LÍRICA ERÓTICA GREGA

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LÍRICA ERÓTICA GREGA
IV CONALI - Congresso Nacional de Linguagens em Interação
Múltiplos Olhares
05, 06 e 07 de junho de 2013
ISSN: 1981-8211
LÍRICA ERÓTICA GREGA: ALGUNS LUGARES-COMUNS
Luiz Carlos André Mangia SILVA (Professor Adjunto – UEM)
Introdução
O epigrama é um gênero poético de longa vida na literatura antiga. Desde que se
estruturou como forma lírica, sobretudo a partir do século IV a.C., seu cultivo jamais foi
abandonado e seu interesse, tendo variado de época à época, esteve assegurado até o fim da
Antiguidade (VI d.C.). Como forma breve de poesia, sua veiculação esteve sempre ligada a
antologias, entre as quais merecem destaque a publicada por Meléagro de Gádara (cerca de
100 a.C.) e a de Filipe de Tessalônica (cerca de 50 d.C.).
Caracterizado como um poema breve, composto em dísticos elegíacos, o epigrama
grego combina um hexâmetro (verso próprio da poesia épica, conforme o modelo
homérico) e um pentâmetro, ambos em ritmo datílico. A menor extensão admitida é a de
um único dístico, sendo que poucas vezes o gênero ultrapassa quatro ou cinco pares de
versos. Nascido como inscrição em pedra ou metal (ligado, portanto, à epigrafia), o
epigrama literário conservou de sua origem as qualidades de concisão e brevidade.
Extratos das antologias antigas de Meléagro e Filipe nos são conservados ainda hoje
pela Antologia Palatina. Em seus 15 livros, a Palatina abriga mais de três mil e quinhentos
epigramas gregos, organizados conforme o tema cultivado. O Quinto Livro abriga pouco
mais de 300 poemas, poemas que aludem, sistematicamente, a lugares-comuns (ou à tópica
literária) delimitadores do universo erótico, cuja regência cabe aos deuses Eros e Afrodite,
além de seu séquito. Adiante o leitor conhecerá uma pequena amostragem desse material.
1.1 Um gênero antigo
Durante a época helenística da literatura grega (323-30 a.C.), o epigrama converteuse numa das mais importantes formas poéticas, ao ponto de a maior parte dos autores
dedicar-lhe sua atenção. Seu apreço é atestado não só pela quantidade de poemas que nos
restaram dessa época, mas também pela qualidade de alguns desses textos. Focalizando
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apenas o Quinto Livro da Palatina, por exemplo, podemos reconhecer ali cerca de uma
centena e meia de poemas datáveis do período helenístico. Tal preferência levou Couat
(1968, p.170) a afirmar que o gênero convertera-se em “moeda corrente” entre os poetas
helenísticos.
Se esteve ligado à epigrafia em suas origens, cuja função prática era a de ser uma
inscrição, por essa época
[...] o epigrama passou definitivamente da pedra ao papel e converteu-se
em um gênero literário a mais [...] delimitando-se de forma nítida os
traços genéricos que já despontavam desde os primeiros epigramas: a
brevidade, o caráter sintético e a variedade métrica, com predomínio do
dístico elegíaco, e temática. (VIOQUE, 2004, p.11)
Os epigramistas helenísticos, embora pouco conhecidos fora dos limites estreitos do
gênero, foram bastante apreciados por seus contemporâneos, assim como em Roma, onde
ajudaram a estabecer as bases da elegia erótica que alcançou pleno cultivo às mãos de
poetas latinos tais como Propércio e Tibulo, por exemplo. Alguns nomes de epigramistas
jamais foram esquecidos: Calímaco de Cirene foi um dos grandes cultores do gênero, além
de ter composto outras formas literárias; Asclepíades de Samos e Posidipo de Pela também
estiveram entre os nomes de relevo; Meléagro, o importante antologista do período, e
Filodemo, ambos de Gádara, também devem ser contados entre os responsáveis por
conduzir o gênero ao seu ponto mais alto.
Depois da Helenística, o epigrama experimenta certo declínio, embora jamais deixe
de ser produzido. No primeiro século depois de Cristo, já não encontramos grandes cultores
e, se os nomes helenísticos já pouco influenciaram a história da literatura posterior, os
autores desse período são ainda mais discretos. Assim, quanto aos poetas posteriores à
época helenística, pode-se afirmar que
A maioria não chamou a atenção nem de seus contemporâneos, nem de
seus sucessores. Nem sequer os eruditos tardios lhes prestaram a mesma
atenção que concederam aos epigramistas helenísticos. (VIOQUE, 2004,
p.16)
Notemos que esse esgotamento da forma literária, por volta do século I d.C., talvez
se deva ao fato de o epigrama ter alcançado seu ápice em época imediatamente anterior, o
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que a um só tempo ofuscou e impediu a criatividade dos novos poetas. A despeito disso,
pouco mais tarde, em Roma, o gênero alcançará de novo pleno cultivo às mãos de Marcial
(I-II d.C.).
1.2 Um gênero moderno
O epigrama parece sempre revelar-se um gênero poético eficaz. Sua brevidade e
concisão, muito apreciadas na Antiguidade, são hoje qualidades desejáveis pela literatura
de nossa época. Nada anacrônico será afirmar, pois, que esse gênero poético, capaz de
expressar o lirismo de autores de dois milênios atrás, permanece adequado como forma de
expressão do lirismo do século XXI. Quem defende tal ideia é Calvino, em Seis propostas
para o próximo milênio, ao exaltar a rapidez como uma das qualidades literárias de nosso
tempo. A busca pela densidade e concisão em literatura conduz o estudioso a repelir obras
extensas (“É difícil manter esse tipo de tensão em obras muito longas”, CALVINO, 1990,
p.61) que, por sua própria natureza, impossibilitam tais atributos. Assim, ele exalta, para a
prosa, as narrativas breves (short stories); com relação à poesia, defende o epigrama como
uma das formas literárias adequadas à inteligência veloz e à pouca disponibilidade de
tempo de nossa época:
A concisão é apenas um dos aspectos do tema que eu queria tratar, e me
limitarei a dizer-lhes que imagino imensas cosmologias, sagas e epopeias
encerradas nas dimensões de um epigrama. Nos tempos cada vez mais
congestionados que nos esperam, a necessidade de literatura deverá
focalizar-se na máxima concentração da poesia e do pensamento.
(CALVINO, 1990, p.63-4) (grifo nosso)
Reconheçamos nessa asserção a vitalidade do gênero: apreciado pelos antigos, cujo
cultivo atravessa milênios, o epigrama surge uma vez mais com toda a força, quase como se
se tratasse de uma nova forma literária. Porta-voz da brevidade e da concisão, ele agrega,
pois, o potencial de oferecer ao autor e leitor modernos uma poesia nova, moderna.
Se as afirmações de Calvino nos permitem identificar, de um lado, a capacidade de
o epigrama expressar a rapidez de nossa época, de outro lado, elas nos convidam a rever
nos epigramas já produzidos – particularmente os gregos, em foco neste artigo – sua
potência literária, sua concisão e expressão lapidar. Aprender com os exemplos já
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produzidos e apreciá-los podem ser, nesse sentido, instrutivos aos leitores contemporâneos.
Eis porque apresentamos aqui essa forma literária sempre a vicejar.
2.1 As antologias antigas
Já tivemos ocasião de abordar a prática de colecionar epigramas na Antiguidade
(SILVA, 2011, pp.25-64). Mencionemos apenas que antologias de epigramas foram muito
difundidas no mundo antigo; foram elas que asseguraram a preservação desses pequenos
poemas que, de outra forma, estariam perdidos para nós. Esses numerosos colecionadores
de epigramas recolheram poemas produzidos por seus contemporâneos (ou por autores de
épocas anteriores), selecionaram e organizaram esse rico material. Notemos, pois, que a
relação entre epigrama e antologia é visceral:
A história do epigrama literário grego é, na realidade, a história das
antologias de epigramas gregos, pois ele, por sua própria natureza, tende a
transmitir-se em forma de coleções ou antologias. (VIOQUE;
GUERRERO, 2001, p.7)
Durante a época helenística, o gosto por antologias atingiu seu ápice (SILVA, 2011,
p.38) e o resultado foi a publicação de umas das mais importantes antologias de epigramas
de que se tem notícia: a Guirlanda de Meléagro. Publicada na primeira década do século I
a.C., a obra foi monumental: com mais de 800 epigramas, compostos por cerca de 70
poetas, essa coletânea deve ter possuído entre 4.500 e 6.000 versos (SILVA, 2011, p.31;
p.40-41), constituindo-se, portanto, em uma das maiores antologias da Antiguidade.
Decorre desse fato o ter sido imitada por antologistas posteriores; mais que isso, “As
antologias seguintes estarão inevitavelmente marcadas pela de Meléagro”, conforme
afirmam Vioque e Guerrero (2001, p.12).
Outra importante antologia antiga, vinda à luz em meados do primeiro século depois
de Cristo, é a de Filipe de Tessalônica. O antologista adotou o mesmo nome de seu
predecessor e intitulou também a sua coletânea de Guirlanda. Embora não tenha sido
monumental como seu modelo, nem tão feliz quanto à qualidade dos poemas recolhidos
(pois o epigrama experimentava certo declínio, como já afirmamos), a coleção de Filipe
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abrigou pouco mais de 500 epigramas, de autoria de cerca de 40 poetas e sua extensão
talvez tenha ficado entre 3.500 a 4.500 versos (SILVA, 2011, p.41-42).
Modernamente, é na Antologia Palatina que encontramos extratos substanciais
dessas antigas antologias. A maior parte dos poemas que serão lidos adiante esteve abrigada
em uma ou outra antologia. A Palatina é uma coletânea de coletâneas e foi finalizada
provavelmente no século X d.C.
2.2 Antologias e poesia menor
Embora se façam coletâneas de poetas consagrados, mais comum é que antologias
abriguem textos de autores ignorados pelas histórias da literatura; é o que pensa Eliot:
A maioria de nós não dispõe de tempo para ler do princípio ao fim as
obras de competentes e ilustres poetas enfadonhos, especialmente os de
outra época, para pinçar os bons trechinhos que nos interessam; e
raramente isso valeria a pena, mesmo se dispuséssemos de tempo. [...]
Assim, as antologias e seletas são proveitosas, pois ninguém dispõe de
tempo para ler tudo e porque há poemas dos quais apenas algumas
passagens continuam vivas. (1991, p.61; p.62)
Salvo exceções, os nomes dos poetas abrigados nas antologias antigas são
completamente desconhecidos pela tradição posterior, embora em alguns setores da
literatura sua marca possa ser percebida. Nesse sentido, devemos afirmar que muitos dos
epigramas abrigados na Palatina são obra de poetas menores. Além disso, um número
considerável de peças é anônima e outro conjunto representa a única obra de certos poetas.
Como é próprio de uma antologia, portanto, a qualidade do material é bastante desigual.
Não obstante sua pouca importância para as histórias da literatura, devemos
considerar que, no acervo de epigramas da Palatina, encontram-se, por vezes, poetas ou
poemas que nos chamam a atenção, cujos versos são capazes de nos dizer algo que
intimamente apreciamos. Esses poetas ou poemas, de qualidade e importância
questionáveis, podem de repente atender a certas expectativas do leitor, que se vê, nesses
casos, obrigado a afirmar que se trata de boa poesia:
A antologia também nos ajuda a descobrir se não há alguns poetas
menores cuja obra nos caberia conhecer melhor – poetas que não figurem
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tão conspicuamente em nenhuma história da literatura, que possam não ter
influenciado o curso da literatura, poetas cuja obra não é fundamental para
nenhum esquema abstrato de educação literária, mas que podem ter um
forte apelo pessoal para certos leitores. [...] Esse poeta pode não ser muito
importante, diriam vocês desafiadoramente, mas sua obra é boa para mim.
(ELIOT, 1991, p.59-60)
Dentro de uma antologia, o gosto pessoal do leitor, indiferente às regras da boa
literatura, é quem deve presidir a apreciação. Poderá ele encontrar ali bons versos, se se
deixar guiar por tal gosto, já que, ainda segundo Eliot, “a antologia pode nos dar a conhecer
poetas de pouca importância, mas de cuja obra talvez alguém possa gostar” (1991, p.60).
Sincero com relação ao seu interesse literário, o leitor ávido por poesia há de
encontrar, certamente, bons versos no acervo do Quinto Livro da Palatina, pois ali alguns
nomes discretos (para mencionar apenas os menores) reluzem mais que outros: Marco
Argentário e Rufino, por exemplo, podem ser bons para alguns leitores (o são para mim);
Getúlico e Basso, ambos autores de um só epigrama abrigado no Quinto Livro, também
podem ser apreciados, um pela delicadeza de suas imagens, outro por seu humor.
3.1 Epigrama e lugar-comum
A designação de lugares-comuns (chamados também tópicos ou tópicas literárias)
refere-se ao uso reiterado de imagens que, sistematicamente evocadas numa tradição
poética, convertem-se em um código literário cuja alusão passa a ser obrigatória. Esse tipo
de procedimento foi bastante importante entre os antigos, particularmente porque sua arte
literária não primava pela novidade, entendida aqui como a invenção de imagens jamais
vistas. Ao compor seu poema, o autor antigo tinha em mente um conjunto de referências
tradicionais que deviam ser utilizadas, a fim de ser reconhecido como poeta de certo setor
da literatura. A novidade de sua composição residia no fato de combinar imagens
tradicionais de maneira inusitada, residindo nisso seu apreço junto aos seus pares ou
leitores.
Os tópicos literários, isto é, a recorrência intertextual de uma série de
esquemas conceituais mais ou menos formalizados que os autores antigos
empregam como recurso e que os receptores de suas obras percebem – em
maior ou menor medida – como tais tópicos, são próprios de toda
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literatura desenvolvida (por causa, sobretudo, de sua difusão escrita), seja
qual for sua tipologia linguística, formalizada em gêneros, ensinada nas
escolas e – como traço fundamental – concebida essencialmente em
função de seus destinatários. (ESCOBAR, 2000, p.133)
Quanto aos epigramas do Quinto Livro da Palatina, selecionamos pequenos grupos
de poemas cujo denominador é o acesso aos mesmos lugares-comuns, o que permitirá ao
leitor a identificação do recurso próprio da poesia antiga. Uma vez que a qualidade da
produção é desigual, vale lembrar uma vez mais, com Eliot, que o que importa é a
capacidade de um ou outro poema tornar-se importante ou bom “para mim”.
3.2 Os lugares-comuns
A alusão a cortesãs velhas na Palatina é frequente: mais de uma vintena de poemas
alude a mulheres em idade de abandonar a profissão, censurando-lhes por permanecer
ativas. No entanto, algumas delas, por causa de seus encantos perenes, conseguem angariar
os elogios dos amantes – daí chamarmos essa tópica de belas velhas. No epigrama 13 (a
numeração dos textos deriva de sua alocação do Quinto Livro), o eu-lírico destaca as
qualidades ainda em flor da cortesã Gracilda, não obstante seus 60 anos: ela possui pele
“sem ruga alguma” e “sedução de toda espécie”; segue a essa apreciação o convite para que
os amantes continuem a frequentá-la. No poema 62, em que falta o verso final, uma vez
mais o eu-lírico é capaz de reconhecer, agora sem precisar a idade da amante, suas
qualidades joviais; e já que seus encantos persistem, ele imagina a quantos ela deve ser
incendiado outrora. Em 304, o poema relaciona a cortesã com as fases da uva e afirma que,
quando nova (ou “verde”), a amante não se entregava; “madura”, ela o repeliu; a
expectativa é que agora, envelhecida (ou tornada “uva passa”), ela já não o recuse mais.
Na tópica das deusas Graças, temos a comparação de cortesãs com a beleza ou os
dons sedutores dessas deusas, que compõem o séquito de Afrodite. Em 196, o eu-lírico
constata que foi Eros quem ofertou à amante Zenófila beleza; por sua vez, Afrodite ofertoulhe os encantos sobre o leito, ao passo que as Graças lhe deram graça (em português como
em grego, o termo “graça” representa dons ou encantos, assim como nomeia as próprias
deusas triplas). Em 146, brinca-se com a ideia de que, junto às estátuas das deusas Graças,
antes triplas, colocaram agora uma quarta Graça, Berenice (isto é, a estátua dela), rainha
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egípcia da família dos Ptolomeus (século III a.C.). No epigrama 148, a cortesã Heliodora,
por causa da “doçura de suas palavras”, chega perto de superar, com suas graças, “até
mesmo as próprias Graças”.
Na tópica das metamorfoses de Zeus, muito apreciadas na Antiguidade, vemos o
filho de Cronos (daí seu epíteto Cronida) assumir com frequência a forma de chuva de ouro
para amar a princesa Dânae, futura mãe do herói Perseu. Em 33, o eu-lírico afirma que a
princesa não se entregou ao deus por “temor” de seu poder, mas por causa da “prenda”
valiosa ofertada (ouro), destacando assim o caráter venal da atração entre os amantes. Em
64, o eu-lírico, conduzido por Eros (cujo nome não é revelado no poema), insurge-se contra
Zeus, a quem o próprio soberano dos deuses deve obediência; afinal, por ordem do deus do
amor, até mesmo o Cronida já foi um dia guiado, “áureo”, para dentro de “quatros
plúmbeos”, ocasião em que se transformou em chuva de ouro. Em 125, três metamorfoses
de Zeus são mencionadas e ridicularizadas: uma chuva de ouro abre o poema; a seguir,
refere-se à transformação do deus em touro, ocasião em que amou a princesa Europa; a
seguir, alude-se à sua mudança em cisne, em função do amor de Leda, mãe de Helena; o
eu-lírico se ri de tais metamorfoses, que chama “brincadeiras”, e afirma que ele próprio,
não com ouro, mas com apenas dois óbolos (isto é, dois míseros centavos), consegue os
favores de Corine – “e sem qualquer ruflar de asas”.
Por fim, na tópica intitulada navegamar (que já abordei em pormenor noutro lugar;
cf. SILVA, 2011, pp.155-201), vemos a metáfora náutica a serviço do amor. No epigrama
17 (procedente de uma antologia pouco conhecida, de autoria de Diocleciano, cerca de II
d.C.), o eu-lírico se dirige à Cípria, cognome de Afrodite, ofertando-lhe humildes prendas,
a rogar-lhe, por sua qualidade de deusa do mar, uma viagem tranquila, pois o amante
cruzará as ondas do mar jônio “rumo ao seio” de Idoteia; que a deusa envie, pois, “um
tempo propício/ para a paixão, para as velas”. Em 11, o amante pede também a proteção da
deusa: apaixonado, ele naufraga, não em mar aberto, mas “em terra”. Por fim, em 156,
temos a bela Asclépia, que com olhos azuis “como o mar em calma”, convida todos a
“navegamar”; note que, nesse caso (mais que nos outros), a alusão à viagem por mar é
altamente sexual.
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4. Sobre as traduções
Nossas traduções procuram recriam, em língua portuguesa, alguns dos recursos
presentes nos textos antigos. Assim, por exemplo, preocupados com certa equivalência em
relação ao original, traduzimos os dísticos elegíacos, próprios dos epigramas, por quadras
em português, entendendo que a estrofe mínima grega pode equivaler a essa estrofe mínima
portuguesa. E uma vez que certo prosaísmo pode ser percebido nos poemas originais (aos
quais não deixam de se associar recursos eruditos), utilizamos em português versos de sete
sílabas (redondilhas maiores) que, segundo nossa tradição, prestam-se à expressão prosaica.
No poema 13, preferimos trocar o nome próprio da cortesã Kharitô, em grego, por
um nome expressivo de sua “graça” (kháris) em português, daí o nome “Gracilda”, que se
enlaça, assim, aos seus atributos (no verso 12 da tradução, mencionam-se suas “miríades de
graças”). De resto, mantivemos as formas gregas.
O texto grego adotado é o de Paton, mencionado na bibliografia.
5. Epigramas selecionados
5.1 TÓPICA – BELAS VELHAS
Epigrama 13, Filodemo (I a.C.; da Guirlanda de Filipe)
JExhvkonta telei~ CaritwV lukabantivda [email protected],/
ajll’ e!ti kuanevwn suvrma mevnei plokavmwn,
khjn stevrnoi e!ti kei~na taV luvgdina kwvnia mastw~n
[email protected], mivtrh gumnaV peridromavdo,
kaiV crwV ajrrutivdwto e!t’ ajmbrosivhn, e!ti peiqwV
pa~san, e!ti stavzei muriavda carivtwn.
ajllaV povqou ojrgw~nta [email protected] mhV feuvget’ ejrastaiV,
deu~r’ i!te, th~ ejtevwn lhqovmenoi dekavdo.
Já sessenta primaveras
soma a cortesã Gracilda
mas ainda está escuro
cada fio de sua melena.
E no busto ainda teso
jaz o mármor dos mamilos
e seus seios ficam firmes
mesmo de faixas despidos.
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E a pele, sem ruga alguma,
destila ambrosia ainda,
sedução de toda espécie
e miríades de graças.
Não eviteis, oh amantes,
tais desejos maturados
– vinde até ela e esquecei
as suas dezenas de anos.
62, Rufino (II-IV d.C.; procedência incerta)
Ou!pw sou toV kaloVn crovno" e!sbesen, ajll’ e!ti pollaV
leivyana th~" protevrh" swvzetai hJlikivh",
kaiV cavrite" mivmnousin ajghvraoi, oujdeV toV kaloVn
tw~n iJlarw~n mhvlwn h# rJovdon ejxevfugen.
w# povssou" katevflexe toV priVn qeoeivkelon kavllo". 
O tempo não consumiu
tua beleza. Ao contrário:
muito ainda se conserva
da primeira juventude.
Permanecem joviais
teus encantos: não fugiram
nem beleza nem rubor
destas risonhas maçãs.
Oh, teu aspecto divino
a quantos incendiou…
304, Anônimo (datação e procedência incertas)
!Omfax oujk ejpevneusa: [email protected]’ h^ stafulhv, parepevmyw:
mhV fqonevsh/ dou~nai ka#n bracuV th~ stafivdo.
Verde, tu não consentiste;
madura, me repeliste.
Ao menos não me recuses
agora que és uva passa.
5.2 TÓPICA – AS DEUSAS GRAÇAS
196, Meléagro (II-I a.C.; da Guirlanda de Meléagro)
Zhnofivla/ kavllo meVn !Erw, suvgkoita deV fivltra
Kuvpri e!dwken e!cein, aiJ Cavrite deV cavrin.
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A Zenófila o deus Eros
concedeu beleza, Cípria,
os encantos junto ao leito
e as tríplices Graças, graça.
146, Calímaco (III a.C.; da Guirlanda de Meléagro)
Tevssare" aiJ Cavrite": potiV gaVr miva tai~" trisiV keivnai"
a!rti poteplavsqh, kh!ti muvroisi notei~
eujaivwn ejn pa~sin ajrivzalo" Berenivka,
a%" a!ter oujd’ aujtaiV taiV Cavrite" Cavrite".
Quatro as Graças imortais –
é que junto àquelas três
mais uma agora foi feita,
fresca ainda de perfumes.
É a ilustre Berenice,
venturada dentre todas.
E sem ela as próprias Graças
não teriam graça alguma.
148, Meléagro (II-I a.C.; da Guirlanda de Meléagro)
Famiv pot’ ejn muvqoi taVn eu!lalon JHliodwvran
nikavsein aujtaV taV Cavrita cavrisin.
Creio que um dia Heliodora,
com a doçura das palavras,
vencerá, por suas graças,
até mesmo as próprias Graças.
5.3 TÓPICA – AS METAMORFOSES DE ZEUS
33, Parmênio (I a.C.; da Guirlanda de Filipe)
jE" Danavhn e!rreusa", jOluvmpie, crusov", [email protected]’ hJ pai~"
wJ" dwvrw/ peisqh/~, mhV trevsh/ wJ" Kronivdhn.
Sobre Dânae ouro, Olímpio,
verteste, a fim de que a jovem
fosse cativa da prenda,
não do temor do Cronida.
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64, Asclepíades (III a.C.; da Guirlanda de Meléagro)
Ni~fe, calazobovlei, poivei skovto, ai^qe, kerauvnou,
pavnta taV purforevont’ ejn cqoniV sei~e nevfh.
h#n gavr me kteivnh/, tovte pauvsomai: h#n dev m’ ajfh/~ zh/~n,
kaiV diaduV touvtwn ceivrona, kwmavsomai:
e{lkei gavr m’ oJ kratw~n kaiV sou~ qeov, w/% pote peisqeiv,
Zeu~, diaV calkeivwn crusoV e!du qalavmwn.
Faze neve, temporais,
faze treva, lança fogo,
fulmina; sacode ao chão
todas as nuvens candentes –
se me matares, eu cesso,
mas se me deixares vivo,
pra escapar de coisas piores,
eu então celebrarei.
Me arrasta, oh Zeus, o potente
deus que também manda em ti –
foi em seu nome que um dia
áureo entraste em quartos plúmbeos.
125, Basso (I d.C.; da Guirlanda de Filipe)
Ouj mevllw rJeuvsein crusov" pote: bou~" deV gevnoito
a!llo", cwj melivqrou" kuvkno" ejph/on
v io".
ZhniV fulassevsqw tavde paivgnia: th~/ deV Korivnnh/
touV" ojbolouV" dwvsw touV" duvo, kouj pevtomai.
Jamais hei-de derramar-me
como ouro. Que algum outro
se mude em touro ou, ribeiro,
em cisne melodioso.
Tais brincadeiras a Zeus
se reservem. A Corine –
vou ofertar os dois óbolos
e sem qualquer ruflar de asas.
5.4 TÓPICA – SOB A LUZ DO CANDEEIRO
128, Marco Argentário (I a.C.; da Guirlanda de Filipe)
Stevrna periV stevrnoi", mastw/` d’ e!pi mastoVn ejreivsa",
ceivleav te glukeroi`" ceivlesin sumpievsa"
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j ntigovnh", kaiV crw`ta labwVn proV" crw`ta, taV loipaV
A
sigw`, mavrtu" ejf’ oi%o" luvcno" ejpegravfeto.
Um torso contra outro torso,
peito com peito apertado,
os lábios nos doces lábios
de Antígona pressionados,
e pele tocando pele.
Todo o resto ocultarei.
A única testemunha –
só a luz de um candeeiro.
150, Asclepíades (III a.C.; da Guirlanda de Meléagro)
JWmolovghs’ h{xein eij nuvkta moi hJ jpibovhto
NikwV, kaiV semnhVn w!mose Qesmofovron:
koujc h{kei, fulakhV deV paroivcetai. a^r’ ejpiorkei~n
h!qele; toVn luvcnon, pai~de, ajposbevsate.
Que viria esta noitinha
prometeu-me a renomada
Nicô, e jurou-me em nome
da augusta Legisladora,
e não veio. Minha espera
foi inútil. Pretendia
jurar em vão? Oh escravos,
apagai o candeeiro.
7, Asclepíades (III a.C.; da Guirlanda de Meléagro)
Luvcne, seV gaVr pareou~sa triV w!mosen Jhravkleia
h{xein, koujc h{kei: luvcne, suV d’, eij qeoV ei^,
thVn dolivhn ajpavmunon: o{tan fivlon e!ndon e!cousa
paivzh/, ajposbesqeiV mhkevti fw~ pavrece.
Oh candeeiro, Heracléia
junto a ti jurou três vezes
que viria, e não veio.
Se és um deus, oh candeeiro,
castiga esta enganadora:
quando ela se divertir
com um amante dentro – apaga,
não concedas tua luz.
IV CONALI - Congresso Nacional de Linguagens em Interação
Múltiplos Olhares
05, 06 e 07 de junho de 2013
ISSN: 1981-8211
5.5 TÓPICA – NAVEGAMAR
17, Getúlico (I d.C.; da Antologia de Diocleciano)
jAgciavlou rJhgmi~do ejpivskope, soiV tavde pevmpw
yaistiva kaiV liph~ dw~ra quhpolivh:
au!rion jIonivou gaVr ejpiV platuV ku~ma perhvsw,
speuvdwn hJmetevrh kovlpon ej jEidoqevh.
ou!rio ajll’ ejpivlamyon ejmw~/ kaiV e!rwti kaiV iJstw~/,
despovti kaiV qalavmwn, Kuvpri, kaiV hji>ovnwn.
Oh guardiã dos recifes,
para ti eu ofereço,
em humilde sacrifício,
estes bolinhos e prendas:
amanhã hei-de singrar
as vastas ondas da Jônia,
apressado rumo ao seio
de minha bela Idoteia.
Envia um tempo propício
para a paixão, para as velas,
oh Cípria amiga, senhora
das alcovas e das praias.
11, Anônimo (datação e procedência incertas)
Eij touV" ejn pelavgei swvzei", Kuvpri, kajmeV toVn ejn ga~/
nauagovn, filivh, sw~son ajpalluvmenon.
Se socorres os do mar,
oh minha Cípria querida,
socorre quem se perdeu
– eu, este náufrago em terra.
156, Meléagro (II-I a.C.; da Guirlanda de Meléagro)
JA fivlerw caropoi~ jAsklhpiaV oi%a galhvnh
o!mmasi sumpeivqei pavnta ejrwtoploei~n.
Asclépia, amante do amor,
com os seus olhos azuis
como o mar em calma, incita
todos a navegamar.
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Múltiplos Olhares
05, 06 e 07 de junho de 2013
ISSN: 1981-8211
Considerações finais
Com a leitura dessa quinzena de epigramas gregos, o leitor entra em contato com
uma pequena parte de um vasto acervo de poemas eróticos que, importantes apenas para
alguns setores da literatura e para alguns estudiosos do tema, costuma ser ignorado pela
maioria. Mas a qualidade plástica de alguns desses poemas ou a visão arguta de outros bem
podem ser consideradas atributos suficientes para a justificativa de sua leitura, razão o
bastante para algum leitor, “ferido” por sua beleza, guardá-los consigo.
Referências
CALVINO, I. Rapidez. In: Seis propostas para o próximo milênio. Tradução de Ivo
Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
COUAT, A. La poésie alexandrine. Paris: Payot, 1968.
ELIOT, T. S. Poesia menor. In: De poesia e poetas. Tradução de Ivan Junqueira. São
Paulo: Brasiliense, 1991.
ESCOBAR, A. Hacia uma definición linguística del tópico literário. Myrtia, n.15, p.123-60,
2000.
PAES, J. P. Sobre a tradução de poesia. In: Tradução: a ponte necessária. São Paulo:
Ática, 1990.
PATON, W. R. The Greek Anthology. Cambridge-London: Harvard University Press, 1999
(1ª edição 1918).
SILVA, L. C. A. M. O masculino e o feminino no epigrama grego: estudo dos livros 5 e 12
da Antologia Palatina. São Paulo: Editora Unesp, 2011.
VIOQUE, G. G. Antología palatina II: la Guirlanda de Filipo. Madrid, Editorial Gredos,
2004.
VIOQUE, G. G.; GUERRERO, M. A. M. Epigramas eróticos griegos. Antología palatina.
Madrid: Alianza Editorial, 2001. Libros V y XII.
WALTZ, P. Anthologie grecque: Anthologie palatine. Paris: Les Belles Lettres, 1960, t. II,
livre V.