educação sócio-sexual da pessoa com deficiência intelectual

Transcrição

educação sócio-sexual da pessoa com deficiência intelectual
EDUCAÇÃO SÓCIO-SEXUAL DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA
INTELECTUAL
Material informativo recebido da organização mexicana CONFE –CONFEDERACIÓN MEXICANA
DE ASOCIACIONES EM FAVOR DE LA PERSONA COM DEFICIENCIA MENTAL
Traduzido do espanhol e digitado por Maria Amélia Vampré Xavier**
O aspecto da sexualidade das pessoas com deficiência intelectual – ou mental
como dizemos no Brasil – tem sempre preocupado os profissionais que dão
atendimento às famílias porque se trata de impulso potentíssimo, nascido nas
camadas inconscientes do cérebro como diz uma minha amiga e jovem psicóloga,
e que os familiares muito naturalmente não sabem lidar bem com ele, pois a
pessoa com deficiência intelectual tem sido erroneamente ao longo dos anos sido
chamada ou de imoral, pervertida sexual, ou de um ser infantilizado, inteiramente
inocente, para o qual não existiria ou deveria existir desejo sexual.
Muitos de nós não acreditamos em reencarnação, mas como li certa vez num livro
famoso "a humanidade se reencarna nas gerações que se sucedem, graças ao
apelo sexual presente em todos os animais " e, portanto, não excluindo o ser
humano. De uns tempos para cá a sexualidade da pessoa com deficiências vem
sendo analisada com mais critério, fruto freqüente de relatos das próprias
pessoas, por exemplo, com deficiência física, homens e mulheres, aos quais era
negado, proibido, o exercício de seus impulsos sexuais.
Quando se trata de nossas pessoas especiais o caso torna-se muito sério e, por
isso, admiramos o trabalho já há alguns anos realizado pela CONFE – a
Confederação de Pais de Pessoas com Deficiência Mental, do México, que em
1994 já estabelecia em seu país um Comitê Sócio-Sexual, o qual tem dado
assessoria, produzido cursos de capacitação, elaboração de manuais, material
didático, vídeos para pais, profissionais, instituições e pessoas com deficiências,
cuja utilidade é fácil aquilatar.
O Comitê Sócio-Sexual da CONFE apresenta o posicionamento assumido pela
entidade quanto a este aspecto importante da vida da pessoa com deficiência
intelectual, posicionamento adotado pelos delegados representantes das diversas
associações que a formam.
Diz a CONFE:
Cremos com firmeza que a pessoa com deficiência intelectual tem o direito básico
a:
•
•
•
Privacidade
Amar e ser amado (a)
Cultivar amizades e relações de cunho emocional
•
•
•
Escolher amigos (as)
Aprender a respeito de sexo, problemas sexuais, abuso sexual, sexo
seguro, e outros temas relacionados com a sexualidade.
Casar e ter filhos
Este último ponto é muito discutido, não como um direito negado, mas como uma
dificuldade de enfrentar a criação dos filhos.
O posicionamento da CONFE estabelece que os pais e profissionais devam estar
preparados para informar e apoiar estas pessoas de qualquer idade e todos os
graus de deficiência, já que devem ser educadas e receber o apoio apropriado
para se protegerem a si mesmas de abusos, exploração, gravidez não desejada,
de doenças sexualmente transmissíveis, salvaguardando sua dignidade e seus
direitos.
A criança ou o jovem com deficiência intelectual é um ser sexuado e precisa
encarar sua sexualidade como parte integral de sua personalidade. Requer ajuda
para compreender com maior intensidade que outras crianças e jovens sim, pois
não consegue aprender como os outros através de amigos, livros, filmes ou
observações casuais. Por que a pessoa com deficiência intelectual/mental não
consegue separar com clareza uma realidade de outra e se confunde? Porque é
vulnerável ao abuso e à exploração sexual?
É importante esclarecer que educação sexual abrange muito mais do que um
enfoque biológico predominante, mais do que a reprodução, que as relações
sexuais, ou a diferença entre homem e mulher. O termo cobre todas as áreas que
têm a ver com o crescimento, atitudes, sentimentos e comportamentos, a forma de
nos relacionarmos uns com os outros, a consciência de nosso corpo, seu
funcionamento e higiene, auto-imagem, valores pessoais, estilo de vida. Tudo isto
está intimamente relacionado com os laços familiares e com as condutas
socialmente apropriadas que, por sua vez, estimulam um melhor funcionamento
para viver plenamente o potencial humano e realizar-se na medida do possível até
a morte.
O educador, ou orientador sócio – sexual não pode nem deve impor um código de
conduta ou uma escala de valores, é apenas um facilitador que procura ajudar a
pessoa deficiente a aprender os códigos morais aceitos pela sociedade. (Gordon
S.`1976, Kempton W. 1978).
O código ético geralmente aceito é o seguinte:
1. O corpo de uma pessoa não deve ser maltratado.
2. A sexualidade não deve ser usada para a exploração de terceiros.
3. Cada um deve ser responsável por seu comportamento sexual, não
causando problemas a si mesmo ou aos outros.
A responsabilidade do educador na área da sexualidade é ampliar conhecimentos.
Não lhe compete julgar e sim completar o ensino que os pais já estabeleceram no
lar.
Um fato importante a ser considerado é que não é qualquer pessoa que pode
atuar como educadora, considerando-se os aspectos delicados da sexualidade.
Esse educador deve conhecer o tema, com padrões de ajustamento da deficiência
mental, além de honesto deve ser emocionalmente estável, porém, acima de tudo
deve ser uma pessoa que se empenhe em dar à criança, ao jovem e ao adulto
com deficiência intelectual/mental, o direito de viver uma vida a mais próxima
possível à de uma pessoa normal, pois, como dizia W. Kempton:
“NENHUM GRUPO SOFREU MAIORES OPRESSÕES PELO SIMPLES FATO DE
SER CONSTITUÍDO DE SERES SEXUADOS QUE O GRUPO ROTULADO DE
DEFICIENTE. “
** Maria Amélia Vampré Xavier
Diretora para Assuntos Internacionais da Federação Nacional das APAEs
Relações Internacionais/ Instituto APAE - APAE SP
Assessora Especial de Comunicação de Inclusion InterAmericana
Assessora da Vice Presidência de Inclusion InterAmericana/Brasil
Grupo de Informações da Rebraf
Digitado em São Paulo em 14 de setembro, 2002.