O que estou fazendo aqui?

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O que estou fazendo aqui?
Introdução
Emigrantes de proa
Nenhum vento é favorável para o marujo que
não sabe para onde ir. Sêneca
A natureza não impôs limites às nossas
esperanças. Condorcet
Aos quinze anos decidi aprender.
Aos trinta, estava firme na Via.
Aos quarenta não tinha mais dúvidas.
Aos cinquenta, compreendi a lei do Céu.
Aos sessenta, o meu ouvido estava
perfeitamente afinado.
Aos setenta, eu agia conforme mandava o meu
coração. Confúcio
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O que estou fazendo aqui?
O mundo irrequieto. Vamos imaginar que podemos renascer escolhendo
onde e quando. Escolheríamos o Oriente ou o Ocidente? Um país frio ou um país
quente? Capitalista ou comunista? Monoteísta ou politeísta? Gostaríamos de reviver em nós a Atenas de Péricles ou a Meca de Maomé? A Paris de Napoleão ou
o Brasil de Juscelino Kubitschek? E, escolhendo um país atual, optaríamos pelos
Estados Unidos ou pela China, pelo gradiente árabe ou pelo da Europa setentrional? Não seria fácil tomar uma decisão, nem arriscar conselhos a respeito. Viajando pelo planeta, encontram-se pouquíssimas pessoas satisfeitas com o tempo
e o lugar em que vivem. Muitos adultos se queixam de não morar alhures; muitos
jovens, estimulados por irrequieta agitação, mudam continuamente de cidade e
de país em busca de um lugar onde “pendurar o chapéu”, como diria Bruce Chatwin. Mas logo que acham tê-lo encontrado perguntam a si mesmos “Que diabos
estou fazendo aqui?” e retomam o seu caminho de eternos andarilhos.
Nos últimos dois séculos milhões de pessoas, atraídas pelo mito do capitalismo americano, deixaram a Europa para desembarcar em Ellis Island ou
em Baltimore; outros milhões, fascinados por aventura, liberdade e imensidão
das terras, chegaram à Austrália ou à América do Sul vindos da Europa e da Ásia;
nos últimos cem anos milhões de outras pessoas confiaram suas esperanças aos
grandes laboratórios do comunismo real – Rússia, China, Cuba –, onde surgiria o
sol do futuro. Agora milhões de retirantes fogem da miséria, dos desastres naturais, das perseguições políticas e religiosas para se abrigar em países mais afortunados e acolhedores. E também há os new global, que mudam de país em busca
de escolas mais prestigiosas, de trabalhos mais bem remunerados, de melhores
condições de vida.
Não há progresso sem felicidade. Fala-se em crise do Ocidente, mas nesta altura todo o planeta experimenta um mal-estar que os profetas da desventura
pressagiam irreversível. Não faltam as empresas, os supermercados, os exércitos,
as frotas, os depósitos cheios de bombas de hidrogênio, os cofres repletos de barras de ouro, as igrejas, as entidades transnacionais, as universidades, os laboratórios de pesquisas científicas, os centros produtores de mídia, as tecnologias capazes de ligar todos a todos em tempo real. Não faltam leis ou tribunais, direitos
civis, welfare, liberdade de expressão e de movimento. Nunca como agora tantos
estados adotaram um regime democrático e republicano. Nunca como agora os
filhos recebem instrução e conforto num nível que seus pais jamais tiveram. Já
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somos 7 bilhões no mundo e, quando se fala nisso, logo pensamos em bocas esfomeadas, esquecendo que cada uma delas corresponde a um cérebro. Nunca como
agora o planeta foi habitado por uma massa tão grande de matéria cinzenta escolarizada. Somos o maior cérebro coletivo que jamais existiu, que continuará
crescendo nas próximas décadas.
Mas não há progresso sem felicidade, e o mundo não é feliz porque oscila
entre desorientação e medo, afastando-se cada vez mais da miragem das revoluções burguesas e proletárias que explodiram em nome de igualdade, equidade,
liberdade, solidariedade. Atualmente vivemos oitenta anos – nove a mais que
Confúcio, dez a mais que Sócrates – e percebemos que em poucas décadas a humanidade conseguiu prolongar a duração da vida média, decuplicar a população
mundial, abolir a escravidão, construir obras surpreendentes, fazer descobertas
científicas inimagináveis, escrever obras-primas literárias e músicas suaves, inventar próteses úteis e confortáveis, explorar células e planetas com a mesma
precisão. Mas também perguntamos a nós mesmos por que ampliamos até este
ponto a distância entre pobres e ricos, abandonamos ao seu destino tantos perseguidos, exploramos tantas crianças, torturamos tantos prisioneiros, marginalizamos tantas mulheres, discriminamos tantas minorias, entregamos o poder
a tantos incapazes, confiamos o nosso destino a tantos criminosos, ferimos tão
profundamente o meio ambiente, nos entregamos a tantas guerras sanguinárias,
alienamos e manipulamos tantos seres pobres de espírito.
Sempre encontramos uma saída culpando ora o capitalismo, ora o comunismo, os Estados nacionais, a ideologia leiga ou o fanatismo religioso, a secularização,
o consumismo, o materialismo, os grilhões da tradição ou o estímulo da novidade, a
competição pelo sucesso ou a desistência em nome de uma vida tranquila.
Crise e projeto. Talvez nunca se tenha falado tanto em crise como a partir
do momento em que começaram a difundir-se novas tecnologias que assumem o
esforço físico do homem, fortalecem a sua capacidade de memória, de cálculo e
até de inteligência, ajudam a sua saúde física, ampliam seus conhecimentos, descortinam novos horizontes para a biogenética, para a agricultura, os transportes
e permitem – já aqui e agora – transformar o tempo do trabalho servil em tempo
livre para o crescimento das pessoas e da coletividade.
Diante desse paradoxo vemo-nos forçados a reconhecer que o que está em
crise não é a realidade, mas, sim, a nossa maneira de interpretá-la, os nossos modelos: uma vez que as categorias mentais oriundas da época industrial já não são
capazes de explicar o presente, acabamos sendo induzidos a desconfiar do futuro.
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Dificuldades parecidas também aconteceram na passagem da sociedade
rural para a industrial, com uma diferença fundamental: a célula sobre a qual se
baseava a sociedade industrial – isto é, a fábrica – tinha uma intrínseca lentidão
de difusão. Por isso, dois séculos depois desse salto, ainda existem amplas zonas
do planeta até hoje não alcançadas por assentamentos industriais ou até pelos
seus produtos. Por mais rápidos que tenham sido os processos de industrialização, por mais traumáticos que tenham sido os efeitos das “catedrais no deserto”,
tratou-se mesmo assim de transformações que levaram anos e que, em muitos
casos, foram antecedidas e acompanhadas por intervenções normativas que visavam a atenuar o seu impacto. Quase sempre, além do mais, estes processos de
industrialização comportavam um aumento da renda, do poder de compra, do
bem-estar material que de alguma forma compensava o desconforto da modernização. No advento pós-industrial, por sua vez, um dos elementos principais é
representado pela difusão das informações através da mídia e da rede: um fenômeno, portanto, caracterizado por uma propagação e uma penetração extremamente rápidas, que trazem diretamente à baila os modos de pensar, os esquemas
mentais, as tradições, a cultura de milhões de pessoas.
Além disso, ao contrário do que aconteceu na transição entre a sociedade
rural e a industrial (quando se instaurava uma relação dialética entre a fábrica
e o campo, limitada às áreas em vias de industrialização e aos trabalhadores de
origem camponesa), na passagem da sociedade industrial à pós-industrial convivem de forma turbulenta sejam os resquícios rurais, sejam as presenças industriais, sejam as inovações pós-industriais. A transição de uma para outra fase,
com efeito, não significa substituição radical da primeira por parte da segunda:
só significa que um elemento se torna central no lugar do outro, que perde a sua
hegemonia mas não sua presença e influência.
Daí a nossa sensação de crise que reduz o desejo e a capacidade de planejar
o futuro, projetando a sua sombra negativa também sobre as gerações futuras.
Modelos de vida
Eternos desafios. Ficamos à espera do vento favorável, mas não sabemos
para onde ir. Sentimos crescer, dentro de nós e ao nosso redor, a exigência de um
novo mundo consciente e solidário, a urgência de um novo modelo de vida capaz
de orientar o progresso que, sem regras nem finalidade, se torna cada vez mais
insensato. Mas a quem cabe o ônus de elaborar este novo modelo? Quem possui
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experiência, sabedoria e genialidade o bastante para esboçá-lo? Será que já existe
algum tipo de embrião em algum lugar?
Em qualquer época da história, em qualquer recanto do mundo, os seres
humanos tiveram de enfrentar perenes desafios que a natureza parece gostar
de aprontar para eles: como vencer a dor, as doenças, a morte? Como derrotar a
miséria e a exaustão? Como eliminar a ignorância, o tédio, a solidão? Como nos
livrar dos grilhões da tradição e da violência do autoritarismo? Como amenizar a
tosca grosseria e embelezar a feiura?
Cada um desses desafios foi enfrentado recorrendo-se a instrumentos específicos; todos juntos foram enfrentados criando-se sistemas sociais, modelos
de vida. Alguns desses modelos baseiam-se na existência terrena, outros, na vida
ultraterrena; uns confiam na introspecção, outros, na organização; alguns decorrem de algum livro sagrado, outros, de um plano profano; alguns celebram uma
existência de dias de festa, outros, uma sobrevivência de dias úteis.
Incipit. Muitos modelos são inspirados por um conjunto preciso de sagradas escrituras ou até por meros preceitos morais. Nesses casos, basta ler o incipit
dos textos de referência para perceber as primeiras diferenças que os separam e
as primeiras afinidades que os unem. Milhões de pessoas seguem o modelo taoista, cujo livro mais venerado – Tao Te Ching, o livro do caminho e da virtude – começa assim: “O tao que pode ser contado não é o tao eterno, o nome que pode ser
mencionado não é o nome eterno. O princípio do céu e da terra não tem nome.”
Outro livro fundamental do taoismo – Chen-Tzu, este é o verdadeiro livro de Nan-hua – começa assim: “No oceano setentrional vive um peixe chamado K’un, do
tamanho de não sei quantos milhares de li. Quando impetuosamente levanta voo,
suas asas são como nuvens suspensas no céu. Quando o mar está revolto, este
pássaro se apronta a partir para o oceano meridional, que é o lago do céu.”
Milhões de muçulmanos vivem e morrem em nome do Corão. Aqui está o
seu início:
Em nome de Alá, o Compadecido, o Misericordioso. O louvor [pertence]
a Alá, Senhor dos mundos, o Compadecido, o Misericordioso. Rei do
dia do Juízo. Nós Te adoramos e a Ti pedimos ajuda. Guiai-vos no reto
caminho, o caminho daqueles que encheste de graça, não daqueles que
[incorreram] na [Tua] ira, nem dos que perderam o rumo.
Milhões de cristãos e judeus vivem conforme os ensinamentos da Bíblia,
livro sagrado inspirado por Deus, que começa assim: “No princípio criou Deus o
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céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face das águas.
E disse Deus: Haja luz; e houve luz.”
Milhões de norte-americanos respeitam a Constituição subscrita pelos
seus pais, que começa assim:
Nós, o povo dos Estados Unidos, visando a aperfeiçoar a nossa União,
garantir a justiça, assegurar a tranquilidade, prover a defesa comum,
promover o bem-estar geral, salvaguardarmos para nós e para os nossos
descendentes o bem da liberdade, estabelecemos a presente Constituição como lei para os Estados Unidos da América.
Milhões de comunistas lutaram, viveram e morreram em nome do Manifesto, escrito por Marx e Engels em 1848, que começa assim: “Um espectro ronda
a Europa – o espectro do comunismo. Todas as potências da velha Europa unem-se numa Santa Aliança para conjurá-lo: o papa e o czar, Metternich e Guizot, os
radicais da França e os policiais da Alemanha.”
Desde as primeiras palavras dos seus textos de referência torna-se difícil
penetrar as várias culturas e os vários modelos de vida social. Torna-se árduo até
comparar classificações aparentemente simples como, por exemplo, as das espécies animais. Num sistema sinóptico de tipo racional, escrito no Ocidente positivista, os animais são relacionados segundo o tipo de pele, a locomoção, o número
de patas, a alimentação, a reprodução. Ou então são salomonicamente divididos
entre vertebrados e invertebrados para em seguida subdividi-los ulteriormente em endotérmicos e exotérmicos; os invertebrados em esponjas, celenterados,
anelídeos, moluscos, equinodermos e artrópodes. Por sua vez, na arqueologia das
ciências humanas, com triplo salto vital, Michel Foucault menciona Borges que,
por sua vez, cita uma enciclopédia chinesa na qual os animais são classificados
assim: “a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) domesticados; d) leitõezinhos ainda não desmamados; e) sereias; f ) mitológicos; g) cães sem dono; h)
incluídos nesta classificação; i) que se mexem de forma doida e desordenada; et
coetera; m) que fazem o amor; n) que de longe parecem moscas.”
Quantos modelos de vida? As classificações estão na mente de quem classifica, assim como a beleza está nos olhos de quem vê, e a música, nos ouvidos de
quem ouve. Se passarmos a analisar os modelos organizativos e comportamentais, descobriremos tantos deles quantos são os indivíduos, os casais, os grupos,
cada um com seus hábitos, suas linguagens, seus rituais, seus conflitos e suas maneiras de resolvê-los. Mas, se ampliarmos a observação até os grandes modelos
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criados pela humanidade, percebemos que o seu número fica muito menor, e
que todos os modelos individuais ou de grupo nada mais são que a modulação
de uns poucos macromodelos históricos, profundamente diferenciados uns dos
outros. Seu número depende dos critérios com que são definidos. Eu só levei em
consideração aqueles que me pareceram preeminentes em relação à finalidade
que me propusera: tirar dos principais modelos já experimentados os elementos
fecundos a fim de elaborar um modelo novo, condizente com a nova humanidade
e capaz de aumentar o seu nível de felicidade. Para ser realmente abrangente, talvez eu devesse ter dobrado ou triplicado o número de modelos examinados. Todo
leitor que compartilha este meu propósito tem plena liberdade para acrescentar
ou descartar alguns deles, para criticá-los, compô-los, desmembrá-los, compará-los: exercícios preciosos, todos eles, para nos aproximarmos da nossa meta.
Modelos, maquetes, patterns. Hoje em dia, todos os modelos históricos
com os quais se conformam e se defrontam 7 bilhões de seres humanos se mostram inadequados. Mas o que vem a ser um modelo? Alguns anos atrás, em 23
de setembro de 2000, eu tinha um encontro marcado com o meu amigo Oscar
Niemeyer. Setenta dias antes, despudoradamente, eu lhe pedira de presente o
projeto para um auditório a ser realizado na Itália, e ele, generoso e pontual, o
tinha preparado. Bati à porta do seu estúdio, na Avenida Atlântica, Oscar abriu
com o costumeiro carinho e, enquanto ainda nos abraçávamos, pude vislumbrar
a maquete pronta na sua mesa de trabalho. A beleza surpreendente foi para mim
como uma chicotada de energia humana. Aquela maquete era um “modelo”, na
medida em que já continha, em escala reduzida, toda obra-prima que agora se
pode admirar na Costa Amalfitana. Se, como diz Keats, a obra de arte é um prazer para sempre, aquele modelo era uma obra de arte que já representava, em si,
como que liofilizada, toda alegria que proporcionaria aos que dela viessem a fruir
ao longo dos séculos vindouros.
Modelo é uma palavra densa. Os cientistas usam-na teoricamente na física
e na química, na engenharia e na informática. Na economia, é uma construção
matemática com a qual se representam processos e fenômenos através de variáveis ligadas por relações lógicas. A escultura e a arquitetura, a mecânica e o teatro privilegiam o modelo tridimensional ao qual dão o nome de “diorama”: uma
construção em tamanho reduzido com características e relações harmonizadas
com as maiores, que mais tarde encontraremos na construção real, permitindo
uma pré-visão e uma pré-avaliação da sua consistência, limitando assim os possíveis riscos e gastos. O esboço de uma cenografia é um diorama, assim como um
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presépio ou um campo de batalha com seus soldadinhos de chumbo, montados
por mera diversão por um colecionador; mas também é diorama a ilusão ótica de
um wargame como Gundam ou Warhammer 40K.
Em francês e português usa-se a palavra maquette/maquete; na Itália, preferimos falar em modelo, e usamos este termo principalmente na arquitetura e
no design industrial, em que maquette permite avaliar de antemão um objeto –
um edifício, um avião, um automóvel – do ponto de vista do equilíbrio volumétrico, do impacto estético, das propriedades aerodinâmicas. Parece que o primeiro
a usar esse expediente foi Flaminio Bertoni que, em 1932, construiu o modelo
da Citroën Traction Avant. Na arquitetura, no entanto, já muitos séculos antes
Brunelleschi e Michelangelo haviam recorrido a modelos válidos para calibrar o
projeto e convencer os comitentes. Na sociologia, na antropologia e na etologia
usa-se amiúde o termo inglês pattern, isto é, esquema, padrão constante. O mesmo termo é usado na informática para indicar os algoritmos que seguem um percurso preestabelecido, como, por exemplo, as funções de pesquisa na hipotética
estrutura subatômica chamada string. Na biologia, o termo pattern ou padrão se
refere a vários tipos de regularidades, como as encontradas na sequência do DNA
ou no desenvolvimento de um organismo.
Nas ciências sociais e na etologia, com pattern indicamos a estrutura e as
funções de um sistema social, de um comportamento coletivo, de uma maneira
de viver, tais como determinadas culturas, determinadas organizações complexas, determinadas regularidades no comportamento humano ou animal. Em psicologia, o sentido do termo pattern muito se aproxima daquele de Gestalt como
forma totalizadora, unidade perceptiva composta de diferentes estímulos.
Modelos, metáforas. Muitas vezes os modelos são apresentados e ilustrados na forma de metáforas para se tornarem mais sugestivos, compreensíveis,
convincentes e fáceis de serem lembrados. Tito Lívio conta que Menênio Agripa,
para explicar à plebe revoltada as vantagens de uma sociedade solidária, usou
uma metáfora anatômica: “De forma que o senado e o povo, como se fossem um
único corpo, perecem na discórdia e permanecem saudáveis na concórdia.” No
Evangelho de João, Jesus descreve a ecclesia usando uma metáfora campestre:
“Eu sou a videira. Vocês são os sarmentos. Se um deles ficar junto a mim, e eu, a
ele, produzirá muitos frutos; sem mim, nada poderão fazer.”
Na história da sociologia nenhum autor resistiu à tentação de unificar a
sociedade em um só modelo oniabrangente, ou em dois modelos contrapostos, ou
em fluxos cíclicos, ou em sequências de modelos progressivos.
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Talcott Parsons, por exemplo, para explicar um sistema social, propõe um
único modelo estrutural-funcional. Durkheim contrapõe dois modelos, um mecânico e outro orgânico; Redfield contrapõe a sociedade urbana à rural; Tönnies
contrapõe a comunidade à sociedade; Spencer distingue entre grupos pequenos
e grandes, simples e compostos, homogêneos e heterogêneos.
O modelo cíclico já pode ser encontrado em vários autores clássicos: Políbio (206-224 a.C.) afirma que em toda sociedade a fase democrática, a anarquista
e a autoritária se alternam ao infinito. Giambattista Vico (1668-1744), por sua vez,
opta pelos cursos e recursos de três idades: a idade dos deuses e dos “brutamontes antigos, todos feitos de sexo e maravilha”, baseada na religião e nos oráculos;
a idade dos heróis e dos estados aristocráticos, baseada na força, no mito e na
poesia; a idade dos homens e dos estados populares, baseada no “direito humano
inspirado pela razão humana plenamente explicada” e respeitosa da “razão natural que iguala todos nós”.
Outros pensadores propuseram um modelo de sociedade que evolui por
etapas. Auguste Comte (1798-1857), nobre pai da sociologia, teoriza uma lei segundo a qual a evolução histórica da sociedade, do pensamento humano e da
organização da vida passa por três estágios sucessivos: o teológico, que corresponde à infância da humanidade, no qual os sacerdotes fazem confluir todos
os fenômenos aos fetiches, a uma pluralidade de deuses ou a um deus único; o
estágio metafísico, que corresponde à adolescência da humanidade, em que os
filósofos fazem confluir os fenômenos a forças abstratas tais como a natureza, a
matéria, a razão, o povo; e finalmente o estágio positivo, correspondente ao “estado viril da nossa inteligência”, no qual o homem para de sonhar e os sociólogos
endereçam a razão para a praxe através do pensamento positivo, isto é real, útil,
seguro, preciso, construtivo.
Aí, mais perto de nós, Pitirim Sorokin (1889-1968) defendeu a ideia pela
qual toda sociedade se desenvolve passando por três fases: ideativa, sensitiva e
idealista. Ainda mais perto dos dias atuais, Walt Whitman Rostow (1916-2003)
afirmou que o desenvolvimento de uma sociedade passa do estágio arcaico à
modernização através de cinco fases: o estágio tradicional (agricultura, subsistência, autoconsumo, reciprocidade, fatalismo, amoralidade da vida familiar); o
estágio do levantar voo (take-off); o estágio do bem-estar industrial; o estágio do
consumo massificado; o estágio da abundância e da interdependência.
Uns quinze anos atrás Gareth Morgan dedicou uma pesquisa de grande
interesse – Imagens da organização – ao reconhecimento das metáforas com que
foram descritas as organizações sociais, comparando-as ao longo do processo
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com uma pirâmide, um relógio, um fluxo de água, uma árvore, um corpo humano,
um cérebro, uma colmeia. À medida que as representações se refinam, passamos
dos modelos empíricos aos modelos estatísticos e matemáticos. Robert Freed
Bales usou estes recursos para representar as interações nos pequenos grupos, e
o prêmio Nobel Herbert Simon aconselhou o seu uso para descrever os fenômenos de imitação social.
Todas essas metáforas são outros tantos modelos bastante simples aos
quais recorremos para entender, ilustrar e explicar uma organização. Cada
um deles contém uma parte de verdade e salienta determinados problemas
específicos.
Estilo Positano. Como todos os livros, este também nasceu após longa incubação e de uma precisa ocasião determinante. O meu ofício é estudar e comparar
os dados socioeconômicos internacionais; por trabalho e paixão, viajo pelo mundo.
Com frequência cada vez maior e nos mais diferentes lugares, ouço dizer: “Deste
jeito, não dá para continuar. Neste nosso modelo de vida tem algo errado. Precisamos mudar.” O desânimo não tem a ver somente com as decepções econômicas, mas também com a organização geral da sociedade atual, que parece cada vez
menos capaz de satisfazer o nosso legítimo desejo de felicidade. Apesar dos seus
recursos, das suas belezas, da variedade das suas organizações, o mundo em que vivemos é decepcionante. A euforia que nos oferece e a depressão com que nos aflige
parecem igualmente casuais, bizarras, insensatas, nebulosas, inexplicáveis porque
não possuímos um preciso sistema de valores e de expectativas com o qual identificar a nossa posição atual e corrigir nossos rumos futuros. Os modelos de vida até
agora experimentados nos parecem irremediavelmente obsoletos, mas ainda não
conseguimos elaborar um novo modelo finalmente capaz de amenizar o medo, de
reduzir a desorientação, de endereçar o progresso para desfechos felizes.
No meu entender, o impasse em que nos encontramos decorre da singular
e incômoda circunstância devido à qual a atual sociedade pós-industrial, ao contrário de outros macrossistemas que a antecederam, não nasceu a partir de um
modelo preexistente, de um paradigma já elaborado e compartilhado, mas, sim,
de agregações sucessivas de ideias parciais, tecnologias surpreendentes, produtos supérfluos, ritos aborrecidos, comportamentos insanos, antes mesmo que
alguém a teorizasse, definisse as suas características, a planejasse, a protegesse
e lhe desse um rumo.
Le Corbusier chama de “estilo Positano” a urbanística resultante da agregação sucessiva, acidental, de casas, praças e ruas num determinado habitat.
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Sérgio Buarque de Holanda, na América Latina, distingue por sua vez as cidades espanholas minuciosamente planejadas pelos colonizadores espanhóis, que
se portavam como ladrilhadores, das cidades lusas amontoadas de qualquer
maneira pelos colonizadores portugueses, que se portavam como semeadores,
espalhando as sementes no vento. Positano e as cidades brasileiras (exceto Brasília) podem ser consideradas metáforas da nossa sociedade pós-industrial, que
nos desnorteia devido à falta de um modelo geométrico capaz de aliviar a nossa
perturbação.
Não foi o que se deu com muitas sociedades precedentes: a medieval, por
exemplo, surgiu do modelo cristão que encontrava na cidade de Deus a inspiração para as cidades dos homens; a sociedade capitalista nasceu do pensamento
protestante e da profunda reflexão de Smith sobre a riqueza das nações; a social-democracia e o Estado social desenvolveram-se conforme os modelos esboçados por Eduard Bernstein e Karl Kautsky; a sociedade soviética nasceu do modelo marxista-leninista.
Sempre me fascinou a aventura intelectual dos iluministas: poucas dúzias
de intelectuais que, bem no apogeu do absolutismo monarquista, ousaram elaborar e propor um modelo de sociedade baseado na razão, na liberdade, na laicidade
e na igualdade, enfrentando perseguições, masmorras e, no caso de Condorcet,
até a morte.
Um novo modelo não surge por acaso e de repente: surge em cima dos escombros de todos os modelos anteriores e requer um sério esforço de análise, de
fantasia e de concretude, isto é, de criatividade coletiva. Antes de qualquer outra
coisa, portanto, é preciso recorrer pacientemente aos modelos já experimentados ao longo da história humana, descartar a parte obsoleta e destilar o sumo
ainda fecundo a ser valorizado pelos intelectuais na elaboração de um modelo
novo, finalmente capaz de nos livrar da sensação de crise que habita em nós e
nos impede de planejar um futuro feliz. Este livro tenciona ser uma contribuição para a reavaliação de alguns modelos já experimentados. Trata-se, portanto,
da primeira e tímida etapa de um revezamento que entregará o bastão a outros
eventuais intelectuais mais jovens, capazes e pertinazes.
A loucura de fazer modelos. Segundo William Graham Sumner, “a maior
loucura de que um homem pode ser capaz é sentar à mesa com caneta e papel
para planejar um novo mundo social”. Mesmo assim, no entanto, esta loucura
produziu a República de Platão e a Ciência nova de Vico, o projeto iluminista
de Diderot e Voltaire, o positivista de Comte e Spencer, o comunista de Marx e
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Engels, o cibernético de Norbert Wiener, o conflituoso de Coser e Dahrendorf, o
pós-industrial de Bell e Touraine. A mesma loucura projetista incitou pedagogos
como Rousseau, Dom Bosco e Paulo Freire a elaborar modelos educativos para as
novas gerações e levou os pais constituintes, como Franklin e Jefferson, a escrever as constituições.
Neste livro eu viro pelo avesso o sentido e o uso do termo modelo: não
construo uma maquete ou um pattern para representar uma realidade social,
mas, sim, esboço os traços fundamentais de uma sociedade concreta para fazer
dela um modelo. Desta forma persigo a dúplice finalidade de tornar comparáveis as diferentes sociedades escolhidas como paradigmáticas, e de identificar
em cada sociedade analisada os detalhes que podem proporcionar motivos ou
material para a eventual construção de um modelo inédito. Um modelo capaz de
facilitar a compreensão da nova sociedade que nos cerca e reduzir o nosso desnorteio, que nela estamos vivendo.
Neste sentido por mim privilegiado, o modelo é uma representação essencial da vida humana numa determinada sociedade, um sintético mas abrangente
resumo da cultura ideal, material e social que distingue a maneira de viver de um
povo em relação a outro e permite níveis de sucessiva generalização.
Palimpsesto. Como já mencionei, os modelos sociais elaborados pela
humanidade ao longo da história não são numerosos, mas todos eles surpreendentes. Escolhi quinze – indiano, chinês, japonês, clássico, hebraico, católico,
muçulmano, protestante, iluminista, liberal, industrial capitalista, industrial
socialista, industrial comunista, pós-industrial, brasileiro – a partir de uma preferência em parte arbitrária e em parte obrigatória. Alguns destes modelos se
referem a sociedades atuais, outros, a sociedades do passado; uns a um só país,
outros, a inteiros continentes. Cada um deles, para ser destilado, exigiu séculos
de sabedoria coletiva, experiência, prudência, criatividade, reflexão, coragem.
Uma vez consolidado, dependendo dos casos, tornou-se uma força protetora,
um motor dinâmico, um tecido conectivo, uma jaula oprimente. Todo modelo nos faz confrontar uma quantidade desmedida de noções e disciplinas. Se a
minha intenção tivesse sido finalizar, nunca mais teria acabado de completar a
lista, de citá-las, de interligá-las, de compará-las. Para sintetizar os modelos examinados neste livro, portanto, tive de fazer escolhas e simplificações que, guardando de qualquer maneira os que me pareceram ser os traços fundamentais de
cada modelo examinado, permitissem obter um quadro geral facilmente governável, mas necessariamente incompleto. Isto fará com que o leitor, em cada caso
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e devido à sua nacionalidade e cultura, ao ater-se a um determinado modelo,
fique provavelmente decepcionado com a representação obviamente sumária
com a qual o descrevi.
Por vício profissional tinha começado a compilar o texto segundo as regras das publicações acadêmicas, em que toda afirmação é suspeita se não for
acompanhada pela devida citação das fontes. Então, entre os numerosos livros
que tive de ler ou reler, depois de tantos anos vi-me novamente diante de gloriosos volumes como A ética protestante de Max Weber, no qual as notas, as referências, as fontes ocupam um espaço exorbitante em relação ao texto principal,
tornando-o pesado a ponto de transformar uma obra-prima numa desanimadora
maranha intelectual. Decidi, portanto, eliminar as notas de rodapé, inserindo o
mínimo necessário de datas, dados e referências individuais. Assim, evitei o costume chato de fazer o leitor ir para a frente no texto, o que acaba rompendo o fio
da meada. Isso exige dele uma aceitação baseada na confiança, mas também lhe
proporciona uma leitura menos sádica. E, se ele quiser estudar mais biografias e
bibliografias, a maioria de suas necessidades pode ser facilmente satisfeita pelo
Wikipédia, que Weber não teve a tempo para apreciar.
O papel da religião. Um dos ensaios mais brilhantes sobre o Iluminismo
– O espírito das luzes, de Tzvetan Todorov (2006) – começa assim:
Após a morte de Deus, depois do desmoronamento das utopias, sobre
qual fundamento intelectual e moral pretendemos construir a nossa vida
comunitária? Se quisermos agir como pessoas responsáveis, precisaremos de um esquema conceitual sobre o qual fundamentar não só as
nossas palavras, coisa relativamente fácil de se fazer, mas também as
nossas ações.
Como eu já disse, a finalidade deste livro é justamente descrever de forma sintética alguns “esquemas conceituais” para permitir a comparação entre
eles, livrá-los da parte insatisfatória e espremê-los até encontrar dicas para
a formulação de um modelo novo, adequado à sociedade pós-industrial. Em
todo esquema entremeiam-se fatores políticos, econômicos, culturais. Toda
cultura tem sua própria dimensão ideal, formada pela língua, pelas crenças,
pelos estereótipos, pelos mitos, pela tradição, pela história; uma dimensão
material, formada pelo universo de objetos e artefatos; uma dimensão social
cujo desempenho se dá em termos de conflitos, colaborações, usos, costumes,
rótulos e ritos.
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Logo de cara o leitor poderá achar excessivo o papel que atribuí às religiões
na composição de alguns modelos. Mas o que vem a ser uma religião? É uma teologia que explora a relação entre o homem e a esfera sobrenatural. É uma íntima
familiaridade do indivíduo com o sagrado, que às vezes fica limitada a crenças e
atitudes estritamente pessoais, às vezes se move no âmbito de uma fé monoteísta
ou politeísta, ou que então abarca de forma panteísta o inteiro universo. A religião também é uma série coerente de comportamentos, hábitos, práticas, ritos e
cerimônias. É uma Eclésia sobrenatural de santos. É uma instituição terrena de
fiéis, com suas hierarquias e estruturas, que remonta a um determinado fundador e ao seu paradigma teológico. É um conjunto de textos, narrativas, lugares e
objetos sagrados, ao qual a comunidade dos fiéis tributa seus cultos. É uma visão
total da vida e do mundo – um “modelo”, podemos dizer no nosso caso – correspondente a um sistema de regras, virtudes e proibições; é um critério distintivo
entre o bem e o mal, entre o terreno e o ultraterreno, entre o eterno e o temporal;
é uma tradição do passado, uma previsão do futuro.
Dependendo da acepção preferida, uma determinada tradição espiritual
poderá ou não ser considerada religião. Se a crença presumir uma relação entre
o ser humano e um Ser Superior, então o budismo (que não fala de Deus) não
poderá ser considerado uma religião. Mas se ampliarmos o sentido do termo até
ele compreender ensinamentos espirituais e morais aceitos com fé por uma comunidade e praticados na vida cotidiana, então o budismo também se enquadra
perfeitamente com a definição. Sei muito bem que existe uma diferença entre
religião pregada e religião praticada. Sei muito bem que toda religião está sujeita
a um tríplice julgamento por parte dos seus crentes, por parte dos crentes de outras religiões, por parte dos ateus.
Seja como for, até o advento do Iluminismo era impossível analisar um
modelo social prescindindo do papel da religião, porque todo sistema humano fora habitado por divindades que apareciam, sumiam, exigiam, impunham,
amaldiçoavam, prometiam, favoreciam, seduziam, enganavam, abandonavam,
se imolavam, revelavam a sua palavra pessoalmente ou falavam pela boca dos
profetas, dos anjos no céu ou dos representantes na terra, manifestavam-se verbalmente ou através de milagres, carestias, colheitas abundantes, cataclismos,
prodígios, vacas gordas e vacas magras. Aí o Iluminismo afastou da narrativa humana toda presença sobre-humana e colocou o homem diante de si mesmo, dono
e planejador do próprio destino, indicando-lhe um itinerário racional rumo a um
novo humanismo pensado em termos de democracia, igualdade e liberdade. A
partir daí toda explicação tornou-se mais difícil, uma vez que veio a faltar o deus
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ex machina. Foram tentados novos paradigmas, novas religiões, novas laicidades.
Enfrentamos guerras mundiais. Aventuramo-nos até os confins do infinitamente grande e do infinitamente pequeno, realizamos os sonhos ancestrais da ubiquidade, do voo, da onipotência, acalentamos a esperança na imortalidade. Mas
ainda estamos no meio da travessia, pois o antigo custa a morrer e o novo demora
a nascer.
Ocorre, portanto, começar a trabalhar para rever criticamente os percursos já experimentados na história humana e tirar deles indicações para o caminho que nos aguarda. O mapeamento dos principais modelos de vida até agora
experimentados pela humanidade requer um ato de imperdoável soberba. Mas,
como dizia Federico García Lorca, “todos llevamos dentro un grano de locura, sin
el qual es imprudente vivir”, todos temos dentro de nós um grão de loucura sem
o qual é imprudente viver.
Emigrantes da proa. Nasci numa região pobre da Itália, quando ainda
eram muito numerosos os conterrâneos forçados a emigrar para sobreviver. Os
que partiam eram os mais atrevidos e os mais desesperados, investindo as suas
pobres poupanças na compra das passagens que os arrancariam para sempre das
suas raízes. Eram jogados nas estivas dos navios onde passariam semanas, amontoados como bichos, longe dos olhos dos passageiros da primeira classe que, ao
vê-los, poderiam ficar enojados. E quando estes privilegiados se reuniam para
almoçar em seu luxuoso restaurante, só então os nossos emigrantes tinham permissão de subir ao convés para tomar um pouco de ar.
Ao chegarem lá em cima, alguns deles, os mais feridos pela separação, dirigiam-se quase por reflexo condicionado para a popa, de olhos fixos no horizonte
de onde vinham. Outros, mais irredutíveis, corriam rumo à proa tentando ser os
primeiros a avistar a terra prometida. Eram os emigrantes da proa: os que nos
antecederam na busca de um modelo de vida melhor. A eles, e aos meus quatro
netos, este livro é dedicado.
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