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Apresentação
Como o Banestado, há 70 anos, instalava-se no Paraná a família
Almeida, trazida pelos patriarcas José Manoel Almeida e Aurora da Piedade
Poças, vindos da lusitana pátria de Camões.
Esses imigrantes do além-mar instalaram-se nas regiões de
Sertanópolis e Londrina, encontrando nesta terra receptividade e acolhida.
Iniciou-se, então, uma eterna relação com este lugar.
Com empenho e determinação, a família Almeida e o Banestado
desempenharam suas respectivas missões, assumindo papéis de relevante
importância para o povo e para o Estado e cravando com letras de ouro suas
participações na história do Paraná.
Os imigrantes portugueses, como a família Almeida, representam muito
bem uma etnia que, além de povoar este Estado, foi responsável pelo
desenvolvimento de uma região do nosso País, caminhando junto com o
Banestado em sua trajetória marcada por sucessos.
1
Mário Braz de Almeida
1
Família Almeida
(1750-2000)
2
O Cerne
2ª edição
2009
3
COLABORADORES
Américo Augusto Almeida (Informações)
Aurora da Piedade Poças (Informações)
Maria Amélia Almeida (Pesquisa)
Maria de Fátima Salomão (Pesquisa)
Maria Sueli C. de Almeida (Pesquisa)
Renato A. Almeida (Pesquisa)
Maria José de Almeida (Revisão de texto)
E todos aqueles que, algum dia, contaram um caso.
AGRADECIMENTOS
À Ermelinda
Funcionária da Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Bragança,
Portugal – preá presteza, amabilidade e paciência com que nos acolheu.
À Organização Banestado,
Que tornou possível a publicação deste livro
À Interata, pela capa.
5
Índice
1
2
Família Almeida
I. Origens
II. História
III. No Cerne
pág. 17
pág. 19
pág. 41
O Cerne
I. O rio
II. Caixa de Retratos
III. Apêndices
pág. 85
pág. 87
pág. 161
7
Mário Braz de Almeida
1
Família Almeida
(1750-2000)
9
“Ora isto, Senhores,
Deu-se em Trás-os-Montes,
Em terras de Agrochão e Lamalonga,
Com torres e pontes.”
(António Nobre, poeta português)
“Há momentos em que sentimos
o tempo refluir.
Caminhamos
através de pais, de avós,
de antepassados longínquos,
nascendo e morrendo
centenas de vezes
num só momento.”
(Paulo Bonfim, poeta brasileiro)
11
13
História do Sobrenome
O sobrenome português Almeida é de origem habitacional. Nomes
habitacionais nos dizem de onde veio o progenitor de uma família – seja uma
cidade, vila ou um lugar identificado por uma característica topográfica.
Neste caso, o sobrenome é derivado de um lugar chamado Almeida,
cidade localizada no distrito de Guarda, próxima à fronteira com a Espanha.
O nome Almeida vem do árabe e significa mesa, por se encontrar a cidade em
terreno plano e alto.
Sendo Almeida uma praça-forte, por lá passaram milhares de
cidadãos em serviço militar, posteriormente adotando este sobrenome.
O brasão de Almeida exprime a sua característica como cidade militar, baluarte na defesa das terras de Portugal.
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Aos nossos predecessores
em Agrochão, Lamalonga e Cernadela
Francisco Manoel de Almeida
Joanna Antonia Rodrigues
(1800-1870)
(1800-1868)
Francisco Affonso Pereira
Anna Maria Pereira
(1801-1870)
(1805-1871)
João Baptista d‟Almeida
Maria Thereza Pereira
(1839-1909)
(1836-1899)
Francisco Manoel Poças
Mariana Joaquina Affonso
(1832-1864)
(1834-1925)
Domingos Teixeira
Maria Benedita Teixeira
(1831-1901)
(1831-1901)
José Bernardino Poças
Thereza de Jesus Teixeira
(1862-1944)
(1859-1896)
Cujos traços fisionômicos
com certeza
estarão impressos
em nossos rostos.
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I
Origens
Onde?
Trás-os-Montes é a província portuguesa situada mais ao norte do país.
Olhando no mapa, verificamos que fica limitada em uma face pelo rio Douro,
em outras duas pela Espanha e na outra pela Província do Minho. Trata-se de
uma região montanhosa e de estações bem definidas, de longos e gelados
invernos. A proximidade com a Espanha, mais precisamente com a Galícia,
lhe confere características especiais e, entre elas, a maneira de falar, muito
semelhante à dos galegos.
Pois bem, é nesse pedaço de Portugal, no Conselho de Vinhais, a uns
trinta quilômetros de Bragança, a capital da província, que se situa a pequena
e bucólica aldeia de Agrochão, berço dos Almeidas e ponto de partida da
nossa história.
Fica essa povoação ao lado da primitiva estrada que liga Bragança a
Mirandela, hoje uma via secundária denominada N 206. A sucessão de aldeias
centenárias, talvez até milenares, surgidas na época dos romanos, dos
visigodos e dos mouros, nos recorda nomes freqüentemente citados pelos
pioneiros portugueses do Cerne: Zoio, Melhe, Edrosa, Ervedosa, Agrochão,
Vilarinho, Penhas Juntas, Argana, Lamalonga, Torre de Dona Chama,
Nogueira e outros. Os acidentes geográficos mais importantes da região são a
serra da Nogueira, o Rio Tuela e o rio de Guide.
Quando?
Conseguimos regredir no tempo até os anos 1750, ou antes, conforme o
ramo da família seguido.
Para compreender o significado desse marco no tempo, é bom lembrar
17
que a Independência do Brasil aconteceria 72 anos depois. Só se inventaria a
luz elétrica, o telefone e o automóvel uns 140 anos depois.
Mas o fato mais importante por nós esclarecido dá conta de que os
Almeidas já existiam em Agrochão, que a Igreja Matriz de São Mamede era a
mesma de hoje e que em sua pia batismal se batizaram gerações sucessivas da
família.
A sucessão de aldeias ao longo do caminho entre Mirandela e Bragança
também já existia em 1750 e, provavelmente, muito antes, conforme já
dissemos.
Quem?
A figura mais distante da família e da qual se têm informações documentais é a do bisavô paterno dos Almeidas do Cerne, Francisco Manoel de
Almeida, nascido em Agrochão entre 1795 e 1800.
Francisco era filho de José de Almeida e de Francisca Rodrigues. Este
casal teve como filhos Rosa Maria, Joanna Maria, João Baptista, Raymundo e
Francisco Manoel 0 e tudo indica ser este o caçula.
Levantou-se a hipótese de que o nome de família tivesse surgido a partir
de Francisco Manoel, que serviu 17 anos na cidade-forte de Almeida e que, ao
voltar a Agrochão, já aposentado, passou a ser chamado pelos moradores
locais de Capitão Almeida. Mas essa hipótese não tem consistência, pois seu
pai já possuía este sobrenome e já nascera em Agrochão.
18
II
História
F
rancisco Manoel de Almeida nasceu em Agrochão e ali viveu sua
infância e adolescência, provavelmente voltado às atividades agrícolas e pastoris da região.
Ao chegar à idade do serviço militar – que na época durava três longos
anos – foi incorporado em Bragança. Terminado esse período, tendo então uns
22 anos, engajou-se no Exército, adotando a carreira militar como meio de
vida. Entenda-se que a vida de um militar na época não era tão sossegada
quanto se possa supor. Era de norma a transferência para outras praças e até
para as colônias da África.
Francisco casou-se com Joanna Antonia Rodrigues. Não temos a data
das bodas, mas pode ter sido em um casamento meio tardio, hábito freqüente
na família e que vem varando séculos. Temos a possibilidade de admitir tal
casamento aí por 1825.
Casado – e já com filhos – viu-se transferido para a cidadela de
Almeida. Ali ficou em serviço por 17 anos, chegando à patente de Capitão.
Ao aposentar-se, era pai de sete filhos, três homens e quatro mulheres.
Resolveu então viver o resto da vida em Agrochão, onde mandou construir
uma casa nova, toda de cantaria lavrada – a melhor da povoação. Ali passou a
ser chamado de Capitão Almeida. Uma espécie de celebridade local.
Eram filhos do capitão Almeida: o mais velho da turma, José Manoel –
que ao tempo do retorno a Agrochão concluía os estudos no Seminário de
Bragança; João Baptista – avô dos Almeidas do Cerne; Francisco de Assis,
que morreu moço e solteiro; Joanna Maria de Almeida, que se casaria com
Manoel Magro; Izabel Maria de Almeida, que veio a casar-se com Bernardo
Martins; Maria Rosa de Almeida, que se casou com Antonio Magro; e Anna
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Maria de Almeida, casada com José Fernandes Dias.
Poucas referências temos sobre Joanna Antonia, a esposa do capitão
Almeida. Mas – embora poucas – essas referências são documentais e uma
delas é a que se refere a sua terra de origem, Cernadela, onde viveram os
Rodrigues, os Carneiros, os Martins e os Carvalhos, que constituíram a base
do seu grupo familiar.
Tal localidade é uma pequena vila – um verdadeiro fim de linha –
próximo a Macedo de Cavaleiros, quase que anexa à vila de Cortiços, algo
maior e mais progressista. Cernadela é uma aldeia em agonia. A maior parte
das centenárias casas de pedra está em ruínas. A própria igreja segue o mesmo
destino. (Seus livros de registros – nascimentos, óbitos e casamentos –
anteriores a 1900 conservam-se na biblioteca e Arquivo Público de Bragança.)
Contudo, seus arredores conservam o viço original: riachos com pontes
romanas, ermidas e campos povoados de árvores frutíferas.
Em 1870, deu-se o casamento de João Baptista Almeida com Maria
Thereza Pereira, ambos de Agrochão. Desta união nasceram os seguintes
filhos: Antonia Almeida, Izabel Maria Almeida, Manoel Antonio Almeida e o
caçula, José Manoel Almeida, que ao casar-se com Aurora da Piedade Poças,
viria a constituir numerosa família...
Desde pequeno, José Manoel começara a estudar, cumprindo o desejo
de sua mãe: queria que ele fosse padre. Porém, Maria Thereza morreu quando
ele tinha apenas dezessete anos. O pai, desanimado e triste, fê-lo parar os
estudos. Frustrava-se assim uma carreira religiosa, mas propiciava-se a
formação de uma grande família: a nossa. José Manoel tinha dons musicais e
desde cedo aprendera a lidar com instrumentos de corda, tornando-se com o
correr do tempo um dos melhores instrumentistas (guitarra e violão) de sua
terra. Também tinha claras tendências intelectuais.
O tio Manoel Antonio de Almeida casou-se com Maria do Espírito
Santo Cabaças e com sua também numerosa família fez praticamente o
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mesmo caminho que a nossa – desde Portugal até o Cerne. Izabel Maria
casou-se com Manoel Barbeiro e teve como filho o Francisco, cujos descendentes, Eduardo, Eulália e Arnaldo, todos vivendo em Portugal, são os únicos
parentes que temos lá. Antonia morreu solteira, ainda que duas vezes mãe.
Consta que seu companheiro, um tal de Carriças, era odiado pela família por
sua vida irregular e devotada ao jogo. Logo após a morte do segundo filho, ao
nascer, também vivia a morrer, em Agrochão mesmo.
Vale a pena retornar no tempo e conhecer melhor dois personagens do
passado: o Padre José Manoel e o nosso avô paterno, João Baptista.
O primeiro filho do Capitão Almeida foi o único intelectual da incipiente família.
Ao construir sua mansão em cantaria lavrada, o Capitão pensava em seu filho, José
Manoel, que ainda fazia estudos no Seminário de Bragança. Ali, naquela fortaleza, era que
ele viria a morar quando – nos seus sonhos – fosse vigário da povoação. Mas tal não
aconteceu. O Padre José Manoel nunca foi pároco, nem ali nem em qualquer outra
povoação. Uma vez formado, foi indicado para exercer as funções de capelão nas extensas
propriedades dos Bacelares, sediando-se em rio de Moinhos, localidade próxima ao Porto.
Os Bacelares, descendentes do Visconde do mesmo nome, tinham inúmeras propriedades
(quintas) entre Rio de Moinhos e Mirandela. Nas suas longas e lentas viagens entre um e
outro extremo, sempre pernoitavam em suas quintas ao longo do caminho. A distância
entre essas quintas parecia medir-se pela jornada de um dia.
Em Rio de Moinhos, José Manoel exerceu obscuramente o seu mister de capelão.
Mas em dada época começou a apresentar sinais de deterioração mental, talvez uma forma
prosaica de esquizofrenia, pois procurava afastar-se do convívio de todos e a viver só com
seus livros, em longos períodos de solidão. A solução mais prática, adotada pelos
Bacelares, foi a de enviá-lo para uma casa de alienados no Porto. E ali teria morrido no
esquecimento se os familiares não fossem buscá-lo. Assim sendo, a casa preparada para a
sua vivência paroquial foi o repouso do seu silencioso período de demência, até morrer.
Não compartilhava da vida da família, sempre recluído no quarto a ele destinado.
As refeições eram servidas na sala – só para ele. Em horas certas, vinha alimentar-se e
logo depois sumia como um fantasma. Vez por outra o pequeno José sofria as
reprimendas das tias: “Fica quieto, José, não faças barulho que assim incomodas o rio
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Padre!” Mas raramente o via.
E silenciosamente o Padre José Manoel morreu. Ao mortório e ao enterro
compareceram os padres de todas as aldeias ao redor. A pompa do grandioso funeral foi o
contraste compensador – embora tardio – da sua vida obscura.
O avô João Baptista Almeida nasceu em Agrochão, no dia 4 de outubro de 1839, e
casou-se com Maria Thereza Affonso Pereira em 10 de fevereiro de 1870, na Igreja de
Agrochão, tendo ele 31 anos e ela 34. Tiveram quatro filhos. Maria Thereza morreu em
1899 e o avô, entre os nascimentos do Américo e da Maria José em 1909, quando ele
beirava os setenta anos.
Segundo o relato de Aurora, que bem o conheceu, era uma pessoa de traços finos,
maçãs do rosto coradas, calvo e parecido com o Fernando, conhecido de todos nós. Viveu
os últimos anos com as filhas no casario de propriedade da família, contíguo ao então
habitado por José e Aurora e a sua família. Gostava de ler e lia muito, principalmente
quando retido no leito pela doença que o levaria.
Na véspera de sua morte, estando visivelmente mal de saúde, Aurora foi visitá-lo,
levando consigo o Daniel. Foi então, com voz sumida, que ele lhe dirigiu a palavra pela
última vez.
“Aurora, por não trouxeste também o Ameriquinho? Queria tanto vê-lo... olha que
eu vou morrer amanhã, não passo do sábado... sempre pertenci a Irmandade de Nossa
Senhora do Carmo e sempre cumpri com minhas devoções com ela. Por isso sei que
morrerei no seu dia... no sábado. “Parou um pouco para tomar fôlego e continuou, arfante:
“Esta pneumonia leva-me, escapei às outras, mas a esta não...”
Aurora não o tomou muito a sério, tanto assim que não levou lá o Ameriquinho.
Afinal, ruim ele já andava havia muito tempo. Naquela data, o José Manoel foi lá passar a
noite em vigília, junto ao leito do pai. Pela manhã – muito cedo – veio avisar que ele havia
morrido, tranqüila e santamente – como sempre vivera.
Retomando o fio da meda, foi no início deste século que José Manoel,
em suas idas a Lamanlonga, ficou conhecendo a filha de José Bernardino
Poças. O fato é que se encontraram e à sua maneira se amaram. Não passaria
despercebido de José Bernardino o interesse do rapaz por sua filha Aurora. No
íntimo, talvez até reprovasse a idéia de ver a filha casar, mas não tinha razões
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para impedir tal namoro. José Manoel era bom moço, ajuizado e de boa
família. E a Aurora... Bem ela teria de se casar algum dia.
A 10 de maio de l903 – num domingo – deu-se o casamento de José
Manoel Almeida com Aurora da Piedade Poças. As bodas aconteceram na
Igreja Paroquial de Lamalonga, onde morava Aurora, distante cinco
quilômetros de Agrochão. As duas famílias presentes, dia ensolarado de
primavera, início de uma vida em comum que hoje podemos definir como
pródiga em alternativas e acontecimentos – bons e ruins. Era um casal
bastante jovem, conforme veremos no assento de casamento que
reproduziremos a seguir.
“Assento de casamento n. 3 – José Manoel d‟Almeida e Aurora da Piedade Poças.
Aos dez dias do mês de maio do ano de mil, novecentos e três, nesta Igreja
Paroquial de Nossa Senhora dos Reis, de Lamalonga, Conselho de Macedo, distrito e
diocese de Bragança, na minha presença compareceram os nubentes José Manoel
d‟Almeida e Aurora da Piedade Poças, que sei serem os próprios, com todos os papéis de
estilo correntes e sem impedimento algum, canônico ou cível, para o casamento. Ele,
solteiro, de idade vinte e um anos, batizado e residente na freguesia de Agrochão, filho
legítimo de João Baptista d‟Almeida e de Maria Thereza Pereira, paroquianos de
Agrochão. Ela, solteira, de idade dezessete anos, batizada neste freguesia de Lamalonga,
filha legítima de José Bernardino Poças e de Thereza de Jesus, paroquianos de
Lamalonga, e não havendo entre eles impedimento algum, se receberam por marido e
mulher e os uni em matrimônio, procedendo em todo este ato conforme o rito da Santa
Madre Igreja Católica, Apostólica Romana. O pai da nubente deu o consentimento verbal
no ato do casamento. Foram testemunhas, que sei serem os próprios, Joaquim José de
Moraes, solteiro, negociante, natural de morador desta freguesia, e Cândida Augusta
Moraes, casada, proprietária e residentes da freguesia de Guide. Para constar, lavrei em
duplicado este assento, que foi lido e conferido perante os cônjuges e testemunhas, e
somente a primeira testemunha sabendo assinar, assinou comigo. Era ut supra”
A testemunha – Joaquim José Moraes
O Abade – Domingos A. Lopes da Silva
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E os filhos não tardaram a aparecer. Ainda no finzinho de 1903 nasceria
prematuramente o primeiro filho, que morreria com apenas oito dias de vida,
sofrendo de intensa dificuldade respiratória. Foi o primeiro drama da nova e
inexperiente família: o casal começava a amadurecer no sofrimento. Mas em 9
de maio de 1904 nascia outro menino, este cheio de saúde. Era o Daniel
Amadeu Almeida. A 18 de maio de 1907, era a vez do nascimento de Américo
Augusto Almeida. E em 20 de abril de 1909 nascia a primeira menina, a Maria
José (Maricas).
Nesse mesmo ano, José Manoel, o pai, vítima de tifo, pairou entre a vida
e a morte durante algumas semanas. As promessas feitas por Aurora não
foram poucas... E ele chegou a ser vigiado, dia e noite, no temor da morte que
o rondava. Mais uma provação na vida do jovem casal.
A situação política de Portugal era, a essa época, bastante delicada. O
Partido Republicano, cada vez mais forte, tentava o golpe definitivo sobre a
Monarquia. Esta, na verdade, não andava muito bem das pernas. Havia
facções e as idéias dividiam-se – mesmo nas aldeias – gerando discussões,
desentendimento e inimizades.
José Manoel era funcionário do governo, trabalhava na conservação da
estrada que ligava Bragança a Mirandela – passando por Agrochão e Lamalonga, sem falar de outras aldeias. Ganhava naquele tempo 12 vinténs por dia,
o que era, sem dúvida, em bom salário, Talvez o fato de ser ele funcionário
público, talvez o mito de ter tido como avô um homem importante no Exército
do Império, faziam de José Manoel um monarquista fanático.
No dia 1 de fevereiro de 1908, revolucionários republicanos assassinaram o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro, D. Luiz Felipe. Foi coroado seu
irmão. D. Manoel II, mas isso não trouxe estabilidade política ao país. Tanto
foi assim que, dois anos depois, o rei e sua mãe, a rainha D. Amélia, eram
obrigados a deixar o reino, refugiando-se na Inglaterra.
Assim, a República entrava em 5 de outubro de 1910.
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Numa tarde desse mesmo outubro, José Manoel e alguns companheiros
de serviço trabalhavam no conserto de um bueiro à margem da estrada quando
foram surpreendidos por um reluzente automóvel, que transportava o novo
Governador para a Província de Trás-os-Montes. A comitiva acercou-se dos
trabalhadores, saudando-os com um “Viva a República!”. E eles tiveram de
responder “Viva!”. Depois – de maneira incisiva – pediram que os trabalhadores lhe dessem seus chapéus, nos quais havia o escudo real. Com uma lima,
cortaram a coroa, símbolo da Monarquia, e despediram-se com outro “Viva a
República!”. Realmente, esta triunfava em Portugal. Os reis já estavam em
Londres.
Retornando um pouco no tempo, em janeiro de 1905, o avô materno,
José Bernardino Poças, partia rumo ao Brasil. Junto com ele iam sua segunda
esposa – Maria dos Inocentes Santarem – e sua filha solteira, Maria da Ressurreição Poças (tia Mariquinha). No Brasil, José Bernardino estabeleceu-se em
Santa Luzia de Carangola, Minas Gerais, onde passou a trabalhar na lavoura
de café. Eles, que só conheciam o Daniel Amadeu, ao retornarem, em novembro de 1909, tomaram conhecimento dos outros dois filhos da Aurora:
Américo, com dois anos e meio, e Maria José.
O avô Poças levou o Américo para morar com ele, em Lamalonga, ali
ficando até 1912, quando resolveu retornar ao Brasil com a família. Era um
temperamento irriquieto. Dessa vez, o destino era a cidade de São Paulo.
Nesta estabeleceu-se com uma pensão, mas, ao mesmo tempo, trabalhava na
Light como motorneiro.
Nesses desencontros do tempo, falecera o avô João Baptista e a sua filha
Antonia. Ignoramos as datas. Em 30 de maio de 1911, nascia o Fernando, o
último filho português da família.
A efervescência política em Portugal era grande. Os monarquistas
queriam que o rei voltasse. Os republicanos nem pensavam nisso e só
tratavam de consolidar o novo regime. José Manoel, acompanhando na
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clandestinidade o ativismo de alguns intelectuais locais, era monarquista ativo.
Dada a pequenez daquelas aldeias, isso não seria segredo para ninguém.
Foi a 5 de outubro, um ano após a instalação da República, que eclodiu
o movimento comandado pelo Capitão Paiva Couceiro, principal chefe
monarquista do Norte de Portugal. Mobilizou ele um grande número de
homens armados além da fronteira – em território espanhol – e invadiu
Portugal, rumando com seus comandados para a cidade de Chaves. Esta, uma
das mais importantes da Província de Trás-os-Montes, era sede de dois
regimentos de infantaria, muito bem guarnecida, como se percebe. Ali no vale
do Tâmega, ao pé de Chaves, travou-se a dura batalha entre republicanos e
monarquistas. Estes, em menor número, foram derrotados, como era de se
esperar. Assim, muitos morreram, outros fugiram para a Espanha e outros
foram aprisionados.
Pois bem, na penumbra desse movimento estavam envolvidos o vigário
de Agrochão, o professor Francisco Vaz e, entre tantos outros, também José
Manoel. O padre e o professor fugiram para a Espanha e lá ficaram por tempo
indefinido. José Manoel só não foi preso porque um tio da Aurora, importante
chefe republicano, inocentou-o.
No íntimo, contudo, ele começava a amargurar-se e a sentir que em sua
pátria a vida tornava-se difícil. Permanecer ali impunemente, em termos de
futuro, seria quase impossível. Seus ideais de moço, sua fidelidade, à
Monarquia e seus sonhos pessoais haviam sido aniquilados pelas vitórias dos
republicanos... Acima de tudo, estava desiludido e, em silêncio, começou a
planejar a mudança (ou quem sabe, a fuga) para o Brasil. Mas voltaria um dia,
sabe Deus quando e como. Era este um propósito arraigado em sua cabeça.
Sair dali, sim. Mas voltar, com certeza!
Enquanto isso, o avô Poças voltava para o Brasil (em 1912). Esta nova
separação dos familiares deixava Aurora muito desanimada.
Em um dia qualquer de outubro de 1912, foi ela a Lamalonga em visita
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a parentes. E nesse passeio encontrou o tio republicano que, chamando-a à
parte, advertiu-a a respeito do marido José Manoel: ele precisava cuidar-se e
deixar de lado tendências e militâncias monarquistas, pois do contrário
poderiam prendê-lo a qualquer momento e até deportá-lo para a África. E,
raios, isso só não acontecerá até então por ter Aurora em alta estima, pois no
episódio do Capitão Paiva Couceiro, era dada como certa a prisão do seu
marido por atividade subversiva.
Aurora ficou aterrada, sentindo a terra fugir-lhe dos pés ante tais
perspectivas. Chegando em casa, em lágrimas, contou tudo ao José. O
desespero era total. Era a gota d‟água que faltava. No dia seguinte, José
Manoel começou a providenciar a retirada de Portugal, como imigrante. Nessa
resolução talvez pesassem menos as ameaças do que as desilusões. Mas
haveria de voltar...
Pois sim. No Brasil viveu intensas saudades da pátria amada, mas só
voltou a ela em 1934, a fim de vender o que lá possuía. Sua família já era
brasileira na maior parte e, em sua nova terra, amealhara bens como que
jamais sonhara.
No ano de 1912, faleceria a irmã Izabel Maria, deixando um filho, o
Francisco Antonio, o qual – a todo custo – queria ir com ele e Aurora para o
Brasil. Mas acabou ficando com o avô. Tio Manoel Antonio já viera em 1911.
A partida (ou a fuga, como queiram) foi em 13 de dezembro de 1912. A
casa estava cheia de gente, entre parentes e vizinhos, e todos choravam nas
despedidas. Deixaram a casa que tanto amavam às 11 horas da noite, num
carro de bois, e lentamente cobriram as sete léguas até Mirandela. Ao
passarem por Lamalonga, uma rápida parada, pois os parentes de lá os
esperavam para se despedirem. A bisavó materna. Mariana Affonso, ao beijar
todos com ternura, olhos marejados de lágrimas, dizia e repetia como
autômata que nunca mais os veria. E não viu mesmo. Faleceu em fevereiro de
1925, com mais de noventa anos.
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E, na madrugada fria de dezembro, lá se vão José, Aurora e os filhos,
rumo ao infinito das incertezas, mas com um destino certo, primeiro, Mirandela, depois, de trem, cujo horário nem sabiam, rumo ao Porto, a cidade
grande...
Em Mirandela, pela primeira vez as crianças viam um trem de ferro. Foi
ali que a família embarcou nele a fim de vencer as trinta léguas até a estação
do Porto – capital da Província do Douro – já naquele tempo uma cidade grande e bonita. Ali permaneceram por quatro longos dias até serem conduzidos ao
porto de Leixões, onde tomariam o barco alemão “Santa Cruz”. Nele tomariam o rumo do Brasil.
Foi um embarque difícil. Como não houvesse cais, o navio permaneceu
ao largo. Passageiros e cargas foram levados até ele em lanchas, subindo por
estreitas escadas.
Uma vez embarcados, Aurora e José sentiam um misto de alegria,
tristeza e alívio. Enfim, fosse lá o que Deus quisesse: eram novos, a vida ainda
estava pela frente e era preciso vivê-la dignamente.
Ao recolherem os últimos passageiros, já era noite. E – sem mais
demoras, silenciosamente – o navio começou a afastar-se da costa, rumo ao
sul. Ao amanhecer do dia seguinte, entravam na barra do Tejo, logo atingindo
o cais de Lisboa. Ali o navio também não demorou muito, partindo em direção
à Ilha da Madeira, à qual chegou em dois dias. Nela, os passageiros festejaram
o Natal. Todos estranhavam a tepidez do clima, quase quente, enquanto em
Portugal era pleno inverno. Havia fartura de frutas, principalmente, de laranjas
e abacaxis. Embora fosse uma ilha portuguesa, os mares já eram africanos.
Seguiu o navio determinadamente sua viajem, sulcando os mares da costa
africana, agora rumo às ilhas de São Vicente e Cabo Verde, que foram
atingidas após quatro dias. Nova parada – agora de quase um dia – para
abastecimento de carvão de pedra e para revista médica. Também pela
primeira vez as crianças viram pessoas de cor negra. O próprio médico que
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fazia a revista era negro. Os passageiros divertiam-se atirando ao mar moedas
que os meninos e homens locais iam buscar em longos mergulhos, trazendo-os
na boca. Vinham também em barcas carregadas de frutas, que procuravam
vender aos passageiros.
Da ilha de São Vicente, o navio rumou definitivamente na direção do
continente sul-americano. Quatro dias depois, tinha a ilha de Fernando de
Noronha à vista, com seus enormes rochedos, que os passageiros
contemplavam pasmados Em seguida tomou a direção da costa brasileira.
Logo começarem a aparecer as aves marítimas. Porém, só dois dias depois é
que se avistou terras! Foi uma alegria muito grande a que se apoderou do
navio naquela noite de festa, com os passageiros dançando e cantando sem
parar...
Bem, nem todos festejaram, pois ao amanhecer divulgou-se a nota triste:
haviam encontrado um homem morto em seus aposentos. Era um brasileiro
que diziam sofrer do pulmão e que tinha ido a Portugal em busca de clima que
lhe fizessem bem. Retornava desenganado e não conseguia chegar vivo à
pátria. Naquela tarde, em cerimônia comovente, foi lançado ao mar, em águas
brasileiras.
O navio passou ao largo de Recife e Salvador, singrando as águas em
direção sul, rumo ao Rio de Janeiro. Mas lá chegando, os passageiros tiveram
de ficar retidos na Ilha das Flores, em quarentena para observação e vacinas –
por ter morrido um passageiro durante a viagem. Quatro dias depois, os
passageiros foram transladados em barcas para a cidade do Rio. Muitos donos
de fazenda já estavam ali à procura de famílias e fazendas propostas de
trabalho. Naquela mesma noite, porém, a família de José e Aurora tomou o
“trem especial” de imigrantes rumo a São Paulo.
Pois bem, chegarem à Estação Norte, no Braz, em São Paulo, às 10
horas do dia 12 de janeiro de 1913. Foram, portanto, 30 dias de viagem desde
a saída de Agrochão até a chegada em São Paulo, o destino final. Teriam de ir
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até o prédio da Imigração – junto com o demais passageiros do “trem
especial”, mas o avô Poças e alguns outros parentes e amigos que os
aguardavam na estação os conduziram diretamente à sua residência na Rua
Bresser, 391. Muita demora para sair da estação, de modo que só foram chegar
em casa por volta das 2 horas da tarde – quando Aurora reencontrou a irmã
Mariquinha e a “mãe” Santarena. As bagagens foram para o prédio da
Imigração; não houve como impedir.
Provisoriamente ficaram na casa do avô Poças, que não era, para
nenhum deles, uma figura estranha. Tia Mariquinha ainda era solteira, mas
viria a casar no dia 17 de maio de 1913, em São Paulo, com Carlos Augusto
Domingues. Este também era português... e de Bragança.
Quatro dias depois da chegada, tiveram as bagagens liberadas. José
Manoel e o avô Poças foram à Imigração em sua busca. Porém, como a
família não tinha se hospedado lá, foi muito difícil localizá-las. Faltava o
cartão de identificação das mesmas. Só depois de muito cansaço é que se
conseguiu localizar as tais bagagens. Então a surpresa desagradável: elas
estavam abertas e muita coisa havia sido roubada. Mais uma decepção para o
pai, cujas atribulações pareciam não ter fim.
Todavia, a alegria de estarem de novo junto aos parentes compensou
este contratempo. Aurora, principalmente, sentia-se animada e satisfeita.
Logo surgiu a oportunidade de alugar uma casa grande e contígua, no
número 395 da rua Bresser. Tão grandes quanto a casa eram as necessidades
do casal depois de tudo o que acontecera. Urgia trabalhar e ter alguma forma
de rendimento. José e Aurora resolveram dar pensão a um grupo de rapazes
também vindos de Portugal, da região de Trás-os-Montes.
Assim se iniciava a vida no Brasil. Aurora chefiava a pensão. Pensando
bem, cada pensionista pagando sessenta mil réis por mês, até que era –
naquela época – um bom dinheiro. Os pensionistas tinham direito a acomodações, roupa lavada e passada. O aluguel da casa custava 1000 mil réis por mês.
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Para se ter uma idéia do valor do dinheiro daquela época, - com 500 réis,
compravam-se dois quilos de pão, mais um quilo de carne; com 200 réis,
adquiria-se um quilo de macarrão.
E José Manoel arrumou o primeiro emprego no Brasil: servente de
pedreiro, ganhando 3.500 réis por dia. Era um retrocesso bem grande na vida
de uma pessoa que antes ocupara posição de funcionário do governo
português. Mas que se haveria de fazer? Enfrentar a vida, é claro!
A 20 de novembro, nascia em São Paulo a primeira filha brasileira: a
Thereza de Jesus Almeida, que foi batizada na Igreja de São João Batista, ali
perto, ainda no Braz.
O primeiro progresso da família – no sentido econômico – foi estabelecido quando José Manoel começou a trabalhar na Light, como condutor de
bondes, ganhando 900 réis por hora. Foi uma melhora muito sensível.
São Paulo, em 1913, teria uns 500 mil habitantes. A rua Bresser era
ainda iluminada por lampiões de gás, acesos às seis horas da tarde e apagados
às seis da manhã.
O Américo, para variar, morava com o avô Poças. Salvo engano, foi
junto com ele que num domingo de maio daquele ano, em Plena Praça da Sé,
assistiu à benção da pedra fundamental da Catedral Metropolitana. Quando
completou seis anos, o próprio avô matriculou-o num grupo escolar da rua
Vinte e Um de Abril, bem perto de onde ele morava. Após sete meses, mesmo
sendo ele analfabeto, julgou que os progressos do menino não eram bons e
determinou que fosse matriculado numa escola particular, tendo por
professoras Dona Catarina da Cunha e suas filhas, Sila e Adalgisa. Fazia o
horário das 11h às 17h e tudo ia bem agora.
Já não se diga o mesmo do Daniel, temperamento irrequieto, para quem
não existiam distâncias ou obstáculos nos campos da periferia da cidade.
Conta-se dele uma memorável fuga de trem por não sei quantas estações e
uma não menos memorável surra de cinta ao chegar em casa!
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Em 1914, eclodia a Primeira Guerra Mundial, que viria a durar até 1918.
Com ela, abateu-se sobre o Brasil uma violenta crise econômica. Faltava
dinheiro, os empregos escasseavam, as fábricas fechavam.
Como não poderia deixar de ser, a repercussão desses fatos para a
família foi ruinosa. Os pensionistas deixavam de pagar ou atrasavam seus
pagamentos, sendo que alguns nunca mais acertaram os débitos. José, só com
o emprego,não poderia sustentar a família e ainda a pensão, que passou a ser
deficitária. O remédio foi fechá-la. Arrumou uma casa menor e de aluguel
mais barato, na rua da Cachoeira, e para lá se mudou com mulher e filhos. Daí
para a frente, o fruto do seu trabalho era destinado a pagar dívidas. E pagou-as
todas, religiosamente. Depois mudou-se para a rua Nova de São José, ainda no
Braz. As coisas, porém, continuavam mal, devido à guerra. As dificuldades
avolumava-se e as perspectivas de melhorar a vida diminuíam a cada dia que
passava.
Foi então que José resolveu mudar-se para o interior do estado. O irmão,
Manoel Antonio, já morava havia algum tempo perto de Tapiratiba, na
Mogiana, como empregado em fazenda de café. Era para perto dele que José
pretendia mudar-se.
Preliminarmente, foi até a referida região, onde fez um contrato de
serviço. Voltou à capital e começou a preparar a mudança. No dia 29 de junho
de 1914, feriado de São Paulo, a mudança saiu com destino ao interior. Por
algum tempo, moraram na casa do tio Manoel, até chegarem as modestas
bagagens. Depois, foram ocupar a casa a eles destinada, se é que se podia
chamar aquilo de casa: uma construção de pau-a-pique mal barreada, uma
verdadeira tapera. Isso deixou Aurora muito desanimada. Também pudera, ela
sempre morara em casas boas.
Com a promessa de um salário de 2.000 réis diários, mais as possíveis
empreitadas de formação de cafezais, José se conformava com tudo. O
importante era ter saúde, força para trabalhar e, se possível, melhorar de vida.
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A primeira empreitada era de formação de 3.000 pés de café, a duzentos
contos por ano. Mas aí aconteceu o que ele não queria: ficou doente, mais de
um mês sem poder trabalhar – ele que era o esteio da família. As pedras
continuavam a surgir no seu caminho. Custava a reencontrar as boas
condições de vida que tinha deixado em Portugal. Parecia que as coisas no
Brasil eram sempre incertas. Tudo eram promessas que com muita freqüência
se diluíam. As esperanças evoluíam para dúvidas e estas viravam, quase
sempre, duras realidades. Quantas amarguras e tensões habitavam-lhe o
cérebro naqueles tristes e longos dias de doença!
A enfermidade de José e as condições precárias de vida levaram Aurora
a enviar uma carta ao seu pai, o avô Poças, na qual deixava transparecer toda a
sua angústia. Conseqüência disso: também o avô Poças resolveu mudar-se
para junto da filha. Com ele, também vieram o tio Carlos Augusto e a tia
Mariquinha, recentemente casados.
Em sociedade, empreitaram um serviço a 30 por cento na fazenda
vizinha àquela onde morava a família de José e Aurora.
Isso passou-se em 1915. Mas o avô Poças não as fez demorar. Em
outubro desse ano, após o término das colheitas, decidiu retornar a Portugal
com sua mulher. Deixava no Brasil as duas filhas. Dessa vez, ainda a seu
pedido, o Américo ficou morando na casa da tia Mariquinha, por dois anos.
Em 1916, nascia o segundo brasileiro da família, o Francisco Manoel.
Voltando ao fio da meada. José já melhorara de saúde e trabalhava com
ânimo redobrado. O proprietário da Fazenda Santa Rosária – Manoel Matias
Duarte – tinha por ele grande estima. Tratava-o sempre como a um amigo,
nunca como a um puro e simples empregado. A cidade mais próxima da
fazenda era Guaxupé, já em Minas Gerais.
As coisas continuavam correndo difíceis, mas havendo saúde, José
sentia-se compensado. Algum progresso havia, não se podia negar. No ano
seguinte, ocorreu uma forte geada, com alguns prejuízos. Todavia, fora apenas
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um aviso, pois em 1918 aconteceu uma geada jamais vista naquelas paragens,
com prejuízos enormes para a já apertada economia da família. Terminara a
Primeira Guerra Mundial, mas nem por isso as coisas melhoraram muito. Era
preciso ter paciência, pois a crise econômica continuava varrendo o país.
Em 2 de setembro de 1918, nascia o Carlos.
Quando quase tudo parecia calmo, eis que surge a famigerada “Gripe
Espanhola”, grassando por todos os cantos, fazendo milhares de vítimas, não
ficando a salvo de sua agressividade nenhuma família.
E não foi só isso: logo a seguir apareceu uma nuvem de gafanhotos que
em alguns lugares arrasou com tudo. Eram tantas as provações que a todo
momento faziam-se lembrar as Pragas do Egito, contadas na Bíblia.
A mudança para a outra colônia da fazenda, a Colônia Pombal, deu-se
em 1919. Parece que aí começaram a mudar as perspectivas de vida. A
começar pela causa, que já era bem melhor. A empreitada era nova e o Daniel
e o Américo já ajudavam o pai. Enquanto o café ia crescendo, cultivavam
fumo, o que era permitido pelo patrão. Essa cultura proporcionou bons
rendimentos com a arroba vendida a 35 mil réis. Era a fartura presente de
novo em casa.
Mas, em 1920, repetiu-se a geada, com novos prejuízos. Nesse mesmo
ano, em outubro, nascia uma menininha, batizada com o nome de Antonia,
que viria a falecer com seis dias de vida.
No decorrer de 1921, tio Carlos e tio Manoel, de regresso de uma
viagem ao Sertão da Paulista, voltaram entusiasmados com o progresso que lá
haviam observado. E esse entusiasmo contagiou o pai.
Após terem eles se mudado para Duartina, José Manoel foi até lá. Como
era de se esperar, gostou do que viu. Assim sendo, contratou serviço para
tomar café 0 uma empreita de quatro anos. Receberia 1.000 réis por cova de
café a formar.
Então, nesse ano de 1921, deixariam a Mogiana em demanda de terras
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férteis da Paulista. Terminariam as colheitas e venderiam as criações. Mas um
forte surto de gripe atingiu toda a família, deixando alguns debilitados: longos
tratamentos, grandes gastos e novo abalo financeiro. E assim a viagem foi
transferida de setembro para outubro, quando todos já estavam bons.
Nesse ano, em agosto, nascia o João Baptista.
Terminavam assim os anos de Mogiana. Talvez tenham sido os tempos
mais atribulados da família no Brasil, superados com paciência e trabalho.
Mas o sonho de uma vida melhor impelia José rumo a outras paragens onde
pudesse conseguir uma visão independente.
Muito mais do que uma viagem, a ida para Duartina foi uma epopéia. É
só seguir o relato do Américo, se possível com o mapa do Estado de São Paulo
na frente, e analisar o quanto a turma fez de distâncias e o que sofreu.
“No dia 4 de outubro, conforme o estabelecido, iniciamos nossa longa e
tortuosa viagem rumo a Duartina. O Daniel e o Fernando já tinham ido na
frente – um mês antes – e estavam na casa do tio Carlos, ou do tio Manoel. Ao
nos despedirmos dos vizinhos, alguns choravam outros se dispunham a nos
acompanhar até a estação do trem, em Moraes Sales, distante cinco
quilômetros da fazenda. Era o início de uma jornada incrivelmente cansativa,
cheia de baldeações e esperas – durante a qual atravessamos o centro do
Estado em demanda de novo destino. Mas a família já se acostumara a enfrentar dificuldades, por isso, ia resoluta, certa de que encontraria vida melhor e,
quem sabe, a tão sonhada autonomia.
Os vizinhos que nos acompanharam até a estação não poderiam ficar ali
à mercê da demora do trem. Tinham os seus afazeres. Depois de algum tempo,
foram se despedindo, desejando-nos felicidades e boa mudança.
Às seis horas da tarde, o trem chegou. A primeira etapa nos levaria de
Moraes Sales a Casa Branca, onde deixaríamos o trem, que ia para São Paulo,
e passaríamos a aguardar o trem que demandava Ribeirão Preto. Nessa
baldeação, tivemos de esperar quatro horas. Somente às duas horas da
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madrugada pegamos o trem noturno, que nos levou até uma estação de
baldeação próxima a Santa Veridiana. Entre os dois pontos, interpunha-se uma
distância de dois quilômetros. Nessa madrugada, meu pai e eu tivemos de
cobrir esse trajeto duas vezes, carregados de bagagens, a pé. Nisso, gastou-se a
noite e só às seis horas da manhã do dia 5 de outubro é que pegamos o trem da
Paulista em Santa Veridiana. Já era dia e podíamos apreciar a paisagem local,
que nos parecia muito bonita.
Passamos por Santa Cruz das Palmeiras, Pirassununga, Leme, Araraquara e Cordeiro, onde descemos. Aqui, a última baldeação. Já eram duas horas
da tarde quando tomamos o trem de bitola estreita que nos conduziria a
Piratininga – o fim de nossa viagem por estrada de ferro. Cidades foram ficando para trás: Brotas, Dois Córregos, Pederneiras, Agudos Paulista... só fomos
chegar a Piratininga às oito e meia da noite. Foi – repito – a viagem mais
cansativa que fiz na vida, durando um dia e uma noite.”
A boa surpresa, ao chegarem, foi a presença do Daniel na estação. Ele
inclusive já havia reservado acomodações e refeições para a turma num hotel
da cidade. Também ele tivera a sua odisséia para chegar a Piratininga. Da
fazenda onde iam trabalhar até essa cidade, havia uma distância de oito léguas
a percorrer. Saiu ele com as carroças da fazenda que transportavam café para
Piratininga e que no retorno levariam toda a mudança até a nova moradia.
Acontece que ao chegarem em Santa Luzia do Serrote, o tempo tornou-se
muito chuvoso. Os carroceiros, como era de rotina, pararam a viagem e só
sairiam dali quando o tempo melhorasse. Então o Daniel segui daquela
localidade em direção a Piratininga, a pé, cobrindo uma distância de mais de
seis léguas debaixo de chuva, protegido apenas por um guarda-chuva. Chegou
à cidade uma hora e meia antes de o trem chegar.
No dia seguinte, ainda chovia. Para encurtar a história, as carroças só
chegaram três dias depois. Nesse dia, às duas da tarde, saíram rumo a
Duartina. Mas, após andar duas léguas, pernoitaram na Fazenda Brejão, em
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casa de um conhecido. No outro dia, partiram logo ao alvorecer e só foram
chegar à fazenda às seis da tarde. Era o dia 10 de outubro de 1921. Se a
viagem foi cansativa, a chegada foi alegre, pois reencontravam-se os parentes.
Ademais, chegar só poderia ser bom para quem “sofrera” uma viagem tão
cheia de peripécias.
Entrava assim a família na Fazenda São Sebastião, num sábado, tendo o
fim de semana para descansar. No dia 15 de outubro fizeram a queimada da
área destinada ao plantio de café da empreitada. Queimou bem. A seguir, já
fizeram o alinhamento das covas de plantio. Também plantaram milho e
feijão. E tudo foi muito bem.
Em 1922, plantaram uma grande fumada, que formou bem e prognosticava umas 300 arrobas. Mas em agosto caiu uma chuva de pedra que causou
sérios prejuízos. Com esse fato, José entrou em desânimo: agora que estava
em lugar alto, fora do perigo das grandes geadas, era a chuva de pedra que
vinha destruir todo o fruto do seu trabalho... Passou a falar em voltar para São
Paulo, mas o tempo resolveu tudo. Fez uma colheita de 140 arrobas de fumo,
que vendeu muito bem. Colheu ainda 96 sacos de arroz e 15 carros de milho.
Deu, portanto, para pagar as dívidas e passar o ano seguinte sem grandes
preocupações. Logicamente, o ânimo estava recuperado. Em 1922, outra
grande fumada, que deu para saldar sete contos.
Em 1923, nascia a Antonia. Tudo corria bem nesse ano. O fumo, a
principal cultura, deu uma colheita de 300 arrobas, que foi muito bem vendida
– até a 40 mil réis a arroba! Ficava assim a família muito bem de vida.
No ano de 1924, terminava a empreitada na Fazenda São Sebastião, ao
mesmo tempo em que se colhia outra boa safra de fumo, já vendida a 50 mil
réis a arroba, rendendo mais 12 contos. Por outro lado, pela empreitada, José
recebia os sete contos estipulados. Isso, mais o que restara do ano anterior,
dava um saldo muito bom. Ainda nesse ano, outros fatos ocorreram. Em
primeiro lugar, o pai contratava nova empreitada, agora na Fazenda Tavarana,
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colônia Aredes. Foi um ano muito agitado pela revolução de Isidoro Lopes,
que envolveu vários estados, principalmente o de São Paulo. Foi também um
ano muito seco, com incêndios nas matas da redondeza. Onças afugentadas
pelo fogo eram vistas com freqüência perto das colônias.
E a seca continuou até maio de 1925, ano em que quase não se colheu
nada, perdendo-se no solo as sementes de arroz e milho. De fumo, colheu-se
pouco, umas 60 arrobas. Nesse ano, a Estrada de Ferro Paulista chegava a
Duartina. A colônia onde morava a família ficava a uns dois quilômetros da
estação. Vivia-se, apesar de tudo, uma vida bem mais condigna.
Nesse ano de 1925, aconteceu um fato importante na vida da família
Almeida. José, seguindo as tendências de pioneirismo que se apossavam de
parentes e vizinhos, comprou terras no Norte do Paraná. Na época era uma
aventura. Todavia, era necessário enfrentar os desafios que a vida propunha. A
família crescia e era inviável a eterna situação de empregado, quando já tinha
dado mostras de capacidade de trabalho fora do comum.
Vale registrar que, nesse ano, a 25 de outubro, nascia mais um rebento
na família, o José Bernardino. O nome era uma homenagem ao avô Poças.
Em 1926, José Manoel pensava seriamente em se mudar par AA
propriedade adquirida no Norte do Paraná. O irmão, Manoel Antonio, já
estava lá. E escrevia sempre cartas cheias de entusiasmo, falando da incrível
fertilidade do solo. Pedia, implorava ao José que se mudasse logo, pois as
propriedades eram contíguas, o que simplificava a vida das duas famílias. Mas
ainda faltavam dois anos para terminar a empreitada e ele detestava parar as
obrigações ao meio... Bem Almeida!
Em 1927, ainda em Duartina, teve boas colheitas. A fumada foi de 500
arrobas. O café já prometia para o ano seguinte uma boa produção que, pelo
trato, seria do formador. Mas os apelos íntimos eram grandes e José acabou
decidindo...
Foi o próprio patrão, José Aureliano Aredes, que comprou o resto da
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empreitada por oito contos de réis. Após essa venda, José Manoel viajou ao
Norte do Paraná, mandou derrubar quatro alqueires de mata a par com o sítio
do irmão e, retornando a Duartina, planejou a mudança para princípios de
dezembro. A família iria viver do que era seu.
Chegando ao Cerne, tudo se acalmou. Acabaram-se as mudanças
sucessivas, as frustrações e os desânimos. Houve dias de muita alegria e dias
de muita tristeza. Mas o Cerne, com sua paisagem serena, sempre foi um
abrigo de tranqüilidade e – por que não dizer – de perene fartura. Talvez o
Cerne fascine tanto as pessoas da família porque foi o ponto culminante de
uma história que felizmente acabou bem.
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III
No Cerne
1925, mês de fevereiro. Por esse tempo, a família de José Manoel
Almeida morava nos arredores de Duartina – zona da Alta Paulista – Estado
de São Paulo. O casal José e Aurora contava já com 10 filhos, tendo o mais
velho 21 anos e o mais novo apenas um ano. Trabalhavam numa fazenda,
formando café.
Apareceu então por ali um corretor de terras da Companhia
Colonizadora do Norte do Paraná, da qual o agente autorizado era Luiz
Deliberador, com escritório em Conceição do Monte Alegre, cidade situada a
apenas 12 quilômetros de Paraguaçu Paulista, na Alta Sorocaba. O corretor era
Manoel Ozés, morador de Duartina. Acabou ele vendendo terras a mais de 60
famílias ali residentes, na base de 150 mil réis por alqueire, sendo paga a
metade no contrato e a outra metade na entrega da escritura, passada pelo
próprio Governo do Estado do Paraná.
O fato é que a 7 de setembro desse ano, os compradores recebiam os
títulos definitivos na posse da terra. Coube a José Manoel Almeida o lote n°
118, situado na margem esquerda do Ribeirão do Cerne.
Estamos em 1927. O tio Manoel já se havia mudado para o Paraná, dois
anos antes, tão logo obtivera o título de sua propriedade. De lá escrevia
sempre, implorando em suas cartas que o irmão também fosse ocupar e
utilizar as terras que comprara. José teimava em cumprir o contrato, mas
acabou não resistindo aos apelos e em agosto negociou os direitos
relacionados ao ano que restava tal empreitada. Assim, decidia mudar-se para
o que era seu. Fez uma viagem preliminar até o Cerne, durante a qual
estabeleceu os planos de trabalho em relação ao sítio a desbravar. Mandou
derrubar quatro alqueires de mata a par com o sítio do irmão. Começaria por
ali. A mudança se concretizaria somente em dezembro.
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Entre os dois sítios, havia inicialmente uma pequena propriedade de 20
alqueires, pertencente a um outro tio – não Almeida – o José Augusto. Este
também já havia se mudado para o Cerne em 1925. Uma tragédia, porém,
mudou os rumos de sua vida: era um domingo, após o almoço. Do outro lado
do rio, os cachorros de caça acuaram um bicho, pondo-o em fuga exatamente
para a pastagem que se estendia da colônia até o rio. A rapaziada saiu afoita a
fim de saber do que se tratava, nada menos do que um enorme veado galheiro,
em corrida veloz diante dos cães. José Augusto, mais pesadão, ia atrás da
turma com a carabina em bandoleira. O fato é que escorregou ou se enroscou
na grama e na queda a arma disparou, atingindo mortalmente um dos filhos do
tio Manoel, o João. Tamanho foi o desgosto que dele se apossou que se mudou
do Cerne, vendendo a José Manoel a sua propriedade, exatamente onde agora
se abriria a primeira área destinada a cultivo, moradias e instalações. Quanto a
José Augusto, mais tarde mudou-se para a África e dele, até a morte, só
tiveram notícias por raras cartas.
No dia 3 de dezembro de 1927, um sábado, o Daniel e o Fernando
saíram de Duartina com boa parte da mudança numa carroça puxada por três
animais, em demanda do Norte do Paraná. Sua viagem até o destino durou seis
longos dias calorentos e cheios de peripécias. O restante da família saiu quatro
dias depois, por estrada de ferro. Viajaram o dia inteiro, só chegando a
Paraguaçu Paulista na madrugada do dia 8 de dezembro.
Como chovia, foram vãs as tentativas de se fretar um caminhão: a chuva
era um fator decisivamente limitante. Só no dia 9 é que se reiniciou a viagem,
partindo a família e a mudança às quatro horas da madrugada, de caminhão,
rumo ao Paraná. Mas a jornada se tornaria mais complicada que o esperado.
Ao passar por um atoleiro, o caminhão encravou e, no esforço do desencalhe,
acabou tendo o eixo dianteiro quebrado. Foi uma tarefa complexa e demorada
tirar o caminhão do atoleiro e ainda por cima fazer o conserto de emergência,
mediante o qual se chegou ao Porto Casa-Nova. Havia ali uma pequena
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oficina, onde afinal se fez o reparo definitivo. À uma hora da tarde, fizeram a
travessia do Paranapanema, em uma balsa lenta e precária. Nessa passagem,
foram admirando a linda paisagem do pontal onde as águas do Paranapanema
recebiam as do Tibagi. Do outro lado, finalmente o Paraná, com sua terra
vermelha, roças de milho vigorosas, deixando todos de boca aberta. Mas logo
foram engolfadas pela mata virgem, cheia de enormes troncos: figueiras,
perobas, cedros e uma imensidão de palmitais.
Entrava a família no Norte do Paraná exatamente no dia 9 de dezembro
de 1927. E quase que só pelo meio da mata rumou-se para Sertanópolis. Logo
a poucos quilômetros do rio deparou-se com o primeiro obstáculo: uma
enorme árvore havia caído sobre o leito da estrada. Foi preciso muito trabalho
para desobstruí-la e nisso gastaram-se mais algumas horas. Mas depois tudo
correu bem e foram chegar a Sertanópolis por volta das cinco horas da tarde.
A povoação tinha nesse tempo cinco casas de madeira e uns 80 ranchos
cobertos de tabuinha. Dava mais a impressão de uma aldeia de índios. A
família alojou-se numa pensão, onde passou a noite.
No dia seguinte, logo cedo, já o Daniel esperava com a carroça à porta
da pensão. Sempre ele. Deve ter saído do Cerne em plena madrugada...
Ajeitaram todas as bagagens e – logo depois do almoço, que naqueles tempos
era servido bem cedo – saíram em direção ao sítio. Às duas da tarde,
chegavam na casa do tio Manoel. Era o dia 10 de dezembro, um sábado. Foi
um alvoroço total, um alegria sem limites, pois fazia dois anos que as famílias
não se viam.
Depois do tradicional e reforçado café da tarde, a rapaziada foi explorar
os arredores. Primeiro foram ver a roça que o pai mandara preparar.
Constataram que queimara mal, prevendo intenso trabalho no primeiro
plantio. A seguir, como não poderia deixar de ser, foram conhecer o ribeirão
do Cerne, que passava logo ali embaixo, nos fundos das propriedades. Fluindo
por entre a mata virgem, com suas corredeiras cantantes, poços fundos e águas
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claras, o rio era maravilhoso. Na transparência de suas águas, vislumbravamse cardumes de peixes, principalmente curimbatás. E naquela tarde, em menos
de uma hora, pescaram eles mais de cinco quilos de peixes variados bagres,
piracanjubas e piabas. No dia seguinte, após tantos acontecimentos, poderiam
descansar até mais tarde.
Na segunda-feira que se seguiu, deu-se o primeiro dia de trabalho no
Cerne. Limparam a futura roça e plantaram milho. Na terça-feira, começaram
a preparar o local onde construiriam a primeira casa da família. Para fazê-la, o
pai empreitou os serviços de um tal Baiano, “engenheiro”do sertão. Ele
prometeu a casa pronta até o dia 31 de dezembro. A construção foi toda feita
com madeiras do sítio, paredes de barrotes de palmito, que os havia em
quantidade, desde o espigão até o rio. A cobertura foi feita com tabuinhas de
timburi.
Eram pontuais os “construtores” do ranchão: entregaram a casa na data
prevista. Nem um dia a mais ou a menos que o combinado!
E a família de José e Aurora mudou-se para a própria casa no dia 331 de
dezembro. Terminava o ano de 1927. Portanto, ao raiar de 1928, a família já
morava em sua propriedade e era assim constituída:
José Manoel – o pai – com 45 anos;
Aurora – a mãe – com 42 anos;
mais os filhos
Daniel Amadeu – com 23 anos;
Américo Augusto – com 20 anos;
Maria José – com 18 anos;
Fernando Antonio – com 16 anos;
Tereza – com 14 anos;
Francisco Manoel – com 12 anos;
Carlos Augusto – com 10 anos;
João Baptista – com 8 anos;
Antonia – com 4 anos; e
José Bernardino – com 2 anos.
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Este foi o grupo que entrou no “ranchão”no finzinho de 1927, limiar de
1928.
Nessa época, a Água do Cerne já era habitada por umas 40 famílias, mas
algumas moravam a mais de seis quilômetros. Era uma só mata por toda a
parte. A estrada para Sertanópolis era um picadão de 13 quilômetros e obedecia a um traçado diferente do atual, chegando-se às referidas propriedades
pelos fundos, acompanhando o Cerne pela margem esquerda. Os únicos meios
de transporte eram os cavalos e as carroças. Quando chovia, ficava
intransitável.
O comércio de Sertanópolis era fraco mesmo no suprimento de itens essenciais à sobrevivência de uma família. Nem se podia esperar mais que isso...
Duas ou três vezes por ano, o pai ia fazer comprar em Paraguaçu,
Estado de São Paulo, distante 17 léguas. Nesse intuito, alugava um caminhão
a 400 mil réis a viagem. E o caminhão vinha lotado: sacos de farinha, sal
açúcar, latarias, bacalhau em caixas, atum em cartolas, tonéis de vinho...
Enfim, tudo o que não se poderia obter dentro da propriedade.
Nos primeiros meses de 1928, o trabalho foi plantar grama, formar
pastagens e mangueirões, tendo em vista desenvolver tropa, rebanho bovino e
criação de porcos. Também se construiu um grande paiol para armazenar o
milho a ser cozido e outros cereais. Ainda sobrou tempo para pegar uma
empreitada de formação de café para o tio Manoel.
Em abril, foram derrubados mais quatro alqueires de mata destinados à
formação do primeiro cafezal. Foi quando o Fernando cortou o pé com um
machado, ficando quase um mês sem trabalhar. Em agosto, após uma péssima
queimada e um trabalho insano, foi que se plantaram os primeiros 1.000 pés
de café. Nessa ocasião ainda se desmatou mais um alqueire ao lado do
“Ranchão”. Ali, em alguns anos, surgiria a Casa Grande do Cerne.
A 10 de setembro nascia a Izabel. Todos tinham saúde e trabalhavam
com muito ânimo. Vivia-se uma experiência nova: criar o próprio patrimônio.
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O mais importante acontecimento do ano foi a visita pastoral do Bispo
de Jacarezinho a Sertanópolis, no mês de julho. D. Fernando veio de São
Jerônimo, passando por Jataizinho, fazendo os percursos como podia, a cavalo
ou de automóvel, como aliás chegou a Sertanópolis. Mas, como chovia muito,
a sua chegada, prevista para as duas da tarde, só aconteceu às oito da noite.
Ficou na terra por três dias. Fez cerva de 1.500 crismas. Vendo que a
povoação já era considerável e atendendo aos anseios do povo,resolveu criar a
Paróquia de Sertanópolis. A confirmação desse promessa deu-se em julho do
ano seguinte, tendo a cidade de Santa Terezinha como padroeira. Seu primeiro
vigário foi o Padre Jonas Vaz dos Santos.
No ano de 1929, Sertanópolis era elevada à categoria de município,
desmembrando-se de São Jerônimo da Serra. A sede da comarca era a distante
Tibagi.
Nessa mesma época, chegaram ao Cerne mais de 20 famílias portuguesas. Foi a própria Companhia de Colonização que sustentou este capricho:
a Água do Cerne seria colonizada apenas por portugueses. Já havia na região
umas 15 famílias de posseiros, chegadas uns cinco anos antes e procedentes de
São Miguel Arcanjo, perto de Iguape, no litoral paulista. Essas famílias,
quando os agrimensores cortaram os lotes de terra, tiveram direitos
assegurados, pagando apenas os trabalhos de medição e divisão, na base de 30
mil réis o alqueire. Eram caboclos muito bons, tendo por hábito lingüístico
chamarem-se entre si pelo título de Nhô e Nhá. Tinha então por ali o Nhô
Pedro, o Nhô Esidro, o Nhô Ramiro, a Nhá Albina, a Nhá Venância e muitos
outros e outras.
A caça era um ponto alto no lazer do Cerne primitivo. O que não faltava
por ali eram antas, catetos, capivaras, queixadas, veados, pacas, cutias e
muitas aves do mato: macucos, jacus, jacutingas, inhambus, urus e uma
infinidade de pássaros verdes – araras, jandaias, papagaios, maracanãs,
maritacas, periquitos e tiribas. A presença de serpentes venenosas também era
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marcante: urutus, cascavéis, jararacas e jararacuçus. Caçadores, portanto,
tinham com o que se divertir. Feliz era o Daniel, que aos domingos sumia
pelas matas em verdadeiras aventuras.
E Sertanópolis tinha o seu primeiro prefeito, Garibaldi Deliberador.
O ano de 1930 foi marcado pela revolução que conduziria Getúlio
Vargas ao poder. Muitos fatos fizeram histórias, mas Sertanópolis seque
saberia da revolução não fora a crise de suprimento de gêneros que, aliada às
distâncias e à precariedade das estradas, tornou a vida de todos muito difícil,
senão complicada. O desenvolvimento era pouco. O que se colhia... Pouco
valia também. Assim sendo, as perspectivas não eram muito promissoras.
Contudo, é bom que se ressalte a velha lei que dita a evolução através da crise:
vivia-se com fartura no Cerne e até açúcar os Almeidas chegaram a fabricar,
com técnica inicialmente rudimentar, chegando por fim a produzi-lo do tipo
“refinado”. Pasmem, isso num sítio do Cerne.
E assim foi também em 1931, com um desenvolvimento muito tímido.
Mas as lavouras de café começavam a dar ao Cerne sua nova paisagem, que
durou por muitos anos: áreas e mais áreas cobertas por cafezais, alinhados e
perfilados, com o verde predominando e as imensas floradas que mais
pareciam intensas nevadas, os frutos vermelhos, maduros, impregnando tudo
com o seu aroma. Era praticamente o início da cafeicultura no Norte Novo do
Paraná. Nela todos punham as mais legítimas esperanças. Quantas fortunas...
E quantas desilusões!
O ano de 1932 levou a cor do tumulto político marcado pela revolução
que por quatro meses envolveu todo o noticiário. O centro dos acontecimentos
era São Paulo. Foram tempos duros em que se sofreu toda a sorte de
privações, pois do Estado de São Paulo não passava nada para o Paraná. O sal
se acabava e o açúcar tinha de ser fabricado localmente, conforme já se
comentou. Farinha, nem pensar. Comiam-se as gostosas broas de fubá mimoso
com mandioca, No mês de outubro, com o fim da Revolução Constitucio47
nalista, o país voltava à calma, embora com frustrações políticas duras de
acalmar nos sentimentos de muitos. Com tudo isso, os progressos e os lucros
teimavam em não vir...
Nesse mesmo ano, completava-se em 12 o número de filhos com o
nascimento de Mário Braz, no domingo do dia 24 de julho. Voltavam os
rapazes da reza na capela de São Sebastião quando tiveram a notícia.
Em 1933, a grande nova: a primeira colheita de café feita no sítio.
Foram 600 sacos de café em coco, graúdo, sem pragas, cheiroso e de bebida
deliciosa. Mas somente vendê-lo no ano seguinte, ao preço de 7.500 réis a
casa. Uma bagatela, mas, de qualquer maneira, os primeiros frutos da terra a
serem transformados em dinheiro. Havia muito o que fazer e a tarefa mais
importante era sempre a próxima. As ambições eram limitadas. Todavia, a
felicidade vivia presente no seio da família.
Em 1934, José Manoel viajava rumo a Portugal, ficando ausente do
Cerne de maio a agosto. O motivo da viagem era vender suas partes nas
propriedades da família, o que, aliás, precisava ser definido de um vez por
todas. José, que na ocasião da retirada se convencia de um dia voltar com a
família, já não pensava assim: o grupo familiar era na maior parte brasileiro,
tendo aqui muito mais afinidades do que em Portugal. Nada como o tempo
para acomodar as idéias.
Retornando dessa viagem, José resolveu construir a casa nova de
madeira. Início das obras: novembro de 1934. A casa só ficou pronta em abril
de 1935. Com que ansiedade acompanhavam todos a evolução desse novo e
grande empreendimento, santo Deus! Era a Casa Grande do Cerne que se
erguia soberba, com aquele porte que ainda hoje a ressalta, como que surgida
do solo vermelho em passe de mágica.
Pois bem, vivia-se o ano de 1935 quando a família foi habitar a imponente e cheirosa casa nova. O relato que se segue é do Américo: “Entra-mos
na Casa Grande com a família inteira – pai, mãe e 12 filhos. O quarto da
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direita, rente à varanda, destinou-se aos rapazes; o contigo foi ocupado pelos
pais – eram os cômodos da face norte. No meio, as duas salas, como sempre.
Na face sul, a partir da varanda, o quarto de hóspedes, sempre conhecido
como o quarto do padre, a seguir, o quarto dos moleques e depois o quarto das
moças. Nos fundos, a cozinha, a despensa e a varanda da cozinha. No
pavimento térreo, um quarto para o „camarada‟, uma despensa onde se
depositavam os estoques de gêneros alimentícios que o pai era obrigado a ter,
com uma família tão numerosa, mas a maior parte do porão constituía-se no
vasto espaço destinado a estocar café – antes que se fizesse a tulha”.
Foi nessa época que a família do tio Carlos e da tia mariquinha veio
morar no Cerne, instalando-se na aconchegante ranchão, recentemente
desocupado. Foi grande a alegria de se verem juntos novamente primos e tios.
Tio Carlos empreitou formação de café nos altos do sítio e a lavoura que ali
surgiu era linda de se ver. E passou ele com sua família viver ali no Cerne
como se a propriedade fosse sua. Pelo menos era isso que José Manoel fazia-o
sentir. Realmente, desse convívio resultaram muitas alegrias. Vivia-se num
verdadeiro paraíso.
O passar dos anos se acelerava. Em 1936, já se sentia o cheiro do tão
esperado progresso. A estrada do Cerne já havia sido encurtada e aplainada e,
diariamente, era percorrida pela famosa e inesquecível Jardineira do Seu
Felizardo – apelidada de “Raivosa”. Por que será?
A estrada passava a ter conservação e controle do DER, podendo-se
dizer que era mais que razoável. Mas quando chovia...
Em novembro desse ano, casava-se o primeiro filho, o Fernando, com a
Maria Rosa, filha do seu Joãozinho Cruz, também morador das imediações.
As bodas foram marcadas pelo signo das chuvas e acabaram se concretizando
à noite, na Casa Grande, com as presenças do juiz e do vigário. Foi o que se
pode chamar de “festa de arromba”, com baile até o raiar do dia, ninguém se
importando com o barro. A casa do Fernando foi construída à direita do
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terreirão, vizinha ao ranchão do tio Carlos, tendo de permeio a tulhinha. Em
1938, nascia o primeiro rebento dessa união. E era também o primeiro neto de
José e Aurora. O nome desse menino: José Antonio Almeida (o Zezinho).
Cabe aqui um parênteses. O café, em sua ininterrupta expansão, exigia
infra-estrutura. Assim sendo, quase que ao mesmo tempo em que se construiu
a Casa Grande, foi surgindo o imenso terreirão destinado à secagem dos seus
frutos. E surgiu também a primeira tulha (a tulhinha), que logo se viu
incompetente para armazenar tamanhas colheitas, tendo-se de recorrer ao
porão da Casa Grande. O terreirão era um grande espaço aplainado e ladrilhado com esmero. Teria por volta de 2.500 metros quadrados de área. E ali tanta
coisa aconteceu: festas, bailes, jogos os mais diversos e acima de tudo – muita
lida com o café.
Em 1939, logo em março, a família era abalada pela morte prematura da
Tereza, após longos meses de doença pulmonar. Era a primeira baixa no seio
da família. Jovem, com 26 anos, ao morrer deixava na família a tristeza e a
prostração. Um verdadeiro mergulho no sofrimento.
O segundo semestre desse ano foi muito seco. Havia queimadas por
toda a parte, toldando o céu de cinza. Matas se incendiavam e, à noite, do alto
do morro apreciava-se o espetáculo com um misto de admiração e de temor:
aquilo parecia o fim do mundo. Havia o perigo constante e quase que se tinha
de montar guarda para evitar que o fogo entrasse nas próprias matas e roças,
causando prejuízos jamais calculados. O ribeirão do Cerne reduzia-se a uns
filetes de água entre as corredeiras; os poços minguavam e os peixes chegaram
a morrer. Mas as chuvas chegaram um dia, e o pesadelo foi esquecido.
Entrando o ano de 1940, parece que por mágica tudo começou a se
desenvolver mais rapidamente ao redor da estrada. Dois horários de ônibus
por dia. Surgia a famosa venda do Cerne. Montada pelo Sr. João Wanderley,
era fartamente sortida: secos e molhados, tecidos, ferramentas e uma imensa
variedade de miudezas que faziam a loucura das crianças. Tinha também o
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bar... Era uma casa comercial completa. Em frente a ela, aos domingos.
Reunia-se o pessoal das redondezas. Ali se proseava, fazia compras e assistia
ao futebol – o campo ficava na divisa do sítio de José Almeida. Mais tarde se
mudaria para o local definitivo.
A capela de São Sebastião, construída no sítio do tio João Fernandes
pelo idos de 1930, passava agora a ser visitada uma vez por mês pelo vigário
de Sertanópolis. Essas visitas e as respectivas missas constituam-se sempre em
verdadeiros acontecimentos festivos. Embora a capela distasse cerca de 1,5
quilômetro da Casa Grande, era ali que o senhor vigário se hospedava, e
também era ali que muita gente se reunia após a missa, pessoal vindo dos
lugares mais distantes.
Ao longo de 1940, mudaram-se do sítio para as respectivas propriedades
o tio Carlos e o tio Antonio Magro. Ficava o vazio da sua ausência. Em
compensação, começavam a entrar as famílias de empregados. O café exigia
muitos braços. Nesse ano, já se vendeu o café a 20 mil réis o saco. Falava-se
muito da recém-fundada localidade de Bela Vista e do seu progresso. Ficava a
dez quilômetros do Cerne.
1941. Família toda criada e tudo correndo bem. O cafezal produzia até
200 sacas por mil pés e o preço subia, ano a ano. Na Água do Cerne, só se
viam lavouras de café, e os seus proprietários, todos sem exceção, estavam
bem de finanças. Foi nessa época que o Cerne teve a maior densidade de
habitantes.
Formara-se um time de futebol cheio de entusiasmo e que pro muitos
anos manteve-se forte, quase invencível nas redondezas. Acredito mesmo que
tenha surgido após alguma das copas do mundo, talvez a de 1930. O primeiro
campo de futebol localizou-se entre o ribeirão do cerne e a Fortuna, nas
imediações do moinho, local plano e apropriado, não fossem as constantes
perdas de bola num dos rios. Andaram se batendo no sítio do tio João
Fernandes, arrancado tocos e aplainando a terra, mas do declives eram muito
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acentuados, não dava. Daí que vieram a localizar o campo no sítio do tio
Caetano, na divisa com o de José Almeida. E ali o campo permaneceu por
bons anos, até mudar-se para a frente da venda, em plena década de 40. Os
memoráveis embates atraíam os moradores, e as tardes de domingo eram
plenas de alegria.
Nesse ano de 1941, o Daniel, o irmão mais velho, veio a casar-se com a
Antonia Reis, filha do tio José Reis, morador de Biguá. A festa toda foi na
casa da noiva.
Também nesse ano, José Manoel Almeida mandou a Portugal uma carta
de chamada para o avô Poças. Este vivia só em Lamalonga, tendo enviuvado
pela segunda vez. Chegou ao Cerne em fins de fevereiro. Apesar dos 79 anos
de idade, estava lúcido e sadio, Fugindo da solidão em que vivia, procurava no
Brasil a companhia das duas filhas e de suas imensas famílias.
No final do ano, casava-se o Américo com a Cicundina Pereira, filha do
tio José Pereira, na data de 18 de dezembro. De festa, apenas um almoço para
as duas famílias na Casa Grande do Cerne.
O ano de 1942 foi marcado pela maior geada vista até então, já nos
estertores do inverno: dia 4 de setembro. E, pela primeira vez, o espetáculo
triste dos cafezais queimados, enegrecidos, exalando o cheiro das folhas
cozidas pelo frio. Uma desolação total. Esse acontecimento provocou uma
espetacular elevação nos preços do café: até 60 mil réis por saco. Era o preço
do inexistente, pois café, por alguns anos, mal se colheu para o gasto.
O ano de 1943 foi marcado pela tragédia: morria o pai, José Manoel, no
dia 22 de março. Ficou doente apenas cinco dias, tempo suficiente para que a
terrível doença exaurisse todas as resistências do homem regrado e saudável
que havia sido até então. Foi uma perda terrível, incidindo sobre as
dificuldades pelas quais se passava, conseqüentes à geada. Aurora ficou viúva
aos 56 anos de idade, com uma família numerosa e ainda com quatro filhos
menores. Foi um ano péssimo, sem dúvida. Enquanto o pai vivia os últimos
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dias, tentava-se desesperadamente sua cura e, a par disso, corria-se atrás do
dinheiro não recebido pela última colheita de café – em poder dos compradores. Aliava-se à tristeza a dificuldade financeira. O Cerne recuperava-se da
geada aos poucos. Havia muito verde e os pomares carregavam-se de frutos.
Mas no meio da natureza em recuperação, havia a amargura da família.
Nesse ano, ainda de luto, casava-se a Maria José com o Manoel Pedro
Fernandes. Não houve a alegria dos outros casamentos, embora nada houvesse
a lamentar no fato em si, pois tratava-se de um bom rapaz, trabalhador e
proprietário de um sítio nos arredores de Conserva. Era um grande desfalque
na casa, pois a Maricas era uma espécie de segunda mãe para a maior parte
dos irmãos.
Em 1944, o café já prometia uma colheita razoável, tendo uma recuperação satisfatória após a geada. A perspectiva de preço era boa, beirando os
100 mil réis por saco de café em coco.
Mas a fatalidade parece que não esquecera a família. Em 26 de junho,
era a Maria José que nos deixava para sempre, justamente ao ter o primeiro
filho, que nasceu morto após um trabalho de parto dificílimo. Coisa do tempo:
gestante idosa, talvez sofrendo algum tipo de patologia em final de gravidez,
só Deus sabe.
Culminando essa seqüência de acontecimentos tristes, em 31 de dezembro falecia o avô Poças. Ficara doente de hepatite, uma fortuna clínica grave e
potencializada por muitos anos de uso do álcool (vinho). Exalou o último
suspiro na casa do tio Carlos, no sítio de São Paulo, tendo então 84 anos. O
enterro deu-se no dia do Ano Novo de 1945, no cemitério de Sertanópolis.
Pedia-se a Deus que essa série de fatos tristes tivessem fim.
O Cerne, nesse tempo, era bem movimentado. Parece que foi a época
em que teve maior afluxo de gente, atraída pela necessidade de mão-de-obra
para o cultivo do café.
Realizavam-se anualmente, em janeiro, as festas de São Sebastião,
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sempre muito animadas, atraindo o interesse de todos os moradores das
redondezas. Com um detalhe: quase que sempre regadas pelas copiosas
chuvas de verão, provocando adiamentos. Mas não adiantava, ao tentar de
novo... Lá vinha água e mais barro – o que afinal não impedia que o povo se
divertisse à vontade com a festa do seu padroeiro. Porém, essas chuvas
impertinentes não deixavam de ser uma benção, trazendo atrás de si uma
fartura sem par. O Santo Padroeiro sabia o que era bom para o Cerne!
Em 1945, dois fatos a registrar. O primeiro refere-se ao casamento da
Antonia com o Paulo Rigo, procedente de Quatiguá, no Norte Velho, mas
estabelecido em Sertanópolis como vendedor de Singer. Certamente que na
pensão da dona Maria magro é que se conheceram. Após o casamento, foram
morar na terra de origem do Paulo, onde não criaram muitas raízes, voltando
ao Cerne. O segundo fato foi a ida do Mário para o colégio interno, em São
Paulo. Assim, a Casa Grande ia ficando vazia aos poucos.
No ano de 1946, realizaram-se três casamentos. O primeiro foi o do
Francisco Manoel com a Piedade da Silva, a 9 de março. Para variar, num dia
de muita chuva. O segundo foi o do Carlos Augusto com a Angelina
Fernandes, em 27 de julho. E o terceiro foi o do João Baptista com a Beatriz
Vaz, no dia 14 de dezembro.
Imagine-se a mãe, durante esse longo período vivendo na Casa Grande
somente com a Izabel. Entristeceu muito, premida por saudades de tudo e de
todos. Mas, retornando o José do Serviço Militar, colocou-se à testa das
decisões. Contratou como empregado o Francisco Luciano (Chiquito) e foi
tocando a administração da propriedade.
Nisso, a Antonia e o Paulo retornavam, vendo morar no Cerne a fim de
explorar a herança que lhes cabia. Uma boa compensação se a casa estava
quase vazia, não haveria motivos de tristeza, pois os irmãos todos moravam ao
redor e iam construindo suas família.
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No ano de 1947, formava-se uma imensa plantação de café nas
cabeceiras do sítio, local onde até então existia a maior reserva florestal.
Todos tinham parte na nova lavoura que, pro ser alta. Prometia boa defesa
contra as geadas e conseqüentemente boa produção. Eram perspectivas novas
que se abriam. Afinal, o café era o grande doador de riquezas naquela época e
quem não o tivesse fadava-se à pobreza. E assim, ao longo do caminho novo
que se abria, se poderia identificar: aqui o café do Daniel; ali, o do Américo;
lá, o do Carlos; acolá, o do Manoel... Foi, em suma , uma retornada do espírito
de pioneirismo, com os seus riscos e as suas alegrias.
Em 1948, vendeu-se o café a 200 cruzeiros o saco. O Cerne progredia
muito. Bela Vista, cidade emergente, crescia a olhos cistos e começava a
chamar a atenção dos moradores da região, que começavam a ir lá fazer as
compras. Como não podia deixar de ser, era também um reduto de
portugueses, muitos dos quais sitiantes que começavam a se dar ao luxo de ter
casa na cidade.
No ano de 1949, os ônibus já faziam três viagens entre Bela Vista e
Sertanópolis, trilhando a estrada do Cerne. E havia ainda o famoso “Ouro
Verde”, que fazia a linha entre Londrina e Assis, Estado de São Paulo,
passando pelo Cerne. Facilitava-se assim a tarefa de viajar para São Paulo,
pois era só pegar o ônibus às 11 horas, praticamente na porta da casa, e descer
em Assis, onde se tomava o trem da Sorocabana. Mas a estrada era toda de
terra e se chovesse...
Já em l950, a lavoura nova deu a primeira carga, pequena mas vendida a
bom preço: 230 cruzeiros a saca. O Cerne passava por boa fase. As família dos
irmãos cresciam em números de filhos e todos moravam ainda no sítio. Os
períodos de colheitas de café eram verdadeiramente festivos. No mês de julho,
vinham os parentes de São Paulo e havia muita alegria.
Foi num domingo, 16 de julho, que o Brasil perdeu a Copa do Mundo
disputada aqui. Uma tristeza muito grande e uma raiva maior ainda.
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O ano de 1951 teve acontecimentos importantes. Em julho, casou-se a
Izabel com o José Bernardino, filho do tio Carlos. Uma vez casados, foram
mora em Bela Vista. Fernando, por sua vez, foi morar em Santo Antonio (hoje
Pitangueiras), dando início à exploração do sítio que comprara anos antes.
Avizinhava-se com o Antonio Almeida, filho do tio Manoel. O café já estava
plantado e em vias de formação. Urgia que fosse cuidar do que era seu. Mas
não ficou nisso. Também o Daniel mudou-se para uma das fazendas do sogro,
na Água de Vergonta, município de Bela Vista. Eram os primeiros indícios de
que o sítio ira despovoar-se dos irmãos. Ficavam nas casas vazias as marcas
da solidão.
Em 1952, as floradas dos cafezais faziam prever colheitas abundantes, o
que realmente aconteceu. O preço foi bom: 330 cruzeiros a saca.
Nesse ano aconteceu o casamento do José com a Judith Calheiros de
Mello, em São Paulo, onde ela morava até então. Vieram morar no Cerne, na
Casa Grande, onde a mãe estava realmente sozinha. Continuou o José a dirigir
a propriedade, mister que cumpriu até mudar-se para Sertanópolis, uns bons
anos mais tarde.
Nova geada forte, em 1953. Estragou bastante os cafezais. Sorte tiveram
aqueles cujos cafezais não foram atingidos, pois, nos anos seguintes, sendo as
colheitas pequenas, os preços subiram às nuvens, razão pela qual muitos
privilegiados ascenderam ao patamar da riqueza. Azar de uns, sorte de outros,
no fundo, a vida é uma eterna loteria.
Mas tudo continuava bem. Naquelas épocas, os prejuízos eram
recebidos com muita resignação. Ninguém mudava de atividade, Permaneciase ali, lutando por dias melhores, que seguramente viriam.
O ano de 1954 foi marcado mais por fatos de fora. Principalmente para
o pessoal do Cerne, muito ligado a São Paulo, que naquela ocasião
comemorava o Quarto Centenário. E era isso o que mais se comentava. As
músicas de sucesso era as que se referiam ao acontecimento.
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1955. Ano prodígio em fatos dignos de registro. A lavoura de café se
havia recuperado e dava a maior carga já vista, mas, por azar, repetiu-se a
geada, desta vez em julho. Foi um ano muito frio, sem dúvida. Mas dava para
prever que os estragos não seriam tantos como das outras vezes.
Concluiu-se a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, toda em pedra e
alvenaria, perto da venda co Cerne. No lugar da capela de São Sebastião,
construiu-se uma pequena ermida para a guarda das imagens. Deve-se
registrar aqui um fato muito importante: todos os anos, desde o desmanche da
antiga capela até a sua reconstrução, jamais se passou o dia 20 de janeiro (Dia
de São Sebastião) sem que ali aparecessem alguns dos seus devotos a fim de
rezar em seu louvor.
O Mário, que desde 1945 estudava em São Paulo, mudou-se para
Curitiba, onde ingressou na Faculdade de Medicina da Universidade Federal
do Paraná, iniciando uma nova etapa na vida de estudante.
Foi também uma época de grande progresso na região de Sertanópolis,
comprovado por certos acontecimentos. Um deles era a descida de aviões de
carreira no aeroporto da cidade. Aviões da Varig e da Real ligavam-na a
Curitiba e a São Paulo. Quem diria!
A estrada vermelha do Cerne era percorrida por quatro horários de
ônibus e estes não andavam vazios.
Foi em 1956 que surgiu a praga da broca no café da região, determinando a decadência da qualidade do produto e, conseqüentemente, a queda nos
preços. Vai daí que muitos proprietários, desanimados, venderam os sítios e se
mudaram para as novas fronteiras do sertão ou simplesmente foram morar nas
cidades próximas. E o Cerne começava a trocar de moradores, bem como de
culturas. O café deixava de ser o esteio. Surgiam as plantações de algodão e
trigo, abrindo caminho para a soja, que mais tarde viria a tomar conta de tudo.
Mas o café ainda era o sonho de muitos. De fato, em 1957 as lavouras de café
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recuperaram-se da geada de 55 e da praga da broca. Houve uma boa colheita e
os preços foram bons.
Nesse ano, realizava-se a primeira festa de Nossa Senhora de Fátima,
junto à nova capela. Foi um sucesso, O saldo da quermesse proporcionou a
compra de um motor a diesel, com o qual se iluminou toda a área. Também se
adquiriu equipamento de som novo, com alto-falantes potentes, que passaram
a animar a festa. São Sebastião estava esquecido!
No ano de 1958, casava-se o primeiro neto de Aurora, o Zezinho, filho
de Fernando. Iniciava-se assim uma nova geração na família dos Almeidas.
No Cerne, os acontecimentos desenrolavam-se a contento. As festas ao
redor da Igreja eram animadas e atraíam gente de todas as localidades vizinhas
e das cidades também. O surto de ânimo atingiu o quadro de futebol do Cerne.
O Luso estava forte e jogava quase todos os domingos, ganhando com
facilidade a maioria dos jogos.
O ano de 1959 surpreendeu a todos, presenteando os donos do sítio com
uma boa colheita de café. Mas isso não alterava o ritmo dos acontecimentos:
O Cerne continuava a assistir a fuga dos seus moradores mais antigos. Perdiase assim a característica original da povoação – marcada pela presença das
famílias portuguesas. Enfim, nada na vida é definitivo. A exemplo disso, o
Carlos mudava-se, tomando o rumo de Bela Vista. Mais uma casa vazia no
sítio, mais uma saudade.
Em 17 de dezembro de 1960, diplomava-se o Mario no curso de
medicina. Era o primeiro rebento do Cerne a obter um diploma de curso
superior. Mas a seqüencia desse acontecimento estava marcada para o início
do ano seguinte. Em 6 de janeiro de 1961, dona Aurora Almeida comandou a
grande festa da formatura do filho mais novo. Não era, na verdade, uma festa
em homenagem a ele, e sim a ela e aos outros filhos, que tanto lutaram para
vê-lo formado. E nesse dia de tantas chuvas, acorreram à Casa Grande cerca
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de 800 pessoas, vindas de todas as partes. Foram churrasqueados dois bois e
consumidos 30 barris de chope.
Em julho de 1962, casava-se o último filho da família, o Mário. A
cerimônia foi realizada em Curitiba, e a noiva era Maria Sueli Caressato.
Ficaram morando definitivamente na capital.
Em dezembro do mesmo ano, o Américo sofria um acidente cardiovascular, do qual se recuperaria às custas de muitos tratamentos. Por
verdadeiro milagre ainda voltaria a trabalhar por mais 15 anos.
1964 foi um ano marcado por fortes e persistentes chuvas. Os rios
apanharam enchentes jamais vistas. Raras foram as pontes que ficaram sobre
eles. O Cerne ficava isolado das cidades vizinhas, vivendo por algum tempo as
condições primitivas dos tempos de colonização.
Nesse ano morrida de tétano o Braz, filho do Paulo e da Antonia. Foi
uma enorme tristeza, pois ela já era grandinho, muito dócil e meigo.
O José Mudava-se para Sertanópolis, e a Antonio vinha vindo morar na
Casa Grande. Ainda nesse ano, também deixava o Cerne o João, indo morar
no sítio de sua cunhada Marcelina e, logo depois, em Sertanópolis.
Em 1966, o Cerne já não era o mesmo. A população e a produção
haviam diminuído e só restavam dois horários de ônibus. O sítio dos Almeidas
perdia a sua feição. Os cafezais ficavam lá pelas partes mais altas, e as
pastagens iam tomando conta das áreas de difícil mecanização por causa das
pedras.
Mesmo com os cafezais já enfraquecidos pela idade, em 1967 houve
uma colheita regular. Mas todos sabiam que, naquela região, o fim da cafeicultura e a invasão da soja eram favas contadas. E isso já ia acontecendo.
Muitas propriedades iam modificando sua paisagem, caminhos sumiam,
colônias eram arrasadas, campos se emendavam e unificavam no trabalho das
máquinas. As antes desprezadas baixadas eram agora procuradas ansiosamente e destinadas ao plantio do trigo e da soja.
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Em 1968, falecia o tio Carlos Augusto Domingues, com 83 anos de
idade, após infindável sofrimento. Era mais um baluarte do velho Cerne a
tombar. Nesse ano, a Aurora também completava 83 anos, e em homenagem a
ela, fez-se uma festa com a reunião dos filhos e mais 60 netos e 16 bisnetos.
Em 1977, falecia o Américo, no limiar dos 70 anos. Graças à sua
memória prodigiosa e ao seu espírito de observação, foi possível coligir todas
essas informações. Pessoa humilde e sem ambições, passou pelo mundo
deixando atrás de si um rastro de admiração. Não pela riqueza, que morreu
pobre, mas pelo espírito altamente cristão. Uma figura humana ímpar. Quem
não o conheceu por certo deixou de ter a oportunidade de saber o que é um ser
humano puro.
Em novembro de 1982, falecia a Aurora Almeida, aos 97 anos, após um
longo período de doença, que lhe roubou os movimentos e a agilidade de
espírito. Com ela perdeu-se o que de mais precioso havia na família dos
Almeidas: o mais importante elo a ligar o presente com o passado e a fonte de
informações a respeito das pessoas que o habitaram. Talvez não tenhamos
sabido aproveitar essa fonte, o que é uma pena, pois ela estava, enquanto
sadia, sempre disposta a contar histórias!
Observação: dois cadernos pequenos de espiral, escritos de próprio
punho do Américo, foram a principal fonte de referência para a composição
deste relato. Algumas conversas com a mãe, Aurora, enquanto lúcida,
forneceram informações sobre fatos que clamavam por mais enfoques. É
pouco. Todavia, dá para ter uma idéia deste tronco familiar, que já completou
dois séculos, e de suas raízes e ramificações. Não se continuou o histórico
pelo falecimento dos dois principais artífices dele: Aurora e Américo.
60
Notas finais
Em 1988 – ao findar o ano – realizou-se o primeiro grande encontro da
família, ou seja, dos descendestes de Aurora e José Manoel Almeida. O local
foi o terreirão da Casa Grande do Cerne. A chuva forte da noite causara
bastante aflição entre os organizadores do evento, mas o dia rompeu limpo e
com o sol brilhante – que alívio!
A reunião começou na capela de Nossa Senhora de Fátima, com uma
cerimônia singela e comovente. O afluxo era grande, fazendo prever a
presença de 300 pessoas. Dali dirigiam-se todos à Casa Grande, a alegria
estampada nos rostos.
Ainda estavam presentes nove filhos do casal: sete irmãos e duas irmãs:
O Daniel, o Fernando, o Francisco Manoel, o Carlos, o João, a Antonia, o
José, a Izabel e o Mário.
Foi um dia mágico a escoar-se rápido entre emoções, abraços, risos e
recordações. Quando se percebeu, chegara a noite, e, com ela, começaram as
despedidas – não menos emotivas.
Em 1991, deixava-nos o Francisco Manoel, após triste período de
doença, que o limitou à cadeira de rodas. Manoel, um quase pai de todas as
crianças do Cerne. Não tivera filhos, mas as crianças o amavam como se pai
fosse.
Em 1993, era a vez de Daniel, também após anos de alienação e
sofrimento. Difícil pensar no Cerne dos tempos idos sem pensar no Daniel, o
“mais velho da turma”, como costumava ele mesmo denominar-se.
Depois, o Fernando, em 1994. Lúcido até o fim, deixou atrás de si uma
aura de desbravador destemido. Deixou também uma descendência
respeitável. Quanto me lembro das idas, junto com ele, ao sítio no Santo
Antonio, hoje Pitangueiras, quando ainda sequer havia mudado. Tombou
como pinheiro secular, abatido pelo tempo.
61
E agora, no limiar do ano 2000, estamos sonhando e preparando outra
reunião de família. Não obstante a falta que nos fazem aqueles que se foram,
ela acontecerá com o mesmo entusiasmo e a mesma alegria da anterior.
A família Almeida tem passado, tem presente e terá muito futuro. Não
nos cabe chorar os que nos deixaram. Cabe-nos, isto sim, glorificá-los pelo
que significavam. Eles estão presentes nos seus filhos, netos e bisnetos. Mas,
acima de tudo, estão sempre presentes nas nossa mais belas e gostosas
recordações.
Curitiba, janeiro de 1999.
62
Genealogia da
Família Almeida
63
Francisco Manoel de Almeida
(1800-1870) – Agrochão
1825
João Baptista d‟Almeida
(1839-1909) – Agrochão
1830
Maria Thereza Pereira
(1836-1899) – Agrochão
1861
José Bernardino Poças
(1862-1944) – Lamalonga
1858
Thereza de Jesus Teixeira
(1859 – 1896) – Lamalonga
Joanna Antônia Rodrigues
(1800-1868) – Cernadela
Francisco Afonso Pereira
(1801-1870)* – Agrochão
Anna Maria Pereira
(1805-1871)* – Vila Nova
Francisco Manoel Poças
(1832-1864)* – Lamalonga
Mariana Joaquina Affonso
(1834-1925) – Lamalonga
Domingos Teixeira
(1831-1901)* - Fornos de Ledra
Maria Benedita Teixeira
(1835-1895)* – Lamalonga
Observação:
Temos ainda pesquisas em andamento que nos apontam datas bem
mais distantes. Em algumas linhas familiares já chegamos ao
ano de 1725.
* Datas aproximadas
64
Daniel Amadeu
09/12/04
F
A
Américo Augusto
18/05/07
Maria José
20/04/09
F
A
12/02/1870
F
A
José Manoel Almeida
(1882-1945) – Agrochão
Fernando Antonio
30/05/11
Antonia
Izabel Maria
Manoel Antonio
Tereza de Jesus
20/11/13
F
A
10/05/03
Carlos Augusto
02/09/18
F
A
João Baptista
21/08/21
F
A
06/12/1884
F
A
Francisco Manoel
10/07/16
Antonia dos Anjos
05/09/23
Aurora da Piedade Poças
(1885-1982) - Lamalonga
Maria Ressurreição
José Bernardino
25/10/25
Izabel Aparecida
10/09/28
F
A
Mário Braz
24/07/32
65
Francisco Manoel de Almeida
(1800-1870) – Agrochão
1825
João Baptista d‟Almeida
(1839-1909) – Agrochão
1830
Maria Thereza Pereira
(1836-1899) – Agrochão
Joanna Antônia Rodrigues
(1800-1868) – Cernadela
Francisco Afonso Pereira
(1801-1870)* – Agrochão
Anna Maria Pereira
(1805-1871)* – Vila Nova
Francisco Manoel Poças
(1832-1864)* – Lamalonga
Mariana Joaquina Affonso
(1834-1925) – Lamalonga
Domingos Teixeira
(1831-1901)* - Fornos de Ledra
Maria Benedita Teixeira
(1835-1895)* – Lamalonga
Observação:
Não foram pesquisadas todas as datas
* Datas aproximadas
66
F
A
F
A
Amaro Antonio
12/02/1870
F
A
José Manoel Almeida
(1882-1945) – Agrochão
Eleutério
Antonia
Izabel Maria
Manoel Antonio
João Baptista
F
A
1900
F
A
José Domingos
Patrocínio
Fernanda
F
A
Maria do Espírito Santo
Agrochão
Ermelinda
F
A
Ana
F
A
67
Casal José Manoel Almeida e Aurora da Piedade Poças
Daniel Amadeu Almeida
Fernando Antonio Almeida
68
Américo Augusto Almeida
Maria José Almeida
Tereza de Jesus Almeida
Francisco Manoel Almeida
69
Carlos Augusto Almeida
João Baptista Almeida
Antonia dos Anjos Almeida
José Bernardino Almeida
70
Izabel Aparecida Almeida
Mário Braz de Almeida
Os oito filhos homens (1941)
71
As quatro filhas, junto com Aurora (1929)
Izabel, Antonia e Maria José (1942)
72
Aurora junto com José, Américo e Izabel (1944)
Aurora junto com Francisco, Américo e Mário (1945)
73
Izabel, Aurora e Mário (1947)
Mário, João, Carlos, Antonia, Izabel e José (1998)
74
Reunião de família (1965)
Reunião de família (1980)
75
Reunião de família (1988)
Casa dos Almeidas – Agrochão, Portugal (época atual)
76
Casa onde nasceu Aurora – Lamalonga, Portugal
Casa Grande do Cerne – década de 60
77
Igreja Matriz de Agrochão, onde foi batizado
José Manoel Almeida
78
Igreja Matriz de Lamalonga, onde foi batizada Aurora
e onde se casou com José Manoel
79
A função do fular – a caminho do forno
80
Mário Braz de Almeida
2
O Cerne
81
82
O Cerne é um rio. Talvez um lugar. Ou então, quem sabe – um tempo.
“Vamos para o Cerne” – diziam em casa – lá em São Paulo, nos
preparativos de viagem rumo ao Norte do Paraná, que fatalmente terminaria
na casa de algum parente do Cerne.
Saudosos dos anos idos, muitas vezes se larga no meio de uma conversa
de expressão “nos tempos do Cerne”... e as recordações se sucedem num
verdadeiro torvelinho.
Mas o Cerne mesmo começou como um ribeirão, denominou um bairro
e, para os que ali viveram, é toda a área do seu vale e ainda mais: um tempo
ido e muito bem vivido.
Um rio que a irreverência do Seu João Fernandes, que Deus o tenha,
um dos pioneiros da região, quase mancha um nome bastante impróprio:
“Lavacu”. Explica-se – ele surpreendera um dos picadeiros a tomar banho
nas suas águas cristalinas de então nu em pelo.
Rio Cerne, ribeirão do Cerne (como nas escrituras), bairro do Cerne,
tempos do Cerne... São, na verdade, as dimensões de uma definição de
felicidade.
E por falar em Cerne...
83
84
I . Cerne – O Rio
O Cerne é um ribeirão de pequena importância geográfica, afluente da
margem esquerda do rio Tibagi. Nasce nos altos da Fazenda Paraíso, próximo
à cidade de Bela Vista, e corre no sentido oeste-leste, tangenciando
Sertanópolis, ano norte e indo morrer no Tibagi, hoje represa do Capivara.
Ao nascer, o Cerne toma o sentido nordeste, tendo à esquerda a estrada
que une Bela Vista a Sertanópolis. Mas logo, ao cruzá-la passa a correr
paralelo a ela, ora se aproximando, ora se afastando. Uns 300 metros após esse
cruzamento, recebe as águas do Vaivém – nascido na face norte de Bela Vista.
Talvez um quilômetro abaixo, nele desembocam as águas do córrego da
Fortuna, outrora – há muito tempo – ocupado por um moinho de fubá:
paisagem paradisíaca aquele pontal formado pelos dois rios... Quase que sem
espera, outro afluente, por coincidência também do lado esquerdo, a Furna,
vinda lá dos altos do sítio do tio João Fernandes. Mas dali em diante, por
alguns quilômetros, apenas as chamadas “aguinhas” (riachos permanentes)
engrossam-lhe o leito.
Lá pelos dois terços do seu curso, o Cerne recebe dois importantes
reforços: primeiro, pelo lado esquerdo, o rio Água Morena e, pouco adiante, o
mais importante de todos, o único afluente do lado direito – o rio Mambuca,
turbulento e valente nas suas famosas enchentes. Daí para frente, desliza
tranquilamente até o Tibagi.
Apesar da modéstia, o Cerne engana muito. Sua mansidão esvai-se de
repente, nos fortes aguaceiros da primavera ou do verão, mormente se a terra
já estiver molhada por chuvas anteriores. É vê-lo e pasmar. Ele se avoluma,
ruge, sai do leito natural, inunda várzeas, arranca árvores e pontes, arrasta
animais após invadir currais e pastagens. Bate com estrondo nos paredões de
pedra, veloz, buscando novos rumos – de preferência as retas – num
espetáculo de violência inusitada.
Depois volta à calma. Da enchente restam apenas vestígios: capins e
arbustos deitados à margem, soterrados em parte por lodo, chumaços de cisco
85
nos galhos do arvoredo, balizando a altura atingida pela cheia. As águas
barrentas, vermelhas como zarcão, aos poucos clareiam, a paisagem se
recompõe e, em vez do rugido e do estrondo, volta-se a ouvir apenas o
cantarolar das suas corredeiras – fluindo entre a vegetação verde-escura, restos
de mata virgem, capoeirões, ou ainda pastagens que se debruçam sobre ele.
Bandos de borboletas multicoloridas, pássaros em trinados alegres, cigarras
cantando... Novamente é o Cerne que todos conhecem e amam.
O rio tem encantos e desencantos. Pelo menos para mim, o seu maior
encanto talvez seja o de unir, em recordações, o passado ao presente. Os fins
de tarde passados à sua margem, em pescarias duvidosas, não tem idade. São
uma eterna repetição. Os desencantos lhe são conferidos pelo mau gênio, a
turbulência das enchentes – lesando, destruindo, desservindo.
A pinguela que uniria nosso sítio ao do tio Zé Gabriel é uma história
que ilustra muito bem a coisa. Uma peroba enorme foi abatida, lavrada
cuidadosamente e arrastada ao local previamente escolhido.
A rapaziada conseguiu o máximo: colocá-lo entre dois altos barrancos
sobre uma corredeira, lá em cima, apoiada – lado a lado – em troncos de
árvores ali plantadas desde sempre. Tinha até um beiral a bendita pinguela!
Projetada como coisa definitiva, teria de dar segurança também a criança e
mulheres. Assim pensavam seus arquitetos. A inauguração, à noitinha, foi
ruidosa, com vivas, tragos e gargalhadas.
Pois bem, naquela noite choveu. Digo mal. Choveu de início. Depois,
entre sucessivas trovoadas, a água despencava-se do céu aos baldes. Parecia o
fim do mundo. E assim foi a noite inteirinha. Pela manhã, ouvia-se o Cerne
rugindo, bravo. E a notícia veio pelo José, a quem a curiosidade mais aguçara.
Foi logo cedinho ver o rio, voltando como um raio para informar que a
pinguela tinha rodado, a enchente arrancara uma das árvores de apoio e levara
tudo embora. E mais: o rio tinha vazado para a várzea, fazendo um imenso
lago. Eis a história da passagem que menos tempo durou sobre o Cerne!
86
II . Cerne: caixa de retratos
1. Onde, quando e quem...
Às margens do cerne formou-se, nas décadas de 20 e 30, um núcleo de
colonização que teve peculiaridades dignas de registro. É bom que se
esclareça que, antes dessa colonização, tais paragens foram densamente
habitados por índios, conforme atestam vestígios ainda hoje encontrados:
cacos de cerâmica, instrumentos de uso domésticos e de caça.
Pois, bem, entraram ali nesse vazio deixado pelos índios perto de 40
famílias ligadas pela mesma origem – Portugal – e por terem percorrido os
mesmos caminhos no Brasil: São Paulo, Mogiana e Alta Paulista (Duartina e
adjacências). Era, portanto, uma comunidade com muitos traços comuns,
vivendo agora a experiência do pioneirismo à boca do sertão. Comunidade
semelhante formou-se do outro lado do espigão, no vale da Mambuca.
As distâncias, a dificuldade de locomoção e as opções de trabalho
voltadas ao domínio e à exploração da terra uniram essas famílias em nível de
relacionamento incomum. Os conceitos de amizade, respeito, solidariedade e
amor tiveram ali a materialização em obras e acontecimentos inesquecíveis.
Todas eram famílias grandes, como convinha ao pioneirismo. Contudo,
predominava a força da juventude, impregnando aqueles árduos tempos com o
tom do otimismo. Por outro lado, os velhos davam ao viver um colorido
especial, com o seu toque lusitano incorruptível e com filosofia de vida
sedimentada ao longo de muitas gerações estagnadas no seu chão de origem.
Era um rol interminável de tios: tio Manoel, tio Loução, tio Pulinhol, tio
Aniceto, tio Março, tio Germano, tio Zé Gabriel, tio Pisoeiro... e pelo amos de
Deus, não sei quantos outros “ tios” pousaram suas mãos rústicas sobre a
minha cabeça inocente.
Ainda hoje se contam as histórias do Cerne. Dos velhos e dos jovens de
então. Recordar é como espantar um banho de borboletas pousadas, imóveis
sobre o chão vermelho do passado. É seguir cada uma na revoada... Daria
muito o que falar e escrever, mais ainda ficaria muito por ser recordado.
87
Era eu muito criança quando saí do Cerne para os estudos. Mas, mesmo
assim, muitas coisas me ocorrem por ter assistido ou ouvido. E mais – ainda
hoje ouço casos que me são absolutamente inéditos. Incrível como o Cerne era
pródigo em acontecimentos: bailes, festas, jogos, casamentos, mutirões,
destalas, fatos risíveis ou comoventes, brigas e pazes. Enfim, a vida fervilhava
nesse ermo do mundo em que tudo se supunha – menos que o progresso ali
chegasse um dia.
2. O Início
Nos anos trina, o Cerne progredia vagarosamente. O país passava por
crises políticas e institucionais que geravam apenas a incerteza. O que se
produzia não tinha preço e que se precisava – vindo de fora – faltava. A
cidade, ou melhor, a vila de Sertanópolis, mais parecia um arranchamento de
índios, tal a pobreza das edificações e a precariedade que se vivia ali. Tinha-se
a impressão de que um grande erro fora cometido ao vir morar em tal fim de
mundo. Pelo menos assim pensavam os mais sensatos.
Mas a força da juventude não leva as crises em conta. O tempo ocupado
com o trabalho não dava a margem a pensamentos negativos. O que contava
era a generosidade com que a terra gratificava seus trabalhadores. Nunca se
vira tanta fartura. E as famílias cresciam, deitavam raízes e se adaptavam ao
solo vermelho do Cerne. Num segundo plano, desenvolvia-se a convivência na
qual a amizade e a solidariedade eram os elementos estabilizadores. Havia
pobreza, certo. Mas havia fartura e satisfação. Isso bastava.
3. “É festa?”
Enquanto a terra ia sendo conquistada e os cafezais iam sendo plantados
(entendia-se que as primeiras colheitas só surgiriam quatro anos depois),
desenvolvia-se paralelamente a cultura do fumo, cujas safras tinham
realização anual.
Vale a pena a gente se deter num detalhe dessa cultura: o processamento
do fumo incluía uma função no caráter noturno - a destala – que excedia o
conceito de trabalho. Era uma festa!
88
O ritual era sempre o mesmo. As folhas de fumo enfeixadas eram
superportas em forma de quadrilátero no centro da sala. O pessoal da
redondeza era avisado no dia: “Hoje tem destala na casa do tio Carlos”. Ou
assim: “O pai mandou dizer que a destala de hoje é grande, mas é a última – a
da rosca!”
A comunicação implicava na presença. E todos iam ajudar a destalar o
fumo sob a luz mortiça de lampiões de querosene ou de lamparinas
fumarentas. À chegada, as apreciações: “Vai dar seis paus”, “Antes da méis
noite não termina”, “: Fumo macaio; ruim de destalar”. Não sei por que, mas
a denominação que se dava àquele montão de folhas de fumo era “vaca”.
Assim, muitas vezes ouviam-se referências como estas: “A vaca é grande, mas
com toda esta gente a destalar não dá para o cheiro”ou “Eta vaca dura de
terminar, credo!”
Algum tempo depois do início da função, começavam a recolher as
folhas destaladas, dobradas e apostas cuidadosamente sobre os hoelhos dos
destaladores. Só então entravam em ação os cochadores ou fazedores de
cordas de fumo. Ficavam eles sentados numa banqueta, tendo entre as pernas
abertas feixes de folhas destaladas. À sua frente, a figura patética do
combiteiro a girar o cambito, passos lentos, de costas, torcendo as folhas que
ele ia apondo, sucessivamente... E a corda ia crescendo, crescendo. Quando o
cambitediro transpunha a porta da cozinha, dava o aviso de que era hora de
recolher a corda. E nesse vaivém, a onda na sala crescia, como cresciam os
montes de talos, as conversas e as chacotas. Café e fatias de pão eram
servidos. Crianças dormiam pelos desvões, ausentes das gargalhadas e das
discussões que a toda hora eclodiam.
Por fim, a vaca terminava. Não havia mais folhas a destalar, ficando o
estrado vazio. Sobre ele colocava-se uma enorme bacia com água morna e
sabão para que todos lavassem as mãos pretas do melaço de fumo. Só o
cochador e o cambiteiro continuavam suas lidas por mais algum tempo.
Aí, a peneira de pão ou rosca, chocolate fumegante, que as destalas
eram feitas no inverno e o frio reinava. Depois, o rumo de casa. Ficavam no
local apenas os talos e o monte de cordas enoveladas, as cochas.
89
No dia seguinte, pela manhã, fazia-se o cordão, em que se traçavam as
cordas de fumo. Entravam nesse jogo as crianças e as mulheres, bem como
alguns homens, os mais entendidos nesse mister. Lembro-me daquela
engenhoca grotesca, o bacamarte, onde se enrolava o produto final de uma
destala. Do bacamarte, o cordão era transferido para sucessivos “paus”de
fumo. Só então se sabia quantos paus haviam sidos destalados na véspera.
4. Coisas do Daniel
“O Daniel recolheu apressadamente a última corda de fumo. Lavou as
mãos na água escura, onde todos já se haviam lavado, e enxugou-se numa
toalha obviamente molhada. De pé, retesou o corpo, mãos à altura dos rins,
dando a entender que a sua tarefa de conchador fora a mais cansativa. Logo
vieram oferecer-lhe uma xícara de chá quente, gostoso: “Toma lá, rapaz, para
se esquentares...‟ Porém, a meio caminho dos lábios, ficou só com a as na
mão. O resto despencou. Num átimo, reflexo de pura cólera – muito própria
dele – antes que caísse no chão, golpeou a xícara com um chute sensacional,
escaquilhando-a contra a parede, ante os olhares incrédulos da rautice. A
explosão de gargalhadas foi imediata, seguida de gritarias e palmas, ninguém
ouvindo os impropérios que teria dito... Quando se deram conta, o Daniel já ia
longe na noite escura – sozinho – em direção à própria casa. Mais, tarde,
sempre que esta fato era remomerado, ele fechava a cara, ruminava palavras
surdas e inaudíveis, saindo do foco dos comentários.”
5. Funções das crianças
A molecada tinha ocupações diversas durante as destalas. Os mais
ajuizados eram escolhidos como cambiteiros. Era uma tarefa atraente, todos
queriam ser... Mas, ao ouvir o alarido, lá fora, dos que brincavam de esconder
e que, nas noites de luar, chegavam a jogar bola, dava vontade de largar o
cambito e assumir os folguedos da malta. Outros eram ainda incumbidos de
tarefas domésticas: moer café, lavar o coador na bica, buscar água com os
baldes, para ferver e ser usada quente no fim da função. Alguns maiorzinhos,
além de destalar, eram destacados com a função de recolhedores de fumo
90
destalado e tinham de levá-lo até os cochadores. Após algumas horas 0 como
já disse 0 todos cabeceavam de sono pelos cantos. Só os cambiteiros
maldiziam a sorte. A passos lentos e obstinados, de costas, passados de sono,
sonhavam já com as atividades do dia seguinte: arapucas, zorras na escola,
pescarias e sei lá o que mais. A fantasia infantil era tudo nesse transe,
despertando às vezes para as conversas dos adultos, por onde iam passando
lentamente.
6. Ordem indireta
A destala era grande e os destaladores se espalhavam pelos bancos da
sala, da cozinha e da despensa. Conversa animada e a noite avançando. Frio lá
fora, pleno mês de julho. O tio Março se instalara ao lado do fogão. Ali havia
calor e café fresco quando quisesse. Claro que dessa forma a sua tarefa seria
mais branda. Contudo não reparou no fumeiro suspenso sobre a sua cabeça,
onde roliços salpicões curavam na fumaça do fogão de lenha, respingando
com as gorduras eliminadas o seu chapéu, manchando-o todo (o figura
destalava com o chapéu na cabeça, dentro de casa, vejam só...). No fim da
destala, quando a rapaziada deu pela coisa, foi um sarro geral. E ficou nos
anais do Cerne o comentário do tio Março: “É... É... tinha um salpicão lá onde
eu estava dependurado...” Mais risadas.
7. A conversa dos adultos...
Ainda me lembro e muito bem do quanto se falava da Segunda Guerra
Mundial. Os nomes de Hitler e de Mussolini eram citados mil vezes e eu
ficava a cismar se a guerra não chegaria também ao Cerne. O padrinho Loução
era o espírito crítico e, sim senhores, o mais mordaz de todos os patriarcas que
geralmente ficavam a destalar na cozinha. Ele comentava as notícias, discutia
e criticava as atitudes dos altos comandos das batalhas da Europa e do Norte
da África. Os outros ouviam, mas aparteavam discretamente. Meu pai e o tio
Carlos também estavam sempre a par dos fatos, pois liam todo santo daí “O
Estado de São Paulo”. É verdade que o jornal chegava ao Cerne com um
atraso reguladíssimo de três dias. Se chovesse, a correspondência poderia ficar
91
retida em Ibiporã por diversos dias. Então o mundo deixaria de ter novidades,
pelo menos ali no Cerne. A guerra estacionava, as armas estavam
ensarilhadas. E os velhos ficavam mais silenciosos.
8. Castigo
As destalas do Antonio Almeida eram de amargar. Geralmente a vaca
era enorme e, se não bastasse, no fim ainda se tinha de fazer o cordão,
madrugada adentro – com o sereno a orvalhar a cabeça de todos. Verdade seja
dita, a mão-de-obra de que o Antonio dispunha em casa era escassa – uma
miuçalha abaixo dos sete anos e a mulher... Isso nem todos entendiam, mas
fazer o cordão da noite era dose.
Foi numa dessas destalas que o tio Lagoa (um figuraço), prevendo a
necessidade de calorias suplementares para suportar a longa jornada, a cada
trique berrava para a cozinha: “Chicolaaate!” A Conceição não deixava de
atendê-lo. E assim foi ele, ao longo da noite, consumindo xícaras sucessivas
de chocolate quentinho. Miséria não havia ali. Parecia que o mundo ia acabar
e o último desejo do tio Lagoa era morrer afogado em chocolate. Seguramente
exorbitou. Tanto assim que, no fim da destala, o intestino já reagia e ele era
obrigado a ir a campo diversas vezes, ante a gozação da turma: “O Lagoa está
com a esfoura!” Ficou ruim o homem. Doente de cama nos dias seguintes,
com cãibras de sangue e tudo. Mas recuperou-se, claro, e voltou a todas as
atividades da comunidade.
Já na próxima destala, lá estava ele empertigado a destalar, silencioso,
ante a curiosidade de todos. Curiosidade que não foi frustrada, ois lá pelas
tantas, mãos em concha frente à boca, em vez de pedir chocolate, berrou para
a cozinheira: “Chá da Índia!”
O tio Lagoa dava a volta por cima mais uma vez e marcava a presença
com o seu senso de humor. Um homem singular, típico lusitano de Leiria,
cheio de modismos lá da sua santa terrinha e cuja presença, em qualquer
evento do Cerne, era sempre bem recebida, pois junto dele o imprevisto era
sempre o que de melhor se podia esperar.
Chá da Índia, vejam só. Não sei se foi atendido. Mas o fato é que
92
assimilara a lição de que diarréia se trata com chá e torradas.
9. A colaboração das mulheres
As mulheres se dedicavam aos afazeres da cozinha. Eram as rodadas de
café ou chocolate, de pão cortado... Na última destala ofereciam a famosa
rosca, que as prendia à boca do forno boa parte do dia. Mas os elogios
compensavam: “Eita cafezinho gostoso” ou “O chocolate está uma delícia”,
ou ainda “A rosca está boa demais, gente”.
Nem por isso elas se eximiam da responsabilidade geral: destalavam, e
muito bem, sempre que podiam. Pela manhã, ainda eram elas que ajudavam a
fazer o cordão, sem protestos.
O fumo possibilitou a compra da nossa propriedade no Cerne. E, nisso,
muitos ajudaram sorrindo.
10. Violão, cavaquinho e bandolim
Entre as mais distantes recordações da infância no Cerne, ressaltavam
algumas que são de ordem auditivia: o tilintar dos bandolins e dos
cavaquinhos sobre o fundo sonoro de primas e bordões de um violão. Existia
no Cerne algum conjunto musical? Existia, sim, e de qualidade.
Nos seus áureos períodos, esse conjunto teve como figura central o
famoso João da Mata, violinista e cantor. Acompanhavam-no o Carlos,
violonista, o Guilherme Vaz, ao bandolim, e o Cristóvan ou o Alcides, no
cavaquinho. Era o João da Mata o chefe do conjunto. Montava o repertório,
ensaiava, produzia arranjos e ensinava elementos de teoria musical aos
companheiros. Oriundo de São Paulo e sempre alongado da família,e Ra a
encarnação do espírito boêmio. Boa cabeça, conhecia uma infinidade de
composições da época, passando por Orlando Silva, Sílvio Caldas e Francisco
Alves e destes aos primitivos da música romântica com uma vivacidade de
fazer inveja. Tudo isso era bem conhecido nas grandes cidades, mas nessa
época o rádio ainda não chegara ao Cerne. A bem da verdade, o primeiro rádio
só foi aparecer no Cerne em 1946.
A voz do João da Mata era linda. Na cidade de São Paulo, onde
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participava de serestas, tentaram levá-lo à Rádio Piratininga, onde trabalhava
um amigo seu que lhe garantia participação no cast da emissora – e com
remuneração. Não quis, argumentando que aquilo não era profissão de gente e
sim de vagabundo. Quando o pai veio de mudança a fim de trabalhar no
Cerne, instalou-se com a família no sítio do tio Zé Gabriel. Mas João da Mata
não criou ali raízes, empregando-se como camarada no nosso sítio.
E tudo o que sei dele é desse período em que ali morou. As reuniões
musicais, nos dias de semana, aconteciam à noite, na tulhinha – onde
ensaiavam. Por vezes, instalavam-se na varanda da Casa Grande e ali davam
longos e incríveis espetáculos de sutileza musical. Nos domingos à tarde, caso
não houvesse outras programações no bairro, o conjunto se reunia e
enfeitiçava as tardes do Cerne com a sua harmonia. E de nada mais me
lembro.
Um dia, João da mata mudou-se para outras paragens e o conjunto
perdeu a sua força, a sua regularidade. Depois, a mudança da família do tio
Carlos – que morava ao lado da tulhinha, deixou ali o vazio apenas. Logo a
seguir, o luto pelas irmãs e pelo pai... Era o domínio da tristeza, que subjugava
a todos.
11. Os bailes...
Eu saía da infância para ingressar na adolescência. Freqüentava já, na
década de 40, o colégio interno em São Paulo. Vinha ao Cerne somente nas
férias. Aos poucos, embora raramente, o Carlos foi se reencontrando com o
violão. Tinha agora por companheiro o Antonio Belucci – ao acordeom – e
vez por outra o Zé Almeida, ao cavaquinho. Mas o sentido da prática musical
sistemática fora quebrado, era coisa do passado.
Minha atividade passava a ser outra. Agora ia também aos bailes do
sítio. Eram outras sensações. Despertava para a beleza feminina, o contato
físico do par da dança, os namoros e as frustrações. Pobre criança, quase
homem...
Os bailes ainda sofriam a influência do João da Mata. As velhas valsas
eram a base musical, embora também fossem muito tocadas as marchas e as
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rancheiras. Mais raramente, polcas, mazurcas e até sambas.
Pontificava o Ozório como sanfoneiro. Dizer que um baile seria tocado
por ele era garantia de sucesso, atraindo gente de muito longe.
Caminhavam-se quilômetros até o baile programado, subindo e
descendo as escadas do Cerne, em turmas ruidosas – ouvindo ao longe o som
da sanfona derramando melancolia nas noites de lua.
Os bailes eram acontecimentos singulares, obedecendo a uma ordem
específica de procedimentos. Era tacitamente proibido às damas recusar
qualquer convite de dança: a “tábua” era uma ofensa imperdoável. Não ficava
bem namorar uma boa dançarina e prendê-la ao lado, impedindo-a de ser
convidada pelos outros a dançar. E isso era ótimo, pois ver a própria
namorada, risonha, a bailar nos braços de outro, espicaçava os ciúmes e
acendia as paixões. Lá pelas tantas, e isso acontecia algumas vezes durante a
noite, prendia-se um lenço colorido de mulher na alça do lampião ao mesmo
tempo em que o sanfoneiro – em acordes alegres – anunciava as “danças do
lenço”. Enquanto ali permanecesse o lenço, invertiam-se as iniciativas: eram
as moças que tiravam os rapazes para dançar. Hora da verdade e dos orgulhos
ofendidos.
Quando me lembro dos verdes anos da minha adolescência e dessas
noites imensas, alegres e misteriosas! Ao romper a madrugada, saía-se ao
longo dos caminhos do Cerne, rumo de casa, em cordões alegres, embora
cansados. Casais de namorados, mãos dadas, trocando juras de amor eterno
que talvez não durasse até o próximo baile. Moças alegres, sandálias na mão,
vestidos rodados, vozes cristalinas e as cantigas sempre repetidas: “Ai, ai, ai,
ai, está chegando a hora!”
Chegava-se em casa na hora do café. O resto do dia era modorrar e
comentar os acontecimentos do baile, já planejando o próximo.
Mais tarde as coisas mudaram. Talvez com o passar das gerações e dos
ciclos de influência econômica. A riqueza de muitos, trazida pelo café,
implantou no Cerne os primeiros veículos motorizados: caminhões e
caminhonetes. Assim, o alcance ficou mais amplo, ultrapassando os limites do
Cerne. Outros bairros, onde poucas pessoas se conheciam e onde a fama do
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Ozório não chegara. Em compensação, as moças eram uma novidade total!
Mas cuidado! Os não convidados eram sempre mal vistos e a sua ousadia
poderia dar margem a desentendimentos. Quantas vezes se passava a noite à
margem do baile, sempre do lado de fora, comportadamente, ouvindo a
música, olhando as moças e até flertando com alguma delas. Coisas do tempo.
Bem lembrados, alguns bailes do Cerne ficaram na história. O mais
rememorado e comentado, sem dúvida, foi o do casamento do Fernando com a
Maria Rosa: caótico, festivo, chuvoso, alegre – cheio de perfídias e de
comicidades. Durou a noite inteira, até o sol raiar... Sol que no dia anterior se
esquivara de aparecer, oculto por densas nuvens chuvarentas.
O do casamento do primo Joaquim com a Florinda teve quase os
mesmos ingredientes: chuva etcetera e tal. Também durou a noite inteira e eu
já namorava a Maria Reis. Houve até um abriga entre o João Caetano e o
Danielzinho (que não era flor que se cheirasse) exatamente porque a Maria
deu uma taboa no tal João – quando eu me ausentara do baile – e ele resolvera
engrossar. Quando voltei, o Daniel já tinha acomodado as coisas à sua
maneira. Isto é, o ofendido fora-se embora. E tudo terminou bem, também ao
romper do dia.
Tenho viva lembrança de um baile de Santo Antônio, organizado pelo
Fernando e pela Maria Rosa, no canto do terreiro próximo à casa deles. Noite
fria de junho, mas a animação varou a noite e eu saí do baile diretamente para
a viagem a São Paulo. Triste retorno, tendo ainda nas mãos o perfume da
Maria Reis...
Outro, na colônia do Antônio Abílio, aniversário de José Silva. Também
sob o signo das chuvas. Pouca gente e muita animação. Tinha para mim o
essencial, na época: a Rosinha. Ao longo da noite, o tempo limpou e até a lua
apareceu. A lembrança mais marcante é a Rosinha ao meu lado na caminhada
de retorno, descalça, sapatos na mão. Era a minha namorada, mas vivíamos
brigando. Que loucura, que passado... Seria o mês de janeiro, e como chovia
no Cerne dos tempos em que São Sebastião era o padroeiro do bairro!
No Literário de Sertanópolis, entrando junto com o Celestino, fantasiado
de Arlequim, logo atraindo algumas moças conhecidas, pulando a noite de
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Carnaval: “Chiquita bacana lá da Martinica...”Algumas beijocas inocentes,
algumas paixonites suscitadas, embora não desejadas. Namoro de Carnaval
não passa das Cinzas.
E é tudo. Nada ficou. Só as fugazes lembranças mal arquivadas no
cérebro. Que bom seria ligar um botão e sintonizar tudo o que ficou, de bom e
de triste, as emoções, as raivas e os amores... Impossível.
12. Uma escola à beira da estrada
A “Escola Mixta do Cerne”, até 1937, estava instalada no sítio do tio
João Fernandes. Não me lembro de como era, mas a julgar por tudo o que
conheci na colônia do tio Pisoeiro, deveria ser uma das suas tantas
improvisações.
Aí por 37 ou 38, fizeram a escola em nosso sítio, à beira da estrada, uns
500 metros acima da Casa Grande. O tio Carlos deve ter sido um dos seus
construtores e pode-se supor que a comunidade tenha dado toda a ajuda. Era
uma construção simples, de madeira. Um único salão grande, telhado de
quatro águas, a porta de entrada voltada para o nascente, ladeada por duas
janelas. Duas janelas também na face sul e uma apenas na face norte.
Nenhuma na face oeste, pois era dali que vinham todas as chuvas e tormentas
do Cerne. Suspensa em mourões de madeira de lei que, devido ao declive,
eram muito mais altas na face norte. Ali a gente se refugiava quando chovia e
a escola ainda não estava aberta. Quantas inscrições e desenhos havia sobre as
vigas do assoalho!
Uma escada de um único lance dava acesso à porta de entrada. As
carteiras eram duplas e dispostas em quatro fileiras. Nos fundos da sala havia
grandes bancos, ásperos e incômodos. Provável herança da escola velha. Ali
sentavam os maiores, o que lhes dava um certo ar de superioridade. Também a
eles se dirigiam a maioria das reprimendas da professora, enfezada com
alguma zorra que promoviam.
Pela Escola do Cerne passaram gerações sucessivas de filhos dos
pioneiros, aos quais se juntaram os filhos dos seus colonos quando o ciclo do
café exigiu mais braços.
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A primeira professora foi a Maria de Lourdes Fernandes. Durante quase
uma década, essa mestra foi tudo no ensino das crianças do Cerne. Era uma
educadora no verdadeiro sentido, não apenas uma alfabetizadora. Ali, ela
transmitia noções de educação, arte, moral, civismo, literatura e
conhecimentos gerais. Por isso, ficou ela com o maior quinhão das
recordações de todos. Na verdade, mesmo na sua juventude, ela se impunha
tanto ou mais naquele ambiente. Tinha dons diversos e, tal como na história
dos talentos, da bíblia, ela os desenvolvia e aplicava na tarefa de educar.
Depois dela, outros professores e professoras passaram e, sem menosprezálos, que todos merecem nosso respeito e nossa admiração, foi a Maria de
Lourdes quem marcou a “Escola Mixta do Cerne” para sempre.
Aí pelos idos de 1954 é que a escola assumiu o local definitivo, próximo
ao campo de futebol e à capela, também à beira da estrada.
As festas de encerramento promovidas pela dona Lourdes ficaram na
memória de todos. Eram ansiosamente esperadas pelos alunos e moradores da
região. Começavam logo após o meio-dia com a exposição dos trabalhos
manuais dos alunos. Depois os recitais nos quais se declamavam poesias, se
improvisavam representações e cantorias 0 tudo sob orientação da professora,
que ensaiara cada detalhe meses a fio.
No fim da tarde, a rapaziada arredava as carteiras e os bancos,
encostando-os num dos lados do salão, e o Ozório comandava o grande baile
do ano. Uma beleza indescritível.
Porém, o ensino do Cerne foi conduzido em outros níveis. Meu pai e o
Américo mantiveram durante muito tempo uma escola para adultos, em
período noturno – no porão da Casa Grande. O objetivo era transmitir um
mínimo de conhecimentos a tais adultos, para que não ficassem eles à margem
da civilização. Eram alfabetizados, aprendiam as quatro operações, contas de
porcentagem e rudimentos culturais, incluindo noções de Geografia e História.
O Carlos também colaborou muito nesse sentido.
A escola do Cerne foi a base da minha vida, sem esquecer que a esta se
juntava outra base, que era a própria família. Do ponto de vista técnico, não
era nenhum primor de metodologia. Mas, pelo lado humano, acho que em
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lugar algum do mundo teria assimilado melhores experiências na fase
importantíssima da infância.
13. Os silêncios da memória
Às vezes me dou conta de fatos acontecidos em minha vida através de
uma visão fragmentada, repentina, quase fotográfica. E não consigo colocar
esses fatos, esses retratos, dentro de um contexto mais amplo de
acontecimentos. Por mais que force a memória, há lapsos imensos,
especificamente em algumas fases – onde foi passada a borracha e apagado
tudo. Por que será? Quais os fenômenos da mente que levaram a memória a
essa varredura dos fatos?
Num destes dias constatei a realidade de maneira contundente. Tentei
recordar o Cerne no período de 50 a 52, o tempo da minha vida dedicado ao
curso colegial. Uma lástima. Só consegui elaborar esquemas, montar
acontecimentos na tentativa vã de pinçar o que me interessava recordar, e
nada. Ora, acontece que, nessa época, já beirava os 18 anos: uma idade
lúcida, madura e responsável. E a memória só me ofereceu flashes, mostrando
a minha própria imagem aqui e acolá sem qualquer seqüência. Que triste.
O que posso deduzir é que foi um tempo de transição, sem dúvida. Eu
vivera a tutela do internato até então. Vivera ainda uma religiosidade formal,
obrigatória e intensa. Eis que, de súbito, abrem-se as portas do Liceu e o
jovem ganha as ruas de São Paulo. Com 18 anos, começa a explorar a vida e
os seus mistérios. As conversas com os amigos nada mais têm de inocência:
são relatos e informações explícitas a respeito de sexo, mulheres, boates e
bordéis, ruas suspeitas... ora, tudo isso, em cima de uma personalidade
marcada pela repressão do espiritualismo, seguramente, levaria a dores de
consciência, lutas íntimas e dubiedade de ações. Eis o fato concreto.
Logo depois, de supetão, a vida de caserna – engajado no Exército
através do CPOR por longos dois anos. A disciplina rígida, os castigos, os
sábados e os domingos perdidos, as férias inexistentes. A sujeição às vozes
prepotentes de superiores: capitães, tenentes e sargentos. A convivência com
indivíduos oriundos de outros colégios, às vezes ateus e totalmente
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materialistas e irreverentes. Amizades novas, brotadas no dia-a-dia daquela
instituição fervilhante. Acampamentos, manobras, exercícios de comando,
desfiles, plantões, faxinas e pernoites.
E, rondando tudo isso, os preparativos para o vestibular – cursinho à
noite, convivendo aí com outro grupo, outra mentalidade, outros interesses.
Era dose forte demais. Tudo isso acontecendo em São Paulo – de modo que o
Cerne tinha mesmo de ser borrado da minha mente. Há de se convir.
Entretanto, até dezembro de 51, eu ia ao cerne, religiosamente, todas as
férias: dezembro, janeiro, fevereiro e julho. E ali vivia as festas de São
Sebastião, os namoricos com a Rosinha, a Nina, a Laura, a Mirtes e sei lá
quem mais. E então a memória me prega esta tremenda peça: me esconde os
fatos. Por que será?
E aí vêm os flashes, os retratos: o caminho da capela de São Sebastião,
os arredores da mesma em dia de festa, a colônia do tio João Fernandes, as
destalas, os circos do Cerne, os jogos de futebol, os passeios de caminhonete,
o casamento da Izabel, o batizado do Zé Rubens, a Rosinha (sempre ela), os
bailes do sítio, as fugas para Sertanópolis, o Padre Chico, o Chico, o
Chiquito, os porres e os retornos a São Paulo.
Seqüências? Impossível estabelecê-las.
É nesses silêncios da memória que se oculta uma das fases mais
sofridas da minha vida. Dentro de mim grita um desejo insano de decifrá-la.
Até parece que há algum grande segredo oculto que, uma vez revelado...
Deixa isso pra lá...
(Curitiba, 1981)
14. Notícias do passado
Talvez uns seis meses depois de anotar essas impressões, caio no
mesmo assunto. Só que agora para acrescentar algo muito interessante.
Foi numa dessas tardes de consultório abarrotado que a secretária me
trouxe à mesa, junto com o prontuário da próxima consulta a atender, uma
caderneta velha e disse: “Deixaram aí para o senhor”.
Só no fim do consultório pude saber o que realmente era: um pedaço do
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meu passado vivido no Cerne. Era um histórico de todos os jogos do Luso no
período de 49, 50 e 51 – feito pelo Eduardo Fernandes. Ora, sem saber, ele me
restituía uma parte daquilo que eu procurava e julgava eternamente perdido.
Meus olhos ávidos corriam as folhas da caderneta, detendo-se aqui e ali.
Sentia então o alarido e o vozerio a penetrar-me os ouvidos. O sol quente das
tardes do Cerne ardia-me na pele. As jogadas e os gols do Luso me
arrepiavam. Meu Deus, achei! Nomes e pessoas de que me esquecera por
completo ressurgiam do passado, invadindo o campo das coisas conscientes.
Via o Janguan a correr desengonçado atrás da bola. O Osvaldo cheio de
mistérios jogando seu futebol limpo e bonito... Eram coisas desaparecidas dos
meus arquivos mentais.
E volto nos dias. Aquele em que o Luso foi massacrado ali mesmo no
Cerne pelo time da Vergonta – do Orlando Moreno e do Zé Moreno. No fim
do jogo, o Eduardo – não tendo quem o consolasse – consolava a mim: “Pena
que no teu último dia de férias aconteça uma dessas!”
E aquele domingo em que fomos jogar no Paraíso e lá o Luso ganhou de
cinco a zero, com o Américo jogando uma enormidade na ponta esquerda!
Vejo os rostos a angústia dos dias de grandes jogos em que figuras
importantes do time não poderiam jogar. Razões? Viagens, operações e por aí
afora. Ah... Aqui está... O dia em que o famoso esquadrão do Bela Vista F.C.
abandonou o campo ao sentir que perderia por muito.
Outras vezes, jogos fora, não tendo acompanhado a turma, espero o Zé e
o Chiquito chegaram já noite, indo encontrá-los ansioso: “Hoje foi duro,
perdemos de dois a zero lá no campo da Cascata”. Ou assim: “Ganhamos no
campo da Margarida, o Bernardino fez o gol da vitória!”
Obrigado, Eduardo Fernandes: você me devolveu um belo pedaço do
passado no Cerne!
(Curitiba, 1981)
15. Tardes de Futebol
O Cerne Futebol Clube era um time de velhas batalhas e de velhos
astros – reminiscências de um grupo em que imperavam os valores
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individuais, muita garra e pouca técnica. Era uma equipe em fim de linha,
principalmente levando-se em conta a idade da maioria dos jogadores. O Juca
Fernandes – sob a influência do Eduardo Fernandes – investido na função de
“técnico de futebol”, teve o dom de reformar a vida do time. Promoveu
jogadores novos, inovou na forma de jogar, ensinando rudimentos de táticas e
por aí afora. Mas ainda faltava algo...
O Cerne era colonizado ainda pelo grupo inicial ao qual se
acrescentavam as famílias dos colonos (empregados). Pois bem, coube ao
Eduardo Fernandes aglutinar a rapaziada nova – descendente dos primeiros
colonizadores e dos seus empregados – no campo do futebol, que mudara para
a frente da venda, da qual era o dono. Antes o campo se situava no sítio dos
Caetanos, divisa com o nosso. Numa reunião famosa e cheia de imprevistas
discussões, mudou-se o nome do time. Passou a chamar-se “Luso Brasileiro
Futebol Clube”. Daí à compra de dois jogos de camisas rubro-verdes em São
Paulo foi um passo.
Naquela época, coisas pequenas significavam muito. Foi o que
aconteceu com as belas camisas do Luso. Só a mudança do nome e do
uniforme determinou um alento de forças dobradas. E mais, cada jogador
passou a disputar com garra e aplicação técnica a posição no seu primeiro
time, o titular.
Era o que faltava para o velho técnico – o Juca Fernandes. Ele era
viciado em Corinthians. Velho assistidor de jogo de profissionais, tinha
bagagem de sobra ao investir-se no cargo de orientador. Lia a Gazeta
Esportiva religiosamente e ouvia comentários e resenhas esportivas todos os
dias. Estava, portanto, sempre atualizando sobre o futebol dos grandes centros.
Isso lhe conferia cultura suficiente no mister a que se propunha.
Renovou o time não só com novos valores, mas com nova filosofia de
jogo. Ensinou esquemas, jogadas ensaiadas, colocação em campo, funções de
acordo com a posição. Insistindo sempre na escalação do mesmo grupo de
jogadores, acabou por dar-lhes uma noção até então desconhecida – a de
conjunto.
E foi esta a grande força do Luso. Por mais de cinco anos não sofreu
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variações importantes de escalação e até os eventuais reservas entrosavam-se
muito bem quando solicitados. Neste time ficaram por alguns anos jogadores
veteranos como o Zeca Caetano e o Guilherminho. Mas a força jovem tomou
conta e constitui-se na sensação do futebol daquelas redondezas.
O Luso começou a surpreender. Primeiro, venceu todos os times de
sítios das imediações. Depois passou a enfrentar destemidamente os das
cidades vizinhas (cheios de pose) e ganhava regularmente. Estes não se
conformavam e pediam revanche: apanhavam em casa também. O time
começava a enfrentar adversários mais categorizados, disputantes de
campeonatos regionais, de cidades maiores. Qual não era a surpresa: o Luso
ganhava, às vezes, até com facilidade. Lembram-se do Apucarana F. C.?
O Luso definhou por duas razões: a idade dos seus atletas e o
esvaziamento do Cerne a partir de certa época. Na onda da gente que se foi
estava o Eduardo Fernandes. A história continuaria, mas sem muitas glórias a
contar.
16. Ibiacy nunca mais - I
É complexa a análise da briga acontecida no Ibiacy entre os jogadores
do Luso e os daquela localidade, apoiados pela torcida. Rivalidade
futebolística entre os dois times não havia. Se não me engano, não existiu
histórico senão de um único jogo, no Cerne, em que o Luso vencera sem
violência e sem dificuldades.
É sabido também que o povo do Cerne era ordeiro e nunca fora de
hostilizar ninguém nem tampouco os jogadores do Luso haviam sido – até
esse acontecimento – agredidos em campo algum. Pelo contrário, eram
conhecidos como comportados e respeitadores das decisões dos juízes. E, para
confirmar a regra, havia uma exceção: o João Pitotas, famosos pela
truculência, sempre contida pelos companheiros de time. Contudo, nunca se
soube que ele tivesse lesado fisicamente alguém. Era ele a perfeita encarnação
da canção de Dorival Caymmi:
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“João Valentão é brigão
Pra dar bofetão
Não presta atenção
E nem pensa na vida.”
E nada mais que isso.
A ojeriza dos ibiacianos pelo Cerne foi uma questão imediata: uma
idiossincrasia. Talvez os incomodasse o bonito futebol praticado pelo Luso.
Deve ser isso mesmo, e nada mais.
Para entender como a turma do Cerne estava desprevenida e isenta de
rancores, registre-se que até o Daniel Almeida foi no “caminhão do jogo”.
Deve ter sido a primeira e última vez.
Figuras importantes no conflito: o Hamilton Teixeira (comandante das
tropas locais) e o José Bernardino (capitão do Luso e o mais visado e agredido
na refrega).
Tudo começou com as cacetadas levadas em campo pelo Ameriquinho,
o astro maior do Luso e autor de um gol, o único até então. Parece que o
Bernardino resolveu, em represália, abrir também a caixa de ferramentas.
Ah, meu Deus! Foi de um momento para outro que o campo
transformou-se numa arena e, azares da vida, a cerca do mesmo era feita de
balaústres, que arrancados pela torcida tornaram-se terríveis instrumentos de
agressão. E, é lógico, quem mais apanhou foi a turma do Cerne, embora o
João Pitotas tenha distribuído porradas a torto e a direito e com máxima
satisfação. Dessa vez, ninguém o conteve.
E tudo se encaminhava a um final de conseqüências ruins quando o
Bernardino foi derrubado, ficando à mercê dos agressores (teve até um
afundamento de malar). Mas, nesse exato momento, entrou em campo a
misteriosa figura do Seu Sebastião Martins, um senhor de meia-idade, alto e
forte como um palanque, empregado pelo pai do Bernardino. Entrando em
campo, arredou aos trancos os agressores e isolou o rapaz, brandindo no ar
uma enorme, reluzente e pontuda faca, e gritando:
- Sai, afasta todo mundo que eu mato quem chegar! Já tenho um crime
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nas costas e não me custa “apagar” mais uns filhos da puta.
Diante da afirmação tão convincente e Diane de sua figura colérica, as
valentias esfriaram.
E foi assim que o Luso conseguiu, sem maiores dificuldades, sair de
campo e recolher as “vítimas”. Quanto ao Seu Sebastião, após esses
acontecimentos, pediu a conta e nunca mais se soube do seu paradeiro.
Engraçado, não me consta que o João Pitotas tenha apanhado. Nessas
horas, é bom ser brigão.
17. Ibiacy nunca mais - II
Passados os anos, o que quase fora um desastre, vem-se transformando
em assunto humorístico.
Certo dia, contava o João Reis, dono e motorista do caminhão que
conduzia o Luso, os fatos à sua maneira:
– Saí de lá na maior b‟locidade por aquela estrada abaixo...
Alguém ao seu lado, provavelmente o Baixola, com um sorriso gozador
nos lábios, meteu seu xaveco:
– Uns trinta por hora?!!
– Era mais ou menos o que se podia fazer com aquele caminhão...
E lembrou ainda o João Reis que, alguns quilômetros adiante, parou a
fim de que se conferisse se faltava alguém e como estavam os feridos.
Então, só o João Pitotas não se dava por vencido e, entre todos, era o
único guerreiro com sede de confronto. Conclamava os sofridos
companheiros, aos gritos:
– Pessoal, vamos lá, porra, vamos voltar lá e dar mais umas porradas
naqueles amarelentos de merda!
Era só o que faltava.
Chegado de férias na Casa Grande do Cerne, dois dias depois da
desgraceira, fui informado, nos mínimos detalhes, de tudo: o Bernardino,
operado, o Ameriquinho, de perna enfaixada, o Bugrinho com um baita lanho
na cabeça, outros com narizes esborrachados e olhos inchados... Dores nas
costas e na cabeça – onde o pau comeu solto se dó nem piedade.
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Tudo isso confirma o título “Ibiacy nunca mais”. Nunca mais mesmo os
dois times se enfrentaram, e isso aconteceu a mais de cinqüenta anos.
18. Uma carreira frustrada
O Daniel – pavio curto, bravo e correto que era – não sei como se meteu
a apitar futebol. Jogador não era nem nunca fora. Agora, beirando os 35 anos
de idade, tentava iniciar-se na carreira de árbitro.
Mas parece que não deu certo. Pelo menos é o que se pode deduzir da
história que se segue, ainda de tempos anteriores ao Luso.
Era domingo e havia jogo no Cerne. Claro também que todo mundo
estava lá ao redor do campo a fim de assistir a mais uma porfia do cerne F. C.
Só não iam ao campo aquelas pessoas que não se interessavam em absoluto
por jogos ou que – em virtude de ocupações caseiras – não podiam.
E a Dona Amélia Fernandes aproveitou a tarde para visitar Dona
Aurora. Passando pelo campo, vi lá toda aquela gente e aquela zorra.
Chegando à Casa Grande do Cerne, observou que o Daniel, o filho mais
velho da Dona Aurora, andava por ali meio desconsolado quando devia, por
uma questão de lógica, estar também no campo de futebol.
Já acomodada na varanda em conversa com a comadre, veio o assunto à
baila.
– Então, comadre, por que é que o Daniel não está lá no campo, junto
com os outros a se divertir?
– Proibi-o! – falou sibilinamente a Dona Aurora, e continuou – Pois
fiquei sabendo que no jogo do outro domingo, sendo ele o juiz, imagine
comadre, chamaram-no de ladrão!
Dona Amélia, em cuja família havia alguns participantes das lides
futebolísticas e que era mais realista e já havia racionalizado essas e outras
coisas, logo que se vê, foi pondo panos quentes:
– Isso não é nada comadre... Juiz ladrão... Ninguém quis ofendê-lo.,.
– Pois a mim chegou.
E aí a Dona Amélia alongou-se em explicações, piorando ainda mais a
situação.
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– Não é nada comadre. Pior seria se o chamassem de “filho da puta”,
que é o que por lá mais fazem.
Cortou-se a carreira de juiz de futebol. Não sei se o Cerne F. C. perdeu
muito. Contudo, perdeu um tempero imprescindível às tardes domingueiras de
memoráveis embates: a justiça e o gênio irretorcível do Daniel Almeida.
19. Festa de São Sebastião - I
O “Serviço de Alto-Falante” era ponto nevrálgico da festa. Sem ele nada
se fazia. Transmitia música, alegria, informações sobre os festejos, os leilões e
as eventuais modificações do programa. Mas, bem lá no fundo, era mesmo
uma agência disfarçada de namoros através do seu imprescindível “Correio
Elegante”.
“E a seguir ouviremos „Raios do Sol‟, que Camilo oferece a Carola
como prova de muita admiração” – o trivial, como se percebe. Mas outras
mensagens mais enrustidas também se ouviam: “ „Saudades de Ouro Preto‟,
oferecida à moça de vestido azul, com lenço encarnado, pelo rapaz de gravata
azul, que deseja conversar com ela...” Puro e deslavado romantismo – há
muito tempo varrido de qualquer festejo.
Pois bem, lá estava o Juca tentando pôr em funcionamento a geringonça
que – todo santo dia, ao começar a função – não funcionava. E aperta daqui,
liga e desliga dali, emenda em baixo, isola em cima, torce, empurra, pluga...
e... faíscas e um baita choque e um belo palavrão: “Caralho!!” Só que no
momento do choque deu-se o encaixe certo e funcionava o sistema, indo ao ar,
com todas as letras e inflexões, alto e bom som, preparos para o início das
confissões, de estola ao redor do pescoço, também ouviu e saiu da igreja
espumando, rumo à barraca denominada eufemisticamente de “Estúdio”.
– Xuca, meu filho, pô quê falou “carralha” no alto-falante... É pecado e
fai tê que confessa!
Na verdade, o Juca já tinha até esquecido o incidente e o alto-falante
comia solto com a “Cabocla Tereza”, oferecida a alguém, sabe deus por
quem.
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20. Festa de São Sebastião - II
Esta outra é mais suave, mas teve certamente o mesmo sentido. Dessa
vez, era o Orlando o “locutor”.
É bom, para que se entenda a história, saber o quanto a chuva era
indesejável durante a festa. A chegada dela era o apito final. Qualquer nuvem
no céu tinha a avaliação de inúmeros e ansiosos olhos. Um relâmpago ou
trovão, então, já produzi um estremecimento geral e um esvaziamento do
local. Por quê? Quem conhece o Cerne sabe.
E naquele começo de noite os indícios não eram nada tranqüilizadores:
nuvens pesadas, ausência de brisas, abafamento geral... Uma inhaca!
Lá estava o Orlando, atendendo ao povo, anotando recados, ordenando
os discos a serem tocados. Eis que se aproxima do guichê o Zé Luiz e
enquanto corria a música, batia papo com o locutor, o que só se interrompia
com a chegada de novos solicitadores.
“A seguir ouviremos „Fascinação‟ que é oferecida à moça de
Sertanópolis de blusa azul e saia xadrez por...” e enquanto se abaixava a fim
de colocar o disco no prato, houve um rápido diálogo.
– Vai chover... vi um relâmpago – disse o Zé Luiz, coçando a cabeça.
– Puta merda, vai ser foda... – respondeu o Orlando em cima do
microfone.
E foi o que se ouviu nos alto-falantes – inclusive pela moça de blusa
azul e saia xadrez – logo se seguindo com os acordes iniciais da música
oferecida.
21. Vendo estrelas
Acima do ranchão – primeira moradia dos Almeidas – em pleno pomar
e numa clareira rodeada por pessegueiros, mexeriqueiras e laranjeiras, estava o
campo de bocha. Nele, os maiores se dedicavam a partidas e mais partidas nos
sábados, domingos e dias santos.
A molecada, porém, usufruía do campo à hora que bem entendesse. Às
vezes, ao retornar da escola, já largavam as bolsas de lado e... ploc pra cá, ploc
pra lá... gritos, discussões, medidas e broncas.
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Certa tardinha, lá estava um grupo nesse vaivém. E ia entardecendo – ou
melhor, anoitecendo! E foi já com noite feita, lua e estrelas à vista, que o
Domingos, abaixado e conferindo a distância de duas bolas em relação ao
bolim, não percebeu que alguém lançara ao ar uma das pesadas bolas de
madeira...
E pof! Bem na sua cabeça. O Domingos desabou no chão tal qual uma
jaca madura, desmaiado.
Foi um tal de chacoalhar e soprar a vítima naqueles momentos que
pareciam uma eternidade... Por fim deu ele conta de si, acordando todo cheio
de surpresas.
– Puxa, que porrada... Cheguei a ver estrelas!
E tinha, claro, que ver mesmo sem a cacetada: o céu estava cheio delas
àquela hora.
22. À beira do rio
Pescar no Cerne é um dos melhores prazeres deste e do outro mundo. O
mais interessante é que, se o rio deixou há muito de ser bom de pesca, nem por
isso perdeu a magia de atrair os pescadores. Um ritual que sempre se repete.
Começa com os comentários e os preparativos que levam parte do dia. Depois
a busca de minhocas – tarefa de chinês – cada vez mais difíceis de apanhar.
Por fim, achar as varas nos meandros do porão ou dos cobertos: linhas
embaraçadas, pontas quebradas, bóias estropiadas e chumbadas perdidas...
Uma lástima! E lá se vão os pescadores, no fim da tarde, rumo ao ribeirão. Os
melhores poços de pesca são sempre os mais difíceis de abordar: capinzeiros,
arranha-gato e cipoais ao redor, barrancos escorregadios, pernilongos ferozes
e mutucas insaciáveis. Os enroscos tradicionais... em compensação, pode-se
ali não pescar nada!
Não foi assim outrora.
A qualquer hora do dia, a pesca era farta. Viam-se na transparência das
águas do rio cardumes de peixes de variados tamanhos. Pescar era uma rotina
tão prosaica quanto ir a uma peixaria.
O Cerne tinha alguns pescadores fanáticos. Um deles – o Horácio David
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(Caetano), em eterna desocupação – era um grande expert em pescarias.
Conhecia todos os poços e pontos bons de pesca, sabia de todas as espécies de
peixe que habitavam tais paragens e não deixava por menos: pescava-os sem
dó nem piedade. Era o que hoje se pode chamar de um perito ecológico.
Entendo que se deva a ele, principalmente, a escassez definitiva de peixes no
rio.
Eu, de minha parte, nunca fiz grandes vantagens. O máximo que ali
consegui foi pescar duas traíras quando estava equipado apenas para pescar
lambaris. Mas que foi emocionante, isso lá foi.
Fora a pesca de caniço, existe ainda por lá a pesca de tarrafa, em busca
dos cascudos. Esta é, nos dias de hoje, a única pesca convincente, pelo menos
aquela que dá algum resultado. É a pesca da Semana Santa.
23. Falando em pesca...
Teria eu uns 12 anos. Do ponto de vista de psiquismo, passava por uma
fase ruim. Ainda vivia as tristes impressões deixadas pelas mortes recentes da
Tereza, da maricas e do pai. Era uma criança de poucos sorrisos,
introspectiva.
Apesar de tudo, não mudara de hábitos. Não tinha limitações dentro do
mundo do Cerne. E dentro dessa realidade é que me dirigia naquela tarde ao
poço da divisa. Caniço no ombro, latinha de minhocas na mão – lá vou eu.
Desço a rampa da margem... Havia ali um tronco de árvore encalhado desde
a última enchente. Estendia-se no sentido da correnteza tendo uma parte
ancorada no barranco. Servia assim de plataforma sobre o rio. Repito a
operação dos dias anteriores: avanço sobre ele até o meio, isco o anzol,
estendo o caniço ao longo de sua superfície, deixando o cabo preso no ângulo
de um dos seus galhos partidos. A ponta da vara ficou pendendo uns três
palmos adiante do fim do tronco, suspensa sobre as águas... Sempre na
mesma direção e com a mesma quantidade de linha. Era infalível – quase de
imediato começavam os puxões e eu ia metendo os bagres e os serrotes dentro
do picuá dependurado em um ramo ao alcance da mão.
E foi num repente que tudo aconteceu. Aconteceu mesmo?
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Tive a exata impressão de que não estava sozinho. De que alguém se
aproximava e me espreitava. Um arrepio percorreu-me o corpo. Um receio
pavoroso, um medo indefinido tomou conta de mim impedindo-me de
vasculhar as proximidades com os olhos.
No outro lado do rio uma forte lufada de vento agitou as moitas de
capim elefante. Isso eu pude perceber porque estava com o olhar fixo naquela
direção. Entretanto, até então, a tarde era mormacenta e sem nenhuma
aragem. No mesmo instante – em verdadeira superposição de fatos – parece
que vinda da margem oposta e da direita, ouvi a mais estranha e irreal das
vozes: choro ou canto? Grito ou gemido? Lamento ou acalanto?
Cumprimento ou imprecação?
Meu coração se descompassou. Sentia as pernas pesadas e imóveis, o
olhar turvo e um zumbido nos ouvidos. E mais crescia a sensação de que
alguém ou algo se aproximava de mim para um contato incrivelmente
doloroso – talvez mortal.
Uma brisa passou pelo meu rosto, em estranha carícia... Tremor no
corpo e cabelos eriçados.
Segundos? Minutos? Horas? Talvez a eternidade.
Num esforço supremo consegui movimentar-me. Primeiro lenta e
pesadamente. Depois mais rápido e em desespero subi o barranco, varei a
cerca, lançando-me na relva do pasto em corrida desenfreada.
E ainda parecia ouvir as vozes desesperadas e distantes.
Quando acabei de subir o aclive, quase sem fôlego, é que me
abandonou a impressão de ter alguém perto de mim. Pude então reassumir a
linha normal dos pensamentos e dos raciocínios. Embaixo do articunzeiro
joguei-me ao solo, exausto. Transpirava exageradamente e arquejava em
gemidos profundos. Uma náusea forte envolveu-me o estômago e vomitei não
sei quantas vezes.
Agora a respiração, profunda e regular, voltava ao normal. Sentia que
o mundo ao redor assumia os padrões da realidade. O medo me abandonara e
o sentido de segurança voltava a mim. Ali adiante, a casa do Fernando – e eu
ouvia a Maria Rosa ralhando com as crianças. Uma vaca mugia na
111
mangueira. Sim – era o mundo meu conhecido. Só restava uma aguda dor de
cabeça e formigamentos musculares – rescaldo dos acontecimentos sombrios.
Logo mais, vendo que o Fernando descia pelo pasto, em direção ao rio,
a fim de apartar os bezerros, tomei a sua companhia e – num ímpeto de
coragem – fui até o local da pesca. Paz total. Alinha inteiramente puxada
para a margem tinha fisgado um belo espécime de mandi. Sem qualquer
assomo de entusiasmo, meti-o no bornal. Joguei as minhocas na água e
recolhi o caniço, dando o assunto por encerrado.
Rumo de casa, caminhava abatido e confuso, sem saber se contava ou
não o acontecido. Ou melhor, sem saber se realmente acontecera alguma
coisa. Era preferível calar, pois não tinha como explicar nem como esquecer
tudo aquilo. Persistia a dor de cabeça e agora, sem dúvida, dores nos
músculos das pernas.
Minha idade, doze anos, era impregnada, como já disse, de sofrimentos
recentes. Havia o luto em família e muita tristeza. Só isso. Então: teria sido
tudo produto da imaginação Mas eu só prestava atenção na pesca, juro! E
estava inteiramente absorvido por ela, com certeza‟.
Essa fato foi um marco em minha vida. Até então eu tivera muitas
fobias, principalmente do escuro e do incógnito. Tinha pesadelos e pavores
noturnos. Tudo isso desapareceu de um dia para o outro depois do
acontecido. Passe de mágica?
É que eu passara por uma experiência crucial, absolutamente
apavorante. E sobrevivera a ela. Tudo o mais no mundo, em matéria de medo,
passava a ser irrisório, senão risível.
(Curitiba, 1961)
24. Como se locomoviam as pessoas.
As alternativas de locomoção das pessoas no Cerne primitivo não eram
muitas. Ou se usava o pé-dois ou se arrumava uma boa montaria. No
transporte de cargas, as carroças eram tudo de que se podia dispor. Vejam só:
hoje o cidadão tem um carro, naquele tempo, um cavalo: hoje tem uma
caminhonete, antes a carroça. Em todas as sedes de sítio se identificavam logo
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os galpões ou os cobertos em meia água, onde se guardava a carroça, os seus
acessórios, bem como os apetrechos de montaria.
Eram conhecidos os animais da redondeza por seus nomes. O pai tinha o
Baio; o tio Carlos, o Lambari; o tio Manoel, o Guarani. Sem falar no
Passarinho, no Calçadão, no Pinhão, na Fieugira, na Ruana, na Beleza...
Pela manhã – senão de madrugada – lá se ia o dono, quando necessário,
montando a cavalo rumo à cidade. Voltava à tarde, alforjes cheias, o animal
suado pela jornada de 10 quilômetros entre ida e vinda.
Os sítios tinham sempre um quadrado de pasto onde se deixava o cavalo
preso na noite que antecedia tais viagens. Poupava-se assim o trabalho de
andar atrás dele de madrugada a fim de apanhá-lo... Os cavalos eram cheios de
baldas e difíceis de cabrestar em espaços abertos.
Tinha o cerne um carroceiro que fazia fretes e vivia desse expediente.
Era o Zé Pitotas. Todos os dias lá ia ele de madrugada rumo a Sertanópolis,
lentamente, voltando à tardinha. No nosso sítio, o carroceiro de plantão era o
Daniel. Irascível e irritadiço, viva a amaldiçoar os animais. Eu, pequeno e
inocente, refugiado embaixo de alguma laranjeira, ouvia aquele monte de
imprecações quase que atemorizado. Minha mãe punha a mão na cabeça,
como que temendo algum castigo de Deus. Meu pai nem ligava. Quem é que
iria modificar o Daniel?
25. Oh. Jardineira! - I
Marcou época no Cerne a velha jardineira do tio Felizardo. Ancestral
dos ônibus de hoje, tinha todos os requintes de peça de museu. Percorria
diariamente a estrada do Cerne (se o tempo permitisse, que a chuva era fator
limitante). Veículo folclórico, fazia o percurso inverso dos ônibus de agora:
vinha à tarde para o sítio, onde pernoitava, voltando à cidade pela manhã.
Coisas da época. O tio Felizardo unia o útil ao agradável. Primeiro levava a
jardineira cheia de patrícios à cidade – onde tinha um hotel com restaurante –
e voltava à tarde com eles. Passando noites agradáveis no sítio, comendo bem
e contando causos – no que era emérito.
A jardineira tinha também o apelido de “Raivosa”e e u não sei bem por
113
quê. Talvez pelo fato de resfolegar muito nas subidas da estrada, com
esguichos de água fervente a bufar do seu velho motor. O fato é que andava
invariavelmente lotada. E nem precisava de tanta gente para isso, comportava
apenas umas vinte pessoas sentadas. Era um carro aberto, tendo estribos e
brancos que iam de lado a lado. Podia-se viajar nos estribos, como nos bondes
das cidades grandes. As mulheres acompanhavam os maridos na idas à cidade
e reclamavam da velocidade e das maluquices do tio Felizardo. Este não lhes
poupava censuras e impropérios.
O bagageiro era uma excrescência traseira, uma caixa feita de madeira
sem tampa – a céu aberto – onde se transportavam cabritos, leitões, frangos e
outros etecéteras.
Mas o transporte de passageiros evoluiu. Logo surgiu o ônibus fechado,
modelo GMC, já com características modernas, dirigido pelo Zé Antonio,
filho do velho Felizardo. Não durou muito, outros carros foram aparecendo –
novos e maiores. Entre 1940 e l944 – época da guerra – faltou combustível...
A estrada do Cerne voltou a ser dos cavalos e das carroças... Era o mundo do
Cerne em recesso.
Com o fim da guerra, a estrada passou a ser coberta por ônibus de
percurso mais longo. Vinham de Londrina e demandavam o Estado de São
Paulo. Foi a época do Ouro-Verde. Chegou-se então a ter até três horários
disponíveis para ir à cidade... E hoje não se tem nenhum! Pode-se então
concluir que, de certa forma, as coisas pioraram.
(Curitiba, 1959)
26. Oh, Jardineira! – II
E lá vinha a “Raivosa” do Seu Felizardo. Largara a estação poucos
minutos antes e tomara o rumo do Cerne, cheia de moradores desse bairro.
Após gemer e quase esvair-se na subida d aruá Bahia, pega a descida rumo ã
Vila Mineira.
Lotada, que os lugares não eram todos, vazerio lusitano no seu interior...
A portuguesada voltando das compras na cidade, o que sempre era festa.
E foi ali que aconteceu: O Felizardo percebeu estar sem freios. E
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pedalava que pedalava e nada... A Jardineira ganhava velocidade. Restava-lhe
o recurso de reduzir as marchas, possível fosse, mas não foi. Quem é que
seguraria aquela chumbica? Tentou fazer ziguezagues... Mas, além de correr o
risco de cair na valeta, ainda chamou a tenção dos passageiros.
- O Felizardo está louco!
E continua o calhambeque, ladeira abaixo em aceleração natural.
- Merda! – rosnou o Felizardo.
Não tinha muito a fazer. Fosse para as laterais, certamente tombaria nas
valetas, continuasse na estrada, em descida acentuada, acelerando cada vez
mais... Como fazer a curva antes da ponte sem esborrachar-se nela, caindo no
rio com todos?
Só havia uma opção: entrar na estrada do Cerne do jeito que desse.
Certamente romperia alguma cerca de balaústres das chácaras ali existentes.
Foi o que aconteceu quando ele tentou converter à esquerda, caminho de
sempre.
Nessa altura, a gritaria era frenética: protestos desesperados e
invocações de santos milagrosos, de permeio com cabeludos palavrões.
E a jardineira irrompeu dentro da primeira chácara, e da esquina,
passando por cima de cerca despedaçada e caminhando sobre o gramado de
quicuia, desviando milagrosamente de tocos, cabritos, galinhas e cavalos e
indo para no meio de uma plantação de repolhos e couves.
Parado o carro, o Felizardo voltou-se aos passageiros, limpando o rosto
suado com toalha encardida. O silêncio sobreveio àquela iminência de
catástrofe... Todos queiram saber, afinal que raios havia acontecido.
- Então, os cagões ficaram com medo, não é mesmo?
- Ficamos! Responderam em uníssono os passageiros.
- Eu também, porra.
E todos foram descendo a fim de averiguar os estrados da jardineira e na
jardineira.
27. A Capela e o Santo
A religião foi, sem dúvida, o valor principal do povo do Cerne – por
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muitos e muitos anos. Dessa forma, as manifestações religiosas eram muitas.
Desde as missas mensais na capela de São Sebastião até as práticas mais
simples como novenas, terços, vias-sacras, horas-santas e, ainda por cima,
algumas tradições não muito ortodoxas, como as cantorias noturnas e
soturnas de quaresma – o encomendar das almas. Muito me lembro de ouvir o
ruído peculiar da matraca e logo depois o cantar triste dentro da noite
silenciosa, por um grupo igualmente silencioso que se arrastava de porta em
porta, sem que se abrisse uma janela sequer – assim era a tradição.
Mas o centro das religiosidades do bairro era a capela. Deve ter sido
construída aí por 1930, no sítio do tio João Fernandes. O local tinha por
principal característica o acesso difícil, longe da estrada principal e com
forte aclive ao chegar. Assim, nos dias de chuva, ir à capela só se podia a pé
ou a cavalo. Todavia é bom que se diga que dessa capela se vislumbrava todo
o vale do Cerne – e era uma visão soberba: São Sebastião reinava
tranquilamente sobre a linda paisagem dos seus domínios.
Durante muitos anos, quase tudo o que aconteceu no Cerne foram as
reuniões em torno da capela – marcando época as famosas festas de São
Sebastião em janeiro. Ora, uma festa celebrada nesse mês só poderia contar
com uma coisa certa: a presença da chuva. E ela nunca faltava, provocando
reclamações contra a lama, contra isto e aquilo. As chuvas regulares de
verão, contudo, sempre fizeram a fartura do Cerne. Quando a capela foi
desativada, demolida e o Santo destituído (a meu ver uma tremenda mancada
do povo e do vigário de Sertanópolis) as chuvas também escassearam de
maneira sistemática. Surgiram o verões secos e quentes, com enormes
prejuízos para toda a região. Vingança do Santos, dizia-se à boca pequena.
Tanta coisa me ocorre da capela do Cerne. As missas nas manhãs
calorentas de verão ou frias de inverno, o estômago colocado nas costas pelo
jejum obrigatório – tinha-se que comungar. Ajudar a missa do Padre
Francisco; assistir às horas-santas e às vias-sacras oficiadas pelo Tantã –
decoradinhas, num palavrório altamente dramático sobre Jesus Cristo e as
circunstâncias da sua Paixão. Onde teriam arrumado tais textos religiosos?
Só sei que muita gente era levada às lágrimas.
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28. Destemperos
Tio Lagoa assistia às rezas na porta. A sua devoção provavelmente não
era maior do que a vontade de que tudo terminasse logo. E foi num terço de
domingo à tarde – ali no ponto de sempre, a porta lateral, que um marimbondo
alvoroçado e ferroou na car. Não se conteve e – em pleno terço – berrou para
quem quis ouvir: “Vão morder a avó na bunda, marimbondos filhos da
puta!,,,”
E o João Patrício, ao mesmo tempo em que puxava o terço, afugentava
um cachorro vadio: “Ave Maria... sai cachorro do fio da puta que peidou na
igreja... cheio de graça....”.
Ah! Capela do Cerne, quem teve a idéia de destruir-te? Certo perderam
o sendo do lirismo ou qualquer outra sensibilidade. Foi a agudização do culto
de Nossa de Fatima que levou a colônia portuguesa à construção de outra
capela... Foi o Padre Domingos que obrigou a desativação da antiga... Tal
padre nunca viveu nem sentiu os problemas do povo do Cerne. Com o Padre
Chico, isso jamais aconteceria.
Desde 1955, a Capela de Nossa Senhora de Fátima existe em outro
local. E eu até hoje entro nela sem qualquer emoção. Não me diz nada, como
se fosse algo surgido no dia de ontem, sem qualquer vínculo com o passado,
29. Caso puxa caso
E por falar em manifestações religiosas e em Manoel Lagoa...
Numa quaresma dos anos 30 formou-se na colônia do tio João
Fernandes um grupo que saía à noite cumprindo a devoção de encomendar as
almas”. Cantavam frente às casa pedindo orações... Tinham as cabeças e os
rostos cobertos com panos brancos. Não se abriam portas nem janelas.
Antes do início da cantoria faziam soar uma matraca com o que
acordavam os moradores da casa. No fim, retiravam-se em silêncio. E noite
adentro iam de casa em casa.
Pois foi uma saída do grupo que se deu este incidente frente à casa do
Lagoa. Um cão que os acompanhava forçou a porta dos fundos e entrou sem
que ninguém percebesse. De lá saiu com uma broa inteira presa entre os
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dentes. A reação da turma foi a única que se poderia esperar: uma gargalhada
geral – apesar do memento tão solene.
O Manoel Lagoa não deixou por menos: abriu a porta da frente e foi
esbravejando:
- Então essa é a vossa devoção, sua cója d‟hirejes?!...
Nova risadas. Cabelos revoltos, na noite límpida de luar, era uma figura
patética, despertando o comentário do Zé Pitotas: “A cabeleira do Lagoa
parece uma carroça de feijão!”
Nova zoada de gargalhadas. Novas imprecações do Lagoa. Não teve
mais jeito. Naquela noite, o grupo teve de voltar mais cedo para casa. A
seriedade do ritual fora inteiramente jogada às cucuias.
30. A venda do Cerne
Puxando bem pela memória, pode-se recordar, lá pelos fins da década
de 30, o início do período áureo desse estabelecimento. Foi um tal de João
Wanderley quem “Inventou” a tal venda. E – fato curioso – essa casa de
comércio, da sua origem ao fim, só viveu decadência.
Seu Wanderley estabeleceu-se no Cerne em alto estilo. Sabia que os
moradores da região iam a Sertanópolis religiosamente às compras. Então, por
que não interromper esse fluxo na origem? O negócio era oferecer a eles tudo
o que iam comprar na cidade e a preços iguais. E assim procedeu. A venda
tinha bar, secos e molhados, armarinhos, tecidos, ferragens e miudezas as mais
variadas. Um ótimo sortimento. Tudo se vendia ali, desde o trivial copo de
pinga até ferramentas de trabalho passando por enlatados, roupas, doces,
bijuterias. Era inacreditável o que ali se via: Prateleiras cheias de alto a baixo
como nas melhores casas da cidade. Durante alguns anos, o Seu Wanderley
bancou solenemente o comércio do Cerne.
Não sei por que, nem me perguntem, o seu Wanderley mudou-se para
Londrina, passando a venda a um tal de Seu Machado aí pelos idos de 42 ou
43. O estabelecimento. Foi para trás. Experimentou um período de razoável
prosperidade quando o Eduardo e o Zequinha Fernandes assumiram. Mas ela
já estava reduzida a um terço. O Eduardo a transformou na sede do Luso,
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podendo-se dizer que foi o melhor tempo do clube. Nos grandes festivais de
futebol, o bar da venda funcionava a todo vapor.
Um dia, também o Eduardo se foi. A venda virou boteco – com todos os
ingredientes de que o diabo gosta: pinga, bêbados, brigas e coisas piores. Daí
ao seu fim foi uma questão de tempo. Embora o Luso continuasse fazendo os
jogos no campo à sua frente, não conseguiu sustentar-lhe a sobrevivência. A
proximidade da nova capela também não lhe melhorou a situação.
Um dia virou um amontoado de tábuas e vigas que se transformaram em
galpões no sítio do Zé Alberto. Restaram apenas as árvores plantadas pelo
Eduardo. Nas mais das vezes, o cansaço físico está estampado nos rostos
suados. Mas nem por isso há motivos de tristezas. O carregador do almoço
recebe sempre pequenos e humílimos presentes: um caracol, uma pedra mui
interessante, uma fruta... E a alegria brota num sorriso inocente.
Retornar pelo mesmo caminho. Cesta e caldeirão mais leves – na
descida – é uma tarefa bem melhor de cumprir. A vontade era ficar por ali
mesmo, mas... E a escola?...
Levar café à roça. Cesta com pão, bolinhos, mandioca frita, lingüiça e
um bule de leite. Na outra mão uma chaleira de café fresco. De novo a subida.
Sol escaldando sobre a cabeça. Terra quente sob os pés. As distrações:
um inhambu rodeado de filhotes, um lagarto a descansar despreocupado sob
um pé de café, um pássaro descuidado ao alcance do estilingue. Os sustos: um
cão vadio e mal encarado (será louco?), um ruído estranho no meio de cafezal,
uma vaca na estrada – cabeça erguida – perigo!
Ir e vir.
À noite a turma chega, cansada, suada, sofrida e encardida da dura e
áspera lida. O jantar é em casa. Mas antes há o ritual da limpeza do corpo e da
troca de roupa. Só então descansa a valer.
O carregador de comida – geralmente o mais novo da família - espreita
de um canto com uma ponta de inveja (pobre coitado!) os grandes, cujo
privilégio é trabalhar o dia todo.
Vida de roça! Dura como o diabo. Mas é dela que o menino,
envelhecido, sente saudades – mergulhado no inferno da cidade grande.
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32. Partidas e chegadas
“Ir para São Paulo, viver no internato, era coisa decidida. Mas,
naquele verão chuvoso de 1945, essa realidade parecia ser ignorada por
minha pessoa, embora alguma forma de alarme já se desencadeasse – uma
insônia renitente que se alongava por aquelas madrugadas misteriosas.
O fato é que em minha infância e pré-adoslescência eu vivia os últimos
tempos de liberdade – sem pensar no futuro. Vivia: era bem o termo. Varava
as matas de estilingue na mão, bolsos cheios de pedras, percorria as margens
dos regatos parando aqui e ali na apreciação dos bandos de lambaris. Ia à
roça conversar com irmãos maiores... O amanhã simplesmente não existe.
Mas chegou. E eu fui sacudido pela realidade. Tomar banho, vestir
roupas novas. Mas como? Ainda agorinha estava lá fora – no pomar – atrás
de um bando de sanhaços! E toca a vestir a fatiota. „Come rapaz! Olha que o
Camacho logo vem nos buscar.‟
E veio, apesar da chuva. Seu fordeco desceu o caminho molhado vindo
parar defronte à varanda. As despedidas foram rápidas... Eu me sentia
sufocado, voz embargada e lágrimas perigosamente dependuradas nos olhos.
Era o fim de tudo.
Agora o desconhecido. Viajar... Me acudiam os versos de um livro de
leitura:
„Bem sinto em cada barranco
Que eu solitário me arranco
Destes lugares tão meu‟
Viajar. Pela primeira vez ir além do alcance dos olhos no panorama
vislumbrados do alto do morro. Apesar de acompanhado pela mãe e pelo
Manoel, eu começava a sentir um imenso vazio em mim e ao meu redor. Em
Sertanópolis, as últimas despedidas. As vozes das pessoas pareciam ecoar em
mundos distantes... O vermelho da estrada era o único traço comum de tudo o
que eu vivera até então. Aos lados, cenas e paisagens desconhecidas. Eu
mergulhava anestesiado num turbilhão de emoções novas e indesejadas.”
(São Paulo - 1948)
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Assim eu escrevia alguns anos depois da primeira saída do Cerne – em
1948, no internato. As impressões ainda eram vivias, sem dúvida. Quantas
partidas, depois. Mas nunca mais com aquele peso de incertezas.
33. A luz do morro
Era conhecida por todos a luz que caminhava ao longo do espigão do tio
Zé Gabriel e, o mais interessante, sempre fazendo o mesmo sentido: oesteleste. Outra peculiaridade: embora não fosse pontual quanto ao dia, o era
quanto à hora, pois quando aparecida empreendia a jornada por volta das vinte
horas.
Muitas versões sobre a coisa: tinha ali um caminho, sendo portanto um
lampião, ou então seria gozação da turma do tio Zé Gabriel na intenção de
espiritar os moradores do Cerne, pois aquele espigão era visto de tudo quanto
é lado.
Me lembro de uma noite. Fora passar o dia na casa no Eleutério. A
Deolinda tinha o João ainda lactente e o primo Chico – seu irmão – passava lá
alguns dias a fim de ajudá-la. E eu ia lá para distrair o Chico.
Estávamos na varanda quando a Deolinda com voz assustada nos
alertou:
– Olha lá... olha lá a luz! – e apontava para o outro lado do Cerne.
E todos vimos a luz cruzando o espigão e sumindo numa grota, já no
sítio do tio Zé Marcelino. Era uma visão nítida. Não se ocultava atrás das
árvores nem vacilava. E como ia rápido! Senti um arrepio no corpo. As
brincadeiras daquele dia – já noite – encerravam-se. Recolhemo-nos ao
interior da casa e logo estávamos na cama.
Um dia falaram do assunto ao Padre Francisco.
– Gostaria de ver. Mas não acredito em nada sobrenatural.
Passou-se algum tempo e, em certa noite de sábado, chegou o Padre
Chico a tempo de jantar e anunciando que iria pernoitar, pois celebraria a
missa na capela no dia seguinte.
Após o jantar, fomos conversar na varanda – o Padre Chico, o Zé e eu.
A noite era escura, um céu limpo sem luar. Ouvimos passos apressados na
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sala. Era a mãe que se aproximava vindo do seu quarto.
– Padre Francisco, veja lá no alto... a tal luz, veja!
E vimos. Na mesma hora de sempre, só que mais baixa em relação às
outras vezes. O Padre olhou bem, tendo cuidado no que ia falar.
– Dona Aurora, que ingenuidade! Aquilo é um lampião, é gente que vai
indo lá...
Nem bem acabara de proferir seu parecer, a luz provou o contrário:
tornou-se mais intensa, subiu acima do nível do espigão, rodopiou no ar e
desceu sobre a mata como se viesse em nossa direção. Mas em seguida
retornou ao costumeiro caminho e lá se foi indo na noite escura, sumindo nas
bandas do tio João Pastor.
Momentos de pesado silêncio.
– Seja o que for, ouviu o que eu disse e responde à sua maneira. Eu não
sei o que é... e só Deus sabe – concluiu o Padre Chico.
Exterminaram-se as matas. O Cerne tornou-se um mar de terras
cultivadas e esvaziou-se de gente. E a luz desapareceu para sempre. Certo foi
assombrar outras paragens.
34. Rir quando não se deve.
Terço de São João, na casa do tio Alexandre e da Dona Silvana.
Moravam eles no Cerne – sítio do tio Manoel – perto da ponte e ao lado da
estrada. Domingo de tarde.
Todas aquelas nuances que compõem tal solenidade. O mastro de
coqueiro com o estandarte emoldurado do Santo estendido no chão, esperando
ser erguido após o terço em meio ao foguetório.
Começa o terço. É o Américo que lembra o caso. No fim do primeiro
mistério, a pausa para o rojão. Dona Silvana remexe os cantos do rancho e não
encontra os foguetes. Dirige-se à filha.
– Ó Ermelinda, onde é que estão os “cousos”?
Risos sufocados – reprimidos ante o impasse e a vozinha devota da
Dona Silvana. Finalmente aparecem os “cousos” e lá se vai o rojão pelos ares
numa esteira de fumaça e fagulhas estourando no alto e produzindo ecos nos
122
socavões do Cerne.
Aí o inevitável. As cabras põem-se a berrar alto e fogem do cercado
numa balbúrdia terrível. Agora os risos são mais abertos.
Nos intervalos dos mistérios a seguir, novos rojões. E as cabras
berravam em resposta, cada vez mais longe.
E os lamentos da Dona Silvana:
– Ai, as minhas cabrinhas!
35. Ruídos noturnos
O tio Manoel puxava as orações da noite tendo a família ao redor da
mesa. Lá fora, a escuridão absoluta e os ruídos misteriosos mas habituais: um
cão a ganir (por quê?), um porco entalado, uma vaca a mugir, uma coruja
soturna...
De fato, naquela noite, pareceu ouvir-se qualquer coisa além do
habitual, vindo o ruído dos lados do porão.
Tia Maria comenta, no silêncio que se fez:
– Não sei qu‟ouço!
O José, ainda molecão, põe-se a rir.
O tio Manoel, no exercício da autoridade que as circunstâncias
conferiam, de pronto, dá-lhe um bofetão e sentencia:
– Ri-t‟agora.
36. Que vergonha!
Aproveitando a deixa, esta quem lembra é o Ricardo, de tantas boas
lembranças.
Um dia encontraram o tio Soeira à margem da estrada – bêbado como
um gambá – caído, gemente e sofrido. A noite se aproximava.
O Eleutério, ainda solteiro, levou-o par AA casa do pai. Lá procuraram
ajudar o Soeira com as panacéias habituais. Chá de losna, sal de frutas e outra
mezinhas. Nada de melhoras, pois os vômitos do coitado até aumentaram de
intensidade (coisa de borrachos).
Jantaram. O tio Soeira ainda cometeu a imprudência de comer alguma
123
coisa. Tudo então piorou... dor de cabeça e mais vômitos. Nada mais havia a
fazer senão dar curso aos hábitos da família. Era rezar e ir dormir. A Tia
Maria te ofereceu um penico – daqueles grandes – ao Soeira. Que vomitasse
ali, à vontade. E sem perda de tempo, o tio Manoel iniciou as costumeiras
rezas de após a refeição da noite.
E, enquanto a família rezava, o Soeira, abaixado sob a mesa, vomitava
no penico, arrotava alto e repetia sempre que pudesse falar:
– Ai, que bergonha!
E o som cavo da sua voz ecoava no penico como se estivesse falando
num megafone: “Que bergonhoooonha!”
37. Força de expressão
O João Patrício teve de viajar ao Estado de São Paulo – chamado de
urgência, pois a mãe estaria mal à morte.
Lá ficou vários dias. Era plena época de colheita do café, quando o
trabalho mais urgia nas roças. Viajar, só em caso de morte mesmo.
Ao retornar, o reencontro com o pessoal do Cerne teria de ter o palco de
sempre: os arredores da capela de São Sebastião – onde era mais freqüente a
comunidade encontrar-se.
Quando o vêem surgir, triste, por entre os laranjais, achegam-se a ele,
chapéus na mão, faces sérias e compungidas.
– Meus sentimentos... Meus pêsames...
E ele nem parecia ligar ao que observava, baixinho invocado que era. E
– erguendo a cabeça – foi explicando:
– Que nada... a veia não morreu. Tanto serviço para fazer e eu lá parado.
E concluiu ante olhares atônitos:
– Perdi a viagem!
38. Caso de amor
Ah! O Cerne dos amores contrariados e das perfídias, dos rancores entre
famílias... É difícil entender certos porquês.
O pobre do João Anastácio (Corote) foi logo apaixonar-se pela
124
Ermelinda do tio Manoel! E este não queria nem saber de ouvir falar em tal
assunto.
Ermelinda, que à noite fugia sob as estrelas indo ao encontro do amado
no pomar. Se algum dos homens da casa soubesse!
Ela mesma estava, certo dia, na janela da frente a espreitar o namorado e
ali foi surpreendida e duramente castigada com uma bofetada no rosto –
desferida pelo irmão Antonio.
Nesse caso, não restavam muitas alternativas senão fugir e casar. E foi o
que acabou acontecendo. Tio Manoel – inconformado – bradava, todo
choroso, espumando de raiva:
– Desgraçado Corote, roubou-m‟a filha!
Como se alguma tragédia houvesse sido perpetrada. Mas nada disso...
Casaram, foram muito felizes e tiveram muitos filhos. O corote ficou rico em
curto espaço de tempo, passando a ser um exemplo de genro.
39. Coisas de criança
O Dani tanto insistiu que eu não tive outro recurso sendo concordar.
Iríamos até as casas abandonadas na decadente Fazenda Madalena – apesar
do cansaço físico conseqüente às andanças matinais daquele Sábado de
Aleluia.
Atravessamos o Cere a vau e subimos o aclive da margem oposta,
ganhando os fundos do antigo sítio do tio Zé Gabriel. Nossa meta era
continuar subindo em diagonal, em direção à cerca da divisa com o Zé
Marcelino, hoje Fazenda Madalena. Uma vez atingida esta cerca,
caminhamos rente à ela rumo à moita de eucaliptos, lá no alto.
Íamos pelo limpo, pois a recente colheita da soja deixara o local livre
de qualquer vegetação. O Dani me chama:
– Pai, pai... É ali!
Dirijo o olhar à direita e identifico – lá no fundo, os telhados manrrons
das duas casas abandonadas: o nosso objetivo. Varamos a cereca e nos
embrenhamos na capoeira, procurando e logo encontrando um dos muitos
trilhos batidos pelo gado. A vegetação aqui é composta de arbustos e capim.
125
Perdemos as casas de vista.
Fato é que logo caímos numa trilha maior que levava ao fundo do vale.
É por ali que deveriam estar as casas, mas nada de vê-las. Resolvo logo
tomar um trilho na direção norte e por fim – quase de surpresa – ali estavam
elas!
Velhas casas da minha infância! Sinto uma perturbadora emoção. A
última vez que por ali passei foi há mais de quarenta anos, a caminho da casa
da Maricas.
O Dani se adianta, falando sempre e não ouvindo nada. Só o
passarinho dominava-me os sentidos e os pensamentos.
Entro pela porta da cozinha da primeira casa, a do tio Março. As
portas e as janelas desapareceram, tendo os vãos escancarados para o
infinito – o que aumenta a minha sensação de solidão. Aqui era o fogão que
não existe mais, ali a cantoneira do pote do qual a Clarinda me oferecia uma
caneca d‟água... E os meus olhos vêem apenas o passado: as mesas de cedro,
os bancos areados, os quartos, as camas e a voz galhofeira do Jerônimo...
Volto ao presente, tudo vazio. Nem um único objeto, nem inscrições. O
próprio piso desapareceu. Interessante: o telhado permanece intacto, no
esquadro!
Um trovão ecoa além do morro. Peço ao Daniel que se apresse. Ele já
está na segunda casa, entrando e saindo de cada compartimento e falando
sempre:
– Ah, pai! Fica mais um pouco!...
Dou a volta pelas casas. Uma surpresa: a tangerineira, minha velha
conhecida, e alguns mandacarus – os únicos remanescentes do passado a
acompanhar as casas.
E saio dali com a cabeça baixa. A sensação dos anos passados paira
sobre mim. Mas na alma eu sinto o menino que por ali andou quantos anos
atrás!
Outros trovões. Não nos resta outra decisão senão a de partir.
Chegamos em casa debaixo de chuva.
126
40. Bolas trocadas
Chovia a cântaros naquele verão, como aliás chovia em todos os verões
antigos do Cerne. A terra vivia ensopada, os caminhões enlameados, numa
limitação insólita das atividades de cada um. Quando a chuva parava, a
neblina subia pelas encostas, dando margem a suposições bastante concretas:
“neblina na serra, chuva que berra”. E como berrava!
Naquela manhã, após uma noite inteira de chuva a malhar nos telhados,
a turma do tio João Fernandes estava na cozinha tomando café. Lá fora o
tempo amainara um pouco, mas continuava a chover.
Eis que rompe porta adentro o tio Março, com um saco de estopa nas
costas, como se isso o protegesse de alguma coisa. Após os bons-dias, saiu-se
com esta:
– Está um dia repolho para plantar batutos!
Numa destala, o tio Carlos aconselhava alguém que se ferira a perna
durante o trabalho, oferecendo-lhe a sua receita milagrosa:
– Olha, passa aí um salmão com limoura!
O engraçado é que todos ouviam as conversas de todos e por isso não
passou desapercebido o transplante de sílabas, saudado a gargalhadas.
---- x ---Conversa na roça:
– Tá difícil pra danar este trecho, tem muito carirão com picu.
41. Modos de dizer, modos de entender.
Este fato é até difícil de contar escrevendo. Falando, seria mais fácil.
Mas vamos tentar... Era um dos casos preferidos da Maricas.
Consta que uma certa senhora do Cerne teve uma menina. Naquele,
como nos tempos atuais, havia o costume de visitar um senhor aque tivera
nenê, ou mais propriamente – que adoecera. “Adoecer”, naquelas eras priscas,
significava estar no período de pós-parto. Que coisa!
Pois bem, a visita. O presente, uma lata de marmelada ou uma galinha,
127
pois a puérpera tinha de comer galinha (e não tomar banho) durante os
quarenta dias de “dieta”. Além do presente, as conversas demoradas que
começavam pelo mais trivial:
– E como é que se chama a m‟nina?
– Chamamus l‟Ana!
– Muslana?! Ai que nome!...
– Não, chama-s‟Ana!
– Sana?...
– Não. Chama-s‟ l‟Ana.
– Selana!... entendi, é um nome bonito.
Tanto me lembro de ouvir a Maricas contar esta história. Não me
lembro das pessoas envolvidas, mas o fato era dali mesmo do Cerne.
42. Chumbo trocado
João Anastácio, vulgo Corote, e Manoel Lagoa eram cunhados. A
mulher do Lagoa era irmã do Corote. E trabalhavam juntos serrando madeira,
vivendo às turras em meio de gozações mútuas.
Fato é que um dia o Corote – que andava arrastando a asa para o lado da
Ermelinda do tio Manoel – foi visitar a pretensa namorada.
Chegando frente à casa dela, não é que a Beleza, a sua mula de
estimação, resolveu dar vexame. Refugou, pinoteou e acabou por derrubar o
cavaleiro, que se esparramou sobre o chão vermelho. E ainda por cima
pisoteou-lhe o paletó que trazia dobrado com esmero sobre o selim. Um Deus
nos acuda!
Estabelecida a ordem, ao vestir o paletó amarfanhado o Corote
constatou que nele estavam desenhados os cascos da Beleza.
O Lagoa não perdoava e, sempre que tinha gente por perto, caía na
história – no seu linguajar muito próprio:
– O me cunhado andou a limpar as cascos à B‟leza com o paletó!
E ria desbragadamente ante a fúria recalcada do cunhado.
Dizem que chumbo trocado não dói.
Um dia estavam a lidar com uma tora para serrar e eis que o Lagoa foi
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atacado por diversos marimbondos, ficando com o nariz inchado, o rosto
disforme e os olhos semicerrados pelo edema.
O Corote não perdeu a ocasião:
– Atão, nan se ri agora?
43. Azar de uns, sorte de outros
A estrada do Cerne, bem na baixada do sítio do tio Manoel, próxima da
ponte, era um problema durante os tempos de chuva. Formava-se ali um
atoleiro danado, um encravador inevitável, pois não havia como escapar pelas
beiradas – onde as valetas eram profundas e verdadeiras nascentes de água.
O Eleutério – que ñão era bobo nem nada – quando o tempo invernava,
plantava-se na varanda à espreita dos incautos que passavam pela estrada com
seus automóveis e ignorando aquela cilada. Tão logo a vítima mergulhava no
atoleiro, ele parava de coçar o dedão do pé e chamava a junta de bois para o
Piquete... Cada encravada, lá ia ele, como quem não quer nada.
Analisava friamente a situação.
– Que esperança! Não dá pra sair não...
– Acho que não dá mesmo – anuía o motorista desanimado e atolado até
os cornos.
O Eleutério pigarreava:
- Tenho dois bois que, com jeitinho, podem tirar o carro daí.
– É mesmo?
– São duzentos mil...
– Puxa!...
– Ah, eles puxam mesmo!
Não havia alternativa: eram favas contadas. Diziam até que a melhor
fonte de renda do Eleutério era o encravador. Pode ser que fosse mesmo, posto
que trabalhar na roça nunca foi seu forte.
44. Moradias
As casas do cerne, de um modo geral, não eram nem são nenhum
primor de arquitetura. Tinha (e têm) somente o essencial.
129
Geralmente construídas onde a água possa chegar, condenam-se ao
destino de repousar no fundo dos vales ou em barrocas. Num mundo de tantas
paisagens, o utilitarismo as condena a isso.
Inicialmente foram os ranchões de palmito, cobertos de tabuinha e com
piso de chão batido. Eram tão modestos e elementares, construídos com
materiais extraídos da própria natureza local, que mais pareciam uma
excrescência vegetativa da região. Sala, cozinha ampla e no máximo três
quartos – o que era o supremo luxo: o do casal, o dos homens e o das
mulheres. À cozinha ligava-se a indefectível despensa, depósito de
suprimentos e de tudo quanto é badulaque. Nada de instalações sanitárias.
Lembro-me do nosso primeiro ranchão com uma ponta de mistério.
Construído nos fins de 1927 e desmanchado já nos idos de 1950, tendo ele
uma memória puramente fotográfica. Os móveis eram os mais simples
possíveis, construídos ali mesmo. Nada de armários. Só malões, bancos de
madeira e cadeiras com assento de palha de milho. Cabides rústicos pregados
pelas paredes onde se penduravam as roupas... O piso era tratado com cinza,
o que lhe dava a impressão de coisa mais limpa que a terra vermelha.
Na cozinha, a lenha a queimar o dia inteiro, o cheiro de fumaça... Uma
lembrança mais sensorial é a do ruído da chuva no telhado de tabuinha.
Alguns ranchões avançaram no tempo. Recordo aqui o do tio Antonio
Quintinho, o do tio João Pastor, o do tio Carlos e o do Padrinho Loução,
marcos de uma época em que, no mínimo, existiam muitos palmitais na
região.
Depois surgiram as casas de madeira. Algumas avarandadas e pintadas
– já em locais de melhor escolha. Dessa safra cito a casa do tio Manoel e a
nossa Casa Grande – em pé até hoje e com mais de sessenta anos. Mas a
maioria das casas de madeira eram construções precárias: sem forro, sem
assoalho, nunca pintadas e fadadas ao envelhecimento rápido.
A alvenaria ainda hoje é rara no Cerne.
(1986)
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45. Volta da cidade
Ônibus lotado com destino a Bela Vista, saindo de Sertanópolis e
passando pelo Cerne. Três da tarde. A maior parte dos passageiros é do sítio –
alguns quase que viajantes diários como o tio Acúrsio e o tio Manoel. De um
modo geral voltam das compras.
Eu, quieto, espreitando aquela zorra toda. Alguns passageiros
alegrinhos, pois, na cidade costumavam tomar alguns tragos a mais.
O tio Zé Pereira senta-se ao lado de uma senhora negra, retinta, de ar
muito respeitável. As conversas cruzam-se no ar. “Ó Germano, olha que o Zé
Pereira arrumou uma boa companhia...” Risadas
O ônibus arranca. Na Vila Mineira, pega os últimos passageiros (Não
sei por que esperavam ali). E vai aos solavancos pela estrada empoeirada. O
barulho continua, cigarros de palha são acesos e longas baforadas expelidas.
No apelo da fumaça, a senhora negra saca de um cachimbo e enche-o de fumo
desfiado. Depois solicita um fósforo ao tio Zé Pereira, que tenta acender o
cachimbo da companheira. Impossível. O vento e os solavancos não
permitem: a chama do fósforo apaga-se sempre de imediato.
Vira-se para o banco de trás:
– Acúrsio, ô, Acúrsio, empresta-me o binga.
– Pra que, homem, se não fumas mais...
– Ora, Acúrsio, é que eu quero aqui botar fogo à canjarana!
Até eu saí do meu silêncio para uma boa gargalhada.
46. Grotesco - I
Aconteceu no Cerne, juro!
Noite de baile. Devia ser uma bela noite de sábado em que tanto os
rapazes quanto as moças envergavam os melhores trajes. Tudo às mil
maravilhas: caras bonitas, roupas alegres, perfumes, música, animação, danças
e contradanças.
Mas, á pelas tantas, o... Será que digo o nome dele? Acho que não devo.
É hoje um senhor provecto, muito respeitado e chefe de um clã numeroso.
Continuemos onde paramos: lá pelas tantas, no decorrer do baile, o referido
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galafate sentiu uma dor de barriga fulminante. Algo na janta apressada lhe
caíra muito mal e agora as cólicas e os puxões intestinais iam-se acentuando a
ponto de verdadeira emergência: não dava para resistir mais. Teve que sair a
campo.
Procurou um pomar ou uma beira de mangueiro e... Ufa! Aquele alívio
que sobrevém quando se escapa de um perigo eminente.
Abotoou as calças e puxou os suspensórios sobre os ombros (sim,
senhores, naquelas eras distantes, usavam-se suspensórios – era o fino da
moda). Apanhou o paletó, que deixara pendurado em um galho qualquer,
vestiu-o e retornou ao baile, como se nada tivesse acontecido.
Mas aconteceu.
Aonde chegava, todos franziam o nariz... De onde viria tal cheiro de
merda? Ele mesmo estava sentindo ondas odoríferas quentes, que o
acompanhavam a toda parte, dando-lhe a incômoda sensação de que o mundo
virara uma fossa. E a cada instante as coisas pioravam. Até que alguém – mais
observador – deu o alarme:
– Que mancha é essa nas tuas costas?
Tirou o paletó e constatou: o tecido de linho estava impregnado de
trampa, numa terrível mancha em “Y” e mais... os suspensórios estavam
besuntados da referida substância. Fim de baile para o nosso personagem.
O azar viera junto com a dor de barriga. Não há de ver que na pressa de
se desapertar – dentro da noite – evacuara sobre os próprios suspensórios!
47. Grotesco - II
Outro fulano, e isto talvez seja folclore, também se apertou. Foi no
campo e, no capricho de pisar sobre o limpo, baixou cuidadosamente uma
moita de capim colonião e ali se desapertou.
Ao terminar a operação, saindo do local do ato, a moita vergada sob
seus pés – uma vez solta – voltou ao prumo malhando-lhe nas costas os
dejetos. Esse cidadão, dizem que não voltou ao baile. Deu-se conta da tragédia
e foi direto para casa. Também!
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48. O café
Entre os anos de 1930 e 1970, o Cerne viveu o auge do ciclo do café.
Tal ciclo começou a definhar nos fins da década de 60 e teve o tiro de
misericórdia na grande geada de 1975, que se fez preceder pelos planos de
erradicação patrocinados pelo governo e pelo incremento da cultura da soja
e do trigo.
Mas, no período citado, o café ditou as normas de vida no Cerne. Tudo
girava em torno dele, desde o plantio até as colheitas.
Fique bem claro que o vale do Cerne, em termos de café, não foi
inteiramente feliz. As grandes geadas sempre o atingiram de maneira cabal.
Assim, nessas ocasiões, o café tinha o preço nas nuvens, mas era o preço do
inexistente, pois, por alguns anos, as colheitas seriam escassas. Por outro
lado, quando as colheitas eram abundantes, o preço era baixo. São as
famosas leis de mercado. Era contudo a grande ilusão de todos.
Fez a paisagem do Cerne: morros cobertos de cafezais alinhados,
perfilados, ora brancos das floradas deslumbrantes, ora carregados de frutos
vermelhos – uma festa para os olhos! Ou – em contrapartida – a desolação
após as geadas: a cor negra das folhas queimada substituindo o verde e logo
depois a galharia eriçada contra o céu, até que tudo se refizesse com o passar
dos meses.
Próximo às casas, as tulhas e os terreirões de ladrilho. Essas tulhas
eram construções simples de madeira, obrigatoriamente assoalhadas (luxo
que muitas casas não tinham). Geralmente construídas nos declives abaixo
dos terreirões, ligavam-se mesmo por pontilhões que continuavam dentro da
construção, rente ao telhado e por cima dos compartimentos, podendo-se dali
despejar o café em coco seco.
A lida do dia-a-dia: carpir, arruar, podar, colher, transportar ao
terreiro, secar, lavar, secar novamente, recolher às tulhas, ensacar e vender...
(esquecia-me da tarefa das crianças: espantar as galinhas e outros animais
que se aventurassem no terreiro).
Tudo isso pertence ao passado e só nos retratos se pode ver novamente.
É incrível como as coisas se transformam tão rapidamente. O Norte do
133
Paraná, todo ele, é marcado pela passagem do café: Capital Mundial do
Café, Rodovia do Café, Estádio do Café. Perguntam os jovens de hoje: “Que
café?”.
Mas ele existiu sim, eu juro!
Essa morraria áspera do Cerne, que hoje se destina às pastagens por
não poder ser mecanizada, era o território do seu reinado. Na verdade, os
morros eram bem mais bonitos sob o domínio dos cafezais. Na maioria deles,
o trigo e a soja não conseguiria chegar. É que estas culturas exigem
máquinas... e estas não conseguem vencer as quebradas pedregosas do Cerne
– indomáveis.
O remédio é destinar este espaço à pecuária. Quem diria!
Ecologicamente, o café foi o responsável pela devastação das matas.
Primeiro se destruíram as matas dos morros para seu plantio. As matas que
sobraram foram destruídas posteriormente, quando se demandaram terras
mecanizáveis para outros cultivos. Do revestimento florestal primitivo quase
nada mais resta.
(1987)
49. Mistérios do Cerne
No sítio do tio Joaquim Valente, a estrada do Cerne faz uma curva à
esquerda, não muito acentuada, antes de ganhar a reta que se prolonga até o
campo de futebol (vindo de Bela Vista).
Ali naquela curva, pelos idos de 40, houve um assassinato. Um
empregado do tio Caetano, casado de novo, foi morto por um tal de
Polaquinho com uma facada no peito. Os motivos? Não sei. Na época, houve
muitas suposições, mas eu era inteiramente criança para me preocupar com as
causas. Quanto muito me chamava atenção o acontecimento.
Fato é que, por muitos anos, permaneceu naquela curva uma cruzinha
rodeada de lírios, plantados sabe Deus por quem. Às vezes encoberta pela
capoeira, às vezes bem à vista, foi resistindo ao tempo.
Ultimamente, com o plantio da soja que chega às margens da estrada e
com o asfaltamento desta, não teve remédio que valesse à referida cruz: tomou
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chá de sumiço.
Saibam todos entretanto que aquele local (bem como a ponte do Cerne
no sítio do tio João Fernandes) era considerado mal-assombrado.
Certa noite, a Piedade e o Manoel, saindo da casa do tio Valente, lá
vinham sozinhos pela estrada (que temeridade!) após uma destala ou, quem
sabe, após um terço – o que é duro de acreditar, pois o referido tio não era
dado a rezas. E lá vinham, como ia dizendo. Ao passarem, pela curva da cruz,
ouviram atrás de si um ruído que acreditaram ser de um carro, vindo de Bela
Vista, aproximando-se deles. Coisa natural, pois a estrada sempre teve
bastante movimento. Encostaram-se à margem da mesma na expectativa de
que o tal carro passasse. Mas o que passou, pasmem, foi apenas o ruído. Nem
luzes, nem vento, nem poeira nem nada. Só o ruído forte, dentro da noite
escura e densa do Cerne, passou por eles rumo ao além...
Os dois, cabeça baixa e emudecidos, aceleraram o passo e não fizeram
qualquer comentário senão quando se sentiram no aconchego e na segurança
da própria casa, uns quinze minutos depois.
50. Sonhos não decifrados.
Em sonhos a gente volta. Eu, particularmente, desde que me lembro de
ser gente, repito um tipo de sonho. Não tem a dinâmica deste e mais parece
uma visão, mais ou menos assim: deitado, vejo diversas pessoas ao meu
redor, só homens e muito altos. Nada mais. Levando-se em conta a função do
cérebro como arquivador de imagens, quase sempre posso supor que esta se
refira aos primórdios da minha existência – talvez até do meu primeiro dia de
vida, quando meus irmãos chegavam da capela, tarde de domingo, 24 de
julho – tantos anos atrás. Ao lhes ser dado conhecimento do meu nascimento
prematuro, devem ter acudido até o berço que me agasalhava. É uma visão
estática e o julgamento sobre o tamanho das pessoas deve vir do cérebro de
um ser então muito pequeno. E eu era assim. O mais interessante desse sonho
(ou visão) é que sempre vislumbro o alto do vigamento do ranchão e a luz
escoando pelos vãos das tabuinhas da cobertura. E é só.
Em recordações – embora muito curtas – também muitas vezes a gente
135
volta. Noite, lampião aceso sobre a mesa, sons de violão e o Daniel (ele,
vejam só) a cantar, usando um cone de papelão frente à boca, como se fora
um megafone: “Num galho seco ouvi cantar um passarinho...”. Recordação
de uma clareza invulgar em que o cantor está sentado sobre o gabinete da
máquina de costura, ao lado de uma janela fechada. A sala do ranchão está
cheia de gente e há muitas e animadas vozes. Eu teria – se muito – um ano!
Muitas sensações ficam e através delas também se volta. A impressão
de aconchego, de conforto e segurança é coisa conhecida do meu ser e
relembrada... acho que desde o nascimento. Recordo-me de chorar
desvairadamente e aí chega a Maricas, toma-me no colo e canta canções de
ninar. Sinto-lhe o calor do corpo, a voz e o carinho. E paro de chorar – de
imediato. Murmuro qualquer coisa e logo emudeço e durmo...
Essas canções de ninar eu volto a recordar – já na Casa Grande – no
banco da varanda, ao anoitecer. Creio ter sido a Maricas a encarregada de
embalar-me para o sono noturno. Interessante como essa criatura está viva
tão fortemente nas recordações de infância. Foi uma figura de características
maternais acentuadas. Entretanto, quis o destino que ela viesse a morrer
exatamente ao ter aquele que seria o primeiro filho.
É verdade: em sonhos, em recordações e em sensações pode-se retornar
ao passado. Proust que o diga.
Há, portanto, dois Cernes na minha mente: o físico, que lá está
imutável, e o psíquico, que vive dentro da minha alma.
51. Retorno
“Dia quente de dezembro. Fim de tarde, sol caindo vermelho, pouco
acima da linha do horizonte. Nem uma brisa para amainar o calor vindo da
terra seca, o dia inteiro castigada pela inclemência dos raios solares.
Chego de São Paulo, via Assis, sabe Deus como: empoeirado, suado,
cansado e ansioso por repousar no Cerne. A essa hora, as possibilidades de
cumprir esse desejo são poucas. O ônibus já se foi e os moradores do Cerne
que vieram a Sertanópolis às compras também há muito já devem estar em
suas casas. O melhor é apelas para o Celestino e sua velha “baratinha”
136
branca. Ele nem titubeia – e lá vamos nós pela velha estrada, o carro
apanhando e gemendo nas subidas.
O dia começa a empalidecer. A “baratinha” sobe a custo o morro do
Miggotti. Lá do topo, vislumbro o Cerne, cujo vale parece ter agora um tom
azulado escuro ante a rápida fuga do sol. Descendo a reta da Mambuca, tudo
é mais fácil... A ponte, tantas vezes destruída pelas enchentes, ali na curva. À
esquerda, a relva de um potreiro onde vacas ruminam tranquilamente frente
ao dono, sentado sobre um balaio vazio, pitando um palheiro. Um cãozinho a
ladrar atrás das galinhas espavoridas.
No fim da subida do Teracci, sinto-me em casa. Dali vejo a casa de
Maricas, onde passei dias intensos da minha infância e onde se desdobrou seu
calvário final. Logo adiante – descendo – a casa da Conserva e o canavial do
Seu Marcolino. Depois o sítio do tio Zé Pedro, os coqueiros e o sítio do
Mangolin, o do tio Acúrsio...
Sensação de alegria: após o morro do espanhol vejo, à esquerda, a
casa do tio Manoel, imersa na palidez da tarde quente.
Mais uma quebrada, um forte aclive e o nosso sítio. Parece que sinto
cada metro da estrada. A noite já ameaça dominar o dia, mas ainda dá para
ver a Casa Grande e o arvoredo, lá embaixo. Uma coluna de fumaça branca
emergindo da chaminé. O fogão está em plena atividade, penso. Percebo tudo
com uma sensibilidade aguçada.
Frente à escola, dobramos pelo caminho do pasto, encravado entre
barrancos... a amoreira, a paineira. Desço e abro as duas porteiras, curva à
esquerda tangenciando o pomar. Ali está, em frente, a minha casa!
Na casa do Fernando, ao lado do terreirão, as lamparinas já estão
acesas, fumarentas. As crianças devem estar tomando banho de bacia e, quem
sabe, já cabeceando de sono.
Súbito, o alarido dos cachorros alegres, barulhentos e faceiros a
saudar o retardatário, o filho pródigo do Cerne que retona. Assomam à
varanda os familiares, alguns descendo as escadas a fim de abraçar-me.
Eis o retorno ao lar. É noite.”
(São Paulo – 1949)
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52. O abraço do tamanduá
O tio Alexander Fernandes ia sozinho por uma picada do Cerne.
Sozinho e distraído com os próprios pensamentos. Pois não é que, num
repente, deu pela coisa: estava cara a cara com um baita tamanduá bandeira!
No vacilo sobre o que fazer, eis que o bicho agarra-se a ele no
tradicional e folclórico abraço – o tremendo abraço do tamanduá.
“Tinha que me acontecer uma porra dessas” – dizia nas conversas com
os amigos, explicando os lances do tal encontro.
E luta daqui, luta dali – tentando livrar-se do inoportuno animal – o tio
Alexandre via-se numa enrascada sem precedentes e que só podia acontecer
naquele fim de mundo. “Lá na Paulista vivia-se melhor...”, pensava ele
enquanto vivia tal urgência desagradável: eram os pelos ásperos do bicho, as
unhas compridas e o bafo terrível... Uma definitiva impressão de estar
abraçado com o demo.
Após muitas tentativas, eis que consegue libertar-se. Ufa!
E agora, o que fazer com aquele indesejável traste ali à sua frente em
atitude zombeteira a calanguear sobre as pernas, como se estivesse bêbado.
Sim, o que fazer?
Se teve dúvidas o tio Alexandre, foi coisa temporária.
Arrancou das calças a cinta e, tal como fazia em casa com os moleques
após alguma má-criação, aplicou ao inconveniente uma tremenda surra... De
cinta, sim senhores!
53. Cerne
Encanto da infância,
Magia do passado,
Matéria dos pensamentos,
Esperança da velhice
Sonho verde da mocidade
A rolar nas águas cantarolantes
Do rio da memória
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Brilho das estrelas cintilantes
Nas noites infinitas
Dos meus devaneios insones
Chão vermelho de zarcão
Onde meus passos ligeiros
trilham até hoje
o caminho das próprias ilusões
(São Paulo – 1951)
54. Explicação inocente e óbvia
Esta aconteceu na Casa Grande do Cerne.
Rezava-se um terço, provável componente de uma novena – cuja
intenção não vem ao caso. Estava ali a família inteira mais alguns vizinhos.
Inclusive o Antonio Almeida com a Conceição e alguns filhos.
O Américo puxava o terço, tudo fazendo no intuito de torná-lo
definitivamente longo. Segundo a Angelina, incluía nele as suas próprias
orações habituais – assim não precisaria de rezar antes de deitar-se.
Lá pelas tantas do terço, um dos filhos do Antonio, o Manoelzinho,
então com uns sete anos, sai sorrateiramente da sala rumo à varanda. A sua
atitude – suspeita e imprevista – deixou a turma de sobreaviso.
Não deu outra. Sacou o pipi e pôs-se a mijar da varanda abaixo, naquele
xororó bem característico.
Uma onde de inquietude, de vontade de rir, tomou conta da sala. Eis
senão que entra de volta o nosso herói, ainda abotoando a braguilha da calça.
Ante os olhares inquisidores do pai e da mãe, saiu-se com essa explicação, em
voz clara e suficientemente alta para que todos ouvissem:
– „Orra, pai, estou com uma puta mijaneira!
Aí não deu para segurar, foram risadas para todos os lados.
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55. Sueca
O jogo da Sueca era o principal lazer da portuguesada do Cerne –
tradição transmitida aos seus descendentes. Era uma espécie de bisca de
quatro com parceiragem de dois contra dois. Aquilo os envolvia em jogatinas
nos domingos à tarde ou nas noites de qualquer dia, desde que o interesse
fosse levantado.
Silêncio no decurso da partida, comentários ao final. Quase sempre
acusações à conduta do parceiro que se destraíra ou queixas contra o azar – o
principal responsável pelas derrotas.
Os “sapos de fora” não costumavam dar palpites nem isso lhes era
permitido: seriam então duramente castigados com repreensões – fossem
adultos ou receberiam alguns cascudos – fossem crianças
---x--O seu Zé dos Ovos era um mascate português, lá das terras da Argana,
próximo de Lamalonga. Conhecia os patrícios do Cerne – alguns já lá da Santa
Terrinha. Tinha neles uma clientela cativa a quem costumava impingir a sua
bagulheira.
Onde pernoitava no Cerne, logo se organizavam as duplas de Sueca. E
jogavam até cansar, em porfias cheias de lances cômicos.
Terminada a partida, o Zé dos Ovos fazia rápida contagem dos pontos,
pois fazer conta era do seu ramo, e proclamava:
– Ganhamos por dois... – ou qualquer outra diferença.
Só nas partidas em que a derrota era óbvia, ele não fazia a contagem,
dando-se por vencido. Ótima tática.
Certa noite o tio Carlos – seu adversário mais ferrenho e desconfiado –
resolveu conferir a contagem do Zé dos Ovos. Não outra: ele havia trapaceado
a conta. Não ganhara por dois coisa nenhuma. Perdera, isto sim, por três
pontos!
– Olha aqui, trampolineiro de merda, quem ganhou fomos nós – e
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esfregou-lhe as cartas nas ventas.
Daí por diante, nunca mais se confiou nas contagens do Zé dos Ovos.
Todos faziam questão de contar seus pontinhos para só depois aceitar o
resultado. Ele, sério, fazia-se de vítima:
– Não sei o porquê de tantas desconfianças...
O dito cujo contudo deixou lembrança. Mesmo ausente, se alguém
errava na conta em proveito próprio, lá vinha a exclamação:
– Ah, seu Zé dos Ovos!
---x--Muitas lembranças em torno da Sueca. As zombarias, os pentes e as
bandeiras, bem como as raladas de bisa do trunfo pelo ás, eram sempre
acontecimentos festivos – para quem levava vantagem, é claro.
A “bandeira” era a queda em que uma das duplas fazia todas as mãos,
deixando o adversário no zero. Jogada máxima, por vezes prevista face ao
jogo disposto na mão. Uma vez consumada, os vencedores levantavam-se,
faziam continência e imitavam uma banda que tocasse o Hino Nacional:
- Ta-Tchim!”
A bandeira valia quatro pontos, uma partida, portanto.
Muitas vezes durante minhas férias passadas no Cerne envolvi-me
nessas porfias, tendo o Carlos como parceiro permanente. E todas as noites
enfrentávamos os mesmos adversários a dupla Seu Osman e Paulo.
De acordo com as circunstâncias e a sorte, perdia-se ou ganhava-se,
ficando a marcação das partidas num papel abandonado sobre a mesa. Esse
papel seria manipulado no dia seguinte pelos interessados:
– Olha que maravilha, três pentes e uma bandeira!
56. Para o lado do nariz
Esta foi lembrada pelo tio Chico – que Deus o tenha. Contou-me até
quem foram os participantes da façanha. Mas eu não me lembro mais.
Deu-se o seguinte: dois moradores do Cerne, lusitanos dos bons,
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estavam na venda à espera do ônibus que os levaria a Sertanópolis. Ônibus
que afinal não passou naquele dia. E os dois bebiam tragos e mais tragos
daquela cachaça que derruba até poste. Estava, portanto, bastante alegrinhos.
Lá pelas tantas resolveram seguir a pé rumo à cidade – inconseqüência
de quem está borracho, pois se a condução não ia... também não viria. Logo,
teriam também de voltar a pé. Mas dizem que Deus protege os bêbados e as
crianças. Deve ser isso mesmo, senão vejamos.
Saíram estrada afora, meio cambaleantes. A uns dois quilômetros da
partida, um deles resolve acender o palheiro que tinha pronto na orelha. Tarefa
difícil, pois o vento de frente impedia que o binga se mantivesse aceso. Vai
daí que – ambos envolvidos na tarefa – voltam as costas ao vento e... pronto:
está aceso o cigarro de palha. Aí então continuaram caminhando, só que na
direção tomada ao acender o dito cujo. Vale dizer: voltaram ao ponto de
partida sem o perceberem.
Só deram conta da realidade quando aportaram novamente na venda, se
é que deram conta mesmo. E ali devem ter passado o resto do dia.
57. Duro de acreditar
Contam que o tio Bolo ia por um caminho em meio à mata, nas bandas
de Mambuca. Eram precários os caminhos da [época: picadões irregulares,
sombrios, passagens a vau e outras dificuldades.
E lá ia o tio Bolo montado no seu burro de estimação.
Cabe um parênteses a destacar a figura dessa personalidade folclórica:
fala abundante, ar de bonachão, bom humor e uma simplicidade de
pensamentos quase rudimentar. E, com os diachos, de onde lhe viria tal
apelido?
Continuando, vinha ele montado no seu burro, quando se deparou com
um obstáculo: um galho grande suspenso no ar e preso entre duas árvores
laterais. Não sei se o nosso herói estava sóbrio...
– Caraco... será que posso passare?
Desce da montaria e corta uma vara bem longa com a qual mediria a
altura do burro e a distância do galho ao solo.
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– Dá para passare – concluiu após a perícia local.
Monta no burro que, cheio de baldas, não quer andar. Esbarra-lhe as
esporas exclamando: “Bái”. O animal assim instigado projeta-se à frente de
supetão. P tio Bolo foi direto com o peito contra o galho, sendo arrancado da
sela e dando com os costados no chão.
Claro: dava passagem apenas para o burro, que aliás passou. O de cima,
que não se medira, foi dar com os cornos por terra.
E dizer que era só descer e conduzir o animal pelo cabresto!
Novamente a suspeita: deveria estar cozido de cachaça.
58. Espião do passado
Vivo a espionar o passado e a esmiuçar paisagens e personagens
perdidos no tempo e que já não existem mais.
É uma tarefa desprovida de senso prático. Certamente, contudo, me
proporciona grandes satisfações. São vislumbres que vou apanhando aqui e
acolá. Depois, laboriosamente, vou ampliando-os até recompor pequenos
fragmentos do passado. Estes, dispostos sobre referências conhecidas podem
ou não reproduzir um fato no seu todo.
Assim, como uma longa e vagarosa pesquisa arqueológica, vou
trazendo à claridade das lembranças toda uma sorte de quinquilharias.
Costumo, nessas divagações, pairar territórios palmilhados na infância.
Alguns desses (não sei por que) têm uma preferência compulsiva. O mais
intrigante é que em sonhos também me afloram esses locais.
Quantas vezes revisito a minha querida “Escola Mixta do Cerne”, que
já não existe há tanto tempo! Vejo-me no seu interior sentindo um denso
mistério, murmúrios e odores. Sento-me nas alvas cadeiras e abro velhas
cartilhas. No mundo mágico dos sonhos e dos pensamentos, vivo o seu dia-adia, sou novamente criança. Saio para fora e brinco à sombra do ingazeiro.
Lanço olhares ao longo da estrada vermelha e deserta, cheia de evocações.
Em outras ocasiões, me vejo nos arredores da casa do Antonio Almeida.
Na velocidade das divagações e dos sonhos, sou passageiro da emoção,
revivendo muitas e muitas vezes aquele mundo esquecido e varrido da face da
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terra.
São cenas tão vivas que, ao acordar, me deixam excitado e sofrido pela
sua perda e louco por retornar.
Curiosa também a preferência dos sonhos pela região das casas do tio
Antonio Magro e do tio lagoa... Eu tinha grande apego a essas famílias, além
do fato de conviver quase diariamente com elas. Saiu dali a mudança do tio
Magro em 1940 – bem no dia em que se mudou também o tio Carlos. O Lagoa
teria saído alguns anos antes. Suas casas foram sendo ocupadas
sucessivamente por empregados que vinham trabalhar em nossa propriedade.
O rancho original do Lagoa veio logo abaixo e guardo dele apenas vagas
lembranças. Ao seu lado e na mesma linha, foram sendo construídas as casas
que viriam a constituir a colônia dos empregados. Numa delas, em certa
época, veio morar o tio Joaquim Moraes com a família, após a bancarrota em
São Paulo. Curta duração teve essa passagem. Era ele um fidalgo inato,
acostumado às coisas boas da vida... Não iria criar raízes naquele mundo de
ásperos desconfortos.
O que lembro e sonho: aquela alameda de amoreiras ao longo da cerca
do mangueirão, até o córrego. Paraíso de tucanos, sanhaços, gralhas, tiribas,
maritacas e guaxas e de tudo quanto é tipo de pássaro. No lado oposto do
quadrilátero do mangueirão, o caminho em direção à mina e ao lavador de
roupa. Em frete a este, um trilho subindo o barranco e embrenhando-se na
mata. Era por ali que o pessoal atalhava em direção às roças e aos cafezais.
Eu andava – e ando em sonhos e recordações – por essas paragens como um
elemento biológico próprio, ouvindo, vendo, parando e correndo. Lembro-me
e muito do caminho em meio à mata, após a alameda de amoreiras, ligando a
colônia à Casa Grande. Imensos troncos de árvores, tão avizinhados uns dos
outros, ancorados Na terra desde que o mundo era mundo. A Grota do riacho
com seus poços de pedra, água cristalina, cheios de lépidos lambaris. Os
imensos cipoais pendurados nas alturas das árvores multisseculares... Um
aspecto concreto da eternidade, que um dia sucumbiu a golpes ferozes e
muitos machadeiros. Uma realidade triste.
Confesso que aos meus olhos de menino puro e inocente aquela
144
devastação era absolutamente inexplicável, embora se tornasse cabal. Rotinas
da época: derrubar, queimar, plantar...
E o caminho do tio Magro despiu-se da magia.
Matas nunca houve na minha vida, no caminho entre a Casa Grande e
a casa do Antonio Almeida. Passava-se pelo terreirão de ladrilhos, ao longo
da casa do Fernando, tulhinha e ranchão e cruzava-se o pomar (as
laranjeiras eram tão grandes, alinhadas, fechadas no alto: um mundo de paz
e sombras – outro caudal de recordações), caminhava-se rente à fileira de
eucaliptos, no pasto, até a cerca da divisa. Uma vez transposto o portão, o
trilho batido em meio ao gramado levava à antiga colônia do tio Manoel,
onde morava o Antonio Almeida. Um dia também ele mudou-se dali e
sobreviveram escombros.
Então minha infância morria nos braços de uma adolescência sofrida e
solitária.
Parece que obstinadamente me recuso a falar de pessoas. Não é bem
assim. É que tanto já foi falado e escrito que tenho receio de ser repetitivo.
Pois bem: que fique consignado aqui que as paragens a que me refiro só
tiveram razão de ser rememoradas face às pessoas que nela viveram. Nada
mais.
E tantas vezes me pergunto: que raio de lugar era esse que agora só me
traz sonhos e recordações belas? Não teria também aspectos tristes e
contundentes?
Diria que a capacidade de esquecer talvez seja o melhor atributo da
mente humana. Ela coloca no escuro o lado negativo do passado. Sem dúvida,
isso faz parte da saúde mental do ser humano.
Mas é bom esclarecer que havia ali tanta coisa precária! As doenças
rondavam e faziam vítimas, implacavelmente, a higiene era pouca e o
conforto, desconhecido. A ignorância fazia-se presente de modo universal. E
o trabalho atingia as raias do desumano.
Tudo isso mudou – dizem que para melhor – como aliás mudou o
mundo, sem paralelamente aumentar a felicidade na Terra. Duro de admitir,
fácil de compreender: as pessoas daquela época viviam menos avidamente
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que as de hoje. Tudo ia ao sabor do arrastar dos dias, dos meses, das estações
e dos anos. Vivia-se um primitivismo bom para a cabeça e a mente, ainda
muito longe da velocidade na variação de conceitos que a informação
persistente produz nos dias de hoje.
59. A tiro
Falando de acontecimentos insólitos, é bom lembrar esta história cujo
protagonista foi o famoso tio Panarra, morador lá das bandas da Mambuca –
outro reduto de portugueses, intimamente ligado ao Cerne.
Certo ano, o verão foi chuvoso demais. Era dia e era noite e a chuva não
parava de bater insistentemente sobre o chão vermelho já ensopado.
Não havia como trabalhar nas roças. O feijão, no ponto de colher,
brotava nas vagens ao relento, apodrecendo em seguida. O mato, ou seja, as
ervas daninhas, crescia viçosamente por toda a parte, afogando as culturas da
época – e quem iria carpir o mato com tanta chuva? Era o mesmo que mudá-lo
de um lado para o outro. As criações sofriam no excesso de umidade e de
barro, perdendo a saúde e até a vida. Nas casas, o bolor tomava conta de
tudo...
No sítio, ficar em casa o dia inteiro – não sendo domingo – era um fato
restritivo, senão gerador de insatisfações. Tanto serviço a fazer e as pessoas ali
encafuadas o tempo inteiro. E isso acontecia por mais de um mês, parecendo
querer continuar por outro tanto. Cruzes! Brigas com as mulheres, tundas nas
crianças, o diabo.
Foi nessas circunstâncias que o tio Panarra resolveu tomar uma
providência: carregou a espingarda cartucheira e saiu porta afora com o bornal
cheio de cartuchos. Pasmem: pôs-se a dar tiros para cima... Contra as nuvens e
contra a chuva!!!
Não me perguntem se a chuva parou, se o tempo melhorou – conforme
desejo de todos e em específico do irritado tio Panarra. Não me perguntem,
que tanto não me foi informado.
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60. Lá em cima, lá embaixo...
O Cerne tinha uma divisão geográfica tão simples e clara aos seus
moradores quanto aleatória na definição, pois não levava em conta os limites
reais nem era fixa. As referências vagas estavam na boca de todos: “Lá em
cima já chove” ou então “Lá embaixo geou pra caramba”.
Que essa forma de regionalizar as coisas era simplérrima, não tenho
dúvida. Todavia os moradores da região a aceitavam como a coisa mais
evidente do mundo. Quais são os limites presumíveis dessas duas frações?
Não sei. E duvido que alguém saiba.
Podemos evocar duas referências importantes. A primeira é o rio Cerne
que, a partir do ponto em que é cruzado pela estrada, passa a ser um rio
quase que de planície. A segunda é a Capela de São Sebastião, dependurada
numa fralda de morro, a olhar para a região em que o rio desliza mais
placidamente.
Ora, diriam os entendidos que “lá em cima” fica a montanha do ponto
onde o rio amansa, deixa de ter cachoeiras. Todas as encostas a oeste e a
noroeste elevam0se sucessivamente até chegar-se a um planalto onde ficavam
os sítios do tio Carlos, do tio Pereira, do tio Abílio e tantos outros. Sucede
que, ultrapassando o rio e caminhando rumo oeste, tem-se a certeza de que às
costas fica o “lá embaixo”. São, portanto, limites fugidios e altamente
imprecisos.
Agora, existia o “lá embaixo” mesmo, bem definido. Eram as paragens
do tio Acúrsio, do Espanhol, da venda e dos Almeidas... Entretanto, também
aqui havia partes altas – morros que constituíam verdadeiras serras. O “lá
em cima” bem definido eram as terras dos Abílios, do tio Carlos e o que vinha
além dos altos do tio João Fernandes. A partir dali, já nem era mais Cerne.
Era o Biguá.
“Lá embaixo”era mais povoado, tinha mais festas, tinha a estrada, o
ônibus, mais bailes e mais moças bonitas, além do campo de futebol. A Igreja
de São Sebastião, pode-se dizer, também pertencia a essa circunscrição. “Lá
em cima” era mais bonito, diziam. Tinha mais progresso, pois geava menos e
produzia-se mais café. Era ainda mais agreste, mais fresco e mais miste147
rioso...
Apesar da precariedade dos limites, as ligações existiam e eram
igualmente incertas. Trilhos e estradas de terra que se interrompiam a
qualquer chuva e em cujas valetas minava água. Em certas baixadas,
formavam-se atoleiros quase perenes. Só a pé e a cavalo tinha-se a certeza de
chegar sem embargos. Carro? Nem pensar. Quanto a isso as coisas ainda não
mudaram muito.
61. Palpite infeliz
O Antonio Almeida às voltas com um problema chato: montado a
cavalo no Guarani tentava em vão fazê-lo andar, e nada. O danado estacara
sobre as pernas numa firme demonstração de revolta contra o permanente
servilismo ao dono inquieto e exigente.
A cena ocorria ao lado da casa, frente à porta da cozinha, atraindo as
atenções de todos. Nessas circunstâncias, o cavalo parecia mais irredutível que
nunca. Afinal, tendo assistência, o seu protesto seria mais interessante. Pelo
menos era isso que parecia estar acontecendo.
– Essa é boa – esbravejava o Antonio – imagina se esse matungo vai me
fazer de bobo, pois sim.
E insistia nos “vamo, vamo!” e em outras ordens costumeiras, mas tudo
continuava na mesma e o bicho ali empacado.
Sentado nos degraus da escada da cozinha, o João, filho maiorzinho da
turma, prestava toda a atenção na bronca do pai. E resolveu colaborar com
uma idéia cujo perigo não lhe passava pela mente:
– Toca a espora nele, pai!
– É disso que ele precisa! – falou o Antonio enquanto calcava as esporas
nas ancas do animal.
Pra quê! Tão rápida quanto a ação do cavaleiro foi a reação do cavalo:
empinou e corcoveou como um autêntico potro xucro – ante o espanto de
todos. Pouco tempo manteve-se o Antonio na sela, sendo logo projetado ao
chão rapado do quintal, fugindo o animal com os arreios e tudo.
Pagam os inocentes pelas bobeiras dos adultos. No caso, o inocente
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palpiteiro era o João.
– Ah, moleque sem vergonha. Querias ver era o pai no chão, não é
assim?
E deu-lhe uma exemplar tunda de cinta. Só depois, cambaleando das
dores do tombo, foi atrás do cavalo.
62. Semana Santa, Páscoa, Fular
A Semana Santa teve em outras épocas características apenas religiosas.
Pouco se trabalhava. Na Quinta e na Sexta-feira então... tudo era proibido. A
começar pelo trivial: comer.
Jejum e abstinência de carne, falar baixo, não rir, não lidar com a terra,
não cantar... Só as atividades essenciais da vida eram permitidas.
Sim, bater nos filhos era proibido aos pais. Contam até que certo pai – à
medida que os filhos iam cometendo impunemente algumas maroteiras – ia
contabilizando. No Sábado de Aleluia ele punha a escrita em daí. Pegava um
por um e ia lembrando: “Esta é por aquilo”, “Esta é por aquela outra” e “Esta
é por conta do que já me esqueci”. E a cinta ia cantando. Houvesse nádegas
para tanta cintada.
Bem, as coisas aliviavam após o meio-dia de Sábado de Aleluia com um
romper em clima de festa.
O fular era o ponto alto dos festejos. E ainda é... Um pão especial feito
de farinha e ovos, recheado de lombinho, lingüiça, frango, toucinho... Uma
perdição para aqueles a quem qualquer tipo de dieta alimentar se faça
necessário. Mas fique bem claro que a função do fular começa na Sexta-feira
Santa, quando se preparam os ingredientes. É uma tremenda tentação sentir
aquele cheiro gostoso de carne e de lingüiça cozidas, e a gente não podendo
comer, sob pena das ameaças de um pecado mortal!... Fogo eterno!
E sábado, logo depois do almoço, vão os fulares ao forno, crescidos com
o fermento e dentro das fôrmas mais variadas possíveis: panelas, travessas,
bacias... (fica fora o penico, insinuação do Mário Dionísio).
À tarde – ao café – inicia-se a comilança. Em cada casa que se entra há
que se experimentar o fular. Naquela noite nem se janta. Domingo de Páscoa,
149
tudo continua. É difícil dissociar a Semana Santa e a Páscoa dessa tradição
portuguesa que, junto com as alheiras, constitui um ponto importante da
culinária tradicional do Cerne.
63. Leituras
Mentiria se dissesse que iniciei minhas primeiras leituras pelos
tradicionais gibis. Eles só chegaram ao meu conhecimento depois de outras
incursões no mundo dos livros e das revistas.
Havia no Cerne um malão – no quarto dos rapazes – onde se guardavam
revistas, almanaques, alguns livros didáticos e mesmo romances que o crivo
moralista do pai permitia entrarem na casa.
Fora os almanaques, os mais variados, que me atraíram de início –
mesmo antes de ingressar na escola. Eu os folheava, via as gravuras e entendia
o sentido das mensagens – já que eram escritas em linguagem simples e
intuitiva. A leitura era quase que instantânea: anedotas, conceitos, fatos,
preceitos e adivinhações.
Ainda nessa fase de desabrochar, gostava dos livros escolares de leitura.
Tinha especial paixão pelos da “Série Braga”: leituras atraentes, informativas
e formativas, ilustrações em cores, contos e poesias muito bem selecionados.
Só depois disso, reafirmo, é que apareceram em casa os primeiros gibis,
trazidos de São Paulo pelo Adérito. Mergulhei no mundo das histórias em
quadrinhos. Lia com verdadeira alucinação. Já estava nos nove anos e foi meu
pai o primeiro a alertar contra esse tio de leitura em que a violência era o prato
principal.
Minha grande alegria era abrir o malão e dele extrair um manancial de
leituras que me consumiam horas a fio, um verdadeiro prazer intelectual.
Aí ingressei no internato, em São Paulo. Logo no primeiro ano de Liceu
descobri os livros de leitura infanto-juvenis, do tipo aventuras. Foi uma febre.
Li tudo o que se dispunha, de Karl May a Júlio Verne – sem falar em outros
mais contemporâneos. Febre que logo passou. Então comecei a interessar-me
pelos autores nacionais – porta que se abriu através do “Florilégio Nacional”,
um antologia de autores de língua portuguesa adotada ao longo do curso
150
ginasial.
Mas o primeiro livro que li mesmo foi no Cerne. Tratava-se de “Diva”,
de José de Alencar. Um volume encadernado que por muitos anos andou de
mão em mão lá em casa. Li e desde então não parei mais. Passei a Machado de
Assis, Eça de Queiroz, Joaquim M. Macedo e, por último, Érico Veríssimo.
Foi a partir de 1948 que comecei a ler autores estrangeiros e a estréia foi
o então muito badalado “Por quem os sinos dobram” de Hemingway. Logo
encontrei Cronin e Somerset Maughan. Mais adiante avançaria sobre Thomas
Mann e Proust.
Mas os livros, as brochuras amareladas, esbrugadas e desmoronadas que
encontrei no Cerne ficaram em minha memória: “Barrancos de Toledo”, de
Peres Escrich (aquele que monteiro Lobato dizia escrever por quilo!), “A
Escrava Isaura”, de Bernardo Guimarães, “O Lírio do Vale”, de Pinheiro
Chagas, “Amor de perdição”, de Camilo Castelo Branco e “A Rosa do Adro”,
de Manoel Rodrigues. Eram leituras complicadas, sob a luz da lamparina, à
noite. Aí começou a mania dos livros.
64. As habilidades do cavalo
O tio Manoel Antonio consta nos meus arquivos de recordações como
figura marcante. Além de tio (irmão de meu pai) era também meu padrinho de
crisma e costumava fazer-me toda sorte de agrados, muitas vezes dando-me
carona na sua bela charrete puxada pelo elegantíssimo Guarani – um mangalarga de raros predicados e acima de tudo muito veloz.
Mas a história que agora recordo prende-se a tempos bem anteriores –
acho que antes mesmo do meu próprio nascimento. Nessa tão primitiva época,
a estrada do Cerne ainda obedecia ao primeiro traçado – mais longo –
cortando as matas através de picadões, pelo lado oposto do rio. Falar que isso
fosse estrada já é uma temeridade...
Já naquele tempo o tio Manoel costumava distrair-se com as horas e
chegar em casa – com freqüência – após o anoitecer.
Numa dessas ocasiões, montando no Ruano e voltando de uma viagem
de compras, anoiteceu a meio do caminho. A escuridão dentro da mata
151
tornara-se mais intensa ainda, apenas riscada pelo piscar dos vaga-lumes.
Não tinha importância. As compras estavam nas alforjes e o cavalo
sabia bem o trajeto, caminhando a passo picado, ligeiro... logo estaria em
casa... E perdeu-se nos próprios pensamentos.
Ao chegar no ponto onde deveria transpor o vau do rio e entrar no
caminho dos fundos do seu sítio, sentiu que o cavalo parara fazendo algum
luxo. Instigou-o, cutucando-lhe a barriga com os calcanhares:
– Bái, bái!...
E pensou consigo: “O raio do cavalo, em vez de atravessar na
corredeira, passou pelo meio do poço... porcaria!”
Mas já estava em terra firme. Em meio à escuridão, chegou em casa. Foi
o Eleutério que se aproximou com um lampião.
– Nossa! O que foi que aconteceu? As alforjes estão todas molhadas... E
o senhor também...
– Que nada – falou o Antonio que emergiu da escuridão – o rio está
numa baita enchente. Vim de lá há pouco quando começava a escurecer.
Choveu muito há duas horas nos altos do Cerne, chuva de encher qualquer rio
e eu mesmo vi o danado subindo, cheio de ciscos. Deve estar começando a
baixar agora... mas ainda está cheio.
Era a realidade.
As compras do dia – farinha, bolachas, macarrão, bacalhau – estavam
encharcadas e estragadas... E o tio não teve outro recurso senão trocar de
roupas, pois também estava ensopado da cintura para baixo.
Mas o Ruano, mastigando as espigas de milho que o Eleutério lhe
servira após desarreá-lo, sentia-se à vontade: provara conhecer bem a estrada –
mesmo no escuro – e saber nadar em circunstância adversas: rio cheio e
turbulento.
65. Sobrenatural mais uma vez
O Antonio Gago, caminhoeiro da época, era bastante conhecido no
Cerne por percorrer a estrada todos os dia e dar caronas a muitos. Fazia
praticamente todos os fretes entre Bela Vista e Sertanópolis.
152
Época de pouco trânsito nas estradas e de carros (caminhões) velhos e
lentos. De modo que – dependendo do estado de conservação do caminho –
uma simples viagem de ida e volta entre as duas cidades – uns quarenta
quilômetros rodados – envolvia o dia inteiro. E o Antonio Gago chegava em
casa já noite avançada.
Numa dessas noites, e é bom que se entenda ter sido uma noite clara de
luar, lá vinha ele em seu caminhão com um ajudante, um compadre que o
acompanhava quando os fretes eram mais pesados.
Já transposta a ponte do Cerne e a curva do cebolão, ia agora pela parte
mais alta da estrada, tendo à direita a imensa invernada do Paraíso, capim
rasteiro e bem pastado. Eis que ambos vêem à claridade do luar e dos faróis
fracos um lindo animal branco cruzar a estrada em frente ao caminhão, sem
muita pressa. Parecia um enorme cordeiro, sem chifres... Sua brancura
brilhava no luar.
Numa atitude repentina, Antonio Gago parou o caminhão e ambos
desceram. Vararam a cerca de arame farpado, indo atrás do “bicho branco”.
Rápido foram no seu encalce e tentaram pegá-lo... Em vão. Chegaram-se a ele
– que não era veloz nem tentava fugir. Tudo fizeram para pegá-lo, mas
perceberam que ele sempre lhes fugia por entre os braços – como se fosse
feito de vapor. Aliás, eles sequer sentiam qualquer contato físico ao toc[a-lo. E
nisso passaram-se horas, já estavam longe... Foi quando o Antonio deu conta
de si e alertou o companheiro:
– Compadre, vamos embora que isto aqui não é coisa boa.
Voltaram pensativos ao caminhão e na cidade comentaram sobre o
acontecido. Quem ouviu acreditou se quis. Mas sempre entendendo que a
experiência vivida pelos dois fora um verdadeiro encontro com algo
sobrenatural, inexplicável.
Não ficou nisso. Algum tempo depois, eram iguais as circunstâncias:
noite de lua, avançada... Só que o Antonio, dessa vez, ia só. Ao passar pelo
mesmo local, percebeu que lá ia cruzando a estrada o mesmo e estranho
animal branco, brilhando ao luar!
Antonio Gago sentiu-se estarrecido. Arrepios e tremores perpassaram153
lhe o corpo. Quando deu conta da situação, estava com o caminhão parado no
meio da estrada. Suava frio e trincava os dentes.
66. Paralelos
Quem observa o Cerne, nos dias de hoje, não faz a mínima idéia do que
teria sido nas décadas de 30 a 60.
Hoje a vastidão das culturas de soja e trigo é a característica
dominante - junto com a ausência de florestas. Essas culturas dominaram
todas as áreas mecanizáveis e, ano a ano, foram conquistando mais espaços
nas fraldas dos morros e nos planaltos. A paisagem vislumbrada na época do
verdor das plantas parece um mar a flutuar ao sabor dos ventos. Mas não é
uma visão tão aprazível por ocasião do manuseio da terra. Nesse caso, tais
áreas mais se assemelham a extensos desertos. Enfim, tudo vale pelas
metamorfoses que se sucedem ao correr do ano. As casas ficam circunscritas
pelas culturas. Desapareceram hortas, pomares, jardins e colônias.
Era bem diferente antes.
Os cafezais, defendendo-se das geadas, habitavam os altos. As baixadas
destinavam-se às sedes, às colônias, às pastagens e a tudo aquilo que
dissemos ter desaparecido. Havia ainda resíduos de matas e capoeirões.
As colônias... Incrível saber que foram uma realidade concreta no
passado. Quanto maior o número de pés de café plantados, mais casas
haveria nas colônias. Nelas moravam os empregados, mão-de-obra essencial
ao ciclo do café. Mais casas... mais gente.
O café exigia isso. Mas tudo sumiu com ele. Como essas colônias
ficavam nas baixadas, território preferido das atuais culturas, o seu destino
era um só: desaparecer.
Não há como comparar o tipo de vida daquela e desta época. Havia
mais gente na zona rural do que na urbana, mais fartura, festas mais
animadas e jogos de futebol com grandes assistências. Hoje em dia, tem jogos
em que há mais gente dentro que fora de campo. Já constatei tal fato mais de
uma vez.
154
67. Último retrato...
Os casos aqui relembrados – na maior parte das vezes – tive
conhecimento deles ao pé do fogão a lenha da Casa grande, nas noites frias do
Cerne. Em tais circunstâncias, as conversas tendiam a alongar-se noite
adentro, caindo sempre nos eternos assuntos.
Posso afirmar com certeza que o Américo contribuiu com a maior parte
destas referências. A sua cabeça era um imenso arquivo, não só da família
como de todo o Cerne.
Quando nos deixou – tantos anos atrás – senti entre outras coisas que
com ele se perdera irremediavelmente uma boa parte da memória da família e
da região. E todos hão de concordar comigo. E talvez seja esta a razão de ter
juntado, no papel, as lembranças que pairavam nos desvãos de minha
consciência, antes que as esquecesse de vez. Sabe Deus o quanto já esqueci...
Mas a intenção foi boa.
E estas pequenas lembranças são como os retratos guardados numa
caixa que de vez em quando a gente esparrama sobre a mesa na intenção de
matar saudades.
O Cerne tem ainda um passado mais recente, no qual não tocamos, e
que fica à disposição das gerações atuais para o seu registro.
O passado aqui referido é o mais remoto, mais primitivo. Urgia que
fosse fixado no papel, caso contrário perder-se-ia em definitivo – junto com as
poucas pessoas ainda remanescentes e já em idade avançada... Ninguém é
eterno!
155
Escola do Cerne (1940)
A primeira capela do Cerne (São Sebastião) – que passaria por
modificações (1932)
156
Capela de N. S. de Fátima
157
Atual capela de São Sebastião
Inauguração da nova capela de São Sebastião
158
Comunidade portuguesa reunida em Sertanópolis por ocasião da visita
do cônsul português (1938
Luso Brasileiro F.C. em dia de grande festa futebolística no Cerne (1949)
159
Grupo reunido no terreirão da Casa Grande (1937)
Saindo para um casamento
160
A volta do casamento, grupo reunido no terreirão
Grupo de rapazes do Cerne (1941)
161
O Padre Chico em meio a um grupo de rapazes, ao lado da Capela de
São Sebastião (1942)
O café no terreirão
162
Terreirão e tulha
O cafezal
163
O rio Cerne
164
Professora Maria de Lourdes, ladeada por José Bernardino e
Ameriquinho (à esquerda) e Mário Braz (à direita)
165
Casarão do Cerne (1999)
166
III. Cerne – Apêndices
I. Os tios e os apelidos
Um fato é certo: desde o loteamento da “Água do Cerne” até sua ocupação, houve um manifesto desejo de que ela fosse habitada por famílias da
mesma origem. Tal intenção concretizou-se na criação da colônia portuguesa
às margens do ribeirão do Cerne.
Os portugueses ali chegados tinham ainda na cabeça lembranças muito
vivas da pátria distante e traziam dela hábitos, tradições e experiências. Mas se
lá viviam em aldeias e cultivavam pequenas herdades, tinham aqui pela frente
uma realidade bastante diferente, pois haviam-se tornado proprietários de
extensos lotes de terra. E a tarefa, agora, era desbravar e cultivar.
De saída de Portugal à chegada ao Cerne, passaram-se entre uma e duas
décadas. Durante esse período, variável para cada família, empreenderam a
dura saga do pioneirismo pelo interior do Estado de São Paulo. Fase difícil,
porem essencial à sua adaptação no Brasil.
No Cerne, tais proprietários passaram a viver o status de senhores
feudais. No caso, o pai – cabeça de uma família obrigatoriamente grande –
tinha nesta a única disponibilidade de mão de obra. O pai era o chefe, o mestre
e a autoridade.
E qual seria o título a ele conferido pelos núcleos semelhantes da
vizinhança?...
– Tio!
E vamos aqui recordá-los – alguns com seus bizarros apelidos, coisa
bem própria da terra de origem. Portugal. Foram eles os patriarcas do Cerne, a
quem devemos, em cada caso, nossos caracteres pessoais e tudo mais na vida.
Eis os nomes:
Tio Acúrsio – Sr. Acúrsio dos Reis Alves
Tio Alexandre – Sr. Alexandre Fernandes
Tio Antonio Nanico – Sr. Antonio Maria Reis
Tio Barrecas – Sr. Manoel dos Reis Alves
167
Tio Bela – Sr. João Poças
Tio Boné ou Tio Carção – Sr. João da Silva
Tio Cafumango
Tio Carlos – Sr. Carlos Augusto Domingues
Tio Chicarrote – Sr. Francisco Poças
Tio Chico Marques – Sr. Francisco Marques
Tio Corote – Sr. João Anastácio
Tio Dias – Sr. José Dias
Tio Felizardo – Sr. Antonio Felizardo
Tio Ferro – Sr. João Ferro
Tio Ferrungão – Sr. João Alves
Tio Germano – Sr. Germano Assumpção Teixeira
Tio Lagoa – Sr. Manoel Lagoa
Tio Leco – Sr. Manoel Martins
Tio Loução – Sr. José dos Reis Loução
Tio Maçãira – Sr. João Maceira
Tio Magro – Sr. Antonio Magro
Tio Manecão – Sr. Manoel Alberto Fernandes
Tio Manoel – Sr. Manoel Antonio Almeida
Tio Marchoulo – Sr. João Cruz Afonso
Tio Março – Sr. Márcio Herculano
Tio Panarra – Sr. Manoel Victorino dos Reis
Tio Pastor – Sr. João Miguel Pires
Tio Patrício – Sr. Patrício dos Santos Ferreira
Tio Pícaro – Sr. João Martins
Tio Pinheiro – Sr. José Manoel Pinheiro
Tio Pitotas – Sr. José Manoel Rodrigues
Tio Pisoeiro – Sr. João Manoel Fernandes
Tio Polinhol – Sr. Antonio Loução
Tio Quintino – Sr. Antonio Quintino
Tio Sinitcho – Sr. Antonio Pires
Tio Soeira – Sr. Manoel Soeira
Tio Tóna – Sr. Antonio Loução
Tio Vilaverdinho – Sr. Antonio Vila Verde
Tio Zé Almeida – Sr. José Manoel Almeida
168
Tio Zé das Poças – Sr. José B. Poças
Tio Zé dos Ovos – Sr. José Afonso (Zé da Argana)
Tio Zé Pedro – Sr. José Pedro Fernandes
Tio Zé Reis – Sr. José Manoel dos Reis
Tio Zé Russo – Sr. José Russo
APELIDOS POPULARES
Aqui incluímos alguns apelidos bem conhecidos dentro das famílias dos
Almeidas.
Baixola: Mário (tia Antonia e tio Daniel)
Gelca, Greta: Maria Angélica (tia Antonia e tio Paulo)
Gilba: Gilberto (tia Beatriz e tio João)
Lila: Marilene (tia Izabel e tio Zé Bernardino)
Maricas: Maria José (tia) – (vó Aurora e vô José)
Mila: Maria Amélia (tia Angelina e tio Carlos)
Pichochó: Paulinho (tia Antonia e tio Paulo)
Pionça: Irene (tia Judith e tio Zezinho)
Reizinho: José Alberto (tia Antonia e tio Daniel
São Pedro ou Pampedro: Edson Pedro (tia Judite e tio Zezinho)
Tinto: Antonio Carlos (tia Antonia e ti Paulo)
Zeca: Maria José (tia Sueli e tio Mário)
2. Termos e expressões do Cerne português
Misturam-se aqui termos e expressões tipicamente portugueses com
outros incorporados no Brasil e ainda com outros criados no Cerne. Ninguém
se espante também com as várias expressões nos quais aparece – sem
cerimônia – a palavra “cu”. Nada há de intencional no sentido de criar humor
grosseiro e muito menos de ferir sensibilidades. Cabe aqui uma explicação:
em Portugal, a referida palavra tem um significado mais abrangente, ou seja,
bunda. Pode este esclarecimento não abrandar muito a rispidez daquelas
expressões, mas ajuda a entendê-las. Devemos ainda ressaltar um contraste: os
pioneiros do Cerne eram muito piedosos, mas eram igualmente rudes em sua
maneira de falar.
169
A
A cagar e a tossir: fazer com dificuldade, com má vontade.
À grande pata que t‟albarda: o mesmo que p.q.p.
A mais grossa era que nem azeite: diarréia.
Abesourar-se: acomodar-se, ficar à vontade.
Abondar: pegar, alcançar.
Açafete: cesto pequeno de vime.
Agora nem mel nem seda: tempos difíceis, quando algo se estraga.
Aguardente: pinga.
Ai, Anica, o teu galo canta e o meu repenica: hora de ir embora.
Ajambrado: arrumado (mal ajambrado: mal arrumado).
Albernó: casaco mal feito.
Alburgida: pessoa enrolada.
Alcovitar: fuxicar, procurar novidades.
Aldrabão: mentiroso.
Aldraves: casaco curto.
Aldriagar: andar à toa.
Alinhar: tirar linha, paquerar.
Altriqueira: mulher alta e magra.
Aluir: estremecer.
Alzonar: inventar.
Amanhar: arrumar, preparar.
Amarelo: sem graça, desenxabido.
Ambas as duas: ambas.
Amespras: ameixas amarelas (nêsperas).
Anda a aparar-lhe os peidos: puxar o saco.
Anda para cá (i) anda!: Venha aqui comigo!
Anda o saco atrás do baraço: um atrás do outro, inseparáveis.
Anda que lhe saiu a porca mal capada: levou azar.
Anda que não lhe pia o rabo: fica quieta, guarda segredo.
Anda que não saiba o rei: é bom ficar quieto.
Anda que o sol não morre de sede: o sol está muito forte, mas há sinais de
chuva.
Andar à moina: vadiar.
170
Andar de jou para já: andar por aí sem fazer nada.
Andar em patas de cão: andar descalço.
Argueiro: cisco no olho.
Arrebitar o rabo: ir embora para fugir do serviço.
Arrebunhar: arranhar.
Arrefecer: esfriar.
Arrepeso: arrependido.
Arrochado: apertado.
Às picuetas: dar indiretas ofensivas.
Assim fez maio às amoras: acabou com elas.
Assovalhar: amassar, amarrotar.
Atirar aos cães (andar a): estar por aí, desocupado.
Atrás da seca vem a molhada: paciência, a chuva vem um dia.
Atrecido: com frio.
Avia-te!: Depressa!
Azougue: confusão, bagunça.
Azular: desaparecer, fugir.
Azulegas: uvas pretas.
B
Bacio: penico.
Baiusco: tolo.
Baldruegas: indivíduo metido mas sem importância.
Baldrufeiras: conversadoras.
Bancar: paquerar sentado no banco, fazer-se de alguma coisa.
Barro galego: merda.
Bascouço: pessoa grande, mal ajeitada.
Bater com os pés na bunda: correr.
Bater o barro: pedir em namoro.
Benção. – Deus te cubra!: pedindo a benção.
Besta quadrada: bobo.
Bicancas: chuteiras para futebol.
Blandro: largo.
Boa bisca: malandro, mau caráter.
171
Bocó (de mola, de pita): bobo.
Bola /bola/: pão pequeno.
Bom de bico: bom de conversa.
Borra-botas: sem importância, cagão.
Borracho: bêbado.
Borregas: bolhas nas mãos e nos pés.
Botou-se a ele: atacou.
Brigar por dá cá esta palha: brigar por nada.
Bruaca: maldosa.
Bufa: peido silencioso.
Burrego: tolo, atrasado.
Burro de argola: bobo, ignorante.
Burro de Nória: explorado no trabalho.
Busaranhas: mentiras, fantasias.
C
Cá bargonha: que vergonha!
Caber nas orelhas: entender.
Caça-foice: sujeito qualquer, sem habilitações.
Caçarolo: penico.
Cacharro: jarro.
Cachimônia: cabeça.
Caçote: batida na cabeça com os nós dos dedos.
Cagado com merda de moucho: azarado.
Cagado de urubu: azarado.
Cagado: sujo.
Caganeira: diarréia.
Cagão: medroso.
Cagar de um carro abaixo: cantar mal.
Caguincha: fracote.
Cair a alma aos pés: ficar decepcionado e surpreso.
Cair de chapuças: cair de bruços.
Cair o forno: diz-se da mulher logo após o parto.
Calcula e bota o preço: imagine.
172
Calhau: pedra.
Calma que o mundo é nosso: pedir calma.
Camboto: qualquer coisa torta.
Camoeca: mal-estar, diarréia.
Campear: procurar.
Canabarro: vaso, pote, xícara grande.
Canastrão: enjoado.
Cangarejolas: cacarecos.
Canilhar: bater perna.
Cantar os améns: dizer a verdade.
Cantilena: cantiga repetida.
Caqueiro: chapéu velho.
Caquilheiras: miudezas.
Cara de cão que peidou na igreja: sem graça.
Carabelho: tranca de portão, tramela.
Carabolhas: melancias.
Carabunhas: sementes.
Caracos!: corruptela de um palavrão maior.
Caraminholas: idéias tolas inventadas.
Carapuça: touca, gorro, capuz.
Carocha: primeira fatia do pão.
Caroqueiro: tolo, que acredita em qualquer bobagem.
Carpir no pé: fugir.
Carranhoso: sujo, malfeito.
Carraspana: porre, surra.
Catancho, catano: palavrão.
Catanos te cozam: palavrão mais ou menos aceitável.
Catatau: um monte.
Catchamoses: pernas grossas.
Caterba: turma barulhenta, mal educada.
Cauduco: coque feito com o cabelo.
Cautela: cuidado.
Certo como o dedo no cu: ter certeza.
Chagouro (tchagouro): lugar mal arrumado.
Chamiblhanas: lingüiças.
173
Chanfana: lida com carne de porco.
Charolice: gabolice.
Chegar às sem horas: chegar tarde da noite.
Cheio de cus pelas costas: convencido.
Chica (xixá) carne.
Chícaros: feijão fradinho.
Chíquera: sequer.
Chongo (tcongo): abobado.
Chonos (tchonos): tamancos.
Chover na alma: ficar decepcionado e triste com alguma coisa.
Cocha: corda de fumo.
Cochobumbo, queres caldo?: dar bola a um inferior, mas com desprezo.
Cofaina: barbicha.
Com medo que lhe caia a casa à cabeça: desconfiado.
Com o cu cheio de nós: exibido.
Comer como um abade: comer bem.
Comer nele como emmelão: explorar.
Comer por uma perna: explorar.
Comidouça: banquete.
Como os que se compram: bonitos.
Concho (contcho): contente.
Consoada: véspera de Natal.
Cor de burro a fugir: sem cor definida.
Cordovelhas: massa de pão frita.
Corja (croja): bando.
Corote: sujeito gordo e baixinho.
Correr o cão (a chochia): sair por aí sem objetivos.
Corriola: grupo de gabunceiros.
Cortar o cu com a foice: azarar0se.
Coseu-se!: aquilo mesmo
Cotras: sujeira acumulada na pele.
Cotroso: pessoa suja.
Couqueiro: tolo, crédulo, que acredita em qualquer bobagem.
Courão: mulher ou homem ruim.
Cubu: mulher grande desajeitada.
174
Cunaimas: pessoa fraca de personalidade.
Cúnfia: confiança.
Curroto: peidorreiro.
Curucho (crutcho): coque.
Custar mais a encher os olhos que a barriga: equivalente a “ter os olhos
maiores do que a barriga”.
D
“Dá-ma cá que a quero”: chamando a bisca com o ás (jogo da Sueca).
Daldo, daldico: bonito, bem arrumado.
Dar às de Vila Diogo: desaparecer sem deixar referências.
Dar em água de batatas: dar em nada.
De caco em louça: sobras de comida transferidas de vasilha em vasilha.
De cu caído: frustrado, desanimado.
De cu pro ar: revirar-se ao cair.
De cu virado pra lua: com sorte.
De mal a pior: indo mal.
De patas pro ar: de ponta-cabeça.
Demudado: modificado, transformado.
Desalburgir: desocupar.
Desbaldar: desfazer-se.
Desbroucelado: quebrado, estragado.
Descábio: dar pelas coisas.
Desdoce: sem açúcar.
Desocupar o tasco: sair do ambiente por estar incomodando.
Deu-lhe na sapituca: fez algo por impulso, sem pensar.
Deus lhe/lha perdoa: ao referir-se a algum falecido.
Dez réis de mel coado: diz-se daquilo que é muito barato.
Dooente do cu quente: diz-se daquele que finge doença.
E
Eito: parte, pedaço, tarefa a executar no campo.
Embarrar: pendurar.
175
Empáfia: orgulho, impostura, exibicionismo.
Emplastro (empiastro): pessoa incomodativa.
Emplouricar: subir, trepar em árvore.
Encafuar: esconder, guardar bem guardado.
Encartar o estojo: deixar de fazer e bater em retirada.
Encertar: tirar a primeira fatia.
Enchalvia: encharcada.
Encher a cabeça: falar mal de uma pessoa a outra.
Encher o serrão: comer à vontade.
Enchoupiçar: encharcar.
Enfastiado: enjoado de tanto comer, chato de carteirinha.
Engendrar: inventar.
Entojado: enjoado, chato, gabola.
Entrudo: Carnaval.
“Era uma vez um gato montês, alça-lhe o rabo e chupa-lhe o pez”: historieta
para afastar os pedidos de histórias das crianças.
Esberracar: gritar alto.
Esberraco: grito, ruído da explosão de uma bombinha.
Escalamouchado (escalamoutchado): estragado, machucado.
Escarafunchar: procurar.
Escarduço: moleque mau.
Escarnanchado: de pernas abertas.
Escarnicoco: esquisito, chato.
Escarrapachada: sentada à vontade.
Escochilado: rasgado, roto.
Escupeta: criança levada.
Escursir-se: escapar, fugir da responsabilidade.
Esfoinar: peidar.
Esfoura: dor de barriga, diarréia.
Esfraldejar: falar mal dos outros.
Esgornachado: rasgado.
Esguedelhado: descabelado, despenteado.
Esmirrado: magrelo, mal de saúde.
Esparramote: sujeira, desordem
Espeloteado: agitado
176
Espetrucar: agitado.
Espevitado: assanhado.
Espicula de rodinha: pessoa muito perguntadeira.
Espiritado: assustado, com medo.
Esquecer-se da vida: faltar à responsabilidade, deixar-se estar.
Está gostoso que está desgraçado: algo muito bom de comer.
Etabanado: adoidado.
Estadulho: sujeira.
Estafermo: pessoa inútil.
Estaleiro: varal onde se pendurava o fumo para secar.
Estar bem gordo e bizarro: estar de boa aparência.
Estar com a foice picada: estar com fome.
Estar com a lua atrás do forno: anoitecendo.
Estar com as fraldas de fora: roupa de baixo aparecendo.
Estar com as pipocas quentes: preocupado.
Estar com fel e vinagre: mal humorado, nervoso.
Estar com o bispo no cesto: muito bem acomodado.
Estar com o cu a apanhar castanhas: preocupado.
Estar com o lombo fresco: apanhar chuva.
Estar com os pés em chispas de lume: com os pés doendo, feridos.
Estar cosido: estar f...
Estar de gata rabota: com preguiça.
Estar de pince-nez: de olho.
Estar de rabo alçado (estar de rabo em pé): pronto para sair, partir, viajar.
Estar metido como o piolho na costura: dando palpites não pedidos.
Estar pelos aldrabes da bunda: de roupa curta.
Estar por um pão e dois ovos: no fim da paciência.
Estardalhaço: gritaria, escândalo.
“Estás-te a rir ou qués (queres) cá vir?”: deixa a frescura e vem.
Estenderete: bandeirola.
Estouvado: desastrado.
Estrumela: objeto ou coisa sem utilidade.
Estúpido como uma argola: teimoso, agressivo.
Exéquias: funerais.
Exibido: vaiodoso, exibicionista.
177
F
Falar o roto do esfarrapo: falar sem ver os próprios defeitos.
Falcatrua: fraude.
Faldriqueira: com roupas desajustadas.
Falou com fulano e nem cu: não teve atenção nem resposta.
Fanota / fânota/: sem graça.
“Farta-de dele!”: coma à vontade.
Fartote: encher-se de comer.
“Faz tanta falta como a viola ó enterro”: pessoa ou coisa indesejável.
“Faz tanta falta como os cães à missa”: pessoa ou coisa indesejável.
Fétido: fedor.
Ferragachos (ferragatchos): ferramentas e ferros velhos.
Fez a Páscoa no sábado: muito preparo para a festa e ficou doente.
“Fia-te na virgem e não corras”: nem sempre a oração é o remédio.
Fidalgo: bem apessoado.
Filhoses: bolinhos de massa fermentada.
Fiúza: confiança, esperança.
Foi-lhe às fuças: bateu-lhe.
Foram-se como os cagalhões água abaixo: foi um de cada vez.
G
Gabela: uma porção de lenha.
Gaiteiro: alegre.
Galafate: rapaz todo arrumado.
Galinha que canta primeiro é a que botou o ovo: quem reclama do peido...
Garganta: contador de vantagens, papudo.
Gaspacho: espécie de comida, cozido.
Gaspanhar: tomar, roubar.
Gata rabota: preguiça.
Grabanço: grão-de-bico.
Grifo: cabelo cacheado, enrolado.
Guicho: esperto,e xibido.
Guiço: graveto.
178
H
Harpia: mulher má, mulher brava.
Hoje estou por um pão e dois biscoitos: estar de dieta.
I
Impontar: mandar embora.
Impostor: metido, enjoado.
Impurém /impurãin/: chato, xarope, convencido.
Indez: criança mimada, ovo que permanece no ninho.
Indigno do real serviço: ao emprestar algo a pessoa importante.
Inglesar: falar de modo pouco compreensível.
Inzonar: enrolar, bagunçar.
Inzoneiro: bagunceiro.
Ir à burra e tirar-lhe o pêlo: enfrentar uma tarefa difícil.
Ir a campo: sair para fazer as necessidades fisiológicas.
Ir num pé e voltar no outro: depressa.
Ire e bire /iribíri/: passagem de ida e volta.
J
“Já cá cantam!”: Ganhei!; Estão comigo!
Já estou depois da janta: já estou satisfeito, já jantei.
“Já foste!” (“Já lá estás!”): dizer a uma criança que ela não vai.
Já se pode falar à saúde: as coisas estão melhores, terminou bem.
Jarolda: conversa animada.
Jaroldice: conversa barulhenta.
Jirau: andaime, prateleira.
L
Laboujeiro: sujo, sem higiene, “porco”.
Labrego: arteiro, esperto, astuto.
Lacaio: serviçal, companheiro que ajuda.
179
Lafrau: malandro, arteiro.
Lambança: sujeira.
Lambanceiro: que faz lambança, que se suja ao comer.
Lambão: guloso.
Lambrestada: tapa na cara.
Lampeiro: alegre, satisfeito.
Lançar: vomitar.
Landraina: mentira, peta.
Lanhar: cortar.
Lanzoar: falar à vontade.
Lapacheiro: incompetente que se propõe a fazer algo.
Lapão: sujo, mal vestido.
Laporoto: maroto.
Lapouço: sujo:
Laregue: mal ajambrado.
Lastroada: varada.
Léria: conversa fiada.
Leva a vida inteira e mais seis meses: muito demorado.
Levar tábua: receber recusa de dança.
Levar uma pica no... : injeção na bunda.
Loje: chiqueiro sob a casa para engorda de porcos.
Loulas: louco, abobalhado.
Lume: fogo, luz.
M
Mabralhos: monte de miudezas.
Macacoa: preguiça, doente que dá lombeira.
Macambúzio: cambaleante, desajeitado, aborrecido, chateado.
Madeixas: cabelos compridos, cachos.
Mais feio que a mãe do capeta de cria nova: muito feio.
Mais que poucas (capoucas): bastantes.
Mais velha que a Salve-Rainha: muito velha.
Mais velha que a Sé de Braga: muito velha.
Mal adonairada: pessoa mal vestida.
180
Mal amanhado: mal vestido, mal composto, mal feito.
Malga: tigela apropriada para se tomar sopa, xícara grande.
Maingraçado: sem graça.
Malta porreira: o pessoal de casa.
Maltês: mal, astuto.
Mancebo: suporte para escorrer o café do coador.
Mandil: avental.
Mandronga: mal apessoada, mal vestida.
Masseira: móvel de madeira onde se amassa o pão.
Mateus primeiro os teus: à família as primeiras vantagens.
Matruquilhos: pertences de pouca importância.
Matulas: malas, bagagem, tralhas.
Meias que bebem ao cu: meias femininas compridas até as virilhas.
Melenas: cabelos muito compridos.
Meloa: melão.
Merdice: porcaria, alimentos que fogem ao habitual.
Metida a sebo: pessoa convencida.
Metida: pessoa que se intromete em tudo.
Mexiroto: buliçoso.
Moncas: ranho, secreção nasal.
Montar num porco: entrar numa fria.
Monte (montão: pessoa preguiçosa, sem iniciativa.
Morgado: torto.
Moscaréu (moscariu): enxame de moscas ou mosquitos.
Mouco: surdo.
Murcho: desanimado, desenxabido.
N
Nalgadas: palmadas na bunda.
Nalgas: nádegas.
Não abanas nem fazes cabanas: conta vantagem mas não faz nada.
“Não cabes lá fora?”: a alguém que esteja incomodando.
Não cerrou os dentes: não parou de comer.
Não dá sarna a cães: sovina.
181
Não fica o sapo sem a sapa: não faltará um par.
Não fizeste a parva: refere-se a uma refeição ligeira.
Não há de faltar o diabo ao Cristo na cruz: última tentação.
Não lhe cai da pá o rabo: não merece, não é para seu bico.
Não lhe falte Deus com nada: tudo lhe dá errado.
Não lhe piou o rabo: não disse nada.
Não limpa o rabo em qualquer sabugo: pessoa que se diz muito fina.
Não me venham com lérias: chega de conversa.
Não se lhe escarda outra lã: tirou-se o que se podia tirar.
Não se passa um dia por ele: não fica velho.
Não se vem não se vai: diz-se daqueles convidados que não vieram.
Não vai no meu carro à missa: pessoa com quem a gente não se dá.
Neblina na serra, chuva que berra: sinal de chuva.
Nem cão qués (queres) água: não receber a atenção esperada.
Nem o diabo quer conta com os moleques: com eles ninguém pode.
Nem pelo cu se lhe passou: não se lembrou.
Nhaca (inhaca): preguiça, azar.
O
O castigo vem a cavalo: o castigo vem mais rápido do que se pensa.
O melhor da festa é esperar por ela: a expectativa da festa é o melhor.
O que chora não meija (mija, urina): fala das crianças que choram.
“O que é que se t‟oferece?”: “O que deseja?”
“O que tem a ver o cu com as calças?”: “E daí?”
O tempo dá-o Deus de graça: o tempo não pode ser controlado por nós.
O tempo passa-se de seu (sou): o tempo não pode ser controlado por nós.
Olhar para ontem que já passou: viver de sonhos.
Olhos de pita cã (olhar de pita cã): olhar desananimado, desenxabido.
Olhos de vem cá à noite: olhos que prometem voltar.
“Onde tens andado que tamanhas orelhas tem criado?”: aos ausentes.
Os três e o gaiteiro: a turma completa.
Os três Josés: os três amigos.
Osga: ojeriza.
Ossagaina: ossos.
182
P
Pachouchice (patchoutchice): abobrinhas (falar).
Palafrão: Pessoa muito acomodada e à vontade.
Palradora: faladeira.
Palrar: falar.
Pampeiro: arruaça.
Pancadão: mulherão.
Pantanas: abas.
Pantomimas: palhaçadas.
Pantomimeiro: palhaço, contador de piadas e mentiras.
Pnatufa: gorducá.
Pardieiro: lugar em ruínas, sujo, bagunçado.
Pariu à galega: muito barulho com os próprios sucessos.
Parracheiro (parratcheiro): bagunceiro.
Parvo: idiota.
Pé de chumbo: ruim de dança, diz-se dos que gostam de velocidade.
Pedão: que não é bom na dança.
Pedives: sementes.
Pegar com um trapo quente: quando não há mais solução.
Pegueiro: que pega tudo.
Pegulho: que pega tudo.
Peidorreiranho: criança fracota.
Peidorreiro: que peida muito.
Peinantes: enfeites.
Peta: mentira, pegada.
Picar fumo: jogar mal futebol.
Pidoncho: quep ede muito.
Pimpão: bonitão.
Pimponaço: bonito e bem arrumado.
Pionça: criança pequena e gorducha.
Pisalgar: pisar sem prestar atenção.
Pisorgar: pisar em lugares onde não devia.
Pita: galinha.
Pitoca: curta.
183
Por o cu às costas: dar-se por vencido, ir embora.
Porcatar-se: prevenir-se.
Postilhão: pessoa incomodativa, que não faz nada.
Pouco, mal e bem gemido: fazer algo contrariado, mal feito.
Preto como um cuco: queimado do sol.
Púcaro: caneco.
Puldrona: preguiçosa.
Puxar pela guita: provocar, puxar assunto até conseguir algo.
Q
Quanto mais a gente se abaixa, mais mostra a bunda: explicado.
“Que foste lá cheirar?”: “Foi lá fazer o quê?”
Quebrar: tirar a(o) namorada(o).
Quem deve está vendido: a real posição do devedor.
“Quem peidou? Foi o rei que passou”: ninguém acusa nessas ocasiões.
“Quem tem sorte até os cães lhe põe ovos”: ditado popular.
“Queres ver um anjo? Mata-lhe a mãe”: ditado popular.
R
Rabeta: que anda atrás dos outros, o mesmo que rabicho.
Rabicho: criança que anda atrás dos adultos.
Rabo de palha: maus antecedentes.
Rabo salseiro: festeiro.
Rabujem: mau humor.
“Ralhos!”: o mesmo que “raios que te partam”, imprecação.
Rautice: festa, animação, grupo animado.
Rebalderia: confusão, bagunça.
Refestelado: estar bem acomodado.
Refinado: tremendo, grande (exemplo: refinado patife).
Refingir: fingir, encenar.
Refistel: sujeira de cocô na roupa de baixo ou na bunda da criança.
Regalota: ajeitada, olhuda.
Regateiro: alegre, assanhado.
184
Regueicha (regueitcha): faceira, assanhada.
Repeloso: asqueroso.
Repetenado: provocante.
Repimpado: satisfeito.
Retólica (retórica): mania de responder.
“Ri-te agora!”: Ria agora se for capaz”.
Ridico: ranheta, sovina.
S
Sacudido: forte, gordo.
Sair como cão que peidou na igreja: sair de fininho.
Salbo: mal arrumado.
Sanapismo: remédio de aplicação local.
São os rumores da lua... : explicando o peido.
Sapeta: tampinha da laranja descascada.
Sarabanda: briga, confusão.
Seguro com‟ós puchos de figos: seguro total.
Sem eira nem beira: sem recursos.
Ser absoluto: ser independente, inflexível.
Serrão: bunda, traseiro.
Serroada: tombo, cair sentado.
Servilheta: fuxiqueira, metida.
Só se lembra de Santa Bárbara quando troa: na hora do perigo.
Sobem por ele acima e cagam por ele abaixo: fazem dele o que querem.
Sobrecu: peça derradeira da galinha, azeiteiro, curanchim.
Socar: sovar.
Socos / sócos/: tamancos.
Sol de pernas compridas: chuva.
Soqueira: comida que resta de uma festa, rebrota de vegetais cortados.
Sota: a dama do baralho.
Sotaina: surra, saiote.
Sovinice: mesquinhez.
Subiote: moleque magrelo.
Subir nas tamancas: ficar furioso, por conta.
185
T
Tábua: recusa de dança.
Tagalho: uma porção, bastante.
Tal foi o dia como a romaria: passar fora o dia inteiro em visitas.
Tanta coisa por dez Réis: conquista fácil.
Tanto se lhe dá nasw calças como no cu: tanto faz.
Tão bom que os dentes vão-se atrás dele: comida boa.
Tarde piaste: avisar tarde demais.
Tardego: tardio.
Tardeira: tardia.
Taréia: surra.
Tem bô bargar: tempo de sobra para não fazer nada.
Tem muita pele sobre os olhos: diz-se de criança que chora muito.
“Tem-lhe conta!”: “Toma cuidado com ele”.
“Tens bô lombo!”: “Toma cuidado com ele”.
Terruscar: roer.
Texto: tampa de panela.
Tirar linha: paquerar, flertar.
Tirar nabos do saco: puxar assunto com interesse pessoal na resposta.
Tisnado: frito, bem passado, seco.
Tocar a caralha com a palha: passar o tempo sem fazer nada.
Tolheito: paralisado, sem possibilidade de andar.
Torgueira: pessoa sem higiene.
Touquinhas: sutiã.
Trabor: gosto ruim.
Traloutar: falar alto.
Trampa: merda.
Trampolineiro: espertalhão, embromador.
Trolho: gordo, abobado.
Trololó: bobo.
Trompaço: empurrão, chega pra lá.
Trondão: mulher grande, forte.
Trosneiro: muito falador, gaiato.
Tugúrio: casa mal arrumada, que impressiona mal.
Tunda: surra
186
U
Um bô freguês: um malandro, pessoa em quem não se pode confiar.
Um pé lá outro cá: o mais rápido possível.
Um traste: mau caráter.
Untar: engordurar, lubrificar.
Unto: gordura cremosa usada para passar no pão.
Urdir: fazer, tramar, tecer.
V
Vaca: monte de folhas de fumo, dispositivo para amontoar café.
“Vai assombrar porco!”: “Cai fora!”
Vai com os que não ficam: não vai.
Vai como quem vai às goiabas: entrar na festa ou na propriedade sem convite.
“Vai saber da besta!”: “Cai fora!”
Varapau: pessoa alta e magra.
Ver com os olhos e lamber com a testa: fora do alcance.
Ver-se em palpos de aranha: ver-se numa enrascada.
Verdasca: surra.
Virar o cu pra lua: procurar a sorte.
Virar-se como um sino: cair espalhafatosamente.
X
Xamboqueiro: boboca.
Xaréu: chato, pessoa desajeitada.
Z
Zangado: irritado, bravo.
Zangar: infeccionar, piorar.
Zarangateiro: farrista.
Zé Estragado: desajeitado, sem graça.
Zoada: onda de barulho.
187
Zolguice: bagunça.
Zorro: filho fora do casamento.
Zurbada: pancada de chuva.
3. Provérbios, ditados e máximas
“Adeus, Anica – o teu galo canta e o meu repenica.”
“Amarra o burro onde manda o dono.”
“Anel de ouro não é para focinho de porco.”
“Burro morto, cevada ao rabo.”
“Burro não amansa, acostuma.”
“Cada dois é um par.”
“Céu pedrento, chuva ou vento.”
“Com quem pode não se brinca.”
“Comer, comer – o que há e o que não há, à vista está.”
“Corre o ouro pro tesouro.”
“Dá o relógio as horas e o sino as badaladas.”
“De grão em grão enche a galinha o serrão.”
“Deus ajuda quem cedo madruga.”
“Falou o boi e falou mu.”
“Faz a fama e deita-se na cama.”
“Matos têm olhos e paredes têm ouvidos.”
“Mente que dá com a língua no dente.”
“Mulher de cego pra quem se enfeita?”
“O castigo vem a cavalo.”
“O galo onde canta aí janta.”
“O tempo dá-o Deus de graça.”
“Onde vai o saco vai o baraço.”
“Por causa de santos beijam-se pedras.”
“Pra baixo todo santo ajuda.”
“Quem casa quer casa.”
“Quem come a xixá rói o osso.”
“Quem deve está vendido.”
“Quem faz a cama descansa nela.”
“Quem mente não vem de boa gente.”
188
“Quem não morre não vê Deus.”
“Quem quer o peixe molha o rabo.”
“Quem tarde vier come o que trouxer.”
“Quem tem cu tem medo.”
“Quem tem padrinho não morre pagão.”
“Quem tem sorte até os cães lhe põem ovos.”
“Se mal de carro, pior de arado.”
“Tal é o diabo como a mãe.”
“Todos ao burro e o burro em pé.”
“Três vezes nove vinte e sete noves fora nada.”
“Um burro carregado de mel até o rabo é doce.”
“Um olho no gato, outro na sardinha.”
“A preguiça com um pau se derriça.”
“À primeira cai a velha, à segunda se ela quer.”
“A puta e o cão só olham para a mão.”
“A visita e o carneiro aos três tem cheiro.”
“Ano bissexto promete muito e dá pouco.”
“Ao rico não dês, ao pobre não prometas.”
“Brigam as comadres, sabem-se as verdades.”
“Carro velho e puta pobre acabam com a vida do homem.”
“De pedra em pedra para não cair na merda.”
“Dias de muito, vésperas de nada.”
“É de pequenino que se torce o pepino.”
“Macaco que muito pula quer chumbo.”
“Nada anda tão à vontade de Deus como o tempo.”
“Nem couco nem moucho.”
“O moleque e o borracho, Deus põe a mão embaixo!”
“Parentes são os dentes.”
“Pecado é mijar no adro porque na igreja qualquer um meija.”
“Por causa das verdades, zangam-se as comadres.”
“Quanto mais mouros mais guerras.”
“Quem canta à mesa o juízo pouco lhe pesa.”
“Quem não tem o que fazer despe-se e veste-se.”
“Quem tem tempo faz colheres de pau e borda-lhe o cabo.”
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4. Frases célebres – proferidas em algum momento no Cerne
“A nhambuzinha não vai!”
(Do tio Zezinho, cortando o barato da Irene, em algum sábado à noite.)
“A senhôra é uma senhora muito senhora, minha senhora!”
(De um mascate patrício à Dona Aurora.)
“A veia não morreu, perdi a viagem!”
(Do João Patrício, retornando ao Cerne após viagem motivada por doença na
família.)
“Ai q‟ar puro!”
(Do Seu Lopes, um patrício do Rio que vinha regularmente ao Cerne curtir
férias e viver bem.)
“Amanhã só como arroz.”
(Da Mariquinha, marcando posição contra a feijoada programada para o dia
seguinte.)
“Antão, nan se ri agora?”
(Do Manoel Lagoa ao ver o cunhado todo picado de marimbondos – o João
Anastácio, vulgo Corote.)
“As moças não cantam, estão schurdas!”
(Do tio Zé Russo, diante da negativa das moças em fazerem uma cantoria com
ele. Estava bêbado.)
“Até no feijão tem bacalhau!”
(Do tio Mário, queixando-se dos cardápiso da Dona Aurora na Semana Santa.)
“Bota-ta correr!”
(Do Ché, ordenando ao motorista de táxi que o levasse às andanças habituais.)
“Cagai-me os trunfos!”
190
(Do tio Daniel. Ele tinha os maiores trunfos, mas os adversários, em quatro
rodadas, ganharam o jogo.)
“Céu estrelado, vai chover!”
(Do Augusto Marques, fazendo previsão do tempo.)
“Chá da Índia!”
(Do tio Lagoa, na destala, após ter ficado doente por se empanturrar de
“chicolate”.)
“Comei-as à vontade, são canas-de-burro mesmo.”
(Do tio João Fernandes, em confronto com a molecada que lhe invadira o
canavial.)
“Como é que faço? Bosta na cabeça!”
(Da Dona Ordália, explicando a uma grã-fina como fazia o piso de sua casa:
carregando estrume de vaca numa lata sobre a cabeça.)
“Dá-me até graça de rir.”
(Do tio Lagoa, comentado algum fato pitoresco do momento.)
“Dá-mos cá que eu os cómo”.
(Da Tereza Teixeira, diante do Jota, que não queria mais comer os tremoços.)
“Dei-lhe uma que foi uma só. Depois dei-lhe outra.”
(Do João do Antonio Almeida, queixando-se de alguma patifaria do Daniel
Domingues.)
“É disso mesmo q‟el precisa!”
(Do Antonio Almeida, frase derradeira antes de ferrar as esporas no cavalo e
levar o maior tombo.)
“Erem uma ionça!”
(Do tio Chico Mau, no final de emocionante narrativa de caçada.)
191
“Está um dia repolho pra plantar batutos.”
(Do tio março, em dia de muita chuva.)
“Lá no Acúrso já gia!”
(Domínio popular, significando que o frio estava forte e prometia geada.)
“Louvado seja Deus que criou as melras e tão negras as fez.”
(Da Joaquina, mulher do Lagoa.)
“Não é berbuleta menina, é brabuleta!”
(Do João Boca Rica, corrigindo a Ana Maria.)
“Não borríeis!” (Não vos ríeis, não se riam)
(Dos portugueses vindos de Penhas Juntas.)
“Não posso nem me ter em pé.”
(Modo de falar, talvez malicioso, dos portugueses locais quando se sentiam
enfraquecidos.)
“Não pude dormir com os cachorros.”
(Da tia Beatriz, queixando-se do barulho dos cães durante a noite.)
“Ó Ad‟laide! Ou paras ou cortot‟o cu com a corda!”
(Do tio Soeira ameaçando a filha com umas cortadas no traseiro.)
“O bezerrinho é bonito, mas nasceu com uma drúvida nas costas.”
(Do Zé Acúrsio, intrigado com o cupim do bezerro nelore recém-nascido.)
“Ó Ermelinda, onde estão os couros?”
(Da Dona Silvana, durante o terço de São João, procurando os foguetes.)
“Onde é que tens andado que tamanhas orelhas tens criado?”
(Uso popular, quando algum moleque chegava em casa de volta da bagunça.)
“Pois eu já comi carne na Sexta-Feira Santa e não me fez mal.”
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(Do Abílio Moreira, carpinteiro, escandalizando o povo do cerne.)
“Ponham os olhos em Deus e no cometa o nariz.”
(Do tio Pereira, aos curiosos que apreciavam o cometa.)
“Pronto, aí está o resplendor!”
(Da Fernanda Almeida, vendo a Luzia esparramar-se no chão vermelho.)
“Puta merda, que paulada, cheguei a ver estrelas!”
(Do Domingos, acordando do desmaio após uma “bochada” na cabeça. Era
noite.)
“Quero um fin-fin-fin-fularzinho!”
(Do Domingos, em período de gagueira, após um grande susto.)
“Rapetarraputariutudamãe.”
(Do Pipa, respondendo às provocações da molecada. E dá-lhe pau.
“São com‟ós que se compram.”
(Uso corrente, na avaliação de algum produto caseiro.)
“Sopa, tirai-ma da frente!”
(Do avô Poças, reclamando da dieta imposta pelo médico.)
“Tinha lá abrunhos como punhos.”
(Vô Poças, falando das maravilhas de Lamalonga.)
“Tomem mais chá que é bom pras órinas!”
(Da Dona Tereza Teixeira às visitas daquela noite.)
“Vou-te ensinar a fazer panqué: põem-se nobóbos...”
(Da Dona Neves, dando receita de panqueca.)
FIM
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