal e devemos
procurar o mais rapidamente possível reduzir a níveis compatíveis com o
bem estar e a saúde.
Os estímulos para surtirem efeito precisam de interpretação pelo
indivíduo, que podem ser classificados em irrelevantes, positivos e
negativos. Obviamente os causadores de dano são aqueles que
classificamos como negativos. São estes os causadores de desgaste.
Salvo melhor juízo, o primeiro passo no controle do estresse é o
de definir com objetividade os estímulos externos que nos perturbam. O
segundo, observarmos quais são objetivamente também nossas
interpretações internas a eles. Isto é, porque tais estímulos nos
perturbam. Por acaso nos é possível encará-los de modo diferente?
Encará-los não mais como perturbadores, mas como indiferentes ou
mesmo benéficos?
Se há estímulos danosos, como podemos suprimi-los?
Possivelmente uma das maiores situações estressoras é ocasionada
pelo sentimento de impotência frente a uma dada conjuntura. Neste
sentido o primeiro passo é o de confiarmos em nossas capacidades de
compreender, bem como de solucionar o problema. Também aqui cabe
nos conscientizarmos da amplitude de soluções que sempre estão à nossa
disposição. Da amplitude de adaptações possíveis e ao menos
mentalmente enumerar e se possível, paulatinamente expandir o rol de
soluções e adaptações, mesmo que num primeiro momento sejam
consideradas improváveis.
Quais as alternativas que temos para transformarmos a conjuntura
externa de desgastante para benéfica? Quais as alternativas razoáveis ao
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Comportamentos que visam à felicidade
nosso dispor para passarmos a encarar a conjuntura externa de negativa
para neutra ou positiva? Quais são as alternativas disponíveis para nos
afastarmos da conjuntura estressora?
Efetuada a seleção das opções que mais nos agradam, resta o
esforço para pô-las em prática. Sair de uma posição passiva e
aprisionadora, para outra proativa e de libertação.
O Relaxamento é uma prática reconhecida pela ciência moderna,
onde a atuação sobre o corpo físico resulta em tranquilidade e equilíbrio
interior e chega a ser empregada até mesmo como tratamento para
diversos tipos de problemas.
A redução da tensão muscular a nível fisiológico atua
salutarmente na estrutura da psique do indivíduo. Uma de suas técnicas
recomenda que o indivíduo se deite imóvel, em local isolado e tranquilo,
de costas, com braços e pernas ligeiramente entreabertos. Após um
esforço mental inicial de relaxamento geral, passe a observar a
regularidade da respiração e após isto, se concentre no relaxamento de
cada pequena parte do corpo.
Caso tal técnica seja antecedida pelas posturas da Hatha Yoga de
origem indiana milenar, a mesma se torna análoga à técnica de relaxação
muscular progressiva, criada pelo médico e fisiólogo norte americano
Edmund Jacobson. Um livro facilmente acessível que recomendo aos
que desejem experimentar a Hatha Yoga no conforto de seus lares,
através de sequência de lições claramente estabelecidas é 'Autoperfeição
com a Hatha Yoga', do célebre professor brasileiro Hermógenes.
Após um relativamente curto tempo de prática, o relaxamento
físico e a tranquilidade mental podem ser atingidos se estando sentado,
em qualquer tipo de ambiente, bastando para tanto o exercício da
vontade pessoal para tal.
Relacionamentos. Ninguém é feliz sozinho. Os nossos
relacionamentos prioritários são os nossos relacionamentos próximos.
Basicamente a família. Prejudicar os relacionamentos familiares sob
qualquer pretexto não é uma atitude inteligente ou saudável. O mundo
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Comportamentos que visam à felicidade
do trabalho atual está voltado ao enriquecimento. Tal fato é uma pútrida
e terrível distorção que tende a levar a uma infelicidade generalizada, até
mesmo com respeito àqueles que chegam a auferir os lucros. A finalidade
ética de qualquer atividade laborativa é a felicidade e o bem estar tanto
daquele que a exerce quanto da coletividade onde este se insere. As
atividades laborativas não tem por finalidade a tortura e são, sim,
instrumentos para a eudamonia. De qualquer modo, tende a ser
catastrófica a priorização do trabalho em detrimento dos interesses
familiares. Os laços familiares exigem tanto qualidade quanto quantidade
de empenho de seus membros. Já comentamos, a respeito disto, a
importância dos pais presentes. Os pais presentes exercem atos
concretos de demonstração de interesse diretamente aos seus filhos e tais
demonstrações diretas são efetuadas também com frequência. O
importante não é apenas a qualidade das atitudes com as quais se
pretende cultivar uma relação, mas também a quantidade de tempo que
cada um dedica a ela. O mesmo se aplica à relação entre esposo e esposa
e vice versa, bem como a qualquer tipo de relacionamento afetivo.
Dizia Pitágoras que feliz é o homem que tem um amigo na vida.
Um amigo pode ser definido como aquele que você tem certeza que o
socorreria gratuitamente numa situação de dificuldade.
Cabe igualmente registrar na memória, a título de precaução, os
indivíduos que lhe ocasionaram dor.
No entanto também a respeito das amizades é fundamental a
tolerância pelas diferenças. Para as amizades igualmente é importante a
qualidade e quantidade das manifestações de afeto e o tempo dedicado a
elas.
Uma característica humana é o orgulho. A característica do
orgulhoso é a de se considerar superior aos demais. A falta de controle
sobre o orgulho inviabiliza qualquer amizade, mesmo aquelas não muito
profundas, pois a amizade por definição é um relacionamento entre
iguais. Um indivíduo que se considere muito superior ou muito inferior a
um outro dificilmente com ele formará um casal saudável. A relação, se
houver, tenderá a ser mais uma união de utilidade do que de amor.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Comportamentos que visam à felicidade
Igualmente Pitágoras recomenda que elejamos como amigos,
indivíduos virtuosos. Mesmo procurando controlar nossa tendência inata
de agirmos para sermos aceitos pelo grupo onde estamos inseridos e,
salvo melhor juízo, tal propensão sempre se fará presente em algum
grau. Membros de uma coletividade tendem a apresentar
comportamentos do mesmo tipo.
Envolvimento Religioso ou Espiritual. Concluímos o capítulo
Materialismo e Espiritualismo, com a questão: em qual mundo
desejamos viver? Numa existência finita que se torna cada vez mais
angustiante, tanto quanto mais nos aproximamos de seu fim ou numa
existência infinita, que apesar de seus altos e baixos, apresenta
possibilidades inesgotáveis de realização e felicidade. E demonstramos
naquele mesmo capítulo que esta é efetivamente uma questão de escolha,
eventualmente apenas obstaculizada pelo orgulho humano.
Por outro lado, nesta questão cabe igualmente ter presente os
estudos do cientista da psique Lacan que igualmente abordamos em
outro dos capítulos que antecedem a este, mais especificamente aqueles
que explicam os mecanismos geradores dos fanatismos e do fanatismo
religioso em particular.
Considero que as soluções que as religiões trazem para as crises
da existência sejam insubstituíveis. Que suas orientações morais e éticas
sejam fundamentais.
Por outro lado, é fácil observarmos os inúmeros danos que a
intolerância, o fanatismo e o fundamentalismo religioso ocasionam e tem
ocasionado ao longo da história da humanidade. É razoável afirmar que
um dos melhores remédios para tais males é o conhecimento efetivo de
sua própria religião e de sua história, bem como das demais, pelo menos
as mais significativas. Os fanatismos, inclusive de cunho materialista se
tornam claramente não razoáveis na medida em que o conhecimento
aumenta.
Quando o orgulho nos permite conceber que há algo superior a
nós mesmos, tanto enquanto indivíduos quanto como coletividade.
Quando o entendimento nos permite reconhecer que, se dependêssemos
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Comportamentos que visam à felicidade
exclusivamente de nós mesmos, nada, mesmo de pouco, teríamos, nem
mesmo a existência, a geração de um autêntico sentimento de gratidão
poderia surgir em nosso interior.
Como prática pessoal, normalmente converso com o Pai e Seus
Auxiliares uma vez ao dia. E também normalmente, inicio tal prática
com agradecimentos. Em épocas críticas tal conversa tende a se dar mais
de uma vez ao dia.
Se o Pai é Deus, somos todos Filhos de Deus e portanto em
algum grau, semelhantes a Ele e Deuses. Cabe procurarmos sempre
respeitar esta nossa condição. Se Deus é Pai e Amor, quem efetivamente
obstaculariza nossa felicidade somos nós mesmos. Nossa própria
ignorância que Sócrates já bem diagnosticou.
Contribuições e Serviços Sociais. Os comentários referentes a este
item foram efetuados em capítulo anterior. Por um lado o mero estudo
da Ética não tem grande valor caso não ocorram melhorias individuais
que se reflitam em ações. Por outro, tais melhorias e atitudes são
fundamentais para a felicidade e a própria razão de existir individual.
Efetuados os comentários pessoais da Terapia de Mudança no
Estilo de Vida proposta pelo Dr. Roger Walsh, me parece interessante
complementar o presente capítulo com o que a escritora Chiara Fucarino
postou na internet em 2012. Uma lista com cerca de 20 itens que
caracterizariam pessoas felizes. Concordando com as conclusões de
Aristóteles, dos estóicos e de outros tantos, menciona que o bem estar e
o contentamento dependem muito pouco das circunstâncias externas a
nós e estão ligadas fundamentalmente ao mundo interior de cada um.
Que tal mundo interior pode ser alterado e que podemos alterar tal
mundo tendo por foco a felicidade, por procedimentos relativamente
simples, bastando para tanto que efetivamente queiramos tais alterações
e as realizemos. Que cultivemos enxergar as coisas com um olhar
positivo.
Sob certo ponto de vista, caso estejamos infelizes, isto se deve
basicamente a uma opção feita por nós mesmos. Novamente Aristóteles
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Comportamentos que visam à felicidade
nos alerta que a infelicidade é um sintoma de conduta inadequada. Ou
seja, como o comportamento adequado é gerador de felicidade, a
recíproca é verdadeira. Momentos infelizes portanto, se constituem em
ocasiões privilegiadas de análise, aprendizado e ajuste comportamental.
Do mesmo modo, como a felicidade depende, ao menos na grande
maioria dos casos, do mundo interior de cada um, é inútil, ilógico e
antiproducente o dispêndio de tempo, um de nossos maiores
patrimônios, na definição de indivíduos responsáveis por nossas tristezas
ou então de gerarmos desculpas sempre confortáveis para as mesmas.
Podemos propor a hipótese que o mundo externo, observado por
um olhar frio e realista é figuradamente observável sempre como um
copo preenchido com água pela metade. A visão positiva e saudável seria
a de classificá-lo como meio cheio e não como meio vazio.
Alternativamente encará-lo como sempre cheio com água e com ar, o
qual é uma substância igualmente salutar.
Por diversas abordagens, podemos ter uma visão polarizada de
nós mesmos. Duas entidades em uma. A proposta é a de que
mantenhamos a Paz e a harmonia entre as duas. Que nossos
comportamentos correspondam a um acordo amoroso entre estes dois
eus.
Cabe lembrar o conceito aristotélico: a necessidade de repetição
para a estabilização e automatização de um dado comportamento.
Vários hábitos promotores de bem estar da listagem de Chiara já
foram comentados acima. Alguns outros seriam:
Falar bem dos outros. Ao menos não julgá-los.
Viver no presente. Não viver no passado e não se preocupar com
o futuro. 'Será que este problema importará daqui a uma ano?'
Não se comparar com os outros. Cada um vive a seu modo. A
vida de cada um a cada um pertence. Somos todos mais ou menos
semelhantes, com qualidades e defeitos de diferentes tipos e de
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Comportamentos que visam à felicidade
diferentes intensidades. Cada um essencialmente está tentando fazer o
melhor e o que quer de sua própria existência.
Dizer a verdade. Não negar a sua verdade é essencialmente respeitar e
não negar a si mesmo.
Autodeterminar-se. A autodeterminação e a autogestão é
qualidade ética defendida por inúmeros renomados pensadores, como já
tivemos a oportunidade de observar ao longo deste livro.
Resignar-se com o que não podemos modificar. Modificar para
melhor o que for possível. Este é o pensamento fundamental da escola
estóica já obordada em outro capítulo.
Tratar a todos com bondade. A bondade permeia a totalidade
desta obra e sua análise mais objetiva é efetuada na conclusão.
Não guardar rancor. Circulam nas redes sociais várias frases que
ilustram esta orientação. Uma delas comenta o fato que guardar rancor é
análogo a se tomar veneno esperando que com isto o outro morra.
Quando perdoamos estamos nos permitindo perdoar os nossos próprios
tropeços no futuro. O maior e eventualmente único carrasco que temos
é nós mesmos. Como perdoar? Por mais incrível que possa parecer,
basta exercer a vontade pessoal com tal finalidade. No mais, um pouco
de tempo e de racionalização são mais que suficientes.
Nunca buscar a aprovação dos outros. O pensamento de Carl
Jung exposto em capítulo anterior analisa esta questão.
Dar tempo para ouvir. O leitor há de concordar que escutar com atenção
a fala dos demais lhe dá condições de analisá-la com maior profundidade.
Com isto sua intervenção será mais apropriada e bem estruturada. Ouvir
lhe dará tempo para exercer a virtude da Prudência e elaborar uma
320
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Comportamentos que visam à felicidade
contribuição, não de conflito e antagônica, que seriam sempre
indesejáveis, mas sempre que possível, de enriquecimento e colaboração.
Buscar uma vida mais simples. A pompa e o luxo encontram
motivação na vaidade. A vaidade é uma tentativa de aparentar algo maior
do que se é efetivamente. A vaidade é ligeiramente diferente do orgulho.
O orgulhoso é aquele que efetivamente se supõe superior aos demais.
Um dos aforismos de Benjamin Franklin, figura histórica de destaque
inclusive na elaboração de pensamentos éticos, é que perdemos muito
mais tempo tentando aparentar o que não somos, do que aquele que
seria necessário para nos tornarmos aquilo que almejamos.
Manter a ordem. Esta virtude também é altamente valorizada por
Benjamin Franklin, como se pode observar pela leitura de sua
autobiografia. Em sua síntese: um lugar para cada coisa; cada coisa em
seu lugar.
Aprender com as dificuldades e o sofrimento. Repetimos aqui o
pensamento aristotélico: a condição natural do ser humano é a felicidade.
Caso tal estado esteja comprometido, algo em nosso comportamento
deve ser analisado. O estudo de nossos sentimentos, comportamentos,
pensamentos e suas causas é autoconhecimento. O conhecimento de nós
mesmos, segundo inúmeros pensadores, representa o mais alto
aprendizado que podemos desejar. O sofrimento sempre indesejável é
uma condição privilegiada de crescimento pessoal. Pelo aforismo de
Franklin, após as dores, ressurgimos mais humildes e sábios. O tempo é
o remédio para todas as dores. As dores intensas apresentam curta
duração. Pelo dito popular, após a tempestade vem a bonança.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Versos de Ouro de Pitágoras
F
Versos de Ouro de Pitágoras.
Pitágoras nasceu na ilha de Samos, no século VI a.C. Diz-se que
estudou com os melhores professores da Grécia, fez-se sacerdote no
Egito e posteriormente instruiu-se na Babilônia.
Com cerca de 56 anos retornou à cidade natal e depois fundou
sua escola na colônia de Crótona, na Itália. Neste local ergueu-se a sede,
o assim chamado Templo das Musas.
Casado, pai de três filhos, terminou morto com boa parte de seus
alunos devido a uma revolta popular. Ao que se sabe, seu aluno Lysis,
sintetizando o essencial da doutrina pitagórica, incluindo aí seu código
ético, é o autor dos Versos de Ouro de Pitágoras. Mesmo por ser síntese,
cabe uma leitura refletida.
Abaixo a transcrição dos versos, traduzidos do francês, pelo
professor Dario Vellozo, idealizador do Instituto Neo-Pitagórico, com
sede em Curitiba-Brasil.
VERSOS DE OURO DE PITÁGORAS
Tradução do texto francês de Fabre d’Olivet, por Dario Vellozo.
(Transcrito mediante permissão do Instituto Neo-Pitagórico.)
PREPARAÇÃO
1 - Aos Deuses imortais o culto consagrado
2 - Rende; e tua fé conserva. Prestigia
3 - Dos sublimes Heróis a imárcida lembrança
4 - E a memória eteral dos supernos Espíritos.
PURIFICAÇÃO
5 - Bom filho, reto irmão, terno esposo e bom pai
6 - Sê; e para amigo o amigo da virtude
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Versos de Ouro de Pitágoras
7 - Escolhe, e cede sempre a seus dóceis conselhos;
8 - Segue de sua vida os trâmites serenos;
9 - Sê sincero e bondoso, e não o deixes nunca,
10 - Se possível te for; pois uma lei severa
11- Agrilhoa o Poder junto à Necessidade.
12 - Está em tuas mãos combater e vencer
13 - Tuas loucas paixões; aprende a dominá-las.
14 - Sê sóbrio, ativo e casto; as cóleras evita.
15 - Em público, ou só, não te permitas nunca
16 - O mal; e mais que tudo a ti mesmo respeita-te.
17 - Pensa antes de falar, pensa antes de agir;
18 - Sê justo. Rememora: um poder invencível
19 - Ordena de morrer; e os bens e as honrarias,
20 - Fáceis de adquirir, são fáceis de perder.
21 - Quanto aos males fatais que o destino acarreta,
22 - Julga-os pelo que são: suporta-os, procura,
23 - Quão possível te seja, o rigor abrandar-lhes.
24 - Os Deuses, aos mais cruéis, não entregam os sábios.
25 - Como a Verdade, o Erro adoradores conta.
26 - O filósofo aprova, ou adverte com calma.
27 - E, se o Erro triunfa, ele se afasta, e espera.
28 - Ouve, e no coração grava as minhas palavras;
29 - Fecha os olhos e o ouvido a toda prevenção;
30 - Teme o exemplo de um outro, e pensa por ti mesmo;
31 - Consulta, delibera e escolhe livremente.
32 - Deixa aos loucos o agir sem um fim e sem causa;
33 - Tu deves contemplar no presente o futuro.
34 - Não pretendas fazer aquilo que não saibas.
35 - Aprende: tudo cede à constância e ao tempo.
36 - Cuida em tua saúde, e ministra com método,
37 - Alimentos ao corpo e repouso ao espírito.
38 - Pouco ou muito cuidar evita sempre; o zelo
39 - Igualmente se prende a um e a outro excesso.
40 - Têm o luxo e a avareza efeitos semelhantes.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Versos de Ouro de Pitágoras
41 - Deves buscar em tudo o meio justo e bom.
PERFEIÇÃO
42 - Que se não passe um dia, amigo, sem buscares
43 - Saber: Que fiz eu hoje? E, hoje, que olvidei?
44 - Se foi o mal, abstém-te; e, se o bem, persevera.
45 - Meus conselhos medita; e os estima; e os pratica:
46 - E te conduzirão às divinas virtudes.
47 - Por esse que gravou em nossos corações
48 - A Tétrade sagrada, imenso e puro símbolo,
49 - Fonte da Natureza, e modelo dos Deuses,
50 - Juro. Antes, porém, que a tua alma, fiel
51 - A seu dever, invoque, e com fervor, os Deuses,
52 - Cujo socorro imenso, valioso e forte
53 - Te fará concluir as obras começadas,
54 - Segue-lhes o ensino, e não te iludirás:
55 - Dos seres sondarás a mais estranha essência;
56 - Conhecerás de tudo o princípio e o termo.
57 - E, se o Céu permitir, saberás que a Natura,
58 - Em tudo semelhante, é a mesma em toda parte.
59 - Conhecedor assim de todos teus direitos,
60 - Terás o coração livre de vãos desejos.
61 - E saberás que o mal que aos homens cilicia,
62 - De seu querer é fruto; e que esses infelizes
63 - Procuram longe os bens cuja fonte em si trazem.
64 - Seres que saibam ser ditosos, são mui raros.
65 - Joguetes das paixões, oscilando nas vagas,
66 - Rolam, cegos, num mar sem bordas e sem termo,
67 - Sem poder resistir nem ceder à tormenta.
68 - Salvai-os, grande Zeus, abrindo-lhes os olhos! ...
69 - Mas, não: aos Homens cabe, - eles, raça divina -,
70 - O erro discernir, e saber a Verdade.
71 - A Natureza os serve. E tu que a penetraste,
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Versos de Ouro de Pitágoras
72 - Homem sábio e ditoso, a paz seja contigo!
73 - Observa minhas leis, abstém-te das coisas
74 - Que tua alma receie, em distinguindo-as bem;
75 - Sobre teu corpo reine e brilhe a Inteligência,
76 - Para que, te ascendendo ao Eiter fulgurante,
77 - Mesmo entre os Imortais consigas ser um Deus!
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Mensagem dos Milênios
G
Mensagem dos Milênios
Extrato do livro “A VÓS CONFIO”. Editado pela Ordem
Rosacruz-AMORC, 2a edição, 1986. Traduzido do brâmane antigo para
o chinês por volta de 1749. Autor desconhecido.
Não comeces a falar ou agir antes que tenha pesado tuas palavras
e examinado a direção de cada passo que pretendes dar. Assim, a
desgraça fugirá de ti, e em tua casa a vergonha será desconhecida; o
arrependimento não te visitará, nem a tristeza pousará em tua face.
Escuta a voz da ponderação; suas são as palavras da sabedoria, e seus
caminhos te conduzem à segurança e à verdade.
O primeiro passo para a sabedoria é saber que nasceste
mortalmente ignorante.
Como os dias que passaram se foram para sempre, e os dias
futuros poderão não chegar a ti, cabe a ti, ó homem! fazer uso do estado
presente, sem lamentar a perda do que já passou, e sem depender demais
do que ainda virá; pois nada podes saber de teus futuros estados, exceto
o que tuas ações de agora disponham para eles.
A indolência é a mãe da carência e da dor; mas o trabalho pelo
bem, gera prazer. A mão da diligência derrota a necessidade; a
prosperidade e o sucesso acompanham o homem industrioso.
O homem ocioso é uma carga para si próprio, as horas lhe pesam
na cabeça; ele perambula e não sabe o que fazer. Seus dias passam como
a sombra de uma nuvem; ele não deixa nenhum sinal que o recorde.
Gostaria de comer a amêndoa mas detesta o trabalho de quebrar sua
casca.
Se teu coração tem sede de honrarias, se teus ouvidos sentem
prazer na voz do louvor, eleva teu eu mortal do pó de que foste feito; e
eleva teu propósito a alguma coisa digna de encômios. O carvalho que
ora estende seus ramos para o céu já foi apenas uma semente nas
entranhas da terra. Contudo, não invejes os méritos alheios e aperfeiçoa
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Mensagem dos Milênios
teus próprios talentos. Abstém-te também de depreciar teu competidor
por qualquer método desonesto ou indigno; antes, esforça-te para te
elevares acima dele unicamente tornando a ti mesmo superior. Assim,
tua luta pela superioridade será coroada com honra, ainda que não o seja
pelo triunfo.
Ouve as palavras da prudência, atenta para seus conselhos e
guarda-os em teu coração; suas máximas são universais e todas as
virtudes nela se apóiam; ela é guia e senhora da vida humana.
Põe um freio em tua língua; põe uma guarda diante de teus lábios,
para que as palavras de tua boca não destruam tua paz. Da fala excessiva
vem o arrependimento, mas no silêncio existe segurança. Não te gabes
de ti mesmo, porque isto lançará desprezo sobre ti.
Não deixes que a prosperidade arranque os olhos da
circunspecção, nem que a abundância corte as mãos da frugalidade.
Da experiência dos demais adquire sabedoria e de seus
sentimentos aprende a corrigir tuas próprias falhas.
Não deixes que o medo te impeça de fazer o que é correto; assim
estarás preparado para enfrentar todos os acontecimentos com a mente
equilibrada.
Os terrores, inclusive da morte, não trazem proveito. Não
aterrorizes tua alma com vãos temores, nem deixes que teu coração
sucumba por causa dos fantasmas da imaginação. Assim como o
avestruz enterra a cabeça quando perseguido, mas esquece o corpo,
assim os temores do covarde o expõem ao perigo.
Se acreditas que uma coisa é impossível, teu desânimo assim a faz;
mas aquele que persevera predomina sobre todas as dificuldades. Em
todos os teus desejos, permita que a razão te acompanhe; desta forma, o
triunfo acompanhará tua empresa, teu coração não será humilhado pelas
decepções.
Tu que és pai, reflete na importância do que te foi confiado; tens
o dever de sustentar o que produziste. Prepara-o desde cedo com a
instrução e tempera sua mente com as máximas da verdade. Observa
suas inclinações, mostra-lhe o caminho certo desde a juventude; não
permitas que hábitos maus ganhem força com o correr dos anos. Assim,
328
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Mensagem dos Milênios
ele crescerá como o cedro na montanha; sua cabeça poderá ser vista
acima das árvores da floresta. O solo é teu, não deixes que fique sem
cultivo; a semente que plantares, esta também colherás. Ensina-lhe a
obediência e ele te abençoará; ensina-lhe a modéstia, e ele não se
envergonhará. Ensina-lhe a gratidão e ele receberá benefícios; ensina-lhe
a caridade e ele ganhará amor. Ensina-lhe a temperança e ele terá saúde;
ensina-lhe a prudência e a fortuna lhe advirá. Ensina-lhe a justiça e ele
será honrado pelo mundo; ensina-lhe sinceridade e seu coração não te
reprovará. Ensina-lhe a diligência e suas riquezas aumentarão; ensina-lhe
a benevolência e sua mente será enaltecida. Ensina-lhe a ciência e sua
vida será útil.
Filho, ouve as palavras do teu pai, pois são para teu bem; dá
ouvidos a seus conselhos, pois eles procedem do amor.
A verdadeira sabedoria presume menos que a insensatez. O
homem sábio freqüentemente duvida e muda de idéia; o tolo é obstinado
e não duvida; ele conhece todas as coisas menos sua própria ignorância.
O homem sábio sente suas imperfeições e é humilde; em vão se esforça
por obter sua própria aprovação; mas o tolo olha o raso regato de sua
própria mente e se compraz nos seixos que vê ao fundo; ele os apanha e
os exibe como se fossem pérolas; deleita-se com o aplauso de seus
semelhantes.
O homem sábio cultiva sua mente com os conhecimentos; seu
prazer é o progresso das artes, e sua utilidade para a sociedade coroa-o
de honrarias. A ciência da felicidade é o estudo de sua própria vida.
Teu alimento, tuas roupas, a comodidade de tua moradia; a
proteção contra os danos, o gozo dos confortos e prazeres da vida; tudo
isto deves à ajuda de outros e não poderias usufruir disto senão nos laços
da sociedade. É teu dever, portanto, ser amigo da humanidade, como é
de teu interesse que o homem seja teu amigo.
Em teus negócios com os homens, sê justo e imparcial, e age com
eles como gostarias que agissem contigo.
Ó tu que estás enamorado das belezas da verdade, e fixaste teu
coração na simplicidade de seus encantos, apega-te a tua fidelidade e não
a abandones; a constância de tua virtude te coroará de glória.
329
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Mensagem dos Milênios
Os esforços que fazes para ocultar o que és são muito mais
penosos do que os esforços que terias de fazer para seres o que desejas
aparentar.
Tudo que possa fazer o bem também pode fazer o mal; cuida
para que dirijas seu curso para a virtude.
A finalidade da busca do homem sábio é a verdade; seus meios de
encontrá-la são a razão e a experiência.
A opinião geral não é prova da verdade, pois a maioria dos
homens é ignorante.
Tal como o pássaro encerrado na gaiola antes de vê-la, que não
lacera a carne contra as suas grades, assim também não deverás tentar
fugir inutilmente do estado em que te encontras.
Aquele que negligencia a hora presente, joga fora tudo quanto
possui.
O homem que se descuida de suas presentes ocupações para
resolver como se comportará quando for importante, alimenta-se com o
vento, enquanto outro come seu pão.
A natureza te induz à inconstância; guarda-te contra ela, portanto,
a todo momento.
As virtudes estão distribuídas de forma variada. Não procures
coisas impossíveis, nem te aflijas por não possuí-las todas.
Não penses em tua dor a não ser quando ela te atinja, e evitarás
aquilo que mais pode te ferir. O medo é um infortúnio maior que o fato
que o provoca.
Assim como a torrente que se precipita da montanha destrói tudo
o que arrasta, assim a opinião comum arrasa a razão daquele que a ela se
submete sem perguntar: qual o seu fundamento?
Cuida que aquilo que aceites como verdade não seja apenas uma
sombra da mesma! O que aceitas como convincente muitas vezes é
apenas plausível. Sê firme! Sê constante! Determina por ti mesmo!
Assim, só terás que responder por tua própria fraqueza.
Não condenes o julgamento de outro porque difere do teu; não
poderão ambos estar errados?
330
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Mensagem dos Milênios
Deves estar mais pronto a amar que odiar; assim serás mais
amado que odiado.
Não queiras instruir um outro naquilo que ignoras.
Não esperes amizade de quem te prejudicou; aquele que sofre o
mal pode perdoá-lo, mas quem faz o mal nunca se sentirá à vontade com
sua vítima.
Quantas coisas foram rejeitadas e hoje são recebidas como
verdades? Quantas hoje são aceitas como verdades serão por sua vez
substituídas?
Faze o bem que conheces e a felicidade estará contigo. Trabalhar
é mais tua tarefa que o pensamento especulativo.
Não deves dizer que a verdade é estabelecida pelos anos, ou que
há certeza numa multidão de crentes.
Uma proposição humana tem tanta autoridade quanto outra, a
menos que a razão as diferencie.
O desejo por aquilo que o homem considera o bem, a alegria que
ele sente em possuí-lo, só tem fundamento em opinião. Não sigas o
vulgar, examina tu mesmo o valor das coisas.
Aquele que se alegra com a felicidade alheia aumenta a sua
própria felicidade.
A alma do homem alegre impõe um sorriso à face da aflição; mas
o pessimismo do triste apaga o próprio brilho da alegria. A tristeza é
inimiga de tua raça, portanto deves expulsá-la de teu coração; ela
envenena a doçura de tua vida, portanto, não permitas que entre em tua
morada. Não permitas que ela se disfarce com o véu da piedade; não
deixes que ela te iluda com a aparência de sabedoria. A sabedoria te faz
feliz; fica sabendo, então, que a tristeza é uma estranha para ela. Como a
pérola é dissolvida pelo vinagre, que a princípio parece apenas
obscurecer sua superfície, assim tua felicidade é engolida pela opressão
interior, embora a princípio pareça apenas cobrir sua sombra.
Fica sabendo que não és tu quem deve dar leis ao mundo; o que
te compete fazer é harmonizar-te com elas à medida que as encontres. Se
elas te incomodam, tua lamentação só servirá para aumentar teu
tormento.
331
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Mensagem dos Milênios
As lágrimas podem rolar de teus olhos, embora a virtude não caia
de teu coração; cuida apenas para que haja motivo, e que elas não fluam
com excessiva abundância.
Não te sujeites a males onde não haja vantagens para receberes
em troca.
A glória, tal como uma sombra, foge de quem a persegue, mas
segue de perto os passos de quem dela foge; se tu a cortejares sem o
devido mérito, jamais a alcançarás; se a mereceres, ainda que dela te
escondas, jamais te abandonará.
Procura aquilo que é honroso, faze o que é direito; o aplauso de
tua consciência te dará muito mais alegria que os brados de milhões que
não sabem se os mereces.
Prefere acima de todas as outras a ciência que tenha maior
utilidade, o conhecimento dotado de menor vaidade; e tira proveito disto
em favor de teu próximo.
Cuida para que a prosperidade não exalte teu coração além da
medida; tampouco deixes tua mente deprimir-se profundamente quando
a fortuna for dura contigo. É difícil suportar bem a adversidade; mas ser
comedido na prosperidade é sinal de sabedoria.
Não permitas que a adversidade arranque as asas da esperança;
nem que a prosperidade obscureça a luz da prudência.
A dor que perdura longo tempo é moderada; a dor violenta é
breve; logo verás seu fim.
Vê, está tudo escrito em teu coração; só precisas ser lembrado
disto. São coisas de fácil concepção; sê atento e as reterás.
332
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aforismos selecionados de Benjamin Franklin
H
Aforismos selecionados de
Benjamin Franklin
Benjamin Franklin iniciou sua vida laborativa bem jovem, como
aprendiz na tipografia de um de seus irmãos mais velhos. Devorador de
livros, em poucos anos tornou-se ele mesmo um renomado escritor e
depois empresário tipógrafo-editor, com publicações de influência em
várias das colônias inglesas da América do Norte. Como estratégia para
elevar o padrão ético de seus conterrâneos colonos, enxertava em seus
escritos aforismos, alguns de sua autoria, outros literais ou adaptados de
outros pensadores renomados. Filantropo ativo, fez germinar
universidade, hospital e outras instituições promotoras do bem coletivo.
Com muito baixa escolaridade formal, enveredou para as pesquisas
científicas, com notáveis contribuições inovadoras, dentre as quais vale
destacar o auxílio na fundamentação da área da eletricidade, sem a qual
inumeráveis confortos da vida contemporânea seriam inviáveis. Por seu
trabalho, recebeu o título de doutor por mais de uma consagrada
Universidade. Mais tarde ingressou mais ativamente na política e
inspirado pelos ideais dos filósofos iluministas franceses, exerceu
importante papel na independência dos Estados Unidos da América. Tal
independência, a liberdade em relação ao jugo inglês, a primeira inspirada
em tal linha filosófica e bem sucedida, desencadeou uma sequência
rápida de outras, tanto na Europa quanto nas Américas. Já ao final de sua
existência, procurou promover vida mais digna aos escravos norteamericanos, bem como sua libertação, o que de fato veio a ocorrer
décadas após seu falecimento.
A figura de Benjamin Franklin é profundamente respeitada nos
EUA e mesmo em outras nações. Em sua autobiografia, escrita por volta
dos sessenta e cinco anos, definiu-se como uma pessoa feliz.
Ao que parece, nascemos e tendemos a nos desenvolver sem
noções claras e objetivas quanto aos meios efetivos para angariar o bem
333
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aforismos selecionados de Benjamin Franklin
estar interior. Neste sentido a abordagem experimental e empírica da
observação de exemplos concretos pode ser considerada de grande valia.
A leitura de alguma dentre as inumeráveis biografias de Franklin, que
tendem a cobrir toda a sua vida e suas múltiplas facetas e áreas de
atuação, se constitui numa experiência inspiradora para os jovens de
todas as idades.
Na sequência uma seleção de aforismos por ele divulgados:

Se orgulhar da virtude é envenenar-se com o próprio
antídoto.

Homens encontram-se, montanhas nunca.

Um zero e humildade fazem os outros algarismos e
virtudes terem dez vezes mais valor.

O sábio e bravo ousa reconhecer que estava errado.

Quando o orgulho vai na carruagem, a vergonha cavalga
atrás.

O orgulhoso odeia o orgulho; nos outros.

Não sejas sovina com o que não te custa nada, como
cortesia, conselho e apoio.

Nada é tão popular quanto a bondade.

Amor, tosse e fumaça não podem ser bem ocultados.

Avareza e felicidade nunca se veem; como podem então se
tornar familiares?

A ambição freqüentemente gasta tolamente o que a
avareza perversamente coletou.

A maldade é a fonte da insolência.

É mais nobre perdoar e mais viril desprezar, do que
vingar-se de uma injúria.

O que vós dais a impressão de ser, sejais realmente.

A astúcia procede da falta de capacidade.
334
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aforismos selecionados de Benjamin Franklin

Evite o ganho desonesto; nenhum preço pode
recompensar as angústias do vício.

A raiva não é nunca sem razão, mas raramente tem um
bom motivo.

A preguiça é um mar morto que engole todas as virtudes;
seja ativo no trabalho. Deste modo a tentação pode esquecer seu alvo. O
pássaro pousado é facilmente atingido.

Trabalhe como se você fosse viver cem anos. Reze como
se você fosse morrer amanhã.

Não esconda seus talentos. Eles foram feitos para o uso. O
que é um relógio de sol na sombra?

A diligência supera as dificuldades. A indolência as faz.

A raposa adormecida não caça pássaros. Mova-se!

A desconfiança pode não ser uma falha, mas exibi-la pode
ser uma grande.

Visite sua tia, mas não todos os dias e converse com seu
irmão, mas não todas as noites.

Enxerte sempre bons frutos ou não os enxerte de modo
algum.

Não fale com desrespeito com ninguém, de um escravo a
um rei; a moderada abelha tem e usará o ferrão.

Faz um inimigo, quem faz uma zombaria.

Investigues os outros por suas virtudes; tu mesmo por teus
vícios.

Nada seca mais rápido do que uma lágrima.

Quando o poço seca, nós conhecemos o valor da água.

A era de ouro nunca foi a era atual.

Palavras podem mostrar a inteligência de um homem, mas
ações, as suas intenções.

Uma adulação nunca parece absurda. A lisonja sempre é
levada a sério.
335
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aforismos selecionados de Benjamin Franklin

Caso a maioria dos homens desprezasse o que admira,
veríamos a humanidade crescer mais sábia.

Agora, eu tenho uma ovelha e uma vaca; todos me
oferecem bom amanhã.

A mocidade é atrevida e positiva. A maturidade modesta e
com dúvidas: Assim as espigas de trigo quando jovens e leves se elevam
corajosas para cima, mas inclinam suas cabeças quando pesadas, cheias e
maduras. (Pensamento originariamente de Leonardo da Vinci)

Aquele que se afasta do casamento, ou se iludirá ou será
iludido.

O tempo é uma erva que cura todas as doenças.

Após perdas e infortúnios, os homens crescem mais
humildes e sábios.

Os homens sofrem mais sendo falsos do que se corrigindo.

Os homens sábios aprendem pelos sofrimentos dos
outros; os tolos pelos seus próprios.

Um homem sábio obtém mais proveito de seus inimigos
do que um tolo de seus amigos.

Um falso amigo e uma sombra estão presentes apenas
enquanto o sol brilha.

Seja respeitoso com todos; sociável com muitos; familiar
com poucos; amigo para um; inimigo de nenhum.

Ame seus inimigos para que eles lhe contem suas faltas.

Mantenha guerra contra seus vícios, paz com seus vizinhos
e faça cada novo ano encontrá-lo um homem melhor.

A leitura plenifica o homem. A meditação aprofunda o
homem. O diálogo o purifica.

É mais fácil prevenir maus hábitos do que brecá-los.

Aquele que decide emendar-se no futuro resolveu não
emendar-se agora.

Negligencie a correção de uma pequena falta e em breve
esta se tornará grande.
336
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aforismos selecionados de Benjamin Franklin

Aquele que produz a si mesmo é mais sábio do que o que
produz livros.

Arrancar pela raiz a cada ano um hábito vicioso, em tempo
fará um homem ruim, inteiramente virtuoso.

As paixões de Nick crescem gordas e bem dispostas. Seu
entendimento está tuberculoso.

Cesar não mereceu o carro triunfante mais do que aquele
que conquistou a si mesmo.

A Virtude e a Felicidade são mãe e filha.

Você pode ser mais feliz que um príncipe se você for mais
virtuoso.

Muitos homens pensam que estão construindo Prazer,
quando na verdade estão se vendendo como escravos para ele.

Não venda virtude para comprar prosperidade ou
liberdade para comprar poder.

Limpe seu dedo antes de apontar as minhas manchas.

Não vá ao médico por qualquer mal estar; nem ao
advogado por qualquer querela; nem ao copo por qualquer impulso.

A bebida não afoga as preocupações, mas as rega e as faz
crescer mais rapidamente.

Aquele que derrama o rum perde somente a este. O que o
bebe, freqüentemente perde este e a si mesmo.

Um bom exemplo é o melhor sermão.

A riqueza e a felicidade não são sempre companheiras.

Bem feito é feito duas vezes.

Se é a paixão que impulsiona, faça a razão ter o controle.

Não se considere tão esperto ao ponto de esquecer a
esperteza dos outros. Um homem esperto é superado pela esperteza de
um homem e meio.

Uma pessoa querelante não tem bons vizinhos.

O homem honesto sofre e então desfruta prazeres. O
desonesto tem prazer e então sofre.
337
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aforismos selecionados de Benjamin Franklin

Quem faz o que não deve, sentirá o que não quer.

Muitas refeições são perdidas por se querer carne.

Maus ganhos são perdas certas.

Aquele que semeia espinheiros não deve andar de pés
descalços.

O silêncio não é sempre sinal de sabedoria, mas falatório é
sinal de tolice.

O contentamento é a pedra filosofal que transforma tudo
que toca em ouro.

Aquele que persegue duas lebres de uma só vez, não
alcança a primeira e deixa a outra escapar.

Ah! Homem simplório. Quando jovem duas pedras
preciosas te foram dadas: Tempo e Bons Conselhos. Uma tu a tendes
perdido e a outra, a jogastes fora.

Mantenha tua profissão e tua profissão te manterá.

Aquele que quer elevar-se até a corte, deve iniciar de baixo.

Aquele que levanta-se tarde, deverá trotar todo o dia e mal
alcançará seu trabalho a noite.

Aquele que fala mal da égua, a comprará.

Quão poucos são os que tem coragem suficiente para
reconhecer suas faltas, ou resolução bastante para corrigi-las!

Um camponês entre dois advogados é como um peixe
entre dois gatos.

Aquele que pode viajar bem a pé mantém um bom cavalo.

Existem muitos homens esquecidos de sua própria posição
e se intrometendo com a administração do governo. 'Isto é errado e isto
é certo e tal lei é inteiramente fora de razão.' Assim gastam muitos
pensamentos com os negócios de estado; o trabalho que lhes cabe é
negligenciado. Assim apaixonados, fitando as estrelas, tropeçam na vala
próxima e ganham um traseiro sujo.

Nenhuma relação melhor que um amigo fiel e prudente.

Não há amores feios nem bonitas prisões.
338
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aforismos selecionados de Benjamin Franklin

Na casa de um homem trabalhador a fome passa
rapidamente e os riscos não entram.

Um bom advogado; um mau vizinho.

Coma poucos jantares e você não precisará de muitos
medicamentos.

Você terá cuidado se for sábio, como tocará a religião, ou
as crenças, ou os pontos de vista dos homens.

Após peixe, não se deseja leite.

Errar é humano; arrepender-se divino; persistir, perverso.

Diligência paga dívidas; desespero as aumenta.

Bem feito é melhor que bem dito.

Esquecer põe fim às injúrias; desforrar-se as aumenta.

Mantenha a consciência límpida, então nada temerá.

Fazer uma injúria lhe põe abaixo de seu inimigo; vingar-se
de uma lhe põe no mesmo nível que ele; esquecê-la lhe coloca acima
dele.

Grande bondade sem prudência é um grande infortúnio.

Se você quer ter hóspedes felizes e dispostos, esteja você
assim ou ao menos se mostre deste modo.

O homem pobre deve caminhar para obter comida para
seu estômago; o homem rico para conseguir estômago para sua refeição.

A pior roda da carroça faz o maior barulho.

Usar o dinheiro é toda a vantagem que há em ter dinheiro.

Aquele que desperdiça pequenas somas, não somente
perde em vão a estas, mas todas as outras vantagens que poderiam ser
obtidas se fossem transformadas em negócios, os quais no tempo em
que um homem jovem se torna velho se transformariam numa
confortável bagagem de dinheiro.

O queijo do rei tem muita casca. Não importa; ele é feito
com o leite do povo.

Seja lento em escolher um amigo; mais lento ainda em
abandoná-lo.
339
Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Aforismos selecionados de Benjamin Franklin

A experiência mantém-se uma estimada escola, ainda que
tolos não aprendam em nenhuma outra.

Quantos observam o Natal; quão poucos os preceitos de
Cristo. É mais fácil guardar feriados que mandamentos.

Quem é rico? Aquele que se alegra com seu quinhão.

Tem você algo para fazer amanhã; faça hoje.

Um advogado estando doente e extremamente mal foi
movido por seus amigos a fazer seu testamento. Ele logo o fez, dando
toda a riqueza que tinha a pessoas desvairadas, lunáticas e loucas. E a
seus amigos a razão disto revelou, que eles puderam ver, com equidade
decidiu. - Das mãos de homens loucos eu recebi minha riqueza: assim
para as mãos de homens loucos eu as deixo.

Riqueza não é ter coisas, mas desfrutar delas.
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Etigenia. Ética, moral e engenharia.
Referências
Referências
O conteúdo desta obra foi estudado e sua redação se estendeu
por ao menos três anos. Neste período os recursos de coleta de
informação, disponível gratuitamente na internet, foram muito
intensamente utilizados. A foco era o do processamento da informação e
não o do registro das fontes. Desta forma o abaixo indicado representa
apenas uma parte do material bibliográfico empregado.
edição. 2013.
Aquino, T. G. Comunicações pessoais. Outubro de 2013.
Aristóteles. Ética a Nicômaco. Editora Martin Claret. 6a
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Candiotto, Cesar. Ética. Abordagens e Perspectivas.
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Referências
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Ferreira, Aurélio Buarque de Holanda. Novo Aurélio,
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343

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