1.561,8k - Governo de Pernambuco

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1.561,8k - Governo de Pernambuco
inovação
O Poder da Crise
Marcos Alves
Gestor governamental
Especialidade Planejamento, Orçamento e Gestão
“Os que creem que a
culpa de nossos males
está em nossas estrelas
e não em nós mesmos
ficam perdidos quando as
nuvens encobrem o céu.”
Roberto Campos
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D
a larga janela contemporânea veem-se ânimos
impregnados de profundo
mal-estar. Para os horizontes
próximos, há a previsão de que
se somem ao cenário, aparentemente cinzento, novas diretrizes
para políticas públicas que deverão continuar causando impacto na trajetória econômica
atual. E é de uma clareza, quase
que solar, que a instabilidade
e a insegurança trazem luz ao
tema crise.
Mas o que vem a ser crise?
Quais as suas características?
No Dicionário Aurélio podem ser encontradas algumas
definições, tais como: “conjuntura ou momento perigoso, difícil ou decisivo; falta de alguma
coisa considerada importante;
embaraço na marcha regular
dos negócios; desacordo ou perturbação que obriga instituição
ou organismo a recompor-se.”
Otto Lerbinger, professor emérito da Universidade
de Boston, em seu livro The
Crisis Manager, define crise
como “um evento que traz ou
tem potencial para trazer à
organização uma futura ruptura em sua lucratividade, seu
crescimento e, possivelmente,
sua própria existência”. Lerbinger diz também que, “para
que exista uma crise, é preciso
que haja estas três características: os administradores devem reconhecer a ameaça (ou
risco) e acreditar que ela possa
impedir (retardar ou obstruir)
as metas prioritárias da organização; devem reconhecer a
degeneração e irreparabilidade de uma situação, se eles
não tomarem nenhuma ação;
e devem ser pegos de surpresa. Essas três características
da crise refletem estas descrições: subitaneidade, incerteza
e falta de tempo”.
Porém, boas-novas acerca do tema podem ser observadas. Empreendedorismo. Criatividade. Inovação. Liderança.
Planejamento.
Comunicação.
Resiliência. Essas são algumas
formas poderosas que muitas
organizações encontram para
percorrer os caminhos áridos
da crise e sair dela mais forte e
com um aprendizado robusto.
Assim, partindo dessa
visão, organizações empreendedoras, capazes de desafiar a
própria gestão, de modo que mudanças responsáveis aconteçam
e formem servidores empreendedores nos seus quadros, têm
propiciado a construção de um
conceito real e tangível do negócio público para a oferta de serviços de qualidade à sociedade.
Dessa forma, como no
âmbito privado, na administração pública também é essencial
a procura por resultados. Essa
demanda não está ligada ao lucro, mas à melhor utilização dos
recursos nas diversas esferas
de governo e, principalmente,
voltados à eficácia nas entregas.
É possível provocar um ambiente empreendedor mesmo em
um cenário onde a burocracia
e processos estanques são predominantes, como é o caso das
instituições públicas.
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Empreendedores são pessoas motivadas pela realização
e alcance de objetivos e que possuem características como criatividade, proatividade, inovação,
liderança, iniciativa, comprometimento, flexibilidade, ousadia
e autoconfiança, sendo a principal dessas, a capacidade de
diferenciar-se. O gestor público
empreendedor visa atender às
demandas dos cidadãos, vendo
esses como clientes que possuem anseios a serem suportados, mesmo em tempos de crise.
Pois a limitação de recursos é fator que dificulta a gestão no serviço público, mas não a torna impossível de ser aplicada de forma
empreendedora no dia a dia. São
necessários, ainda, mudança no
comportamento das lideranças e
forte comunicação institucional,
com foco nos objetivos, além da
observação dos valores e cultura
organizacionais para agregar valor ao plano.
A cultura empreendedora
na organização pública significa
dar vigor à gestão, iluminar o
caminho, mostrando novas possibilidades e indicando a responsabilidade de cada um diante do cenário que é apresentado,
fortalecer a introdução de novas
regras e estruturas de relacionamentos interno e externo.
Algumas instituições públicas já vêm partindo na frente, na
busca por soluções criativas, inovadoras e sustentáveis, como é o
caso da Prefeitura de São Paulo,
que quer “coworking” público em
fábricas antigas localizadas em
zonas industriais da cidade.
O secretário de Desenvolvimento Urbano da capital paulista, Fernando de Mello Franco,
tem dito em entrevistas que uma
das ideias é criar nesses lugares equipamentos públicos como
espaços de trabalho compartilhados para jovens empresários,
bem como serviços relacionados, por exemplo, a tratamento
de resíduos, triagem, ecopontos
e afins, além de espaços para
arte e cultura.
Para o secretário, podem
ser criados, ainda, polos de ino-
vação, com startups. Ele diz
que essas empresas não têm
como bancar aluguéis, caros
para quem está começando, e
que vários lugares do mundo já
estão praticamente disponibilizando esses espaços como uma
política de incentivo para muitos
setores produtivos. Mello Franco
ressalta, no entanto, que o município precisa ser dono do imóvel.
Com vista a esse segmento, também em São Paulo, outro
projeto de coworking vem tentando melhorar a mobilidade
urbana na cidade, com diversas
iniciativas e mudanças. O Laboratório de Tecnologia e Protocolos Abertos para Mobilidade
Urbana chama a atenção pela
parceria entre o setor público, o
MIT (Massachusetts Institute of
Technology) e a USP – Universidade de São Paulo.
Esse laboratório tem a intenção de funcionar como uma
central de pesquisa ao estilo comunidade colaborativa. Equipes
com focos diferentes em mobilidade no transporte e no trânsito
Esse formato de trabalho visa uma moderna estrutura econômica e organizacional, composta por colaboração e comunidade, inspirado na cultura participativa do movimento open
source, surgido no final dos anos 1990. Um ambiente onde
não interessa a competição sem sentido, e sim a coopetição,
buscando complementaridade de recursos e a possível redução de custos.
Cooperação + Competição
Foto | Divulgação
O coworking é um novo modelo de trabalho onde profissionais
de variados setores, freelancers, autônomos e pequenas empresas se reúnem em um mesmo ambiente para compartilhar
experiências, ideias, custos, com o propósito de uma economia mais humana, interligada e sustentável, sem haver, no
entanto, vínculo societário e/ou hierárquico.
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Mas como Israel conseguiu superar as aparentes
adversidades e se reinventar,
dando a volta por cima? Milagre ou “dança da chuva” como
resposta não é algo muito inteligente, replicável e, tampouco, equânime de ser aceito,
até por que o País tem ainda
um setor dinâmico de tecnologia, um dos mais modernos do
mundo, além desse exemplar
realce na agricultura.
Uma boa resposta prática para o caso de Israel, que
está em um ambiente árido e
dependente de um método eficiente no uso da água, foi a sua
capacidade analítica, determinação e tecnologia.
Método criado pelo engenheiro israelense Simcha Blass,
a agricultura de gotejamento
é o que mais se aproxima de
um “milagre”. A tecnologia é
aproveitada em vários lugares
do mundo, inclusive no Brasil.
O gotejamento permite
que a planta receba a quantia
exata de água para o seu desenvolvimento. Apenas 20% da
terra de Israel é arável. Mesmo
assim, isso não impediu o florescimento da agricultura no
País. Água é a matéria-prima da
agricultura, e se estima que até
70% do consumo mundial vem
desse setor. Israel tinha tudo
para não ter agricultura alguma, mas superou o obstáculo
natural com o uso de tecnologia.
Isso mostra que esse País é um
excelente exemplo de transformação de uma situação de crise
em oportunidade, e ainda faturar, tendo em vista que exporta
tecnologia na área de irrigação
para 120 países.
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ocuparão o mesmo espaço físico, interagindo e compartilhando
informações. Todos têm o objetivo de desenvolver soluções para
melhorias na gestão do transporte, do trânsito e da mobilidade urbana, além de disponibilizar
informações para a população.
O grupo é formado por especialistas das diversas áreas
dos parceiros envolvidos. O Laboratório desembolsará reduzido
recurso orçamentário e haverá
bolsas de apoio à pesquisa, vinculadas e gerenciadas pela Fundação USP, destinadas a hackers
da universidade que queiram se
aventurar nesses protocolos.
Essa escalada na direção
de novas soluções para problemas cotidianos da gestão pública em épocas de incertezas
traz à tona algumas verdades
que ficam intocadas até que sejam postas em prática: “fazer do
limão uma limonada”; “transformar ameaças em oportunidades”; “problemas são oportunidades disfarçadas”.
Pensando nisso - e para
não ficar no azedo - algumas
instâncias governamentais se
debruçam em estudos e pesquisas necessários, não apenas para mudar uma realidade
atual, mas para prosperar e
alterar significativamente sua
história. É o caso do Estado de
Israel, onde há fincado em parte
razoável do seu pequeno território um inóspito e seco deserto, mas que, não obstante, tem
mais de 250 milhões de árvores
plantadas e é exportador de frutas e fatura o superior a US$ 50
milhões por ano com a exportação de flores. Lá ainda tem produção de peixes!
A grande descoberta de Simcha
Blass se deu no kibutz de Hatzerim,
comunidade israelense em que a produção e a renda são coletivas, localizado em pleno deserto. Nessa região
a chuva não ultrapassa 200 milímetros ao ano (no dia 3 de julho, em 24
horas, choveu 160 milímetros em
Ipojuca-PE), o que sempre obrigou a
população a construir reservatórios
com água do Rio Jordão.
No entanto, a tubulação destes
tanques começou a apresentar vazamentos e, onde gotejava água,
começava a crescer plantas. Blass
observou o fato e logo viu a grande
oportunidade. Na sequência, começou a desenvolver vários equipamentos que deram origem ao popular
sistema de irrigação por gotejamento, uma tecnologia que revolucionou
a agricultura em Israel.
Simples e extremamente preciso,
esse tipo de irrigação aumenta significativamente a produtividade e promove a utilização racional da água: a
eficiência uso do recurso hídrico é de
95%, com economia de água de 60%
e grande redução de energia. A explicação está no uso de bombas de baixa vazão que consomem 50% menos
energia que os outros sistemas.
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lenta e assustadora que alimenta e é alimentada pela mídia (é a
oportunidade dela na crise!).
Para lidar bem com esse
assunto, a Prefeitura de Curitiba
tem utilizado com bastante destreza e criatividade as mídias
sociais e de relacionamento,
como o Facebook, para se comunicar com os cidadãos. Ao se
propor a interagir com os curitibanos de maneira descontraída
e bem-humorada, a página do
Facebook da Prefeitura de Curitiba ganhou fãs no Brasil inteiro
e atraiu a atenção do público jovem para um órgão sério.
A página da “Prefs”, como
é carinhosamente apelidada pelos fãs na rede social, ganhou
fama nacional ao abandonar de
vez o tom oficial e institucional
para abraçar a linguagem informal e o bom humor, típicos
da internet, para chegar mais
junto da população e falar sobre temas relevantes do dia a
dia. Esse formato criativo tem
como objetivo, além de estreitar
a relação com os moradores, incentivando sua participação em
temas relevantes para a cidade,
funciona como meio de escuta
ativa e observação.
Em Pernambuco, a Prefeitura do Recife também tem se
ajustado com as novas formas
de se comunicar com as pessoas, e vem obtendo resultados valiosos. Embora num tom
mais contido, se comparado à
Prefeitura de Curitiba, a página
do Recife no Facebook consegue
divulgar as ações e informações
relevantes à sociedade, além de
trazer um perfil mais humanizado, com uma linguagem mais
leve e acessível.
Reprodução | Facebook
Observa-se, pois, que os
ganhos obtidos ao lançar-se a
desafios, sendo esses advindos
de uma crise ou por empreendedorismo organizacional, não
podem ser dissociados da percepção e representação que os
atores têm do fato: um momento difícil ou uma oportunidade
de mudança? Em quaisquer situações é importante que haja
comunicação para que os horizontes se tornem possíveis de
ser alcançados por todos.
Nos momentos críticos, o
que realmente importa é a visão
do gestor e do público quanto
ao evento. A percepção importa
mais que os fatos. Parafraseando Robin Cohn, em seu texto
Learning from crisis: as the curtain rises, a menos que se tenha
um conhecimento mais abrangente sobre um acontecimento,
nossa percepção se baseia no
que vemos e ouvimos. Ver e ouvir são as palavras-chave neste
contexto. As instituições estarão em uma situação vantajosa
se o que o público vir e ouvir for
informado diretamente por ela.
Daí a importância de a gestão
ser fonte de informação para todos os interessados.
Pesquisas revelam que
a percepção que o público tem
sobre a crise é de suma importância para direcionar as mensagens e ações organizacionais.
Monitorar as notícias, conhecer
os rumores e boatos é essencial
para a execução deste trabalho.
Então, para surfar na onda
da crise, é preciso ter atenção,
capacidade de análise e habilidade para ficar imune ao mau
humor que toma conta do ambiente. Há uma certa fala turbu-
Segundo Leonardo Mello,
gerente de Soluções e Tecnologia do Núcleo de Presença Digital da Prefeitura do Recife, a
gestão atual persegue o objetivo
de devolver a cidade às pessoas.
Para isso, vem se inspirando na
página norte-americana Human
Of New York, sucesso com mais
de nove milhões de seguidores
no mundo inteiro, onde fotografias de pessoas comuns são
dispostas, quase como um senso fotográfico. A ideia da série
#PessoasdoRecife é abraçar a
mistura que constitui a cidade e
publicar fotos e histórias curtas
sobre pessoas residentes e passantes da rica e eclética metrópole e estreitar laços e o sentimento de pertencimento.
A Prefeitura também usa
o Twitter para ouvir e responder as demandas dos cidadãos e
publicar campanhas educativas
das diversas áreas, tudo isso
com o intuito de estreitar o relacionamento com a população.
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Ainda em Pernambuco, o
Governo do Estado, atrelado ao
seu Mapa da Estratégia, criou
a Rede de Modernização Governamental. O papel da rede é
fomentar a discussão entre os
agentes setoriais e municípios
sobre a importância da modernização e criação de novos
projetos que contribuam para
a melhoria dos serviços prestados pelo Governo à sociedade, através de fóruns virtuais e
presenciais, utilizando o blogger Remog e o grupo Remog no
Linkedin, dentre outros meios.
A Rede funciona como reforço à promoção na geração de
incrementos na inovação e modernização de processos, métodos e ferramentas, tanto na
gestão, como na operação das
atividades do Governo. E, nesse
contexto, tem a função de dar
ênfase na divulgação e multiplicação da nova cultura de modernização do Estado. Servirá
como um escritório de projetos
para ajudar os servidores que
necessitarem de consultoria, e
de incentivo aos órgãos à prática
de concurso de projetos.
São partes integrantes da
Rede os agentes de modernização governamental, que serão
multiplicadores, incentivadores
e ainda colaboradores. Todos
eles poderão identificar oportunidades, implementar projetos e
avaliar e medir resultados.
Nota-se, portanto, que a
comunicação certeira, através
de ouvidorias, portais, homepages, redes sociais, blogs e outras mídias dos entes públicos,
usados internamente e ofertados para a sociedade, deve ser
cada vez menos passiva e ser
usada como ferramenta proativa. É possível reunir as demandas da população que chegam
pelas redes e buscar as respostas. Em épocas de instabilidade
e incertezas, comunicar-se de
forma rápida e relevante com as
áreas internas e com a sociedade mostra maturidade e compromisso.
E nessa caminhada, em
momento de recursos pouco
disponíveis e, enquanto dias
melhores não chegam, as administrações tendem a andar
em passos mais cautelosos, no
que se refere a investimentos e
gastos. Contudo, é tempo para
criatividade e persistência, lançando-se aos desafios medidos
e testando a resiliência, capacidade inerente à administração
pública. É o caso do Estado de
Israel, que salta à frente da realidade geográfica e ensina como
cultivar em condições pouco favoráveis. É tempo de compartilhar ideias e ter um olhar novo
sobre a situação, como tem feito as prefeituras de São Paulo,
Curitiba e Recife, que tem trabalhado na resolução de problemas cotidianos com inovação e
parceria com a sociedade.
Mas também é em época
de escassez que a gestão também deve voltar-se para dentro,
revisitando seus processos internos e, sobretudo, gastar mais
tempo com estudos, pesquisas,
ideações e avaliações, preparando soluções e pensar o que
fazer quando a crise passar.
Links utilizados na pesquisa
https://repositorium.sdum.uminho.pt/
http://coworkingbrasil.org/manifesto/
http://www.enap.gov.br
http://seresurbanos.blogfolha.uol.com.br
http://coworkingbrasil.org/
http://revistadinheirorural.terra.com.br
Foto | Divulgação
Alerta ao conceito de
“Inovação em Tempos
de Crise”, o Governo de
Pernambuco criou o PE
INOVA, visando gerar
incentivos para criatividade e
ações de inovação. O concurso
irá premiar as melhores ideias
e projetos dos servidores
públicos do Estado.
Com tais ações o Governo
reforça o conceito de que só
há inovação se essa trouxer
algum tipo de retorno à
população. Ou seja, para
inovar não basta só ser
criativo, é fundamental que
a inovação possa resolver
problemas da sociedade. E
esse é o objetivo do PE Inova.
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