PDF - Jornal Plástico Bolha

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PDF - Jornal Plástico Bolha
plástico bolha
aparentemente insólito...
Ano 2 - Número 17 - Outubro/2007
Distribuição Gratuita
O que já era bom acaba de ficar ainda melhor,
e maior! O plástico bolha agora vem com 12
páginas de puro pensamento, nas suas mais diversas
modalidades.
Participe você também, enviando seu texto
para o nosso e-mail: [email protected]
Este número especial vem cheio de novidades,
a começar pelos nossos novos colunistas: Santuza
Cambraia Naves, do departamento de Ciências Sociais
da PUC-Rio, que passa a dar dicas musicais na coluna
Por dentro do tom e Felipe Carvalho dos Santos, da
pós de Letras, que apresenta os saberes não-ocidentais
nas (sobre)vivências. Miriam Sutter, da área de Letras
Clássicas, inaugura a nova coluna Oráculo, um espaço
dedicado aos mitos e à cultura da antiguidade.
O poeta Eucanaã Ferraz enviou-nos um poema
belíssimo; Ricardo Sternberg continua tendo seus
poemas traduzidos, dessa vez por Mariana Lopes; e
nosso chargista Heinz Langer continua impagável.
O Aos alunos com carinho ficou por conta
da professora Ana Paula Kiffer, e a coluna Puzzles
vem com mais um texto de Marília Rothier sobre
Nietzsche, a continuação de seu Puzzle anterior.
A nova coluna Desafio Poético propõe aos
leitores os mais variados exercícios líricos, neste
número de estréia, uma tradução às cegas do renomado
poeta húngaro Démeny Zita.
Nicole O’Hara enviou-nos de Paris, onde faz
mestrado na Sorbonne, um Mulheres-Damas à altura
dos textos de Ana Chiara. Tatiana Levy também
participa com um conto especial.
Para completar, uma entrevista em família:
Isabel Wilker entrevista seu pai, José Wilker, em uma
conversa sobre teatro, cinema e literatura.
Muitos outros vêm completar esse festival de idéias
com seus contos e poemas, fazendo deste o plástico
bolha mais especial de todos os tempos. Aproveite!
NESTA EDIÇÃO
miriam sutter
Agora é pra valer
Desabotoa-se por fim a cena
que se desenhava no baço
da janela do sonho (o sonho
é uma espécie de vidraça?)
Metonímia
Para escrever bonito, me ensinaram expressões
grandiosas e doces. Comentaram a extrema
importância de um vasto léxico e do conhecimento
(profundo!) de todas as palavras. Então passei a definir
com cuidado compota, cheiro, despretensiosamente,
saudade e morango. Tirei tudo isso de letra, fiz
direitinho a lição de casa e, em pouco tempo, eu
engolia dicionários com a avidez de quem aprende
a falar.
Mas logo depois descobri que me ocultaram um
detalhe imenso, como só a palavra minuciosamente
escolhida poderia descrever: pri-mor-di-al. O bom
escritor deve saber muito mais que palavras: é preciso,
antes de tudo, esquecer-se delas. E reinventá-las, ao
ponto em que o sentido de saudade se mescle com
o de cheiro, e, assim, sem pretensão, morango e
compota sejam uma coisa só. E vice-versa.
Constanza de Córdova
santuza cambraia naves
josÉ wilker
felipe carvalho sueli rios
luiz coelho
ger
z Lan
Hein
ana paula kiffer
paulo henriques britto
Cristal
e tudo o que se realiza vive
da necessidade, agora que
o motor do instante se agita
e vibra sua perfeição. Enfim,
vem à luz a experiência que
se vinha elaborando no laboratório
de algum andar do sonho (o sonho
é uma espécie de edifício?): o mar
nasce de amar, e – cristalinas – águas
sem margens usurpam a cidade,
arrastam inocentes. Os amantes
gozam. É justo que seja assim.
Eucanaã Ferraz
Poeta e professor de literatura brasileira
da UFRJ, é autor de “Livro Primeiro”, “Martelo”
e “ D e s a s s o m b ro ” . A t u a l m e n t e c o o rd e n a
o POP - Pólo de pensamento contemporâneo.
dÉmeny zita
marÍlia rothier
ricardo sternberg angelo abu tatiana salim levy
lucas viriato eucanaà ferraz letÍcia simÕes
isabel wilker
mariana lopes paloma espÍnola lasana lukata heinz langer edson santana
isabel diegues
letÍcia katz raquel naveira
silvia bagrichevsky
thiago costa faria
luiz carlos nascimento
gregÓrio duvivier
manuelle rosa dimitri merino
paulo gravina
marcelo dos santos nicole o’hara guilherme amado fernando soares rosÁlia milsztajn
marilena moraes roberto s. queiroz jr. camilo pinheiro machado
constanza de cÓrdova
Aos alunos com carinho
2
–Professora, existe uma interpretação correta?
–Não, mas errada existe!
Como “interpretar” esse diálogo, de tom levemente absurdo, mas indicador
profundo das angústias que habitam, sim, os estudantes de Letras hoje?
Não sejamos ingênuos, não só os alunos sofrem dessa angústia. Nós,
professores, a vivemos a cada texto lido em sala de aula, posto que já não temos
mais “a leitura correta” a oferecer.
Ainda ontem Ana Cristina César (leiam! está em seus Escritos do Rio, e
o texto chama-se ironicamente “Os professores contra a parede”) falava, neste
mesmo campus, de “uma certa ditadura teórica”, falava não contra a teoria, bem
entendido, mas contra “a teoria correta”, aquela à qual o professor se filiava e
impunha, “tentando eroticamente a turma, como um sultão sobre seu harém”.
Duas grandes lições, só para começar: já nos distanciamos desse texto da poeta
e constatamos a falência dos grandes sistemas de pensamento que indiciavam
as leituras corretas, respondendo, por conseguinte, à primeira parte do diálogo
‘absurdo’. Mas não perpetuemos o equívoco de achar que, porque enterramos as
escolas e os “ismos”, devemos nos esquecer dos autores e, sobretudo, dos textos
que a elas deram origem. Ao contrário, torna-se fundamental lê-los agora mais do
que nunca, libertos de seus automatismos escolares. Na esteira da cantora direi:
“Vamos comer Marx, vamos comer Freud...”
Mas o texto de Ana C vai mais longe e nos faz constatar a íntima relação
entre o saber, o poder e o corpo. Mesmo que Ana C indicasse um quadro
bastante específico (professores majoritariamente homens e turmas formadas
majoritariamente de mulheres), ela apontava, de modo lapidar, para aquilo que
Foucault desenvolveu em sua História da Sexualidade (leiam!!!). Que o poder não
é algo abstrato, distante, restrito aos centros e cargos. Ao contrário, ele se exerce
desde o mais ínfimo contato humano, sobre a pele, entranhando nos corpos.
Desse modo, os discursos do saber (aparentemente neutros) mantêm íntima
relação com os desejos mais recônditos. Ora, mesmo que o perfil sociológico
do curso de Letras tenha mudado (estaríamos hoje finalmente mais próximos
do “matriarcado de Pindorama”?), e que, por conseguinte, as relações de poder
tenham se transformado, não significa que ele não se exerça e, muito menos,
que saber e corpo não se entrelacem. Um dos entrelaçamentos possíveis é o
que chamarei de “paixão interpretativa”, doença que sofre ou deveria sofrer
todo leitor/crítico. Afinal, ainda nos falta responder à segunda parte do diálogo,
entendida a inexistência da leitura/interpretação correta, falta entender a existência
da “errada”. Dito de modo mais polido: os limites para o que se brada ser o reino
livre, único e universal da “MINHA leitura”!!! É óbvio que poderíamos responder
a isso enumerando um certo número de exigências para o exercício interpretativo,
tais como: conhecer o contexto da obra, a sociedade que a leu e que a comentou,
as críticas mais importantes a respeito do autor ou da obra diferençando suas
escolas, as distintas vertentes teóricas em jogo, etc. Mas, apesar de ser fundamental
poder conhecer esses itens todos, algo ainda se tece noutro plano. Muitas vezes,
uma leitura não cumpre nenhuma das exigências e consegue se aproximar
sensivelmente do texto, produzindo uma crítica pertinente, criativa, iluminadora.
Outras vezes, cumpre-se item por item e se produz uma crítica meramente
burocrática, onde faltou justo uma pitada daquela doença do leitor...
A doença do crítico/leitor/escritor ou escrevente (escolham o termo) é
aquela que faz com que algo nele se transporte em bloco para as perguntas da
infância: “Por quê?”, “Como?”, “O que é isso?” Naquilo em que essas perguntas
são o desvelar de um mundo, em sua simplicidade e em seu mistério. A paixão
interpretativa faz, então, com que os sentidos instituídos e as imagens fixadas se
movam, a paixão viola, inflama e insufla de ar, fazendo com que as letras se mexam,
como os assombros das palavras de Guimarães Rosa, ou o maravilhamento
daquelas de Manuel de Barros, ou mesmo a secura cortante daquelas do velho
Graça e tantos, tantos outros. O movimento é ele mesmo involuntário — como
toda paixão irresistível — e começa por um toque leve mas febril dos dedos
sobre o plástico (papel) e só se completa com o estalar, estourar da bolha (letra).
Só se completa quando o ar se liberta da bolha / letra! O estal-ar é o limite da
“minha leitura”!
–Eta professora, tá viajando?
Estou dizendo que a experiência literária propiciaria experimentar coisas,
mundos, afetos diferentes daqueles que vivemos e que nos constituem como
uma identidade ambulante. Seria uma experiência provocadora de um “sair de
si mesmo”. Isso parece pouco, mas é muito, no interior de uma cultura que se
ergue a partir da certeza e veracidade nas experiências que encontram origem e
centro justo num “si mesmo” que as sustente! Caberia então ao leitor/crítico,
antes de mais nada, dar crédito a essa experiência literária. Saber, portanto, que a
literatura pensa. Que não é ele o centro emissor de uma razão sobre a literatura
(encerrando-a no mundo perdido das emoções...) e, a partir daí, buscar se
aproximar do específico dessa experiência literária que é justo o que nos conecta
com um fora, o ar ao sair da bolha, estalAR!
Nessa perspectiva a leitura mais pessoal é aquela cunhada no seio da
“despessoa” (termo de Marguerite Duras). Paradoxo da leitura que faz com
que um limite se interponha ao “meu”, ao “minha” (exagero de um mundo de
propriedades), e que um crivo se mantenha em proveito desse múltiplo que é
a palavra solta no mundo, que é a confirmação mesma de que outro mundo é
possível.
Registro aqui meu carinho,
Parabenizo o coletivo bolha,
E um beijo da
Ana Paula Kiffer
Professora de Literatura da PUC-Rio
Capitais
Associações
250 g. de jóias
250 g.de silicone
250 g. de chocolate
250 g. de palavrões
250 g. de bocejos
250 g. de silicone alheio
250 g. de nariz empinado
Ando pelos subterrâneos
Como subterfúgio
Num continuum
Evito dores das luzes
+
+
+
+
+
+
Ando pelos ares
Como os pássaros
Encondo asas
Para não as cortarem
1kg 750 g. de remorsos.
.
. .
Pensando bem, vou deixar...
pra me arrepender só depois do verão.
Marilena Moraes
Às vezes ando
Como semiviva
Por lembrar a vida à morte
E não quero pensar nisso
Rosália Milsztajn
Subjetivas
por Gregório Duvivier
Tudo já foi dito
Todos os livros falam de outros livros, todos os sons de outros sons
e todos os sons de outros livros, cores e cheiros. Não se pode dizer hoje
sinto saudades sem evocar – mesmo sem conhecer – a saudade que Casimiro
sentiu da aurora da sua vida ou tudo aquilo que fica daquilo que não ficou ou
o ronco barulhento do meu carro e os erros do meu português ruim. Há em
toda saudade traços indeléveis da saudade de Ronsard, de Cecília, de Roberto,
de Caio, de Cole, de Gonçalves, de Florbela e de cada um que já cantou sua
saudade em altos brados. Este texto mesmo está permeado de outros textos
e tentar descobrir o que o permeia é cair numa cilada pois o que o permeia
foi permeado por textos já antes permeados e se seguirmos adiante nessa
genealogia textual descobriremos que ela é viciosa pois eu também estou a
influenciar os textos que cito pois eles passarão a ser para você leitor um
texto por mim citado. Assim, mesmo sendo posterior a eles, influencio meus
predecessores – Borges principalmente, que já disse tudo isso muito melhor,
e antes, do que eu. E pode ser que já o tivessem dito antes dele. Pois tudo já
foi dito. Inclusive que tudo já foi dito* .
* Posteriormente à escrita deste texto descobri que o trecho “Tudo já foi dito. Inclusive que
tudo já foi dito.” também já foi dito, mas não lembro por quem.
plástico bolha
produzido pelos alunos de Letras da PUC-Rio
Editor
Lucas Viriato
Editora Assistente
Marilena Moraes
Conselho Editorial
Luiz Coelho
Gregório Duvivier
Isabel Diegues
Comissão
Constanza de Córdova
Carlos Andreas
Tomé Lavigne
Julia Barbosa
Isabel Wilker
Edson Santana
Projeto Gráfico
Lucas Viriato
Tiragem: 8.000
Impresso na CUT Graf
Distribuído no Rio de Janeiro e em Belo Horizonte
Coordenação
Paulo Gravina
Lucas Viriato
Revisão
Marilena Moraes
Rubiane Valério
Rafael Anselmé
Gabriel Matos
Equipe
Márcia Brito
Beatriz Pedras
Paloma Espínola
Fernando Fernandes
Joana Petersen
Apoiadores
Maria Regina Viriato
Ettore Siniscalchi
Envie seus textos para: [email protected]
A essência das vogais
As vogais não têm cor, como já pensou Rimbaud, não têm
cheiro, como a flor, não têm gosto, só no emprego, e certamente
não têm medo; não acordam nunca cedo para irem trabalhar.
Mas elas têm, sim, essência, pois qualquer consciência vai notar a
tendência – ou será uma insistência mascarada em coincidência – que
nós, seres humanos, temos na letra “a”. De Alá a abracadabra, essa
vogal inerente está sempre presente nos discursos e nas palavras
de qualquer tempo e região. É fato que Saussure a pensou bem
arbitrária e a posteriori predicou variedade sem notar nenhuma
igualdade nem qualquer forma de padrão. O padrão existe, sim, e
está exatamente na relação tão veemente – seja toante ou consoante
– que sentimos diante do acaso e que, por acaso, nos faz dizer:
“ah!”. Mas ele nem precisava ter percebido tudo isso, bastava só
ter lido o seu próprio nome escrito, em que a soma das vogais “a”
com “u” dá numa nova: “oh!”. E não digo nada mais da essência
das vogais, que o digam os poetas na sua ânsia tão correta de torcer
com a linguagem, numa volta à infância, onde tudo é assonância.
Paulo Gravina
O agora inteiro
Este mar enorme.
O amarelo, o laranja,
também a asa-delta
a deslizar no vazio colorido
do céu, do instante.
Ricardo Sternberg
Seguimos publicando a série de poemas que Ricardo Sternberg, professor de
Literatura Portuguesa e Brasileira da Universidade de Toronto, enviou para o Plástico Bolha.
Nesta edição, a aluna Mariana Lopes Peixoto, acostumada a traduzir
para a televisão em seu estágio na Gemini Vídeo, aceitou participar de mais uma
aventura poética (ela já traduziu um poema de André Sigaud na edição #5).
Assim como os demais poemas da série Sternberg, também este conta
com a louvável supervisão do tradutor, professor e poeta Paulo Henriques Britto.
Blues
Toot me something on your golden horn
He said to the musician.
I feel cold as my soul turns blue.
Jerryrig me some intricate melody
Full of those diminished sevenths
And with enough thrust to push me through
Bar by smoky bar, into oblivion.
Extricate me from thorny feelings,
Put brain and heart to sleep.
Bring out a flute and its Bolivian
So sorrow can be trumped by sorrow.
Afford me, at any price, some peace.
Today I feel bedraggled,
Befogged by this predictment.
Will I find myself myself again tomorrow?
3
Não se trata de algo concreto.
O momento vivido
é indescritível.
De que adiantam estes versos?
Cabe a ti, leitor, adiantar-te.
Seja como for,
o mar continua abundante
e, como a vida, esconde
em suas profundezas
seja o que for.
Blues
Toque algo para mim no seu instrumento dourado
Disse ele ao músico.
Sinto frio vendo minha alma se amargurar.
Improvise para mim uma melodia complexa
Cheia de sétimas diminutas
E com força suficiente para me empurrar.
De bar em bar esfumaçado, me alienando
Livre-me de sentimentos espinhosos
Deixe o cérebro e o coração dormirem
Eu riria, choraria,
gritaria o tom
de minhas entranhas.
É tanto que eu me resigno
aos limites deste poema.
Traga a flauta e seu boliviano
Para que a melancolia possa ser trunfada pela melancolia
Dê-me, a qualquer custo, um pouco de paz.
Dimitri Merino
Hoje eu me sinto em trapos
Confuso por esta previsão
Será que eu serei eu mesmo no outro dia?
Lucas Viriato
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Por dentro do tom
por Santuza Cambraia Naves
4
CD Estação Melodia. Luiz Melodia. Biscoito Fino. 2007.
O novo CD de Luiz Melodia é dedicado a Oswaldo Melodia,
sambista do Estácio e pai do músico, e a Wally Salomão. O repertório
do álbum consiste em grande parte de sambas tradicionais, dos anos
40 aos 70, incluindo duas composições de Oswaldo Melodia, “Não me
quebro à toa” e “Linda Tereza”. As exceções ficam por conta de “Nós
dois”, única canção de Luiz Melodia que consta do disco (em parceria
com Renato Piau), e “Choro de passarinho”, de Piau, Euclides Amaral
e Rubens Cardoso, em que a letra é toda estruturada a partir de títulos
de vários chorinhos, tangos e polcas conhecidos, como “Odeon”, “Flor
amorosa”, “Brasileirinho” e “Tico-tico no fubá”. Entre os sambas
gravados em Estação Melodia há alguns clássicos de Cartola, Ismael
Silva e Geraldo Pereira, e também um que fez sucesso em 1964, “O
neguinho e a senhorita”, de Noel Rosa de Oliveira e Abelardo da Silva,
além de obras de músicos de tão pouca notoriedade que seus nomes e
os títulos de suas músicas não constam nos dicionários especializados.
Estação Melodia é primoroso, da escolha do repertório aos
arranjos (a cargo de Silvério Pontes, Humberto Araújo e Alessandro
Cardozo) e à interpretação singular de Luiz Melodia, que recria e
atualiza os sambas antigos. O projeto gráfico do disco (Branca Escobar
e Luciana César) também merece menção, com a foto de um aparelho
de rádio dos anos 40 na contracapa e no encarte. Algumas faixas se
destacam. A interpretação de “Chegou a bonitona”, por exemplo, de
Geraldo Pereira e José Batista, evoca o ambiente das gafieiras cariocas
ao jogar com o trompete de Silvério Pontes e o sax-tenor de Humberto
Araújo, além, naturalmente, da ginga de Luiz Melodia. Em “Recado
que Maria mandou”, Luiz Melodia captou de maneira magistral o
espírito humorístico da composição de Haroldo Lobo e Wilson Batista.
Finalizando o álbum, “Linda Tereza”, de Oswaldo Melodia, recorre
a uma percussão afiada, a cargo de Netinho Albuquerque e Rodrigo
Jesus, e a um coro com a participação de As Gatas.
Estação Melodia, além do apuro formal, é um convite à dança.
O disco reúne técnica musical requintada e o clima das rodas de samba
e gafieiras.
mulheres-damas
por
Nicole O´Hara
Xerazade
Tecelã das noites
Das mil e uma inutilidades...
Fez das letras seu banquinho de forca
Sustentando os mitos
Sua vida resumida a
Sussurrar ao pé do ouvido.
Junto com o poderoso Xeriar
naquelas noites de frio
dos excessos de xis
— há quem veja um trocadilho.
Puzzles
AS POTÊNCIAS DA FICÇÃO II
Cuidado! Você está lendo um
texto roubado que trata de um assunto,
no mínimo, duvidoso. Se for capaz de
equilibrar a curiosidade e a desconfiança,
prossiga. Não se trata de versão banalizada
de um conto de Borges; embora
pouco verossímil, esta trama envolve
especialistas, doutores e integrantes do
sistema editorial. Parte da história diz
respeito a um livro que circula por vias
consideradas plenamente legítimas,
desde 1908, e vem sendo objeto dos mais
prestigiosos comentários e traduções. A
outra parte, publicada como continuação
do mesmo livro, surge com as evidências
claras da fraude. No entanto, não foi tirada do mercado, tampouco sua gênese
recebeu explicação satisfatória. O primeiro volume, sobre cuja autenticidade
não pairam dúvidas, revela-se tão sedutor quanto desconcertante, pois
confronta a filosofia com as questões que sua tradição sempre evitou enfrentar.
Já o segundo, com inequívoco apelo detetivesco e sensacionalista, jamais se
tornou um best seller. O número de seus prováveis leitores não ultrapassa o
círculo de seus críticos, todos inseridos na vida acadêmica.
Diante do exposto, o leitor certamente estará pensando que me
apropriei do estranho tema nos acasos da internet. Engano. Encantei-me
com a intriga rocambolesca durante uma defesa de tese de doutorado.
Como? A bibliografia erudita também tem seus momentos de suspense. A
tal assinatura problemática não pertence a ninguém menos que Friedrich
Nietzsche e os livros em debate apresentam-se como sua autobiografia. O
primeiro é o Ecce homo, o segundo circula com o título de Minha irmã e
eu. Caso se compare a respeitável fortuna crítica da autobiografia, dada por
legítima, com a polêmica – ora ingênua, ora obviamente interessada – que o
outro texto levantou, não se terá dúvida em rejeitá-lo como desdobramento
apócrifo, composto grosseiramente. Mas... o título, Ecce homo, tomado de
empréstimo à identificação bíblica do próprio Cristo, o Salvador, bem como
o subtítulo capcioso – como tornar-se o que se é (fragmento de um verso de
Píndaro) – podem indicar tanto um empreendimento audaz de revisão cultural,
quanto um delírio de automitificação. Além do mais, sabe-se que todas as
biografias de Nietzsche afirmam que Ecce homo foi escrito às vésperas do
surto, diagnosticado como loucura, que manteve o autor internado ou sob a
guarda da família pelo resto da vida.
O delírio assusta tanto quanto atrai, porque acaba por nos liberar
das regras rígidas com que a sociedade controla a emissão pública das falas
e a circulação dos textos. A verdade de hoje pode ser a mentira de amanhã.
Bastante liberal com as formas da sandice e da burla, o espaço literário insiste
em roubar ao terreno da filosofia toda uma classe de escritos ambíguos, de
caráter aforístico, alegórico ou confessional. Não lhes exige coerência, nem
prova de autenticidade. Ao contrário, as dubiedades e os equívocos, os jogos
de simulacro e os plágios escancarados é que dão sabor à arte da ficção. A força
instigadora do nome de Nietzsche ultrapassa os acasos e interesses editoriais
que ora forjam uma confissão picante – tradução de original supostamente
desaparecido – ora incorporam à autobiografia canonizada trechos antes
censurados dos manuscritos.
Respire fundo. Relaxe. Experimente ler alguns fragmentos do Ecce
homo e, se encontrar numa livraria, um exemplar de Minha irmã e eu, não se
acanhe, condescenda com sua curiosidade e compre-o. Enfrente a aventura
da(s) autobiografia(s) de Nietzsche. É tão eletrizante quanto a que é oferecida
pelo delírio do nosso conhecido Brás Cubas. Instrui e diverte na mesma medida
que o sistema de pensamento de Quincas Borba – nome que não se sabe bem
se pertence ao filósofo ou ao seu cão.
Marília Rothier Cardoso
Como no texto da coluna de maio, continuei inspirando-me nos escritos de
Eneida Souza e guiando-me pelos preciosos comentários críticos, observações e notas
de Devires autobiográficos, tese de Elizabeth Muylaert Duque Estrada. Usei também, à
minha moda, informações prestadas em prefácio pelo tradutor de Nietzsche, Paulo César
Souza, além, evidentemente, de roubar alguma graça da verve cruel de Machado de Assis.
(sobre)vivências – dos cen’átimos (brevidades)
por Carvalho dos Santos
“Essas brevidades lembram aquelas árvores japonesas, as árvores japonesas,
as árvores ‘bonzai’, carvalhos criados dentro de vasos minúsculos, signos e
seres vivos, produtos da arte e da paciência” (Paulo Leminski)
ooo
Sou ori (cabeça), ara (corpo) e emi (respiração, o sopro vital, a parte imaterial, o espírito).
O antropólogo diz: “A diferença entre um corpo vivo e um corpo morto é a presença ou
ausência de emi”. O emi é a sombra das pessoas.
No haicai, diz Barthes, não há interpretação, não há sombra; a escrita é o “momento
de verdade”, o instante instaura — satori — sem decifração.
“Na jarra de água flutua
Uma formiga
Sem sombra” (Seishi)
O emi é inapreensível. É o “É isso” que não pode ser nomeado. A sombra que se
esconde da sombra. A parte do dispêndio e do sacrifício, da entrega total, do salto nos
confins do mundo. Não há espaço para as trocas econômicas, para o moderado, aquilo que
pode ser controlado — descontrole —, escrita com o próprio sangue.
Ao chegar ao mundo visível, carregamos conosco o ìwó (o cordão umbilical) ou aquilo
que nos liga aos nossos ancestrais, à nossa linhagem. É no Àiyalé (peito de casa) que
nós encontramos com os mortos de nossa família para cultuá-los. É um lugar sagrado,
portanto, restrito. Os ancestrais habitam nosso dedão do pé, assim narra a tradição, assim
contam as frases orais da memória viva dos anciãos.
Neguinho
Turquoise boy I must confess to you...
“Turquoise boy”- Sonic Youth
Neguinho, devo dizer que eu também amo alguém que me abandonou, eu também. Também espero na
calçada um rosto conhecido ou um rosto que me estenda o olhar e me dê algo que eu não sei o que é. Algo que
é parecido com saciar a fome, mas não é fome o que eu tenho. Quando te vejo, sei que em nada podemos nos
ajudar, porque eu sou tão da rua quanto você. Se eu te der pão, dinheiro, cigarro, neguinho, pouco fiz porque há
pouco a fazer por nós além da espera. Eu sei que o chão da rua me chama tão alto que eu por pouco não decido
ficar, ainda não, digo pra mim mesma, mas só tenho a certeza de sentir um dia a pedra dura sob as minhas costas
aumentar. Neguinho, você me viu no dia em que ninguém veio falar comigo? No dia em que eu implorei como
você faz por um trocado? Você viu? Eu fico tão só que nem a tempestade me comove mais. Me ensina a ser
maltrapilha? A cheirar cola pra não precisar de nada? A roubar? A matar também? Me ensina a não querer mais
ninguém, só o dia sem nada dentro? Neguinho, vou te contar que a morte me visitou. Foi numa tarde. Eu havia
comido pipoca na rua, havia te visto mendigando por aí e depois voltei pra casa. Ela queria me fazer sua primeira
visita, dizer que sempre estaria esperando, foi sem loucura e muito claro. Estou te dizendo: vamos morrer,
neguinho, eu e você e quem não nos ama mais. Mas nós somos seus próximos, pois já esperamos, só esperamos.
Ah, neguinho, quanto que eu quis te trazer pra casa, vestir você e te dar muita comida boa, mas aí eu também fui
ficando mais igual a você. Eu compreendi que o nosso tesouro é essa solidão, que teima em roer agora o que está
por fora, posto que acabou com o que havia por dentro. Vai se curar o que não tem remédio? Nós já ultrapassamos
alguma fronteira que nos deixou crus e estrangeiros no mundo. Cadê nossa família, nossos amores? Todos não
saíram com boas desculpas, graças a Deus? Neguinho, como a nossa carne é dura, como nossa alma é casta! Ah,
que milagre nefasto e glorioso! Alguma bala já te atingiu? Já? Você morreu? Quantas vezes? Está vendo, não
tenho razão? Como é que se mata quem já foi morto, me diz? Que engraçado! Não tenha medo, neguinho, basta
se fingir de vivo às vezes e aí quem sabe você tem sua casa, sua comida, sua cama, quem sabe? Mas sempre forte,
neguinho, sempre forte porque ninguém vai estar do seu lado, você e eu não temos lado, só o de fora. Vamos,
neguinho, sempre esperar o que não vem, comer o que não basta. Neguinho, estou ficando muda, você quer
ver? Me encontre amanhã. Estou completamente muda e sem idioma. A gente vai se falar em língua estropiada,
não repare se eu nem conseguir. Posso te deixar sozinho? Posso não te ouvir mais? Não te ver mais? Tenho um
plano: eu te abandono pra ver como é que é, depois fico te observando de longe, quando você puder faça o
mesmo, assim tudo vai estar certo. Você vai ver que somos filhos de uma mesma maldição: a maldição do tempo
que passa, maldição de quem deseja. Neguinho, a gente está se arrastando, você agüenta? Quer bater numa
porta qualquer e tentar? Quer pedir, pelo amor de Deus, que nos acolham? Eu vou com você, vamos agora?
Alguém que pode dar, quer nos dar? Só um pouco, nós dividimos. Nada restará. Somos ávidos filhos de Deus.
Marcelo dos Santos
Metrópole
Urbes congestionadas,
Motoristas estressados,
Pensamentos eclipsados de dor:
Este sou eu.
O conjunto destas alucinações que me rodeiam.
Quando saio de casa mais cedo
Enfrento as mazelas da multidão
Escoradas por veículos envenenados
Cujos mártires na direção
Nada mais são
Do que o espelho de minhas próprias
Atitudes
Buzinas
Urros incompreensíveis
Prostituição nas calçadas
A música que reverbera dos quiosques
Este é o som da metrópole
Que mais parece um galope
Do que uma canção
E no meio de toda esta gente
Cansada de sofrer,
De temer,
De correr,
Do tumulto que as ruas guardam
Do rugido que os transeuntes exaltam
Sobrevive o cidadão intimidado
O que será do amanhã,
Se nada vejo no ontem e
Se não me lembro do que passou
Porca memória!
Que me foge aos dedos
Sem nem ao menos avisar
Sequer alertar
Para aquilo que sou:
Um mísero mortal
Preso a metrópole.
Culpado?
Inocente?
Ambos?
Não sei mais o que faço de minha vida
Não sei o que sobra de racional pra contar
O que me resta
É este único desatino chamado sobrevivência
Que me empurra pra frente
E me faz encarar as ruas,
As vielas,
Os becos,
Enfim,
O que a pólis me der
Roberto dos Santos Queiroz Júnior
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5
O mistério da felicidade
Leonora chegou-se para mim, a carinha mais limpa deste mundo:
- Engoli uma tampa de coca-cola.
Levantei as mãos para o céu: mais esta, agora! Era uma festa
de aniversário, o aniversário dela própria, que completava seis anos.
Convoquei imediatamente a família.
- Disse que engoliu uma tampa de coca-cola.
- Tá. Você já mandou buscar o bolo para cantarmos o Parabéns?
Pedro, meu marido, pai da engolidora de tampinhas, tinha o
poder de me irritar com seu jeito desatento.
- Pedro, acorda ! A Vânia tá dizendo que a Leonora ENGOLIU
uma tampa de coca-cola.
Minha cunhada, Sílvia, não tinha mais paciência com o irmão e
gritava para ver se surtia efeito.
- Engoliu? Mas como? Pela boca? – perguntava Pedro, passando
dos limites. Pelo visto, nosso divórcio seria inevitável.
- Pedro, você é meu irmão, mas é um idiota. Se ela en-go-liu, é
claro que foi pela boca, né ? – Sílvia estava nervosa.
- Ggggente, nnnnão sssseria bom nnnós irmos pro hospppital ?
Meu cunhado, Gaspar, irmão mais novo do meu marido, era
gago. Isso. Você leu certo. Minha amadíssima sogra nunca soube fazer
filhos. Um era lerdo (o meu marido), a outra, destemperada, e o terceiro
era gago.
- E vamos parar a festa da menina ? Coitadinha. Falta cantar o
Parabéns – Pedro ainda não tinha entendido a gravidade da situação.
- Será que nenhum dos pais dessa criançada é médico ? – eu, a única
voz lúcida naquele verdadeiro zoológico, tive que me pronunciar.
- Vou pegar o microfone e perguntar.
Silvia foi para perto do aparelho de som e parou a música. Todas as
crianças, pais, professores, garçons e palhaços da festa olharam para ela.
- Atenção, todos! Minha sobrinha, a aniversariante, corre risco
de vida. Vocês, crianças, podem não ter mais a doce Leonora como
coleguinha. Repito: Leonora não está bem. Agora, gostaria que vocês
mantivessem a calma. Existe algum médico entre nós? Repito...
Ela não conseguiu repetir. O caos já estava instalado. As crianças,
sem exceção, começaram a chorar. Algumas até gritavam e corriam para o
colo de seus pais. Um senhor levantou a mão:
- Sou médico. Onde está a menina ?
- Ali, perto daquela senhora de vermelho.
A senhora de vermelho era eu. A menina que corria risco de vida era
minha filha. E a louca que tinha estragado a festa era a minha cunhada.
- O que houve com a menina ?
- Engggoliu uma tampppa de cccoca-cola – Gaspar demorava quase
duas horas para falar cinco palavras.
- De plástico ou de aço? – a praticidade dos médicos me irritava.
- Minha filhotinha, foi de plástico ou de metal a tampinhazinha que
você engoliu ? – Pedro sempre falou com Leonora como se ela fosse uma
idiota. Na verdade, o idiota era ele.
Leonora olhou para cima, olhou para baixo e, finalmente, olhou para
trás e soltou uma risada para um dos palhaços da festa contratado para
animar as crianças. Ele, então, correu para perto de Leonora gritando:
- Já ganhou, já ganhou, já ganhou!
- Ganhou o quê, seu imbecil ? – perguntou Sílvia, minha cunhada,
já perdendo a compostura.
- Calma, Sílvia, deixa o moço falar. – eu ponderava.
- Eu dei uma missão para as crianças! Hahaha! Quem contasse a
melhor mentira para os pais ganharia três pontos na nossa gincana.
Hahaha!
Nem preciso dizer que o palhaço com sua imensa criatividade para
elaborar brincadeiras altamente pedagógicas quase foi linchado pelos
pais, que, irados, se despediam.
Naquela noite, parei para analisar minha vida. Era casada com
um idiota, que tinha uma irmã louca e outro gago; minha filha era uma
menina de seis anos fria, manipuladora e mentirosa; e eu acreditava que
era feliz. Como podia ser feliz naquele pardieiro?
Decifrei o mistério da felicidade quando, duas semanas depois, fugi
com aquele que me ensinou a não levar a vida tão a sério: Teobaldo, o
palhaço.
6
Frio
Não contes teus segredos.
Segredos não se falam,
mas podem sempre ser ouvidos.
Segredos, qual armas secretas,
necessitam de esconderijo.
Esquece-os, de quando em quando,
faz papel de tonto.
Não importam as aparências,
guarda o resto a sete chaves,
é daí que nasce a arte.
Desenha só uma parte da face,
a outra, cobre-a com fina gaze.
Patriótica Aparecida?
Envolta em limo, traz pesada rede
ultimamente sempre em vão lançada
num rio estéril, linda imagem ( vede! )
de escuro barro, mas decapitada.
Peixe abundante, saciando a sede
das almas por milagre — ao ser pescada
também cabeça — sólida parede
de um templo brava gente ergue na estrada.
Brasil afora espalham devoção
à negra estatueta Aparecida
tropeiros adentrando no sertão.
E aos pés da Padroeira enternecida
farto sotaque ecoa desde então,
grandiosa Pátria fé mantendo unida.
Fernando Lopes de Almeida Soares
Guilherme Amado
Segredos
Bolhas Geraes
A escolha, inevitável,
impávida, ereta, obrigatória.
Perfurá-la, impossível,
adiá-la ao nunca,
impetuosa.
Por todos os lados, a dúvida.
Dúvida e escolha, há que se escolher.
Feita a escolha, vem a dúvida
e aquilo que não foi,
eternamente, uma incógnita.
Uai?! Tá sabendo não?
A coluna Bolhas Geraes é dedicada
aos nossos leitores e colaboradores mineiros,
que, desde a edição #13, recebem o Plástico
Bolha em diversos pontos de Belo Horizonte.
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Dois poemas de Silvia Bagrichevsky
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Paladium
Ela tinha uma presença de mulher,
de verdadeira mulher, de mulher feita e bemfeita. Seu olhar era sempre tão ambíguo (tinha
olhos preciosos) e seu sorriso pontual – nem
se adiantava nem se atrasava –; pontual e de ar
aristocrático: quase uma bondosa concessão.
Todos a queriam, todos a desejavam. Hefaístos
inclusive. (Poupemo-lo, daqui para frente e
por consideração, do suplício do seu próprio
nome.) Mas houve um tempo que não era
dessa maneira. Quando a conheceu, ela lhe
pareceu inacessível e, como se costuma fazer
com as coisas que são interditas (pelo menos
num primeiro momento), H. se afastou. Mas,
para sua surpresa e contentamento, ela veio
falar com ele. Logo estavam metidos numa
assembléia só deles, uma reunião particular e
íntima, feita para poucos, para bem poucos,
somente para H. Agora todos os olhares se
voltavam zelosamente em sua direção, tanto
por admiração quanto por litígio. Recebeu seu
telefone a modo de prêmio e ouviu de sua
boca que a chamasse. H. esteve nas nuvens.
Mas nuvens se desfazem muito facilmente e,
por assim dizer, como que por um sopro.
Telefonou para ela e saíram para
beber. Estiveram conversando por três horas,
desde as 4 até as 7. Falaram acerca de tudo:
existência, poesia, música, tentação, traição,
amor. Mas fazia falta deixar de falar e H.
sabia disso, porque senão a palavra se tornaria
gasta, surrada e, desse modo, improfícua. Ela
estava ali diante dele e, diferentemente de
antes, era totalmente acessível, ou quase. Digo
quase porque seu olhar nunca deixou de ser
ambíguo, nunca deixou de encarnar a pitonisa
de Delfos, cujas respostas eram, ao mesmo
tempo, a tese e seu contrário.
Contudo, havia receptividade no seu
corpo e H. podia senti-lo. Ou melhor, viaa. Seu corpo se atraía em direção ao dele,
imitava-o, e era como se se inaugurasse ali,
pela primeira vez, cheio de cuidados, mas
curioso e excitado por estrear. E seus olhos,
crédulo leitor, – contrariamente ao que certa
vez escreveu nosso poeta acerca do copo
anônimo –, seus olhos eram ambíguos por
ética, porque maior castigo seria se fossem
silenciosos; e eles premeditavam os próximos
passos, supunham o que ia ocorrer, nunca
foram olhos ingênuos. Ao contrário, eram
olhos muito vivos: sabiam, como nenhum
outro par, provocar e ser evasivos. Mas H.
hesitou.
Quando iam se despedir, H. desejou
mais do que tudo beijá-la, abraçá-la, selar as
últimas três horas não com mais palavras,
senão com saliva e cera carmim. No entanto,
ficou assim, imóvel, com a mirada perdida,
tentando cobrar ânimo para se aproximar dela,
para tocá-la, para fazê-la sua. Buscava, naqueles
instantes que antecipavam a separação, uma
maneira de lhe mostrar, sem contudo assustála, o tacanho que era. Não a achou. (Seu
defeito, desde logo, sempre foi ser demasiado
altivo, desafortunadamente virtuoso.) Afinal,
a culpa não foi sempre a irmã mais nova do
desejo? H. se sentia culpado de um crime que
não lhe pertencia, que não era seu e que nem
sequer chegaria a cometer. Um crime e uma
culpa inexistentes. Vestiu o manto do bom
amigo e, quando precisou desnudar-se, não
soube mais como fazê-lo. H. voltou a ser o
primeiro homem e se envergonhou de sua
nudez, fez estrangeiro aquilo que era mais
seu, condenou o que tinha de mais sincero.
Seu pecado foi não ter lhe mostrado desde o
princípio que mais do que sua confiança e seus
conhecimentos sobre música e poesia, mais
do que suas histórias e sua atenção, queria a
ela, assim, simples e sem obliqüidade, ela.
Os instantes passaram, a oportunidade
passou e H. ficou com essa cara de quem,
atrasado, vê o último trem deixar a plataforma,
enquanto ela, senhora de si e da situação,
repousada sobre a inteireza que se anunciava até
mesmo nas suas imperfeições, ia embora com
os mesmos olhos ambíguos e adivinhadores
que tinha às 4 da tarde, com essa pequena mas
notável diferença que agora, às 7, se podia
distinguir neles, ao longe, os jardins de Canaã
e todas as suas delícias que jamais haveriam de
se cumprir. Oferta, promessa, desterro.
Sem saliva nem cera carmim, H. chegou
a essa desagradável – ainda que esclarecedora
– conclusão de que as paixões, por nobres ou
coxas que sejam, de uma forma ou de outra
acabam se extraviando. Sempre se extraviam.
Thiago Costa Faria
Quando eu, autora, virei meu próprio
texto ou Quando o feitiço virou contra
o feiticeiro ou Coisa parecida...
Tem gente que diz que escreve para
se disfarçar, assim como o ator atua para usar
diversas máscaras...será mesmo? Mostrei um
texto meu a uma analista. Preciso dizer que
ela é a minha analista? Acho que talvez faça
toda a diferença. A experiência foi curiosa
porque não me preocupei muito com o que
minha analista ia pensar do texto que escrevi,
mas sim com o que ela iria encontrar dentro
dele. Que vestígios estariam ali escondidos?
Sabia que ela leria o texto procurando alguma
coisa sobre mim, alguma patologia emocional,
alguma denúncia ou confissão; por isso me
senti duplamente exposta – o que será que
eu entreguei? Será que deixei escapar alguma
coisa que, na verdade, queria disfarçar? Por
que será que escrevo, afinal? Mas perguntas
sem respostas terão de ficar pra outra hora.
O que quero discutir aqui é o lugar
incomum que minha analista assumiu ao se
tornar, literalmente, leitora de sua paciente.
Num pedaço de texto que muito provavelmente
revelaria apenas uma sombra de sua autora para
um leitor comum, a analista encontrou numa
7
só frase, uma resposta possível para as minhas
noites sem sonhos. O que acontece quando
conhecemos intimamente o autor ? Será que
realmente podemos nos distanciar daquilo
que escrevemos? O texto em si, as escolhas, as
temáticas, as palavras, tudo (para um analista
especialmente, creio eu) é testemunho de uma
identidade, tudo é definidor. Para minha analista,
pouco importaram as figuras de linguagem, os
efeitos sonoros, as intertextualidades. O poeta
era eu, e eu estava me entregando, me mostrando
por entre os espaços das palavras e também nas
próprias palavras. A analista ignorou o eu lírico
– para ela, só havia a mim. E ela quis saber tudo.
Quis saber se o guarda-chuva vermelho existia.
Confirmou que eu, realmente, sempre suspiro.
Perguntou se, de fato, eu não como suspiros.
Perguntou se o barulho era a voz da minha mãe
me dizendo as coisas que eu não queria ouvir...
Fui embora com uma triste sensação
de derrota, que não sei bem explicar. Acho
que foi porque de repente meu texto se tornou
revelador demais, óbvio demais, quase sem
graça. Minha leitora-analista não tomou o
texto para si; ela foi descascando, decifrando,
limpando, podando...enquanto eu queria só
que ela lesse, pensasse e, se possível, gostasse.
Isabel Wilker
Que importa um nome?
Para o Fred
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e
riso mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta
Ferreira Gullar, Poema Sujo
8
Fazia tempo não nevava em Paris.
Lá fora, a cidade está branca, branca. Nem me
aventuro a sair. Há pessoas que sonham em ver
neve – jogar bola de neve, fazer boneco de neve,
amassar a neve, pisar na neve. Eu não. Detesto
neve. Detesto frio. Detesto casaco, luva, ceroula,
gorro, fumaça saindo da boca. Quando cheguei
aqui, o frescor da juventude me ajudava a suportar
o inverno. Hoje, a velhice toma conta do meu
corpo: no rosto pelancudo, nas mãos trêmulas, no
sono leve (insônia, melhor dizendo, pois quase não
durmo, passo a noite a revirar pensamentos). E
quando vejo a neve lá fora me recobro da certeza
de que tenho muito mais a fazer aqui, nestes vinte
e seis metros quadrados onde durmo, como, leio
e, vez ou outra, assisto ao noticiário, do que lá
fora. Principalmente quando a cidade está branca
como hoje.
Uma única vez por semana – às vezes
nem isso – vou ao mercado aqui perto e abasteço
a geladeira. De resto, só saio de casa para comprar
pão e jornal. E quando volto, invariavelmente,
sinto que o quarto está ficando impregnado de
um cheiro cada vez mais forte. Suponho que o
meu mesmo, que só sinto nesse momento, ao
voltar com o pão e o jornal embaixo do braço. A
cada dia repete-se essa sensação estranha, como se
um pouco de mim (que não reconheço) fosse se
desgarrando do meu corpo e ocupando o quarto.
Mas hoje, ao contrário do habitual, será difícil
sentir o cheiro, porque nem mesmo a fome ou a
vontade de conhecer os últimos acontecimentos
mundiais me animam a encarar os flocos de neve
se transformando em água no meu mantô. Nada
me fará pôr os pés na rua. No entanto, sei que
ele está aqui e provavelmente ainda mais forte, já
que a minha presença não tem dado a mais ínfima
trégua. Sei que ele está aqui e quero senti-lo.
Preciso senti-lo: questão de sobrevivência.
Cruzo o quarto, vou ao banheiro e
em seguida à cozinha, para ver se descubro o
cheiro perdido em algum canto qualquer. Nada.
Volto ao quarto. Nada. Saio do apartamento e
fico prostrado no corredor enquanto os minutos
passam. Um vizinho sai com uma pasta debaixo
do braço, deve estar indo ao trabalho. Bonjour, ele
diz, sem mostrar qualquer espanto ao me ver do
lado de fora vestido com trajes de dormir, como
se tivesse sido expulso da minha própria casa. Ele
me diz bom-dia como quem não diz coisa alguma.
Bonjour, repito, e espero ele descer o primeiro
lance de escada para voltar ao apartamento. Nada.
Não sinto cheiro algum. Parece que só funciona
quando chego com o pão e o jornal.
Mas ainda assim insisto. Sei que ele está
aqui, como todos os dias. Sinto um leve arrepio,
um certo medo de estar tão arraigado ao quarto
que já nem possa distinguir nossos cheiros,
como mofo em madeira úmida e guardada.
Não sei se é efeito da idade, mas tenho notado
que ultimamente presto muito mais atenção aos
cheiros do que jamais antes. Quando chego a um
lugar, é o cheiro do ambiente que determina se
fico ou não. A mercearia que freqüento, escolhi
pelo cheiro. Os cinemas também (não suporto
cheiro de cinema novo). O mesmo acontece com
as pessoas. Aliás, um dos motivos pelos quais
optei de vez pelo enclausuramento e pela solidão
foi o enjôo que determinados odores pessoais
me provocavam. Cheguei mesmo a me deparar
com situações muito desconfortáveis, tendo que
inventar desculpas para deixar uma conversa ou
um jantar por simplesmente não suportar o que
para minhas narinas se apresentava como um
verdadeiro fedor. Por isso fico tão obcecado com
o cheiro do meu quarto. Temo que ele se dissocie
de mim a tal ponto que acabe me colocando
para fora de casa. Tenho que encontrá-lo todos
os dias, ter a certeza de que ele não me escapa.
É verdade que, se não o sinto, isso significa, de
alguma forma, um bom sinal: sinal de que ele não
me incomoda. Mas para estar seguro, preciso ter a
garantia de que ele não se liberta de mim, preciso
senti-lo – uma vez por dia, que seja. Tê-lo sob o
meu controle, ratificar que ele me pertence.
Saio de novo do apartamento. Não
encontro ninguém. E quando volto, mais uma vez,
nada. Repito a operação consecutivamente. Sem
sucesso. Talvez eu esteja exagerando um pouco,
talvez possa esperar até amanhã ou depois, em
algum momento sei que voltarei a sentir o cheiro.
Mas a verdade é que sempre fui assim: com
tendência à obsessão. Quando começo alguma
coisa – um projeto, um discurso, um trabalho,
uma arrumação ou uma simples busca por algo
perdido – preciso ir até o fim. Enquanto isso, não
descanso. Desisto de sair de casa: talvez, se eu
fizer o movimento oposto, me aproximar mais
e mais dos meus pertences, consiga encontrá-lo,
porque sei – e disso tenho a certeza – que ele está
em algum lugar. É só uma questão de paciência.
Ponho-me a cheirar os objetos mais
íntimos: o lençol, o travesseiro, a cadeira de
trabalho, o teclado do computador, a toalha.
Distingo cheiros, cada objeto guarda um segredo
próprio. Mas nenhum é o cheiro que procuro
– o meu mesmo – o cheiro que perco a cada dia.
Sei que posso interromper essa busca obsessiva,
deixar que o acaso me devolva o que tento em
vão encontrar. Se me pegam a fungar objetos,
vão pensar que estou ficando louco. Mas quem?
Quem entraria na minha casa num dia como
o de hoje, ainda mais assim, de supetão, sem
licença? Não, não tenho razão para cessar a
minha empreitada. Continuo a vasculhar meus
pertences, como se estivesse querendo encontrar
uma meia perdida, um par de óculos ou uma
caneta. Com as narinas atentas.
Procuro, procuro e: de tanto procurar,
acabo achando o que não procurava. Um cheiro
há muito perdido. Um cheiro que eu não sabia
ainda existir. Guardado numa das gavetas do
meu armário, como fotos desbotadas, como
uma carta de amor muito antiga, como palavras
esquecidas, mas nunca esvaídas. Um cheiro que
eu não esperava encontrar, um cheiro que eu nem
imaginava poder encontrar. Ele vinha da gaveta
– mas de onde exatamente? De repente, entre
minhas mãos que remexiam as roupas – cuecas,
meias e ceroulas – percebi a textura de um pano
que não poderia ser meu. Um pequeno lenço de
seda bordado. Mergulhei o rosto no tecido: era
de lá que ele vinha, o cheiro. Um cheiro que eu
tinha sentido uma única vez na vida, numa noite
há muitas noites – mas que havia me perseguido
durante meses (ou terá sido mais?), tal a força
com que se tinha impregnado a meu corpo.
Eu tinha acabado de chegar, se não me
engano. Mal falava a língua, mal conseguia me
virar numa realidade que me parecia tão distinta.
Era uma típica noite de inverno, dessas em que,
às oito horas, temos a sensação de já ser uma da
madrugada. Estava frio, embora não como hoje
(ou era eu que não implicava tanto com isso?).
Eu andava sem rumo pelas ruas da cidade, sem
nem mesmo me preocupar em que bairro estava,
se me aproximava ou me distanciava de casa.
Entrava e saía dos lugares como quem não deve
nada a ninguém. Nenhuma explicação. Ficava um
pouco, examinava o lugar, as pessoas, às vezes
tomava uma taça de vinho e em seguida partia.
Foram horas repetindo o mesmo jogo. Até
quando, pela primeira vez naquele dia, algo me
tirou a vontade de me movimentar.
Um gesto: uma mulher tira os sapatos,
descansa os pés desnudos na cadeira em frente
à sua e põe-se a deslizar os dedos sobre eles. Os
pés completamente à mostra! Enquanto ao seu
redor – no bar, nas ruas – todos se cobriam com
camadas e mais camadas de roupas. E de repente,
contrastando com o ar cinza, o ambiente fechado
da cidade, os pés surgiam para mim como uma
espécie de salvação. Só um encontro inusitado
como este – pés e mãos se roçando à mostra no
inverno parisiense – poderia me frear naquela
noite. Ela era muito bonita, sem dúvida, mas
sua beleza não seria nada sem o gesto. Foi ele
– o gesto – que me arrebatou, que me paralisou,
atônito, bem na entrada do bar: e não me deixou
mais sair.
Mas o que faz esse cheiro aqui hoje?
Depois de tantos e tantos anos, ainda guardado
na gaveta? Sim, ela era bela, repito, contornos
bem marcantes, contrastes bem acentuados: as
cores da sobrancelha, dos olhos, do cabelo e dos
cílios bem escuras; a pele, azul de tão branca.
Vestia uma roupa toda preta, se não me engano,
e um lenço bordado, azul, coral e verde musgo,
frouxamente enroscado no pescoço. Fui pego de
surpresa. E só quando isso acontece é que me
dou conta do quão irremediável a vida pode ser.
Eu era já prisioneiro daquela mulher e seu gesto.
Mesmo antes de me conhecer, ela já me tinha em
suas mãos. E a mim não restava para onde (nem
como, nem por que) escapar.
De tão estupefato, demorei mais do
que o habitual para me sentar e pedir uma taça de
vinho. Não tirava os olhos de seus pés, que por sua
vez não cessavam de ser acariciados. Não tardou
para que ela percebesse meu olhar caminhando
por seu corpo. Mas ao invés de fechar a cara e
me lançar farpas de gelo, como eu imaginava,
afrouxou suavemente os lábios carnudos, feito
para dizer que eu era bem-vindo. Retribuí com um
largo sorriso. Se estivesse no meu país, certamente
teria chegado diretamente à sua mesa, com frases
feitas e propostas engraçadinhas. Mas naquela
época eu ainda não sabia como me comportar
em país estrangeiro. Por isso fui praticamente
incitado a esperar que ela me convidasse – com
um aceno – para me sentar ao seu lado.
Só quando chegou a nova taça de vinho
(que ela mesma pediu ao garçom) é que consegui
engolir as palavras entaladas na garganta. Pedaços
de palavras, na verdade, pois meu francês não era
simplesmente precário, mas uma quase nulidade.
E diante da bela mulher (dona deste lenço que
agora seguro), não alcancei dizer mais do que Bon
soir. Ela obviamente percebeu minha falta de jeito
e intimidade com a língua, e deve ter sido por isso
que sorriu, como se quisesse me acolher. Ou talvez
estivesse apenas zombando de mim, hipótese que
fiz questão de descartar rapidamente. Cada vez
que ela sorria, eu sorria em dobro. E assim ficamos
durante algum tempo (uma hora? Duas? Cinco
minutos? Sempre o tempo, abstração inalcançável,
a escorregar pelos dedos da memória). Se não
me engano, tentei puxar assunto com ela, numa
espécie de português em oxítono, mas não fomos
muito adiante. Talvez ela também fosse uma
estrangeira recém-chegada, talvez ela, como eu,
não dominasse ainda o idioma. Ou talvez – e
tendo a achar que era isto – não tínhamos mesmo
o que falar. Bastavam nossos sorrisos e meu olhar
a percorrer seus contornos, a se demorar em seus
pés descalços.
Faço um esforço para me lembrar
(mergulho as narinas novamente no lenço
bordado), mas a verdade é que provavelmente
eu nunca tenha tomado conhecimento de como
que, do bar, fomos aterrissar em minha casa.
Depois de quanto tempo? De quantas taças de
vinho? De metrô? A pé? De táxi? Fico de certa
maneira incomodado com esse hiato, essa falha
na memória. Esforços são muitas vezes inúteis,
e, por mais que eu tente, minha lembrança não
consegue preencher essa lacuna entre o bar e a
casa. O que vejo agora é ela inteiramente despida
a me queimar a vista. E eu, como um menino
bobo, desajeitado, sem saber o que fazer com
tanto corpo, com a sua carne clara pedindo para
ser tocada. Nem se ela fosse brasileira eu saberia
o que dizer diante da sua nudez. Nem se eu
estivesse sóbrio como agora. Qualquer tentativa
de verbalização faria esvaecer o encanto que se
apresentava aos meus olhos. Se eu falasse de seus
mamilos rosados ou do meu desejo de ter seus
seios em minhas mãos, imediatamente eles me
escapariam. Se eu falasse da minha excitação pelo
seu sexo, visivelmente encharcado a molhar suas
coxas, não teria o direito de encharcá-lo ainda mais
com a minha língua ou de recebê-la por cima de
mim, faminta, a me devorar. Não pronunciei uma
palavra sequer, embora milhares se atracassem na
minha laringe, na tentativa de ganhar um corpo
para além do meu. Deve ter sido por isso que
desatei a tossir. Enquanto tossia, engasgado com
a minha inabilidade, ela simplesmente sorria. Acho
que foi assim a noite inteira: eu a me atrapalhar, ela
a sorrir.
E agora este cheiro guardado na gaveta,
escondido há tanto tempo; há tanto tempo
evidente. O que ele vem fazer aqui hoje, quando
estava à procura do meu cheiro, não do de outrem?
Este cheiro que guarda tantos outros... Cheiros de
umbigo e de orelha, cheiros indecifráveis, como
símbolos do seu corpo no meu. Cheiro do seu
gozo se misturando ao meu, do nosso suor nos
colando um ao outro (para sempre?). Eu estava
ainda vestido, mas não podia esconder o meu
desejo de possuí-la naquele mesmo instante. Tenho
certeza de que ela sentiu o meu cheiro de sexo
prestes. E, por isso, como se o tempo estivesse
à nossa disposição, ou melhor, como se fosse ela
mesma a dominá-lo, passou a conduzir seus gestos
sem a menor pressa. Deslizou delicadamente sua
mão direita sobre o meu rosto, demorando-se atrás
da orelha. Com a esquerda, segurou minha nuca
suavemente. Ela me exigia demais: uma paciência
quase impossível. Sentia meus poros eriçados,
meu corpo a querer pular em cima do seu, minha
língua a querer se enroscar na sua. Quanto mais
meus sentidos se aceleravam, mais ela diminuía
a velocidade de seus atos. Era quase um embate:
entre dois corpos estrangeiros a se conhecer pela
primeira vez, entre um silêncio imposto e um
turbilhão de palavras latentes.
Numa noite há muitas noites: passamos
horas a nos deleitar, a nos conhecer, a nos estranhar.
Quantas vezes recomeçamos? Sempre a descobrir
novos cheiros, novos orifícios em segredo. Não
sabíamos nem mesmo nossos nomes, nossas
origens, nossas histórias. Era tudo tão novo:
mas também tão antigo, de uma ancestralidade
incômoda. Escuto agora a sua gargalhada quando,
acolhendo-a em meus braços, pus-me a falar
português desatinadamente, como se expelisse
todas as palavras que antes fora obrigado a engolir.
Linda, gostosa, tesão. Uma enxurrada de palavras
óbvias, mas que para ela certamente soavam como
enigmas beirando o incompreensível. Quando
me silenciei novamente, ela se virou para mim e
sussurrou dentro da minha boca uma palavra na
sua língua, revelando que, assim como eu, não
vinha daqui. Era um som gutural que chegava
carregado de um sopro quente a me atravessar o
corpo. Depois, não trocamos mais uma palavra
sequer. Mudos, traçamos inúmeros caminhos.
Posso ainda sentir a mistura de nossos
cheiros, como se nossos líquidos tivessem sido
derramados na noite de ontem, frescos no meu
apartamento. Mas não consigo definir quando
foi que paramos (e será que paramos?), em que
momento ela partiu (e será que partiu?). Quanto
mais busco uma resposta, mais me afasto de uma
certeza, perdido entre os rastros da memória. Já
não sei o que de fato aconteceu e o que são trapaças
da minha mente cansada a passar a perna em mim
mesmo. Custei a entender que o tempo passa. Que
nem da nossa história somos donos. E agora me
pergunto se não é dela o cheiro que exalo todos os
dias e que redescubro a cada vez que chego a casa.
E me pergunto igualmente se não é por sua causa
que estou aqui até hoje, neste mesmo apartamento,
nesta mesma cidade. À espera de que algum dia
ela retorne e traga consigo um nome: para que eu
possa enfim continuar a viver.
Tatiana Salim Levy
Desafio poético
A partir desta edição, o plástico bolha proporá sempre desafios para os amantes da poesia. O primeiro deles trata-se do
exercício de tradução “às cegas” de uma língua totalmente desconhecida, o húngaro. Vejamos a seguir o poema original, e as “traduções”
q u e n o s s o s c o l a b o r a d o r e s e nv i a r a m . Pa r a a p r ó x i m a e d i ç ã o, o d e s a f i o s e r á e s c r e ve r u m p o e m a s o b r e “ o s a b o n e t e ” .
Todos estão convidados a trovar sobre este tema tão escorregadio, basta mandar seu poema sobre este objeto para o e-mail do jornal.
Néma taj
Nenhuma arte
A taj még alszik,
néma csend honol,
nem szól a madárdal
a fákon, patakparton.
A arte nega asilo
nenhuma consente honor
nem sol a madrigaz
a ficão pronto-a-portar.
A tal me assiste,
Num mar de honra,
Em que nem sol pode mandar
Na faca que partiu.
Nesta manhã alcalina
não seca o orvalho
nem o sol da madrugada
de fato participa.
Néhol egy gally
meg-megrezzen,
lágy szellö lengeti,
bus nótáját énekli.
Nenhum eco de gala
nega-nega grasse
larga zelo longuete
ônibus nota já é igual
Nem ovo de galinha
Me emociona enquanto,
Na laje eu leio sozinho.
Névoa sobre os galhos
da manhã-amanhecendo,
lago de gelo longevo,
um notável silêncio.
A forras nem csobog,
nem zenél,
csak csendben ül
a szikla tetején
A forrar nem albogue
nem zelote
quiçá consinta a bem útil
e cíclica tatera.
Am ha jö a tavasz,
ébred taj,
leveszi minden
szomorú zászlaját.
A um anjo de alabastro
a obra de arte
levada à minuta
examinou zás-a-jato.
Demény Zita,
grande poeta húngaro
Nenhuma tágide
Sueli Rios
Nenhum ser
Nu mar Tal
Vou às forras com o sabão,
Nem sei.
Em casa que se bebe álcool,
A saia não pára.
Mas há quem seja capaz,
De se embriagar,
E se lavar ao mesmo tempo.
Só morando sozinho pra saber.
Letícia Katz
Nenhuma tarde
Esta não
Nas folhas nem sombra,
nem mel,
casca semente úmida
a paisagem a emudecer
As rãs e os sapos atravessam
ébrios esta
leveza que ninguém
sussurra ou alarda.
Isabel Diegues
Tal do Magarefe
A tágide grande e altiva
nenhuma cassandra venera,
nenhum solo a perfilha,
a fecunda e multípara.
Um grande ser alçado,
nenhuma honra enviada,
não só a loucura ardente
partiu a pata de um falcão.
A tarde mostra auroras,
nenhuma, porém, honra,
nem mesmo o sol do madrigal
de fantasias, a lua ao meio-dia.
o tal do magarefe
com jaleco sujo
quis matar o urso
correu na Patagônia
Ovos galados em neve
em meio ao mezanino,
lagos de geléia longínquos,
notáveis rebuçados iníquos.
O negror ergue galões
de grande grandeza,
lago de zelo longevo,
nunca mais seres molhados.
Nunca eqüinos galgaram
mostrando tamanha alegria,
ao largo de céus longínquos,
por isso, a nostalgia os enternecia.
bebeu água e amônia
saiu pelado
sem vergonha
o frio do estado
À forra nenhum ciborgue,
nenhum senil,
cossacos e cassandras mil,
a ciclotímica tetéia.
Um futuro não sangrento,
não tranqüilo,
como se Deus enviasse
uma sigla sacro-sagrada.
À força não soerguia,
nem zunia,
os cansados e saudosos uivos
da tristeza que teciam.
foi às forras
congelando até dentes
imagine os pertences
que ele não guardou
Tenho jogado nas tavernas,
ébrio, entre as tágides,
recordando de leve
os sonoros dislates.
Sem um beijo do rei Ám,
ébrio ser,
lendário mentiroso,
esmoreceriam as mulheres.
Ainda há um zumbido atravancado,
uma ébria tarde,
de leveza mínima,
murmúrios e zombarias.
escorregou e levantou
mas logo derrapou
e o bicho abocanhou
sacudiu e o soltou
Paulo Henriques Britto
Lucas Viriato
Luiz Coelho
Luiz Carlos Nascimento
9
No ônibus
ORÁCULO
Mito, esse viajante clandestino de nosso desejo
10
a Rogério Manzolillo
Em um tempo antes do tempo, reinava no mundo o Silêncio. Ruídos havia, sim, como o do vento
assoviando por entre os desfiladeiros e as planícies. O ribombar do trovão também era um som estrondoso,
que ensurdecia mais que o metálico e seco estrepitar do raio, riscando a imensidão do céu. Os pingos da chuva
também ressoavam nas pedras, nas águas dos riachos, nas copas das árvores. E o marulhar das ondas contra a
areia das praias embalava o grande Silêncio como uma cantiga de ninar.
Um dia, no entanto, o silêncio desses ruídos foi abalado por um vagido alto e agudo, e o mundo grávido
de silêncio encheu-se de sons: nasciam as palavras. Bem, ainda não eram propriamente palavras, mas balbucios,
sons–palavras primevos. De ma… ma… a mater e matéria demorou bastante, mas aos poucos as palavras foram
tomando forma, multiplicando-se e, por fim, já eram tantas que começaram a reunir-se em narrativas. Narrativas
ditas ao pé do lume, recitadas em ocasiões especiais, em festas e cerimônias. Narrativas que procuravam ir além
do grande Silêncio primevo, rompendo-o e dando-lhe um significado vivo: nasciam os mitos.
Palavra criadora e fundadora, a palavra do mito não se deixa aprisionar por um discurso analítico,
definidor e unívoco e por isso mesmo, em nossa sociedade regida por discursos conceituais, são as palavras dos
poetas as que melhor conseguem expressar por meio de imagens verbais o que é o mito. Simples, complexo,
claro, enigmático, lúdico, sério, o mito constela-se no jogo sempre refeito de claros e escuros, em que é ao
mesmo tempo “o nada que é tudo”* . Ou verdade que oculta outra verdade, um sonhar em estado de vigília,
um debruçar-se sobre o que são a imperfeição e os sofrimentos humanos, uma busca, sempre renovada, de
preencher o vazio do que em cada um de nós são sombras ou desejos clandestinos.
Desejo implica uma ausência, pois desejar significa “deixar de ver”. Deixar de ver o quê? Deixar de ver
os astros. Astro diz-se sidus e astros, sidera; logo, de-sidera-re originariamente significava deixar de ver (os astros).
Desiderium, desejo, é a busca do que não se vê, do que está ausente, do que está na sombra, na ausência da luz
(dos astros). Junto com con-sidera-re, “examinar com atenção e respeito”, desiderare e desiderium pertenciam ao
vocabulário dos áugures, sacerdotes romanos que viam e interpretavam a resolução divina por meio de sinais
da natureza para aqueles que buscavam conhecer o futuro imediato.
Considerare, desiderare e desiderium, na linguagem laica, cedo perderam seu significado transcendente,
pois o homem passou a confiar mais em sua razão, e o que via e percebia pelos sentidos deixou de ser um critério
seguro para o conhecimento. E o que os mitos têm a ver com essa digressão? Os mitos, como construções
imaginárias, expressam esse desejo de conhecimento antes mesmo do homem começar a conceitualizá-lo em
theorias.
Ver e conhecer estão no cerne de muitas narrativas. Tirésias, o adivinho cego, que no entanto sabia ver
o passado, o presente e o futuro; Orfeu que, ao se voltar para ver a umbra de sua amada Eurídice, perdeu-a para
todo o sempre, pois violou a condição de não ver o que lhe era interdito saber; Acteão viu Ártemis banhandose em uma fonte e foi dilacerado por seus próprios cães de caça; já Perseu venceu a Medusa, pois não a olhou
diretamente face a face, mas sim pelo reflexo do escudo polido; Édipo, após conhecer sua verdadeira identidade,
cegou-se. Visão e conhecimento parecem constelar uma imagem inseparável no universo dos mitos.
Se o homem das sociedades tradicionais, como as da Grécia e a de Roma, esta em seus primórdios
históricos, antes do contato com a cultura helênica, buscava o conhecimento do futuro fora de si, em consulta
a oráculos, e por meio de outros processos mânticos, a introspecção significou uma nova e radical conquista
do célebre e oracular preceito délfico: “conhece-te a ti mesmo”. Essas palavras, inscritas no santuário de Apolo,
significavam que o homem se conhecia pela consulta aos oráculos, pela palavra divina. A verdade era-lhe revelada.
A introspecção, atitude solitária, o voltar-se sobre si mesmo, implica uma mudança de paradigma epistemológico.
Não é, pois, de se admirar que o mito de Narciso nos tenha chegado via Plutarco e, principalmente, via Ovídio,
poeta que nos narra, justamente (feliz coincidência?), mitos que falam de transformações, em seu poema
Metamorfoses.
O mito de Narciso constela, por excelência, a imagem da introspecção. Ele é, por assim dizer, o mito
instaurador do paradigma da reflexão do homem que se debruça sobre si mesmo e se mira em suas próprias
pupilas, no desejo de autoconsciência. Os astros são agora os olhos, que, como espelhos-astros, confrontam
Narciso com ele mesmo e só com ele mesmo, pois até então nunca se vira refletido nos olhos de ninguém. A
violência radical de tal confronto primevo, que exclui o olhar do outro, implica perigo e, como em Narciso, a
morte. A impossibilidade de comunicar-se com o outro, com a alteridade — no mito de Narciso, duplicada na
figura de Eco — impede Narciso de construir uma identidade, seja por meio do olhar, seja por meio da palavra.
A era dos mitos, em que o homem tinha sua identidade assegurada por um olhar de extroversão,
quando se reconhecia em seus pais e parentes, havia acabado tal, como se calou Eco, a outrora exímia
contadora de histórias. E o homem ingressou no tempo da autoconsciência que sempre implica o difícil, mas
indispensável, confronto com o si-mesmo e com a heterogeneidade, quer no âmbito individual, quer no âmbito
sóciopolítico.
E nós, homens do século XXI? Onde se situam nossos olhos-espelhos? Estamos na era da Telemorfose,
como afirma Jean Baudrillard ? Será nosso espelho o espelho da banalidade, do grau zero, em que o homem
experimentalmente vive a anulação de si na nulidade do outro? Que jogo especular é esse em que a ultraexposição aos olhos de câmeras onipresentes confere glória e renome, e em que a introspecção é enunciada
como a “ida ao paredão”, que faz a vez de um confessionário de banalidades? O que desejamos conhecer com
esses jogos? Como se vê, também nós temos a nossa Górgona-Medusa de olhar petrificador. Estamos qual
Perseu em confronto com esse espelho, no qual se entrevê todo o potencial de morte que o homem carrega
dentro de si.
A introspecção mais do que nunca faz-se necessária, e Narciso é uma boa imagem para fazer-nos
pensar na importância que atribuímos aos nossos espelhos e a nós mesmos.
Finalizo com Clarice.
Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha
sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu.
Miriam Sutter
Professora de Letras Clássicas da PUC-Rio
* OMYTHOéonadaqueétudo./Omesmosolqueabreoscéus/éummythobrilhanteemudo-/ocorpomortodeDeus,/vivoedesnudo.//Esteque
aqui aportou, /foi por não ser existindo./Sem existir nos bastou./ Por não ter vindo foi vindo/ e nos creou. // Assim a lenda se escorre/ a entrar
na realidade,/ e a fecundá-la decorre./Em baixo, a vida, metade/ de nada, morre. [PESSOA, F. Mensagem. II. Os Castellos. Primeiro / Ulysses.]
BAUDRILLARD, Jean. Telemorfose. Prefácio e tradução de Muniz Sodré. RJ:Mauad, 2004.
LISPECTOR, Clarice. A experiência maior. IN: Para não esquecer. SP: Círculo do Livro, 1987.
Sem espaço,
Sem papel,
Com caneta.
Escrevo meus versos,
No verso
de seus versos.
Edson Santana
Cartinha de quem ama
Cala a boca. Não interessa se você se arrepende.
Repito, fecha a boca, porque quem vai falar agora sou eu.
Fiquei quieto demais. Brincadeirinha pra cá, mentira pra
lá. Não gosto de gente que mente assim. Repetir inverdades
necessárias é um hábito saudável, que conserva relação,
respeito e até o tal do amor. Me devolve o cd, rasgue as
minhas cartas, não me procure mais, assim será melhor,
meu bem.
As horas lentas de ciúmes que eu previa nem
aconteceram. Calma aí, já te disse: tive ciúmes poucas vezes
na minha vida, mas foram senhores ciúmes, de deixar triste,
abatido.
Se manda menina, porque nem menina tu és mais.
Tem o mau-caratismo das garotinhas e a covardia das
experimentadas.
Esquece, gosto de você. Passe a borracha nesta
minha cartinha, passe aquele batom, vista aquele vestido, o
perfume daquela festinha na praia, lembra?! Esse mesmo.
Relaxa...
Eu também não sou boa coisa.
Camilo Pinheiro Machado
Exercício de garça
tardes de transfusão
que para não te espantar
virava garça
e a mão
um ancinho de ternura
saneava palavras a serem ditas
e juntava teus cabelos num canto do ombro
para beijar-te no pescoço fingidamente desnudo
um jardim em estado líquido gasoso
enquanto o rio associado aos teus lábios de batom
incendiava-se de flamboyants
transbordando um vermelho varrido pelos olhos
para dentro de um peito sem sangue
e a vida refluía
e eu voava
capinava peixes no rio
e por mais que os arrancasse pelas raízes
feéricos
renasciam feito capim
feito um sonho
Lasana Lukata
Entrevista por Isabel Wilker*
Entre o ator e o escritor
José Wilker é ator, escritor, diretor. Tem mais de quarenta anos de carreira, já atuou em mais de quarenta e cinco filmes,
trinta e cinco novelas, e um sem número de peças de teatro. Escreveu crônicas durante cinco anos para o Jornal do Brasil, que resultaram
na publicação do livro Como deixar um relógio emocionado, em 1996. Também escreveu sobre cinema para a revista Contigo por um ano.
Você tem o hábito de escrever desde criança ou
começou mais tarde?
Tem o hábito de escrever regularmente?
Escrevo sempre, todos os dias. Às vezes por
obrigação profissional, outras por simples prazer
ou para não esquecer.
O que o faz ter vontade de escrever?
Não tenho exatamente “vontade” de escrever. É
como respirar, a gente nem percebe. De repente,
está escrevendo.
Como funciona a escolha dos seus temas? Quando
trabalhou no JB, por exemplo, e precisava escrever
uma crônica por semana, como fazia?
Escolho ao acaso. Escolho quando algo me
chama a atenção. Quando percebo algum
humor num acontecimento. Para o JB – e nessa
época eu escrevia para mais dois outros meios –
por conta da exigência de um texto novo a cada
semana, eu usava um método um tanto quanto
maluco. Escrevia uma frase qualquer e esperava
que ela me conduzisse daí para frente. Ficava
olhando a frase na tela do computador até que
ela me ensinasse como continuar.
O que mais gosta de escrever, crônica, teatro,
cinema, poesia, contos....?
Gosto de crônica e de teatro. Já escrevi poesia
e morro de vergonha dela. Minha poesia é
As palavras são mais libertadoras. Posso
continuar a fazer malabarismos com as palavras
em qualquer tempo. O corpo, coitado, depois
de um certo tempo, de uma certa idade, já não
responde com a devida presteza e eficiência
aos nossos apelos. As palavras, porém, vão se
enriquecendo, ganhando novos significados
com o passar do tempo.
Arquivo Pessoal
Minha memória mais antiga está numa foto na
qual estou escrevendo. Ela está perdida, tenho
apenas a memória dela. Estou sentado diante de
uma mesa, num lugar que suponho seja o quintal
das minhas tias. Escrevendo. Então, devo dizer
que o ato de escrever exerce desde sempre um
fascínio todo especial para mim. Eu já escrevia
mesmo antes de saber escrever. Copiava letras.
Juntava várias delas em grupos, apenas porque
as formas delas me encantavam. Depois, lia em
voz alta lhes atribuindo significados, algo como
a reprodução das histórias que andavam pela
minha cabeça.
O que é mais libertador? Expressar-se através do
corpo (atuando) ou das palavras(escrevendo)? O
que cerceia mais ou menos - a linguagem ou o
corpo físico?
medíocre. Contento-me com as letras de
música que escrevo para as minhas peças. Letra
de música é mais fácil, basta colar algumas
imagens desencontradas, um verso quase
brilhante e a música se encarrega de dar sentido
àquilo.
Quando está trabalhando com prazo, consegue
fazer as coisas com antecedência ou espera o
último minuto possível para começar a escrever?
A urgência ajuda ou atrapalha?
Escrevo sempre no último minuto. A urgência
é uma conselheira razoável. Mas, se não publico
de imediato, faço centenas de revisões. No
caso do teatro, por exemplo, das peças ainda
não encenadas ou publicadas, faço revisões
intermináveis. Minha peça O sim pelo não vem
sofrendo revisões freqüentes nos últimos dez
anos.
Acredita que o trabalho de ator — e também de
diretor — faz de você um crítico mais cuidadoso?
Sem dúvida, saber do calvário do ator e do
diretor me faz um crítico mais cuidadoso. Mas,
também e paradoxalmente, mais rigoroso.
Como ator e diretor, não me sinto confortável
com a superficialidade. O mesmo vale para a
crítica.
Você trabalha mais com a crônica e com a crítica.
Isso aconteceu naturalmente ou foi uma escolha?
Aconteceu naturalmente. Não foi uma escolha.
De repente, lá estava eu fazendo aquilo. Mas,
devo dizer que não me considero, não quero ser
tomado como um crítico. Na verdade, escrevo
sobre as minhas paixões e divido as minhas 11
paixões com os amigos que tenho, ou quero ter,
e que eventualmente me lêem ou me escutam.
Ser um leitor voraz fez você ter vontade de escrever?
A leitura está sempre ligada com a escrita?
Para escrever é fundamental ler. Não duvido do
fato de a leitura ser ótima fonte de inspiração e
de orientação.
Algumas palavras para nós, leitores, jovens
escritores e interessados em geral?
Está em Drummond: “Penetra surdamente no
reino das palavras”. O verso, para mim, é o
resumo do melhor método de interpretação e
de escrita.
* Foi com enorme prazer que dei conta desta tarefa para
o Plástico Bolha. Acho que nunca tinha entrevistado meu
pai formalmente, e tentei aproveitar a oportunidade como
pude. Digo isso porque, além de filha, também sou fã
apaixonada, e fico tímida, curiosa, deslumbrada... Fiquei
nervosa por não saber o que perguntar. Tive medo de que
ele não gostasse das minhas perguntas... Mas acabei por me
conformar com perguntar só o que eu gostaria de saber
e nada mais. O resultado está aqui, e espero que gostem!
Belíssima cidade de São Salvador
CUPIM DO BOI
a Humberto Espíndola
Nessa cidade de São Salvador
— salvador não sei de quem
de mim é que não é
existe todo tipo de gente,
todo tipo de miséria.
Por entre essas ladeiras prostituídas, sujas e enlameadas
existe gente, muita gente, pouca gente
— que se equilibra no pão nosso
de cada dia
e acredita que no fim apenas tem um
muro.
Nessas tantas igrejas de ouro, de prata, de chumbo
de pele e de suor
jazem pretos
pretos esquecidos no fundo da sacristia
enquanto o senhor todo padre
jorra a sua missa.
E os esgotos
12
— ah, os esgotos!
restos humanos bóiam em águas salgadas
na belíssima cidade de São Salvador
— salvador não sei de quem
de mim é que não é.
Letícia Simões
Quando retiro os óculos do rosto
espio, atenta, toda a cercania.
Então, o mundo se revela exposto
à vaga luz dos dez graus de miopia:
percebo as coisas pelo que suponho.
Assim, a mesa não é só uma mesa,
assim meu corpo se refaz em sonho,
sem nem saber se estou liberta ou presa.
Meu Deus, duvido tanto do que vejo,
quanto confio na vida que pressinto!
As impressões me dão um tênue beijo
e me conduzem pelo labirinto
da solidão de quem não vê direito.
No entanto, sei: somente ali eu pinto
(com os pincéis lavados em meu peito,
e o carmesim de um coração faminto)
a tela desse meu olhar estreito,
e nela, tudo aquilo quanto sinto.
Paloma Espínola
preciso
um verso perfeito
refeito
que feito
uma garça
se esgaça
e faz tanta graça
e pirraça
que como criança
não cansa
descansa
levanta
e agacha
e corre
e me solta um sorriso
e some
no seu paraíso
um verso perfeito
preciso
Manuelle Rosa
É estranho o cupim do boi!
Uma corcova,
Um toutiço,
Um montículo de pregas
Sobre o dorso do zebu.
Um pássaro pousa sobre o cupim alvo
Como duna no deserto,
Enquanto o touro
Rumina do estômago à boca,
Da boca ao rim,
As gotas de sol no capim.
A corcunda gordurosa
Parece uma cabeça no capuz,
Um muçulmano que se esconde
Sob o couro
Que bloqueia a luz.
Há movimento de cosmo
Nas ondas de pele
Desse boi recurvado,
Pronto para ser jogado às piranhas
Em ritual de sacrifício.
Na invernada,
A tristeza do boi
Me atinge
Em punhaladas.
Raquel Naveira

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