Ao infinito e Além - Revista Redescrições

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Ao infinito e Além - Revista Redescrições
1
Revista Redescrições
Revista on line do GT de Pragmatismo e Filosofia Norte-Americana
Ano 6, número 2, 2015
ISSN: 1984-7157
FOTO DE CAPA DESTA EDIÇÃO:
Título: Bubble love
Resolução original: 576 x 665
Licença: Attribution Licence
Fotógrafo: Steve Jurvetson
Disponível em:
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GT – Pragmatismo
e Filosofia Americana
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
2
Revista Redescrições é uma publicação quadrimestral do GT-Pragmatismo e Filosofia Americana da
Anpof. O conteúdo dos artigos publicados tratam de temáticas relacionadas ao pragmatismo, à filosofia
americana de uma maneira geral, ou uma aplicação do método de investigação pragmatista a questões
contemporâneas
ISSN: 1984-7157
Corpo editorial:
Paulo Ghiraldelli Jr. – UFRRJ e Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA)
Susana de Castro – UFRJ
Adriano Naves de Brito – Unisinos
Gabriel Palumbo (Universidade de Buenos Aires – UBA)
Bjorn Ramberg – Universidade de Oslo
Luiz Eduardo Soares – UERJ
Jurandir Freire Costa – UERJ
Cerasel Cuteanu – CEFA
James Campbell – Universidade de Toledo
Leoni Maria Padilha Henning – Universidade Estadual de Londrina
Michel Weber – Centro “Chromatiques whiteheadiennes”
Inês Lacerda Araújo – PUC-PR
Heraldo Silva – UFPI
Maria José Pereira – UCG
Vera Vidal – Fiocruz
Ronie Silveira – UNILAB
Reuber Scofano – UFRJ
Cristiane Maria Marinho – UECE
Narbal de Marsillac – UFPB
Baptiste Grasset – UNIRIO
Ricardo Corrêa de Araújo – UFES
Marcelo Barreira – UFES
Edna Maria Magalhães do Nascimento – UFPI
Aldir Filho – UFMA
Juliano Pessanha – CEFA e USP
Andrei Venturini – CEFA
Marcos C. Lopes (Unilab)
Expediente
REDESCRIÇÕES
Revista do GT-Pragmatismo e Filosofia Americana da Associação Nacional de Pós-graduação e
Pesquisa em Filosofia
ISSN 1984-7157
Editores: Paulo Ghiraldelli Jr e Maria José Pereira
Editores Executivos: Vitor Lima, Paulo Francisco M. Ghiraldelli, Frederico Graniço e Francielle
Maria Chies
GT – Pragmatismo
e Filosofia Americana
Revista Redescrições
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
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Revista on line do GT de Pragmatismo e Filosofia Norte-Americana
Ano 6, número 2, 2015
Sumário
Editorial ------------------------------------------------------------------------------------------- 4
Artigos
A Divulgação da Pesquisa Científica --------------------------------------------------------- 6
(Andrei Venturini)
Ao infinito e Além ------------------------------------------------------------------------------ 17
(Ronie Alexsandro Teles da Silveira)
Modelo para a construção de um projeto de pesquisa ---------------------------------- 29
(Andrei Venturini)
Estamos perdidos na sociedade contemporânea? ---------------------------------------- 36
(Paulo Ghiraldelli Junior)
Traduções
Comparação dos Cristãos dos primeiros tempos com aqueles de hoje (Blaise Pascal)
------------------------------------------------------------------------------------------------------ 45
(Andrei Venturini)
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
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Editorial (Revista Redescrições, ano VI, n. 2)
É com imensa satisfação que publicamos a segunda Redescrições do ano de
2015. Neste exemplar o leitor poderá constatar, salvo a tradução, dois temas nucleares:
ciência e sociedade. A ciência é uma grande aventura da humanidade sobre a Terra,
transformando a sociedade e gerando inúmeras controvérsias na epopéia do pensamento
ocidental. Heidegger, sabiamente, em seu ensaio O que é isto – a filosofia?, ressalta que
a certidão da bomba atômica está na aurora da filosofia grega. O amálgama entre
ciência e sociedade sempre gerou certa tensão, de maneira especial, com o advento da
segunda guerra mundial, na qual as descobertas da ciência tiveram seu uso efetivo em
cruéis campos de concentração, tendo como seu ponto alto uma ação eticamente baixa:
a bomba atômica. Longe de refazer a história destes fatos, os quatro artigos apresentam
uma reflexão ímpar sobre a ciência e a sociedade a partir do olhar desconfiado do
filósofo.
No primeiro artigo, A Divulgação da Pesquisa Científica, Andrei Venturini
Martins parte de um problema: o que é divulgação da pesquisa científica? Seu texto é
uma tentativa de lançar luz à ligação tênue entre a atividade científica e seus
instrumentos de divulgação, pois será a partir de uma divulgação transparente das
descobertas da ciência que um profundo diálogo com a sociedade será travado. O texto
apresenta um esboço histórico da divulgação da pesquisa científica desde a
modernidade, permitindo que o leitor conheça as mais variadas fontes de divulgação da
ciência na sociedade contemporânea.
Em seguida, Ronie Alexsandro Teles da Silveira nos apresenta o artigo Ao
infinito e Além. Com um texto fluido e envolvente, o autor aproxima a aventura da
nave Voyager 1 e o espírito de aventura em direção ao desconhecido, tão característico
do ato de filosofar. No entanto, nem sempre o homem colheu os benefícios deste
espírito, já que o totalitarismo, que marca o século XX, oblitera tanto o espírito de
aventura quanto à própria filosofia. O autor convidará o leitor a repensar um possível
“despertar do espírito de aventura da filosofia” a partir de um desvio dos horrores
políticos do século anterior.
Nosso itinerário de artigos ainda destaca mais um texto de Andrei Venturini
Martins, denominado Modelo para a construção de um projeto de pesquisa. O
espírito de aventura daqueles que amam a atividade investigativa não é exercido sem
nenhum método. Por este motivo, o autor pretende esclarecer os aspectos necessários
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para desenvolvimento de uma pesquisa científica, mas sem cair na “metodologização”
que retiraria toda criatividade do pesquisador. O texto é um guia sugestivo para aqueles
que desejam produzir um projeto de pesquisa acadêmica (monografias, dissertações
teses), elencando e refletindo cada passo necessário à formulação de um plano
investigativo, a saber: o título, a motivação pessoal, o tema, o estado da questão, o
objeto, o problema, o objetivo, a hipótese, a justificativa, a metodologia, o cronograma e
o levantamento bibliográfico.
O último artigo, escrito por Paulo Ghiraldelli Junior, recebe o título em forma de
uma instigante questão: Estamos perdidos na sociedade contemporânea?
Provocativo, mas lúcido, o autor enfatiza que o contemporâneo perdeu a proeminente
dicotomia entre o real e a ilusão, tão bem acentuada pelos antigos e modernos. As
grandes narrativas filosóficas, como o marxismo, perdem sua força, potencializando o
perspectivismo nietzscheano, o qual, como ressalta o autor, “nos pegou”. Será a partir
do perspectivismo, tão bem incorporado pela teoria social da Escola de Frankfurt, que
Debord, por exemplo, qualifica o contemporâneo como a “sociedade do espetáculo”. O
homem torna-se um espectador subjugado à mercadoria, a qual transforma-se em
fundamento das relações. Os objetos, majoritariamente, tornam-se atores no palco,
centro de todas as atenções, e os homens, ávidos consumidores, passivos aos solavancos
da fetichização agressiva do mercado: “você é agora o produto morto, o pedaço de carne
que deverá se acomodar à calça, enquanto que se impõe sobre você o pedaço de pano
falante, vivo, atuante, ou seja, o sujeito”.
Por fim, apresentamos a tradução, inédita em língua portuguesa e realizada por
Andrei Venturini Martins, do opúsculo Comparação dos Cristãos dos primeiros
tempos com aqueles de hoje de Blaise Pascal, publicado em 1779, mas escrito entre
1655 e 1657. Como bem ressalta o tradutor, apesar do texto ser uma crítica ao laxismo
do cristão em pleno século XVII, o leitor poderá perceber que pouca coisa mudou entre
os cristãos do contemporâneo
Lembramos ainda que o email de cada autor consta nos seus respectivos artigos,
de modo que o leitor poderá iniciar um proveitoso diálogo com nossos autores.
Boa leitura!
Os Editores.
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A DIVULGAÇÃO DA PESQUISA CIENTÍFICA
DISSEMINATION OF SCIENTIFIC RESEARCH
Andrei Venturini Martins

“No mais das vezes só queremos saber de alguma coisa para falar dela, caso
contrário, não viajaríamos pelo mar para nunca dizer nada a respeito e apenas
pelo prazer de ver, sem a esperança de jamais comunicar a ninguém”1
(Pascal. 1963, Laf. 919, Bru. 553, p. 621).
RESUMO:
Este artigo pretende refletir o seguinte problema: O que é divulgação da pesquisa
científica? Como hipótese, afirmamos que a atividade científica é intrínseca à
divulgação da pesquisa: para que a atividade científica continue seu progresso,
precisaria estar em contínuo diálogo com a sociedade e atenta à formação dos novos
pesquisadores. Para tanto, fizemos um esboço histórico da divulgação da pesquisa
científica desde a modernidade, ao fim, refletiremos as possíveis fontes da divulgação
da pesquisa na sociedade contemporânea.
Palavras-chave: Divulgação científica; Progresso; Sociedade.
ABSTRACT:
This paper reflects the following problem: What is dissemination of scientific research?
As a hypothesis, we affirm that scientific activity is intrinsic to the dissemination of
research: for the scientific activity to continue its progress, it needs to be in continuous
dialogue with society and attentive to the training of new researchers. Therefore, we
made a historical sketch of the dissemination of scientific research since modernity and,
at last, we will consider the possible sources of research dissemination in the
contemporary society.
Key words: Science dissemination; Progress; Society.
1 – INTRODUÇÃO.
Blaise Pascal, o jovem físico e matemático inventor da máquina de calcular, nos
lembra de um fator demasiadamente humano quando pretendemos conhecer algo: o

Doutor em Filosofia pela PUC-SP. (Email: [email protected]).
PASCAL, Blaise. Pensées, Laf. 77, Bru. 152. Para os Pensées, adotaremos as seguintes
referências: Laf. para indicar a Edição de Louis Lafuma; Bru, para a edição de Brunschvicg. A Edição
Louis Lafuma corresponde à edição brasileira Martins Fontes, já a Edição Brunschvicg corresponde a
Edição Abril Cultural (Os Pensadores).
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desejo irresistível de comunicação. Por ser humano, o tema da divulgação da pesquisa
científica é amplo. A divulgação pode ser pensada levando em consideração seu destino
e direcionamento: divulgação científica para cientistas, para a sociedade, para leigos
interessados ou para a formação escolar. Para cada destinatário uma literatura que lhe
convém é produzida e os problemas aparecem: Quem divulga a pesquisa científica?
Qual é a pertinência dos termos? Qual a abrangência daquilo que está sendo divulgado?
Favorece algum fator não cognitivo, seja ideológico, político, religioso ou econômico?
[Problema] Diante das questões acima esboçadas, buscaremos responder a
seguinte questão: O que é divulgação da pesquisa científica? Esta questão aponta para
relevância dos meios de comunicação e a sua possível eficácia. [Objetivo] Buscaremos
destacar os diferentes meios de divulgação da pesquisa científica na história (mídias,
bibliografias, artigos e bases de dados na internet) e a amplitude dessa divulgação.
[Hipótese] Afirmamos que a atividade científica é intrínseca à divulgação da pesquisa,
já que, para que a atividade científica continue seu progresso, precisaria estar em
contínuo diálogo com a sociedade, assim como atenta à formação dos novos
pesquisadores. Para tanto, faremos um esboço histórico da divulgação da pesquisa
científica desde a modernidade, ao fim, buscaremos responder a questão já proposta.
2 – HISTÓRIA E DIVULGAÇÃO DA PESQUISA CIENTÍFICA.
A divulgação da pesquisa científica surgiu com o advento da ciência técnicoanálitica. A partir do século XVI, encontramos alguns textos de grande relevância para o
tema. No entanto, na Grécia antiga havia uma preocupação dos primeiros filósofos na
transmissão da epistéme (ἐπιστήμη, conhecimento). Heidegger nos lembra que tal dado
é importante, já que a filosofia nascente foi berço da ciência moderna, mais
precisamente, da “era atômica”.2 Longe de tomar a antiguidade como objeto de
investigação, vale ressaltar a postura de Aristóteles quanto à divulgação do pensamento
até então produzido. Considerado o grande sistematizador do período clássico, o escritor
da Metafísica apresentou um critério pedagógico importante para aqueles que desejam
ser verdadeiros conhecedores do saber: o ensino. Aristóteles destacava que “[...] em
cada ciência, seja mais sábio quem possui maior conhecimento das causas e quem é
mais capaz de ensiná-la aos outros”.3 Nessa passagem podemos verificar um aspecto
2
HEIDEGGER, Martin. O que é isto – a Filosofia? p. 18.
ARISTÓTELES. Metafísica. trad. Giovanni Reale. v. II. São Paulo: Edições Loyola, 2002, A2,
982a 10-15.
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didático de Aristóteles. A sua Filosofia é uma reflexão sobre as causas (αἰτία). Uma
causa é aquilo que determina, fundamenta e explica dada realidade. 4 Para que tal
conhecimento das causas esteja claro para o indivíduo que as conhece, o estagirita
propõe um critério de divulgação: o saber ensinar. Não basta dizer conhecemos, mas é
preciso saber ensinar, pois, aquele que escuta, precisaria legitimar a ordem do
pensamento daquele que ensina. O simples ato de saber pode gerar solipsismos, logo,
ensinar é uma forma de demonstrar a ordem do pensamento, a lógica que se estabelece,
a acuidade dos argumentos, enfim, o esclarecimento dos passos da razão e os limites
daquilo que se conhece. O filósofo preocupou-se em estabelecer o ensino como um
critério de certeza: quem sabe ensinar justifica aquilo que se sabe. Quando nos
colocamos a pergunta Como eu sei aquilo que acho que sei?, o pensador grego responde
fazendo do Ensino/Aprendizado o critério de passagem da dóxa (δόξα) para a epistéme
(ἐπιστήμη). Assim, a divulgação do pensamento não é uma atividade marginal à
filosofia: quem sabe, sabe ensinar, e quem ensina, divulga aquilo que sabe (epistéme).
Porém, será no século XVI que o interesse pela divulgação científica torna-se, com o
progresso e o avanço da ciência, uma preocupação sistemática.
3 – DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA E CIÊNCIA MODERNA.
Francis Bacon, filósofo e cientista inglês do século XVI, foi um dos grandes
marcos da ciência moderna. Sua proposta era uma síntese entre a razão teórica, a
observação e a experimentação. Em sua obra Novum Organum, uma espécie de crítica à
tradição científica aristotélica, destacava que a lógica aristotélica, partindo de premissas
pré-estabelecidas,
chegava
a
resultados
já
conhecidos,5
de
modo
que
tal
empreendimento não resultava em nenhum progresso científico. Em suas análises do
solo, do movimento da água, do calor6 e do frio, Bacon pretendia reproduzir os eventos
da natureza artificialmente, redirecionando os benefícios da natureza para o conforto do
homem. Não se trata de ficar à mercê da natureza e esperar aquilo que ela poderá nos
oferecer, mas usar do método experimental para fazê-la atender às demandas dos
4
Ver Idem, A 2, 983a 20-30. Nestas obras são analisadas as quatro causas aristotélicas: causa
material, causa formal, causa do movimento e causa final. A filosofia aristotélica pode ser pensada como
um estudo das causas (αἰτία), ou seja, uma aitiologia.
5
“A lógica tal como hoje é usada mais vale para consolidar e perpetuar erros, fundados em
noções vulgares, que para a indagação da verdade, de sorte que é mais danosa que útil”. (BACON,
Francis. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da natureza, Livro I, XII).
6
Ver BACON, Francis. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação da
natureza, Livro II, XI-XV sobre a aplicação do método experimental, tendo o calor como objeto de
investigação.
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homens.7 Assim, Bacon é um marco do otimismo científico: em sua obra A Nova
Atlântida, elabora um texto de ficção (para a época) no qual descreve uma sociedade de
alto grau de cientificidade, vivendo uma vida harmônica e feliz. Seu principal
argumento é que o progresso científico poderia levar a humanidade a viver a plenitude
da civilização, tendo como resultado uma espécie de bem aventurança na terra. Para que
esta sociedade se estabeleça, o autor destaca a importância da Casa de Salomão:
Temos, por outro lado, como podeis pensar, noviços e aprendizes, para que
não se interrompa a continuidade dos homens precedentemente empregados e
também um grande número de serventes e atendentes, homens e mulheres. E
fazemos ainda o seguinte: realizamos consultas para decidir a respeito de
quais invenções e experiências, por nós descobertas, devam ser dadas a
conhecer ao público, e quais as que não”. 8
No processo de divulgação do saber possuído, dois fatores são de extrema
relevância: a instrução, para que o progresso da ciência não seja interrompido, e uma
reflexão crítica acerca daquilo que deve ser divulgado ou não. Essa restrição de
divulgação tem um motivo: ciente do poder que a ciência acarreta, é necessário
restringir a divulgação dos novos dados para a manutenção da ordem pública. Portanto,
vemos que a divulgação da pesquisa científica já está no âmago da ciência moderna.
Já no século XVII, um pensador que merece a nossa atenção é o físico,
matemático e filósofo René Descartes. Sua exaustiva busca de um método que pudesse
proporcionar o alcance da verdade e o progresso científico trazia uma revolução do
pensamento: com o uso de um método adequado, a razão seria a fonte de todo
conhecimento humano. O método, descrito na II parte da obra Discours de la Méthode
(1637),9 é dividido em quatro regras: Clareza e Distinção; Divisão dos Problemas;
Análise; Enumeração e Revisão. O método era pautado pela matemática, ou seja,
Descartes integra ao método o rigor formal da matemática a fim de instrumentalizar tal
ciência para benefício humano, retirando-a de sua cátedra contemplativa e especulativa.
O conceito de mathesim universalem10 exprime esta ousada tarefa, ou seja, trazer para
7
“Ciência e poder do homem coincidem [...]”. (Ibid., Livro I, III). O homem que conhece as
causas de determinado evento, pode ajustar o efeito a seu favor. Conhecer é exercer uma forma de poder
sobre os eventos da natureza.
8
Idem, Nova Atlântida, p. 253.
9
Nas citações da obra de Descartes constam: nome do autor, obra, tomo na edição Adan
&Tannery, parte (quando houver) de modo que os dois últimos números decimais correspondem à página.
10
DESCARTES, René. Regulae ad Directionem Ingenii, X, 12, 5.
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todas as áreas do conhecimento o rigor da matemática. Tal conceito já estava presente
em outra obra que Descartes já tinha escrito, mas ainda não tinha publicado: os
Princípios da Filosofia. Desta maneira, poderíamos dizer que Descartes tinha um plano
editorial para divulgação do seu pensamento: quando publica o Discours de la Méthode
em 1637, as obras Meditations Metaphysiques (1641) e os Princípios da Filosofia
(1644) já tinham sido escritas,11 mas não tinham sido publicadas. Ora, por que o filósofo
não as publicou? Porque a obra Discours de la Méthode, publicada em língua vernácula,
fazia uma suma introdutória da sua proposta e das principais ideias que, apesar de já
estarem escritas e organizadas, seriam discutidas profundamente em outros textos. Por
fim, podemos dizer que a preocupação editorial aponta para uma relevante reflexão de
como divulgar de forma eficaz e clara a nova ciência que seria proposta.
A ciência moderna, marcada pelo rompimento com a tradição e o progresso,
busca divulgar suas novas descobertas a fim de propagar um mundo novo e uma nova
visão de mundo. Tal progresso atingiu grandes proporções com a expansão marítima e
os instrumentos de navegação que, desde o século XIV, foram objeto de investigação
tanto de portugueses, quanto de genoveses e venezianos. Assim, as navegações e o
surgimento da imprensa contribuíram decisivamente para o aparecimento de um novo
meio informativo: o jornalismo científico.12 No século XVII, a fim de desviar da
censura da Igreja e do Estado, surgiram mecanismos seculares de divulgação científica,
como a Royal Society em 1620. A linguagem jornalística destes meios de divulgação
era acessível, mesmo às pessoas menos educadas.13 Havia um esforço para a
padronização da comunicação, de modo que tal esforço foi difundido pelo resto da
Europa. No século XVIII, tal padronização impeliu o surgimento de inúmeros museus
de ciência que auxiliaram, e auxiliam até hoje, no processo de conservação, difusão e
formação científica. Neste século, além da Europa, a difusão científica já era uma
realidade no Brasil.14
11
Descartes, ao falar do período em que esteve na Holanda. Descartes escreve o Discours de la
Méthode em 1636, texto que será publicado 1 ano depois. No entanto, as reflexões de um texto ainda não
publicado, as Meditations Metaphysiques, já estavam feitas. “Não sei se devo falar-lhes das primeiras
meditações que fiz aí; pois são tão metafísicas e tão pouco comuns, que talvez não serão do gosto de todo
mundo”. (Idem, Discours de la Méthode, VI, IV, 33,15). Nesta citação constam: nome do autor, obra,
tomo na edição Adan &Tannery, parte (quando houver) de modo que os dois últimos números decimais
correspondem à página.
12
Cf. ALBAGLI, Sarita. Divulgação científica: informação científica para cidadania? Ciência da
Informação, Brasília, v. 25, n. 3, set./dez.1996, p. 399.
13
Cf. ALBAGLI, Sarita. Divulgação científica: informação científica para cidadania? p. 399.
14
“No final do século XVIII e início do século XIX, muitos dos brasileiros que haviam ido para
Portugal, França, Bélgica e Escócia freqüentar cursos superiores começaram a retornar ao país e
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Com a hiperespecialização, que marca o século XIX, e a superprodução
científica, que impede qualquer tipo de conhecimento enciclopédico, surgiram uma série
de publicações científicas especializadas como o American Journal of Science (1818), o
Scientific American (1845), a Nature (1869) e a Science (1880). O aumento gradativo da
divulgação científica mostrará suas consequências na I Guerra Mundial, na qual a
ciência e tecnologia tiveram um papel proeminente, mas será na II Guerra Mundial que
a ciência consolidou seu status quo e ampliou consideravelmente o interesse de um
novo público: os leigos. No pós-guerra, as pesquisas científicas divulgadas nos jornais
aumentaram consideravelmente, pois atendia o interesse de um público ávido pelas
novas descobertas. Assim, a divulgação científica precisaria ser repensada, pois é um
instrumento que, longe da reta intenção de difundir o saber, poderia estar à serviço de
ideologias ou do próprio mercado livresco. Este problema ainda vigora no mundo
contemporâneo, já que surgiu outra forma de divulgação científica, conectando os
homens de forma global: a internet.
4
–
OS
DESAFIOS
DO
CONTEMPORÂNEO:
O
QUE
É
DIVULGAÇÃO DA PESQUISA CIENTÍFICA?
Depois desse panorama histórico, o problema acima exige uma resposta a partir
dos desafios pertinentes ao mundo contemporâneo. O epistemólogo Thomas Kuhn, em
sua obra A estrutura das revoluções científicas15 publicada em 1962, afirma que a
ciência não é um empreendimento totalmente autônomo, isento de ideologias ou
aspectos externos à pesquisa: há fatores não cognitivos (motivação pessoal, política,
economia, ideologias, fatores psicológicos, éticos, religiosos, formativos) que são
relevantes tanto para a manutenção e aprimoramento da ciência normal quanto para o
advento de uma crise que determina uma revolução científica. Por este motivo, ciência e
a sociedade interagem para a manutenção do progresso da ciência e os possíveis
benefícios que a sociedade poderá receber como legado. O progresso da ciência, devido
o seu alto grau de complexidade e a alta demanda financeira dos pesquisadores, depende
do Estado para a viabilidade política das pesquisas. Em tempos de democracia
contribuíram para uma difusão lenta das novas concepções científicas”. (MOREIRA, Ildeu de Castro;
MASSARANI, Luisa. Aspectos históricos da divulgação científica no Brasil. In: MASSARANI, Luisa;
MOREIRA, Ildeu de Castro; BRITO, Fátima. Ciência e público: caminhos da divulgação científica no
Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Ciência, 2002, p. 44.
15
KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. 6ª ed. trad. Beatriz Vianna Boeira e
Nelson Boeira. São Paulo: Editora perspectiva, 2001.
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representativa, a opinião pública torna-se um fator importante para dar continuidade ao
progresso científico. Por este motivo, o progresso científico depende da divulgação das
pesquisas científicas na sociedade, como afirmamos em nossa hipótese. Não só a
divulgação acadêmica (ou para especialistas) da pesquisa científica propriamente dita
recebe atenção do pesquisador, mas a divulgação para a sociedade. Tal divulgação
permitirá o esclarecimento do que está sendo investigado e as possíveis consequências
sociais da investigação, viabilizando politicamente a ciência. Assim, caber refletir
criticamente sobre as seguintes questões: a) Quem divulga a pesquisa científica? b) Qual
a abrangência daquilo que está sendo divulgado? c) Favorece algum fator não cognitivo,
seja ideológico, político, religioso ou econômico?
A divulgação da pesquisa, assim como sua abrangência e objetivos ideológicos,
podem ser classificados em dois gêneros, a saber, o Informante e o Informado. Contudo,
esses gêneros se dividem em cinco espécies: 1) Cientistas vs Cientistas especialistas na
mesma área; 2) Cientistas vs Cientistas de outras áreas; 3) Cientistas vs interessados em
ciência; 4) Escritores (jornalistas, filósofos, sociólogos, Antropólogos, etc) vs
interessados em ciência; 5) Cientistas ou Escritores vs alunos em formação escolar.
Entre Cientistas vs Cientistas especialistas na mesma área, o informante pode ser
um cientista informando outros cientistas a partir de uma linguagem técnica e específica
pertinente à ciência em questão. Neste caso, a comunidade científica, partilhando de um
mesmo paradigma, entende a maior parte dos termos básicos, concentrando as
controvérsias nos possíveis termos que apresentarem alguma equivocidade, nos
princípios que não apresentam uma inter-relação necessária e evidente, nas limitações
de instrumentos, nos possíveis gaps metodológicos e na percepção de anomalias de alto
grau de complexidade que comprometeriam a pesquisa. O objetivo de um cientista é
divulgar suas últimas descobertas ao público de especialistas, fortalecendo a atividade
científica e apontando para novos problemas que poderão ser investigados.
Já entre os Cientistas vs Cientistas de outras áreas, o informante é o especialista,
no entanto, a fim de fazer valer a divulgação do seu experimento de forma adequada, o
informante precisa ser um conhecedor básico da linguagem partilhada entre os cientistas
das outras áreas. Nesse caso, o objetivo não é propor novos desafios para uma
determinada área, mas descrever um novo experimento que pode ocasionar avanços
para as duas áreas de modo interdisciplinar. Tal iniciativa é fundamental para abrandar o
hiato contemporâneo existente entre as diferentes áreas de pesquisa.
O par Cientistas vs interessados em ciência foi promovido pelo alto índice de
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interesse em ciência depois da segunda Guerra Mundial. O cientista busca esclarecer os
termos técnicos que são básicos para o entendimento da ciência, tentando mostrar que a
ciência é um empreendimento criativo e interessante. O objetivo do cientista é divulgar
seu trabalho para o cidadão comum, de modo que esteja claro os benefícios
epistemológicos e práticos para a sociedade. Tal perspectiva é de grande importância
para a aprovação da ciência pela sociedade, viabilizando politicamente o progresso da
ciência, já que o apoio social pode gerar mais verbas para a pesquisa e a participação do
cientista no debate público.
Entre os Escritores (jornalistas, filósofos, sociólogos, antropólogos, etc) vs
interessados em ciência o debate fica mais acirrado. Há inúmeras críticas dos cientistas
direcionadas aos escritores: equivocidade dos termos, divulgação parcial da ciência
(perdendo a visão de totalidade da pesquisa), escrita que favorece as mais diversas
ideologias, retórica do alto grau de objetividade e neutralidade da ciência sem as críticas
pertinentes aos mais variados métodos, simplificações excessivas e críticas infundadas
de possíveis teorias da conspiração entre os cientistas.16 Tais aspectos de divulgação, em
vez de informar, depreciam a atividade científica. Não se pode negar que esses fatores
podem ser usados por uma comunidade científica a fim de destruir uma pesquisa
divergente, inviabilizado-a politicamente, no entanto, não podemos esquecer que estes
profissionais da cultura, desde que sejam conhecedores daquilo que escrevem, podem
fazer um trabalho de divulgação que consiga adequar um conhecimento básico da
ciência às demandas do público em geral, o que seria de grande valia tanto para a
comunidade científica quanto para a sociedade. Desta maneira, as fontes bibliográficas
continuam tendo um papel fundamental na divulgação científica. Portanto, é necessário
refletir estas fontes.
5 – QUAIS AS FONTES DA PESQUISA BIBLIOGRÁFICA?
Boa parte das pesquisas são divulgadas em artigos ou livros, impressos ou em
mídia digital. Porém, a internet tornou-se o principal meio de divulgação dos avanços da
ciência moderna. Jornais e revistas, muitas vezes, só fazem reproduzir aquilo que já foi
publicado nas plataformas cibernéticas. Assim, escolher uma bibliografia, ou melhor,
uma boa bibliografia,17 tornou-se um dilema para o pesquisador. Levantar uma
16
17
Cf. ALBAGLI, Sarita. Divulgação científica: informação científica para cidadania?, p. 402.
Ver nota seguinte.
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
14
bibliografia é escolher de forma coerente18 os textos que poderão ser usados para a
constituição de uma pesquisa. Isso não significa que todos os textos serão lidos, mas
sabemos que aquilo que pode ser lido e as indicações daquilo que será lido estarão no
levantamento bibliográfico. Objetivamente, um levantamento bibliográfico é composto
por livros, periódicos acadêmicos, artigos de jornais/revistas e documentos. Na escolha
da bibliografia, sem se desviar do tema, podemos estabelecer três fontes.
A primeira diz respeitos às obras originais de um dado autor pesquisado ou os
dados mais recentes de certa pesquisa científica; depois, as obras realizadas pelos
intérpretes dos trabalhos originais que são de grande importância para a composição do
estado da questão, por fim, localizar as bases de dados dos trabalhos primários e
secundários. Estas fontes presentes na internet podem ser divididas em duas partes.
A) Os resumos dos trabalhos constam em bases como a Pumed, Lilacs, Medline
e ISI.
B) As bases de dados textuais, que apresentam os trabalhos completos, são a
Scielo, Lilacs, Portal Capes e Ovid.19
Com os nomes dos trabalhos em mãos, o pesquisador deve ler os resumos e
títulos, eliminando os trabalhos que parecem demasiadamente repetitivos e menos
relevantes. Por fim, é necessário obter o material. Este pode ser obtido de diversas
maneiras como serviços on-line, bibliotecas, sistema de empréstimo entre bibliotecas,
assim como solicitações on-line nacionais e internacionais (Estante Virtual, Amazon e
livrarias). Portanto, a partir destas fontes, pesquisador estará apto para analisar o
levantamento bibliográfico e fazer sua pesquisa.
6 – CONSIDERAÇÕES FINAIS.
A divulgação da ciência surge com o advento da ciência moderna. Algumas das
atrocidades cometidas na II Guerra Mundial (câmaras de gás e bomba atômica) foram
cometidas através do uso bélico das pesquisas científicas, aproximando uma discussão
mais tênue entre ciência e sociedade. A resposta à pergunta o que é divulgação da
pesquisa científica? pode ser respondida recorrendo a todos os meios descritos acima
18
Uma “boa bibliografia” e “uma bibliografia coerente” são realidades demasiadamente vagas.
Nosso trabalho não tem como objetivo aprofundar a pertinência de uma bibliografia particular e um dado
tema, no entanto, nossa tarefa será mostrar as plataformas onde uma possível bibliografia poderá ser
levantada, algo que poderá favorecer os pesquisadores e leigos interessados.
19
Cf. PIZZANI, Luciana et al. A arte da pesquisa bibliográfica na busca do
conhecimento, p. 58.
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
15
que viabilizam o acesso à informação das realizações científicas, sendo históricas ou
atuais, para os mais diversos interlocutores. Sustentamos que a ciência, para que
continue a progredir, precisa apresentar com clareza não só os fundamentos de sua
pesquisa, mas sua relevância social e econômica. Portanto, a divulgação científica,
entendida a partir dos dois grande gêneros (Informante e Informado), assim como as
suas decorrentes espécies já trabalhadas, torna-se parte da atividade científica,
justificando a necessidade de um trabalho especializado nesta área.
REFERÊNCIAS
ALBAGLI, Sarita. Divulgação científica: informação científica para cidadania? Ciência
da Informação, Brasília, v. 25, n. 3, set./dez.1996.
ARISTÓTELES. Metafísica. trad. Giovanni Reale. v. II. São Paulo: Loyola, 2005.
(Edição Bilíngue).
BACON, Francis. Novum Organum ou verdadeiras indicações acerca da interpretação
da natureza. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Os Pensadores).
___. Nova Atlântida. São Paulo: Nova Cultural, 1999. (Os Pensadores).
DESCARTES, René. Discours de la Méthode. VI. Edição Charles Adan et Paul
Tannery. Paris: 1996.
___. Meditations Metaphysiques. IX. Edição Charles Adan et Paul Tannery. Paris: 1996.
DESCARTES, René. Regulae ad Directionem Ingenii. X. Edição Charles Adan et Paul
Tannery. Paris: 1996.
DA SILVA, Henrique César. O que é divulgação científica? Ciência & Ensino, v. 1, n. 1,
set. 2006.
KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. 6ª ed. trad. Beatriz Vianna
Boeira e Nelson Boeira. São Paulo: Editora perspectiva, 2001.
MOREIRA, Ildeu de Castro; MASSARANI, Luisa. Aspectos históricos da divulgação
científica no Brasil. In: MASSARANI, Luisa; MOREIRA, Ildeu de Castro; BRITO,
Fátima. Ciência e público: caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro:
Casa da Ciência, 2002, p. 43-64.
HEIDEGGER, Martin. O que é isto – A Filosofia? São Paulo: Ed. Vozes, 2006.
PASCAL, Blaise. Pensées. In: ______. Ouvres complètes. Edição de Louis
Lafuma. Paris: Seuil, 1963, p. 493-641.
PIZZANI, Luciana et al. A arte da pesquisa bibliográfica na busca do conhecimento.
Rev. Dig. Bibl. Ci. Inf., Campinas, v.10, n.1, p.53-66, jul./dez. 2012. Disponível em <
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
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www.sbu.unicamp.br/seer/ojs/index.php>. Acesso em: 20 jan. 2014.
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17
AO INFINITO E ALÉM
Ronie Alexsandro Teles da Silveira
RESUMO:
A nave Voyager 1 deixou o sistema solar em direção ao espaço profundo. Esse evento
faz parte de um espírito de aventura em direção ao desconhecido que amplia
continuamente nossos horizontes. A filosofia parece estar alinhada, desde sua origem, a
esse tipo de disposição para a aventura. Entretanto, nem sempre essa expansão pode ser
interpretada como tendo gerado resultados positivos. Os eventos traumáticos do
totalitarismo no século XX parecem ter marcado negativamente o espírito de aventura e
a própria filosofia. De tal forma que, agora, precisamos reavaliar as condições para o
exercício da atividade filosófica. Tudo indica que a filosofia do século XXI terá que
manobrar entre seu histórico espírito de aventura e os horrores políticos do século XX.
Palavras-chave:
Espírito
de
Aventura;
Filosofia
Contemporânea;
Memória;
Totalitarismo.
ABSTRACT:
The Voyager 1 left the solar system toward deep space. This event is part of a spirit of
adventure into the unknown that continually expands our horizons. The philosophy
seems to be aligned, since its origin, this type of arrangement for adventure. However,
this expansion cannot always be interpreted as having generated positive results. The
traumatic events of totalitarianism in the twentieth century seem to have negatively
marked the spirit of adventure and philosophy itself. So that now we need to reevaluate
the conditions for the exercise of philosophical activity. Everything indicates that the
philosophy of the twenty-first century will have to maneuver between its historic spirit
of adventure and political horrors of the twentieth century.
Keywords: Contemporary Philosophy; Memory; Spirit of Adventure; Totalitarianism.
O título desse texto é uma citação literal de uma frase de Buzz Lightyear, o
astronauta do desenho animado “Toy Story” lançado em 1995. O personagem Buzz
Lightyear é uma homenagem ao segundo homem a pisar na Lua, membro da Missão
Apolo 11, o americano Edwin Aldrin Jr. Na sequência ficará evidente o motivo
filosófico de destacar essa frase de Buzz Lightyear no título desse artigo.
Tudo indica que a nave espacial Voyager 1 deixou o sistema solar no dia 25 de
agosto de 2012. Há mais de um ano, portanto, um objeto humano foi capaz de transpor

Universidade Federal do Sul da Bahia – [email protected]
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os limites em que nossa vida tem se restringido desde sua origem. Essa nave, lançada
em 1977, leva vários tipos de mensagens gravadas para estabelecer contato com
eventuais seres alienígenas inteligentes que possam encontrá-la.
A Voyager 1 ultrapassou uma fronteira especial, até agora resistente a todos os
esforços humanos. Ela é um sinal inequívoco de nossa capacidade empreendedora, de
nos lançarmos para fora de limites que delimitam um sentido restrito para a vida
humana e de ir sempre além do que é dado.
A ultrapassagem da barreira do sistema solar seria, então, um passo além desse
constrangimento espacial em que nos encontrávamos até o momento. Ela seria um
evento bastante significativo se considerarmos que a história humana consiste em uma
aventura que nos leva sempre além de nossas condições atuais. Condições que são, por
definição, restritivas e limitadoras. Nesse sentido, a Voyager 1 representaria um passo
adiante com relação a uma fronteira especialmente resistente: aquela que afirma que
somos seres desde planeta, que nossa vida está definitivamente ligada a este espaço
específico que chamamos de Terra, que essa é uma condição necessária da humanidade.
De certa forma, essa maneira de interpretar a viagem da Voyager 1, implica em
compreendermos o sentido da vida humana como uma tentativa contínua de ultrapassar
limites e de abandonar delimitações de toda ordem. Essas delimitações seriam todo e
qualquer tipo de confinamento e de definição acabada de nossa existência. Assim
entendida, poderíamos dizer que o homem é, antes de qualquer coisa, um ser que
ultrapassa seus próprios limites – uma potência para ir além de qualquer configuração
particular que possa ser afirmada em uma situação de fato.
Se isso é verdade, então a história humana é uma contínua atividade de
abandono daquilo que somos em uma circunstância particular, um movimento de deixar
de ser o que já se é, uma aventura em que o sentido que buscamos se encontra sempre
além daquilo que obtivemos ou do que realizamos. Se a nossa história é uma aventura
desse tipo, constantemente aberta em direção ao que ainda não somos, então ela diz
respeito a lançar-se em direção ao desconhecido, a lidar com aquilo que ainda não
somos e que não sabemos que somos – porque é na direção dele que nos movemos.
Esse constante alargamento da existência humana certamente compreende a
atitude de nos projetarmos dentro do frio vazio do espaço sideral, no abismo em que
tudo pode perder-se sem deixar rastros, na escuridão sem fim do indeterminado. Mas ele
também implica em ampliarmos os nossos modos de viver, de tal forma que os outros
possam ser incluídos nele sem deixar de ser o que são. Isto é, entender a existência
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humana como um movimento de expansão e ultrapassagem de limitações implica
também em construirmos modos de vida mais inclusivos, de tal forma que dentro deles
caibam todos os outros homens. A expansão dos nossos modos de vida implica em
ampliação da tolerância para com aqueles que adotaram padrões de existência diferentes
dos que estruturam nossas próprias crenças.
Viajar para o espaço longínquo e tornar presente aos nossos olhos uma zona
ainda oculta da realidade não é algo, afinal, tão diferente de ampliar nossas formas de
vida, de tal maneira que dentro delas caibam outras maneiras de viver. É verdade que
temos dado pouca atenção àqueles que vivem vidas estranhas bem ao nosso lado.
Flusser tem razão ao indagar sobre o sentido de nos lançarmos tão longe no espaço se
não conseguimos sequer cogitar como se constituem formas de vida não humanas
próximas a nós (FELINTO & SANTAELLA, 2012). Afinal, o que pensa uma formiga
ou uma girafa? Tal é a distância que nos separa delas que nem sequer somos capazes de
formular uma pergunta pertinente – porque “pensar” talvez não se aplique a uma girafa
ou não seja aquilo que ela possui de específico. Parece que nada sabemos sobre esse ser,
a ponto de admitirmos que ela se constitui como um limite intransponível para nós.
Nossa ignorância é tamanha que sequer sabemos o que perguntar a ela.
Há aqui um limite que não ultrapassamos ainda. Talvez não faça sentido
lançarmo-nos no espaço sideral sonhando com a possibilidade de estabelecer
comunicação com outras formas de vida se não somos capazes de nos comunicarmos
com seres que compartilham conosco a permanência nesse planeta.
Todas essas dimensões potenciais da expansão, contidas naquela expressão de
Buzz Lightyear, parecem exigir de nós algum grau de atenção: seja no espaço sideral,
seja na política ou em direção a outras formas de vida terráqueas. É verdade que a
própria possibilidade de expansão requer a capacidade de ampliarmos nossas fronteiras
interiores, de tal forma que possamos estar aptos a ultrapassar todas essas fronteiras
exteriores. Parece que a capacidade de ir além de nossas próprias limitações pessoais é
um requisito existencial que nos habilita previamente para ir além de qualquer fronteira
exterior.
Se há uma forma para preparar homens que sejam capazes de cumprir com essa
finalidade de extrapolar continuamente as condições existentes, acredito que ela
consista na capacidade de ir além de suas próprias condições pessoais. Nesse sentido,
precisamos pensar em que a filosofia tem nos auxiliado a preparar os homens para
enfrentar suas próprias limitações e em que sentido o seu ensino está habilitando as
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pessoas para se tornarem astronautas dispostos a se lançarem em abismos ainda
desconhecidos.
Parece-me que há aqui uma questão pertinente para a filosofia atual: nós, os
filósofos do século XXI, estamos afinados com esse sentido de ampliação da aventura
humana ou o exercício dessa atividade tem se mostrado como a procura por um terreno
sólido, a adequação a padrões conhecidos e a reiteração de procedimentos já
consagrados? Em outras palavras, a filosofia é, nos dias de hoje, uma aliada do espírito
de aventura?
Eu me arriscaria a dizer que Tales de Mileto foi um dos primeiros astronautas,
porque foi capaz de lançar-se a uma distância tão grande que tornou possível a
consideração unificada da totalidade do mundo. Isto é, a pergunta pela origem da
natureza tornou possível olharmos para a Terra como se não estivéssemos inseridos
nela, como se fossemos capazes de viajar até o espaço e, de lá, pudéssemos contemplar
o planeta inteiro com um só olhar. De certa forma, a primeira pergunta filosófica é um
empreendimento de distanciamento espacial que permitiu uma apreciação da totalidade
do mundo, algo que espacialmente só se tornou possível muito tempo depois.
Nesse sentido, parece que o exercício filosófico se aliou historicamente ao
processo de expansão da nossa capacidade de tomar nossas próprias condições de
existência como objetos de reflexão e, portanto, como circunstâncias que poderiam ser
avaliadas e, eventualmente, abandonadas. Olhar de longe, ver as coisas do espaço, é
algo que nos permite julgá-las de maneira panorâmica e, a partir desse ponto de vista,
descartá-las.
De certa forma, a atividade histórica adotada pela filosofia intensificou o tipo de
distanciamento que nos permitiu deixar para trás muitas de nossas limitações
existenciais. Assim, a filosofia é uma das precursoras da Voyager 1 e pode ser definida
por aquele lema de Buzz Lightyear, porque ela facilita nosso movimento em direção ao
que ainda não somos. Ela é uma atividade voltada para o infinito e para o além. Com
efeito, a distância propiciada por tais movimentos, sejam de reflexão ou de
deslocamento espacial, permitiu que nos tornássemos aptos para estarmos além de
qualquer circunstância particular. Então, parece claro que a atividade filosófica se
constituiu historicamente como uma força promotora do espírito da aventura humana.
Mas também é verdade que esse processo de afastamento das condições de fato
em que vivemos, esse alinhamento com o espírito aventureiro da filosofia, tem sido
objeto de crítica. A contemplação distanciada da totalidade de uma determinada forma
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
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de vida humana tornou possível que nos descartássemos dela com relativa facilidade. A
ampliação da perspectiva tornou possível que nos desenraizássemos das condições
concretas em que vivíamos, de tal forma que elas perderam seu peso existencial
original.
Esse
movimento
envolve,
portanto,
uma
espécie
de
dispositivo
antigravitacional que retira do estatuto ontológico sua solidez e sua concretude
convencionais. É esse dispositivo de desengajamento que nos permite avaliar a
totalidade de nossas condições de existência, facilitando seu abandono. Nesse caso, a
distância está intimamente relacionada à perda de peso ontológico.
Nem sempre o abandono, facilitado pelo dispositivo antigravitacional, significou
algo de positivo para a vida humana. Isto é, certamente a facilidade proporcionada pelo
ponto de vista distanciado tornou possível a crítica e daí o desmantelamento de formas
de vida vigentes. Mas isso não garantiu que aquilo que foi proposto como uma forma de
vida alternativa tenha se apresentado como algo efetivamente melhor do que aquilo que
foi destruído. Nem sempre o progresso pode ser claramente identificado como tendo
resultado desse processo de afastamento e avaliação desengajada.
Isso significa que as viagens espaciais, filosóficas ou não, nos propiciaram
experiências que nem sempre se apresentaram como positivas. Quando os portugueses
chegaram ao Brasil e entraram em contato com os indígenas, perceberam que eles não
tinham qualquer tipo de vergonha e se comportavam de maneira inocente. Ocorreu-lhes,
então, que eles haviam encontrado o próprio Éden descrito no Gênesis. Mas se o Brasil
era o Paraíso, então só os europeus eram pecadores que haviam sido privados da
perfeição original. Eles seriam, portanto, descendentes de homens decaídos e punidos
por Deus (BUARQUE DE HOLANDA, 2000).
Nesse caso específico, a expansão da perspectiva propiciada pelas navegações e
pelo descobrimento de novos mundos, implicou uma reavaliação altamente pejorativa
do próprio europeu, na medida em que o obrigou a alterar seu ponto de vista tradicional
sobre si mesmo e sobre a civilização ocidental. Não foi em vão que dois marinheiros da
esquadra de Pedro Álvares Cabral abandonaram seus postos e desapareceram nas praias
brasileiras (FAORO, 1975). Somente com a chegada dos Jesuítas ao Brasil, 49 anos
após o descobrimento, é que os indígenas foram devidamente interpretados como
pagãos a serem convertidos e, portanto, como homens inferiores a serem cristianizados.
Dessa forma, a dignidade europeia foi restabelecida e um sentido civilizatório pôde ser
obtido para sustentar o tipo de atividade colonial que foi desenvolvida pelos europeus
na América. O impacto inicial do descobrimento foi minimizado por uma
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reinterpretação do significado existencial dos selvagens ameríndios. Só essa
reinterpretação foi capaz de estabelecer um padrão de atividade válida para o processo
de cristianização do gentio.
Esse exemplo torna evidente que novos descobrimentos propiciados pelo espírito
de aventura podem revelar verdades indesejadas ou imagens desconfortáveis de nós
mesmos – nesse caso uma compreensão altamente negativa sobre o modo de vida
europeu. O resultado das adaptações exigidas pelo distanciamento, as proposições sobre
que formas de vida poderemos adotar no futuro, não possuem um certificado de garantia
e não implicam em progresso garantido em qualquer sentido que possamos dar a esse
termo. O resultado da expansão da perspectiva e as necessárias adequações de avaliação
do sentido existencial de nossas vidas podem vir a resultar, inclusive, em um mundo
pior do que esse. O panorama geral pode adquirir uma feição feia quando confrontado
com a dimensão mais confortável do mundo que conhecemos e no qual vivemos.
Em função desse risco inerente à aventura, é compreensível que alguns tenham
entendido que devemos restringir nossas ambições, nossas proposições sobre como
deveríamos viver, já que elas são potencialmente perigosas e podem se mostrar mesmo
como extremamente danosas. De uma forma ou de outra, vários críticos tem defendido a
ideia de que devemos delimitar nossos movimentos intelectuais a dimensões
gravitacionais, sem adotarmos pontos de vista elevados demais.
Dessa perspectiva de interpretar o espírito de aventura haveria um perigo ligado
a grandes alturas, a grandes pretensões revolucionárias – sejam políticas,
epistemológicas ou morais – de tal forma que seria mais adequado realizarmos
pequenos ajustes cotidianos e correções menores no nosso modo de vida. Isto é, seria
mais prudente nos deslocarmos dentro de pequenas distâncias, sem nos lançarmos além
de limites seguros e já conhecidos, sem abandonar o terreno seguro da gravidade
terráquea.
Essa perspectiva crítica com relação àquilo que se entende como uma
extrapolação injustificada do empreendimento filosófico possui uma longa história e
não seria possível recontá-la aqui de maneira adequada. Apenas como referência para
essa atitude, podemos nos lembrar do espírito geral do empirismo inglês, especialmente
a versão defendida por Hume (2000), do criticismo de Kant (1989) e mais recentemente
da posição de Hannah Arendt (1989). De maneira geral, essa crítica diz respeito a
colocar sob suspeita e conter os indóceis cavalos do carro de uma atividade filosófica
que envereda pela metafísica.
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A despeito desse movimento crítico de autolimitação do espírito de aventura ter
se desenvolvido há algum tempo dentro da própria comunidade filosófica, ele foi
intensificado na atualidade pelos eventos históricos do século XX. Na mais branda das
hipóteses esses eventos parecem ter reforçado essa disposição cultural de contenção do
espírito de aventura filosófica.
De fato, as experiências totalitárias do último século parecem ter marcado de
maneira profunda aquele espírito de aventura demonstrado historicamente pela filosofia.
Não é raro que a própria literatura filosófica estabeleça relações, difusas ou causais,
entre o pensamento de Nietzsche e Heidegger com o Nazismo, e de Marx com o
Stalinismo, por exemplo. Nesse sentido, a obra de Popper (1974) sobre os inimigos
filosóficos da democracia – Platão, Hegel e Marx – é uma referência bastante eloquente.
Podemos notar nesse tipo de postura uma nota de prudência com relação às
consequências de um exercício filosófico radical, que poderia colocar a vida humana em
risco. Não é ocasional que a possibilidade da extinção da vida humana tenha se tornado
um assunto digno de atenção da filosofia política no século XX (KATEB, 1992). Assim,
a radicalidade do pensamento e seu exercício sem limites ou balizas indicaria antes um
tipo de desvario, uma pretensão excessiva de remodelar tudo, que poderia levar, como o
fez, à destruição, ao sofrimento e à morte.
Essa nota de prudência precisa ser avaliada nesse momento, porque ela redefine
o tipo de atitude que seria próprio para a filosofia do século XXI. Essa posição quer
restringir de alguma forma o espírito de aventura representado por aquela frase de Buzz
Lightyear. De certa maneira, ela incorpora um espírito reformista que prefere ir
alterando nosso modo de vida por meio de pequenas correções, de mudanças sutis, sem
assumir grandes riscos ou propor grandes transformações. Ela afirma implicitamente
que a segurança na viagem é mais importante do que as descobertas potenciais de novos
modos de vida.
Poderíamos compreender essa atitude como uma contrapartida filosófica da
reação ao acidente ocorrido com o ônibus espacial Challenger em 1986 que vitimou os 7
tripulantes. Esse evento obrigou a uma redefinição conservadora da política espacial
americana. Nesse caso, em função do espírito de aventura em lançar-se ao espaço, vidas
humanas foram perdidas. Da mesma forma, o espírito de aventura filosófico poderia
proporcionar situações de risco à vida humana.
A explosão dessa nave durante seu lançamento e seu equivalente político, o
desastre dos regimes totalitários do século XX, parecem ter deixado sua marca no
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espírito de aventura que a filosofia cultivou, embora não exclusivamente, desde Tales de
Mileto. No seu conjunto, esses eventos que marcaram o século XX parecem sugerir que
devemos adotar uma atitude de prudência no exercício do pensamento filosófico em
função de potenciais consequências nefastas para a humanidade. O ponto de vista
desengajado das condições existenciais efetivas pode se mostrar perigoso, talvez
justamente por implicar em uma diminuição do peso relativo de nossa condição
ontológica atual.
Então, há aqui um problema que se impõe a nós, filósofos do século XXI. Ele
implica em verificarmos que tipo de atitude devemos adotar considerando, de um lado,
o espírito de aventura que nos caracteriza historicamente e, de outro, os desastres
políticos do século XX. Como filósofos do século XXI não podemos deixar de nos
colocarmos esse tipo de pergunta, porque ela implica na possibilidade de adotarmos um
espírito caracterizado pela segurança e pela prudência e abrir mão daquele lema de Buzz
Lightyear.
Há certo consenso tácito quanto à definição do pensamento filosófico como uma
atividade essencialmente livre e, portanto, desvinculada de verdades preconcebidas. É
assim que geralmente definimos a filosofia, desde as aulas introdutórias que visam
formar novos filósofos. Mas também é verdade que essa definição não corresponde
àquilo que estamos praticando de maneira majoritária como uma comunidade de
filósofos.
Nesse sentido, pode-se observar uma tendência em tentar transformar a filosofia
em uma atividade parecida com a ciência. Isto é, em uma atividade limitada pela
escolha de um objeto de estudo, pela definição de um método e pela definição de uma
linguagem apropriada. Essas especificações, feitas previamente, estabelecem um espaço
particular para a atividade filosófica dentro do mundo da cultura acadêmica. A partir da
definição desses parâmetros, ela torna-se uma atividade com uma posição relativa bem
definida dentro do escopo geral da produção do conhecimento atual. Isto é, seu espaço é
determinado antes do início da própria atividade filosófica. Isso certamente não faz
justiça ao nosso ideal de liberdade – talvez a essa altura uma pretensão meramente
literária.
Observe que o processo de especialização em nível de pós-graduação que vem
sendo utilizado na formação filosófica é idêntico ao processo de especialização presente
na formação dos cientistas. Ou seja, primeiro o aluno recebe uma formação geral,
depois uma especialização crescente no mestrado e no doutorado que termina nos
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
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tornando aptos para falarmos de um ou de dois filósofos. Sendo um pouco mais realista,
a especialização de caráter científico tem nos habilitado a falar de uma categoria
presente na obra de um filósofo.
Os seminários de discussão atuais, que reúnem a comunidade filosófica,
representam exatamente essa ênfase que temos adotado. Cada um de nós tem se tornado
um especialista tão especial que o diálogo tem sido comprometido na grande maioria
dos casos. As tecnicalidades e as exigências inefáveis por “rigor” têm se sobreposto ao
interesse geral, de tal forma que quase ninguém compreende o que os demais dizem.
Assim, as conferências ou comunicações se tornam monótonas e desinteressantes,
porque seu impacto fica restrito àqueles que também são especialistas na mesma área
filosofia, no mesmo filósofo e, talvez, no mesmo conceito. Essas atividades tem se
mostrado burocratizadas e, por isso, desvinculadas de uma vida intelectual relevante –
se é que podemos afirmar que ela existe fora desse ambiente.
É verdade que essa burocratização faz parte da tendência literária, muito
específica da formação cultural brasileira (AZEVEDO, 1963). Mas essa postura
verbalista, bacharelesca e de pouca capacidade de promover um diálogo pertinente com
outras áreas do interesse humano também é uma marca distintiva da fragmentação
promovida pelo sistema de produção de conhecimento existente no mundo
contemporâneo (SILVEIRA, 2013).
Observe que a própria noção, já sedimentada, de que há áreas de conhecimento
na filosofia (ética, teoria do conhecimento, filosofia política, filosofia da ciência) é uma
resposta ao nosso problema sobre a intensidade a ser alcançada pelo pensamento. Se há
áreas diferentes é porque existem limites. E os limites definem até onde podemos pensar
sem extrapolar as áreas nas quais nos tornamos competentes em função do processo de
treinamento. Não é de bom tom acadêmico discutir questões que estão fora de nossos
espaços de especialização, porque isso fere o respeito profissional pela capacitação dos
demais. A delimitação de áreas e a profissionalização são dois aspectos da mesma
postura de restrição do pensamento a certa territorialidade. Não há melhor maneira de
finalizar uma discussão da qual você não queira participar do que a conhecida afirmação
de que “isso não é da minha área”. A conotação geográfica não é estranha, ela define o
tipo de postura que tem se tornado prevalente na atividade filosófica: o pensamento
deve se acomodar a alguma dimensão conhecida, identificável e restritiva.
O ponto de vista que está sendo afirmado hoje, com a adoção de tal padrão de
comportamento, é que devemos, sim, restringir nosso espírito de aventura. O
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
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pensamento filosófico deve ser efetuado dentro de limites e não pode se apresentar
como uma viagem perigosa em direção a novos mundos e horizontes ainda
desconhecidos. Aquilo que parece estar se tornando predominante nos últimos anos na
filosofia não corresponde ao espírito afirmado pela figura de Buzz Lightyear.
De certa forma, essa é uma tendência esperada que deveria impactar a filosofia
mais cedo ou mais tarde. A divisão social do trabalho, típica dos processos produtivos
inaugurados com a Revolução Industrial, não poderia preservar o exercício filosófico
como se ele fosse uma dimensão sagrada da cultura. Como um processo social de
produção de conhecimento seria estranho que ele preservasse sua autonomia em um
mundo cada vez mais intensamente caracterizado por relações instrumentais. Tudo
indica, seja em função da situação social, seja em função dos comportamentos de classe
profissional que estamos adotando, que já fizemos uma opção por sacrificar o espírito
de aventura em benefício da adoção de um ponto de vista interno, mais prudente,
conformista e menos radical.
Minha avaliação com relação a esse tipo de postura é que fomos levados a adotála justamente em função de um cálculo com relação ao que foram os resultados políticos
negativos do século XX. Isto é, o Nazismo, o Fascismo e o Marxismo soviético
marcaram profundamente nossa experiência histórica, de tal forma que nos parece
impossível, nesse momento, abstrair os seus resultados perversos no desempenho da
atividade filosófica. Assim, propor que nós desconsideremos os resultados dessas
formas radicais de pensar e de agir, como se fossem meros acidentes de percurso,
certamente seria entendido pela parte não filosófica da humanidade como um gesto de
crueldade.
Isso significa que nossa avaliação do espírito de aventura não pode ser feita de
uma perspectiva histórica que avalie tudo o que a civilização ocidental produziu, desde
Tales, porque a percepção do sofrimento recente de milhões de pessoas ainda está
presente e se impõe diante de nós. É a presença desse sofrimento recente em nossa
memória que nos conduz a adotar um ponto de vista historicamente mais restrito, ligado
ao conteúdo específico e muito vivaz do século XX.
Dessa maneira, parece-me que o espírito de aventura só poderá ser retomado
quando o sentimento da dor dos milhões de seres humanos sacrificados no século XX já
tiver sido absorvido de alguma forma. Nesse momento, parece mais humano que nos
ocupemos da lembrança do sofrimento, da preservação da memória dos nossos erros
passados e do resultado negativo de nossa audácia. Isso nos impõe uma atitude de
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
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contenção respeitosa do espírito de aventura dentro do escopo do reconhecimento pelos
excessos teóricos de um passado recente.
Mas também parece ser verdade que a consideração da dimensão da dor deverá
ceder espaço pelo interesse com relação ao espaço desconhecido à medida que o
sofrimento for sendo superado e reabsorvido por uma perspectiva histórica mais ampla.
E isso, no momento histórico adequado, não significará mais crueldade com relação aos
milhões que morreram ou sofreram intensamente. No momento adequado, e apenas
nessa circunstância muito específica, isso significará que o trauma do século XX foi
superado e que estaremos prontos para novas aventuras.
Agora isso certamente soa mal, como uma forma abstrata e desencarnada de
tentar dar sentido a um passado altamente problemático e dolorido. Mas no futuro, não
seremos mais o que somos agora. Acredito que em breve nosso espírito terá retomado o
interesse pela expansão da vida em direções ainda inexistentes. Agora devemos nos
preocupar em manter Buzz Lightyear como um modelo para as futuras gerações,
aquelas que poderão retomar o princípio que afirma que a atividade filosófica implica
em lançar-se “ao infinito e além”.
O que estou tentado dizer é que o estilo filosófico que tem se mostrado
predominante no início do século XXI parece ser uma resposta aos desastres políticos
do século XX. Nesse sentido, essa postura conservadora não apenas é justificada, mas
até mesmo esperada. Mas não devemos perder de vista esse contexto que a justifica e
que, nesse momento, lhe dá sentido, sob pena de entendermos que se trata da única
maneira de se fazer filosofia. Isso nos levaria certamente a prolongá-lo além do estágio
em que ele funciona como uma espécie de mea culpa filosófica, como uma atitude de
contenção em função dos excessos anteriores. Devemos estar alertas para o fato de que,
passado esse contexto muito específico, a aventura típica do pensamento precisará ser
revitalizada sob pena de burocratizarmos excessivamente a filosofia além do próprio
sentimento de pesar consequente com o século XX.
Nesse momento específico, nossa memória ainda deve se ocupar com o passado
imediato em função daquilo que ele significa. Mas é natural que ela se distenda
lentamente, permitindo-nos uma visão mais alongada da própria história humana e de
modo a incluir nela eventos menos negativos e mais otimistas. Não creio que isso
signifique propor uma reavaliação do nosso passado imediato. Antes disso, essa atitude
indica a lógica interna da própria constituição de uma narrativa em função de eventos
dolorosos. Em um primeiro momento a vivacidade do trauma se impõe e, com o passar
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
28
dos anos, uma narrativa menos focada torna-se necessária, de tal forma que uma visão
panorâmica permita uma compreensão histórica mais desengajada dos eventos. Enfim,
uma perspectiva que seja feita a partir de certo distanciamento e que, ao mesmo tempo,
promova esse distanciamento.
Isso significa que o estilo do exercício da filosofia do século XXI está
intimamente relacionado à forma como elaboramos o sofrimento histórico recente da
humanidade. Sendo assim, podemos ter a esperança de que em um futuro próximo
poderemos eliminar alguns limites que, de uma forma ou de outra, tem aproximado a
filosofia mais do espírito de funcionário do que do espírito de Buzz Lightyear.
REFERÊNCIAS
AREDNT, H. As origens do totalitarismo. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
AZEVEDO, F. A cultura brasileira. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1963.
BUARQUE DE HOLANDA, S. Visão do paraíso. São Paulo: Brasiliense e Publifolha,
2000.
FAORO, R. Os donos do poder. Porto Alegre/São Paulo: Globo/EDUSP, 1975.
FELINTO, E. & SANTAELLA, L. O explorador de abismos. São Paulo: Paulus, 2012.
HUME, D. Tratado da natureza humana. São Paulo: UNESP e Imprensa Oficial do
Estado, 2000.
KANT, I. Crítica da razão pura. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989.
KATEB, G. The inner ocean. Ithaca: Cornell University, 1992.
POPPER, K. A sociedade aberta e seus inimigos. Belo Horizonte: Itatiaia, 1974. 2v.
SILVEIRA, R. A. T. A industrialização da verdade. Redescrições, Ano 4, Número 2,
2013, pp. 46-66.
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
29
MODELO PARA A CONSTRUÇÃO DE UM PROJETO
DE PESQUISA
MODEL FOR THE CONSTRUCTION OF A RESEARCH
PROJECT
Andrei Venturini Martins

“Não basta ter bom espírito, o principal é aplicá-lo bem”.20
RESUMO:
Neste artigo esclarecerei os aspectos essências para o desenvolvimento de uma pesquisa
científica, a saber: título, motivação pessoal, tema, estado da questão, objeto, problema,
objetivo, hipótese, justificativa, metodologia, cronograma e levantamento bibliográfico.
Mais especificamente, meu objetivo é oferecer um modelo para a construção de um
projeto de pesquisa acadêmica.
Palavras-chave: Projeto de Pesquisa; Objeto; Hipótese; Justificativa.
ABSTRACT:
This paper clarified the aspects essences for the development of scientific research ,
namely: title, personal motivation, theme, state the question, object, problem, purpose,
hypothesis, rationale , methodology, schedule and literature. More specifically, I aim to
provide
a
model
for
the
construction
of
an
academic
research
Key words: Research Project; Object; Hypothesis; Justification.
1 – INTRODUÇÃO

Doutor em Filosofia pela PUC-SP. (Email: [email protected]).
DESCARTES, René. Discours de la Méthode, I, p. 2.
20
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
project.
30
O planejamento de uma pesquisa é parte integrante do trabalho investigativo de
qualquer análise que pretenda a legitimidade do rigor científico. A escolha do tema, do
objeto de investigação, a construção do problema a ser respondido, o objetivo, a
justificativa, o cronograma e o levantamento bibliográfico são partes essenciais para o
planejamento de um projeto, seja uma monografia, uma dissertação de mestrado ou
doutorado.
Muitos alunos e professores apresentam inúmeras dúvidas em relação à
elaboração de um projeto de pesquisa. O projeto pode funcionar como guia da atividade
investigativa, impedindo uma atitude aleatória frente àquilo que se deseja investigar.
Diante disso, elaborei uma proposta metodológica, dividida em 6 passos, a fim de
auxiliar o pesquisador no processo de organização de trabalhos acadêmicos. Trata-se de
um passo a passo com o objetivo de analisar os aspectos fundamentais de uma pesquisa,
esclarecendo a viabilidade e a necessidade de cada tópico.
Gostaria de lembrar que parte desta análise devo ao Prof. Eduardo A. Cruz do
Depto. de Ciências da Religião da PUC-SP, que no ano de 2009 formulou um pequeno
modelo para a construção de pesquisas acadêmicas.21 Também ressalto a colaboração do
Prof. José J. Queiroz, também do Depto. de Ciências da Religião da PUC-SP, que
auxilia inúmeros pesquisadores em suas aulas de Metodologia, a fim de que realizem
com rigor suas investigações. Por fim, não poderia esquecer do Prof. Mario A. G. Porta,
do Depto. de Filosofia da PUC-SP, o qual não conheço pessoalmente, mas publico
minha grande admiração por suas reflexões metodológicas e filosóficas presentes na
obra A Filosofia a partir de seus problemas. Vale lembrar ao leitor que este artigo é uma
síntese das reflexões metodológicas destes três docentes. Meu trabalho foi sintetizar os
aspectos que considerei de estrema necessidade para a sustentação de uma pesquisa
científica.
1º PASSO – O TEMA E SEU ENUNCIADO.
O tema é aquilo “do que” ou “sobre o que” se deseja pesquisar. Para a escolha de
um tema alguns critérios devem ser observados.
a) Deve nascer de um interesse pessoal, já que o investigador irá “conviver” com
o objeto de investigação por um bom tempo. Por este motivo, é fundamental que haja
empatia e atração pelo tema escolhido.
21
Trata-se de algumas sugestões para a elaboração de uma pesquisa, no entanto, tal modelo não
foi publicado.
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31
b) Necessária correspondência entre as linhas de pesquisa e as prioridades do
programa.
c) Deve ser um campo de trabalho acessível, como uma bibliografia possível,
com a devida ciência do tempo disponível para a investigação.
d) Evitar temas compilatórios ou demasiadamente panorâmicos.
O título do trabalho é o modo pelo qual o tema será anunciado. Mesmo que seja
provisório, o título deve constar no projeto. Podemos dividi-lo em 2 partes:
a) Título geral: é amplo e chamativo.
b) Título específico ou subtítulo: este deverá aproximar-se do objeto e tanto
melhor será quanto mais refletir o objeto de pesquisa.
2º PASSO: INTRODUÇÃO
Na Introdução do projeto consta a apresentação do tema em linhas gerais. Neste
item destaco três aspectos que o compõem:
a) Motivação pessoal: deve constar a motivação que impele ao trabalho, já que a
“formação particular”22 e as expectativas do pesquisador são aspectos que podem
influenciar a pesquisa.
b) Análise do título: apresentação de uma visão geral do assunto que será
trabalhado, assim, o leitor do projeto poderá adquirir uma visão inicial do que será
tratado, fornecendo as informações necessárias que o levem a perceber a importância da
pesquisa.
c) O estado da questão: um pesquisador não deve procurar inventar a roda com o
seu trabalho. Antes de avançar no conhecimento de um determinado objeto é necessário
mostrar-se ciente dos progressos já conquistados por seus predecessores, ou seja, avaliar
a fortuna crítica precedente. Não podemos esquecer que a ciência, pensava Francis
Bacon, é um anão nos ombros de um gigante, logo, uma avaliação rigorosa daquilo que
foi pensado auxiliará o investigador a postular o ponto de partida da pesquisa, não
refazendo o caminho que outros já fizeram. É importante que a leitura da fortuna crítica
suscite uma interrogação, um problema que ainda não fora detectado: pode ser uma
lacuna argumentativa ou mesmo o modo pelo qual o argumento foi construído.
d) Objeto de investigação: o objeto é o núcleo central do trabalho, o alvo de
investigação claramente demarcado. O objeto especifica os limites daquilo que será
22
KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas, p. 22.
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32
investigado: conhecer é saber os limites da investigação. O objeto pode ser a análise de
um texto, de um conceito, dos textos que compõem um período histórico, o
comportamento de homens ou animais em uma determinada situação ou área delineada,
os aspectos qualitativos ou quantitativos da produção de uma empresa, a opinião de um
grupo em dado momento histórico, a avaliação geográfica em um determinado tempo
ou lugar específico, etc...
3º PASSO: JUSTIFICATIVA
Este passo pode ser considerado o coração do trabalho, não que os outros não
mereçam importância, mas nele deve constar aspectos que dão sustentação ao trabalho.
Eis a ordem destes aspetos de vital relevância: Problema, Objetivo, Hipótese e, por fim,
a Justificativa acadêmica propriamente dita.
Um Problema, ao ser apreendido e esclarecido, impele o pesquisador a traçar os
Objetivos que a pesquisa pretende cumprir, desta maneira, faz-se necessário elaborar
uma Hipótese que dissolva os problemas iniciais nos objetivos propostos, assim, a
pesquisa conterá a pertinência que Justifica a sua elaboração. Mas façamos uma análise
de cada um destes aspectos.
a) Problema:23 a partir da compreensão do estado da questão, uma questão deve
ser levantada. Pensar não implica, necessariamente, possuir certezas. É fundamental
para o desenvolvimento de uma pesquisa encontrar o problema que se deseja solucionar.
Quando não há problema, não há investigação. A lista de problemas nunca está
totalmente pronta. Sua incompletude nos permite submetê-la a constante revisão. Assim,
duas questões podem ser elaboradas:
1) qual é o problema proposto pelo autor?24
2) Por que ele formula dessa maneira?25
Formular o problema de forma adequada é um passo capital para o
desdobramento da pesquisa, esta que se configura como uma resposta ao problema
levantado. Muitas vezes o problema não é dado objetivamente, mas é preciso de um
esforço analítico para apropriar-se do problema que servirá de eixo investigativo. Ora,
fazer uma pesquisa sem formular um problema é o mesmo que responder uma pergunta
23
Para uma análise pormenorizada do “problema” em uma pesquisa remetemos o leitor à obra de
Mario A. G. Porta denominada A filosofia a partir de seus problemas, p. 26 ss.
24
Ibid., p. 26.
25
Ibid., p. 26.
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que não existe.
b) Objetivo: Não se pode confundir o objetivo com o objeto de pesquisa (ver 2º
passo, item d). O objetivo é o resultado que o pesquisador pretende alcançar: esclarecer
um conceito, aprofundar um tema pouco explorado, oferecer subsídios para a prática
pedagógica; analisar, discutir e até refutar posições e teorias; aplicar os resultados de
uma pesquisa em um determinado campo, etc.
Objetivo Geral: é aquilo que se pretende fazer de maneira ampla, ou seja, aquilo
que, depois de atingido, fará com que o pesquisador considere que concluiu seu
trabalho.
Objetivos específicos: são objetivos auxiliares, necessários individualmente e
suficientes em conjunto para a consecução do objetivo geral. Isso não significa que os
objetivos específicos não podem ir além do objetivo geral: se vão além, são então
suficientes. Mas caso não sejam suficientes para cobrir o objetivo geral, então, podem
ser objetivos necessários, mas não suficientes, necessitando buscar outros objetivos que
dê conta do objetivo geral.
c) Hipótese: o problema e seus respectivos objetivos requerem uma hipótese, ou
seja, uma afirmação que pretende conceder uma contribuição específica do pesquisador
para o estado da questão. Todo trabalho é mostra-se como um esforço para demonstrar
que a hipótese pode ser uma Tese (θέσις). Vale lembrar que muito pesquisadores
iniciantes confundem hipótese com problema, destaco portanto que a hipótese é uma
afirmação que tornar-se-á a resposta ao problema levantado, cumprindo o objetivo
ressaltado previamente.
d) Justificativa: Na justificativa, tenta-se responder a seguinte pergunta: por que
este estudo é relevante? Do ponto de vista teórico um projeto de pesquisa pode ser
justificado pela capacidade de ampliar os horizontes intelectuais de uma área, aventar a
análise de um tema ainda não discutido ou não discutido suficientemente pela ciência,
propor um novo encaminhamento para a análise do tema discutido. Do ponto de vista
prático a relevância do projeto pode estar relacionada ao fato que as conclusões do
trabalho realizado são relevantes para determinados grupos que possuem alguma relação
como aquilo que foi investigado.
4º PASSO: METODOLOGIA
Trata-se de apresentar a forma pela qual será desenvolvida a pesquisa. Não basta
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obter conclusões satisfatórias para um trabalho científico, pois estes terão pouca
validade se a forma pela qual se chegou a eles carecer do rigor científico. É isso que
distingue um bom pesquisador de um curioso: o pesquisador sabe como se chegou aos
resultados, já o curioso não justifica de forma rigorosa as suas percepções parciais de
um dado fenômeno.26 Por este motivo, destacamos dois aspectos metodológicos
importantes:
a) Enunciar o método de coleta de material para a justificativa da hipótese:
dedutivo, indutivo, misto (dedutivo-indutivo). Estes terão prevalências teóricas,
históricas, empíricas ou mistas (teórica-histórica-empírica). O método é um
procedimento técnico que engloba: observação de campo, pesquisas de participantes,
questionários, coletas de documentos, consulta de arquivos.
b) Plano provisório: o projeto deve constar provisoriamente uma distribuição da
pesquisa em capítulos e partes. Trata-se de um roteiro preliminar de trabalho, através do
qual o pesquisador organizará a sua leitura e coletará os dados necessários, o que evita
adquirir dados aleatoriamente.
5º PASSO: CRONOGRAMA DE TRABALHO
Depois que o plano de provisório foi elaborado é necessário enquadrar de forma
genérica os prazos do projeto. Por exemplo (um trabalho de 2 anos):
1º semestre: Leitura e elaboração do Projeto.
2º semestre: Redação do primeiro capítulo.
3º semestre: Fim da redação da primeira parte e qualificação.
4º semestre: Finalização do trabalho e defesa.
6º PASSO: BIBLIOGRAFIA
O levantamento bibliográfico é a matéria prima para a pesquisa. Como salientei
acima, ninguém começa uma pesquisa do nada. Ciente do tema, levanta-se a
bibliografia a partir do tema pesquisado: artigos, livros, documentos, reportagens,
filmes, vídeos, etc. Após o levantamento bibliográfico é preciso separar aquilo que
parece ter uma importância capital para a pesquisa e mostra uma prioridade de leitura.
Depois desta primeira leitura prioritária é possível avaliar o que é necessário ler em um
26
Tal posição é continuamente lembrada pelo Prof. Eduardo A. Cruz do departamento de pósgraduação em Ciências da Religião da PUS-SP.
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segundo momento (citações da fortuna crítica). Todavia, nada impede que o
levantamento bibliográfico conduza o pesquisador ao encontro de um texto não lido
pela fortuna crítica ou deixado à margem nas outras pesquisas, de modo que a sua
investigação venha mostrar a relevância deste texto para a análise do tema escolhido.
CONCLUSÃO
A estrutura de projeto não é uma camisa de força, mas uma sugestão cujo
objetivo é abarcar todos os aspectos necessários de uma pesquisa que visa o título de
ciência. Um projeto pode ser configurado de modo diferente e chegar a resultados
satisfatórios, no entanto, necessita conter os elementos suficientes que o rigor do
planejamento de uma pesquisa científica demanda.
REFERÊNCIAS
DESCARTES, René.
Tannery. Paris: 1996.
Discours de la Méthode. VI. Edição Charles Adan et Paul
KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. 6ª ed. São Paulo: Companhia
das Letras, 2001.
PORTA, Mario Ariel González. A filosofia a partir de seus problemas, 3ª ed. São Paulo:
Ed. Loyola, 2007.
SEVERINO, Antonio Joaquim. Metodologia do trabalho científico, 20ª ed. São Paulo:
Cortez, 2000.
SMITH, Barbara Herrnstein. Crença e resistência: a dinâmica da controvérsia
intelectual contemporânea. trad. Maria Elisa Marchini Sayeg. São Paulo: Unesp, 2002.
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ESTAMOS PERDIDOS NA SOCIEDADE
CONTEMPORÂNEA
DO WE ARE LOST IN CONTEMPORARY SOCIETY
Paulo Ghiraldelli Junior
RESUMO:
A questão que intitula este artigo nos auxiliará a pensar os rumos do contemporâneo,
período este que perdeu de seu horizonte a cara dicotomia entre o real e a ilusão tão
valiosa para antigos e modernos. Com a diminuição do potencial das grandes narrativas
filosóficas, como é o caso do marxismo, o contemporâneo assume o perspectivismo
nietzscheano. Será a partir desta narrativa que poderemos vislumbrar a chamada
“sociedade do espetáculo”. O homem, subjugado à mercadoria, torna-se um consumidor
passivo, uma espécie de matéria morta que se adapta à vivacidade dos produtos. O
trabalho tem como objetivo esclarecer estes mecanismos de sujeição.
Palavras-chave: Perspectivismo, Sociedade do Espetáculo, Fetichismo
ABSTRACT:
The question that heads this article will help us to think about the direction of
contemporary, a period that lost of its horizon the expensive dichotomy between the real
and the illusion, so valuable to both ancients and moderns. With the lowering of
potential of the great philosophical narratives, as in the case of Marxism, the
contemporary assumes the nietzschean perspectivism. It will be from this narrative that
we will can glimpse the so-called "society of the spectacle". Man, subdued to the
commodity, becomes a passive consumer, a kind of dead matter that fits himself to the
liveliness of products. The paper aims to clarify these clamping mechanisms.
Key words: Perspectivism , Spectacle Society, Fetishism
I
Ilusão de ótica é uma coisa, ilusão metafísica é outra. A física, a fisiologia e
outros campos do conhecimento podem cuidar do primeiro caso, só a filosofia cuida do
segundo, afinal, trata-se de um invento só dela.
Sem ilusão de ordem metafísica não teríamos a filosofia. Poderíamos ter
narrativas de ordem literária ou científica, mas jamais a narrativa que chamamos de
 Paulo Ghiraldelli Junior é doutor em Filosofia e autor de Sócrates: pensador e educador – A
filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015). Email: [email protected]
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filosofia, criada por Platão. A filosofia é uma conversação que, de certa forma, está às
turras com essa brincadeira a respeito de “o que é o real?”.
Os antigos fizeram essa pergunta sobre “o que é o real?” Os modernos
transformaram a pergunta e passaram a indagar “o que é o conhecimento do real?”. Os
filósofos contemporâneos, por sua vez, desdenham a primeira pergunta e criticam a
segunda; eles preferem assumir que vivemos em uma época de problematização da
própria dicotomia real-ilusão. Viver essa época é antes de tudo viver como quem
pressente que original e cópia não possuem fronteiras não borradas. Nos tempos
contemporâneos as imagens ganham proeminência. Tudo é “para os olhos”. Conta-se
não mais a questão da verdade e da falsidade, mas do aparecer (e do parecer). Nesse
caso, ganha estatuto privilegiado o espetáculo. Afinal esse é o que é exclusivamente
“para ver” – simplesmente para ver.
II
Marx foi um dos últimos pensadores pré-contemporâneos a invocar, sem
qualquer rubor, a “realidade”. Ele buscou denunciar o mercado, a quem responsabilizou
por um mecanismo de dominação do homem que, por sua vez, dissimularia tal
dominação. Mas ele jamais disse que a sua versão da dominação era uma descrição a
mais entre outras possíveis, mas a descrição verdadeira, a que teria captado o real,
diferenciando sua essência de sua aparência ideológica.
Pela norma contemporânea ou, digamos, inaugurando com isso a própria
contemporaneidade, Nietzsche tornou as coisas um pouco mais complexas, ao menos
quanto ao real. No parágrafo 22 de Além de bem e mal ele deixou a ideia de que não
temos o texto básico, só interpretações. Com isso, aprovou algo diferente de Marx: ele
puxou seu próprio tapete, uma vez que a sua fala deveria ser admitida também apenas
como uma interpretação, e assim ele fez. Desse modo, inaugurou o perspectivismo: não
temos mais que falar em verdadeiro ou falso como lidando com real e ilusão, mas temos
apenas que forçar a criação de mais e mais narrativas, ampliando as perspectivas. Estar
rico de perspectivas parece ser a melhor maneira de errarmos menos, pragmaticamente
falando. Afinal, haveria algo mais a fazer?
Ideias como a de Nietzsche foram trazidas, bem depois dele, para o campo da
teoria social. Os filósofos da Escola de Frankfurt fizeram isso. Mais recentemente, por
exemplo, Bataille (quase um Richard Rorty europeu?) falou de fases da imagem de um
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modo que lembra a “história de um erro” de Nietzsche, contida no Crepúsculo dos
Ídolos. Vai-se da dicotomia entre imagem e cópia para a indistinção entre imagem e
cópia até a indistinção entre quaisquer imagens.27 Mas, em certo sentido, também se
pode tirar uma tese assim de leitores de Marx. Debord chegou à ideia de que vivemos
em uma sociedade de espetáculos, onde „o que é bom aparece e o que aparece é bom‟, e
fez isso a partir do marxismo, especialmente das noções de alienação (separação) e de
fetichismo. Ora, se lemos Debord sob o clima de Nietzsche, que é o clima de hoje, ou
com o clima de Bataille, então sua história sobre a “sociedade do espetáculo” se torna
uma narrativa boa a respeito do que estamos vivendo. Não vamos aqui chamá-la de
“mais representativa do real”, o que nos faria acriticamente voltar passos, mas
simplesmente podemos dizer: essa narrativa “nos pegou”.
III
O que quero dizer com “nos pegou”? Ora, que é difícil não sentir algo do que
vivemos se lemos em Debord isso: “toda a vida das sociedades nas quais reinam as
modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de
espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação”.28
O que se quer dizer, aqui, com “uma representação”? Representação no sentido
de uma especial re-apresentação; de apresentação que se faz de novo e de novo
incessantemente. Algo que requisita, agora, não o chão vivido de modo exclusivo,
particular, mas do chão vivido como palco, um palco que mostra a todos como é a vida,
mas a partir de uma ótica que não é a do homem (portanto, não mais a modernidade
vista como “a época das imagens de mundo”, de Heidegger no Holzwege), mas da nova
ordem das coisas. Trata-se da ordem das “modernas condições de produção”. Nesse
palco, como explicou Marx no célebre “O fetichismo da mercadoria: seu segredo” no
livro I de O capital, a mercadoria se apresenta comandando relações que antes, na troca
de produtos, eram relações entre homens. Explico resumidamente.
Diferente de mercados pré-capitalistas, no mercado capitalista o produtor de soja
não se encontra com o produtor de celulares, mas celulares e soja são trocados; Dona
Soja se encontra com Senhor Celular. À medida que os produtores (humanos) deixam
de se relacionar diretamente e são substituídos por coisas (mercadorias) que, então, se
responsabilizam pelas relações, eis que se estabelece o fetichismo. São seres mortos que
27
28
BATAILLE, G. Simulacros e simulações. Lisboa: Relógio D‟água, 1991, p. 13.
DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2015, p. 13.
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ganham vida. São objetos que se fazem sujeitos. E mais: se mostram assim, aos homens,
como exercendo uma atividade natural, e não como social, como de fato é. Adquirem tal
capacidade porque vão ao mercado não ostentando valor de uso, mas valor de troca –
essa é a própria condição do mercado. Como isso foi possível? Ora, o valor é dado pelo
aspecto exclusivamente quantitativo. Cada mercadoria pode ser trocada por outras por
encontrar um equivalente universal que é o trabalho contido em cada uma. Trata-se do
trabalho mensurado por meio da quantidade de tempo. Trata-se do trabalho abstrato que
gera, então, o valor abstrato que é carregado por cada mercadoria. A operação ganha
ainda um aspecto mais bem acabado, dando total autonomia às mercadorias, quando o
próprio valor já nem precisa se referir ao trabalho medido quantitativamente, mas a uma
abstração tornada palpável, o dinheiro. O dinheiro como equivalente universal dá vida
completamente autônoma ao mercado, à mercadoria, e isso de uma vez por todas põe os
produtores, os homens, como apenas coadjuvantes do processo todo, depois como
simples coisas e, por fim, expectadores.
Essa forma de organização da vida social, regida pela sociedade de mercado, se
mostra como aquela que produz em larga escala e, ao dominar o mundo, oferece a todos
a própria mercadoria em um ambiente chamado sociedade do consumo. A mercadoria
reaparece como mais viva ainda, pois manda nas relações que antes eram humanas e
passa, agora, também a induzir desejos de seus espectadores. Atua na própria psicologia
de cada trabalhador já transformado em consumidor. Essa sociedade do consumo, para
funcionar, não pode ser outra coisa senão uma sociedade de proliferação de imagens.
Mas são imagens feitas para conquistar, para serem vistas e obedecidas. Nasce aí o
espetáculo de modo específico e especial, como elemento da sociedade do espetáculo.
Explico brevemente.
IV
Dá-se o espetáculo. Nesse espetáculo cada homem não se vê como produtor de
mercadoria, mas como admirador, ou seja, como consumidor. Sendo consumidor pode
consumir a própria mercadoria ou, então, simplesmente sua imagem ou talvez apenas se
embevecer. Pode entrar no mundo criado por ela. Esse mundo criado pela mercadoria é
o mundo de seu espetáculo, da dança de suas marcas, e dos espetáculos adjacentes que
envolvem shows esportivos, shows macabros de desastres, espetáculos de guerra e tudo
o mais que se apresenta nos jornalismo em geral e, especialmente, no jornalismo da TV.
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
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Além disso, amplia os shows de entretenimento variáveis e, agora, shows
individualizados que cada um de nós produz em celulares, pondo-os na Internet para
alimentar a representação, para amentar as imagens, para contribuir com a proliferação
de “mais do mesmo”, sempre integrados à retroalimentação do consumo. Tudo isso tem
como base o fetichismo.
O exemplo do fetichismo da mercadoria em termos psicológicos, que eu
normalmente utilizo, é bem simples. Pelo espetáculo e com a extensão do espetáculo, a
mercadoria se põe como sujeito e leva o trabalhador, agora como espectador do
espetáculo, ou seja, como consumidor, a se transformar em objeto. Pois a mercadoria o
dispõe do exato modo que um sujeito dispõe objetos. Imagine você em uma loja
tentando levar uma calça jeans para casa. Ela, a calça, lhe é estranha, ela se apresenta no
seu próprio palco, a vitrine física ou televisiva e, agora, também virtual. Faz isso de
diversos modos. Ela cria desejo, obriga você ao consumo. O problema seu, então, é de
conseguir pagar o que a prostituta mercadoria pede. Mas esse não é seu problema
maior! O cartão de crédito e a Internet lhe resolvem em parte esse impasse. Você parcela
o pagamento ou simplesmente cede ao impulso irresponsavelmente e, ficando no
vermelho no cartão, faz o pedido de compra. Mas há uma barreira a mais, e esta sim é
importante: é que a calça jeans é viva. Ela está viva, e isso fica claro quando você
percebe que jamais passaria pela sua cabeça trazer a calça e pedir para a sua avó
arrumá-la em seu corpo; ao contrário, é você que irá parar de comer ou ir à academia ou
marcar uma operação de tipo lipoaspiração (e, portanto, consumir mais outras coisas e
participar de mais espetáculos). Ou seja, você é agora o produto morto, o pedaço de
carne que deverá se acomodar à calça, enquanto que se impõe sobre você o pedaço de
pano falante, vivo, atuante, ou seja, o sujeito. Eis aí a contrapartida da fetichização: a
reificação do humano. Então, aí está a ideologia: não como produto da maquinação de
um cérebro humano, mas como uma ilusão interna a uma verdade – um espetáculo, que
ocorre no mercado e pelo mercado. Essa ideologia está articulada à alienação. A
alienação ocorre à medida que a mercadoria e você, que a produziu, se separaram, e isso
por conta da separação anterior, entre você e os meios de produção que puderam gerar a
mercadoria. Há ainda uma alienação subjetiva: você se separa de você mesmo. O vivo
de você surge morto na relação com a mercadoria, toda a sua humanidade viva sai de
você, lhe é alienada, e a mercadoria reina como o vivo, como aquele que lhe tomou o
sangue. Ela se mostra como prostituta e vampira.
Tudo isso é reproduzido como imagem e por imagem. Essas são postas no
Redescrições - Revista online do GT de Pragmatismo, ano VI, nº 2, 2015
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mundo de modo reiterativo pela proliferação vinda da mídia e da Internet, que fazem o
shopping vir até você ou mesmo criam para você a falsa ideia de que tem um shopping
na sua mão, via celular. Assim, a mídia não faz nenhuma dominação intencional, de
“maquinação” ou de “manipulação” (quando faz, isso é secundário nesse quadro), ela
apenas funciona dentro da lógica impessoal da sociedade de mercado segundo o
capitalismo (a contrapartida dessa impessoalidade, segundo Weber, é a criação de uma
burocracia estatal para fazer política, e que eu digo que é também para dar continuidade
ao mercado impessoal).
Ela, a mídia, produz imagens, quase todas elas ligadas ao fetichismo em diversos
níveis. Todo o aparato do entretenimento é regrado direta ou indiretamente por essa
lógica. Seu próprio conteúdo se faz assim. A certa altura dos acontecimentos a
mercadoria perde seus escrúpulos e começa a revelar seu segredo abertamente: ela
coloca sua marca em cada jogador de futebol, na camisa dele, e com isso ela avisa a
todos que já vinha fazendo isso há algum tempo com jornalistas e políticos – inclusive
com jornalistas críticos e políticos de oposição. Quando você olha para você mesmo, vê
que também este é o seu papel à medida que está fazendo parte de algum espetáculo. Ou
produzindo-os no seu celular de modo mais volumoso que a chamada “grande mídia”,
gerando o que é aproveitado pela grande mídia, pelo marketing e pelo jornalismo.
Uma sociedade do espetáculo é uma sociedade que se diverte com o fetichismo
e, então, em determinado momento, não pode fazer outra coisa senão curti-lo. Vicia-se
na operação fetichista de ver o morto substituir o vivo. Vive o mundo em que um clips é
um soldado, o mundo da brincadeira e da fantasia. Essa sociedade retorna fácil ao
brinquedo e ao jogo. Infantiliza-se. Tudo deve ser do campo da ideia lúdica em que o
pedaço de pau cria vida e se transforma num cavalo, depois, esse cavalo se transforma
no Pepe Legal, o cavalo cowboy, ou seja, aquele cavalo que dispensa o cavaleiro e faz o
filme sozinho. Nesse espaço infantil não cabe adultos. Só crianças. No entanto, o mundo
continua contendo adultos.
Assim, o mundo adulto vira um mundo de crianças. As crianças se tornam mais
crianças (mesmo as que trabalham!) uma vez que os adultos se tornam crianças. Nesse
mundo, os adultos se tornam amiguinhos dos filhos. Os professores viram “tias” e “tios”
e depois coleguinhas, “facilitadores”. A aula vira jogo e brincadeira e a escola, desse
modo, ou é “atrativa” ou não é mais escola. Os pais se transformam rapidamente em
coleguinhas também. Conversam de tudo com os filhos. Falam de sexo e ensinam as
meninas a usar camisinha, ou são ensinados por estas – tentam de maneira ridícula
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ensinar de modo horizontal e, assim fazendo, se tornam ridículos perante os filhos. A
psicologia se dobra ao comportamento desses pais e contrata profissionais para elogiálos e dizer: “nossa, que beleza, é o mundo do diálogo”. Esses pais se transformam
facilmente no personagem do pai no filme Whiplash, alimentando filhos infantis,
marcando hora para ir com o filho, já adulto, comer pipoca vendo vídeo em casa. Do
mesmo modo esses pais, os adultos, começam a achar que seu ambiente de trabalho
também deve ser lúdico. Surgem então os profissionais da motivação, os consultores, os
que fazem treinamento para o trabalho, e isso em formas de jogos, de gincanas que
lembram as feitas nos reality shows da TV. Qualquer palestra que queira aprofundar
algo, nesse meio, é tomada como chata. Quando voltam para casa dormem e acordam
como os pais paulistanos, que são chamados em faculdades (sim, faculdades!) para levar
sermão dos coordenadores, pois estão mimando seus filhos (está ocorrendo isso em São
Paulo!). Todos conversam com todos abertamente, francamente. A sociedade moderna
internetada, eletrônica e liberal se imagina uma Ágora grega expandida para o lar.
Quando a sociedade perde a distinção entre o que é a infância e o que é a vida
adulta, aparecem logo, entre outras coisas do mesmo tipo, os “caçadores de pedófilos”,
os grandes justiceiros. Por quê? Porque há a idealização da infância, já que esta, real, se
perdeu na prática. Ninguém mais sabe quem é criança. Ninguém mais sabe o que é
adulto. Então, a sociedade reclama por um pedófilo, alguém que pega crianças, pois,
fazendo isso, esse “especialista” irá apontar para a criança e dizer, “ah, olha lá, a criança
para ser abusada, é criança!”. O caçador de pedófilo é o caçador de quem ele presume
que sabe quem é criança! A sociedade então redescobre a criança não por sua
inteligência, mas por meio de um mecanismo estranho, o do mito do pedófilo. Quem ele
atacar é de fato criança! O mito do devorador de crianças salva a sociedade, de modo
que esta pode saber o que apontar como criança.
Assim ocorre com várias outras situações em que a diferenciações acabam por
conta do conteúdo dos espetáculos. As distinções reaparecem por meio de invenções,
mitos, criações esdrúxulas, leis e regras malucas. A sociedade do divertimento, do
entretenimento, da gincana de do reality show termina logo por ser a sociedade da
perseguição. Criam-se nomes de estereótipos e leis para punição desses que são
acusados de terem tais nomes, de modo que diferenciações perdidas sejam repostas.
Essas diferenciações artificiais são repostas por leis como a do bullying.
Identifico aquilo que não identificava mais, e assim faço por meio da criminalização do
que venho a chamar de discriminação. Aquele fulano chamou o outro de “gordo”. Vem a
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denúncia e a punição. Essa punição é no fundo o momento da identificação: fica-se
sabendo, de novo, o que é um gordo. O gordo é o que sofreu a agressão. A lei contra a
violência se torna apenas um modo de se poder encontrar a relação entre coisas e
palavras. Reinstaura-se a semântica perdida, mas de uma maneira completamente
esquizofrênica.
Essa busca de uma recuperação semântica não é à toa. Afinal, o que é alienado
pela sociedade do espetáculo é também a linguagem. Agamben comenta isso ao falar do
livro Debord, Comentários sobre a Sociedade do espetáculo. “O espetáculo é a
linguagem, a própria comunicabilidade e o ser linguístico do homem”, desse modo, o
capitalismo está voltado também “à alienação da própria linguagem, da própria natureza
linguística e comunicativa do homem”.29 Claro, se tudo se inverte e a semântica
enlouquece, nós ficamos sem saber o que falamos e do que falamos. Criamos leis de
criminalização para que juízes e policiais e outros sabichões nos digam de novo o que é
cada coisa: quem é negro, homossexual, gordo, criança, mulher, doente, anão, índio,
clone, bastardo, rei e poeta. Fazemos isso também com atividades. Em um mundo em
que as calças dão ordens, e que, como Marx notou, as mesas com cabeça de madeira se
impõem diante de outras mesas e outras mercadorias, é difícil saber o que é uma mesa
enquanto mesa.
Bataille diz isso a respeito da criação da Disneylândia30: eis aí o lugar
institucional da fantasia, para que, de modo concreto, indicativo, se possa dizer que no
resto dos Estados Unidos não reina o falso, o ilusório, o resto é o real, adulto, a
América. A Internet é o perigo que quebra isso. Mas o faz com certa segurança. Pois ela
própria tenta, pela velocidade, dar parâmetros para a fantasia: o que “bomba na Net” é
fantasia, o que fica não é. Mas, o que fica? Nada fica? E de fato se nada fica, como
saber o que não é ilusão? Então, que volte a lei para recriar a semântica e a possibilidade
de saber quem é criança, quem é o justo, quem é o feio, o que é uma prática e outra
prática, o que é isso ou aquilo. As perguntas socráticas reaparecem, mas sem Sócrates,
sem investigação, sem pensamento.
Quem notou nesses últimos dias, com a discussão da terceirização, a confusão
sobre o que é ser ou não ser trabalhador, o que é trabalho e tarefas, pode bem entender
de que indistinção e de que perdas semânticas estou falando.31
29
AGAMBEN, G. Meios sem fim. São Paulo: Ática, 2015, p. 81.
BATAILLE, G. Simulacros e simulações, p. 22.
31
PS: no momento em que escrevo, o Brasil discute o que é família. O Congresso recebe votos!
30
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REFERÊNCIAS
AGAMBEN, G. Meios sem fim. São Paulo: Ática, 2015
BATAILLE, G. Simulacros e simulações. Lisboa: Relógio D‟água, 1991, p. 13.
DEBORD, G. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 2015.
Querem decidir isso por algo como voto e plebiscito! Ou seja, somos incapazes de olhar para nós mesmos
e, por reflexão, por pensamento e estudo, decidir que temos um avô junto com neto que, por vez, nem é
filho do filho dele talvez, e esse menino tem um primo, que é quase irmão, e que traz para casa como
namorado outro menino. Formam uma família. Não! A sociedade prefere a via aparentemente mais fácil,
do não-pensamento: a sociedade vota dizendo que a família tradicional é o padrão dado pelo espetáculo
ou pela lei velha, que nunca representou qualquer coisa vivida: família é união de um homem e uma
mulher! Meu Deus, quando? Quando existiu isso como família? Onde? Em Plutão? O plebiscito também
é parte do espetáculo.
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COMPARAÇÃO DOS CRISTÃOS DOS PRIMEIROS
TEMPOS COM AQUELES DE HOJE (de Blaise Pascal).
COMPARAISON DES CHRÉTIENS DES PREMIERS
TEMPS AVEC CEUX D‟AUJOURD‟HUI (de Blaise Pascal).
Traduzido por Andrei Venturini Martins
INTRODUÇÃO
O opúsculo Comparação dos Cristãos dos primeiros tempos com aqueles de
hoje de Blaise Pascal foi publicado em 1779 por pelo Pe. Bossut, no entanto, estima-se
que o manuscrito foi escrito entre 1655 e 1657. Conhecemos este texto por três
manuscritos: a) Cópia do manuscrito Périer, b) a Segunda Cópia, que consta na
Biblioteca Nacional em Paris e, c) o 1º Recueil Guerrier. Os últimos dois são idênticos,
assim como o texto de Bossut, todavia, o manuscrito Périer (sobrinho de Pascal)
apresenta uma ordem diferente que não parece respeitar a lógica da demonstração do
filósofo do século XVII, pois os parágrafos não articulam um encadeamento coerente.
Por este motivo, mantemos a ordem de Bossut.
Os poucos parágrafos lançados nos auxiliam a refletir a relação entre os
primeiros cristãos e os de “hoje”, a saber, do século XVII. Pascal demonstra uma
precariedade dos cristãos atuais que têm seu ponto alto nos parágrafos [21] e [22]:
“Disto podemos concluir que, antigamente, não víamos entre os cristãos senão pessoas
muito instruídas;/ ao passo que, agora, elas estão em uma ignorância que causa
horror”.32 Antigamente o compromisso batismal era precedido por uma verdadeira
conversão moral e formação permanente dos preceitos do cristianismo, em
contrapartida, hoje, o batismo vem logo após o nascimento, mas não se desdobra em
transformação moral e conversão. Pascal pretende mostrar a ingratidão dos cristãos
atuais que viram às costas para a Igreja depois de terem sido auxiliados por ela com a
graça do batismo. O texto é uma crítica ao cristão do século XVII, no entanto, uma

Doutor em Filosofia – PUC/SP - [email protected]
PASCAL, Blaise. Comparaison des chrétiens des premiers temps avec ceux d’aujourd’hui, p.
32
361a.
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análise do homem contemporâneo nos faz exclamar em alta voz: nada mudou! Quão é
evidente que “agora não vemos nada de mais comum do que os vícios do mundo dentro
do coração dos cristãos”?33 Já nas primeiras páginas do Catecismo da Igreja Católica
notamos que a instituição reconhece que a descrença em Deus, em algumas ocasiões, é
provocada pelo “o mau exemplo dos crentes”.34 É o contratestemunho dos cristãos de
seu tempo que o velho e bom Pascal pretende avaliar.
Por fim uma consideração metodológica: a tradução foi dividida em parágrafos,
os quais são indicados por [ ]; a seguir, consta, entre parênteses, a página, seguida da
letra (a ou b), que se refere à coluna que foi traduzida da Edição de Louis Lafuma.
TÍTULO: COMPARAÇÃO DOS CRISTÃOS DOS PRIMEIROS
TEMPOS COM AQUELES DE HOJE.
[1] (360a) – 1.35 Nos primeiros tempos só víamos cristãos perfeitamente
completos em todos os pontos necessários para a salvação;
[2] (360a) – ao passo que hoje vemos uma ignorância tão grosseira que causa
sofrimento a todos aqueles que têm sentimentos de ternura pela Igreja.
[3] (360a) – Não entravamos para Igreja senão depois de grandes tarefas e
longos desejos.
[4] (360a) – Hoje, nela nos encontramos sem nenhuma dificuldade, sem cuidado
e sem tarefas.
[5] (360a) – Nela então, só éramos admitidos depois de um exame muito exato.
[6] (360a) – Agora, somos admitidos antes que estejamos em estado de ser
examinados.
[7] (360a) – Não éramos recebidos senão depois de ter abjurado a vida passada,
de ter renunciado o mundo, a carne e ao diabo.
[8] (360a) – Agora, entramos antes que estejamos em condição de realizar
alguma destas coisas.
[9] (360a) – Enfim, outrora era preciso sair do mundo para ser recebido na
Igreja, ao passo que hoje entramos na Igreja ao mesmo tempo que entramos no mundo.
[10] (360a) – Assim, conhecíamos por este procedimento uma distinção
33
PASCAL, Blaise. Comparacion des chrétiens des premiers temps avec ceux d’aujourd’hui, p.
361a, parágrafo [27].
34
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 10ª ed. Petrópolis: Vozes, 1999, 29, 2123-2128.
35
Numeração do manuscrito Périer.
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essencial do mundo com a Igreja.
[11] (360a) – 4. Considerávamos o mundo e a Igreja como dois contrários, como
dois inimigos irreconciliáveis o qual um persegue o outro sem interrupção, e cujo mais
fraco em aparência deve um dia triunfar frente ao mais forte, de maneira que dentre
estes dois partidos contrários, abandonávamos um para entrarmos no outro.
Abandonávamos as máximas de um para abraçar as máximas do outro, nos
despojávamos dos sentimentos de um para nos revestirmos dos sentimentos do outro.
[12] (360b) – 2. Enfim, abandonávamos, renunciávamos, abjurávamos o mundo,
de onde tínhamos recebido nosso primeiro nascimento, para nos consagrarmos
inteiramente à Igreja, de onde recebíamos nosso segundo nascimento, e assim,
concebíamos uma diferença espantosa entre um e outro.
[13] (360b) – 3. Ao passo que hoje nos encontramos, quase ao mesmo tempo,
dentro de um e de outro, e ao mesmo tempo em que nascemos para mundo, renascemos
na Igreja, de forma que ocorre à razão não fazer mais uma distinção daqueles dois
estados e daqueles nascimentos tão contrários. A razão edifica-se e forma-se dentro de
um e de outro conjuntamente. Comungamos e gozamos dos prazeres do mundo, etc.
[14] (360b) – Assim, em vez de vermos, como em outras épocas, uma distinção
essencial entre o mundo e a Igreja, os vemos agora misturados e confundidos, de forma
que praticamente não os discernimos mais.
[15] (360b) – 7. No tempo da Igreja nascente ensinávamos os catecúmenos – isto
é, aqueles que pretendiam ser batizados – antes de atribuir-lhes o batismo, e não os
admitia na Igreja senão depois de uma instrução completa dos mistérios da religião,
depois de uma penitência de sua vida passada, depois de um grande conhecimento da
grandeza e da excelência da profissão de fé e das máximas cristãs onde eles desejariam
entrar para sempre, depois de marcas eminentes de uma conversão verdadeira do
coração e depois de um extremo desejo do batismo.
[16] (360b) – Sendo estas coisas do conhecimento de toda Igreja, lhes
outorgávamos o sacramento de incorporação e de regeneração pelos quais eles se
tornavam membros da Igreja;
[17] (360b) – ao passo que nesta época, o sacramento do batismo tendo sido
outorgado às crianças antes do uso da razão, por considerações muito importantes,
aconteceu que a negligência dos pais deixou os cristãos envelhecerem sem nenhum
conhecimento da grandeza de nossa religião.
[18] (360b-361a) – 8. Quando a instrução precedia o batismo, todos eram
instruídos. Agora porém, que o batismo precede a instrução, o ensinamento que era
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necessário tornou-se voluntário, em seguida, negligenciado, e enfim, quase abolido.
[19] (361a) – A verdadeira razão desta conduta é que estamos persuadidos da
necessidade do batismo, mas não estamos da necessidade da instrução. De maneira que,
quando a instrução precedia o batismo, a necessidade de um fazia com que
recorrêssemos ao outro necessariamente;
[20] (361a) – ao passo que hoje, o batismo precedendo a instrução, já que nos
tornamos cristãos sem termos sido instruídos, acreditamos poder continuar cristãos sem
sermos instruídos...
[21] (361a) – 5. Disto podemos concluir que, antigamente, não víamos entre os
cristãos senão pessoas muito instruídas;
[22] (361a) – ao passo que, agora, elas estão em uma ignorância que causa
horror.
[23] (361a) – 9. Se os primeiros cristãos testemunhavam tanto reconhecimento
para com a Igreja através de uma graça que ela não concedia a eles senão por longas
preces, hoje os cristãos testemunham tanta ingratidão por esta mesma graça que esta boa
mãe lhes concede antes mesmo que estejam em estado de pedi-la a ela.
[24] (361a) – E, se a Igreja detestava fortemente as recaídas dos primeiros
cristãos, embora tão raras, o quanto deveria abominar as quedas e recaídas contínuas
dos últimos, embora sejam muito mais devedores, já que ela os tirou muito mais cedo36
e mais generosamente da condenação onde estavam ligados por seu primeiro
nascimento.
[25] (361a) – 10. Ela não pode ver, sem sofrer, o abuso da maior de suas graças,
já que aquilo que a Igreja fez para garantir a salvação destes homens torna-se uma
ocasião quase certa da perda deles; porque ela não mudou o espírito, embora tenha
mudado de costume.
[26] (361a) – 11. Entretanto, usamos do costume de maneira tão contrária à
intenção da Igreja que não podemos nem pensar nisto sem horror. Quase não refletimos
mais sobre um tão grandioso benefício, porque jamais o desejamos nem o solicitamos,
já que nunca temos nem mesmo a lembrança de tê-lo recebido. (Não lembramos que
somos obrigados por voto...).37
[27] (361a) – 12. Disto podemos concluir que nos primeiros tempos aqueles que
36
A Igreja retirou os cristãos atuais da condenação muito mais cedo, pois os homens são
batizados nos primeiros dias de nascimento. (N.T).
37
O texto entre parênteses foi rasurado no manuscrito Périer. (N.T).
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foram regenerados pelo batismo e que tinham abandonado os vícios do mundo para
entrar na piedade da Igreja recaíam muito raramente da Igreja para o mundo, ao passo
que agora não vemos nada de mais comum do que os vícios do mundo dentro do
coração dos cristãos.
[28] (361ab) – Portanto, agora a Igreja dos santos encontra-se totalmente suja
pela mistura com os maus, e seus filhos, que ela conheceu, carregou e nutriu, desde a
infância, no seu ventre, são estes mesmos que levam dentro do coração, até participando
em seus augustos mistérios, o mais cruel dos inimigos, ou seja, o espírito do mundo, o
espírito de ambição, o espírito de vingança, o espírito de impureza, o espírito de
concupiscência; e o amor, que ela tem por seus próprio filhos, a obriga a admitir até
dentro de suas entranhas o mais cruel de seus perseguidores...
[29] (361b) – 13. Mas não é à Igreja que devemos imputar estas desgraças que
acompanharam uma mudança de disciplina tão salutar38, já que ela não mudou de
espírito, embora tenha mudado de conduta. Portanto, tendo visto que a dilação do
batismo deixava um grande número de crianças dentro das maldições de Adão, a Igreja
quis livrá-las desta massa de perdição, acelerando os socorros que concedia a elas. Esta
boa mãe não vê senão com um extremo desgosto que aquilo que ela arranjou para a
salvação de seus filhos torna-se ocasião de perda aos adultos.
[30] (361b) – Seu verdadeiro espírito é que aqueles que a Igreja retira em uma
idade tão tenra do contágio do mundo apropriam-se de sentimentos plenamente opostos
àqueles do mundo. Assim, ela antecipa o uso da razão para antecipar os vícios onde a
razão corrompida os aprisionaria e, antes que seu espírito possa agir, ela preenche seu
espírito, a fim de que eles vivam em uma grande ignorância do mundo e em um estado
tão distante do vício que jamais o teriam conhecido.
[31] (361b) – 14. Isto aparece pelas cerimônias do batismo, pois a Igreja não
outorga o batismo às crianças senão depois que elas declaram, pela boca dos padrinhos,
que o desejam, que acreditam, que renunciam ao mundo e a Satã. E como ela quer que
as crianças conservem estas disposições na continuação de toda vida, a Igreja lhes
ordena expressamente de guardá-las inviolavelmente, e ordena aos padrinhos, por um
mandamento indispensável, de instruir as crianças de todas estas coisas. Porque ela não
deseja que aqueles que ela nutriu em seu seio desde a infância sejam hoje menos
instruídos e menos devotos que os adultos que ela admitiu outrora ao número dos seus.
38
O batismo entre os primeiros cristãos era realizado nos adultos, mas no século XVII as
crianças são batizadas ao saírem do ventre das mães. Eis a mudança de disciplina. (N.T).
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A Igreja não deseja uma perfeição menor naqueles que ela recebe.
[32] (361b) – 15. Porém, como é evidente que a Igreja não solicita menos
devoção para com aqueles que foram familiarmente elevados na fé quanto àqueles que
aspiram-na no futuro, é preciso colocar diante do olhos o exemplo dos catecúmenos,
considerar seu ardor, sua devoção, seu horror pelo pecado, sua generosa renúncia ao
mundo: se não os julgavam dignos de receber o batismo, sem estas disposições, aqueles
que não se encontravam nestas disposições os catecúmenos...39
[33] (361b-362a) – 6. Portanto, é necessário que os cristãos de hoje submetam-se
a receber a instrução que eles teriam tido, se começassem a entrar em comunhão com a
Igreja. [E é necessário ainda que eles se submetam a uma penitência tal que não tenham
mais desejo da rejeitá-la e que tenham ainda menos aversão pela austeridade de suas
mortificações de modo que não encontrem encanto no uso das delícias viciosas do
pecado.]40
[34] (362a) – Para dispô-los a se instruir é preciso fazê-los entender a diferença
dos costumes que foram praticados na diversidade dos tempos.
[35] (361b-362a) – É necessário que se coloque diante dos olhos o exemplo dos
catecúmenos e que considerem seu ardor, sua devoção, seu horror pelo mundo e sua
generosa renúncia a todas suas pompas. Porque se os catecúmenos não se julgavam
dignos de receber o batismo sem estas disposições, será justo que aqueles que não se
encontram nelas depois de tê-lo recebido façam todo esforço para formarem tão
generosos sentimentos, se submetam a uma penitência salutar no resto de seus dias e
que tenham tão pouca aversão por uma vida totalmente crucificada que não encontrarão
encanto no uso das delícias envenenadas do pecado.
REFERÊNCIAS
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. 10ª ed. Petrópolis: Vozes.
PASCAL, Blaise. Comparaison des chrétiens des premiers temps avec ceux
d‟aujourd‟hui. In: ___. Ouvres complètes. Edição de Louis Lafuma. Paris: Seuil, 1963,
p. 360 – 362.
39
Primeiro rascunho de um parágrafo que poderia será retomado posteriormente no parágrafo
[35]. (N.T).
40
Esta passagem entre colchetes se apresenta enquadrada no manuscrito Périer. Sem dúvida,
trata-se de uma primeira redação do texto que reencontraremos adiante. (N.E).
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