r ec orrida

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r ec orrida
EDUARDO FESTUGATO
R EC O R R I D A
MEMÓRIAS DE UM MÉDICO DO INTERIOR
(CRÔNICAS SOBRE A MEDICINA DE A 50 ANOS)
1
SUMÁRIO’
Descolamento Prematuro da Placenta ................... 3
O vinho .................................................................. 8
Luxação de ombro ............................................... 11
Uma viagem pela Serra ........................................15
Chimarrão ........................................................... 21
Brincando com fogo..............................................24
Encantamento........................................................28
Abandono .............................................................30
Recorrida ............................................................. 35
Nossas vidas ........................................................ 41
Veredicto de morte .............................................. 42
O Tempo ............................................................. 47
Marcas do tempo ................................................. 49
Uma viagem de sonho ..........................................51
“Capitão” Jovino ................................................. 56
Memórias do “seu” Enedir .................................. 59
Genealogia .......................................................... 61
ENEDIR QUADROS – Escravo vendido ............... 63
ENEDIR QUADROS – Coronel Severiano ............ 66
ENEDIR QUADROS – “Seu” Atanásio ................. 68
ENEDIR QUADROS – Melado com farinha .......... 70
ENEDIR QUADROS – Avô Herói I ....................... 74
ENEDIR QUADROS – Avô Herói II ...................... 76
Nuvem de papagaios ........................................... 78
Garibaldo ............................................................. 80
Arte abstrata ........................................................ 82
Vó Emília (DALVA MARIA FESTUGATO MASCHIO)............86
Cremação ..............................................................90
2
DESCOLAMENTO PREMATURO DA PLACENTA
(Ao Professor Doutor José Mauro Madi, mestre neste e em muitos
outros assuntos da obstetrícia).
Poucos quadros são tão dramáticos como o Descolamento Prematuro da Placenta.
Geralmente acontece no último trimestre da gestação e é
mais comum nas hipertensas, nas diabéticas e nas grandes multíparas.1 É uma complicação que sempre leva os fetos à morte e,
muitas vezes, também as mães.
O quadro é inesquecível de tão sombrio, como são todos
os marcados pelo risco dramático da morte. Encontra-se um
útero contraído e duro, geralmente mostrando o fundo bem
acima do esperado, quase debaixo das costelas, devido ao sangue aprisionado dentro dele. E não se escutam mais os batimentos fetais.
Este sangue aprisionado, ao penetrar entre as fibras musculares do útero, vai consumindo o fibrinogênio, substância indispensável para a coagulação, com graves conseqüências: a paciente sangra perigosamente caracterizando a coagulopatia. E o
órgão, após o parto, não mais se contrai, caracterizando a Atonia
Uterina. O sangue que flue da ferida cirúrgica ou do períneo,
1A mulher paga bem caro por imitar a ratazana. A natureza franze o cenho diante das
grandes procriadoras, onerando-as com as complicações obstétricas mais graves. Se o
risco de vida de uma mulher aumenta com uma gravidez, com mais de três, se multiplica. O aumento da capacidade reprodutiva começou com a antecipação da primeira
menstruação, a menarca, e com o encurtamento dos períodos de lactação desde que o
homem passou a domesticar os animais, aproveitando o leite dos mamíferos. Estes
dois fatores, associados ao desenvolvimento das ciências médicas e à descoberta da
agricultura, são os grandes responsáveis pela explosão demográfica da espécie humana.
3
conforme foi o parto cirúrgico ou normal, tem uma característica
arrepiante: escorre limpo e bem fluido, sem sinais de coágulos.
O fibrinogênio já foi gasto!
Se não houver um atendimento correto e imediato, com
a reposição urgente do fibrinogênio (existe um grama para cada
litro de sangue fresco), a paciente morre, esvaída em sangue.
A elevada incidência de Descolamento Prematuro de
Placenta (1% a 3%), como acontecia até há poucas décadas, era
devido a quatro fatores principais:
1 – Ausência de pré-natal. Quantas mulheres morreram
por falta de um pré-natal! Com um simples exame obstétrico
mensal – estetoscópio de Pinard, esfigmomanômetro e balança
– e dois ou três laboratoriais complementares, o médico pode
prevenir, ou ao menos prever, a grande maioria das complicações gestacionais.
2 – Medo da cesariana. Devido ao atraso da técnica cirúrgica e anestésica, até há poucas décadas este tipo de parto só
era usado como último recurso, isto é, depois de falharem todas
as tentativas de parto por via vaginal. Iam para a cesárea as pacientes com bolsa rota prolongada, manipuladas por repetidos
toques ginecológicos, sabidamente fatores de infecção; as pacientes com hemorragia; as hipertensas; as toxêmicas; as diabéticas com desproporção feto-pélvica; enfim, um grupo de altíssimo risco. Assim, não é de estranhar o elevado índice de complicações da cesárea naqueles tempos.
3 – Dificuldade na avaliação da maturidade pulmonar
fetal. O risco de Membrana Hialina, também conhecida por
SARI (Síndrome da Angústia Respiratória Idiopática, hoje não
mais idiopática por se conhecer os mecanismos da surfatação do
pulmão), limitava muito a indicação da cesárea antes de instalado o trabalho de parto.
4
Até há poucos anos, o obstetra não dispunha de muitos
recursos para diagnosticar a maturidade pulmonar. Assim, ficava diante de um grande dilema: esperar muito poderia causar
a morte do feto e, talvez, a morte materna; esperar pouco, havia
o fantasma da imaturidade pulmonar: nascia uma criança de
baixo peso (não necessariamente), com incapacidade ou dificuldade para respirar. Era comum, nos berçários, ver-se recém-nascidos na tenda de oxigênio, arroxeados e com as características
quase patognomônica da Membrana Hialina, que é o gemido e a
tiragem intercostal: as costelas ficam bem desenhadas pelo afundamento da musculatura intercostal causada pela extrema dificuldade em inspirar.
Quando Clemens, em 1972 divulgou o seu famoso teste
para avaliar a maturidade pulmonar, foi uma verdadeira revolução na Obstetrícia. Finalmente, existia um meio de saber, com
segurança quase total, se o pulmão daquele feto conseguiria inspirar o ar atmosférico, sem ajuda. Porém haveria a necessidade
de invadir a cavidade uterina com uma agulha, para obter o líquido amniótico onde se faria a pesquisa da lecitina. Deu positivo? Pode tirar o nenê que não há mais perigo da Membrana
Hialina!
Atualmente, com o exame ecográfico, ficou mais fácil
ainda fazer obstetrícia. Não é mais preciso treinar exaustivamente as manobras de Leopold para diagnosticar a situação, a
apresentação e a posição fetais, nem fazer a amniocentese para
fazer o teste de Clemens. Basta solicitar uma ecografia obstétrica
que o diagnóstico virá mastigadinho: feto de aproximadamente
tal peso, tal sexo,2 com a caracterização correta da sua posição
dentro do útero. Conforme o aspecto e a espessura da placenta,
2Nos casos de trabalho de parto prematuro, o sexo do feto é importante. As meninas
amadurecem seus pulmões antes dos meninos.
5
é possível fazer um diagnóstico bem aproximado da maturidade
fetal, o que não é tão importante quando se tem dados obtidos
nas primeiras cinco ou seis semanas de gestação.
Com o avanço tecnológico, muitos testes que eram importantíssimos antigamente, hoje estão abandonados. A amniocentese ainda é usada, mas não para avaliar a maturidade fetal.
O próprio Índice de Capurro que além de avaliar a vitalidade
também servia para calcular indiretamente a idade do recémnascido, perde de importância diante da objetividade e facilidade
da ecografia realizada na quinta ou sexta semana de gravidez.
Basta saber contar.
4 – Assistência ao recém-nascido. Hoje, nos maiores
centros, recém-nascidos com menos de um quilo de peso são freqüentemente salvos.
Felizmente, a incidência de Descolamento Prematuro de
Placenta, hoje, tem caído muito graças aos avanços tecnológicos
da área médica. Esta é a função da ciência: através, principalmente, da profilaxia e, secundariamente, da terapêutica, aumentar cada vez mais a vida média do homem.
A dramaticidade desta complicação tem a compensação
de que a cesariana é extremamente fácil. Após divulsionar com
os dedos as fibras uterinas do segmento inferior, o feto já morto
e também a placenta e as membranas, saltam para fora espontaneamente, pois já estavam descoladas. Antes de visualizar o feto,
o líquido amniótico da cor do vinho tinto (sangue preto) faz o
diagnóstico de morte fetal intra-útero.
***
O estado de pré-choque faz murchar qualquer flor. O
belo moreno da pele da paciente agora estava desmaiado devido
à anemia aguda e profunda. A barriga bem dura desenhava uma
enorme bola escura. Ao colocar o estetoscópio de Pinard, apenas
6
os ruídos, bem rápidos, dos batimentos cardíacos da mãe, sincrônicos como pulso, foram ouvidos. O feto já estava morto.
Devido à perigosa queda da pressão arterial, quase a
zero, sempre há pouco sangramento, tornando a cesariana bem
fácil. Não foi preciso laquear nem um vaso da parede. E ao divulsionar as fibras uterinas, pouco acima da bexiga, e romper a
bolsa amniótica, jorra um sangue bem escuro característico da
morte fetal. O feto amolecido, como se não tivesse ossos, parece
um boneco de pano branco e desbotado apesar da cor da sua raça.
Estava morto.
Depois de retirar a placenta e as membranas ovulares,
que saíram quase espontaneamente, o cuidadoso exame do útero.
O aspecto enegrecido e a consistência amolecida já indicaram
tratar-se do temido Útero de Couvelaire, confirmado pelo teste
negativo do Syntocinon.
Não havia outro remédio, senão, o de extirpar o órgão
através da Histerectomia Sub-Total, um dos poucos casos em
que se deixa o colo. A provável hemorragia seria extremamente
perigosa. Depois, a ansiosa expectativa do trabalho febril na
Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), repondo o sangue e o
fibrinogênio consumido, avaliando os fatores de coagulação,
mantendo a pressão venosa central em níveis seguros para evitar
a necrose tubular aguda do rim.
Quando a paciente saiu do hospital, duas semanas depois,
para convalescer em casa, o seu drama já diminuíra de importância. O tempo, este grande redutor da estatura dos problemas,
e os novos casos que surgiram, tão graves como aquele, vieram
ocupar e preocupar os médicos e as enfermeiras da UTI, num
rodízio dramático de sofrimento e pranto, de esperança e desespero, de iminência de curas e de mortes inevitáveis, no “stress”
que encurta a vida de todos nós. Mas que tanto a dignifica!
Existe trabalho mais nobre do que o de salvar uma vida?
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O VINHO
“Depois
de alguns goles
de vinho
fico alegre, meio mole
e vôo
que nem passarinho.”
(Flávio Barreto Leite)3
O vinho, para as pessoas de boa índole, é uma bênção;
para as rancorosas, uma maldição. Quando ingerido em doses
moderadas e aceitáveis, é um excelente euforizante: faz voar
“que nem passarinho”, lubrifica corações, desinibindo e melhorando os relacionamentos. O espírito do vinho torna os problemas pequenos; faz as feias ficarem bonitas; os chatos, interessantes ao aumentar a tolerância e diminuir a crítica e a autocrítica
graças ao relaxamento da fiscalização do superego.
Em doses maiores – e esta sede vai aumentando sempre!
– o espirituoso vira um rabugento feiticeiro que se apavora transformando belezas em cobras e lagartos andando pelas paredes.
É um catalizador que potencializa os estados da alma: faz o deprimido ficar mais deprimido ainda; o humorista, virar palhaço;
o pródigo, dar de presente até a roupa do corpo; o violento, tornar-se agressivo. Beber por desilusão amorosa leva a um estado
de alma bem diferente do que beber por ganhar na Loteria.
Benéfico quando em pequena quantidade, o vinho é
como a brisa de verão, fresca do mar. Se ingerido, porém, em
maiores proporções, num instante transforma a aragem em tormenta destruidora, reveste os corações de homens e mulheres
3BARRETO LEITE, Flávio. 3 Concurso Nacional de Poesia Sobre o Vinho. Caxias
do Sul : Gráfica da Universidade de Caxias do Sul, 1986. p. 17.
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com uma carga negativa que repele como os pólos homônimos
de um ímã. De lubrificante dos relacionamentos, que aplaina diferenças e divergências, transforma-se no corrosivo agente de
ódios, truculento e intransigente, que azeda amizades e destrói
fígados e amores, acabando com dignidades, conceitos, famílias
e fortunas.
Ilustração de Rita Brugger
Aquela mentalidade brilhante e inteligente, que com um
pequeno cálice de vinho animava qualquer reunião, exibindo um
caráter voluntarioso e firme, familiarizado com o sucesso, conhecedor do rumo certo da felicidade, acaba só, sem parentes
nem amigos. Embrutecido e vulgar, cérebro dissolvido pelo ál9
cool, mísero palhaço que dá pena, trapo humano desprezível, termina na sarjeta sem dinheiro nem saúde, sem o respeito de ninguém, nem das crianças.
Sempre sedento,
resta-lhe um consolo:
o último a abandoná-lo
é o seu cachorro...
O pior do álcool é fazer perder o respeito próprio
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LUXAÇÃO DE OMBRO
Cada vez que o Bonetti sofria um ataque epiléptico, era
“batata”: luxava o ombro. Era meu “freguês de caderno”. Vez
por outra vinha alguém me chamar para atendê-lo com o seu
braço destroncado. Eram tão freqüentes as crises, que eu já tinha
adquirido uma grande habilidade para recolocar a cabeça do
úmero dentro do acetábulo. Com o paciente deitado, colocava
um pé na sua axila e fazia alavanca com o braço, até encaixá-lo
no devido lugar. Era fácil quando ele cooperava, relaxando a
musculatura.
“Com o paciente deitado, colocava um pé na sua axila...”
(Rita Brugger)
Quando a luxação se repete freqüentemente, como neste
caso, faz-se uma cirurgia de fixação, que é executada por ortopedista. Mas, o Bonetti não queria ir à Porto Alegre atrás da sua
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cura, de jeito nenhum. Preferia ser atendido por mim quando
precisasse.
Por fim, o tratamento ficou tão corriqueiro que eu o atendia nas mais variadas ocasiões: na rua, no meio dum baile, na
quermesse, na procissão de São Domingos – a festa máxima de
Torres – e até no Bar Brasília onde ele tomada “umas que outras”.
Numa ocasião, debaixo de onde, hoje, é o cinema da
SAPT e que atualmente são garagens, havia um grande salão que
era usado para as quermesses que antecediam a festa de São Domingos, o Padroeiro de Torres. Pelo alto-falante eu ouvia as dedicatórias do Bonetti: “Fulano de tal oferece a música tal para a
Mariana”. Daí uns minutos, novamente o Bonetti dedicava outra
música para a mesma moça, mas assinava “um admirador”. Depois, outra, e mais outra, e assim por diante. Deveria estar apaixonado, o moço. Junto com três amigos numa mesa, não parava
de beber: dê-lhe que te dê-lhe Brahma! Daí umas horas, vem um
homem correndo me chamar para atender o Bonetti com urgência. Havia tido uma crise convulsiva e, como era o costume, ao
cair luxara o ombro novamente. Ali mesmo, no meio do salão,
coloquei o pé no seu sovaco e reduzi a luxação sem esforço. Ele
se levantou (estava deitado no chão), me deu um abraço de reconhecimento e voltou a tomar cerveja novamente, como se
nada tivesse acontecido. Quando o locutor anunciou outra dedicatória à Mariana, tive certeza de que o Bonetti já estava totalmente recuperado da crise convulsiva, mas não da sua paixão.
De família numerosa, o Bonetti era o único dos homens
que não pescava. A epilepsia o mantinha longe da água, apesar
de ser apaixonado pela pesca, coisa que estava no sangue. As
inúmeras cicatrizes no couro cabeludo atestavam a seriedade da
doença. Diferente das crises conversivas de fundo emocional,
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que causam os “desmaios”, mas sempre sem lesões, pois o paciente escolhe onde irá cair, o desmaio do epiléptico é verdadeiro.
A perda da consciência é real e o ferimento é a marca registrada.
Um dia, um colega médico, cirurgião geral com clínica
em Porto Alegre e que gostava muito de pescar – acabou morando em Torres – depois do churrasco domingueiro, jogando
bola com a gurizada, caíu de mau jeito, fazendo uma luxação de
ombro.
Veio ao hospital todo dolorido, cheio de ais, não deixando a gente nem chegar perto. (O homem é muito mais vil
para a dor do que a mulher, mas o médico ganha de todos, com
luz).4 Como o Dr. Natal, que era quem fazia traumatologia, não
estava na cidade, tive de atendê-lo. Queria fazer anestesia geral
para reduzir a luxação. Só se eu fosse louco! Depois do banquete, onde havia ingerido todo o tipo de carnes e bebido várias
garrafas de cerveja, o risco de aspiração era enorme. Em compensação, o álcool deveria favorecer o relaxamento muscular,
facilitando a manobra de redução, pensei eu.
Convenci-o a deixar tentar o meu método, sem anestesia,
mas na hora de puxar o braço, entrava em contração, impossibilitando a manobra. Depois de aplicada uma injeção de Valium
para relaxar, com ele deitado na maca, coloquei o pé no seu sovaco e, delicada, mas firmemente, fiz a alavanca. O braço, com
um pequeno “gluc” encaixou no seu lugar, certinho. Ficou maravilhado:
– Aonde é que tu aprendeu isto, Festuga? – quis saber.
– Com o Bonetti – respondi.
– É um traumatologista daqui de Torres? – quis saber.
– É daqui de Torres, mas não é traumatologista.
4Nas corridas de cancha reta diz-se “ganhar de luz” quando a diferença com o segundo
colocado for mais de um corpo, isto é, quando se enxerga luz entre os dois.
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– Gostaria de conhecê-lo.
– Qualquer hora dessas eu te apresento o homem, tranqüilizei-o.
Na primeira oportunidade, apresentei o Bonetti. Graças à
paixão comum que tinham pela a pesca, fizeram uma grande e
sólida amizade. Tanto, que perdi o cliente.
De manhã, bem cedo, quando eu ia para o hospital visitar
os doentes baixados e operar, vez por outra encontrava os dois,
na camioneta do colega, rumando para o Rio Mampituba para
pegar o barco e pescar robalos nas lagoas do Morro do Forno. O
médico lhe dava a segurança de que precisava para poder praticar o seu esporte predileto. Havia parado de beber e tomava o
seu Gardenal religiosamente.
Quando o Dr. Nilton foi embora, de volta para Porto Alegre, no fim das férias, já sabia pescar robalos com maestria. O
Bonetti foi, junto, fazer sua cirurgia ortopédica de fixação do
úmero. Ambos enriquecidos por experiências trocadas.
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UMA VIAGEM PELA SERRA
(Para os manos Beto e Wilson. E aos amigos Nelci Baldasso, Roberto Scotti e o Sérgio Amoretti, companheiros nesta viagem)
Naquela época, início dos anos sessenta, o meu irmão
Beto tinha o jipe 54, sem amortecedor e sem surdina. Na coleante estrada da serra, de Caxias a Torres, sem asfalto, parecia um
barulhento e disforme besouro verde-claro, inclinando-se nas curvas perigosamente.
O jipe Willys, lotado de jovens embriagados de alegria
de viver, levava mais de dois dia para chegar ao seu destino. Para
que pressa se a viagem tem sabor de aventura, de conquista e de
promessa, e é muito mais bela do que a posse e a chegada? Os
alimentos muito saborosos devem ser degustados devagar, como
os momentos felizes e como o tempo. Uma pena que só aprendemos isto depois de velhos, como o André Gide: “Com a idade,
a posse parece-me de menor valor que a procura e dia a dia mais
prefiro a sede a matar a sede, a promessa de volúpia à própria
volúpia, a ampliação sem fim do amor à sua satisfação.”5
Foi uma viagem inesquecível aquela, interrompida pelas
muitas visitas a conhecidos, ao longo do trajeto: na Boca da
Serra o Sérgio Amoretti nos levou a conhecer a fazenda dos seus
parentes; cavalos bons era no Apanhador, com o Santini; em Lajeado Grande havia o Zé Oneide de quem mais tarde fiquei compadre; na Várzea do Cedro, beltrano; café com bife na chapa,
lingüiça frita com ovos, comia-se em Tainhas, e assim por diante.
5GIDE, André. Os Frutos da Terra. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1982. p. 189.
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A todo o momento cruzavam na nossa frente bichos de
todas as espécies: lebres, perdizes, seriemas, alguma mulita6 e
até quase foi atropelado um grande graxain parecido com um
magro e peludo cachorro policial de focinho fino.
Os campos de cima da serra, despovoados de gente, fervilhavam de vida animal que era um encanto. Nos moirões, que
sustentavam os aramados, as atentas corujas espreitavam os intrusos com seus grandes olhos amarelos. Junto aos corredores,
algumas cabeças de gado ruminavam, quietas e pensativas, enquanto o resto do rebanho, agrupado em pequenas pontas, pastava com as cabeças voltadas na mesma direção, a direção do
sol, na busca de melhores condições de luminosidade. Algumas
reses, deitadas, exibiam pequenos pássaros pretos no seus lombos, os anus, catando carrapatos. Nas coxilhas e nas canhadas,
as ovelhas esparramadas pelos campos pareciam alvos flocos de
algodão. Frangos d'água e marrecas nas lagoas; quero-queros e
gaviões por toda a parte. Imobilizado no ar, mal e mal mexendo
as asas, o chimango7 espreitava um rato ou filhote de perdiz escondido entre as macegas. De repente, recolhia as asas e despencava como uma pedra, em linha reta, para depois, batendo-as
com força, fugir em vôo rasante levando a presa nas suas garras
poderosas. Bem ao longe, algumas garças voejavam, compassadamente e no céu, as grandes curucacas grasniam sem cessar.
Em uma lagoa, na beira da estrada, antes de Tainhas, quatro marrequinhas pés-vermelho nadavam agrupadas. Depois de
rastejar como um índio até chegar ao alcance do tiro, Duda disparou sua arma. Duas ficaram boiando na superfície gelada,
6 Mulita = Espécie de tatu de carne muito apreciada, hábitos diurnos, menor que o
tatu do mato e que vive em tocas no campo. Nos dias quentes, depois de uma chuvinha
de primavera e verão, é presa fácil dos cachorros.
7Chimango = Falcão.
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mortas; uma, apenas ferida na asa, nadava em círculos, desarvorada; a outra voa. Num instante o rapaz se despe e, apenas de
cuecas, sem se importar com o frio, nada em direção da ave ferida. Ao chegar, porém, a uns dez metros de distância, ela mergulha e desaparece para reaparecer noutra direção imprevista, lá
longe. Depois de três ou quatro tentativas frustradas – quando a
marreca mergulha, também mergulha o caçador – ele enxerga,
debaixo da água, destacando-se da escuridão do fundo, uma
clara bolha de ar vindo na sua direção. Como um goleiro, agarra
a “bola”, a inquieta marrequinha pé-vermelho, ferida na asa, que
morreu, dias depois, no viveiro do Pascoal.
Depois, a sempre deslumbrante descida da Serra do
Pinto, até chegar na morada do Cabo Sueli, parada obrigatória.
Grande, gordo e hipertenso de tanto comer perus (criava centenas deles, soltos no pátio), era dono de uma alegria e uma disposição como jamais vi. Quando furava um pneu traseiro da minha
camioneta F-100, depois de afrouxar os parafusos da roda ele
levantava o lado danificado, ajudado por um ou dois companheiro, no braço, sem usar macaco. Era cabo da Brigada Militar,
a autoridade máxima daquela região de Itati e Três Forquilhas.
Ao lado da sua casa havia a modesta cadeia de uma peça
só – a cela – sempre vazia. Quando íamos em caçadas, atrás dos
veados da Serra do Pinto, era nela onde dormíamos depois das
trovas, do churrasco e da cerveja. Quando foi construída, deveria
vir de Torres o prefeito entregá-la, oficialmente, à comunidade.
O Cabo Sueli, que não se dava muito bem com as letras, havia
decorado um pequeno discurso, além de engordar os perus para
a festa. O problema é que demorou muito para ser inaugurada –
quase um ano – por falta de detentos. Acabou comendo as aves
e esquecendo o discurso.
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O Cabo Suely. – (Ilustração de Rita Brugger)
Mais adiante, viajando pela estrada embarrada, um companheiro sugeriu pedir fogo – naquela época todos fumavam – a
um homem que caminhava pela margem direita, indo na mesma
direção. O motorista – que era eu – aproximou-se tanto do andante que, com a ventarola do lado direito do jipe, que estava
aberta, bateu no homem, derrubando-o no barro, felizmente, sem
machucá-lo. O Beto, que estava na janela, ao meu lado, sem ter
o que dizer mostra o cigarro apagado e pergunta: “Me consegue
fogo, chê?” O homem humilde, bem sério, mas sem reclamar,
levanta-se, bate o isqueiro de pederneira e acende o cigarro atendendo o pedido. As almas sem malícia nunca são desconfiadas.
Entendeu que o acontecido não foi proposital.
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Ilustração deRita Brugger
A próxima parada era no Chimarrão (nome infelizmente
mudado para Vila Fernando Ferrari, fugaz como a memória dos
homens, tão diferente de “Chimarrão”, nutrido pelo tradicionalismo gaúcho), na casa do Sirilo Sartori. Como ele estava cuidando do seu hotel, em Torres, na temporada de verão sempre
lotado pelo pessoal do SESC, nela só dormíamos, fazendo as refeições na morada do caseiro.
De madeira e sem pintura, singela, mas limpa, a casa do
Pascoal estava plantada no meio de um laranjal, rodeada de animais soltos: cachorros, galinhas, patos, angolistas, perus. Havia
terneiros, cabritas, ovelhas e, mais ao fundo, o chiqueiro dos porcos e o viveiro. Longe da casa para se fugir das moscas.
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O riacho, largo quatro a cinco metros e cristalino, passava bem ao lado da casa. No local onde a Dona Dina costumava
lançar, da janela da cozinha, a água da pia e os restos da comida,
havia um remanso mais fundo onde fervilhavam os grandes lambaris de rabo vermelho.
Enquanto no fogão a lenha a comida da janta estava
sendo preparada com capricho pela dona Dina (ao lembrar me
vem água na boca) – duas marrecas pés-vermelho, arroz, feijão
e aipim – ficávamos tomando chimarrão e bebericando uma cachacinha com mel e limão galego. E, enquanto ainda havia luz,
pescávamos lambaris com um canicinho de taquara e anzol bem
pequenino, iscado com miolo de pão. Depois, de barriga cheia,
o prazer de se deitar, em paz com a vida e com o mundo, de pé
espalhado como capataz de estância, ouvindo, sonolentos, o
murmúrio do arroio e os cacarejos das galinhas que se preparavam para dormir, empoleiradas nas laranjeiras do quintal.
20
CHIMARRÃO
O Local
Com parte do reboco caído, a casa existe até hoje. Feita de
alvenaria, pintada de verde, ainda está lá, cercada pelo arvoredo,
desafiando o tempo como um sólido marco de lembranças.
Visitar, depois de adulto, a casa onde vivemos parte da
nossa infância, é retornar ao passado: “Uma ilusão gemia em
cada canto, / Chorava em cada canto uma saudade”.
No térreo havia, além de três dormitórios, uma grande
sala que servia de cozinha, sala e refeitório. Lá, se reuniam, principalmente nas férias escolares de inverno, mais de trinta pessoas ao redor da vasta mesa, comendo, bebendo e cantando, no
calor da convivência de uma grande família. O sótão, com soalho de madeira, era um enorme salão sem divisórias, lotado de
camas: o dormitório da rapaziada. Sem forro no teto, quando
chovia ouvia-se bem de perto do ouvido o ruído dos pingos da
chuva pipoqueando no telhado. E recém clareava o dia, todo o
mundo acordava com os cantos alegres das corruíras que faziam
ninhos nos beirais do telhado coberto de musgo.
Plantada no centro de um terreno plano, com quatro ou
cinco hectares de extensão, indo da estrada até as margens do
arroio Chimarrão, a casa estava rodeada de árvores frutíferas
plantadas pelo Sirilo: a maioria laranjeiras. Nos fundos, ao lado
do arroio, a casa do caseiro onde morava o “seu” Pascoal, sempre disposto para o trabalho, e a sua esposa, a Dona Dina, que
sabia preparar uma marrequinha como ninguém. Hoje, fico pensando se o segredo não seria a quase ausência de temperos, fritura na banha em vez do óleo e, principalmente, as caminhadas
por aqueles morros atrás da caça.
21
Antigamente, era só capoeira e mato. Durante um longínquo mês de abril, perdido nas brumas do tempo, ainda antes
de entrar na Faculdade de Medicina, com o caminhãozinho F350 do Sirilo transportei centenas de metros cúbicos de serragem
de uma serraria próxima, excelente adubo orgânico que iria adubar o laranjal. Ao lado havia a horta, de aproximadamente meio
hectare de terra fértil, cercada por uma cerca de sarrafos, feita
por mim e que hoje não existe mais. Apodreceu na terra. Reincorporou-se no ciclo vital da vida depois de ter cumprido a sua
finalidade por anos a fio, de proteger as verduras: tomates, cebolas, alfaces, radites, temperos que abasteciam a cozinha do hotel em Torres contra o ataque das caturritas, e passarinhos que
iríamos caçar no inverno. Era uma forma de retribuir a hospitalidade do Sirilo e, principalmente, como agradecimento por me
levar em caçadas de perdizes na longínqua fronteira do sul do
nosso Estado, viajando dias e dias por estradas ainda não pavimentadas, que nas épocas chuvosas de inverno ficavam quase
intransitáveis: D. Pedrito, Santiago do Boqueirão, Santana do
Livramento, Bagé... Motivados pelo Sirilo, com sua extraordinária capacidade de aglutinar e liderar, o entusiasmo era tanto
que se fosse preciso levaríamos o caminhão nos ombros. Depois
que ele se foi, tudo acabou como castelo construído na areia que
a onda desmancha. Até parece mentira! Nossa felicidade não durou mais que uma década. Enquanto vivia o Sirilo, o Homero, o
“seu” Engrácio, o Flávio, o Sérgio, o Paulo, sem saber morávamos no paraíso, acampando, pescando, caçando, viajando, comendo e bebendo sem suspeitar que o tempo não pára e que tudo
isso logo terminaria.
“Uma ilusão gemia em cada canto,
Chorava em cada canto uma saudade”
Guimarães Júnior)
22
***
A vida em comum, que se observa nas grandes clãs, é
extremamente salutar na formação das personalidades. A convivência de várias gerações propicia o fortalecimento da sociabilidade, tão importante para a evolução, mas que não é exclusiva
do ser humano pois existe nas colméias, nos cupinzais, nos formigueiros, e também entre os piratas e quadrilhas de bandidos.
A sociabilidade só é produtiva quando associada com a solidariedade. E isso só acontece com o ser humano. O isolamento em
que vive a criança de hoje, diante de um computador ou de um
videogame, agravado pelas restrições próprias das aglomerações
urbanas, em edifícios com regulamentos cerceantes da liberdades – é proibido jogar bola, é proibido pisar na grama, é proibido
falar alto, é proibido viver – favorecerá o aumento da depressão.
A misantropia é o primeiro degrau da paranóia.
No homem, esta convivência de várias faixas etárias fortalece os laços de solidariedade, criando o respeito pelos direitos
dos outros ao mostrar onde termina o de um e começa o do vizinho, e ajuda na formação de uma hierarquia de valores indispensável em qualquer comunidade. O fato do Sirilo, o dono da casa,
respeitar o "Seu" Engrácio, dez anos mais velho, faz com que o
menino respeite os adultos. Se o Fernando, o Flávio e o Carlos
obedecem a dona Nicra, sua mãe, porque é que eu não vou respeitar a minha? Já o respeito que o Naldo impõe, o mais forte
dos meninos, é baseado unicamente na força física, que não
deixa de ser um parâmetro de hierarquia de valores, talvez o último, mas que tem a sua importância social: quando acabam todos os argumentos, vale o argumento da força. É por isso que
existem as polícias, os exércitos, as algemas, as prisões, a forca e
a cadeira elétrica.
23
Brincando Com Fogo
Nos anos em que trabalhei como médico em Torres, não
raro recebia pagamentos em forma de alimentos: peixes, frutas,
verduras, galinhas, perus, ovos, porcos, e até terneiros. Talvez
seja uma forma mais perfeita de retribuição do serviço médico,
já que medicina não combina com economia. Senão, alguém
pode dizer quanto vale a vida de um filho?! O médico não cobra:
recebe retribuição, que sempre deveria ser compatível com o poderio econômico de cada paciente. O que para um é uma migalha, para outro é o resultado de anos e anos de trabalho de formiga – operário trabalhando para o patrão, em regime de semiescravidão.
Clientes moradores do interior, sabendo do meu gosto
por animais, começaram a trazer jacus, inhambus, pombas e aracuãs, vivos. Depois de lotar o viveiro que havia diante da casa,
soltei-os em liberdade. Porém, acostumados que estavam com o
local e o alimento, a grande maioria ficou vivendo nas árvores
dos quintais das casas vizinhas. (As mudas que plantei no meu
terreno ainda eram pequenas). O finado Osvaldo Cardoso, meu
vizinho, ajudava a proteger e alimentar a passarada com restos
de comida e milho, só para poder ter o prazer de acordar, de madrugada, com os seus cantos que lhe recordavam a infância.
Certa ocasião recebi, do risonho Antônio Doce, morador
do Chimarrão, hoje Vila Fernando Ferrari, um porco gordo,
pronto para ser abatido. Era em pagamento a uma cirurgia realizada na sua esposa. Foi ele quem me ensinou a pescar o cará-detoca e o cará-beiço-de-moça em meio ao junco da Lagoa Itapeva.
Da água para a frigideira, sem passar pela geladeira, sua carne
era bem branquinha, extremamente saborosa. Foi, junto com o
papaterra, uma das melhores carnes de peixe que comi! A fome
pode ser uma grande cozinheira, mas o melhor tempero é a saudade.
24
***
O primeiro, ou um dos primeiros matadouros de suínos
de Caxias do Sul, foi do meu falecido avô paterno, lá no Bairro
Lourdes. Devido à imensa prática que havia adquirido, o tio Joanim era considerado o melhor carneador do frigorífico. Depois
do porco abatido, pelado e dependurado, em menos de um minuto ele abria o animal, removia todas as vísceras desde a boca
ao ânus, deixando a carcaça limpinha. A faca, na sua mão, "relampiava". Como éramos muito amigos – sempre que podia eu
o levava comigo em acampamentos de caça – convidei-o para
fazer a carneação do porco que ganhei do Antônio Doce.
Num sábado de sol, às margens do arroio que cruza a
propriedade do Sirilo, fizemos a carneação. Conosco foi também
o Valter Mirin, nosso leiteiro e amigo, para aprender com o meu
tio como é que se carneia um porco. Sempre brincalhão, o Valter
alegrava qualquer ambiente em que estivesse presente. O pessoal gostava de brincar com ele, dizendo que haviam encontrado
um lambari no leite que trazia, a prova de que juntara água da
sanga para aumentar o volume. Pura gozação, pois o Valter Mirin vendia o melhor leite de Torres: nos seus tarros de alumínio
sempre havia dois dedos de nata amarelada sobrenadando, logo
transformada em saborosíssima manteiga. Hoje, deve estar no
céu, contando piadas para as santas e fazendo churrasco para os
anjos.
Com o porco carneado e pelado, foi separada a costela
inteira, temperada com sal, pimenta-do-reino, vinagre e alho, e
colocada bem alto sobre o braseiro: era o nosso almoço. O rádio,
a todo o volume, sintonizado na Rádio Maristela, alegrava o ambiente com músicas nativas. Deixei o pessoal trabalhando e me
preparei para o meu passatempo predileto: o costumeiro tiro-aoalvo de revólver.
25
Sem limite na compra de balas calibre 38, como era na
época e, principalmente, mais baratas como sempre parecem ser
os bens que adquirimos no passado (a distância diminui estaturas), gastava caixas e mais caixas praticando tiro-ao-alvo de revólver, semanalmente. Por isso, não era de admirar ter adquirido
excelente pontaria. Longe uns quinze passos, de cada dez tiros
dados em direção a uma tampinha de garrafa de cerveja, acertava
nove. Olho bom e pulso firme, dizia o velho “Capitão” Jovino,
avô da minha esposa. E muito prazer em acertar, acrescento eu.
Quem faz o que gosta, geralmente faz bem feito, tanto o bem
como o mal: mentir, roubar, matar, ou furar a bala uma tampinha
de cerveja a quinze passos.
Depois de acertar em diminutos alvos, pedi para a Iara,
então namorada, segurar uma garrafa de cerveja vazia, a uns dez
passos de distância. Já havia feito esta loucura inúmeras vezes.
(Não sei porque, depois de casada ficou com medo e não quis
segurar mais...) Até a minha futura sogra segurou, certa feita, na
fazenda de um parente em Cambará, um copinho de cachaça vazio. Foi nesta ocasião que eu aparei as unhas da bela filha do
Carmindo, a Renilda, à bala! Entusiasmada pelo clima de festa,
naquele dia de sol, churrasco e cerveja, fez questão de segurar
um cigarro. Era Holywood, ainda recordo. Ao fazer a pontaria,
percebi que tremia levemente. Depois dela apoiar a mão na forquilha de um pessegueiro, o alvo firme, detonei o tiro. A bala
atingiu perto da brasa e ela, numa demonstração de coragem (ou
loucura), com o isqueiro acendeu o toco que sobrou. “Quero ver
acertar agora!” desafiou. Novo tiro e o susto que me esfriou o
estômago: vi quando sacudiu a mão, assustada. A bala havia
atingido o cigarro junto ao filtro, perto dos dedos, aparando suas
unhas tão compridas como era moda na época, sem tocar na pele.
Eu tinha tanta confiança que parecia colocar a bala no alvo com
a mão, tal o treino que havia adquirido. Hoje, jamais faria isso:
26
o pulso, o olho e a cabeça já não são os mesmos. É loucura própria da juventude, que como outras, passam e não voltam mais.
Quando o pessoal viu a Iara segurando a garrafa, tentou
dissuadir-me. Porém, depois de ver a precisão dos tiros, calaram
curiosos. O único cuidado era com os estilhaços do vidro. Era
precisava proteger o rosto com uma mão, para evitar algum ferimento com cacos de vidro.
Lá pelas tantas, chamei a Iara de lado e combinei a brincadeira. Peguei uma folhinha de eucalipto e, escondido dos outros, com uma cápsula vazia fiz um orifício bem no centro. Depois, pedi para ela cruzar o arroio e se postar na outra margem,
uns vinte metros de distância. Não precisa dizer que todo o
mundo queria me dissuadir da loucura. Era muito longe! O tio
Joanim chegou a apelar para o sentimentalismo: “Se tu gostas
mesmo de mim, não faças isso!” Porém, como eu era o dono da
festa, aliás, o dono do porco, mandei a Iara afastar-se cada vez
para mais longe. Quando estava a uns trinta metros e nem se enxergava direito a folhinha, levantei o revólver, apontei a uns cem
metros acima dela, nas nuvens e, debaixo de um silêncio sepulcral, detonei o tiro. Quando a Iara voltou para perto de nós e
mostrou o alvo, um outro tipo de silêncio, o de admiração e respeito, baixou sobre o grupo: havia um perfeito furo bem no meio
da diminuta folhinha de eucalipto! Era o furo que eu havia feito
antes, com a cápsula vazia.
Como recordação e prova do acontecido, o falecido tio
Joanim guardou a folha na carteira por muitos anos, como uma
relíquia. Quando alguém duvidava da façanha ele puxava a carteira e mostrava a folhinha de eucalipto, com um furo no meio.
Ele estava tão entusiasmado, tão admirado, que nunca tive a coragem de contar-lhe a verdade. Por que acabar com o encantamento, se é ele que dá colorido à nossa vida?
27
Encantamento
A realidade, a grande inimiga da fantasia, acaba com a
riqueza do mundo interior. A formiguinha, que durante o nosso
sono infantil levava o dente de leite que caiu, substituindo-o por
uma moedinha, já se sabe, era o nosso pai. Papai Noel? – uma
grande farsa! O coelhinho da Páscoa? – uma personagem inventado pelos fabricantes de chocolate. Acabou-se o mundo maravilhoso dos heróis dos gibis onde vivia, nas suas páginas, um
homem comum que ao pronunciar a palavra Shazam se transformava no invencível Capitão Marvel. Que fim levou o poderoso
Fantasma-Que-Anda, aquele que tinha uma noiva bonita chamada Diana Palmer e morava numa caverna perdida nas selvas
misteriosas de Bengala, protegido pelos pigmeus de Bandar com
suas setas envenenadas, sempre acompanhado do fiel cachorro
Capeto? E o mágico Mandrake, que nem na mais violenta briga
desmanchava o seu impecável e lustroso penteado, e com um
pequeno gesto hipnótico modificava a realidade, confundindo os
seus inimigos? Só nunca entendi porque preferia a companhia
do Príncipe Lotar, mulato e “parrudo”, em vez da sua namorada,
a bela morena Narda.
O fascínio que este tipo de herói misógino exerce sobre os
jovens, provavelmente, se deve ao fugaz estado de “hermafroditismo” próprio da idade em que os hormônios ainda não definiram
os caracteres sexuais. Os testículos ainda não produzem testosterona em níveis suficientes para definir, com nitidez, as características sexuais secundárias nem as psíquicas. São heróis que se
identificam com o menino ao redor da puberdade: não são mulheres, mas também não são homens: não têm pentelhos, nem barba,
nem pêlos nos braços. E, principalmente, não pensam como homens, nem sofrem os poderosos apelos sexuais da testosterona
que faz um homem perder a cabeça por um rabo-de-saia, como o
28
garanhão que arrebenta cercas para cobrir uma égua no cio, cumprindo a sua programação biológica que é cobrir o maior número
possível de fêmeas para que a raça não acabe.
Naquele mundo encantado havia fadas, bruxas, poções
mágicas, varinhas de condão, princesas maravilhosas, cavalos
alados, sapos que viravam príncipes, rapunzéis de longas tranças
loiras...
O tempo foi passando e a realidade acabou com o encantamento. A Serra do Jarau, todo o mundo sabe, não esconde nenhum tesouro de princesa moura e o Negrinho do Pastoreio só
subsiste nos centros de tradições gaúchas e nas esculturas e telas
do Vasco Prado. Boitatá, Lobisomem, Mula-sem-cabeça, Saci
Pererê, que bobagem! Até dizem que a ciência irá provar que
não existem nem os milagres... Céu e inferno? Somente na cabeça de cada um.
Poesia e realidade não combinam, porque a vida e o sofrimento terminam com a fantasia. O conhecimento que acaba
com a superstição, também diminui o encantamento. Amadurecer é trocar o riso pelo sorriso. Ou rir menos. Por sentir esta verdade, é que a sabedoria popular consagrou o dito: “Muito riso,
pouco siso!”
A luz meridiana do sol desvanece o brilho das estrelas e
termina com a magia dos crepúsculos e dos luares. Sem penumbra não há mistérios. Sabendo disso, a arte erótica prefere o que
há de excitante no coberto-descoberto do corpo humano feminino, ao descaramento explícito da pornografia.
A depressão nasce de uma perda: do tempo, da saúde,
dos afetos, da fama, do dinheiro, do amor... O ator que fez o papel do primeiro Super-Homem do cinema, depois de velho e na
pobreza, jogou-se do último andar de um edifício em Nova
York.
O velho é um menino que perdeu o encantamento
29
ABANDONO
“(...) E até parece mentira
– Negro velho de valor! –
Morreste no corredor
Como matungo sem dono;
Não tendo nesse abandono
Ao menos um companheiro
Que te estendesse o baixeiro
Para o derradeiro sono!”8
Desta história, o João Guilherme Faé ainda se recorda
muito bem. Contei-a há mais de trinta anos e ele ainda não a
esqueceu. Os corações sensíveis, como o dele, se impressionam
com o sofrimento alheio! O amor ao próximo é o segundo, em
ordem e em importância, dos dez mandamentos divinos. É do
seu cultivo que dependerá o futuro da humanidade, ao controlar
a agressividade inata no ser humano, capaz até de destruí-lo.
Fazendo estágio na enfermaria de Clínica Cirúrgica do
saudoso Professor Jacy Monteiro – pai, mestre e amigo – em um
plantão noturno atendi a um senhor de idade avançada, muito
doente, trazido por um moço.
Ao perguntar ao acompanhante se era amigo ou parente,
respondeu: “Não o conheço. Fiquei com dó do pobre velho, por
isso resolvi trazê-lo aqui na Santa Casa”. Na verdade, não queria
compromissos: tinha medo de ser obrigado a deixar uma caução.
Foi baixado na ala dos indigentes.
8BRAUN, Jayme Caetano. De Fogão em Fogão. 3. e. Porto Alegre : Livraria Sulina
Editora, 1958. p. 72. Poema: Tio Anastácio.
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Freqüentemente eu o encontrava sempre sozinho, tomando sol sentado num banco da pracinha da Santa Casa, um
recanto interno, bem cuidado, onde havia duas estátuas de santos. Cego de um olho, ficava longo tempo com o rosto voltado
para o sol, recebendo calor na órbita vazia.
Dois ou três meses depois, na fase final da doença, sem
jamais receber uma visita, confessou o pobre velho desolado:
“Aquele homem que me trouxe, naquela noite, lembra? É meu
filho.” Deixou um endereço rabiscado num papel, que como
muitos outros destinatários, jamais foi encontrado.
“Freqüentemente, eu o encontrava, sempre sozinho, tomando sol
sentado num banco da pracinha da Santa Casa.”
(Ilustração de Rita Brugger)
***
31
Um mínimo de bem-estar econômico é indispensável
para a preservação da dignidade das pessoas. Neste caso, o dinheiro funciona como o sal que protege a carne da putrefação.
A miséria deteriora índoles: acaba com o amor, o orgulho, a honra, a nobreza, o romantismo, o cavalheirismo e também com a vergonha. Termina com os laços de amizade, de família e até com a própria caridade. Foi a miséria que engendrou
o medo que fez Pedro, há dois mil anos, renegar Cristo por trinta
dinheiros. Ainda hoje, faz filhos abandonarem pais, pais prostituírem filhas ou vender filhos pequenos. A fome é coisa muito
séria: assim como devora raízes, também devora beija-flores.
Seja devido à seleção natural ou seja lá por que motivo
for, os velhos, quando improdutivos, são, geralmente, preteridos
pelos filhos. É porque na casa do amanhã não há lugar para eles
– são estorvos, dersus uzalas9 daquele filme russo, sem mais desejo de perseguir a zibelina10, sufocados na civilização.
O argumento que os idosos propagam de serem os bancos da experiência e do saber, os depositários das tradições,
perde importância, porque a cultura e a arte não têm valor diante
da fome.
“Quem não traz o pólen para a colméia”, disse Ingenieros, “não tem o direito de experimentar o mel!” Existe trabalho
para todos, mesmo os fracos, os doentes e os mutilados, porque
9Referência à personagem principal do filme russo-japonês Dersu Uzala (Akira Kurosawa). É um caçador mongol, já não jovem, vivendo na floresta, fora da civilização,
conhecedor dos segredos da natureza e animado pelo ideal de caçar a zibelina, o animal de pele mais valiosa do mundo: a mais quente, a mais bela e a mais macia. Trazido
para a residência do narrador, numa aldeia siberiana, morre sufocado pelas restrições
da vida comunitária... e pelo tédio. Exatamente como o gaúcho do interior, nobre e
altaneiro, que nas cidades grandes vira favelado.
10 Martes zibelina. Espécie de marta castanho-escura, da família dos mustelídeos,
possuidora da pele mais valiosa do mundo.
32
a vida é preciso merecê-la. Trabalhar até a morte, este é o segredo, porque quem não trabalha não deveria comer!11
O Sirilo Mazzochi, nascido em Linha São José,
na Sertória Baixa, Santa Lúcia do Piaí, distrito de Caxias
do Sul (RS), faleceu na Linha Brasil aos 69 anos de
idade, no dia 12.10.2002.
O Sirilio Mazzochi ficou totalmente cego das
duas vistas antes de completar quarenta anos. Diabete?
Isso não o impediu de trabalhar até as vésperas da sua
morte. Durante o dia, ou durante a noite – para ele não
havia diferença – fabricava cestos de palha e vime, desde
a seleção da matéria prima até o acabamento final. Cultivava o milho, fazendo a capina com a enxada, guiado
pelo tato das mãos e dos pés. Também fabricava caixas
para frutas. E as tulhas para guardar mantimentos, por
ele confeccionadas, funcionam até hoje.12
***
Ao revisar esta crônica, a mana Dalva, a única responsável pela digeribilidade de tudo o que escrevo, corrigindo aqui,
retocando ali, reformando acolá, foi muito clara:
“Tudo o que tu escreveste pode até ser certo, mas é
agressivo e, acima de tudo, injusto. Pode até ter acontecido que
pelos filhos eu me tenha mutilado de tanto trabalhar: prejudicado
a coluna, perdido um olho, ficado cega ou tido um derrame cerebral, deixando-me paralítica, inválida. Não seria justo ouvir de
11 Durante a Segunda Grande Guerra os pilotos com visão monocromática não se
iludiam com camuflagens. Enxergavam os canhões antiaéreos escondidos sob as redes
de camuflagem imitando folhagens.
12 Informações fornecidas por Nelson Cecconi.
33
um filho, agora, que por não poder trabalhar eu não mereça comer!”
Aí, me dei conta do meu engano: a lei de “quem não trabalha, não come” serve apenas para os animais. Uma das grandes motivações do trabalho é garantir a subsistência – comida,
teto e primeiras necessidades – quando os braços não ajudarem
mais. Somente o ser humano concebe e planeja um futuro como
fruto do trabalho. E por um motivo muito simples: os animais
não envelhecem porque não têm tempo de envelhecer: morrem
quando perdem os dentes. O envelhecimento é uma conquista da
inteligência, eternamente ocupada em burlar as leis naturais. A
primeira delas é aumentar a longevidade.
Mas, são o amor filial e a caridade que nos distanciam
tanto dos animais! O amor dos pais pelas crias que existe da
pomba à serpente, simbolizado pelo ninho, é qualidade essencialmente animal, fundamentada na lei da preservação da espécie.
Já o amor filial e a caridade são atributos essencialmente humanos! Nunca um animal se sacrificaria pelo pai ou pela mãe, como
faz pelo filho.13 O homem, sim! O próprio Cristo nos deu o
exemplo, morrendo por nós na cruz.
É o amor filial e a caridade
que nos distanciam dos animais
13Há uma velha história infantil que ilustra bem este fato: filhotes de passarinhos,
presos numa gaiola, foram alimentados pacientemente pelos pais. Quando os pais foram presos, morreram de fome, porque nenhum filho veio alimentá-los.
34
RECORRIDA
(Para o Emanuel Botelho dos Santos)
Imagens que há muito entraram pupilas a dentro e pareciam terem morrido, estão bem vivas agora, ressuscitadas pela
saudade: verdor intenso do campo iluminado de sol; clarão prateado da lua banhando grama e lagoa.
Ainda ressoam nos ouvidos, os retinidos claros de esporas, nas pedras lá da mangueira, nas madrugadas campeiras ao
sair pras recorridas. Acordam, do fundo do peito, sabores há
muito esquecidos: o gosto do mate doce, do chimarrão, do camargo; muita doçura de mel, apesar do tempo, persiste Também
há o gosto do fel e o amargor das coisas tristes: menino mordido
de cobra, lembranças do falecido... o cusco amigo morrendo, ferido por touro brabo...
Longe, num fundo de campo tapado de caraguatás, topei
com a tropilha extraviada, outrora potros ligeiros montados pela
esperança. Hoje, judiados e fracos, castigados pelo inverno, curtidos pela intempérie, só couro, ossos, só cerne; crina e cola em
maçaroca, cobertos de carrapatos, parecem, assim tão tristonhos,
fantasmas que foram sonhos que alimentei quando moço.
***
Mais do que brincar de gado de osso, de rodeio, o que o
menino gostava mesmo era de acompanhar o pai e os peões nas
recorridas.
A recorrida de campo é uma campereada feita de tempos
em tempos, para recontar o rebanho, inspecionar as cercas, curar
bicheiras, tratar um ferimento, livrar vaca atolada, vacinar, levantar a rês caída de fraca. Vez por outra, também levar o sal pro
rodeio.
35
Lá pelo final de agosto, começo de setembro, com o
campo já sem pastos, castigado pelo inverno, é a época mais trabalhosa. Saía-se de madrugada sob clarinadas de galos, e voltava-se à tardinha com os cantos das saracuras.
Na véspera, à noite, os cavalos ficavam presos na mangueira, aparados os cascos, cortadas as longas crinas de inverno,
tratados com milho e alfafa, prontos para o trabalho. “Pra agüentar este serviço, só cavalo amilhado”14 dizia o Emanuel, experiente domador de potros, já adentrado nos anos, derramando milho no cocho com uma mão, com a outra acariciando a tábua do
pescoço do seu lindo baio-encerado.
Na cumieira do telhado de tabuinhas, pia uma coruja tristonha.
Antes do sol nascer, debaixo de um céu estrelado, partia
a comitiva acompanhada dos cachorros, sem pressa, no rumo dos
fundos da estância, que para um menino como ele parecia o fim
do mundo.
Ao passar em fila indiana numa estreita trilha entre duas
lagoas de águas paradas qual enormes espelhos escurecidos,
pontilhados de luzes, tinha-se a impressão emocionante de pisar
num chão de estrelas. Via-se tremular as Três-Marias, a brilhante
Estrela Boieira e, mais abaixo, bem nítido, o nosso cruzeiro do
Sul.
Num cavalo ia a cambona (lata de azeite vazia com uma
alça de arame) para esquentar a água do chimarrão e do café;
alguma farofa de galinha ou bolacha, erva mate e bastante carne
para o almoço, que a lida de campo dá muita fome! Café em pó,
sal, açúcar, uma caneca esmaltada, cuia e bomba completavam
o rancho simples de andejo, sem talheres, nem coador e nem
bule, que tudo é peso morto que só serve pra cansar o mancarrão.
14 Amilhado = Tratado com milho.
36
Cachaça, no cano da bota; creolina, sempre à mão, mesmo não
sendo época de bicheira.
“... tinha-se a impressão emocionante de pisar num chão de estrelas.”
(Ilustração de Rita Brugger)
As primeiras luzes da aurora destacavam, no verdor escuro da mataria, o amarelo vivo dos ipês floridos, os arautos da
primavera. Os pastos, ainda molhados do sereno, já começavam
a perfumar o ambiente. E o aroma da primavera entrava pelos
sentidos – nariz, olhos e ouvidos – incorporando-se no sangue
que se acelerava de entusiasmo de viver. Vontade de correr à
toda pelas coxilhas, espantando perdizes e corujas, bebendo o ar
37
fresco da madrugada até desaparecer, lá longe, fundido na terrae-céu do horizonte...
“O peito avoluma e arqueia
como cogote de potro.
E as ventas se abrem gulosas
por cheiro de madrugada.
– Potrilhos em disparada
num Setembro de alvoroto.”15
O barulho dos cascos, ora retumbando sonoros como se
o chão fosse oco, ora agudos ao passar por locais pedregosos e
lajeados, ou espalhafatosos ao pisar nos terrenos pantanosos, se
misturava com gritos dos quero-queros espantados, resfolegar e
bufidos dos cavalos, rangidos de arreios e baralhar de freios com
coscós.16
***
A manhã foi toda de trabalhos. Gastaram um tempão
concertando um canto de cerca com o “mestre” derrubado, sem
rabichos, esticando o arame farpado como cordas de viola, prontos para serem tangidos pelo vento em lamentos sofredores, que
nas noites escuras de inverno são uivos de lobisomens ou almas
do outro mundo.
O sol estava quase a pino indicando o meio-dia, quando
avistaram uma vaca atolada, já perto do fim: um reles saco de
ossos, só anca e costela, vistas opacas, sem brilho. Ainda viva,
mostrava as marcas da terrível luta em que gastara suas últimas
15FIGUEIREDO PINTO, Aureliano de. Marcas do Tempo – Romances de Estância
e Querência. 2. e. Porto Alegre : Martins Livreiro-Editor, 1981. p. 19.
16Coscós = “Rosetas de ferro, colocadas no meio do bocal do freio campeiro, para
fazer bulha”. – CARDOSO NUNES, Zeno; CARDOSO NUNES, Rui. Dicionário de
Regionalismos do Rio Grande do Sul. Porto Alegre : Martins Livreiro-Editor, 1982.
p. 131.
38
forças tentando levantar-se: de tanto patear, desesperada, o pasto
ao seu redor parecia lavrado por tratores. Cercando-a, em prudente distância, havia uma quieta e paciente ala de urubus esperando o início do banquete. A primeira parte a ser comida seriam
os olhos.
Acontece igual em meio aos homens. Quando um está
em dificuldade, os urubus ficam ao seu redor esperando a hora
de comer-lhe os olhos: são os aproveitadores que compram os
bens pelo menor preço possível, mesmo injusto; são os exploradores da credulidade humana que prometem a felicidade e o sucesso nos classificados de jornais e o céu nos programas religiosos de televisão; são alguns advogados de porta de cadeia e os
raros médicos sem ética que, como as aranhas nas suas teias ficam esperando dramas, assustando clientes, a maioria roubados
de outros colegas. Não sabem que “o médico que alimenta o temor torna-se enfermeiro da morte” (Dr. Cesar Serafini). É assim
que agem a maioria dos animais, principalmente os urubus, os
cães e as hienas. Somente os seres providos de caridade estendem a mão ao necessitado, desinteressadamente, num gesto de
solidariedade de irmão. A preservação da ética a todo o custo –
e qualquer coisa que custe uma migalha da tua dignidade é cara,
adverte Ingenieros – é privilégio de homens superiores ou medíocres mas de barriga cheia.
Foi na hora do churrasco que aconteceu o desastre. Ao
juntar lenha seca para o fogo, neste terreno sujo e pedregoso, o
menino, de apenas doze anos de idade, foi picado por uma jararaca no dorso da mão. Trouxeram-na morta, para orientar o tratamento.
Amparado pelo Emanuel, foi trazido até a sede num galope puxado, sem fechar porteira alguma. O pêlo cor de cera e
mel do baio-encerado, o suor tornou-o escuro. O animal chegou
molhado, espumando o peitoral e parou na cancela da porteira
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trêmulo e ofegante, vazio sumido, ventas abertas, faminto de ar.
Daí para a cidade foi um pulo, levado na camioneta de um vizinho.
Mesmo tendo feito o soro antibotrópico, dois ou três dias
depois, sangrando por todos os orifícios do corpo, furos de agulhas e até pela pele, morreu o gauchinho sob ação do hemolítico
veneno que não respeita madrugadas de primavera, nem alvoradas de vidas como “potrilhos em disparada / num setembro de
alvoroto.”
40
NOSSAS VIDAS
Nossa vida
– estrada curta ou comprida é feita de saudades,
de chegadas...
e de partidas.
Viver é sofrer perdas
suscessivas e inexoráveis
de saúde e de afetos
incontáveis.
Nossas vidas,
tão efêmeras,
são quadros pintados pelas nuvens
no fundo azul do firmamento.
São imagens refletidas
nos espelhos serenos das lagoas:
de repente,
o vento encrespa superfícies
e, num momento,
desmancha poentes
e paisagens.
(Ah! Se não fossem os filhos...)
41
VEREDICTO DE MORTE
(Ao saudoso Érico Candeia)
Por um defeito de computador, a proteína E6 não obedece mais a ordem da parar de se reproduzir e continua dividindo-se indefinidamente. É o câncer!
Começou a notar uma leve dificuldade para iniciar a micção, lenta e insidiosa. Foi aumentando até que, certo dia, apareceu sangue na urina, tingindo assustadoramente de vermelho a
água no banheiro. Era o sangramento causado pelas metástases
vesicais de um câncer avançado.
Depois da consulta e do toque retal, os exames confirmaram a suspeita: câncer avançado de Próstata. O RX mostrou sinais evidentes de metástases no osso Ilíaco, mais precisamente
na Asa Ilíaca. Também numa vértebra havia uma diminuição da
densidade, em forma de mancha mais escura, altamente preocupante. A Fosfatase Ácida elevara-se nas alturas.17
Todos os problemas de antes desapareceram, como as suaves luzes das estrelas diante do brilho intenso do sol. O filho
que foi reprovado na escola? As crises de dinheiro? Os medos
infundados de futuros incertos? Tudo ficou insignificante diante
do veredicto de morte.
De agora em diante será difícil conviver com uma doença
que o está comendo por dentro, que progride dia e noite, inexorável, independente da sua vontade e totalmente indiferente aos
seus medos. Já passou a fase de acordar, noite alta, e pensar que
tudo não passava de um pesadelo. Que não demoraria a vir o sol
dos tempos de menino e espantar os medos que o sufocavam.
17 Na época em que aconteceu esta crônica não existia a dosgem do PSA.
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Na madrugada passada, acordou em crise de choro. Sonhou que estava sadio e se preparava para um curso. “Um curso,
na minha idade? Não interessa a idade! Farei este curso! Quero
recomeçar a viver, com intensidade, pois tenho fome e sede de
vida!” No sonho, estava curado: “Que bom poder fechar os olhos
e voltar a dormir sem a ameaça apavorante dos pesadelos da
morte!” Foi invadido por um sentimento de estrema paz e doçura
ao lembrar quando era pequeno e a sua mãe cantava para ele
dormir: “Eis que estás, Jesus no altar, / Feito o pão dos anjos. /
Vens do céu alimentar / Filhos bem amados.”
Ao acordar, sobressaltado, não pôde conter o choro convulsivo de um desesperado diante da realidade tão cruel que lhe
negava a mínima luz de esperança, onde nem o colo da mãe poderia protegê-lo, como fazia quando era pequeno e frágil como
agora. Passou o resto da noite acordado, ouvindo, no escuro, os
uivos ameaçadores do vento na janela, pensando em naufrágios
nas águas geladas do Cabo das Tormentas.
Como acontece com quase todas as vítimas dessa doença
tão terrível, chega o momento em que é bom acreditar em milagres: a busca de curas impossíveis, fora da ciência oficial. O que
ela entende de manifestações espirituais, de forças mentais infinitamente mais poderosas do que a nossa tão rudimentar inteligência? Para Deus nada é impossível!
Entretanto, chega a hora em que a derrota se instala, finalmente, no fundo da alma sofredora. O milagre tão esperado
não acontece. As dores musculares e ósseas estão aí para lembrar
que o tormento continua, nas suas entranhas, a proliferar com
força demoníaca, lançando tentáculos em todos os órgãos qual
praga vicejando na lavoura, tomando conta de toda a plantação.
Com a nítida clarividência dos moribundos, vê que o galho em que se apegara para não cair no abismo e que parecia um
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firme angico, é macega que se desprende com raiz e tudo. A barbatana de tubarão foi esperança vã, a derradeira – farsa dos abutres para enganar os sofredores.
A depressão acelera o curso. Agora, é só pele e ossos,
angulados os traços, cada vez mais parecido com um Cristo
Morto, pálido e severo. Os olhos parecem aumentar de diâmetro
nas órbitas escavadas e as escleróticas ficam bem mais brancas,
suplicando por um minuto mais de vida. Até que a dor fica tão
intensa que é melhor morrer de uma vez, de descansar, de voltar
à casa do Pai, na paz eterna de onde saímos e um dia deveremos
voltar.
Fecha os olhos, desenruga a fronte. Por um momento os
seus traços se adoçam, como se uma lufada de ar fresco entrasse
janela a dentro, expulsando a dor. Mais uma vez tem a visão refrigerante de uma imagem da infância e que tanto se tem repetido
ultimamente, cada vez mais nítida, cada vez mais viva: o seu
peticinho castanho, tão querido, pastando sonhos junto à cancela
do potreiro iluminado pelas últimas luzes do dia. É ali onde se
refugia para escapar do medo, qual Tolstói na sua Yasnáia Poliana – uma “clareira luminosa em meio à mata” – de onde não
quer jamais sair. Então descobriu o que motivou José Artigas a
pronunciar, na hora da morte, a famosa frase “Tragam meu
mouro, quero morrer a cavalo!”. Ele queria o seu cavalo perto
porque o cavalo traz serenidade e segurança, hoje em dia tão exploradas pela eqüoterapia e tão desejável na hora da morte. Não
era por coragem, não, mas por medo ou quiçá remorso de ter
matado ou mandado matar tantas pessoas.
Da sua cama ouve, com nitidez, o canto de um bem-te-vi
na nogueira do quintal, a mesma árvore que o abrigara certa vez
quando menino, lá no alto, fora do alcance do seu pai que lhe
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prometera uma surra. Respiração imperceptível, adormece, suavemente, na serenidade da inconsciência, no sono dos comatosos, sem sonhos nem medos.
Peticinho castanho. (Rita Brugger)
***
Sabedoria é viver o momento presente, porque o amanhã
não nos pertence. É valorizar os nossos tesouros antes de perdêlos para sempre: o tempo, a saúde, os prazeres, a convivência
com os filhos, os pais, os netos, os amigos.
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Há de se ter muito cuidado com as saudades, pois não
raro azedam, transformando-se em amarguras. Viver com entusiasmo enquanto é tempo, para depois não sofrer as frustrações
de ter desperdiçado um bem inestimável. Este é o segredo.
“(...)”
Ridere, sempre così giocando;
Ridere, dele foglie del mondo.
Vivere, fin que se a gioventù,
Perche la vita é bella
E io voglio vivere sempre più!”
Rir, sempre assim brincando;
Rir, das folias do mundo.
Viver, enquanto se tem juventude,
Por que a vida é bela
E eu quero viver sempre mais!”
Sabedoria é viver o momento presente,
porque o ontem já passou
e o amanhã não nos pertence
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O TEMPO
“Volverán las oscuras golondrinas
en tu balcón sus nidos a colgar,
y, otra vez, con el ala a sus cristales
jugando llamarán.
Pero aquéllas que el vuelo refrenaban
tu hermosura y mi dicha al contemplar,
aquéllas que aprendieron nuestros nombres...
ésas... ¡no volverán!”
Gustavo Adolfo Bécquer
Nunca é um homem forte. Tampouco jovem. O tempo é
representado por um velho, magro, fraco, alquebrado pelos anos,
de longas barbas brancas até o peito. E sempre severo e implacável como, geralmente, são os velhos!
Nada é mais sério do que o passar implacável do tempo.
Mas, apesar de velho, é tão poderoso que ninguém o resiste. Impassível, diante dele passam homens, costumes, culturas e civilizações; ignora justiças e injustiças, verdades e mentiras; acaba
com modismos, reinados, ditaduras; desmistifica teorias, dogmas e doutrinas. Frio como uma pedra, termina com a juventude,
a inocência, a beleza, a ingenuidade, a paixão, o entusiasmo e
até com as dores. Faz monumentos, espinhos e rosas terminarem
no pó do esquecimento. O próprio bronze dos bustos e estátuas,
nas praças e nos cemitérios, que enganaram até o poeta Quintana
(“O erro em bronze é um erro eterno!”) nada tem de eterno. Primeiro, murcham e secam as coroas de flores; depois, o próprio
bronze se deteriora no esverdeado azinhavre dos óxidos e dos
sulfatos. Tudo e todos ele derrota na invencível estratégia da espera paciente do dia a dia, sem pressa, mesmo calçando botas de
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sete léguas, porque o seu passar é inexorável. Diante dele tudo
se apequena, torna-se insignificante, perde a cor: os rancores, os
problemas, as alegrias, os amores... Até a saudade, que parece
aumentar com o passar dos anos, também termina como a fogueira que vai se apagando aos poucos, por falta de lenha. Faz o
mesmo que a distância que se diverte em diminui vultos, objetos
e paisagens. As estrelas, tantas vezes maiores do que o sol, não
parecem, assim vistas de longe, insignificantes vaga-lumes?
Quando a tragédia parece tão enorme que nem uma luz
de esperança diminui a escuridão que nos envolve, só sombras,
só dores, só prantos, com o passar do tempo já não é tão assustadora assim. Também o sofrimento o tempo consegue reduzir.
Porque assim como não há bem que não acabe, também não há
mal que sempre dure. A tristeza também tem fim, expulsa como
a noite pela aurora.
O Tempo
O tempo, ninguém segura;
o tempo, ninguém ataca.
Não há força na Terra
que consiga detê-lo;
não há dinheiro no mundo
que compre dele um segundo!
E quando menos se espera,
Chegou o fim da viagem;
chegou a hora da morte,
insubornável.
E. F.
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“MARCAS DO TEMPO”
O Dr. Aureliano de Figueiredo Pinto, médico formado
pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre,
nasceu em Tupanciretã em 1898 e faleceu em Santiago do Boqueirão em 1959, aos 61 anos de idade. Escreveu dois livros de
poesia: “Romances de Estância e Querência: marcas do tempo”
(1959), editado vinte dias antes de sua morte, e “Romance de
Estância e Querência II – Armorial de estância e outros poemas” (1963). Sua bibliografia literária se completa com um romance: Memórias do coronel Falcão, concluído em 1937, publicado em 1973, em edição póstuma.
“Romance de Estância e Querência – Marcas do
Tempo” – é a sua obra-prima, inconteste. Com simplicidade divina, com a perfeição da forma – impossível modificar uma vírgula – colocou nos seus versos, com lirismo e poesia, os sentimentos mais puros da alma humana.
“Romance de Estância e Querência –- Marcas do
Tempo”, são lamentos, são cicatrizes de ferimentos que a vida,
ao poeta lhe causou. Os sofrimentos ficam gravados mais na
alma que no couro, como a saudade de alguém, muito querido,
que a morte – cedo, muito cedo! – nos roubou:
“...................................................
Reconciliemo-nos, velho Inverno!
Nem és tão rude! Tão frio não sou...
Venha um abraço muito fraterno.
Olha...
Esta lágrima que rolou
não a repares...
É de homenagem
a alguém que aos céus se fez de viagem,
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e nunca... nunca! Nunca mais voltou...”
(Aqui estou, senhor inverno – Aureliano de Figueiredo Pinto)
“Marcas do Tempo” são lembranças que enchem de melancolia os corações dos velhos, nas frias tardes de inverno,
“quando a perna velha quebrada / e esta costela emendada / se
param mais delicadas / do que tecla de cordeona”. O peito, porão
da alma, se alaga de saudade de gentes, vozes, lugares, afetos;
de bichos, de prendas de estimação: adagas punho de ourives,
relógio casca de ouro, chilenas de aço temperado, com bordados
na roseta, que no sapatear de um fandango lembram sinos a cantar. Sonham com passadas madrugadas de lua, estrelas, pala, tirador, badana; laço, boleadeiras, aperos, cavalos... e as moças
daqueles tempos!... Ah! as moças daqueles tempos!
“...........................................
E as moças daqueles tempos!
E mais não digo... e me calo.
Do Espinilho ao Capão-Ralo
quanta antiga devoção!
Canchas... Bailes... E ajutórios...
Parei!...
... Tenho algo nos olhos!
E um cerro no coração...”
(Recuerdos de tapejara - Aureliano de Figueiredo Pinto)
Lágrimas nos olhos... tristeza no coração.
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UMA VIAGEM DE SONHO
(Para Amélia Sartori Corsetti, mais conhecida por Maria Luiza,
in memoriam)
Corria o ano de 1920, numa Caxias provinciana nos albores da sua história. A menina Maria Luiza, nos seus dez para
onze anos de idade, não conseguia conciliar o sono. Na madrugada do dia seguinte começaria a maior aventura da sua vida: a
viagem para a praia de Torres, desconhecida e misteriosa como
foi o oceano para os marinheiros de Cristóvão Colombo. Parecia
tão longe! Cento e setenta quilômetros eram infinitos para a criancinha encarapitada no seu petiço pernas curtas. O mesmo que
viajar para uma estrela! Agora, voando nas asas do sonho e da
saudade, descobre que setenta e quatro anos é bem mais perto,
pois num segundo ela volta para lá.
Já nos dias que antecediam a partida, a família preparava
o pão de forno, as carnes salgadas e defumadas, charque, derivados de porco. Em latas bem vedadas ia o açúcar, o sal, o café,
as marmeladas, os biscoitos, o arroz, o feijão, a banha, a farinha
de trigo, a farinha de milho, o toicinho – os mantimentos para
mais de trinta dias de veraneio. E milho para os animais se alimentarem durante a viagem.
Os cavalos foram ferrados. A mulinha do andar da sua
mãe e os burros de carga, apenas aparados os cascos, e já estavam prontos para percorrer grandes distâncias. Cinco burros levariam as cargas, acomodadas em grandes bruacas de couro cru.
Antes de clarear o dia foi acordada pelo barulho dos últimos preparativos: vozes alegres, ordens apressadas, bufidos de
cavalos e o agradável ruído dos talheres sendo postos sobre a
mesa para o café da manhã. Por vários dias seria o último dentro
de uma casa.
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Da Casa Branca, perto de Vila Seca, partiu a caravana
num belo dia de verão. Na frente, o “Seu” Guerino, montado no
grande cavalo douradilho, seguido pela Dona Santina que ia na
mulinha tostada. Depois, a negra Luíza, e ela, no seu cavalinho
zaino. Seguiam os tropeiros que tangiam a tropilha de cinco cargueiros abarrotados de carga. Bem adiante, viajava o seu irmão
Sirilo, um ano mais velho do que ela, com sua espingardinha ao
ombro, precedido pelo inseparável perdigueiro.
Foram cinco dias felizes, viajando numa paisagem dourada de sol, sem barro nem poeira pois os pastos cobriam toda a
terra como um imenso tapete verde semeado de banhados. Cavalgavam até o meio-dia, ou até a uma hora da tarde e paravam
no primeiro capão de mato que servisse para acampar: sombra
boa, água fresca e pasto para os animais. Comia-se pão, salame,
queijo, farofa de galinha, paçoca de charque e, depois de atender
à cavalhada dando-lhes milho e água e colocados na soga para
pastar, a tarde virava divertido piquenique. Seu pai seguia adiante, procurando a casa de algum fazendeiro onde poderia comprar um frango ou uma galinha para preparar a refeição da noite,
a mais importante do dia. Geralmente era arroz com galinha ou
massa temperada com molho de caça. O Sirilo ia atrás das perdizes e raro era o dia em que não voltava com meia dúzia delas
no pindurico, um que outro perdigão, um tatu ou uma mulita que
iam reforçar a janta da comitiva eternamente esfomeada.3 Como
dá fome o ar livre!
Depois da janta, ficavam todos acomodados ao redor da
fogueira, recordando as peripécias do dia. Mais tarde era a vez
dos experientes tropeiros , curtidos de tanta estrada e fumaça,
narrar “causos” de tesouros escondidos, animais bravios, cobras
venenosas e histórias de assombrações. Era quando a menininha
parava de bulir nas brasas que tanto a fascinavam e se aproxi52
mava, prudente, da mãe. Olhos arregalados e ouvidos atentos devorava as palavras simples e pausadas dos tropeiros, que a noite
as vestia de mistério. Alimentava sua imaginação criadora que
iria povoar de sonhos bons as suas noites, até a velhice. A riqueza da vida onírica é a maior garantia de equilíbrio emocional,
por elaboração dos dolos. É o lamber os ferimentos das peleias.
E que os soníferos suprimem.
Ao acordar, no meio da noite, dentro do aconchego da
barraca, junto com os pais, o barulho do milho sendo quebrado
pelos dentes dos cavalos a fazia adormecer novamente, embalada por atavismo da raça. (A pessoa normal, e os animais em
geral, só adormecem em ambiente em que se sentem seguros. O
cavalo, à mão, representa a eficiência do ataque... ou a segurança
da fuga).
De manhãzinha, bem cedo, ainda escuro, os animais já
encilhados, secos e mornos mesmo no sereno, estavam prontos
para reiniciar a viagem. Qualquer resto de sono era dispersado
pela aragem impregnada com o aroma da madrugada, como neblina ao vento. Em direção aos albores do novo dia viam surgir,
no horizonte, o esplendor do sol nascente, iluminando a paisagem despovoada, sem cercas, tudo verde até onde alcançava a
vista. (De Caxias a Torres viaja-se em direção ao Oriente).
Água para beber? Qualquer riacho servia, pois a palavra
“poluição” ainda não tinha entrado nas suas vidas e os defensivos agrícolas eram desconhecidos.
A lúcida e simpática senhora de oitenta e quatro anos de
idade, ao lembrar estas viagens da sua infância distante, com sua
família tão amada, não esquece os pequenos detalhes que dão o
cunho de veracidade. Os pratos eram de alumínio em vez de esmaltados como era o costume na época. Lascavam menos e eram
mais leves, justifica. Lembra o dia em que o seu cavalo ficou
preso num atoleiro, ao atravessar um brejo alagado. E a vez em
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que o Sirilo foi corrido do acampamento por trazer um lagarto
para ser preparado.1
Seus olhos umedecem ao lembrar aqueles dias felizes da
infância, que não voltam mais. De tanto verde que entrou pupilas
a dentro, seus olhos brilham com a luz verdoenga das paragens
serranas, saudosos daquelas madrugadas perfumadas de primavera, de grilos, manhãs luminosas de sol e corruíras, e das longas
tardes vermelhas, povoadas de cigarras. “Escute!” – interrompe
ela – “é o sabiá-laranjeira cantando, tristonho, despedindo-se do
dia”. (Naquele momento ouço o canto de um sabiá vindo do
fundo do seu quintal).
Saudade do passado? Sua voz enrouquece ao falar do seu
cavalinho marchador: “Como eu gostava do meu cavalinho zaino!” Também não esquece a emoção imensurável de se deparar
frente a frente com um puma, na descida da Serra da Pedra
Branca, numa trilha cortando a macega montanha abaixo: “Ele
ficou nos olhando com seus olhos amarelos. Quando viu que não
paramos, saltou para o mato e desapareceu”. Acrescenta encantada: “Como era maravilhoso na sua força e liberdade selvagem,
tímido e arisco, totalmente inofensivo como um gatinho” desmistificando as justificativas dos pseudo-caçadores para exterminá-los por ferozes. (A única justificativa para matá-lo é a competição pela comida: se ele come minhas galinhas, eu o mato!
Só por isso, será extinto).
Ao contar como era a descida da serra, por trilhas estreitíssimas beirando abismos profundos, em fila, um atrás do outro,
recorda os gritos que costumavam dar para avisar os que vinham
em direção contrária: “Ooooooh! Oooooh!” Que repercutiam
nos paredões da serra, multiplicados pelo eco. Mais que avisos,
eram a expressão da pura alegria de viver na liberdade dos espaços abertos, como as andorinhas. Comovida, confessa: “Me parece ver o meu pai, a cavalo, de botas de cano alto como usavam
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os serranos, mãos em concha, na boca, lançando seu brado que
ecoava ao longe. E a alegria do Sirilo e a minha, gritando de puro
prazer. Ainda agora ouço esses gritos ecoando dentro da minha
cabeça!”
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“CAPITÃO” JOVINO
– “Quando tu for comprar carne, escolhe sempre a mais
gorda” – recomendava o falecido “capitão” Jovino, avô da minha esposa. “Se tu não gosta da graxa, deixa de lado e come só
a carne. É melhor: mais gostosa e mais macia”.
Mesmo sem estudos, o “capitão” Jovino Pereira de Quadros era um sábio. Carne gorda provém, quase sempre, de animais jovens e sadios. Quando ficam velhos, emagrecem, já que
perdem os dentes. No gado, carne magra é sinal de fome, velhice, esgotamento ou doença. Quando um boi se acidenta, ou dá
a peste num rebanho, abunda o charque.
O mesmo dizia em relação a ovos. “Quando andares de
viagem, e entrares num restaurante de higiene duvidosa, peça
ovos fritos. Ovo não mente: ou é bom ou está estragado. E se
tiver algum micróbio, a banha quente se encarrega de matar os
bichinhos”. Aconselhava nunca parar numa casa onde se via cachorros magros. É sinal que a comida é escassa. Mais tarde,
lendo o “Martín Fierro” do José Hernández, descobri onde ele
colheu este conselho: “Jamás llegues a parar ande veas perros
flacos”. Saber recolher o que é valioso, também é sabedoria –
segredo de garimpeiros, função dos educadores.
O “Capitão” Jovino sempre foi muito respeitoso com as
pessoas. Tratava por “senhor”, mesmo os jovens. Com referência a comportamento social, dizia ele:
– “Sempre se chega a uma pessoa com jeito. Pois se até
o cavalo tem o seu lado de montar!” O homem tinha experiência
com cavalos! Passara boa parte da sua vida montado, repontando
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gado de cima da serra – Bom Jesús, Cambará, Jaquirana – para
o seu açougue em Torres. De fato, a maioria dos cavalos são
domados por domadores destros, que acostumaram o animal a
serem abordados pelo lado esquerdo. O primeiro pé que entra no
estribo é o esquerdo.
Para viver muito tempo, dizia ele, é preciso saber quem
é inimigo e quem não é: “Inimigo que se conhece não é mais que
meio inimigo”. Um grande segredo de saúde – física e metal –
é saber com segurança quem é amigo e quem é inimigo.
O “Capitão” Jovino entendia muito de metereologia prática. Previa, com muita segurança, se amanhã seria tempo bom
ou não, se faria vento ou calmaria: “Céu pedrento, ou chuva ou
vento” – dizia ele. “Cerração baixa, sol que racha” – completava.
Certa ocasião, à tardinha, tomando o costumeiro chimarrão diante da sua casa, em Torres, fiz a observação casual de que
provavelmente choveria no dia seguinte.
Ele entregou a cuia, levantou da cadeira de palha, caminhou até a beira da calçada e esquadrinhou os horizontes em todos os sentidos: primeiro, a serra - o “chovedouro”, depois, o
mar, o sul e por fim o norte. Voltou ao seu lugar e, cofiando os
longos bigodes grisalhos, sentenciou pausadamente:
– Amanhã não chove!
Só para contrariá-lo – quem sou eu para entender do
tempo? – retruquei:
– Aposto que amanhã vai chover.
Apostamos uma latinha de compota de pêssego, sua sobremesa predileta.
No dia seguinte, ao acordar bem cedo para ir ao hospital
visitar os doentes, deparei com um tempo cinzento, de chuvisqueiro fino. O tal de chuvisqueiro de molhar bobo: bem fraquinho, mas se alguém ficar muito tempo debaixo dele, molha até
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os ossos. Quando chega a molhar o couro do cachorro, então é
chuva muito forte.
Passando defronte à casa do “Capitão”, vejo-o sentado
na sua cadeira, na calçada, como sempre, tomando chimarrão.
Só que desta vez estava de chapéu e casacão.
– O senhor perdeu a aposta, “Capitão”. Está chovendo.
Ele, mesmo molhado, não se deu por vencido. Passou a
mão nos bigodes, amarelados pelo alcatrão da fumaça do inseparável palheiro, e disse:
– Não! O que é isso! Não é chuva, não! É uma cerraçãozinha que não demora, levanta.
Conhecendo-o como o conheci, vi que não estava mentindo. Na sua ânsia de não perder a aposta, convencera-se de que
não era chuva, mas garoa: “Não demora, levanta.” Bem como
faz a mãe extremosa, alucinada pela morte da filha: “Ela foi viajar. Não demora, volta”.
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MEMÓRIAS DO
“SEU” ENEDIR
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Enedir com seu peixe às costas... “tão grande e tão belo que suas
escamas pareciam nacarados botões de madrepérola...”
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GENEALOGIA
José Antonio de Quadros
(Filho de portugueses, veio de Laguna para receber uma sesmaria na região
de Capão da Canoa. A ele se deve o nome de Lagoa dos Quadros)
Ignácio Araújo de Quadros
José Ignácio de Quadros
(Herói da Guerra do Paraguai – Alferes Porta-Estandarte da Cavalaria)
Jovino de Quadros Jovita Julieta Ignácio Rodrigues de Quadros
(Avô paterno da Iara,
esposa do autor
(Nascido em Bom Jesus então
então distrito deVacaria)
Enedir Pereira de Quadros
Anacleto de Quadros
(Sogro do autor)
Evanise
Morgana
Eduardo
Elohá
Átila
Iara
Fabrício
Júlia Carolina
Lorenzo
Adroaldo
Rivana
Pedro
Ramiro
Artur
Em negrito: linhagem da esposa do autor, Iara de Quadros
Festugato.
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Foi a partir do vale das Três Forquilhas que se iniciou a
povoação da região de Torres, feita, principalmente, por
descendentes de portugueses, alemães, italianos, poloneses,
negros, indígenas e japoneses. Os primeiros sesmeiros chegaram
no século XVIII, entre eles José Antonio de Quadros, um dos
mais conhecidos colonizadores, que emprestou seu sobrenome à
grande lagoa existente na região, a Lagoa dos Quadros.
Em 1752, casais de açorianos chegaram ao Rio Grande
do Sul, desembarcando no Porto de Dorneles. O município de
Capão da Canoa, que hoje faz parte da região do litoral do estado, tem como origem a Sesmaria das Conchas, que por volta
de 1800 pertencia a Inácio Araujo de Quadros,.
(Pesquisa de Leandro Quadros Fochesatto, neto de Anacleto de Quadros e bisneto do herói da Guerra dos Farrapos,
José Ignácio de Quadros).
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ESCRAVO VENDIDO
“Seu” Enedir, nascido em Cambará do Sul, antigo
“Campo Bom”, quarto distrito de São Francisco de Paula há
mais de noventa anos, tem uma visão muito especial da vida, dos
homens, dos bichos e das coisas. Morreu pobre, mas nunca abriu
mão da dignidade e o amor pela verdade. Pôde, alguma vez,
equivocar-se – tinha a paixão pelo jogo no sangue – jamais mentir.
Fala Seu” Enedir
O meu avô paterno, esse que lutou na Guerra do Paraguai, José Ignácio de Quadros, foi quem deu o nome à Lagoa
dos Quadros18. É Lagoa dos Quadros porque os Quadros, ou
seja, os meus avós paternos, pais dos meus pais, moravam em
Torres, na Lagoa dos Quadros. É lógico que já existia morador
por lá – desde que o mundo é mundo o homem vem se espalhando por toda a parte – mas foi o que deixou a sua marca. Era
muito conhecido por ter lutado na Guerra do Paraguai. Eu acho
que a Lagoa dos Barros também tem este nome porque os moradores deveriam ser da família Barros. Eu acho. Então, esse meu
falecido avô paterno, o José Ignácio...
– O senhor o conheceu?
– Muito. De perto.
– Como era ele?
– Era alto, bigodudo, calmo e de boa palestra.
18 Pesquisa genealógica recente, feita pelo Dr. Leandro de Quadros Fochesatto, indica
ser José Antonio de Quadros, avô do José Ignácio de Quadros, o morador que legou
seu nome à Lagoa dos Quadros.
63
– O que o senhor se lembra mais dele?
– Lembro que era muito calmo para falar e muito respeitado por todos. Também tinha muito escravo.
– Tinha escravos?
– Tinha escravos. Negociou escravos. Ganhou muito dinheiro com isso. Ele ficou inimigo de um vizinho por causa de
um escravo. Veja bem isso aí. Isso é notável! Era amigo desse
vizinho, que era “sinhô” também e que tinha os seus escravos.
Moravam perto um do outro.
Esse vizinho, um dia, foi lá no meu avô e batalhou que
queria comprar um escravo dele. “Mas tu tens teus escravos, que
é que tu quer com meus escravos?” “É que eu me simpatizei
muito com ele.”
– Ele queria comprar o escravo do seu avô?
– Sim, ele queria comprar pra surrar, como surrou. Veja
bem como é que aconteceu. Então, vai pra cá, vai pra lá, meu
avô disse: “Eu não estou te entendendo. Tu tens os teus escravos,
que é que tu quer com o meu?” “Esse negro é um negro diferente
dos outros. Eu me simpatizei com esse negro. Nós somos amigos, me vende esse negro! Me faz o preço!” Até que no fim, por
insistência dele, meu avô fez o preço. Por insistência dele. E vendeu o negro.
Que é que ele fez? Amarrou o negro num pessegueiro,
bem amarrado, e mandou outro escravo açoita-lo, passar o arreador nele. Surrou de verter sangue!
– Por que ele surrou?
– Porque passou por ele e não cumprimentou! Só por
isso. “Eu vou te ensinar que quando tu passar pela frente de um
branco, tu tem que cumprimentar!”
– Será que era assim mesmo? Será que não há muita conversa sobre esse assunto? Parece impossível que existiu gente
tão ruim!
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– Foi o meu avô quem contou. Meu avô saiu de revólver
em punho pra matá-lo. Meu avô era muito respeitado e temido
por todos. Mas ele fugiu. Não sei quem é que avisou e ele fugiu.
Ficaram inimigos.
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“CORONEL” SEVERIANO
Criado nos moldes de antanho, o “Seu” Enedir jamais
mentiu. Talvez não por virtude, mas por total incapacidade de
fazê-lo, uma vez que não foi habituado a isso. “O meu falecido
pai dizia: ‘Olha, meu filho. Mesmo que tu te prejudique, não
minta! Tu fala sempre a verdade, mesmo te prejudicando’.”
Nas culturas primitivas, como também no interior do
nosso Estado do Rio Grande do Sul (fora criado no interior do
município de São Francisco de Paula quando se chamava Campo
Bom) quando ainda preservado das influências modernistas e
modistas da televisão, a mentira era olhada como gravíssimo defeito. Mais desprezível até que o homicídio e só comparável à
covardia – defeito máximo.
Na preocupação de não se afastar da verdade – tem pavor
dos exageros – peca, talvez, por humildade: “Para não perigar a
verdade, vamos deixar pela metade”. Ou: “Vendo o peixe pelo
que me custou.”
Discorrendo de como é comum a mudança do caráter e
do temperamento com a idade – geralmente o mau na juventude
fica beato na velhice – contou-me o caso do falecido “Coronel”
Severiano.
***
O “Coronel” Severiano, falecido há mais de quarenta
anos, conhecido pelo apelido de “Índio”, era famoso pela sua
crueldade. Baixo, retaco, mulato claro, cara de índio charrua, era
temido por todos. Nos tempos de Delegado – depois passou a
Intendente Municipal – era conhecido pelas sumantas de laço
que mandava aplicar nos seus adversários. E as mortes encomendadas, então!? Nem se fala! Está certo que durante a revolução
mandou degolar muitos qüeras, mas era a guerra, afinal! Mesmo
66
depois, como Delegado e Intendente, muitos foram os que mandou despachar desta para a outra vida. Até um filho do seu antecessor, o Joca, filho do Intendente “Coronel” Pacheco, mandou
prender e dar uma sova de “rabo-de-tatu”. Isso quase terminou
em desgraça. E das grandes.
Chupando o mate-amargo e fumando seu cigarro, diz o
meu sogro:
– Tu vê, Eduardo, como a gente muda com o tempo! Tão
tirano quando jovem, nos seus dois últimos anos de vida afundou
a estrada rumo ao confessionário!
Pensei cá com meus botões:
Que há de estranho na conversão religiosa dos ateus chegados à velhice? É fácil, ao impotente, bancar o virtuoso. A incapacidade para o assalto aperfeiçoa a defesa.
Mas, a verdade é que esta mudança significa apenas interesse em barganhar ou medo do castigo. Não interfere no
âmago do indivíduo que continua honesto ou desonesto, leal ou
traiçoeiro, correto ou mentiroso como sempre foi. Como disse
Ingenieros: “A velhice não põe flores onde só houve insignificâncias”.
67
“SEU” ATANÁSIO
O mecanismo da memória está sendo esclarecido pela fisiologia neurológica moderna. Por deficiência circulatória cerebral – aterosclerose senil – o ancião tem mais facilidade em lembrar fatos acontecidos no passado distante do que os acontecidos
na véspera.
Quando posso desfrutar as “charlas” descontraídas do
meu sogro, sempre consigo garimpar “flashes” de vida prenhes
de ensinamentos subentendidos, inconscientes e ocultos. Humilde como é, jamais teria a presunção de ensinar a quem quer
que seja.
Antes do almoço, bebericando uma caipirinha e sugando
o seu inseparável chimarrão, vai desfiando causos do passado,
instigado por mim.
Gabriel Atanásio
O primeiro proprietário do Hotel Farol, em Torres, foi o
finado Gabriel Atanásio. Era um nordestino muito valente, de
um braço só – havia-o perdido de um balaço, numa peleia.
De uma feita, na revolução de trinta, um destacamento
de soldados comandados por um coronel chegou a Torres. Eram
mais de 100 homens. Por ai. Uns cem homens, pra mais e não
pra menos.
Depois de bivaquear a tropa defronte onde hoje é o Hotel
Farol, os oficiais e sargentos procuraram o velho Atanásio. Perguntou um dos tenentes:
– Mas, seu Atanásio, o Hotel tem todo o conforto?
– Tem, sim senhor! – respondeu humildemente o interpelado.
68
– Tem mosquiteiros?
– Tem.
– E banhos mornos?
Aí, o “seu” Atanásio não se conteve:
– Olha aí, seu “bunda-mimosa”, se quer conforto fique
em casa e não se meta em revolução!
Foi preso por desacato à autoridade. Mas, como o hotel,
e principalmente a cozinha, não funcionava sem ele, foi logo libertado. O “seu” Atanásio sim que era homem valente!
Botas – Símbolo de domínio e poder
69
MELADO COM FARINHA
Continua o “Seu” Enedir
Em primeiro lugar eu quero dizer que o meu avô foi um
ser humano diferente dos outros. Eu não vi, até hoje, ninguém
fazer o que ele fez: mandar todo o ano, todo o fim de ano carnear
uma rês e servir pros pobres.
O meu pai era açougueiro. Nós fomos açougueiros por
mais de vinte anos. E isso eu assisti de perto. Ele pagava pro
filho, o meu pai – meu pai era o filho dele: “Quanto é o boi?”
Era tanto. “Tá aqui”. Tinha dinheiro da pensão dele e jurinhos
de emprestados por quase nada...
– Pensão?
– Ele tinha pensão da Guerra do Paraguai. Depois que ele
morreu, minhas tias receberam anos e anos, até morrerem. As
minhas tias. Os filhos homens, não. As mulheres recebiam até
morrer.
– E a história do negro que apanhou por causa do melado?
– Espera. Primeiro eu quero falar da bondade dele. Pra
vocês terem uma idéia do que eu vou contar, precisa, primeiro,
fazer esta explanação que estou fazendo. Muito bem. Então, ora
veja: Todo o ano ele pagava um boi pro filho dele, meu pai. Pagava pra distribuir pros pobres. Chegava lá, tal, “Oia, quantos
filhos tu tem?” perguntava pro chefe da família que vinha buscar
carne. “Três filhos”. “Tudo bem. Óia, três quilos de carne aí”. Já
outro: “Eu só tenho um”. “Tá, um quilo de carne”. “Tenho cinco
filhos”. “Cinco quilos de carne”. Até que consumia o boi. Chovia de gente. A pobreza já sabia e ia lá. Bem... o boi saía inteirinho, até os ossos. Não sobrava nada.
70
Pois bem. Então, eu já contei que ele era uma pessoa boníssima. E o que ele fez, fez. Na minha análise, fez por ser bom.
– O que é que ele fez?
– Eu vou contar.
Vinham os escravos de outras fazendas se visitar. Os escravos do meu avô iam lá no vizinho, nos amigos deles. Iam pra
lá, vinham pra cá. Os escravos se cruzavam nas fazendas... Amizades... (Faz uma cara de malícia sugerindo uma relação entre
“cruzar” e “procriar”). Assim como os “sinhôs” tinham suas relações, eles também tinham as suas amizades. Então, se visitavam.
Um dia, um negro do vizinho esteve lá na casa do meu
avô. Na volta, comentou pros seus patrões: “Olha, tudo muito
bem. Só que na sobremesa eles se esqueceram de mim. Eles não
me deram melado. Tudo muito bem, o almoço todo o mundo
comeu, eu também. Só que a sobremesa de melado eu não ganhei”. Veja bem. Isso foi aos ouvidos do meu avô.
Meu avô pensou: “Esse escravo vai me pagar. Talvez não
venha nunca mais aqui, mas pode ser que um dia ele apareça”.
De fato, um dia apareceu por lá. Meu avô pegou uma guampa de
boi franqueiro... Não sei se tu sabes, Eduardo, mas a guampa do
boi franqueiro é a maior guampa de boi que existe. Quase um
metro cada guampa! E dessa grossura assim (mostra, com as
mãos, um círculo de aproximadamente quinze centímetros de diâmetro). Tudo bem. Meu avô viu que o negro tinha chegado e
preparou a lição.
Depois de todos terem almoçado, deram sobremesa de
melado pra todos. Havia melado com fartura. Como eu já disse,
ele tinha uma guampa, daquelas de boi franqueiro, das maiores
que existe, desse tamanho assim. Encheu ela de melado. Depois
que todos almoçaram e o negro ia se levantar, ele botou a
guampa na frente dele e disse: “Não, não. Um momentinho. Tu
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agora não vai mais dizer que não comeu melado na casa do ‘sinhô’ Quadros. Tem melado aí pra tu comer à vontade”.
Botou a guampa na frente do negro e mais de meia quarta
de farinha de mandioca e disse: “Eu quero ver isso aí limpo,
heim! Tu não deixa nada aí!” Disse isso falando com o relho na
mão.
É curioso! Vocês vejam como é que foi se parar essa
coisa. Ele tinha que dar um jeito. O meu falecido avô ameaçouo com a açoiteira de lidar com o gado, um arreiador de couro
trançado, de uns três metros de comprido.
Tinha um corredor na casa, ao lado da sala. Me lembro
bem dessa sala. Era comprida, janelas sem vidros, só tampão de
tábuas. Mesmo de dia, quando o tempo piorava ou chovia, ficava
escura. Pelo menos em um lado dela deviam fechar as janelas,
por causa do vento. De noite, a luz era de vela feita em casa. De
sebo e graxa de boi. Lampião a querosene, só mais tarde. E o
“Aladim”, então? Foi uma verdadeira revolução: “Não faltam
inventar mais nada!” diziam os antigos. Era um lampião a querosene sob pressão. A gente bombava e dava uma luz nunca
vista, clara como o dia. Imagina, Eduardo, se eles adivinhassem
que o homem iria pisar na lua, como pisou!? Foi isso, não foi?
Eu às vezes até duvido...
Mas, voltando pro assunto. Havia um corredor ao lado
dessa sala. Ali ficou o meu avô, cuidando do negro com o rabo
dos olhos. Caminhava pra lá e pra cá, e dizia: “Eu quero ver isso
aí limpo, viu?” Bom, enquanto ele teve estômago, ele comeu.
Quando não teve mais estômago ele enfiava na camisa. Afrouxou bem a cinta e botava aquela paçoca de melado com farinha
pra dentro da camisa e das calças. É claro que o meu avô não ia
surrar ele... Nem podia. Afinal, o escravo não era dele, mas do
vizinho.
72
Quando terminou: “E daí? Comeu tudo?” “Comi tudo”.
“E como é que estava?” “Maravilhoso, ‘sinhô’ Quadros. Nunca
comi um melado melhor do que esse!” Montou e saiu a campo a
galope, botando tudo pra fora e vomitando. Chegou no primeiro
arroio, entrou água adentro pra se lavar. Ele tava cheio de melado e merda.
O meu avô alcançou ele e disse: “Óia, fulano” – chamou
o escravo – “agora tu vai lá pra casa do teu ‘sinhô’ mas nunca
mais tu vai dizer que não comeu melado na casa do ‘sinhô’ Quadros, hein!?”
73
AVÔ HERÓI (I)
Ferimento de guerra
Mesmo com toda a imparcialidade que queria aparentar
– jamais foi um homem preconceituoso – o meu falecido sogro,
Enedir Pereira de Quadros, não conseguia disfarçar o orgulho de
ser gaúcho. Seus pais eram originários de São Francisco de
Paula: a mãe, dos Pereira; o pai, da família Quadros. Entretanto,
o seu maior orgulho era ser neto de José Ignácio de Quadros, um
herói farroupilha.
José Ignácio de Quadros foi reformado aos 24 anos de
idade, no posto de Alferes Porta-Estandarte do Primeiro Corpo
Provisório de Cavalaria de Guardas Nacionais – 5a Companhia,
devido a um grave ferimento sofrido durante os combates de 11
de dezembro de 1868, na Trincheira de Humaitá. Sobreviveu a
uma bala de fuzil que entrou no peito e foi removida nas costas.
D. Pedro, “por graça de Deus e Unânime Aclamação dos Povos,
Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil”, condecorou-o com a Ordem das Rozas em 13 de maio de 1871, por
bravura, como reza o documento de condecoração em poder do
autor. Bravura, porque é preciso muita coragem para ser portaestandarte da cavalaria. Nas cargas, devia galopar na vanguarda
do Regimento, bandeira desfraldada atada na lança em riste –
alvo visado pelo inimigo desde longe. Enedir Pereira de Quadros, já falecido, refere ter ouvido o avô contar que nesses momentos de carga atava as rédeas na cabeça dos arreios, segurava
a lança da bandeira na mão direita e, na esquerda, a pistola de
dois canos carregada pela boca. Lembra que a técnica usada para
a recarga das pistolas era: primeiro, a espoleta, depois pólvora
preta (não existia a piquete e muito menos a branca), socada; a
seguir, uma bucha feita de pano; por fim, baletões de chumbo
74
misturados com raspas de chifre bovino, “pra envenenar o sangue do inimigo baleado”. Já os fuzis usavam cartuchos com balas “minete”. Foi o projetil que atingiu o Alferes José Ignácio de
Quadros e que ficou guardado como lembrança durante quase
um século.
Parece que Zulian Zini tem razão: ‘No es lo mismo, nacer
en qualquier parte’.”
75
AVÔ HERÓI (II)
Ainda Enedir Pereira de Quadros
O meu avô era um homem como hoje não existe mais. O
que ele dizia valia como documento. Ninguém ousava duvidar.
A medalha de ouro que ele ganhou na Guerra do Paraguai
foi por bravura. Ele era o porta-estandarte da Cavalaria e foi ferido numa batalha. O papel que ele recebeu do Imperador diz
que ele era intemerato, que não tem medo de nada. Sabe por que?
Isso eu me lembro porque ele me dizia e eu era bem pequeno,
mas já entendia das coisas, que só o peru morre na véspera. Se
era a hora dele morrer, ele morria. Não adiantava ter medo.
Na Ordem do Dia, que foi publicada, diz que ele foi ferido no peito. Foi ferido da seguinte maneira:
Era à tardinha. Um dos principais combates foi na trincheira de Humaitá, na Guerra do Paraguai. Foi um dos maiores
combates. Trincheira de Humaitá. Ele estava entrincheirado, era
à tardinha e os paraguaios vinham vindo e morrendo como formigas. Aqueles sim não tinham medo de morrer! Vinham pra
cima da trincheira e nós atirando neles e eles de peito aberto,
caminhando. Que é isso! Burros, né? O meu avô disse: “Eu
quero ver a distância que eles vem”. O Capitão Jovino, que estava contando a história, fez assim: levantou-se rapidinho e baixou. Conta que um minuto depois seu avô sentiu um calor no
peito e se viu todo ensangüentado. Já chamou os praças e foi
levado pro hospital. Esteve um mês hospitalizado, morre, não
morre; morre hoje, morre amanhã, e mal e coisa e tal, até que
escapou. Morreu com oitenta e três anos de idade.
– Um guri! (Risadas dos presentes)
– Um guri! (Risada do narrador)
76
Sabe qual foi o trabalho do médico? Fazer um cortezinho
assim (mostra um espaço de uns dois centímetros entre o indicador e o polegar), não sei se foi com bisturi ou faca mesmo, ou
com gilete. Sei eu lá! Parece que gilete não existia. Fez o cortezinho nas costas dele e tirou a bala.
A bala “Minete” esteve muitos anos guardada lá em casa.
Ficou forçando o couro das costas e não teve força pra sair. Atravessou o peito, bem no meio. Então, ele dizia: “Olha, o homem
não morre na véspera. É o peru que morre na véspera. Quando
não tem que morrer, é isso aí como aconteceu comigo, não morre
mesmo. E quando tem que morrer, um bicho de pé leva o homem
pra sepultura”. Um bicho-de-pé leva um homem pra sepultura!
Dá gangrena ou tétano. É isso aí.
Era alferes. Equivale, digamos, a um aspirante. Mais ou
menos isso aí. Equivale a um aspirante hoje.
77
NUVEM DE PAPAGAIOS
No Ford Modelo T do tio Ricardo, guiado pelo primo
Gaston iam, além do tio, o meu pai, então com quarenta anos de
idade, e eu. Talvez houvesse mais passageiros, mas não lembro.
Sei que minha mãe não estava junto e que o carro era vermelhoescuro - “grená” como se dizia - com paralamas pretos. Íamos
ao enterro de um parente, em Fazenda Souza.
Início dos anos cinqüenta. Estradinhas de terra unindo
vilas em viagens verdadeiramente magaleânicas. Levava-se horas para percorrer vinte a trinta quilômetros e, conforme o tempo
e o barro, um dia inteiro.
Na passagem sobre uma ponte de madeira, sempre
enorme e sempre estreita para uma criança, fura um pneu. Todos
descem para empurrar o veículo e desimpedir a passagem, menos meu pai que fica na direção.
– “No ‘guidon’ vai o Arlindo, que já foi mecânico em
Porto Alegre” – ordenou o tio Ricardo.
Depois de removido da ponte, o automóvel ficou estacionado no pátio de uma casa, na beira da estrada. Não havia estepe. Para ser consertado, o pneu foi desmontado e o furo colado
com remendo de borracha, a frio.
Estando absorto vendo o trabalho dos adultos, meu pai
me chama e, pela mão, me leva até a ponte. Mostra o vale totalmente coberto de pinheiros araucária, a perder de vista. E, bem
longe, no horizonte distante, mostra uma nuvem escura que se
desloca rio acima, seguindo o curso sinuoso do rio, vindo em
nossa direção.
78
– “Escuta, meu filho” – diz ele, num sussurro.
Já dava para ouvir a barulheira que os milhares de papagaios faziam, em algazarra crescente. Logo, uma nuvem escura
e ruidosa sobrevoa pai e filho, tapando literalmente o sol da manhã e desaparece rio acima, deixando, no ar fresco da serra, um
rastro de grasnidos cada vez mais fracos, até integrar-se com o
murmúrio das águas correntes do rio...
***
Já não lembro há quanto tempo isto aconteceu, nem minha idade na ocasião. Esqueci o nome do tio falecido e nem seria
capaz de localizar a antiga ponte de madeira, que certamente
apodreceu. Mas, jamais esquecerei a admiração e o espanto do
menino, mãos dadas com seu pai, olhando estupefacto a imensa
nuvem barulhenta, formada por milhares de papagaios verdevermelhos, revoando nos céus da minha infância. São quadros
nebulosos onde se destaca a figura do meu pai, ainda jovem, de
pé ao meu lado, olhar perdido no verde mar dos pinheirais imensos. São imagens esfumadas pela mesma nuvem de saudade que
agora me tolda os olhos...
Papagaio colorido,
verde, vermelho e azul...
79
“GARIBALDO”
No limite sul do nosso terreno havia dois casais de frangos d’água que habitavam a Represa São João. Não raro, pela
manhã e à tardinha, via-se as aves cruzando a rodovia de terra
para pernoitar na Represa São Pedro, mais em baixo. Eram, simplesmente, dois casais de frangos d’água passíveis de serem comidos. Um dia, um menino com sua funda acertou uma pedrada
na perna de um deles, que escapou da morte, mas ficou rengo. O
defeito físico diferenciou-o dos outros: ganhou personalidade...
e nome. Garibaldo, batizaram os netos. Na volta do consultório,
à tarde, era freqüente encontrar o Garibaldo cruzando a estradinha, claudicando, rengo como um pingüim, equilibrando-se com
suas asas como se fossem braços, rumo ao seu pouso. “Olha lá o
Garibaldo!” – diziam os netos, alvoroçados. Desde então, passou
a fazer parte do rol dos nossos afetos. Ficou tabu. Ai de quem
tentasse caçá-lo!
__________________
O crescimento populacional incrementa a agressividade
indispensável para conquistar um lugar ao sol. Uma maneira de
defender-se das agressões é buscar o isolamento individual – um
mecanismo natural de preparação para a competição franca e
cruel pela subsistência. É muito mais fácil eliminar ou agredir
um desconhecido do que um conhecido. Dói menos.
Os sentimentos repressivos e persecutórios, como o
medo do castigo, a culpa e o remorso, só se manifestam quando
o objeto é conhecido. Quem sofre por ter ofendido um hipotético
deus desconhecido, ou se martiriza por haver cometido um suposto pecado, precisa de um padre confessor ou da ajuda de um
80
psiquiatra, porque a vida nada ensina a quem não quer aprender.
Os maiores remorsos nascem da traição a pessoas muito amadas.
O de Judas foi tão grande que o levou ao suicídio.
Talvez o sofrimento máximo seja o remorso de ter matado um filho. Os psiquiatras consideram o maior luto o suicídio
de um filho, porque sugere alguma culpa dos pais – hostilidade,
isenção, indiferença, omissão: surdez da alma ao não escutar os
pedidos de socorro de uma alma em sofrimento. “Ele confiava
em mim e eu não o ajudei!” O dramático é a irreversibilidade do
fato: não há como se arrepender e voltar atrás, porque a morte é
o acontecimento mais irreversível que existe. Daí a supervalorização da ressurreição e da vida eterna.
_______________________
No limite sul do nosso terreno havia dois casais de frangos d’água... mas que hoje não existem mais. O Garibaldo seguiu o caminho das saracuras que vinham, no pátio, comer milho
com as galinhas: foi comido por uma criança com fome, moradora da favela. Teve o mesmo destino da veada com seu filhote,
que morava na beira da Represa da Maestra; da capivara e dos
bandos de jacus, hoje desaparecidos.
O ser mais perfeito e mais sublime que existe na face da
Terra, também é o mais perigoso: com fome, o homem come até
os seus semelhantes.
A fome é a maior inimiga da ética, da moral, da ecologia... e da compaixão.
81
ARTE ABSTRATA
(Para o Roberto Guzinski, "in memoriam")
Allto, bem apessoado, sempre alegre e extremamente simpático como são todos os “bon-vivant”, o Beto, tio da minha esposa, fazia amizades com extrema facilidade. Tinha um encanto
que cativava qualquer um: era valente, o autêntico valente que
não treme a perna diante do perigo. Isto ficou provado quando
ele e a sua esposa Geneci foram assaltados altas horas da noite.
Diante dos revólveres dos bandidos, já despojados do dinheiro e
das jóias, o Beto disse a coisa mais séria de toda sua vida: “Levem o que quiserem, menos ela. Pra levar minha mulher vocês
têm que me matar primeiro!” Assim justifica a sua conduta: “Todos têm que morrer, um dia. Eu pensei naquela hora: o meu dia
é hoje!” O tiro acertou bem no meio do peito, transfixou o osso
esterno e se alojou no lado da coluna torácica. Não atingiu nenhum órgão vital, nenhum vaso importante, mas alguma coisa
pegou, pois sofreu uma toracotomia que quase o partiu pelo
meio.
Aconteceu o mesmo com o bisavô da minha esposa, José
Ignácio de Quadros. Na Guerra do Paraguai, em dezembro de
l868, levou um balaço no peito, bem no meio, como o Beto. Só
que não era de revólver trinta e oito, mas de fuzil. A bala, que
ficou guardada como relíquia por muitos anos, fez saliência no
couro das costas e foi removida por um cortezinho de poucos
centímetros. Ele costumava dizer: “Olha, o homem não morre
na véspera. É o peru que morre na véspera. Quando não tem de
morrer, é isso aí como aconteceu comigo: não morre mesmo! E
82
quando tem que morrer, um bicho-de-pé19 leva o homem pra sepultura. Um bicho-de-pé leva um homem pra sepultura! Dá gangrena ou tétano”. Era porta-estandarte da Cavalaria. Ficou mais
de um mês hospitalizado, morre, não morre, até se curar. Morreu
com oitenta e três anos de idade. O Imperador D. Pedro II condecorou-o com a “Ordem das Rozas”.20
Talvez seja por isso a imensa
sede que tem o Beto de viver, de experimentar todos os prazeres da vida. “Se
esta vida é ruim, que continue assim
por mais trinta dias!” gostava dizer,
todo lambuzado de churrasco e faceiro
de tanto tomar Chopp, sua bebida predileta. Numa aposta, conseguiu beber,
sozinho, trinta litros durante uma
tarde!
Brasão do Império
Ele, que foi o maior festeiro que
conheci, sempre rodeado de amigos, de um momento para outro
ficou sozinho. Confirmou o que diz o colono italiano quando
afirma que “chi cade in povertà o en poverella, perde l’amico e
anca la parentela.”21 Foi quando andou meio mal de “grana”,
coisa que acontece para todo mundo, pois a vida é feita de altos
e baixos – às vezes mais baixos do que altos... “Quando se está
dando um vôo rasante na vida, os amigos fogem como se estivesse com a peste bubônica!” advertia ele, repetindo as palavras
de Élbio Branda. Viu que existem dois tipos de amigos: os que
19 Bicho-de-pé = “Inseto cuja fêmea, fecundada, penetra na pele”. Minidicionário
Aureliano.
20 FESTUGATO, Eduardo. Torres de Antigamente. Caxias do Sul (RS): EDUCS, 1994.
p. 92. Documento em poder do autor.
21 “Quem cai em pobreza ou penúria, perde o amigo e também a parentela”.
83
são para as festas e os que são para as festas e também para as
dificuldades. Uma pena que estes últimos sejam tão poucos!22
Desde aquela época ele não come ovo nem por decreto.
Não quer lembrar o tempo em que ficou vários meses almoçando
e jantando sempre a mesma coisa: ovo mole com arroz branco,
por ser barato. O ovo era cozido na água porque não tinha dinheiro nem para comprar o azeite.
Quando falávamos por telefone, ele de Porto Alegre, eu
daqui de Caxias do Sul, era infalível ouvir esta indireta: “Que
saudade duma carninha!” Então, íamos visitá-lo levando um
“costilhar” inteiro de “poliango” que o Susin importava do Uruguai. O “costelaço” era a especialidade do Beto: ficava ao redor
do brasedo, bebendo suas cachaças com todo o tipo de ervas –
sua predileta era o boldo – durante mais de quatro horas. Quando
servia, os ossos saíam limpos e inteiros, “alumiando” de tão
brancos. Nem precisava faca, pois a carne ficava tão macia que
se destacava, aos bocados, com os dedos.
***
Numa galeria central de Porto Alegre – Galeria Pancetti –
havia uma exposição de pintura moderna, a tal de Arte Abstrata:
facão sem cabo que perdeu a lâmina.23 Ele, que nunca na vida
pegou num pincel a não ser para pintar paredes, resolveu expor
os seus “trabalhos artísticos”. Pintou seis quadros da maneira
22 Com referência a este assunto, falando sobre a época da “Legalidade”, assim conta
Antônio Augusto Fagundes (Nico) no seu livro Novos causos de galpão, na página
40: “Dias antes o Brizola visitara um CTG na Zona Sul (P. Alegre) e ficara impressionado com a presença de mais ou menos mil tradicionalistas. Ao começar a Legalidade, cinco gaúchos desse CTG se apresentaram no Palácio. Só cinco! Vai, então, o
governador perguntou:
- Mas e os outros? E aquela multidão que me recebeu lá, duas ou três semanas
atrás...?
- Aqueles são de dança. De peleia, semo só nóis – disse um deles, bem sério”.
23 “A arte abstrata, para ser apreciada, necessita detetivismo estético”. Cesarini.
84
mais absurda possível: esfregando pincéis a esmo, empapando
papel na tinta e pressionando-o na tela, jogando tinta e espalhando-a com os dedos e assim por diante. A grande dificuldade
foi comprar as molduras, estas sim bem caras, mas "bonitas
como dinheiro achado em pouso".
Contou o Beto que o maior problema era conter-se para
não rir quando, nos bastidores da galeria, ele, ouvia os comentários dos apreciadores: “Que maravilha! Que talento! Veja esta
espiral que parece sair da alma do artista!” O que impressionava,
de fato, era a assinatura: Guzinski, o seu sobrenome verdadeiro.
Talvez o público pensasse ser um estrangeiro, um russo, quem
sabe lá! O fato é que vendeu quatro quadros a bom preço. Gastou
todo o dinheiro em Champanha e churrascos fenomenais que duravam até dois dias com o braseiro sempre aceso. Depois, tomava uma caneca de chá de boldo – santo remédio! – curando
logo a indigestão e a ressaca.
Dos dois quadros que sobraram da exposição, um ele me
deu de presente. Era um estupor de cores vivas, com círculos
concêntricos, que eu já nem sabia mais onde colocar. Acabei
usando para fazer tiro-ao-alvo de carabina, com sua participação. Os círculos berrantes eram visíveis desde longe – “espiral
saindo da alma do artista”. Aproveitei apenas a moldura para colocar, nela, uma fotografia.
85
VÓ EMÍLIA
Dalva Maria
Festugato Maschio
A pessoa com quem eu mais convivi foi minha mãe.
Há 54 anos ela me teve quando completava 32 anos de
idade. O terceiro filho vivo. Uma menina depois de dois guris,
serviu para renovar e retomar o nome da primeira filha falecida
aos sessenta dias de vida: Dalva Maria. Mais dois meninos vieram depois completar a família de sete pessoas.
Desde lá vivemos juntas, enfrentando as dificuldades e
festejando as vitórias. Muito mais minha amiga do que minha
mãe.
Foi com ela que aprendi que as roupas devem ser usadas
até o fim e quando estiverem feias demais, ainda podem ser renovadas quando refeitas pelo avesso do tecido escondido durante os anos de uso.
Também foi com ela que aprendi que a comida que hoje
sobra, amanhã poderá ser transformada em iguaria muito mais
gostosa do que foi ontem. Basta que se acrescente uma salsinha,
um ovo batido, um tempero diferente e já a carne vira croquete
que delicia a quem a prova. Nada de creme de leite, azeitonas,
palmito. São coisas muito caras e alteram demais o sabor.
Foi com ela que aprendi a ver que o Dorva era um cara
legal.
A minha casa sempre cheia de rapazes: meus irmãos e os
muitos amigos de meus irmãos, era uma festa para minhas amigas. Para mim, acostumada com eles, nem dava bola. Um dia,
então, ela me disse: “Dalva, olha o Maschio, que cara legal que
ele é”. Acho que ela começou a perceber, antes do que eu, que
ele vinha todos os dias, depois do almoço, para visitar o Beto em
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sua oficina que ficava embaixo de nossa casa. Mas que, por semanas a fio, ele subia e ficava na cozinha conversando conosco
até a hora em que saía para trabalhar, bem pertinho de nossa
casa, no escritório dos Nora.
A partir dali comecei a ver o “Dorva” com olhos diferentes. Alguns anos depois, nós nos casamos.
Muito mais coisas aprendi com ela.
Meu falecido pai era igual a uma choca. Queria seus pintinhos todos ao seu redor. Ainda em vida, fez a divisão do terreno onde morávamos de forma a dar a cada filho um lote onde
pudesse construir sua própria casa. Em poucos anos, o lugar encheu-se de crianças transformando o pátio em uma grande Escola Maternal onde os mais velhos ensinavam aos pequenos as
artes sabidas, para tristeza dos vizinhos.
Como morávamos todos pertinho, todos aprendemos
com minha mãe como é bom chegar em casa e encontrar alguém
nos esperando com um bolo ou uma comidinha gostosa.
Ela nunca saía de casa. Estava sempre pronta a servir a
todos. Nunca queria ser servida. Por isso sofreu tanto quando
começou a depender de alguém para caminhar, para deitar ou
levantar. Que inútil se sentiu quando não pôde nem mais fazer o
crochê de que tanto gostava.
Hoje, em minha casa, com 86 anos, é uma pérola na sua
concha de amor. Sua mente, já um pouco esclerosada, resiste a
qualquer reforma que se queira fazer, como ela me ensinou. Não
se consegue renovar a sua memória apagada, nem virar pelo lado
avesso a sua incompreensão diante dos sonhos delirantes que
tem e que não combinam com a realidade. Como mosaicos que
se juntam, coloridos, relíquias de memória que surgem de vez
em quando, mais servem para confundir do que para explicar os
dias de hoje, vão formando quadros pitorescos de sabor incomparável.
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Em seu quarto, o mais ensolarado de nossa casa, quando
deitada em sua cama, ela tem à frente o guarda-roupas que acomoda, no espaço que sobra até o teto, malas que são pouco usadas, uma colcha vermelha feita por ela de retalhos de pele de
ovelha que buscava no antigo Michelon e os colchonetes que o
Tiago usa quando vai acampar.
Em certa ocasião, desejando colocar a colcha no sofá para
maior aconchego nos dias frios do inverno, aproveitei o momento em que estava no banheiro para não perturbá-la. Trouxe
a mãe de volta para o quarto e a acomodei na cama. Minutos
depois, ao voltar com o seu lanche, ela me disse:
– Eu notei uma diferença.
– Que diferença?
– Tu tirou a colcha vermelha. Onde tu botou o Fabian? (O
Fabian é meu sobrinho).
– O que é que o Fabian tem a ver com a colcha vermelha?
– Aquele era o lugar do Fabian.
Sem entender nada, esperei pela explicação que veio em
seguida: Com dificuldade para lembrar do nome de cada neto e
bisneto ela relacionou cada objeto com um dos seus nomes assim
ela poderia rezar tranqüilamente sem esquecer de nenhum. Para
este fim também serviam as portas do guarda-roupas, a cortina e
alguma coisa mais porque entre netos e bisnetos a soma já subiu
para vinte.
Seus sonhos são sempre trabalhosos como foi a sua vida
inteira. Muitas vezes ela me chama para eu ver a carne que está
queimando no fogão, ou para eu fechar as janelas, porque é perigoso para as crianças, ou para eu cobrir os nenês que estão com
frio e ela não consegue fazê-lo. Com freqüência ela me pede pelos seus filhos pequenos e eu tento, de várias maneiras, explicarlhe que já cresceram, mas não adianta. Daí a uns sonhos à frente
ela volta a perguntar por eles.
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– Numa tarde, depois de tomar o café com o pão bem besuntado de maionese – é assim que ela gosta – ela me disse:
Acho que eu sei o que aconteceu.
– O que foi, mãe?
– Acho que “rataram” os meus filhos.
– Não, mãe. Os seus filhos já cresceram. Já são até vovôs!
– Não, Dalva. Não esses filhos. Aqueles pequenos, que eu
enfaixava...
Aí, então, eu percebi que o “rato” tinha sido bem maior
do que se supunha. Foi o rapto da sua juventude, da sua saúde,
do tempo que inexoravelmente foge por entre os dedos, como a
areia seca da praia.
Caxias do Sul, 1999
Dalva Maria Festugato Maschio
“Nós somos todos famintos de amor pela
humanidade e, quando se tem fome, o pão,
mesmo mal cozido, parece bom.”
(Máximo Gorki na apresentação de “O marido
enganado e outros contos”, de Anton Tchecov).
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CREMAÇÃO
A idade das cidades se mede pela extensão dos seus cemitérios. As mais novas nem os têm. São como os jovens: ainda
sem um passado, não têm saudades de nada e nada para recordar.
Para eles a morte nem existe. As muito velhas têm cemitérios
enormes. Nas antigas ruínas só se encontra cemitérios, estéreis,
sem cheiro de flores podres, mas cobertos de mistérios. É neles
onde os arqueólogos colheram tudo o que hoje sabemos das civilizações passadas. Os rastros mais profundos que a humanidade deixou são todos fundamentados no culto fúnebre da morte.
Câmaras mortuárias, velórios, múmias, pirâmides, tumbas, catacumbas, túmulos e mausoléus; panelas de barro dos bugres, congelamentos extremos são produtos da sede de imortalidade exclusiva do homem e que não existe nos animais. Só os
elefantes têm cemitérios, porém estão sempre escondidos nas
profundezas da mata. O passarinho que morre, logo logo se incorpora na terra, na grama, na planta... e como a semente rebrota
numa nova existência, com saudade do sol. Só fantasmas, assombrações, diabos, morcegos e assustadores lobisomens gostam das trevas. É nas noites mais escuras que a depressão se agiganta, sufocando a alma sofredora, nunca nos alvoreceres. Não
existe suicídio no esplendor dos arrebóis.
Ficar isolado na tumba, o ato mais egoísta da cultura, é
morrer de verdade, é morrer para sempre, mesmo sendo no Taj
Mahal. É negar-se a retornar ao ciclo da vida e da morte, a única
forma de ser imortal.
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Ser sepultado na terra, sem caixão nem cimento, enrolado num lençol como fazem os pele-vermelhas, é permitir renascer nas plantas e nos animais. Poder voltar na semente lançada na terra vermelha e rebrotar na figueira abarrotada de ninhos; ser a pena que flutua lá nas alturas dos Andes, na asa de
um condor... ou ser o mel das abelhas.
E amanhã ou depois, ter a ventura suprema de transformar-se no cílio, longo, negro e recurvo, que borda olhos escuros
de uma morena faceira. Ou, quem sabe, reviver no fio de cabelo
rebelde, grudado na face molhada de beijos, do seu próprio tataraneto.
Talvez seria bem melhor permitir que o fogo divino purifique restos mortais, dispersando ao vento substâncias assimiláveis pelas folhas no mister da fotossíntese – água, gás carbônico e nitrogênio – e transformar-se no açúcar que irá adoçar
tantas bocas! Depois, recolher as cinzas que sobraram na pira e
espalhar sobre prados e canteiros, para servir de alimento para
flores coloridas... quem sabe uma margarida ou uma maria-mole
do campo, de um amarelo tão vivo que enlouquece os insetos...
e faz a orgia dos beija-flores.
Para que o culto da morte não sobrepuja o da vida, só
existe uma saída, só há uma solução: a cremação. Ou fazer como
os marinheiros que têm seus túmulos no mar: voltam na forma
de um peixe... ou de uma estrela do mar.
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BIBLIOGRAFIA DO AUTOR – (Parte)
RECORRIDA – MEMÓRIAS DE UM MÉDICO DO INERIOR – 192
pgs. ilustradas. Estórias acontecidas em Torres, praia do RGS;há mais de 50
anos. Contos e crônicas.
VELHOS TEMPOS – 228 pgs. ilustradas. Estórias de acampamentos
de caça e pesca, sempre acompanhado dos filhos. Proposta de usufruir
sem depredar. Na última parte do livro, receitas a base de carnes de
caça como faziam os colonos italianos.
A ARTE DE ACAMPAR – 258 pgs. ilustradas. Importância dos
acampamentos selvagens na formação do caráter das crianças ao desenvolver a sociabilidade e a solidariedade.
A MESA DAS REFEIÇÕES – 191 pgs. ilustradas. A refeição em con-
junto como instrumento de união familiar. Receitas da colônia italiana
da Serra do Nordeste do Rio grande do Sul. Carneação de porcos. Produtos suínos. Depoimento: “o Coronel Valzumiro Dutra visto pelos
olhos do menino Acácio”.
AS LEITURAS QUE NOS TOCAM – 140 pgs. Textos de autores ca-
xienses – Márcio Bertolucci, Pablo Ballesteros, José Dip, Mário Gardelin – que mais impressionaram o autor. Além destes, figuram Heraclides de Santa Helena, K. & Sprenger, Elbert Hubber e Archibal Joseph Cronin este com sua imortal obra “A Cidadela,” um hino de louvor à dignidade que influenciou decisivamente o autor na escolha da
Medicina como profissão.
TORRES DE ANTIGAMENTE – 144 pgs. ilustradas. Crônicas sobre a
cidade de Torres, a praia mais bela do Rio Grande do Sul. Depoimentos de Maria Sartori e Enedir Pereira de Quadros, já falecidos. Na parte
final, “O caso Zelo”, estória verídica de um crimes que teve grande
repercussão no Estado.
VENTO DA SERRA – 170 pgs. ilustradas. Crônicas serranas sobre os
Campos de Cima da Serra do Nordeste do Rio Grande do Sul, com
neve, pinheirais, matas, serrarias, rios, cascatas, animais.
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ALQUIMIA DO TEMPO – 202 pgs. ilustradas. Comportamento hu-
mano. Amor, paixão, traição conjugal, ódio, fanatismo, preconceito,
intimidação, são alguns dos tópicos abordados.
“CAVALO PARA MIM É UM TRONO!” 2ª. Ed – 288 pgs. ilustradas.
Noções de hipologia, manejo, princípios da doma racional, correção de
postura, avaliação da idade pela dentição. Crônicas sobre “cavalo”.
ESTÓRIAS DO “TULA” – 190 pgs. ilustradas. Aventuras e desventu-
ras do “Tula”, empregado do autor para “Serviços Gerais”. Segundo
Eduardo, o que une as pessoas é a bondade e não interesses comuns
nem inteligência.
SEDE DE VIVER – 336 pgs. ilustradas. Narra crônicas e contos sobre
ecologia e comportamento humano. Críticas ao urbanismo. Para ele, a
misantropia da velhice não é devido à degeneração neuronal, mas à
sabedoria. “O nosso grande luxo é a privacidade”.
“QUEM TEM INIMIGO, NÃO DORME!” – 244 pgs. ilustradas. Com-
portamento humano. Degradação ambiental. Superpopulação e violência. O esporte competitivo gera violência? O Mito do Herói. Um
viva à carne!
FLORES DA CORTICEIRA – 268 pgs. ilustradas. Críticas literárias
sobre as obras de Luiz Coronel, Jayme Caetano Braun, Aureliano de
F. Pinto e José Hernández, os quatro gigantes da poesia gaúcha.
O BARULHO DO MACHADO – 372 p. Ecologia e preservação ambi-
ental. Superpopulação humana.
Co-autoria: (Os interessados nos livros abaixo deverão se dirigir à
Editora Sulina, Porto Alegre, RS)
MÉDICOS (PR) ESCREVEM 1 – P. Alegre: Ed. Sulina. Antologias de
textos escritos por médicos. Participou com a crônica Expressão corporal.
MÉDICOS (PR) ESCREVEM 3 -Idem. Participou com a crônica sobre
os hábitos da cultura italiana no interior do mun. de Caxias do Sul..
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MÉDICOS (PR) ESCREVEM 4 – Idem. Participou com a crônica
Rhum creosotado.
MÉDICOS (PR) ESCREVEM 5 – Idem. Participou com o conto A To-
yota econômica.
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