História de um beijo - Biografias por Encomenda

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História de um beijo - Biografias por Encomenda
História de um beijo
Se eu soubesse pintar, não sei que branco encontraria
para revelar a luz que esconde este mar, sufocado debaixo de
tanta crepitação. O branco enevoa também este momento que
perdeu contornos, guardando só uma essência de luz laranja que
não nos deixa nunca esquecer o que vivemos a seguir. Este mar é
um reservatório profundo de calmaria, embora eu não o veja,
porque tu estás ao meu lado. Se eu pudesse algum dia contar a
alguém de que cor é o teu cabelo, talvez dissesse palavras de
música, simples e profundas como os teus olhos. De que cor são
os teus olhos? Posso beijá-los? Posso beijar-te?
Estamos aqui os dois, só nós dois, em frente a esta praia
inteira de Abril, virgem ainda de gente. Estamos no carro, mas lá
baixo há gaivotas, praia, cães e surfistas e há aquele branco,
muito branco a arder no mar. Hoje não estão aqui os amigos do
costume porque nós já aprendemos a ficar em silêncio sozinhos.
Talvez um dia eu aprenda a dizer uma palavra que tu
compreendas e tu me beijes de seguida. Talvez se eu aprender a
dizer a cor do teu cabelo… Como se explica o branco? Gosto de
estar aqui em silêncio contigo, mas também gostava muito de
dizer alguma coisa que nos deixasse agora muito juntinhos.
Lembras-te do dia em que nos conhecemos? Estávamos
sentados no autocarro, lá fora chovia muito e nós, talvez
envolvidos pelo conforto de sabermos que uns centímetros de
vidro nos mantinham a seco, estávamos soltos, olhámos um para
um outro e sorrimos, depois conversámos e depois… inventámos
sempre novos depois. Talvez não saibas, mas eu sentei-me ao pé
de ti porque quando te vi fiquei como que ofuscado, como se te
vestisses com um espelho que irradiava luz directamente para
mim para me cegar... E tu agora aqui, assim à minha frente, em
silêncio… gostava de te beijar! Naquele dia, há alguns meses
atrás, os nossos joelhos tocaram-se e nós sabíamos que não era
casual, mas não podíamos assumir ainda que a nossa vontade
eram cavalos desvairados a saltar vedações pelos campos fora,
sempre à procura de novos horizontes. Mesmo agora, neste
momento tão nosso, estamos aqui a domar animais ferozes e
acalmá-los com vozes suaves.
Sinto-me embalado pelo mar e pelo teu cheiro que dá
alma a este carro. A primeira vez que foste a minha casa parecias
uma cliente e eu um vendedor imobiliário, tal era a nossa rigidez
e acanhamento. Éramos quase vizinhos, mas nunca nos tínhamos
cruzado nem frequentado as mesmas escolas. Quando andava na
escola, desejava com todas as minhas forças ser igual aos outros
e ter montes de miúdas atrás de mim. Agora sei que o passado
perde valor perante este momento em que estás aqui comigo, é
como se sempre te tivesse tido ou como se sempre te tivesse
esperado. Juro que é hoje que te beijo, é o tudo ou nada! Tanto
tempo à espera deste momento, a aprender a estar contigo sem
dizermos nada, mas hoje preciso de mais, quero um beijo. Será
que to devia pedir ou fico só aqui assim, sem fazer nada? Parece-
me que o mar já não é tão branco… a praia ainda está lá, mas nós
nunca a vimos, porque estamos os dois aqui no carro.
Nesse dia, a minha mãe estava a ser simpática e eu a
queixar-me dela assim que saiu e tu a lamberes a ferida de não
teres uma mãe. Desculpa não ter visto a tua dor, estava muito
ocupado com o meu embaraço e disse coisas só por dizer para
cobrir com terra o mais rápido que pudesse aquele buraco fundo
que era estar contigo sozinho em casa e querer fazer amor
contigo. Não sei em que altura é que te vi chorar pela primeira
vez, talvez tenha sido na festa de anos do meu priminho Joel,
não sei bem, mas sei que nessa altura te compreendi
profundamente e senti o poço de morte em que se tornara o teu
peito, onde tu conduzias como louca para fugir àquela negridão
de não ter mãe.
Tive medo de não saber falar contigo, de não
perceberes que eu te conseguia compreender, mesmo passando
a vida a dizer coisas pela boca fora sobre a minha mãe. Agora já
percebi há muito tempo que não preciso de falar, sei que nos
encontrámos um momento antes das palavras se designarem
umas às outras. Mas será que nos entenderemos mesmo quando
nos beijarmos? É incrível como tu consegues falar sem parar sem
te tornares chata e depois podes ficar assim, como agora, a
encher o espaço com a tua presença, sem qualquer palavra. Que
mais coisas tens para me contar? Já sei que entraste para a
universidade no mesmo ano que eu, que frequentamos o mesmo
supermercado, mas tu fazes as compras para ti e para a família
todos os Sábados de manhã e eu vou só de vez em quando fazer
recados à minha mãe. Sei tanta coisa sobre ti que nunca mais
acabaria de pensar em tudo… só não sei a que sabem os teus
lábios…
E o beijo aconteceu! O beijo! Tu e eu! E a praia a dormir
lá em baixo e o mar que não sei que cor tem, nem sei se é dia ou
noite nem nada, nada… porque nos beijámos! E o abraço chegou
também!
E foi então que tu disseste a palavra que se eu pudesse
traduzir seria “futuro”! Na verdade, tu só me beijaste de novo,
acho que não disseste nada, porque nos abraçámos e beijámos
muito. E eu comecei então a fazer-te promessas, havemos de
acabar o curso e benzer as pastas juntos, havemos de comprar
roupa de gala e ir juntos a uma ópera no S. Carlos, havemos de
ter um carro nosso e viajar tanto que nem precisaremos de uma
casa. Queres ser minha namorada?
Um dia havemos de descer juntos as escadas do nosso
bairro a correr, vestidos de noivos e vamos ter o casamento mais
maluco que os nossos amigos alguma vez viram. Quem me dera
que esse dia fosse hoje… mas este dia já é muito grande, nem sei
se este dia é ainda o mesmo dia, este dia em que te beijei, em
que nos beijámos. Hoje foi uma vitória tão grande, parece quase
que conseguiria explicar a toda a gente como me sinto quando te
vejo e contemplo a tua cor de cabelo! Parece que a tua beleza é
concreta e fácil de explicar.
Gostava que a tua vida fosse mais fácil, embora tu não
te queixes, é certo, mas não deve ser fácil teres de aturar as
loucuras do teu irmão e a indiferença do teu pai. Vou confessarte, não me sinto nada confortável quando estou com eles: o teu
irmão a ouvir a música nas alturas e o teu pai a fazer de conta
que não ouve. Ele será surdo? E tu a seres mãe deles quando
tudo o que precisavas era de um colo para ti. Não posso nem te
quero prometer que te dou o amor que a tua mãe te daria, mas
se o amor é todo o mesmo, então podes crer que o que te vou
dar é um perfume muito bom da tua mãe.
Para já, vou mandar uma mensagem a todos os nossos
amigos e convidá-los a irem ter comigo amanhã ao café, vão ter
cá uma surpresa quando nos virem de mãos dadas. Bem, eles
até já nos viram de mãos dadas, ainda há pouco tempo quando
fomos ao concerto da Katie Melua íamos bem agarradinhos, com
a desculpa que era para não nos perdermos no meio da
multidão. Mas eles perceberão logo que já não somos só amigos
inseparáveis, hão-de reparar na forma natural como nos
tocamos e, se não perceberem, também não vou demorar muito
tempo até lhes contar. Saberão que este beijo é real. Mas não
poderão saber tudo o que eu sei porque este beijo me conta.
E este beijo não sabe ainda que teremos um dia de
chorar, não compreende que teremos um dia que discutir, não
percebe que teremos de nos esquecer deste momento e
recomeçar de novo. Este beijo não pode imaginar que haverá
outros primeiros beijos. Será que saberemos esperar por eles
como esperámos por este?