1 Coração de Edmondo De Amicis Este livro é

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1 Coração de Edmondo De Amicis Este livro é
Coração
de Edmondo De Amicis
Este livro é particularmente dedicado às crianças do ensino
fundamental com idades entre nove e treze anos e poderia
intitular-se “História de um ano letivo escrita por um aluno
da terceira série1 de uma escola municipal da Itália”. Com
“escrita por um aluno da terceira série” não quero dizer que
foi ele quem o fez, efetivamente, com as palavras aqui
impressas. O estudante anotava em um caderno, como podia,
tudo aquilo que via, sentia, pensava na escola e fora dela,
e seu pai, no final do ano, escreveu estas páginas baseandose em tais anotações, preocupando-se em não alterar o
espírito original do conteúdo e em conservar, na medida do
possível, as palavras do filho. Este, quatro anos depois,
quando já estava no ensino médio, releu o manuscrito e,
recorrendo à lembrança ainda fresca das pessoas e das
coisas, acrescentou de próprio punho outras informações.
Agora, crianças, leiam este livro. Espero que lhes traga
alegria e que lhes faça bem.
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No
período
em
que
o
romance
foi
publicado
(1886),
o
ensino
fundamental na Itália era dividido em inferior (primeira, segunda e
terceira séries, sendo que a primeira, em alguns casos, como o da obra,
podia se subdividir em inferior e superior) e superior (quarta e quinta
séries).
Concluído
famílias
economicamente
secundário
o
clássico
ciclo
de
instrução
privilegiadas
(ginásio)
ou
profissionalizante.
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fundamental
podiam
por
optar
un
obrigatório,
por
um
curso
as
percurso
técnico
Outubro
Volta às aulas
Dia 17, segunda-feira.
Hoje foi o primeiro dia de escola. Os três meses de férias
no sítio passaram-se como um sonho… De manhã minha mãe me
levou à escola Baretti para me matricular na terceira série.
Eu pensava no sítio e andava com má vontade. Todas as ruas
fervilhavam de crianças, as duas papelarias estavam lotadas
de pais e mães que compravam mochilas, pastas e cadernos, e
na frente da escola tinha tanta gente que o servente e o
guarda municipal mal conseguiam deixar o portão livre.
Quando eu estava entrando senti alguém tocar o meu ombro:
era o professor da segunda série, sempre radiante com seus
cabelos ruivos despenteados.
«Então, Enrico, estamos separados para sempre?» perguntou.
Eu entendi o que ele quis dizer e aquelas palavras doeram
no meu coração.
Entramos na escola com grande dificuldade. Senhoras,
senhores, mulheres do povo, operários, oficiais, avós,
empregadas, todos seguravam com uma mão a criança e com a
outra o boletim. Lotavam o saguão principal e as escadas
fazendo um zunido, parecia até que estávamos entrando em um
teatro. Revi com prazer o enorme salão no térreo com as
portas das sete classes, por onde eu havia passado quase
todos os dias durante três anos. A multidão se acotovelava,
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os docentes iam e vinham. A professora da primeira série
superior me cumprimentou da porta da sua sala:
«Enrico, este ano você vai estudar no andar de cima, nem
vou te ver passar!» disse olhando-me com tristeza.
O diretor estava cercado por mães desesperadas porque não
havia mais vaga para seus filhos. Tive a impressão de que
sua barba estivesse mais branca que no ano passado.
Reencontrei colegas crescidos, mais gordos. No primeiro
andar, onde a divisão das classes já havia sido feita, as
crianças da primeira série inferior não queriam entrar na
sala de aula: empacadas na porta como jumentos, era preciso
puxá-las para dentro à força; algumas se recusavam a
permanecer sentadas nas carteiras; outras, vendo seus
familiares indo embora, começavam a chorar, aí eles voltavam
para consolá-las ou levá-las para casa, e as professoras não
sabiam o que fazer diante daquela situação.
O meu irmãozinho entrou para a classe da professora
Delcati; eu, para a do professor Perboni, no andar de cima.
Às dez estávamos todos na sala de aula: cinquenta e quatro
alunos, apenas quinze ou dezesseis colegas da segunda série,
entre eles Derossi, o que tirava sempre as melhores notas.
A escola me parecia tão pequena e tão triste comparada ao
bosque, às montanhas onde eu havia passado o verão! Eu
pensava também no meu professor da segunda série, tão
bondoso — sempre ria conosco — e tão baixo, que parecia um
de nós. Era triste não vê-lo mais sentado à mesa com seus
cabelos ruivos despenteados.
O professor deste ano é alto, não tem barba, seus cabelos
são grisalhos e longos. Ele tem uma ruga reta na testa, a
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voz grossa e nos observa com o olhar fixo, um por um, como
se quisesse nos ler por dentro. Também nunca ri.
Eu pensava: hoje é só o primeiro dia. Mais nove meses pela
frente. Quantos trabalhos, quantas provas, quanto cansaço!
Estava ansioso para encontrar a minha mãe na saída. Quando a
vi, corri para beijar-lhe a mão. Ela me disse:
«Coragem, Enrico! Vamos estudar juntos!»
Voltei feliz para casa, embora tivesse perdido o meu
professor com seu sorriso bondoso e alegre e a escola não me
parecesse mais tão legal quanto antes.
O nosso mestre
Dia 18, terça-feira.
Depois desta manhã passei a gostar também do meu novo
professor. No início da aula ele estava sentado à mesa
quando alguns de seus alunos do ano passado apareceram à
porta para cumprimentá-lo; enquanto passavam, esticavam o
pescoço para dentro da nossa sala para dizer-lhe algo:
«Bom dia, professor!»
«Bom dia, senhor Perboni!»
Alguns ex-alunos entravam, tocavam-lhe a mão e saíam
correndo. Dava para notar que sentiam carinho por ele e que
talvez quisessem tê-lo de volta como professor.
«Bom dia» respondia. Apertava uma mão ou outra sem olhar
para os alunos, sério com a sua ruga reta na testa,
observando da janela o teto da casa da frente. Ao invés de
ficar feliz com as saudações dos ex-alunos parecia um
sacrifício ter que cumprimentá-los.
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Depois olhou atentamente para cada um de nós. Começou a
fazer um ditado passeando pela sala entre as carteiras
quando notou um menino com o rosto todo avermelhado e cheio
de pequenas bolhas. Fez uma pausa, segurou a face do aluno
entre as mãos para observá-la melhor, perguntou o que ele
tinha e tocou-lhe a testa para sentir se estava quente.
Naquele instante um menino que estava atrás do professor
ficou em pé na carteira e começou a imitar uma marionete.
Ele se virou de supetão, o garoto se sentou imediatamente e
ficou inclinado à espera do castigo. O professor colocou-lhe
a mão sobre a cabeça e disse-lhe:
«Não faça mais isso.» Nada mais. Voltou à mesa e terminou o
ditado. Observou-nos em silêncio por alguns instantes e em
seguida disse, devagarinho, com a sua voz grossa mas
bondosa: «Ouçam. Ficaremos um ano juntos, então vamos nos
esforçar para passá-lo bem. Estudem e sejam obedientes. Eu
não tenho família, a minha família é vocês. Até o ano
passado eu tinha minha mãe, mas ela morreu e eu fiquei
sozinho. Não tenho mais ninguém no mundo além dos meus
alunos e não tenho outros afetos e preocupações a não ser
por eles. Portanto, sejam meus filhos queridos. Eu gosto de
vocês e é preciso que vocês também gostem de mim. Não quero
ser obrigado a punir ninguém. Mostrem-me que são meninos de
coração. A nossa escola será uma família e vocês serão o meu
conforto e o meu orgulho. Não quero uma promessa verbal;
tenho certeza que, em seus corações, vocês já me disseram
“sim” e eu lhes sou grato por isso.»
Naquele instante entrou o servente anunciando o fim da
aula. Levantamo-nos em silêncio. O aluno que havia subido na
carteira aproximou-se do professor e disse com voz trêmula:
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«Perdoe-me, senhor mestre.»
Este beijou-lhe a testa e respondeu:
«Vai, filho.»
Uma desgraça
Dia 21, sexta-feira.
O ano começou com uma fatalidade. Hoje de manhã, enquanto
íamos para a escola, eu repetia ao meu pai as palavras do
professor quando de repente notamos uma confusão no portão.
«Uma desgraça! O ano começou mal!» exclamou meu pai.
Com muito esforço conseguimos entrar. O salão principal
estava repleto de familiares e alunos, que os professores
não conseguiam puxar para dentro das classes. Todos queriam
ir para a sala do diretor. Ouvia-se dizer:
«Pobre menino! Pobre Robetti!»
Por cima das cabeças, no fundo do salão cheio de gente, era
possível ver o capacete de um guarda municipal e a calvície
do diretor. Um homem com um chapéu alto entrou e todos
disseram que era o médico.
«O que aconteceu?» perguntou meu pai a um professor.
«Uma roda passou por cima do pé do garoto» respondeu.
Outro acrescentou:
«E o quebrou.»
Era um aluno da segunda série. Ele estava indo para a
escola pela rua Dora Grossa quando viu um menino da primeira
série inferior, que havia se soltado da mãe, tropeçar no
meio da rua a poucos metros de um ônibus. Robetti correu
desesperadamente, alcançou-o e salvou-o, mas não foi rápido
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o suficiente para tirar o próprio pé da estrada e a roda do
veículo passou-lhe por cima. O menino era filho de um
capitão da artilharia.
Enquanto nos contavam essa história uma mulher entrou no
salão rompendo a multidão como uma louca: era a mãe de
Robetti, que tinham mandado chamar. Uma outra mulher correu
ao seu encontro e a abraçou chorando: era a mãe do menino
que havia sido salvo. As duas se precipitaram para dentro da
sala do diretor. Ouviu-se um grito desesperado:
«Oh, Giulio! Meu menino!»
Naquele instante uma carroça parou na frente do portão e
poucos minutos depois o diretor saiu da sua sala carregando
no colo Robetti, que estava com a cabeça apoiada em seu
ombro, o rosto pálido e os olhos fechados. Todos fizeram
silêncio; ouvia-se somente o choro da mãe do menino. O
diretor, pálido, parou alguns segundos e o ergueu
delicadamente para mostrá-lo à multidão. Professores,
professoras, familiares e alunos exclamaram:
«Viva Robetti!»
«Muito bem, garoto!»
Mandaram-lhe beijos; as professoras e os alunos que estavam
mais próximos beijaram-lhe as mãos e os braços. Robetti
abriu os olhos e sussurrou:
«A minha pasta…»
«Está comigo, meu anjinho, eu a levo!» respondeu a mãe do
menino salvo, chorando e mostrando-lhe o material enquanto
amparava a outra mulher, que escondia o rosto com as mãos.
Saíram pelo portão e deitaram o garoto na carroça, que
partiu imediatamente. Entramos na escola em silêncio.
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O aluno calabrês
Dia 22, sábado.
Ontem à tarde, enquanto o professor nos dava notícias do
pobre Robetti – que deverá andar de muletas –, o diretor
entrou na sala com um aluno novo, um menino com o rosto bem
moreno, cabelos pretos, olhos grandes e negros, sobrancelhas
grossas e unidas, vestido com roupas escuras e um cinto de
couro marroquino. O diretor saiu da sala depois de ter
falado ao ouvido do professor e deixado ao seu lado o
garoto, que nos observava assustado com seus olhões negros.
O professor pegou sua mão e disse para a classe:
«Vocês devem ficar felizes. Hoje entrou nesta escola este
menino italiano nascido em Reggio di Calabria, a mais de
quinhentas milhas daqui. Recebam com carinho este irmão
vindo de longe. Ele nasceu em uma terra gloriosa que deu à
Itália homens ilustres e continua dando-lhe trabalhadores
fortes e ótimos soldados; uma das mais belas da nossa
pátria, com suas grandes florestas e montanhas, habitada por
um povo inteligente, corajoso. Acolham-no com carinho para
que ele não sinta que está longe do lugar onde nasceu.
Mostrem-lhe que um estudante italiano, qualquer que seja a
escola em que colocar os pés, encontrará sempre irmãos.»
Levantou-se e marcou, no mapa da Itália pendurado na parede,
a localização de Reggio di Calabria. Com voz firme, chamou:
«Ernesto Derossi! Venha aqui!»
O aluno — aquele que tirava sempre as melhores notas —
levantou-se, foi até a mesa do professor e colocou-se de
frente ao menino calabrês.
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«Como o primeiro da escola, dê o abraço de boas-vindas a
este novo colega em nome de toda a classe: o abraço dos
filhos do Piemonte ao filho da Calábria!»
Derossi abraçou o menino e disse-lhe com voz clara:
«Bem-vindo!»
O garoto calabrês deu-lhe, decidido, dois beijos, um em
cada lado do rosto. Todos aplaudiram.
«Silêncio! Não se aplaude dentro da escola!» gritou o
professor, que, em seguida, acompanhou o novo aluno ao seu
lugar na classe. Dava para perceber que ambos estavam
felizes. Continuou: «Lembrem-se sempre do que vou lhes dizer
agora: para que isto pudesse acontecer, ou seja, um menino
calabrês sentir-se em casa em Turim e um menino de Turim
sentir-se em casa em Reggio di Calabria, o nosso país teve
que lutar cinquenta anos e trinta mil italianos perderam
suas vidas. Vocês devem respeitar-se, amar-se; se um de
vocês ofender este colega porque ele não nasceu na nossa
terra, nunca mais será digno de levantar os olhos à bandeira
tricolor quando ela passar.»
Assim que o menino calabrês se sentou os colegas mais
próximos deram-lhe de presente canetas e uma gravura; um
outro aluno mandou-lhe, da última carteira, um selo da
Suécia.
Os meus colegas
Dia 25, terça-feira.
O menino que presenteou o aluno novo com um selo é o meu
colega preferido. Chama-se Garrone e é o mais velho da
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classe, tem quase quatorze anos, a cabeça grande, os ombros
largos; é bondoso, percebe-se pelo seu sorriso. Parece que
ele pensa sempre como um adulto.
Já conheço meus colegas novos. Gosto também de outro
chamado Coretti, que usa uma blusa cor de chocolate e um
boné de pêlo de gato. Está sempre alegre, é filho de um
revendedor de madeira que foi soldado na guerra de 1866 no
grupo de infantaria do príncipe Umberto; dizem que ganhou
três medalhas.
Tem também o pequeno Nelli, o pobre e frágil corcunda do
rosto esquelético. Outro, sempre muito bem vestido, que
passa o tempo todo retirando pêlos das roupas, chama-se
Votini. Na minha frente senta-se um menino cujo apelido é
“pedreirinho” por causa da profissão de seu pai. Ele tem o
rosto redondo como uma maçã e o nariz como uma bolinha.
Possui a habilidade especial de fazer “focinho de lebre”;
todos vivem pedindo para que ele o faça e depois caem na
gargalhada. Usa uma touquinha esfarrapada que ele guarda
toda amarrotada dentro do bolso como um lenço.
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