A cidAde “corpopoéticA”

Сomentários

Transcrição

A cidAde “corpopoéticA”
A cidade
“corpopoética”
Paul Ardenne
[Professor de história da arte da Universidade de Amiens,
França; crítico e curador de arte contemporânea]
Em janeiro passado, em cerca de sessenta cidades do mundo, aconteceu simultaneamente a operação No pants subway ride, lançada
em Nova Iorque onze anos atrás. Gente de todas as idades, cores
e religiões descem nos subterrâneos do metrô vestindo apenas a
roupa de baixo. Não para se exibir durante alguns minutos e voltar
para casa. Não. Fazem ali os gestos corriqueiros do seu dia a dia no
metrô, um dia a dia regido pela necessidade, material, psicológica,
com um detalhe: executam-nos vestindo apenas a roupa de baixo,
seja simplesmente para ir de uma estação para outra e pegar uma
conexão, seja para esperar numa plataforma ou ainda ler o jornal ou
viajar até o seu destino.
Ressensibilizar o urbano
Esse tipo de operação vem se multiplicando, ao longo dos últimos
30 anos, a ponto de se banalizar. Dessa forma, foram instituídos, em
vários lugares, um Dia dos Vizinhos, que geralmente termina com
um jantar comunitário no play do prédio; um Dia da Cor, que consiste em se vestir com peças de uma única cor, uma forma de colorir
o espaço urbano; um Dia da Fantasia, quando é de bom tom sair
de casa vestido de Batman, Princesa Starla ou Mickey. Tais fórmulas
de “o dia de alguma coisa”, às vezes, se perenizam, vão se consolidando através da repetição sistemática do evento, resultando na especialização de determinados lugares, em função das especificidades
do evento. Da mesma forma que se vai ao Hyde Park Corner, em
Londres, para falar livremente, vai-se à avenida Guinza, em Tóquio,
fantasiado, em determinados momentos da semana, por se tratar de
um epicentro de renome mundial do cosplay. Ou ainda, as pessoas
se reúnem a cada noite de sexta-feira, na Bastilha, em Paris, montadas nos seus rollers, antes de sair, às centenas, para dar a volta pela
capital francesa, durante horas.
129
SOBRE DESEJOS E CIDADES
Essa carga de eventos fora do padrão, somada aos eventos
normais dos quais a cidade é o palco corriqueiro, é um sinal: a cidade
convencional, aquela que vivenciamos no dia a dia, não é suficientemente “sensível”, nem “sensitiva” ou pródiga em sensorialidades,
não apenas fortes, como também de acordo com as nossas expectativas por manifestações mais próximas do nosso desejo, completamente personalizadas até – manifestações urbanas que sejam
nossas manifestações, relacionadas com a nossa própria expressão
e não mais apenas com a convenção. A recente expansão, impulsionada pelas redes sociais (MSN, Facebook, Twitter, LinkedIn …),
dos flash mobs, flash streets e outros “aperitivos” mais improvisados
do que combinados previamente é a confirmação dessa demanda
personalizada, idiossincrática, de manifestações em que se pode
esperar encarnar um desejo, transformá-lo em realidade passando
do imaginário ou da fantasia para a sua concretização fatual: algumas pessoas decidem dançar salsa na saída do metrô, tomar um
porre sobre uma ou outra ponte ou, ainda, brincar de homem de
gelo na estação de Grand Central, em Nova Iorque, durante alguns
minutos.
TAZ
Esse fenômeno, objeto de vários estudos sociológicos, foi identificado nos anos 80, 90. É frequentemente chamado com o cômodo
nome de “TAZ” ou temporary autonomy zone [zona de autonomia
temporária]: o termo se deve a Hakim Bay, guru nova-iorquino do
“anarquismo poético”, e ele foi inspirado, entre outros, pela cultura
dos travellers (viajantes) que acompanha o movimento techno desde
os anos 1990, levando milhares de jovens a correr as estradas do
mundo inteiro buscando a paz, no meio do nada, por um determinado tempo, sem qualquer tipo de controle da polícia ou administrativo, para dançar, brilhar e viver na plenitude libertária.
130
A cidade “corpopoética”
O advento recente e intensificado das “TAZ”, esses espaços-tempos de autonomia temporária, nos informa sobre dois dados em
crescimento e que serão os eixos vertebrais desta palestra sobre a
cidade como vetor de desejos: de um lado, uma poderosa reivindicação individualista; do outro e consequentemente, uma vontade pessoal sempre maior de “criar” sua própria cidade sensível ou, na sua
falta, de aproveitar a cidade ou de nela mergulhar de modo a multiplicar as sensações. Qualificarei essa atitude com um neologismo, “corpopoética”, por esse motivo: na cidade, pretendemos muito menos
suportar o meio, o ambiente, do que criá-lo (poiésis, a “criação”, em
grego). Aspiramos àquele estatuto de ator que autoriza o nosso corpo
a ser autenticamente dinâmico, a se engajar em um movimento que
não seja o movimento rotineiro, obrigatório, dirigido, desabusado e
padrão, mas sim um movimento voluntarioso, um movimento que é eu
mesmo me movimentando na medida de mim mesmo, da minha vontade,
do meu prazer e, para parafrasear Nietzsche, da minha vontade de prazer.
A cidade é, por conta da sua agitação, um território intenso,
pródigo em muitas sensações. Pode se tornar ainda mais território de
intensidade, desde que se resolva viver nele de maneira “corpopoética”, com o objetivo de enraizar uma relação com o ambiente que
não seja passiva ou de espectador, mas ativa, criativa, com a ambição
de gerar representações excitantes de nós ou dos outros. Nessa pers­
pectiva, a grande indagação formula-se assim: como abordar a cidade
para dela fazer um teatro de encarnação sensível, um palco onde seríamos instrumentalizados o mínimo possível, um palco para a existência que vale a pena, palco aonde o corpo, nada menos, vem representar a realização do desejo?
Corpopoetizar a cidade
A cidade “corpopoética”, portanto. Entender: a única que seja minha,
meu próprio bem, capaz de possibilitar que aquela rua, aquela fachada
131
SOBRE DESEJOS E CIDADES
que vejo brilhar ali, sob o sol, que esse batalhão de automóveis subindo
o bulevar, acolá, sejam meus. “Abro em mim um teatro”, escreveu o
pensador francês Georges Bataille, à guisa de incipit à caótica obra-prima que é A suma ateológica, um monstro literário e filosófico,
publicado nos anos 1950. O que Bataille quis dizer? Apenas que não
há corpo possível sem representação. E que somos, definitivamente,
seres de representação. Vamos admitir que o instinto exista. Fora os
atos instintivos, regrados pela preocupação com a preservação da
espécie, todo o restante do que fazemos é representação, até mesmo
o mais banal dos nossos gestos: este é uma figuração de nós mesmos
no mundo. Basta olhar para nós mesmos para que se torne um sinal
construído, uma performance estética. Impossível escapar disso.
Mas, primeiro, a “corpopoética”, em poucas palavras. “Corpo­
poética”: esse neologismo une dois termos, “corpo” e “poética”. A “cor­
popoética” tem a seguinte vocação: pensar a ação conjunta desses dois
comportamentos invariantes da vida humana, de um lado, a repre­
sentação obstinada, pelo homem, do próprio corpo ou do corpo de
outrem; do outro lado, a atribuição de um significado superior a esse
ato de representação do corpo bem como à figura a ele vinculada.
A “corpopoética” trata do corpo humano visto como realidade
(o corpo em si), figura (o corpo e a sua imagem), como elaboração (o
corpo em si e em imagem como representação encarnada e vivenciada).
No caso, o termo “poética” – o substantivo – deve mesmo ser entendido
pelo seu significado original, helênico, de “criação”, como explicitamos
acima. Se o corpo existe, existe por ser permanentemente formulado,
criado e recriado, ao ritmo dos gestos, dos atos, pensamentos e representações que qualificam qualquer forma de vida não vegetativa.
Se vivemos dentro e por nossos corpos, isso não é jamais sem
nos “vermos”, sem convocar uma imagem corpórea, uma figu­ra­ção,
para fins táticos: porque não podemos nos abstrair dessa representação, porque não existiríamos se não fôssemos, de concreto, imagens
132
A cidade “corpopoética”
de nós mesmos ou de outrem. Desviemos do célebre, porém restritivo, Esse est percipi de Berkeley. Ser não é tanto ser percebido do que
perceber-se através de si ou de outrem, quer esse “si” assuma uma
figura realista ou imaginária, quer a sua percepção gere, em nós que
as estamos percebendo, uma reação afetiva, fetichista, idealista, indi­
cativa, iconoclasta, de rejeição ou indiferença.
O corpo humano é, solidariamente, uma realidade biológica
e a soma das suas representações, um conjunto formado pelas suas
células e pelas figuras que ele dá de si mesmo e para si mesmo. Não
há corpo carnal, material, que se possa imaginar e entender sem
representação. Essa disposição necessária para a ação que é a repre­
sentação não é de ordem meramente simbólica, no sentido em que
a humanidade comunica pela linguagem, mas também através de
sinais que formam uma linguagem. A representação de si, pelo ser
humano, é uma exigência de ordem natural, está nos genes tanto
quanto é produção de sinais: não podemos deixar de nos ver. As imagens, mentais como plásticas, que o ser humano forma dele próprio
e dos seus semelhantes obedecem ao imperativo de se representar
ou de representar um repertório de formas peculiares sob pena de
não existir em conformidade com a natureza humana: enxergar-se é
preciso. O cachorro, o gato, o hipopótamo, os paramécios não se “dese­
nham”, não se “retratam”, não se “representam”. A diferença entre
animalidade e humanidade, se ela existe, tem a ver com o uso das
imagens. A percepção basta para o animal. Mas o ser humano percebe
para representar. Toda a compreensão do mundo, por ele, se codifica
num aparato de figuras meditadas cuja razão de aparecer reside no
seu poder de reativação: a figura sempre é início de algo, uma incitação.
Nesse teatro de jogos cruzados que dão ao olhar (sobre si, sobre
outrem) uma relevância motora e dinâmica, portanto crucial, a “corpopoética” gera o equivalente a uma ontologia: qualifica o ser como ser, bem
sabendo que é ser de representar o ser e de ser representado como tal.
133
SOBRE DESEJOS E CIDADES
Contra o proibido
Voltemos à cidade e ao que seria uma relação “corpopoética” com a
mesma, isto é, uma relação na qual o nosso desejo, longe de ser proibido ou tolhido, seria, ao contrário, concretizado, satisfeito, sublimado?
Como já dissemos acima – depois de muitos outros, e lembro aqui os estudos de Georg Simmel desenvolvidos há um século
–, a cidade foi, por excelência, um espaço privilegiado de sensações. É inegável, nem que seja apenas em termos de espetáculo, de
barulho ou de cheiro. Mas há um problema: a sensorialidade que a
cidade exala e nos retorna com autoridade pode não agradar, e gerar
desprazer, em vez de excitar o nosso prazer. Se tal for o caso, não
desejamos mais a cidade, mas, pelo contrário, aspiramos a fugir
dela, a nos ocultar dela, fazendo triunfar a prática chamada de esca­
pismo,1 de “fuga sensível”: esmeramo-nos para nos refugiarmos em
casa, aspiramos ao sossego dos parques que nos cura do excesso
de barulho urbano, pegamos o nosso carro e vamos para o interior
onde, às vezes, podemos resolver morar definitivamente. Porque a
cidade, nesse caso, não sacia mais os nossos desejos, mas os inibe.
Desses desejos, ela veta a eclosão ou o livre desenvolvimento.
Uma cidade, como se sabe, não é em nada um espaço de
liberdade. É, em tudo, um espaço administrado, proprietarizado, parcialmente público, em que a maior parte dos elementos constitutivos
é o bem de pessoas ou instituições que não são “eu”. O espaço público
propriamente dito, via de regra, de público só tem o nome e, para o
restante, se tornou uma ficção ou uma fantasia de cientista político.
Tal praça é invadida pelos terraços dos bares, que a desfiguram. Faixas
e placas de propaganda vêm corromper a minha visão do espaço
urbano e perverter sua leitura ao sujeitá-lo ao império do comércio e
do consumo. Tal proibição da circulação me impede de continuar o
1. Em inglês no texto.
134
A cidade “corpopoética”
passeio como gostaria. O ordenamento municipal das ruas de pedestres aspira meus passos e me afasta, de fato, da tentação de ir para
outra parte ver a realidade da cidade… Com isso, para realizar o meu
desejo, só restam duas soluções: seja me radicar numa cidade que me
satisfaça no instante, mas que também vai se mostrar apta também a
me satisfazer ao ritmo do devir de minha própria vida – um desafio,
no mínimo. Seja tomar ou levar as autoridades a tomarem decisões
que vão no sentido do meu desejo, até pela violência se necessário.
Há cinco anos os outdoors estão proibidos em São Paulo. Há quinze
anos, o coletivo artístico Stalker organiza na cidade verdadeiras expedições, chamadas de franchissements (transposições), cuja prática consiste, na linha situacionista, em se deslocar a pé no território urbano,
seguindo uma linha arbitrariamente traçada no mapa, avançando
custe o que custar, nem que precise violar propriedades privadas.
A atratividade urbana, um complexo
Sem chegar àquela última extremidade, vamos assumir que possa
existir, de maneira intrínseca, uma “atratividade” urbana e que esta,
em si, possa se revelar de natureza a saciar nossos desejos de “cidade”:
aqui, lindos parques para descansar, passear e levar o cachorrinho
Bouli para brincar; lá, lindos shoppings para se perder nas lojas, na
euforia das compras, essa nova religião da era pós-capi­talista em que
estamos vivendo e, ali ainda, esses lugares secretos, ocultos ao olhar
de todos, onde podemos conspirar sem ser vigiados ou fazer amor.
Coloquemos a pergunta sem rodeios, e vamos procu­rar respondê-la
também sem rodeios: quando é que uma cidade é realmente magnética? Sob que condições uma cidade atrai a nossa vontade de nela nos
pousarmos, de passar um momento que presu­mimos ser agradável e
que venha saciar nossos desejos?
Qualificar a atração urbana? Definir em que e por que uma
cidade é atraente? Essas perguntas, nesse caso, obrigam a questionar
135
SOBRE DESEJOS E CIDADES
o potencial de imantação da cidade, as suas estratégias de sedução.
Lembremo-nos do título, compridíssimo, de uma fotomontagem do
artista pop britânico David Hamilton, O que torna os nossos interiores
tão intrigantes, tão simpáticos? E substituamos o universo interior e
doméstico do qual fala Hamilton pela palavra “cidades”: O que torna
as nossas cidades tão intrigantes, tão simpáticas?
Nesse ponto, um lugar comum bem enraizado reza que a
arquitetura desempenha o seu papel, isto é, quando tem qualidade
e tem boa manutenção, seja ela patrimonial ou contemporânea: a
bela arquitetura seria a própria garantia da influência urbana. Esse
ponto de vista, embora amplamente acolhido, deve, no entanto, ser
combatido. Pois é o inverso que prevalece a maior parte do tempo.
La Havana, por exemplo, fascina: arquitetura de degradação. Tóquio
também fascina: a arquitetura, no geral, é sem qualidade. Mas se
for para Dubai, cidade limpinha, preenchida por imóveis tão novos
quanto rutilantes, cidade programada para ser uma cidade de verdade com tudo o que é preciso para tanto, porém, hélas!, perfeita­
mente artificial, é exatamente o fenômeno inverso que ocorre:
a cidade entedia.
Que diagnóstico podemos fazer nesse particular? O que
interessa, a maior parte do tempo, da cidade é o que é exter (“externo”,
mas também “extremo”, em latim), isto é, o que nela existe de fora
do padrão, ao menos tanto quanto o que está integrado. Rua Sainte-Catherine Ouest em Montreal: a própria banalidade, uma sequência de fachadas do século XIX, de tijolos e prédios modernistas ou
neomodernistas, além de uma enfadonha atmosfera de compras.
De repente irrompe nessa perspectiva banal, aberrante, um fragmento de terreno baldio, ao longo da calçada avenida. Por que esse
vazio, e aqui, bem no meio de um lugar onde triunfa o cheio, onde o
setor imobiliário, além de tudo, não deixaria por muito tempo o vazio
urbano se desenvolver? A curiosidade é aguçada.
136
A cidade “corpopoética”
Daí essa impressão: pode ser que gostemos, a maior parte
do tempo, daquilo que atrapalha a representação homogênea da
cidade. Que gostemos, contrariando as expectativas ou o projeto dos
urbanistas, de tudo o que lembra algum heterogêneo: a lei do outro
gene, o gene não urbano instilado no urbano – o desgaste, a sujeira,
a entropia, o espetacular, o dúbio, o nojento e o nauseante, o abandonado, até mesmo a obra em andamento.
À pergunta: como tornar a cidade atraente? A resposta
menos errada talvez seja a seguinte: é preciso, para tanto, enfatizar
a parte do heterogêneo. Enfatizá-la se ela ainda não tiver, em vez de
reproduzir o homogêneo globalizado, produzido pelo projeto moder­
nista, que baniu das nossas cidades toda e qualquer excentricidade.
Assim, vamos a Calcutá apenas para poder dizer, como Churchill:
Calcutá? By Jove, é preciso ter ido lá uma vez e ter visto, para nunca
mais voltar. Apenas para poder dizer, finalmente, aliviado, tampando
o nariz: “Estive lá, uma façanha, é forte, realmente horrível, sujo
a um ponto...” E isso, mesmo quando não veremos graça alguma
em Cingapura, cidade impecável, onde, no centro, se pode dormir
ou comer no chão, sem se sujar, mas onde fumar é proibido, onde
o álcool é uma iguaria raríssima e onde os animais de estimação
são convidados a ficar em casa. Uma cidade com a qual ninguém
nunca sonhou. Cidade a-fantasística por excelência, a exemplo de
Lausanne, Denver ou Vitré.
Espetacularizações e sensações
O que excita em Tóquio? A Electronic City e seus ares de lugar vitimado que canibaliza a propaganda, lugar submerso sob uma iluminação de ano novo, regrada pela propaganda e mais nada, o sinal
da pior trivialidade mercantil, mas pouco importa. Como em Times
Square, Nova Iorque. Os prédios? Não se veem mais, acabaram
sumindo, debaixo da primeira e única camada visível da tela urbana,
137
SOBRE DESEJOS E CIDADES
o estrato publicitário, parasitário como o diabo, e que se exibe por
todos os cantos, consumido todo o espaço físico disponível. Power
of the advertising – o próprio avesso do homogêneo, aqui também.
Por que vamos a Bamako? Porque lá, o próprio conceito de cidade
é dissolvido, arruinado pela miséria, a superpopulação, a imperativa necessidade de conseguir moradia. Quando se fala em Bamako,
a cidade verdadeira não existe mais apenas no casario, em estado
de desestruturação geral, mas também à sua volta: cidade-sarjeta,
cidade-cloaca, cidade-ruína. Isso tudo excita a cobiça das pessoas
limpinhas que somos, nós, os ocidentais. Bamako, me suje, pedimos
para essa cidade, como a amante implora ao amante: “Me suje, me
devaste!” Ver esse lindíssimo, tão surpreendente quadro ao ar livre,
que forma a sujeira que encobre a miserável fachada da estação
de trens de Bamako: mais de um século de fuligem, uma negrura
inimaginável, fascinante, que relega as telas negras de Ad Reinhardt
ou de Pierre à categoria de pequenas escurezas pretensiosas. A gente
pede mais.
Na verdade, a principal oferta de homogeneidade urbana
que, apesar de tudo, sabe agradar é o espetáculo. Isso explica porque
todas as cidades querem o seu museu Guggenheim, no estilo de
Gehry, como em Bilbao. Ou a mais alta torre residencial, como Dubai
após Taipei, Taipei após Kuala Lumpur, Kuala Lumpur após Chicago
e Chicago após Nova Iorque. Ou ainda, seu bairro da La Défense, a
sua própria Manhattan, à imagem de Xangai-Pudong, no início deste
início de século XXI, o La Défense elevado à potência dez: um bairro
fascinante de se ver desde o Bund, desde os cais e do outro lado do
rio, que corta a paisagem, com uma tórrida linha do horizonte; um
bairro, ao contrário, insípido, quando visto de dentro, mas isso não
tem mesmo qualquer importância. Pudong é feito, antes de tudo,
para o espetáculo. Consequentemente, deve ser visto primeiro. E se
torna irrelevante ele ser ocupado ou, mais ainda, vivenciado.
138
A cidade “corpopoética”
A cidade atraente? Ousemos a seguinte proposição: para
pensar (se não, é claro, para promover) a atratividade urbana, me­lhor
partir do contramodelo, o da cidade enfadonha. Muitas cidades
moder­nistas são enfadonhas: Brasília (o plano-piloto), as cidades
reconstruídas (na Alemanha, por exemplo, Dortmund, Essen, Frankfurt até, embora cidade laboratório, da arquitetura neomodernista).
Ora, quando uma cidade deixa de ser enfadonha?
– Quando arrebata a atenção ou a satura: as cidades museus,
como Veneza, Paris, Rottenburgo am der Tauber, Pingyao, Carcassonna
(a cidade-sinal).
– Quando autoriza a intriga: cidades italianas ramificadas
onde vaguear, lilongs chineses onde perder-se (a cidade-aventura).
– Quando se pode seguir o rastro de fantasmas: em Paris,
dormir no hotel onde Oscar Wilde deu o último suspiro, ou ainda
fotografar o poste de luz onde presumivelmente Gérard de Nerval
teria se enforcado; em Memphis Tennessee, errar em volta de Graceland, sua propriedade, para encontrar o espírito de Elvis Presley.
– Quando acanalha: cidade de México e a sua corrupção
generalizada, La Havana e suas prostitutas de treze anos, Bangkok e
seus locais de prazer (a cidade desviante, desobediente).
– Quando desanima: Beijing, definitivamente extensa demais;
Tóquio, definitivamente incompreensível; Los Angeles, defi­ni­tiva­
mente atomizada (a cidade-excesso); Romorantin ou Montluçon, defi­
nitivamente sem graça, tão desinteressantes que se pode pensar em
explorações ou excursões em torno dos seguintes temas: “Da insipidez
urbana”, ou ainda “O qualquer urbano” (veja a excursão a Romorantin,
139
SOBRE DESEJOS E CIDADES
sobre esse tema ou quase isso, planejada pelos surrealistas, nos anos
1920) – isso, neste último caso, sob a condição de que a sua existência
não tenha sido pura e simplesmente esquecida (a cidade-nada).
A cidade atraente, vamos defini-la, consequentemente,
como aquele espaço polêmico cuja natureza excede a familiaridade,
familiaridade esta, cedo ou tarde, enfadonha; como aquele espaço,
para dizer de outro modo, que se constitui conforme um modelo
resistente, que obstaculiza. Ou seja, a cidade não tolhida, a cidade
indomada, que incomoda, desregrada, fora de gabarito, desesperadora até: o Cairo, impossível de se atravessar; Budapeste, nos tempos do comunismo, tornada irrespirável por conta da poluição dos
automóveis; Praga antes da sua atual transformação em confeitaria
austro-húngara, de um cinza desalentador, cidade dos sonhos para
se dar um tiro na cabeça; Berlim Ocidental, ao longo do Muro, antes
de 1989, e Berlim Oriental, na mesma época, cidade de concreto
onde o capim crescia nas ruas, logo além da Alexanderplatz.
O ponto de vista do grupo e do indivíduo
Tornar concretamente as nossas cidades mais atraentes? Aqui, tudo
depende de para quem se está falando e, sobretudo, para o prazer de
quem – do indivíduo ou do grupo?
Considerando as aspirações ao prazer e ao desejo saciado do
grupo, do coletivo, em um meio não conservador, vamos sustentar
que se alcançará o objetivo, desenvolvendo inflexíveis políticas de
decomposição urbana, constituindo em seu proveito uma “barbárie”
própria – no sentido etimológico de “estrangeiro”, nos Gregos, os
bárbaros –, isto é a produção de uma estranheza, de bizarrices, de
absurdos. Os municípios em busca de atratividade, não resta dúvida,
só teriam a ganhar ao acrescentar ao organograma da sua administra­
ção as BDU’s – Brigadas de Decomposição Urbana. Isso proposto,
140
A cidade “corpopoética”
no entanto, colocando a seguinte pergunta, capaz de mergulhar
Cândido em um abismo de perplexidade: a decomposição urbana,
a “barbárie”, o heterogêneo que tanto nos excitam, por que sempre é
melhor nos outros? E por que queremos que a nossa cidade, ao contrário, seja limpa, nem um pouco deses­truturada e, sobretudo, sem
estar entregue à desordem ou àquele caos que tanto nos eletriza nos
outros e nos arrepia? Sim, pergunta Cândido, com toda a legitimidade, por que estamos dispostos a pagar a peso de ouro para nos
exibir na faixa de Gaza, ou em Cité Soleil, a grande favela de Port-au-Prince, no Haiti, só para ter o frisson do enfrentamento com a alteridade vivida como violência – isso, quando mesmo nós, franceses e
parisienses, por nada no mundo atravessaríamos a via expressa que
circunda Paris para mergulhar nas periferias negras de Sarcelles ou
no melting pot multiafricano de Bobigny e arredores?
Mas se indagarmos agora qual é a melhor maneira de se
promover o “prazer” urbano do indivíduo, já somos levados para
um desafio bem diferente. Pressente-se: a cidade “corpopoética”
de um não será necessariamente a cidade “corpopoética” de outro.
Tal pessoa comum, por exemplo, vai desejar que a cidade esteja, o
quanto antes, mergulhada numa angustiante escuridão, que te faz
temer pela própria vida a todo o momento, muito excitante para os
sentidos, enquanto outra pessoa comum, por sua vez, sonhará com
rios de luz urbanos, com inundações de fótons, com queimaduras
oculares causadas pelo excesso de iluminação, com o Strip de Las
Vegas na cabeça. O desejo desse outro, ainda, será de ver surgir, na
rua, uma palmeira transportada num carro, e o daquele outro será
de surpreender dançarinos pulando de elástico, de cima das pontes.
A relatividade, nesse caso, atinge necessariamente o seu auge.
Porque cada um de nós tem a própria sensação da cidade, porque
cada um de nós espera da cidade algo especial, muito provavelmente
dissonante em relação à estética adquirida.
141
SOBRE DESEJOS E CIDADES
A cidade corpopoética e o urbanismo
Em matéria de concretização dos nossos desejos em termos de vida
e espetáculos urbanos, a atitude “corpopoética” só pode ser protei­
forme: cada um com a sua, em suma. Tal diagnóstico, por mais
óbvio que seja, não deixa de ser problemático. Pois a cidade, uma
vez encarada em termos de “corpopoética”, tem todas as chances de
ser sempre imperfeita, inadequada para a configuração que cada um
pode esperar pelo próprio prazer, tem todas as chances de se tornar
um fracasso. A aspiração individual, no caso, se torna o pesadelo dos
urbanistas. De fato, qualquer coisa que estes tentem, para projetar e
realizar uma cidade capaz de saciar todos os desejos de urbanidade
de seus moradores, sempre errará o alvo, sempre acertará ao lado do
desejo pessoal.
Será está uma notícia tão ruim assim? Não tenho certeza.
Se tirarem a lição deste ensinamento, restará aos urbanistas apenas
projetar minimamente as nossas cidades, atendo-se ao mínimo de
obrigações: permitir-nos de morar, circular, cuidar da nossa saúde e
educar-nos, trabalhar, consumir. O resto, de certo, não lhes diz respeito.
O “resto”? O belo ordenamento, a teatralidade, o simbólico, dos quais
cada um fará o que bem entender, na medida do seu imagi­nário e em
função da sua capacidade gestual a influenciar a cidade como ela é.
A cidade corpopoética: o túmulo do urbanismo sofisticado,
na perspectiva desse advento, uma urbanidade autenticamente
democrática.
142