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Leia e dê a sua opinião
ED. 05 - 2014
DADOS
QUE VIRAM O JOGO
Como a tecnologia está
mudando os rumos
do esporte
Michael Jordan
“Uma coisa na qual eu
acredito piamente é que,
se você conquista algo
como um time, as glórias
individuais virão por
conta própria. Talento
ganha jogos, mas trabalho
em equipe e inteligência
ganham campeonatos”
Michael Jeffrey Jordan (Nova Iorque, 17 de fevereiro de 1963)
é ex-jogador profissional de basquetebol norte-americano.
Considerado por especialistas um dos maiores jogadores de
todos os tempos, brilhou no basquetebol nos anos 80 e 90
e entrou no Hall da Fama do esporte em 2009.
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A revista Pense foi projetada para que você possa refletir sobre
o mundo atual em diversas plataformas. Baixe nosso aplicativo
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o nosso blog: http://revistapense.wordpress.com.
Insight
A
tecnologia
a favor do
esporte
Rodrigo Kede
Presidente da IBM Brasil
Emoções não faltaram na Copa e o nosso sonho do hexa
escapou, de forma trágica, nas semifinais. Enquanto você
assistia e, provavelmente, comentava no Facebook ou no
Twitter, uma equipe da IBM varria as redes sociais para
ouvir a opinião dos brasileiros. No jogo em que fomos
eliminados, foram quase 7 milhões de posts em português
avaliados em tempo real pela tecnologia de Análise de
Sentimento Social da IBM, chegando ao pico de 72 mil
posts publicados por minuto. David Luiz surgiu com 57%
de menções positivas neste jogo e foi o grande destaque
na opinião dos torcedores durante a Copa.
Enquanto acompanhamos nosso esporte favorito, estamos gerando informações. Soluções de análise de dados
permitem que aquilo que dizemos nas redes sociais seja
realmente ouvido e torne-se a voz de toda a nação. Nesta
Copa, nos tornamos bilhões de especialistas, elegendo o
craque das redes de cada partida. E essa é apenas uma
das maneiras com as quais a tecnologia pode mudar o
mundo dos esportes.
Numa velocidade de fundista olímpico, as novas tecnologias se espalham por várias modalidades. Recordes de
décadas foram desbancados quando os maiôs da natação
começaram a evoluir, graças ao advento de novos materiais. Soluções como o IBM Slam Tracker conseguem
prever qual jogador tem mais chances de vencer uma partida comparando seu desempenho atual com o passado.
Equipes de rúgbi e futebol sabem quando um esportista
pode se lesionar antes mesmo que isso aconteça. E hoje
é possível filmar, analisar e melhorar os movimentos dos
atletas usando apenas um tablet e um aplicativo gratuito.
Porém, se os números e estatísticas não podem mais ser
ignorados pelos técnicos e atletas do presente e do futuro,
eles também nunca serão capazes de contar a história
inteira. Dados não geram insights sozinhos. Os títulos e glórias sempre dependerão da capacidade dos seres humanos de dar sentido aos dados e de usá-los para contribuir
com o talento de cada esportista.
Nesta edição da Pense, convido você a entrar no mundo
dos esportes pela porta da tecnologia. E já adianto: ela dá
acesso ao futuro. O que podemos esperar de mudança
nos esportes com a popularização das novas tecnologias?
Como vamos acompanhar e praticar nossos esportes
favoritos? Quais os limites do corpo humano tendo como
aliada a análise de dados? Como em qualquer jogo hoje
em dia, os resultados não são mais tão imprevisíveis, mas
as possibilidades são infinitas.
Abraços,
Rodrigo Kede
nesta edição
#05
O espírito esportivo da tecnologia
O corpo é o templo do homem. É o que o torna um indivíduo, é o suporte para suas ideias e a ferramenta para suas realizações práticas. Talvez por isso o esporte mobilize tantas paixões. O atleta
leva seu corpo ao limite, conquistando marcas incríveis, quase sobre-humanas, como os recordes
de Michael Phelps na natação e os de Usain Bolt nas pistas.
Se nas Olimpíadas da Antiguidade os vencedores deviam seus louros apenas à disciplina dos treinamentos, atualmente os atletas lidam com mais elementos nessa equação. Os “semideuses” de hoje
têm à disposição inúmeras ferramentas de análise de dados que levam a máxima do “conhece-te a
ti mesmo” de Sócrates (o filósofo, não o jogador) a níveis nunca imaginados pelos gregos antigos.
Fotografias
O fotógrafo inglês Bob
Martin é especializado em
imagens de esportes. Por
conta de sua atenção aos
detalhes comparável à dos
especialistas em análise de
dados, emprestamos sua
arte para ilustrar esta edição.
Cada movimento é percebido, cada pulsar do sistema fisiológico é captado, tudo é contabilizado,
comparado e analisado. A tecnologia fez com que o esporte se tornasse uma verdadeira fonte
de inovações para diversas áreas do conhecimento: medicina, biomecânica, desenvolvimento de
materiais, entre outras. No esporte moderno, o homem também se alia à tecnologia para melhorar
sua tática, para conhecer o adversário e escolher a melhor jogada, o melhor treino. E essa mesma
tecnologia aproxima o torcedor do seu esporte favorito, fornecendo estatísticas em tempo real e
novas maneiras de interagir com fãs de qualquer lugar do mundo.
Em todos esses aspectos, os dados estão mudando o jogo. Isso, claro, se tivermos as ferramentas adequadas para interpretá-los – a tecnologia e a inteligência humana. Nesta edição da Pense,
você vai saber como esses elementos combinados estão profissionalizando cada vez mais o
esporte e elevando a capacidade do atleta à máxima potência. A tecnologia, mais do que nunca,
entra em campo com o homem. Mas os artilheiros ainda somos nós.
Seja bem-vindo. Conheça, explore, reflita: pense!
5
EXPEDIENTE #05
ANO 2 - JULHO ‘14
www.ibm.com/br
[email protected]
A revista Pense é uma publicação
trimestral da IBM Brasil
IBM Brasil:
Presidente: Rodrigo Kede
Esta edição contou com os pontos de vista de:
1
2
1. Marco
Antonio Lauria
Ciclista nas horas
vagas, ele está
cercado de tecnologia
dentro e fora da IBM.
3
2. Flavio
Gomes
Diretor de Marketing e Comunicação:
Mauro Segura
Edição: Flávia Apocalypse [email protected], Camila Della Negra [email protected] e Giulia De Marchi [email protected]
Comunicação Invitro:
Publisher: Bruno Chaves
Coordenação de Atendimento: Carla Uyara
Atendimento: Simone Vargas
Jornalista e piloto,
reflete sobre
a evolução do
automobilismo.
Editor e Repórter: Diogo Rodriguez
3. Fernando
Aranha
Projeto Editorial: Comunicação Invitro
Para-atleta premiado,
ele usa a tecnologia
para superar seus
limites.
Jornalista Responsável: Diogo Rodriguez
Repórteres: Daniela Varanda e Raquel Sepulveda
Projeto Gráfico: Maysa Simão
Designer Responsável: Maysa Simão
Designers: Ladylaine Machado, Murillo
Prestes e Rogerio Chagas
Ilustração: Luís Dourado
Fotografias: Caio Kenji e Sergio Horovitz
Editora Digital: Comunicação Invitro
Revisão: Lis Silva Hall
Gráfica: Igil
Tiragem: 18.000 exemplares
Artista
de Capa
Conheça mais sobre
o trabalho do artista,
acesse
bobmartin.com
Mantenha o planeta limpo
6 Olhares
Quem colaborou nesta edição
8 Nossa Cara
Fabiana Galetol, líder do projeto “Craque
das Redes”, conta por que estava de
olho nos jogos da Copa
10 Horizontes
O IBMista Marco Antonio Lauria
profissionalizou seu hobby aliando o
ciclismo à tecnologia e à análise de dados
24 Crônica
14 a 23
Capa
A tecnologia entrou em campo e
vem mudando a maneira como
atletas de todos os esportes treinam, preparam o corpo e desenvolvem sua estratégia
26
Entrevista
Um dos maiores jogadores brasileiros de todos os tempos, Zico
fala sobre tecnologia aplicada ao
futebol e as inovações que ainda
devem ser colocadas em prática
30
Memória
O IBMista Ricardo Carvalho já participou de três Olimpíadas. Hoje,
relembra sua experiência como
atleta profissional do remo
O que é mais importante para vencer
uma corrida: o talento do piloto ou
a tecnologia dos carros?
36 Bastidores
Todos na segunda tela: entenda o
fenômeno que vem mudando a nossa
forma de acompanhar programas e
esportes pela TV
38 Top 5
Cinco esportes que se transformaram
com a evolução da tecnologia
40 Techmob
Para jogar o relembrar: os melhores
jogos de esporte para videogame ou
PC, escolhidos pelos IBMistas
42 Ponto final
Com determinação, nada é impossível.
A história de um para-atleta que vive
em busca de movimento
7
Nossa Cara
foto Caio Kenji
Leia mais sobre o trabalho
de Fabiana em seu tablet
Nome:
Fabiana Galetol
Profissão:
Economista, com
pós-graduação em Comércio
Internacional e Marketing
Cargo:
Executiva de Branding e
Comunicação Externa
Local:
IBM Tutóia (SP)
Projeto:
Craque das Redes Paixão feita com dados
As palavras “paixão” e “dados” parecem não ter nada em comum,
mas Fabiana Galetol entende bem
a conexão entre elas. Essa foi a sua
missão durante a Copa: dar voz à
paixão dos brasileiros pelo futebol.
O projeto “Craque das Redes
– Paixão feita com dados” é
parte do novo posicionamento
de mercado da empresa: “Feito
com IBM”. “Com uma solução
criada pelo Laboratório de Pesquisas brasileiro, analisamos
as postagens em português de
milhões de torcedores nas redes
sociais e disponibilizamos os dados antes e depois dos jogos,
por meio de uma parceria de
conteúdo com a TV Globo, Band
e ESPN.com”, conta. Para ela,
essa é uma maneira de falar de
Analytics com todos os públicos.
“Ela mostra facilmente para o
nosso cliente e para a população
em geral o potencial e o alcance
da análise de dados”, diz.
Passados os jogos, Fabiana
continua liderando a campanha,
a qual vai divulgar casos de sucesso de empresas de todo o
mundo que mostram como as
novas tecnologias podem mudar
o nosso cotidiano e como a IBM
atua como parceira deles nessa
jornada. “Vamos ouvir dos clientes como eles estão se transformando e como nós os estamos
ajudando”, finaliza Fabiana.
9
Horizontes
Vento
nos pés
Texto Marco Lauria Foto Caio Kenji
horizontes
Veja mais fotos no aplicativo
da Pense para tablets
Marco Antonio Lauria é ciclista amador, mas poderia ser
profissional. O IBMista leva o hobby a sério e conta sobre
como a tecnologia está presente na sua rotina de treinos
Sempre me interessei por esportes. Mas foi durante a universidade que comecei a praticar regularmente a corrida. Fiz
engenharia eletrônica na UFRJ, onde também cursei várias
matérias de educação física, apenas pelo interesse no esporte. O ciclismo só veio anos depois, por recomendação
médica para tratar uma lesão no joelho. Acabou virando a
minha maior paixão.
Quando eu trabalhava na IBM em Hortolândia (SP), comecei
a praticar mountain bike (modalidade de ciclismo em terrenos
acidentados) nas trilhas em Sousas e Joaquim Egidio, distritos
da cidade de Campinas. Às segundas-feiras, organizávamos
um passeio noturno que percorria entre 50 e 80 quilômetros
e íamos até o Observatório do Capricórnio. Junto com outros
fãs do esporte, ajudei a criar um grupo noturno de ciclistas,
o Night Bikers Campinas. Uma vez, a turma organizava um
treino de estrada na Rodovia dos Bandeirantes. O trajeto era:
sair de Campinas, ir a São Paulo e voltar. Éramos um grupo
grande e, com isso, tínhamos várias opções de ritmo de pedalada para escolher.
Gosto do contato que o ciclismo proporciona com o que está
em volta. A pessoa sente a temperatura, os cheiros, ouve o
que está ao seu redor. É muito legal para conhecer novos
11
lugares. Fazendo cicloturismo, é possível ter um contato com
o ambiente que o carro não permite. E ainda se anda bem
mais rápido do que se estivesse a pé.
De 1991 a 1994, morei nos Estados Unidos. No começo, trabalhei no Thomas Watson Research Center, em Hawthorne,
e depois nos laboratórios da IBM no Research Triangle Park,
onde desenvolvi os produtos de rede de comunicação sem
fio. Nessa época, tive que conviver com uma realidade diferente. O inverno de Nova Iorque, por exemplo, é muito frio,
e isso chegava a atrapalhar os treinos. Mesmo assim, não
deixei o esporte de lado. Me inscrevi em grupos e clubes de
ciclismo e participei de algumas century rides, provas e passeios que percorrem 100 milhas (160 quilômetros) e chegam
a durar até 12 horas.
Aproveitei a oportunidade de viver fora para me aprofundar
nos diversos aspectos associados ao ciclismo. Comecei a me
interessar por nutrição esportiva e passei a fazer minha planilha de treinos e periodização. Eu planejo meu treino (o volume
e a intensidade) para que o pico do meu condicionamento
físico ocorra em uma determinada época, normalmente, próximo de uma prova. Existe toda uma metodologia para fazer
estes ciclos de forma a otimizar o ganho de performance.
Trabalho com tecnologia desde os 15 anos, quando terminei
a escola técnica e entrei na faculdade, porém os frequencímetros começaram a se tornar populares quando estava trabalhando nos Estados Unidos. Naquela época, a Polar estava
lançando os primeiros modelos do equipamento, e comecei
a usá-los junto com um software para monitorar o tempo do
treino nas diversas faixas de frequência cardíaca.
Fui incorporando as tecnologias à medida que elas foram disponibilizadas para o público. Primeiro foi o básico, frequencímetro; depois, o pedômetro e o GPS para medir velocidade
e distância; computadores; e, finalmente, medidores de potência na bike. Também uso vários softwares para interpretar
o resultado, pois só medir não adianta. Além disso, é preciso
ver o esporte de forma mais abrangente. Não é só treinar. É
um estilo de vida que engloba cuidados com a alimentação e
recuperação, incluindo o repouso. Eu leio muito, minha principal forma de aprendizado é essa. Converso com profissionais,
pois, com isso, consigo aplicar um pouco da teoria e da técnica na prática. Normalmente é uma colaboração bidirecional,
pois eles têm experiência, mas falta conhecimento. Minha esposa também é atleta e personal trainer.
Participei de um workshop, em março de 2011, com o
Hunter Allen, técnico da equipe americana de ciclismo, ex-atleta profissional, com mais de mil vitórias, que é um dos
maiores especialistas na área. Fiz o curso para me aprofundar
na análise de dados e em como aplicar os conceitos na prática, nos treinamentos. Conheço o treinador há muitos anos
e participei de um workshop de uma semana, em Curitiba,
na única vez em que ele esteve no Brasil. Tinha uma ótima
base teórica na ocasião, já que era usuário do software há
muitos anos e conhecia todos os fundamentos apresentados.
O workshop foi uma oportunidade única de confrontar minha
interpretação dos dados com a dele, que vive disso e treina
muitos atletas. Tivemos uma troca de experiências interessante. Ele se interessou por um trabalho que eu tinha desenvolvido anos antes com uma assessoria esportiva e incorporou
alguns conceitos em sua análise.
Passei a utilizar um software que armazena as informações
na nuvem, porque posso acessá-las de qualquer plataforma.
horizontes
A nuvem também permite que eu verifique os dados no iPhone e no iPad, e isso para mim é importantíssimo. Este programa apresenta um painel com informações sobre o nível atual
de condicionamento e desgaste, identifica se o atleta está
“overtraining” (treinando em excesso) e monitora sua alimentação e gasto calórico. Além disso, ele disponibiliza um técnico à distância, que prescreve um programa de treinamentos
personalizado. Depois da execução, é possível fazer o upload
dos dados na nuvem, os disponibilizar para a análise e receber
o feedback do treinador.
Hoje em dia, treino de oito a dez horas por semana. Pratico
pilates e corro cerca de três vezes por semana. Pelo menos
uma vez por mês, faço um treino de bike mais longo, de mais
de seis horas. E, umas duas vezes por ano, viajo de bicicleta.
Já fui à França três vezes, à Itália e, no ano passado, fiz o
Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha. São 900
quilômetros em 12 dias.
Esse hábito de coletar dados trouxe outros benefícios que vão
além das pedaladas. Tenho um conhecimento muito bom do
meu corpo, sei o que funciona e o que não funciona. Consigo, de forma clara, identificar se estou progredindo ou não e
se estou treinando demais. Dá até para perceber com antecedência se estou para ficar doente. Procuro comer melhor,
me alimentar com comidas mais saudáveis. Busco fazer um
treinamento equilibrado com um trabalho de base no pilates,
para fortalecer o core (grupos musculares do abdome e da
coluna lombar), e um específico na bike.
Acho que um treinamento adequado possibilita construir uma
base sólida, com menos possibilidade de lesão e menos desgaste. Isso permite prolongar a minha “vida útil” de esportista.
Pretendo pedalar minha vida toda. Conheço atletas com mais
de 80 anos, e minha intenção é seguir pelo mesmo caminho.
Penso inclusive em fazer algo relacionado com o ciclismo
quando me aposentar da área técnica. Aliando sempre a tecnologia ao esporte, tenho várias possibilidades pela frente.
Marco Antonio Lauria, 49,
é diretor de Analytics e Big
Data no time de Software
para a América Latina,
pratica ciclismo nas horas
vagas e é aficionado por
tecnologias do esporte.
13
Capa
15
Por Diogo Rodriguez
Artista Robert Martin
Na Pense para tablet,
veja mais exemplos de
como a tecnologia pode
mudar o jogo
capa
A
vitória
construída com dados
A tecnologia está cada vez mais presente nos
esportes: do corpo dos atletas, passando pela
tática das equipes e os materiais de competição.
Em um mundo cada vez mais competitivo, os
detalhes determinam os verdadeiros campeões
Vencer no esporte é provar quem é o melhor, o mais preparado, o mais astuto e o mais atento. Em campo, em quadra, na
pista ou na raia, quem mais se esforça durante aqueles poucos minutos (ou segundos) consegue levar todas as glórias
de uma só vez para casa. Mas, claro, o momento da competição é apenas uma expressão – às vezes injusta – de dias,
meses e anos de sacrifícios prévios feitos em longos treinos.
Resumem-se vidas passadas na lapidação de um talento em
alguns atos decisivos, que levam a medalhas, troféus ou à
mais simples decepção.
Mas o corpo tem limites. Ele pode ir até certo ponto. O século XX viu surgir novamente o ideal olímpico grego, resgatado pelo Barão de Coubertin, criador do Comitê Olímpico
Internacional, nos jogos de Atenas, em 1896. E viu também
a tecnologia se aliar aos atletas para fazê-los alcançar a excepcionalidade que os antigos gregos já buscavam há mais
de 2.700 anos. Se antes se procurava nos céus a razão para
conseguir ir mais além, os homens e mulheres de hoje sa-
bem que precisam de conhecimentos avançados para que
a técnica, a tática, o corpo e seus equipamentos sejam seu
suporte para a vitória.
E o esporte de hoje oferece milhares de possibilidades aos
treinadores, técnicos e atletas. Os avanços tecnológicos
abrangem todos os aspectos do esporte e auxiliam no monitoramento de performance, na inteligência tática e no planejamento dos aspectos físicos e técnicos. Atualmente não é mais
possível competir em alto nível sem ter uma estrutura mínima
para capturar dados dos atletas, das equipes e dos adversários, de modo a montar estratégias e planejar treinamentos
específicos para cada tipo de necessidade.
Até onde técnicas e aparelhos podem ajudar? E qual é o papel do esportista neste novo mundo repleto de dados e novos
equipamentos? A Pense conversou com atletas, preparadores físicos, médicos, treinadores e especialistas da IBM para
entender melhor a relação entre o esporte e a tecnologia.
17
O corpo é o templo
O corpo é o principal instrumento
de qualquer atleta e, como todos
os instrumentos, hoje ele pode ser
“ajustado” de diversas maneiras.
Preparador físico da equipe sub-20
do Palmeiras, Thiago Maldonado
enumera algumas dessas possibilidades: “Com a evolução da ciência
dos esportes, da fisiologia do exercício e da biotecnologia, podemos monitorar e quantificar o desempenho físico de um jogador de várias formas.
Isso nos permite atingir melhores
níveis de desenvolvimento das capacidades físicas destes atletas. De
forma geral, é possível utilizar desde
análises bioquímicas a testes físicos
diretos e indiretos para mapear fisiologicamente estes profissionais”.
Jomar de Souza, especialista em
Medicina do Exercício e do Esporte
e diretor da Sociedade Brasileira de
Medicina do Exercício e do Esporte
(SBMEE), detalha: “A ergoespirometria, os testes de lactato, a análise
de velocidade e do gesto desportivo, através de câmeras especiais, e
aparelhos de contração isocinética
são tecnologias de ponta e usadas
para avaliação dos atletas de elite. Os
aparelhos medem a capacidade cardiovascular e respiratória; o acúmulo
e processamento do ácido lático; a
velocidade e a biomecânica do movimento; a força e a potência muscular.
Muito comuns também são os chips
monitorados via GPS para medir a
distância percorrida pelo atleta em esportes como o futebol”. Esse mapeamento completo do corpo dos atletas
faz com que “os pontos fracos possam ser mais facilmente detectados
e treinados para a melhora da performance”, segundo Souza. Além disso,
“por meio destas novas tecnologias,
conseguimos determinar melhor as
características físicas e fisiológicas de
cada atleta, otimizando, assim, seu
treinamento e fazendo com que ele
atue em funções mais compatíveis
com aquelas características”, afirma.
O preparador físico Márcio Atalla
lista mais dois aspectos positivos
das técnicas de monitoramento do
corpo: “Elas geram dados da intensidade do exercício, o que facilita
modular os treinos. Também geram
informações sobre a execução correta e como melhorar a técnica do
movimento, evitando alguns tipos de
lesão”. E é justamente neste aspecto que o Dr. Jomar Souza vê uma
grande evolução, principalmente no
campo do trauma esportivo. “Por
exemplo, hoje é raro que um atleta
com lesão no joelho não consiga
retornar à competição no mesmo
nível pré-lesão. Os procedimentos
cirúrgicos e de reabilitação evoluíram muito.” Eles são menos invasivos e podem ser feitos com algumas
aberturas mínimas no corpo. Técnicas de imagem - como ressonância
magnética e tomografia - ajudam os
médicos a identificar onde estão as
lesões e evitam cirurgias em casos
em que isso é desnecessário.
capa
David Epstein, jornalista americano especialista em ciência do esporte, detalha, em entrevista ao TED, como
a análise do corpo está sendo usada: “A Dinamarca e a
Holanda estão fazendo biópsias musculares e testando
atletas em diferentes esportes com base nisso. Ou, se os
atletas se estagnam no treinamento, você pode montar
um treino para a fisiologia específica deles, a fim de conseguir efeitos melhores. Isso é muito bom e pode ser feito
com intervenções simples”. Na opinião de Epstein, vamos
continuar a nos mover nessa direção - ao treino individualizado -, para conseguir o melhor ambiente de treino para
cada indivíduo.
“Ainda é fundamental interpretar e aplicar corretamente
os dados obtidos para modular as cargas de treinamento,
melhorando a performance esportiva e minimizando os riscos de lesões”, afirma Thiago Maldonado. Com essa preocupação em vista, a IBM fez em 2012 uma parceria com
a equipe australiana de rúgbi New South Wales Waratahs, para
diminuir o número de jogadores lesionados na temporada.
Para isso, foram coletados históricos médicos dos atletas, mais de cem variáveis dos monitores GPS usados nos
treinos e relatórios de bem-estar. Todos estes dados são
analisados por uma solução de Analytics da IBM. O time
recebe, então, um relatório que mostra as probabilidades
de os jogadores terem algum tipo de lesão, baseado nos
dados históricos e na performance semanal dos atletas.
No caso de um deles apresentar uma propensão maior a
se machucar, os técnicos e médicos do time podem mudar a intensidade do treino e diminuir os riscos, preservando a equipe.
“Com a evolução
da ciência dos
esportes, da fisiologia
do exercício e da
biotecnologia,
podemos monitorar
e quantificar o
desempenho físico”
Thiago Maldonado
19
A prática leva à perfeição
Além de “olhar” o corpo por dentro, é
preciso observar como ele se comporta
externamente, para que o atleta execute com a maior precisão possível os
movimentos de seu esporte. O vídeo
tornou-se um dos maiores aliados para
ajudar os esportistas a aperfeiçoarem a
técnica. As mais diversas modalidades
usam filmagens dos movimentos: futebol, natação, golfe, basquete, atletismo,
bobsled, luge. A lista é interminável.
Larry Katz, professor e diretor do Laboratório de Pesquisa em Tecnologia
do Esporte da Universidade de Calgary,
no Canadá, explica: “Nós fazemos mais
do que apenas olhar as imagens. Nós
inserimos diversos marcadores: tempo
é um deles. Podemos olhar para outras
forças, a depender do esporte”. Na natação, por exemplo, “nós relacionamos
o vídeo ao tempo na execução dos
movimentos, às forças que o atleta usa
nas paredes da piscina, na plataforma,
os movimentos da perna esquerda, da
perna direita”, afirma.
O ex-nadador profissional Gustavo
Borges explica como o vídeo é usado
pelos técnicos da modalidade: “Analisam o ângulo de braçada, a velocidade com que o atleta chega aos 15,
25, 30, 35 metros. O tempo de reação
na saída, como ele sai do bloco, como
entra na água. Quanto mais detalhes
você tiver, mais consegue evoluir no
treino. A filmagem é padrão, mas é
possível ter marcações diferentes
dentro da piscina”.
Para extrair os dados das imagens,
softwares especiais são utilizados. Um
deles é o DartFish. “Creio que, entre todas as equipes que ganharam medalhas nos jogos de inverno, 60% usaram
esse programa. Você captura as imagens com uma câmera, põe o vídeo
no Dartfish e faz todo tipo de análise”,
conta Katz. Pode-se dizer ao programa
o que se deseja ver e, então, ter essa
informação individualizada. “Você consegue obter a performance individual
de cada jogador no futebol. É possível
saber tudo o que um atleta faz: jogadas
ofensivas, defensivas, posse de bola,
chutes a gol”, afirma.
Para Katz, o uso da tecnologia não
traz nada substancialmente diferente
do que já era feito antes de as filmagens e os computadores se tornarem
acessíveis. Ela melhora algo que os
técnicos sempre fizeram, mas não
podiam sistematizar. “No fim, o que
é análise de performance? É um processo feito com os próprios olhos: um
técnico vai observar você em ação no
treinamento ou na competição. Vão
tentar fazer análises antes, durante e
depois. Depois, vão avaliar esse material: interpretá-lo e tomar algumas
decisões. Então, dar feedback: qual é
o movimento correto, o que vai fazer
você mudar sua performance e melhorá-la. Aí, vamos planejar com base
nisso. É um círculo”, opina.
Também é possível usar dados individuais para tentar “adivinhar” se um
jogador pode vencer o jogo. Esse é o
caso do Slam Tracker, ferramenta de
análise de dados em tempo real da
IBM (leia mais sobre ela na seção “Bastidores”). Ela usa um banco de dados
histórico a respeito de cada jogador,
complementado por “informações que
está recebendo em tempo real, que
vão influenciar esse modelo probabilístico e analítico”, diz Carlos Tunes,
líder de Business Analytics da IBM.
Na versão do aplicativo para atletas,
as informações servem para ajudar os
técnicos e jogadores a tomarem decisões com variáveis em tempo real. Ele
dá um exemplo: “O modelo está informando, no caso do tênis, que você
tem que fazer um saque forte no lado
direito. Só que existe uma informação
em tempo real, que é a velocidade do
vento. Esse dado é importante porque
o meu saque forte está sendo atenuado por um vento contra. Vale a pena
ou não sacar forte? A análise de agora,
baseada nos dados do passado, está
sendo influenciada pelo que está acontecendo no momento”.
capa
De olho
nos melhores
Um campo que vem ganhando espaço
hoje também está relacionado à performance individual dos atletas, mas considera sua eficiência em executar os
fundamentos do esporte. Cada vez mais
se utilizam recursos estatísticos, principalmente nos esportes coletivos, para
acompanhar o desempenho dos jogadores ao longo da partida e no passado.
O Wyscout é um serviço que analisa
mais de mil jogos de futebol por semana, em ligas do mundo todo. Sua base
conta hoje com cerca de 200 mil jogadores listados, que podem ser filtrados
por vários critérios: eficiência no passe,
nas finalizações, performance em jogos
importantes, lesões e outras variáveis.
É possível pedir ao sistema que mostre qual é o melhor goleiro na Itália, de
acordo com a proporção entre defesas
e chutes ao gol sofridos, ou selecionar
só os jogadores que tiveram mais de
80% de aproveitamento em chutes a
gol, por exemplo. A ideia é ajudar os
clubes profissionais do mundo a con-
tratar jogadores com as características que melhor se encaixem em seus
respectivos times. “Os clubes querem
que nos aprofundemos porque precisam investir em jovens talentos. Então,
nosso objetivo não é fazer a análise de
performance do Cristiano Ronaldo, do
Bale. A meta é achar o novo Cristiano,
o novo Bale, antes de eles se tornarem jogadores de sucesso”, diz Matteo Campodonico, fundador e CEO da
Wyscout, criada em 2004.
O clube paulistano Corinthians é cliente da plataforma. No segundo semestre de 2012, o até então desconhecido
atacante peruano Paolo Guerrero foi
contratado para ser o centroavante do
time, o que deixou a torcida desconfiada. Autor dos dois gols do Corinthians
no título do Mundial de Clubes daquele ano, Guerrero virou ídolo do clube e
mostrou o porquê de sua contratação.
“No dia seguinte [ao título], o time declarou que havia comprado Guerrero graças ao Wyscout. Então, a tecnologia auxiliou o Corinthians a comprar o jogador
que ajudou o time a ganhar o Mundial.
Depois disso, o mercado brasileiro começou a crescer para nós”, diz o CEO.
No Brasil, apesar de a modernização do
esporte ser constante, o conhecimento
do olheiro ainda é muito valorizado. “No
setor de captação, não contamos com
um departamento de análise do desempenho, portanto o jogador é recrutado
pelo ‘olhar’ dos observadores”, afirma
Diogo Giacomini, técnico do time sub-20
do Palmeiras. Para ele, nada substitui
o homem: “Sem dúvida nenhuma, ele
ainda é a ferramenta mais adequada,
principalmente se for de um observador
com boa bagagem e especializado na
captação de atletas”.
Segundo Campodonico, é inevitável
que todos os clubes passem a usar os
dados na hora de contratar jogadores,
já que eles podem ter influência até na
relação com a torcida. “Temos certeza
de que os fãs vão querer entender por
que o time deles está comprando um
jogador que é um dos piores na sua
liga”, enfatiza. “Dados são objetivos.
Isso vai tornar as transferências mais
complicadas porque as pessoas saberão se o jogador é bom ou não. Se
você estiver comprando um jogador
com dados ruins, vai ter de explicar aos
torcedores o motivo.”
Analisando o time do coração
Outro serviço de captura e análise de dados disponível no Brasil é o Foostats, usado por vários times brasileiros, como Palmeiras, São Paulo e Atlético Mineiro. A empresa fornece relatórios sobre o desempenho de equipes e jogadores em mais de 50
campeonatos em todo o mundo. Além dos tradicionais chutes a gol, posse de bola e passes certos, o Foostats também cria
mapas de calor das equipes, que mostram a movimentação dos jogadores em campo. E não são apenas os clubes os interessados nos insights. Grandes empresas de mídia brasileira (televisões, jornais e sites) usam estatísticas do jogo para alimentar as
análises dos comentaristas e levar a partida para mais perto do público. O site da empresa também disponibiliza os dados para
qualquer amante do esporte, além de manter perfis no Twitter com estatísticas dos principais times brasileiros, em tempo real.
21
Dados estratégicos
Para formar campeões, no caso de
esportes coletivos, não adianta ter só
as melhores peças. É preciso também
articular as partes para que o todo
consiga as vitórias necessárias. E uma
das estratégias usadas para melhorar
o desempenho tático dos times é a
análise de dados. A área de Analytics
da IBM tem desenvolvido soluções
que permitem às equipes analisar uma
série de dados históricos e em tempo real, para planejar e executar as
melhores estratégias de acordo com
cada situação de jogo. Carlos Tunes,
líder de Business Analytics, explica o
processo: “A primeira grande etapa é
a captura e consolidação de dados,
para que consigamos transformá-los
em informações que sejam relevantes
para a performance desportiva, seja
individual ou coletiva”.
“No rúgbi e no futebol, são analisadas a
posição e a performance de cada atleta
dentro do campo; o que se espera daquela posição; e o desempenho desses
atletas nela, para que se deem elementos ao treinador, a fim de que ele monte
estratégias usando o melhor recurso
para aquela necessidade específica”,
diz Tunes. Mas não adianta apenas gerar dados. É preciso que os treinadores
e técnicos saibam o que querem dessas informações. Tunes afirma que é
necessário “conhecer exatamente a característica e a performance de cada um
dos elementos versus o que se requer
naquela posição”.
Criado pela IBM, o Try Tracker é uma
ferramenta que agrega dados sobre
jogos de rúgbi e oferece análises para
compreender melhor o desempenho e
as chances de cada equipe. “São estabelecidos modelos estatísticos e probabilísticos, e eles começam a interpretar
e analisar ‘padrões de comportamento’
para gerar esses insights”, diz Tunes. Por
exemplo, “avaliando os últimos jogos nos
últimos anos de uma determinada seleção, percebeu-se que, sempre que ela
perde, ou é atacada com êxito, em 80%
das vezes isso acontece pelo lado direito, com um jogador de velocidade. Se
estou analisando isso, identifiquei aí um
padrão”, afirma. Com base nesses dados, é possível fazer simulações. “Se eu
elaborar uma determinada combinação
de jogadas, qual é a probabilidade de um
resultado? Essa é uma análise preditiva,
uma simulação futura. Com isso, conseguimos identificar qual é a peça-chave
para aquela estratégia. No caso do esporte, pode não ser o supercraque, mas
Ferramentas de trabalho
Outro aspecto do esporte que depende da tecnologia são os
materiais. Das malhas dry-fit aos carros do automobilismo, a
incorporação de inovações tem se mostrado essencial para
aumentar a competitividade dos esportes. “Ela está presente
dentro e fora de campo e nas ciências mais variadas: materiais, roupas, bolas, dardos, fibras de carbono nas raquetes
para ficarem mais leves, roupas de natação, tecnologias de
arbitragem, fotossensores na esgrima, no automobilismo”,
diz Robert Alvarez Fernández, gerente de Soluções Técnicas
da IBM Brasil e professor de Marketing Esportivo.
A busca por materiais que melhorem o desempenho dos atletas e
equipes é feita dentro e fora do mundo esportivo. Fernández afirma que “normalmente, essas demandas e as pesquisas por novos materiais acabam surgindo até fora da indústria do esporte. O
Nomex, que protege o piloto do fogo, é uma fibra que foi desenhada para fins militares e que depois foi incorporada ao automobilismo. A camisa dry-fit, aquela que elimina o suor, é uma
fralda descartável ao contrário: ela deixa o suor sair, mas
não o deixa voltar para perto do corpo. As fibras de carbono
foram feitas para serem estruturas leves e resistentes - virou
raquete, taco de golfe”.
Em alguns esportes, os equipamentos são coadjuvantes,
mas em outros, como a vela, são parte essencial da equa-
ção. Para Lars Grael, medalhista em duas Olimpíadas, “a
vela é um dos esportes que mais incorporam tecnologia, fora
os esportes automotores”. A começar pelas embarcações:
“O barco era antes de madeira, numa fase foi de aço e passou a ser de fibra de vidro, alumínio, fibra de carbono - cada
vez mais sofisticado. Existe um setor de desenvolvimento de
aerodinâmica e hidrodinâmica, aperfeiçoando casco, quilha,
leme, bolina, velas”. Durante as competições, não é permitido o uso de instrumentos eletrônicos, mas durante o treinamento, sim. “Seja numa campanha olímpica, no barco mais
simples de todos, o laser, você usa uma câmera GoPro, com
um técnico acompanhando o treinamento usando estações
de vento para pegar sua direção, calcular a corrente marítima e a posição de GPS. Depois, ele manda isso para uma
central, a fim de analisar o desempenho do barco em cada
condição e, assim, fazer uma avaliação da velejada e criar
um banco de dados com informações da velocidade ideal
em relação àquelas condições”, descreve Grael.
Os atletas não são os únicos favorecidos pelas novas tecnologias. Árbitros também podem se beneficiar do olhar eletrônico para cometer menos erros. A empresa alemã GoalControl é um bom exemplo. Ela criou a tecnologia, usada pela
primeira vez na Copa do Mundo, que avisa ao juiz se a bola
entrou ou não. Catorze câmeras distribuídas pelo estádio ana-
capa
sim o jogador que possui as características determinantes para a situação”, explica. Mas nem tudo pode ser resolvido
pela análise de dados. “Sempre vai existir
a visão humana do treinador calibrando,
primeiro, qual é o objetivo”, analisa Tunes.
“Nenhum modelo analítico é eficaz se
você não sabe qual é sua meta.”
“Nenhum
modelo analítico
é eficaz se você
não sabe qual é
sua meta”
Carlos Tunes
O esporte de amanhã
lisam a jogada por vários ângulos e captam 500 imagens por
segundo. As informações são analisadas por um programa
capaz de dizer se o gol existiu, com uma precisão de cinco
milímetros, e manda a validação do lance a um relógio, que
fica com o juiz. Com o GoalControl, a Fifa espera evitar polêmicas como a da final do Mundial de 1966, no qual a Inglaterra fez um gol duvidoso validado pelo árbitro e contestado até
hoje pelos rivais alemães - ou mesmo a “revanche” da Copa
de 2010, na qual o time inglês teve um gol anulado que poderia ter mudado os rumos do jogo e talvez classificado o time
para as quartas de final no lugar da Alemanha.
Nem sempre, porém, a evolução ajuda o esporte. A natação
é um exemplo. “O desenvolvimento de equipamentos de uso
do atleta, que é algo que não deveria interferir no resultado,
num determinado momento, de 2007 a 2010, teve uma evolução muito grande e muito rápida”, afirma Gustavo Borges.
Até o final de 2009, 35 recordes mundiais haviam sido quebrados. Tudo graças aos chamados “supermaiôs”, feitos de
um material que diminui o atrito do atleta com a água e o faz
flutuar melhor. O desequilíbrio levou a Federação Internacional
de Natação a proibir a novidade. “Por uma questão estratégica, baniram a roupa inteira e só deixaram os shorts.” Segundo
Fernández, da IBM, quando se incorporam tecnologias, deve
haver a preocupação de não transformar o esporte.
Se o cenário é de inovação constante, como será
o futuro? Cynthia Bir, cientista-chefe do programa
Sport Science, da ESPN, crê que os dados em
tempo real serão cada vez mais presentes: “Com
mais monitoramento em tempo real, em todos os
esportes, teremos um feedback instantâneo. Esse
tipo de coisa está em voga no mundo todo - receber os dados na hora e ter os números e métricas
no ato para que se possa tomar decisões”, disse,
em entrevista ao TED.
Cada vez mais abundantes, os dados são capazes de mudar o jogo. O atleta, desde sempre
em busca de transgredir seus próprios limites,
vai pegar carona com a tecnologia e ir cada vez
mais longe. Entra em campo um novo jogador,
a inteligência. Temos hoje um cenário até pouco tempo inimaginável: de um lado, o conhecimento, a análise preditiva, a inteligência que a
tecnologia provê. Do outro, o imponderável, o
imprevisto, aquela fagulha de talento que muda
tudo, e que só os seres humanos têm. Daqui
pra frente, a vitória ficará com aqueles que conseguirem unir de maneira mais eficiente esses
dois aspectos. Que vença o mais bem preparado!
23
Capa
Crônica
O que importa
está atrás
do volante
A tecnologia vem ganhando cada vez mais
destaque dentro da Fórmula 1. E os pilotos de hoje
têm talentos muito diferentes dos do passado
No aplicativo da Pense para tablet, assista a um
vídeo mostrando Lewis Hamilton emocionado ao
dirigir o antigo carro que Ayrton Senna pilotava
Ilustrador Luís Dourado
capa - crônica
nológicas que surgem numa velocidade assustadora.
É possível montar uma “linha do
tempo” para mostrar quanto os
carros mudaram em meio século.
Primeiro, a colocação dos motores atrás do piloto. Algo que a Auto
Union já fazia nos anos 30, mas que
só foi adotado nos anos 60, melhorando a distribuição de pesos e o
centro de gravidade.
Autor:
FLAVIO GOMES, 49, é comentarista
da Fox Sports e dono do site Grande
Prêmio, o maior do país sobre
automobilismo. Como repórter de
Fórmula 1, cobriu cerca de 300 GPs
entre 1988 e 2005 viajando para
todas as corridas. Também é piloto,
mas, como corre de Lada, continua
trocando as marchas manualmente.
Quando os saudosistas falam de Fórmula 1, nove em dez vão dizer que os
pilotos de antigamente eram melhores.
“E por quê?”, sempre pergunto. “Ah,
porque eles engatavam as marchas!”
Sim, a alavanca de marchas é o
grande argumento dos que acham
que os pilotos de hoje não guiam
nada porque “os carros fazem tudo
sozinhos”. Que fique claro: nem os
pilotos de antigamente eram bons
porque trocavam marchas, nem os
de hoje são ruins.
Há uma diferença brutal na pilotagem dos
anos 60 para a dos anos 70, e depois
para a dos 80, dos 90, do século XXI, do
ano passado, deste ano. Em comum,
os carros de F-1 de 60 anos atrás têm
com os de hoje quatro rodas e velocidade. O resto é diferente.
E a tecnologia está por trás dessas
mudanças. Se antigamente os caras
tinham “apenas” que acelerar fundo
(e trocar as marchas), hoje ainda
precisam lidar com novidades tec-
No fim dos anos 60, vieram as asas.
E começaram a ser levados a sério os
estudos aerodinâmicos, área que deu
um grande salto no final dos anos 70
com os carros-asa concebidos por
Colin Chapman, dono da Lotus. Velocidade em reta não era mais mistério
nem dificuldade para ninguém, e o
grande desafio era contornar curvas
rapidamente. O aumento da pressão
aerodinâmica, com a criação de zonas de vácuo sob os chassis e aerofólios mais eficientes, foi a senha para
que se desenvolvessem os túneis de
vento e as incríveis asas de hoje, que
aceleram brutalmente a passagem de
ar sob os carros e procuram reduzir
ao máximo a turbulência, além de
“grudar” os carros no chão.
Os anos 80 foram os da eletrônica.
Quando os computadores passaram
a fazer parte do dia a dia das equipes e a telemetria começou a desvendar, com dados, o que acontece
num carro dentro da pista, o trabalho do piloto passou a ser dividido
com os engenheiros — responsáveis
por interpretá-los.
Dá para dizer que era mais fácil guiar
um carro antigamente? No máximo,
pode-se assegurar que era mais cansativo. Mais fácil, jamais. É tanta coisa
que dá para fazer hoje dentro do carro, que eu arriscaria dizer que é bem
mais difícil guiar um F-1 em 2014 do
que em 1970 ou 1980.
Hoje, além de acelerar, frear e trocar marchas, o piloto precisa abrir a
asa-móvel, controlar o nível de carga
dos motores elétricos que auxiliam o
motor V6 turbo, distribuir a carga de
frenagem entre as rodas dianteiras e
traseiras, ativar o limitador de velocidade dentro dos boxes, mudar o mapeamento do motor, regular o consumo de combustível, mudar o ponto
de ignição, alterar o acerto do diferencial para saídas de curva, monitorar o desgaste e a temperatura dos
pneus e mais um monte de coisas.
Não tem nada de fácil nisso. Para
ilustrar como os pilotos de hoje são
absolutamente preparados para
compreender o que seu equipamento pode fazer, recorro a um episódio de 2002, em Ímola. No treino
de classificação, Barrichello fez uma
volta de tirar o fôlego com a Ferrari,
usando tudo que tinha direito de
pista, motor e performance de seu
carro. Ninguém seria capaz de fazer melhor. Numa última tentativa,
Schumacher conseguiu bater o brasileiro por 0s064.
Hoje, um volante de F-1 é um computador completo. A Sauber, dia desses, publicou uma foto do seu volante e ele tem nada menos do que 38
botões, fora o painel de cristal líquido
que traz mais informações do que se
pode absorver a 300 km/h.
Rubinho não acreditou e foi ver nos gráficos da telemetria onde o alemão conseguiu ganhar tempo. E descobriu que,
durante a volta mágica, Schumacher
mudou a regulagem inteira de seu
carro oito vezes. Oito! Numa curva,
jogava o freio mais para a frente. Na
outra, para a traseira. Na outra ainda,
mudava a regulagem do diferencial. E
assim foi. “Isso eu não consigo fazer”,
reconheceu Barrichello.
Como era o volante de Emerson Fittipaldi? Nem botão de buzina tinha. E o
de Senna? No máximo, um para acionar o rádio e outro para beber água.
Claro que a tecnologia ajuda. Mas carro nenhum anda sozinho. É preciso
que atrás do volante esteja sentado alguém que saiba o que fazer com ela.
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Honestidade sem perder a
dinâmica
O técnico e ex-jogador Zico acompanha de perto a transformação
que a tecnologia vem promovendo no futebol e deixa claro que o
resultado não compromete a espontaneidade do esporte
Por Daniela Varanda
Raquel Sepulveda
A primeira polêmica em campo do
Mundial de 2014 aconteceu logo na
primeira partida: um pênalti marcado
pelo árbitro japonês Yuichi Nishimura
permitiu a virada do Brasil sobre a
Croácia. Quando Fred caiu na área
numa disputa de bola com o zagueiro croata, quem assistia ao jogo pela
televisão pôde ver, no replay, que era
um lance duvidoso. Já aqueles que estavam no estádio – incluindo a arbitragem - ficaram sem a repetição da
jogada, pois a Fifa não permite a exibição de lances polêmicos no telão.
Será que a tecnologia teria mudado o
resultado desse jogo?
A discussão já é antiga: recursos,
como o replay da jogada em tempo
real no campo, para uso da arbitragem, auxiliam ou prejudicam o futebol? “Os resultados da evolução
tecnológica são imediatos”, diz o
ex-jogador e comentarista Arthur
Antunes Coimbra, o Zico. Ele, que
também atua como técnico – ainda
que esteja atualmente sem clube –,
afirma que o futebol só tem a ganhar
com a aplicação da tecnologia.
“Maradona fez um gol com a mão e
prejudicou a Inglaterra, que estava se
preparando há três anos para o Mundial e teve de ir embora para casa”,
relembrou o Galinho, em relação ao
gol que abriu o placar da Argentina
sobre a Inglaterra nas quartas de final da Copa de 1986. Para ele, esses
lances, assim como o pênalti irregular
marcado na disputa do Brasil contra a
Croácia, poderiam ser evitados a partir do uso de tecnologias durante as
partidas. “O jogo não perde a dinâmica. Isso é balela.”
Com quase 50 anos de experiência em
futebol dentro e fora do País, Zico fala
com exclusividade para a Pense sobre
tecnologia no esporte, sua evolução ao
longo do tempo e como ela pode ser
um fator fundamental de apoio a técnicos, jogadores e árbitros.
27
Pense: De uma maneira geral, como
a análise de dados e a evolução tecnológica ajudam o esporte?
Zico: Em primeiro lugar, hoje, os exames, testes e avaliações são feitos com
muito mais facilidade do que antigamente. Para se ter uma ideia, é possível fazer um exame em um jogador
para identificar se ele está propenso
a uma lesão e qual o seu potencial de
rendimento. Os uniformes também são
bem mais leves. Antigamente, saíamos
do jogo pesando 2 ou 3 quilos a mais,
se chovesse. Outro exemplo: antes, os
times iam jogar contra os outros sem
informação nenhuma. Atualmente,
você joga contra um time da Bósnia e
conhece os jogadores assistindo a vídeos para analisar melhor o adversário. A
palavra “surpresa” acabou no futebol.
Pense: Como treinador, na hora
de definir uma estratégia, acredita que a experiência ainda é mais
valiosa do que os dados? Ou eles
devem se complementar?
Zico: Para o treinador e a comissão
técnica, a tecnologia é muito importante, e os resultados são imediatos.
Usando um computador no banco de
reservas, você pode coletar resultados e
passar instruções aos jogadores durante
o intervalo. Mas são processos que caminham juntos.
Pense: E, nas contratações, como a
tecnologia auxilia esse processo?
Zico: Hoje, existe um banco de dados
estupendo. Dá para saber quantos jogos foram disputados, qual o aproveitamento do atleta, de quais campeonatos
participou... Alguns clubes erram por
infantilidade, por contratar vendo somente um vídeo, sendo que nele estão
apenas os melhores momentos do jogador. Já vi muita gente contratar assim e
se dar mal.
Pense: Na sua opinião, talento ainda
é o principal diferencial de um jogador? Ou diria que hoje em dia só se
Veja como foi nossa
entrevista com o Zico
no aplicativo da Pense
para tablet
monta um time com a tecnologia e a
inteligência da análise de dados?
Zico: Você pode montar um time e
não usar nada disso. Só tendo bons jogadores e treinando bem o grupo. Sem
usar tecnologia, é possível ser campeão,
mas ela é que dá aquele “algo a mais”,
principalmente na questão física. Com
uma seleção, é mais fácil, porque os jogadores são escolhidos. Em clubes, não,
já que é preciso trabalhar com aqueles
que já estão ali.
Pense: Você acredita que, com a
tecnologia de hoje, a recuperação
da sua lesão no joelho (jogando
pelo Flamengo em 1985) teria sido
mais fácil?
Zico: Sem dúvida. Eu teria me recuperado em menos da metade do tempo que levei na época. Com uma lesão
de cruzado hoje (um dos três ligamentos presentes no joelho), em seis
meses já é possível estar jogando. Eu
levei um ano para retornar aos campos. Na verdade, voltei com nove meses, mas jogar aquele futebol que as
pessoas esperavam, só depois de um
ano e pouco. Fiquei dois meses sem
colocar o pé no chão, enquanto hoje,
depois de uma cirurgia, dá até para
caminhar. O avanço da medicina es-
portiva faz com que o jogador, se for um
bom profissional e se cuidar bem, tenha
uma recuperação bem mais rápida.
Pense: No futebol ainda existe uma
resistência para o uso de tecnologia nas partidas, ao contrário do
que já se vê no tênis, no vôlei e no
futebol americano. O advento tecnológico pode atrapalhar as partidas de futebol?
Zico: Nós temos que quebrar essa resistência em relação à tecnologia. Em
um Mundial, por exemplo, em que as
seleções se preparam por três, quatro
anos, não se pode ser prejudicado por
um jogador que fez um gol com a mão.
Temos que corrigir esses erros por
meio da tecnologia, envolver câmeras
e pessoas de confiança que possam dizer na hora, para o árbitro, se foi gol
ou não. Uma vez, um ex-presidente da
Fifa disse que esse tipo de recurso gera
discussão, mexe com a emoção, quebra
o ritmo do jogo. Isso porque não foi o
time dele que perdeu.
Pense: Além das câmeras nas partidas, quais seriam os principais recursos a se adotar?
Zico: A bola com chip é fundamental,
e ela já é um grande avanço no tênis
“Sem usar
tecnologia,
é possível
ser campeão,
mas ela
é que dá
aquele ‘algo
a mais’”
e no vôlei. O torcedor se acostuma
com isso, ele não vai desprestigiar
o esporte por uma pausa de 30 segundos para conferir uma imagem.
Nos revoltamos muito mais quando o cara faz cera ou finge que se
machuca. E, sobre a comunicação
entre os juízes, eu faço um alerta:
o comodismo do árbitro. Ele tem
que ser o responsável principal, não
os auxiliares. O impedimento, sim,
é com os bandeiras - eles estão ali
para isso. Mas ficar preocupado em
marcar falta lateral, falta aqui, falta
ali, eu não acho certo.
Pense: É muita interferência?
Zico: Sim, muita interferência. O
árbitro tem de ser absoluto. Ele é
preparado para aquilo. Então, precisa
ficar atento ao jogo. A não ser em um
lance sem bola, um empurra-empurra ou uma agressão que ele não possa
ver. Se a bola estiver em jogo, é o árbitro quem tem que punir.
Pense: Você acha que o futebol
fica mais homogêneo com a aplicação das tecnologias?
Zico: Eu acho que fica mais honesto. No Campeonato Brasileiro mesmo, essa tecnologia já poderia ser
utilizada. Os clubes que possuem
estádios próprios poderiam usar
essas câmeras e dar as informações
do jogo. No vôlei é assim. Independentemente de um torneio mundial,
o futebol brasileiro já poderia estar
usando tudo isso. O jogo não perde a dinâmica de maneira nenhuma.
Isso é balela.
29
Capa
Memória
Ricardão falou com a Pense na
lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio
de Janeiro. Assista no seu tablet!
Ricardo Carvalho foi
atleta profissional do
remo e participou
de três Olimpíadas
numa época em que
a tecnologia na vida
e no esporte ainda
era algo raro
Espírito
olímpico
Por Diogo Rodriguez
e Daniela Varanda
Fotos Sergio Horovitz
capa - memória
Ouro no Pan de 83:
motivação, aptidão e
experiência - ingredientes
básicos de sucesso
Poucos tiveram ou terão o privilégio
de ver uma edição dos Jogos Olímpicos ao vivo, e raríssimos poderão
dizer que estiveram no evento mais
tradicional do mundo dos esportes
como competidores representando
seu país. O IBMista Ricardo Esteves
Carvalho, executivo de projetos de
Global Technology Services (GTS),
fez parte desse seleto grupo por três
vezes. Ele foi atleta profissional do
remo, na categoria Dois Sem.
Junto de seu irmão, Ronaldo, Ricardo
participou de três Olimpíadas – 1980,
1984 e 1988, épocas em que havia
uma série de manifestações dentro
do esporte em virtude da Guerra Fria.
Com duas medalhas de ouro nos Jogos Pan-Americanos, em 1983 e
Ricardo Carvalho, mais conhecido como Ricardão, é executivo
de projetos no time de Global
Technology Services da IBM
Brasil. Ex-remador profissional,
representou o Brasil nas Olimpíadas de 1980, 1984 e 1988.
31
1985, Ricardo Carvalho conviveu com
a elite do esporte mundial. Conciliando a vida de atleta profissional e a estudantil, acadêmica e profissional, até
os 28 anos, desenvolveu um misto
de paixões por esporte e tecnologia.
A influência da
família e a paixão
pelo remo
Conversando com a Pense, Carvalho conta que seu pai foi o principal
responsável por plantar a semente do
gosto pelo esporte. “Desde os 8 anos
de idade, comecei a praticar esportes
em nível de competição. Meu pai também foi atleta olímpico, remador, e esteve nos Jogos de 1956 – foi algumas
vezes campeão sul-americano, outras, brasileiro. Apesar de ser dentista,
sempre foi um apaixonado por remo e
se dedicou bastante ao esporte. Remou até os 41 anos e, depois dessa
fase, resolveu assumir uma posição
como técnico dos clubes aqui do Rio
de Janeiro, Flamengo e Vasco.” O pai
também influenciou o filho mais velho,
Ronaldo. “Eu fui nadador dos 8 aos
13 anos e, dos 15 aos 28, remei. Meu
irmão fez o mesmo percurso, da natação ao remo.” Ronaldo acabou virando a dupla do irmão em treinamentos
e competições.
Esportista desde cedo, Ricardo teve
logo de aprender a administrar a vida
para poder continuar treinando. Passou boa parte de sua juventude se
equilibrando entre a necessidade de
treinar, competir e viajar e as exigências do estudo. A rotina era intensa e
começava cedo. “Inicialmente, no Colégio Santo Agostinho, acordava de
madrugada, ia treinar, tinha aulas e,
à tarde, novo treino. O atleta, quando
chega a um nível mais alto, tem que
treinar duas vezes ao dia. E tem também uma rotina de viagens para competições internacionais”, relata.
Para manter a disciplina, Ricardo
diz que era necessário fazer adaptações em seu cotidiano: “Foi preciso
muito interesse e muita dedicação,
porque a fase em que eu treinava
era a mesma em que meus amigos
estavam começando a sair e descobrir a vida. Já eu tinha uma série
de restrições por conta das minhas
responsabilidades como atleta. Claro que eles me davam apoio, e tentávamos conciliar nossos horários,
como sair mais cedo para dormir
mais cedo. Mesmo assim, foi um
período difícil”, explica.
Mesmo tão ligada ao esporte, a
família de Ricardo não o deixava
abandonar os estudos. “Por uma
questão de educação familiar, nunca abandonei a escola. Meu primeiro patrocínio, inclusive, era uma
ajuda de custo para pagar o curso
de inglês.” O passo seguinte foi a
universidade, e a primeira tentativa
de Ricardo foi uma vaga em engenharia na PUC-Rio, mas esse não
seria o futuro do IBMista. A segunda
tentativa trouxe o curso certo, o de
informática, que faria seu caminho
cruzar com a IBM.
A necessidade do tempo para treinar
exigiu que, depois de formado, Ricardo se adaptasse ao mercado de
trabalho. “No início, eu era analista
de sistemas autônomo, fazia alguns
projetos, desenvolvia sistemas, mas
não podia ter um compromisso de
horário com uma empresa. Eu ainda
treinava cinco horas por dia”, relata.
Com o passar do tempo, a transição do esporte para a tecnologia
acabou acontecendo naturalmente:
“Como remador, não havia maneira
de me dedicar completamente à minha carreira, então esse foi um momento de transformações, em que
minhas prioridades começaram a
mudar, em que passei a me dedicar
mais ao trabalho. Como eu era analista de sistemas e pós-graduado
em Finanças, surgiu a oportunidade
de uma vaga na IBM, e eu a abracei”, conta Ricardo. Com o irmão, a
transição ocorreu de forma parecida, na mesma época: do remo para
a odontologia.
“Grande parte do
que sou como
profissional foi
fruto da minha
vivência desses
quinze anos
no esporte”
De cima para baixo, na Lagoa Rodrigo de Freitas,
relembrando os momentos de atleta, no Pan-Americano
de 87, e, abaixo, nas Olimpíadas de Seul
capa - memória
Tecnologia a
favor da vida –
e do esporte
O gosto de Ricardo pela tecnologia não
estava restrito à vida profissional. Numa
época em que aparelhos de medição
de performance eram raros (e caros) no
Brasil, ele e o irmão faziam o que podiam
para capturar dados dos treinos e avaliar
seu desempenho. “Como o Ronaldo é da
área médica, cuidava mais da fisiologia; já
eu era o cara da tecnologia”, contextualiza.
E explica que, muito antes de as inovações
tecnológicas chegarem ao país, o IBMista
já ia em busca de novidades: “Era ainda
a década de 80, e nós conseguimos lá
fora dois frequencímetros para marcar
nossos batimentos cardíacos, o que era
um artigo de luxo, uma raridade. Nós os
protegíamos com um plástico, pois não
eram nem à prova d’água”.
O interesse pela
tecnologia foi
fundamental
para o acesso
a ferramentas
que permitiram
desenvolvimento
técnico e fisiológico
Para terem uma noção mais exata de
seus desempenhos nos treinos, Ricardo
e Ronaldo fizeram adaptações em um
equipamento usado em outro esporte:
o ciclismo. “Como tínhamos de medir
o número de remadas por minuto, nós
utilizamos um daqueles relógios que
contabilizam a velocidade da bicicleta.
O sensor marcava a ida e a volta da
remada: se o visor apontasse 72, nós
sabíamos que havíamos dado 36
remadas por minuto.”
Com os dados em mãos, era
possível interpretar as informações.
Ricardo fazia gráficos comparando
a frequência cardíaca, o número de
remadas e o tempo de treinamento.
Comparava também sua performance
à do irmão. Essa era a única
maneira de terem algum tipo de
acompanhamento, já que nem
os clubes profissionais brasileiros
dispunham de tecnologia. O jeito era
viajar para países onde pudessem
avaliar melhor o treino. “Quando
conseguíamos verba, íamos a um
centro de treinamento da Itália, numa
cidade chamada Piediluco, pois a
Confederação Brasileira tinha um
acordo com a italiana.” Na Europa,
sim, eles possuíam acesso a diversas
tecnologias: “Nós passávamos 15 dias
no local e fazíamos um teste no simulador
de remo no seco, o remo ergômetro.
Usávamos o espirômetro (um aparelho
para medir a capacidade dos pulmões),
tirávamos a frequência cardíaca e um
pouco de sangue da ponta da orelha,
passávamos por exames para medir
nosso nível de lactato, entre outros
procedimentos”, relata.
Toda informação era preciosa para o
treinamento da dupla. Segundo Ricardo,
nem sempre era possível viajar para fora
e coletar esses dados, mas o importante
foi o aprendizado que a experiência lhes
trouxe: “Tínhamos a consciência de que
era necessário ter informação para obter
melhores resultados”.
As dificuldades
no Brasil
Na década de 80, ainda era difícil
conseguir comprar barcos e remos
no Brasil, então a solução era trazer o material do exterior. “Todos os
barcos eram importados. Lá fora,
existia uma massa de atletas muito
maior e uma quantidade superior de
formas e cascos de barco. A forma
se altera de acordo com as características do remador, como peso,
altura e velocidade de remada. Aqui,
a única alternativa era importar um
barco padrão, um remo padrão. Não
havia dez pares diferentes para podermos testar e descobrir o mais
adequado”, lamenta.
33
Todos os esforços para superar as dificuldades não garantiam reconhecimento no país, apesar dos ótimos resultados nas competições. “No mundial
de 1986, chegamos em quinto lugar,
fomos finalistas, super-reconhecidos no
exterior. Essa foi a primeira vez que um
barco brasileiro chegou à final de um
mundial. Em compensação, quando
chegamos aqui, um repórter perguntou: ‘Vocês poderiam explicar por que
só conseguiram a quinta colocação?’.
Ou seja, só a medalha de ouro interessava no Brasil. Se alguém olhar as reportagens da época, vai nos encontrar
explicando o porquê do quinto lugar.”
No país do futebol, o remo precisava
lutar para conquistar o seu espaço.
Experiência
vitoriosa
Felizmente, as memórias de Ricardo
não se limitam apenas às dificuldades
do esporte ou à falta de percepção da
imprensa. Ter participado de três Olimpíadas é uma experiência que poucas
pessoas comuns tiveram a chance de
vivenciar, especialmente numa época
tão atribulada quanto a Guerra Fria. “Em
1980, eu era muito novo, e foi a Olimpíada do boicote do mundo ocidental.
Eu pude observar aquele mundo dividido, o bloco oriental versus o ocidental...
Participar de um evento monstruoso
daquele era um sonho. Meu pai tinha
ido à Olimpíada, acompanhávamos os
Jogos quando garotos e, de repente,
estávamos realizando aquele sonho,
participando de verdade, do outro lado
do mundo. É uma experiência fantástica. Minha primeira competição internacional como adulto foi uma Olimpíada, o
que é muito difícil esquecer. Algo muito
emocionante era conhecer os nossos
ídolos de perto. Eu levava uns dois, três
dias para cair na real.”
Os Jogos de 1984 foram diferentes,
com o boicote do bloco oriental. “Fi-
camos hospedados no alojamento da
Universidade de Santa Bárbara. Era
tudo muito distinto da nossa realidade,
um ambiente bem americano, de cinema com pipoca. Eu estava um pouco
mais maduro nessa época, menos
deslumbrado com uma Olimpíada. Eu
lembro que, para nos comunicarmos,
havia vários terminais IBM usados pelos
atletas para se falarem entre si e com
a imprensa - tudo muito diferente de
Moscou (1980), onde havia uma cortina de ferro mesmo, muita segurança.
Para sairmos do alojamento, era preciso passar por três postos de controle até chegar ao restaurante, e cinco
para chegar ao local da competição.”
Lições do esporte
para a vida
Como um ex-atleta olímpico, bicampeão pan-americano de remo,
faz para manter uma rotina de exercícios físicos e sua relação com o
Com a liderança do
pai e treinador, José de
Carvalho Filho, horas
diárias de treino
capa - memória
esporte? Ricardo diz que o remo
acabou ficando em segundo plano
em sua vida por dificuldades logísticas. “É um esporte que exige uma
infraestrutura um pouco mais complicada para realizá-lo como lazer.”
Ainda assim, a antiga prática não foi
abandonada por completo: “Tenho
em casa uma máquina de remo ergômetro – um simulador que funciona como uma bicicleta ergométrica
– para matar a vontade”. Recentemente, passou a se aventurar pelas
quadras de tênis. “Não sou bom,
mas adoro [risos]. E é um esporte
mais acessível para se jogar. Se for
viajar, sempre há uma quadra no
hotel”, afirma, aliviado.
Mesmo fora das competições, Ricardo é um entusiasta do esporte e con-
tinua acompanhando campeonatos
de remo. Para ele, o investimento no
esporte como um todo, atualmente,
no Brasil, facilita bastante a vida do
atleta. “O acesso a técnicos internacionais, por exemplo, é muito maior.
O próprio remo ergômetro, usado
para treinamentos, está ao alcance
de mais competidores”, comenta.
Ricardo acredita que as inovações
tecnológicas também vêm trabalhando a favor do remo: “Hoje em dia
o intercâmbio de dados é maior se
comparado à minha época de atleta.
A informação flui de uma forma muito
mais rápida, on-line, o que é benéfico para que se desenvolvam novas
práticas de treinamento, como o uso
de vídeos sobre técnicas de remada
e tipos de barco. A informação ajuda
na preparação do atleta”, completa.
Embora não seja mais um remador
profissional, Ricardo leva consigo
os aprendizados que uma vida dedicada ao esporte oferece. “Hoje,
quando olho para trás, grande parte do que sou como profissional
foi fruto da minha vivência desses
quinze anos. E não estou falando
só do fato de acordar cedo e ir treinar, mas das experiências que tive:
perdas, dificuldades, desafios, a
busca pela motivação e dedicação
e as pesquisas para a evolução e
o conhecimento sobre mim. Sigo
com um espírito parecido. Foi uma
fase extremamente produtiva e, até
hoje, experimento benefícios dessa
época de esportista profissional.” É
o que dizem: o atleta pode deixar o
esporte, mas o esporte não deixa
o atleta.
35
Bastidores
Conheça
mais e
interaja
com a
segunda
tela no
aplicativo
da Pense
olho
na tela,
celular
na mão
Você se lembra de quando a televisão reinava absoluta
dentro dos lares, garantindo o olhar atento do espectador? Quase sem perceber, adquirimos um novo hábito: o
de assistir à TV ao mesmo tempo que utilizamos smartphones,
tablets e laptops. Com dispositivos móveis sempre à mão e a
necessidade de estarmos conectados, a chamada “segunda
tela” abre uma janela de possibilidades. Uma pesquisa do
Instituto Ipsos mostrou que 52% dos internautas brasileiros acessam a internet enquanto veem TV – cerca de
63 milhões de pessoas. No mundo, esse número chega a
77%. Em nosso país, o smartphone é o aparelho de escolha
para 68% dos adeptos da segunda tela.
Dados do Ibope mostram que os assuntos preferidos de
70% das pessoas conectadas são notícias, novelas, filmes
e esportes, e que a principal maneira de utilizar a segunda tela é justamente discutindo seus programas favoritos
e interagindo com amigos nas redes sociais. Além disso,
80% disseram que mudam de canal por conta de algum
comentário feito nas redes sociais.
Os usuários também aproveitam o tempo on-line para
fazer buscas e compras. Segundo o Ipsos, 27% daqueles que usam mais de uma tela são motivados a agir de
acordo com o que veem na televisão. De olho nesse
filão, as redes de TV incentivam a participação dos espectadores determinando hashtags para seus programas
Oportunidades
de negócio
De olho nesse público que não desgruda dos seus gadgets,
as emissoras já vêm oferecendo novas experiências de
imersão. É o caso do Slam Tracker, plataforma desenvolvida pela IBM para ser a segunda tela durante campeonatos internacionais de tênis.
O fenômeno da segunda
tela está mudando a maneira
como assistimos à TV e
criando oportunidades
para emissoras fornecerem
informações para um público
curioso e participativo
e promovendo a participação via Twitter ou Facebook.
Existem também aplicativos que criam plataformas de
interação em que os usuários podem integrar suas redes
sociais à programação. Se um internauta é fã de Game
of Thrones, por exemplo, ele pode fazer um “check-in”
na série, ler o que outras pessoas estão dizendo sobre
o programa, acompanhar notícias e assistir a teasers de
novos episódios. Conforme esse fã vai se aprofundando
em seus vídeos favoritos, ganha prêmios, como badges
e adesivos. O GetGlue, um dos aplicativos de TV mais
usados no mundo, tem hoje cerca de 1,4 milhão de usuários e está trabalhando com os produtores para proporcionar recompensas mais atraentes. A série Fringe,
por sua vez, oferecia objetos usados em cena aos seus
fãs mais fervorosos.
Para os adoradores dos esportes, a experiência é turbinada com informações e interações exclusivas. Emissoras
em todo o mundo estão lançando aplicativos próprios
para acompanhar a programação e promover a interatividade. Durante os jogos, é possível ter estatísticas ao
vivo, assistir ao replay dos melhores momentos a qualquer hora e acompanhar a movimentação nas redes sociais. A rede canadense CBC oferece ao usuário que baixa
seu aplicativo a opção de acompanhar partidas de futebol
por uma câmera multiângulo, com o objetivo de levar o
espectador para dentro do jogo.
Mais do que apresentar estatísticas, o Slam Tracker mostra qual competidor possui mais chances de vencer e por
quê. John Kent, gerente global de Patrocínios da IBM,
explica: “Hoje, o Slam Tracker tem uma característica
única chamada Keys to the Match. Nós usamos uma
solução de Analytics para analisar oito anos de dados de
Grand Slam. Com ela, identificamos padrões no estilo
de jogo de cada tenista, comparamos os pontos fortes de
dois adversários e identificamos três movimentos estratégicos para cada um vencer a partida. Conforme atua-
bastidores
lizamos o progresso dos jogadores, checamos se estão
alcançando esses pontos-chave durante cada set”.
Os dados ajudam a contar a história da partida e os
porquês de um jogador estar ganhando ou perdendo:
“Nossa missão é apresentar a informação de maneira
cativante para engajar o torcedor e prover uma compreensão maior da disputa”, acrescenta. A versão mais nova
da plataforma tem um sistema de comentários vinculado
ao jogo e um insight associado à pontuação. “Um exemplo: se o ponto foi vencido pelo jogador Rafael Nadal
com um backhand winner, nós podemos apresentar um
gráfico mostrando o número de winners de Nadal versus
o de seu adversário”, diz Kent.
Experiências
em tempo real
No Brasil, a IBM fez sua primeira incursão na segunda tela
durante a Copa das Confederações, em 2013, com o projeto
Ei! Treinadores, que evoluiu este ano para uma solução em
tempo real. Em uma parceria de conteúdo com redes de televisão, fornecemos uma análise de tudo o que os brasileiros
diziam sobre os jogos nas redes sociais, enquanto eles aconteciam. “Usamos nosso conhecimento em Análise de Sentimentos para gerar conteúdo para esses parceiros de mídia”,
afirma Fabiana Galetol, executiva de Branding e Comunicação Externa. Com a Globo, por exemplo, as informações
apareciam dentro do aplicativo de segunda tela da emissora.
“Lemos todos os tweets e tudo o que era aberto ao público
no Facebook, em português, identificando a porcentagem de
repercussão positiva, neutra e negativa de cada jogo e respectivos jogadores nas redes sociais. E mostramos, por meio de
gráficos, na segunda tela deles (o aplicativo), o que milhões de
pessoas estavam dizendo. É uma experiência em tempo real,
para ser compartilhada com os amigos”, explica.
No futuro, a tendência é de que a segunda tela estreite a relação entre o espectador e a emissora, a ponto de ele ditar os
rumos da programação. Claudio Pinhanez, gerente de Social Analytics do Laboratório de Pesquisas da IBM Brasil e
um dos responsáveis pelo projeto de Análise de Sentimentos
para o Mundial, afirma que, com a evolução da tecnologia, os
dados gerados pela utilização da segunda tela e a opinião dos
telespectadores vão chegar cada vez mais rápido à direção da
emissora, que pode tomar melhores decisões em tempo real.
“Por exemplo, se virmos que muitas pessoas estão acessando
a página de escalação dos times no aplicativo, a companhia
pode escolher mostrá-la novamente no ar.” Com isso, a ideia
é tornar a programação da TV mais relevante para o público,
especialmente durante os eventos ao vivo. “As emissoras terão
de modificar a maneira de cobrir os eventos. Coisas simples enquetes, por exemplo – já são feitas hoje, mas mudanças mais
drásticas, como qual partida deve ser transmitida com base no
feedback do público, ainda estão distantes”, opina John Kent.
Para o cientista brasileiro, o próximo passo na transmissão de
eventos esportivos é cruzar os dados da Análise de Sentimentos com uma espécie de “closed caption” do que efetivamente acontece na partida, para tirar insights ainda mais precisos.
“Comparando os dados dessas duas fontes em tempo real, teremos uma nova geração de Analytics, mais detalhada e rica
em informações. Assim, a segunda tela vai saber exatamente o
que você quer e o que não quer assistir”, diz Pinhanez. Quem
diria que um aparelho tão pequeno como o celular pode gerar
algo tão grande como o Big Data? As redes de TV estão de
olho. Em breve, a segunda tela deve ter o primeiro lugar na
preferência dos espectadores – e das emissoras.
37
Top 5
1. Futebol americano
O primo distante do nosso futebol é um dos esportes que
mais absorveram as novas tecnologias. Nos capacetes, os
jogadores possuem hoje um sistema de áudio, pelo qual se
comunicam com os técnicos. Já o telão gigante instalado nos
estádios, chamado JumboTron, mostra replays para a torcida. Outra inovação em campo, realizada em 1966, foi a
implementação da grama sintética (feita de fibra de plástico
e borracha), que deixou o futebol americano mais rápido.
Desde 1999, os juízes também podem rever lances polêmicos por meio de um sistema que utiliza câmeras exclusivas,
com reprises instantâneas de jogadas duvidosas. A partir de
2012, todos os touchdowns – jogada em que o atleta ultrapassa
a linha de fundo do adversário e marca seis pontos – são
automaticamente validados pelo sistema de câmeras.
3. Natação
Há também situações em que a evolução rápida dos materiais acabou colocando em xeque a credibilidade de um esporte. Foi o caso
da natação. Em janeiro de 2010, a Fina (Federação Internacional de
Natação) proibiu o uso dos chamados “supermaiôs”, obrigando os
atletas a fazerem um downgrade em seus equipamentos de competição. Desenvolvidos para corrigir a postura do nadador, oferecer
maior flutuabilidade e reduzir o atrito com a água, os maiôs duraram apenas duas temporadas, mas fizeram um grande estrago: foram 35 recordes mundiais batidos até essa tecnologia ser finalmente
proibida. Hoje só é permitido o uso de materiais que não deem
vantagens desproporcionais ao competidor na piscina, sujeitos à
aprovação da Fina, numa tentativa bem-sucedida de deixar o esporte mais justo e baseado exclusivamente no desempenho do atleta.
ADMIRÁVEL
ESPORTE NOVO
Veja alguns dos esportes que vêm se
beneficiando de inovações tecnológicas
top 5
2. Futebol
Apesar de ser uma modalidade historicamente mais resistente à chegada da
tecnologia, o futebol já adere a algumas inovações de maneira discreta. Sim,
a essência ainda é basicamente a mesma: 22 jogadores em busca de gols num
campo retangular. Mas algumas mudanças, quase imperceptíveis para o torcedor, afetaram profundamente a rotina do esporte mais popular do mundo. Uma
delas é a tecnologia aplicada na produção das bolas, que evoluiu muito. Do modelo feito de couro dos anos 30 – que obrigava jogadores a usarem toucas para
cabecear –, temos hoje alguns praticamente à prova d’água. Leves, deixaram o
jogo mais rápido, o que acabou valorizando o preparo físico dos jogadores. E
as mudanças vêm se tornando ainda mais revolucionárias: um novo sistema de
sensores e câmeras já está sendo aplicado para confirmar se a bola entrou mesmo no gol, prometendo afastar a possibilidade de grandes polêmicas.
4. Tae-kwon-do
Acredite: a tecnologia foi responsável por manter essa arte
marcial nas Olimpíadas. Mas, nesse caso, o fator responsável não teve a ver com o desempenho dos atletas. Nos
Jogos de Pequim, em 2008, o tae-kwon-do quase foi retirado do programa olímpico por conta da imprecisão na hora
de computar os pontos, já que não havia ainda um sistema
eletrônico que reconhecesse a exatidão dos golpes e atribuísse a pontuação correta aos competidores. Um conjunto de
sensores capaz de controlar a pontuação automaticamente
foi, então, desenvolvido. E, além disso, um sistema de câmeras de vídeo passou a permitir aos juízes verificar movimentos polêmicos durante as disputas. O objetivo da Federação
Internacional de Tae-kwon-do foi evitar casos como o da
britânica Sarah Stevenson, que perdeu uma luta porque os
juízes não viram um golpe seu nos últimos segundos, nas
quartas de final da competição de 2008.
5. Patinação de velocidade
Nesse esporte, os competidores estão se tornando verdadeiros designers para aprimorar os mínimos detalhes
das lâminas de seus patins. Numa modalidade em que as disputas estão ficando cada vez mais acirradas e na
qual cada segundo conta, os patinadores de alto nível conseguem encomendar protótipos personalizados de
acordo com as suas necessidades. Atualmente também é viável acompanhar a performance do esportista por
meio da roupa especial Haptic Sports Garment. O equipamento é capaz de dizer, pela análise dos movimentos, se o competidor está usando os agrupamentos musculares corretos, apontando a velocidade a ser atingida
de acordo com a pista e o desempenho do patinador.
39
CRAQUES
ELETRÔNICOS
Os jogos de esporte sempre foram populares
no mundo dos videogames e até hoje são
grandes sucessos de público. A pedido
da Pense, os IBMistas elegeram os seus
favoritos das pistas e dos campos virtuais
Acesse o aplicativo da Pense no seu tablet e veja os melhores
momentos do “craque” Allejo, que marcou a infância de uma geração
PRO EVOLUTION
SOCCER 2013
É um dos jogos de futebol mais populares do mundo.
Seu sucesso se deve à “jogabilidade”, ou seja, à simulação realista das partidas de futebol. O IBMista Fernando Cardoso é fã: “É o meu tipo de jogo favorito e, hoje,
ainda conseguimos interagir com jogadores do mundo
inteiro”, destaca. No PES 2013, coordenar o ataque ou a
defesa são tarefas que exigem certa persistência e conhecimento de futebol do gamer, mas, mesmo assim, o Pro
Evolution é divertido tanto para jogadores ocasionais
quanto para fanáticos. Com excelentes gráficos e expressões convincentes dos atletas, o título vem com os principais craques e clubes do futebol mundial – incluída aí
a primeira divisão do Campeonato Brasileiro. A diversão
extra fica por conta dos bordões do narrador Silvio Luiz e
da trilha sonora, com “Ai Se Eu Te Pego”, de Michel Teló.
Disponível para PC, Playstations 2 e 3, PSP, Xbox 360,
Nintendo Wii e Nintendo 3DS.
MARIO KART
“Quem nunca jogou alguma versão deste clássico? Além
de ser o jogo do personagem mais instantaneamente
reconhecível por todos – incluindo pessoas que nunca
jogaram videogames na vida”, comenta o IBMista Juan
Ignacio Schenone Alonso. E chamá-lo de clássico não é
exagero: a primeira versão de Mario Kart data de 1992.
Já a mais recente, Mario Kart 8, foi lançada em 2014.
Somando-se todas as versões, foram mais de 100 milhões
de cópias vendidas do jogo. Conforme a tecnologia dos
videogames foi se sofisticando, esse divertido game de
corrida também evoluiu. Nele, Mario, Luigi, Todd, Koppa e outros personagens disputam a vitória em corridas
com espírito de desenho animado. Além de acelerar, é
preciso desviar de cascas de bananas e bombas, mergulhar com o carrinho e vencer a antigravidade para ganhar
as provas. Mario Kart foi criado por Shigeru Miyamoto,
responsável pelos demais games da série Mario Bros.
Disponível para Nintendo Wii U.
FIFA 14
O campeão entre os jogos de futebol. Uma
das maiores vantagens do FIFA 14 é contar
com um grande número de jogadores e clubes licenciados, de vários países e divisões do
mundo. “FIFA 14 é o simulador de jogo de
futebol mais completo e real da atualidade”,
afirma o IBMista Thiago Fernandes De Carvalho. Com gráficos bastante realistas, o jogo
permite reproduzir lances executados pelos
atletas reais com perfeição. Mesmo os iniciantes conseguem aproveitar as partidas, já que é
possível selecionar diversos níveis de dificuldade. O modo de “jogo em temporadas” permite montar equipes, contratar atletas e desafiar
jogadores do mundo todo. Só do Brasil, são
20 times disponíveis mais a seleção nacional.
Outro destaque do game é a trilha sonora, que
sempre se renova e envolve artistas do mundo todo, de Nine Inch Nails a Marcelo D2.
Disponível para PC, Playstations 2, 3 e 4, Xbox
360 e One, Nintendo 3DS e Wii, Android, iOS
e Windows Phone.
INTERNATIONAL
SUPERSTAR
SOCCER DELUXE
Os fãs de videogame dos anos 90 não se esquecem deste clássico, precursor do Pro Evolution
Soccer. “O maior de todos! Tudo o que vem
depois é mera adaptação”, provoca o IBMista
Daniel Nabarro. E o jogo fez mesmo muito
sucesso, principalmente no Brasil, apesar de
não contar com craques reais nem clubes. Não
havia licenciamento para usar os nomes dos
jogadores, então a seleção brasileira contava
com os ficcionais Allejo, Pardillo e Beranco
entre seus titulares. Com 36 seleções disponíveis, o game permitia ao jogador disputar
Copa do Mundo, Liga ou o Modo Cenário,
que consistia de desafios baseados em situações reais a serem superados em pouco tempo.
Versões não oficiais de ISS Deluxe circularam
pelo Brasil e pela Argentina, trazendo os times
locais e os jogadores com seus nomes reais.
Esteve disponível para Super NES, Megadrive
e Playstation.
NEED FOR SPEED:
UNDERGROUND
De 2003, este episódio de Need For Speed
reiniciou a série, lançada pela primeira vez
em 1994. Antes baseado em competições
de carros de turismo, o jogo mudou de cenário e foi para o mundo do tuning – carros de passeio modificados – e para as ruas
de uma cidade fictícia, que remetia a São
Francisco, nos EUA. O IBMista Bruno De
Pieri Darim o considera um clássico: “Foi o
primeiro game que possibilitou ao jogador
fazer modificações no carro, além de apresentar vários modos de corrida (Drift, Drag,
Circuit, etc.)” diz. Eram 20 carros disponíveis, que podiam ser customizados de várias
maneiras: desde o visual (lataria e pintura)
até a parte mecânica (transmissão e motor).
Outro destaque era a trilha sonora, repleta
de artistas de rock e música eletrônica, como
Rob Zombie, The Crystal Method e Rancid.
Need For Speed: Underground esteve disponível no PC, Playstation, GameCube e Gameboy Advance.
41
Ponto Final
Querer e
poder, sempre
Desde criança buscando o movimento, Fernando Aranha hoje é para-atleta.
Conheça um pouco de sua história, que passa pela tecnologia e por sempre
acreditar que, com adaptação e dedicação, tudo é possível
A paralisia infantil me deixou sequelas. No internato
Pequeno Cotolengo, em Cotia, onde cresci, a diversão era jogar bola e, como lá havia muitos deficientes, cada um jogava do seu jeito: uns de cadeira de
rodas, outros de muletas… Eu jogava de skate. Na
escola, como não podia praticar educação física, lia
uns livros sobre o assunto, aprendia como se saltava e, então, brincava de salto em altura. Sempre fui
espoleta, subia em árvore, buscava o movimento. Eu
usava o obstáculo para brincar e me desenvolver, não
de forma negativa.
Do basquete ao atletismo
Tenho algum movimento nas pernas, mas nada que
me sustente em pé. Já na cadeira de rodas, fico com
certa agilidade. Por isso, cheguei a pular o muro do
colégio para poder jogar basquetebol no Parque do
Ibirapuera. Treinei basquete em cadeira de rodas por
quase dez anos, porém houve uma época em que tinha que trabalhar, estudar e, para não deixar o esporte de lado, optei por um individual: o atletismo.
Durante a faculdade, comprei uma bicicleta de mão
e iniciei também a prática de cross-country e triatlo.
Nunca passei pela situação de “querer e não poder”.
Sou atleta recente. Antes de participar das Olimpíadas de Inverno deste ano, treinava duas horas e
meia pela manhã e duas e meia à tarde. Depois dos
Jogos, perdi meu emprego e passei a treinar de seis
a oito horas por dia. O atleta paraolímpico tem
vontade de sentir liberdade, de se movimentar,
de perceber melhoras no dia a dia. É uma prática
que se popularizou tanto que as pessoas já entram
para o esporte como superatletas. Está faltando
um meio-termo, um incentivo aos treinos, mesmo
sem a intenção de competir.
Uma extensão do corpo
Já encontrei minha posição na cadeira de rodas faz
algum tempo, mas estou sempre de olho nas novidades. Pesquiso novas tecnologias, novos tipos de
pneu e peças de fibras de carbono para a aerodinâmica. Na minha cadeira de corrida, só entro eu,
então acabo gastando muito dinheiro com equipamentos que não posso vender ou passar para outros.
Como deficiente, algumas partes do meu corpo não
vão funcionar da forma correta, mas elas precisam
ser estimuladas para que exista equilíbrio. É necessário um pouco de tempo, porque os membros demoram a responder aos estímulos de rendimento. É
uma adaptação. Temos que treinar nossa superação
todos os dias, trabalhar dentro de nossas dificuldades e talentos. Treinando de uma maneira diferente,
desenvolvemos habilidades que os próprios atletas
olímpicos poderiam utilizar.
Fernando Aranha, 35, pratica para-atletismo,
paraciclismo e paratriatlo, modalidade em
que se sagrou bicampeão brasileiro. Participou dos Jogos Paraolímpicos de 2014, em
Sochi, na modalidade “esqui cross-country”.
Veja no, aplicativo da Pense para tablets,
Fernando Aranha se preparando para
os Jogos de Inverno de Sochi
Na Próxima Edição
Educação sem fronteiras
As novas tecnologias estão mudando as salas de aula e conectando professores e alunos ao conhecimento de uma forma que antes não era possível. Grandes universidades de todo o mundo estão ao
alcance de um clique, enquanto crianças em idade escolar recebem reforço via videoconferência. Além
disso, um novo modelo de ensino, liderado pela IBM nos Estados Unidos, coloca as empresas cada vez
mais próximas da escola, como responsáveis pela formação de talentos, o que pode mudar a dinâmica do
mercado de trabalho em pouco tempo.
No nosso próximo número, você vai conhecer os novos rumos da educação, que tem usado a tecnologia
como base para tornar o conhecimento mais acessível a todos, não importa onde estejam e quem sejam.
Enquanto isso...
A sua revista Pense já chegou ao fim, mas a discussão continua nas redes sociais e você é nosso convidado.
Acesse a comunidade da revista no Connections, para compartilhar sua opinião com outros IBMistas, pelo
link bit.ly/ibmpense, ou siga o nosso blog: revistapense.wordpress.com.
43
A tecnologia de análise de sentimento
social da IBM entende e interpreta o que
milhões de brasileiros postam nas redes
sociais durante a partida, em tempo real.
Alta tecnologia com inteligência artificial
IBM permitindo que a escolha do melhor
jogador possa ser feita por todo mundo
e não apenas por alguns especialistas.
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Feito com IBM
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