Jornal Interescolar 2015 (06/03/2015)

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Jornal Interescolar 2015 (06/03/2015)
Edição da Câmara Municipal do Seixal
8 Séculos da Língua Portuguesa
Autor do desenho: Gonçalo Mota, aluno do 9.º ano, turma D, da Escola
Editorial
Os alunos das seis escolas que desenvolveram
o Jornal Interescolar do ano letivo 2014/2015 –
projeto do Plano Educativo Municipal – trazem
a estas páginas a celebração de 8 séculos da
Língua Portuguesa. Língua de oito povos, falada
por mais de duzentos milhões de pessoas, é a
língua de Camões, Fernando Pessoa, Eça de
Queirós e Gil Vicente, mas também de Jorge
Amado, Pepetela, Luandino Vieira, Mia Couto e
muitos outros autores que escrevem
ou escreveram em português.
Língua da Europa, de África, das Américas e do
Oriente, a língua portuguesa não serve apenas
como meio de comunicação. Representa
a História do nosso povo, os seus costumes
e valores e é também História dos povos que
através dela se expressam: é expansão,
diversidade, união e epopeia, mas também
expressão de luta, emoção, notícia, romance,
filosofia e provérbio.
A «última flor do Lácio» que nasceu «inculta
e bela» é hoje Nobel da Literatura pela pena
de José Saramago, património de toda
a humanidade porque é poesia no fado, dança
e festa no samba e cante simples, profundo
e humano do povo alentejano.
Aos alunos e professores que abraçaram este
projeto, que valoriza
Secundária João de Barros. Professor: José António Vaz
a escola pública,
gostaríamos de
manifestar o nosso
apreço pela sua
homenagem e amor
à Língua Portuguesa.
A Câmara Municipal
do Seixal prosseguirá
o caminho de Abril,
por um ensino mais
igualitário, ao serviço
das populações e do País.
Joaquim Santos
Presidente da Câmara Municipal do Seixal
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Clube de Jornalismo da Escola Básica Dr. António Augusto Louro, com a colaboração de Marie Martins e Maria Sebastião, ilustração
Jornal Interescolar l MAI 2015
de Ianis Oliveira
A minha história
Olá! Eu sou a Língua
Portuguesa e vou contar
a história da minha vida.
Tenho já oito séculos
de velas para soprar!...
Nasci, tal como os meus
irmãos, o Espanhol,
o Francês, o Romeno
e o Italiano,… da união
de dois seres
maravilhosos, o Grego
(o meu pai) e o Latim
(a minha mãe). A minha
mãe, sobretudo, tinha
muitos amigos que, para
mim, também eram
tios. Influenciaram-me
todos, passando-me
ensinamentos e moldando
a língua que sou hoje. Do
meu tio Árabe herdei, por
exemplo, o conforto e o
lado doce da vida!
Mas foi durante o reinado
de D. Dinis que me emancipei. Não só passei a ser
eu a língua vigente em
todos os documentos oficiais, como fui cultivada,
adulada por jograis e trovadores nas belas cantigas
de amigo, de amor e de
escárnio e maldizer. Muito
devo ao nosso querido D.
Dinis que «fez tudo quanto
quis»! Até a primeira
universidade portuguesa!...
Sempre vivi em Portugal,
mas, a partir do século
XV, comecei a viajar pelo
mundo fora e, pouco a
pouco, fui fixando
residência nos diferentes
continentes. Em África,
na América do Sul
e também na Ásia. Aí
exprimo-me com o olhar,
o sabor e a melodia locais.
Mas trago-os também,
desde então, para
o pequeno cantinho que
me viu nascer. Sou
senhora de muitos
sotaques e de muitas
formas de ver, abraçada
por várias aventuras e
amizades que já guardo há
mais de 500 anos. Assim
nasceram os meus
crioulos!...
Fui-me alterando muito
com o tempo, passando
por muitas fases e
lugares, enriquecendo-me
ano após ano, viagem após
viagem, descoberta após
descoberta, abrindo porta
atrás de porta... E hoje em
dia, eu sou muitas. «Vivem
em nós inúmeros»! Vivo
e recrio-me
intensamente nas
vozes dos jovens, calma
ou emocionalmente no
«saber de experiências
feito» dos menos jovens,
artisticamente nas vozes
dos poetas e romancistas que não param de
me reinventar em versos
cheios de alma e histórias
«abensonhadas», pelos
quatro cantos do mundo.…
Tenho muita sorte em ter
muitos aduladores
que me provocam em
múltiplas formas de dizer,
entendendo-me como a
língua mais expressiva do
mundo. A que diz o Amor,
o Fado e a Saudade!...
Jornal Interescolar l MAI 2015
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Escola Secundária de Amora
Entrevista a Maria José Maya, presidente da direção da 8 Séculos da Língua Portuguesa – Associação
Os jovens são fundamentais nestas comemorações
Em que zonas do mundo tem
sido mais projetada
a comemoração?
As Comemorações
dos 8 Séculos da Língua
Portuguesa iniciaram-se
em 2014, a 5 de maio,
Dia da Língua e da Cultura
na CPLP, e terminam em
2015, a 10 de junho, numa
homenagem à literatura
em Língua Portuguesa.
Realizam-se em rede,
envolvendo todos os países
de Língua Portuguesa
e diásporas. Diria
que Portugal, Cabo Verde
e Brasil são as zonas
do mundo onde
as comemorações têm
encontrado mais eco,
não obstante a Escola
Portuguesa Rui Cinatti
em Díli, em Timor-Leste,
já as ter assinalado através
de um vídeo muito
interessante realizado pelos
alunos.
Das comemorações
já levadas a efeito, qual,
na sua opinião, teve maior
significado?
Todas elas são muito
importantes, mas
poderemos salientar
a edição da medalha
comemorativa dos
8 Séculos da Língua
Portuguesa, que decorreu
de um concurso público
internacional organizado
pela INCM – Imprensa
Nacional-Casa da Moeda,
que a editou,
e o lançamento do selo
comemorativo
dos 8 Séculos da Língua
Portuguesa, editado pelos
CTT – Correios de Portugal
e emitido em todos os países de Língua Portuguesa,
que é o primeiro selo comum a todos esses países.
Destacamos também
a ação da Universidade
da Amazónia que
dedicou todo um semestre a
uma reflexão sobre a Língua
Portuguesa, as tertúlias
poéticas dedicadas
aos países de Língua
Portuguesa na Casa
Fernando Pessoa.
Nas iniciativas em que
esteve presente, como
classifica a adesão dos
jovens?
Os jovens são
fundamentais nestas
comemorações.Têm-se
mostrado muito
interessados e curiosos
sobre o potencial cultural,
político e económico
da Língua Portuguesa.
Em Almada, por exemplo,
estiveram presentes numa
palestra intitulada
A Língua Portuguesa
no Mundo, no Teatro
Joaquim Benite, cerca
de 400 alunos. No Seixal,
na Escola Secundária de
Amora, foram organizadas
as Jornadas Pessoanas, em
que se assinalaram
as Comemorações
dos 8 Séculos da Língua
Portuguesa. Como já
referimos, a Escola
Portuguesa Rui Cinatti em
Díli, em Timor-Leste,
assinalou as comemorações
com um vídeo muito
interessante realizado pelos
alunos e um grupo
de alunos, liderados pela
professora Bebel Pantaleão,
também o fez no Rio
de Janeiro. Escolas
de Almada, em Portugal,
e da Cidade Velha,
em Cabo Verde, iniciaram
um projeto intitulado
Mundos em Diálogo,
inserido no Ciclo
de Conferências A Língua
em Viagem – Celebrar
8 Séculos da Língua
Portuguesa e 400 Anos
da Peregrinação de Fernão
Mendes Pinto, projeto este
que tem como
entidades parceiras
a Câmara Municipal
de Almada, a 8 Séculos
da Língua Portuguesa –
Associação, o CFAECA –
Centro de Formação
de Associação de Escolas
do Concelho de Almada,
a Escola Secundária
Fernão Mendes Pinto
e a Sphaera Mundi.
Esta curiosidade é tanto
maior que saudamos
a realização do Jornal
Interescolar do concelho de
Seixal dedicado aos «Oito
Séculos da Língua
Portuguesa» que irá
envolver um conjunto
considerável
de escolas e promoverá
decerto uma reflexão muito
viva e interessada,
por parte dos alunos, sobre
a nossa língua, língua esta
que, parafraseando
Fernando Pessoa,
«é o som presente d’esse
mar futuro».
Qual a sua função
na associação?
Sou presidente
da associação, que é uma
instituição da sociedade
civil, sem fins lucrativos,
cuja missão, em sentido
lato, se centra na promoção
e divulgação da Língua
Portuguesa. Nestas
funções cabe-me
representá-la e
coordenar o trabalho da
equipa das Comemorações
dos 8 Séculos da Língua
Portuguesa, contactando
diversas instituições
nacionais e estrangeiras
para que as comemorações
se realizem em parceria,
em rede e nas diversas
geografias que queiram
celebrar a nossa língua. A
Língua Portuguesa tem um
vasto potencial
económico, social e cultural,
é a sexta língua mais falada
no mundo, de acordo com
o Relatório das Línguas
para o Futuro (2013)
do British Council, devendo
nós pugnar para que se
torne língua de trabalho
nas instâncias internacionais, concretizando, deste
modo, um dos objetivos
desta associação. Cabe-nos
a todos nós contribuir para
a divulgação e promoção da
Língua Portuguesa, desde já
falando-a e escrevendo-a o
mais corretamente possível,
o que só conseguiremos
lendo os nossos maiores
autores.
Comemorações dos 8 Séculos
da Língua Portuguesa
Em rede, em parceria, em todas as geografias
As Comemorações dos 8 Séculos da Língua
Portuguesa são uma iniciativa da 8 Séculos
de Língua Portuguesa – Associação, uma associação
cultural sem fins lucrativos e desenvolvem-se
de forma muito abrangente e a vários níveis
com os países de língua oficial portuguesa. Propiciam
a mobilização de saberes diversos e abordagens
transversais, na senda da realização de um conjunto
de eventos em torno da Língua Portuguesa, nas mais
diversas áreas de saber e atuação, em todas
as geografias, envolvendo os países de língua oficial
portuguesa, as respetivas diásporas, o que ganha
expressão através de projetos de que é exemplo o
Jornal Interescolar, elaborado por seis escolas do
concelho do Seixal, com a colaboração inestimável
dos professores e do Departamento de Educação e
Juventude da Câmara Municipal do Seixal.
A 8 Séculos de Língua Portuguesa – Associação
propõe-se ser sobretudo um motor de sinergias para
as mais amplas celebrações, a par das instituições
reconhecidas a nível nacional e/ou internacional
que visam a promoção e a dignificação da Língua
Portuguesa, privilegiando as parcerias neste âmbito.
Nesta perspetiva, lançamos também um desafio
aos alunos e professores das escolas
do concelho do Seixal para qualquer
iniciativa que pretendam ter no âmbito
das comemorações dos 8 Séculos
da Língua Portuguesa.
Maria José Maya, presidente da direção da 8 Séculos da Língua
Portuguesa – Associação
[email protected]
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Jornal Interescolar l MAI 2015
Escola Secundária Alfredo dos Reis Silveira
Entrevista a Domingos Abrantes, ex-preso político
O valor das palavras «saudade» e «liberdade»
as
A entrevista com Domingos Abrantes tem o objetivo de conhecer o valor das palavr
liberdade
«saudade» e «liberdade» a partir da sua experiência pessoal, porque privado de
até ao 25 de Abril de 1974 sentiu, naturalmente, saudade.
«Como podem
reparar sou uma pessoa
com muita idade e isso
significa que vivi
períodos diferentes
da nossa história. Vivi
metade da minha vida
num regime fascista e
outra após a Revolução
de 25 de Abril de 1974.
De algum modo,
a questão da liberdade
e o problema
da saudade têm
significado na frase:
“25 de Abril sempre,
fascismo nunca mais”,
o que se conquistou
[a liberdade] e aquilo
que se perdeu
e que não há saudade.
Não sou especialista
da língua, o que vos
vou dizer sobre
as palavras é em
resultado da minha
vivência. Sou ex-preso
político e é como tal que
falo, a minha visão
é a visão daquilo que eu
sou. A linguagem
é inseparável
da realidade social. Não
são as palavras que criam
realidade, é a realidade
que cria a palavra e lhe
dá significado. A palavra
surge por vontade, por
necessidade, e a partir
do momento em que existe
a sociedade dá-lhe um
valor, é coisa social. Nos
jornais, antes do 25
de Abril, podiam ler
notícias que confirmam
essa realidade, os ricos
A linguagem
é inseparável
da realidade
social. Não são
as palavras que
criam
realidade,
é a realidade
que cria
a palavra
e lhe dá
significado
faleciam, os pobres
morriam.
A saudade, esse
sentimento tão português…
há coisas de que eu tenho
saudade e outras que não.
Não tenho saudade
da época do fascismo,
dos espancamentos,
da miséria, das prisões
(estive preso 11 anos)…
Mas os fascistas que
tinham liberdade para
ultrajar, espancar,
censurar terão saudade
daquilo que perderam
desse tempo. Portanto,
o que para uns é saudade
para outros pode ser
o oposto.
O mesmo se passa com
a palavra «liberdade».
«Liberdade», palavra
universal, assumida quase
sempre no singular,
a liberdade representa
muitas liberdades e muitas
lutas. Quando se diz que
“o 25 de Abril restituiu
a liberdade…” não é bem
assim. Eu era clandestino,
não tinha liberdade, mas
havia quem, nesse
tempo, tivesse liberdade
para torturar, para
censurar… Também a
nossa língua foi sujeita
a muitas proibições, não
havia liberdade de escrita
ou de ação.
A realidade deu à nossa
língua provérbios curiosos.
Os camponeses tinham
fome e a bolota era para
os porcos, não para as
pessoas. Quando
os camponeses iam
à bolota o latifundiário
chamava a GNR
e as pessoas eram presas.
Essa realidade justifica o
provérbio: “Quem quer
bolota trepa”. Lutava-se
por comida, por direitos,
por liberdade.
Faço parte de uma geração
que sofreu muito, mas que
não se resignou, foi uma
geração que lutou
e conquistou a liberdade,
agora é preciso cuidar
dela. Não tenho saudade
desse tempo.»
Jornal Interescolar l MAI 2015
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Trabalhos em desenho dos alunos da Escola Secundária João de Barros
«Última flor do Lácio,
inculta e bela»
O soneto «Língua Portuguesa» do autor brasileiro Olavo Bilac (membro fundador da
Academia Brasileira das Letras, poeta parnasiano, cronista, contista, conferencista,
jornalista e autor de livros didáticos) conta a história da Língua Portuguesa.
Diferente do Latim clássico, usado pelas classes superiores, o Latim vulgar era falado
pelo povo na região do Lácio em Itália. Trazida pelos soldados e funcionários do império, esta era a língua imposta aos povos conquistados por Roma, dando origem a diversas línguas e dialetos, entre os quais o catalão, o castelhano e o galaico-português.
Comparando-a a uma flor, o poeta apresenta a Língua Portuguesa como a «última flor
do Lácio, inculta e bela».
Bilac não esquece que esta é também a língua de Camões, cujo «engenho e arte»,
fez de «Os Lusíadas» um marco na história da Língua Portuguesa e dedica-lhe os dois
últimos versos.
Olavo Bilac
Língua
Portuguesa
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
em que da voz materna ouvi: “meu filho!”,
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
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Jornal Interescolar l MAI 2015
Escola Secundária de Amora
O amor, enunciado no masculino, ao longo dos séculos
Idade Média
Séc. XVI
O tema do amor está
presente nas cantigas
de amor e de amigo e é
usado como uma forma
de diversão.
Camões é o expoente
o amor.
máximo, exprimindo
,/
a nós descida
Formosura do Céu
o deixas isento! /
que nenhum coraçã
ado, /
Lindo e subtil tranç
or do remédio
que ficaste em penh
contigo,
que mereço, / se só
o! (Camões)
vendo-te, endoudeç
Ai eu, coitada, como vivo / en
gran desejo por meu amigo
Que soidade de mha senhor
ei // […] que, se non a vir, non
posso viver (D. Dinis)
Séc. XVII
Discípulo de Cam
ões, Rodrigues
Lobo representa o
Barroco.
Cora
ção, olha o que qu
eres: / Que
mulheres, são m
ulheres... // […] Se
algüa tem afeiçã
o / Há-de ser a qu
em
lha nega,/ Porque
nenhüa se entreg
a/
Fora desta condiç
ão; / Não lhe quei
ra
s,
coração, / E senã
o, olha o que quer
es: /
Que mulheres, sã
o mulheres...
(Francisco Rodrigu
es Lobo)
Séc. XX
Séc. XIX
Com o Romantismo, o amor assume proporçõ
es de excesso.
Excedeu-se em formar-te a Natureza; / Divin
a te julguei
pelo semblante, / Humana vejo que és pela
fraqueza (Bocage)
Entrar pé ante pé, e com ternura / Apertá-la
nos braços casta
e bela:/ Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olho
s, / E a boca, com
prazer o mais jucundo, / Apalpar-lhe de leve
os dois pimpolhos
(Bocage)
Minha gentil: Quem me dera ser uma ave: arran
caria uma pena às
minhas asas e, voando ao céu, embebê-la-ia
na tinta
da aurora, naquela tinta vermelha com que
os anjos escrevem
cartinhas de namoro às estrelas… quem me
dera escrever-te com
uma pena assim, e com uma tinta igual – eu
seria, pela primeira vez,
anjo, e tu serias o que há muito és: estrela.
(António Nobre)
A expressão do amor altera-se, como a própria sociedade.
Se é clara a luz desta vermelha margem / é porque dela se ergue
uma figura nua / e o silêncio é recente e todavia antigo / enquanto
se penteia na sombra da folhagem. / Que longe é ver tão perto o centro
da frescura (António Ramos Rosa)
Abraça-me. Veste o meu corpo de ti, para que em ti eu possa buscar
o sentido dos sentidos, o sentido da vida. Procura-me com os teus
antigos braços de criança, para desamarrar em mim a eternidade,
essa soma formidável de todos os momentos livres que a um e a outro
pertenceram. Abraça-me. Quero morrer de ti em mim, espantado de
amor. (Joaquim Pessoa)
Quando nos poderemos nós encontrar a sós em qualquer parte, meu
amor? Sinto a boca estranha, sabes, por não ter beijinhos há tanto
tempo... Meu Bebé para sentar ao colo! Meu Bebé para dar dentadas!
Meu Bebé para...[…] Bebé, vem cá; vem para o pé do Nininho; vem para
os braços do Nininho; põe a tua boquinha contra a boca do Nininho...
Vem... Estou tão só, tão só de beijinhos ... (Fernando Pessoa)
Meu Deus, eu quero a mulher que passa. / Seu dorso frio é um campo
de lírios / Tem sete cores nos seus cabelos / Sete esperanças na boca
fresca! / Oh! Como és linda, mulher que passas (Vinicius de Morais)
Séc. XXI
Estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram / flores novas
na terra do jardim, quero / dizer / que estás bonita. // […] entre
os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como se tocasse a pele do teu
pescoço. / há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim. / estás
tão bonita hoje. (José Luís Peixoto)
Envelhecida a palavra, / tomo a lua por minha boca/ a noite, já sem
voz / se vai despindo em ti. // O teu vestido tomba / e é uma nuvem./
O teu corpo se deita no meu, / um rio se vai aguando até ser mar.
(Mia Couto)
quero reaprender o amor na respiração das tuas mãos /
quero-me sentado nas pálpebras quietas do teu olhar.
quero-me goiabar em ti, caroço e casca, verme
e moço, seiva e corpo / tu – minha noite redonda /
minha madrugada mulata. (Ondjaki)
Jornal Interescolar l MAI 2015
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Escola Secundária Alfredo dos Reis Silveira
Conversa com o poeta e professor Luís Filipe Parrado
A Língua Portuguesa
é o nosso maior tesouro
Convidámos o poeta e professor Luís Filipe Parrado para conversar
sobre a Língua Portuguesa e para explicar que língua é a nossa.
«Pedem-me que comente
esta data, esta efeméride
dos oito séculos da Língua
Portuguesa, não
propriamente da língua
porque não conseguimos
determinar o exato
momento em que ela
surge, mas da existência de
textos oficiais escritos em
Português. Talvez valha a
pena começar por lembrar
que uma das experiências
mais importantes da nossa
existência como seres
humanos é o facto
de termos a faculdade
impressionante
de comunicarmos com
palavras. É próprio dos
seres humanos, só nós
conseguimos produzir
linguagem, esta coisa
maravilhosa que é produzir
palavras com sentido.
Hoje, fazemos parte
da grande comunidade
da Língua Portuguesa. E
ouvimos a língua falada
no Brasil, um português
com um gostinho especial,
assim como nos países
africanos, com a sua
diversidade. E isso
é magnífico. A Língua
Portuguesa é o nosso
maior tesouro. A língua de
um pequeno povo que,
nos séculos XV e XVI,
chegou aos quatro cantos
do mundo. E hoje
o português é uma
das línguas mais faladas
no mundo, somos muitos
a falar português. Por isso,
é um prazer conversar
convosco em português,
porque a nossa língua é
maravilhosa e era bom que
tivéssemos consciência
disso e a valorizássemos
como nossa.»
E como podemos valorizar
a nossa língua?
O Português provém de
uma outra língua, o Latim.
E quem trouxe o Latim não
foram os escritores, nem
homens ricos, nem
os grandes generais: foi
o povo romano, os soldados
e comerciantes. Por isso ela
tem uma origem
popular. Foi sendo
construída por todos nós.
Ter consciência dessa
riqueza e valorizá-la é um
trabalho que temos
de fazer todos os dias. E
de diferentes maneiras,
sobretudo através do modo
como falamos e nos
exprimimos. É nossa
obrigação falar bem
português: dizermos as
palavras todas, não
comermos as sílabas,
enfim, cuidarmos daquilo
que nos deram em herança.
E transmiti-la à próxima
geração. E isso tem
acontecido ao longo de
todos estes anos, e pelo
menos há oito séculos.
Pode falar-nos um pouco
da história da nossa língua?
Nestes oito séculos houve
muitas mudanças, mas no
início a nossa língua estava
muito próxima de uma
outra língua, a língua
galega. Nos séculos XI
a XIV falávamos
galaico-português e depois
as duas línguas divergiram,
mas ainda hoje
conseguimos
entendermo-nos todos
muito bem…
A respeito disso, gostava
de vos dizer que
o galaico-português,
que se falava no norte
do país e da península
Ibérica, era uma língua
culta, a língua dos
poetas. Pelo que as origens
da nossa língua escrita
passam muito pela
poesia, e não só pelos
textos oficiais. Passa,
portanto, pela língua
dos poetas, pois
os nossos primeiros
poemas foram escritos em
galaico-português. E lendo
esses poemas é como se
estivéssemos a ver nascer o
Português, por isso é muito
interessante lerem alguns
desses poemas. Eu gosto
muito da ideia de que
o nascimento da Língua
Portuguesa, em termos
escritos, passou, por um
lado, pela poesia; e, por
outro, pelo modo como
o povo fala. Os poetas,
os escritores,
e a grande massa popular
são os grandes inovadores
e recriadores da Língua
Portuguesa. Por isso, para
mim é fundamental ler
os grandes poetas e ouvir
o povo falar.
Uma língua é tanto mais
rica quanto mais
diversificada for. Por isso,
quando ouvirem falar de
modo diferente, vejam isso
como algo interessante.
A Língua Portuguesa
vai mudando com o tempo?
Sim. Houve uma altura em
que as palavras que
chegavam ao português
vinham da influência
francesa, do francês. Mas
se tiverem palavras
portuguesas, usem-nas, não
precisam de usar outras se
as tiverem em português.
O certo é que as línguas
evoluem naturalmente. E
algumas palavras ficam e
outras passam, mesmo
algumas que hoje são
usadas irão desaparecer.
Portanto não devemos
ser demasiado puristas e
rejeitar o que é estrangeiro. Sempre foi assim e, por
força de novas realidades,
os estrangeiros sempre nos
ensinaram algumas coisas.
Os brasileiros são muito
descontraídos e adaptam
novas palavras muito
serenamente… Também
não têm o peso dos 800
anos da língua! No fundo, o
português é uma língua viva
e, como diz o poeta Vasco
Graça Moura, num verso
belíssimo, «não és melhor
que as outras, mas és
nossa». De facto, a nossa
língua é o espelho daquilo
que nós somos como povo.
A nossa língua é feita
de muitas influências?
É verdade. Não podemos
esquecer que nós somos
um povo que resulta
de uma grande mistura de
sangues. Somos ao mesmo
tempo celtas, iberos,
romanos, bárbaros,
árabes… Mas também
os franceses, os ingleses
e os espanhóis trouxeram
palavras à nossa língua.
Hoje somos o resultado
desta história contraditória,
rica e muito interessante.
Por outro lado, todos
devemos ter a consciência
de que um povo que
valoriza a sua língua, a sua
história e a sua cultura é
um povo que vai sobreviver,
contra tudo e contra todos.
Se esse povo souber o que é
e de onde vem, vai
sobreviver. Esse é o
caminho que temos que
fazer como povo: sabermos
valorizar a nossa cultura,
a língua, a nossa identidade.
Os escritores e os poetas
são os que elevam, ao mais
alto ponto, a força da nossa
língua… Se lerem
Fernando Pessoa ou
Camões irão perceber isso,
a nossa língua é tão bela
nas mãos desses poetas
que ficamos sensibilizados,
mas também orgulhosos
por termos escritores de tal
dimensão universal.
Mudando agora um pouco o
assunto. Pode falar-nos do
valor da poesia? O que é para
si um poema de qualidade?
Hoje as regras da poesia já
não são as mesmas
do passado, pois não?
Os poemas que importam
resultam sempre da relação
rigorosa entre forma
e conteúdo. Para dizermos a
coisa certa temos de a dizer
da forma certa. A questão
é sempre a mesma para os
poetas: eles querem dizer
o que há a dizer do modo
certo. E o modo certo, hoje,
não tem regras definidas,
como, por exemplo, no
século XVI. O que eu quero
dizer é que o poeta procura
usar as palavras necessárias, não pode haver mais
uma palavra ou menos uma
palavra. O poema é como
um relógio. Para um relógio
funcionar, as peças têm de
estar todas no seu lugar
para nos dizer as horas, os
minutos e os
segundos. Com um poema
é a mesma coisa: tem
de estar exatamente
construído com as palavras
da maneira certa, nem mais
nem menos uma palavra. E
está acabado nesse momento certo. É assim que
as coisas funcionam, por
exemplo, com Camões, que
é absolutamente genial no
que diz e no modo como o diz.
Considera a leitura
fundamental?
Sem dúvida. Mas ler não é
fácil. Implica esforço, ação…
É uma pena se não experimentarem, há coisas que
vale a pena experimentar
e ler é uma delas. Ler os
grandes autores. Vale a
pena descobrir…
8
Jornal Interescolar l MAI 2015
Ana Margarida Branco, Inês Duarte, João Meneses, Rita Marques, Sara Dias, 12.º ano, fotomontagem de José Sebastião, professor de teatro, Escola Secundária José Afonso
Conversas cruzadas no tempo
Numa tarde luminosa,
Bocage desfrutava da brisa
suave que pairava sobre a
esplanada do café Nicola.
Enquanto degustava o seu
absinto, aparece Camões
com o manuscrito de «Os
Lusíadas» debaixo do
braço.
Bocage – Ó Camões, levaste
«uma pedrada num olho?»
Camões – Cala-te lá! Não só
perdi o olho numa batalha
como estive preso porque
fui apanhado numa briga.
Bocage – «Camões, grande
Camões, quão semelhante/
acho teu fado ao meu»!
Também eu estive preso
tanto tempo que me
perguntava «Liberdade,
onde estás? Quem te
demora?»
encontrei: «três armários
de mentir / e cinco cofres
de enleios / e alguns furtos
alheios / guarda-roupa
de encobrir».
Bocage – De encobrir o quê?
Gil Vicente – Os fidalgos, os
frades e outros que fingem
ter uma vida honrada mas
que têm uma vida dupla.
«Muito bem me confessei /
mas tudo quanto roubei /
encobri ao confessor» – Isto
não vos lembra nenhum
acontecimento do século
XXI? Esse Espírito também
era Santo…
Mas por falar em padres,
olha quem vai aí a passar –
o Padre António Vieira.
«Para onde caminhais? Oh!
Que boa hora venhais!»
Bocage – Aposto que
ninguém te liga nenhuma:
andas a lutar pelos direitos
dos índios, criticas os teus
colegas padres… Não tomes
cuidado com a Inquisição,
não! Talvez os peixinhos
te ouçam…
minhas peças. Mas parece
que vem aí mais gente…
Padre António Vieira – «Ao
menos têm os peixes duas
qualidades de ouvintes:
ouvem e não falam» ao
contrário de ti que só dizes
disparates.
Zeca Afonso – O padre tem
razão: «eles comem tudo,
eles comem tudo e não
deixam nada».
Camões – Mas quem é o
público dos teus sermões?
Camões – Olha, olha! Quem
vem lá! É o nosso amigo Gil!
Padre António Vieira – Vou
para a Igreja de S. Roque
fazer um sermão e venho
de muito longe, do Brasil.
Padre António Vieira – Infelizmente só peixe graúdo
que come o mais pequeno:
«Se os pequenos comeram
os grandes, bastara um
grande para muitos pequenos; mas como os grandes
comem os pequenos, não
bastam cem pequenos, nem
mil, para um só grande» .
Gil Vicente – Venho agora
do teatro. Sabem o que lá
Camões – E quem é o teu
público?
Gil Vicente – Vá lá que és
diferente dos frades das
Do Chiado aparece Eça de
Queirós em conversa com
o Zeca Afonso que vem da
Valentim de Carvalho. Ainda
ouvem o resto da conversa.
Eça de Queirós – Mas estão
a falar de quê? Será da política? «Há muitos anos que
a política em Portugal
apresenta este singular
estado: doze ou quinze
homens, sempre os
mesmos, alternadamente,
possuem o poder, perdem
o poder, reconquistam o
poder, trocam o poder…
O poder não sai de certos
grupos… Ora tudo isto
nos faz pensar que quanto
mais um homem mostra
a sua incompetência, tanto
mais apto se torna para
governar o seu país».
Zeca Afonso – «Das
eleições acabadas / Do
resultado previsto / Saiu
o que tendes visto…»
Eça de Queirós – «A política é uma arma…; ali luta-se pela avidez do ganho
ou pelo gozo da vaidade…;
dentro há corrupção, o
patrono, o privilégio.»
Zeca Afonso – «Se alguém
se engana com seu ar
sisudo / e lhes franqueia
as portas à chegada /
eles comem tudo / e não
deixam nada». «O que faz
falta é avisar a malta /
O que faz falta é dar poder
à malta». E também nos
falta aqui o António Aleixo
para lhes dar uma lição:
Vós que lá do vosso
império / prometeis um
mundo novo, / calai-vos,
que pode o povo / querer
um mundo novo a sério.
Jornal Interescolar l MAI 2015
9
Caetano Filipe Dios, Lara Daniela Gândara, Maria Inês Camões Costa, Maria Pardal Brandão, 8.º ano, ilustrações de José Sebastião, professor de teatro, Escola Secundária José Afonso
Trovadores
de ontem
e de hoje
Já na Idade Média, os
jograis e trovadores
usavam a poesia
para criticar, e assim
chegaram até aos nossos
dias ecos da sociedade
daquela época, dos
seus divertimentos, dos
problemas, dos conflitos.
A língua afiada dos
jograis mostrava a
realidade da vida, de
terra em terra, nas
festas e romarias, nos
palácios cantando
as suas cantigas de
escárnio e maldizer.
Desta forma ficamos a
conhecer alguns acontecimentos escandalosos
daquela época, as rivalidades entre os próprios jograis, a traição
política, os cavaleiros pobres que pretendiam fazer-se passar por
abastados («Perguntem-me um rico homem / muito rico que mal
come / porque o faz»), os que exploravam os povos dos concelhos.
Algumas destas cantigas tinham também como alvo as damas que se
queixavam porque ninguém as cortejava («Ai! Dona feia, foste-vos queixar / porque nunca vos louvo em meu cantar») as mulheres
de má fama e também os físicos (médicos da época), os maus juízes,
os bruxos e até os frades que não cumpriam os seus votos religiosos
(«Nos mosteiros dos frades a [verdade] procurei / e disseram-me
assim / Não busqueis a verdade aqui / porque muitos anos temos
passado / e já não mora connosco»).
Também nos nossos dias há quem observe a sociedade e a critique
usando a música e a poesia.
Deolinda – Para ser escravo
é preciso estudar
Os Deolinda usam igualmente as suas canções
para mostrar
os problemas atuais, como o facto de hoje em
dia haver muitas
pessoas com cursos e que se encontram dese
mpregadas («Que mundo
tão parvo, / Onde para ser escravo / É preciso
estudar»). Criticam ainda
a falta de iniciativa de alguns («Tenho vontade
de seguir uma outra via /
Mas eu desisto / Tenho vontade de mudar a minh
a vida / Mas não
arrisco») e também o receio do poder, não só
o do Governo como
também o dos patrões (Tenho vontade de dizer
aquilo que penso /
Mas tenho medo / Tenho vontade de exigir o
que eu mereço / Mas
nem me atrevo»).
Estes são alguns exemplos de trovadores que,
seguindo os passos
dos seus colegas da Idade Média, continuam
, no século XXI, a olhar
a sociedade e a denunciar, muitas vezes com
ironia, os problemas
que a afetam.
D8 – Quem estuda no presente
não assegura o futuro
Também um jovem cantor, D8, fala-nos de situações semelhantes com
as quais todos nós, ou pelo menos uma grande maioria, se pode
identificar, tais como a crise, o desemprego e a emigração. Na canção
Povo lusitano lembra que a situação do país veio a piorar ao longo dos
últimos anos: «Mas de há uns anos para cá notei a diferença, / seguem
para outros países para pôr comida na mesa». Aborda ainda
o desemprego em Portugal «Mas quem estuda no presente
não assegura o futuro».
lha rebenta
ia a bo
Boss AC – Qualquer d
AC que produziu
cial é o que faz Boss
so
a
ític
cr
de
plo
em
critica o estado
Outro ex
prego Bom, na qual
Em
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ch
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iro «Onde vou arranja
bém a falta de dinhe
m
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re
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ra
l.
pa
ga
de Portu
ndições nem
nda? / Não tenho co
s
o povo aguenta / Ma
dinheiro para uma re
o
les enterram país
«E
o
rn
ve
go
o
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os
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an
s
nd
uma te
prego «Tanto
a rebenta»; o desem
ta,
qualquer dia a bolh
num emprego da tre
Ou
/
mpregado
se
de
ar
ab
ac
ra
pa
r
a estuda
mal pago.»
Chullage – Já não dá…
sicas que refletem a revolta e o
É o caso de Chullage com as suas mú
. Nas canções Já não dá e Eles
descontentamento do povo português
de dinheiro e de emprego, os
comem tudo, são retratados a falta
despedimentos e a emigração.
problemas na educação e saúde, os
automóvel / a sala está vazia,
Chullage lembra que «é a dívida do
p’ra alimentar / e outro na
já desisti do sofá e do móvel / um filho
o está a chegar / e este mês
barriga já se mexe / o seguro do carr
nem paguei a creche».
os uma família, a passar
De certeza que conhecemos, pelo men
a isto? A falta de emprego
por uma situação destas. E o que leva
os em sites / só p’ra voltar a
«agarrado a jornais / a meter currícul
Fala também na necessidade
ouvir / que a vaga já foi preenchida».
França ou Angola» (...) quem
de emigrar «já pondero emigrar/pra
o el dorado / e arranjar um visto
estava em Espanha voltou / acabou
Com filhos, tudo se duplica.
pra Angola / tá a ficar complicado».
poderem satisfazer as suas
Os pais entram em desespero por não
dos a soluções extremas:
necessidades básicas e podem ser leva
ola». A educação também
«entrar num banco e apontar uma pist
pagar / propinas e um
pra
faz parte desta canção: «endividei-me
r desempregado».
fica
certificado / ter uma licenciatura / pra
10
Jornal Interescolar l MAI 2015
s,
lda Pinheiro, Sara Anselmo, Fátima Soare
Escola Secundária Manuel Cargaleiro
Prof. Jorge Duarte, Diana Pinheiro, Mafa
riz Rodrigues e Andreia Henriques da
Beat
,
Faria
Ana
prof.
e,
Freir
Júlia
prof.
s,
Santo
eca
Fons
arida
Marg
tora
escri
Entrevista à escritora Margarida Fonseca Santos
Oito séculos a brincar com as palavras
Somos um grupo de jovens
estudantes que fazem
parte do Clube
de Jornalismo da nossa
escola. Vamos, pelo
segundo ano consecutivo,
participar num jornal
interescolar, promovido
pela Câmara Municipal
do Seixal, que procura,
com esta iniciativa,
juntar-se às
comemorações dos Oito
Séculos da Língua
Portuguesa. Achámos que
entrevistar uma escritora,
alguém que trabalha com
palavras, seria adequado
e interessante
e lembrámo-nos
da Margarida Fonseca
Santos que esteve
recentemente na nossa
escola a orientar um ateliê
de escrita criativa com
professores. Claro que num
meio tão pequeno… tudo
se sabe e, rapidamente,
as ideias desenvolvidas no
ateliê chegaram aos
alunos… assim como
o nome da sua mentora…
Uma vez que o nosso tema
é «Oito Séculos da Língua
Portuguesa», não será de
estranhar que as nossas
perguntas se centrem na
sua visão relativamente
à língua que é, no fundo,
o seu instrumento
de trabalho. E aqui vai
a nossa primeira pergunta:
Uma língua tão «velha» tem,
com certeza, muitas
palavras que caíram
em desuso, assim como
palavras «acabadinhas»
de criar. Nos seus ateliês
de escrita criativa, alguma
vez se lembrou de lançar
um desafio que
incorporasse palavras
desses dois grupos? Seria
interessante fazê-lo?
Esse assunto é muito
importante. Se, por um
lado, podemos utilizar
palavras acabadas de criar,
também se torna
importante, por outro lado,
que não sejam muitas
a cair em desuso. O
engraçado, nos exercícios
de escrita criativa, é que
por vezes só se encontram
soluções nas palavras
mais antigas – o obstáculo
leva-nos muitas vezes a
revisitá-las para conseguir
chegar ao fim… E depois
não as esquecemos.
Os jovens, com a sua
imaginação inesgotável
e a sua irreverência são
frequentemente
responsáveis pela
introdução de novos
vocábulos na Língua
Portuguesa, como «bué»
e «fixe», que «arrepiam»
os mais velhos. Como encara
este tipo de vocabulário? Faz
parte do processo
de renovação da língua ou
deve ser reprimido para não
«estragar» a língua?
Não vale muito a pena lutar
contra esses modismos. Se
pensarmos bem, acabam
por passar de moda e são
substituídos por outros. Os
que sobrevivem mais
tempo, acabam integrados
na língua, como por
exemplo «estar chateado»,
que em pequena não me
deixavam dizer… Faz parte
do crescimento da língua.
Uma vez que contacta com
um público mais jovem e
escreve com frequência para
jovens e crianças,
incorpora nos seus textos,
nos seus livros, vocabulário
mais típico destas faixas
etárias? Ou evita fazê-lo por
considerar que não devem
fazer parte de um registo
escrito?
Evito sempre integrar os
tais modismos, porque
podem desaparecer e,
daqui a dez anos, o livro
ainda pode estar vivo, mas
já ninguém entende essas
palavras. Só nos diálogos
escrevo, de vez em quando,
frases com essas
características, e só se é
mesmo importante esse
detalhe para a cena
retratada.
E já que estamos a falar
de escrita… não podíamos
deixar de lhe perguntar o
que pensa do novo Acordo
Ortográfico (AO). Adota-o nas
suas escritas (como nós!)
ou continua a escrever à
«antiga»?
Para crianças e jovens, não
tenho outro remédio, tem
de ser com o novo AO,
estou a responder-vos
assim. Para adultos,
mantenho-me no antigo.
Há certas mudanças que,
para mim, são
destruidoras, como
desaparecerem
as consoantes que abrem
as vogais e que nos levam à
raiz da palavra. Como está
tudo a ser repensado,
prefiro esperar para
entender o resultado final.
O português é uma língua
difícil? Parece ser, por vezes,
tão maltratada por quem a
fala… Será uma questão
de dificuldade, desrespeito,
falta de conhecimento…?
Pergunta difícil…
Parece-me que há graves
lacunas no respeito pelas
Jornal Interescolar l MAI 2015
11
Fic ha téc nic a
Escola Secundária João
de Barros
Professores: António Vaz e Lucília
Achando (professora bibliotecária)
Alunos: Gonçalo Mota, Maria Rocha,
Liliana Santos, Débora Barbosa,
Inês Conceição
Escola Secundária Manuel
Cargaleiro
Professores: Ana Faria, Luísa Pereira, Jorge Duarte, Júlia Freire.
Alunos: Ana Bárbara, Ana Carolina
Martins, Andreia Henriques, Beatriz Rodrigues, Diana Pinheiro, Diogo Fonseca, Eduardo Pires, Fátima
Soares, Mafalda Pinheiro, Maria
Paupescu, Raquel Rei, Sala Anselmo, Tiago Velez
Escola Secundária de Amora
Professores: Maria dos Anjos Ferrão,
Margarida Correia.
Alunos: Marisa Santos, César Serrão, Cláudia Carina, Miriam Brito,
Bárbara Rodrigues, Bruno Mourato,
Gisela Monteiro, Jéssico Freitas, Raquel Nobre, Gabriel Algarve.
Escola Secundária Alfredo
dos Reis Silveira
Professores: Ana Paula Gonçalves.
Alunos: Alexandre Ferreira, Diogo
Abrunhosa, Diogo Carvalho, Gonçalo Pereira, Helena Pericão, Mariana Godinho, André Piteira, Joana
Carreiro, Miguel Van der Garde,
António Faria, Sofia Ferreira, Eva,
Inês Figueiras, Lucas, Maira, Raquel
Fonseca, Micaela Sofia, Inês Ribeiro,
Joana Caetano, Sara Albino, Carolina Lourenço.
regras logo nos primeiros
anos da escola. Acredito
que, com a violência dos
programas, a burocracia na
escola, o desrespeito pelo
professor, não há tempo
para falar e escrever corretamente. Já nem falo dos
erros, tanto gramaticais
como de pontuação
e sintaxe. É a pobreza do
que se diz e escreve que
me preocupa. Estamos
sempre com pressa.
Para si, o erro desvirtua a
língua ou pode ser encarado
como uma força que conduz
à renovação, à evolução? Ou
não é nenhuma destas duas
coisas?
O erro tem sempre de ser
visto no contexto. Estamos a copiar um texto ou
a fazer um ditado? Não se
pode deixar passar, nunca.
E cada vez se copia e dita
menos… Estamos a fazer
um exercício de criatividade? Então os erros
ortográficos não podem
pesar, pois é a forma de
levar os alunos, ao
corrigir a escrita, a alargar
o seu vocabulário. Dou uns
exemplos: o «Extrovante»,
em vez de «Os Trovante»
(grupo musical); «não vá o
dia apetecê-las», em vez de
«não vá o diabo tecê-las».
Tem de haver espaço para
arriscar escrever aquilo
que não se sabe bem, pois
só assim se evolui.
Qual a relação entre a música e a escrita? Começou pela
música, não é verdade? Mas
dedica-se agora à escrita…
Serão duas faces da mesma
moeda? Duas linguagens?
Talvez sejam, sim. São
sobretudo duas formas de
sentir e expressar emoções
e sentimentos. A escrita
só entrou muito tarde na
minha vida, quando
inventava histórias para
os meus filhos (e vivia uma
das épocas mais difíceis
por que passei). Foi um
caminho que me restruturou. Sinto-me muito mais
à vontade na escrita, ou
então nas canções, porque
escrevo música e letra.
Alguma vez se lembrou de
utilizar a música, nos seus
ateliês, para estimular a
criatividade da escrita? Será
que a música pode ter
influência no fluir das
palavras?
Claro que sim! Tem uma
gigantesca influência
porque, como disse atrás,
mexe com as nossas emoções. É muito interessante
fazer essa ponte,
e os resultados são surpreendentes.
É mais difícil escrever para
crianças, para jovens ou
para adultos?
Para crianças, sem dúvida.
É uma responsabilidade,
pois a criança ainda não
sabe defender-se ao ler;
um perigo terrível, porque
o moralismo anda sempre
de roda; e tem de ser
emocionalmente forte
(divertido, ou intenso, ou
provocador, etc.). Levamos
menos tempo a escrever
porque são histórias mais
curtas, mas se contabilizássemos o equilíbrio
página/tempo iríamos
encontrar uma escrita
muito mais lenta.
Qual a responsabilidade
de um escritor na divulgação
e aprendizagem da língua
junto das crianças?
É uma responsabilidade
clara e gigantesca. No fundo, somos responsáveis por
fazer dos leitores melhores
utilizadores da língua, lida
e escrita. Por isso, quem
aprende comigo, já sabe
que nunca deixo passar
uma vírgula entre
o sujeito e o predicado,
um «á», nem perdoo
os advérbios de modo
em excesso, por exemplo…
Tem de se escrever de
forma correta, interessante
e rica.
Como não gostamos de
números redondos, não
vamos terminar a entrevista
na pergunta 10… Aqui vai
a nossa décima primeira
e última questão. Qual a
importância que uma língua
tem na identidade de um
povo? Há povos que falam
mais de uma língua, mas
ainda assim mantêm um
sentimento de unidade. A
Língua Portuguesa, por seu
lado, é falada em diversos
países, nos pontos mais
variados do globo… é pertença de vários povos…
Se pensarmos bem,
mesmo sendo sempre a
Língua Portuguesa a ser
falada em tantos países,
ela tem nuances diferentes
em cada país. Por isso se
torna tão própria de cada
povo falante. Uma língua
viva é isso mesmo, adapta-se e cresce. Contudo, em
cada país, traz unidade à
sociedade que a fala, é a
base comum para todas as
interações.
Agradecemos a sua amabilidade e disponibilidade
para responder às nossas
perguntas, assim como
a sua contribuição diária
para manter viva e saudável a língua que partilhamos.
Escola Básica Dr. António
Augusto Louro
Professores: Anabela Pires Carreira,
José Plácido.
Alunos: Bruna Silva, Ângela Sousa,
Alexandre Afonso, Gustavo Regala,
Bruna Rossa, Andreia Santos, Rita
Jacinto, Alexandra Figueira, António Santos, Maria Sebastião, Marie
Martins
Escola Secundária Dr. José
Afonso
Professores: Dora Pinheiro, Dulce
Oliveira, Antónia Fradinho, José Sebastião, Carla Batista, Alice Santos.
Alunos: Caetano Dios, Lara Gândara, Inês Costa, Maria Brandão, Sara
Dias, João Meneses, Inês Duarte,
Ana Margarida Branco, Rita Marques.
Edição e paginação: Câmara Municipal do Seixal
Impressão: Grafedisport – Impressão e Artes Gráficas, SA – Rua Consiglieri Pedroso – Casal de Santa
Leopoldina – Queluz de Baixo –
2745-553 Barcarena –
Tel.: 214 345 400 Fax: 214 360 542
Tiragem: 8000 exemplares
Distribuição gratuita
12
Jornal Interescolar l MAI 2015
Escola Básica Dr. António Augusto Louro
Escola Secundária Alfredo dos Reis Silveira
« (…) a nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das
ideias
nas palavras inevitáveis, (…) aquele assombro vocálico
em
os sons são cores ideais (…) Minha pátria é a língua portug que
uesa.»
«Palavras que muito amei,
Que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.»
Autor: Fernando Pessoa/Bernardo Soares (Portugal)
Autor: Eugénio de Andrade (Portugal)
o
Escola Secundária Manuel Cargaleir
Escola Secundária Dr. José Afonso
«Se há um bem precioso que, ainda por cima,
não é de ninguém em particular,
é obra de todos, é a Língua Portuguesa.»
«As palavras proferidas pelo coração não têm língua que as
articule, retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se
podem ler.»
Autor: José Saramago (Portugal)
Autor: José Saramago (Portugal)
Escola Secundária Joã
o
Escola Secundária de Amora
«Da minha Língua vê-se o mar. Da minha Língua ouve-se o seu
rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou do deserto.
Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.»
Autor: Vergílio Ferreira (Portugal)
de Barros
«Escrever é usar as palavras com sensualidade»
«Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrear.
As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias
visíveis, sensualidades incorporadas (…)»
Autor: Fernando Pessoa/Bernardo Soares (Portugal)

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