No pensamento de Lucas, a História do Povo de Deus continua sem

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No pensamento de Lucas, a História do Povo de Deus continua sem
No pensamento de Lucas, a História do Povo de Deus continua sem cortes:
Missão:
Atos 2,1-41
3,1-10
5,17-42
8,26-39
10,1-48
13,26-39
Com força do E.S. (At 2,1-13)
e da Palavra (Lc 24,44-49)
continua a missão de Cristo no
mundo.
EVANGELHO
Atos 1,1-11
JESUS faz a ligação e
introduz o novo
Antiga Aliança.
Simeão e Ana
Lc 2,25-38
LUCAS, O EVANGELHO:
Da ALEGRIA:
Lc 15,3-7.8-10.11-32 (as três alegrias).
Dos discípulos e pelos pobres: Lc 10,17-24.
Boa Nova: 1,14. Anúncio: 1,28. Isabel e JB.:1,44.
Magnificat: 1,47ss. Os pastores: 2,10
As bem-aventuranças: 6,23.
Alegria da Ressurreição: Lc 24,41.52
Dos POBRES:
Os pastores: Lc 2,8-20; sinagoga de Nazaré: 4,16-21; bem-aventuranças e
ais: 6,20-26; discípulos de Jesus: 7,18-23; atitude dos discípulos: 9,1-6; as
riquezas: 12,13-24 e 18,18-26; Lázaro: 16,19-31; Zaqueu: 19,1-10.
Indícios de desigualdade e atenção para com os pobres:
At 2,44-45; At 3,1-8; At 4,32-37; At 5,1-11; At6,1-6.
Da MULHER:
Isabel: 1,39-45; Maria: 1,46-56; Ana: 2,36-38; sogra de
Simão: 4,38-39; viúva de Naim: 7,11-16; emorroissa:
8,43-48; cura da mulher em dia de sábado: 13,10-17;
Marta e Maria 10,38,42; oferta da viúva 21,1-6; o
pranto das mulheres: 23,27-32.49.55-56; testemunho
da Ressurreição: 24,1-12.
Parábolas: 15,8-10; 18,1-8; 13,20-21.
A visão global do Evangelho de Lucas
(Mesters)
Uma visão global é uma ajuda. Funciona como chave de leitura. Ajuda a perceber o fio da meada e a captar a mensagem central de um
texto. Os mesmos dois motivos que levaram Lucas a escrever o seu Evangelho, nos forneceram a chave principal para descobrir a visão global
do mesmo. A divisão em seis blocos desiguais que aqui apresentamos ajuda a perceber a mensagem central do Evangelho de Lucas e o seu jeito
próprio de apresentar a Boa Nova de Jesus.
O Evangelho de Lucas é muito grande. Por isso, foi necessário fazer uma escolha que se orientou por este critério: escolher aqueles textos
que melhor nos ajudem a captar o sentido do Evangelho de Lucas. Mesmo assim, alguns textos importantes não puderam ser considerados. Que
a escolha feita não signifique exclusão, mas leve a ler os textos não incluídos.
Prólogo: Lucas 1,1-4
O objetivo de Lucas: Contar quem é Jesus para nós
l. Lc 1,1-4 e At 1,1-5: Muitos tentaram, eu também vou tentar
Para que a tua fé tenha um fundamento mais sólido
1° Bloco: Lucas 1,5-2,52
"A tua ternura. Senhor, vem me abraçar”
Renovar: fazer o antigo ficar novo
2. Lucas 1,26-38: A visita do anjo a Maria - Surpresas de Deus
3. Lucas 1,39-56: A visita de Maria a Isabel - Alegria no Espírito
4. Lucas 2,8-20: A visita do anjo aos pastores - Paz aos excluídos
2° Bloco: Lucas 3,1-4,44
"Quando o Espírito de Deus soprou, ..."
João e Jesus: o novo chega com firmeza e ternura
5. Lucas 3,1-18: João Batista - Partilha: a condição para receber a visita de Deus
6. Lucas 4,14-30: O programa de Jesus - Na força do Espírito, libertação para os pobres
3° Bloco: Lucas 5,1-9,50 “Deus chama a gente pra um momento novo”
O novo abrindo caminho, a transformação acontecendo
7. Lucas 5,1-11: A vocação dos primeiros discípulos - Envolver outras pessoas na missão
8. Lucas 6,17-26: Felizes os pobres! Ai dos ricos! A luz do Evangelho muda o olhar
9. Lucas 7,36-8,3: A moça do perfume - Discípulos e discípulas seguem Jesus
10. Lucas 9,28-36: A Transfiguração - Nova maneira de realizar a profecia
4° Bloco: Lucas 9,51-19,27 "Peregrino nas estradas de um mundo desigual"
A longa e dura caminhada da periferia para a capital
11. Lucas 9,51-62: Jesus decide ir a Jerusalém - Seguir Jesus sem voltar atrás
12. Lucas 10,17-24: O amor do Pai pelos pequenos - Rever e avaliar a missão
13. Lucas 10,25-37: O bom samaritano - Solidariedade e ecumenismo
14. Lucas 12,13-32: Não acumular - O Reino de Deus em primeiro lugar
15. Lucas 13,10-17: Jesus faz a mulher ficar de pé - Libertar e devolver a dignidade
16. Lucas 14,12-24: Na mesa de Deus tem lugar para todos - Partilha e confraternização
17. Lucas 15,11-32: A parábola do Pai e seus dois filhos - Ternura e misericórdia de Deus
18. Lucas 16,19-31: Lázaro! Pobre tem nome! - Não há salvação para o rico que se fecha em si
19. Lucas 17,11-21: Saber viver na gratidão - Sinal da presença do Reino
20. Lucas 18,1-14: A verdadeira oração - O avesso é o lado certo
21. Lucas 19,1-10: Zaqueu: a visita de Deus - Acolhimento e ternura sem preconceito
5° Bloco: Lucas 19,28-21,38 “Eles queriam um grande rei''
O doloroso confronto na capital
22. Lucas 19,28-48:
A chegada em Jerusalém - O grito do povo incomoda o poder
6º Bloco: Lucas 22,1-24,53 "Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão!"
Morte e Ressurreição: a Nova Criação já começou!
23. Lucas 22,7-23: Desejei muito comer esta Páscoa com vocês - Apesar das contradições, a Nova Aliança se realiza
24. Lucas 22,39-46: A agonia de Jesus no Horto das Oliveiras - A Oração: fonte de luz e de força
25. Lucas 23,44-24,12: Morte e Ressurreição - Só ressuscita quem morre primeiro!
Conclusão: Lucas 24,13-35 “Abrir os olhos” - Ele está no meio de nós
Prólogo - Lucas 1,1-5
O objetívo de Lucas: Contar quem é Jesus para nós
1. "Muitos tentaram, eu também vou tentar!"
Por trás da decisão de Lucas de escrever o seu Evangelho estão os problemas das comunidades. Naquele tempo, havia várias tendências
entre os cristãos. Cada uma delas tentava organizar "as coisas que Jesus fez e ensinou" para legitimar e divulgar a sua maneira de ver e viver a
Boa Nova. Assim sendo, "visto que muitos já tentaram escrever a história dos acontecimentos" relacionados com Jesus, Lucas também tentou
fazer a mesma coisa.
2. O objetivo de Lucas: contar quem é Jesus para nós
No prólogo dos Atos dos Apóstolos, Lucas informa que escreveu o Evangelho para "relatar todas as coisas que Jesus fez e ensinou, desde o
início até o dia em que foi arrebatado" (At 1,1-2). E relatando quem é Jesus, ele quis mostrar que a abertura das comunidades para os pagãos era
o rumo certo, fiel a Jesus e às promessas do Antigo Testamento. Foi Jesus que, obediente ao Pai e às promessas, iniciou esta abertura. Lucas quis
mostrar ainda que a discriminação dos pobres pêlos ricos, tal como estava acontecendo em algumas comunidades, era a negação do que Jesus
tinha ensinado. Assim, diante da prática de Jesus, apresentada por Lucas no seu Evangelho, Teófilo poderá verificar, ele mesmo, a solidez dos
ensinamentos recebidos (Lc 1,4).
1° Bloco - Lucas 1,5-2,52
"A tua ternura, Senhor, vem me abraçar" Renovar: fazer o antigo ficar novo
l. "A tua ternura, Senhor, vem me abraçar"
Neste 1° Bloco, tudo gira em tomo do nascimento de duas crianças: João e Jesus. Os dois capítulos nos fazem sentir o perfume do
Evangelho de Lucas. Neles, o ambiente é de ternura e de louvor. Do começo ao fim, se louva e se canta. Finalmente, a misericórdia de Deus se
revelou e, em Jesus, cumpriu as promessas feitas aos pais. E Deus as cumpriu em favor dos pobres, dos anawim, como Isabel e Zacarias,
Maria e José, Ana e Simeão, os pastores. Estes souberam esperar pela sua vinda.
2. Renovar: fazer o antigo ficar novo
Os capítulos l e 2 do Evangelho de Lucas são muito conhecidos, mas pouco aprofundados. Lucas escreve imitando o estilo dos escritos do
Antigo Testamento. É como se os primeiros dois capítulos do seu Evangelho fossem o último capítulo do Antigo Testamento a fazer a transição
para a chegada do Novo. Estes dois capítulos são a dobradiça entre o Antigo e o Novo Testamento. Lucas quer mostrar a Teófilo como as
profecias estão se realizando em Jesus, que cumpre o Antigo e inicia o Novo.
3. História e espelho, símbolo e realidade
Os primeiros dois capítulos do Evangelho de Lucas não são história no sentido em que nós hoje entendemos a história. Funcionam muito
mais como espelho, onde os cristãos convertidos do paganismo descobriam que Jesus tinha vindo realizar as profecias do Antigo Testamento e
atender às mais profundas aspirações do coração humano. São também símbolo e espelho do que estava acontecendo entre os cristãos do tempo
de Lucas. As comunidades vindas do paganismo tinham nascido das comunidades dos judeus convertidos, mas eram diferentes. O Novo não
correspondia ao que o Antigo imaginava e esperava. Era "sinal de contradição" (Lc 2,34), causava tensões e era fonte de muita dor. Na atitude
de Maria, imagem do Povo de Deus, Lucas apresenta um modelo de como perseverar no Novo, sem ser infiel ao Antigo.
2° Bloco - Lucas 3,1-4,44
"Quando o Espírito de Deus soprou, ..."
João e Jesus: o Novo chega com firmeza e ternura
1. O Novo chega com firmeza e ternura
Nos dois capítulos do 2° Bloco, tudo gira em tomo da pregação e da proposta de dois grandes mensageiros: João e Jesus. João é o
último grande profeta do Antigo Testamento. Em nome de todo o passado, ele aponta o Novo chegando em Jesus. Deste modo, Lucas mostra
como o Antigo Testamento vai terminando, cedendo o lugar ao Novo que vem chegando. Mostra a continuidade e a ruptura que existem
entre os dois Testamentos. Com as palavras de João Batista, Lucas ensina que a partilha é a condição de se poder passar do Antigo para o Novo.
2. João: o último grande profeta do Antigo Testamento, precursor de Jesus
Lucas dá uma atenção muito grande à atividade e à pregação de João. E que na época em que ele escreve, em tomo do ano de 85, havia
muita discussão nas comunidades em tomo do significado da missão de João Batista. O próprio Lucas dá notícia desta discussão no livro dos
Atos dos Apóstolos (At 19,1-7). João continuava tendo uma grande popularidade e autoridade. Muitos o consideravam o Messias. Nos dois
capítulos deste 2° Bloco, Lucas procura trazer uma luz para ajudar as comunidades no discernimento. Ele deixa bem claro que João não é o
Messias, e mostra os seus limites. A imagem que João se fazia do Messias não correspondia ao que Jesus era e fazia. Mais tarde, João até
mandou perguntar: "É o senhor ou devemos esperar por outro?" (Lc 7,19). O Antigo não pode querer controlar o Novo. Deve, ao contrário,
abrir-se para acolhê-lo. O Antigo Testamento deve ser lido e interpretado a partir da nova experiência de Deus que chegou até nós em Jesus. Foi
o que João fez. Ele não se agarrou às suas ideias nem se fechou, mas apontou Jesus como o mais forte, "do qual não sou digno de desamarrar a
correia das sandálias" (Lc 3,16).
3. "Quando o Espírito de Deus soprou...!"
Neste 2° Bloco, Lucas mostra os vários aspectos do Novo que aparece em Jesus:
l) Em Jesus se manifesta o dom do Espírito Santo, prometido no Antigo Testamento. O Espírito Santo está presente em tudo que Jesus diz e
faz, desde o batismo (Lc 3,21-22) até à hora da sua morte, (Lc 23,46). Ele o recebeu em plenitude na ressurreição para poder entregá-lo a nós
(At 1,2).
2) Em Jesus o projeto de Deus ultrapassa a raça de Abraão e se abre para a humanidade toda, pois Jesus é filho não só de Abraão (Lc 3,34),
mas também de Adão (Lc 3,38). Esta abertura de Jesus para os pagãos transparece na apresentação do seu programa na comunidade de Nazaré.
Sua mensagem vai para além dos limites da sua raça. (Lc 4,26-27).
3) Jesus é o novo começo do povo de Deus. O antigo povo foi tentado no deserto e caiu. Jesus é tentado no deserto e, pela força do Espírito,
vence a tentação (Lc 4,1-13). Por isso, se toma o novo começo. Assim, ao longo dos dois capítulos deste 2° Bloco, aparece a semente da
novidade de Jesus. Nos outros blocos, esta semente irá crescendo, provocando muitos conflitos com o Antigo que se fecha.
3° Bloco - Lucas 5,1-9,50
"Deus chama a gente pra um momento novo"
O novo abrindo caminho, a transformação acontecendo
l. "Deus chama a gente pra um momento novo"
No 2° Bloco, Jesus atuava sozinho, dando continuidade e complementação às promessas que vinham do Antigo Testamento. Agora, no 3°
Bloco, na medida em que a missão se abre, ele vai chamando outras pessoas para segui-lo. Chama Pedro, Tiago e João (Lc 5,1-11), chama Levi
(Lc 5,27-31), escolhe os doze (Lc 6,12-15). Pouco a pouco, estas e outras pessoas, homens e mulheres (Lc 8,1-3), vão sendo envolvidas na
missão, chamadas a ir na frente de Jesus para anunciar a Boa Nova do Reino ao povo (Lc 9,1-6). Forma-se, assim, uma comunidade de homens
e mulheres, em igualdade de condições. Amostra do Reino!
2. O novo abrindo caminho, a transformação acontecendo
No 2° Bloco (3,1-4,44), já dava para ver as diferenças entre o Antigo e o Novo. Já dava para ver a universalidade da missão de Jesus.
Agora, no 3° Bloco, esta semente desabrocha. O Novo vai abrindo caminho e a transformação vai acontecendo. As linhas de força da mensagem
de Jesus vão aparecendo com maior clareza. Aparecem também os conflitos que a Boa Nova provoca quando entra em contato com a
mentalidade antiga. Pois Jesus acolhe todo tipo de pessoas, sobretudo as que, em nome da lei de Deus, eram excluídas do convívio na
comunidade: leprosos (5,12-16), paralíticos (5,13-26), publicanos (5,26-32), os pobres (6,20-23), estrangeiros (7,1-10). Para o bem das pessoas,
Jesus transgride as normas do jejum (5,33-39), do sábado (6,1-10), da pureza (5,13) e amplia a comunhão de mesa (5,30). Num longo discurso,
ele denuncia a injustiça dos ricos que gera a pobreza (6,20-26) e manda ter uma atitude diferente para com os inimigos (6,27-38). Toda esta
prática de Jesus desnorteia até a João Batista, mas Jesus não volta atrás. Ele manda João olhar os fatos e compará-los com as profecias (7,18-30).
Critica os que não sabem ler os sinais dos tempos (7,31-35), defende a moça do perfume contra o fariseu (7,36-50). É assim que o novo vai
abrindo caminho e que a transformação vai acontecendo. Em Jesus aparece um poder maior: ele acalma a tempestade (8,22-25), expulsa
demónios (8,26-39), vence a impureza e ressuscita os mortos (8,40-56). Afinal, quem é este Jesus que age e fala desta maneira?
3. "Quem dizem os homens que eu sou?"
No fim, Jesus faz uma avaliação da caminhada e pergunta: "Quem sou eu no dizer da multidão?" (9,18-21). O resultado é fraco. O povo não
sabe quem é Jesus. Os discípulos reconhecem nele o Messias, mas o entendem conforme a propaganda do governo e da religião oficial, que
esperavam um Messias glorioso nacionalista. Jesus anuncia que o Messias vai ser morto, e quem quiser segui-lo no mesmo compromisso com os
pobres e excluídos vai ter que carregar a mesma cruz (9,22-27). É o momento da crise, tanto para Jesus como para os discípulos. Jesus sobe a
montanha para rezar. Lá em cima, ele se transfigura. De Moisés e Elias recebe a confirmação de que deve realizar o seu "êxodo" em Jerusalém
(9,28-36). Nem assim os discípulos entendem o anúncio da cruz (9,44-45). Eles continuam brigando entre si para saber quem é o maior (9,4648) e pensam ter o monopólio sobre Jesus (9,49-50). A ideia do Messias glorioso, divulgada pelo Templo de Jerusalém, impedia a eles de ver
em Jesus o Messias Servidor, anunciado por Isaías. Diante desta conjuntura, Jesus decide ir para Jerusalém e enfrentar o problema.
4° Bloco - Lucas 9,51-19,27
'Peregrino nas estradas de um mundo desigual"
A longa e dura caminhada da periferia para a capital
l. Lucas segue Marcos, até certo ponto
No geral, como dissemos, Lucas segue a narração do Evangelho de Marcos. Aqui e acolá, ele introduz pequenas diferenças ou muda
algumas palavras, para que os tijolos tirados de Marcos se adaptem ao novo desenho que ele, Lucas, imaginou para o seu livro. Além do
Evangelho de Marcos, Lucas pesquisou e consultou outros livros. Utilizou um documento que foi usado também por Mateus. Teve acesso a
outras fontes: testemunhas oculares e ministros da Palavra (Lc 1,2). Ora, todo este material que não tem paralelo em Marcos, Lucas o organizou
na forma de uma longa viagem de Jesus, desde a Galiléia até Jerusalém. A descrição desta viagem é o assunto do 4° Bloco, que vai de Lucas
9,51 até 19,27. É a parte em que Lucas interrompeu a narração do Evangelho de Marcos.
2. A longa e dura caminhada da periferia para a capital
A descrição da longa viagem de Jesus para Jemsalém não é só um recurso literário de Lucas para introduzir o material que ele tinha de
próprio. Ela reflete também a longa viagem que muitos cristãos, tanto judeus como gregos, estavam fazendo no dia-a-dia da sua vida, a saber,
passar da cultura do mundo rural da Palestina para o mundo cosmopolita da cultura grega; sair de comunidades que surgiram ao redor da
sinagoga, espalhadas pela Palestina e Síria, para comunidades mais organizadas ao redor da casa nas periferias das grandes cidades da Ásia e da
Europa. Esta passagem ou inculturação era marcada por uma forte tensão entre os cristãos vindos do judaísmo e os novos que vinham chegando
de outras etnias e culturas. A descrição da longa viagem para Jerusalém reflete ainda o doloroso processo de conversão que as pessoas ligadas ao
judaísmo tinham de fazer: sair do mundo da observância da lei que acusava e condenava, para o mundo da gratuidade do amor de Deus que
acolhe e perdoa; passar da consciência de pertencer ao único povo eleito, privilegiado por Deus entre todos os povos, para a certeza de que em
Cristo todos os povos foram fundidos num único povo diante de Deus. Numa só palavra, neste 4° Bloco, Lucas apresenta a atividade de Jesus
como um espelho da conversão ou travessia que as comunidades estavam fazendo. Jesus fez a mesma longa e dolorosa travessia:
sair do mundo fechado da raça para o território da humanidade.
3. "Peregrino nas estradas de um mundo desigual"
Esta longa viagem para Jerusalém ocupa quase dez capítulos, uma terça parte de todo o Evangelho de Lucas! Logo no início da sua viagem,
Jesus ultrapassa os limites da raça, sai da Galiléia e entra na Samaria para anunciar ali a Boa Nova do Reino. Desde o começo, o conflito faz
parte da viagem (Lc 9,53-54). Ao longo dos dez capítulos, constantemente, Lucas lembra ou sugere que Jesus está a caminho de Jerusalém
(9,51.53.57; 10,1.38; 11,1; 13,22.33;
14,25; 17,11; 18,31; 18,38; 19,1.11.28). E mesmo depois que Jesus chegou em Jerusalém, Lucas mantém a caminhada em direção ao centro que
é o Templo (19,29.41.45; 20,1; 22,1.7.14). Do começo ao fim, aparece com clareza o objetivo da viagem: Jesus está indo para Jerusalém para
mostrar que a sua maneira de interpretar o Projeto de Deus é diferente da interpretação dada pela religião oficial. A ida para Jerusalém é vista
como o êxodo de Jesus (9,31) e como a sua assunção ou arrebatamento (Lc 9,51). No Antigo Testamento, Moisés conduziu o primeiro êxodo
do povo tirando o povo da opressão do Faraó (Ex 3,10-12) e o profeta Elias foi arrebatado para o céu (2 Rs 2,11). Lucas vê Jesus como o novo
Moisés que vem tirar o povo da opressão da Lei e como o novo Elias que vem preparar a chegada do Reino.
5° Bloco - Lucas 19,28-21,38
"Eles queriam um grande rei"
O doloroso confronto na capital
1. O doloroso confronto na capital
A partir da chegada em Jerusalém, Lucas retoma a narrativa do Evangelho de Marcos para descrever as coisas que Jesus fez e ensinou na
sua última visita à capital. Aqui também, como no 2° e no 3° Bloco, ele introduz pequenas diferenças ou muda algumas palavras, para
que os tijolos tirados de Marcos se adaptem ao desenho que ele imaginou para o seu livro. No Evangelho de Lucas, o confronto entre Jesus
e as autoridades religiosas na capital é muito mais doloroso do que nos outros Evangelhos. Por exemplo, Lucas acrescenta uma lamentação
sobre Jerusalém (19,41-44). Ele mostra Jesus chorando sobre a cidade que não soube reconhecer "o tempo em que foi visitada" (19,44). Da
expulsão no Templo, conserva apenas os dois versículos que acentuam o conflito (19,45-46). Na discussão com os escribas, ele só mantém a
crítica de Jesus e não traz o elogio que aparece em Marcos (Mc 12,34; Lc 20,39-40). Finalmente, é só Lucas que conserva a palavra de Jesus
contra os fariseus que queriam calar o grito do povo: "Se eles calarem, até as pedras vão gritar!" (19,40).
2. "Eles queriam um grande rei"
As autoridades "queriam um grande rei que fosse forte e dominador e, por isso, não creram nele e mataram o Salvador!" Fixando-se na
visão do Messias nacionalista, elas se fecharam. Este fechamento levou à desintegração da nação, que, de fato, aconteceu no ano de 70. Quando
Lucas escreve em torno do ano de 85, a destruição de Jerusalém já tinha acontecido, já pertencia ao passado. Mas ainda estava na memória
como um fato que fazia chorar a todos. Ao longo deste 5° Bloco, Lucas mostra o fechamento progressivo das lideranças da nação.
6° Bloco - Lucas 22,1-24,53
"Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão!"
Morte e Ressurreição: a Nova Criação já começou!
l. Morte e Ressurreição: a Nova Criação já começou
Jesus termina a sua caminhada. Aos poucos, Lucas nos vai levando para o centro dos acontecimentos: "Aproximava-se a festa" (Lc 22,1),
"Veio o dia dos Ázimos" (Lc 22,7), "Chegou a hora" (Lc 22,14). Os três capítulos deste 6° Bloco descrevem o "êxodo" de Jesus, anunciado
desde a Transfiguração (Lc 9,31). Descrevem a sua "assunção ao céu", anunciada desde o início da viagem para Jerusalém (Lc 9,51). Ao mesmo
tempo, o poder das trevas vai se armando para matar Jesus (Lc 22,53). Jesus não recua, não volta atrás. Assume a luta. Mesmo derramando suor
de sangue, ele vence (Lc 22,44). Jesus é condenado à morte de cruz pêlos que detêm o poder, e quando tudo está terminado, ele entrega o
Espírito que recebeu no batismo (Lc 23,46). É este mesmo Espírito que os leitores e leitoras de Lucas (e todos nós) recebemos para
percorrermos o mesmo caminho que Jesus percorreu.
2. "Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão"
A crueldade da paixão não consegue impedir a revelação da ternura de Deus na atitude de Jesus. Eis algumas frases de Jesus que só Lucas
nos conservou: "Desejei ardentemente comer esta páscoa com vocês" (22,15). Façam isto em memória de mim!" (22,19). "Simão, rezei por
você, para que não desfaleça a sua fé!" (22,32). Na hora da negação de Pedro, Jesus fixa nele o olhar, provocando o choro de arrependimento
(22,61). No caminho do calvário, acolhe as mulheres: "Filhas de Jerusalém, não chorem por mim!" (23,28) Na hora de ser pregado na cruz, ele
reza: "Pai, perdoa, porque não sabem o que fazem" (23,34). Ao ladrão pendurado na cruz a seu lado ele diz: "Hoje mesmo você estará comigo
no paraíso!" (23,43) E ao morrer diz: "Em tuas mãos entrego o meu espírito" (23,46).
Conclusão - Lucas 24,13-35
Abrir os olhos Ele está no meio de nós!
l. Abrir os olhos
Jesus morreu em tomo do ano de 33. Lucas escreveu em tomo do ano de 85. Nós estamos lendo o Evangelho no ano de 1998. A diferença
no tempo é muito grande. No ano de 85, Lucas fez com as comunidades o mesmo que Jesus fez com os discípulos de Emaús: tentou abrir os
olhos das pessoas e ajudá-las a perceber e experimentar a presença de Jesus no meio delas.
2. Ele está no meio de nós
O objetivo que a leitura orante do Evangelho de Lucas quer alcançar em nossas vidas é o mesmo que Jesus conseguiu alcançar com os dois
discípulos de Emaús e que Lucas conseguiu alcançar com o povo das comunidades do ano de 85: fazer arder o coração e fazer com que o
reconheçamos na partilha e na fracção do pão.
3. O conteúdo desta Conclusão
Ela é um resumo de tudo. Uma reflexão. Ajuda a perceber que, até hoje, estamos todos no caminho de Emaús, guiados pelo Espírito de
Jesus.
DO EVANGELHO AOS EVANGELHOS: A FORMAÇÃO DOS EVANGELHOS
Plano Literário:
ESPÍRITO (7x)
nos
Anawim
Caminho de
Jesus de
Nazaré
Evangelho
Primeiro Testamento
João Batista
Tempo do
início
1
A
JERU S ALÉM
C
E
N
S
Caminho da
COMUNIDADE
Ã
CRISTÃ
O
Tempo de
realização
Atos dos Apóstolos
A Salvação
de
Deus
2
Tempo de
testemunho
Até os
confins
do mundo
3
Através da
“VISITA MISERICORDIOSA
do nosso Deus”
Lc 1, 68.78
Lc 7,16
Lc 19,44
ESPÍRITO
sem fronteiras

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