GSI – Global Social Impact Relatório GSI JAM 2011

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GSI – Global Social Impact Relatório GSI JAM 2011
GSI – Global Social Impact
SUSTENTABILIDADE ORGANIZACIONAL
Ideias e Propostas
Relatório GSI JAM 2011
GSI – Global Social Impact
SUSTENTABILIDADE ORGANIZACIONAL
Ideias e Propostas
RELATÓRIO GSI JAM 2011
São Paulo
2011
EXPEDIENTE
2011
GSI – Global Social Impact
Todos os direitos reservados pelos autores.
É proibida a reprodução total ou parcial desta obra por quaisquer meios: gráficos,
reprográficos, mecânicos, eletrônicos, digitais etc. sem citação da fonte.
Supervisão:
Coordenação editorial:
Texto e organização:
Capa e diagramação:
Andrea Shpak e Alcely Barroso
Elidia Novaes
Elidia Novaes e Cristina Fedato
Pedro Belasco
GSI. Sustentabilidade Organizacional: ideias e propostas – Relatório GSI JAM
2011 / GSI Global Social Impact. São Paulo: GSI, 2011. __p.
1. Sustentabilidade Organizacional e Filantropia Estratégica 2. Parcerias
Intersetoriais de benefício mútuo
3. Empresa social como alternativa de
sustentabilidade 4. Ferramentas de gestão no terceiro setor 5. Iniciativas
de investimento público e privado I. GSI Global Social Impact III. Título:
Sustentabilidade Organizacional: ideias e propostas – Relatório GSI JAM
2011.
GSI – Global Social Impact
São Paulo, SP – Brasil
www.gsi.org.br/gsi/Default.aspx
twitter.com/GSIJAM
www.facebook.com/pages/GSI-Global-Social-Impact/148195398545392
SUMÁRIO
Agradecimento
Agradecimento Especial
Epígrafe
1. Introdução
2. A GSI
a. Histórico
b. Estrutura
3. Os Parceiros
4. A metodologia JAM
5. O GSI JAM
a. Conceito e panorama
b. Pilares que embasaram cada painel
Filantropia Estratégica e Sustentabilidade
Parcerias intersetoriais de benefício mútuo
A empresa social como alternativa de sustentabilidade
Ferramentas de Gestão no Terceiro Setor
Iniciativas de investimento público e privado
c. Perfil dos participantes
d. Levantamento quantitativo
e. Levantamento qualitativo
Filantropia Estratégica e Sustentabilidade
Parcerias intersetoriais de benefício mútuo
A empresa social como alternativa de sustentabilidade
Ferramentas de Gestão no Terceiro Setor
Iniciativas de investimento público e privado
f. Word Cloud
6. Considerações finais
Relatório GSI JAM 2011
AGRADECIMENTO
(IBM)
• Instituto Ethos
Equipe GSI
E aos tradutores Alexandre Stella Pires; Ana Paula Bernardo; Ana Paula Ernesto; Ana Zuleika PiA todos aqueles que tornaram o JAM possível, com nheiro Machado; Cristiane Dias Cardoso; Dulciseu apoio, seu compromisso com os temas da sus- nea Braga Dias Bueno Torres; Eliane Manna Born;
tentabilidade organizacional e com sua confiança na Glaucia Cristine Silva Burckler; Ivone Ribeiro Siliniciativa.
va Coutinho; Leila Marina Urbas Di Natale; Leslie
Benzakein; Liamara Soares da Silva; Maria Claudia
Nossos parceiros institucionais:
Fernandes de Almeida; Roseli Rubino Pereira; Vera
• IBM
Dittert Jardim Moreno.
• Pamcary
Várias redes sociais ajudaram na divulgação do JAM
• Roche
e na formação do grupo imenso de pessoas que acessaram o espaço virtual e postaram seus comentários.
• AES Eletropaulo
Somos gratas a todas e, conforme combinado ante• Locaweb
cipadamente, queremos informar que, dentre todas,
aquela que reuniu o maior número de participantes
• Dr. Micro
foi o IVA – Instituto Voluntários em Ação, organiE nossos apoiadores institucionais:
zação-membro da Aliança de ONGs na América La• ATPIESP (Associação Profissional dos
tina e Caribe.
Tradutores Públicos e Intérpretes CoToda nossa gratidão por sua mobilização, confianmerciais do Estado de São Paulo)
ça, paciência e determinação. Vocês foram, para nós,
• ESW – Enterprise for a Sustainable World
exemplo e fonte de motivação.
• Helix
• Pitti’LM
• Secretaria de Participação e Parceria da Prefeitura de São Paulo
• UNISA (Universidade de Santo Amaro)
Queremos agradecer nominalmente aos parceiros de
todas as horas, que, com a mão na massa, ergueram
o JAM e ajudaram a fazer dele um sucesso:
• Bell Pereira
• Eliane Ornelas
• Fernanda Bornhausen Sá
• Jefferson Dousseau
• Juliana Nobre Gomes
• Luís Miranda
• Mario Costa
• Ricardo Young Silva
Nosso carinho aos “salva-vidas” Luis Carlos dos
Anjos e Rafael Rosa (Locaweb), Guilherme Levy e
Joyce Ribeiro (Pitti’LM), Edson Luiz Oliveira, Sergio Loza, Claudio Calazans e Rodrigo Canhissare
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GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
AGRADECIMENTO
ESPECIAL
• Cynthia Rosenburg – Instituto Arapyaú
• Dagmar Garroux – Casa do Zezinho
• Daniel Barreto – Instituto Bioeste
• Daniel Brandão – MOVE
A GSI e seus parceiros agradecem especialmente a
todas as pessoas que deram sua contribuição sob a
forma de reflexões nos cinco paineis do GSI JAM,
ajudando a construir a essência do evento, fortalecendo os relacionamentos e o próprio debate dos
temas contemporâneos da sustentabilidade organizacional:
• Daniel Francisco Moreno de Sousa
• Daniel Vaz – Opção Brasil
• Daniela Silva dos Santos – Instituto Voluntários em Ação
• Daniele Paz – AACD
• Alan Harlam – Brown University
• Danilo Santos de Miranda – SESC-SP
• Alcely Barroso – IBM Brasil
• Darcio Centoducato – Pamcary
• Ana Carolina Velasco – GIFE
• Debora Caldini – McDonald’s
• Ana Lucia Silva Marçal – Grupar-RP
• Denise Tubino – Golder Associates
• Ana Lucia Vieira – Centro Espírita O Consolador
• Edgard Barki – FGV
• Andrea Shpak – GSI
• Edson da Silva Bezerra
• Antonio Ribeiro da Silva Jr. – APAE
• Eduardo Britto
• Augusto Hijo – Ponto de Cultura Bafafá Pró-Rock
• Elenice Tamashiro – Zigla Consultores
• Bell Pereira – SMPP-SP
• Eliane Belfort – CORES-FIESP
• Bruno Andreoni – Cidade Escola Aprendiz
• Élida Pricila Brasil de Matos – Clube Amador de Foto de Fortaleza
• Bruno Elias Menezes – Instituto Teológico Basiléia
• Edsmar Resende – Key Associados
• Eliana Tiezzi – Papel de Gente
• Elidia Novaes – GSI
• Carla Botelho – Latin American Hotels
• Ester Rosenberg Tarandach – Adere
• Carlos Eduardo Faria Ronca – Mattos Filho Advogados
• Fabia Alencar – Melitta do Brasil
• Carolina de Mattos Ricardo – Instituto Sou da Paz
• Ferdinando Fernandes – Denise Alves & Cia
• Fabio Gandour – IBM Brasil
• Carolina Neri – BTOA
• Fernando Alves – Rede Cidadã
• Celina Mendes do Prado – Associação Cristã de Osasco
• Fernando Nogueira – FGV/ESPM
• Celso Bianchi Barroso - UniCapital
• Francisco Buonafina – SMPP-SP
• Christin Hokenstad – Dalberg Advisors
• Cibele Esteves – Formare
• Francisco Moura – Fundação Apoio
Desenv. Social e Comunit.
• Claudia da Silva – IBM Brasil
• Franco Reinaudo – ABRAT GLS
• Cleide Paiva – Lar Sírio
• Fu Kei Lin – CEATS-FIA
• Cristina Fedato – consultora em Sustentabilidade
• Gilmar Altamirano – Universidade da Água
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• Fernando Rossetti – GIFE
• Gilson Campos – Fundação Voith
Relatório GSI JAM 2011
• Graziela Bedoian – Quixote
• Marcus Clemente – Total Fleet
• Guilherme Campos
• Maria Iannarelli – N.Sra do Bom Parto
• Gustavo Antonio Duarte Ribeiro – Correios
• Mariana Nicolletti – NESsT Brasil
• Hazel Henderson – Ethical Markets Media
• Marina Spirandelli – Care Brasil
• Heiko Spitzeck – Fundação Dom Cabral
• Marinus Jan Van Der Molen – ESPRO
• Isa Maria Guará – UNIBAN
• Mario Costa – IBM Brasil
• Ivânia Palmeira – BASF
• Marta Salomão – Secretaria da Saúde SP
• Janete Hung – Grupo Sempre Vita
• Melvyn Levitsky – Michigan University
• João Ribas – Serasa
• Miriam Duailibi – Instituto Ecoar
• Jorge Proença – Instituto Pérola
• Monica Lazzerini – APAF Assoc.Paulista Apoio à Família
• José Aureo Bigliassi – ConnectUse
• José Avando Souza Sales – ATN
• José Gilberto Boari – TechSoup Brasil
• José Luis Cavaretti – AES Eletropaulo
• José Luiz Telles – Ministério da Saúde
• José Ricardo Franco Montoro – Deputado estadual SP
• Natalia Menhem – Limiar Engenharia Ambiental
• Patrícia Diniz – SOS Aldeias Infantis
• Patrícia Menezes – IBM Brasil
• Paul Kirsch – Michigan University
• Paulo Alves
• Joseph Haim – CPqD
• Paulo Ramicelli – Instituto EDP
• Judith Cawhorn – Packard Health
• Paulo Roberto Feldmann – FEA/USP
• Julia David Franco Gomes
• Paulo Vodianitskaia – Hapi Consultoria
• Juliana Nobre – IBM Brasil
• Péricles Mattar – Fundação Israel Pinheiro
• Juliana Ramalho – Mattos Filho Advogados
• Polyani Garcia – Santa Casa
de Misericórdia de Birigui
• Kelly Ramirez – Social Venture Partners Rhode Island
• Priscilla Chang – Michigan University
• Leonardo Letelier – Sitawi
• Regina Miranda – Pamcary
• Lia Diskin – Associação Palas Athena
• Reinaldo Bulgarelli – FGV
• Lilian Juliana Kuwano Buhrer – Rede Marista
• Reinaldo Pamponet – Eletrocooperativa
• Lucia Maria Araujo – Canal Futura
• René José Rodrigues Fernandes – FGV
• Luciane Sena – Instituto Cuidando do Futuro
• Ricardo Lopes – ASSPROM
• Luciano Palma – consultor de novas mídias
• Ricardo Young Silva – Instituto Ethos e UniEthos
• Luiz Bruno Vianna – ONG Fabricando Empresários
• Roberta Guarino – ACAM-RJ
• Luiz Carlos Merege – IATS
• Rosicler Rodriguez – Roche
• Maisa Signor – Inclusiva Negócios Sociais
• Ruth Harada – IBM Brasil
• Marcelo Carvalho – UNB
• Sélio Antonio Moreira da Silva – Transparência Cachoeirense
• Marcelo Estraviz – ABCR
• Márcia Bellotti – S&V Consultoria
• Sergio Amoroso – Grupo Orsa
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GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
• Stuart Hart – Cornell University e ESW
• Susana de Vasconcelos Dias – CMDCA
• Tamira Gallucci – Instituto Redecard
• Tanya Andrade – Incores
• Thales Wylton Honorio Barbosa Ribeiro – BASF
• Thereza Lobo – Solidaritas
• Tiago Biusse Ghion – Fundação Orsa
• Tomaz de Aquino Resende – Ministério Público MG
• Vanda Scartezini – Altis
• Vanderlei Soela – Fundação Dom Cabral
• Vania Bulgarelli – Instituto Ecoar
• Vera Lucia Barroso Alves Frascino
• Vera Lucia Perino Barbosa – Instituto Movere
• Victor Barau – Atletas da Cidadania
• Wagner Andrade – AW Comunicação Expressiva
• Yara Cavini – ONG Guará / Amarribo
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Relatório GSI JAM 2011
Epígrafe
1. Introdução
A mídia social pode ser um facilitador e um acelerador de recursos essenciais, valores, atributos e planos. Pode até ser catalisador para a mudança. Mas
não pode magicamente criar o que não existe. – Denise Zimmerman, presidente da NetPlus Marketing
Setores, países, pessoas se aproximam. Novas ideias
surgem, novas técnicas e soluções. Amplia-se o envolvimento em parcerias estratégicas para aumentar
globalmente a escala das iniciativas sociais. Novos
modelos são desenvolvidos por organizações sem e
com fins lucrativos em busca de impacto social. Vem
Aqueles que ignoram o grupo/diálogo/rede quano desafio na priorização de programas que resultem
do estão satisfeitos e só decidem se envolver quando
na melhor relação custo-benefício socioeconômico e
precisam da rede podem não ter êxito. É muito fáambiental e na medição do impacto produzido.
cil identificar aqueles que se unem apenas para tomar – não para dar. Portanto, envolva-se no grupo/ Mirando esse momento e todas as possibilidades –
diálogo/rede antes que precise que alguém lhe dê favoráveis e desfavoráveis –, a ONG GSI buscava
algo. – Jeremiah Owyang, Web-Strategist.com
uma forma de reunir pessoas de todos os segmentos
– organizações da sociedade civil, governos, empreSuas atitudes falam tão alto que eu não consigo ouvir
sas, academia e imprensa. E propor a reflexão sobre
o que você diz. – Ralph Emerson, escritor, filósofo e
os caminhos da sustentabilidade organizacional e topoeta do séc. 19
dos os meios para esse fim. A organização já havia
As empresas do século XXI precisam estabelecer promovido três conferências internacionais, mas espolíticas multistakeholder que lhes permitam per- pecialmente ao abordar o tema da sustentabilidade,
manecer informadas do que ocorre nas franjas do buscava uma forma de realizar um debate mais susmercado. Isso significa incorporar à sua cultura de tentável e inclusivo. Em 2001, a IBM – na condição
gestão habilidades que normalmente são encontra- de empresa global –, havia desenvolvido uma metodas apenas em ONGs. Diálogos apreciativos na base dologia que permitia reflexões envolvendo simultada pirâmide, produção e comércio justo, e organiza- neamente os funcionários, seus familiares, clientes,
ção criativa de comunidades na cadeia produtiva são fornecedores e parceiros de negócios ao redor do
alguns destes desafios. Além, é claro, da mitigação mundo, todos contribuindo para que a empresa redos impactos. – Ricardo Young Silva, ex-CEO do definisse seus valores. A metodologia tornou-se um
Instituto Ethos e do UniEthos e candidato ao senado serviço prestado a outras empresas, para que promopelo Partido Verde em 2010 – durante o JAM
vam debates junto a seus próprios stakeholders. Entendendo as condições especiais de uma organização
A crescente ideia de um empreendimento sustentáda sociedade civil e o propósito que a mobilizava, a
vel é aquela na qual você, desde o início, consideIBM decidiu apoiar a iniciativa, fornecendo o ferrara todos esses fatores [econômico/financeiro, social
mental e todos os serviços necessários para realização
e ambiental]. E como pode pensar em verdadeiras
de um JAM – o GSI JAM – e aceitando um desafio
práticas comerciais para fazê-los melhorar, as quais
extra: promover o primeiro JAM bilíngue em toda a
também lhe permitiriam ganhar dinheiro? [...] Se
história.
você fizer isso e fizer direito, acaba com mais valor
agregado em todas as três facetas. Em outras pala- Foi assim que, em fevereiro de 2011, realizou-se um
vras, não é uma troca, é estratégia incorporada. – fórum totalmente em meio virtual – sem, passagens
Stuart Hart, Professor da Universidade de Cornell e aéreas, sem hospedagem, sem coffee break e sem foestudioso das implicações do desenvolvimento sus- lhetos impressos. Tudo de que os participantes pretentável – durante o JAM
cisavam era acessar a internet, ainda que pelo celular.
E assim se reuniram representantes de todos os segAs fronteiras nacionais são meras lombadas na automentos em torno da reflexão e debate de inovações
estrada da rede mundial de informação. – Tim May,
que podem ajudar as instituições a se tornarem mais
escritor nas áreas técnica e política, cientista sênior
sustentáveis. Até pela facilidade de acesso, o grupo
aposentado da Intel
contou com grandes expoentes da América e de outras partes do mundo, somando mais de 1.500 ins-
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GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
critos de 16 países em quatro continentes e quase
900 reflexões postadas.
2. A GSI
As discussões no JAM proporcionaram melhor entendimento da condição presente da sustentabilidade organizacional, a observação de alguns de seus
principais desafios, a proposição de ferramentas e estratégias e a abertura de possibilidades de organização e inovação no futuro.
A GSI (Global Social Impact) é uma organização
sem fins lucrativos, dedicada a apoiar inovações sociais ao estimular a colaboração intra e intersetorial,
fomentar a discussão da sustentabilidade e seus temas relevantes, e promover capacitação nos três setores – governos, empresas e organizações sociais,
O ambiente de confiança que a GSI conseguiu esta- oferecendo acesso a ferramentas, talentos e recursos
belecer trouxe resultados que justificam a organiza- para concretização de ideias, profissionalização das
ção de seu conteúdo na presente publicação, com- organizações e maximização do impacto social de
partilhando os achados com outros públicos. Este suas ações. Conta com o importante diferencial da
material apresenta um extrato dos principais achados participação da Academia em todas as atividades que
e ressalta as ideias criativas e reflexões compartilha- desenvolve.
das, expondo as principais tendências em modelos
sustentáveis de inovação organizacional identifica- Entre as iniciativas que concretizou, foram realizadas
conferências internacionais e oficinas na Eslováquia,
dos durante o evento.
Sérvia, Chile, Estados Unidos e Brasil, sempre com
É crucial ressaltar duas características deste fórum, a participação ativa de líderes sociais, corporativos e
em sua configuração de JAM:
do setor público, além de professores e estudantes de
1. O JAM não é conclusivo. Novas discussões são diversas instituições de ensino.
iniciadas o tempo todo e novos temas são abordados,
sem que se chegue necessariamente a conclusões. Na
verdade, o objetivo do JAM é abrir teorias, hipóteses
e propor encaminhamentos posteriores.
Adicionalmente, mantém equipes de consultoria
que prestam serviços de capacitação para líderes de
ONGs, de empresas e órgãos do governo, promovendo o conceito de empresa social e sustentabilidade, com a criação de novo capital intelectual.
2. O modo como é elaborado o relatório qualitativo
apresentado a seguir gera um texto que ordena e sintetiza o conjunto de reflexões, sem corresponder às a. Histórico
postagens individuais dos participantes. No formato
adotado por nós, as sequências de postagens acerca O trabalho da GSI começou em 2003 com a inide um tema se tornam parágrafos e trechos que são ciativa de pesquisa de Social Enterprise no WDI
reorganizados para entendimento do leitor.
(William Davidson Institute) da Universidade de
A partir desta primeira iniciativa exclusivamente re- Michigan. Essa iniciativa apoia organizações interesmota, plasmada no presente texto, novas ações estão sadas em aplicar estratégias de negócio com o intuiplanejadas para o futuro próximo. Mas primeiro, co- to de se tornarem sustentáveis. Também explora a
nheça a instituição, seus parceiros e os resultados da mudança no papel das ONGs, empresas e governos
com vistas a aumentar o impacto social que promoação. Seja bem-vindo ao GSI JAM.
vem.
Em um esforço para expandir a iniciativa globalmente e fortalecer as relações com outras instituições de ensino interessadas no tema, a GSI tornou-se
uma organização sem fins lucrativos e independente,
num esforço de sua fundadora Andrea Shpak. A GSI
continua atuando em conjunto com a WDI, na condição de sócia fundadora.
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Relatório GSI JAM 2011
b. Estrutura
gócios & Empreendedorismo Social da Ross
School of Business / University of Michigan
Diretoria
• Andrea de Carvalho Shpak – Fundadora e Presidente
• Alcely Strutz Barroso – Vice-Presidente
• Elidia Maria de Novaes Souza – Diretora de Relações Institucionais
• Celso Bianchi Barroso – Diretor de Relações Governamentais
• Magnolia Vieira Carvalho – Secretária
• Kelly Janiga – Diretora Executiva da SVPRI (Social Venture Partners Rhode Island)
• Melvin Levitsky – Embaixador dos EUA no
Brasil 1994-98, Ministro aposentado de Relações
Internacionais, professor na Escola Gerald R. Ford
de Políticas Públicas da University of Michigan
• Norman Bishara – Professor de Legislação Corporativa na Ross School of Business da University of Michigan
• Paul Kirsch – Diretor Associado do Instituto Zell Lurie na University of Michigan
Comitê Fiscal
• João dos Santos Dias – Tesoureiro da GSI
• Sonia Bruck Carneiro Pereira – Gerente de
Responsabilidade Social da BM&FBovespa
• Tomás Carvalhaes Carmona – Gerente de
Desenvolvimento Sustentável da SERASA
Conselho Consultivo
Brasil
• Alessandra Gonçalves de França – Fundadora-presidente do Banco Pérola
• Claudia de Carvalho Shpak – Gerente Executiva de Produto da IBM Brasil
• Eduardo Tacla – Presidente da Helix Tecnologia
• Jorge Alberto França Proença – Empresário e Presidente do Instituto Pérola
• José Avando Souza Reis – Diretor Geral da ATN (Associação Telecentro de Informação e Negócios)
• Renata Amaral Soares – Consultora Sênior da McKinsey
• Sérgio Francisco dos Santos – Gestor da Mídia Regional
Conselho Consultivo
Estados Unidos
• Andres Ramirez – Professor de Finanças da Bryant University
• Andy Lawler – Professor de Estratégia Corporativa, Desenvolvimento de Negócios e
Mercados Internacionais, Planejamento de Ne-
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GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
3. Os Parceiros no JAM
meio ambiente e economia – são interdependentes.
A empresa entende que não terá sucesso no longo
prazo sem o cumprimento de suas responsabilidades
ambientais e sociais; e também que não pode conEmpresas patrocinadoras do GSI JAM:
tribuir com a sociedade e a proteção ambiental sem
IBM (http://www.ibm.com/br)
o sucesso econômico. Sendo assim, busca equilibrar
A IBM, uma das maiores empresas de tecnologia da esses elementos em todos os aspectos da gestão de
informação do mundo, é líder em soluções comple- seus negócios.
tas de TI, que envolvem serviços, consultoria, harPAMCARY (http://www.gps-pamcary.com.br/)
dware, software e financiamento. Hoje, a IBM possui soluções de ponta a ponta, adequadas a empresas A Pamcary é uma empresa líder que visa à crescente
de todos os portes e perfis de negócios. Presente em eficiência da cadeia logística na gestão de transportes,
mais de 170 países, a companhia opera no modelo respeitando os princípios da responsabilidade socioglobalmente integrado e emprega 400 mil funcioná- ambiental. Para isso, oferece soluções inovadoras, integradas e inteligentes em seguros, gerenciamento de
rios em todo o mundo. riscos e sistemas. É responsável pela intermediação
Este ano, a IBM completa 100 anos de existência.
de parte significativa do volume de prêmios de seguAo longo de um século, a companhia desempenhou
ros de cargas no Brasil, com uma carteira de clientes
um papel fundamental na transformação das emformada por mais de 2.000 indústrias, operadores
presas, da ciência e da sociedade. A companhia imlogísticos, transportadoras, corretores parceiros, sepulsionou e, muitas vezes, orientou o progresso e a
guradoras, caminhoneiros e pessoas físicas.
evolução da sociedade. A dedicação de cada funcionário ao sucesso de cada cliente, a inovação que faz Por acreditar que o papel social das organizações
a diferença e a responsabilidade pessoal em todos os deve estar alinhado à estratégia de seus negócios,
relacionamentos são os valores que norteiam todas princípios e valores, a Pamcary fundou o Instituto
Cuidando do Futuro (ICF), que desenvolve projesuas ações.
tos de cunho socioambiental no setor de logística e
ROCHE (http://www.roche.com.tw/portal/rochetransportes. O ICF também apoia organizações do
brazil/inicio)
terceiro setor cujos valores e crenças sejam sinérgicos
A Roche é uma das maiores empresas de saúde do com aqueles do próprio Instituto e da Pamcary, reBrasil, e uma referência estratégica e operacional forçando o modelo de empresa social.
para outros países da América Latina. Está organiAES ELETROPAULO (http://www.aeseletropaulo.
zada em dois segmentos: Farmacêutico e Diagnóscom.br/)
tico, sendo que a Roche Diagnóstica é reconhecida
pela excelência no suporte aos procedimentos médi- A AES Eletropaulo é a maior distribuidora de enercos e laboratoriais, incluindo desde procedimentos gia elétrica em consumo e faturamento da Amérirealizados pelos próprios pacientes (como testes de ca Latina. Seus acionistas controladores são a AES
índice de glicemia para diabetes) até operações labo- Corporation e o BNDES (Banco Nacional de Deratoriais de grande porte envolvendo técnicas de bio- senvolvimento). Empresa de capital aberto na
tecnologia. Já a Roche Farmacêutica é responsável BM&FBovespa (Bolsa de Valores, Mercadorias e
pelo desenvolvimento e produção de medicamentos Futuros de São Paulo), integra o Nível 2 de Goverpioneiros para doenças como câncer, doenças virais, nança Corporativa e, desde 2005, o ISE (a carteira
autoimunes e do sistema nervoso central. Essas duas do Índice de Sustentabilidade Empresarial) entre as
grandes áreas estão unidas pela missão corporativa empresas com melhor desempenho em sustentabide gerar valor sustentável por meio de produtos e lidade. Desde janeiro de 2011, também integra o
serviços que salvem ou, ao menos, melhorem signifi- ICO2, índice desenvolvido pela BM&FBovespa em
cativamente a vida das pessoas, ajudando a detectar, conjunto com o BNDES, cuja carteira é restrita a
diagnosticar corretamente e tratar as doenças de for- companhias com práticas transparentes na emissão
de gases de efeito estufa. É signatária do Pacto Global
ma adequada.
e dos Objetivos do Milênio, propostos pela ONU.
Os três elementos da sustentabilidade – sociedade,
Desde 2009, participa do GRES (Grupo Referencial
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Relatório GSI JAM 2011
de Empresas em Sustentabilidade) organizado pelo
Instituto Ethos como fomento da discussão sobre
temas críticos da sustentabilidade por meio de inovação, colaboração e desenvolvimento de lideranças.
setor, na capacitação e profissionalização em todo
o país. Com o apoio de seus principais parceiros
(ATN, Insigne Linux, Techsoup Brasil, Fundação
Orsa), participa de projetos de inclusão sociodigital,
como o Programa Rede Mineral (que capacitou mais
LOCAWEB (http://www.locaweb.com.br/)
de 10 mil alunos) e o Projeto Capaz (que visa levar
A Locaweb é líder em hosting no Brasil e na América alfabetização digital com educação ambiental para
Latina, segundo o relatório IDC Latin America IT mais de 100 mil alunos até o final de 2011).
Services 2009 (categoria Infrastructure Hosting SerAlém destas empresas, o GSI JAM contou com o
vices). Com 12 anos de experiência e parcerias com
apoio de:
mais de 16 mil desenvolvedores, a empresa oferece
soluções em software (serviço para empresas, como • ATPIESP (Associação Profissional dos TraduEmail, Email Marketing, WebStore, WebChat, tores Públicos e Intérpretes Comerciais do EstaWebDesk e PABX Virtual); Plataforma (serviço de do de São Paulo) (http://www.atpiesp.org.br/)
hospedagem de sites); infraestrutura (ofertas sob • ESW – Enterprise for a Sustainademanda, como cloud computing, servidores dedi- ble World (http://www.e4sw.org/)
cados e serviços de gestão personalizada). A empresa
acredita que a inovação tecnológica aliada à qualida- • Helix Tecnologia (http://www.helix.com.br/)
de de serviços e uma equipe altamente qualificada • Instituto Ethos (http://www.ethos.org.br/)
são as chaves para o sucesso no mercado.
• Pitti’LM Comunicação (http://
A Locaweb apoia instituições que contribuem de www.pittilm.com.br/)
forma séria e efetiva, não apenas pela mitigação dos
• Secretaria de Participação e Parceria da Prefeiproblemas sociais, mas também pelo desenvolvitura de São Paulo (http://www.prefeitura.sp.gov.
mento econômico sustentável, conduzindo seus nebr/cidade/secretarias/participacao_parceria/)
gócios de forma que se transforme em um agente de
• UNISA (Universidade de Sanevolução social.
to Amaro) (http://www.unisa.br/)
DR.MICRO (http://www.drmicro.com.br/)
A Dr. Micro atua no mercado de ensino profissionalizante, buscando garantir: constante atualização;
flexibilidade para concorrer no mercado; e criatividade para garantir resultados de baixo custo e com
eficiência comprovada. A partir dessa ideia, desenvolveu um projeto piloto cuja implantação numa
rede de escolas com mais de 5.000 alunos permitiu mensurar os resultados e comprovar os possíveis
benefícios ao mercado. O produto foi lançado oficialmente na Feira de Novos Negócios e Franchising
em Curitiba-PR (2005). No ano seguinte, a empresa lançava o primeiro sistema de ensino a distância
100% multimídia e interativo do mercado e com o
menor custo operacional. Desde então, a solução se
encontra em mais da metade dos estados brasileiros
e o número de alunos que aprendem por seu intermédio cresceu de forma exponencial, somando mais
de 500 mil alunos certificados e mais de 2.000 instituições de ensino que já utilizaram ou utilizam esses
serviços.
Hoje, a Dr. Micro atua bastante junto ao terceiro
13
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
4. A metodologia JAM
a temas propostos por outras e isso é perceptível visualmente – as ideias originais ficam encostadas na
margem esquerda e as respostas a cada uma delas
vêm abaixo, deslocadas um pouco à direita. Vários
temas podem estar em debate simultaneamente e
isso é percebido de forma intuitiva pelos participantes.
O termo “JAM” surgiu na IBM a partir das boas e
tradicionais Jam sessions, nas quais um dos músicos
propõe um tema e, a partir daí, cada um dos demais faz sua música com seus próprios instrumentos,
sempre voltando ao tema original. É uma “chuva de Mas a principal característica do JAM está na inteideias” de todos os setores, de diversos países, num ligência por trás da tela. Automaticamente, a ferraformato reflexivo.
menta produz análises quantitativas sobre os termos
Em 2003, dois anos depois de sua criação, a meto- mais usados pelos participantes, o volume e confordologia era usada para redefinir os valores da compa- midade das reflexões. Ela as ordena de várias formas
nhia, pelo envolvimento de funcionários IBM e seus úteis para elaboração do sumário. O JAM é uma ferfamiliares, naquele que se tornou conhecido como o ramenta de cognição.
Collaboration JAM (https://www.collaborationjam.
com/). Em 2006, o Innovation JAM reuniria mais
de 150.000 pessoas de 104 países e 67 empresas.
Essa ação resultou no lançamento de 10 novos negócios que representam inovações dentro de alguns dos
maiores sistemas dos quais todos dependemos, como
transporte, energia, água e saúde. Hoje, essas inovações nascidas da colaboração já resultam em mais
de 700 milhões de dólares em receita para a IBM e
estão ajudando a resolver alguns dos problemas mais
prementes do mundo.
O JAM não é nem uma palestra, nem uma entrevista – é um compartilhamento de reflexões com a
possibilidade de envolvimento de pessoas de todo o
mundo. O convidado especial não precisa responder
perguntas ou fornecer conclusões – ele municia a reflexão. Por seu conhecimento sobre o tema, ele tem
refletido e já conta com suas próprias questões e propostas. Surge a oportunidade de compartilhar e estimular a inserção de representantes de organizações
da sociedade civil, de empresas, do governo e da academia. O convidado especial deixa o debate avançar
e insere breves provocações de tempos em tempos.
No JAM, não é previsto o jorro de ideias simultâneas
que se vê em redes sociais como Facebook, Twitter e
Orkut. As pessoas lêem o que foi publicado, refletem
e depois compartilham seu próprio pensamento. As
postagens no JAM são mais extensas e complexas,
trazem anexos, são meditativas, propositivas. Até por
essa razão, ele não é falado, e sim escrito, reforçando
a possibilidade de fazer devagar, de forma mais elaborada.
Outra diferença está na ordem – as reflexões não são
postadas de forma desordenada. As pessoas reagem
14
Relatório GSI JAM 2011
5. O GSI JAM
a. Conceito e panorama
O GSI JAM consistiu numa iniciativa pioneira em
três vertentes: o primeiro promovido pela sociedade
civil organizada, produzindo impacto global e bilíngue (em português e inglês). Tendo como principio
a missão da GSI, de apoiar inovações sociais pelo
estímulo à colaboração e o fomento à discussão de
temas da sustentabilidade, tornou-se um ambiente
democrático onde todos os setores puderam compartilhar ideias sobre a sustentabilidade das organizações.
Entre os convidados especiais, figuraram empresários, políticos, gestores de organizações sociais, acadêmicos e representantes do poder público, com
participantes de 16 países em quatro continentes:
Américas (Argentina, Brasil, Colômbia, Equador,
Estados Unidos, México e Uruguai); Europa (Alemanha, Espanha, França, Itália e Portugal); Ásia
(Brunei Darussalam, Índia e Paquistão); África (Quênia).
Durante todo o JAM, equipes de tradutores vertiam
as postagens, de modo a viabilizar quase que instantaneamente o entendimento e a participação de pessoas dos vários países. Os organizadores optaram por
não indicar o recurso de ferramentas virtuais de tradução, a fim de imprimir maior precisão aos debates
bilíngues. Os textos traduzidos eram inseridos com
breve atraso após cada publicação original, figurando no mesmo espaço, em cores diferentes, o que ajudou a unificar o debate e torná-lo verdadeiramente
internacional.
Mesmo em períodos em que não havia a ‘presença’
de convidados especiais, era constante o acesso de
internautas lendo e compartilhando suas considerações.
Na tarde do segundo dia do JAM, dos quatro previstos, uma dificuldade de acesso começou a se generalizar. Aos poucos, o sistema ficou lento até o ponto
de impedir a leitura ou a postagem de textos pelos
participantes. Foi necessário interromper o evento durante dois dias até que o problema fosse solucionado. Nesse período, a equipe de organização e
os parceiros da área técnica perceberam que o dano
ocorrera pelo acesso simultâneo de um número inesperado de pessoas.
Foi realizado de 9 a 16 de fevereiro de 2011. PlanejaO GSI JAM enfrentava o melhor dos problemas –
do inicialmente para 96 horas ininterruptas de debaexcesso de participantes.
te, o JAM abordou cinco temas simultâneos:
Com a adequação da infraestrutura, o JAM prosse• Filantropia Estratégica e Sustenguiu – agora sem dificuldades – por mais três dias,
tabilidade Organizacional
terminando na quarta-feira, dia 16 de fevereiro de
• Parcerias Intersetoriais de Benefício Mútuo
2011, às 22 horas (GMT-3).
• Ferramentas de Gestão para Organizações do Terceiro Setor
• A Empresa Social como alternativa de Sustentabilidade
• Iniciativas de investimento Público e Privado
Grupos de convidados especiais se sucediam em
cada um dos cinco temas, estimulando a reflexão
coletiva. Os demais participantes tinham acesso à
agenda de paineis e convidados, programando sua
própria participação. Algumas pessoas mantinham o
acesso por horas e faziam inserções de tempos em
tempos; outras visitavam os ‘espaços’ pontualmente.
Houve casos de grupos de participantes que se reuniram presencialmente, debatiam os temas e criavam
postagens em conjunto, conseguindo ampliar ainda
mais a discussão.
Vídeos, Transcrições e Anexos
As transcrições de todos os paineis realizados ao longo do GSI JAM estão disponíveis em português e inglês no site da GSI (http://www.impactosocial.org.
br/gsi/Default.aspx)
Todos os documentos compartilhados pelos participantes durante o JAM poderão ser acessados no
Centro de Conhecimento / Sugestões de Leitura,
também no site da GSI. (http://www.impactosocial.
org.br/gsi/Materias/Editoria.aspx?EditoriaId=121)
Os vídeos introdutórios feitos por Stuart Hart, Paul
Kirsch e Melvyn Levitsky estão sendo hospedados
no site da Dr.Micro, parceiro institucional da GSI.
(www.drmicro.com.br/gsi)
15
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
b. Pilares
Durante a fase de preparação do JAM, a equipe organizadora se reuniu diversas vezes até definir os pilares que embasariam cada um dos cinco paineis. Os
temas deviam ser abrangentes a ponto de despertar a
reflexão e, juntos, abrir caminho para a sustentabilidade organizacional e os meios para atingi-la. A partir desses encontros presenciais e remotos, cinco textos foram produzidos, traduzidos e posteriormente
compartilhados com os participantes, como forma
de estabelecer uma base filosófica para o evento, explicitando algumas das questões que a GSI esperava
ver discutidos. Ei-los:
Filantropia Estratégica e Sustentabilidade Organizacional
O princípio da sustentabilidade aplica-se a um
empreendimento, a uma comunidade ou ao planeta. Para isso, é preciso que seja: economicamente viável, socialmente justo, ecologicamente
correto e culturalmente aceito. É isso que buscam
algumas empresas ao pensar tanto seu negócio
como as causas que abraçam. E também as organizações da sociedade civil, que buscam sua independência do investimento social oferecido por
empresas ou governos. Outras empresas buscam
causas sociais e/ou ambientais que estejam estrategicamente vinculadas a sua ação negocial e ali
concentram seus esforços, na chamada filantropia
estratégica. Mas uma será caminho para a outra?
A filantropia estratégica ocorre, por exemplo, quando as parcerias intersetoriais desenvolvem uma atuação sistemática e baseada em estratégias estabelecidas, buscando respeitar o interesse dos parceiros. Nas
ações com foco na sustentabilidade, a organização
da sociedade civil independe do investimento social
oferecido pela empresa parceira, o qual corresponde
a uma parcela reduzida dos fundos de que necessita
para manter suas iniciativas.
Mas será que a filantropia estratégica é um passo
que precede a sustentabilidade? Do que precisa uma
instituição para atuar com a abordagem da sustentabilidade? Pode-se entender a função da empresa
como a criação de produtos e serviços para atender
demandas, com isso gerando riqueza. Neste contexto, cabe ao Estado o papel de regulação do mercado,
enquanto uma função importante das organizações
16
da sociedade civil consiste no controle social, estabelecendo padrões, formando grupos de pressão e de
monitoramento para fazer com que a riqueza gerada
na empresa seja compartilhada. É viável transformar
esse jogo de poder numa ação orgânica, socialmente responsável, economicamente viável e ambientalmente correta?
Quando se pensa em atividades com foco na Base
da Pirâmide, conforme preconizado por Prahalad e
Hart, vem à mente a visão de pequenos negócios ou
da população em geral na condição de fornecedores,
funcionários, parceiros ou clientes de grandes corporações. Em que medida pode-se afirmar que essas
populações passam a ser incluídas socialmente nesse
processo? E será que os mercados são condição necessária e suficiente para dar conta dos problemas
sociais e ambientais que afligem as sociedades contemporâneas?
Como tem sido elaborada a estratégia de atuação de
sua empresa ou organização? O que está funcionando e o que ainda não deslanchou? Você percebe algum incentivo à sustentabilidade de empresas e de
organizações participantes de uma mesma cadeia
produtiva? Compartilhe essa importante experiência
e traga suas dúvidas e propostas.
Parcerias Intersetoriais de
Benefício Mútuo
As empresas que buscam parcerias intersetoriais
para executar suas ações sociais consideram tal
forma de trabalho mais eficiente e capaz de reduzir os custos da atuação social. Aquelas que
preferem se manter autônomas acusam questões
como falta de confiança, carência de informações
e experiências frustradas permeando sua decisão.
As organizações da sociedade civil que têm uma
visão positiva das parcerias frisam os benefícios:
aperfeiçoamento da capacidade de gestão; modernização de práticas gerenciais; ampliação do network
e do acesso a recursos etc. Aquelas que evitam fazer
alianças ressaltam: incompatibilidade da lógica
e dos ritmos de trabalho; falta de conhecimento e
sensibilidade da empresa para os problemas sociais;
falta de clareza quanto às intenções da empresa e
os valores que norteiam sua ação, entre outros.
Afinal de contas, as parcerias podem funcionar? A
flexibilização das empresas e a profissionalização
da sociedade organizada viabilizam esses arranjos?
Relatório GSI JAM 2011
As empresas que tendem a buscar parcerias intersetoriais para executar suas ações sociais consideram
tal forma de trabalho mais eficiente e capaz de reduzir os custos da atuação social. Aquelas que preferem
se manter autônomas acusam questões como falta
de confiança, carência de informações e experiências
frustradas permeando sua decisão.
As organizações da sociedade civil que têm uma visão
positiva das parcerias frisam os benefícios: aperfeiçoamento da capacidade de gestão; modernização de
práticas gerenciais; ampliação do network; fortalecimento da imagem; ampliação do acesso a recursos.
Aquelas que evitam fazer alianças ressaltam: incompatibilidade da lógica e dos ritmos de trabalho; falta
de conhecimento e sensibilidade da empresa para os
problemas sociais; caráter arrogante e impositivo ou
paternalista e condescendente da empresa em relação à entidade; falta de clareza quanto às intenções
da empresa e os valores que norteiam sua ação; insegurança quanto à duração do relacionamento. Será
que o estímulo à proatividade das organizações da
sociedade civil, somado à sensibilização das empresas para um relacionamento mais equilibrado nas
decisões vitais para o destino das alianças colabora
para o aperfeiçoamento das alianças intersetoriais? É
justificado o interesse das empresas pelo benefício de
imagem ou o benefício financeiro? E o das organizações sociais pelo benefício financeiro? É viável profissionalizar alianças de cunho assistencialista? De
forma transparente, o que é o benefício mútuo? É
o benefício meramente financeiro? E ele pode prescindir do bem da coletividade ou as duas coisas estão
sempre atreladas?
que uma alternativa de captação de recursos, é a
busca por sua sustentabilidade. Aos poucos, elas vão
se inserindo em cadeias produtivas e assumindo um
perfil misto de empresa e organização social. Mas
quais são as vantagens e os desafios nesse formato? Ele se aplica a qualquer organização social? As
empresas sociais têm capacidade de oferecer produtos e serviços em escala? Onde estão os gargalos?
Embora modelares na ação e na firmeza de propósitos, por muitos anos as organizações da sociedade civil contaram com o recebimento de donativos para o
cumprimento de sua missão e para sua própria existência. Para tanto, muitas delas mantinham alianças
perenes com empresas e recebiam verbas constantes
do poder público, tornando-se dependentes desses
recursos. Em paralelo, o voluntariado se provava
complexo e muitas vezes pouco confiável, o que passou a exigir a contratação de mão de obra e a inserção de novas despesas no balanço mensal.
Recentemente, a maioria das organizações passou a
desenvolver parcerias menos estáveis com essas instituições, em sua busca por verbas e recursos não financeiros. Tais relações têm a duração de projetos
ou de obras, e poucas delas miram a gestão organizacional. A sobrevivência demanda esforços diferenciados e uma linguagem ainda desconhecida. Algumas organizações optaram por desenvolver produtos
e serviços com essa finalidade – embora, por vezes,
esse esforço as desvie da missão a que se propuseram.
Outras, tentando isolar a possibilidade de contaminação de seus propósitos, decidiram estabelecer empresas privadas em paralelo às organizações sociais,
em iniciativas com bases intrincadas.
Alianças de benefício mútuo que não estejam alinhaSurgiram as empresas sociais: modelos comerciais
das com a estratégia e missão corporativa são viáveis
implantados pelas organizações da sociedade civil
no longo prazo?
sem desviá-las de sua missão e reduzindo a depenQual é a sua experiência em parcerias? Quais os pon- dência de iniciativas públicas e privadas. Era mais do
tos que gostaria de destacar? E os desafios que obser- que uma alternativa de captação de recursos – essas
va? Você percebe algum incentivo à sustentabilidade organizações buscam sua sustentabilidade. Aos poude empresas e de organizações participantes de uma cos, elas vão se inserindo em cadeias produtivas e
mesma cadeia produtiva?
assumindo um perfil misto de empresa e organização
social. Mas quais são as vantagens e os desafios nesse
A Empresa Social como alterformato? Ele se aplica a qualquer organização social?
nativa de Sustentabilidade
Quais são os modelos já existentes?
As empresas sociais são modelos comerciais implantados pelas organizações da sociedade civil sem que
elas se desviem de sua missão e reduzindo a dependência de iniciativas públicas e privadas. Mais do
A empresa social tem capacidade de oferecer produtos e serviços em escala ou deve se organizar em
“cooperativas” com organizações semelhantes, a fim
de atender grandes corporações? Manter uma linha
17
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
restrita de produtos e/ou um fornecimento em escala reduzida é uma opção? Por outro lado, como se
manter fiel aos princípios? Como desenvolver produtos, serviços, inserir-se em cadeias produtivas e
continuar com os olhos no bem-estar social? A empresa social é a única saída para as organizações do
Terceiro Setor no futuro?
E há políticas públicas que apoiem essas iniciativas?
Como as organizações sociais podem influenciar na
elaboração de políticas que regulamentem essas novas pessoas jurídicas? Qual é a experiência de sua organização – como se configura sua matriz de recursos? Como você avalia sua independência financeira?
Quais são suas impressões acerca do surgimento das
empresas sociais? Quais as vantagens e os desafios
que observa?
Ferramentas de Gestão para
Organizações do Terceiro Setor
Quais ferramentas indicam que a organização está
em linha com as estratégias que se propôs? Quais
correspondem a uma prestação de contas?
Existe algum modelo sintético de planejamento mais
adequado às necessidades das organizações sociais?
Há ferramentas corporativas de gestão adaptáveis às
necessidades das organizações do terceiro setor?
E no caso de elaboração de projetos? Como confirmar as reais necessidades aos olhos do apoiador potencial? Como calcular a verba necessária e a destinação a cada rubrica, de modo a garantir a consecução
de um projeto?
Como você vê sua organização? Percebe algum diferencial em sua atuação, se comparada às demais?
Existe dentro do processo de planejamento estratégico da organização oportunidade de buscar nichos
inexplorados, como públicos, serviços ou produtos?
O acesso a verbas públicas e privadas e mesmo o uso
excelente dos recursos exigem uma administração
mais profissionalizada das organizações do Terceiro
Setor. É cada vez mais importante que as organizações – com e sem fins lucrativos – implementem
ferramentas de gestão que lhes concedam transparência, viabilizem processos mais eficientes, permitam o monitoramento de indicadores e, em última
análise, tragam sucesso a suas iniciativas. Mas
quais são as ferramentas essenciais? Há ferramentas
corporativas de gestão adaptáveis às necessidades
das organizações do terceiro setor? E vice-versa?
Existe espaço para que as empresas e organizações
aprendam umas com as outras e adaptem ferramentas, processos e soluções já adotadas?
O mero interesse pelo bem da coletividade já não
basta. O acesso a verbas públicas e privadas e mesmo o uso excelente dos recursos exigem uma administração mais profissionalizada das organizações do
Terceiro Setor. É cada vez mais importante que as
organizações – com e sem fins lucrativos – implementem ferramentas de gestão que lhes concedam
transparência, viabilizem processos mais eficientes,
permitam o monitoramento de indicadores e, em última análise, tragam sucesso a suas iniciativas.
Iniciativas de
Investimento Público e Privado
Definir missão, valores e objetivos e, dentro desse
plano maior, implantar ferramentas que permitam
o acompanhamento de indicadores de resultados,
confirmando o caminho até os objetivos traçados.
Mas quais são as ferramentas essenciais? Quais têm
implantação mais ágil? Quais são as exigências feitas por possíveis parceiros financiadores no Brasil?
18
E mais: como vai ser operada a gestão das organizações a partir de agora, com as verbas públicas e
privadas cada vez menos orientadas para a estrutura
organizacional?
Como tem sido a experiência de sua organização no
uso de ferramentas de gestão? Quais pontos você
gostaria de destacar? E os desafios que observa nesse
sentido?
O Investimento social privado se dá sob a forma do “repasse voluntário de recursos privados
de forma planejada, monitorada e sistemática para projetos sociais, ambientais e culturais
de interesse público”, conforme definição do
GIFE. Contudo, em boa parte das empresas,
o negócio ainda é muito isolado da ação socioambiental e o tratamento dado pelos gestores a
cada um é diferente, assim como a prioridade.
De sua parte, o Estado conta com a sociedade organizada para cumprir parte dos serviços garantidos
aos cidadãos e oferece recursos de cunho financeiro
e não financeiro para esse fim. Carece, contudo,
de transparência na destinação dessas verbas.
Será que na primeira crise, tanto um como outro
Relatório GSI JAM 2011
pode desistir de ações sociais já entabuladas? E as
organizações da sociedade civil podem influenciar as
políticas públicas, de modo a fortalecer sua agenda?
O Investimento social privado se dá sob a forma do
“repasse voluntário de recursos privados de forma
planejada, monitorada e sistemática para projetos
sociais, ambientais e culturais de interesse público”,
conforme definição do GIFE. Contudo, em boa
parte das empresas, o negócio ainda é muito isolado
da ação socioambiental. Há casos em que os funcionários desconhecem as ações realizadas pelas empresas. E o tratamento dado pelos gestores às iniciativas
comerciais ainda costuma ser diferente daquele dado
às iniciativas socioambientais.
Quando se determina o público ao qual se destinam
tais iniciativas e investimentos, sejam eles públicos
ou privados – a base da pirâmide – realça-se a necessidade de geração e fortalecimento de novos negócios, incentivo ao empreendedorismo e à inovação.
Mas será que outras formas de investimento social
devem ser consideradas? Será que as empresas estão
refletindo quanto aos públicos a quem destinar os
recursos? E o modelo na base da pirâmide, o que
muda, o que permanece?
c. Perfil dos participantes
Sumário de
participação no GSI JAM
• Número de inscritos = 1534
• Número de log-ins = 540 (35%)
• Número de postagens = 882 (1.6 per logged in)
• Número de pessoas que postaram = 170 (31%)
• Países representados = 16
• Setores representados = 5
• Número de tópicos = 5
De sua parte, o Estado conta com a sociedade organizada para cumprir parte dos serviços garantidos
aos cidadãos e oferece recursos de cunho financeiro
e não financeiro para esse fim. Carece, contudo, de
transparência na destinação dessas verbas.
Onde estão esses recursos públicos e privados e quais
são os públicos e tipos de projetos preferidos pelos
governos e pelas empresas? E o que acontece no exterior – em comparação com o Brasil, a destinação de
verbas é mais fluida, menos burocrática, mais transparente?
E em termos de políticas públicas, o que existe como
ideia e como prática? Como as organizações da sociedade civil podem influenciar as políticas públicas,
de modo a fortalecer sua agenda? E como o governo
enxerga a sua participação e a da sociedade civil no
desenvolvimento das políticas públicas?
Qual é a sua experiência na concessão ou no recebimento de investimentos públicos e privados? E você
conhece as ações realizadas pela empresa onde trabalha? Quais pontos gostaria de destacar? E os desafios
que observa nesse sentido?
19
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
Representação por setores
Participação por
Estados Brasileiros
Observa-se um número significativo de pessoas físicas. Esse dado deve-se – entendemos – pela participação de voluntários (que podem ter optado por
não se identificar como representantes das instituições que servem), de pessoas que atuam simultaneamente em empresas e em ONGs, e de estudantes
de nível superior (que não representam suas escolas).
De qualquer modo, é um dado inconclusivo.
Confirmando dados históricos do Brasil, houve
maior participação de pessoas do Sul, Sudeste e Distrito Federal. A expectativa dos organizadores é que,
com a pulverização do uso de computadores e a ampliação no acesso a redes sociais nas demais regiões,
Quanto ao expressivo número de representantes de os números de participantes se tornem mais equiorganizações da sociedade civil e de empresas, con- librados pouco a pouco e a iniciativa atinja maior
siderando a vocação da GSI para a atuação junto a número de Estados.
ONGs, foi positivo perceber o interesse despertado
Países com participantes no JAM
pela iniciativa junto a pessoas do segundo setor, seja
incentivados pelo convite de empresas, seja atraídos 1. Brasil
pelos nomes dos convidados especiais, seja pelo in- 2. Estados Unidos
teresse no tema ou ainda pelo desembaraço no uso 3. Colômbia
do formato virtual, pois durante o processo de pre- 4. Espanha
paração do JAM, observou-se que representantes do 5. Argentina
segundo e terceiro setores – especialmente lideranças 6. Equador
– ainda demonstram maior dificuldade no acesso a 7. Uruguai
8. México
internet e no uso de ferramentas virtuais.
9. Índia
Quanto à mais discreta participação de represen- 10. Portugal
tantes do primeiro setor, imprensa e academia, esse 11. França
dado serve como incentivo para um esforço mais 12. Itália
concentrado no convite em ações futuras.
13. Alemanha
14. Quênia
15. Paquistão
16. Brunei Darussalam
O GSI JAM consistia no debate de questões conceituais e filosóficas, além de ferramentais. Em razão
disso, era esperado o interesse em âmbito nacional.
Contudo, como o Brasil tem se configurado como
expoente nas ações com foco socioambiental na
América Latina, era esperado algum interesse dali,
inclusive pela participação de representantes corpo20
Relatório GSI JAM 2011
rativos e acadêmicos de vários países da região, fato futura.
que se confirmou.
Supostamente pela importância crescente que tem
atingido em razão dos BRICs, de sua relativa estabilidade econômica em tempos de crise e da participação de representantes de organizações de segundo e
terceiro setores e da academia de países do Primeiro
Mundo, também se verificou a presença de pessoas
desses locais.
Foi especialmente encorajador saber do interesse
despertado junto a indivíduos em países da África e
Ásia, ainda que a quantidade ainda tenha sido discreta.
No primeiro dia do JAM, mais de 330 reflexões foram postadas num período de 24 horas. No segundo
d. Levantamento quantitativo
dia, mais de 300 postagens foram feitas na metade
desse tempo – quando surgiu a lentidão e, posteriormente, a impossibilidade de acesso. Esse dado forneParticipação em
ce indícios de que o dobro de postagens poderiam
postagens por paineis
ter sido feitas nesse segundo dia e que, talvez, esse
número teria se repetido nos dois dias subsequentes.
Com a interrupção e o retorno em data não prevista
originalmente, era esperado que o número de acessos, tanto por convidados especiais como por demais
participantes fosse bastante reduzido, tendo atingido
cerca de 100 postagens no dia 15 e no dia 16.
Ainda assim, a equipe técnica, acostumada a promover JAMs empresariais, observou que, nesse evento
de discussão de temas de sustentabilidade organizacional, – de interesse de pessoas físicas e jurídicas
– tanto o número quanto a profundidade das postaDas 882 postagens, Iniciativas de Investimento Pú- gens foram inéditos.
blico e Privado representaram 47% das contribuições ao JAM. Paralelamente, 20% do total ocorreram na discussão sobre Ferramentas de Gestão em
Organizações do Terceiro Setor. Os três outros temas
corresponderam a mais de 10% cada um.
Talvez essa defasagem se deva à opção por abordar
uma multiplicidade de temas pontuais que caracterizou o painel sobre Iniciativas, reunindo pares ou
grupos de especialistas, particularmente em investimento público. Também o envolvimento ativo da
Secretaria de Participação e Parceria de São Paulo
atraiu representantes de organizações da sociedade
civil que mantêm proximidade com aquele órgão,
seja por meio de convênios, de debates promovidos
periodicamente ou outros esforços. Essas iniciativas
propostas por empresas e pelo governo podem merecer foco mais exclusivo num JAM ou outra ação
21
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
e. Levantamento qualitativo
O GSI JAM consistiu na realização de cinco paineis
simultâneos com temas específicos, todos analisando facetas da Sustentabilidade Organizacional. Cada
painel teve duração igual ao próprio JAM e foi estruturado em mesas de debate, cada qual com duração
de 1 a 2 horas e com a presença de convidados especiais, encarregados de compartilhar suas próprias
ideias e estimular a discussão.
Filantropia Estratégica é um termo mais frequente
nos Estados Unidos e no México. O GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) tem optado por adotar o termo Investimento Social Privado,
definindo-o como o "aporte voluntário de recursos
privados, de maneira sistemática, planejada e monitorada, em projetos de interesse público". Para a
empresa, é muito útil institucionalizar (em uma fundação ou instituto) e profissionalizar (com colaboradores dedicados exclusivamente) esta área. Se isto
ocorre, a área de ISP se torna uma "unidade de inteligência social", que, além de promover melhorias
mais diretamente nas comunidades, contribui para
a implantação da responsabilidade social na própria
empresa.
Esse longo e complexo compartilhamento de ideias
somou quase 900 reflexões postadas, que aqui se
transformam em cinco textos com uma síntese de
cada um dos paineis. É importante reforçar que, embora os textos de fato tragam um reflexo do JAM A Filantropia sempre vai ser necessária em momencomo um todo, dificilmente vão corresponder à opi- tos de caos e escassez extrema, mas jamais pode ser
nião individual dos participantes.
uma forma de operação da empresa. A autonomia é
parte fundamental no processo de desenvolvimento
de pessoas, empresas e nações. Migrar desse estágio
para a responsabilidade corporativa, induzindo novas formas de consumo e de negócios inclusivos requer uma revisão de modelo de mundo e de posicionamento frente à vida e aos negócios que pressupõe
abrir mão de algo para que outros possam ganhar, e
este é o grande desafio; quem se dispõe a dar o primeiro passo?
Filantropia estratégica
FILANTROPIA
ESTRATÉGICA E
SUSTENTABILIDADE
A própria denominação Filantropia Estratégica subentende que a filantropia, ao menos na sua condição histórica, não é estratégica. E isso é verdade.
Historicamente, a filantropia mais pareceu uma concessão das empresas à sociedade que uma ação a favor dos negócios. Hoje, isso vai mudando, porque o
mercado não é um fim em si mesmo – é o espaço das
relações econômicas de uma dada sociedade. Ocorre que a qualidade dessa sociedade é determinante
para a qualidade dos negócios. Quanto mais desigual
for a sociedade, mais restritas as opções de negócio,
menores as relações de confiança, maiores os custos
de transação. Portanto, uma sociedade desigual e injusta não interessa às empresas, mormente àquelas
enraizadas nas sociedades em que operam. É possível
afirmar, com pequena margem de erro, que a qualidade dos negócios e da regulação de determinado
mercado está na razão direta da redução da desigualdade nesse contexto. Acresçam-se aí as condicionantes que as mudanças climáticas vêm trazendo às variáveis de negócio. Não basta avançar em tecnologias
limpas, é necessário repensar o próprio consumo.
22
O importante é pensar na filantropia como "A sociedade pela sociedade". O termo "Filantropia Estratégica" não é o melhor, porque acaba se incorporando
à ideia de que a filantropia não passa de um "negócio", e essa não é a essência – as empresas devem fomentar as questões sociais, buscando soluções com
base em seus recursos e competências e seus vínculos
multistakeholder. A filantropia pela filantropia tem
vida curta. O grande desafio está em criar uma situação de "triple win", na qual ganhem a empresa,
o consumidor e a sociedade, sendo que o ganho da
sociedade ocorre tanto por uma menor pegada ambiental como por maior inclusão social.
Dentro do sistema capitalista, a desigualdade social
é justamente o alicerce, que nem de longe tem bases
humanitárias. Não se constrói um mundo justo nesses moldes. É incompatível pensar em lucro, visibilidade empresarial e uma comunidade (no seu estrito
senso), junto com um mundo mais justo. Para que se
possa dar um salto quântico na questão da filantropia, é necessário melhorar muito a colaboração entre
os diversos atores. Empresas precisam colaborar en-
Relatório GSI JAM 2011
tre si, trocando informações e experiências, e também atuando juntas, complementando suas ações.
As ONGs precisam trocar experiências e atuar juntas, compartilhando recursos – como, por exemplo,
uma infraestrutura de Informática – algo que é caro
e difícil de manter; se diversas ONGs, com o mesmo
tipo de aplicativo e necessidades pudessem compartilhar os recursos, isso seria proveitoso para todos.
do desenvolvimento mundial? Será que a filantropia
estratégica deve privilegiar algum ponto exclusivo
ou criar um leque de assuntos? E se esse for o caso,
como isso deve ser gerido e por quem?
Empreendedorismo
e Negócios Sociais
Martin Luther King disse que "somos desafiados pela
urgência feroz do agora". Num momento de grande
transformação, uma das propostas possíveis vem do
empreendedorismo social. Na era industrial, os empreendedores usaram seu talento, dinheiro e capacidade de trabalho para construir empresas e gerar empregos. Hoje, estão motivados por questões sociais
e valores éticos; são eles que vêm vencendo alguns
dos grandes desafios da humanidade, sobretudo na
mitigação da pobreza e na inclusão social. E podem
mudar a cara das empresas e a forma com que elas se
relacionam com o lucro e com sua sustentabilidade,
além de atuarem como agentes da mudança social,
solidificando parcerias e promovendo novos valores.
Para que se opere uma mudança significativa em Filantropia Estratégica e Sustentabilidade Empresarial,
urge uma infusão de princípios colaborativos: toda a
cadeia de gestão precisa estar envolvida e preparada;
todos os empreendimentos devem estar abertos para
melhorias constantes, principalmente na infraestrutura, e prontos para multiplicar essa cultura entre os
usuários de informação e gestores. Com a internet,
os usuários finais estão cada vez mais próximos das
redes de informação. Percebe-se que, em qualquer
área, as armas do mercado são as redes de informação e delas se beneficiam a inovação e a colaboração.
O investimento em educação é o principio para o
desenvolvimento das cadeias produtivas e sempre É tempo de criar uma economia baseada na visão
garante saldo positivo.
integrada, em contraponto à abordagem fragmenSempre que se discute filantropia estratégica, parece tada que dominou a economia industrial. Hoje, as
que o tema caminha para a reflexão sobre o que é ONGs, com sua capacidade de mobilização e sua vilucro empresarial e como ele promove o desenvol- são diferenciada, têm papel relevante na construção
vimento social. Se considerarmos o ato de doar para desta nova realidade. O empreendedorismo social é
causas e propostas sociais importantes e estratégicas, um impulso fundamental para influenciar a mudancomo logística de saúde, alimentos e mesmo redução ça e a transformação que já estão em curso.
no uso de recursos e gestão sustentável, qual será a Uma chave para o empreendedorismo social está na
visão diante de catástrofes e desastres – naturais ou visão estratégica que otimiza os benefícios a todos os
não? (terremoto do Haiti e vazamento de petróleo interessados, inclusive os investidores. Com alguma
BP). Em anos recentes, é alarmante a visão de dados criatividade e diligência é possível construir essas esreferentes ao direcionamento internacional de recur- tratégias, que extrapolam a visão de que “eu só gasos privados para ações e projetos sociais pelo mun- nho se você perder”, dos tempos da era industrial.
do. Segundo a fonte www.foundationcenter.org,
importantes fundações deixaram de apoiar organiza- É tempo de buscar mais alternativas de renda para
ções sociais ou de pesquisa, reduzindo o valor de US$ organizações sem fins lucrativos, e de estabelecer no
1.973.882.644 em 2009 para US$ 424.519.025 em país o conceito de "empresa social". Os empreende2010. No Haiti como um todo, até 2009, as doações dores que exploram esse caminho e criam empresas
não ultrapassavam os 470 mil dólares. Em 2010, sociais são pioneiros – por isso encontram dificuldaesse valor passou para 200 milhões de dólares, sen- des para alavancar seu negócio social. As razões vão
do que esses números desconsideram o fato de que, desde a comunicação de sua iniciativa para uma somesmo antes do desastre, o país já figurava nos rela- ciedade que ainda espera ONGs com ação caritativa,
tórios internacionais com indicadores alarmantes de passando por uma legislação limitante que coloca as
desenvolvimento humano. Será que falhamos com a empresas sociais na mesma classificação de empresas
filantropia estratégica, quando não olhamos para os comerciais e de organizações sem fins lucrativos.
materiais criados pelas próprias fundações ou para os Supondo que o conceito de ‘negócios sociais’ ou ‘emalertas enviados pelas agências internacionais acerca presas sociais’ desenvolvido por autores como Hart,
23
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
Yunus e Prahalad não esteja incorporado na mente
das pessoas que tomam decisões, ou que ainda prevaleçam as ações filantrópicas, talvez seja tempo de
diversificar a forma de investimento social.
pressionadas a adquirir as "competências" do mundo empresarial, porque aparentemente eram incapazes de produzir transformações sociais duradouras
sem adotar estratégias, metodologias, planejamento
próprios do setor empresarial. Hoje, as empresas têm
Há uma classe de funcionários que se poderia demuito que aprender com elas. Em algumas empresas,
nominar ‘intraempreendedores sociais’. Eles podem
essa transição no modo de operar já está em andaajudar as empresas a descobrirem o potencial de inmento. Como em toda transformação, o tempo e a
tegrar os desafios da sustentabilidade nas estratégias.
vontade política de todos os envolvidos determinam
As inovações dos intraempreendedores sociais transa velocidade e a qualidade das reais transformações.
formam desafios sociais e ambientais em novas plataformas de crescimento econômico para suas em- Quando se diz "trazer a visão social do terceiro setor
presas. Afinal, empresas são formadas por pessoas. para o setor privado", supõe-se que isso signifique a
São elas que lideram o processo de mudança e con- capacidade de se envolver independentemente de tal
seguem fazer valer uma visão de negócio social atre- comportamento atrelar lucros ou não, a capacidalado aos negócios das empresas. de de criar relacionamentos de confiança e de mobilizar pessoas em vista do bem comum. Trata-se de
uma mudança na cultura organizacional: uma ONG
precisa gerar lucro, como qualquer empresa, embora
Mindset
sem distribuí-los. Para isso, precisa adotar estratégias
Capitalismo em convergência
gerenciais, planejamento, planos de ação, marketing
O pensamento que considera a relação socioam- e utilizar ferramentas administrativas, a fim de realibiental e cultural busca transformar o modo de as zar sua atividade, prestar seu serviço.
empresas verem o mercado do terceiro setor. É esse
Ninguém se opõe aos princípios da Sustentabilidao setor que mais cresce no mundo; inclui cultura
de, da mesma forma que ninguém se opõe à Paz.
e artes entre as molas propulsoras – ecologicamenO mundo empresarial e o mundo as organizações
te corretas, não poluentes, lúdicas, introduzindo o
da sociedade civil podem e devem aprender juntos,
lazer e acima de tudo fomentando grandemente o
mutuamente fecundando saberes e experiências que
giro econômico. As empresas necessitam mudar suas
redundem numa cidadania ativa e assertiva, capaz
visões ao desenvolver responsabilidade social. Com
de propiciar ao presente e às futuras gerações posrecursos governamentais e principalmente privados,
sibilidades de vida saudável e gratificante. Vale despodem atingir comunidades em áreas de risco sotacar que os movimentos da sociedade civil surgem
cial por meio de projetos culturais e artísticos; isso
da constatação de necessidades básicas não atendisignifica diminuir drasticamente os impactos sociais
das nem pelo poder público, nem privado, donde se
negativos sobre essas empresas e em sua relação com
depreende que essas organizações têm sensibilidade
o entorno, promovendo redução significativa nas
e expertise que não podem ser ignorados. Ademais,
perdas por assalto, implementando uma nova ordem
não têm poder centralizado, não atendem a nenhude convivência social com base na tolerância social
ma ideologia ou religião específica, são difíceis de
sem preconceitos, na cultura de paz, na ordenação e
manipular e silenciar. São criadas para atingir um
ações dos direitos humanos.
propósito e, uma vez alcançado, se dissolvem para
As empresas devem estar atentas ao que é de fato assumir novas configurações. Essa fluidez pode ofeimportante e acontece na comunidade. Talvez o se- recer ao mundo empresarial uma percepção rápida
gredo seja a construção de uma relação de confiança. das necessidades locais, podendo gerar conjuntaAtravés de uma comunicação constante e desejo real mente oportunidades criativas de bem estar.
de entender em detalhes a cultura das organizações
Não se deve esquecer que os governos nos diferentes
parceiras. O diálogo pode abrir novos e duradouros
níveis precisam ser sempre considerados nas estracaminhos – com este esforço, novas aprendizagens
tégias, pois são eles que poderão dar escala aos proacontecem para todos os envolvidos e parcerias suscessos. Empresas e ONGs serão sempre indutoras
tentáveis e valiosas tornam-se possíveis. Na década
de modelos, porém nunca operadoras em escala. O
de 80, as organizações da sociedade civil se viram
grande desafio está em como tratar com governos
24
Relatório GSI JAM 2011
com diferentes sensibilidades e objetivos. Além desses desafios, existe a troca periódica de poder, o que
dificulta a continuidade. Outro grande desafio é o
trabalho conjunto de empresas e ONGs que, ao longo dos anos, têm mostrado dificuldade para atuar
em rede e/ou parcerias. A conclusão mais próxima
seria que temos que começar mudando nosso mindset, ou seja, elevando o nível de consciência para um
patamar onde entendamos que, ao fazermos juntos,
nada mais estamos fazendo do que praticando a verdadeira boa cidadania.
íses, as empresas desenvolvem ações de responsabilidade social como forma de retribuição à comunidade, sem mudar fundamentalmente o que fazem, no
espírito do voluntariado corporativo, da filantropia
etc. Será que basta a ação filantrópica? Nos dias de
hoje, ainda é melhor fazer isso que não fazer nada?
Por quanto tempo?
Muitas de nossas ações só perpetuam o que já existe
e não geram as mudanças necessárias. Este é o grande desafio e ele passa por uma mudança de valores
que deve considerar os aspectos econômicos, sociais
No livro “Capitalismo na Encruzilhada”, Stuart e ambientais. É sobre esta nova base que serão consHart menciona o modelo de negócio da subsidiá- truídas políticas públicas mais eficazes e ações sociais
ria indiana da Unilever, com o desenvolvimento de transformadoras. recursos nativos em seus esforços pioneiros nas áreEntretanto, a melhor maneira de atingir um novo
as rurais mais pobres. Naquele país, os funcionários
sistema de valor é demonstrar isso através de experipassam seis semanas vivendo em localidades rurais,
ências de negócio reais baseadas no conceito de tribuscando opinião dos consumidores e preferências
ple bottom line. É melhor "agir até chegar a uma
para o desenvolvimento de novos produtos, além da
nova forma de pensamento" do que tentar "pensar
identificação de matérias-primas de produtores loaté chegar a uma nova forma de agir".
cais. A empresa também criou um centro de pesquisa e desenvolvimento na área rural da Índia, focada Para que um empreendimento seja sustentável, não
especificamente em tecnologia e desenvolvimento de basta ser economicamente viável, socialmente jusprodutos para atender as necessidades dos pobres. A to, ecologicamente correto e culturalmente aceito.
empresa envolve grande número de parceiros locais Antes disso, deve ser reconhecido consensualmente
para distribuição de seus produtos e para apoiar os como necessário à coletividade. É comum encontraresforços deles no desenvolvimento de competências mos iniciativas, tanto do mundo empresarial quanto
locais. Além disso, a Unilever oferece oportunidades das organizações da sociedade civil, que procuram
e formação para empreendedores locais e experimen- ser implementadas dentro de uma comunidade sem
ta novos tipos de distribuição, como a venda através serem reconhecidas como necessárias ou prioritárias
para ela. Na sustentabilidade, o lema tem que ser
de demonstração in loco e em teatros de rua.
"não criar necessidades desnecessárias". Ao menos
Será que, se empresas investirem nas necessidades e
não antes de ter atendido as verdadeiras necessidades
cultura locais, dando capacitação e incentivando o
primárias.
desenvolvimento criativo e flexível do mercado, conseguirão desenvolver economicamente estas comuni- O termo "investimento de impacto" está ganhando
dades e ao mesmo tempo gerar receitas substanciais e espaço; contudo, todos os investimentos produzem
impacto, negativo ou positivo. Além disso, na velha
lucros operando em mercados de baixa renda?
visão de organizações sem fins lucrativos em busca
Empresas rumo à sustentabilidade
de doações, a filantropia leva a projetos inacabados
Uma empresa sustentável é aquela que considera to- ou a grandes volumes de esforço desperdiçado na
dos os fatores – o financeiro ou econômico, o so- caça ao dinheiro, em vez de levar a cabo a ação procial e o ambiental. Ela reflete sobre problemas reais posta. Empreendimentos sociais e companhias que
ocorrendo a sua volta e começa a pensar em práticas assumam uma função social representam um movicomerciais que pudessem ajudar a minimizar esses mento na direção certa. Para aqueles que seguem o
problemas e ainda viabilizassem o lucro, não sendo modelo antigo, é melhor que deixem a Era industrial
um em detrimento do outro, mas como uma estraté- do combustível fóssil e invistam na transição verde.
gia incorporada. Tampouco significa necessariamen- Todos os conceitos de sustentabilidade precisam ter
te ganhar menos dinheiro para ter mais valor social exemplos para inspirar organizações. Talvez vejamos
ou ambiental. No Brasil, assim como em muitos pa- uma evolução gradual de filantropia para filantropia
25
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
estratégica, realmente atacando desafios da sustentabilidade, e finalmente chegaremos a empresas mais
sustentáveis, colaborando com governos, ONGs e
comunidades locais. Casos positivos podem inspirar,
mas é necessário que haja mais mecanismos. Como
motivar empresas para um caminho voltado para a
sustentabilidade?
A empresa sustentável e social parte de uma lógica
que integra no seu plano os problemas atuais, responde a eles e também repensa o que é lucro e divisão monetária. Passa assim a valorizar seus fornecedores, seus clientes e a produzir melhoras sociais
a partir do retorno monetário que possui, girando
outras rodas de desenvolvimento social. O movimento de sustentabilidade surge tanto dos
pequenos empreendimentos quanto das grandes empresas. Adicionalmente, agindo em grupos, as organizações passam a compartilhar valores e a desenvolver formas de ser produtivamente viáveis. Investir
em tecnologias limpas e não criar necessidades desnecessárias é um grande avanço.
As organizações precisam ser transparentes e verdadeiras nas suas propostas e validar a necessidade de
seu negócio junto a uma comunidade. Têm de pensar em ações estratégicas para o seu negócio, mas que
também atendam uma demanda real daquela população.
Considerando a oportunidade que surge para incorporar à cultura de gestão das empresas habilidades que normalmente são encontradas apenas em
ONGs, é possível que empresas e ONGs nunca tenham estado tão próximas, em sua rota de um passado de distanciamento ou mesmo de estranhamento. Os desafios da sustentabilidade obrigam umas e
outras a desenvolver olhares comuns, a compartilhar
modos de fazer, a buscar caminhos conjuntos. Os
métodos de gestão, porém, permanecem essencialmente distintos. ONGs tendem a ser ambientes
mais orgânicos, que "aprendem fazendo", com decisões tomadas de modo mais compartilhado. Empresas tendem a ser mais hierárquicas e fechadas – ainda que haja exceções. O modo de operar das ONGs
pode mesmo ser levado para as empresas? Por outro
lado, que aspectos da gestão empresarial são necessários e adequados ao dia-a-dia das organizações sociais?
No modelo econômico atual e também nos processos sociais, surgem muitas questões quanto ao poder
das empresas e do dinheiro em relação a sua função
social. Seria utópico pensar que uma empresa não
precisa aumentar seus lucros e metas para os acionistas, mas sim para a sociedade? Hoje, uma empresa
existe e se estabelece; a partir daí, começa a gerar lucro que é destinado aos acionistas e reinvestido para
mais crescimento. A utopia seria: uma empresa que
define em conjunto com os acionistas quanto de retorno cada acionista quer – algo que seja honesto e
justo. O objetivo dela continua sendo gerar cada vez
mais lucro, porém uma vez estabelecido o valor do
acionista, do reinvestimento, o que sobrar vai para
processos sociais desenvolvidos por ela em conjunto
com governo e organizações não governamentais.
26
Esse processo de revolução e evolução das empresas
vai exigir um volume grande de adequações: transparência é uma delas, inclusive nos orçamentos; divisão justa de lucros, com distribuição de renda, resultando num novo entendimento do que é lucro
(dinheiro, pessoas, mundo); canais abertos para troca, e copyleft1 ; compartilhamento de valores sociais
e ações. Tais práticas podem ajudar nesse processo
de confiança.
Uma das questões mais intrigantes: quando se fala
em sustentabilidade organizacional, quanto as organizações estão efetivamente evoluindo? O discurso
da sustentabilidade tornou-se mundialmente o novo
mantra das empresas, uma questão fundamental em
seu posicionamento público em todos os setores econômicos. A evolução no discurso é clara. Mas e a
prática?
A distância entre o discurso, as teorias, e suas implementações práticas fica muito mais evidente hoje,
com a aceleração do processo de mudança. A produção de conhecimento técnico duplica a cada 72
horas; entretanto, o comportamento e mesmo a aplicação desse conhecimento não se efetiva na mesma
velocidade. Mudanças comportamentais requerem
variáveis mais difíceis de promover, seja individual
ou coletivamente. As ciências cognitivas terão que
vir em nosso auxílio para dar conta da lacuna que se
abre entre o conhecimento e a vida prática.
Um grande número das iniciativas de responsabilidade social adotadas pelas empresas no mundo todo
se fundamenta em relações públicas e pode ser classificado como greenwashing2. Entretanto, já há ferramentas desenvolvidas e praticadas, inclusive no
Brasil, para uma abordagem estratégica e sistêmica
do problema.
Relatório GSI JAM 2011
O ponto de equilíbrio entre os aspectos social, ambiental e econômico parece ser, acima de tudo, o
grande desafio para a prática da sustentabilidade nas
empresas. Isoladamente, percebem-se muitas iniciativas relacionadas a boas práticas ambientais (economia de recursos naturais, reciclagem etc.) e também
sociais – neste caso, muitas vezes confundidas com o
conceito puro de filantropia.
Dessa forma, o que podemos tomar como exemplos
de gestão sustentável nas empresas no Brasil? A prática da sustentabilidade ainda é um grande desafio
para as empresas. As ações têm sido, na maioria das
vezes isoladas, e ainda existe grande distância entre a
teoria e a prática. O mero conhecimento dos conceitos não tem sido suficiente para fazer essa transposição. Como alavancar a prática nas empresas? Os
executivos já possuem boa noção do tema. Como
auxiliar na sua mudança de postura e comportamento?
O caminho de mudança de postura fica claro para
os executivos quando eles conseguem ver os objetivos e metas de sustentabilidade de suas áreas, ou
seja, o papel de cada um para que a organização possa avançar em seu caminho para a sustentabilidade,
condição que somente pode ser atingida pela sociedade como um todo, mas por caminhos individuais
e institucionais.
A chave está em ultrapassar a crença de que, para
oferecer mais valor social e ambiental, é preciso sacrificar a criação de valor econômico e financeiro –
essa dicotomia é falsa. É possível atingir mais das três
formas de valor através de novas estratégias. Este é
o principal argumento do livro 'Capitalism at the
Crossroads'.
É necessário romper esse paradigma e construir o triple win (empresa-consumidor-sociedade). O que se
vê é a mesma velha dicotomia, de que não era possível ter qualidade sem aumentar custos. A criação
conjunta de valor chega como uma forma de criar
um ambiente de negócios com geração de lucros e,
ao mesmo tempo, inclusão social. Um exemplo interessante de co-criação é a Itsnoon do Brasil (www.
itsnoon.net).
O ponto de equilíbrio no triple bottom line pode
parecer uma abordagem abstrata demais para encararmos o desafio real da sustentabilidade. A gestão
de sustentabilidade eficaz leva a organização a progredir rapidamente no caminho estratégico de sus-
tentabilidade, o qual deve ser definido com base em
uma visão de futuro sustentável. Aprender com o
futuro – há ferramentas para isto, descritas no SSD
framework. www.hapiconsult.com.br.
A maioria dos estudos sobre os diferenciais corporativos começam pelo desempenho financeiro e vêm
daí para trás. Os autores do livro Firms of Endearment, lançado pela Wharton School Publishing
em 2007, começaram pelo desempenho humano e
avançaram. Eles foram analisando e selecionando
empresas até chegar a um pequeno grupo de corporações que realmente conseguem beneficiar todos
os stakeholders, sem buscar exclusivamente o lucro
para os acionistas. Elas conseguiram beneficiar seus
empregados e as comunidades nas quais estavam inseridas; também desenvolveram uma relação participativa com os fornecedores, sendo amadas pelos
clientes. Atingiram excelência em termos ambientais, sociais e financeiros. E excederam o esperado
em termos de lucro. Como será isso no Brasil nos
próximos anos?
As grandes corporações devem abandonar o discurso vazio e se engajar em mudanças reais e tangíveis.
Que tal mudar suas instalações para fora das grandes
cidades, diminuindo os problemas de trânsito e estacionamento, gerenciamento de água e esgoto, sem
falar na melhor qualidade de vida de seus empregados?
Em empresas privadas que buscam lucro, a prática
da filantropia estratégica somente é sustentável se
as ações estiverem diretamente vinculadas ao negócio. Caso contrário, qualquer mudança no comando
da organização ou restrição de investimento nessas
ações corre o risco de ser interrompida. A AES Eletropaulo está eletrificando as favelas e eliminando as
ligações clandestinas. Para levar acesso a energia de
forma regular e em condições que as comunidades
possam pagar pelo serviço, é preciso criar um modelo de negócios agregando práticas que contribuam para o desenvolvimento socioeconômico dessas
comunidades; caso contrário, será inevitável o conflito em razão da inadimplência no pagamento das
contas de energia elétrica. Assim, além de um amplo
trabalho ensinando as comunidades a racionalizarem o consumo de recursos, estão sendo buscadas
formas alternativas de agregar valor ao fornecimento
de energia elétrica, num processo de co-geração de
valor, em prol das melhores alternativas para agregar
valor ao produto.
27
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
Como pensar na criação de produtos com valor social num ambiente de consumo de supérfluos, de
acumulação de capital? A questão fundamental da
razão de ser de cada um de nós e de todos juntos parece não caber no mundo do capital. Mas não é possível subitamente desconstruir as sociedades, assim
como não se pode acabar com as empresas nascidas
deste modelo econômico. Talvez um caminho esteja em investir no nascimento de novas organizações
que já brotem sob a perspectiva do tripé da sustentabilidade e ajudá-las a ocupar os espaços das empresas
tradicionais.
e serviços sustentáveis. É aí que a questão da Filantropia Estratégica se coloca. As empresas do século
XXI precisam estabelecer políticas multistakeholder
que permitam a elas estar permanentemente informadas do que ocorre nas franjas do mercado, incorporando à sua cultura de gestão habilidades que costumam ser encontradas apenas em ONGs. Diálogos
apreciativos na base da pirâmide, produção e comércio justo, organização criativa de comunidades na
cadeia produtiva são alguns destes desafios. Além, é
claro, da mitigação dos impactos. Portanto, embora
o termo “Filantropia Estratégica” não seja preciso, é
chegada a hora de as empresas pensarem estrategicaÉ importante tentar entender como as empresas pomente na sociedade e nos custos que vão derivar da
dem aprender com as ONGs e vice-versa. Artigo do
falta dessa reflexão. “Além da Filantropia: repensanPrahalad e Brugmann sobre essa questão, mostrando a função social de uma empresa sustentável”.
do a evolução da relação entre empresas e ONGs
que partiu de uma discordância bastante acirrada no É questionável a visão do "acesso crescente ao conpassado para uma tendência de parceria no presente. sumo" como instrumento para minimizar desigualdades sociais. Urge a revisão do próprio conceito de
A globalização das empresas traz benefícios financeiconsumo como base da economia e da convivência
ros, mas também várias questões a considerar. Devedentro das comunidades. Não é possível atender às
se atentar para o risco de malefícios para a sociedade
demandas de consumo nos níveis em que ele aconou rivalidades, ou aumento de conflito entre os patece em sociedades como a norteamericana ou da
íses ricos e em desenvolvimento. Para construir uma
Europa Ocidental. Não há matéria prima disponírelação onde todos ganhem, as empresas devem
vel para tanto. Sendo assim, é hora de revisar nosso
adotar uma postura de transparência e humildade
modo de ser e estar no mundo, abrindo mão do superante a sociedade e o Pais onde pretendem se espérfluo e descartando a ideia de que as posses detertabelecer. É preciso conhecer e respeitar a cultura,
minam o reconhecimento social.
a história, compreender as necessidades. É preciso
mudar a atitude das empresas para que se crie um O movimento agora é no sentido de extrapolar as
clima de confiança
relações já estruturadas e estabelecer diálogo e relacionamento entre as empresas e a base da pirâmide.
A globalização tem a ver com o forte e veloz cresciUm caminho está na criação conjunta de negócios
mento da informação. Num futuro não muito disenvolvendo empresas e populações de baixa renda,
tante a empresa terá que agir de fato, seja com invesnuma abordagem bastante nova. Se, na fase BOP
timento social privado, talvez em parcerias de gestão,
2.0, as empresas devem assumir uma atitude comtalvez por meio de seus institutos e/ou fundações –
pletamente diferente, mais hábeis e interessadas em
com isso, mostrará seu nível de envolvimento com o
ouvir o que as comunidades querem e precisam, qual
todo. Será preciso menos marketing e mais verdade,
será a contrapartida dessas populações? Como ir até
pois as redes sociais desvendarão a realidade. A gloo meio do caminho, deixando de ser consumidores
balização trará uma mudança radical na sociedade e
e assumindo o papel de parceiros nos negócios? De
quem não estiver atento poderá acordar com muita
que forma empresas podem alinhar seus objetivos de
dor de cabeça.
negócios atuando em parceria com empresas sociais?
Base da Pirâmide
Em sociedades mais igualitárias, pressupõe-se igualdade de oportunidades e acesso crescente ao consumo. Mas para que este consumo seja benéfico, ele
não pode partir da idéia de que o consumidor de baixa renda que ascende é apenas um consumidor – ele
deve ser parceiro na própria concepção de produtos
28
A primeira reação das populações de baixa renda que
forem convidadas a participar da realização de negócios será de desconfiança. Elas irão suspeitar de
uma ação demagógica por trás do convite, já que as
empresas nunca demonstram interesse em ouvi-las.
Talvez algum tipo de manobra para convertê-las em
consumidoras e não em parceiras no negócio.
Relatório GSI JAM 2011
força a necessidade de desenvolver um modelo de
negócios que considere alguns princípios básicos, a
partir de exemplos de sucesso em iniciativas de organizações. O desafio está em buscar uma solução
inovadora para atender as necessidades da população
de baixa renda dentro de uma lógica empresarial que
seja sustentável. Tem sido adotada uma lógica muito
interessante, pela qual uma solução sustentável pode
ser gerada a partir de um problema surgido das coO movimento da Tecnologia Limpa ocorreu simulmunidades carentes. taneamente ao da base da pirâmide. Nos anos 90,
ficou claro que as questões ambientais haviam cresciExperiências compartilhado em importância, assim como as obrigações legais
das durante o painel
e os custos para o desenvolvimento de negócios. Foi
Stephan Schmidheiny, 116º
nessa época que o conceito de ecoeficiência ganhou Fundação AVINA:
no
Ranking
da
Forbes
entre os homens mais ricos
força. Alguns começaram a perceber que poderiam
reduzir riscos e gerar economia através de iniciati- do mundo em 2003, criou a Fundação AVINA – um
vas ambientais. Ao mesmo tempo, o conceito de res- exemplo contundente de investimento em desenvolponsabilidade social corporativa foi se popularizan- vimento sustentável na América Latina. A fundação
do, ainda que sob a forma de filantropia empresarial é mantida pelos dividendos do GrupoNueva – hoje
e sem a visão das possibilidades de relacionamento basicamente MASISA (Chile), doados por Schmique têm potencial de gerar receita para as empresas. dheiny para o VIVA Trust. É um círculo virtuoso no
Hoje, a revolução da Tecnologia Limpa se concentra qual as empresas administradas com diretrizes susmais na inovação da próxima geração, mas parece tentáveis contribuem para uma fundação de fomenser muito orientada para a P&D e menos para o de- to ao desenvolvimento sustentável. senvolvimento de negócios eficazes. São investidos Odebrecht: Na construção da usina de Santo Antôrecursos substanciais no desenvolvimento de Tec- nio, na Amazônia, a Odebrecht promoveu um grannologias Limpas, mas pouco no desenvolvimento de trabalho de engajamento de stakeholders. Para
de canais eficazes de comercialização. Se não for re- contribuir com o desenvolvimento local, a empresa
solvida essa lacuna de comercialização, poderá ocor- ajudou a formar mais de 20.000 pessoas para trabarer o estouro de uma bolha da Tecnologia Limpa. A lhar na hidrelétrica (o chamado programa ACREpopulação na base da pirâmide é ideal para a incu- DITAR), além de promover ações de capacitação em
bação comercial das Tecnologias Limpas do futuro outras formas de empreendedorismo. próximo. No entanto, a maioria das estratégias de
Criada em
comercialização de Tecnologia Limpa está focaliza- Fundação ArcelorMittal Brasil:
1988,
a
Fundação
ArcelorMittal
Brasil
desenvolve
da no topo da pirâmide de renda. As empresas que
adotarem uma abordagem mais criativa estarão um programas e projetos sociais nos municípios onde
passo à frente das demais – e entre as empresas mais a empresa está presente, beneficiando cerca de 800
bem sucedidas do século 21. Você vê a base da pi- pessoas por ano. O principal foco é a educação de
râmide como um veículo para a comercialização de crianças e adolescentes. A organização www.comuTecnologia Limpa, numa forma mais rápida e eficaz? nidadecarisma.net/centrosocial é um dos parceiros
da Fundação, tendo recebido apoio financeiro num
A base da pirâmide é o veículo primordial para a projeto com adolescentes através do FUNCAD.
Tecnologia Limpa, devido ao universo de pessoas
envolvido e à evolução de seus padrões de consumo, Grameen Bank: No sentido de algo utópico ou não,
com impacto crescente. A preferência desse públi- um exemplo muito discutido de negócio social é o
co por tecnologias limpas somente será conseguida Grameen Bank, de Muhammad Yunus. Foi invenmediante ações de educação para a sustentabilidade. tado o conceito do microcrédito e Yunus ganhou o
Empresas, governos, academia e outros atores têm a Prêmio Nobel de Paz. E pensar que este prêmio foi
dado a um grupo de pessoas que fundaram um banresponsabilidade de fazer isto acontecer.
co pouco antes da crise financeira. Ao mesmo temO conceito de BOP introduzido por Prahalad reO intangível mais importante é a confiança. Demanda algum tempo para que as empresas consigam restabelecer este relacionamento – o pré-requisito para
a criação conjunta de um novo empreendimento focado no valor mútuo. É a construção de confiança
que solidifica a metodologia do Protocolo da Base da
Pirâmide, desenvolvido por mim e meus colegas nos
últimos seis anos (www.bop-protocol.org).
29
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
po, várias empresas põem o ser humano no centro (NBA CARES), ativo também no Brasil, comenta
das atividades. O recém-lançado livro "Humanistic ter grande dificuldade em descobrir quem é sério.
Management in Practice" relata o caso da Semco,
Participaram da criação deste tópico
além de Grameen-Danone Foods (Bangladesh),
Mondragon (Espanha) e Sekem (Egito). Alcely Barroso, Andrea Shpak, Augusto Hijo, BruAW Comunicação: Como sócio de uma empresa de no Andreoni, Carla Botelho, Carolina Neri, Celina
comunicação há sete anos no mercado, especialmen- Mendes do Prado, Claudia da Silva, Cynthia Rosente nos últimos quatro anos, adotamos estratégias de burg, Daniel Francisco Moreno de Sousa, Edgard
investimento social privado, seja apoiando institui- Barki, Fabia Alencar, Fabio Gandour, Hazel Henções do terceiro setor, seja atendendo ONGs por derson, Heiko Spitzeck, Janete Hung, José Luis Capreços abaixo do mercado. Essa experiência nos fez varetti, José Ricardo Franco Montoro, Julia David
refletir sobre o real impacto da nossa atividade na so- Franco Gomes, Lia Diskin, Marcia Bellotti, Patrícia
ciedade, afinal somos o pivô da sociedade capitalis- Menezes, Paulo Vodianitskaia, Polyani Garcia, Rita. Estimulamos o consumo desenfreado e contribu- cardo Young Silva, Rosicler Rodriguez, Ruth Haraímos ativamente para a consolidação desse cenário da, Sergio Amoroso, Stuart Hart, Vera Lucia Barroso
desigual, mesmo atuando com práticas de responsa- Alves Frascino e Wagner Andrade.
bilidade social. Compreendendo esse cenário, iniciamos uma mudança de visão do negócio. Trazer essa
experiência, essa visão do terceiro setor para o setor privado. Estamos reposicionando a empresa em
todos os aspectos para apresentar ao mercado uma
nova forma de pensar em comunicação – usando-a
como instrumento de transformação social.
Voluntariado IBM: Na IBM e em outras empresas,
funcionários de diversos países atuam como voluntários em ONGs em países em desenvolvimento. Estas pessoas passam um mês em contato direto com
a comunidade local através de uma ONG, tentando
entender os seus problemas e eventualmente propondo soluções. Vê-se nessa experiência uma relação ganha/ganha, onde os funcionários da empresa
aprendem a cultura e a experiência de ONGs, sua
forma de atuação, e principalmente, aprendem a respeitar e gostar de uma forma diferente de organização. A ONG aprende como uma cultura empresarial
pode ser aplicada a sua gestão. E a empresa ganha,
formando líderes mais conscientes e preparados para
o futuro num mundo globalizado. No Brasil, o projeto de voluntariado da IBM já foi realizado em SP,
BH, Campinas e RJ. Agora vai a Salvador. Em cada
lugar, diversas ONGs são visitadas – representantes
da empresa explicam o trabalho e verificam o interesse das organizações em atuar ou em compartilhar relatos de projetos. Um ponto interessante é ver
como a empresa acessa/pesquisa essas ONGS, para
que possa ampliar o projeto em suas comunidades.
Quais os critérios básicos de que essas ONGS precisam para se qualificar? E onde se qualificam? Uma
diretora da NBA que possui um programa parecido
30
PARCERIAS
INTERSETORIAIS
DE BENEFÍCIO
MÚTUO
Colaboração e o JAM
A colaboração é fundamental para a fluidez das parcerias intersetoriais. Parte do desafio consiste em entender que esses arranjos organizacionais não podem
ter por objetivo uma ação ou resultado específico.
Colaboração é algo maior, em que pessoas físicas e
jurídicas buscam trabalhar juntas em prol de um
melhor cenário (ou mercado) para todos os envolvidos, como em situações nas quais empresas concorrentes colaboram para estabelecer práticas e padrões,
confiando na perspectiva de executar suas estratégias
individuais de forma mais eficiente e eficaz no futuro. Por exemplo, quando se definiu um padrão de
características dos containers, empresas concorrentes
perceberam que todas seriam beneficiadas.
No contexto do debate no JAM, a definição de Colaboração indicava a necessidade de organizações de
diferentes setores se verem como redes sociais em
suas cadeias de suprimento e junto a seus demais
stakeholders. Poder-se-ia pensar numa rede de redes, onde parcerias intersetoriais ocorressem de forma orgânica e espontânea, e não somente através de
contratos e acordos formais, pelo estabelecimento de
Relatório GSI JAM 2011
cada qual como rede e da sua integração a outras redes de pessoas e instituições. O próprio JAM exemplifica o potencial desse tipo de iniciativa, tendo a
tecnologia da informação com seu papel de catalisador em todo o processo. O ambiente virtual, com
finalidade específica, governança, foco e ações controladas e medidas torna o contato diferente do que
se produz em redes sociais abertas como o Facebook,
o Twitter ou outras dessas ferramentas.
As tecnologias e eventos como o JAM são importantes para troca de ideias e para detecção de novas tecnologias, mesmo reconhecendo que o público com
possibilidade de acesso ainda é restrito. Essas ferramentas validam o diálogo e interação entre os atores,
tendo a relação direta e participativa como principal
condutor. É um desafio integrar as redes com finalidade prática, mas é certo que o debate em meio
virtual possibilita a pessoas e instituições de diferentes regiões discutirem e analisarem trabalhos, ideias e
possíveis soluções para seus problemas locais, sendo
esse um mérito das tecnologias modernas.
na do setor público x privado x sociedade civil: aliança parece sugerir um compromisso em torno de uma
causa, implementado por meio de diferentes parcerias e projetos. A ideia de aliança transmite cumplicidade, com as diferentes organizações de mãos dadas no sucesso ou no fracasso. Parceria sofre mais o
risco de esvaziamento, tanto do conceito quanto da
prática.
Segundo relata o livro ‘Paralelos e Paradoxos’, do
pensador Edward Said, ele e o maestro Daniel Barenboim selecionaram um grupo de músicos palestinos e israelenses para tocar Wagner em um
workshop na Alemanha – ação que resultou numa
orquestra que existe até hoje. Se a ideia tivesse sido
colocar esses mesmos jovens para discutir política do
Oriente Médio, eles provavelmente jamais se entenderiam; contudo, para tocar Wagner, uma ponte de
compreensão e aceitação das diferenças se construiu.
Parcerias e alianças dependem de colaboração – de
laborar, trabalhar com. Em muitos casos, as questões complexas ficam encobertas pela superficialidade dos acordos em papel e dos apertos de mão
para fotos. Alguns dos requisitos básicos para forjar
aquelas que podem se tornar boas parcerias são disseminação de informações, comunicações regulares
e acompanhamento próximo – indispensáveis, ainda
que não suficientes.
As redes sociais desempenham importante papel
quando se fala em colaboração, pois permitem a livre ação/expressão e são movidas pela espontaneidade e por ondas de assuntos. Há que se considerar
que essa característica as torna difíceis de mediar.
Adicionalmente, o JAM, por exemplo, tem metodologia atemporal, com as pessoas se conectando Projetos que envolvem a execução de políticas púconforme sua conveniência e permanecendo unidas blicas podem ter dificuldade para agregar atores pripelas ideias.
vados. Parece que o interesse público é prerrogativa
exclusiva do Estado, mesmo em casos como o dos
Características das parcerias
resíduos sólidos num contexto de intersetorialidade,
Dinâmica territorial, desenvolvimento local, capi- onde os indicadores têm se revertido positivamente e
tal social e configurações das organizações3. Estado, de maneira drástica, superando metas estabelecidas e
empresas e OSCs possuem dinâmicas bastante dife- aumentando a eficácia do programa, dada a sinergia
rentes, o que pode levar à desconfiança e à geração na mudança na forma de trabalho. É preciso invesde conflitos. Assim, a construção de articulações e si- tir na ampliação do processo de intersetorialidade,
nergias para o desenvolvimento é, ao mesmo tempo, criando fóruns e instâncias que aproximem os três
necessária e complexa. O resultado das iniciativas setores, vencendo as desconfianças e aumentando a
em um processo de interação entre diferentes ato- efetividade dos recursos investidos. res sofre influência direta das configurações próprias De outra sorte, já são percebidos parceiros financiade cada um deles, donde se conclui que conhecer dores que se aproximam de projetos, fazendo reunitais características é primordial para o planejamen- ões de articulação e acompanhando resultados, num
to de projetos de desenvolvimento, pois cada qual esforço que pode estar no bojo do processo de colatem áreas de atuação diferentes e diferentes visões de boração. Num passo subsequente, uma empresa que
mundo, inerentes aos papeis que desempenha. apoie um projeto e passe a aproximar as ações sociais
Em espanhol, ‘parceria’ se traduz como ‘aliança’. Em que realiza e partilhar o conhecimento adquirido talportuguês, os dois termos expressam significados di- vez esteja começando a partilhar os valores e missões
ferentes, não só no idioma como na prática cotidia- institucionais.
31
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
Contudo, é importante ter em mente que sempre
que há repasse de recursos, aumenta o risco da dependência entre parceiros. Quantos bons projetos
pararam, por contar com um único financiador que
tenha mudado os rumos de seus recursos. Boas parcerias devem gerar autonomia.
Por outro lado, as dificuldades aparecem tanto nas
empresas como nas ONGs e no setor público, embora isso não seja costumeiramente exibido entre
parceiros – o que tem influência direta sobre a confiança. A confiança pode ser abalada diante de qualquer sintoma de falta de transparência, de respeito à
identidade e vontade do outro. O medo de perder
a parceria está sempre no lado mais fraco, em geral daquele que recebe recursos; às vezes, a empresa ou financiador se serve desse medo para impor
suas vontades e usa as parcerias para cumprir interesses próprios. Complexo e essencial é aprender a
lidar com essas dificuldades, buscando entendê-las e
solucioná-las.
Mesmo com o risco de gerar dependência em parceiros mais fracos, a interdependência entre sistemas,
pessoas e organizações é crucial para o equilíbrio, extrapolando as discussões sobre redes sociais e assumindo os essenciais contornos de organicidade.
Conceitualmente, a parceria é uma relação entre
iguais, sem cobrados ou cobradores. Contudo, na
prática, não existe uma cultura efetiva de gestão democrática participativa, com igual importância para
os atores. É necessário aperfeiçoar a construção das
políticas públicas e desenvolver gestores com visão
mais democrática e participativa – sociedade e poder
público precisam avançar nesse sentido.
Outro ponto importante é o das legislações para públicos específicos, como a Lei do Aprendiz para jovens e a cota para pessoas com deficiência, as quais
criam uma "reserva de mercado" para esses públicos
e para ações sociais – por serem obrigações, "engessam" a ação social de um grande número de empresas. Isso deixa uma dúvida quanto à possibilidade de
provocarem o desenvolvimento de parcerias intersetoriais.
efetiva divulgação dessa informação? Sabidamente é
preciso garantir o acesso à informação, encontrando
formas de incluir grupos vulneráveis ou isolados geograficamente. Mas como? Os setores público, privado e da sociedade civil organizada têm competências distintas e podem ampliar
o alcance de seus esforços, ao fortalecerem as parcerias intersetoriais. Para fazer frente aos complexos
desafios que se impõem, a construção de um plano de ação articulado contribui para resultados mais
efetivos para a comunidade. Para esse fim, a abertura
ao diálogo e a comunicação são fatores críticos que
viabilizam a ampliação e solidificação desses arranjos
organizacionais, ao mesmo tempo em que minimizam a possibilidade de duplicação de esforços. É crucial a figura do mediador – seja ele empresa, governo
ou ONG – centralizando a informação, engajando
todos os stakeholders e garantindo o acesso homogêneo a essa informação.
Benefício Mútuo
O benefício mútuo em uma parceria tem envolvido
cada vez mais o compartilhamento de conhecimento
e de metodologias, inclusive entre instituições financiadoras. Talvez a maior contribuição dos grandes
institutos e fundações empresariais para o impacto
social esteja em sua capacidade estrutural de unir
tecnologia e conhecimento especializado. O importante é o desenvolvimento da confiança, somente
possível pela troca de conhecimentos e a proximidade entre as partes. Reuniões de acompanhamento de
projetos passam a ser chamadas reuniões de direcionamento, abrindo espaço para todos aportarem suas
práticas e conhecimentos.
A Intersetorialidade abrange o maior número possível de áreas e setores sociais para a resolução de questões, o que impõe uma mudança grande nos processos: deixa-se de pensar em partes e benefícios para
pensar em conjunto e nos efeitos das ações. As parcerias qualificadas como intersetoriais devem colocar
a questão ‘como podemos trabalhar em conjunto?’
Também convidam a pensar sobre fatores como o
significado de ‘benefício mútuo’ e quais são os resultados que beneficiam cada um dos envolvidos e
E quem é o mediador?
a própria sociedade. É tempo de refletir, inclusive,
Nas parcerias, quem é o mediador? Empresa, gover- sobre o papel de cada setor e de cada área em cada
no ou ONG/Sociedade Civil Organizada? Quem setor (saúde, educação, economia).
vai centralizar as informações e, de uma maneira deDe qualquer modo e essencialmente, a transformamocrática, engajar todos os stakeholders e garantir a
ção social e a mudança da realidade não devem se
32
Relatório GSI JAM 2011
restringir ao centro de elucubrações semânticas –
seriam elas parcerias intersetoriais, alianças estratégicas, benefício mútuo e/ou recíproco? Tudo se resume a exercitar uma metodologia de atuação em
comunhão (comum + união), mediante definições
e delegações de papéis e tarefas, de modo que cada
ator transite de forma pertinente e conforme suas
potencialidades, cada qual fazendo uso de sensibilidade operacional, lucidez estratégica e capacidade
de agregar e aperfeiçoar recursos e possibilidades em
função daquelas mesmas transformação social e mudança da realidade. As políticas públicas são – ou
deveriam ser – participativas, democráticas e construídas a partir de negociações diretas e transparentes entre todos os atores e protagonistas do processo.
Mas para isso, é necessário promover maior e mais
frequente capacitação dos atores, viabilizando a interação e a integração dos recursos.
Embora a finalidade central da ação seja uma questão bastante debatida, para que surja a tal parceria
com benefício mútuo, o marketing não pode ser o
produto principal, e sim o impacto social. Parece
pueril, mas é necessário refletir sobre a expectativa
de ‘ganho’ de cada parceiro, pois as ações sociais costumam ter pouco poder de comunicação.
Até por isso, uma questão resiste: Que benefício mútuo pode ser esse? Será que vale a pena trabalhar com
os valores institucionais? Será que o que a empresa
defende é o mesmo que a organização não governamental defende? Mas obtendo resposta positiva ou
negativa, vale a pena criar mecanismos que convidem ambos a pensarem em meios de juntar forças.
Papeis
Pode-se entender a empresa e sua função de criar
produtos e serviços para atender demandas, gerando riqueza. Neste contexto, o que cabe ao Estado é
a regulação do mercado, enquanto o controle social
é função das organizações da sociedade civil, estabelecendo padrões, formando grupos de pressão e de
monitoramento para fazer com que a riqueza gerada
na empresa seja compartilhada.
tratégicas baseadas nessas competências específicas.
Muitas vezes, a função essencial das organizações
pode ser antagônica e isso ganha volume quando se
pensa em empresas e ONGs. Preservando missões e
objetivos, a imagem que uma e outra detêm e projetam pode ser revista. Pela compreensão mais profunda de Responsabilidade Social e pelo fortalecimento
do diálogo, da transparência, da comunicação, do
engajamento de stakeholders etc., pode-se chegar a
um caminho coerente para a construção de parcerias
de longo prazo.
Quando se pensa em todas as possibilidades de compartilhamento de conhecimento e metodologias, de
envolvimento de todos os setores nas demandas sociais, na imprescindível participação das empresas,
antes que grupos comecem a se mobilizar em frente
aos portões das fábricas, é importante outra reflexão
sobre as competências essenciais. Embora as parcerias sejam indispensáveis para a superação de grandes questões do mundo de hoje e a sociedade tenha
evoluído muito dentro do chamado terceiro setor,
esse conjunto de ações não pode eximir o Estado de
sua missão e propósito. O cumprimento da função
essencial da empresa, oferecendo serviços adequados
a preços justos, garantindo empregos e pagando impostos ainda precede o envolvimento em projetos
sociais e a cegueira diante de prejuízos causados por
suas ações. É indispensável seu compromisso com
o consumidor, demais stakeholders e com a própria ética empresarial. Durante o JAM, cogitou-se
a implantação de ações nos moldes do Sistema S:
uma contribuição compulsória por empresas de determinado segmento produtivo que tirasse a ênfase
das marcas corporativas e pusesse foco exclusivo na
qualidade dos serviços prestados à comunidade, mas
isso equivaleria a criar mais um imposto sem ter controle sobre a eficiência e eficácia dos resultados, pois
ações como essas, de representatividade de setor com
recursos de terceiros, exigem extrema competência e
seriedade institucional. Por outro lado, estando inseridas nas comunidades, as organizações percebem /
solucionam as demandas com mais presteza – é mais
importante a criação de redes de organizações, propondo e executando ações específicas para cada região e agrupamento humano. Ademais, a divulgação
das marcas e empresas que apoiam iniciativas continua sendo uma forma de incentivo ao envolvimento.
Há quem afirme que, para uma parceria sustentável
e que crie impacto com potencial de escala, as contribuições devem ser alinhadas com a função essencial de cada organização, fazendo uso de suas principais competências. Contudo, em grande medida, Quanto aos objetivos dos parceiros, é importante
isso ainda não acontece. Algo precisa mudar, mesmo buscar alinhamento entre eles. Muitas vezes, o Seque em longo prazo, para que surjam parcerias es33
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
gundo setor acusa o Primeiro de ineficiente e/ou ausente no que se refere às ações sociais, enquanto que
a percepção do Terceiro setor é que o Segundo é burocrático e insensível às causas sociais, mesmo admitindo que é onde estão os recursos para seus projetos.
De sua parte, a velocidade de resposta dos governos
é mundialmente menor que a dos outros dois setores, pois os processos decisórios têm regras específicas a obedecer – mas é ali que se definem políticas
e regulamentos para que parcerias entre empresas e
sociedade civil organizada possam se desenvolver,
lembrando que é pela interação constante entre estes dois últimos que os projetos e programas tomam
corpo.
em sua área de atuação, de modo a criar ou potencializar tais tecnologias sociais. É importante observar
que esse tipo de relacionamento não envolve a alocação direta de recursos financeiros, além de ser bastante eficiente. O Software Livre fornece exemplos
de união entre voluntários e grandes empresas, gerando soluções abertas que competem de igual para
igual com soluções proprietárias. Esse modelo pode
ser seguido em outras áreas para resolver problemas
sociais, muito além do software de um escritório.
Uma das tarefas do Terceiro setor é procurar envolver parceiros e prospects do Segundo setor quando
eles se mostram insensíveis, e um dos recursos para
esse fim é ‘falar a linguagem da empresa’: plano de
negócio, resultados esperados, impacto social, indicadores etc. Por outro lado, devem ser respeitadas as
empresas que não estão em momento propício para
o desenvolvimento de projetos sociais, por exemplo,
com questões de recursos humanos a solucionar antes de se abrir para a comunidade.
Por vezes, o setor privado é visto apenas como financiador de projetos, embora também tenha características de grande mobilizador. No Brasil, há empresas
com mais de 10.000 funcionários, aglutinando grupos maiores do que a população de pequenos municípios, com elevado potencial de ações voluntárias,
com equipes qualificadas e prontas para colaborar
No processo de ampliação do impacto, universidacom causas sociais. É necessário que se construa a
des e centro acadêmicos podem se tornar parceiros,
interação, respeitando as características de cada setor
reconhecendo, validando e ampliando o conhecie buscando sinergias.
mento acadêmico para além dos muros do campus;
Mas como é possível fortalecer essa iniciativa? Como buscando contato com instituições sociais e incenuma empresa pode entender o processo de colabo- tivando ali a aplicação dos conhecimentos gerados.
ração na construção e estrutura de uma tecnologia
De qualquer modo, só o governo tem poder de essocial com perspectiva de ampliação pelo governo,
cala, enquanto as empresas e ONGs têm forte poder
em políticas públicas? Dois conceitos úteis para resde inovação para resolução de problemas sociais –
ponder a estas perguntas são o Copyleft e as Tecnopráticas muitas vezes estudadas e formatadas como
logias Sociais.
tecnologias sociais. Como dar força a isso? Como
O Copyleft é um jogo de palavras em oposição ao uma empresa pode entender o processo de colaboCopyright (a proteção dos direitos autorais). Busca ração na construção e estrutura de uma Tecnologia
retirar barreiras à utilização, difusão e modificação, social com perspectiva de ser aplicada pelo governo
por exemplo, de um software, tornando livre sua al- em políticas públicas?
teração ou extensão e passando adiante a liberdade
E fica uma reflexão acerca da sensibilidade no conde copiá-lo e modificá-lo novamente. Uma das ratato entre o segundo e terceiro setores: até que ponzões mais fortes para os autores e criadores aplicato as empresas estão preparadas para compreender a
rem copyleft aos seus trabalhos é porque esperam
complexidade de alguns eixos de atuação das organicriar condições favoráveis para que mais pessoas poszações sociais – tais como controle social, sistematisam contribuir com melhoramentos e alterações.
zação do conhecimento e advocacy?
As instituições da sociedade civil conhecem bem os
Onde entra a sustentabilidade?
problemas locais e, ao desenvolverem soluções, precisam formatá-las sob a forma de tecnologia social e Observando a atuação corporativa, será que a filanpermitir a sua livre utilização/modificação por ou- tropia estratégica é um passo que precede a sustentatras organizações para que surtam o efeito necessário bilidade? Do que precisa uma instituição para atuar
em toda a sociedade. Do mesmo modo, as empresas com a abordagem da sustentabilidade?
podem contribuir com seu know-how em gestão ou
Ademais, a sustentabilidade vai se inserir na gestão
34
Relatório GSI JAM 2011
dos negócios nos próximos 5 a 10 anos, mas a forma de relacionamento sustentável com a população
vizinha ainda é uma incógnita, assim como as possibilidades de contribuição das parcerias intersetoriais
nesse sentido.
A concepção de sustentabilidade parte da visão sistêmica e complexa de mundo e compreende o conjunto de interrelações que sustentam a cadeia de
todas as formas de vida, num equilíbrio dinâmico. Relacionar-se com o ambiente em sua totalidade significa, portanto, considerar todos os elementos que afetam e são afetados reciprocamente pela
ação humana. Desse modo, a sustentabilidade deve
ser entendida em várias dimensões, extrapolando as
questões ecológicas – diz respeito também à visão
de mundo que permeia as dimensões socioculturais,
políticas e econômicas.
Experiências compartilhadas
durante o painel
ESPRO: em busca de compreender e vivenciar o
que chamado “benefício mútuo” nas parcerias, o
Espro, assim como outras organizações, entendeu a
demanda das empresas e optou por buscar o aprimoramento de sua capacidade de gestão, profissionalizando processos, pessoas e serviços prestados. Nesse esforço, passou a adotar inclusive ferramentas de
gestão típicas do Segundo Setor, como política de
qualidade e certificações. Portanto, quanto maior a
credibilidade da organização, maior a disposição da
empresa em manter e intensificar sua parceria e menor o risco. Experiências como essa têm resultado
em maior impacto social e custos otimizados. Contudo, para alcançar bons resultados, os objetivos em
comum entre ONGs e empresas devem estar claramente delineados e alinhados com a missão da cada
um dos parceiros.
ACAM: Associação de apoio a pacientes com fibrose cística. Há alguns anos, a instituição se preocupa
com a forma de organização de seu trabalho. Recebeu uma consultoria para criar processos e hoje conta com metas e objetivos a serem atingidos no mês e
no ano. Como conseguir espaço para parcerias para
uma doença tão pouco conhecida? Como explicar
gastos quando trata da relação vida x morte? E relatou a seguinte experiência: um complexo hospitalar
infantil em Curitiba uniu a instituição e sua equipe
técnica na elaboração de conteúdo sobre a fibrose
cística, desenvolvendo manuais, flyers etc. para labo-
ratórios (patrocinadores), a rede pública de educação
e a rede de colégios particulares. Nesse projeto, os
eventos realizados chegaram a reunir mais de 2.000
pessoas, entre professores e famílias, conscientizando sobre a necessidade do diagnóstico precoce e as
formas de tratamento, expondo inclusive questões
relacionadas às necessidades específicas, possíveis
constrangimentos, entre outros, com a participação
de profissionais de várias áreas médicas e relatos de
pais de crianças com fibrose. A iniciativa teve grande
repercussão na mídia e mobilizou a comunidade em
torno da questão.
Grupo Sempre Vita: ONG criada em 2009 para
reunir e apoiar pacientes com necessidade de terapia
nutricional clínica. Difusão de informação, fomento
a estudos e contribuição na garantia de acesso igualitário à terapia nutricional. Nesse pouco tempo de
existência, aliado a falta de disseminação da informação, a organização tem encontrado dificuldades
na construção de parcerias. Solicita a indicação de
materiais com subsídios para uma gestão efetiva e
indicadores de qualidade para que possa demonstrar
o benefício social que trará um paciente nutrido adequadamente para fazer frente ao seu tratamento.
NUCAPE: O Brasil investe 10% do PIB em segurança pública e privada. Apesar disso, os índices de
violência e criminalidade na década não diminuíram
e, em muitos casos, elevaram-se. Se esses imensos recursos tivessem sido aplicados no fortalecimento da
família, na educação pública de qualidade, na criação de oportunidades de trabalho e geração de emprego para a juventude e no combate às desigualdades sociais, a realidade atual seria bem diferente. Para
atenuar os índices de criminalidade e reduzir a violência no município de Varginha-MG, foi criado o
NUCAPE – Núcleo de Estudos e Ações para a Paz –
fruto da parceria entre lideranças da sociedade civil,
coordenadores de pastorais Diocesanas, membros do
Poder Judiciário e instituições de ensino superior. A
ferramenta operacional do NUCAPE é a ULCP
(Universidade Livre para a Cultura da Paz), proposta
de atuação transformadora pela construção de uma
cultura de não-violência, implantação da justiça restaurativa e o estabelecimento dos fundamentos para
a construção de uma cidade justa, equânime, pacífica e solidária, na qual as pessoas possam usufruir
uma qualidade de vida digna, satisfatória e condizente com a dignidade do ser humano, sem violência
e sem conflitos traumáticos.
35
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
Instituto EDP: Todo investimento é realizado via
Seleção Pública de Projetos. Dentre os vários critérios, destaca-se a necessidade de apresentar parcerias
intersetoriais, tanto para incentivar a troca de experiências dos setores quanto para a maior disseminação
da causa ou negócio. O resultado é maior mobilização de atores sociais, com vistas à sustentabilidade
da organização. Vale salientar, ainda, a inclusão dos
colaboradores EDP nos projetos apoiados e desenvolvidos pelo Grupo.
em conjunto com empresas, ONGs, universidades e
instituições sociais de diferentes perfis. Um exemplo
é o projeto A Cor da Cultura, de apoio à implementação da lei que introduziu o ensino de conteúdos
sobre a história e cultura afro-brasileira. Essa é uma
iniciativa que reúne parceiros como o MEC, a TV
Globo, a Petrobras, a Secretaria de Igualdade racial,
secretarias municipais e estaduais de educação e mais
de 50 ONGs e universidades. Trata-se de um projeto único no mundo, que envolve a produção de
programas de TV, kits educativos e capacitação de
professores na maioria dos estados brasileiros. Uma
rede tão complexa de parcerias intersetores só possível graças à construção de um modelo de gestão que
incorpora diálogo, transparência e, sobretudo, foco
naquilo que os une e não naquilo que eventualmente os separe. Uma das principais aprendizagens desse processo é a capacidade de mediar conflitos, uma
competência vital para a sobrevivência das parcerias.
Essa competência engloba o grande desafio a ser enfrentado por quem quer parcerias efetivas. Daí a necessidade de um acordo político entre parceiros, que
estabeleça compromissos a cumprir e cobrar. Afinal,
parcerias tratam de compartilhamento de poderes e
saberes.
Projeto Papel de Gente: O tema parceria se tornou
central em suas ações, pois perceberam sua abrangência para além de isenções, marketing e até mesmo o valor social daquilo que produzem. A partir de
uma ação junto a pessoas portadoras de transtorno
psíquico – psicose e neurose grave – associada a uma
proposta de fortalecimento da cultura da sustentabilidade, acabaram por entender que o trabalho que
realizam é numa versão agravada da realidade dos
centros urbanos onde a qualidade de vida estaria
perigosamente comprometida apesar das decantadas
vantagens das "cidades grandes". Esta visão possibilitou a eles uma compreensão de seu estratégico
lugar social, para além da clientela que se dispõem
atender. O que as ONGs produzem são novos valores para recortes sociais/culturais, inseridos num
Participaram da criação deste tópico
contexto macro também ávido por novos encaminhamentos de suas questões como, por exemplo, os Alcely Barroso, Bruno Andreoni, Christin Hokensprogramas de gestão que hoje fazem parte da realida- tad, Cibele Esteves, Danilo Santos de Miranda, Denise Tubino, Eliana Tiezzi, Elidia Novaes, Francisco
de empresarial e procuram introduzir valores.
Moura, Gilson Campos, Janete Hung, José RicarCanal FUTURA: Segundo Elinor Ostrom, ganha- do Franco Montoro, Lilian Juliana Kuwano Buhrer,
dora do Nobel de economia em 2010, a base de uma Lucia Maria Araujo, Luiz Bruno Vianna, Marinus
cooperação bem sucedida entre diferentes atores so- Jan Van Der Molen, Mario Costa, Paulo Alves, Pauciais (dos três setores) está no binômio confiança e lo Ramicelli, Pericles Mattar, Roberta Guarino, Thecomunicação. O problema é que, enquanto o mun- reza Lobo e Tiago Biusse Ghion.
do está cheio de problemas, nós ainda funcionamos
em departamentos, ou seja, cada um dentro de sua
“caixinha”. Nesse sentido, o Canal Futura configura
um exemplo prático de como as parcerias podem ser
essenciais para abordar os principais desafios de uma
agenda estratégica de desenvolvimento. Sendo um
projeto social de comunicação, voltado para apoiar e
acelerar processos de transformação de indivíduos e
da sociedade, cuja ação transcende a tela da TV, todas as suas ações resultam de relacionamentos construídos com os vários setores da sociedade. Mantido
por doze parceiros (do Segundo e Terceiro setores)
há 13 anos, o Futura desenvolve projetos nas áreas de
educação, saúde, direitos humanos, cultura – tudo
36
Relatório GSI JAM 2011
A EMPRESA
SOCIAL COMO
ALTERNATIVA DE
SUSTENTABILIDADE
também é fundamental para que a missão continue
sendo o norte, tanto dos projetos sociais como da
empresa social. Isso se torna mais complexo quando
a atividade empresarial não está diretamente vinculada à atividade social.
ganização de treinamento e terceirização de software
e serviços – diz que esta abordagem pode ajudar a
delinear um novo formato na sociedade.
• Apresenta riscos intrínsecos – qualquer
atividade empresarial é vulnerável a condições econômicas, flutuações do mercado
A participação dos trabalhadores nos lucros não significa que a empresa tenha foco social. Um exemplo
é a legislação da informática, que exige pesquisa &
desenvolvimento e participação nos lucros das empresas produtoras para que tenham vantagens fiscais
– tais empresas deste segmento em geral não têm
foco social.
• Se não for bem administrada, pode colocar em risco a reputação da organização social e sua integridade financeira.
Ainda é preciso reforçar conceitos sobre esta alternativa empresarial, principalmente junto às pequenas e
microempresas. Uma ação de informação, divulgação e eventualmente capacitação pode ajudar a criar
Caracterização
uma força social mais relevante pela distribuição desHá vários entendimentos do que seria uma empresa tas empresas na maioria dos municípios do país. social. Yunus defende que essa entidade deve focar As "empresas sociais” abordam os principais temas
uma demanda socioambiental e atendê-la de forma sociais e ambientais do mundo? Eles estão levantaneconomicamente viável. Alguns costumam confun- do as comunidades carentes e capacitando-as a terem
di-la com a teoria de Prahalad, da riqueza na base da mais qualidade de vida? Além do componente da
pirâmide, na qual o autor defende que as populações inovação, o que seria interessante considerar quando
pobres têm poder de consumo e que as empresas po- você administra uma Empresa Social? O que assegudem adaptar seus produtos e serviços para "explorar" raria sustentabilidade? É possível ter equilíbrio entre
esse mercado. As empresas sociais devem ser uma lucratividade e impacto social?
ferramenta de combate à pobreza em larga escala.
Há riscos e benefícios neste formato com empresa
Parcerias intersetoriais muitas vezes traduzem um social. Aquelas que empreendem um negócio social
importante trabalho de gerenciamento de interes- como fonte de recursos, conhecimento e experiência
ses e expectativas das partes, o que pode dificultar costumam se fortalecer. Contudo, há riscos e esse caa maximização de uso dos recursos e a busca por re- minho não é recomendado para todas. Por exemplo:
sultados. Como a empresa social produz seu lucro
e reinveste em si própria, é responsável pela decisão • Não é indicada para quem esteja em cridas reais prioridades, buscando ampliação em escala se financeira, pois requer certo nível de estabilidade financeira e experiência
e melhoria de qualidade de atuação.
Mais do que foco na pobreza, o foco na qualificação • Não gera “dinheiro rápido” – é uma ese na educação em empreendimentos sociais pode tratégia de longo prazo e pode levar altrazer mais resultados. A experiência da Altis – or- guns anos para dar retorno financeiro
• Não há receita – o autofinanciamento é específico para capacidades, experiências, missão e abrangência de cada um
• Pode gerar conflitos internos – dilemas e
É essencial articular a missão social, mantê-la como conflitos podem vir à tona no processo de elafoco desde o princípio da atividade. Para isso é im- boração e implementação da empresa social
portante uma preparação organizacional, uma reflexão inicial feita pela equipe sobre a organização naquele momento, sua gestão e os recursos de que ela Algumas organizações sociais do Terceiro setor tridispõe para começar o empreendimento. Planejar lham este caminho para se tornarem empresas so-
37
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
ciais. Será que o inverso é possível? Como uma
empresa que visa lucros mudar para o modelo de
empresa social, ou será essa apenas uma forma de
mascarar o interesse puramente financeiro em um
novo mercado a ser explorado? Algo nesse sentido
vem ocorrendo com o Yazigi – Escola de inglês. Tinha foco lucrativo e, cada vez mais entrando na área
das comunidades indígenas com suporte à comercialização de seus produtos e na educação de carentes,
vai transformando seu core business nestas outras
atividades.
Como sempre existe interesse econômico, há excelentes alternativas na área de reciclagem, mas com
baixa rentabilidade, por questões como burocracia
fiscal, desconhecimento da lei pelos agentes de fiscalização etc. É necessário um arcabouço legal mais
abrangente, onde a empresa social tenha vantagens
estruturais de que hoje não dispõe.
Há uma diferença entre organizações sociais que
criam empresas lucrativas para compor suas fontes
de receitas e aquelas que transformam sua missão
num serviço social pago pelo mercado. São dimensões diferentes embora com o mesmo objetivo de
se tornarem auto-sustentáveis financeiramente. No
primeiro caso, trata-se de uma OSC criando uma
fábrica de panelas, por exemplo, para gerar receitas.
No segundo caso, trata-se das formas de transformar
a ação social num ponto de convergência com as dimensões de um serviço ao mercado – nesse caso, a
missão social é cumprida no formato de uma empresa social. Há uma mistura grande de conceitos e
até mesmo a tentativa de excluir um ou outro modelo, embora devessem ser complementares, cada qual
com sua missão.
A empresa social é uma empresa com fins lucrativos
que se pauta em questões sociais em sua estruturação – por exemplo, que garante a qualidade de vida
e inclusão social de seus funcionários, adota políticas de utilização de energias limpas, organiza a rede
de fornecedores de forma a garantir que eles compartilhem valores. É o caso da Feira Negra, apoiada
pela Artemísia, que promove a venda de materiais
criados e desenvolvidos pela comunidade, cuidando
para que as pessoas sejam incluídas em todo o processo, conseguindo unir o social e o econômico de
forma harmoniosa. Quanto à contribuição da Web 2.0 e das redes sociais (Facebook, Twitter, etc.) para a sustentabilidade
das empresas sociais, é fácil perceber que o impacto
das redes sociais é indiscutível. Este próprio JAM é
um bom exemplo. A busca por conteúdo de qualidade com debatedores de alto nível mostrou que existe
demanda pelo uso da tecnologia como ferramenta
de debate. O setor precisa de mais mecanismos de
interação. Nessa linha de raciocínio, uma empresa
social pode usar as redes para divulgar seus produtos e serviços e com isso ganhar novos "clientes"
ou "adeptos". A empresa social, porém, deve encarar essa atividade como ação estratégica. Toda a sua
comunicação deve estar alinhada com o objetivo da
empresa social. O foco na comunicação pode ser um
caminho.
As redes estão trazendo algo desejável para qualquer
tipo de relação: transparência. Infelizmente, não é
incomum haver termos como sustentabilidade, ação
social, qualidade de vida etc., sendo usados pelas
empresas em suas comunicações internas e externas,
sem que se transformem em ações efetivas. Além da
falta de transparência, este tipo de atitude prejudica
Um exemplo é uma pizzaria de Seattle que reverte
aqueles que acreditam nestas causas, pois lhes tira a
todo o seu lucro para uma ação social: um negócio
credibilidade.
lucrativo como outro qualquer, mas com a missão
de apoiar uma organização sem fins de lucro, a qual
Gestão
teria dificuldades em se manter.
Mais do que a inovação, a sustentabilidade é o foco;
Ter o foco na filantropia acima de qualquer outra o que se busca é fazer com que o negócio social concoisa. Uma empresa social não pode seguir na mes- siga uma base de sustento, especialmente se o moma rota que uma empresa privada comum, cujo delo puder ser replicado no futuro. A grande dififoco está sempre na lucratividade. Uma empresa so- culdade ainda está na sustentabilidade e no impacto
cial tem como objetivo oferecer melhor qualidade de social gerado. Os investidores querem saber o "retorvida para o meio onde atua como consequência de no do investimento" – não somente financeiro, mas
suas ações. Os benefícios para a comunidade serão com quanto, de fato, as empresas sociais contribuem
muito superiores àqueles que as empresas privadas para proporcionar mudanças para as comunidades
efetuam com suas ações de responsabilidade social. de baixa renda.
38
Relatório GSI JAM 2011
A questão de métricas e indicadores quanti e qualitativos no setor é outro ponto que precisa ser discutido. A organização deve considerar grupos de indicadores desenhados por ela e acompanhados no dia
a dia, o que é um desafio.
nessas questões jurídicas e tributárias.
Ademais, é necessária união do setor para influenciar
na revisão do marco legal. A forma legal ‘empresa
social’ não existe – ou é empresa ou algum tipo de
organização sem fins lucrativos. De qualquer forma,
quando se trata de "ONG" que inicia negócio social,
a comercialização de produto ou serviço é permitida,
desde que todo o lucro seja comprovadamente reinvestido na causa social. A organização paga imposto
sobre circulação de mercadoria e permanece isenta
do pagamento de imposto de renda.
Cada vez mais empresas envolvem seus funcionários
no suporte a negócios sociais que estejam começando ou em desenvolvimento. Esses profissionais oferecem apoio em suas áreas de expertise, trabalhando
junto à equipe da organização ou da pequena empresa. Com o envolvimento no negócio, essas empresas
maiores podem passar a oferecer outro tipo de apoio,
É importante contar com o suporte de advogados
como doações, acesso à rede de contatos etc.
e contadores com experiência no setor, ao longo de
Qual é a porcentagem de empresas sociais com es- todo o processo. Por exemplo, o site lançado pela
trutura de sustentabilidade que lhes garanta trabalho Thompson Reuters conecta organizações a advogaem longo prazo? Temos visto projetos que florescem dos que fazem trabalho pro bono: http://www.trust.
sem ter um modelo sustentável (para comunidades, org/trustlaw/.
para eles próprios e investidores). O que é crucial
A questão das organizações com fins sociais se impara a empresa social ser bem-sucedida em longo
põe. A estruturação deste setor sob o novo marco
prazo – depois de ter recebido treinamentos, apoio
legal de resíduos sólidos vai demandar um número
e mentoring de empreendedores corporativos etc.?
expressivo destas empresas para lidar com a questão
Como ter sucesso em questões de sustentabilidade
do lixo eletrônico – e-waste no Brasil. A nova regulaa ponto de conseguir replicar, ampliar e promover
mentação do setor de resíduos sólidos desafia todos
impacto contínuo?
os setores – do produtor da matéria prima ao consuUma Fundação de Assistência Social tem que seguir midor final – a entender e agir em relação à destinaas normativas pertinentes da legislação brasileira, co- ção correta dos resíduos. Será necessária uma grande
nhecidas como LOAS – Lei Orgânica de Assistência articulação para alcançar as metas da lei.
Social. Até hoje, a LOAS não é clara quanto à legaliApós contribuir com diversas ações ligadas ao tema
dade de operação de uma empresa social. O artigo 25
da reciclagem, seja no apoio a cooperativas, seja na
dessa legislação trata dos "projetos de enfrentameneducação ambiental em escolas, a Fundação Orsa
to da pobreza..." que podem validar uma ação nesse
percebeu que eram necessárias novas ferramentas
sentido. Vale salientar que a Fundação Orsa encara a
de interação com o setor para atingir os objetivos.
empresa social como uma ferramenta econômica de
Criou um plano de negócio para uma Empresa Socombate à pobreza, sem a intenção de utilizar esse
cial de Reciclagem, que mostrou viabilidade econômecanismo para financiar suas operações, o que não
mica e socioambiental. Na análise da cadeia de valor,
significa que a instituição seja contrária a esse objetiobservou-se a importância de todos os elos para invo, apenas que não é seu foco.
crementar o índice de reciclagem em grandes cidaHá também as questões relacionadas às exigências des. Ocorre que as assimetrias existentes no poder
de registro de movimentação financeira por venda favorecem a relação de exploração entre os particide mercadorias. Além dos diferentes entendimentos pantes – no caso da reciclagem, isso impõe pressão
sobre o conceito de empresa social, a legislação brasi- nos catadores individuais ou organizados em coopeleira não é clara quanto a processos, operação, tribu- rativas.
tação. Se funciona como empresa, tem tributação x;
A operação de negócios da OSC é uma "empresa
se é ONG mas atua como "empresa", sua tributação
social" ou somente uma empresa com fins lucratié y – as empresas consideram desleal essa configuvos atendendo clientes de baixa renda ou oferecendo
ração, principalmente quando se trata de produtos
produtos de impacto social? E as Casas Bahia?
de comunidades de baixa renda entrando na cadeia
produtiva de valor. O Brasil tem muito a avançar Quando as coisas vão bem, sempre dá para dizer que
39
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
estamos fazendo as duas coisas, mas quando as coisas
vão mal, os recursos escasseiam e uma decisão tem
que ser tomada, a intenção original vai dizer para
onde a balança pende: para o social ou para os lucros...
A legislação brasileira não incentiva a criação de negócios sociais. Não existe nenhum tratamento diferenciado sob o ponto de vista tributário ou societário. Por outro lado, costuma dificultar os negócios,
não só para as empresas sociais, mas também para
empresas do primeiro setor e até do Governo. A forte burocracia, a falta de automação e as leis até conflitantes geram demanda de pessoal e controles que
pesam sobre as operações de qualquer tipo de empresa. É premente a necessidade de organização das
empresas sociais, em busca de apoio do legislativo
para provocar mudanças na legislação.
É válido o modelo criado para ter impacto social e
que utiliza mecanismos de mercado/negócios para
esse fim. Se a iniciativa foi estabelecida como organização social, é mais fácil visualizar a intenção; afinal
de contas, não pode distribuir lucro. Se foi estruturada como empresa, deve-se procurar entender como
os benefícios estão distribuídos na cadeia de valor
(fornecedores, empregados, clientes e acionistas). E
Negócios Sociais e o Terceiro Setor
embora a regulamentação seja fundamental para garantir que este tipo de iniciativa comece com deter- Lançar uma empresa social não é uma boa estratégia
minado propósito e se mantenha fiel a ele, é sabido para todas as organizações; por exemplo, aquelas que
estão passando por uma crise financeira. Há que se
que a realidade anda mais rápido que a lei.
observar também que os negócios não precisam ser
Essa discussão de modelo jurídico para empresa so- necessariamente vinculados a uma ONG.
cial é sempre importante. Recentemente, a reflexão
feita por um Grupo de Estudos culminou com a A unidade de negócio ou empresa social nem sempre
construção de um modelo jurídico genérico de con- será solução para tudo. Deve convergir com o propótrato social para Empresas Sociais. Após vários en- sito da organização, seu momento e muito preparo. contros, o grupo optou por adotar um modelo de Há mitos relacionados ao negócio social empreenLtda. que julgou ser aplicável a muitas dessas em- dido por organizações sem fins lucrativos. Além da
presas. No entanto, considerando que se trata de um ideia de que a missão social forçosamente perde o
"setor" ainda em construção e que abrange inúmeras foco ao iniciar alguma ação nesse sentido, diz-se
possibilidades de formas de atuação, talvez o modelo também que "as atividades empresariais praticadas
jurídico mais adequado (Ltda., S.A., associação qua- pelas OSC não são legalmente permitidas"; "não
lificada como OSCIP...) deva ser escolhido a partir podemos fazer... não sabemos como fazer negócios";
do caso concreto. Lembrando que há também a pos- e ainda "os beneficiários sentir-se-ão incomodados,
sibilidade de se fazer um negócio social por meio de não gostarão da ideia". São preocupações / resistênduas organizações: por exemplo, uma empresa social cias que as organizações têm a ingressar neste novo
("estabelecida PARA ter impacto social e utilizando paradigma de empresa social.
mecanismos de mercado/negócios") cuja principal
acionista/quotista seja uma ONG com relevante É premente a necessidade de união e articulação das
organizações, para buscar a regulamentação do Teratuação social e/ou ambiental.
ceiro Setor e finalmente conseguir responder muitas
Talvez devesse haver mais legisladores envolvidos dessas questões apresentadas. De fato, as próprias ornessa discussão. Sempre chega o assunto ONGs, fi- ganizações têm receio de iniciar atividades que tralantropia etc. E os negócios sociais acabam chegando gam retorno financeiro, temerosas de ser vistas de
ao legislativo de maneira desvirtuada, quando che- forma desvirtuada pela sociedade e pelos investidogam. Uma sugestão é usar o relatório do JAM para res, muito embora a sustentabilidade seja o que vai
envolver parlamentares e legisladores.
garantir a ampliação dos programas e a continuidade
Alguns anos atrás, uma empresa fez parceria com das ações.
a FEBRABAN para criar cisternas em municípios
da zona de pior IDH do Brasil. A ação incluía treinamento da população e capital inicial de todos os
bancos associados. Foram dezenas de negócios feitos
com as prefeituras locais.
40
A OSCIP é um modelo adotado no Brasil na abertura de uma organização social. Não começa como
uma empresa, mas pode migrar quando estiver saudável. É uma qualificação concedida pelo Ministério
da Justiça a determinadas entidades sem fins lucra-
Relatório GSI JAM 2011
tivos (associações ou fundações). Não é concedida
para qualquer outro tipo de pessoa jurídica. Uma das
vantagens é possibilitar a remuneração dos dirigentes
estatutários que atuem efetivamente na gestão executiva, sem que a entidade perca isenção de Imposto de
Renda, mediante aprovação anual do Ministério da
Justiça; além disso, ela pode receber recursos diretamente do governo. Deve ser auto-sustentável e, com
essa equação, antes que possa migrar para organização com finalidade de lucro, pode começar e acelerar
mais facilmente o processo de empresa social do que
usando seus próprios recursos financeiros. A vantagem está na rapidez para atingir estabilidade e poder
prestar serviços efetivos à comunidade.
Inicialmente, o tema Empresa Social no cenário
do Terceiro Setor foi discutido pela dificuldade de
profissionalização das organizações sociais e de remuneração dos empreendedores sociais. A OSCIP
é a única alternativa de remuneração da diretoria de
uma organização, mas os empreendedores no Brasil
não recebem vantagens competitivas para adotar este
modelo de gestão: muitos editais têm limitado a participação de OSCIPs. Ademais, as isenções também
são restritas nestes casos. A estratégia adotada tem
sido a criação de negócio social ou empresa social,
que não é um ente jurídico reconhecido. Por isto, o
caminho é buscar a regulamentação (lei) deste modelo para torná-lo viável. • Melhoria da gestão e dos sistemas das
OSC – consequência da disciplina financeira e administrativa requerida
• Atração de novos doadores – bons
olhos em relação aos esforços pela independência e sustentabilidade financeira
• Maior conhecimento da organização por novos
públicos – comunicação da empresa social
• Ganho de confiança das lideranças da organização e maior comprometimento da
diretoria e do conselho – percebem que
podem gerar recursos para o trabalho social aplicando seus conhecimentos
Há organizações que cumprem muito bem o trabalho social no modelo de OSC e devem permanecer
assim. O apoio do Terceiro Setor ajudaria a fortalecer o modelo de empresa social para aqueles que
tenham interesse, sem quebra de ideologia.
Tem sentido pensar em incentivos especiais para a
migração de ONGs, por exemplo, para empresas
sociais. Uma boa forma de pensar avanços na legislação é olhar para as experiências de países em um
patamar mais avançado na discussão. No entanto,
não se sabe de países que prevejam incentivos fiscais
específicos para empresas sociais. As L3Cs dos EUA
e as CIC do Reino Unido, apesar de já estarem reO reinvestimento de 100% do lucro gerado, busgulamentadas, não trazem isenções fiscais especiais
cando aumentar seu poder de impacto parece uma
para essas empresas.
solução para a sustentabilidade organizacional. Cada
instituição é sua maior ‘patrocinadora’. Já há mais de
Experiências compartilha60 mil delas só em Londres – a experiência inglesa é
das durante o painel
impressionante e pode ensinar muito. Mas será que
a Empresa Social é a solução para a sustentabilidade NESsT: Há 14 anos, o NESsT apoia organizações
ou o modelo pode causar algum tipo de segregação sociais em 10 países, no desenvolvimento de suas
"empresas sociais", isso é, apoia suas iniciativas de
no Terceiro Setor?
oferta estruturada de serviços ou produtos ao merO planejamento e a preparação organizacional4 são cado, gerando recursos a serem reinvestidos na caufundamentais para o sucesso do empreendimento. sa social. Esse tem se mostrado um caminho efetivo
Os benefícios, nesse caso, são:
para diminuir a dependência em relação às doações
e viabilizar investimentos em linhas que costumam
• Fluxos mais estáveis de recursos – plaser rejeitadas pelos doadores, como os custos adminejamento e gestão facilitados
nistrativos. O NESsT oferece oficinas e acompanha• Menor dependência dos doadores – dimento um-a-um para o início de negócios sociais ou
versificação das fontes de financiamento
para seu crescimento / expansão, por meio de pla• Recursos financeiros com menos restrinejamento (estudos e plano de negócios), incubação
ções – possibilidade de investir no que for
(workshops, apoio equipe NESsT e da rede de asmais importante para a organização
sessoria) e expansão. Esse processo começa com um
41
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
edital.
Changemakers: O programa global Changemakers
da Ashoka – uma comunidade global on-line – lançou um desafio colaborativo em parceria com a Artemísia: “Negócios para transformação social” http://
www.changemakers.com/socialbusiness.
Alguns
estão vinculados a ONGs, outros já nascem como
empresas sociais. Ainda há muita confusão em relação ao conceito. Nesse site, é legal o documento
‘discovery framework’ – mapa de inovações com os
desafios e os conceitos que as organizações/ empresas sociais trabalham para mudar paradigmas. Mas lá
não há planejamento e formação de equipe.
A Changemakers, da Ashoka, está conduzindo parcerias com universidades. Aimee Maron (Gerente de
Mídia para os Mercados em português e em espanhol): [email protected]
Zigla: A Zigla faz workshops de capacitação principalmente avaliação/ monitoramento e medição
de impacto, além de projetos de gestão estratégica
de conhecimento. A recomendação para estruturação dos indicadores deve ser feita na fase inicial do
projeto, desenhando em conjunto com membros da
organização, de modo a criar 'senso de propriedade'.
A Zigla faz o acompanhamento ao longo do projeto.
Em alguns casos, ajuda no monitoramento também.
O site http://ziglaconsultores.com traz uma publicação recente sobre a importância da avaliação/medição de impacto (http://bit.ly/hw40nl) Hoje a Zigla
apoia apenas organizações sociais que querem empreender ou desenvolver seus negócios sociais para
se tornarem menos dependentes de doações e gerirem seus recursos com mais autonomia. A partir do
próximo ano, começa a trabalhar também com empresas sociais não vinculadas a organizações sociais
(aquelas que já nascem como negócio, mas com fim
social).
SVPRI: Estabelecida em 2002, a Social Venture Partners Rhode Island surgiu através de líderes empresariais que desejavam promover uma mudança social
sustentável. É uma parceria de filantropos engajados
que contribuem com suas habilidades e recursos financeiros para ajudar organizações sem fins lucrativos a se estabelecerem e a criarem emprego e renda.
Em resposta às necessidades da crescente comunidade de empreendimentos sociais, a SVPRI lançou
o Social Enterprise Rhode Island (SERI), programa
de construção comunitária, em 2009. Os programas
42
da SVPRI respondem ao crescente interesse das organizações sem fins lucrativos, líderes comunitários
e universidades de todo o estado pelas empresas sociais. Através do programa SERI, a SVPRI construiu
uma comunidade engajada de stakeholders com mais
de 700 empresas sociais e agregou os 100 principais
empreendimentos sociais do estado, os quais estão
gerando centenas de oportunidades de capacitação e
emprego, inclusive para indivíduos com significativas barreiras ao acesso a emprego. A instituição realiza pesquisas quantitativas e qualitativas para melhor
entender e atender as necessidades do setor, produzindo resultados econômicos e sociais e averiguando
impacto. Já apoiou o desenvolvimento de mais de
50 empreendimentos através do SVP-University que
oferece consultoria gratuita por equipes de alunos
para a realização de estudos de viabilidade e planos
de negócio. Incuba oito novas empresas sociais através do piloto do Change Accelerator, uma incubadora com o envolvimento de mentores por períodos de
oito semanas, alavancando competências de mais de
35 líderes empreendedores. Cria eficiência setorial
através do patrocínio fiscal e da Change Place, incubadora que abriga empreendimentos sociais incipientes. Desenvolveu um mercado virtual e associa a
campanha de marketing "Eu Compro Com o Coração", a fim de ampliar o poder de mercado do setor.
Incentiva e facilita contratos entre grandes corporações e governos, e empreendimentos sociais. Já concedeu US$ 250,000 em grants e empréstimos a juros
baixos e condições flexíveis para empreendimentos
incipientes e intermediários. Finalmente, defende os
interesses do setor, o que resulta em reconhecimento
crescente dos empreendimentos sociais como estratégia séria de geração de emprego e de retenção de
talentos. O empreendedorismo está criando empreendimentos sociais mais fortes e sustentáveis no estado de Rhode Island. Estão sendo reconhecidos como
uma força econômica de desenvolvimento.
A SVPRI trabalha com tamanha diversidade de iniciativas que é difícil dizer quão sustentáveis elas são.
Muitos modelos sem fins lucrativos têm fortes componentes de desenvolvimento de mão-de-obra, i.e.,
estão treinando e criando empregos para as comunidades que eles atendem, seja junto a jovens desfavorecidos, ex-desabrigados, viciados... Então, mesmo que suas empresas sociais consigam obter lucro
muito reduzido, ainda serão consideradas vitoriosas.
Ao mesmo tempo, a SVPRI observa um grande número de iniciativas sendo incorporadas como ‘com
Relatório GSI JAM 2011
fins lucrativos’ e projetadas para ser lucrativas e sustentáveis. Este ano, ela planeja trabalhar nas áreas de
pesquisa e legislação a fim de entender melhor os impactos do "setor" como um todo. Se puder demonstrar que essas estratégias fazem sentido em termos
econômicos (o sentido em que aqueles envolvidos na
área acreditam), pode obter investimentos de capital
mais agressivos, permitindo ampliar as iniciativas. Se
eles forem bem-sucedidos na criação de empregos e
conseguirem incluir indivíduos carentes na cadeia de
valor, isso será extremamente valioso – e há um interessante desafio de padronização dos indicadores
de impacto em um grupo tão variado. A medição
de impacto é sempre crucial, porque valores imensos
são investidos em diversas iniciativas e às vezes, não é
possível avaliar os impactos concretos – sabe-se mais
sobre resultados e impacto qualitativo, mas sem indicadores de impacto.
Brown University: Muitos alunos da Brown University procuram o centro de Iniciativa de Inovação Social, interessados no empreendedorismo social. Um
programa desenvolvido pelo centro nesse sentido é
o Starr Fellowship Program. A partir desse envolvimento, vários participantes se tornaram membros
da EchoinGreen e/ou fellows da Ashoka. O Starr
Fellowship é um programa de 15 meses que oferece
treinamento, apoio e recursos para que os alunos ponham suas ideias em prática. Os fellows participam
de toda a experiência de fortalecimento do impacto e da sustentabilidade de seus esforços e também
da formação de uma comunidade de inovadores no
campus, que apoiarão e incentivarão uns aos outros.
Duas universidades brasileiras têm centro de empreendedorismo social que podem ser parceiros da Brown no compartilhamento e criação de novos espaços
e oportunidades. Uma delas é a Escola de Administração de Empresas da FGV, com o Prof. Ademar
Bueno ([email protected]). O Senac é outra escola de renome, com áreas como gestão de negócios
e com fortes componentes sociais e de sustentabilidade em seus programas. Conta com um centro
de inovação em parceria com a Neurônio (Camila
Figueiredo – [email protected], Bruno Asp
– [email protected], Bruno Lima – [email protected]).
mercado dos produtos doados, a fim de custear a
operação envolvida na prestação desse serviço. Parte
das organizações que poderiam ser beneficiadas pelo
programa mostra-se resistente, em função da taxa
– cuja prática garantiria a sustentabilidade da iniciativa. Embora esse grupo não seja maioria, é importante buscar formas de superar tais resistências,
na mudança de conceito de sustentabilidade organizacional.
Fundação Orsa: Ao reunir conceitos ‘empresariais’
para solucionar questões socioambientais, há uma
quebra de paradigma. A Fundação Orsa, está estudando a implantação de uma Empresa Social de Reciclagem na cidade de São Paulo. Os principais desafios dizem respeito ao caráter jurídico da operação
no Brasil. Ainda não existe um arcabouço legal claro
para abrigar esse tipo de iniciativa. Estamos aguardando parecer jurídico de um escritório de advocacia especializado na área tributária e terceiro setor.
Superada essa questão, esperamos unir forças com
iniciativas do setor para empreendermos a construção da Empresa Social de Reciclagem.
sitawi: A sitawi (www.sitawi.net) é o primeiro fundo social do Brasil e já emprestou mais de R$ 1.4
milhões para ‘empresas sociais’, sem inadimplência.
Os empréstimos são de R$100 mil a 400 mil, com
taxas de juros de até 1% ao mês que incluem aconselhamento estratégico. Para a sitawi, a intenção é
mais importante do que a figura jurídica (Associação
sem fins lucrativos ou S/A com fins lucrativos). Se a
organização foi montada PARA ter impacto social e
utiliza mecanismos de mercado/negócios, configurase como ‘empresa social’; foi montada PARA ganhar
dinheiro e ‘por acaso’ tem impacto social, é uma empresa com foco na base da pirâmide ou com foco em
algum setor específico, como saúde, educação etc.,
embora não seja ‘empresa social’.
Os motivos mais comuns para que a sitawi recuse
uma solicitação de empréstimo são: organizações sociais: têm um plano de financiamento para o qual
um empréstimo não é o tipo de capital adequado;
empresas: têm um projeto social em busca de capital
mais barato.
Nos dois casos, não há nada intrinsecamente errado,
mas fundações – no primeiro caso – e bancos tradiTechSoup Brasil: Especificamente quanto aos becionais – no segundo caso – devem procurar outros
neficiários, a TechSoup Brasil, em seu programa de
fornecedores de capital. A missão da sitawi é desendoação de licenças de software, cobra uma taxa advolver infraestrutura financeira para o setor social
ministrativa de aproximadamente 5% do valor de
43
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
– trazer mais ‘tipos’ de dinheiro e mais volume de
dinheiro para impacto social. Como há muito mais
dinheiro em crédito do que em doações no Brasil, a
atividade começou por ‘empréstimos sociais’ e esse
modelo será refinado na medida em que forem concedidos empréstimos a quem tenha operações em
condição de restituí-lo, mas sem acesso a capital. O
propósito não é ceder capital barato a quem já tem
acesso a capital, como empresas tradicionais com ou
sem projetos sociais.
Social Enterprise RI: Em Rhode Island, há muito interesse no empreendedorismo social. A mídia
parece estar interessada e os consumidores buscam
apoiar esse tipo de negócio. Simultaneamente, o
grupo Social Venture Partners Rhode Island www.
socialenterpriseri.org criou uma marca guarda-chuva para as 100 maiores iniciativas sociais do Estado e está lançando uma campanha de conscientização. O resultado é que algumas organizações com
fins lucrativos estão procurando por eles para tratar
de seu rebranding como empreendedores sociais; ao
fazer isso, precisam repensar seu modelo de negócio para criar bem social suficiente para que sejam
consideradas iniciativas sociais. Talvez essas empresas estejam fazendo isso porque estão interessadas no
bem comum ou talvez vejam nisso uma forma de
diferenciar seu negócio em tempos de dificuldade
econômica. De qualquer modo, é uma boa tendência, embora abra uma imensa área cinzenta quanto
à porcentagem de missão social necessária para uma
empresa com fins lucrativos ser considerada iniciativa social. Se mais e mais negócios novos e já existentes quiserem se enquadrar como empresas sociais,
esse movimento resultará em muito valor social.
MICEED: O projeto originalmente chamado Iniciativa das Mulheres para o Auto-Emprego começou
mais de quinze anos atrás como uma empresa social
de fundo de microcrédito para mulheres de baixa
renda que desejassem iniciar seu próprio negócio. A
organização ainda segue forte e agora é chamada de
Centro de Fortalecimento e Desenvolvimento Econômico. http://www.miceed.org/
Blended Value: Um dos melhores recursos para a
empresa social nos EUA é o Blended Value (algo
como fusão de valores). Jed Emerson, da Blended
Value, teve vasta experiência no lançamento de empresas sociais dentro do setor sem fins lucrativos.
Grameen-Danone: Há exemplos interessantes de
44
joint-venture social, como os cases: Grameen-Danone (parceria para venda de iogurtes nutritivos a fim
de combater a desnutrição de milhares de crianças
em Bangladesh). Ou Grameen-Veolia Water Ltd,
(para fornecer água potável às populações mais pobres de Bangladesh) – 50% da empresa serão da Veolia Water AMI (África, Oriente Médio e Índia) e
50% da Grameen Saúde (empresa de negócio social
nas áreas de saúde e higiene) e ela terá por missão
operar várias plantas de tratamento e produção de
água nos vilarejos mais pobres de Bangladesh.
Instituto Voluntários em Ação:
O Instituto
Voluntários em Ação (IVA) auxilia organizações na
captação de recursos humanos que atuem em seus
projetos e atividades. Trata-se do Temos um Programa de voluntariado online, onde organizações de
qualquer parte do território nacional podem se cadastrar e divulgar sua oportunidade na web. O instituto faz a ponte entre quem precisa e quem pode
ajudar. Também oferece virtualmente: pesquisas,
conteúdos, concursos e editais de interesse das organizações e sociedade civil. Esse é o seu compromisso
com a Causa do Voluntariado e com o desenvolvimento sustentável de milhares de ações e práticas de
benefício às comunidades. Eletrocooperativa: É tempo de pensar em modelos
de organização em rede – o problema de escala e de
sustentabilidade da Eletrocooperativa, por exemplo,
sempre trava no fato de adotar o modelo de ONG.
Fica difícil sustentar uma inovação, pois essa lógica
é projeto e quem aprova os projetos está na maioria
das vezes olhando para o passado. Continuamos insistindo em uma prática paradoxal: queremos fazer o
novo com práticas antigas e com uma mentalidade
de controle social, na maioria das vezes equivocada.
A sociedade caminha para uma vida em rede e é necessário encontrar meios de redefinir os atuais modelos de contrato social em todos os níveis, ou corre-se
o risco de inventar mais uma nova moda com valores
antigos. Hoje a Eletrocooperativa em Salvador está
sendo dirigida por um grupo de jovens. Durante a
gestão anterior, o objetivo maior era aplicar a ‘Sevirologia’ na vida dos jovens – fazer com que eles
despertassem para seu potencial e aprendessem a se
virar na vida; fazer o melhor que podem com o que
têm, donos da sua própria escolha de vida. Agora,
estão tentando migrar de um modelo de organização
para um modelo de rede. Atuar em rede é mudar a
lógica do controle. Na rede, as pessoas são pró-ativas
Relatório GSI JAM 2011
quando o assunto é relevante; caso contrário, a própria rede remodela o tema.
A mudança na gestão da Eletrocooperativa de Salvador parece emblemática e incomum. A visão mais
costumeira é do fundador de uma organização permanecendo lá o máximo possível, fundamental na
captação de recursos etc.. Será possível replicar isso?
FERRAMENTAS
DE GESTÃO NO
TERCEIRO SETOR
ItsNoon: ItsNoon é uma rede social digital, organi- O Fortalecimento do Terceiro Setor
zada como empresa social de propriedade coletiva,
que estimula a aprendizagem e o trabalho em rede, Mais e mais, as organizações sem fins lucrativos
liberando o potencial de cada indivíduo com o obje- buscam aprimorar sua gestão. Exigências externas
tivo de co-criar um novo mundo. http:// itsnoon.net e necessidades internas as impulsionam a se profissionalizar e aprimorar sua forma de gerir pessoas e
Participaram da criação deste tópico
processos. Com isso, vão descobrindo seu lugar no
Alan Harlam, Alcely Barroso, Bell Pereira, Carlos cenário social e, mais do que pedintes, passam a ser
Eduardo Faria Ronca, Daniela Silva dos Santos, Ed- parceiras em causas e projetos. Nesse momento, as
son da Silva Bezerra, Elenice Tamashiro, Ferdinan- ferramentas de gestão podem se tornar uma preodo Fernandes, Fernando Alves, Guilherme Campos, cupação, como na prestação de contas. É a prática
Gustavo Antonio Duarte Ribeiro, Hazel Hender- baseada na transparência que vai sedimentar ações
son, Jorge Proença, José Avando Souza Sales, José e ferramentas e, para isso, será preciso criar mecaGilberto Boari, Judith Cawhorn, Julia David Franco nismos objetivos e claros de avaliação e acompanhaGomes, Juliana Nobre, Juliana Ramalho, Kelly Ra- mento dos projetos.
mirez, Leonardo Letelier, Luciano Palma, Mariana
A menor dependência contribui diretamente para
Nicolletti, Mario Costa, Natalia Menhem, Patricia
um novo posicionamento da organização frente aos
Diniz, Reinaldo Pamponet, Tiago Biusse Ghion e
potenciais parceiros e financiadores, planejando e
Vanda Scartezini.
desenvolvendo estratégias claras. De qualquer forma, estabelecer uma relação de parceria de longo
prazo, com compartilhamento de responsabilidades
e riscos é um desafio.
A parceria com outras organizações da sociedade civil ainda constitui um movimento novo no setor.
Pela atuação em rede, torna-se mais fácil potencializar resultados, influenciar políticas públicas e compartilhar experiências.
A experiência de redes é o caminho que parece mais
saudável para fortalecimento das organizações da
sociedade civil, embora ainda persista o medo de
disputar verbas e compartilhar boas iniciativas. Elas
devem ter em vista seu papel no estímulo a organizações de todos os setores pelo desenvolvimento de
projetos consistentes.
Cada vez mais, programas de empresas/fundações/
governos/OSCs devem buscar incorporar ferramentas em suas estratégias de investimento social, por
exemplo, que ajudem a trazer maior e efetivo impacto. É crucial a inclusão de avaliação e monitoramento de impacto desde a fase inicial do projeto; assim,
45
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
são criados marcos que demonstram a evolução nos Quais são as barreiras impedindo ou dificultando o
projetos, sem ver a avaliação como algo punitivo, aporte de conhecimento do setor privado sobre fermas um processo de aprendizagem que só traz be- ramentas de gestão no dia a dia das ONGs?
nefício a todos.
Uma das maiores barreiras à introdução de ferraAlém dos processos financeiros, será que as organi- mentas é cultural. Há empreendedores sociais com
zações já adotam ferramentas de gestão de relaciona- foco exclusivo na causa, que entendem que gestão
mento com o cliente, a fim de acompanhar a pres- é perda de tempo. Mas, aos poucos, as ONGs vão
tação de serviço? Em caso negativo, como será que percebendo que a captação de recursos sem acordo
com o financiador, seja ele uma empresa, organismo
anotam suas atividades?
internacional ou outro. A prestação de contas é funA demora vem dos dois lados. Por muito tempo,
damental e as ONGs que crescem e se fortalecem
o mundo empresarial ficou ‘no seu canto’, voltado
são aquelas que aprendem a importância da gestão.
para seus interesses. Por outro lado, as ONGs hisÉ diferente quando se fala de uma ONG que nasceu
toricamente apresentam dificuldade em estabelecer
no meio empresarial, onde a cultura já é impregnada
parcerias interessantes, se não forem na condição de
por essa forma de trabalho.
recebedores de verbas e fazedores do bem. Esse cenário tem mudado, com muito ainda que aprender Os alto executivos ainda preservam a mentalidade
do marketing acima do tema social. O lucro é a meta
dos dois lados.
principal que alavanca as atividades produtivas denNão utilizar ferramentas de gestão, independente do
tro da cadeia logística. A empresa terá que abarcar
setor significa não ter o controle do negócio, mesmo
a responsabilidade social, antecipando-se ao futuro
que ele seja bem sucedido. Por outro lado, o empreque, em breve, exigirá esse tópico como ferramenendedor também terá dificuldades em ter subsídios
ta fundamental nas boas práticas empresariais. Esses
para tomada de decisão. Nessa abordagem, não há
gestores precisarão reciclar seus conceitos, considediferença nas ferramentas de gestão utilizadas em
rando que a ação em prol da melhor condição de vida
qualquer setor. A gestão de um empreendimento,
da sociedade certamente ampliará seus negócios e o
com ou sem fins lucrativos, não está na aplicação de
consumo consciente, pela elevação das classes dentro
uma única ferramenta, mas em todo um conjunto
da pirâmide social. Não seria o uso do social como
de ferramentas que subsidiam o controle e a tomada
marketing, e sim uma forma de reeducação da posde decisão. tura empresarial socialmente responsável.
Pensando no setor privado, as pessoas que assumem
Para as ONGs, no momento em que surgem patroa área de Responsabilidade Social Corporativa tamcinadores empresariais e parcerias com órgãos públibém não estão qualificadas ou preparadas; em sua
cos, as exigências de relatórios, acompanhamentos e
grande maioria, são profissionais de outras áreas
prestação de contas exigem aprimoramento gradual
como Recursos Humanos ou Comunicação que mino uso dessas ferramentas. No dia a dia, percebe-se
gram ou acumulam funções. Estes também precisam
que algumas ainda não fazem uso desses recursos,
se profissionalizar. mas é questão de tempo, pois isso não é mais um
Em função de a maioria das associações ter sido fun- luxo e sim exigência do mercado. Não há dúvida de
dada por pessoas leigas, sem conhecimento de ges- que, pelo grande número de organizações sociais já
tão, elas hoje têm muita dificuldade em entender o existentes e pelo crescimento potencial estimado, as
conceito e desenvolver indicadores para medir, por exigências da sociedade e dos governos sobre os reexemplo, o atendimento oferecido. Também há ca- sultados e as práticas de gestão serão cada vez maiosos e situações específicas onde se buscam ferramen- res. Órgãos de controle (Tribunais de Contas etc.),
tas de gestão, sem sucesso.
cada vez mais, têm que validar esses resultados e práticas e as organizações também são obrigadas, de forÉ essencial compartilhar propostas para promover a
ma transparente, a prestar contas à comunidade que
eficácia e eficiência dos programas sociais e obter as
as constituem e remuneram. Dessa forma, a adoção
necessárias credibilidade e transparência na adaptade boas práticas gerenciais e de ferramentas de gestão
ção de ferramentas de gestão, otimizando recursos,
passam a ser imprescindíveis para sua sobrevivência.
mobilizando pessoas e fomentando o aprendizado.
46
Relatório GSI JAM 2011
As perguntas feitas pelos mais céticos serão: "Quanto estas iniciativas irão aumentar a margem de lucro
da empresa?", "o esforço do meu capital humano,
que compõe o voluntariado, dará retorno financeiro
ou estaremos dissipando energia do foco da organização?", "meus clientes vão percebem valor e estarão
dispostos a comprar mais o meu produto, em razão
dos meus investimentos nestes programas?" Assim,
parece que o maior desafio é "monetizar" o valor
agregado dos programas sociais no orçamento da
empresa. No entanto, as ferramentas que se apresentem como
solução para empresas do terceiro setor precisam ter
como proposta básica as respostas inerentes a essas
exigências, ou seja: baixo custo de implementação e
de utilização, facilidades para publicação dos resultados de forma transparente, monitoramento de indicadores estratégicos e implementação das melhores
práticas de gestão.
pequenas organizações, embora a implantação desses
processos possa gerar custos adicionais significativos
(consultoria especializada, por exemplo) que precisam ser estimados antes do inicio de qualquer projeto. Uma boa prática para evitar erros é conhecer a experiência de outras organizações que tiveram sucesso
em projetos similares. Talvez a criação de um fórum
específico sobre esse assunto constituísse uma forma
mais ágil de encontrá-las – nesse espaço, experiências
bem sucedidas poderiam ser publicadas.
No censo 2009-2010 realizado pelo GIFE, há uma
menção sobre o total de Investimento Social que, em
2010, foi de R$ 2 bilhões. O levantamento indica
que 84 associados de um total de 102 responderam
à pesquisa; 79% dos recursos investidos foram destinados a curso/capacitação no biênio. Embora não
haja detalhes sobre qual porcentagem desse total foi
aplicada em qual área ou tema, é possível propor um
questionamento a partir daí:
Conhecimento: supondo que uma organização absorva e adapte as ferramentas de gestão, quanto de
fato isso ajudaria a sistematizar o conhecimento gerado em termos institucionais e de projeto? A organização estaria disposta a plasmar esse conhecimento
como forma de garantir, por exemplo, a 'sustentabilidade institucional' em longo prazo? Mas será que
isso não é gerado pela alta rotatividade nas equipes
e pela ausência de investimento no desenvolvimento delas? O foco da missão/visão organizacional será
ainda mais sustentável pelo fortalecimento das equiAgregar a atuação social das empresas ao produto
pes. Como equilibrar trabalho direto nos projetos
é fundamental para que a instituição seja reconhe(exigência dos investidores) + estrutura da organizacida como socialmente responsável e não somente
ção que a sustenta?
usá-la com finalidade de marketing, na tentativa de
mascarar o verdadeiro objetivo corporativo. É uma Investimento em cursos e capacitações: os investidooportunidade de mudança de visão pelos altos car- res usam ferramentas de gestão para avaliar a efetigos executivos nas empresas, diferente da velha sus- vidade de seu investimento? Há necessidade de mais
tentabilidade = marketing + boas relações públicas. capacitações? Onde estará o gap?
Entendimento de real parceria entre ONGs e corDe fato, a rotatividade nas equipes acaba sendo um
porações.
grande desafio para as organizações. Talvez as ferA mudança pode vir também das ONGs, se agru- ramentas de gestão em muitas organizações ainda
pando inclusive com as pequenas empresas em busca não tenham sido absorvidas e adaptadas de modo a
dessa parceria ‘igualitária’, juntando forças nas práti- se tornarem processo – por isso, se perdem à medida
que as equipes mudam.
cas pela sustentabilidade.
No contato com os Tribunais de Contas, as organizações têm reportado dificuldades no controle, em
face de morosidade da máquina burocrática estatal.
A transparência de todos os atos praticados, orçamentos, aplicação dos recursos captados, além de
balanços revisados por auditorias independentes seriam ferramentas imprescindíveis para a credibilidade nas empresas do terceiro setor, a ponto de a sociedade enxergar as ações sociais como transformadoras
de valores, não como mera atividade filantrópica.
Como as organizações do terceiro setor enxergam o
apoio das corporações na implementação de ferramentas de gestão? É imprescindível. Existem ferramentas no mercado que podem dar conta dos processos de gestão com custos viáveis, mesmo para as
Gestão qualificada e profissional no Terceiro Setor:
capricho ou necessidade?
Na história das Organizações do Terceiro Setor, há
uma prevalência do "fazer o bem sem alarde". Na
47
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
esteira disso, muito pouco se investiu em aprimorar
a gestão. As empresas, por seu lado, sempre investiram nisso porque buscavam o lucro. Assim, só agora
as organizações estão descobrindo a importância da
gestão. Independente da existência ou uso de ferramentas específicas do mundo corporativo, é fato que
ele está começando a adotar posturas, linguagens e
mesmo ações que brotam da essência das organizações da sociedade civil. Um exemplo é o livro Marketing 3.0 de Philip Kotler. Nele, o autor aborda
temas como a compaixão, o cuidado, a sustentabilidade, o fazer a diferença etc. E muitos outros autores
marcadamente do mundo empresarial têm atentado
para esses temas, que sempre circularam nas práticas
das organizações. A parceria entre segundo e terceiro
setores é de mão dupla, pois as empresas também
têm muito a aprender com as ONGs, com sua sensibilidade para as questões sociais – competência pouco desenvolvida nas empresas e que pode auxiliá-las
a conseguir, por exemplo, melhor relacionamento
com as comunidades onde atuam ou despertar para
a importância de uma gestão socialmente responsável. O problema é que a dependência financeira cria
uma relação hierarquizada entre elas e precisa ser revista; para isso, é fundamental a profissionalização
do terceiro setor.
ONG que lida com meninos e meninas em área de
risco, por exemplo, seu maior concorrente talvez seja
o tráfico, que pode atrair esses jovens mais do que as
atividades que propõe.
Não deve haver ‘concorrência’ na maioria das situações. Porém, em seleções públicas, a instituição mais
preparada, vence. Parcerias e redes de relacionamento podem ajudar na otimização de mais organizações, visando o bem comum e não a vitória desta ou
daquela.
Pelo lado dos recursos, é preciso fortalecer a ideia de
clusters e assim, as diferentes instituições se fortalecerem juntas. Por outro lado, mesmo organizações
da sociedade civil competem por recursos e "clientes". Vale sempre fazer uma análise do ambiente
competitivo antes de levar a cabo qualquer projeto.
Olhar fornecedores, fontes de recursos e, principalmente, soluções para problemas, ainda que possa ser
um erro a criação de uma organização para solucionar problemas que já estejam sendo atendidos pelo
poder público, pela iniciativa privada ou por outra
entidade.
Para alguns, as organizações do terceiro setor deveriam usar as ferramentas de gerenciamento e ser
‘rentáveis’ como quaisquer outras. Para tanto, devem
estar atentas à validação do mercado, planejamento
financeiro, construção de uma equipe forte de gestão
etc., assim como fazem aquelas do setor privado. A
única diferença é que o lucro não será compartilhado entre os sócios ou acionistas, mas reinvestido na
missão da organização.
No ano passado, o GIFE elaborou uma publicação
que resume o resultado de alguns workshops realizados com lideranças do Terceiro Setor e que trata,
entre outros assuntos, da relação entre segundo e terceiro setores, como os desafios vividos pelas ONGs
nessa relação e o papel dos Institutos e Fundações
empresariais. http://www.gife.org.br/publicacao-resHá quem replique que seria ótimo se as organizações
ponsabilidade-social-empresarial-por-que-o-guardado Terceiro Setor tivessem recursos institucionais
chuva-ficou-pequeno-da3c5fff52ec6f.asp
para se estruturar, mas a maior parte dos financiadoNessa migração da vida corporativa para a realida- res só repassa recursos para projetos – em sua maiode da OSC, deve-se levar em consideração o novo ria com prestações de contas detalhadas, a fim de
contexto, seja regional, cultural ou organizacional, ‘amarrar’ a destinação da verba conforme o objetivo
e não depositar todas as expectativas na ‘tecnologia’ contratado. Raramente se consegue recursos a fundo
importada, pois grande parte do investimento vem perdido. Uma possibilidade é as instituições buscada equipe – um dos grandes pilares da sustentabili- rem estratégias para levantar dinheiro ‘sem carimbo’,
dade organizacional. Então, quanto existe de espaço espelhando-se nos negócios sociais, pensando em
formas de gerar recursos com prestação de serviços.
e oportunidade para obter sua adesão?
Se são organizações sem fins lucrativos, por que dar
importância aos concorrentes? Ao fazer uma leitura de cenários, definição de clientes e áreas de atuação no mercado, as organizações da sociedade civil
devem ver que, muitas vezes, a concorrência não é
outra ONG, e sim aspectos da realidade. Para uma
48
Em geral, há ferramentas de gestão que migram das
empresas (o mundo do privado com fins privados)
para o terceiro setor. E o contrário? Muitos estão na
intersecção entre as empresas privadas e as organizações do terceiro setor. Não deveriam pensar na possibilidade de produzir ferramentas para um mundo
Relatório GSI JAM 2011
que enfrenta o desafio de ser efetivamente sustentável?
Ainda no tema da ‘rentabilidade’ das organizações
não governamentais, uma vertente acredita que elas
não podem competir por recursos – esse não é um
pensamento justo com uma causa social. O desenvolvimento de projetos depende de apoio financeiro, seja de pessoas jurídicas ou físicas e é importante
entender que, no fundo, todas estão envolvidas em
uma missão: desenvolvimento social. É claro que, na
prática, falta muita integração entre organizações e
ações sociais. Talvez até por isso mesmo, seja difícil a implantação de processos e procedimentos com
ferramentas de avaliação e acompanhamento. Uma
organização social não pode traçar plano estratégico com análise de concorrência. Fazer uma análise
SWOT (FOFA) é um exercício complexo de análise dos pontos fracos e fortes, as oportunidades e
ameaças. As redes devem ser utilizadas como espaço
democrático de articulação e alinhamento, sem aglomeração de ‘vale tudo’. A organização sem fins lucrativos pode observar a concorrência, como fazem as
empresas, em busca de parâmetros, benchmarking
etc.
• Existe algum outro modelo ou conceito de concorrência que se diferencie do
que é praticado entre as empresas privadas? Como uma concorrência social?
• A questão está na imagem que se faz dos outros atores do terceiro setor. Diante de recursos
escassos, as organizações tendem a se colocar em
competição por eles. Duas questões se impõem:
• Os recursos são realmente escassos ou
nem sempre se sabe como acessá-los?
• Atuar em parceria com outras organizações pode facilitar o acesso a esses recursos,
com projetos mais consistentes e sistêmicos?
prerrogativa: identificar e articular investidores e atores sociais que estejam atuando com o mesmo foco,
com especificidades comuns (seja a causa, a área geográfica ou a forma de intervenção) e com interesse
genuíno em ações colaborativas e parceiras. Tem por
objetivo a definição dos propósitos dos investimentos, que devem ser amplos o suficiente para angariar
apoiadores, mas específicos o suficiente para gerar
ações concretas.
Teoricamente, quanto mais difundida a informação,
o conhecimento, melhor para o desenvolvimento de
todos. Porém, as capacitações são caras e a única forma que o profissional tem de repor o investimento
é, de certa maneira, ‘cuidando’ exacerbadamente de
seu conhecimento. Iniciativas como essa, na qual todos podem aprender e ensinar produzem maior disseminação do conhecimento.
Como as instituições podem se tornar mais profissionalizadas ao implementar ferramentas adequadas
de gestão? Um empreendedor deve se dar conta de
que o valor de um plano de negócios não está apenas
no documento final, mas no exercício, na pesquisa e
nos processos de reflexão necessários para estruturar
o plano. O planejamento é um componente importante para a boa gestão. Ele representa um exercício
que deveria ser guia para o aprendizado e o avanço
gradual de processos e sistemas. Alguns dos benefícios que ele oferece:
• Incentiva o empreendedor e os gestores a
realizarem análises detalhadas e efetivas.
• Oferece um mapa de orientação para
o desenvolvimento dos negócios
• Ajuda a levantar capital
• Monitora o progresso e permite comparar boas práticas.
Um ponto fraco num grande número de instituições
do terceiro setor é a concentração de suas receitas em
poucos provedores de recursos. E se, um dia, aquele
fornecedor não quiser mais associar a sua imagem?
Mas como ampliar as fontes de recurso? Escrever
projetos? Procurar parcerias com (mais) empresas
privadas?
Partindo da premissa de que as organizações sem fins
lucrativos têm o objetivo de atender às necessidades
da sociedade e contribuir para a resolução de problemas sociais, de fato, não deveria haver concorrência
entre elas, mas sim uma ação estratégica de formação de rede, de mobilização de parcerias e recursos.
a ação em grupo facilitaria o acesso aos recursos, os Há também casos de empresas que buscam as orgaprojetos seriam mais consistentes e sem dúvida, os nizações, a fim de vincular a imagem das duas em
acordos de parceira, por puro greenwashing.
impactos seriam mais significantes.
O conceito de Co-funding, por exemplo, traz essa Com o poder público pode ser ainda pior, com so-
49
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
licitação de propinas ou de desvio de verbas. Então recursos, por exemplo.
como ampliar o número de mantenedores de uma
Ser sustentável é fazer parte do todo, mas também
ONG sem ferir princípios éticos?
ter em mente necessidades, objetivos e comproÉ importante que organizações sociais comecem a missos sem perder a qualidade nas relações. Mas
identificar estratégias que tragam alternativas finan- as ONGs ainda trabalham muito isoladas, buscanceiras, desenvolvendo atividades comerciais com do sustentabilidade a qualquer custo e muitas vezes
produtos e serviços que vão em linha com sua missão competindo entre si. Em seu livro “Poder e Amor,
Teoria e Prática da Mudança Social”, Adam Kahane
e gerem recursos para sua sustentabilidade.
(Reos) trata justamente desse equilíbrio em procesEsse tema tem evoluído muito nos últimos anos, mas
sos de transformação e como os interesses das partes
também crescem algumas preocupações: há organi(como empresas, ONGs e outros agentes trabalhanzações do terceiro setor que incorporam sem críticas
do por uma mesma causa) devem ser respeitados e
o que há de pior no mundo empresarial. Entendem
permeados pelo interesse comum, pois são diferenque ser eficiente, efetivo e eficaz é copiar as ideolotes. E isso pode ser o impulso da parceria. O ganhagias, práticas de gestão, métodos e sistemas utilizados
ganha-ganha é primordial, mas na prática isso ainda
pelas empresas, tornando-se um clone sem alma de
é difícil de perceber nas relações entre ONGs. Por
algo que também está sendo questionado. Empreoutro lado, entre negócios sociais, parece haver mesas? Quais empresas, que mundo empresarial, quais
lhor entendimento quanto a dividir e somar, ser susreferências servem e não servem? Enquanto há emtentável e se relacionar bem com diferentes agentes.
presas que querem aprender com ONGs e precisam
delas como referência para entender questões como Na iniciativa privada um dos processos mais imporengajamento, mobilização social, intangibilidade, tantes é o de ‘melhoria contínua’, que depende da
responsabilidade social etc., muitas ONGS tentam construção e utilização de "indicadores de desempefazer o caminho inverso e olham para o passado do nho". Peter Drucker dizia: "Se você mede, você memundo empresarial ou o que há de pior nele como lhora!". Um exemplo é o Pacto Rodoviário Mineiro,
fonte de inspiração. As ONGs têm muito a apren- que visa reduzir em 40% o índice de vítimas de acider com as empresas e vice-versa, mas é preciso ter dentes com veículos de carga no Estado de Minas
postura crítica, ‘traduzir’ conceitos e práticas e não Gerais, no prazo de 3 anos.
assimilar mecanicamente e repetir sem inovação.
A integração presencial e virtual das organizações
Como respeitar as peculiaridades dos movimentos brasileiras depende de mobilização e de um projesociais? Embora as ferramentas e os modelos sejam to de implementação de uma mega-rede, onde seja
importantes, talvez seja interessante olhar pelo pris- possível desenvolver: compartilhamento de experima da gestão empresarial para completar a visão ge- ências, avaliação de prestação de contas bem sucedidas, fórum de debates e formatação de Marcos Legais
ral do quadro. para as esferas públicas de poder, demonstração de
Há o sentido estrito e limitado que diz que ser susresultados positivos (impacto social), promoção de
tentável é se bastar, não depender de ninguém. Há o
projetos realizados e em andamento (marketing culsentido mais amplo ou resignificado, que diz o opostural), sessão de apoio de Tutoria com profissionais
to: ser sustentável é reconhecer-se parte, tomar pare consultores qualificados, inserção das organizações
te, saber-se limitado e inserido numa rede de relanas redes sociais mundiais, perspectiva de canal dições interdependentes. Uma organização sustentável
reto com ONU, UNESCO e outros órgãos privados
é aquela que gerencia suas relações com todos os seus
nacionais e internacionais de responsabilidade social
públicos, de maneira que todos ganhem com aquilo
para proposta de projetos, dentre outras ações.
que ela se propõe a ser e fazer. Isso vale para todos os
setores. É o ganha-ganha-ganha. “A sustentabilidade Na gestão estratégica, é louvável a participação vomora na qualidade das relações". A sustentabilidade luntária, mas ela deve ser acompanhada de planejade qualquer organização está na sua missão, identi- mento em curto prazo que insira este voluntariado
dade, valores e princípios. A identidade da organi- em capacitações acerca das ações empreendidas pelo
zação precede a estratégia e as ferramentas a utilizar terceiro setor, com possibilidade de envolvimento
ou qualquer outra discussão sobre ‘concorrência’ por junto a equipes remuneradas das Organizações. Re-
50
Relatório GSI JAM 2011
sultado: Profissional qualificado, estimulado, giro
econômico, distribuição de renda e oportunidade de
emprego. Nada no mundo gira sem dinheiro, portanto é uma chave, também de inclusão socioeconômica.
As ONGs necessitam reter know-how como Empresas Culturais, com quadros definidos de Gestão, não
necessariamente assumindo os modelos das empresas que atuam no mercado, mas com caráter de mercado e administração por excelência; até mesmo por
conta das referências documentais da ONU, ao afirmar que a Cultura é mola propulsora da Economia
Mundial, o Setor que mais cresce no mundo (Cultura + Entretenimento), e pela ONGs desenvolverem
projetos integrados tendo por temática a questão
ambiental e de preservação e o desenvolvimento sustentável. Sendo assim, os responsáveis pela administração das ONGs demandam também formação e
especialização na gestão de recursos humanos. Uma
das saídas pertinentes encontra-se na parceria das
ONGs com o Ministério da Justiça do Brasil, que
digna por Lei o reconhecimento das ONGs como
OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) tendo como aparatos de Gestão: gerar
Notas Fiscais série A, formatar e contratar quadro de
funcionários, desenvolver investimentos no mercado
(CDBs, ações, poupança, etc.) sem perder a característica da administração de recursos públicos e privados pela Sociedade Civil Organizada. Análise das Ferramentas
Qualquer organização pode se valer de ferramentas
para atingir seus objetivos. Mintzberg coloca isso
em seu Safári de Estratégia. Daí, algumas instituições vão procurar receitas – métodos –, como o planejamento estratégico, o BSC, a SWOT e outras. Se
a instituição não está apta a usar a ferramenta, por
ainda não ter atingido maturidade para isso, ou pela
velocidade do mercado (o ambiente), ela busca outra estratégia que não a receita. Umas podem se valer
de contatos na linha de lobby para atingir o mesmo objetivo. Outras têm agilidade interna suficiente
para ir mudando conforme o ambiente determina.
Não há uma solução única – são várias ferramentas passíveis de ajudar na conquista das metas. Ainda assim, deve-se considerar que as ferramentas que
conhecemos, adequadas para medir desempenho de
empresas, como, lucro, produtividade ou mesmo
para indicadores sociais de um país, ainda não são
certas para um processo de desenvolvimento social,
complexo, promovido por uma organização não governamental, em parceria ou não com primeiro e segundo setores.
Uma das ferramentas desenvolvidas no setor cidadão está sendo absorvida por empresas e fundações:
é o mapa de inovações e desafios colaborativos, a
qual ajuda a orientar o investimento estratégico das
empresas. A partir da análise desse framework, elas
desenham estratégias relacionadas ao seu enfoque,
de forma a construir um investimento mais efetivo
e sustentável em longo prazo. Isso foi desenvolvido com o Changemakers da Ashoka e alguns parceiros no mundo: http://www.changemakers.com/
socialbusiness (link 'Pre-competition discovery framework', na primeira página). O Changemakers já
fez cerca de 30 destes desafios com análises, incluindo o grupo do G-20, Bill & Melinda Gates, Nike
etc.
No caso de organizações do segmento da saúde,
como mensurar resultados? Como criar indicadores
de adesão ao tratamento? A criação de indicadores
constitui um grande desafio, principalmente quando se trata de temas subjetivos, como saúde. Talvez
os indicadores criados para o FIB (Felicidade Interna Bruta) possam ser uma referência nesse sentido.
Foi instituído originalmente no Butão, pequeno país
budista no Himalaia. Em 1972, durante sua posse,
o novo rei – Jigme Singye – declarou que o FIB era
mais importante que o PIB (Produto Interno Bruto). A partir daí, baseou todo seu governo em quatro
premissas: desenvolvimento econômico sustentável
e equitativo, preservação da cultura, conservação do
meio ambiente e boa governança, que, no fundo, são
os verdadeiros pilares que podem levar à mitigação
da fome, da miséria e da pobreza.
Para o atendimento de pacientes com necessidade de
acesso ao tratamento e a informação adequada não
somente a eles, mas também aos profissionais de saúde envolvidos, é importante o desenvolvimento de
uma rede multidisciplinar ampla, visto que costuma
haver um paciente na zona norte, 10 no sul, 100 no
sudoeste e através de uma rede, todos poderiam ser
atendidos em suas demandas. Mas como construir
essa rede?
Mesmo no setor de saúde humana, é possível começar a estabelecer indicadores progressivos: de eficiência, depois de eficácia e por último de efetividade.
Tudo começa pela implantação de um instrumento
51
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
para ajudar a atingir os objetivos, seja ele qual for
– planejamento estratégico, Balanced Score Card
ou outro modelo. No início, conta-se o número de
atendimentos e ao final, a busca é por saber a influência da instituição de saúde na comunidade. E aí a
instituição consegue identificar o indicador que permita a medição, quanti ou qualitativamente.
Há um número expressivo de ferramentas desenvolvidas para a introdução da Responsabilidade Social
nas empresas, adaptadas ou inspiradas nas ferramentas da Administração de Empresas: sistemas de indicadores, modelos de gestão, modelos de plano de
ação, modelos de prestação de contas etc. Também
há ferramentas desenvolvidas ou adaptadas especificamente para a gestão do Terceiro Setor. Além daquelas listadas acima, o Prof. Paul Kirsch, no vídeo
de abertura deste fórum, falava em estudos de viabilidade e planos de negócio. Muitas ONGs parecem ver as ferramentas como um mal necessário para
conseguir estabelecer parcerias, e não necessariamente como algo que irá contribuir para a realização
de sua missão. Qual será a característica principal de
uma ferramenta de gestão para o Terceiro Setor, de
modo que ela não vá contra os aspectos culturais das
ONGs? Pois uma coisa é a ferramenta ser teoricamente boa, outra coisa é ser efetivamente boa.
Uma das principais barreiras à aplicação de ferramentas de gestão pelas ONGs é o custo, pois elas
requerem, entre outras coisas, muitas horas de trabalho de pessoas qualificadas. Por exemplo, para fazer
uma análise simples, pode-se usar a SWOT Analysis.
Seu custo, a princípio, equivale ao tempo das pessoas
para a tarefa. No entanto, sua destinação e o modo
de aplicação exigem outros esforços e verbas.
Mais do que identificar a ferramenta de gestão ideal,
é importante estruturar um sistema de gestão que
inclua planejamento estratégico com metas claras e
realizáveis, cronograma, indicadores, plano de marketing, orçamento, projeções etc., e que seja útil e
prático para quem vai utilizá-lo na organização. A
partir daí, pode-se tentar demonstrar resultados, impactos e a eficácia, para correção de rota. Muitas instituições relevam a parte financeira em prol da ‘boa
ação’, mas isto não é sustentável e não deve ser descuidado. As ferramentas têm por finalidade gerar os
melhores dados e informações possíveis para subsidiar as decisões e alcançar os resultados esperados. Muitos mecanismos de sustentabilidade do mercado financeiro (índices, relatórios e agências de financiamento) vêm demandando controle por parte das
empresas participantes, com foco estratégico nos investimentos socioambientais. Como exemplos desQuais indicadores ‘básicos’, especialmente da di- ses mecanismos, podem ser destacados os padrões de
mensão financeira, poderiam ser sugeridos para aju- relatórios
dar a medir o sucesso de um programa social? Eis
• GRI – Global Reporting Initiatialguns:
ve (http://www.globalreporting.org)
1. Medir o retorno do investimento na for• CDP – Carbon Disclosure Promação educacional e reciclagem dos recurject (https://www.cdproject.net/)
sos humanos em todos os níveis hierárqui• os índices de sustentabilidade
cos, mediante certificação de entidades.
• ISE/Bovespa (http://www.bmfbovespa.com.br)
2. Medir o retorno do investimento financeiro na forma de lucro líquido, após
• DJSI – Dow Jones Sustainability Index
os valores aportados na área social.
(http://www.sustainability-index.com)
3. Acompanhamento das atividades dos
• e a agência de investimento Oekom Reseprogramas sociais, mediante auditoria perarch AG (http://www.oekom-research.com)
manente por parte do investidor.
Uma das ferramentas e metodologias apontadas
Uma solução seria a agregação dos custos sociais na como referência é o
cadeia produtiva. Como no exemplo dado pela Gestão Ambiental, conforme protagoniza a linha Pigou- • London Benchmarking Group (LBG) –
viana sobre a economia sustentável, com a impor- (http://www.lbg-online.net) que orienta o
tação desse modelo na Gestão Social. O impacto é Corporate Community Investment (CCI), ou
praticamente nulo em relação à cadeia e esse investi- Investimento Corporativo na Comunidade.
mento seria de fácil mensuração. É composta por ferramentas de gestão e metodo-
52
Relatório GSI JAM 2011
logias. As perguntas básicas a ser respondidas pelos
financiadores que aderem a esse grupo levam em
conta quatro temas “How, Why, What e Where?”
(Como, Por que, O quê e Onde investir?). Na execução dos projetos, também são cobrados indicadores
de processo (ex. número de pessoas presentes às aulas), de resultados (ex. quantos concluíram o curso) e
de impacto (ex. O curso gerou “X” valor monetário
de renda para os concluintes). Como as organizações podem tomar conhecimento dessas ferramentas? O que uma OSC pode fazer
para não ser surpreendida por tais demandas? As ferramentas dos financiadores contribuem efetivamente para a melhor gestão das Organizações e de seus
projetos? Pode-se traçar uma estratégia para induzir
o mercado financeiro em vez de ser conduzido por
ele? Pode haver benefício nessas ferramentas e em
sua aplicação no cotidiano de uma organização?
Antes da decisão na escolha de qualquer ferramenta
de medição de desempenho, deve-se considerar a intenção comunicativa. Alguns parâmetros simples são
importantes nesse processo de escolha, como:
• Sentir a necessidade de expressar alguma coisa e informação;
e tomadas de decisão.
O incentivo fiscal a doações é uma importante ferramenta de captação de recursos no Terceiro Setor.
No entanto, alguns estudos apontam que parte considerável das entidades não capta recursos incentivados. O mesmo ocorre na outra ponta – os investidores privados aptos a usufruírem desse benefício
não costumam se apropriar plenamente dessa ferramenta. Diante de tal cenário, é tempo de compartilhar experiências e reflexões sobre as razões jurídicas,
gerenciais e sistêmicas dessa subutilização e propor
soluções e alternativas para um uso mais democrático e satisfatório dessa ferramenta. Incentivos fiscais
são bastante úteis, embora haja restrições para determinados tipos de projetos, em geral para atividades
culturais, podendo ter traços de projetos educacionais. O lado da empresa é mais simples e requer um
mínimo de organização e processo. Mas para uma
ONG, isso é extremamente burocrático, demanda
consultorias especializadas e na maioria das vezes, recursos de que ela não dispõe. Uma solução seria usar
tecnologia e inteligência nos processos de análise e
aprovação de projetos. Isso requer investimento governamental, mas traria significativo retorno para a
sociedade.
• Ter objetivo-fim;
Nesse enfoque, quanto à reformulação de contrapartidas, o incentivo deve ser equivalente a 100% da de• Selecionar a forma mais adequadução. No caso da Lei de incentivo Semear do Pará,
da para o que se deseja realizar;
requer 80% de dedução com mais 20% de contra• Ter disposição para transmitir as necessidades;
partida financeira em relação aos 100% do valor total do projeto. Isso gera um gargalo problemático,
• Ter habilidade no uso de uma ferpois os departamentos de Marketing e Financeiro
ramenta e da linguagem;
das empresas negam a cessão da contrapartida de
• Ter imaginação para romper a as20% e muitas suspeitam da utilização da ferramensimetria de conhecimentos;
ta, em razão de, no processo burocrático, estas ações
• Manter o foco de atenção para não dispersar.
venham a ferir suas contas. É necessário: modernizaPara que surta efeito positivo qualquer tipo de ope- ção e simplificação dos processos burocráticos, forracionalidade, deve-se estar atento ao desempenho mação, especialização de equipe gestora das ONGs.
de quatro áreas distintas:
Experiências compartilha• Gestão de pessoas
• Processos
• Clientes
• Resultados
Quanto ao custo, está diretamente ligado à necessidade interpretar os objetivos – quanto maior conhecimento do negócio mais eficácia e eficiência serão
geradas, as quais servirão para sustentar as estratégias
das durante o painel
UNB: Marcelo Carvalho, professor que ministra a
disciplina de planejamento na Universidade de Brasília (UNB). Orienta os trabalhos de planejamento
dos alunos para o Terceiro Setor, como forma de eles
retribuírem o que o Estado lhes proporciona. Nessa
experiência, os gestores e trabalhadores das organizações fazem o planejamento junto com os alunos.
Não é para eles e sim com eles. Claro que há mo53
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
mentos desgastantes no processo, como o bloqueio como estratégia de autofinanciamento, diminuindo
a dependência de doações. Promove a gestão da orde informações, mas isso é pontual.
ganização junto à equipe para o sucesso do empreenMcDonald’s: O McDonald´s promove uma compedimento e para fortalecer a missão social.
tição nacional de ações sociais que é a Campanha do
Bom Vizinho, com foco na divulgação da organiza- Instituto Teológico Basiléia: Sou pastor de uma peção, para que seu trabalho se torne conhecido na co- quena comunidade cristã em São Luis, Maranhão.
munidade. A idéia parte do dito popular "Você nun- A comunidade fica em Zona de palafitas, estamos
ca terá uma segunda chance para causar uma boa implementando trabalho social. Temos grandes difiprimeira impressão", o qual pode ser definido como culdades de recursos, pessoas dispostas e também de
o paradigma principal do mundo dos negócios na gestão. Sabemos que existem muitas ferramentas disúltima década. As melhores empresas têm em seu es- poníveis, mas muitas vezes não temos material hutatuto a missão, visão e valor "produzir com a maior mano para operá-las ou recursos para adquiri-las. A
qualidade possível", "satisfazer nossos clientes" ou urgência de fazer algo prático que alivie o sofrimen"elaborar produtos inovadores que encantem nossos to das pessoas afligidas por fome, crack, prostituição
consumidores". Elas tentam causar uma boa primei- muitas vezes não impede de realizar um planejamenra impressão ao fazer produtos com qualidade, tratar to em longo prazo. Criamos uma Rede de instituio cliente como um rei, com o objetivo de torná-lo ções cristãs e ‘seculares’ que trabalham com Ação Soleal à marca. No que tange as organizações do tercei- cial, e o que chamamos no meio cristão de Missão
ro setor, a resposta parece estar no marketing social Integral. Pretendemos fazer parte da RENAS (Rede
– ele será cada vez mais discutido em Fóruns Econô- Nacional Evangélica de Ação Social) e, em parceria,
micos Mundiais, não só por sua importância social, agir de forma mais eficaz. Em nossa comunidade, o
mas por sua eficácia. Um projeto social discreto e grande problema é como fazer. Observamos muito
bem elaborado será tão importante para a imagem problemas, temos poucos recursos e não sabemos o
corporativa quanto a qualidade das marcas produzi- que atender primeiro, e como atender. Bruno Elias
das – para isso, no entanto, é necessário que a em- Menezes
presa defina a causa social que irá abraçar e tornar-se
Grupo Sempre Vita: O Grupo Sempre Vita é uma
conhecida por essa via. No caso das OSCs, a questão
organização sem fins lucrativos criada com o objeque qualquer membro do conselho executivo deve
tivo de reunir e apoiar pacientes com a necessidafazer é "causamos uma boa primeira impressão em
de, pontual ou permanente, de terapia nutricional
empresas com potencial para garantir nossa manuclínica. Nossa meta é ser um organismo de difusão
tenção?". de informação, fomento a estudos e contribuição na
Fundação Dom Cabral: Em Belo Horizonte, a garantia de acesso igualitário à terapia nutricional.
FDC oferece às instituições seu know-how em ges- Temos necessidade de uma consultoria para captatão. Várias delas estão participando e obtendo bons ção de recursos e perguntamos se a sua associação
resultados em sua gestão e projetos. De qualquer for- desenvolve trabalhos nesta área.
ma, em tempos de rede (internet, por exemplo) as
Zigla: A Zigla trabalha com gestão estratégica do coOSCs precisam descobrir e reunir as riquezas que
nhecimento para OSCs, empresas, governo e fundapossuem. A Fundação busca oferecer ao Terceiro Seções, orientando o investimento social, por exemplo,
tor as ferramentas de gestão que funcionam nas emcom mapeamento de inovações sociais e programas
presas, com adaptação de linguagem. E trabalha na
de avaliação. O conhecimento, neste sentido, ajuda
manutenção do foco do negócio, ajudando os gesa criar um ciclo virtuoso e contínuo de sustentabilitores a decifrarem seu negócio, para daí se tornarem
dade das organizações. A consultoria ajuda a estruadministradores qualificados. Essas organizações deturar e implementar projetos dentro deste escopo.
vem apresentar resultados positivos, pois há muitos
stakeholders esperando por boa gestão. Talvez só Recente publicação da Zigla Consultores, que pode
precisem entender que o seu "lucro" é um pouco di- ser útil como informação de gestão sobre "avaliação,
monitoramento e medição de impacto na agenda do
ferente de uma empresa com fins lucrativos.
investimento social na América Latina”: http://bit.
NESsT: O NESsT apoia organizações sociais na esly/hw40nl no mesmo link do blog, também em estruturação e desenvolvimento de negócios sociais
54
Relatório GSI JAM 2011
panhol e inglês.
www.ziglaconsultores.com O blog (link no site) tem
conteúdos produzidos pelo Observatório de estudos
de impacto da América Latina e artigos, links de org
internacionais sobre SROI, impacto.
Instituto Ecoar: Há tempos, o Instituto Ecoar já
não está na condição de "pedinte". Hoje, emprega como qualquer outro segmento, paga impostos
e tornou-se profissional talvez com mais perfeccionismo, em função das exigências dos financiadores.
Já é visto como parceiro, vinculando a sociedade, o
poder público e o privado, com a função de realizar
as ações demandadas.
Instituto Voluntários em Ação:
Sou pesquisadora do Instituto Voluntários em Ação/SC. Colaboro com a Entidade por meio da Web, pois possuímos um programa de voluntariado online, ou seja,
é possível ajudar diversas Instituições sem sair de
casa. Os materiais pesquisados pelos colaboradores
voluntários são postados semanalmente no Portal do
Instituto. Auxiliamos as organizações a implementar
seus projetos e atividades, alavancando cada vez mais
suas práticas. Além de termos a Internet como grande aliada em nosso trabalho, propiciamos capacitações, tanto online como presencialmente (na sede da
Entidade) a profissionais e organizações comprometidos com a sustentabilidade do seu negócio. O Portal também disponibiliza materiais de apoio e links
de trabalho, para quem desejar complementar pedagogicamente sua atuação na Organização. www.
voluntariosonline.org.br
CARE Brasil: A CARE Brasil – ONG de combate à pobreza e ajuda humanitária – tem um projeto
no Piauí que é o CEFEM (Centro de Formação de
Empreendedores), escola para jovens da região rural, principalmente entre 15 e 20 anos, administrada
como empreendimento com potencial para se tornar
autossuficiente em cinco anos. A escola hospeda microempreendimentos, onde os alunos vivenciam na
prática o que aprendem, e revertem o lucro para a
manutenção da própria escola!
ACAM: Há alguns anos, a ACAM (associação de
apoio a pacientes com fibrose cística) se preocupa
com a organização de seu trabalho. Apoiada por
uma consultoria, criou processos e hoje tem metas e
objetivos a ser atingidos no mês e no ano. Mas como
mensurar resultados quando trabalham com saúde?
Como criar indicadores de adesão ao tratamento
quando a influência social atinge diretamente sua
população? De fato, organizações voltadas ao atendimento de pacientes, geralmente, iniciam seu trabalho com pessoas leigas atendendo necessidades de
parentes, amigos e até mesmo a sua própria. Neste
contexto, falta conhecimento de uma gestão efetiva,
com tendência ao assistencialismo. Estamos iniciando uma fase de percepção da necessidade de uma
gestão mais profissional e com indicadores que demonstrem a efetividade das ações desenvolvidas, mas
temos encontrado alguns problemas: falta conhecimento das ferramentas de gestão; indicadores; um
novo olhar para o paciente tendo-o como parceiro
na construção de políticas públicas de saúde; um diálogo claro entre o profissional de saúde, o paciente,
seu cuidador e o Estado; e, especialmente, estudos
que demonstrem o benefício/custo social de um tratamento/acompanhamento efetivo do paciente, pois
um doente atinge sua estrutura familiar e também
seu desempenho/produção profissional, sua vida social e as pessoas do entorno.
Pamcary: O trabalho social precisa ser organizado.
Partindo dessa premissa a Pamcary fundou o Instituto Cuidando do Futuro, determinada a falar sobre
sustentabilidade com foco no segmento de transporte e logística, quando ninguém acreditava ser possível fomentar a mudança de comportamento para
empresários do segmento de transportes de cargas,
motoristas de caminhões e demais profissionais da
área. Saiba mais www.institutocuidandodofuturo.
org.br
APAF: O ICF através dos voluntários da empresa
mantenedora Pamcary, apoia a APAF – instituição
que trabalha na profissionalização e resgate da autoestima de mulheres em situação de vulnerabilidade social. Parece que existe sinergia entre a sua atuação (não sei se é Grupar-RP ou Centro Espírita O
Consolador) e a nossa. Começamos adaptando um
modelo de planejamento estratégico à realidade da
ONG, traduzimos os conceitos e criamos um modelo próprio de execução e acompanhamento. A APAF
foi fundada em 2004 e desde o início adotou ferramentas de gestão para o seu desenvolvimento. Estabeleceu missão, visão, valores e um planejamento estratégico e orçamentário para atingir seus objetivos.
O ICF tem contribuído para seu desenvolvimento e
acompanha seus indicadores de resultados e a partir
destes, tem recomendado ações para sua melhoria
contínua.
55
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
ICF: A experiência do Instituto Cuidando do Futuro. Entendemos a importância da utilização das
ferramentas de gestão, e concordamos com a sua colocação, por isso assumimos o desafio de trabalhar
de forma organizada, transparente contando com
o apoio de profissionais da área de planejamento.
Criamos uma estrutura formada por voluntários –
profissionais que contribuem durante 2 horas semanais trabalhando no que denominamos Boletim
ICF, uma ferramenta que possibilita o acompanhamento e execução dos projetos, num modelo sem
custo adicional.
TechSoup Brasil: informação sobre doação de softwares da Microsoft e outras empresas, que auxiliam como ferramentas de gestão a quem interessar
acesse o site http://www.techsoupbrasil.org.br/ Participaram da criação deste tópico
Alcely Barroso, Ana Lucia Silva Marçal, Andrea
Shpak, Augusto Hijo, Bruno Andreoni, Bruno Elias
Menezes, Carlos Eduardo Faria Ronca, Carolina
Neri, Celso Bianchi Barroso, Claudia da Silva, Cristina Fedato, Daniel Barreto, Daniela Silva dos Santos, Darcio Centoducato, Debora Caldini, Edsmar
Resende, Eduardo Britto, Elenice Tamashiro, Janete Hung, Jorge Proença, José Aureo Bigliassi, Joseph Haim, Julia David Franco Gomes, Luciane Sena,
Luiz Bruno Vianna, Maisa Signor, Marcelo Carvalho, Marcus Clemente, Mariana Nicolletti, Marina
Spirandelli, Monica Lazzerini, Paul Kirsch, Regina
Miranda, Reinaldo Bulgarelli, René José Rodrigues
Fernandes, Ricardo Lopes, Roberta Guarino, Tanya
Andrade, Vanderlei Soela, Vania Bulgarelli e Yara
Cavini.
INICIATIVAS DE
INVESTIMENTO
PÚBLICO E PRIVADO
Investimento público e privado
Vivemos num mundo em transformação. Empresas
e organizações, cidades, regiões e países experimentam mutação constante, o que requer ações novas e
traz em seu bojo incertezas e riscos. Por isso, gerenciar uma empresa, um órgão público ou uma orga-
56
nização social demanda habilidades que extrapolam
resultados básicos como lucro, mobilidade social e
eficiência. Gerir, hoje, significa ser capaz de criar novos valores para as organizações e para a sociedade
– isso demanda criatividade e coragem para buscar
novas soluções e implementá-las. Nos últimos 20 anos, o Brasil se democratizou, mas
ainda está longe de garantir direitos equânimes a
todos os cidadãos. Nesse período, houve significativo avanço nas políticas públicas, principalmente na
saúde. O SUS – Sistema Único de Saúde, por exemplo, foi criado na Constituição de 1988 como um
conjunto de princípios que se solidificaram em unidades de saúde e hospitais, e hoje garantem o direito
básico à saúde da maioria da população brasileira.
O Sistema tem conseguido diminuir a mortalidade
infantil, realizado amplas campanhas de vacinação,
garantido transplantes. As diferenças regionais ainda
são significativas e, apesar dos profundos problemas
ainda existentes, essa está entre as políticas públicas
que mais avançaram a caminho da cidadania. Os setores público e privado devem estabelecer parcerias,
sempre procurando estabelecer metas claras quanto ao uso dos recursos públicos diretos e indiretos,
conscientes de que a gestão é de incumbência estatal,
complementada pela ação do setor privado.
Pouco a pouco, o conceito de “público” deixa de significar estatal para nomear o que pertence ao povo.
Como tal, lentamente multiplicam-se e fortalecemse as organizações que fiscalizam a aplicação do dinheiro público. O trabalho dessas entidades de controle social, leis como a Ficha Limpa, campanhas
como a do Ministério Público contra a corrupção,
o empenho de órgãos como a CGU (Controladoria
Geral da União) na campanha por transparência e
participação popular orientam os olhares para a necessidade premente de saneamento das instituições,
mesmo que ainda seja distante, e tornam possível a
parceria mais equitativa entre o poder público, a iniciativa privada e o terceiro setor. As transformações socioeconômicas das últimas décadas produziram impacto profundo sobre o comportamento do segundo setor, até então acostumado
à maximização do lucro. A ideia de responsabilidade social incorporada aos negócios é relativamente
recente, gerando novas demandas e maior exigência
por transparência. Nesse contexto, observa-se a consistência dos propósitos dos investimentos sociais ou
ambientais: estão eles realmente vinculados às causas
Relatório GSI JAM 2011
a que se propõem? Há coerência de propósitos entre
o investimento social e a atuação social do investidor? A postura do investidor interfere nos resultados
do investimento social?
Muito se fala em sustentabilidade, a ponto de a palavra ter perdido o sentido pelo desgaste do uso indevido e excessivo. Mas são poucos os projetos com
apoio de investimentos privados que aliam responsabilidade socioambiental ao foco do negócio. Muitas
vezes, esse investimento chega a ser realizado longe
do entorno da empresa, sem conhecimento e sem
envolvimento de seus colaboradores e da comunidade próxima. Tal modelo pode ser visto como ferramenta exitosa do ponto de vista de marketing e de
ação social. Porém, quando o investimento social faz
uso de recursos de renúncia fiscal, a responsabilidade, a ética e a transparência devem ser observadas
com rigor, e as aplicações e resultados fiscalizados
pelo poder público. É preciso ainda frisar que o investimento social privado não pode ser confundido
com a responsabilidade e os compromissos que as
empresas devem assumir com as questões socioambientais na produção de seus bens ou serviços, como
está convencionado na norma ISO 26000 – uma
empresa pode ter investimentos sociais e não ser socio e ambientalmente responsável. O inverso também pode ser verdadeiro: sem investimento social e
responsável na condução do seu negócio.
Muitas vezes as ações sociais de empresas são dispersas, sem conexão entre si ou com as próprias estratégias empresariais ou, mesmo com ações de políticas
públicas. Mas quanto mais as empresas vincularem
as ações de investimento social privado às estratégias de negócios, melhores serão os resultados para a
empresa, para a sociedade e para a sustentabilidade
das ações sociais. Empresas que utilizam o próprio
core business para apoiar ou embasar as ações sociais
são as que acabam tendo maior coerência de investimento e aproveitam/potencializam a ‘tecnologia
empresarial’ e a ‘tecnologia social’. Passar de uma
visão assistencialista ou filantrópica para uma estratégia integrativa, em que os investimentos sociais estão atrelados e combinados às estratégias de negócio
é importante para que as ações sejam mais efetivas e
sustentáveis. As próprias empresas ganham em consistência e coerência e tornam-se também mais sustentáveis. Além disso, quanto mais as ações sociais
se vincularem às ações de políticas públicas, gerando
intersetorialidade, maior será a contribuição para a
transformação social. Para que isso aconteça de fato,
é importante que haja uma mudança de cultura de
investimento social, de visão sobre as possibilidades
de articulação intersetorial e de gestão organizacional.
O fato é que os mais importantes desafios socioambientais dizem respeito a toda a sociedade e precisam do engajamento de todos os setores, cada um
com sua competência, para que sejam superados.
No Brasil, a evolução da consciência ambiental e os
movimentos nessa direção recebem muito mais investimentos que no passado recente. Certamente o
acréscimo da palavra ‘social’ – que resultou no termo
‘socioambiental’ – reflete a compreensão de que não
é possível a proteção e a preservação da natureza sem
preocupação com as pessoas e seu bem-estar.
Essa migração de investimento fez muitos projetos sociais serem encerrados ou reduzidos, ainda
não profissionalizados e sem ter atingido competência administrativa e técnica; aspectos até então
incentivados pelo financiamento corporativo. Esse
movimento acompanhou melhora considerável do
investimento governamental em ações sociais e da
organização de sistemas mais estruturados nas políticas sociais etc.. Contudo, o Estado brasileiro
ainda está longe de mudar culturas enraizadas nas
quais prevaleciam o ‘favor’ e não os direitos dos cidadãos. Além disso, muitos dos municípios – principais responsáveis pela implantação das ações sociais,
ambientais e culturais – ainda não estão preparados
para planejar e executar tais ações. A contratação/
parceria/transferência de serviços para organizações
da sociedade civil é outro ponto de tensão nas ações
sociais. O risco de precarização, com salários muito
baixos e falta de formação contínua desqualifica os
serviços. Por outro lado, quando se vêem tentativas
de execução direta dos serviços pelo poder público, a
burocracia e as ingerências políticas tornam os programas muito ineficazes.
O que se percebe é a necessidade de profissionalizar a gestão das iniciativas de investimento público/
privado. As políticas públicas sociais, culturais e ambientais vão se organizando pouco a pouco (na figura do Estado brasileiro) e também as iniciativas do
setor privado -- especialmente aquelas que buscam
maior institucionalização (como na criação de um
instituto ou fundação) e profissionalização (colaboradores dedicados exclusivamente a esses assuntos).
Mas ainda há muito a caminhar: políticas públicas
57
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
muitas vezes são mais de governo do que do Estado,
portanto têm baixa continuidade. No setor privado,
as iniciativas com objetivos públicos também ainda
não ganharam centralidade -- com exceções -- o que
leva também ao reduzido impacto e continuidade.
Na parceria entre sociedade civil, iniciativa privada
e poder público, cada um tem um papel bem definido. A crença de que o poder público pode resolver
tudo é algo que se esgotou. É a mobilização social
e todas as formas de participação que legitimam o
governo e nesse novo cenário, as ONGs têm um papel relevante a cumprir. Por outro lado, as empresas
estão mais conscientes de que seu papel na sociedade
vai além do desenvolvimento econômico. Temos aí
um grande vazio onde o poder público pode atuar,
servindo de ponte entre os dois setores. Esta ponte
tem que ser construída, não apenas para condução
de dinheiro de um setor a outro via renúncia fiscal,
mas aproveitando o talento inovador das ONGs
para disseminar políticas públicas que podem modificar a vida da comunidade.
Há um ditado africano segundo o qual "se você quiser ir rápido, vá sozinho; se você quiser ir longe, vá
junto". Ele é muito importante de ser considerado
nas iniciativas público-privadas. As instituições públicas têm natureza, valores, velocidades, até linguagens diversas das do setor privado. Para trabalharem
juntos, esses setores precisam dedicar muito tempo
alinhando valores, coordenando expectativas de velocidade e de resultados, aprendendo a dialogar. O
que se vê com frequência nessas parcerias é a dominação de um dos pólos, em geral, por quem tem
mais dinheiro. Isso distorce as relações e tende a di- O papel do terceiro setor é, justamente, o de ofeminuir os resultados públicos que poderiam ser al- recer a sua experiência setorial e territorial, dirigida
cançados, em detrimento de interesses privados.
aos novos e aos velhos problemas. A área governamental não consegue fazer isso. A função principal
Assistência Social
do governo é a garantia de direitos universais, sem
A necessidade humana tem motivado as grandes setorialização, com linearidade, sem diferenças. Mas
descobertas, mudanças e reflexões. Ela aponta para a sociedade hoje é tão diferenciada, são tantas as neas relações sociais e ambientais em busca de soluções cessidades, tão divergentes as culturas, num fenômepara os problemas. O terceiro setor se constrói neste no com o qual o governo precisa lidar. Hoje ele se
esforça por manter programas de inclusão e atender
olhar e mobiliza, questiona, articula e realiza.
os "desiguais, de forma desigual" buscando promoHá uma grande preocupação no campo social quan- ver igualdade, mas para fazer isso tem que se desto a políticas públicas executadas por organizações dobrar, ato que, para ele, é sempre mais difícil, por
dos três setores (Estado, empresas e organizações da fugir à lógica da universalização que é sua própria
sociedade civil), como o Sistema Único de Saúde, característica.
o Sistema Único de Assistência Social ou mesmo a
Educação Infantil brasileira. Muitos percebem que, As organizações de controle social que atuam nos
no lugar de o Estado aproveitar a originalidade das municípios tomam contato com a maioria dos casos
organizações da sociedade civil para qualificar a po- de corrupção. Elas facilitam a identificação, denúnlítica pública, tende a terceirizar sua própria políti- cias e punição dos agentes que colocam em risco o
ca, pagando para uma organização da sociedade civil tripé da sustentabilidade. Para reflexão, é recomenexecutar ações determinadas fora e acima delas. Nes- dado o curta-metragem "Ilha das Flores", dirigido
sa terceirização, ocorre frequente precarização nas re- por Jorge Furtado, que ilustra a importância da atualações de trabalho das ONGs, além da perda de sua ção conjunta dos vários setores da sociedade. http://
www.youtube.com/watch?v=KAzhAXjUG28
contribuição original para a causa em questão.
Seja sob a forma de movimentos sociais, seja como
investimento social proposto por empresas privadas
ou a sociedade civil organizada, a mobilização popular historicamente tem sido importante para gerar transformação. Nesse sentido, ações derivadas de
esforços envolvendo os três setores tornam-se ainda
mais essenciais e os recursos tecnológicos constituem
elementos para potencializar tais ações em rede.
58
A atual legislação da administração pública, bem
como a precariedade na formação dos gestores públicos são dois componentes importantes que dificultam muito iniciativas bem sucedidas de cooperação público-privada. Torna-se urgente atuar nessas
duas dimensões para o aperfeiçoamento da gestão
pública.
De fato, o SUS ilustra muito bem essa complexida-
Relatório GSI JAM 2011
de. É um dos melhores sistemas de saúde do mundo e a saúde no Brasil persiste no conhecido caos
enquanto o poder público penaliza o contribuinte
com mais impostos. A emenda 29, por exemplo, que
fixa os percentuais mínimos a serem investidos anualmente em saúde pela União, por estados e municípios, se arrasta desde 2000. Naquele ano, a emenda
obrigou a União a investir em saúde, 5% a mais do
que havia investido no ano anterior e determinou
que nos anos seguintes esse valor fosse corrigido pela
variação nominal do PIB. Os estados ficaram obrigados a aplicar 12% da arrecadação de impostos, e os
municípios, 15%. Essa regra deveria ter vigorado até
2004, mas que continua em vigor por falta de uma
lei complementar que a regulamente. O verdadeiro
pacto pelo SUS seria uma atitude corajosa do poder
público, se aliada à excelência de administração da
iniciativa privada. Investimento Social Privado (ISP)
As mudanças profundas que vêm ocorrendo nas últimas décadas na economia mundial têm provocado
transformações na maneira como as empresas trabalham e constroem sua imagem ou marca perante a
sociedade. No Brasil, fatores adicionais como a democratização do país e problemas sociais e ambientais crescentes também implicam novas demandas
para essas empresas. Ao papel tradicional de gerar
bens e serviços, lucro, trabalho e pagar impostos,
somam-se desafios como tornar-se socialmente responsável e fazer investimentos sociais. E, de fato,
muitas empresas já demonstram preocupação, não
apenas com o lucro de suas atividades econômicas,
mas também com a sustentabilidade socioambiental
do entorno. De fato, a expressão Investimento Social Privado (ISP) corresponde ao repasse de recursos
privados para projetos de interesse público de forma
sistemática, voluntária, planejada e monitorada. E
como esse investimento privado de interesse público
contribui para a sustentabilidade das empresas? As
áreas de atuação do investimento social se alinham
entre as necessidades da sociedade e a estratégia da
empresa?
ideia envolve novas estratégias, conceitos e organizações que atendam as necessidades sociais, ampliando e fortalecendo a sociedade civil. A reflexão sobre
sustentabilidade e estratégias corporativas traz à tona
o questionamento quanto ao papel da comunidade
e suas lideranças locais formais e informais – seja
do entorno da empresa ou da própria região onde
ela está inserida – e sobre como essa comunidade é
ouvida nas suas demandas e expectativas. O diálogo
entre as empresas e seus stakeholders deve acontecer
a partir de temas de interesse de ambos, garantindo
que iniciativas propostas tenham valor compartilhado. Dessa forma, os atores sociais, sejam eles líderes
sociais, representantes do poder público etc. poderão
atuar como articuladores, mobilizadores, parceiros
de estrutura, parceiros de rede...
O Investimento Social Privado e a Sustentabilidade se complementam. O ISP tem muito a contribuir, investindo em projetos associados aos pilares
da sustentabilidade – impactos econômico, social e
ambiental. Dentro da empresa, as áreas de sustentabilidade e ISP devem estar alinhadas – enquanto
ISP tem foco mais claro, geralmente na comunidade externa à empresa, a sustentabilidade tem abrangência mais ampla, envolvendo todos os stakeholders. Mesmo com a diferença de foco, o espírito e os
valores que guiam sustentabilidade e ISP são muito
semelhantes – ética, respeito às diferenças, ênfase no
diálogo, entre outros. Há mesmo quem diga que,
bem gerida, a área de ISP pode se tornar uma espécie de reserva de ‘inteligência social’ da empresa,
por ser onde se desenvolve a capacidade de lidar e
conversar com públicos vários, não apenas da forma
como uma organização costuma se relacionar, mas
também comercial ou institucionalmente. Assim, os aprendizados do investimento social podem contaminar positivamente as outras áreas da
empresa, bem como os projetos de sustentabilidade. Um exemplo desse fenômeno é quando um bom
projeto de voluntariado consegue reunir funcionários de diferentes níveis hierárquicos, ou mesmo de
empresas na cadeia de suprimento. O tipo de ligação que se cria traz outra qualidade às relações entre fornecedores, clientes e parceiros. Nas empresas
onde os executivos dão prioridade ao tema, ocorre
uma mudança efetiva de cultura. Mas como envolver os executivos, costumeiramente tão voltados para
os resultados econômicos?
O ISP está ligado à sustentabilidade do negócio,
além da transformação social. Esse aspecto traduz
um conceito importante acerca da Inovação Social,
apresentado por John Elkington, co-fundador da
ONG SustainAbility: “o desafio da sustentabilidade
não é ser somente bom, mas transformar a economia
global num modelo mais sustentável de negócio”. A No mínimo, podem-se adotar duas perspectivas –
59
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
uma pelo custo, outra pela oportunidade. Pelo custo, a idéia é mostrar como o foco exclusivo no econômico pode ser prejudicial à empresa no médio e
longo prazo. Por exemplo, os bancos agregam cada
vez mais a análise dos riscos ambientais, depois de
terem percebido que muitos projetos aparentemente lucrativos resultaram em prejuízo a partir da incorporação dos passivos ambientais na conta. É em
oportunidades como essa que as empresas percebem
que a abordagem séria de questões sociais, ambientais e culturais pode diferenciá-las de seus concorrentes, além de melhorar a relação com seus diferentes
grupos de interesse. Idealmente, devem-se combinar
as duas estratégias, embora ainda não seja algo fácil
de concretizar.
Recentemente, Aerton Paiva (consultor em sustentabilidade) demonstrou uma situação em texto
publicado em seu blog (http://gestaoorigami.com.
br/aertonpaiva/about/). Em um edifício, 1/3 dos
moradores tinham crianças e queriam aprovar um
playground, enquanto os demais discordavam. Solicitaram uma avaliação por uma empresa, buscando identificar se esse tipo de melhorias interferiria
na valorização do prédio – resultado: instalou-se o
playground. Quando se percebe valor financeiro,
fica mais fácil argumentar. Dessa forma, as empresas
acabam também alinhando seu ISP ao negócio. O
engajamento dos altos executivos acontece somente
quando eles percebem o valor compartilhado da iniciativa. Isto exige a demonstração de que o interesse
público pode produzir impacto sobre o modelo de
negócio nos seus ativos tangíveis e intangíveis. Embora esta fala pareça muito empresarial, é o ponto de
ligação entre o negócio e o ISP, gerando valor compartilhado. Quando se cria essa conexão, a linha de
comando se mobiliza, cria indicadores e gerencia o
processo. Daí a importância de avaliar também o investimento social, mesmo que os indicadores sejam
intangíveis ou de longo prazo.
questões sociais onde podem agregar maior valor. A
partir daí, identificam uma agenda social corporativa conforme o grau mais plausível de compartilhamento entre negócio e sociedade:
• Questões sociais gerais: são áreas importantes, mas que não são diretamente afetadas
pelas atividades da empresa, nem têm influência na competitividade no longo prazo. Estão ligadas à boa cidadania corporativa
• Impactos sociais na cadeia de valor: definir as
áreas nas quais as empresas têm grande impacto
social ou ambiental. Caso, por exemplo, de indústrias que utilizam grande quantidade de água
e produzem efluentes, ou utilizam árvores com
matéria-prima, ou testam produtos em animais
• Dimensões sociais do contexto competitivo:
perceber em que medida os ambientes externos
afetam a empresa. Para um fabricante de automóveis, por exemplo, um fator importante é a condição das ruas e estradas no mercado onde opera
• Dessa forma, quanto maior for o valor estratégico do projeto desenhado, maior será o
engajamento dos líderes da organização.
• Na BASF, por exemplo, há uma série de
iniciativas de investimento social privado que
contribuem para o sucesso corporativo e social
no longo prazo. Todas têm atuação no desenvolvimento das comunidades do entorno das
unidades fabris, tendo como foco a educação
e a construção de uma base comum de informações sobre meio ambiente e ciência.
Considerando sua atuação na prestação de serviço e
não na venda de produtos, e percebendo isso como
um desafio adicional para a gestão da sustentabilidade, a Redecard desenvolveu uma proposta de voluntariado num dos programas do Instituto Redecard
– o Empreendedorismo Social –, com vistas a capacitar ONGs e Cooperativas em gestão para a sustenMichael Porter, diretor do Institute for Strategy and
tabilidade financeira, pela atuação de funcionários
Competitiveness, da Harvard Business School aprecomo consultores sociais, compartilhando conhecisenta uma reflexão acerca do desafio enfrentado por
mentos de negócio com as organizações.
cada empresa a fim de descobrir em quais áreas pode
criar valor com suas competências. Primeiro, elas de- É necessário repensar os valores éticos. O avanço e
vem entender seu papel em relação às questões so- crescimento da sociedade estão acontecendo numa
ciais: 1- as empresas não podem resolver todos os velocidade sem precedentes, difícil de acompanhar.
problemas sociais, nem arcar com o custo de fazer Muitos jovens não conseguem perceber como cheisso. 2- precisam abordar sua agenda social de ma- gamos até este ponto, como os eventos do século
neira proativa e estratégica. e 3- precisam agir nas passado moldaram o mundo atual; portanto, não
60
Relatório GSI JAM 2011
conseguem perceber riscos no futuro. Uma fórmula
precisa ser encontrada rapidamente, a partir da visão
utópica – uma nova ordem baseada na união da sociedade para resgatar valores na família, nas empresas, na política, nas relações sociais, nos templos e
nas escolas, com vistas a uma sociedade baseada no
mérito. em seu território, de modo a tornar-se eficaz. Desta
forma, mesmo que mudem os atores, o trabalho cria
raízes e vida própria. A definição dos papéis de cada
setor é fruto do amadurecimento da estratégia social
escolhida.
Muitas vezes debate-se o impacto do investimento
público na aplicação do investimento privado em
tecnologias verdes. Por exemplo, qual é a utilidade
desses subsídios no avanço das energias renováveis,
quando grandes subsídios são aplicados nas tecnologias da era do combustível fóssil em quantidades
ainda maiores? Desde 2007 até meados de 2010,
mais de 1,6 trilhões de dólares em investimentos
foram aplicados pelos governos na utilização dessas
tecnologias nas infraestruturas nacionais. Os resultados podem ser acompanhados pelo site: http://
www.ethicalmarkets.com/category/green-transitionscoreboard/
A compaixão e a solidariedade, que até pouco tempo
atrás eram os únicos motivadores para o financiamento de ações sociais, foram paulatinamente substituídas pela busca de resultados eficientes e de incentivos fiscais que beneficiassem empresas e demais
doadores. O resultado é que as organizações sociais
tiveram que se adaptar ao novo modelo de gestão,
imposto de um lado pela iniciativa privada, com
suas planilhas e projetos de curto e médio prazo e,
de outro, pelo poder público, que oferece incentivos
sob a forma de deduções fiscais contra a prestação de
contas dos recursos aplicados, nos moldes dos convênios firmados com as empresas contratadas.
No Brasil, os investimentos públicos em tecnologias
verdes são praticamente inexistentes. As ONGs ambientalistas trabalham com fomento à economia de
baixo carbono, com incentivos a tecnologias limpas.
Encontram grande dificuldade em obter financiamento, pois os processos licitatórios das grandes empresas públicas acabam elegendo projetos conservadores, sob a alegação de que é mais fácil ter controle
sobre o que já é conhecido.
As ONGs vivem hoje na intenção de se profissionalizarem, assumindo o desafio de ser empreendedoras em busca de sustentabilidade. Um dos caminhos
possíveis é a elaboração de projetos que atendam as
exigências das empresas e do poder público, priorizando e/ou redefinindo o foco do seu trabalho. Ir
do assistencialismo ao profissionalismo sem perder a
visão humanista é um dos principais desafios. Todo
este processo exige preparação do público interno
para uma nova gestão, que precisará de conhecimentos, ferramentas e instrumentos de avaliação para
dar credibilidade a seus resultados e metas observados. É um momento em que a ONG precisa estabelecer novas redes de relacionamentos, demonstrando
suas potencialidades, possibilidades de atuação e poder de inovação. Desta forma, é possível fortalecer e
criar novos negócios, multiplicando suas fontes de
recursos e parcerias.
Mobilização Social
Parece que a dificuldade em alinhar os três setores
reside na natureza, objetivos e resultados esperados
por cada um deles. Rebaixar as expectativas governamentais e corporativas quanto aos resultados de imagem, transferindo o foco para a eficiência e eficácia
dos programas – isso traria melhor aproveitamento
dos recursos e levaria à necessária profissionalização
das organizações do terceiro setor, com perspectiva
de abandonar a cultura do voluntarismo em prol de
Durante a década de 90, o setor estava inspirado e
um novo paradigma de fazer junto, mais e melhor.
em visível crescimento. As notícias de novas iniciaA questão da educação Ilustra esta fragmentação en- tivas e lideranças visionárias eram constantes. Pestre os setores: ali parece haver consenso quanto a suas soas empreendendo projetos ousados, vencendo os
mazelas, os diagnósticos abundam, mas não existe limites da criatividade, propunham soluções para
disposição para um projeto conjunto que inclua os problemas antigos. A sensação era de um setor jorecursos dos três setores num pacto pela educação vial e pioneiro. Vinte anos se passaram, a demanda
com objetivo, prazo e métrica definidos.
pela profissionalização se firmou. Entretanto, houve
Sair da esfera do meu para o nosso será o grande pouca renovação de lideranças na maioria das orgadesafio. A ação social não tem fronteiras e é preci- nizações. Quando alavancada, essa fase de desenvolso que o projeto social interaja com todos os atores vimento organizacional pode trazer profundas mu61
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
danças ao setor, mas ainda não é o que se percebe.
Por outro lado, essas duas décadas transformaram
algumas organizações em executoras de serviços públicos e em propositoras de projetos. Parece que a
competência para influenciar nas políticas públicas
ainda é pontual. O modo de fazer da empresa é adotado por algumas ONGs. Há quem diga que primeiro e segundo setores agem com a pose de quem
paga a conta, tirando das organizações do terceiro
setor a espontaneidade e a criatividade. Para outros,
avaliação e criatividade podem conviver, não sendo
necessariamente incompatíveis na rotina de atividades – a sistematização do aprendizado fornece subsídios para perceber o que está funcionando e o que
pode ser melhorado. A criatividade está na essência
e dá elementos para – sistematizando e avaliando
– aprender a partir do que a organização faz. Tornando parceiros esses movimentos aparentemente
antagônicos. E se as ONGs forem capazes de fazer
isso, poderão ajudar as empresas, apontando formatos mais adequados para seu próprio uso e para o
uso na interface, deslocando o processo burocrático,
‘planilhado’ para um lócus de interesse, curiosidade
e participação na avaliação.
mas com resultados eficientes e eficazes? Isso talvez
diga respeito a quem toma a decisão do investimento
na empresa. Se estiver no departamento de comunicação, é natural a preocupação com a repercussão, e
isso pode ser saudável. Se estiver em Relações Institucionais ou o projeto derivar da vontade de executivos, pequenos projetos podem florescer, muitas
vezes associados aos relacionamentos comunitários
que vão sendo construídos. Evidentemente, isso está
ligado a uma política de investimento social, mas a
maioria das empresas ainda não tem esta estratégia
clara. Marcelo Estraviz, da ABCR (Associação Brasileira de
Captadores de Recursos) comentou que, em 1992,
procurava ações envolvendo crianças em situação
de rua onde ser voluntário. Na Praça da Sé, em São
Paulo, viu que havia nove organizações trabalhando
numa área muito restrita e nenhuma delas cogitava agir em conjunto; cada qual continuaria com sua
própria iniciativa e seu próprio método, numa espécie de egoísmo filantrópico. Ressalvou que isso não
é prerrogativa das organizações do terceiro setor e
que a maioria das empresas e governos preserva suas
ações assinadas. Nesse processo de agir em conjunto,
Note-se que embora todos saibam que avaliar é pre- será que abririam mão de sua zona de conforto para,
ciso, muitas organizações importaram modelos de juntas estabelecerem soluções de consenso para progestão e tiveram que se capacitar para ser medidas blemas complexos?
por réguas da iniciativa privada e do poder público.
No caso específico do segundo setor, vale observar a
Não haverá sucesso no combate aos graves problepresença de empresas em vários estágios evolutivos –
mas socioambientais se ações não se derem de forma
algumas fazendo o pouco de que dão conta, outras
intersetorial. Mas as organizações precisam tornar
destinando verba, tempo e energia em ações mais
seu discurso um pouco mais transparente, ao adplenas. De outra sorte, há uma dúvida histórica
mitir que o conjunto de atores terá mais empenho
quanto à validade de desenvolverem suas ações com
quando o resultado das ações puder ser contabilium olho na imagem corporativa. Alguns diriam que
zado em votos para os governos, em lucro financeié inaceitável e que é função de toda pessoa jurídica
ro e imagem para as empresas e em cumprimento
cumprir com sua parte. Mas também não se pode
de missão pelas organizações, no conhecido jogo do
negar que é função da empresa gerar emprego e renganha-ganha-ganha.
da. E demonstrar resultados para seus stakeholders.
De qualquer modo, do lado da sociedade civil, per- De qualquer modo, deve-se ter em mente que as pescebem-se indícios de um setor que se moderniza, soas jurídicas são constituídas de pessoas físicas e que
como no amadurecimento da gestão, com destaque é preferível um empresário engajado a uma empresa
para a avaliação; a maior presença de organizações socialmente responsável. Até porque o empresário
que têm o judiciário como espaço de atuação; e inspira a empresa, mas o contrário dificilmente ocoro fortalecimento dos negócios sociais, em pauta que re. De qualquer maneira, as empresas continuarão
a Ashoka, visionária, trouxe no final dos anos 90.
buscando lucro, assim como os acionistas, desde que
não seja a qualquer custo. Já os empresários, executiA preparação das ONGs é inevitável e exigida, mas
vos, empregados... esses podem ir muito mais longe.
como fica a preparação e o foco das empresas acerca
de seus investimentos sociais? Como sensibilizá-las Tratando de doações, é possível desenvolver uma
para pequenos projetos, sem grandes repercussões, cultura da doação no Brasil na próxima década,
62
Relatório GSI JAM 2011
é dinâmica e, a todo momento, surgem novas lideranças e novas visões de como deve ser a sociedade
que queremos. Por esse motivo, há necessidade de
estarmos antenados e refletindo permanentemente
sobre o que acontece no terceiro setor. Os empreendedores sociais inovam nos campos da educação, da
saúde, da cultura etc. e se constituem em uma vanguarda transformadora da sociedade. A liberdade de
que gozam não se vê no setor privado, muito menos
Além de iniciativas, será que a sociedade tem desenno setor público. Eles potencializam revoluções nos
volvido boas "acabativas" – ou o compromisso de
campos em que atuam.
acabar o trabalho em algum momento? Há ações,
projetos, ONGs, fóruns que se reúnem até que um 2. O ciclo de vida de um projeto: na prática fazemos
problema seja definitivamente solucionado? En- diferença? Os projetos fazem diferença e ainda bem
quanto as organizações estiverem encantadas com que temos tantos prêmios paras as organizações do
o resultado que conseguem em suas ações, mas não terceiro setor, que se constituem em um verdadeiro
compartilharem isso com a sociedade, não haverá banco de dados de iniciativas que causam impactos. "acabativas". Nesse sentido, o governo pode fazer Eu participei da iniciativa da Fundação Banco do
uma ponte entre a iniciativa privada e a sociedade Brasil para criar um banco de tecnologias sociais.
civil organizada, transformando as inovações, as Esse projeto é importantíssimo e tem sido a inspipropostas diferenciadas em políticas públicas e am- ração para que tecnologias inovadoras sejam replipliando a escala. De qualquer modo, os resultados cadas. O projeto em si pode até acabar, mas o que
precisam ser mais evidentes, fora dos muros da ins- importa é o registro da tecnologia – isso não existia
tituição, chegar à escola do bairro, à igreja, enfim, há vinte anos!
tornar-se vívidos e palpáveis.
3. O papel das universidades: qual tem sido o papel
Uma questão que se impõe, hora ou outra, é a dos das universidades no desenvolvimento das iniciativas
recursos financeiros. Eles são suficientes para gerir as de investimento público e privado? A universidade
ações sociais e as organizações não sabem onde bus- tem um papel central para formar capital humano
cá-los? Ou são escassos mesmo? Talvez as duas situa- que irá viabilizar as iniciativas dos investimentos
ções ocorram. Há organizações rivalizando em busca públicos e privados. Os setores público e privado
da mesma fonte de financiamento e empresas que somente ganharam peso econômico e social graças
gostariam de beneficiar projetos, mas desconhecem à dedicação das universidades na formação de proorganizações de confiança. O caminho para unir os fissionais especializados para tais setores. O capital
pontos talvez seja o da divulgação. Exemplo claro humano é o principal capital de qualquer atividade.
é o FUMCAD (Fundo Municipal da Criança e do
No processo de mobilização, um dos aspectos cenAdolescente), que cresceu muito, mas ainda é destrais é a questão dos grupos de interesse. Só se moconhecido da maioria das empresas e instituições de
bilizam os interessados diretos e há espaço para inSão Paulo. O Fundo existe há mais de uma década
fluenciar, envolver previamente de modo a gerar esse
e as organizações ainda enfrentam dificuldade para
interesse. A questão é como fazer isso. É preciso que
apresentar projetos, captar recursos, prestar contas e
existam objetivos comuns para surgir engajamento.
dar visibilidade às ações sociais patrocinadas. TamNessa mobilização, também são válidas as parcerias
bém o despreparo de grande parte de organizações
entre instituições que atuam numa mesma área, ou
do terceiro setor para captar recursos de forma planum mesmo nicho. Muitas vezes, mobilizar organinejada e mediante projetos de médio e longo prazo
zações sociais e estabelecer parcerias com elas é o pripode ser um dos fatores que impedem a realização
meiro passo para gerar interesse em outros atores,
de mais ações.
como os próprios investidores e o poder público.
Três perguntas feitas por Daniel Brandão (MOVE) e
A sociedade brasileira é muito solidária e se mobiliza
respondidas por Luis Carlos Merege (IATS):
por causas. O problema é que o interesse é passa1. A visão e as lideranças: envelhecemos? A realidade geiro e as causas pontuais. O difícil é manter a mopartindo da condição de pouca qualificação atual.
Doamos para o Teleton, doamos até erroneamente
nos semáforos, mas poderíamos doar mais e melhor,
desde que as organizações soubessem também pedir
mais e melhor. Até (utopicamente talvez) o fim dos
problemas. Como no slogan da CARE: “somando
forças até o fim da pobreza”, como um desafio estimulante, engajado.
63
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
bilização. Mas mobilizar para um projeto de trans- pecíficos. No entanto, pesquisas recentes demonsformação social é mais difícil do que para ajudar as tram que é possível criar uma relação sadia em alianças estratégicas intersetoriais, nas quais os interesses
vítimas da enchente. individuais sejam preservados e, ao mesmo tempo,
A gestão de uma ONG é algo complexo. Na ponse produzam interesses coletivos. Pesquisas indicam
ta, costuma-se oferecer serviços de muita qualidade
que empresas que vinculam o que sabem fazer de
para quem não pode pagar, inovando a partir das
melhor no campo dos negócios ao meio social acaexperiências singulares. Por isso e ao mesmo tembam produzindo ações mais efetivas e sustentáveis.
po, há que conquistar terceiros financiadores que se
Por exemplo: organizações privadas de tecnologia
envolvam na causa. Nesta equação, sob o ponto de
que utilizam tais recursos em projetos sociais acavista da gestão da ONG restam algumas dificuldabam gerando uma ação social de maior qualidade,
des, como recursos ‘carimbados’ em rubricas, grane isso resulta em benefícios para a iniciativa privade preocupação na prestação de contas e pouco foco
da e para a sociedade. Por outro lado, organizações
no plano de trabalho, além da dificuldade em consociais também podem trabalhar como parceiras de
vencer o investidor quanto à necessidade de também
empresas, com seus conhecimentos e metodologias
apoiar as despesas fixas. Neste sentido, alguns prode intervenção que são muito efetivos. O importanpõem ‘educar’ o investidor, ao mesmo tempo em que
te, aqui, é que elas consigam preservar a autonomia
promovem um "choque de credibilidade". Uma hie a qualidade das ações que desenvolvem. Para que
pótese é trazer o investidor para mais perto, criando
isso aconteça, devem ser construídos projetos coletiuma parceria não apenas econômica, mas também
vos nos quais as empresas compreendam seu papel,
de gestão, buscando novos modelos e educando não
deve haver uma visão de parceria (integrativa) e não
apenas o investidor social, mas toda a comunidade
de tomador de recursos x investidor (visão assistennesse sentido.
cialista) e um olhar para a comunicação e a relação
Parece haver certa desconfiança impedindo a fluidez que se estabelece como elementos importantes nesse
desse processo. Do lado dos investidores, talvez falte processo. Tudo isso vai ajudar significativamente a
uma aposta na competência de quem faz e, do lado aprimorar a qualidade das alianças.
das ONGs, a compreensão dos interesses. O investi‘Educar’ investidores pode ser importante e a credidor quer saber qual é a lei de incentivo que está sendo
bilidade é a melhor abertura nesse sentido. Há uma
usada e, por vezes, demonstra pouco interesse pelo
lógica de poder envolvida na idéia de ‘quem paga’
projeto em si. Há aqueles que ‘investem’ porque preque ainda sobrepõe interesses de investidores aos de
cisam fazer TACs (Termo de Compromisso de Ajusrealizadores. Contudo, cada vez mais percebemos o
te de Conduta) com o poder público e a sociedade.
poder implícito dos resultados sociais e sua exposiHá aqueles que se ‘profissionalizam’ para maximização/divulgação. Isso aponta para a importância de
ção do uso dessas leis, estabelecendo institutos que
avaliar e entender a lógica do marketing, língua
são um tipo de investimento para reduzir impostos.
muito falada pelos investidores e também necessáPersonagens como esses ajudam a justificar a discusria às organizações sociais. Certas organizações têm
são do greenwash no mundo inteiro. De qualquer
aprendido muito com as ferramentas e linguagens
modo, o investidor social é movido por interesses
do mundo corporativo e agregam seu próprio jeito.
e não está de todo errado, pois está investindo e busComunicar bem o que fazem, avaliar o que é resulca obter retorno. Mas os representantes do terceiro
tado para o trabalho, uma gestão mais eficiente – são
setor propõem a criação de modelos novos, que vão
todos facilitadores para a aproximação. produzir diferença efetiva: projetos inéditos, inovadores, que consigam envolver a sociedade e mudar a Algumas ferramentas, como o questionário de medirealidade do público alvo. Podem ser simples, mas ção de capital social, ou o Marco Lógico para planede impacto, com perspectiva (e planejamento) de jamentos e avaliações do Banco Mundial, por exemcontinuidade, ‘amarrados‘ de forma que na troca de plo, têm contribuído de forma significativa para que
diretoria ou de gestor público, corram menos risco diagnósticos sobre relações e parcerias e planos de
de ser cancelados, levando por terra todo o esforço, ação sejam criados de forma mais efetiva. Esses instrumentos têm ajudado muitas comunidades e orrecursos e expectativa.
ganizações sociais no processo de construção social.
É fato que as organizações sociais têm interesses es64
Relatório GSI JAM 2011
Ainda assim, é sempre importante que tais instrumentos sejam avaliados à luz das necessidades do
contexto e, mais do que isso, que possam ser objeto
de discussão nas alianças estratégicas setoriais, por
exemplo, entre os diversos agentes envolvidos. Eventualmente, é possível combinar um modo de utilização ou de adaptação entre os diversos interessados
envolvidos. Essa é uma forma de a ferramenta estar
a favor das ONGs.
A credibilidade é irmã da Transparência. E ser transparente numa organização social está além de apresentar balanços e planilhas de custos. Transpira na
maneira como o gestor se porta dentro da instituição, como as decisões são tomadas, quais os meios
de comunicação que usa para falar com a sociedade
e para dentro dos seus muros. Muitas organizações
usam a roda de conversa com as suas crianças e adolescentes. Seria bom que estas rodas fossem ampliadas para a comunidade e envolvessem os investidores, a mídia, mediante ferramentas do marketing,
mas de forma nova, com foco no estabelecimento de
redes de comunicação. Uma roda de conversa é uma
ótima imagem. Talvez uma reunião de planilhas e relatórios ganhe outra legitimidade e consistência depois que o investidor for convidado a dar uma volta
na Praça da República com um educador (no caso de
um projeto do Quixote). Talvez indicar para todos
os atores as boas práticas nas parcerias fosse um bom
jeito de educar a todos. Comunicação deveria ser a ferramenta mais importante do terceiro setor. No frigir dos ovos, os investidores querem mostrar aos seus vários públicos
de interesse quais projetos socioambientais estão
apoiando. Simultaneamente, o público alvo que está
recebendo os benefícios do projeto precisa de esclarecimentos. Essa é uma das grandes dificuldades de
quem atua no terceiro e no primeiro setor e que o segundo setor faz muito bem. Ademais, nesta Sociedade do Conhecimento, percebe-se como a comunicação, que acaba se traduzindo em novos meios como
o twitter, facebook, orkut etc. tem se tornado o principal elemento de construção social. Pois parcerias,
alianças estratégicas intersetoriais, parcerias públicoprivadas somente podem ser originadas a partir das
relações que se constroem. E, claro, as relações, no
fundo, são feitas de comunicação.
ções e gerar transformação social. Em uma pesquisa
realizada pelo CEATS, percebeu-se o quanto, muitas
vezes, uma aliança estratégica entre empresas, organizações ou governos acaba ficando desalinhada em
função de dificuldade de comunicação ou de entendimento. Dessa maneira, olhar para a qualidade da
relação que se estabelece entre os diversos atores e
aprimorar a comunicação sobre os diversos elementos da ação social é um dos pontos mais importantes
em uma ação coletiva.
A desconfiança ou a necessidade de criar outra cultura de investimento social, em que os stakeholders
acreditem no trabalho desenvolvido e possam se vincular de forma mais efetiva passa por alguns pontos
que têm sido observados pelo CEATS em seus estudos. Um desses pontos diz respeito a como as empresas, por exemplo, percebem a ação de investimento
social. Quanto mais estiver vinculada à estratégia de
negócios corporativos, maior será o vínculo e mais
sustentável o investimento. Organizações privadas
que utilizam o próprio core business, ou seja, aquilo
que sabem fazer de melhor nas ações sociais criam
mais aderência nessas ações. Isso é o que alguns estudiosos chamam de estágio integrativo, em que a
empresa passa a estar diretamente ligada com suas
iniciativas sociais. O pólo oposto seria o das ações
meramente filantrópicas.
Outro ponto diz respeito à qualidade da relação que
se estabelece nas parcerias intersetoriais. O que o
Centro tem percebido nesse sentido é que quanto
melhor a qualidade de comunicação, maior confiança será gerada nessas alianças. Alinhar expectativas
entre os diversos agentes, construir projetos conjuntamente, pensar em indicadores e metas de forma
coletiva, preocupar-se com um ambiente onde todos
ganhem, garantir qualidade e liberdade de comunicação entre os parceiros é importante para que a
aliança estratégica aconteça de forma efetiva. Assim,
é possível construir projetos com qualidade e desenvolver um dos aspectos mais críticos na relação: a
confiança entre os atores.
Ao tratar do investimento público e privado, é essencial focar no compromisso e na continuidade das
iniciativas. É claro que primeiro, segundo e terceiro
setores têm tempos e formas de trabalhar distintas
e que é preciso aprender a agir juntos. Contudo, é
Nesse sentido, vários autores têm discutido como o necessário avançar na garantia e compromisso com
capital social, ou a capacidade de relacionamento é a continuidade dessas iniciativas. Um bom caminho
importante para promover articulações, mobiliza- talvez seja ter um bom projeto, planejado coletiva65
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
mente. Outro ponto importante é garantir a participação da comunidade onde a iniciativa será implantada. Tanto para o poder público quanto para a
iniciativa privada, esse processo nem sempre é simples, mas sem essa participação, as iniciativas têm
pouca chance de êxito. Do ponto de vista do governo, há ainda dificuldade em estabelecer metas de
longo prazo.
A participação deve ser buscada constantemente,
além de estar prevista como eixo na iniciativa, para
que seja efetiva e não mera formalidade. A participação, além de conferir legitimidade ao processo, permite que novos conteúdos sejam agregados e, sobretudo, constrói confiança e vínculos que contribuirão
para a sustentabilidade do trabalho.
Talvez possa ser desenvolvido um guia para elaboração do plano, com passos básicos que precisam
ser dados antes do início da parceria ou como sua
primeira atividade. Exemplo de atividade que poderia constar nesse guia: mapeamento preliminar das
principais entidades presentes na região e realização
de um ou dois encontros com grupo locais para apresentar a proposta do novo projeto que será implantado ali. E depois prever espaços periódicos de troca de informação e prestação de contas entre a entidade
que executa o projeto e a comunidade local, sempre
com participação do poder público. Assim, o poder
público cumpre parte do seu papel ao orientar mais
precisamente a entidade que executará o projeto, já
que muitas vezes falta essa orientação.
Adicionalmente, é fundamental que o Estado/Governo elabore um diagnóstico sério do Terceiro Setor e proponha políticas para ordenar e organizar as
atividades dos demais setores e dos governos mesmo.
O papel do Estado é de construir estas pontes, mas
também o Terceiro Setor precisa se organizar. Em
que pese o tempo de atividade das filantrópicas, o
Terceiro Setor, na condição de setor distinto do primeiro e do segundo, ainda é novo. Como um setor
"nascente" pode se organizar? Talvez da mesma forma que a indústria o fez no século passado. E buscar
a definição clara do seu papel, determinando o seu
propósito.
O conhecimento sobre o terceiro setor necessita
avançar dos instrumentos de gerenciamento para a
produção de conhecimento sobre o relacionamento
do setor com os demais. Este parece ser o desafio
ora lançado. Mas qual é o interesse que pode congre66
gar os recursos provenientes dos três setores, como
capital, humano, de conhecimento etc.? Talvez as
metas do milênio possam ser tomadas como base
para uma ação conjunta.
Direitos Humanos e o Aprendiz
O Brasil vive uma fase de crescimento econômico.
Nos últimos anos, vem se destacando como uma
ilha de otimismo e pujança, mesmo num cenário
internacional de crise econômica e incertezas para
a próxima década. Previsões publicadas recentemente prevêem um crescimento para 2010 da ordem de
7,2% em relação a 2009. Isso considerando que, nos
últimos três anos, quando a crise econômica mundial eclodiu, o país cresceu a taxas de 0,2%, 5,1% e
5,4% respectivamente. Tal crescimento não se reflete
na mesma proporção e velocidade para a melhoria
dos indicadores sociais brasileiros.
Segundo pesquisa elaborada pela Consultoria Internacional Manpower (veja matéria no site www.placardoaprendiz.org.br) junto a um universo de 1.000
empresas pesquisadas, 64% declaram ter dificuldade
para preencher as vagas disponíveis, exatamente pela
falta de mão de obra qualificada.
Nesse aspecto, a lei da aprendizagem tem muito a
contribuir. O grande diferencial está no fato de ela
garantir uma quota de vagas para os jovens de 14 a
24 anos, cuja empregabilidade está diretamente vinculada à formação educacional. Além disso, ela determina que o aprendiz esteja obrigatoriamente cursando ou tenha concluído o ensino médio. Hoje em
dia, há cerca de 200.000 aprendizes contratados ante
um potencial de 1.200.000 no Brasil inteiro. O desafio é aumentar esse número de contratados.5 Mas
por que existe um potencial tão grande de geração de
vagas não realizado?
As empresas têm função social, além da sua tradicional função econômica. Elas devem ser responsáveis
por qualificar esses jovens. Certamente se beneficiarão, uma vez que terão pessoal qualificado. Mas há
que se considerar que existe a função social, que extrapola a mera capacitação.
Mobilização e Saúde
O Brasil nos últimos 20 anos avançou muito nas
políticas públicas, principalmente na saúde. O SUS
tem conseguido diminuir a mortalidade infantil, realizado campanhas de vacinação, garantido trans-
Relatório GSI JAM 2011
plantes. As diferenças regionais ainda são enormes,
mas segundo alguns, isso decorre do subfinanciamento federal e de alguns estados, pois a maioria
dos municípios brasileiros tem investido mais do
que o previsto para garantir ações de saúde indispensáveis. O setor público deve estabelecer parcerias
com o setor privado, mas com metas claras que garantam a transparência dos recursos públicos diretos
e indiretos, pois a responsabilidade da gestão é estatal e o setor privado é complementar. Cabe dizer da
necessidade de regulamentar a Emenda Constitucional 29 para garantir o uso correto dos recursos e destinar mais recursos federais para o sistema de saúde.
Essa busca é por uma política pública que trabalhe
ideias, desde mudanças no planejamento das cidades, maior oferta de transporte público, até o aumento da prática de esportes nas comunidades. E
crie novas soluções por meio da educação e informação, com o envolvimento de todos estes setores.
Ainda soa estranho o tratamento da obesidade infantil como questão de saúde pública, quando ainda
persiste a discussão sobre a miséria e a fome, que
ainda provocam milhares de mortes de crianças por
desnutrição – aqui fica clara a atualidade da expressão País dos contrastes: entre as oito maiores economias do mundo e entre as cinco piores distribuições
de renda do planeta. Tanto os governos quanto o
mercado só farão investimento social, seja na saúde
ou nas demais áreas a partir do momento em que
perceberem nisso vantagens para seus objetivos. Para
ser mais claro: voto para políticos e lucro para empresários.
O SUS/SP tem como parceiro histórico as Santas
Casas, entidades filantrópicas que recebem recursos
por serviços prestados a ele ou por convênios globais, além de recursos indiretos pela desoneração do
recolhimento patronal da folha de pessoal e outros
impostos. Nem sempre essa parceria é fácil, pois falta profissionalização da gerência de algumas instituiNos últimos 35 anos, o Brasil passou por uma imções e a questão do trabalho médico na maioria das pressionante transformação. Completou a transiSantas Casas médias e pequenas ainda não foi resolção de país rural para sociedade urbana e industrial,
vida e estabelece uma relação de trabalho precária.
deixou para trás índices vergonhosos de mortalidaO Estado de São Paulo criou as OSs (Organizações de infantil e analfabetismo e, depois que conseguiu
Sociais) para gerir novos hospitais e, recentemente, a domar a inflação, nos anos 1990, consolidou um
Lei foi alterada para permitir atendimento a convê- aumento substancial da renda da população. Esse
nios em 25% dos leitos dessas instituições. Tal me- conjunto de fatores permitiu reduzir drasticamendida abre importante precedente que pode prejudi- te o histórico problema da desnutrição no Brasil. E
car o atendimento aos pacientes do SUS, que terão resultou numa impressionante mudança no padrão
menos leitos disponíveis, fazendo aumentar as filas, físico do brasileiro. Desde 1974, quando foi feita a
primeira pesquisa familiar que registrou peso e altura
principalmente de cirurgias eletivas.
dos entrevistados, a população tornou-se mais alta.
O Instituto Movere atua desde 2004 na prevenção e
O déficit de altura entre crianças declinou da faixa
tratamento da obesidade infantil. Pesquisas recentes
dos 30% para menos de 10%. Nesse mesmo períapresentam números alarmantes sobre o aumento da
odo, o brasileiro ganhou peso. Muito peso. E é aí
obesidade no mundo. Nas últimas três décadas, esse
que a boa notícia começa a dar lugar à preocupação.
número dobrou entre a população obesa. E o Brasil
Pois com esse aumento do poder aquisitivo, as famíacompanhou essa tendência. Porém o que fazer com
lias foram gradualmente substituindo a alimentação
esse dado? A partir dele, pode-se dirimir que o quatradicional da dieta do brasileiro – arroz, feijão, hordro atual tende a piorar se providências não forem
taliças – por bebidas e alimentos industrializados,
tomadas.
como refrigerantes, biscoitos, carnes processadas e
O enfretamento da obesidade encontra as mesmas comida pronta. Tudo mais calórico e, em muitos cadificuldades de interlocução e colaboração entre sos, menos nutritivo. Esses novos alimentos introsetores discutidas neste fórum, o que traz limites duzidos nas práticas alimentares da população são
para as soluções compartilhadas e abrangentes que muitas vezes mais baratos e fáceis de ser incorporasão exigidas quando se trata de enfrentar problemas dos. Com essa transição nutricional o déficit de peso
complexos. Porém o mote dessa interdisciplinarida- atinge hoje menos de 5% da população – o que é um
de deve ser trabalhado pela busca de uma política indicador social positivo da maior relevância. Mas o
pública em um novo contexto.
sobrepeso e a obesidade explodiram.
67
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
A última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que, se persistir
o ritmo de crescimento no número de pessoas acima do peso, em dez anos o país terá se igualado aos
Estados Unidos. A Pesquisa de Orçamento Familiar
(POF) divulgada pelo IBGE mostra que em todas as
regiões do país, em todas as faixas etárias e em todas
as faixas de renda aumentou contínua e substancialmente o percentual de pessoas obesas e com excesso
de peso. O sobrepeso atinge mais de 30% das crianças entre 5 e 9 anos de idade, cerca de 20% da população entre 10 e 19 anos e nada menos que 48% das
mulheres e 50,1% dos homens acima de 20 anos.
Entre os 20% mais ricos, o excesso de peso chega a
61,8% na população de mais de 20 anos. Também
nesse grupo concentra-se o maior percentual de obesos: 16,9%.
O Instituto Movere vem recebendo requisições de
atendimento da Secretaria do Estado da Saúde, para
atendimento de crianças. Esse dado já comprova que
a demanda está crescendo. Ademais, o SUS tem um
papel fundamental no trabalho com obesidade mórbida, mas não tem estrutura para fazer certo tipo de
intervenção.
Nunca é demais reforçar a orientação quanto aos
problemas que esta doença pode acarretar a saúde da
população. Obesidade é mais do que um problema
com a aparência, é um perigo para a saúde. Milhares de mortes relacionadas acontecem todos os anos.
Vários problemas médicos graves têm sido ligados
à obesidade, incluindo diabetes tipo 2, doenças no
coração, pressão alta e infarto. A obesidade também
está relacionada a maiores taxas de certos tipos de
câncer. Homens obesos têm maior probabilidade de
morrer de câncer de cólon, reto ou próstata. Mulheres obesas têm mais chances de morrer de câncer de
mama, útero e ovários. Outras doenças e problemas
de saúde relacionados à obesidade incluem:
• Cálculo biliar e doença na vesícula biliar.
• Doença no fígado
• Osteoartrite, uma doença na qual as articulações se deterioram. Isso pode ser resultado de excesso de peso nas articulações.
• Gota, outra doença que afeta as articulações.
• Problemas pulmonares, incluindo apnéia do sono.
• Problemas no sistema reprodutivo de
68
mulheres, incluindo infertilidade e irregularidades no ciclo menstrual.
Acrescente-se o fato de que importantes custos recaem sobre a sociedade, principalmente médicos e
hospitalares para tratar a obesidade e doenças associadas. Em muitos países, os custos diretos chegam
a 2 ou 7% do orçamento total de gastos com saúde.
No Brasil, o total dos gastos foi equivalente a 3,02%
dos custos totais de hospitalização de homens e a
5,83% em mulheres, correspondendo a 6,8 e 9,3%
de todas as hospitalizações. Hoje se gasta 1,5 bilhão
com a obesidade em nosso país, portanto seu tratamento precoce e prevenção trarão benefícios econômicos, sociais e ambientais.
Transparência
A luta contra a corrupção, a impunidade e a busca
por maior transparência por vezes leva a fazer indagações como a provocação a seguir, compartilhada
por Yara Cavini (Guará – Associação Guardiões da
rainha das Águas, filiada à Rede Amarribo/IFC):
Somos todos corruptos “A conclusão do título é
abrupta, vem de chofre como um tapa, mas é verdadeira. A corrupção, não apenas em nosso país,
mas em nosso Estado, em nossa cidade, é aplaudida
e, quando não ostensivamente, admitida como um
fato da vida, como as chuvas de verão ou enchentes
em Santa Catarina. E muitas vezes abertamente. Aliás, o Estado Brasileiro nos trata como súditos corruptos aos duvidar de nossa palavra e exigir sempre
um carimbo, uma autenticação, um documento a
mais, para comprovar o que afirmamos. Somos, desde o início, tratados como malfeitores, em qualquer
lugar, especialmente numa repartição pública. Acostumamo-nos com esse tratamento e o reproduzimos
na esfera privada. Afinal, como saberei se o que o
outro fala é verdade se todos somos corruptos e impera a esperteza?”
A corrupção muitas vezes é endêmica e acontece
com tanta frequência que nos sentimos como que
anestesiados. Esquecemos que há uma diferença entre o habitual e o normal. Temos enfrentado sérios problemas no trabalho de
combate à corrupção em nosso município: A princípio enfrentamos a ira e a oposição dos detentores dos
Poderes, Executivo e Legislativo. O Legislativo tem
procurado dificultar ao máximo o nosso trabalho em
Cachoeira Dourada/GO, inclusive até com ameaças.
Relatório GSI JAM 2011
O Executivo, além de não atender nossas Petições e
Solicitações, ainda tem procurado colocar a população contra a ONG; a comunidade de Cachoeira
Dourada é muito dependente de programas sociais e
sempre as famílias têm algum parente que depende
de contratos de terceirização do governo municipal.
O que dificulta ainda mais nosso trabalho. Pessoas
ligadas ao Executivo, não sei se por medo de perderem os contratos, tem também nos ameaçado verbalmente.
O Ministério Público, que tem o dever constitucional de fazer valer as leis, defender os interesses da
sociedade e velar pelo erário público, não tem dado
andamento na maioria de nossas representações e
nem se pronunciado o porquê.
Como continuar um trabalho de voluntariado em
meio a todas essas dificuldades e empecilhos? Onde
encontrar estímulo para tanto? Necessitamos de mudanças urgentes nas leis, nos costumes e no aprimoramento das instituições!
Sustentabilidade das Organizações
A intersetorialidade é defendida como um meio eficaz de aplicação de recursos em projetos que buscam resolver problemas socioambientais. Pode ser
compreendida como ações conectadas e ordenadas,
onde Governos, Mercado e Organizações sem fins
lucrativos se alinham, cada qual com seu papel e sem
sobreposição, na busca de soluções para questões
que demandam ação conjunta. A grande maioria
dos participantes do JAM já não tem dúvida quanto à necessidade de gestão profissional, transparência pública e avaliação de resultados como condições
para o sucesso de qualquer empreendimento social.
Mas como tratar as relações entre público e privado,
de forma que não haja confusão de papéis e nem
substituição de atribuições, como quando instituições da sociedade civil se tornam responsáveis por
programas públicos, como se fossem o próprio governo?
As entidades bem intencionadas – empresas ou
ONGs – precisam ter em mente que o que compete
ao poder público cabe a ele realizar. A rede Amarribo/IFC, em seu trabalho junto às ONGs de Controle Social nos municípios brasileiros, costuma vê-las
tomando o lugar do poder público onde ele não funciona. Como tratar essa questão? A resposta é: deixar
claros os limites de atuação e o objetivo de auxiliar, nunca de realizar o que é competência do Estado.
Alguns pontos sintetizados e questões propostas por
Isa Guará (UNIBAN): Parece consensual que o investimento privado em
projetos sociais, ambientais e culturais é importante
para a promoção do desenvolvimento local, a mitigação da pobreza, a preservação ambiental, o atendimento as necessidades globais de sujeitos e comunidades, mas também está claro que é “preciso fazer
junto” (investidores + organizações; organizações +
governos; Organizações/empresas + comunidades)
desde o planejamento das ações para que o impacto seja maior e mais efetivo. Isto é muito complexo,
quando se tem de um lado interesses corporativos,
resistência a temas mais polêmicos e a investimento
em controle social, equipes com boa formação acadêmica, focalização desvirtuada das demandas efetivas da comunidade e, de outro, instituições ainda
pouco profissionalizadas com equipes mal remuneradas, falta de recursos para a garantia da sobrevivência institucional básica, cultura assistencialista etc.
Um desequilíbrio de poder financeiro e técnico que
leva algumas organizações a usar expedientes inadequados e às vezes ilegais para manter-se atuando
(mera constatação, sem base de pesquisa a respeito)
O estabelecimento de certo grau de confiança e segurança entre investidores e organizações parece fundamental para se obter apoio. Mas as causas, motivações e estratégias de cada um dos lados têm vários
pontos de tensão. Um deles, já apresentado aqui: A
exigência de planejamento e de resultado, o monitoramento das ações foram contribuições importantes
que os investidores aportaram para as ONGs, mas
não houve correspondência em investimentos que
garantissem a continuidade destas ações. Os investidores esperam que a organização tenha o básico
para atender ao que se dispõe, com o apoio de poder
público, mas esta equação não fecha. Portanto, as
ações não são planejadas ou avaliadas para produzir
conhecimento e sim, quando ocorre, para responder
a uma demanda formal do investidor – seja ele público ou privado. O governo, que hoje é o principal “parceiro”- financiador das ações desenvolvidas pela maioria das
organizações “terceiriza” serviços, é burocrático,
mastodôntico (difícil estabelecer contatos, articular
e definir projetos de trabalho entre tantos departamentos, chefes, coordenadores, secretários etc.) que,
como diz uma colega aqui, tem talento para a procrastinação. Mas o governo é o único capaz de esta69
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
belecer políticas e programas contínuos, de atender
aos direitos universais da população, etc.. E, além
disso, o poder público tem limitações legais, normas e limites que ajudam a imobilizar ou postergar
ações. Trabalhei lá e sei que há uma barreira quase
incontornável nos “departamentos jurídicos”. Vejam
que mesmo assim a corrupção não dá trégua. Que
tal pensarmos em outras formas legais de controle
dos recursos públicos? Como ajudar os governos a
valorizar outros resultados além de pretender fazer
marketing com “inaugurações, construções, discursos...”? Seremos capazes de influenciar as políticas
públicas com as “tecnologias sociais” (como pretendemos) ou será necessária uma ação política de outro tipo? Daniel nos provocou dizendo: na prática
fazemos diferença? Eu responderia: construímos algumas pequenas mudanças, mas a diferença só acontecerá se estas mudanças forem potencializadas pelas
comunidades e pelo poder público local. A mobilização para determinadas ações têm momentos de ápice – quando se acende a fogueira – mas há
um declínio na manutenção e no acompanhamento
dos processos, porque isto exige disposição e tempo
para “manter acesa a chama”. Por isso, gostei bastante da interrogação colocada aqui sobre “iniciativas”
e “acabativas”. Diz o colega Marcelo (Estraviz): Teríamos coragem de abrir mão de nossas zonas de conforto, para junto a mais gente, estabelecer soluções
de consenso para problemas complexos? Ou: Seria
possível pensarmos acordos para resolução de problemas, até o fim deles? Preciso contar que não li nenhuma referência aos
fundos públicos frutos de incentivos fiscais como o
Fundo dos Direitos da Criança e do Adolescente, gerido pelos Conselhos, que, aliás, foram instituídos
com a clara intenção de que fossem uma Câmara de
negociação e de estabelecimento de consenso sobre
prioridades de investimento e controle social da aplicação de recursos públicos ampliados com a contribuição das empresas. Infelizmente sua operação tem
sido muito precária, com a luta de interesses político-partidários e institucionais prevalecendo sobre
um planejamento/avaliação sério das ações desenvolvidas. Só lembrando, a Constituição brasileira (art.
204) e o ECA definem a execução municipalizada
das ações; a criação dos Conselhos; a manutenção
de fundos da infância e da adolescência vinculados
aos Conselhos de Direitos e a necessidade de mobilização da opinião pública para participação nos es-
70
paços de formulação, gestão e controle da política de
direitos (art. 88, ECA). Gostaria de ouvir os colegas
sobre isto. Fiz uma provocação ontem sobre a mudança de foco
do investimento social – lato senso- para o investimento ambiental – strictu senso. Será que minha
percepção está equivocada? Será que sob a bandeira da sustentabilidade, as questões sociais (demandas de proteção social, educação, saúde, renda) estão
equilibradamente contempladas em relação à questão ambiental, que hoje se tornou a ‘bola da vez’?
As coisas têm melhorado muito e rápido, considerando que 85% das organizações sem fins de lucro
têm menos de 15 anos de existência. Em muitas situações, as ONGs são mais eficientes que o poder
público – as Santas Casas de Misericórdia demonstram isso há mais de cinco séculos no Brasil. Há experiências reportadas em diversos setores, da assistência social à preservação ambiental. Em São Paulo,
mais de 80% do serviço social e de saúde está nas
mãos das instituições sem fins lucrativos. A parceria
é bem-vinda, mas demanda definição clara de papéis
e de fiscalização adequada. Qual é o papel de quem?
Muitas ONGs, para ter patrocínio e sobreviver, aceitam as condições do governo, com a relação difícil
que isso acarreta. Um exemplo são as metodologias
do tempo em que, da liberação do orçamento até
a liberação para compra do equipamento, passa-se
tanto tempo que os valores mudam. E depois, seguese um processo burocrático longo e complexo.
Essas organizações, em sua maioria, conhecem a comunidade melhor que o poder público e a iniciativa
privada. Mas assim como o Estado pode muito, mas
não pode tudo, também elas não podem se arrogar a
incumbência sozinhas, especialmente em tarefas que
são função do Estado. A parceria, neste sentido, tem
que ser ampla, solidificada em propósitos que não
sejam pontuais e pactuada com foco no desenvolvimento local. Ademais, o que aconteceria se essas
organizações decidissem não trabalhar? seria o caos!
A falta de transparência, por exemplo, é um misto de
descaso, preguiça e medo. O aparato estatal é lento,
procrastina e teme ser transparente. Este medo é filho
direto do temor da participação popular. O modelo
de gestão pública no Brasil – em que pese a Constituição Parlamentarista – está muito mais para uma
estrutura hierarquizada com um poder central do
que para uma estrutura mais linear e de trabalho em
Relatório GSI JAM 2011
rede, como propõe o Terceiro Setor. Ainda se vêem
governos "cabrestando6" eleitores com ações sociais
que poderiam ser feitas com maior alcance e eficácia.
Há empresas fazendo propaganda de responsabilidade social com dinheiro de tributos (renúncia fiscal),
e pessoas vivendo à custa de organizações sem fins de
lucro que transformam em verdadeira finalidade os
"empregos" de seus associados, em lugar de atender
a questão de interesse geral, mesmo considerando
que essa não é a regra.
Se houvesse um levantamento consistente sobre o
volume de recursos investidos naquilo que se chama
genericamente de programas sociais e que incluem
programas de geração de trabalho e renda, de inserção pela cultura, pelo esporte, de segurança alimentar, de cultura de paz, de educação assistiva, de
apoio aos portadores de necessidades especiais etc.,
seria possível ver que se trata de um montante expressivo de recursos financeiros de origem nacional
ou estrangeira, de empresas privadas ou órgãos públicos ou ainda um mix de todas estas fontes. No entanto, apesar do investimento, os resultados obtidos
deixam a desejar. A inserção cidadã, a autonomia e
a emancipação das comunidades-foco destes investimentos estão longe de ser alcançadas. Por que os
investimentos públicos e privados na questão social
e também na questão ambiental têm resultados tão
modestos e capacidade tão reduzida de promover as
transformações perseguidas? Quando as empresas querem propor parcerias para
realização de cursos rápidos de capacitação, geração de renda, desenvolvimento humano e local, esquecem que há alguns passos anteriores, quando a
maioria desse público termina o segundo grau e é
analfabeto funcional. A ONG não é responsável pela
falta de base na educação do país, mas mesmo assim,
tenta suprir a deficiência. Três meses não capacitam
ninguém. Esse é um tempo mínimo e não factível.
Talvez esteja faltando compromisso com o término
da ação.
As tecnologias sociais que as ONGs desenvolveram
no correr dos últimos anos podem se tornar políticas
públicas para atender um número maior de pessoas. São experiências testadas e moduladas no dia-adia. Reaplicadas em outras comunidades mediante
a adaptação de atores e situações, pode surgir um
caminho comum. Pois de que adianta um livro paradidático com o texto “Papai foi ao supermercado,
estacionou o carro na garagem e a mamãe guardou
as compras no freezer.” Que papai? Que carro? Que
supermercado? Que freezer?
O Estado acaba tendo que fazer o genérico e não
consegue descer na especificidade, como as ONGs
fazem com sabedoria e naturalidade, preocupadas
com os jovens que falam alto, que dormem por
exaustão, que levam em média duas horas de condução para chegar ao seu destino e não são respeitados
em seus direitos e deveres. Segundo o Aurélio7, ser
cidadão é ter direito civil, político e social.
As ONGs têm capacidade, conhecimento construído e credibilidade, além de flexibilidade para agir
e provocar transformações muito mais efetiva e rapidamente que o poder público ou as empresas.
Ocorre que elas raramente têm os recursos para implementar ações no tempo devido e a abrangência
necessária, inclusive porque, no Brasil, elas foram vítimas de uma campanha difamatória que as tornou
sinônimas das ONGs fictícias, criadas por políticos
e mentirosas. A partir daí, as ONGs de verdade com
história e trabalho sério, encontraram portas fechadas em alguns órgãos governamentais e empresas públicas. As empresas privadas, por sua vez, passaram a
criar seus próprios departamentos de responsabilidade social, sustentabilidade, meio ambiente etc. Eles
criam e implementam suas ações.
As ONGs ambientalistas especificamente, se profissionalizaram muito. Cresceram em conhecimento
e hoje têm grande número de doutores, mestres e
pesquisadores em seus quadros, passaram a produzir
conhecimento de alto nível. Muitas vezes, como no
caso das mudanças climáticas, subsidiaram os governos e até mesmo órgãos internacionais. Por outro
lado, não têm reconhecimento no Brasil, tratados
com desconfiança por políticos e pela mídia, acusados de querer barrar o progresso, de estar a serviço
das instituições estrangeiras etc. Têm buscado fundos no exterior para poder avançar com seus projetos
e programas, pois sem as elas, sem seu trabalho sistemático e focado na esfera ambiental, sem os estudos
de impacto e sem o saber acumulado nos últimos
anos, não há progresso.
De qualquer modo, nem todos os políticos são ruins. Há muita gente boa, interessada e pronta a se unir às
lideranças sociais. Nem todas as empresas estão preocupadas apenas com seu marketing. O que precisa
ser feito no Brasil é unir os recursos e a capacidade de
gestão das empresas, com o respaldo jurídico e legal
71
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
do governo e a expertise, flexibilidade e capilaridade
das ONGs. Desta forma, haverá projetos com possibilidade de se transformarem em políticas públicas.
Caso contrário, o trabalho será sempre pontual.
Experiências compartilhadas durante o painel
GUARÁ: A Associação Guardiões da Rainha das
Águas – GUARÁ é uma Ong de Controle Social,
filiada à Rede Amarribo/IFC. Foi criada em 2007
para lutar contra a corrupção que, há décadas, vinha destruindo a cidade de Águas da Prata SP. Temos aqui um santuário ecológico – são 52 cachoeiras catalogadas –águas medicinais milagrosas e um
balneário que já foi o maior da América Latina, de
arquitetura premiadíssima do arquiteto João Walter
Toscano, que foi escolhida para fazer parte do acervo
permanente do museu George Pompidou, em Paris. Esse balneário está fechado há vinte anos por incompetência do poder público local. Conseguimos
muitas vitórias contra a corrupção, afastamos o grupo que vinha dominando a cidade e agora estamos
começando a desenvolver projetos para a recuperação da estância, dos seus pontos turísticos, projetos
para capacitar jovens para a cidadania e nosso sonho é ver o Balneário em pleno funcionamento. Para
isso buscamos contar com investimento de empresas
privadas interessadas em explorar esse filão que é o
turismo saúde, turismo ecológico e esportes radicais
(rapel de cachoeira, voo livre - temos uma plataforma de salto no Pico do Gavião que é uma das melhores do país, arvorismo, canoismo, etc). Essa infraestrutura de esportes já existe e alguns empresários
locais vem investindo em pousadas e locais para recuperação da saúde e do equilíbrio interior em meio
à natureza mágica de Águas da Prata.
As entidades de Controle Social como as da rede
Amarribo/IFC preparam o terreno, limpam a área,
arrancam as ervas daninhas da corrupção para que as
verbas públicas cheguem intocadas ao seu destino e
sejam usadas corretamente pelos gestores municipais
(prefeitos e vereadores) e assim o setor privado sintase motivado a participar. Esse trabalho, feita há dez
anos, já mostra resultados animadores e nossa meta
é que haja pelo menos uma entidade de Controle
Social em cada município brasileiro. tem por missão atuar na educação para o empreendedorismo. Essa iniciativa está totalmente vinculada à estratégia empresarial da Redecard e à visão da
UNESCO de que a educação para o empreendedorismo é uma das vertentes para o desenvolvimento
social. A Redecard conta com significativa participação do pequeno e médio varejo em sua base de clientes; dessa forma, o Instituto Redecard tem o papel
de ser a Inteligência Social da empresa, levando conhecimento de gestão para esse público que enfrenta elevado índice de mortalidade, contribuindo para
sua redução. Além disso, capta, através de iniciativas
específicas, oportunidades, demandas e expectativas
desse público para atendê-los da melhor maneira.
Ou seja, essa é uma iniciativa que gera valor compartilhado entre o negócio e a sociedade. Uma das
iniciativas do Instituto é desenvolver/adequar produtos e serviços ao público de MPEs e MEIs (microempreendedores individuais) com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento real de seus negócios,
saindo do conceito de oferecer os mesmo pacotes de
serviço oferecido para os grandes clientes. É sabido
que as demandas e expectativas são diferentes, mas
para torná-las mais tangíveis, conduzimos encontros
em três capitais para conversar com empreendedores
de diferentes segmentos, com o objetivo de ouvi-los
e captar suas expectativas, seu entendimento com relação ao desenvolvimento dos meios de pagamentos,
demandas e até mesmo problemas. Foi uma experiência muito rica que deixou claro a problemática
do capital de giro, elemento fundamental para esses
empreendedores. O Instituto teve o papel de articulação de todo o processo e de consolidação das percepções captadas e a Redecard, por sua vez, irá trabalhar esses aspectos de forma a atender o máximo
possível essas demandas. Segundo levantamentos do
SEBRAE, mais de 50% dos empreendimentos morrem até o terceiros ano de existência. Muito decorrente da falta de conhecimento de gestão por parte
dos empreendedores. Consequentemente, pode-se
dizer que esse índice deve ser uma preocupação da
Redecard, por ter esse público como cliente.
Universidade da Água: Atualmente nós da Universidade da Água estamos envolvidos num projeto que
pretende mobilizar uma comunidade para que preservem um córrego importante contribuinte de um
de nossos reservatórios de água que é a GuarapiranInstituto Redecard: Para reforçar o seu compromis- ga. Isto inclui mudança de comportamento para que
so com a Sustentabilidade, a Redecard implemen- não se atire lixo no córrego e se conscientizem do
tou, em janeiro de 2010, o Instituto Redecard, que risco de ocupar as suas margens. Remoção das mo72
Relatório GSI JAM 2011
radias já entra num outro plano que já não temos se com a iniciativa pioneira de criar o Centro de
Estudos do Terceiro Setor - CETS, na FGV. O impoder.
pacto de tal iniciativa foi compensador visto que ouOutra dificuldade que encontramos foi a reforma de
tros centros acadêmicos foram criados com o mesmo
uma calçada no bairro da Vila Pompéia onde se lepropósito. Quebrou-se um paradigma já que o covou dois anos para convencer o patrocinador, entrar
nhecimento de gestão estava limitado à gestão públiem entendimento com o poder público e até com
ca e privada. os vizinhos que iriam receber a reforma da calçada
de graça.
Participaram da criação deste tópico
A violência nas regiões metropolitanas vem aumentando exponencialmente. Os condomínios
verticais estão virando verdadeiros campos de concentração, inclusive com os mesmos arames farpados. (Lançamos a Campanha Conheça o Seu
Vizinho como forma de tentar resgatar a ajuda
mútua e solidariedade) http://www.calameo.com/
books/00019162354ca001530e9 Vivemos um momento expansão constante do numero de ONGs, fazendo parte do papel do estado.
Que no caso das ONGs chamadas ambientalistas,
grupo de que fazemos parte com a Universidade da
Água www.uniagua.org.br, essa expansão se dá a partir da Eco 92 como sabemos. Entretanto, como andam os investimentos públicos e privados, que são
a fonte de financiamento das ONGs para executar
seus projetos socioambientais, tentando cumprir a
missão que se destinou cada uma delas? Como anda
a sustentabilidade dessas ONGs nos quesitos recursos humanos e materiais para poder exercer os seus
papeis? Temos profissionalismo suficiente para captar e gerir os parcos recursos disponíveis no "mercado"? Como podemos remunerar o tempo/serviço
desses profissionais, voluntários ou não, para que
não tenham que se dedicar a outras atividades para
sobreviverem? A produção de projetos candidatos a
os fundos oficiais tem a qualidade necessária para
obtenção de resultados efetivos? Como podemos reduzir a pressão do greenwash? Na falta de transparência o que predomina: incapacidade de gestão, falta de controle e fiscalização ou má fé? Investimento
social privado ou continência com o chapéu alheio
(leis de incentivos)?
Alcely Barroso, Ana Carolina Velasco, Ana Lucia
Vieira, Andrea Shpak, Antonio Ribeiro da Silva Jr.,
Bell Pereira, Carolina de Mattos Ricardo, Cleide
Paiva, Dagmar Garroux, Daniel Brandão, Daniel
Vaz, Daniele Paz, Eliane Belfort, Élida Pricila Brasil
de Matos, Elidia Novaes, Ester Rosenberg Tarandach, Fernando Nogueira, Fernando Rossetti, Francisco Buonafina, Franco Reinaudo, Fu Kei Lin, Gilmar
Altamirano, Graziela Bedoian, Hazel Henderson,
Isa Maria Guará, João Ribas, José Luiz Telles, José
Ricardo Franco Montoro, Luiz Carlos Merege, Marcelo Estraviz, Maria Iannarelli, Marta Salomão, Melvyn Levitsky, Miriam Duailibi, Paulo Roberto Feldmann, Priscilla Chang, Selio Antonio Moreira da
Silva, Susana de Vasconcelos Dias, Tamira Gallucci,
Thales Wylton Honorio Barbosa Ribeiro, Tomaz de
Aquino Resende, Vera Lucia Perino Barbosa, Victor
Barau e Yara Cavini.
Artigo de autoria de Cláudia Feliz, Jornalista Amiga da Criança. Link: http://www.promenino.org.
br/Ferramentas/DireitosdasCriancaseAdolescentes/
tabid/77/ConteudoId/7128ec18-8909-4c36-b64b5a742145a213/Default.aspx
CETS – FGV: Durante 16 anos contribui para a
profissionalização da gestão das OTS, que iniciou73
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
f. Word Cloud
A ferramenta JAM cria automaticamente uma Word Cloud – ou Nuvem de Palavras – na qual figuram com
maior proeminência os termos mais frequentes no debate. Não é surpreendente observar Social, Sustentabilidade, Investimento etc. como mais relevantes.
74
Relatório GSI JAM 2011
6. Considerações finais
A colaboração é fundamental para a fluidez das parcerias intersetoriais e é necessário entender que esses
arranjos organizacionais não podem ter por objetivo uma ação ou resultado específico. Colaboração
é algo maior, em que pessoas físicas e jurídicas buscam trabalhar juntas em prol de um melhor cenário para todos. Considerando o estabelecimento de
organizações de diferentes setores como redes sociais
em suas cadeias de suprimento e junto a seus demais
stakeholders, poder-se-ia pensar numa rede de redes, onde parcerias intersetoriais ocorressem de forma orgânica e espontânea, e não somente através de
contratos e acordos formais, pelo estabelecimento de
cada qual como rede e da sua integração a outras redes de pessoas e instituições. O próprio JAM exemplifica o potencial desse tipo de iniciativa, tendo a
tecnologia da informação com seu papel de catalisador em todo o processo. O ambiente virtual – com
finalidade específica, com governança, foco e ações
controladas e medidas – torna o contato diferente do
que se produz em redes sociais abertas como o Facebook, o Twitter ou outras ferramentas semelhantes.
As tecnologias e eventos como o JAM são importantes para troca de ideias, mesmo reconhecendo que o
público com possibilidade de acesso ainda é restrito.
Essas ferramentas validam o diálogo e as interações
entre os atores, tendo a relação direta e participativa como principal condutor. É um desafio integrar
as redes com finalidade prática, mas é certo que o
debate em meio virtual possibilita a pessoas e instituições de diferentes regiões discutirem e analisarem
trabalhos, ideias e possíveis soluções para seus problemas locais, sendo esse um mérito das tecnologias
modernas.
A estrutura do JAM demandava alguma intimidade
com o computador e a linguagem virtual, especialmente com o formato de fórum, o que atraiu alguns
e afastou outros. Não foi exigida a anotação de idade, mas talvez tenha havido maior participação de
pessoas mais jovens. Embora a princípio tenha sido
aferido certo desconforto no acesso, relatado pelo
sistema de auxílio ao usuário via skype ou telefone,
era perceptível que isso se devia muito mais ao contato ainda incipiente com as ferramentas – de qualquer modo, pode ter dificultado, mas não inviabilizou a participação. Por outro lado, a forte ‘presença’
de pessoas com agendas muito exigentes e o afluxo
internacional jamais teriam acontecido se o convite
tivesse sido feito para um evento com os mesmos
temas e duração, fosse ele presencial. A inserção de
expoentes dos três setores promoveu um efeito de
onda, que se estendeu por estados e países, pequenas e grandes organizações, atraiu pessoas interessadas. Também os convites feitos por redes sociais,
empresas, órgãos do governo e organizações da sociedade civil ao mesmo tempo ampliou e orientou
para a criação de um grupo com efetivo interesse
pela matéria. Quanto à participação mais reduzida
de representantes do primeiro setor, da imprensa e
da academia, os organizadores têm como certa a necessidade de esforço mais concentrado nesses convites em ações futuras.
Pela configuração do JAM, a grande variedade de temas propostos pulverizou a discussão e fez emergir
duas evidências: a viabilidade dos debates em meio
virtual e a necessidade/oportunidade de aprofundamento dos assuntos abordados, confirmando a impressão de que o evento teria tocado a ponta de icebergs cruciais.
Temática e grupos envolvidos fizeram do GSI JAM
um evento de reflexão, com grande número de postagens e evidente expectativa pela observação mais
minuciosa das questões propostas. Também pôde ser
percebido o grande interesse por questões práticas e
ferramentais e pela mobilização e a busca por novos
agrupamentos, mais do que pelos temas conceituais
e filosóficos.
Mesmo o problema de acesso surgido a partir do segundo dia de JAM – com os dissabores na mudança
de datas e na consequente diminuição no número de
participantes no retorno – permitiu algumas observações por conta da mudança de datas, se somado ao
sucesso geral do JAM:
O interesse pela sustentabilidade organizacional,
suas ferramentas e agrupamentos é real e significativo.
Esse interesse é verdadeiro em diversos países.
A observação internacional dos avanços ocorridos
no Brasil é fato.
Um debate realizado em meio remoto é possível e já
vai se tornando confortável para mais participantes.
Há expectativa de pessoas de todos os segmentos por
75
GSI – Global Social Impact, Sustentabilidade Organizacional, Ideias e Propostas
sões mais focadas, com temas mais pontuais, mantendo a configuração virtual e a oportunidade de
A busca por soluções mundiais para problemas locompartilhamento internacional de ideias.
cais já é palpável.
Antes de novos debates, a GSI planeja a produção de
Durante os paineis, temas sensíveis e essenciais como
mais uma publicação virtual sob a forma de ensaio,
benefício mútuo, confiança, transparência, aporte de
derivada do presente relatório, dando mais corpo à
conhecimentos e de metodologias, o risco de depenreflexão iniciada no JAM. Tudo será sempre comdência entre instituições, políticas públicas, papeis
partilhado com todos os participantes e parceiros da
nas parcerias foram abordados sem análise abissal.
GSI e mantido disponível em seu site.
A premência de alinhamento e de ação articulada foi
Neste meio-tempo, a GSI convida todos a opinarem
conclamada com frequência. O mesmo com a exe avançarem com as reflexões, enquanto novas ações
pectativa de novas reflexões que permitissem o aprosão elaboradas:
fundamento de ideias e a identificação de irmãos de
www.gsi.org.br/gsi/Default.aspx
armas.
uma reflexão coletiva.
O fato é que os mais importantes desafios socioam- twitter.com/GSIJAM
bientais dizem respeito a toda a sociedade e preciwww.facebook.com/pages/GSI-Global-Social-Imsam do engajamento de todos os setores, cada um
pact/148195398545392
com sua competência, para que sejam superados. A
evolução da consciência ambiental e o acréscimo da
palavra ‘social’ – que resultou no termo ‘socioambiental’ – reflete a compreensão de que a proteção e
a preservação da natureza só são possíveis mediante
o cuidado com as pessoas e seu bem-estar. Contudo,
o debate dos papeis nas parcerias se impõe, com a
urgente demanda por definição de tarefas e fontes de
recursos em prol do respeito pelos direitos dos cidadãos. É tempo de profissionalizar a gestão das iniciativas de investimento público/privado. As políticas
públicas sociais, culturais e ambientais vão se organizando pouco a pouco (na figura do Estado brasileiro)
e também as iniciativas do setor privado – especialmente aquelas que buscam maior institucionalização
(como na criação de um instituto ou fundação) e
profissionalização (colaboradores dedicados exclusivamente a esses assuntos). Mas ainda há muito a
caminhar. Durante o JAM, já foi possível atestar a
consciência generalizada de que, ao fazermos juntos,
estamos praticando a verdadeira boa cidadania, com
a incógnita quanto à prontidão de pessoas físicas e
jurídicas para abandonarem sua zona de conforto e
atuarem juntas, em busca de soluções coletivas.
Até a realização do JAM, a GSI se preparava para
promover uma Conferência Internacional no segundo semestre de 2011, contando que o JAM apontaria para temas que só poderiam ser aprofundados
presencialmente. Os resultados percebidos fizeram a
instituição refletir e rever os próximos passos.
O GSI JAM abriu uma brecha para futuras discus-
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Relatório GSI JAM 2011
GSI – Global Social Impact
Diretoria
Andrea de Carvalho Shpak – Fundadora e Presidente
Alcely Strutz Barroso – Vice-Presidente
Elidia Maria de Novaes Souza – Diretora de Relações Institucionais
Celso Bianchi Barroso – Diretor de Relações Governamentais
Magnolia Vieira Carvalho – Secretária
Comitê Fiscal
João dos Santos Dias – Tesoureiro da GSI
Sonia Bruck Carneiro Pereira – Gerente de Responsabilidade Social da BM&FBovespa
Tomás Carvalhaes Carmona – Gerente de Desenvolvimento Sustentável da SERASA
Conselho Consultivo
Brasil
Alessandra Gonçalves de França – Fundadora-presidente do Banco Pérola
Claudia de Carvalho Shpak – Gerente Executiva de Produto da IBM Brasil
Eduardo Tacla – Presidente da Helix Tecnologia
Jorge Alberto França Proença – Empresário e Presidente do Instituto Pérola
José Avando Souza Reis – Diretor Geral da Associação Telecentro de Informação e Negócios (ATN)
Renata Amaral Soares – Consultora Sênior da McKinsey
Sérgio Francisco dos Santos – Gestor da Mídia Regional
Conselho Consultivo
Estados Unidos
Andres Ramirez – Professor de Finanças da Bryant University
Andy Lawler – Professor de Estratégia Corporativa, Desenvolvimento de Negócios e Mercados Internacionais, Planejamento de Negócios & Empreendedorismo Social da Ross School of Business / University of Michigan
Kelly Janiga – Diretora Executiva da Social Venture Partners Rhode Island (SVPRI)
Melvin Levitsky – Embaixador dos EUA no Brasil 1994-98, Ministro aposentado de Relações Internacionais, professor na Escola Gerald R. Ford de Políticas Públicas da University of Michigan
Norman Bishara – Professor de Legislação Corporativa na Ross School of Business da University of Michigan
Paul Kirsch – Diretor Associado do Instituto Zell Lurie na University of Michigan
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GSI JAM 2011
REALIZAÇÃO
PATROCÍNIO
APOIO

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