Diagnóstico de Incontinência Urinária Feminina

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Diagnóstico de Incontinência Urinária Feminina
Diagnóstico de Incontinência Urinária Feminina
Autor: Pedro Nunes, Assistente Hospitalar de Urologia - Serviço de Urologia e
Transplantação Renal dos Hospitais da Universidade de Coimbra, Assistente
Estagiário de Urologia - Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra,
Secretário-geral Adjunto da APNUG (Associação Portuguesa de Neurourologia e
Uroginecologia), FEBU, Fellow do European Board of Urology
Actualizado em: Julho de 2010
A Incontinência urinária (IU) é definida como qualquer perda involuntária de
urina. Todos as pessoas com perdas involuntárias de urina devem consultar o
seu médico para um esclarecimento adicional da situação – a incontinência
urinária é sempre anormal, interfere grandemente com a qualidade de
vida e tem solução na grande maioria dos casos. Pode ser sinal de outros
problemas mais graves subjacentes e predispor ou agravar outras doenças.
O diagnóstico é em regra bastante fácil e dado pelos próprios doentes. Mais
difícil pode ser a distinção entre os diversos tipos de IU, particularmente em
doentes mais idosos ou com capacidade de expressão limitada.
O primeiro passo que o seu médico dará para um diagnóstico correcto de
incontinência urinária será uma conversa (história clínica) consigo em que
tentará caracterizar o mais correctamente possível as suas perdas urinárias:
tempo e modo de evolução (dias, meses, anos, agravamento, estabilização,
melhoria), circunstâncias de aparecimento (após uma cirurgia, por exemplo ao
útero ou à apóstata; após um parto), gravidade (qual o volume aproximado de
cada perda urinária? se utiliza algum tipo de protecção? quantos pensos ou
fraldas por dia?), se interfere com as suas actividades diárias (deixa de fazer a
sua vida normal? Evita locais públicos?). A correcta caracterização da forma
como se perde a urina é fundamental para distinguir os dois grandes grupos de
incontinência urinária.
Na IU de esforço as queixas de perda de urina ocorrem quando existe um
aumento de pressão dentro do abdómen (esforços mais ou menos violentos,
tossir, espirrar, rir, baixar-se, pegar em pesos e nos casos mais graves mesmo
o simples caminhar). Os doentes não perdem urina se estiverem quietos ou
não realizarem esforços. Habitualmente têm um número normal de micções e
não têm incontinência enquanto dormem. Este tipo de incontinência é mais
comum nas mulheres. Nos homens acontece raramente, mas quase
exclusivamente após cirurgias pélvicas (próstata, recto).
Na IU urgência os doentes referem uma súbita vontade de urinar, muito
intensa, que podem ou não ser capazes de contrariar. Conforme essa reacção
de contrariar a contracção da bexiga, assim pode não haver qualquer perda de
urina, haver apenas algumas pequenas perdas ou então ocorrer um total
esvaziamento da bexiga, como se de uma normal micção voluntária se
tratasse. Ao contrário da IU de esforço, em que as perdas são previsíveis e as
doentes podem defender-se, evitando determinados gestos ou manobras
quando têm alguma urina na bexiga, na IU urgência os episódios de urgência
são, muitas vezes, imprevisíveis, ocorrendo quando menos se espera e não
havendo qualquer possibilidade de defesa, podendo condicionar situações
muito desagradáveis e um enorme rebate na qualidade de vida dos doentes.
Alguns doentes relacionam os episódios de urgência com situações específicas
como introduzir a chave na fechadura ao chegar a casa, lavar as mãos, ouvir
água a correr, entre outros.
Na IU mista existem perdas com o aumento da pressão abdominal e também
se verifica urgência e incontinência de urgência. Geralmente existe um padrão
dominante.
Os antecedentes pessoais são, também, de suma importância, desde a
história ginecológica/obstétrica - aumento de risco de IU esforço com o nº de
partos vaginais, particularmente em partos difíceis, bem como nascimentos por
cesariana de urgência. Antecedentes cirúrgicos, traumáticos, infecções e
patologia neurológica associada são, também, importantes elementos que o
seu médico deverá obter.
A história medicamentosa deve ser exaustiva – existe um elevado número de
medicamentos que podem influenciar a incontinência urinária.
O seu médico terá necessidade de fazer um exame físico detalhado.
Exame geral - obesidade está associada a um risco aumentado de IU pelo que
a determinação do índice de massa corporal (relação entre o peso e altura) é
obrigatório. Será pesquisado o grau de mobilidade, patologia neurológica,
hérnias, distensão da zona da bexiga e sinais de cirurgias anteriores.
Exame pélvico - o exame pélvico é o pilar fundamental da avaliação da IU.
Pode haver necessidade de um toque rectal na mulher e no homem (entre
outros motivos para avaliar a próstata)
É importante realizar este exame com a bexiga vazia e com a bexiga cheia, de
forma a avaliar devidamente as vísceras pélvicas, a existência de prolapsos
(exteriorização de órgãos através da vagina), a uretra e a existência de perdas
urinárias com o esforço. Por vezes é necessário realizar o exame com o doente
em pé, simulando de uma forma adequada as situações em que ocorre perda
de urina.
O médico poderá pedir-lhe para tossir ou fazer uma tentativa de esforço com o
abdómen (como se estivesse a tentar defecar), para ter uma ideia correcta das
perdas e tentar prever a eficácia de uma eventual cirurgia. Não deve sentir-se
embaraçado nestas circunstâncias, nem tentar evitar as perdas, a menos que o
médico lhe peça para o fazer.
Nas mulheres poderá ser necessário introduzir um cotonete na uretra para se
avaliar se existem movimentos anormais desta estrutura.
Pode lhe ser pedido que elabore um diário miccional - os mais simples são
diários de 24h em que se registam o número, hora e volume das micções,
episódios de incontinência e eventuais factores desencadeantes. Podem ser
acrescentados o número de fraldas/pensos, os episódios de urgência e a
alimentação. Fornece ao médico uma ideia sobre o tipo e gravidade do quadro
e pode orientar o estudo subsequente.
Posteriormente o seu médico poderá ter necessidade de lhe solicitar alguns
exames. Além de exames de rotina à urina e ao sangue para um estudo geral
e exclusão de algumas doenças que podem provocar incontinência urinária.
Um teste simples que por vezes é utilizado para quantificar a gravidade das
perdas é o pad-test – em que lhe é solicitado que caminhe durante algum
tempo com um penso higiénico que é pesado no final.
A ecografia dos rins e da bexiga é um exame simples, acessível, inócuo e
que nos pode dar algumas informações. Exames de imagem mais elaborados
(por exemplo uma ressonância magnética só raramente são necessários).
Quando subsistem dúvidas diagnósticas e antes de qualquer tratamento que
envolva cirurgia, deve ser realizado um estudo urodinâmico, mais ou menos
complexo. Este exame permite estudar de uma forma muito precisa a forma
como se comporta o seu aparelho urinário inferior e consiste na introdução de
uma sonda no recto e outra na bexiga que medem as pressões que aí ocorrem
durante o enchimento da bexiga com água, durante algumas manobras que lhe
podem ser solicitadas (por exemplo tossir) e durante o esvaziamento (micção).
A vídeo-urodinâmica consiste na realização de estudo urodinâmico e
simultaneamente a obtenção de imagens radiológicas do aparelho urinário
baixo.
O diagnóstico de incontinência urinária e sua correcta caracterização são hoje
em dia fáceis, mas fundamentais para uma terapêutica posterior bem sucedida.

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