magalhães - Nepp-DH

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MAGALHÃES, Ana Paula Tavares. A questão espiritual nos beguinos da Provença.
Mestrado em História Social, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1998.
Através do presente trabalho, buscamos mapear as condições da emergência e do
fortalecimento do fenômeno urbano da heresia beguina, estabelecendo, como recorte
espaço-temporal, as primeiras décadas do século XIV, na Provença. É possível
estabelecer sua origem mais longínqua em grupamentos femininos surgidos entre fins
do século xii e inícios do século xiii e propagados, a partir de locais como Nivelles, no
Brabante meridional, e cidades da Bélgica, países baixos e Alemanha. O apelo religioso
- característica de uma sociedade resultante dos fermentos urbanos, a modificar as
antigas relações sociais - a uma espiritualidade participativa multiplicava as confrarias e
ordens terceiras, às quais passou a relacionar-se essa imensa massa laica, imbuída de um
sentimento piedoso que buscava formas para extravasar-se. No entanto, o germe da
heresia ia sendo gestado justamente na mesma medida em que se buscava fazer
prevalecer a palavra de ordem da pobreza apostólica. Esse "modus vivendi", ao tomar
contato com toda uma crítica pré-existente - tecida muitas vezes no seio das próprias
ordens monásticas - acabava por compor um quadro suscetível de ser rapidamente
considerado como heterodoxo. A ordem terceira de são Francisco de Assis representou
um acólito importante de grande parte desses fiéis. Haviam-se integrado a ela com o fito
de cumprir uma verdadeira "imitatio christi" sobre a terra, reproduzindo, no seu modo
de vida, os pressupostos da pobreza absoluta e irrestrita que cristo e os apóstolos teriam
abraçado. A esses reuniam-se os citadinos dos principais centros urbanos provençais,
aderentes às mesmas idéias e simpáticos ao mesmo comportamento. Essa busca de
retorno a um cristianismo primitivo encontrava eco na luta dos espirituais franciscanos,
facção radical no interior da ordem na medida em que pretendiam zelar pela
observância rigorosa dos ditames iniciais da regra, dados pelo seu mestre e fundador. A
crítica dos espirituais franciscanos fundamentava-se na observância estrita da regra e do
testamento de São Francisco de Assis, opondo-se às determinações da santa sé e à
disposição de todo um setor da ordem - conhecido como conventuais - que se
orientavam para um relativo relaxamento naqueles padrões, recomendando, entre outros
aspectos, o acúmulo de provisões, o uso de hábitos compridos e em perfeito estado de
conservação e a propriedade - privada ou coletiva. Os beguinos, em geral leigos
pertencentes à ordem terceira, encamparam as críticas dos frades rebeldes e engajaramse à sua causa, elegendo como mentor Pedro de João Olivi (1248-1298), teólogo
membro da ordem cujos escritos, que atribuíam elevado valor à pobreza como virtude
espiritual, já haviam sido utilizados para fundamentar a inflexão dos espirituais. Na
seqüência das perseguições contra os espirituais, deveram ser eles próprios perseguidos.
A ocorrência-chave teria sido a queima de quatro espirituais em Marselha, pelo
inquisidor franciscano Michel Lemoine, a serviço do Papa João xxii, em maio de 1318.
Esses frades deveriam ser considerados santos e mártires, ao passo que se considerava a
heresia do papa e a vacância da sede papal. A onda de perseguições, desencadeada a
partir daí, minou o vigor do movimento, destacando-se o inquisidor dominicano Jacques
Fournier. [Resumo obtido no banco teses da Capes]