- No mestrado em Ciências Sociais da UFMA

Сomentários

Transcrição

- No mestrado em Ciências Sociais da UFMA
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS
MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
INGRID PEREIRA DE ASSIS
DESCENDENTES DE LIBANESES NA POLÍTICA DO MARANHÃO:
ASCENSÃO ECONÔMICA, RELAÇÕES PESSOAIS E AFIRMAÇÃO
POLÍTICA
SÃO LUÍS
2012
UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS
MESTRADO EM CIÊNCIAS SOCIAIS
INGRID PEREIRA DE ASSIS
DESCENDENTES DE LIBANESES NA POLÍTICA DO MARANHÃO:
ASCENSÃO ECONÔMICA, RELAÇÕES PESSOAIS E AFIRMAÇÃO
POLÍTICA
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Ciências Sociais da
Universidade Federal do Maranhão
(UFMA), como pré-requisito para
obtenção do grau de mestre.
Orientador: Prof. Dr. Igor Gastal Grill.
SÃO LUÍS
2012
2
INGRID PEREIRA DE ASSIS
DESCENDENTES DE LIBANESES NA POLÍTICA DO MARANHÃO:
ASCENSÃO ECONÔMICA, RELAÇÕES PESSOAIS E AFIRMAÇÃO
POLÍTICA
Dissertação apresentada ao curso de
Pós-Graduação da Universidade
Federal do Maranhão (UFMA),
como pré-requisito para obtenção do
grau de mestre.
COMISSÃO EXAMINADORA
_______________________________________
Prof. Dr. Igor Gastal Grill (Orientador)
Universidade Federal do Maranhão
_______________________________________
Prof. Dr. Frank Nilton Marcon
Universidade Federal de Sergipe
_______________________________________
Prof. Dr. Horácio Antunes Sant'Ana Júnior
Universidade Federal do Maranhão
Aprovada em ....../....../......
3
Dedico este trabalho à minha
irmã Gabriela Pereira de
Araújo.
4
AGRADECIMENTOS
Aos meus tios, Mauro Albino e Maria Celeste Fernandes Lima, que muito me
apoiaram, ao longo dos últimos dois anos. Ao meu primo, Renan Lima Pereira, que
sempre serviu de inspiração, academicamente e enquanto pessoa. Ao meu companheiro,
Carlos Eduardo Sales Alves que sempre me deu todo o suporte necessário e ajudou, na
medida do possível.
Pelas ponderações e sugestões durante a qualificação deste trabalho, agradeço,
também, ao Prof. Dr. Horácio Antunes Sant'Ana Júnior e a Profa. Dra. Eliana Tavares
dos Reis.
Sou igualmente grata aos professores Horácio Antunes Sant'Ana Júnior (UFMA) e
Frank Marcon (UFS) pela disponibilidade em participar da banca de avaliação da
dissertação.
Por fim, agradeço a todo o corpo docente do Programa de Pós-Graduação em
Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), pelos conhecimentos
repassados. E, principalmente, ao meu orientador, Igor Gastal Grill, pela paciência e
enorme contribuição para que este trabalho fosse finalizado.
5
RESUMO
Esta pesquisa focou nas estratégias e mecanismos de ascensão social e econômica,
assim como de afirmação política e intelectual, ativados por descendentes de imigrantes
libaneses no Estado do Maranhão. Para tanto, foram examinados os perfis e percursos
de membros de duas “famílias” que se destacaram no espaço político, ao longo dos
últimos setenta anos neste Estado, observando os recursos econômicos acumulados, as
estratégias matrimoniais mobilizadas, os investimentos escolares efetuados, as
ocupações desempenhadas, as alianças pessoais estabelecidas e os cargos políticos
exercidos. A investigação buscou demonstrar como os agentes converteram a ascensão
econômica em liderança política e como acionaram modalidades de consagração
pessoal, de suas “famílias” e da etnia. O material empírico reunido e analisado
constituiu-se de entrevistas em profundidade, além de matérias jornalísticas, repertórios
biográficos e documentos disponíveis em sites da internet.
Palavras-chave: Elites; descendentes de libaneses; estratégias de reprodução; política
maranhense.
6
ABSTRACT
This research focused on the strategies and mechanisms for social and economic rise, as
well as on the intellectual and political statements activated by descendants of Lebanese
immigrants in the state of Maranhão. To this end, it was examined the profiles and
pathways of members of two "families" who have distinguished themselves in the
political sphere over the last seventy years in this state, observing the accumulated
economic resources, the matrimonial strategies deployed, the educational investments
made, the occupations performed, the personal alliances established, the political
strategies exerced. The investigation sought to demonstrate how the agents turned the
rise in economic to political leadership and how they triggered modes of personal
consecration, of their "families" and ethnicity. The empirical data gathered and analyzed
consisted of interviews, and newspaper articles, biographical directories and documents
available on internet websites.
Keywords: Elites, Lebanese descent, reproductive strategies, Politics in Maranhão.
7
LISTA DE QUADROS
QUADRO 1 – Relações de empresas pertencentes às “famílias” de libaneses
p. 45
QUADRO 2 – Profissões dos cônjuges das filhas de Salim Duailibe
p. 73
QUADRO 3 – Profissões dos filhos de Salim Duailibe
p. 75
QUADRO 4 – Profissão dos filhos de Antônio e Admée Duailibe
p. 88
QUADRO 5 – Profissões dos filhos de Maria e Elias Haickel e de seus p. 98
respectivos cônjuges
QUADRO 6 – Dados eleitorais de Joaquim Haickel
QUADRO 7 – Declaração de bens de Joaquim Haickel
p. 112
apresentada à p.117
Justiça Eleitoral (2006)
QUADRO 8 – Trajetória de Joaquim Haickel
p. 119
8
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO
p. 10
1 - IMIGRANTES NO BRASIL: TRAJETÓRIAS ASCENDENTES
p. 30
1.7 Considerações parciais
p. 61
2 - “FAMÍLIA DUAILIBE”: RELAÇÕES PESSOAIS E
DIVERSIFICAÇÃO DE INVESTIMENTOS
2.1 “Patriarcas”
p. 64
2.2 Início na política
p. 78
2.3 Outra via da afirmação política familiar: os cargos administrativos
p. 86
3 - “FAMÍLIA HAICKEL”: EMPRESÁRIOS-POLÍTICOS E
p. 96
p. 67
SUCESSÃO FAMILIAR
3.1 Trajetória de Joaquim Haickel
p. 106
CONSIDERAÇÕES FINAIS
p. 123
REFERÊNCIAS
p. 127
9
INTRODUÇÃO
O objetivo principal desta pesquisa é analisar como alguns membros de famílias
de descendentes de libaneses no Maranhão conseguem converter a ascensão econômica
em afirmação política. Para isso, é preciso compreender, por meio da análise da
trajetória dos agentes analisados, quais estratégias de reprodução, reconversão e
consagração esses agentes, excepcionalmente bem-sucedidos, utilizam para alcançar
posições de destaque nos espaços econômico, político e intelectual.
Vale ressaltar que esta pesquisa faz parte dos trabalhos desenvolvidos no
Laboratório de Estudos sobre Elites Políticas e Culturais (LEEPOC), que é vinculado ao
Departamento de Sociologia e Antropologia e ao Programa de Pós-graduação em
Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), e cujos professores
responsáveis são Eliana Tavares dos Reis e Igor Gastal Grill.
Para empreender esta pesquisa, primeiramente, foi delimitado o número de
agentes a serem estudados. Partiu-se de um conjunto de famílias de descendentes de
libaneses com membros que ocupam alguma posição política no Estado mapeadas.
Selecionou-se os casos de: Alfredo Duailibe, Nagib Haickel e Joaquim Haickel. A
escolha desses protagonistas das disputas políticas no Maranhão se deu devido às
semelhanças que apresentam com relação à ascensão social e afirmação econômica no
Maranhão, tendo iniciado com o destaque econômico obtido por meio do comércio, e
porque estes casos possibilitam perceber como tais semelhanças nas trajetórias desses
agentes não estão diretamente relacionadas ao momento histórico vivenciado. Por isso,
foram escolhidos três agentes que entraram no espaço político em diferentes momentos
históricos. Nagib Haickel começou sua carreira política em 1945, Alfredo Duailibe,
também, na década de 1940, e Joaquim Haickel, na década de 1980.
A pertinência desses casos reside, pois, em outras semelhanças em suas
trajetórias que vão além do pertencimento à determinada etnia: o fato de serem
membros de famílias que se afirmaram no mundo comercial e, só posteriormente a essa
ascensão econômica, é que alguns membros resolvem investir na carreira política ou
mesmo na ocupação de altos cargos públicos. Tais práticas, por vezes, independem do
momento histórico vivenciado, estando, ao que parece, mais atreladas às propriedades
10
do espaço político local. O exame dos itinerários permitirá perceber isto.
Essa pesquisa partiu de outra pré-existente, desenvolvida pelo professor do
Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Maranhão
(UFMA), Igor Gastal Grill, publicada no livro “Amazônia: desenvolvimento, meio
ambiente e diversidade sociocultural” (2009). Intitulado “Descendentes de Imigrantes
na política do Rio Grande do Sul e do Maranhão: ascensão social, afirmação eleitoral e
cooptação política”, o artigo que traz os resultados da pesquisa mostra que tanto o
“processo de entrada na política desses agentes (descendentes de imigrantes) como as
tentativas mais ou menos eficazes de reprodução dos seus ‘grupos familiares’ em
posições eletivas só é possível mediante o exame das cadeias de rivalidades e alianças
que estabeleceram com outros agentes pertencentes a camadas sociais mais ‘antigas’ e
mais ‘recentes’ na política” (2009, p. 137).
No artigo de Grill (2009), nomes como Alfredo Duailibe, Antônio Dino,
Clodomir Millet, Nagib Haickel e Ricardo Murad, aparecem em um quadro sinoptico no
qual são descritas as bases sociais dos agentes e os cargos políticos que ocuparam.
Trata-se de “perfis representativos” que permitem observar uma “mobilidade circular”
controlada por segmentos mais tradicionais “via processos de cooptação”1. O autor
analisa, comparativamente, as cadeias de rivalidades e alianças de políticos
descendentes de imigrantes, tanto do Rio Grande do Sul quanto do Maranhão. Além
disso, Grill examina as estratégias de transmissão do patrimônio familiar, os
investimentos em patrimônio escolar e econômico e o acúmulo de capital social pelos
agentes estudados. Com a comparação entre as trajetórias dos agentes de dois Estados
diferentes, o autor consegue identificar semelhanças, como as três diferentes formas de
afirmação no espaço social (de agentes provenientes de famílias já estabelecidas, de
agentes de famílias que ascenderam na primeira metade do século XX e agentes
oriundos das camadas mais baixas, economicamente, da sociedade) e a tendência à
profissionalização política a partir do ingresso precoce na carreira, ou seja, entre 18 e 30
anos. De acordo com o autor:
Por meio do exame dos perfis e itinerários dos agentes associando-os aos dados sobre os
1
Grill (2009, p. 226) usa a definição de cooptação de Garraud: “No domínio político, a cooptação
constitui um modo de recrutamento particular resultando de uma seleção interna e prévia aos jogos e aos
mecanismos eleitorais, os quais apenas ratificam e legitimam uma escolha anterior”. A noção é aqui
empregada no mesmo sentido.
11
ascendentes, foi possível identificar, nas duas configurações, três padrões de afirmação social,
bem como de acesso, especialização e reprodução no espaço político. O primeiro abarca os
“descendentes” das “famílias mais tradicionais”, estabelecidas social e politicamente desde o
século XIX e início do século XX. O segundo reúne os deputados egressos de “famílias”
marcadas por uma “ascensão social” significativa na primeira metade do século XX, com
presença preponderante de “descendentes de imigrantes” (foco principal deste artigo). E o
terceiro (minoritária nos dois investigados) congrega os casos de ascensão política a partir de
origens sociais mais baixas, calcadas na atuação militante em diversos espaços (2009, p. 141).
É possível perceber, então, que mesmo tão diferentes social, política e
economicamente, o Maranhão e o Rio Grande do Sul apresentam semelhanças com
relação às diferentes formas de afirmação social de agentes que adentram o espaço
político. Cabe ressaltar que tanto no Maranhão, quanto no Rio Grande do Sul, os
agentes estudados que são oriundos de “famílias de imigrantes” passam por um
processo de mobilidade ascensional e se aproximam da “elite tradicional”. Eles
reconvertem “bases econômicas e sociais em bases de exercício de poder político”. A
presente dissertação pretende dar continuidade a essa pesquisa, mobilizando um
esquema analítico semelhante, aprofundando a análise dos percusos de alguns
personagens descendentes de imigrantes libaneses no Maranhão que se destacaram no
espaço político do Estado. A contribuição reside, pois, no detalhamento de duas famílias
de políticos atuantes no Estado: “os Duailibe” e “os Haickel”. Mais especificamente de
algumas ramificações mais diretamente ligadas aos casos mencionados.
A discussão que segue nesta introdução está segmentada em três momentos. No
primeiro, é apresentado o referencial teórico que norteou esta pesquisa. No segundo, é
explicada a metodologia utilizada. E, por fim, são detalhados os assuntos abordados nos
capítulos que seguem dessa dissertação.
Serviram de base para esta pesquisa as reflexões de Pierre Bourdieu. Para este
autor, os agentes podem mobilizar recursos multidimensionais e legitimar suas
dominações em diferentes espaços. Dessa forma, seu referencial se mostrou pertinente
para analisar como esses agentes ocupam dadas posições e se deslocam no espaço social
conseguindo estar em mais de uma posição de destaque, como é o caso daqueles
estudados nesta pesquisa. Como sugere Grill:
Postula-se, pois, a centralidade da utilização da análise de trajetórias sociais. Ou seja,
compreender as posições ocupadas pelos agentes, seus deslocamentos no espaço social, as
transformações ocorridas neste último e nos campos específicos nos quais investem. Desse
modo, apreende-se o conjunto de recursos e atribuições acumulados, bem como seu valor de
acordo com as lógicas de concorrência (2008a, p. 15).
12
Dessa forma, é por meio da reconstrução da trajetória desses agentes que se
pretende compreender a formação deles como políticos no espaço familiar. Sobretudo, é
por meio das trajetórias que é possível perceber quais estratégias são acionadas
(consciente ou inconscientemente) por esses agentes e que acabam contribuindo,
decisivamente, para a ocupação e destaque em certos espaços sociais.
O artigo “Estrategias de reproducción y modos de dominación”, de Pierre
Bourdieu, notadamente, permite entender de quais modos a dominação pode ser ativada
ao longo de diferentes gerações de uma família. Neste artigo, ele aponta e descreve:
estratégias matrimoniais, de sucessão, educativas, econômicas, de reconhecimento
simbólico, de sociodicéias, dentre outras. Para o autor, nos momentos necessários e
oportunos, os agentes ativam essas formas de perpetuar o poder, seja ele econômico,
simbólico, intelectual ou político. Segundo Bourdieu:
Las estrategias de reproducción constituyen un sistema y, con ese título, están al principio de
suplencias funcionales y de efectos compensatorios ligados a la unidad de función; las estrategias
matrimoniales pueden, por ejemplo, suplir al fracaso de las estrategias de fecundidad. Del hecho
de que ellas se aplican en puntos diferentes del ciclo de vida como proceso irreversible, las
diferentes estrategias de reproducción están también cronológicamente articuladas, cada una de
ellas, debiendo en cada momento contar con los resultados esperados por aquella que le ha
precedido o que tiene un alcance temporal más corto: es así, por ejemplo, que en la tradición
béarnesa, las estrategias matrimoniales dependen muy directamente de las estrategias de
fecundidad de la familia, por intermedio del número y del sexo de los hijos, pretendientes
potenciales a una “dote” o a una compensación; pero también de las estrategias educativas, en las
que el éxito era la condición de la aplicación de estrategias buscando separar de la herencia a las
hijas y a los hijos menores (unas a través del matrimonio apropiado y los otros a través del
celibato o la emigración) y en fin, de las estrategias propiamente económicas buscando entre
otras cosas el mantenimiento o el aumento del patrimônio (2002, p. 7).
O autor explica que as estratégias de reprodução constituem um sistema. Sendo
assim, entre as diferentes estratégias pode haver um efeito compensatório, para suprir o
fracasso de uma estratégia aciona-se outra. Além disso, elas estão cronologicamente
articuladas de forma que o resultado dessa articulação é a manutenção ou aumento do
patrimônio. Para compreender como cada estratégia é acionada pelos agentes e como
isso permitiu que eles conseguissem chegar à determinada posição política, fez-se
necessário reconstruir a trajetória de algumas personagens envolvidas nesse processo de
chegada ao Maranhão. Segundo Bourdieu:
13
Os agentes sociais estão inseridos na estrutura e em posições que dependem do seu capital e
desenvolvem estratégias que dependem, elas próprias, em grande parte, dessas posições, nos
limites de suas disposições. Essas estratégias orientam-se seja para a conservação da estrutura
seja para a sua transformação, e pode-se genericamente verificar que quanto mais as pessoas
ocupam uma posição favorecida na estrutura, mais elas tendem a conservar ao mesmo tempo a
estrutura e sua posição... (2004, p. 29).
Dessa forma, ao longo do texto, são mostrados os casamentos realizados por
alguns membros das famílias pesquisadas e explicado de que forma isso ajuda na
manutenção e, por vezes, no aumento do capital econômico e social familiar. É
explicitada, também, a mudança no modelo de formação escolar, que passa a valorizar
paulatinamente o diploma, o que contribui para a legitimação familiar em um espaço
social que está cada vez mais objetivado. De acordo com Pierre Bourdieu:
...os diplomas escolares são para o capital cultural o que a moeda é para o capital econômico. (...)
O diploma escolar, à semelhança da moeda, tem um valor convencional, formal, juridicamente
garantido, portanto, livre das limitações locais (diferentemente do capital cultural não certificado
do ponto de vista escolar) e das flutuações temporais: o capital cultural que, de alguma forma,
ele garante de uma vez por todas não tem necessidade de ser continuamente testado (2002, p.
198).
Esse investimento no capital escolar, além das alianças matrimoniais, terá como
conseqüência uma ampliação das relações sociais desses agentes. E, dada a importância
dessas relações para viabilizar os cargos ocupados ao longo de suas trajetórias, fez-se
necessário trabalhar com outros autores, além de Pierre Bourdieu. Recorrendo às
formulações de Carl H. Landé, por exemplo, é possível trabalhar com a sua concepção
de relação diádica, que para esta pesquisa é importante para perceber como elas se dão,
se são horizontais ou verticais, como elas são construídas e de que forma elas são úteis
para os agentes em questão.
Segundo Carl H. Landé: “Uma relação diádica, no seu sentido de ciência social,
é uma relação direta envolvendo alguma forma de interação entre dois indivíduos. A
palavra chave nessa definição é direta. Implica ligação pessoal” (1977, p. 1). Uma vez
que ela “distingue uma relação diádica de uma relação na qual dois atores estão ligados
um ao outro indiretamente como uma conseqüência do fato de ocuparem lugares ou
posições que estão interligadas ou de serem membros de um mesmo grupo” (1977, p.
3). Ele destaca, ainda, que dois indivíduos podem estar ligados em relações diádicas e
não-diádicas ao mesmo tempo.
14
Ao longo dos capítulos que seguem, mostraremos que as relações estabelecidas
por Alfredo Duailibe, Nagib Haickel e Joaquim Haickel, vão oportunizar a eles
possibilidades econômicas e oportunidades políticas. Em alguns casos, essas relações
diádicas são verdadeiros “trampolins” (no sentido atribuído por Leeds, 1978) na carreira
desses agentes, possibilitando a eles ocupar cargos públicos, obter financiamento
político etc.
Nesse ponto da pesquisa, fez necessária a utilização da produção de Eric Wolf,
que trabalha os conceitos de parentesco, amizade e relações patrão-cliente. Para esse
autor, “as relações sociais informais são responsáveis pelos processos metabólicos
necessários para que se mantenha a instituição formal em operação” (2003, p. 94).
A análise das alianças diádicas, dos matrimônios e dos investimentos
educacionais e econômicos dos agentes analisados, permitirá compreender igualmente
de que forma acontece essa transmissão da herança política, mecanismo que pouco está
relacionado à ideia de vocação natural, tão defendida entre os agentes. Segundo
Canêdo:
...a vocação exigida para a participação no campo político não tem nada de natural: o habitus do
político depende de uma preparação especial. Algo como iniciação com provas e ritos de
passagem para inculcar o domínio prático de toda a produção acumulada pelo trabalho político
dos profissionais antigos (1991, p. 222).
Vale ressaltar, também, que a avaliação social de um membro, acaba recaindo
sobre a família como um todo. Por isso, essas famílias ficam conhecidas na sociedade
local e os feitos de um membro acabam sendo convertidos em notoriedade para todos
do grupo. Como destacou Grill, em estudo sobre a construção de “heranças políticas”, a
edificação dos “nomes” que conferem valor simbólico aos “grupos” decorre da
“possibilidade de maximizar o reconhecimento desfrutado pela ‘família’ e suas inscrição
na memória local por meio da valorização do ‘nome’, da ‘imagem’, dos ‘feitos’ e,
sobretudo, dos ‘fundadores’ e ‘sucessores’ da ‘tradição política familiar’” (2008b, p.
64). Ou seja, constituem “estratégias de reconversão do capital simbólico acionadas a
partir do ‘nome”’, mediante a seguinte combinação de lógicas:
...a apresentação da biografia coletiva, sobretudo no que se refere aos cargos e posições ditas
públicas, e a reivindicação da posse pela ‘família’ de valores ou atributos morais. Ambas são
inseparáveis nas estratégias das ‘famílias’ e nas narrativas. A conduta pública é a base da
15
comprovação de valores morais, e a sedimentação desses valores é percebida como ‘qualidades
inatas’ e pertencentes à ‘família’. (...). A biografia pessoal e do conjunto dos familiares
(principalmente aqueles com atuação política) são sempre realçadas com antídotos ao anonimato
e como referência de associações as quais o descendente está submetido e dos quais se utiliza.
(GRILL, 2008b, p. 68).
O sucesso econômico de César Aboud acaba produzindo a notoriedade da
família Aboud, como veremos adiante. Ao longo da pesquisa, por exemplo, mais de um
entrevistado que se referiu a essa família afirmou: “Os Aboud tinham muito dinheiro” e
não “César Aboud tinha muito dinheiro”. Por isso, nesta pesquisa, fez-se necessário,
também, conhecer o patrimônio dos membros das famílias, bem como as profissões
seguidas por seus integrantes, além das ações que enaltecem o valor simbólico familiar.
Isto ajudará a entender porque essas famílias conseguiram certas alcunhas: “excelentes
comerciantes”, “famílias de políticos”, “famílias muito ricas”. Sendo isso vinculado ao
fato de serem descendentes de libaneses. De acordo com Eric Wolf:
A filiação a uma família não define apenas a medida de crédito social de alguém. Ela também
estrutura a natureza dos recursos sociais sob o comando dessa pessoa em operações envolvendo
não-parentes. As relações de parentesco têm duas vantagens sobre as de não-parentesco nesse
tipo de manobra. Em primeiro lugar, elas são o produto da sincronização social realizada no
curso da socialização. A relação privada de confiança pode assim ser traduzida, no domínio
público, como cooperação. (...) Além disso, tal relação entre parentes pode se apoiar tanto nas
sanções da rede de parentesco como nas sanções do domínio público (2003, p.101 e 102).
Em resumo, o autor explica que o pertencimento a uma dada família está
relacionado aos recursos sociais que determinado agente pode acionar. Além disso, ele
destaca que as relações de parentesco podem culminar em cooperação no espaço
público. Como a própria generalização com relação aos integrantes da família Aboud
permite perceber, ser “um Aboud” implica não apenas em carregar o sobrenome, mas
todo o conceito de família economicamente bem sucedida o que, em alguns momentos,
pode, até mesmo, abrir portas no espaço social.
Outro conceito trabalhado por Eric Wolf fundamental para essa pesquisa é o de
amizade instrumental. Nesse tipo de relação, pesam o afeto entre os envolvidos, e,
sobretudo, os benefícios que se pode obter por meio dela. Ao longo da trajetória dos
representantes políticos das famílias selecionadas para esta pesquisa, será possível
perceber que, em alguns momentos, essas amizades instrumentais possibilitarão para
eles benefícios econômicos e políticos. Segundo definição de Eric Wolf:
16
Em contraste com a amizade emocional, existe o que chamei de amizade instrumental. Pode ser
que não se tenha estabelecido uma relação de amizade instrumental com o objetivo de obter
acesso a recursos – naturais e sociais – mas o empenho por esse acesso torna-se vital nessa
relação (2003, p. 104 e 105).
Vale ressaltar que certas alianças, como as amizades instrumentais, por vezes,
são transmitidas, tal qual um patrimônio familiar, entre os herdeiros políticos. Joaquim
Haickel, por exemplo, relata as amizades “herdadas” do pai, como poderá ser observado
mais à frente. Grill (2008b) destaca a esse respeito que há uma retroalimentação entre
socialização e acessos derivados da familiaridade com o meio. Isto é, por um lado, a
relevância “na diferenciação entre os pares” da “familiaridade com meio político (...)
rituais e linguagens”, além “do contato com políticos na esfera doméstica”. Por outro
lado, tal “familiaridade” oportuniza “acessos (a postos, nominatas, cargos, ógãos,
imprensa, etc.)” e “potencial de trânsito dos agentes no espaço social e político”
(GRILL, 2008b, p. 64).
Isso permite compreender que no momento de o agente ser selecionado para
adentrar o espaço político e nas diferentes etapas da carreira, as alianças e amizades
instrumentais são importantes. Sendo que muitas delas são decorrentes do
pertencimento familiar.
Todas essas articulações, acionamentos das amizades instrumentais, utilização de
estratégias para a transmissão de poder político e econômico entre integrantes de
famílias descendentes de libaneses são realizados em um contexto mais amplo,
marcado, sobretudo, pela presença de uma forte estrutura que foi adjetivada de
“oligárquica”. Em balanço sobre o tema, Grill (2012), afirma:
O estado do Maranhão é frequentemente apresentado na mídia e na bibliografia especializada
como caso exemplar de ‘política oligárquica’ no Brasil. Tal classificação se apóia geralmente na
associação estabelecida dos profissionais da política com práticas patrimonialistas, com domínio
familiar, com laços de dependência/reciprocidade com o poder central, com resquícios de
instrumentos tradicionais de mando político (mandonismo, coronelismo), etc. Os critérios sociais
(relações de parentesco no mundo da política, reprodução de famílias em posições políticas e
partidárias, controle por parte de grupos familiares de recursos de poder políticos, etc.) e
políticos (manutenção de ‘grupos políticos’ em cargos por períodos longos, cooptação de
lideranças, sucessões controladas, etc.) acionados para justificar a utilização da expressão
estigmatizante e portadora de estereótipos possuem alvos móveis e são mobilizados ao sabor das
clivagens efêmeras que se fazem, desfazem e refazem constantemente.
(2012, p.1)
17
Sendo assim, no período no qual muitas dessas famílias vivenciam o
crescimento econômico, a política do Maranhão é marcadamente controlada por alguns
segmentos estabelecidos social e politicamente, ou seja, monopolizada por grupos
políticos familiares e marcada pela dominação personalizada.
Vale ressaltar que, entre a entrada e saída de Victorino Freire2, de José Sarney3 e
seus aliados, de Jackson Lago4 e o retorno de Roseana Sarney5, o pesquisador Flávio
Reis defende que não há uma superação do sistema oligáquico, mas, sim, crises intraoligárquicas e revezamento de grupos políticos ávidos pelo poder. Segundo o autor:
A crise na oligarquia liga-se fundamentalmente à crise do Estado, mas as respostas não têm se processado
de maneira a incorporar e dinamizar novas formas institucionais, para além das antigas práticas oligárquicas
de apropriação. Ao contrário, de certa maneira podemos perceber uma nova roupagem das velhas práticas
de loteamento e composição parlamentar (2007, p.16).
2
O pernambucano Victorino Freire foi eleito deputado federal no ano de 1946 e, no ano seguinte,
renunciou para concorrer ao Senado nas eleições suplementares. Foi senador por três mandatos
consecutivos, de 1947 a 1971. Ele chegou ao Maranhão na década de 1930, levado pelo interventor e seu
amigo, Capitão Martins de Almeida. No Estado, exerceu os cargos de Secretário de Governo e Secretário
de Segurança Pública. Quando retornou ao Rio de Janeiro, exerceu, ainda, o cargo de Oficial de Gabinete
do Ministro da Viação, Gal. João de Mendonça Lima. Sua estreita ligação com o Marechal Dutra facilitou
a entrada de Victorino no espaço político. Ele exerceu cargos políticos vinculados ao Maranhão por quase
30 anos. Tal período ficou conhecido como Vitorinista, que historicamente foi derrotado pelos
Oposicionistas, grupo que teve como representante José Sarney. Segundo Benedito Buzar: “O movimento
militar de 1964, de conteúdo udenista, contribuiu de modo acentuado para o desmoronamento do
vitorinismo, depois de vinte anos de pleno domínio político no Maranhão. Os militares assestaram as
baterias contra o PSD, responsabilizando-o pelos descalabros administrativos. Combater o PSD era a
palavra de ordem para colocar o Brasil na trilha da modernidade e do desenvolvimento. O vitorinismo,
visto como um dos agentes do atraso econômico do Maranhão, precisava ser destruído, para que o projeto
político do movimento militar fosse instalado. Para a operacionalização desse projeto, os militares
apoiaram a condidatura do deputado José Sarney, da bossa-nova da UDN” (2001, p. 23 e 24).
3
José Sarney é membro da Academia Brasileira de Letras e foi o presidente do Brasil, entre os anos de
1985 a 1990. Antes disso, foi governador do Estado do Maranhão de 1966 a 1971. Ele ocupou o cargo de
presidente do Senado Federal de 1995 a 1997, de 2003 a 2005, e de 2009 até a atualidade. A eleição de
Sarney para governador do Maranhão no ano de 1965 foi apontada como responsável pelo fim da
oligarquia Vitorinista no Maranhão.
4
Jackson Kléper Lago foi médico e político filiado ao Partido Democrático Trabalhista (PDT). Foi
governador do Maranhão, de 2007 a 2009, quando teve seu mandato cassado pelo Tribunal Superior
Eleitoral (TSE), passando a assumir o cargo Roseana Sarney, que havia sido derrotada nas eleições. Antes
disso, havia sido prefeito de São Luís por três ocasiões: de 1989 a 1992, de 1997 a 2000 e de 2001 a 2002
(este último interrompido por ocasião de sua renúncia para candidatar-se ao governo do Estado do
Maranhão).
5
Roseana Sarney é filha do ex-presidente da República, José Sarney, e irmã do deputado federal, Sarney
Filho, e do empresário, Fernando Sarney. No ano de 1990, candidatou-se à deputada federal pelo Partido
da Frente Liberal (PFL) e foi eleita. Em 1994, foi eleita pela primeira vez governadora do Maranhão. No
ano de 1998, foi reeleita governadora. Em 2006, foi candidata pela terceira vez ao governo do Maranhão,
mas perdeu para Jackson Lago. Entretanto, no dia 16 de abril de 2009, o Tribunal Superior Eleitoral
(TSE) confirmou a cassação do mandato de Jackson Lago e do vice Luís Porto por abuso de poder
econômico e político nas eleições de 2006. Com a cassação, foi ordenada a imediata posse de Roseana
Sarney como governadora do Maranhão e de João Alberto como vice. No ano de 2010, Roseana Sarney
voltou a ser eleita para o cargo de governadora do Maranhão.
18
E é neste contexto político que as famílias de descendência libanesa são
cooptadas após o sucesso empresarial, conforme observa Grill (2008a): “No segundo
estado (Maranhão), há igualmente a obtenção de notoriedade advinda do sucesso
empresarial, porém essa proporciona a fixação na capital e a cooptação para o exercício
de cargos políticos, para a direção das máquinas políticas estaduais e para as
candidaturas” (2008a, p.17). Com efeito, esses descendentes de imigrantes passam a
fazer parte dos grupos políticos e, aos poucos, familiares, por meio da constituição de
matrimônios com as famílias já estabelecidas no espaço político local. Paralelamente a
esse movimento, entram em jogo as estratégias de dominação já mencionadas. É
importante frisar que esses agentes ao adentrarem os espaços públicos e políticos, na
maioria das vezes, o fazem já inicialmente em cargos de alto escalão ou em cargos
eletivos centrais. Suas trajetórias nesses espaços já começam no topo. E são justamente
essas posições ocupadas que servem de instrumento de cooptação para os grupos
estabelecidos. Como destaca Grill:
No Maranhão, prevalecem percursos iniciados via cargos de primeiro escalão e/ou cargos
eletivos centrais (especialmente a deputação federal), salientam-se as ocupações associadas ao
‘saber técnico’ e a formação em instituições públicas situadas na capital ou em centros maiores,
além da importância dos cargos públicos como instrumento de cooptação e como trampolins nas
carreiras (2008a, p.85).
Outro assunto referente a esta pesquisa que é importante tratar, visto que ela está
trabalhando com agentes que defendem uma relação com dada etnia, é a questão da
migração. A migração é interessante por trabalhar com a inserção de um indivíduo em
uma cultura diferente da sua, concomitantemente a isso, aparecem questões relativas à
adaptação e, no caso da imigração libanesa para o Maranhão, o destaque social,
econômico e político obtido por alguns desses indivíduos que acaba se tornando a
identidade da etnia como um todo, em uma sociedade diferente da original.
Com efeito, paralelamente à discussão sobre as estratégias de afirmação social
mobilizadas pelos agentes e a importância de suas relações diádicas (LANDÉ, 1977)
para a obtenção de acessos, faz-se necessário refletir sobre a questão da identidade
desses agentes enquanto pertencentes a um grupo específico, que, neste caso, se trata da
descendência libanesa.
A idéia difundida de serem bons comerciantes, políticos exímios e bons
19
negociadores, acaba sendo a identidade imprimida por eles mesmos em suas estratégias
de auto-consagração e é assimilada pela sociedade como algo inato da etnia6. Mas o que
significa para esses agentes a posição de imigrantes? A idéia de “cultura libanesa” está
ligada, exclusivamente, ao fato de ter nascido em um determinado país? Por que após
tantos anos da chegada dos imigrantes libaneses, seus descendentes ainda fortalecem a
idéia de pertencimento a este grupo?
Alguns pesquisadores defendem a idéia de que o imigrante, muitas vezes, acaba
por não pertencer a lugar algum. Ele já não mais pertence a sua terra natal, que no caso
dos libaneses seria um local onde enfrentariam sérios conflitos políticos e religiosos, e
não pertence, ainda, ao local para o qual migraram, por terem costumes diferentes.
Segundo Abdelmalek Sayad:
... a migração condena-se a engendrar uma situação que parece destiná-la a uma dupla
contradição: não se sabe mais se se trata de um estado provisório que se gosta de prolongar
indefinidamente ou, ao contrário, se se trata de um estado mais duradouro mas que se gosta de
viver com um intenso sentimento de provisoriedade (1998, p. 45).
No caso da migração libanesa para o Maranhão, existem pontos que se
distanciam das demais correntes migratórias. Na migração dos armênios em São Paulo,
dos alemães no Rio Grande do Sul, dos japoneses em São Paulo, é possível perceber o
esforço de fortalecimento da cultura originária no novo local de residência. Eles falam a
chamada “língua mãe”, constroem templos religiosos próprios, criam escolas que
ensinam seus filhos dentro da própria língua, casam-se somente entre si. Com os
libaneses no Maranhão, foi diferente. Os casamentos desde o início do processo
migratório foram realizados tanto entre libaneses quanto entre libaneses e pessoas
nascidas no Maranhão. De um modo geral, aderiram à religião católica, que prevalecia
como religião local, e aprenderam a língua portuguesa.
Isso fez com que um pesquisador local, José Ribamar Chavaes Caldeira, tenha,
em tom polêmico, declarado em entrevista ao antropólogo Alexandre Corrêa: “Então,
6
Segundo Max Weber, as diferenças de costumes podem gerar em seus portadores um sentimento de
honra e dignidade. Colaborando para o fortalecimento dessa identidade. De acordo com o autor: “Toda
diferencia de ‘costumbres’ puede alimentar en sus portadores un sentimiento específico de ‘horor’ y
‘dignidade’. Los motivos originários que dan lugar a las diferencias en el estilo de vida se olvidan y los
contrastes subsisten como ‘convenciones’. Así como, de este modo, toda comunidad puede actuar como
generadora de ‘costumbres’, así actúa cada una de alguna manera, al vincular com cualidades heredadas
probalidades de vida, supervivência y propagación, en la selección de tipos antropológicos, por lo tanto,
en verdadera crianza, y em ocasiones de modo muy eficaz” (1987, p.317).
20
para mim, eles não formariam uma ‘etnia’, de modo algum; eles são um grupo de
integrados, que assimilaram a cultura daqui; não marcando a cultura daqui, pelo
contrário, foram marcados pela cultura daqui” (CORRÊA, 2009).
Se a idéia de imigrante implica em uma posição de transitoriedade e, por vezes,
de não pertencimento, no caso dos libaneses, isso foi contornado pela assimilação dos
costumes locais, é verdade. Vale ressaltar que o movimento oposto, também, pôde ser
observado. Muito dos costumes libaneses, ainda hoje, podem ser percebidos mesmo
entre pessoas sem qualquer descendência libanesa. Um exemplo disso é a difusão da
culinária libanesa no Estado.
Tendo como ponto de vista a análise das entrevistas realizadas com membros das
famílias as quais pertencem os agentes analisados, sobretudo, os pertencentes às
“famílias” Duailibe e Haickel, e alguns dados coletados em publicações sobre os
libaneses no Maranhão e seus descendentes, percebe-se a formação de um grupo e a
identificação com a etnia, esta última ultrapassando, muitas vezes, a necessidade de
vínculo com a pátria natal. Isso pode ser percebido pela criação de entidades libanesas
no Maranhão, tais como: Associação de Mulheres Libanesas e a Associação de Jovens
Descendentes de Libaneses, sendo a primeira ainda atuante, principalmente, na
realização de atividades filantrópicas, bem como aconteceu com os armênios em São
Paulo (GRUN, 1992) e os libaneses no mesmo Estado (TRUZZI, 1995).
Se no ambiente público essas famílias estavam muito bem inseridas na realidade
maranhense, no âmbito privado, práticas tradicionais libanesas são vigentes, tais como:
a inserção dos filhos mais velhos na atividade comercial da família e, sobretudo, a
culinária marcadamente libanesa. Como observa Olavo Correia Lima ao tratar das
“Influências culturais sobre os maranhenses”:
As primeiras se fizeram sentir sobre o terreno da Etnotropologia. Foram introduzidos novos tipos
de Alimentos na cosinha (sic) maranhense, já acostumada ao sincretismo luso-afro-ameríndio.
Embora os alimentos sírio-libaneses não tenham entrado em nossa rotina alimentar, são
encontrados nas festas e nas merendas de bar (1981, p. 45).
Então, questiona-se: até que ponto não há o fortalecimento de uma identidade
étnica libanesa no Maranhão? Por mais que haja uma interação entre a cultura local e a
dos descendentes de libaneses, isso não significa que se está caminhando para o
desaparecimento de uma ou outra. Frederik Barth explica que:
21
En otras palabras, las distinciones étnicas no dependen de una ausência de interacción y
aceptación sociales; por el contrario, generalmente son el fundamento mismo sobre el cual están
construídos los sistemas sociales que las contienen. En un sistema social semejante, la
interacción no conduce a sua liquidación como consecuencia del cambio y la aculturación; las
diferencias culturales pueden persistir a pesar del contacto interétnico y la interdependência (p.2,
1976).
Este autor critica a definição usual de grupo étnico como uma comunidade que
se autoperpetua biologicamente, que compartilha valores culturais fundamentais, que
integra um campo de comunicação e interação e que conta com membros que se
identificam e são identificados por outros. Para Frederik Barth, esse tipo de definição
impede de compreender o fenômeno da presença de grupos étnicos nas sociedades e
reduz o número de fatores que explicariam a diversidade cultural.
Barth (1976) ressalta, ainda, que é posssível perceber a interdependência de
grupos étnicos em um sistema social. É possível então que haja a convivência
harmoniosa entre diferentes grupos pelo aspecto complementar que eles apresentam.
Segundo o autor:
El vinculo positivo que conecta varios grupos étnicos en el sello del sistema social circundante
depende de la complementariedad de los grupos respecto a alguns de sus rasgos culturales
característicos. Esta complementariedad puede originar una independencia o una simbiosis, y
constituir los campos de articulación a que nos referimos antes; por lo contrario, em aquelos
sectores donde no existe complementariedad, no puede existir base alguna para una organización
de los aspectos étnicos: no existe interacción, o existirá interacción sin referencia a la identidad
étnica (1976, p. 11).
Essa simbiose pode ser percebida quando a idéia de identificação cultural
extrapola os limites biológicos, por exemplo, como no caso de Admée Duailibe, que não
tem relação consangüínea com libaneses, entretanto, casou-se com Antônio Salim
Duailibe, que era descendente dos imigrantes Salim Nicolau Duailibe e Linda Saad
Duailibe. Atualmente, Admée é presidente da Associação de Mulheres Libanesas e faz
questão de frisar: “Eu só não tenho sangue libanês, mas sou mais libanesa que muito
libanês por aí”7. Admée é reconhecida, inclusive, por sua dedicação à culinária libanesa.
Recentemente, o embaixador do Líbano a nomeou presidente da Confederação Nacional
Líbano-brasileira do Nordeste.
Percebe-se, assim, que a identidade étnica e cultural para esses agentes
7
Durante entrevista realizada no mês de junho de 2011.
22
imigrantes ajuda a fortalecer um valor simbólico atribuído por eles mesmos à etnia e
que, paulatinamente, é aceito e perpetuado na sociedade local. Esse valor simbólico é,
sobretudo, positivo e enaltecedor de feitos excepcionais, mas que são ampliados para a
toda a etnia e seus descendentes. Esse capital simbólico construído é, também,
convertido em capital político pelos agentes estudados, como poderá ser percebido mais
adiante.
Alessandro Pizzorno (1985), ao tentar entender o que motiva um indivíduo a se
envolver politicamente ou escolher quem irá representá-lo no espaço político, trabalha
com as noções de representação e de identidade. Para ele: “En realidad la acción
política, en cuanto funda identidades colectivas, se ocupa de definir y redefinir
continuamente los interesses” (1985, p. 33). Essa ação contínua de definição e
redefinição é realizada por meio de atividades “identificantes” e “eficientes”. Segundo o
autor:
En la actividad identificante los políticos desarrolan la tarea de constituir, preservar, reforzar las
identidades coletivas que aparecen sobre la escena política bajo sus múltiples formas (grupos,
partidos, movimientos, asociaciones, estados, etc.). Tal actividad consiste en producir símbolos
que sirven a los miembros de una colectividade dada para reconorcerse como tales, comunicarse
su solidaridad, acordar la acción colectiva. (...) En la atividad eficiente, en cambio, los políticos
toman decisiones directamente dirigidas a mejorar o preservar la posición relativa de la entidad
colectiva que ellos representan en el sistema dentro del cual ésta actúa. Esto puede efectuarse ya
sea usando los poderes de la autoridad política, por parte de quien la posea, ya sea desarrollando
las atividades de negociación, alianza, coalición, enfrentamiento, que permiten al sujeto político
medirse directamente con otros dentro de un sistema (1985, p. 33 e 34).
No texto de Pizzorno (1985), nota-se novamente como as alianças e coalizões
interpessoais são importantes para melhorar ou preservar a posição dos porta-vozes que
representam os agentes, colaborando assim para a manutenção do poder político dos
mesmos.
A identificação com a etnia libanesa é um aspecto relevante para esta pesquisa a
partir do momento que serve de mecanismo de identificação e produção de um grupo
que cria símbolos de solidariedade, reconhecimento e mobilização, tal como ocorre com
os agentes estudados.
Rogers Brubaker e Frederick Cooper explicam que o conceito de identidade é
usado de tantas formas diferentes, mas eles concebem identidade enquanto uma
categoria analítica. Segundo os autores: “We focus instead on identity as an analytical
categoriy. This is not a ‘merely semantic’ or terminological issue. The use and abuse of
23
‘identity’, we suggest, affects not only the language of social analysis but also –
inseparably – its substance” (2000, p. 2). Eles ressaltam, ainda, que a noção de
identidade pode ser ao mesmo tempo uma categoria da prática (luta) e uma categoria de
análise:
‘Identity’, too, is both a category of practice and a category of analysis. As a category of pratice,
it is used ‘lay’ actors in some (not all!) everyday settings to make sense of themselves, of their
activities, of what they share with, and how they differ from, others. It is also used by political
entrepreneurs to persuade people to understand themselves, their interests, and their
predicaments in a certain way, to persuade certain people that they are (for certain purposes)
identical with one another and at the same time different from others, and to organize and justify
collective action along certain lines (2000, p .5).
A expressão identidade é utilizada pelos atores para dar sentido às suas
atividades, ao que eles compartilham entre si e ao que os difere dos demais. Ao mesmo
tempo, essa palavra ganha uma conotação política quando é utilizada para persuadir as
pessoas a pensar em seus interesses e organizá-las em prol de uma ação coletiva.
Brubaker e Cooper (2001), entretanto, optam por utilizar o termo identificação no lugar
da noção de identidade, que para eles estaria subsumida no clichê construtivista com
múltiplas possibilidades interpretativas. Eles explicam, ainda, que a noção de identidade
pode fundar-se em concepções fracas e fortes do termo, e, por isso, defendem a
substitução pelo termo identificação, mais adequada quanto o objetivo é separar
posturas essencialistas e abordagens mais construtivistas.
Eliana Tavares dos Reis (2007) ao analisar a produção de Brubaker e Cooper
destaca que:
Três lógicas de análise encadeadas são caracterizadas como substitutas na noção de identidade:
1) o processo de identificação, 2) o processo de auto-compreensão; 3) as variações quanto às
formas de auto-compreensão que podem se alicerçar sobre bases de communalité (commonality),
connexité (connectedness) e groupalité (groupness) (2007, p. 61).
Dessa forma, a identificação abarca tanto a auto-identificação quanto a
identificação pelo outro, e, quando compartilhada, pode ser classificada como
communalité. Groupalité já é a percepção de que essa identificação é compartilhada por
um grupo (particular, limitado e solidário). Quando imersa em conexões que se fazem e
refazem continuamente por intermédio de alianças, elos e contatos assume a forma de
connexité.
24
Nas trajetórias analisadas, é possível perceber esse trabalho de identificação com
a etnia e de diferenciação perante a sociedade maranhense. E, sobretudo, é posssível
perceber que esta identificação é compartilhada por um grupo solidário entre seus
integrantes, com elos fortes e sentimento de pertencimento comum.
É importante ter em mente, também, que a identificação de algumas dessas
famílias com a etnia permite entender de que forma valores e características peculiares a
alguns indivíduos passam a servir de caracterização para todo um grupo social e de que
forma esses agentes trabalham para produzir símbolos de enaltecimento e
reconhecimento familiar, por meio dessa aproximação com o que seria a “cultura
libanesa”. Palavras como “carcamano”, usada para se referir aos descendentes de
libaneses, carregam valores como afeição ao dinheiro e habilidade de negociação e
passam a caracterizar qualquer pessoa que tenha vínculo com esta etnia. Segundo Igor
Gastal Grill:
Nessas condições, tal como ocorreu entre os judeus que aderiram ao comunismo e exerceram
funções de estado na Hungria, estudados por Karady (1995), os grupos outsiders podem ver e
experimentar a transfiguração de sua identificação étnica, religiosa etc., que deixa de ser um
estigma e passa a constituir-se em trunfo, como conseqüência de transformações na balança de
poderes. Da mesma forma que expressões como ‘colonos’ e ‘carcamanos’ que outrora os
segmentos estabelecidos – apoiados em mecanismos como: coesão grupal, identificação coletiva,
normas comuns, estoques de lembranças, critérios próprios de hierarquização etc., que eram
condições imprescindíveis do acesso ao carisma grupal – lançavam sobre e usavam contra seus
rivais outsiders, transformaram-se em sinais de auto-valorização, reconhecimento e
superioridade (2009, p. 158).
Clarisse Haickel, ao se referir ao marido, Nagib Haickel, por exemplo, usa a
palavra “carcamano”, fazendo associação ao “talento” do cônjuge para ganhar dinheiro,
como veremos mais adiante. Em qualquer momento da entrevista essa palavra foi usada
de forma pejorativa, como no início da migração dos libaneses para o Maranhão. A
palavra que antes era um estigma ganha valores positivos e é utilizada, inclusive, pelos
descendentes como forma de afirmação de pertencimento à etnia. Ser carcamano passa
ser sinônimo de ser libanês, ser habilidoso para trabalhar com dinheiro.
O foco dessa pesquisa abarca, então, as temáticas do parentesco e da identidade.
Ovídio de Abreu Filho se propõe a não utilizar uma perspectiva substancialista da noção
de família. E para isso, ele sugere a investigação do parentesco enquanto um sistema,
sobretudo simbólico, e não fechado apenas no sistema biológico. Segundo o autor:
“...não se trata de postular a existência de um sistema de parentesco enquanto realidade
25
dada” (1982, p.97).
Para ele, o parentesco pode se compreendido a partir de três categorias: sangue,
nome de família e raça. O primeiro seria o componente responsável pela transmissão de
qualidades físicas e morais. De acordo com Ovídio de Abreu Filho: “O sangue dá conta
de identidades familiares, de tipificações individuais e da demarcação e diferenciação de
famílias” (1982, p. 99).
Já o nome de família é a categoria que funciona como um “operador de
comparações entre famílias” e, sobretudo, media a passagem da condição de indivíduo
para a de pessoa, pois articula esses indivíduos às famílias. O autor ressalta, ainda, que
por meio do “nome de família, constrói-se um mapa de famílias que se hierarquizam
através de diferentes eixos classificatórios” (1982, p. 101).
Mesmo detalhando e explicando em que dimensões essas três categorias se
enquadram quando se trata de parentesco, o autor afirma que as mesmas não abarcam a
dimensão da afinidade. De acordo com o autor: “...as definições substancialistas de um
sangue, de uma raça ou de um nome de família coexistem e se redimensionam através
das relações de afinidade” (1982, p. 113). E ele conclui afirmando que:
Evidenciou-se que a consanguinidade define, neste caso, uma dimensão totalizante, onde o
indivíduo é pensado como englobado pelo sangue, nome de família e raça e que a afinidade, ao
contrário, pode ser percebida como uma dimensão de abertura do sistema (1982, p.116).
Sendo assim, pensou-se para essa pesquisa trabalhar com a noção de família
enquanto um sistema não fechado no esquema biológico e que permite trabalhar,
principalmente, com questões como afinidade, raça, sangue e nome de família.
Outro objetivo secundário deste trabalho é desnaturalizar essa concepção de
“tino comercial” e demonstrar que a trajetória desses agentes e as estratégias
mobilizadas (educacionais, matrimoniais e econômicas) permitiram o surgimento dessa
idealização da vocação comercial que, aos poucos, foi convertida para outros espaços
como o político e o intelectual, por exemplo. Algo semelhante ao que foi feito por
Canêdo, no artigo “Estratégias familiares na produção social de uma qualificação
política” (1991), no qual ela estuda uma grande família mineira que é conhecida e
reconhecida por ser uma “família de homens políticos”, como se o aspecto profissional
fosse incorporado aos agentes de forma natural. Ao longo do artigo, a autora desconstrói
essa visão e demonstra que se trata de uma família cujos integrantes utilizam as
26
estratégias educacionais, matrimoniais e econômicas, e reconvertem os diferentes
capitais (econômico, social e simbólico) em capital político, reproduzindo, assim, o
modelo de dominação.
A pesquisa para a produção dessa dissertação foi iniciada em 2010 e durou,
aproximadamente, dois anos. Inicialmente, foi realizada a leitura do material
bibliográfico, tanto teórico, quanto metodológico e histórico. No segundo ano da
pesquisa, foram iniciadas as entrevistas com representantes das famílias estudadas, no
caso a “família Duailibe” e a “família Haickel”. Também neste período, foi feita a coleta
de documentos e produções de membros dessas famílias.
A investigação se amparou igualmente em duas entrevistas realizadas pelo
orientador desta dissertação com Joaquim Haickel e Emílio Biló Murad. Tais relatos
foram obtidos nos marcos de um projeto mais amplo sobre as bases sociais da
especialização política no Maranhão no período compreendido entre 1945 e 2006 que
originou várias publicações (Grill, 2012, 2009, 2008a e 2008b, 2007a). A população
examinada naquele momento era constituída de ex-deputados federais do Estado.
Da “família Duailibe”, foram entrevistados: Maria José Duailibe Cassas, Admée
Rodrigues Duailibe e Marco Aurélio Rodrigues Duailibe. Além disso, foi consultado um
relato biográfico feito por Francisco Jose Carvalho Duailibe em um site dedicado ao
recolhimento de depoimentos e construção da genealogia de membros da família em
todo o mundo. Por fim, foram utilizadas matérias de jornais impressos do Maranhão e,
também, um livro biográfico com parte da história de Alfredo Duailibe.
Com relação à “família Haickel”, além das entrevistas de Clarisse Haickel,
Joaquim Haickel e Arcélia Abdalla Haickel, foram encontradas várias produções
textuais no blog de Joaquim Haickel, hospedado inicialmente no portal Imirante.com e,
atualmente, no site do jornal O Estado do Maranhão.
Com relação à metodologia, essa pesquisa teve um enfoque qualitativo. Foram
utilizados, basicamente, dois procedimentos para empreender esta pesquisa, uma foi a
coleta de dados documentais, de diferentes espécies: privados, públicos, particular,
oficial, aberto, fechado, restrito, etc. Teve-se acesso: ao site criado pela “família
Duailibe” para armazenar fotos, gravações, textos e árvores genealógicas da família; ao
texto elaborado por um sobrinho de Alfredo Duailibe; a matérias jornalísticas que
falavam sobre as famílias Duailibe e Haickel; aos textos de Joaquim Haickel publicados
27
no seu blog e em outros blogs, conforme descrito anteriormente.
O segundo instrumento empregado foi a realização de entrevistas em
profundidade. A partir dos relatos obtidos com os familiares dos agentes estudados que
se realizou o esforço de reconstruir as genalogias e trajetórias dos mesmos.
Principalmente por meio dessas entrevistas é que foram coletados os dados qualitativos.
Elas serviram, também, para a compreensão dos vínculos estabelecidos entre essas
famílias, sejam eles de parentesco ou mesmo amizades instrumentais.
Essas entrevistas seguiram um roteiro pré-estabelecido (mas flexível) que visava
obter do entrevistado informações pertinentes à pesquisa, que, neste caso, estão
relacionadas com as origens familiares e com os itinerários dos agentes. Este roteiro
trouxe indagações sobre a formação escolar, as principais atividades profissionais
desenvolvidas, os casamentos realizados, a carreira seguida pelos filhos, o patrimônio
econômico, a entrada na carreira política, o percurso de cargos e partidos, o início da
produção intelectual etc.
Entretanto, deve-se ressaltar que o produto final da entrevista, por vezes,
extrapolou os questionamentos listados no roteiro. Isso porque, ao longo da entrevista,
as respostas dos entrevistados suscitaram outros questionamentos relevantes. Segundo
Combessie: “A análise retrospectiva das entrevistas manifesta que cada entrevistador
tem seu ‘estilo’ de condução de uma entrevista. O recurso do guia tende a homogeneizar
os estilos, mas não os anula” (2004, p. 47).
Sabe-se da dimensão que este estudo poderia alcançar, porém foi inviável
aprofundar os conhecimentos e estabelecer as redes de interação com um número maior
de famílias com descendência síria e libanesa das quais algum membro entrou para o
espaço político no Maranhão. Por isso, foram reconstruídas as trajetória de membros de
duas famílias diferentes, escolhidas segundo os critérios já mencionados. Ainda assim,
essa pesquisa permitirá demonstrar que os aspectos levantados não são de um caso
isolado e podem ser identificados em diferentes épocas e por agentes de famílias
distintas.
No primeiro capítulo desta dissertação são apresentadas as produções de
diversos autores que trabalharam com a temática da migração aliada à entrada de alguns
agentes representantes de diferentes etnias no espaço político, após a ascensão
econômica. Procura-se captar se há semelhanças e diferenças com o comportamento de
28
algumas famílias de descendência libanesa no Maranhão. No segundo capítulo, o foco é
a trajetória de Alfredo Duailibe, descrevendo a chegada da sua família ao Maranhão, a
ascensão econômica por meio do comércio, os investimentos educacionais realizados
por alguns membros da família, a entrada de Alfredo no espaço político do Estado e a
importância de suas relações diádicas no percurso para a ocupação de cargos ao longo
de sua carreira. E no terceiro e último capítulo, são reconstruídas as trajetórias de dois
integrantes da “família Haickel”: Nagib Haickel e Joaquim Haickel, pai e filho. Neste
capítulo, é possível perceber a ascensão econômica da família, a entrada de Nagib
Haickel na política, o aprendizado do funcionamento do mundo político no ambiente
doméstico ao longo da trajetória de Joaquim Haickel, o investimento escolar e
empresarial de Joaquim Haickel no ramo da comunicação etc. Por meio da análise da
trajetória dos agentes da “família Haickel”, é possível trabalhar com a questão da
transmissão familiar do poder político.
29
1 - IMIGRANTES NO BRASIL: TRAJETÓRIAS ASCENDENTES
Este primeiro capítulo traz um resumo de um conjunto de pesquisas já
empreendidas em alguns Estados brasileiros que visaram examinar como imigrantes de
diferentes etnias ascenderam econômica e politicamente. Esta discussão permite
estabelecer uma comparação das particularidades desses tipos de ascensões sociais com
aquele identificado no Maranhão. E, também, observar os desdobramentos do uso do
mesmo esquema de análise centrado em trajetórias de agentes exemplares.
Seja pela vastidão territorial ou pelas possibilidades econômicas, o Brasil em
diferentes épocas atraiu imigrantes de várias nacionalidades: libaneses, sírios, alemães,
armênios, judeus, japoneses, entre outras. Hoje, em praticamente todo o território
brasileiro, é possível encontrar um descendente de alguma etnia estrangeira. Pois bem,
este capítulo enfoca a entrada de algumas etnias no Brasil, mais precisamente, as seis
supracitadas, para mostrar que a permanência e o destaque econômico e, por vezes,
político, desses agentes se deram, em parte, pela interação com os costumes locais e
pela mobilização de estratégias de dominação e reprodução já tão peculiares à sociedade
brasileira. Segundo Pierre Bourdieu:
En nuestras sociedades, donde diferentes instrumentos de reproducción están disponibles, la
estructura de la distribución de poderes sobre los instrumentos de reproducción es el factor
determinante del rendimiento diferencial que los distintos instrumentos de reproducción están en
la medida de ofrecer a las inversiones de diversos agentes, y por tanto, de la reproducibilidad de
su patrimonio y de su posición social, y por tanto de la estructura de sus propensiones
diferenciales a investir sobre los distintos mercados (2002, p. 9).
Este capítulo parte então de publicações de outros autores que estudaram de
forma aprofundada cada etnia: Oswaldo Truzzi estudando os sírios e libaneses em São
Paulo; Roberto Grün analisando os armênios em São Paulo; Giralda Seyferth e Igor
Gastal Grill pesquisando os alemães no sul do Brasil; Roberto Grün, analisando os
judeus em São Paulo; e, por fim, Célia Sakurai examinando os japoneses em São Paulo.
O objetivo é mostrar que, independente da etnia ou da região escolhida como morada,
parte desses imigrantes ascenderam econômica e politicamente no Brasil devido ao
acionamento de estratégias de dominação e a reprodução da posição social alcançada
para os seus descendentes. Outra questão levantada é a relação da ascensão desses
imigrantes e descendentes com a proximidade com indivíduos já pertencentes às
30
camadas mais elevadas da sociedade brasileira, e a posterior reprodução desse sistema
tão engenhosamente engendrado no Brasil. As posições ocupadas na sociedade, as
relações desenvolvidas por esses agentes permitirão a ascensão social, servindo como
recursos para as disputas de poder. Como explica Grill:
Bourdieu (...), por sua vez, remete a questão para a necessidade de se estudar espaços
estruturados por relações objetivas entre indivíduos e propriedades, recursos que se aproximam
ou se diferenciam e princípios de legitimação concorrentes. Assim, trata-se de apreender a
multidimensionalidade dos recursos dos agentes, a estrutura de capital, de poder e de dominação
em diferentes esferas sociais. (...) Postula-se, pois, a centralidade da utilização da análise de
trajetórias sociais. Ou seja, compreender as posições ocupadas pelos agentes, seu deslocamentos
no espaço social, as transformações ocorridas neste último e nos campos específicos nos quais
investem. Desse modo, apreende-se o conjunto de recursos e atribuições acumulados, bem como
seu valor de acordo com as lógicas de concorrência (2008b, p. 15).
Sendo assim, ao analisar e reconstruir a trajetória desses agentes os autores
conseguiram compreender os recursos econômicos, sociais e políticos adquiridos e as
posições alcançadas por esses atores em diferentes espaços sociais. Nessas trajetórias,
os investimentos realizados e as estratégias acionadas permitiram um acúmulo maior de
capital e a reprodução das posições de destaque. Isso tudo pôde ser percebido em
diferentes processos migratórios para o Brasil, como poderá ser observado nos tópicos
que seguem.
Cabe adiantar e reforçar que o critério de escolha não obedece à importância das
etnias no processo migratório ocorrido para o Brasil. Os trabalhos apresentados a seguir
foram selecionados em virtude do enfoque adotado, possibilitando assim, por um lado,
cotejar os itinerários de ascensão econômica e afirmação política em distintos contextos,
e, por outro, refinar os instrumentos de pesquisa privilegiados nesta investigação
percorrendo trabalhos que mobilizaram o esquema analítico com maestria, como o de
Oswaldo Truzzi, que enfocava no processo de ascensão dos sírios e libaneses em São
Paulo.
Segundo o autor, os primeiros imigrantes sírios e libaneses chegaram ao Brasil
por volta da década de 70 do século XIX. Nessa primeira fase, de acordo com versão
difundida, a maioria dos imigrantes vinha só, diferentemente das demais nacionalidades
que chegavam ao país na época. Eram, em sua maioria, jovens cujas famílias estavam
passando dificuldades pela falta de terrenos para a agricultura e que estavam sofrendo
perseguições religiosas dos turcos. Só após conseguir uma fonte de renda é que esses
31
imigrantes mandavam trazer seus familiares. Outra diferença marcante foi o casamento
que se dava, principalmente, entre pessoas da mesma nacionalidade. Oswaldo Truzzi
(1991) apresenta um quadro onde se pode perceber essa diferença com relação às
demais nacionalidades que imigravam para o país. Enquanto a porcentagem de
casamentos entre sírios era de 50,5%, entre italianos era de 20,2%, já entre portugueses
era de 35%. Esse dado é importante para perceber como se configurava a sociabilidade
dos sírios e libaneses no início da imigração para o Brasil. Segundo Oswaldo Truzzi8:
Se de modo geral as alianças matrimoniais na colônia tenderam no início a ocorrer internamente
a esta, entre as famílias mais bem sucedidas economicamente este processo foi ainda mais
marcante. Neste caso somou-se à predisposição endogâmica a preocupação com a manutenção
do patrimônio acumulado. O resultado para a primeira geração de filhos de imigrantes nascida no
Brasil foi um padrão de casamento muito marcado pelas alianças no interior da própria família
ampliada (1991, p. 32 e 33).
Esse tipo de reprodução endógena, que poderia acarretar em um distanciamento
da etnia por parte da sociedade brasileira da época, acabou não tendo uma consequência
tão voraz por causa da atividade econômica escolhida por esses imigrantes, a chamada
“mascateação”. Isso porque essa ocupação não colocava os imigrantes sírios e libaneses
tanto na posição de submissos quanto o colonato ou a proletarização, que foi mais
comum aos imigrantes italianos, por exemplo. Oswald Truzzi ressalta que:
Esta “vocação” comercial significou algo mais específico do que uma mera inserção urbana, não
devendo ser confundida com esta condição mais ampla por dois motivos: em primeiro lugar,
porque a zona rural constituiu uma base espacial importante às atividades do mascate e em
segundo lugar porque eles não aderiram a outras ocupações tipicamente urbanas, fora do
comércio (1991, p. 54).
A atividade de mascate permitiu aos imigrantes sírios e libaneses a sociabilidade
que poderia ser negada por causa da homogamia étnica dos primeiros vínculos firmados
dentro do Brasil. Além disso, tal atividade econômica deu a eles uma possibilidade de
crescimento maior que as demais atividades destinadas aos imigrantes, como a mão de
obra nas lavouras. A “mascateação”, mais tarde, viria possibilitar aos imigrantes uma
ascensão econômica significativa, pois os sírios e libaneses privilegiavam a iniciativa
pessoal, a autonomia econômica. Até os anos 1940, a maior preocupação dos imigrantes
sírios e libaneses era com a atividade comercial, Oswaldo Truzzi observa que neste
8
O autor partiu de dados coletados sobre casamentos realizados entre os anos de 1940 e 1946.
32
período “a atividade política soava como algo muito distante” (1995, p. 29). A primeira
referência a casas de comércio administradas por imigrantes sírios e libaneses data do
ano de 1893. Isso mostra uma inserção no comércio varejista. No ano de 1901, foram
registrados mais de 500 estabelecimentos pertencentes a imigrantes desta etnia. De
acordo com Oswaldo Truzzi:
Qualquer balanço da bem-sucedida saga da colônia síria e libanesa em termos de sua ascensão
econômica não pode deixar de destacar os dois elementos básicos que deram sustentação ao
processo como um todo. Em primeiro lugar, as relações de complementariedade e de ajuda
mútua estabelecidas no interior da colônia. Elas se manifestaram num sem-número de
mecanismos que se desenvolveram desde a acolhida dos recém-chegados pelos já residentes até a
ponta das relações de complementaridade que se estabeleceram entre industriais e grandes
comerciantes. (...) O segundo elemento fundamental diz respeito ao contínuo processo de
realimentação que representou a importação de parentes e conterrâneos pelos já estabelecidos
(1991, p. 63).
Esses dois tipos de relações, tanto de apoio (ajuda mútua), quanto de importação
de parentes, também, poderão ser vistas na migração libanesa para o Maranhão. O autor
destaca que essas relações comerciais, baseadas muitas vezes em relações pessoais,
construíram um “sustentáculo” importante economicamente (TRUZZI, 1991, p. 64). Em
sua obra, Oswaldo Truzzi ressalta, ainda, o quanto os sírios e libaneses ampliaram as
possibilidades do comércio no Brasil, principalmente, por adotarem uma política de
venda a crédito. Tal atividade os levaria a ascensão econômica, não apenas pelo
contexto de expansão que propiciava um bom momento para o comércio, mas, também,
porque a atividade inicial de mascate permitiu que eles ampliassem a rede de relações
dentro do país.
Já tendo atingido uma posição economicamente relevante no cenário da época,
os sírios e libaneses e seus descendentes começaram um processo de inserção no espaço
das profissões liberais (tais como advocacia, medicina e engenharia). E é justamente
dentro dessas escolas de formação mais valorizadas na sociedade brasileira (tidas como
de elite) que essas pessoas vão ampliar suas as redes de relações. Como observa
Oswaldo Truzzi:
[A] Análise das modalidades de inserção das etnias em cada uma destas escolas de elite
evidencia a construção de uma rede de alianças muitas vezes decisivas para o futuro das carreiras
dessa geração: alianças internas ao grupo, com colegas de famílias bem posicionadas externas à
etnia, com professores e ainda com profissionais já bem estabelecidos no ramo (1991, p. 83).
33
Essa primeira geração da colônia sírio-libanesa, além de já estar bem inserida no
espaço econômico, passou a galgar espaço dentro dos centros de educação e ampliar as
redes de relações. Vale ressaltar que a boa projeção econômica leva a conseguir, mais
facilmente, boas posições nesses centros educacionais, e vice-versa. A conquista de
espaço dentro dos centros leva a uma ampliação nas possibilidades econômicas dessas
pessoas e dos vínculos interpessoais com membros da elite. Oswaldo Truzzi ressalta,
ainda, que essa primeira geração é marcada pela “quantidade apreciável de ingressantes
na elite das profissões liberais e a virtual ausência de alianças conjugais com famílias
mais tradicionais ou mais bem posicionadas economicamente” (1991, p. 90).
Com o crescimento econômico (obtido por meio do comércio) e, tendo
adentrado espaços antes só ocupados pela elite brasileira, como era o caso de certos
centros de ensino (como a Faculdade de Medicina), não demorou para que descendentes
passassem a ocupar cargos públicos (políticos) importantes. Oswaldo Truzzi
exemplifica com a figura de Ricardo Jafet, que, em 1951, foi escolhido por Getúlio
Vargas para ser presidente do Banco do Brasil. De acordo com Oswaldo Truzzi:
É importante, contudo, que dois aspectos sejam ressaltados. Em primeiro lugar, o elevado
número de profissionais liberais, quase todos filhos de imigrantes (cujos pais, portanto, muito
provavelmente iniciaram suas trajetórias como mascates), que depois se tornaram políticos. De
um universo de 88 mandatos de deputados federais, estaduais (eleitos por São Paulo), ou de
vereadores da capital, exercidos por 41 políticos distintos de origem sírio-libanesa, cerca de dois
terços eram profissionais liberais de nível superior, sobretudo advogados e médicos. Em segundo
lugar, salta aos olhos a presença maciça de personagens que entraram na política estadual e
federal a partir de carreiras iniciadas em cidades interioranas (1995, p. 53 e 54).
Para Oswaldo Truzzi alguns fatores foram determinantes nessa trajetória
socioeconômica da colônia libanesa e permitiram a entrada na política. Dentre eles
estão: uma inserção urbana, embora nem sempre na capital do Estado; o
desenvolvimento de um nicho integrado de especialização econômica; e, por fim, como
já foi destacado anteriormente, um investimento na educação da primeira geração
nascida no Brasil. Esse último fator colaborou, sobretudo, na aproximação desses
descendentes de imigrantes com a elite profissional da época, pois eles passavam a se
relacionar dentro das instituições de ensino. Essa realidade foi posterior ao crescimento
econômico dessas famílias, pois, como o próprio autor ressalta, até os anos 1940 a
entrada na política parecia uma realidade distante desses imigrantes. Segundo Oswaldo
Truzzi: “A preocupação com o cotidiano, tecido de estratégias familiares de
34
sobrevivência, sempre se mostrou infinitamente mais importante e, nesse aspecto, pouca
diferença há entre os sírios e libaneses e os outros grupos de imigrantes” (1995, p. 29).
O autor observa que a maioria dos descendentes de sírios e libaneses que se
lançariam em carreiras políticas procedia de famílias cujos pais haviam provavelmente
trabalhado como mascates. No Maranhão, o processo de ascensão dos libaneses não
seria muito diferente, sobretudo, por causa da inserção comercial.
Embora se concentrem mais em São Paulo, os libaneses e seus descendentes
estão espalhados por todo o território brasileiro, como é o caso do Maranhão. Os
primeiros imigrantes libaneses ocuparam, primeiramente, os territórios do interior do
Estado e, aos poucos, foram se deslocando para o litoral, São Luís, mais precisamente.
Olavo Correia Lima mostrou a diferença entre imigrantes sírios e libaneses em São Luís
e no interior9. A partir do seu trabalho, é possível perceber que o número de famílias que
se estabelecem em cidades do interior do Estado é bastante superior ao de famílias que
ficam na capital (São Luís).
O antropólogo Olavo Correia Lima ressalta, ainda, que houve uma segunda leva
de imigrantes sírios e libaneses, que estimulou a vinda de outros. De acordo com Lima:
Na segunda leva, no início do sec. XX (1901), vieram os Ázars (Esber e Miguel) e os Chamiés
Estes motivaram a vinda de outros, a última diáspora: Chames Aboud, Farah, Damous, Fiquene,
Muchereck, Saback, Facuri, Tajra, Curi, Millet, Sequeff, Safady, Nazar, Maluf (Rosário),
Mubarack, Buzar (Itapecuru), Trovão (Coroatá), Abdala, Tomé (Timbiras); Boeres (Bequimão) e
mais Waquim, Nahuz, Dino, Mattar, Francis, Boabaid, Chuaty e outros” (1981, p. 27).
Hoje, podemos identificar no dia-a-dia o quanto essa migração foi intensa.
Diariamente, pode-se observar determinados sobrenomes pertencendo a altas rodas
políticas, econômicas e intelectuais no Estado. São eles: Abas, Abdalla, Aboud, Ageme,
Amate, “Araujo”10, Assad, Assen, Assub, Atta, Ayoub, Ázar, Bahury, Baquil, Béliche,
Bohaid, Bohabaid, Boueres, Braid, Buhaten, Buzar, Cassas, Cateb, Chaib, Chaim, Cury,
Dadou Damous, Dino, Duailibe, Elouf, Facury, Fahd, Faray, Fecury, Félix, Feres,
Fiquene, Franciss, Frejah, Gedeon, Habibe, Hachen, Hadade, Haickel, Haidar, Heluy,
9
Vale sublinhar que, primeiramente, muitos imigrantes sírios e libaneses se instalaram em cidade do
interior do Maranhão. Posteriormente, com a ascensão econômica, muitas dessas famílias foram para a
capital, São Luís. Mílson Coutinho dá como exemplo a família Mohana: “...se fixaram inicialmente em
Viana e depois se estabeleceram em São Luís, onde fundaram a Casa Mohana” (2001, p.111).
10
O sobrenome “Araújo” entra nessa lista, mesmo sendo mais conhecido como português do que
propriamente libanês, porque, na época da entrada das famílias no Brasil, registros dos imigrantes foram
mudados. O sobrenome Darwich acabou sendo traduzido como Araújo.
35
Jodão, Jorge, Kubrusly, Lamar, Lauande, Maluf, Marão, Mattar, Mettre, Millet,
Mohana, Moisés, Mouchereck, Moussalen, Mubarack, Nagen, Nahuz, Nasser, Naufel,
Nazar, Nessralla, Nicolau, Rabhani, Rabut, Saad, Sabbak, Safady, Said, Saif, Salem,
Salmen, Sauaia, Sekeff, Simão, Tanus, Thomé, Trabulsi, Trade, Utta, Waquim, Weba,
Zaidan, Zenni e Zeitoune11.
É possível perceber que alguns desses sobrenomes estão associados a casos de
ascensão econômica, política e, por vezes, de afirmação intelectual no Estado. Pode-se
ir além nessa observação, alguns desses descendentes de libaneses reconvertem os
diferentes capitais (econômico e intelectual) para o espaço político. Percebe-se, então, a
formação de uma elite de caráter multidimensional, com o poder distribuído em
diferentes espaços. Sendo assim, quanto mais bases de capitais agregam, maior é a
superfície social que conseguem dominar. O agente que possui diferentes capitais
(cultural, econômico, político etc.) consegue converter as posições de um domínio para
o outro.
Rapidamente, podem ser enumerados alguns exemplos do que foi descrito
acima. Não é de hoje que a Academia Maranhense de Letras (casa que reúne os
destaques literários) recebe descendentes de libaneses. Joaquim Nagib Haickel foi o
último a ser empossado. Ele ocupou a cadeira de número 37 em uma solenidade no dia
2 de outubro de 2009, e está diretamente vinculado politicamente à “família Sarney”, de
grande liderança política no Maranhão. Atualmente, ele ocupa o cargo de secretário de
Esportes do Estado (sua trajetória será constituída mais adiante).
Em entrevista concedida a Igor Gastal Grill, Emílio Biló Murad, pertencente a
uma das famílias que vieram na “primeira leva”, lembrou que o primeiro representante
de sua família a vir para o Brasil foi o seu tio, Joanes Murad, que se estabeleceu no
município de Itapecuru (MA). Ele afirmou que12:
Com a proximidade da Primeira Guerra Mundial, meu tio mandou buscar o seu irmão, meu pai,
Ananias Murad. Ele também veio para Itapecuru. Nessa cidade, ele casou a primeira vez, com
uma descendente de libanês. Depois de ficar viúvo, casou-se novamente, com uma filha de
comerciantes, uma maranhense da família Azar que foi criada no Líbano. A essa altura, ele já
tinha um comércio que vendia de tudo, gêneros alimentícios, coisas de limpeza. O irmão do meu
11
Mílson Coutinho: “Entre esses ilustres clãs alternam-se e alteiam-se homens de negócios, altas patentes
militares, religiosos, escritores, poetas, magistrados, membros do Ministério Público, médicos,
advogados, parlamentares federais, estaduais e municipais, cientistas, industriais, e, para fechar, cinco
governadores: Antonio Dino, José Murad, Alfredo Duailibe, César Aboud e Ribamar Fiquene” (2001).
12
Em entrevista realizada no dia 15/06/2007 por Igor Gastal Grill.
36
pai era comerciante também, cada um com o seu negócio.
Ananias Murad e sua esposa tiveram seis filhos: Antônio José, Benedito, Aluísio,
Emílio, Arnaldo e Nazira. O primeiro filho nasceu na cidade de Codó (MA) e os demais
em Itapecuru (MA). Quando a família se estabeleceu em Codó (MA) recebeu grande
apoio de Sebastião Archer13. “Teve um período em que houve uma crise que quebrou a
nossa fábrica. Nessa época, Sebastião ofereceu um quarteirão para o meu pai de Biló e
sua afilhada. Nesse imóvel, a minha mãe abriu um bar”, explicou Emílio Biló Murad.
Em momentos de crise econômica, os filhos eram convocados para regressar à
Codó. “Estudei no Ateneu, no Liceu e no Colégio São Luís. Quando estava fazendo um
curso técnico, voltei para Codó porque meu pai estava precisando de mim”, comentou
Emílio Biló Murad. Outro exemplo disso, é que, com a morte de Ananias Murad,
Antônio José (filho mais velho, que estava estudando fora) interrompeu o curso e
retornou para ajudar a mãe no comércio.
E é justamente nesse retorno à Codó que Emílio Biló Murad se envolve com a
política. Em entrevista, ele disse que:
Quando cheguei peguei muita popularidade na cidade. Eu participava de tudo que é sociedade,
time de futebol etc. Depois, engajei-me em uma das campanhas do governador Sebastião Archer.
E, em contrapartida, ele me inscreveu como candidato a vereador. Isso aconteceu quando eu
tinha uns 18 anos. Na minha primeira eleição, fiquei como primeiro suplente e depois assumi.
Conclui três mandatos de vereador.
Ao longo de sua carreira política, Emílio Biló Murad foi, ainda, candidato a
prefeito, mas perdeu, e, depois, se candidatou, em 1962, a deputado estadual pelo
Partido Social Progressista (PSP). “Fui candidato sem o apoio da família Archer, mas
sem brigar. Fui um bom deputado estadual”, ressaltou. Emílio Biló Murad ocupou
13
Em 1892, construía-se a primeira indústria de Codó (MA) - Companhia Manufatureira e Agrícola, de
propriedade de Emílio Lisboa, tendo como engenheiro Palmério Cantanhede. Um dos diretores da fábrica,
genro do seu proprietário, era João Ribeiro, que, em 1908, levou para Codó (MA) Sebastião Archer da
Silva, até então solteiro, para exercer as funções de escriturário. Sebastião Archer se casou com Maria
José Bayma, filha do então chefe político da cidade, Manoel Ferreira Bayma, que veio a falecer em 1919.
Deste casamento nasceram Remy, Renato, Ruy e Rute. Após morte de Maria José, Sebastião Archer casou
com Marita Bayma. Juntos eles tiveram Ronaldo Archer. Acumulando ações, Sebastião Archer chegou a
ter o monopólio da Companhia Manufatureira e Agrícola, que no período da Segunda Guerra Mundial
sofreu grande crise, fechando definitivamente suas portas na década de 50. Sebastião Archer foi
Governador e Senador. Remy Archer foi diretor da estrada de ferro São Luís - Teresina; Ruy Archer
formou-se em medicina; Renato Archer foi comandante da Marinha Brasileira e exerceu vários cargos
eletivos, tendo sido inclusive candidato a Governador do Maranhão.
37
também o cargo de deputado federal e estabeleceu várias relações diretas com políticos
como Clodomir Millet, José Sarney e Pedro Neiva.
Quando deixou de se candidatar a cargos eletivos, Emílio Biló Murad passou a
ser convidado a ocupar cargos comissionados. Ele foi diretor do Serviço de Imprensa e
Obras Gráficas do Estado (Sioge).
Ofereceram o cargo de secretario adjunto da Secretaria de Estado do Esporte e Lazer (Sedel) e eu
não aceitei. Depois, Nagib Haickel, então presidente da Assembléia Legislativa do Maranhão,
convidou-me para ser assessor parlamentar. Depois que Nagib morreu e Manoel Ribeiro
assumiu, eu continuei por lá. Eu e Manoel éramos amigos de futebol.
Durante todo o governo Pedro Neiva de Santana dirigiu a COHAB. No governo
João Castelo esteve, também, por quatro anos, na direção da Lotema, a loteria estadual
do Maranhão.
Emílio Biló Murad foi o único de seus irmãos que se envolveu, a longo prazo, na
política, os demais se dedicaram apenas no comércio. Entretanto, ele explica que outra
parte da família que se constituiu na cidade de Coroatá, também, se envolveu com
política, como é o caso de Ricardo Murad.
Abaixo a caracterização de Ricardo Murad feita por Grill:
Oriundo de uma “família de empresários” de origem libanesa radicada em Coroatá. Seu primo
em segundo grau (primo do seu pai), Emílio Biló Murad, empresário de Codó, foi vereador
(1951-1962), deputado estadual (1963-1966), deputado federal (1967-1970), presidente da
Companhia Habitacional do Maranhão (1971-1975), presidente da Loteria Estadual do Maranhão
(1979-1983), secretário de Desportos e Lazer (1983-1987), assessor na Assembléia Legislativa
(1987-1990). Formou-se em Direito pela UFMA e se casou com a filha de um importante
político local, o industrial e pecuarista Vitor Trovão, que foi prefeito de Coroatá pela Arena em
1966 e deputado federal entre 1979 e 1990. Sua esposa foi prefeita de Coroatá e deputada
estadual. Um sobrinho foi prefeito e um dos cunhados é vereador no município. Seu irmão, o
empresário Jorge Murad, casou-se com a atual senadora, ex-deputada federal e ex-governadora,
Roseana Sarney, filha, por sua vez, de José Sarney (2009, p. 156).
Segundo o portal do Governo do Estado (www.ma.gov.br):
Ricardo Jorge Murad, nascido em 12 de abril de 1956, foi eleito deputado estadual pela primeira
vez em 1982. Reeleito em 1986, presidiu a Assembléia Legislativa do Maranhão de 1987 a 1989.
Em 1990, conquistou o mandato de deputado federal. De 2003 a março de 2004 comandou a
Gerência Metropolitana de São Luís. Depois de eleito deputado estadual em 2006, de abril de
2009 a abril de 2010 foi secretário estadual de Saúde do governo Roseana Sarney, iniciando um
processo de reestruturação do sistema estadual de saúde por meio do Programa Saúde e Vida.
Reeleito novamente em outubro de 2010, Ricardo Murad se licenciou em fevereiro de 2011 da
Assembléia Legislativa para reassumir o comando da Secretaria de Estado da Saúde. Ele, ainda,
38
é cunhado de Fernando Sarney, sócio de Joaquim Haickel no Sistema Mirante.
Paralelamente à carreira política, Emílio Biló Murad se envolveu diretamente
com o esporte no Estado do Maranhão. Ele foi atleta amador. E só largou o futebol,
quando assumiu a Câmara de Codó como vereador por quatro mandatos consecutivos.
Retornou a São Luís como deputado estadual em 1963. E, nesse período, voltou
a se engajar no futebol como vice-presidente de Chiquinho Aguiar, do Sampaio Corrêa.
Largou tudo novamente para trabalhar na campanha do futuro governador, José Sarney.
Ele atuava no interior do Estado. Foi eleito deputado federal e, de 1967 a 1971, residiu
em Brasília.
No ano de 1971, assumiu a presidência do Sampaio Correia. Em 1979, cobriu
um mandato na Federação Maranhense de Desportos, em substituição a Domingos Leal.
Em 1980 foi realmente eleito para o cargo, ficando como presidente até 1983.
Acompanhou a transição da Confederação Brasileira de Desportos para
Confederação Brasileira de Futebol e também o desmembramento e criação das
Confederações das modalidades basquete, vôlei e handebol. Figurava como fundador de
todas essas entidades.
Emílio Biló Murad nasceu no dia 2 de março de 1926 e morreu no dia 17 de
novembro de 2009, aos 83 anos de idade. Ele era casado com Antonieta Nunes Murad e,
juntos, tiveram seis filhos: Maria Emília, Simone, Virgínia, Ananias, Emílio Biló e
Jakqueline.
Para Emílio Biló Murad, o que favorecia a entrada de muitos libaneses na
política do Maranhão era o sucesso econômico. “Tivemos muitos libaneses políticos. Eu
acho que era situação financeira. Os patrocinadores dos políticos eram os empresários.
E tínhamos muito libaneses empresários”, concluiu.
Outro exemplo mais antigo é César Alexandre Aboud (ainda que de forma
menos detalhada, é importante construir a trajetória de César pois, mais à frente, será
possível perceber que seu êxito econômico influenciará inclusive na trajetória de Nagib
Haickel). Ele entrou para o mundo da política quando já era um empresário atuante nas
áreas comercial e industrialmente. Sua primeira eleição foi para deputado da
Assembléia Legislativa. Segundo relato de Benedito Buzar14 em seu livro Vitorinistas e
14
Autor, também, de descendência libanesa, cuja família obteve destaque econômico por meio do
comércio, na cidade de Itapecuru-Mirim. Mais recentemente, Benedito Buzar publicou um livro em
39
Oposicionistas:
Se na atividade empresarial, César Aboud alcançou êxito e fortuna, na política também
experimentou momentos de glória e de satisfação, principalmente quando foi indicado
consensualmente, por oposicionistas e governistas, presidente da Assembléia Legislativa,
condição que o conduziria ao cargo de governador-interino do Maranhão, no ano de 1951, em
substituição a Eugênio de Barros, que se licenciara para aguardar, no Rio de Janeiro, o
julgamento dos recursos, no TSE, contra a sua diplomação e posse no governo (2001, p. 107).
No início do século XX, Júlia Drubi, viúva e com dois filhos (Jorge e Rajy
Nahoun) saiu do Líbano e chegou ao Rio de Janeiro. Nesta cidade, conheceu o, também,
libanês Alexandre Aboud e se casou novamente. No ano de 1907, Alexandre e Júlia
partem para a cidade de Cruzeiro do Sul, no Acre. Lá nasceram os três primeiros filhos
do casal: Eduardo, Vitória e César. O último nasceu no dia 23 de fevereiro de 1910.
Quando César Alexandre Aboud tinha 2 anos, a família veio morar no
Maranhão, a convite de Wady, Manih e Felipe (irmãos de Alexandre). Na época, eles
trabalhavam no comércio local. De acordo com Benedito Buzar: “Em São Luís, César
teria seus primeiros contatos com os livros, através de Dona Santinha, que lhe dava
aulas em casa. Alfabetizado, foi matriculado no Colégio Maristas, onde fez o curso
primário” (2001, p. 108).
Ainda na infância, César Alexandre Aboud perdeu o pai, que já era um
comerciante estabelecido em Pinheiro. Estimulada pelo filho mais velho, Rajy Nahoun,
que já morava na Argentina, Júlia foi morar em Buenos Aires, na companhia de César,
Alice e Olinda (as filhas caçulas, nascidas no Maranhão). De acordo com Benedito
Buzar:
homenagem a seu pai, contando a história de sua família. Vale ressaltar que esta produção pode ser
compreendida enquanto uma estratégia de consagração familiar. Sua narrativa, como a de outros autores
com Milson Coutinho, acabam por heroicizar a presença dos libaneses e seus descendentes no Maranhão.
Sobre os lugares de Benedito Buzar tanto no espaço intelectual quanto político, pode-se recorrer à
passagem de Grill: “O jornalista Benedito Buzar escreveu dois livros (1998 e 2001) intitulados O
Vitorinismo: lutas políticas no Maranhão (1945-1965) e Vitorinistas e Oposicionistas (Biografias) que
representam uma das versões mais difundidas dessa matriz de leitura do ‘sarneyismo’. O autor é membro
da Academia Maranhense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão e geralmente é
classificado como historiador e cientista político. Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, professor da
Universidade Estadual do Maranhão, foi deputado estadual (cassado em 1964). As coletâneas de
biografias publicadas sobre os ‘escritores maranhenses’ trazem uma lista de cargos públicos ocupados por
Benedito Buzar como: chefe de divisão de assuntos internos da Sudema (Superintendência de
Desenvolvimento do Maranhão), secretário municipal de educação e cultura de São Luís, advogado do
escritório técnico da administração municipal de São Luís; secretário de estado da cultura, gerente
regional de Itapecuru (sua cidade de origem) no governo de Roseana Sarney, etc. É autor de vários livros,
sobretudo sobre a política maranhense” (2010, p.14).
40
Na capital da argentina, onde passaram apenas dois anos, César estudou na Escola Bartolomeu
Mitre e, com 11 anos, começou a trabalhar como transportador de mercadorias na firma de José
Gassard, para ajudar a mãe na manutenção da família. Em 1922, dona Júlia e os filhos já estavam
de volta ao Brasil. O tio Many mandou buscá-los. Novamente instalados em São Luís, César foi
estudar no colégio Gilberto Costa e, com 14 anos, empregou-se na firma Chames Aboud (2001,
p. 108 e 109).
A Chames Aboud pertencia ao seu tio Wady. César começou viajando para o
interior do Maranhão para vender mercadorias, principalmente, tecidos. Trabalhando, no
ano de 1926, diplomou-se contador no Centro Caixeral15. Seu tio Many o levou ao Rio
de Janeiro para que ele trabalhasse na empresa Many Aboud & Cia.. César e seu irmão
Alexandre se associaram a essa empresa, cuja atuação era na importação de arroz e
babaçu do Maranhão, para revender no mercado sulista.
No ano de 1932, período em que a empresa já estava consolidada, César noivou
com a catarinense Ruth, que era cunhada do tio Many. No dia 23 de julho de 1933, eles
se casaram na cidade de São José, em Santa Catarina, local de nascimento de Ruth.
Juntos eles tiveram cinco filhos, sendo uma adotiva.
César foi nomeado judicialmente síndico da massa falida da Companhia
Industrial Mineira, de Juiz de Fora, no ano de 1935. A Many Aboud & Cia. era credora
desta companhia. Segundo Benedito Buzar, após recuperar a companhia, César voltou
ao Rio de Janeiro para administrar a Many Aboud & Cia, que na época estava se
expandindo, em parte motivada pelas consequências da II Guerra Mundial. De acordo
com o autor:
Cumprida, com êxito, a missão realizada em Juiz de Fora, retornou para o Rio de Janeiro, onde a
empresa da qual era um dos sócios, atravessava uma fase de vigoroso crescimento, em
decorrência da eficiência com que vinha sendo administrada e da II Guerra Mundial, cujos
reflexos na economia brasileira permitiram que os nossos produtos primários entrassem em larga
escala no mercado americano e europeu. Essa abertura proporcionou a ampliação dos negócios,
com a exportação de algodão, arroz e babaçu para aqueles países (2001, p. 110).
No ano de 1938, César retornou para o Maranhão para administrar a fábrica
Santa Isabel, de propriedade de Nhozinho Santos. Na época, esta fábrica não estava
atravessando uma boa fase econômica e foi comprada pelos Aboud. E, então, César foi
convocado para administrá-la, com a ajuda de José Francis. Benedito Buzar relata que:
15
Sobre a importância da instituição na formação e socibilidades dos comerciantes de São Luís, bem
como na constituição de uma “elite econômica”, ver Neves (2011).
41
Para recuperar a Santa Isabel, imediatamente foram importados equipamentos modernos da
Europa. Dentro de pouco tempo, a fábrica já apresentava uma nova linha de produção. Do
riscado, seu principal artigo, passou a produzir trinta novos tipos de tecido, destacando-se lona,
lonita, morim, brim, mescla, xadrez, etc. Sob o comando de César, a Santa Isabel tornou-se uma
das indústrias mais sólidas e conceituadas do País, exportando tecidos, inclusive para o
estrangeiro (2001, p. 111).
Em 1946, morreu o tio Many, no Rio de Janeiro. Com isso, a empresa homônima
desapareceu. Então, César e Alexandre Aboud deram início a uma nova empresa com o
mesmo objetivo da anterior. Seu nome era Sociedade Aboud Comércio Limitada, e o
nome fantasia era Duoba (Aboud ao contrário). Segundo Benedito Buzar: “Por mais de
duas décadas, a Santa Isabel contribuiu assinaladamente para o progresso do Maranhão,
não somente pela receita que gerava, mas pela oferta de empregos, chegando a ocupar,
diretamente, mais de mil operários” (BUZAR, 2001). Com a paralisação da fábrica,
César deixou o ramo industrial, voltando para a atividade onde começou a sua vida
empresarial: a firma individual Comércio César Alexandre Aboud e com o irmão
Alexandre, com quem criou a Rasec (César ao contrário).
Além da vida empresarial, a trajetória de César foi marcada por sua atuação na
vida política do Maranhão, bem como por cargos e funções exercidas em várias
entidades e instituições. No ano de 1945, César entrou para a política. De acordo com o
relato de Benedito Buzar, foi “pelas mãos de Genésio Rego” que ele ingressou no
Partido Social Democrático (PSD), tendo se desligado do partido pouco tempo depois,
motivado pelo rompimento com Vitorino Freire. Filiou-se então ao Partido Trabalhista
Brasileiro (PTB) e, por esse partido, concorreu a deputado. Ficou na primeira suplência
do PTB. Entretanto, com a realização dos pleitos suplementares, conseguiu os votos
necessários para se tornar o representante do partido de Getúlio Vargas na Assembléia
Legislativa.
Convidado por Vitorino Freire e José Mattos, deixou o PTB e ingressou no
Partido Social Trabalhista (PST). Por esse partido, se candidatou a deputado estadual
em 1950. Atingiu uma votação expressiva, segundo Benedito Buzar. Ele destaca, ainda,
que: “Nas eleições proporcionais de 1954, desta feita pelo PSD, que Vitorino havia
arrebatado de Genésio Rego, mais uma vez se viu vitorioso nas urnas. As violentas e
grosseiras fraudes eleitorais processadas no interior do Estado impediram que tivesse
êxito nos pleitos de 1958 e 1962” (2001, p. 112 e 113).
42
No ano de 1951, as Oposições Coligadas não se conformaram com a eleição de
Eugênio de Barros para o cargo de governador do Maranhão. Na época, havia suspeita
de fraude no processo eleitoral, levando o grupo político e parte da população a
questionarem a legalidade da posse do governador eleito. Tudo isso gerou uma crise
política que chegou a paralisar atividades públicas e privadas. Segundo relata Benedito
Buzar:
Para resolver o impasse, encontrou-se a fórmula que agradou a vitorinistas e oposicionistas:
Eugênio Barros se licenciaria e assumiria interinamente o governo o presidente da Assembléia
Legislativa. Consensualmente, César Aboud foi escolhido para essa missão. Com habilidade,
competência e argúcia, mostrou que era o homem ideal para o cumprimento daquela delicada
incumbência, realizando, no período de 14 de março a 18 de setembro de 1951, uma
administração empreendedora e promovendo a pacificação política que o Estado desejava (2001,
p. 113).
Após a transmissão do cargo de governador para o eleito Eugênio Barros, César
renunciou à presidência do Poder Legislativo.
Paralela às carreiras empresarial e política, César Aboud, também, se dedicou
profissionalmente ao esporte. Aos 4 anos de idade, César já tinha organizado um time de
futebol em São Luís – o Botafogo. Na adolescência, fez parte do Esporte Clube Sírio
Brasileiro, formado por descendentes libaneses. Deste clube ele foi dirigente e jogador.
Anos depois, após liderar uma dissidência no Sírio Brasileiro, se tornou técnico do
Atlético Clube. Conforme relata Benedito Buzar: “Em 1939, já era notória a sua
dedicação aos desportos. Em razão disso, recebeu convite do capitão do Exército Vitor
Santos, para dirigir o Moto Club de São Luís, que não estava atravessando boa fase no
campeonato. César, então, mudou-se de armas e bagagens para o Moto, uma de suas
maiores paixões, e onde ficou, só como presidente, 15 anos” (2001, p. 114).
O Moto Club16 é um clube de futebol da cidade de São Luís-MA. Ele foi
fundado no dia 13 de setembro de 1937, e é um dos maiores clubes do Maranhão.
Fundado em 1937, na antiga residência de César Alexandre Aboud, localizada na Rua
da Paz, Centro de São Luís, o Moto tem um título do Campeonato Maranhão-Pará de
1972, um título da Copa Norte/Nordeste em 1947 e dois títulos na Segunda Divisão
Maranhense, entre outros. No início, o objetivo era participar de atividades no ciclismo
e motociclismo, mas abriu as portas para outros desportos e, no ano de 1939, o time
16
Este clube foi criado pela família Aboud em parceria com a família Mouchrek, também de
descendência libanesa.
43
ingressou no futebol após uma partida contra o Ateneu, mais precisamente no dia 13 de
setembro daquele ano. Buzar relata que:
Com o seu dinamismo, procedeu a mudanças e alterações no Moto, começando pela cor da
camisa que, de verde e branca, passou para vermelha e preta, por causa do Flamengo.
Reestruturou o clube, ampliou o quadro de associados, criou os departamentos de voleibol e
basquete e reformou o estádio Santa Isabel, em 1942, construindo arquibancadas e dotando-o de
condições apropriadas para o exercício do bom futebol que à época se praticava no Maranhão
(2001, p. 114)
César Aboud faleceu em São Luís, no dia 20 de agosto de 1996. Esse resumo da
sua trajetória permite perceber que ele atuou e se destacou em múltiplos espaços
(econômico, esportivo e político). Além disso, permite notar o apoio familiar para o seu
desenvolvimento econômico (ele começa a sua carreira de empresário trabalhando na
empresa da família) e as estratégias acionadas ao longo de sua trajetória, como a
educacional e a matrimonial, quando se casa com a cunhada do tio responsável pelo seu
crescimento econômico. Essas características poderão ser vistas, também, e com mais
profundidade, nas trajetórias dos agentes pesquisados.
Frederico Mamede Santos Furtado em sua monografia intitulada “A comunidade
sírio-libanesa e sua inserção na elite maranhense” listou alguns exemplos de famílias
que ascenderam no espaço econômico por meio do comércio. São elas: a família Maluf,
proprietária da maior firma importadora e exportadora de Rosário-MA; a família Buzar,
detentora de casas comerciais na cidade de Itapecuru-Mirim-MA; e a família de Elias
Salomão Araújo, dono de comércio na cidade de Codó. Frederico Mamede Santos
Furtado ressalta que: “Aqueles que conseguiram sucesso como mascate utilizaram o
capital adquirido e começaram a investir em outro ramo, ainda comercial, mas agora
varejista e atacadista” (2008, p. 36). Em sua monografia, ele articula o quadro abaixo,
que mostra alguns dos principais empreendimentos pertencentes a sírios e libaneses no
Maranhão.
44
QUADRO 1 – Relações de empresas pertencentes às “famílias” de libaneses
RELAÇÃO DE EMPRESAS DE FAMÍLIAS SÍRIO-LIBANESAS
ANO
FUNDAÇÃO
DE EMPRESA
FAMÍLIA
ENDEREÇO
ATIVIDA
DE
1900
Elisa Maluf & MALUF
Cia
LTDA
Rua Jacinto Maia Criação
495
de aves,
produtos
elementar
es
1921
Salim Duailibe
DUAILIBE
Rua
Candido Comercio
Mendes
varejista e
s/n
miudezas
1926
J Murad
MURAD
Rua Portugal 39
1930
Nicolao Hiluy
HILUY
Rua
Oswaldo Varejista
Cruz 20
tecido e
armarinho
1931
Chames Aboud ABOUD
& Cia
1949
Roxy
Tjara
Moises TJARA
Comercio
varejista e
tecido
Rua
Candido Comercio
Mendes
atacadista
163
de tecidos
e
Varejista
Rua
Oswaldo Atividade
Cruz 132
cinematog
ráfica
Fonte: Junta Comercial do Maranhão
Vale ressaltar que os exemplos de imigrantes sírios e libaneses e seus
descendentes na política do Maranhão não ficam restritos aos que já foram citados.
Entretanto, é importante frisar que os casos de imigrantes que ascenderam
economicamente por meio do comércio e converteram isso em destaque político são
casos pontuais, que, entretanto, são disseminados como uma “vocação” inerente à etnia
pelos próprios agentes. É possível perceber isso no discurso difundido de um talento
para a negociação, para enriquecer por meio do comércio e para fazer uma política
baseada no contato pessoal.
Considerando apenas a partir do ano de 1935, pode-se destacar alguns nomes
que se desenvolveram no meio político: os deputados constituintes Ismael Salomão
Mussalém e Alberto Zamith; os deputados Alfredo Salim Duailibe, Clodomir Teixeira
Millet, Antonio Jorge Dino, Miguel Bahury, Emílio Murad, Marão Filho, Nagib
45
Haickel, Victor Trovão, Joaquim Haickel, Ricardo Murad, Mauro Fecury, Alberto
Aboud, César Bandeira, César Aboud, João Jorge Filho, Alberto Aboud, Benedito
Buzar, José Elouf, Aderson (Braide) Lago Filho, Emílio Biló Murad, Jaime Braide,
Sebastião Murad, José Lamar, Eduardo Braide, dentre outros. Mílson Coutinho17
destaca, ainda, a participação desses imigrantes e descendentes em outros espaços além
do político, tais como o acadêmico e na magistratura. Segundo o autor:
Na cátedra universitária pontificaram Alfredo e Antonio Duailibe, Salomão Fiquene, médico,
cientista e homem de letras, Benedito Buzar, Joaquim Itapary, João Mohana e outros. (...) Na alta
magistratura do Estado (desembargadores do Tribunal de Justiça), quatro nomes de relevo: Ives
Miguel Ázar, Jorge Rachid Mubárack Maluf, Jamil Gedeon Neto e Antonio Bayma Araújo. (...)
Os três últimos com passagem pelas presidências dos Tribunais de Justiça e Regional Eleitoral
(2001, p. 118).
Para entender a ascensão dos imigrantes sírios e libaneses no Maranhão, é
necessário compreender a configuração familiar desses imigrantes. Essas famílias
tinham uma configuração muito complexa e extremamente interdependente.
Basicamente, se dividia em três grupos: a família conjugal, composta pelos pais e seus
respectivos filhos; a família extensa, na qual estão inclusas os parentes mais próximos,
como os avós (chefes da família como um todo); e a família grupal, da qual faziam parte
parentes mais distantes, como tios, primos, etc... De acordo com Mílson Coutinho:
“Esta estrutura dá a família sírio-libanesa solidez cultural invejável, caracterizada pela
obediência, respeito e dignidade. São muito unidos e afetuosos. Fazem freqüentes
reuniões familiares” (2001, p.112). Uma observação relevante feita por Mílson
Coutinho é sobre os casamentos entre os imigrantes. “A família extensa por sua vez,
controla o comportamento e o casamento dos membros. Muitas vezes a escolha da
noiva seja feita pela família, embora no habitual seja feita pelos noivos” (2001, p.112)18.
Mais à frente, no estudos das trajetórias, essa informação é útil para trabalhar a idéia de
que os casamentos eram, significativamente, influenciados pela consideração dos
atributos econômicos e políticos dos envolvidos no enlace matrimonial.
17
A produção deste autor, como foi destacado anteriormente, também pode ser enquadrada em trabalhos
de consagração de determinadas famílias do Estado.
18
O controle do casamento dos filhos, também, pode ser entendido como uma estratégia matrimonial,
afinal, essas uniões, na maioria das vezes, objetivavam a manutenção ou o aumento do patrimônio
familiar. Os casamentos, normalmente, eram “arranjados” com moças e rapazes “de família”, ou seja,
com certo poder econômico e representatividade social.
46
Uma migração muito semelhante a dos sírios e libaneses foi a armênia para São
Paulo e, por ter sido em pequeno número, muitas vezes, foi confundida com esta. A
ocupação foi uma dessas semelhanças. Assim como os sírios e libaneses, os imigrantes
armênios que ficaram nos centros urbanos se dedicaram ao comércio, principalmente,
ao comércio de sapatos. O primeiro grupo de armênios que chegou ao país foi
responsável pela formação de organismos de ajuda aos demais imigrantes que
chegariam ao Brasil posteriormente. Esse tipo de relação colaborou para a formação de
uma colônia fortalecida e com costumes próprios, como destaca Roberto Grün: “... o
circuito da colônia circunscrevia as possibilidades e o alcance das interações sociais que
conduzia às grandes decisões, como casamentos e os vários tipos de inserções
econômicas dos indivíduos” (1992, p. 25).
Ao chegar ao país, o imigrante armênio era confrontado por um contexto nada
favorável para o seu desenvolvimento. No Brasil, toda e qualquer formação intelectual e
diplomas tinham o valor automaticamente reduzido, pelo simples fato de ser um
imigrante. Por volta dos anos de 1930, estavam sendo debatidas as políticas migratórias
no país. Como forma de reagir a essa desvalorização brasileira, os imigrantes armênios
passaram a afirmar a identidade de imigrantes como sendo indivíduos diferentes dos
pobres brasileiros. Assim, os armênios passaram a valorizar as características
caucazianas da etnia e a ocidentalidade como forma de conseguir uma posição melhor
na sociedade brasileira. Roberto Grün destaca que:
Uma vez os atributos listados nas estratégias de diferenciação acabam se tornando pontos de
ética que cada “armênio em potencial” deve seguir, produzindo-se um efeito prescritivo sobre
suas condutas. Entranhadas nos indivíduos pela socialização familiar e nos colégios, Igrejas e
clubes étnicos, essa espécie de código de conduta vai se tornar um importante instrumento de
reconhecimento de iguais, uma espécie de investimento em forma (Thevenot, 1985), operante
principalmente nas estratégias de casamento e econômicas (1992, p. 35 e 36).
Economicamente, os armênios enveredaram para a produção e comércio de
sapatos. A especialização nesse ramo levou muitas famílias armênias ao sucesso
financeiro e, conseqüentemente, ao reconhecimento social, que mais tarde qualificará os
filhos desses imigrantes para ocupar posições diferenciadas na sociedade. Como destaca
Roberto Grün: “A disseminação desse prestígio por toda a sociedade acabou
qualificando os filhos das famílias imigrantes, também, para a ocupação de uma série de
empregos não manuais” (1992, p. 37).
47
E foi a especialização comercial que possibilitou aos armênios uma
diferenciação na sociedade brasileira e o sucesso foi, em grande parte, devido ao
processo de ajuda mútua entre os compatriotas. Os imigrantes já estabelecidos
economicamente ajudavam os recém-chegados empregando-os ou financiando seus
empreendimentos. Como relata Roberto Grün:
De posse dos moldes, o agente passava a montar sapatos por conta própria em casa, após o
trabalho e/ou com a ajuda da família. Com o tempo, essa produção doméstica virava uma
“fabriqueta de fundo de quintal” e os mais capazes, ou afortunados, transformavam a fabriqueta
em fábrica regularmente estabelecida (1992, p. 48).
Como se pode perceber, desde o início a participação dos filhos na produção dos
sapatos era evidente. Não foi à toa que as posições foram reproduzidas no seio
familiar19. Desde cedo, as gerações mais novas aprendiam o ofício para ajudar o núcleo
familiar. Isso resultou na especialização funcional dos armênios no Brasil. Roberto Grün
exemplifica mostrando que em uma turma de formandos do Ginásio da Igreja
Apostólica, em 1969, mais da metade passou a trabalhar na produção de calçados,
enquanto as moças se casaram com alguém que exercia essa atividade. Vale ressaltar
que essa profissionalização na área era exaltada em detrimento da aquisição de um
diploma em qualquer que fosse o curso superior.
Mais tarde, o “ter uma fábrica regularmente estabelecida” abriria espaço para
uma nova ambição: ter uma loja própria e no shopping. Isso pode ser interpretado como
uma procura por uma nova sociabilidade por parte dos armênios e seus descendentes.
Roberto Grün escreve que:
Não se trata mais do “dinheiro que não tem cheiro”, mas da convivência com uma clientela e
com colegas lojistas portadores de atributos de distinção que elevam também, indiretamente, o
próprio lojista. A procura desses ambientes pode ser considerada um indicador razoável da
necessidade de se inserir em círculos de sociabilidade elevados, além da fronteira do étnico,
apontando para a integração mais ampla na sociedade inclusiva, através da aceitação de
hierarquias de status mais gerais (1992, p. 65).
Esse processo de chegada ao Brasil e posterior fortalecimento econômico, por
meio da produção de sapatos, foi experienciado por três gerações. Na primeira, ainda,
com pouco ou nenhum conhecimento da língua portuguesa ou mesmo dos costumes do
19
Núcleo pai e filhos.
48
país, que começaram a produzir pares de sapatos de forma bastante artesanal, dentro do
meio familiar. Na segunda, com membros nascidos no país, a prática da produção de
sapatos é levada para o comércio e foca, principalmente, em clientes de classe baixa.
Nesta geração, já pode ser percebido o envolvimento, ainda que tímido, com as
tendências da moda que imperavam entre a classe mais alta. A terceira geração, por sua
vez, já foi socializada em ambientes “formadores de moda” e passaram a produzir
produtos destinados à classe mais abastada. A ascensão econômica legitimou a ascensão
social.
Embora se concentre mais nas relações econômicas dos armênios e seus
descendentes, Roberto Grün destaca a importância do casamento como uma estratégia,
ainda que não premeditada, para que ocupassem a posição de elite na sociedade
paulista. Ele observa que: “No padrão que apreendemos, a independência do rapaz tem
dois tempos fortes, que podem estar entrelaçados: o casamento e a abertura da loja
própria” (1992, p. 69).
No início da constituição da colônia armênia no Brasil, os casamentos seguiam
as relações econômicas então traçadas. Roberto Grün registra “a ocorrência de muitos
casamentos entre a filha do negociante com os ‘braços direitos’ do pai” (GRÜN, 1992).
As mulheres, no geral, tinham uma posição secundária porque, na maioria das vezes, os
conhecimentos do comércio e do ofício eram passados para os filhos homens, isso
gerava até diferenciações na hora de partilhar uma herança, cabendo ao filho a maior
parte desta. Nota-se que os casamentos eram de extrema importância para a
configuração social que estava sendo desenhada pelos armênios, pois era por meio deles
que eram feitas alianças econômicas importantes e eram os casamentos entre membros
da colônia que as fortaleciam e ajudavam a manter a identidade armênia.
Nas gerações posteriores, o controle dos casamentos por parte da família dos
noivos ficou mais difícil, colaborando para o paulatino “problema da continuidade da
colônia armênia”, como destaca Roberto Grün. Isso aconteceu em parte pela
escolarização da terceira geração, a entrada nas universidades os teria exposto aos
códigos de condutas na sociedade inclusiva. Mas esse não é o único fator. Roberto Grün
ressalta que:
...o “fator universidade” não pode ser simplesmente isolado. Constatamos indícios de que, em
gerações anteriores, os raros jovem que chegaram à universidade também obedeciam às regras
49
estabelecidas por seu grupo étnico quanto à procura do parceiro para a constituição da família.
Mesmo quando os ainda raros “doutores armênios” se defrontaram com a iminência de seus
filhos entrarem no mercado de casamentos, adotavam posturas análogas às de seus coetâneos não
escolarizados. Assim, a ação desagregadora da sociabilidade universitária deve ser
contextualizada em eixo temporal no qual talvez, seus efeitos se maximizem num espaço onde a
etnicidade já está relativamente esmaecida (1992, p. 77 e 78).
Vale ressaltar que a homogamia não deixou de existir das primeiras gerações
para a terceira, ela simplesmente deixou de ser étnica para ser social. Ou seja, os
descendentes de armênios deixaram de se casar entre si e passaram a se casar com
pessoas com afinidades econômicas. Como observa Roberto Grün:
A dificuldade de manutenção da homogamia étnica que descrevemos caminha pari passu com o
reforço da homogamia social, à medida que a seletividade do ensino superior brasileiro, que só
marginalmente é freqüentado por jovens vindos de camadas populares, reforça probalisticamente
a possibilidade de “bons encontros”, nos quais preponderam as afinidades mais gerais que unem
nossas camadas altas e médias (1992, p. 82).
Diferentemente dos armênios de São Paulo, que raramente ingressaram na arena
político-eleitoral, ficando mais restritos ao espaço econômico, para os alemães do Sul
do Brasil que conseguiram uma ascensão econômica, era mais comum converter esse
sucesso comercial e industrial em destaque social e político.
A imigração alemã caracterizou-se pela formação de colônias. A primeira
colônia alemã de Santa Catarina, por exemplo, foi fundada no ano de 1829. O modo de
colonização do Sul do país efetuado por imigrantes dessa etnia teve peculiaridades que
levou a um distanciamento inicial com a sociedade brasileira. O processo de
colonização visava incentivar a ocupação territorial e implementar um sistema fundiário
de pequena propriedade familiar. A idéia inicial era que os colonos adquirissem as terras
a prazo, tudo controlado pelo Ministério da Agricultura, e pagassem a dívida por meio
do que era produzido por eles nas terras. Entretanto, esse sistema mostrou-se falho em
diferentes dimensões. No geral, a venda das terras demorava a sair por causa da
burocracia, o que fazia com que o imigrante ficasse dependente dos subsídios oficiais e
aumentasse, a cada dia, a dívida entre os comerciantes locais. As dívidas se tornavam
difíceis de serem pagas porque o imigrante não tinha uma terra própria para conseguir
uma renda proveniente de seu trabalho. Além disso, as terras recebidas eram,
geralmente, inadequadas para a agricultura e distantes dos centros consumidores. Isso
dificultava ainda mais a quitação da dívida pelas terras, incentivando a mobilidade dos
50
imigrantes. Já estabelecidos, esses imigrantes alemães começaram com uma agricultura
de subsistência. Como destaca Giralda Seyferth:
...nos primeiros anos de assentamento os colonos estabeleceram uma agricultura de subsistência,
empregando a técnica da coivara (derrubada-queimada e plantio manual com o uso da enxada),
sendo a produção destinada em primeiro lugar ao consumo da família, o excedente trocado nas
casas comerciais locais (as “vendas”). Mais tarde a introdução do plantio de fumo e a criação de
suínos e gado leiteiro, bem como as possibilidades de beneficiamento de milho e mandioca em
engenhos e atafonas, ampliaram as possibilidades da produção comercial. Houve, portanto,
algum incremento da atividade agrícola com emprego da rotação de terras e cultivo visando à
conservação do solo (1999, p. 66).
Vale ressaltar que, já nas primeiras décadas de ocupação, alguns imigrantes
alemães conseguiram outras ocupações que proporcionavam um bom retorno
financeiro, ou mesmo, abatimento na dívida pelas terras. Isso permite identificar uma
estratificação social dentro das colônias que, mais tarde, culminaria na ascensão de
descendentes de alemães para posições políticas de destaque a sociedade brasileira.
Como observa Giralda Seyferth:
O primeiro ponto a considerar, portanto, é que esse segmento rural produzido pela colonização
nada tem de homogêneo; mas, embora diferenciado, as distâncias sociais eram pequenas, e o
principal efeito do regime de pequena propriedade familiar, pode-se dizer, foi a constituição de
uma classe média rural relativamente estável – uma estabilidade garantida também pela
migração (1999, p. 68).
Nessa estratificação social os comerciantes tiveram um papel importante, pois
eles “acumularam capital suficiente para investir na atividade industrial”. O surgimento
dessas indústrias diversificou, ainda mais, as possibilidades de atividade econômica e
tornou os imigrantes alemães, antes esquecidos por colonizarem áreas não povoadas,
visíveis aos olhos da sociedade brasileira. Giralda Seyferth conclui que:
Assim, o desenvolvimento do comércio e da indústria desde a década de 1880, bem como a
emancipação das colônias, colocam em evidência uma questão importante: imigrantes e
descendentes estavam localizados em uma região onde a sociedade nacional inexistia, mas a
nova situação político-econômica exigia a assimilação como condição da cidadania. Isso aponta
para a questão da etnicidade e para o fato simples da apresentação de ambas as vilas como
“comunidades germânicas (1999, p. 72).
Tendo conseguido o êxito econômico na região, os imigrantes alemães e seus
descendentes passaram a despertar o interesse da elite econômica e política do Estado. E
o fato deles terem conservado seus costumes e até mesmo a língua mãe, pouco
51
assimilando os costumes brasileiros, passou a ser um motivo de preocupação. A
categoria teuto-brasileiro surge, então, para dar conta de resolver este impasse e unir a
germanidade (Deutschtum) com a cidadania brasileira.
Forma-se o que Giralda
Seyferth chama de germanidade brasileira (Deutschbrasilianertum). Em seu artigo, a
autora identifica que:
Mais do que as diferenças concretas, caracterizáveis como étnicas, o discurso sobre Deutschtum
e Deutschbrasilianertum, e a ênfase, principalmente da elite local, na identidade teuto-brasileira,
deram margem a conflitos, principalmente para aqueles cuja trajetória de ascensão social
ultrapassou os limites da comunidade local, e pelo fato de a etnicidade ser considerada pelos
brasileiros como obstáculo à assimilação e risco para a unidade nacional. Na verdade, a
assimilação cultural e o investimento escolar obtido fora da comunidade étnica foram canais
privilegiados de ascensão social, especialmente para os que estavam situados nas camadas
médias emergentes do sistema de colonização. Afinal, no início do século, nas duas vilas só
havia o equivalente ao ensino de primeiro grau – ir adiante na escolarização exigia a
transferência para Porto Alegre, São Paulo ou Rio de Janeiro (1999, p.75).
Giralda Seyferth destaca, ainda, em seu artigo, duas trajetórias exemplares de
ascensão dos imigrantes alemães, dentre elas a de Lauro Severiano Müller (1863-1926).
A família de Lauro Müller veio para o Brasil com o primeiro contingente de imigrantes,
tendo um tio que trabalhava como pequeno comerciante, atividade que conforme foi
visto anteriormente contribuiu para emergência financeira de muitos imigrantes. Lauro
foi educado em alemão e, posteriormente, ingressou em uma escola teuto-brasileira. Aos
16 anos, foi enviado ao Rio de Janeiro para estudar. Aos 19 anos, ingressou na Escola
Militar do Rio de Janeiro, formando-se engenheiro-militar. Lauro serviu como ajudantede-ordens do marechal Deodoro da Fonseca. Com 26 anos, tornou-se governador
provisório de Santa Catarina. A partir daí, ingressou em vários cargos políticos de
destaque. Observando a trajetória, percebe-se o quanto foi importante a carreira
educacional para os futuros cargos ocupados por ele. Estudar na Escola Militar ampliou
a sua rede de relações e ter servido como ajudante-de-ordens do marechal Deodoro da
Fonseca foi determinante para que ele viesse a ocupar dados cargos políticos. E por
saber, conscientemente ou não, se movimentar nessa teia de relações é que a identidade
teuto-brasileira de Lauro foi fortalecida. Como ressalta Giralda Seyferth:
O aprendizado da língua portuguesa e outras formas de agir de acordo com o modelo brasileiro
de política, como a obtenção de patentes de coronel da Guarda Nacional por quase todos os
‘vendeiros’ importantes, ou mesmo o uso da identificação étnica menos carregada de
simbolismos germânicos e sem referências raciais, permitiram o acesso a cargos eletivos,
principalmente pelos comerciantes com trânsito fora das regiões coloniais (1999, p.83).
52
Em suma, os imigrantes que conseguiram ascender economicamente na colônia,
principalmente por meio da atividade comercial que foi convertida em industrial,
posteriormente, passaram a fazer parte de uma camada privilegiada da sociedade. E foi
por meio da assimilação dos costumes locais e do investimento escolar que esses
indivíduos passaram a ser reconhecidos como elite, também, fora da colônia,
principalmente, no espaço político. Como a autora destaca:
...a hegemonia política e econômica dos comerciantes revela o poder de articulação desse
segmento como um todo, e remete a uma rede de relações sociais construída no contexto do
sistema colônia-venda, estendida para fora das áreas coloniais, e que ajudou a estabelecer o
controle sobre as políticas local e regional” (1999).
Grill (2008a) ressalta que a ascensão de famílias de imigrantes no Rio Grande
do Sul esteve diretamente relacionada à utilização pelos agentes de práticas de
reprodução familiar no meio político. Segundo Igor Gastal Grill:
Quanto à segunda via de acesso e de reprodução familiar no espaço político, essa se refere aos
descendentes de comerciantes e/ou agricultores (sobretudo vinculados à imigração alemã,
italiana, síria e libanesa), que se afirmaram como ‘empreendedores locais’ e como importantes
mediadores de localidades situadas, na maior parte dos casos, na ‘Metade Norte’ do estado e em
alguns casos também na ‘Metade Sul’ do estado, rivalizando com as famílias tradicionais (2008a,
p. 43).
Vale ressaltar que para adentrarem e se tornarem competitivos no concorrido
espaço político já permeado pelas famílias tradicionais do Rio Grande do Sul, os
descendentes de imigrantes enalteceram a história familiar, as dificuldades na ascensão
e os problemas enfrentados pelos primeiros imigrantes (GRILL, 2008a).
Uma das trajetórias construídas pelo autor que ilustra bem o fortalecimento da
imagem de imigrante e as possibilidades políticas relacionadas é a do ex-deputado
federal e atual prefeito de Pelotas, Adolfo Antonio Fetter Júnior. O político é autor de
dois livros sobre a genealogia de sua família pelo lado paterno e materno. Segundo
Grill:
Chama a atenção como a ascensão política e acúmulo de capital econômico, social e escolar
permitiram que esse ‘herdeiro de uma família de imigrantes’ lançasse mão de estratégias de
celebração da ‘família’ semelhantes àquelas ativadas pelas ‘antigas famílias’, quais sejam, os
relatos genealógicos (2008b, p. 105).
53
Diferentemente, dos sírios e libaneses em São Paulo, estudados por Oswaldo
Truzzi, que não conseguiram qualquer destaque intelectual quando chegaram ao Brasil,
a inserção dos judeus na política paulista expôs a dualidade existente nas estratégias de
autorrepresentação desse grupo, que, por vezes, aparece como um povo de intelectuais e
outras surge como um povo de comerciantes, segundo trabalho de Roberto Grün (1995).
Essa dualidade, segundo o autor, vai se manifestar, também, na entrada dos judeus no
campo político. Paralelamente, o autor mostra como os esforços contra as ações antisemitas vão pesar durante a trajetória dos agentes que entram na carreira política.
Segundo o autor: “...a luta ideológica travada pelas colônias contra seus detratores
produz uma auto-identificação que se inscreve duradouramente nas velhas gerações de
imigrantes e depois é transmitida a seus descendentes” (1995, p. 72).
Segundo Roberto Grün, o Censo de 1991 estimou a população judaica no Brasil
em 200 mil pessoas, sendo que 50% delas se concentravam em São Paulo. Durante a
pesquisa, Roberto Grün focou na relação entre a comunidade judaica e seus políticos,
mais especificamente, observa como a colônia alavanca alguns indivíduos para a vida
política. Logo no início do artigo, o autor expõe uma idéia que a pesquisa permitiu
atingir ao analisar a relação da colônia judaica com a política. Segundo Roberto Grün:
De qualquer forma, o decorrer da pesquisa colhemos dados suficientes para desenvolver a idéia
de que os judeus, devido à proeminência alcançada em alguns campos, são considerados mais
importantes como cabos eleitorais e financiadores de campanhas do que propriamente como
eleitores, exceção feita para os candidatos judeus a cargos proporcionais, claramente apoiados
pela colônia (1995, p. 79).
Outra observação feita por Roberto Grün sobre a relação dos judeus com a
política brasileira é relacionada a pesquisas desenvolvidas em outros países. Segundo o
autor, em São Paulo, na primeira fase20, a esquerda predominou enquanto preferência
entre os judeus, isso porque só apareciam candidatos judeus nessas siglas.
Posteriormente, quando outros partidos mais centrais se abrem para os filhos de
imigrantes, as preferências judaicas se aproximam do “padrão burguês”.
Os imigrantes judeus que se estabeleceram em São Paulo são, em maioria,
20
O autor explica que seus depoentes situam essa fase como vivenciada no início dos anos de 1950, que
segundo ele: “coincide com o alinhamento do nascente Estado de Israel com o Ocidente, na Guerra Fria”
(1995, p.80).
54
oriundos da Europa Oriental, cuja característica era a prática do autogoverno, ou seja,
havia uma tradição sociativa forte. A atuação política dos judeus nos diversos países
para os quais eles imigraram consistiu, basicamente, em conquistar favores dos
governantes. De acordo com Roberto Grün:
No fim do século passado, quando começou a imigração maciça para o Brasil, a comunidade
judaica dos países da Europa Oriental estava dividida da seguintes forma: havia uma maioria, na
qual se incluíam os responsáveis pelo autogoverno, que tinha uma postura de completa não
interferência nos assuntos políticos dos países em que estavam estabelecidos; inspirados em
geral numa visão religiosa quietista, clássica no judaísmo pré-sionista. De outro lado havia os
sionistas e socialistas de diversos matizes, que predicavam a atuação na sociedade política dos
países europeus, ainda que com várias nuanças (1995, p. 82).
Segundo Roberto Grün, foi essa segunda tendência que foi reproduzida pelas
primeiras gerações de judeus no Brasil, no século XX. O
autor destaca que a
redemocratização no ano de 1945 aproximou vários grupos étnicos, incluindo os judeus.
Dado o contexto, os partidos de esquerda foram os primeiros a abrir espaço para
“minorias étnicas”. A impermeabilidade dos demais partidos, também, contribuiu para
essa opção judaica. Segundo o autor:
A defasagem temporal existente entre a conquista da permeabilidade, alcançada nas escolas
superiores formadoras de quadros, e aquela apresentada pelas grandes corporações de Estado, os
alvos mais ambicionados pelos jovens então saídos das escolas de nível superior, ajuda a explicar
a inadequação. O sistema escolar abriu suas portas para os imigrantes e seus descendentes antes
das corporações do alto serviço público, tais como a magistratura e o serviço diplomático. Criouse uma descolagem entre a qualificação formal – puramente escolar – dos jovens de origem
imigrante e a qualificação real – na qual a origem familiar conta muito – exigida para o ingresso
nas corporações. As corporações resisitiam à transformação da qualificação nominal em real,
mantendo por mais tempo a homogeneidade oligárquica. Está assim formada uma fonte para o
vapor anti-establishment que poderá fazer levar para a esquerda as vocações políticas dos
“estrangeiros” que passam pelos ambientes acadêmicos (1995, p. 84).
Durante sua pesquisa, Grün percebeu que os políticos judeus não tinham um
background familiar semelhante aos seus concorrentes de outras etnias. O autor os
considera políticos self-made, que vivem da e para a política (nos termos weberianos21).
Para justificar a não mistura entre atividades comerciais e a política entre os judeus,
21
Segundo Max Weber: “Há duas maneiras de fazer política. Ou se vive ‘para’ a política ou se vive ‘da’
política. Nessa oposição não há nada de exclusivo. Muito ao contrário, em geral se fazem uma e outra
coisa ao mesmo tempo, tanto idealmente quanto na prática. Quem vive ‘para’ a política a transforma, no
sentido mais profundo do termo, em ‘fim de sua vida’, seja porque encontra forma de gozo na simples
posse do poder, seja porque o exercício dessa atividade lhe permite achar equilíbrio interno e exprimir
valor pessoal, colocando-se a serviço de uma ‘causa’que dá significação a sua vida” (1993, p.65).
55
Roberto Grün defende a hipótese de que esse comportamento parte da necessidade de
luta contra o preconceito que dita que aos judeus não é permitido transformar o dinheiro
em poder político, devendo usá-lo apenas em prol do aumento da cultura. Ao mesmo
tempo, “o recurso ao repertório anti-semita parece uma arma recorrente dos adversários
de qualquer candidato judeu” (1995, p. 88).
A partir dessas observações, Roberto Grün passa para a análise de dois casos
representativos do posicionamento dos judeus na arena eleitoral paulista: os candidatos
“legítimos” e os “ilegítimos”22. Os “legítimos” começam a sua carreira na política
estudantil, normalmente, na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, e têm sua
carreira alavancada a partir da inserção profissional entre os comerciantes judeus e em
aparelhos do Estado. Já os “ilegímos” têm uma origem classificada como “espúria”
pelos entrevistados, eles aparecem na posição de ex-socialistas e ex-comerciantes. De
acordo com Roberto Grün: “Nossos informantes relatam a postulação de vários
empresários a cargos eletivos que fracassavam ‘porque eles não tinham nível nem
prestígio’” (1995, p. 98).
Ao comparar a trajetória de um “candidato legítimo” com a de um “candidato
ilegitimo”, o autor encontra pontos convergentes e divergentes. Por exemplo, ambos
narram casos de anti-semitismo, mas defendem a não existência de anti-semitismo no
Brasil. Já com relação ao apoio do empresariado judeu nas campanhas, os candidatos
ilegítimos reclamam da falta dele, enquanto os legítimos sempre foram apoiados
financeiramente por eles.
A relação entre os políticos judeus e o empresariado é bastante diferente da
relação normalmente vista entre votados e eleitores no Brasil. Segundo Grün:
A interação representante-representado, o tipo de delegação oferecido pelo eleitorado judaico,
são realmente distintos da experiência típica de representação política existente no país. Nesse
micro-espaço social, temos uma relação de delegação, na qual o representado judeu,
normalmente um indivíduo de mesmo nível cultural e social que seu representante, se julga
efetivamente no direito de cobrar satisfações de seus deputados (1995, p. 106).
Se nesse aspecto o comportamento do eleitorado judaico e diferenciado, em
outros é possível perceber uma conformidade com as práticas políticas vigentes no
Brasil, como observa o autor:
22
Classificação atribuídas pelos agentes analisados pelo autor.
56
A ausência de reinvindicação de um sistema político mais aberto e dotado de autonomia, no qual
seu papel de ‘representante do povo’ pudesse se desenvolver mais abertamente, denota uma certa
conformidade dos políticos judeus ao patrimonialismo brasileiro, como se este fosse um dado
natural, imutável (1995, p. 109).
Outro processo migratório que permite observar que a entrada na política
aconteceu após o investimento escolar, foi o dos japoneses. No início do século XX, o
Japão tinha um excesso de população (com, aproximadamente, 50 milhões de pessoas
no país), segundo Célia Sakurai (que desenvolveu uma pesquisa sobre a inserção dos
japoneses no Brasil), já o Brasil, vivenciava a falta de mão-de-obra na lavoura cafeeira
paulista. Além disso, outros países que recebiam muitos imigrantes japoneses passaram
a restringir a entrada dessas pessoas, colaborando, assim, para a procura dos japoneses
por outros países. Célia Sakurai (1995) destacou que, embora a entrada dos japoneses
tenha sido estimulada para suprir uma necessidade brasileira, havia uma reação
contrária a esse movimento. De acordo com a autora:
A crise econômica mundial de 1929 e as conseqüentes dificuldades no setor cafeeiro, aliando-se
à onda de nacionalismo que floreceu na década de 30, levantaram polêmicas a respeito da vinda
de novos imigrantes, especialmente dos japoneses que, na época, formavam o maior contingente
de entradas no país (1995, p. 132 e 133).
Para compreender esse receio de alguns setores brasileiros com relação aos
japoneses, Sakurai (1995) resgata o contexto do Japão na época. A partir da Restauração
de Meiji (1868), o Japão passou a vivenciar várias transformações internas que tinham o
objetivo de modernizar o país e estimular o espírito patriótico. A história do Japão é
marcada por conquistas com exceção do desfecho da Segunda Guerra Mundial,
fortalecendo sempre o ultranacionalismo. Célia Sakurai (1995) descreve essa trajetória
de vitórias: “O movimento expansionista japonês tem início em 1894 em direção à
China, culminando com a anexação da Coréia em 1910. Em 1905, os japoneses vencem
a guerra contra a Rússia e mais tarde, em 1931, anexam a Manchúria. O Japão se retira
da Liga das Nações em 1933; em 1937 enfrenta novamente a China, até que, em 1941,
realiza o ataque à base norte-americana de Pearl Harbor, entrando na Segunda Guerra
Mundial ao lado dos países do Eixo” (1995, p. 134). Levando em consideração essa
história marcada por conquistas e a entrada do país na Segunda Guerra Mundial, é
possível compreender a base para que muitos países, incluindo o Brasil, apresentassem
algum receio com relação a entrada dos japoneses nos seus territórios. Como a própria
57
Célia Sakurai aponta, a expressão “perigo amarelo” passou a ser comum para se referir
aos japoneses na década de 20. Segundo a autora:
O rompimento das relações diplomáticas do Brasil com o Japão23, ocorrido em janeiro de 1941,
coloca os japoneses aqui residentes na condição de representantes dos inimigos, sujeitos a
diversas restrições. O consulado japonês, elo de ligação dos imigrantes com seu país de origem,
é fechado; as reuniões de japoneses são proibidas e o salvo-conduto é documento obrigatório nos
seus deslocamentos. Os seus bens ficam congelados nas mãos do governo e controlados por
interventores (1995, p. 137).
Com o término da guerra e a rendição do Japão, o comportamento dentro da
colônia japonesa foi modificado. A colônia ficou dividida entre os que apoiavam a
rendição e os que a consideravam uma vergonha, ou seja, entre os “derrotistas” e os
“vitoristas”. Os “derrotistas” passaram a sofrer com as perseguições, e até mesmo
asssassinatos, dos “vitoristas”. O movimento foi intitulado Shindo Renmei. E a
participação em um ou outro grupo acabou influenciando na trajetória de membros da
colônia. Os “derrotistas”, por trabalharem na proximidade com a sociedade local,
acabou, aos poucos, adentrando as instituições de ensino e, paulatinamente,
conseguindo se inserir na política brasileira, como poderá ser observado mais à frente.
Sakurai destaca que:
Esse movimento dos ‘vitoristas’ só perdeu visibilidade quando as autoridades brasileiras
começaram a indiciar judicialmente os membros da Shindo Renmei. No interior da colônia,
entretanto, o problema não desapareceu com o julgamento dos líderes. O rótulo de participação
em um ou outro grupo vai dimensionar a trajetória futura de muitos membros da colônia (1995,
p. 139).
Após esse esboço do contexto no qual ocorreu a chegada dos japoneses no Brasil
e os conflitos gerados a partir daí, a autora analisou a ascensão dos japoneses até a sua
entrada na política brasileira. Até o fim da Segunda Guerra Mundial, os japoneses que
moravam no Brasil viviam na perspectiva de retornar para o Japão. Poucos foram os
esforços para assimilar a cultura local. A tendência deles era de se agruparem e
evitarem, ao máximo, se misturar aos brasileiros. Toda essa garra para retornar ao país
de origem acabou fazendo com que eles trabalhassem árduamente para conseguirem
23
Com a entrada do Japão na Segunda Guerra Mundial, em 1941, a posição dos imigrantes japoneses no
Brasil ficou desconfortável, pois o Brasil apoiou os Estados Unidos nesse conflito enquanto o Japão ficou
ao lado da Alemanha, bloco oposto ao americano. Isso acarretou em um rompimento diplomático entre o
Brasil e o Japão.
58
verba para a volta ao Japão. Segundo Célia Sakurai, o movimento econômico dos
japoneses se caraterizou da seguinte forma:
Trabalhando e poupando, passaram a comprar pequenas propriedades e a dedicar-se ao pequeno
comércio ou à pequena indústria. Iam sempre em busca de oportunidades que pudessem garantir
independência econômica e possibilidades de acumulação. Houve um grande movimento de
deslocamentos inter-regionais, especialmente para áreas onde o valor da terra ainda era baixo
(1995, p. 141).
De acordo com a autora, as migrações japonesas no Brasil tomaram tanto a
direção rural-rural, quanto a direção rural-urbana. E a independência econômica
japonesa foi rápida. Mesmo nas áreas urbanas,
se formaram pequenas atividades
urbanas relacionadas com a vida rural: pequenos comércios, hospedarias, etc. Além
disso, os japoneses estavam sempre buscando novas atividades que fossem além do
colonato.
Com a derrota dos japoneses na Segunda Guerra Mundial, os imigrantes
japoneses que moravam no Brasil, passaram a não mais entender a permanência no país
como algo provisório, e sim, como algo mais definitivo. Nessa época, já era possível
inclusive observar casamentos exogâmicos que, segundo Sakurai, permitia perceber que
o isolamento japonês estava mais no discurso do que na prática. Isso, em parte,
aconteceu por causa da formação escolar em instituições brasileiras. De acordo com a
autora:
A geração dos nisseis brasileiros é fruto de uma dicotomia. Apesar de nem sempre serem
favoráveis, os pais vêem seus filhos crescerem e passarem a viver e a pensar mais como
brasileiros do que como japoneses. Diante da dificuldade de acumulação para um retorno rápido
ao Japão, os pais da primeira geração matriculam seus filhos em escolas brasileiras. Pelo menos
dão-lhes uma educação formal, mesmo que não fosse a japonesa, como esperavam. Seus filhos
vão se tornando “brasileiros” por força das circunstâncias que os cercam, pela socialização que
vão tendo no decorrer de suas vidas (1995, p. 144).
Ainda na década de 1930, é possível notar um grupo de imigrantes que concluiu
o curso superior. Em 1939, se formou o primeiro nissei, na Faculdade de Medicina na
Universidade de São Paulo (USP). A autora destaca, ainda, que não se trata apenas de
uma formação superior, é uma formação em carreiras e faculdades consideradas
importantes na época, tais como: direito, medicina e engenharia; e Faculdade de Direito
do Largo São Francisco, Faculdade de Medicina da USP, e Escola Politécnica da USP.
59
Segundo Célia Sakurai: “A década de 50 é um marco na busca de novos caminhos pelos
imigrantes e seus descendentes” (1995, p. 146).
Foi somente após a abertura política que os descedentes de imigrantes passaram
a entrar de forma maçiça nesse espaço, incluindo japoneses. Para esses primeiros
políticos descendentes de japoneses, a participação política fazia parte de um plano que
tinha como objetivo melhorar a imagem da etnia perante os brasileiros. Em sua
pesquisa, Sakurai foca na trajetória de quatro políticos que se enquadram neste perfil.
De acordo com a autora: “Yukishigue Tamura, João Sussumu Hirata, Yoshfumi Utiyma
e Diogo Nomura são políticos cujas carreiras foram marcadas no início pela idéia de
registrar para as autoridades brasileiras a presença dos japoneses como uma etnia que
naquele momento estava em vias de apagar a imagem de não-assimilável” (1995, p.
148).
Dentre os quatro casos selecionados pela autora, é válido ressaltar que três dos
descendentes de japoneses têm origem social abastada, principalmente, se comparados
com os padrões dos descendentes de imigrantes japoneses da época. Isso permitiu que
eles tivessem as devidas condições necessárias para se dedicarem aos estudos. Além
disso, os quatro deputados têm curso superior completo. E a formação superior foi
extremamente importante para a futura trajetória política desses quatro agentes. Como
observa Célia Sakurai:
São, portanto, representantes de uma elite intelectualizada, que começava a se formar no
interior da colônia. Na época, o curso superior era uma porta de entrada para a inserção em
meios antes restritos aos membros das elites nacionais e a descendentes de imigrantes de
famílias abastadas (1995, p. 150).
No caso de Hirata e Tamura as trajetórias se entrecruzavam. Os dois chegaram a
ser amigos de médicos, empresários e advogados que mais tarde viriam a ocupar cargos
de liderança no interior da colônia. E, também, foram colegas de futuros políticos tais
como: Carvalho Pinto e Jânio Quadros. Célia Sakurai destaca que: “Hirata, por
exemplo, foi amigo e colega de faculdade de Roberto de Abreu Sodré, ligado ao grupo
que viria a formar a futura UDN (União Democrática Nacional), partido pelo qual o
próprio Hirata se candidataria desde a primeira vez” (1995, p. 152).
Durante a carreira política desses descendentes de japoneses, eles passaram a
entender como sendo uma missão trabalhar em benefício da comunidade, fortalecendo a
60
idéia de integração dos japoneses, até mesmo, para por um ponto final na visão inicial
de que os japoneses não se integrariam à sociedade brasileira. O contexto, na época,
ainda, era muito fechado para a etnia. Os descendentes de japoneses que resolveram
entrar para a política sofreram muito preconceito no início, como observa Célia Sakurai:
“Esses jovens postulantes a uma carreira até então restrita enfrentam pressões e
resistências de ambos os lados. Era necessário garimpar o terreno, abrir caminhos,
apresentar novas propostas, quabrar tabus, enfrentar resistências. É nesse momento que
a idéia de missão vem à tona” (1995, p. 157).
Na primeira eleição, a própria colônia parecia ter receio em votar nos candidatos
descendentes de japoneses. Outra dificuldade era a própria inserção em um partido
político, que, normalmente, só acontecia com a intermediação de outras pessoas. O
esforço empreendido no espaço político era duplo: tanto de fortalecer a imagem dentro
da própria colônia e ganhar a confiança interna, quanto abrir caminho na sociedade
brasileira. Célia Sakurai relata a mudança na visão relativa aos japoneses, ocorrida a
partir do esforço desses políticos:
A partir da década de 50, a colônia japonesa passa a ganhar uma visibilidade diferente daquela
das décadas anteriores: não é mais o “perigo japonês” que está em questão: agora vem à tona o
enaltecimento do trabalho, do esforço que gera sucesso. A imagem positiva que os brasileiros
têm hoje em relação aos nikkeis é em parte fruto de uma estratégia conjunta das lideranças da
colônia (onde se incluem os parlamentares), no sentido de “limpar” sua imagem diante da
sociedade mais ampla, com nítida tendência a acentuar os traços de trabalho, esforço e sucesso.
É a partir do pós-guerra, quando a fixação definitiva no Brasil se torna o projeto das famílias,
que começam a ser avaliadas as reais condições do enraizamento da etnia no país. Ao invés de
rejeitarem o Brasil como país de adoção, os japoneses agora se utilizam do argumento oposto,
para demonstrar que são tão brasileiros quanto todos os outros (1995, p. 175 e 176).
1.7 CONSIDERAÇÕES PARCIAIS
Em todos os casos de imigração aqui relatados, pode-se notar que, antes de
serem assimilados como parte da elite nacional, os imigrantes passaram por um
processo de afirmação econômica. Após a ascensão econômica que alguns desses
indivíduos puderam adentrar as instituições da elite local vigente, e se relacionar
socialmente com este meio. Além disso, é válido observar que todas as etnias aqui
relatadas conserguiram ascender economicamente por meio do comércio. Os sírios e
libaneses, tanto em São Paulo, quanto no Maranhão, praticavam o comércio; os
armênios em São Paulo se especializaram na fabricação e comércio de sapatos; os
61
alemães que ascenderam mais rapidamente estavam vinculados ao comércio nas
colônias, que mais tarde viria a ser convertido em atividade industrial; os japoneses
começaram com pequenas propriedades rurais, mas rapidamente, também, estavam
envolvidos com o comércio; e os judeus focaram no comércio. Esse tipo de atividade
escolhida deu a essa parcela bem sucedida de imigrantes uma posição de vantagem com
relação aos imigrantes que se voltaram para o colonato, pois o comércio não os
colocava na posição de submissos à sociedade brasileira da época.
Vale ressaltar que a prática da atividade comercial era repassada pelos pais aos
filhos, que passavam a reproduzir o ofício aprendido. Havia, então, não somente a
transferência do oficio, mas de toda uma rede de relações já estabelecida pelos pais.
Pierre Bourdieu destaca que:
A existência de uma rede de relações não é um dado natural, nem mesmo um ‘dado social’,
constituído de uma vez por todas e para sempre por um ato social de instituição (representado, no
caso do grupo familiar, pela definição genealógica das relações de parentesco que é característica
de uma formação social), mas o produto do trabalho de instauração e de manutenção que é
necessário para produzir e reproduzir relações duráveis e úteis, aptas a proporcionar lucros
materiais ou simbólicos (1998, p. 68).
Outra questão importante, ainda ligada à atividade exercida pelos imigrantes e
seus descendentes, foi que, após a ascensão por meio do êxito no comércio, os
descendentes dessas gerações, adentraram as instituições de ensino brasileiras mais
renomadas, para obterem a formação em carreira liberais, como medicina, direito e
engenharia. Isso pode ser percebido entre todas as etnias aqui descritas. Entram em cena
as estrategia educativas, que segundo Pierre Bourdieu são:
Las estrategias educativas, de las cuales las estrategias escolares de las familias o de los niños
escolarizados son uncaso particular, son estrategias de inversión a muy largo plazo que no
necesariamente son percibidas como tales y no se reducen, como lo cree la economíadel “capital
humano”, sóloa su dimensíon económica, o incluso monetaria: en efecto, ellas tienden, antes que
todo, a producir los agentes sociales dignos y capaces de recebir la herenciadel grupo, es decirde
transmitirla en su momento al grupo (2002, p.6).
Nesse caso, não são apenas as áreas escolhidas que são relevantes por
possibilitarem o alcance de uma posição de dominante na sociedade. As instituições
escolhidas para obter a formação são de vital importância para os vínculos, as redes de
relações que serão formadas e que, mais tarde, poderão ser acionadas para conseguir
62
ocupar uma posição social de destaque. Como relata Odaci Luiz Coradini ao estudar a
formação da elite médica na Academia Nacional de Medicina: “...se por um lado, esse
tipo de instituição exerce funções tais como a institucionalização e o controle do
exercício da medicina, por outro, constitui uma instância de acumulação de capital de
relações e de consagração de imagens sociais” (1997, p. 418).
Fica evidente, também, a estratégia de dominação e reprodução das posições
sociais elevadas por meio da criação de vínculos matrimoniais. Segundo Pierre
Bourdieu:
Las estrategias matrimoniales, ejemplo particular de los precedentes, deben asegurar la
reproducción biológica del grupo sin amenazar su reproducción social por un mal matrimonio y
contribuir, por la alianza com un grupo almenos equivalente bajo todas las relaciones
socialmente pertinentes, al mantenimiento del capital social (2002, p.6).
A homogamia étnica é comum tanto aos sírios e libaneses em São Paulo, quanto
aos armênios. Os casamentos entre membros economicamente bem sucedidos da
própria comunidade colaboraram para o fortalecimento do patrimônio desses
indivíduos,
principalmente,
nas
primeiras
gerações.
Vale
ressaltar
que,
concomitantemente à entrada dos descendentes de imigrantes em instituições de ensino
renomadas, houve uma ampliação dos vínculos sociais desses indivíduos. Isso fez com
que a homogamia étnica fosse, paulatinamente, substituída pela homogamia social,
tendo ambas colaborado para o fortalecimento do patrimônio econômico, político e
social desses agentes. Não é à toa que Alfredo Duailibe, por exemplo, se casa com uma
“descendente de família tradicional maranhense”. Sendo ele um filho de comerciante
bem sucedido e sobrinho de um influente político, tendo estudado medicina no Rio de
Janeiro, era de se esperar que as suas redes de relações tendessem probabilisticamente a
um casamento com alguém com destaque social semelhante. É preciso compreender as
propriedades socialmente constituídas, como ressaltou Pierre Bourdieu ao tratar o
campo literário:
...é preciso perguntar não como tal escritor chegou a ser o que foi – com o risco de cair na ilusão
retrospectiva de uma coerência reconstruída -, mas como, sendo dadas a sua origem social e as
propriedades socialmente constituídas que ele lhe decai, pôde ocupar ou, em certos casos,
produzir as posições já feitas ou por fazer oferecidas por um estado determinado do campo
literário (etc.) e dar, assim, uma expressão mais ou menos completa e coerente das tomadas de
posição que estavam inscritas em estado potencial nessas posições (por exemplo, no caso de
Flaubert, as contradições inerentes à arte pela arte e, de maneira mais geral, à condição de artista)
63
(1996, p. 244).
Para finalizar, é válido ressaltar que a formação intelectual desses indivíduos
provenientes de famílias descendentes de imigrantes, bem sucedidas economicamente,
em alguns casos, acaba culminando no investimento em produções textuais sobre a
família. Nessas produções, é possível perceber o tom elogioso e que sempre destaca os
feitos da família frente aos desafios econômicos de se tornar bem sucedida e respeitada
em um país estrangeiro. Nos casos dos descendentes de libaneses no Maranhão, esse
tipo de estratégia de investimento em capital simbólico, colaborando para a construção e
idealização de um “talento nato” para o comércio e administração como um todo, é
bastante perceptível nas famílias que foram estudadas com minúcia, relatadas mais à
frente. Essas produções textuais ajudam a fortalecer o capital de notoriedade desses
personagens que conseguiram sucesso econômico e, consequentemente, das famílias as
quais eles pertencem. Segundo Pierre Bourdieu:
O capital pessoal de notoriedade e de popularidade – firmado no facto de ser conhecido e
reconhecido na sua pessoa (de ter um nome, uma reputação, etc.) e também no facto de possuir
um certo número de qualificações específicas que são a condição da aquisição e da conservação
de uma boa reputação – é frequentemente produto da reconversão de um capital de notoriedade
acumulado em outros domínios e, em particular, em profissões que, como as profissões liberais,
permitem um tempo livre e supõem um certo capital cultural... (2004, p. 190 e 191).
Essas produções textuais e até mesmo o modo de contar as histórias familiares
ao longo das gerações, podem ser compreendidas como estratégias de sociodicéias, na
qual se busca legitimar a dominação, privilegiando a reprodução da percepção mais
favorável ao produtor, colaborando na disseminação de um esquema de percepção que
favorece à família (BOURDIEU, 2002).
64
2 - “FAMÍLIA DUAILIBE”: RELAÇÕES PESSOAIS E DIVERSIFICAÇÃO DE
INVESTIMENTOS
Ao remontar a trajetória da “família Duailibe” e analisar os relatos coletados,
pode-se chegar a informações relevantes que permitem entender quais foram as
estratégias acionadas, consciente ou inconscientemente, que permitiram à família a
ascensão econômica e política no Maranhão. Além disso, por meio da análise das
trajetórias dos agentes selecionados, será possível perceber que as relações diádicas
construídas possibilitaram a esses agentes a ocupação de postos políticos ou
administrativos de relevância no Estado do Maranhão. Partindo do que já foi escrito,
nesse tópico será realizado o esforço de analisar tais informações tendo como base o
referencial analítico que orientou esta pesquisa.
As principais fontes para esse tópico são: o artigo “História da Família Duailibe,
da Síria ao Maranhão”, escrito por Francisco Jose Carvalho Duailibe; e as entrevistas de
Maria José Cassas Duailibe, Marco Aurélio Rodrigues Duailibe e Admée Duailibe, que
ajudaram a compor parte da árvore genealógica da família24.
Alguns membros da “família Duailibe” já produziram textos ou estão
trabalhando na publicação de livros sobre a família ou aspectos mais gerais da cultura
libanesa. Francisco Jose Carvalho Duailibe produziu o texto mencionado acima, Maria
José Cassas publicou no mês de dezembro de 2011 um livro de culinária no qual destaca
a culinária libanesa e Antônio José Duailibe Marão está produzindo um texto contando a
história de seu avô, Antônio Duailibe. Essas produções textuais podem ser entendidas
como estratégias familiares de auto-celebração. Elas servem para ressaltar os feitos
familiares a partir do relato dos próprios membros da família. Em um artigo intitulado
“A nobreza na França: a tradição como crença”, Monique de Saint Martin (1992)
explica como o ato de contar a história familiar é uma estratégia de auto-celebração, na
qual são evidenciados os feitos e escondidos os defeitos. Segundo a autora:
A função dos relatos e memórias que retraçam a história das famílias da nobreza nas diversas
gerações e celebram os ancestrais, sobretudo os heróis militares, é em grande parte manter a
24
Vale ressaltar que esta pesquisa parte de trajetória de indivíduos pontuais pertencentes a famílias que
descendem de imigrantes libaneses que ocuparam posições de destaque político no Maranhão. É a partir
da história desses agentes que é delimitado o núcleo familiar, que, normalmente, é fechado na composição
pais e filhos.
65
crença na continuidade da linhagem. No meio das perturbações previsíveis, o passado próximo que se tornou longínquo - corre o risco de ser sepultado pelo esquecimento (1992).
A base para o artigo de Francisco Jose Carvalho Duailibe foram relatos orais de
pessoas que ele classifica como sendo “pessoas idôneas e honestas, com grande
conhecimento da família Duailibe”25. Os depoimentos reunidos são de: Hilda Moisés
Duailibe, filha de Moisés Abdalla Duailibe e Rosa Nicolau Duailibe, tia e madrinha do
autor; José Moisés Duailibe, tio do autor; Aziz Moisés Duailibe, pai do autor; Zaquia
Duailibe, tia-avó do autor; Vitória Abraão Duailibe, filha de Abraão Duailibe, tio-avô do
autor; Nagib Metran Buzar, filho de João Buzar, comerciante e industrial libanês; Padre
João Mohana; e Raschid Abdalla, industrial libanês que intermediou os contatos entre os
Duailibes do Líbano e do Brasil. Segundo Francisco Jose Carvalho Duailibe:
[Trabalho a partir de] relatos de pessoas idôneas e honestas, com grande conhecimento da
família Duailibe. Todas já faleceram. Esses relatos foram colhidos durante parte da minha
infância e adolescência nos mais variados ambientes, seja no escritório de antigas usinas de
beneficiamento de arroz e babaçu construídas por pioneiros libaneses no Maranhão, no escritório
de pequenas indústria de beneficiamento de algodão e babaçu no interior do Maranhão, seja na
varanda de casas coloniais de São Luís - MA, muitas das quais não existem mais.
Nota-se desde já a preocupação recorrente em inscrever-se na história econômica
do Estado. Tal esforço vem acompanhado, como é possível perceber na passagem, pela
localização de traços da história da família em lugares de poder como indústrias e
residências da “elite” que marcou um “tempo”.
A “família Duailibe” teria origem na região de Oran, Síria, em uma tribo
conhecida pelo nome de Banu Al Kader. Essa origem, de acordo com Francisco Jose
Carvalho Duailibe, veio da península Arábica ou Arábia Pétrea, ou mesmo, dos povos
cananeus ou arameus, habitantes da Galiléia ou Síria. Esses povos se expressavam em
aramaico e trabalhavam como artesãos, joalheiros, ferreiros e carpinteiros, que
comercializavam o que produziam com os povos vizinhos. Essa comercialização
acontecia com objetos e utensílios de ferro, cobre, bronze, tipos arados, recipientes,
ferramentas e armas. Eles fabricavam, também, móveis e utensílios de madeira.
Tradicionalmente, os Duailibe que chegavam ao Maranhão do Líbano eram carpinteiros,
mais precisamente, fabricantes de rodas. De acordo com o autor:
25
O texto foi publicado no site www.familyd.net, que traz relatos e documentos pessoais de membros da
família Duailibe. Não há data de publicação especificada.
66
Segundo o professor Chafic Elia Said em seu livro ‘O árabe coloquial em caracteres ocidentais’,
a palavra árabe Duleb ou Duláb significa roda na língua portuguesa. O seu plural em árabe é
Daualib. Segundo o professor Nagib Assrauy em seu livro ‘Vamos falar o árabe’, roda tem seu
equivalente em árabe Duláb e o seu plural é Dualíb, comprovando a semelhança de vocábulos, o
que podemos concluir que o nome Duailibe tem realmente o relacionamento com roda e tudo
indica que eles, os Duailibes, a fabricavam, porém existem aqueles que não querem associar o
nome Duailibe com roda, mas com confecção de móveis, pois em árabe antigo, principalmente
no Egito, Duláb significa armário (móvel).
Deve-se sublinhar na passagem acima a associação reivindicada entre o nome da
família e a atividade industrial. A triagem efetuada se coaduna com a imagem
propagada sobre a família e a etnia, como veremos.
Conflitos religiosos teriam estimulado a migração da família para várias partes
do mundo, inclusive para o Maranhão. Com o fim das Cruzadas, o conflito entre
cristãos e muçulmanos se acirrou. Ocorreram perseguições às comunidades cristãs.
Essas perseguições teriam ficado cada vez mais freqüentes com a ascensão dos turcos e
sua dominação de todo o Oriente Médio. De acordo com Jose Carvalho Duailibe isso
acabou “provocando a dispersão dos clãs pelo Oriente Médio nas regiões próximas,
como Síria Vale da Galiléia, Malula, aldeias vizinhas e montanhas do Líbano”. Nas suas
palavras:
E, segundo informações, são os Duailibes os fundadores da cidade de Zahle, no Líbano, por volta
de 1.700 d.C. Durante sua dominação no Oriente Médio, o império otomano começou a adotar
uma política de perseguição e segregação aos cristãos, baixando decretos e leis proibindo os
cristãos de determinados privilégios, tais como: direito à alfabetização; direito de ir e vir; e
abolição das garantias individuais. E impingiram aos cristãos libaneses e de outras localidades do
Oriente Médio todo o tipo de perseguição e humilhação, visando ao extermínio daquela
população, que se concretizou em 1810, quando um grande genocídio de cristãos de todo o
Oriente Médio e cercanias aconteceu por ordem do sultão otomano.
Uma última nota relativa às estratégias de apresentação contidas neste material
reside na busca de um protagonismo político já na origem da família. São combinadas
então situações adversas e destaque político na descrição feita sobre a família no
Líbano.
2.1 “PATRIARCAS”
67
De acordo com Francisco Jose Carvalho Duailibe existiam cinco patriarcas26,
que se opuseram veementemente aos otomanos, são eles: Yussef, Murad, Habib, Girius
e Fares. Francisco Jose Carvalho Duailibe ressalta que todos os atuais descendentes da
“família Duailibe”, que está no Maranhão, seriam provenientes desses cinco patriarcas.
Ele explica que da geração de Yussef nasceu Abdalla Duailibe, que tomou em
matrimônio Hadb Buzaher, cuja família, com o cultivo de rosas, fabricava a água de
rosas do Líbano, famosa em todo o Oriente Médio, usada para curas de enfermidades.
Da união de Abdalla e Hadb nasceram: Ahmed Abdalla Duailibe, em 1875; Moisés
Abdalla Duailibe, em 1877; Abraão Abdalla Duailibe-Ibrahim, em 1879; Nahile Abdalla
Duailibe-Benedita, em 1881; Amim Abdalla Duailibe-Felipe, em 1883; e Khalil Abdalla
Duailibe-Miguel, em 1885. De acordo com o autor, Abdalla Duailibe nasceu em 1845 e
Yussef nasceu em 1815.
Nessa época, a busca por enriquecimento e a necessidade de fugir por causa das
perseguições religiosas, fizeram muitos libaneses migrarem para o Brasil e, dentre eles,
estavam os primeiros membros da “família Duailibe”.
No ano de 1895, o avô de Jose Carvalho Duailibe, Moisés Abdalla Duailibe,
então com 18 anos completados, passou a ser procurado na região de Zahle e cercanias
por ter se envolvido em confronto com militares turcos otomanos. Ele, então, fugiu com
seu irmão Abraão para o norte da África, embarcando no Egito em um navio que se
destinava à América do Sul. Os dois acabaram por desembarcar no Maranhão, que, na
época, era a porta da Amazônia. Naquele momento, ele havia recebido notícias de
oportunidades em cartas de conterrâneos que já estavam no Maranhão desde 1893.
Ao chegar ao Maranhão, Moisés Abdalla Duailibe deixou seu irmão Abraão,
então com 16 anos, em um distrito denominado Anil, na Ilha de São Luís, na casa de um
patrício cujo nome era Neif Mathias, seguindo viagem para o sertão do Mato Grosso do
Sul, instalando-se na cidade de Campo Grande, com parentes que já estavam lá.
No ano de 1899, Moisés soube que praticamente toda a sua família já estava no
Maranhão. Seus irmãos, sua mãe (que nessa época já estava viúva) e seus primos Salim
Nicolau Duailibe, Miguel Nicolau Duailibe, Luis Nicolau Duailibe e Rosa Nicolau
Duailibe (então com 15 anos, que seria a sua futura esposa). Seus primos eram todos
filhos de Nicolau Girius Duailibe. Com a vinda da família, ele regressou ao Maranhão e
26
Nomenclatura usada pelo próprio Francisco Jose Carvalho Duailibe.
68
iniciou o trabalho de caixeiro-viajante, com seus irmãos e primos. Todos eles habitavam
um sobrado colonial na Rua de Nazaré, em São Luís – MA. Segundo Jose Carvalho
Duailibe:
Em abril de 1905, foi publicado no jornal local o proclama do casamento entre Moisés Abdalla
Duailibe, então com 28 anos, e Rosa Nicolau Duailibe, com 19 anos. Casaram-se e com as
economias montaram um estabelecimento comercial na Praia Grande. Em 1907 nasce o primeiro
filho, Abdalla Moisés Duailibe; em 1909 nasce Hilda Moisés Duailibe; em 1911 nasce José
Moisés Duailibe; em 1913 nasce Pedro Moisés Duailibe; e em 1915 nasce Aziz Moisés Duailibe,
meu pai.
No ano de 1916, o núcleo familiar formado por Moisés e Rosa vendeu o seu
estabelecimento comercial e foi para o interior do Maranhão, mais precisamente para a
cidade de Codó. Lá nasceram mais quatro filhos: Olga Moisés Duailibe, em 1917; Luis
Moisés Duailibe, em 1919; Eduardo Moisés Duailibe, em 1922; e Maria das Dores
Moisés Duailibe, em 1924. Em 1925, morreu de mal súbito, aos 17 anos, o filho mais
velho, Abdalla Moisés Duailibe. Logo em seguida, morreu, também, o filho Pedro, com
14 anos. Após as perdas, os membros da família (Moisés, Rosa e os filhos vivos)
venderam o estabelecimento comercial que já tinham na cidade de Codó e voltaram para
São Luís. Após a morte de Adballa, José passou a ser o filho mais velho vivo seguido de
Aziz, Luís e, por fim, Eduardo.
Em São Luís nasceram os filhos José de Ribamar Duailibe, em 1926, Antonia
Moisés Duailibe, em 1927, e Tereza Moisés Duailibe, em 1929. No ano de 1932, os pais
resolveram voltar para Codó. Ficaram nesta cidade por 12 anos. Lá, a família pôde
conviver com outros membros da “família Duailibe”, tais como: Nagib Jorge Duailibe
Murad; a sobrinha de Moisés que era casada com o Abdon Murad; Vitória Abraão
Duailibe Salém, sobrinha de Moisés, filha de Abraão Duailibe, casada com Nabi Salém;
Abílio Duailibe, filho de José Habib Duailibe; e o primo de Moisés, Nagib Metran
Buzar, filho de João Buzar. De acordo com Jose Carvalho Duailibe:
Em 1943 o Sr. Moisés regressou a São Luís com problema de saúde, vindo a falecer em 1º de
janeiro de 1944 de moléstia do coração. Sua esposa Rosa Duailibe, minha avó, faleceu em 30 de
dezembro de 1954, neta de Girus Francisco Duailibe e Warda Duailibe, filha de Nicolau Duailibe
e Malek Duailibe, e irmã de Salim Nicolau Duailibe, Miguel Nicolau Duailibe, Luis Nicolau
Duailibe, Sbaida Nicolau Duailibe, Adélia Nicolau Duailibe e Jamile Nicolau Duailibe.
Salim Nicolau Duailibe, primo de Moisés Abdalla Duailibe, deu origem a uma
69
ramificação da família muito bem sucedida no Maranhão, principalmente, no espaço
econômico e político. Salim chegou ao Estado com apenas 18 anos e foi ajudado por um
comerciante português de destaque em São Luís, chamado Emílio Lisboa. Segundo
Maria José Duailibe Cassas, neta de Salim:
Emílio Lisboa era dono de uma loja de departamentos na Rua Afonso Pena. Este homem foi
quem deu a mão para o meu avô. Ele comprava as mercadorias na mão desse português para sair
vendendo como mascate no interior do Estado. Esse comerciante achou que meu avô era um
rapaz muito honesto, então resolveu ajudá-lo dando os primeiros caixotes para meu avô montar
as prateleiras da primeira lojinha dele. Como meu avô vinha de uma família de carpinteiros não
teve dificuldades em transformar as caixas em prateleiras27.
Aos 23 anos, Salim já tinha conseguido atingir êxito no comércio local e
resolveu voltar para o Líbano para se casar. Salim casou-se com Linda Saad, quando
esta tinha 15 anos. Três meses após o casamento, eles vieram para o Maranhão,
acompanhados de Jamile, irmã de Salim, que morou com eles até a sua morte.
Ao chegarem ao Maranhão, os primeiros representantes da “família Duailibe”
iniciaram na atividade de mascate28, como era comum entre os imigrantes libaneses.
Não só no Maranhão, também em São Paulo, esse tipo de atividade comercial foi
observado (TRUZZI, 1991). A escolha do comércio foi fundamental para entender a
posterior ascensão de tais imigrantes e seus descendentes na sociedade maranhense.
Atuar como mascate permitia aos imigrantes alguns benefícios. O primeiro era não estar
subordinado a qualquer regime de patronato, sendo responsável direto por seus lucros e
prejuízos. O segundo era que tal atividade era muito bem vista, principalmente, no
interior do Estado, onde muitos atuavam levando utensílios necessários, porém, pouco
encontrados naquelas cidades. Sendo assim, a “mascateação” gerou lucros. Terceiro, a
atividade permitiu uma sociabilidade ampla dos imigrantes com as pessoas da região,
isso ajudou, inclusive, no aprendizado da língua portuguesa. Eric Wolf (2003) destaca
que um indivíduo que busca ser reconhecido em um local distinto do seu de origem
deve aprender a atuar na nova arena de alianças. O autor ressalta que:
Um indivíduo que busca poder e reconhecimento fora de sua comunidade local deve modelar seu
comportamento para adequar-se a essas novas expectativas. Ele precisa aprender a atuar numa
arena de amizades e alianças em mudança contínua, que se formam e dissolvem com o
aparecimento ou o desaparecimento de novas oportunidades políticas e econômicas. Em outras
27
28
Em entrevista realizada em junho de 2010.
Venda itinerante.
70
palavras, ele deve aprender a funcionar em termos que caracterizam qualquer sociedade
estratificada complexa, na qual os indivíduos podem melhorar seu status por meio da
manipulação judiciosa dos laços sociais (2003, p.83).
Os bons lucros permitidos pelo comércio atraíram outros membros da família,
ou mesmo, como foi o caso do Salim, possibilitou a volta à terra natal para constituir
matrimônio e depois regressar para o Maranhão. Na primeira geração de imigrantes
libaneses, era comum o casamento entre pessoas da mesma etnia e, por vezes, até da
mesma família. Como foi o caso de Salim e outros, como se pode observar na união do
sobrenome Duailibe com o Murad e Buzar, conforme já foi relatado anteriormente. Nas
demais gerações, que nasceram após a ascensão econômica, já era mais comum o
casamento entre descendentes de libaneses e maranhenses, para perceber isto basta
observar os matrimônios dos filhos e filhas de Salim, listados mais a frente. Entretanto,
eles se davam entre pessoas do mesmo segmento econômico. Ou seja, os filhos de
libaneses se casavam com moças de prestígio social e econômico no Maranhão, como
observou o professor do departamento de Sociologia e Antropologia da UFMA, José de
Ribamar Chaves Caldeira, em citação destacada anteriormente.
Salim e Linda tiveram 15 filhos. Destes dois morreram ainda pequenos e uma
morreu aos 18 anos. Permaneceram vivos: Victoria Salim Duailibe, José Salim Duailibe,
Jorge Salim Duailibe, Alfredo Salim Duailibe, João Salim Duailibe, Maria de Lourdes
Salim Duailibe, Zila Salim Duailibe, Luiz Salim Duailibe, Benedito Salim Duailibe,
Carlos Alberto Salim Duailibe, Norma Salim Duailibe, e Antônio Salim Duailibe.
José, Jorge e Benedito se tornaram comerciantes, sendo que Jorge e Benedito
deram continuidade aos negócios do pai29. O nome da firma era “Salim Nicolau
Duailibe e Filhos”. Outros dois filhos, João e Luiz se tornaram engenheiros. Carlos
29
Na época, era comum que alguns filhos se dedicassem a mesma atividade econômica da família, seja
dando continuidade ao comércio já existente, seja investindo em um novo ramo comercial. Isso poderia
acontecer com os filhos mais velhos ou não, percebe-se isso pela entrada de Benedito nos negócios da
família. Essa prática trata-se de uma estratégia de inversión económica, que, segundo Pierre Bourdieu:
“...están orientadas hacia la perpetuación o el aumento del capital bajo sus diferentes especies” (2002). Ao
estudar imigração de sírios e libaneses para São Paulo, Oswaldo Truzzi observa que lá também era
comum que os filhos que não se dedicassem a uma profissão liberal, colaborassem com os negócios da
família. Segundo Oswaldo Truzzi: “Na verdade, é muito provável que a decisão a respeito de continuar o
negócio do pai ou estudar para uma carreira liberal envolvesse alguma avaliação a respeito das
perspectivas para o futuro da atividade original. Muitos imigrantes que haviam passado pela mascateação
e que conseguiram se estabelecer como lojistas não queriam para seus filhos os sofrimentos de uma
atividade que no início lhes foi muito penosa. Ver o filho como doutor pareceu-lhes uma compensação
por suas próprias vidas sacrificadas. Por outro lado, negócios muito prósperos, já bem patrimoniados,
tinham que necessariamente contar com no mínimo um herdeiro masculino que não podia se dar o luxo
de estudar” (1991, p. 87).
71
Alberto seguiu a carreira militar e dois tornaram-se médicos, Alfredo (sexto filho,
terceiro nascido homem) e Antônio (filho caçula de quatorze). Percebe-se, então, que os
dois filhos mais velhos seguiram a profissão do pai, sendo que um deles chegou a dar
continuidade aos negócios da família. Outros filhos homens seguiram profissões liberais
de grande representatividade na época, medicina e engenharia. A carreira militar,
também, era bastante prestigiosa nesse período.
Como era de costume, nessa época, as filhas não recebiam a mesma educação
dos rapazes, ou seja, não se dedicavam a profissões específicas, mas sim, a aprender os
afazeres domésticos e artes. De acordo com Maria José Duailibe Cassas, em entrevista
realizada em junho de 2010: “As mulheres na época não estudavam, mas se dedicavam
a outras atividades, por exemplo: minha mãe pintava muito bem, minha tia Zila tocava
piano, Norma estudou canto e tocava piano”.
Vale ressaltar que a formação feminina diferenciada ressaltada por Maria José
Cassas Duailibe, também, é uma estratégia educacional que influencia, principalmente,
no valor simbólico de “espírito de família”. A partir dessas formações as mulheres vão
atuar, assim, como os homens, em prol dos interesses familiares, seja na constituição de
bons casamentos, seja no fortalecimento da identidade familiar. Segundo Pierre
Bourdieu:
Puede observarse que las estrategias educativas tienen una función fundamental; como todo el
trabajo simbólico, teórico (genealógico especialmente) y práctico (intercambio de dones, de
servicios, fiestas y ceremonias, etc.), que incumbe particularmente a las mujeres y que
transforma la obligación de amar en disposición amante y que tiende a dotar a cada uno de los
miembros de la familia de un “espiritu de familia”: esse principio cognitivo de visión y de
división es al miesmo tiempo un princípio práctico de cohesión, generador de adhesiones, de
generosidade, de solidaridade y de una adhesion vital a la existencia de un grupo familiar y de
sus intereses (2002).
Nessa época, a formação feminina era destinada, exclusivamente, a tornar as
mulheres aptas a constituir um “bom casamento” e isso era tão importante para o
destino familiar quanto a formação dos homens. Em seu artigo intitulado “Um capital
político multiplicado no trabalho genealógico”, Letícia Bicalho Canêdo (2011), ao
analisar uma família conhecida por seu destaque político no Estado de Minas Gerais,
demonstra o quanto os casamentos são importantes para compreender as posições que
essa família vai ocupando no espaço político ao longo dos anos. Ao longo da produção,
a autora destaca que: “Testemunhos de outras mulheres incorporadas à genealogia
72
demonstram os efeitos da estratégia de casamento no jogo familiar onde elas são usadas
como trunfos para a acumulação de poder político. Elas revelam uma vida oculta,
introvertida, avaliada pelos poderes daqueles que regem os casamentos, as mortes, as
leis” (2011, p. 69).
Além disso, é importante ressaltar que em uma família que adentra o mundo
político, os investimentos pessoais, seja a educação diferenciada feminina, que visa
atrair bons casamentos, seja a formação profissional masculina, o aspecto que as
distingue das demais é a coesão. Segundo Letácia Bicalho Canêdo: “A coesão é fruto de
uma aprendizagem adquirida no seio de uma família que precisa garantir sua
integridade, isto é, a soma dos ativos de todos os seus membros” (1991, p. 232).
De todos os filhos de Linda e Salim apenas Victoria se casou com um libanês,
chamado Felipe Cassas, oriundo, também, de Zahle. Ele faleceu com dois anos e meio
de casado, quando sua primeira filha, Maria José Duailibe Cassas, tinha apenas 33 dias
de nascida.
QUADRO 2 – Profissões dos cônjuges das filhas de Salim Duailibe
FILHA
DE MARIDO
SALIM
Geni Salim
Não casou (morreu criança)
Duailibe
Zuleide Salim
Não casou (morreu aos 18
Duailibe
anos)
Victoria Salim
Felipe Cassas
Duailibe
Maria De Lourdes
Salim Duailibe
Zilá Salim Duailibe
Norma Salim
Duailibe
Não casou
Luís Brito Passos Pinheiro
José Nelson Vieira Forte
PROFISSÃO DO MARIDO
_____
_____
Comerciante e foi representante
da Chevrolet e fundador do atual
Centro Elétrico, em São Luís
(Era eletricista)
Ela era funcionária pública
(Instituto de Resseguros do
Brasil (Irb))30
Militar (Coronel)
Comerciante (já teve várias
empresas)
Fonte: Entrevistas com membros da família.
Visualizando o quadro de casamentos das filhas de Salim, é possível perceber
30
O Instituto de Resseguros do Brasil (IRB) é empresa resseguradora vinculada ao Ministério da
Fazenda.
73
que, tirando as que faleceram, a maioria delas se casou com homens bem sucedidos
economicamente: comerciantes e militares. Esse tipo de alianaça matrimonial acaba
sendo importante para a família como um todo. É por meio de casamentos bem
sucedidos que os agentes conseguem manter e até mesmo multiplicar o patrimônio da
família. Na totalidade dos filhos, as uniões matrimoniais seguiram da seguinte forma,
como descreve Maria José Duailibe Cassas31:
Victoria casou-se com Felipe Castro e juntos tiveram apenas uma filha, eu. José se casou com
Ivete de Sousa Duailibe e tiveram quatro filhos: Salim, Sérgio, Sônia, e Sílvio José. Jorge não se
casou. Zila casou com o coronel Luís Brito Bastos Pinheiro e tiveram três filhos: Aloísio
Duailibe Brito Bastos Pinheiro, José Duailibe Brito Bastos Pinheiro e Zila Maria Duailibe Brito
Bastos Pinheiro. João casou-se com Marita Alves Duailibe e, também, tiveram três filhos: Luís
Antônio Alves Duailibe, Ângela Maria Alves Duailibe e João Henrique Alves Duailibe. Luiz se
casou com Maria Ceres Moreira Duailibe e juntos tiveram: Luiz Augusto Moreira Duailibe, Luiz
Otávio Moreira Duailibe e Renata Moreira Duailibe. Maria de Lourdes não casou, assim como
Jorge. Alfredo constituiu matrimônio com Maria Mendes Duailibe e tiveram cinco filhos: Maria
Francisca Tereza Duailibe, Alfredo Salim Duailibe Filho, Frederico Duailibe, Jorge Antônio
Duailibe e Paulo Álvaro Duailibe. Antônio se casou com Admée Rodrigues Duailibe e tiveram
como filhos: Antônio Salim Duailibe Filho, Jorge Luiz Rodrigues Duailibe, Sônia Elizabeth
Rodrigues Duailibe, Henrique Augusto Rodrigues Duailibe, Marco Aurélio Rodrigues Duailibe,
Francisco Rodrigues Duailibe, Maria Cândida Rodrigues Duailibe e Tereza Rodrigues Duailibe,
a última sendo adotiva. Norma se casou com José Nelson Vieira Forte e eles tiveram três filhos:
José Nelson Vieira Forte Filho, Sandra Duailibe Forte e Márcia Duailibe Forte. Carlos Alberto se
casou com Cléia Furtado Duailibe e tiveram três filhos: Silvana Furtado Duailibe, o coronel
Alberto Furtado Duailibe e Monique Furtado Duailibe.
Segundo relato de sua neta, Maria José Duailibe Cassas, Salim ascendeu na
sociedade maranhense graças à sua prosperidade no comércio. Ele iniciou como
“mascate” (vendedor itinerante, sem ponto de venda fixo), comercializando
principalmente no interior do Estado, conforme foi relatado anteriormente. Seus dois
primeiros filhos seguiram a carreira comercial, uma estratégia usada por algumas
famílias na época como forma de assegurar a continuidade do desenvolvimento
econômico da mesma. Com a ascensão econômica, Salim investiu na educação dos
demais filhos. Eles tiveram inclusive a oportunidade de aprender ofícios em
universidades fora do Maranhão. As carreiras seguidas foram em profissões de destaque
social, tais como engenharia e medicina. Entre os familiares, ficou o discurso heróico
de superação mediante o investimento e incentivo educacional por parte de Salim, como
pode ser percebido na declaração de Maria José Duailibe Cassas32:
31
Em entrevista concedida no mês de junho de 2010.
74
Meu avô foi um homem tão admirado. Ele veio do nada e conseguiu vencer. Ele focou a vida
dele na educação dos filhos, achava que era a coisa mais importante. Eu cresci ouvindo isso: o
que a gente deixa para os filhos de mais importante é a educação. Ele foi um homem que primou
por isso.
QUADRO 3 – Profissões dos filhos de Salim Duailibe
Nome (seguindo ordem cronológica)
Profissão
Geni Salim Duailibe
Dona de casa
Zuleide Salim Duailibe
Dona de casa
José Salim Duailibe
Comerciante
Jorge Salim Duailibe
Comerciante
Alfredo Salim Duailibe
Médico e político
João Salim Duailibe
Engenheiro
Maria de Lourdes Salim Duailibe
Funcionária pública
Zila Salim Duailibe
Dona de casa
Luiz Salim Duailibe
Engenheiro
Benedito Salim Duailibe
Comerciante
Carlos Alberto Salim Duailibe
Militar e prefeito do campus da UFMA
Norma Salim Duailibe
Dona de casa
Antônio Salim Duailibe
Médico
Fonte: Entrevistas com os membros da família
O investimento de Salim na formação educacional de seus filhos mais novos pode
ser percebido enquanto uma estratégia educativa, segundo a orientação de Pierre
Bourdieu. De certa forma, o discurso da valorização escolar, relatado pela neta Maria
José Duailibe Cassas, acaba sendo passado aos filhos que correspondem aos
investimentos e expectativas do pai. Assim, os interesses superiores do grupo acabam se
tornando os interesses dos agentes. Pierre Bourdieu destaca que: “Es el caso específico
de las estratégias ‘éticas’ que buscan inculcar la sumisión del individuo y de sus
intereses al grupo y a sus intereses superiores, y que por esse hecho, cumplen una
función fundamental asegurando la reproducción de la familia que es ella misma el
‘sujeto’ de las estrategias de reproducción” (2002).
Observando o quadro de profissões seguidas pelos filhos de Salim Duailibe, é
possível perceber que os dois filhos, homens, mais velhos, seguem a carreira comercial.
75
Somente, os filhos posteriores é que cursaram uma graduação. O controle da carreira
dos filhos pode ser compreendido enquanto uma estratégia econômica e de sucessão. Ao
colocar os dois filhos mais velhos para seguir a carreira comercial, muitas vezes,
começando na própria empresa da família, os pais asseguravam a continuidade do
desenvolvimento comercial da família, visando, sobretudo, a segurança econômica. No
caso da “família Duailibe”, isso, também, pode ser percebido, tendo José Salim
Duailibe e Jorge Salim Duailibe, seguido a carreira comercial. Segundo Pierre
Bourdieu: “Las estrategias de inversión económica, en el sentido amplio del término,
están orientadas hacia la perpetuación o el aumento del capital bajo sus diferentes
especies” (2002). Ou seja, esse acompanhamento do desenvolvimento da carreira dos
filhos, destinando aos filhos mais velhos a função de dar continuidade ao trabalho
comercial da família e deixando para os mais novos os investimentos escolares, pode
ser compreendido como uma estratégia econômica para garantir a continuidade da
prosperidade econômica da família, possibilitando, inclusive, que os demais filhos
possam investir em outros setores profissionais, sem que estes sejam, necessariamente,
ligados ao comércio.
Vale ressaltar que, os demais filhos de Salim que tiveram a oportunidade de
estudar em instituições de prestígio na época seguiram carreiras liberais, tais como:
medicina, engenharia e carreira militar. Esse aspecto, também, é fundamental no
investimento político que é realizado por Alfredo Duailibe. O prestigio familiar, em
parte adquirido pela ocupação de posições de destaque social graças ao investimento
educacional em carreiras bem reconhecidas socialmente, é construído a partir do
investimento de cada agente da família. Como ressalta Canêdo: “O valor do patrimônio
político familiar depende, assim, dos recursos de que dispõe cada membro do grupo de
parentesco” (1991, p. 235). Na mesma linha, Grill afirma: “Esses elementos são ainda
mais valorizados devido à divisão e orquestração de papéis desempenhados no interior
do grupo familiar, maximizando de forma conjunta o esfoço de cada membro” (2008b,
p. 56)
Uma forma de reproduzir o poder é acionando as estrategias matrimoniales e as
estrategias educativas. A primeira acontece por meio de uniões que acabam agregando
valor econômico ou contribuindo para a manutenção do riqueza já existente. Ou seja,
quando um descendente de libanês se casa com uma moça da elite ele está: ampliando
76
as suas redes de relações entre membros bem estabelecidos economicamente e, por
vezes, está aumentando seu patrimônio que já é significativo devido às atividades
comerciais da família. Já a segunda acontece quando são realizados investimentos
educacionais que permitem a esta família adentrar círculos antes restritos e obter capital
cultural e reconhecimento social, por meio de diplomas e títulos. Neste caso, pesa o
investimento, pesa a carreira escolhida e, sobretudo, as instituições escolhidas. Afinal,
será dentro dessas instituições, ou por meio de suas atuações nelas, que esses agentes
realizarão grande parte da sua sociabilidade e formarão suas redes de relações
interpessoais. Será nessas instituições que eles formarão seu capital social, que Pierre
Bourdieu define como sendo “o conjunto dos recursos atuais ou potenciais mais ou
menos institucionalizados de interconhecimento e interreconhecimento” (1980, p. 2).
Sobre esse conceito Coradini afirma que ele é “por demais geral para se
apreender a diversidade sociológica das relações de reciprocidade em vigor, tais como o
parestesco, a “amizade” e a patronagem profissional e política” (1997, p. 427). O autor
ressalta, ainda, que para apreender as relações e estruturas sociais baseadas na
reciprocidade e no clientelismo existe uma vertente anglo-saxônica que trabalha com as
noções de “alianças diádicas”, “facções” e “redes”.
Eric R. Wolf (2003) explica que as possibilidades matrimoniais estão
distribuídas de forma desigual, por isso, as possibilidades de um indivíduo com baixo
poder aquisitivo se casar com uma pessoa de alto poder aquisitivo são mínimas, pois,
provavelmente, eles não freqüentam os mesmos locais nem têm as mesmas relações
sociais. Ele explica que:
A realidade mostra, no entanto, que tanto o acesso aos recursos quanto a capacidade de
maximizar combinações por meio de relações matrimoniais são desigualmente distribuídos na
estrutura social. (...) Assim, o acesso diferencial aos recursos também leva a diferenças na
capacidade de manobra social, capacidade essa que, por seu turno, se reflete nos padrões
diferenciais de escolha matrimonial (2003, p. 98).
Por isso, para esta pesquisa tornou-se importante analisar os casamentos do
núcleo familiar constituído por Salim e seus filhos. Por meio do quadro mostrado
anteriormente, é possível perceber que os casamentos dos filhos de Salim não
aconteceram somente com descendentes libaneses, pelo contrário, apenas a filha
Victória se casou com um descendente libanês. Os rapazes que constituíram matrimônio
77
uniram-se às jovens de famílias locais bem situadas. Como, por exemplo, Alfredo e
Antônio. As filhas de Salim se casaram com comerciantes bem sucedidos e militares,
carreiras bem vistas na sociedade local. Esse tipo de enlace permite compreender o
investimento familiar que busca a manutenção e, por vezes, a multiplicação do
patrimônio econômico familiar, como já foi destacado.
2.2 INÍCIO NA POLÍTICA
Um dos filhos de Salim, além de conseguir muito prestígio na área na qual
trabalhava, conseguiu destaque no espaço político do Maranhão. Trata-se de Alfredo
Duailibe, que chegou a ocupar a posição de governador do Maranhão. Segundo matéria
escrita por Benedito Buzar, publicada no dia 16 de outubro de 1994, no Caderno
Alternativo do jornal O Estado do Maranhão (extraída da pesquisa realizada por ele
para o livro Vitorinistas e Oposicionista - 2001), Alfredo Duailibe estudou nos melhores
colégios de São Luís, tais como: o Instituto Gomes de Souza, em 1921, e o Instituto
Fernandes, de 1922 a 1924.
Aos nove anos, ele foi enviado pelo pai, com os irmãos José e Jorge, para morar
com a avó materna em São Paulo, onde teriam acesso a uma educação de qualidade
elevada. Lá, foram matriculados no Liceu Sagrado Coração de Jesus. Depois de
problemas de saúde que o fizeram retornar para o Maranhão, ele foi enviado para um
colégio interno em Recife, o Colégio Nóbrega, dos jesuítas. Concluiu o último ano do
secundário no Liceu Maranhense, em São Luís.
Com o fim dos estudos secundários, Alfredo Duailibe foi enviado pelo pai para o
Rio de Janeiro, na companhia do médico recém-formado Salomão Fiquene32, que foi
encarregado por Salim de cuidar do seu filho. Concorrendo com 1.200 candidatos,
Alfredo foi aprovado na Faculdade Nacional de Medicina. Em 1936, aos 22 anos,
recebeu o seu diploma, mas, ainda, sem habilitação. Por isso, resolveu ficar 15 meses no
Rio de Janeiro estagiando na Policlínica Geral, na Santa Casa de Misericórdia e na
Clínica Médica do professor Aloísio Castro. Voltou para o Maranhão no ano de 1938.
Nesse mesmo período, faleceu seu padrinho, Chico Abreu, que deixou uma herança para
32
Outro membro de família de origem libanesa.
78
Alfredo33. Conforme explica Benedito Buzar em sua matéria:
Quando achou que estava apto a exercer a profissão, retornou ao Maranhão, mas, ao chegar,
recebeu a notícia da morte de Chico Abreu, seu padrinho, homem afortunado, que o deixara
como um de seus herdeiros, à época, com vinte contos. ‘Seu’ Salim, com larga visão de
comerciante, imediatamente, aplicou a herança na firma. Do rendimento desse capital, viveu os
primeiros tempos de formado, equipou o consultório, instalado na Rua Oswaldo Cruz, esquina de
São Pantaleão. Como primeiro médico a se especializar em diabetes, não demorou muito tempo
para se impor como profissional competente, façanha difícil naquela época...
Na mesma matéria, publicada no jornal O Estado do Maranhão, Benedito Buzar
destaca a “profecia” de Chico Abreu com relação ao futuro profissional de Alfredo:
Chico Abreu, próspero comerciante de Ipixuna (hoje São Luís Gonzaga), não era profeta, mas
costumava dizer em alto e bom-som: ‘Este menino, quando crescer, será médico e governador do
Maranhão’, vaticínio que se referia ao garoto Alfredo Duailibe, seu afilhado de batismo, o quarto
filho de uma prole de doze, do casal Linda Sady-Salim Nicolau Duailibe.
No ano de 1941, o então governante Getúlio Vargas criou a Escola Nacional de
Educação Física. A idéia era preparar professores que pudessem melhorar a “eugenia
brasileira”. Para atrair estudantes, foram enviadas bolsas de estudo para todos os
Estados brasileiros, destinadas, principalmente, para médicos que quisessem se
especializar na área. O prefeito de São Luís e amigo de Alfredo Duailibe, Pedro Neiva
de Santana, convida-o para estudar Educação Física com direito a uma bolsa do
Governo Federal e ajuda de custo do Governo Estadual. De acordo com Benedito
Buzar:
Ao chegar em São Luís, contrariando o sentimento do pai, que não desejava vê-lo funcionário
público, foi nomeado pelo interventor Paulo Ramos e recebeu a incumbência de criar e implantar
o Serviço de Educação no Maranhão, vinculado ao Departamento de Instrução, dirigido pelo
professor Luiz Rego, através do qual os alunos da rede pública e privada seriam submetidos a
periódicos exames de saúde e a adoção da prática de educação física nas escolas (2001, p.57).
No ano de 1946, Alfredo Duailibe foi convidado pelo interventor Saturnino
Bello a comandar o Departamento de Instrução Pública. De acordo com Benedito Buzar
foi um de seus melhores amigos que o indicou para o cargo, Oswaldo da Costa Nunes
33
Pierre Bourdieu destaca que também são estratégias de reprodução da prática de dominação as
estrategias testamentarias que: “buscan asegurar la transmisión del patrimônio material entre
generaciones com el mínimo desperdício posible” (2002). Sendo assim, tendo seu padrinho já “previsto”
a entrada de Alfredo na carreira médica e política, transmitir-lhe uma parte da herança pode ter sido uma
forma de contribuir ou assegurar essa trajetória ao afilhado.
79
Freire, que, também, era colega de profissão de Alfredo. Foi durante o exercício do
cargo que ele conheceu seu amigo Victorino de Brito Freire. Com o desligamento de
Victorino Freire do Partido Social Democrático (PSD), convidou o amigo Alfredo
Duailibe para fundar um novo partido, o Partido Social Trabalhista (PST). Benedito
Buzar escreveu em sua matéria no jornal O Estado do Maranhão:
Simultaneamente, também por indicação de Victorino, recebe convite do Governador Archer da
Silva para ocupar uma das três secretarias do Governo Estadual: Interior, Justiça e Segurança (...)
Alfredo ocupou o cargo de Secretário de Interior, Justiça e Segurança até o prazo dado pela
Justiça Eleitoral para desincompatibilizar-se e poder se candidatar à Câmara Federal. (...) Como
prêmio pelo fantástico trabalho de consolidação da PST, Victorino e Archer da Silva disseramlhe: ‘Você será candidato a deputado federal sem gastar um tostão e sem correr atrás de eleitor’.
Só não foi o mais votado do Estado porque Paulo Ramos, candidato do PTB, arrebatou o
primeiro lugar.
Após ser eleito deputado federal, Alfredo Duailibe foi morar no Rio de Janeiro,
onde funcionava o Congresso Nacional. Com o fim da greve de 1951, Victorino
negociou sua volta ao PSD, sendo assim, o PST acabou e Alfredo voltou ao PSD. No
mandato de 1954 a 1962, Alfredo foi suplente de Victorino no Senado. Em 1960,
recebeu o convite do deputado Newton Bello para ser companheiro de chapa na eleição
para o Governo do Estado. Os dois se elegeram. Em 1965, José Sarney venceu a eleição
para governador do Maranhão, entretanto, Newton Bello se recusou a dar posse ao
eleito34. Segundo Benedito Buzar: “A solução foi passar o governo para o vice, que não
tinha arestas com Sarney, para ser cumprida a liturgia da posse”. Pela primeira vez,
Alfredo Duailibe assumiu o Poder Executivo, tendo como missão passar o cargo para o
então eleito, José Sarney.
Já no governo de José Sarney, tendo sucumbido o chamado vitorinismo35,
34
Neste período o Brasil já vivenciava o Golpe Militar, de 1964. No Maranhão, em 1965, José Sarney foi
eleito governador do Estado (com o apoio dos militares), colocando fim na constância política de
Victorino Freire (desde 1946). Na época, José Sarney se fortaleceu com uma postura mais moderada e se
consolidou como uma liderança da oposição à Victorino. Entretanto, mesmo com a vitória de José Sarney,
o vitorinista Newton Bello, se recusou a abandonar o cargo. Somente com a interferência de Alfredo
Duailibe, que assumiu provisoriamente o cargo de governador do Estado, é que José Sarney pôde tomar
posse do cargo para o qual foi eleito.
35
Em seu artigo intitulado “Os usos de “ismos” em batalhas políticas e intelectuais (RS/MA)”, Igor
Gastal Grill analisa o uso corrente de expressões que caracterizam vínculos políticos, incluindo o
“vitorinismo” e o “sarneyismo”. Segundo o autor: “Em outros termos, a eternização dos personagens e a
‘etiquetagem’ em termos de ‘ismos’ estão vinculadas a um conjunto de homenagens, construções
biográficas e interpretações responsáveis pela personificação em ícones de atributos valorizados social e
culturalmente, pela vinculação dos mesmos a qualidades extraordinárias ou transcendentais, assim como a
demonstrações de lealdades, fidelidades, continuidades, proximidades, etc. Os rituais e estratégias de
80
Alfredo Duailibe se afastou da vida política e passou a se dedicar ao seu consultório e à
função de professor catedrático da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Em
1965, com a extinção do pluripartidarismo e com a criação da Arena e do MDB, o então
governador Sarney o convidou a integrar o diretório regional da Arena. Logo depois, se
candidatou ao senado como suplente de Alexandre Costa. Elegeu-se senador, mas não
chegou a ocupar o cargo. Em 1970, Pedro Neiva de Santana convidou Alfredo Duailibe
para ser Secretário de Interior, Justiça e Segurança. Após ocupar esse cargo não se
dedicou mais a vida política.
Aqui, tendo em vista essa generalidade da noção bourdiana de capital social
apontada por Coradini, trabalhou-se as trajetórias dos agentes conforme os estudos
bourdianos tentando articular suas produções com as de autores que operacionalizam os
conceitos de relações diádicas e relações de reciprocidade de forma mais aprofundada.
Isso porque é possível perceber nas trajetórias descritas anteriormente que o acúmulo de
diferentes capitais está relacionado com diversas estratégias (matrimoniais, educativas,
testamentarias, etc.) que resvalam em relações personificadas. E, por vezes, a
acumulação de capital simbólico personificado é condição de garantia dos demais
capitais (econômico, político, intelectual) (CORADINI, 1997, p. 426).
Reis (2009), em seu artigo “Militância, alianças e ocupação de cargos” (no qual
analisa os padrões de especilização de agentes que iniciaram sua carreira política em
movimento estudantil, organizações clandestinas de esquerda), destaca a importância
dos vínculos e das relações personificadas para a carrreira política de um agente.
Segundo a autora:
A abordagem abrange as duas perspectivas para a análise dos vínculos e contatos – sutentados no
âmbito de ‘grupos’ mais ou menos institucionalizados e, ao mesmo tempo, com base em elos de
reciprocidade – devido à preponderância das redes de relações para o caso estudado, uma vez
que essas relações favorecem e são favorecidas pela configuração de um espaço social marcado
pela inexistência de fronteiras rígidas entre os domínios sociais. É em consequência disso que os
agentes podem com maior ‘facilidade’ transitar entre os diferentes meios sem necessariamente
readaptar recursos de um para outro (2009, p. 173).
Já como exemplo de estratégia educacional, toma-se o caso de Alfredo Duailibe,
filho de Salim. Tendo o pai investido na formação médica do filho, Alfredo formou-se
consagração analisados, permitiram captar processos e mecanismos de heroicização, princípios de
aferição de excelência humana e de hierarquização social, bem como sua reconversão em recursos
políticos, em bases de liderança e em instrumentos de consolidação de teias de seguidores”. (2010, p.28)
81
médico em uma instituição de renome e, pouco antes de começar a carreira, recebeu
uma herança de seu padrinho, o que demonstra a relação de afeto e proximidade entre
eles. Em matéria publicada no jornal O Estado do Maranhão, o dia 20 de abril de 1998,
os jornalistas Edivaldo Pereira Biguá e Tânia Biguá escreveram sobre Alfredo Duailibe:
“Nascido em São Luís no dia 19 de outubro de 1914, ouvia do pai, Salim Nicolau
Duailibe, e do padrinho, Francisco Abreu, que iria ser médico. O padrinho ia mais longe
e profetizava que além de médico, Alfredo se tornaria governador do Maranhão”. Fato
destacado, também, por Benedito Buzar em seu livro Vitorinistas e Oposicionistas.
Pierre Bourdieu destaca que:
A correlação entre uma prática e a origem social – avaliada pela posição do pai, cujo valor real
pode ter sofrido uma degradação dissimulada pela constância do valor nominal – é a resultante
de dois efeitos (não forçosamente do mesmo sentido): por um lado, o efeito de inculcação
diretamente exercído pela família ou pelas condições originais de existência; por outro, o efeito
de trajetória social propriamente dita, ou seja, o efeito exercido sobre as disposições e as
opiniões pela experiência da ascensão social ou do declínio – nesta lógica, a posição de origem é
apenas o ponto de partida de uma trajetória, a referência em relação à qual define-se o sentido da
carreira social (2007, p. 105).
Dessa forma, entende-se que os posicionamentos do pai e do padrinho podem ter
contribuido enormemente para a trajetória profissional de Alfredo Duailibe, tanto na
carreira médica quanto na carreira política. Pois, as disposições aliadas à inculcação de
uma idéia de vocação podem ter como consequência a imposição de uma pré-destinação
para esse agentes.
Grill, se apropriando da noção de investidura de Bourdieu para a análise das
heranças políticas, afirma:
...mediante a análise dos processos de investidura – que é capaz de transformar a pessoa
consagrada, modificando as representações das demais pessoas sobre ela, as suas próprias
representações sobre si mesma e as obrigações incorporadas – pode-se descortinar a definição do
métier político em determinado contexto (2008b, p. 23).
Como já foi destacado anteriomente, as estratégias de reprodução executadas
pelos membros da “família Duailibe” permitiram que estes ampliassem as suas relações
sociais, seja no caso do Salim, por meio do comércio, seja no caso do Alfredo, por meio
das instituições nas quais estudou e dos laços no meio político. Especificamente no caso
de Alfredo, é possível perceber de que forma essas relações pessoais são importantes
para a trajetória desenhada e como elas serão importantes para as posições políticas
82
ocupadas por Alfredo.
Em inúmeros momentos da trajetória de Alfredo Duailibe é possível perceber
que suas relações pessoais o favorecem, principalmente, no âmbito político. Como a
própria matéria de Benedito Buzar relata, foi o laço de amizade de Alfredo com Pedro
Neiva de Santana, então prefeito de São Luís, que permitiu que ele fosse estudar
Educação Física com direito a uma bolsa do Governo Federal e ajuda de custo do
Governo Estadual. Com o término dos estudos, ele retorna para o Maranhao e recebe a
incumbência de criar e implantar o Serviço de Educação no Maranhão, vinculado ao
Departamento de Instrução, por meio do qual os estudantes das redes pública e privada
seriam submetidos a periódicos exames de saúde e a adoção da prática de educação
física nas escolas.
Em outro momento, no ano de 1946, Alfredo Duailibe foi convidado a comandar
o Departamento de Instrução Pública. Segundo Benedito Buzar, foi Oswaldo da Costa
Nunes Freire, um de seus melhores amigos, que o indicou para o cargo. Oswaldo,
também, era colega de profissão de Alfredo. Mais uma vez, o vínculo pessoal de
Alfredo está relacionado com os caminhos profissionais percorridos. E foi justamente
no exercício desse cargo que ele conheceu Victorino de Brito Freire, que viria a ser seu
grande amigo e “orientador” político. Afinal, ao se desligar do PSD, Victorino Freire
convida o amigo Alfredo Duailibe para fundar um novo partido, o Partido Social
Trabalhista (PST).
A relação de Alfredo com Victorino foi decisiva para a carreira política do
primeiro. Foi por indicações de Victorino, por exemplo, que Alfredo recebeu convite do
Governador Archer da Silva para ocupar uma das três secretarias do Governo Estadual:
Interior, Justiça e Segurança. Em outro momento que fica claro o apoio político de
Victorino é quando este e Archer da Silva prometem para Alfredo que ele seria eleito
deputado federal, “sem gastar um tostão e sem correr atrás de eleitor”, conforme
relatado na matéria de Benedito Buzar, publicada no jornal O Estado do Maranhão.
Todos esses momentos evidenciam como as relações pessoais acabaram
ajudando-o a ocupar certas posições políticas na esfera política. Essas relações pessoais
servem de “trampolins” para alcançar certos benefícios políticos e sociais. Norman
Long, ao escrever sobre redes, cita a produção de Anthony Leeds, que trabalha
justamente com o conceito de trampolim. De acordo com Norman Long:
83
El trabajo de Anthony Leeds (1964) acerca de las carreras sociales brasileñas proporciona
algunos puntos valiosos sobre cómo desarrolar tal perspectiva. El enfoque principal del análisis
de Leeds es la identificación de los mecanismos por los cuales la gente avanza en sus carreras
políticas y econónicas, prestando particular atención a los niveles más altos de la sociedad
brasileña. Una de sus conclusiones es que los patrones de organización informal basados en lazos
personales son decisivos en cada nivel promocional. (...) La noción de trampolines es en
particular útil en cuanto a la atención que dirige a la identificación de conjuntos mayores de
relaciones que llegan a estar a disposición de los individuos en ciertas fases de sus carreiras, y
que por ello les proporcionan los medios por los cuales adquiren capacidad para iniciar nuevas
ramas de actividad (2007, ps. 258, 259 e 260).
Um dos enfoques principais do autor é a identificação dos mecanismos usados
pelos agentes para avançar em suas carreiras políticas e econômicas. Anthony Leeds
explica que, para isso, o principal problema é estabelecer um primeiro passo, ou seja,
criar um novo trampolim. O autor destaca, ainda, que existem várias técnicas que
podem ser usadas em prol da criação deste novo trampolim. Segundo Anthony Leeds:
Menciono apenas algumas, como a atividade marcante nas associações universitárias estudantis,
especialmente nas escolas de Direito; participação em grupos fascistas ou comunistas quando
muito jovem; declarações públicas em favor de politicas não encampadas pelos poderes
constituídos; casamento com jovens ricas; ajuda da própria família ou da família da esposa;
ajuda de padrinhos; jornalismo; ser famoso no esporte; ingresso na política em posições políticas
mais baixas; ingresso num pequeno escritório burocrático a partir do qual laços para cima e para
fora podem ser estabelecidos (1978, p. 67).
Vale destacar que essas técnicas, segundo o autor, podem ser usadas juntas ou
isoladamente e nenhuma é intrínseca aos fins da carreira, mas sim, ao início de uma
projeção profissional.
Essas relações diádicas percebidas na trajetória dos membros da família Dualibe
(tanto quando o comerciante português Emílio Lisboa ajuda Salim, quanto quando os
amigos colaboram para o desenvolvimento da carreira política de Alfredo), são
fundamentais para perceber o quanto foram importantes os investimentos matrimoniais,
educacionais e econômicos que permitiram aos membros desta família estabeler tais
relações que, futuramente, seriam convertidas em benefícios sociais. Eric R.Wolf (2003)
observa que esse tipo de conexão entre indivíduos acaba caracterizando uma amizade
instrumental. Ele explica que:
Em contraste com a amizade emocional, que restringe a relação à díade envolvida, na amizade
instrumental cada membro da díade age como uma ligação potencial com outras pessoas fora da
díade. Cada participante apadrinha o outro. Em contraste com a amizade emocional, associada à
84
limitação do círculo social, a amizade instrumental vai além das fronteiras dos grupos existentes
e procura estabelecer pontas de lança em novos grupos (2003, p. 104 e 105).
O autor destaca, ainda, que não é porque trata-se de uma amizade instrumental
que ela está livre do aspecto afetivo, pelo contrário, o afeto é um aspecto importante
para que seja mantida a amizade instrumental e, quando não existe, deve ser fingido,
pois, segundo Eric R. Wolf: “Quando os objetivos instrumentais da relação claramente
assumem o controle, a ligação está sob ameaça de ruptura” (2003, p. 105).
Carl H. Landé, por sua vez, destaca que exitem dois tipos de aliança diádica: a
horizontal e a vertical. A primeira acontece entre pessoas de status iguais e a segunda
entre pessoas de status diferentes. Segundo o autor: “Uma aliança diádica é um acordo
voluntário entre dois indivíduos que visa à troca e à ajuda mútua quando necessário”
(1977). Isso acarreta dizer que a que a obrigação de uma das partes está relacionada à
necessidade da outra. E é a troca de favores que vai sustentar essa relação. É importante
o interesse dos indivíduos em manter essa possibilidade de obter favores e, em troca,
fazer sacrifícios de forma voluntária.
Ao longo da trajetória dos componentes da família Dualibe estudados, a aliança
diádica vertical pode ser mais observada, tanto quando um comerciante já estabelecido e
em outro patamar econômico ajuda Salim, quanto quando Victorino possibilita à
Alfredo ocupar cargos públicos importantes, quando o primeiro é governador do
Maranhão. Neste caso, a aliança diádica, além de ser vertical, ou seja, se dá entre
pessoas que estão em posições diferentes, pode ser caracterizada como uma relação
patrão-cliente, que Carl H. Landé esclarece como sendo:
Uma relação patrão-cliente é uma aliança diádica vertical, isto é, uma aliança entre duas pessoas
de status, poder ou recursos desiguais que acham útil ter como um aliado alguém superior ou
inferior a si mesmo. O membro superior de tal aliança é chamado de patrão e o membro inferior,
de cliente (1977).
Em retribuição aos cargos obtidos e à confiança depositada, Alfredo confere à
Victorino seu apoio político, algo intangível, porém de valor para quem o recebe. Isso
pode ser percebido no relato de Benedito Buzar (2001), em seu livro Vitorinistas e
Oposicionistas, sobre o afastamento de Victorino da vida política e, consequentemente,
do acompanhamento considerado incondicional de Alfredo. Segundo Benedito Buzar:
85
Com a instalação do governo revolucionário, em 1964, e a vitória do candidato das Oposições
Coligadas, José Sarney, em 1965, ao governo do Maranhão, apagou-se a estrela de Victorino
Freire. Amigo incondicional do ex-senador, encoberto pela penumbra do ostracismo, Alfredo
Duailibe afastou-se da atividade político-partidária (2001, p. 60).
Em seu artigo intitulado “Heranças políticas” no Rio Grande do Sul o no
Maranhão, Grill (2007a) observa, com relação ao aspecto da imigração, que os
descendentes adentram o mundo político constroem suas bases políticas por meio de
alianças, tanto dentro das máquinas partidárias, quanto dentro das famílias que as
controlam.
Em outra produção, Grill (2009) confirma os investimentos realizados por
descedentes de imigrantes libaneses no Maranhão em títulos escolares, em
empreendimentos econômicos e acúmulo de capital social por meio da criação,
manutenção e ampliação de redes de relações. E para justificar a dominação nos espaços
econômico e político é que eles mobilizam seus recursos e trunfos. O autor observa,
ainda, que, mesmo sendo exemplos de trajetórias exepcionais no espaço econômico e
político, os casos desses descendentes de imigrantes no Maranhão acabam se tornando
exemplares. Segundo ele: “É interessante notar que os trunfos e as habilidades
construídas sob condicionantes específicos de afirmação social e econômica acabam se
constituindo em “qualidades” tidas como próprias (...), dos “sírios”, dos “libaneses”
e/ou de determinadas “famílias de políticos” (2009, p.147). O autor ressalta que “...o
itinerário de cargos políticos é pautados pela lógica da cooptação operada pelas direções
das máquinas políticas estaduais (dirigidas de São Luís)” (2009, p. 149).
2.3 OUTRA VIA DA AFIRMAÇÃO POLÍTICA FAMILIAR: OS CARGOS
ADMINISTRATIVOS
Outro filho de Salim que, também, seguiu a carreira médica foi Antônio Salim
Duailibe. Ele se casou com Admée, que acabou herdando o nome Salim Duailibe.
Embora não tenha se envolvido com a política eletiva, Antônio ocupou vários cargos
públicos36 de destaque em instituições de São Luís, tornando ele, igualmente, um dos
36
Antônio Duailibe foi professor da disciplina de Parasitologia e Doenças Tropicais da Universidade
Federal do Maranhão (UFMA); médico do Instituto de Pensões e Assistência dos Servidores do Estado
(Ipase), do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), da Companhia Energetica do Maranhao (Cemar),
e do Porto do Itaqui.
86
responsáveis pelo reconhecimento político dos Duailibe. Além disso, na ramificação
familiar que surgiu a partir de Antônio, é possível perceber a dedicação às artes,
principalmente, a música, e as estratégias de investimento em capital simbólico. Afinal,
Admée (esposa de Antônio) foi a pessoa designada por Linda Saad (mãe de Antônio)
para seguir com a administração da Associação de Mulheres Libanesas. Por isso, é
importante para essa pesquisa analisar a trajetória de Antônio Duailibe.
Antônio conheceu Admée por causa de um acidente de bicicleta sofrido por ela.
A partir de então eles noivaram e se casaram pouco tempo depois. Admée era filha de
um engenheiro e pertencia a família Belo, considerada tradicional na época, como a
própria Admée destacou em entrevista concedida em junho de 2011: “Antes do acidente
a gente já se conhecia, porque todas as famílias se conheciam antigamente, mas não
tínhamos muita proximidade. A minha família era muito conhecida na época, era a
família Belo”.
Antônio e Admée tiveram os seguintes filhos (seguindo a linha cronológica de
nascimento): Maria Cândida Rodrigues Duailibe, Antônio Salim Duailibe Filho, Sônia
Elizabeth Rodrigues Duailibe, Jorge Luís Rodrigues Duailibe, Marco Aurélio Rodrigues
Duailibe, Henrique Augusto Rodrigues Duailibe e Francisco José Rodrigues Duailibe,
além da filha adotiva Maria Tereza Rodrigues Duailibe. Maria Cândida é formada em
gastronomia e atua em sua empresa de buffet. Antônio é administrador, Sônia é
graduada em Letras, Jorge Luís é médico, e Marco Aurélio e Henrique são publicitários,
Francisco José criou uma empresa imobiliária.
87
QUADRO 4- Profissão dos filhos de Antônio e Admée:
NOME
Maria Cândida Rodrigues Duailibe
Antônio Salim Duailibe Filho
Sônia
Elizabeth
Rodrigues
Duailibe
Jorge Luís Rodrigues Duailibe
PROFISSÃO
gastrônoma
administrador
formada em Letras
ÁREA DE ATUAÇÃO
Autônoma
funcionário público
funcionária
pública
aposentada
Médico
trabalha nas iniciativas
pública e privada
Marco Aurélio Rodrigues Duailibe Publicitário
funcionário da Clara
Comunicação,
foi
professor do Ceuma
Henrique Augusto
Rodrigues Publicitário
proprietário
de
um
Duailibe
estúdio de gravação
Francisco José Rodrigues Duailibe formado em Ciências proprietário de uma
Contábeis
empresa imobiliária
Maria Tereza Rodrigues Duailibe
dona de casa
----------------Fonte: Entrevistas com membros da família.
Como se pode perceber apenas Jorge Luís seguiu a carreira médica como o pai.
Ao ser questionado se a carreira de Antônio Duailibe teria influenciado a escolha do
filho e do neto, Marco Aurélio Rodrigues Duailibe37 respondeu: “Lógico que sim.
Inclusive Jorge Luís recebeu o anel que era de papai”.
Maria Cândida teve três filhos: Valéria, Bruno e Clara. Antônio teve dois filhos:
Antônio Salim Duailibe Neto e Leonardo. Sônia se casou com um libanês da família
Marão e teve três filhos: Raquel, Luis Sérgio e Antônio José. Jorge, também, teve três
filhos: Jorge Luis, Fábio e Felipe. Marco Aurélio não se casou e nem teve filhos.
Henrique teve três filhos: Admée, Yasmin e Henrique Filho. E Francisco teve dois
filhos: David e Maria Eduarda.
Percebe-se que todos os filhos de Antônio e Admée tiveram uma formação no
ensino superior. A valorização da escolarização fica evidente, também, na trajetória da
Admée. Aos 40 anos e grávida do último filho, ela cursou o segundo grau. Após a morte
do marido, quando ela estava com 70 anos, ela fez o vestibular para hotelaria, passou e
se graduou na área, depois seguiu fazendo uma pós-graduação. Segundo Marco Aurélio:
“Depois quando ela não tinha mais nada o para fazer, ela foi fundar o curso de
37
Em entrevista concedida em junho de 2011.
88
Gastronomia no Ceuma38, que era o sonho dela”.
Embora não seja descendente direta de uma família de imigrantes libaneses,
Admée é uma das mais representativas figuras da etnia no Maranhão. Como já foi
ressaltado anteriormente, ela é presidente da Associação de Mulheres Libanesas
atualmente. Esta associação foi fundada por Linda Saad, sogra de Admée, em 1933. Há
40 anos, Admée é presidente desta associação. As ações da associação são filantrópicas.
De acordo com Admée: “Nós ajudamos o Hospital do Câncer. Eu fui uma das
fundadoras da Apae (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), da Pestalozzi”.
Marco Aurélio completa a informação dizendo: “Inclusive há uma unidade da Pestalozzi
com o nome dela (de Admée)”. Nesse caso, pode-se notar a transmissão familiar da
posição de prestígio dentro da instituição.
A participação de imigrantes de sírios e libaneses e seus descendentes em
atividades filantrópicas foi observada por Oswaldo Truzzi em sua pesquisa em São
Paulo. Para Truzzi esse tipo de participação em instituições da sociedade marcou um
período no qual esses imigrantes já tinham recursos suficientes, faltando a eles apenas a
notoriedade social. E a filantropia desempenhava um papel interessante nesse contexto,
pois normalmente, após uma generosa doação, era colocada uma placa homenageando o
doador ou algum notório familiar, tal como foi dada a Admée o nome em uma unidade
Pestalozzi, em São Luís. Segundo Oswaldo Truzzi: “Desse modo, além de suprir
objetivamente a necessidade de auxílio e proteção da colônia, a filantropia mais tarde
representou uma espécie de passo obrigatório na conquista de uma posição de destaque”
(1991, p. 48).
Voltando à trajetória de Antônio Duailibe, deve-se ressaltar que ele atuava
profissionalmente em diferentes locais e ocupou postos respeitáveis dentro da carreira
médica, tal como o de presidente da Academia Maranhense de Medicina. Além disso,
ele era professor universitário, atuava como médico do trabalho e foi médico do Porto e
da Companhia Energética do Maranhão (Cemar). Antônio Duailibe ainda clinicava.
Segundo Marco Aurélio Rodrigues Duailibe: “Naquela época, papai foi praticamente
fundador do curso de medicina daqui. Ele era famoso. Chamavam-no de médico da
família porque ele cuidava da família inteira, de todo mundo. Naquela época era assim”.
Antônio Duailibe, também, se dedicava à escrita, nas horas vagas. Antes de
38
Centro Universitário do Maranhão (Ceuma), depois mudou de abreviatura para Uniceuma.
89
morrer, estava preparando um livro sobre a história da “família Duailibe”. Não chegou a
concluí-lo. Hoje, a atividade está sendo retomada pelo neto, Antônio José Duailibe
Marão. Vale ressaltar que a identificação com a descendência libanesa, pode ser
percebida na retomada da produção do livro iniciada pelo avô e até mesmo na assinatura
de seu e-mail no qual está escrito o seu nome em árabe.
Um aspecto ressaltado tanto por Maria José Cassas Duailibe quanto por Marco
Aurélio Rodrigues Duailibe foi a aproximação da família com as artes, mais
especificamente, com a música. Os dois, inclusive, atuam musicalmente. Maria José é
uma conhecida pianista formada pela Escola Nacional de Música da Universidade do
Brasil, no Rio de Janeiro. Trabalhou como professora de música a vida toda. Marco
Aurélio, também, toca piano, mas, atualmente, está focando mais no canto.
Recentemente, ele e o irmão Henrique estavam produzindo um CD de músicas juninas
que fizeram em parceria com Zeca Baleiro39. Marco Aurélio lembra que: “Vovô tinha
um toca disco, daquele de corda. Só que ele ouvia mais músicas árabes. Tio Jorge filho
dele era pianista. Ele tocava muito bem, ditava moda em São Luís. Era um homem
muito elegante”. Admée Duailibe, por sua vez, relembra as reuniões familiares nas quais
a música sempre esteve presente: “Era assim: todo domingo, os filhos de dona Linda
iam jantar no sobrado. Lá tinha um piano e ia todo mundo para o piano para cantar. Até
hoje, quando tem aniversário todo mundo canta”.
Ao trabalhar com a questão dos bens culturais e gostos em matéria de literatura,
pintura ou musica, Pierre Bourdieu ressalta que eles são menos “um dom da natureza” e
mais “um produto da educação”. Durante vários momentos na entrevista de Marco
Aurélio Rodrigues Duailibe, ele ressalta que o “talento para música é algo da família”,
como se fosse um patrimônio genético passado de forma natural entre os membros da
família. Bourdieu, entretanto, lembra que se trata muito mais de uma formação
educacional voltada para a música, como no caso citado. Segundo o autor: “...o ato de
fusão afetiva, de Einfühlung, que dá o prazer do amor pela arte, pressupõe um ato de
conhecimento, uma operação de decifração e decodificação, que implica o acionamento
de um patrimônio cognitivo e de uma competência cultural” (2007, p. 10). De certa
39
Zeca Baleiro, nasceu em Arari, no ano de 1966. É cantor, compositor e músico brasileiro de MPB.
Transferiu-se para São Paulo onde lançou sua carreira. Ele já teve suas composições interpretadas por
Simone, Gal Costa, Elba Ramalho, Vange Milliet, Adriana Maciel, Luíza Possi, Rita Ribeiro, Renato Braz
e Claudia Leitte, cantores reconhecidos nacionalmente.
90
forma, essa possibilidade de aprendizado musical está relacionada a uma educação
diferenciada. Como Bourdieu explica: “É assim que a arte e o consumo artístico estão
predispostos a desempenhar independentemente da nossa vontade ou nosso saber, uma
função social de legitimação das diferenças sociais” (2007, p. 14).
Focando, por exemplo, na trajetória de Antônio Duailibe é possível perceber
alguns acontecimentos e práticas que colaboram para a reprodução da alta posição
social conquistada pela “família Duailibe”, e na criação de trampolim para a sua
carreira. O casamento de Antônio com Admée é um exemplo da endogenia que deixou
de ser majoritariamente étnica, como era comum entre os primeiros imigrantes (um
exemplo disso é o próprio Salim que voltou para a cidade natal para casar-se com Linda,
também, libanesa) e passou a ser também social, ou seja, passou a acontecer entre os
descendentes de libaneses, já economicamente estabelecidos, com moça de famílias
maranhenses de destaque social. Esse tipo de prática acaba por colaborar para a
manutenção ou aumento do capital econômico familiar e, consequentemente, ajuda na
afirmação social do indívíduos e da família como um todo, como já foi destacado
anteriormente.
Outro aspecto relevante é a atuação filantrópica de Admée. Como presidente de
uma instituição que representa as mulheres descendentes de libaneses, ela realiza ações
filantrópicas que acabam fortalecendo a sua imagem e, consequentemente, da “família
Duailibe”, pois as instituições que recebem tais doações acabam homenageando-a.
Além disso, ela divulga a culinária libanesa e é reconhecida por isso, aparece em várias
matérias jornalísticas vinculada à cultura libanesa, por exemplo. O próprio Antônio
Duailibe, bem como seu neto, Antônio José Duailibe Marão, trabalhou na produção de
um livro que conta a história da família. Percebe-se nesses exemplos supracitados o
esforço dos agentes, sejam homens ou mulheres, para o fortalecimento da “imagem da
família” enquanto algo socialmente relevante. Isso permite perceber que as decisões e as
trajetórias de todos os membros da família colaboram para o aumento ou a
diminuiçãodo patrimônio material e simbólico familiar, constituído pelas diferentes
espécies de capitais: sociais, econômicos, políticos, intelectuais e simbólicos. Ações
como a produção de um livro acabam por conservar ou aumentar o capital de
reconhecimento. Segundo Pierre Bourdieu:
91
Las estrategias de inversión simbólica son todas las aciones que tienen por objeto conservar o
aumentar el capital de reconocimiento (en los diferentes sentidos del término), privilegiando la
reprodución de los esquemas de percepción y de apreciación más favorables a sus propietarios y
produciendo las acciones susceptibles de ser apreciadas favorablemente según esas categorías
(por ejemplo mostrar la fuerza para no tener que servirse de ella) (2002, p. 15).
Sobre a produção literária da família, seja a iniciada por Antônio Duailibe, seja a
criação de uma página na internet, ou mesmo a participação da família em um jornal
para ressaltar seus feitos, com informações e relatos familiares dos Duailibe (como é o
caso do texto de Francisco Jose Carvalho Duailibe), pode ser entendida como uma
forma de consagração da história familiar a partir de sua descendência étnica. Isso fica
claro em diferentes momentos das entrevistas, quando os entrevistados fazem questão
de ressaltar que o Salim começou “de baixo” e conseguiu destaque econômico por meio
de seu “esforço pessoal”, que a família sempre demostrou “talento para a música”, que a
família Dualibe é muito “unida, alegre e festeira, por causa da descendência libanesa”.
Reis e Grill (2008) destacaram que:
A produção escrita é uma forma de intervenção por excelência que sistematiza/manifesta/registra
o conjunto de sentidos/interpretações atribuído pelo seu produtor a dadas matérias, objetos e
circunstâncias em oposição a outros tantos possíveis em determinados contextos e situações
(2008, p. 129).
Sendo assim, por meio dessas produções escritas, eles podem definir o ponto de
vista de determinado assunto, delineando uma forma de apreender o assunto abordado.
E isso, na maioria das vezes, é parte integrante dos esforços de auto-celebração. Não é à
toa que as produções escritas sobre as histórias das famílias na maioria das vezes
resvala em uma narrativa heróica de feitos dos agentes envolvidos.
Outra questão que permite perceber a auto-consagração familiar é a repetição de
nomes entre os membros de diferentes gerações, essa forma de homenagem, também,
pode ser apreendida como uma forma de consagrar alguns membros específicos e,
consequentemente, a família como um todo. São exemplos disso os nomes: Salim, Zila,
Alfredo, Luís, José, Jorge etc... É uma forma de eternizar esses indivíduos e seus
“feitos”. Trata-se de eternizar simbolicamente os feitos familiares por meio da
homenagem entre si. Irlys Barreira ao analisar uma família de políticos em período
eleitoral pôde perceber esse mesmo tipo de estratégia simbólica entre os agentes.
Segundo a autora:
92
A repetição de nomes entre pais, filhos e netos repunha, a cada nascimento, a recordação das
origens e a sua inscrição em ritos e formas de sociabilidade capazes de afirmar um modelo de
‘comunhão entre iguais’. (...) o representante político já de antemão tinha lugar inscrito nos
códigos de consanguinidade vigentes. Distante da singularidade do nome a construir, a
linguagem assegurava, antes, o nome a zelar e a perpetuar, validando a memória dos ancestrais.
(2006, p. 302 -303).
A singularidade familiar ressaltada é a “vocação musical”. Vários membros da
família têm afinidade com a área musical, tocam instrumentos e cantam. E isso não é
apenas um hobby para eles, na verdade, alguns têm uma carreira artística e são
reconhecidos como músicos profissionais, como é o caso da Maria José Duailibe
Cassas, tida como exímia pianista, com formação já explicada. Maria José, também, é
um exemplo de como a educação musical é estimulada dentro do meio familiar.
Segundo ela:
As pessoas que tinham dinheiro aqui (São Luís-MA) mandavam (as filhas) para o internato no
Rio de Janeiro, mas não para se formar. Iam para estudar, fazer ginásio, ensino médio. Para se
formar mesmo eu não lembro de ninguém da minha época saindo daqui para isso. Eu me
considero inclusive uma pessoa muito privilegiada por isso, porque fiquei órfã de pai com 33
dias de nascida, mas eu manifestei logo um talento, com quatro anos eu já tocava e, então, com
cinco anos eu comecei a estudar piano. Eu tive um tio que não casou, o Jorge, que também
tocava piano muito bem, ele foi quem custeou todo o meu estudo fora daqui.
Marco Aurélio Duailibe, também, é voltado para a música. Ele canta e,
recentemente, gravou um
CD com a parceria de um dos irmãos. Essa “vocação
musical”, também, é uma forma de consagração. A apropriação da música, enquanto
arte, está diretamente relacionada à ocupação de posições de destaque social, visto que
esse tipo de conhecimento ou de educação não está disponível para a maioria da
população. Um elevado conhecimento musical acaba sendo uma forma de distinção
social. O acúmulo desse tipo de competência é estimulado ao longo das gerações.
O difundido conhecimento musical da “família Duailibe” se configura como
uma forma de consagração cultural. Percebe-se que há a acumulação, reprodução e
transmissão do capital cultural entre os membros da família. Segundo o relato de Maria
José Duailibe Cassas, seu avó, Salim Duailibe estimulava a musicalidade na família.
Entretanto, durante a entrevista, quando mencionou os conhecimentos musicais da
família, o seu “tio Jorge” foi a primeira referência de alguém que teria conhecimentos
musicais mais aprofundados. Tanto que ela, também, destaca que foi ele quem financiou
93
os estudos dela na Escola Nacional de Música da Universidade do Brasil, no Rio de
Janeiro, como foi dito anteriormente.
A trajetória de Antônio Duailibe permitiu perceber que tais estratégias, também,
podem ser acionadas para conseguir alcançar posições administrativas e não apenas
políticas. Além disso, a análise da trajetória de Antônio e o núcleo familiar formado por
ele, possibilitou compreender como os investimentos pessoais pesam para a imagem da
família como um todo. As escolhas de um agente permitem agregar valores a uma
família. Além disso, foi possível perceber o esforço realizado pelos agentes para
fortalecer o ideal de ascensão econômica pautado do trabalho árduo de gerações
anteriores, que em seus discursos acabam ganhando contornos de qualidades inatas da
família Dualibe, tais como o “talento” comercial e musical.
94
95
3 - “FAMÍLIA HAICKEL”: EMPRESÁRIOS-POLÍTICOS E SUCESSÃO
FAMILIAR
Neste capítulo por intermédio da análise das estratégias de afirmação e
reprodução da “família Haickel” serão explorados alguns aspectos relativos aos
mecanismos de transmissão familiar de um patrimônio econômico, político, social e
simbólico, além da diversificação das bases da notoriedade do grupo via inserção no
âmbito intlectual.
A “família Haickel” é proveniente de Furzol, cidade vizinha de Zahle, capital da
Província de Beqaa, no Líbano. Segundo Arcélia Abdalla Haickel40, Tanus Haickel (que
no Brasil ficou conhecido como Antônio) se casou com Maria Mohana, e juntos tiveram
quatro filhos: Ibrahim (ou Abraão), Aziz, Miguel e Maria. Maria Mohana morreu no
parto de sua última filha, que, por sua vez, recebeu o mesmo nome da mãe.
Posteriormente, Tanus Haickel se casou com Ketib Farah (no Brasil, era conhecida
como Rosa ou Site), classificada por Arcélia Abdalla Haickel como proveniente de uma
família aristocrática. Com ela, ele teve uma filha. De acordo com Arcélia Abdalla
Haickel: “No ano de 1909, a família veio para o Brasil com os filhos, exceto Ibraim.
Um dos motivos da fuga foi por causa da perseguição pelo Império Otomano (turcos).
Eles temiam se tornarem prisioneiros ou escravos. Viajaram na terceira classe de navio
comercial que fez escala em Belém do Pará. Chegando ao Maranhão, o casal e os filhos
decidiram ficar em Viana. Segundo ela, com parcas economias trazidas de sua terra
natal, abriram uma loja de tecidos e casa de comercialização de gêneros (babaçu, arroz,
milho, etc...)”41.
Segundo Arcélia Abdalla Haickel, no Líbano, a situação financeira da família,
também, já não era das melhores. Esse foi outro fator que motivou a vinda da família de
Tanus para o Brasil. Eles se instalaram em Viana, no Maranhão. Já adultos, os filhos de
Tanus se casaram, coforme relata Arcélia Abdalla Haickel:
Aziz casou com Antônia, jovem que conheceu em Grajaú, e juntos tiveram oito filhos: Josefina,
Antonio Neto (Sinhô), Lizete, Maria (Laury), Celeste, José Aniesse (Zuca), Aziz Filho e Antonia
(Antoninha). Antônia morreu de parto de sua última filha que recebeu o mesmo nome. O viúvo
casou com Clores Fonseca com quem teve mais dois filhos: Miguel e João. Ele morreu dois
40
Prima de Joaquim Haickel, em entrevista realizada em outubro de 2011.
96
anos após o casamento com Glória. Miguel ficou doente, com sintomas de hanseníase, morreu
ainda solteiro, no Líbano. Maria, sogra de Clarissa Haickel, casou com Elias, sobrinho de Tanus,
que veio para o Brasil no lugar de Ibraim. Na época, Ibraim estava namorando com a Sahid
Tomé e, por isso, usou o dinheiro enviado pelo pai para que ele viajasse para o Brasil, para dar
como dote em seu casamento com Said, e a outra metade ele deu para o primo vir para o Brasil.
Da união de Maria com Elias nasceram seis filhos: Muriel, Violeta, José Antonio, Nagib (marido
de Clarisse Haickel e pai de Joaquim e Nagib Haickel), Norma e Rose. Ibrahim, único filho que
não migrou, casou-se com Sahid Tomé com quem teve seis filhos: Milhem (pai de 9 filhos),
Tanus (sem filhos) , Nagib (pai de 1 filho), George (pai de 5 filhos), Losete (mãe de 3 filhos) e
Matilde (mãe de 3 filhos). Por fim, Alzira, filha casula de Tanus e Ketib, migrou com os pais
para Viana. Mais tarde, transferiu-se para São Luís e formou-se em professora. Retornou para
Engenho Central (mais tarde Pindaré), como professora. Casou-se com Luiz Fonseca e teve uma
filha: Myrtes.
Alzira e Maria moravam juntas no município de Pindaré Mirim. Tanus perdeu
um filho e soube da morte do outro no mesmo dia. Com a perda dos filhos, transferiu-se
para Pindaré para ficar junto das filhas e ajudar a criar os netos. Algum tempo depois,
ficou doente e faleceu de pneumonia.
Por causa do seu trabalho desenvolvido na escola do interior, Alzira foi
transferida para a capital e veio com a família para lecionar na Escola Modelo. Com ela,
vieram os filhos mais velhos de Maria para estudar na capital. Todos moravam na
mesma casa, na Rua de São João.
No ano de 1945, Maria e Elias compraram uma casa. Dentre os filhos de Maria e
Elias estava Nagib Haickel, que mais tarde seria pai de Joaquim Haickel e Nagib
Haickel Filho.
Abaixo estão listados os filhos de Maria e Elias, as profissões seguidas por eles e
as profissões de seus cônjuges. Por meio deste quadro, é possível perceber que os filhos,
basicamente, se dedicaram ao comércio e à política e que as filhas que casaram, a
maioria constituindo matrimônio com comerciantes. Percebe-se então uma necessidade
familiar de reproduzir, ou seja, fortalecer e dar continuidade ao patrimônio familiar
conquistado por meio do comércio, assim como ocorreu com a “família Duailibe”.
97
QUADRO 5- Profissões dos filhos de Maria e Elias Haickel e de seus respectivos
cônjuges
Nome
Muriel
Violeta
José Antônio
Nagib
Norma
Rose
Profissão
funcionária pública federal
dona de casa
comerciante e político
comerciante e político
dona de casa
funcionária pública estadual
Profissão do cônjuge
Comerciante
Industrial
funcionária pública estadual
funcionária pública
Comerciante
não casou
Fonte: Entrevistas com membros da família
Nagib começou a trabalhar aos 17 anos na Chames Aboud & Cia (ver capítulo
1), empresa de comércio atacadista que funcionava na Rua Cândido Mendes. Segundo
Joaquim Haickel42, seu pai possuia formação fundamental, não tendo concluído o
segundo grau. “Ele veio do interior, muito novo. Carcamano, doido por dinheiro, quis
logo trabalhar (risos). Lá ele fazia de tudo, trabalhava em caminhão, carregava as
coisas, fazia o que fosse preciso. Ele era uma pessoa muito simples”, relatou a esposa de
Nagib Haickel, Clarisse Haickel43,, cujos ancestrais descendiam de portugueses
comerciantes. Esse primeiro emprego de Nagib foi intermediado pela sua mãe, segundo
informou Clarisse Haickel. Naquela época, era comum o apoio familiar ou mesmo interfamiliar entre os libaneses e seus descendentes. Eles ajudavam na inserção desses
indivíduos na economia local. Como já foi destacado anteriormente, Oswaldo Truzzi
observou que a ascensão econômica dos imigrantes sírios e libaneses em São Paulo se
deu, em parte, pela ajuda mútua no interior da colônia (1991).
Na época que Nagib e Clarissa se conheceram, ela trabalhava na Prefeitura e
Nagib na Chames Aboud & Cia. “Eu conheci ele em março, noivamos em setembro e
casamos em fevereiro. Em menos de um ano. Na época, eu tinha 29 anos e ele tinha 27.
Casamos na igreja de São Pantaleão”, afirmou Clarisse. Pouco tempo depois, Nagib
montou o seu próprio negócio, a Meruoca. “Era um comércio que vendia de tudo e foi o
primeiro a funcionar 24 horas, era do tamanho de uma quadra. Era a Meruoca sem
portas, porque nunca fechava”, comentou Clarisse Haickel. Nesse empreendimento
Nagib era sócio de Daniel Aragão. Em matéria publicada no jornal O Estado do
42
43
Em entrevista realizada por Igor Gastal Grill no dia 7 de novembro de 2006
Em entrevista realizada em outubro de 2011
98
Maranhão, no dia 8 de setembro de 1993, o empreendimento foi definido como “uma
espécie de mercado aberto onde a população mais pobre comprava mais barato”. Essa
mesma matéria destaca que o investimento no comércio já teria propiciado à Nagib
Haickel uma vida suficientemente confortável. Segundo a matéria: “Comerciante bem
sucedido, Nagib dizia a amigos que nos últimos tempos fazia negócios para ‘não perder
a forma’, já que havia acumulado o suficiente para viver ‘sem maiores problemas’. Ele
não perdia uma só oportunidade e tocava empreendimentos com o vigor de outros
tempos”.
Assim como a “família Duailibe”, os primeiros integrantes da “família Haickel”
prosperaram com o comércio. Como já foi destacado anteriormente, além de propiciar
um ganho econômico significativo, a atividade comercial conferia aos seus praticantes
uma posição social relevante e não subalterna.
O irmão de Nagib, José Antônio44, ficou em Pindaré Mirim e lá se candidatou e
venceu a eleição para prefeito. Segundo Grill:
José Antônio Haickel, comerciante e proprietário de uma usina de arroz, aproximou-se de José
Sarney, então candidato das ‘oposições coligadas’ ao Governo do Estado45, e elegeu-se Prefeito
de Pindaré Mirim pela primeira vez em 1965. Constituiu uma sólida liderança local que
possibilitou que se elegesse duas outras vezes Prefeito do Município (2008a, p. 81).
Para ajudar o irmão na eleição, Nagib se deslocou para Pindaré. Quando voltou
44
Segundo Joaquim Haickel em entrevista realizada por Igor Gastal Grill, seu tio foi prefeito por quatorze
anos, sendo o primeiro mandato de 1965 a 1969, depois um mandato de seis anos e por fim um novo
mandato de quatro anos. Sempre no município de Pindaré Mirim.
45
O pernambucano Victorino Freire exercia grande influência na política maranhense desde o ano de
1933. Sua atuação política foi tão forte que o período no qual ela foi vigente ficou conhecido como
vitorinismo. Em oposição ao vitorinismo surgiu as Oposições Coligadas, que concorreram com o
movimento nos pleitos de 1950 a 1965. Como destaca Wagner Cabral da Costa: “Conforme definição
elaborada pelo jornalista Neiva Moreira, a coligação não era de esquerda, porém ‘representava’um passo
à frente no quadro político e social do estado, dominado então pelas oligarquias rurais’”. (p. 266) As
Oposições nunca chagaram a derrotar a máquina vitorinista eleitoralmente, mas eles conseguiram eleger
vários parlamentares. A situação de conflito político entre vitorinistas e oposicionistas ganhou destaque
nacional, e até mesmo mundial, quando eclodiu a chamada Greve de 51. Segundo Wagner Cabral da
Costa: “A greve foi um movimento articulado pelas oposições contra a posse do governador Eugênio
Barros (PST), ligado a Victorino Freire, ‘vitorioso’em eleições marcadas por denúncias de fraudes”
(2004, p. 268). Nesse contexto de conflito, surgiu a figura de José Sarney, que inicialmente sutentava um
vínculo com Victorino e passou o início da sua vida política se dividindo entre governo e oposição, até
que em 1960 se integrou de vez às Oposições Coligadas. No dia 31 de janeiro de 1966, José Sarney toma
posse no governo do Maranhão, após amplo apoio militar. Wagner Cabral da Costa destaca que: “...a
articulação com o centro político nacional foi essencial para a sua ascensão, bem como para a posterior
consolidação e perpetuação no poder – processo ocorrido a partir das relações estabelecidas com a
ditadura militar e seu partido, a ARENA” (2004, p. 293). Desde então, José Sarney já ocupou inclusive a
posição de presidente do Brasil. Atualmente, ele é presidente do Senado.
99
de lá, ele resolveu se dedicar à política também. “Não tinha nada para fazer no interior,
então Zé Antônio, que ficou em Pindaré, se envolveu na política. Nagib foi lá para
ajudar, antes, ele nem falava em política. Chegou lá e se encantou”, lembra Clarisse
Haickel. O “encantamento” com o espaço político, também, foi destacado por Joaquim
Haickel, filho de Nagib, em entrevista para o pesquisador Igor Gastal Grill:
O meu pai entrou na política por acaso. Meu tio foi candidato a prefeito e ele resolveu ajudá-lo.
Aí é que está o negócio que as pessoas, às vezes, não acreditam: ele foi picado pela mosca azul.
Ele entrou para ajudar o meu tio, por ser muito comunicativo, extremamente comunicativo. Ele
também viu que podia fazer algumas coisas por meio disso.
Vale ressaltar que quando entrou na política Nagib Haickel já possuía um amplo
capital econômico, com a criação da Meruoca, e já era reconhecido na sociedade
maranhense por seu caráter empreendedor. Depois de entrar no espaço político
maranhense, Nagib Haickel não se distanciou mais desse meio. Em entrevista46,
Joaquim Haickel destaca uma naturalidade, uma vocação, de seu pai para o exercício da
política:
A liderança política dele era inata. Ele nasceu com aquilo. Mercadologicamente as pessoas
gostavam dele pela capacidade de comunicação que ele tinha. Tem passagens homéricas dele, e
sacadas geniais. Por exemplo, hoje, ele seria um político na estante, no armário, na gaveta, lá
arquivado. Isso porque uma das formas dele chamar atenção era jogando bombom para as
crianças... ele andava num carrinho de som, ele mesmo dirigindo, e jogava bala. As crianças
vinham correndo atrás gritando: ‘Lá vai Nagib bombom, Nagib bombom’. Não é que o mandato
dele se resumisse a isso, ele usava isso para chamar atenção para ele, não tinha trio elétrico, não
tinha “showmício” não tinha nada.
Os relatos reproduzidos acima reforçam os achados de Grill (2009) sobre a
constituição de um padrão de especialização política (fortemente ligado à imigração) no
Brasil que combina ascensão econômica e atributos naturalizados. Segundo ele, nesse
padrão junta-se:
Ênfase nas condições adversas dos pioneiros imigrantes e no trajeto excepcional ascendente da
família. Referências de síntese para justificar a ‘vocação política’ = ‘vocação’ para o
‘empreendedorismo’ e para o ‘trabalho comunitário’, atestada por atributos naturalizados como:
‘capacidade de trabalho’, ‘capacidade de comunicação’, ‘audácia’, ‘vivência empresarial’ (2009,
p. 143).
Nas duas narrativas, tanto a de Clarisse Haickel quanto a de Joaquim Haickel, é
46
Realizada no dia 7 de novembro de 2006.
100
possível perceber o destaque dado ao “encantamento” com a política, como se fosse
algo que estivesse além da vontade de Nagib, quase que como uma vocação latente
despertada como que por mágica. Esse tipo de relato ajuda a fortalecer o caráter
desinteressado de Nagib Haickel com relação às possibilidades que a política
proporciona, tal como se ele se doasse muito mais para a política do que tirasse
benefícios dela.
Publicações jornalísticas reforçam isto. Segundo a matéria publicada no jornal O
Estado do Maranhão, no dia 8 de setembro de 1993, por exemplo, destaca que embora
fosse muito bem sucedido no comércio, a grande “paixão” de Nagib era a política, área
na qual ingressou nos anos 1960.
Nagib Haickel cumpriu quatro mandatos de deputado estadual (o último foi
antes de morrer no dia 7 de setembro de 1993) e dois de deputado federal. Ele chegou a
ocupar a posição de presidente da Assembléia Legislativa. Sobre a atuação de Nagib no
Legislativo a mesma matéria publicada no jornal O Estado do Maranhão sublinha que:
O deputado Nagib Haickel entrará para os anais da política maranhense, seguramente, como o
mais polêmico presidente da Assembléia Legislativa. Seus oito meses de mandato foram
marcados por uma intensa movimentação no Legislativo, que se transformou num centro de
discussões e tensões políticas, como também uma casa agitada por surpreendentes ajustes
administrativos. Para começar, Nagib deixava claro que ali deputado “é quem manda”, e não
aceitava, sob qualquer argumento, que quaisquer ações atingissem um deputado. E foi como uma
espécie de líder parlamentar que ele conquistou a afeição de todos os deputados, mesmo
daqueles que tinha como adversários as bases eleitorais.
O espaço econômico e o político não se distanciavam na vida de Nagib, segundo
os relatos. As consequências de uma decisão tomada em um desses espaços, por vezes,
recairiam sobre o outro. É possivel perceber isso, durante a entrevista de Joaquim
Haickel quando ele comenta a atuação do pai enquanto empresário e político,
estabelecendo uma ponte entre esses dois espaços. De acordo com Joaquim Haickel:
Ele teve sucesso na vida empresarial. Às vezes, ele brincava que ele enricava durante quatro
anos e empobrecia durante seis meses. Isso não era porque estava comprando votos. Era porque
na estrutura política da época e ainda hoje se gasta muito, com carros de som, comício, etc. O
sujeito que acha que comício não custa nada é louco, ele tem uma hipocrisia muito grande. Hoje
graças a Deus impediram esse negócio de fazer “showmício”, mas não deviam ter impedido de
fazer camisa, que é a melhor propaganda que pode existir. O cara veste o teu nome, a tua cara, o
teu número. E se ele sai na rua contigo é porque ele vota em ti. Ninguém em sã consciência
vende o seu voto por uma camisa. O cara pode é pegar a roupa porque está precisando vestir. Se
mulher trai o marido, eleito não vai trair o cara que deu uma camisa pra ele? Então é burrice do
TSE (Tribunal Superior Eleitoral) acreditar que a camisa configura corrupção. Corrupção
101
eleitoral é abuso de poder econômico. Essa (distribuição de camisas) é a melhor mídia que pode
existir. Ele (Nagib Haickel) teve sucesso como empresário mais pela audácia dele. Ele chegou a
comprar toda a produção de cimento do João Santos e, em uma época na qual a inflação era de
80% ao mês, ele comprava um saco de cimento a R$ 1,00 e vendia a R$ 0,95, e comprava com
90 dias para pagar e recebia à vista. Ele vendia para o consumidor final mais barato que a
fábrica, então os clientes adoravam fazer negócio com ele.
Em sua primeira candidatura, Nagib ficou como suplente de deputado. Ele foi
deputado estadual três vezes de 1966 a 1970, de 1970 a 1974, de 1974 a 1978. Segundo
Joaquim Haickel: “Quando foi em 1978, ele tinha crescido bastante para tentar outra
coisa, ele foi deputado federal duas vezes, de 1978 a 1982 e de 1982 a 1986. Quando foi
em 1986, nós invertemos, ele veio para estadual e eu fui federal”.
Em 1979, Nagib Haickel assumiu como deputado federal. Junto a sua família,
foi morar em Brasília. “Fomos morar em Brasília, mas ele quis voltar logo, dizia que o
seu lugar era aqui. Ele gostava de ter contato com o povo”, disse a esposa de Nagib
Haickel. E ela completa relacionando a eleição do marido à primeira eleição de seu filho
mais velho, Joaquim Haickel: “Na eleição dele como deputado federal, ele elegeu
Joaquim como deputado estadual. Na época, Joaquim foi o deputado mais novo já
eleito. Ele tinha apenas 22 anos”.
Segundo Joaquim Haickel seus dois primeiros mandatos: “foram outorgados
pela filiação” (entrevista com Joaquim Haickel realizada por Igor Gastal Grill).
Exemplificando:
...a campanha de 82, talvez umas duas namoradas minhas tenham votado em mim, em 82,
(risos), se elas não sabiam uma da outra, mas eu não tive nenhum mérito eleitoral. A de 86 eu já
tive algum mérito eleitoral, eu diria que 10%. (...). Os votos de 86 foram iguais aos de 82, fui
eleito aí já dum tripé onde eu era a ponta mais fraca: Nagib e Marcone pra estadual e Joaquim
pra federal. Papai pegou a região, dividiu entre ele e Marcone pra estadual e como são dois
níveis, estadual e federal pegou um bolo de 40.000, 50.000 votos dividiu uma parte pra Marcone
e uma parte pra ele, 40.000, 50.000 votos juntos pra mim.
Reis e Grill (2008) destacam que nestas eleições pesaram decisivamente os
vínculos de parentesco ou “ser filho de Nagib”, reproduzindo a definição dada pelo
próprio agente. Constatação que vai ao encontro de um fator recorrente nas campanhas
de “herdeiros políticos”, vistos no meio e fora deles como candidatos viáveis. Segundo
Grill:
No plano das disputas eleitorais, os prognósticos campartilhados no interior dos partidos sobre a
potencialidade eleitoral das ‘herdeiros’ parecem se confirmar. A relevância do parentesco para a
102
soma de votos obtidos e para o próprio andamento da campanha é enfatizada na maioria dos
depoimentos. (...). A gestão do patrimônio familiar e a construção da ‘herança’ obedecem
também aos códigos que presidem interações políticas entre diferentes agentes em um constante
processo de articulação entre valores, categorais e fidelidades. Esses fatos parecem intimamente
ligados a outro fator que é realçado nas narrativas, qual seja, o do sucesso nas transferências de
apoiadores e seguidores de uma geração para outra (2008b, p. 78).
Quando questionada sobre o início da vida política do filho, Clarisse brinca:
“Joaquim entrou para a política porque era metido (risos). Quando Nagib estava
conversando com os políticos, Joaquim sentava no meio da roda”. Em entrevista à Igor
Gastal Grill, Joaquim fortalece essa afirmativa: “Em casa de ferreiro, espeto não é de
pau. Eu fui ser ‘ferreiro’ mesmo. Eu tanto vi que aprendi”. Em texto produzido por
Joaquim Haickel e publicado no site www.limacoelho.jor.br, ele volta a confirmar o
aprendizado no seio familiar, principalmente, com relação à política. Ele relata que:
Sempre fui fascinado pelo conhecimento e desde cedo busquei os meios necessários para matar
essa imensa sede, tão inerente a meu jeito de ser, saciando-a no inebriante líquido cintilante do
saber. Primeiramente, usei os mais velhos como fonte de aprendizado. Eu ficava horas ouvindo
as conversas de minha mãe e minhas tias, ou de meu pai, primeiro com seus empregados, depois
com seus amigos e, posteriormente, com seus correligionários políticos.
Observa-se elementos daquilo já ressaltado por Grill (2008b) de que: “A
‘vocação política’ é, então, o produto do encontro entre disposições, investimentos e
coações referentes ao espaço político que interferem na aquisição de uma libido social”
(2008, p. 37). Desde criança o agente aprende o “fazer” político observando e sendo,
aos poucos, inserido na prática social de sua família de homens políticos. A rotina desta
criança é diferenciada, sua socialização é permeada de eventos políticos. Como
observou Letícia Bicalho Canêdo:
A criança desde cedo vê desfilar em casa os mais diversos visitantes, de políticos a solicitadores,
denominados ‘protegidos’da família. Faz parte de sua vida participar dos acontecimentos sociais
locais, nos quais percebe os olhares dos presentes sobre o seu grupo familiar. Cumprimentar
convidados, parentes e amigos, aprender a sorrir, deixar brinquedos e frequentar festas de
casamento na roça, escutar distraidamente conversações de políticos, acompanhar o trabalho
entre eleitores e a ‘elevação da temperatura’na vida familiar às vésperas das eleições, perceber os
pequenos cuidados necessários para dominar os detalhes do jogo básico do homem político, tudo
isso faz parte da conduta regular de uma criança e representa a forma de capital mais importante
dentre todas as que constituem investimento para o sucesso na carreira política (1991, p. 232).
Na mesma linha, Grill acrescenta que essa proximidade pode adquirir um
103
sentido de retribuição ao “interesse pela política”:
... a menção aos contatos e elos derivados desse compartilhar de espaços, é tanto mais autojustificado e enunciado quanto as práticas de inserção na arena podem ser listadas. Uma espécie
de retribuição ao acompanhamento da ‘família’ e à ‘militância’ nos empreendimentos políticos
parece estar presente. A primeira é justamente a proximidade com os círculos dirigentes dos
partidos e raridade que esses laços representam. A segunda é a integração ou o acesso às cúpulas
partidárias que serão decisivos nas suas carreiras políticas. (...). A variedade de nuances dada a
esses contatos possibilita estebelecer três associações presentes. Em primeiro lugar, a afirmação
de uma ‘intimidade’ que sustenta os esforços de comprovação da densidade dos elos políticos e
pessoais e a inscrição da ‘família’ na história. Em segundo lugar, a constituição desses vínculos
de proximidade como mais um recurso de diferenciação, uma vez que simbolizam a centralidade
da ‘grupo familiar’ nas suas ‘comunidades’ e externalizam relações monopolizadas por ‘famílias’
específicas. E, em terceiro lugar, a importância das referências à presença ‘em família’ ou ‘em
casa’ ou em outros espaços identificados com o ‘grupo familiar’ como forma de explicitar a
notoriedade em pauta e como sinais do prestígio político acumulado (Grill, 2008b, p. 73-74).
Além dos cargos eletivos, Nagib Haickel exerceu vários cargos administrativos
entre os anos de 1966 e 1991. No governo Cafeteira (1987-1990), ocupou uma subchefia do Gabinete Civil, cargo que ele largou após ser nomeado primeiro administrador
do recém criado município de Zé Doca. De acordo com a matéria de O Estado do
Maranhão: “A criação do município, efetivada a partir de um projeto de autoria do
então deputado José Gerardo47, foi consumada, também, por seu esforço. Tanto que até
antes de morrer mantinha fortes laços políticos com o município”.
Nagib Haickel faleceu no dia 7 de setembro de 1993, vítima de um infarto no
miocárdio. Ele estava na residência do deputado Ricardo Murad, no município de
Coroatá, para prestigiar o encerramento das comemorações da Semana da Pátria. Na
ocasião, ele estava acompanhado dos deputados Carlos Braide48, Marcony Farias e
Walber Duailibe. Em seu blog no portal Imirante.com, Joaquim Haickel relata a
cobrança sofrida após a morte de seu pai para que ele fosse um político com a mesma
notoriedade social. Em texto publicado no dia 11 de outubro de 2008, Joaquim Haickel
afirma que:
47
Nascido no município de Acaraú, no Ceará, José Gerardo chegou ao Maranhão em meados da década
de 1970 e, poucos anos depois, tornou-se detentor de 70% da frota de ônibus urbanos de São Luís.
Quando ocupava o cargo de deputado estadual pelo Partido Progressista Brasileiro (PPB-MA), no final de
setembro de 1999, o motorista Jorge Meres o acusou de ser o chefe do crime organizado no Maranhão.
Gerardo foi preso em um hospital em Brasília no dia 26 de novembro de 1999. Atualmente, ele não está
mais preso e não ocupa cargos políticos.
48
No dia 1º de fevereiro de 1991, o deputado Carlos Braide foi eleito por 30 votos contra sete, para dirigir
a Assembléia. Anos mais tarde seu filho Eduardo Braide também entrou para a política. Eduardo, que é
formado em Direito, candidatou-se a deputado federal do Maranhão em 2006 pelo PMDB e a vereador de
São Luís em 2008 pelo PSB.
104
Alguns amigos perguntam por que eu nunca ocupei o espaço geopolítico que antes era de meu
pai. É que meu pai fazia uma espécie de política muito pessoal. Era como se na verdade fosse um
vereador estadual, e confesso que eu não seria capaz disso. Analisando cada um dos deputados
que ocuparam o seu espaço eleitoral, vejo que todos são ex-prefeitos ou esposa e filho de exprefeito ou então grandes lideranças locais. Mas há uma coisa que me deixa triste. O fato de eu
ser tão querido, admirado e respeitado em lugares como São Domingos, Primeira Cruz, Pio XII,
Satubinha, Altamira, Brejo de Areia, Vitorino Freire, Olho D’Água das Cunhães, São Bernardo,
São João Batista, Sucupira do Riachão, Humberto de Campos ou Buriti Bravo e não poder sentir
na região em que meu pai atuou politicamente, essa mesma sensação. Acredito que se há um
culpado nisso, sou eu. Quando meu pai morreu em 93, eu não quis substituí-lo logo nas eleições
de 1994. É que eu precisava arrumar a casa depois de sua morte. Pagar as contas e dar para
minha família a segurança que parecia ter se esvaído com ele. Em 1998, quando resolvi me
candidatar novamente, notei que meu maior adversário, por mais incrível que pudesse parecer,
seria, exatamente, o homem que me deu tudo na vida, inclusive na política: meu pai. Todos me
comparavam a ele. Todos queriam que eu fosse como ele. Que jogasse bombons para as crianças,
que irradiasse jogos de futebol nos palanques, que pulasse e levantasse as calças, que
providenciasse água, luz, estradas, postos de saúde, sempre respaldado na sua imutável posição
governista. Nessas condições eu não seria capaz de competir com a imagem do Nagibão. Hoje,
analisando esse quadro, acho curiosamente incrível que alguém que havia me dado tudo
enquanto vivo, depois de morto, me dificultava a vida, me obrigando a construir o meu próprio
caminho. Até nisso, meu pai foi bom para mim.
Mesmo não se considerando um herdeiro do espaço geopolítico do pai, Joaquim
Haickel reconhece, em outro texto produzido por ele e publicado no site
www.limacoelho.jor.br que herdou muitas amizades de seu pai. Joaquim Haickel relata
que:
Herdei de meu pai uma infinidade de amigos, conhecidos e desconhecidos, pois até hoje,
algumas pessoas se aproximam de mim dizendo que eram amigos de meu pai e que sentem sua
falta, que ele foi importante em suas vidas. Essa herança, os amigos que herdei de meu pai, é
preciosa demais, me dá orgulho, me dá respeito, me dá segurança, me fortalece, conforta e
alimenta minha alma. Sem essa parte da minha herança eu seria bem menos nutrido daquilo que
é essencial.
Percebe-se, por meio desse relato, que algumas relações diádicas de Nagib foram
herdadas por Joaquim. Não apenas a base econômica do patrimônio é transmitida de pai
para filhos, mas todo um sistema de relações interpessoais envolvendo favorecimentos,
concedidos ou recebidos pela “família Haickel”. Além disso, ele destaca, ainda, em
entrevista, que aprendeu com o pai algumas relações entre a economia e a política
estabelecidas por Nagib. Segundo Joaquim Haickel:
Ele me deu duas ou três aulas na vida. Ele não era muito professoral, não tinha muita didática,
mas ele dizia umas coisas, tipo: ‘Meu filho, comércio e política são muito parecidos. Em
comércio você não ganha dinheiro na hora de vender e sim na hora de comprar. Se você comprar
barato vai vender barato e ganhar dinheiro, mas se você comprar caro vai ficar com o material
105
estocado. Na política é a mesma coisa, você pode até comprar caro ou barato, mas você tem que
se colocar corretamente. Tem uma mercadoria na política que você não pode deixar de ter, que se
chama coerência. Se você tiver coerência, tudo que vier é conseqüência’. E ele usava a lógica da
vida nas duas coisas, no comércio e na política.
O duplo aprendizado (empresarial e político) sustenta, na sua versão, a nova
condição que assumiu nas eleições de 1998. Isto é, se em 1982 e 1986 Joaquim Haickel
assume o pouco mérito que teve na conquista dos mandatos, como foi mostrado acima,
o sucesso econômico e a experiência política alcançados explicariam a nova fase da
carreira:
Meu pai morreu em 93, e morreu na presidência na assembléia, ele era presidente da assembléia,
ai eu tinha um mandato dele, ele não ia mais concorrer, quando ele deixasse de ser deputado em
94 eu ia ser candidato no lugar dele. Só que eu senti que não era hora de voltar em 94, se eu
voltasse em 94, eu estaria queimando uma etapa. Eu precisava consolidar as minhas empresas, de
tal maneira que eu não dependesse da política pra sobreviver. (...). O meu reduto eleitoral forte
não é mais a região do meu pai, hoje, desde 1998. Ai sim esse mandato é 100% meu, não porque
meu pai morreu, porque eu ainda herdei dele todo esse é filho de Nagib, se ele aprendeu com
Nagib ele é bom. Eu herdei dele toda fama, fama de honesto, fama de trabalhador, fama de
cumpridor, fama de leal, eu aprendi com ele. Mas eleitoralmente o mandato de 98, o mandato de
2002, o mandato de 2006 é meu 100%, do mesmo jeito que o de 82 e o de 86 foi me dado, eu
ganhei o presente, esses três últimos foram meus 100%, esforço pessoal, eleitoral, financeiro,
tudo. Eu sou o meu único doador na minha campanha de 2006, não recebi um centavo de
ninguém.
Trata-se de um caso com elementos próprios ao padrão de afirmação dos
descendentes de imigrantes na política, acionando sucesso empresarial e competência
política. Reproduz, porém, uma modalidade de narrativa bastante freqüente entre
“herdeiros” em geral: reconhecimento da influência dos ascendentes no início da
carreira e afirmação pessoal em etapa posterior. Como mostrou Grill:
Se esse aspecto da relevância do parentesco é salientado para as primeiras campanhas por
praticamente todos os entrevistados, também são sublinhadas as qualidades e competências para
a manutenção dos mesmos na arena eletiva e política. ‘Personalidade política própria’ e
competência’ são apenas dois dos termos utilizados pelos descendentes de políticos para
justificarem que, mesmo que suas entradas na política tenham sido auxiliadas decisivamente pelo
uso do parentesco, suas permanências devem-se aos próprios ‘méritos’, ‘esforços’ e ‘talentos’
(2008b, p. 79).
4.1 JOAQUIM HAICKEL: O PERCURSO DE UM HERDEIRO
Joaquim Elias Nagib Pinto Haickel, atual secretário de Estado do Esporte e
Lazer, nasceu no dia 13 de dezembro de 1959, em São Luís, e se formou em Direito, na
106
Universidade Federal do Maranhão (UFMA), no ano de 1985, mas não seguiu a carreira
jurídica nem a acadêmica. Ao mesmo tempo, desde jovem, aproximou-se da literatura.
Pela dedicação de Joaquim Haickel à atividade literária, é possível encontrar
vários textos seus sobre a história de sua família, em seu blog e outros sites. Nessas
produções vários pontos podem ser destacados como importantes para a trajetória
política e intelectual vivenciada por Joaquim Haickel.
A mãe de Joaquim Haickel, Clarisse Haickel, relatou em entrevista que seu filho
sempre leu muito, e que ela sempre o estimulou a ler. Essa formação cultural familiar,
aliada ao fato dele ter estudado nas melhores escolas de São Luís, contribuiu para a
entrada de Joaquim no curso de Direito da Universidade Federal do Maranhão (UFMA),
um dos mais concorridos do Estado. Segundo Joaquim Haickel:
Eu só cursei três escolas: um jardim de infância chamado Pituchinha; o colégio Batista, que era
um dos melhores colégios da época, um colégio religioso, mas sem a rigidez protestante; e nos
dois últimos anos já não agüentava a mesmice, então resolvi mudar para o colégio Dom Bosco,
que era um colégio que ainda estava se formando no Centro. Nessa época, eu era atleta, tinha 16
anos, jogava basquete e resolvi desfazer o time de basquete do colégio Batista para fazer um time
para ganhar no colégio Dom Bosco. Isso foi uma espécie de desafio.
Nagib e Clarisse Haickel investiram na formação escolar dos filhos. Esse
investimento educacional nos filhos, pode ser interpretado enquanto uma estratégia
educacional, semelhante à observada na “família Duailibe”, como foi descrito
anteriormente. Nela, as famílias investem na formação escolar dos sucessores com o
objetivo propiciar as melhores oportunidades e possibilitar ascensão ou consolidação
social por meio da profissão escolhida. Nessa época, normalmente, isto estava associado
à escolha de cursos renomados e de destaque social, tais como Medicina (como foi o
caso de Antônio e Alfredo Duailibe), Direito (como Joaquim Haickel, por exemplo) ou
engenharia.
No caso de Joaquim Haickel, que seguiu a carreira política como o pai, essa
formação cultural visava, inclusive, atender a uma demanda do espaço político que com
o tempo passou a precisar de conhecimentos específicos. Isso porque o espaço político
no qual Joaquim Haickel adentrou já não é o mesmo que o seu pai vivenciou. Como
destaca Letícia Bicalho Canêdo:
Existe um jogo complexo dentro do campo político, em que pesa o capital político acumulado
107
feito de crédito e confiança. Nesse campo, importa estar atento às transformações sociais e
adaptar-se a situações novas. E isso faz-se dentro das redes de relações sociais e políticas, além
das instituições escolares, mas com o cuidado de se estar presente na região eleitoral (1991, p.
238).
Não foi por acaso a escolha de Joaquim Haickel pelo curso de Direito na
Universidade Federal do Maranhão (UFMA), como poderá ser observado mais à frente.
O primeiro livro publicado por Joaquim Haickel foi Confissões de uma caneta,
em 1980. Um livro de contos que foi premiado no concurso Cidade de São Luís. No ano
seguinte, ele publicou O quinto cavaleiro, um livro de poesias. Em 1982, após ser
premiado em concurso realizado por iniciativa conjunta da Secretaria de Cultura do
Estado, do Serviço de Imprensa e Obras Gráficas do Estado (SIOGE) e da Editora
Civilização Brasileira, lançou outro livro de contos, Garrafa de ilusões.
Neste mesmo ano, Joaquim Haickel se elegeu deputado estadual, na época aos
22 anos. Foi o mais jovem em todo Brasil naquela legislatura. Mas sua trajetória política
começou antes. Com apenas 18 anos (em 1978), ele começou a trabalhar como assessor
na Assembléia Legislativa, cargo exercido até 1979, quando o seu pai, Nagib Haickel,
foi eleito deputado federal e a família se mudou para Brasília. Quando a família
retornou para o Maranhão, Joaquim Haickel atuou no governo João Castelo e deu
continuidade à sua socialização política ao lado de figuras de destaque listadas por ele
em entrevista: Henrique de La Roque, Clodomir Milet, Alexandre Costa, Pedro Neiva
de Santana, Nunes Freire, Ivar Saldanha e José Sarney.
No ano de 1984, Joaquim Haickel se formou no curso de Direito da UFMA.
Nessa época, ele já havia sido eleito para o cargo de deputado estadual.
Em entrevista, Joaquim Haickel declarou que optou pelo curso de Direito não
para atuar na carreira judiciária, mas para entender mais profundamente a função do
legislador. A relação de Joaquim com a política é tamanha que até mesmo a sua
formação acadêmica é apresentada por ele, desde a sua escolha realizada ainda na
adolescência, atrelada ao objetivo político do atual secretário. Para Joaquim Haickel:
O legislador tem que saber como é que funciona a lei por dentro, saber o que é um decreto.
Inclusive estamos com a escola do legislativo agente, que inaugurou ontem na Assembléia.
Temos que ensinar deputado a ser deputado, porque há uma disfunção muito grande nisso. Não é
só ser representante do povo, ser representante do povo foi lá na Revolução Francesa. Agora, o
sujeito tem que ser deputado mesmo tem que saber o que está fazendo. Então eu fui ser
advogado, eu sou só bacharel. Para mim, a OAB não funciona. Eu tenho a Ordem, mas só assinei
duas causas, só para não dizer que eu nunca tinha advogado. Fiz Direito para assessorar a minha
108
vida como parlamentar.
Grill refletiu sobre as múltiplas intersecções entre “famílias de políticos”,
formação em direito e ocupação de cargos eletivos, e sobre a forma como vêm sendo
explicadas as influências recíprocas que tais atributos exercem uns sobre os outros:
A excessiva valorização dos números que corroboram a importância dos advogados na esfera
política em detrimento de um tratamento mais qualitativo e minucioso das variações e da atuação
dos mesmos gerou dois efeitos que dificultam a compreensão do fenômeno. Em primeiro lugar,
tende-se a tomar o laço entre política e advocacia como ‘evidente’ e ‘natural’ sem abordar os
processos históricos, os agentes e as instituições que em cada contexto tornam tal vinculação
preponderante e as diversas modalidades, repertórios e combinações pelas quais se expressam.
Em segundo lugar, a ênfase na eloqüência originária da formação jurídica costuma esconder as
demais condições sociais e políticas do sucesso político destes indivíduos (origens sociais,
parentesco, redes, laços pessoais, etc.) e os demais universos nos quais adquiriram competência
política (movimento estudantil, sindical, associações, movimentos, etc.). [Sugere assim] Por um
lado, evidenciar a relevância do uso na política parlamentar da formação jurídica obtida (...). Por
outro lado, tentar relacionar a maximização de um conjunto de habilidades conquistadas nas
faculdades de direito (...) com origens, filiações, compromissos... (2007b, p 87).
A entrada de Joaquim Haickel no espaço político teve semelhanças e diferenças
com a de seu pai. Ambos iniciaram nesse espaço por intermédio de um familiar, no caso
de Nagib Haickel, seu irmão José Antônio Haickel, e no caso de Joaquim, seu pai,
Nagib Haickel. No segundo exemplo, é possível perceber o quanto a eleição de Joaquim
esteve vinculada ao seu pai.
É preciso considerar esse processso de socialização, ou de aprendizagem.
Segundo Grill: “...é preciso levar em conta as dimensões da socialização, da
apredizagem, da aquisição de papéis e da formação dos ‘herdeiros’ para as funções de
representação (eletivas) e para a realização de uma carreira política” (2008b, p. 22).
Vale ressaltar que, no caso de Nagib Haickel, a entrada na política só aconteceu
após o sucesso econômico, já com Joaquim foi antes de sua inserção em qualquer outra
profissão, já que ele já tinha uma boa base econômica proporcionada pela família. A
carreira política de Joaquim jamais esteve completamente distante do destaque social e
comercial do pai. Grill, ao analisar as heranças políticas no Rio Grande do Sul, destaca
que: “O patrimônio político familiar é o conjunto da reputação coletiva e das bases de
fidelidade acumuladas pelo ‘grupo familiar’” (2008b, p. 37). Como também ressalta
Canêdo:
Um patrimônio familiar é, assim, uma combinação de confiança e crença na competência, mas
109
também na moralidade. Daí a importância de dominar práticas impostas e codificadas pelo
princípio da honra: o chefe político que detém o patrimônio é o depositário de uma honra
coletiva que ele afirma e defende perante um rival. E o sentimento de seu valor, de seus direitos e
deveres sociais é o resultado da inculcação de normas éticas específicas da vida política,
adquiridas no seio da unidade familiar, a qual estabelece responsabilidades em relação aos
resultados de sua ação (1991, p. 238).
Em 1983, Joaquim lançou seu segundo livro de poesias, intitulado Manuscritos.
Nesse mesmo ano, passou a editar a Revista Guarnicê, semanário artístico e cultural que
editou e publicou até 1986. No ano de 1984, lançou a Antologia poética Guarnicê. Em
1985, publicou a Antologia Erótica Guarnicê e o livro de contos Clara cor de rosa
publicou em 1986, ano no qual Joaquim Haickel foi eleito deputado federal constituinte.
Em seu discurso de despedida do Parlamento Estadual, em 15 de dezembro de 2010, ele
afirmou que:
Se no meu primeiro mandato fui logo fazendo mestrado, o seguinte me valeu como doutorado.
Ter sido deputado federal constituinte e participado da discussão, elaboração e votação de nossa
Carta constitucional foi o mesmo que ter freqüentado os bancos da mais prestigiosa universidade
do planeta. Lá não tive apenas colegas, tive professores, pois muitos deles eram autores de livros
nos quais estudei, como Afonso Arinos de Melo Franco e Florestan Fernandes.
Depois de eleito, Joaquim Haickel pôde aprofundar seus conhecimentos do
mundo político. Tanto que ele compara esse período a cursos de mestrado e doutorado,
em termo de acúmulo de conhecimento político. Desde cedo, o aprendizado de Joaquim
Haickel do espaço político aconteceu na prática, antes, no espaço domiciliar; depois,
ocupando cargos públicos e, posteriormente, sendo eleito para cargos políticos. Joaquim
Haickel confirma que a sua criação em um ambiente envolvido pela política contribuiu
para que ele escolhesse essa profissão.
Segundo Grill:
Observando as modalidades de sucessões processadas a partir de ‘famílias de políticos’, redes e
de legitimação carismática contribuem para a construção de ‘heróis’ e para a invenção de
‘herdeiros’. Uma vez que ‘a posição de destaque nas lutas políticas (...) conduz à consagração
como herói, ao qual os demais estão em débito (...)’ sedimentando o dever de lealdade por parte
dos seguidores. Adiciona-se que, ao consagrar-se alguma ‘figura’ do passado como herói, criamse as possibilidades de ‘transmissão do carisma’ através da ‘proximidade’. (2008b, p.34).
Pode-se entender, então, que a proximidade de Joaquim com Nagib possibilitou
ao primeiro se tornar herdeiro político do segundo. Isso acaba dando continuidade à
imagem política familiar e pode ser entendido, também, como uma estratégia de
110
sucessão.
Entre os anos de 1987 e 1988, Joaquim Haickel resolveu investir na área de
radiodifusão, tornando-se sócio de Fernando Sarney49 no Sistema Mirante de
Comunicação. Seu irmão mais novo, Nagib Haickel, também é empresário e, segundo
Clarisse Haickel, ele atua administrando o patrimônio de Joaquim. Vale ressaltar que em
uma família de políticos em ação, a profissão de todos, acaba sendo usada em prol da
afirmação política dos agentes.
Estando o irmão disposto a usar seus conhecimentos administrativos para
gerenciar as empresas de Joaquim Haickel, este obtém tempo livre para atuar enquanto
homem político, fazendo visitas, participando de reuniões, confraternizando com
coligados. Provavelmente, tais ações seriam impossibilitadas caso ele tivesse que se
voltar para administração de suas empresas. De acordo com Canêdo:
É preciso considerar que esses ‘herdeiros’, além de suas posições no campo administrativo do
estado, possuem primos, irmãos, tios e colegas com habilidades profissionais diversificadas (em
planejamento urbano, advocacia, informática etc), que se aperfeiçoaram politicamente em
contato com os seus. Numa ‘família de políticos’, a profissão está a serviço da política, que é a
sua atividade principal (1991, p. 237).
Em 1989, Joaquim Haickel publicou o livro de poemas Saltério de três cordas
em co-autoria com Rossini Correia e Pedro Braga. No ano de 1990, Joaquim Haickel
publicou o livro de contos A ponte, com o selo da Editora Global. Segundo consta no
site da Academia Maranhense de Letras (AML), a publicação recebeu elogios de José
Louzeiro, Artur da Távola e Nelson Werneck Sodré e de outros escritores.
No ano de 1991, no governo Edson Lobão, ocupou o cargo de secretário adjunto
de Assuntos Políticos e de secretário adjunto de Educação. Afastou-se dos cargos
públicos de 1994 até 1998 para se dedicar a suas empresas de radiodifusão: Rádio
Mirante FM e TV Maranhão Central, presentes em mais de cinquenta cidades do
Estado. Nesse mesmo período, iniciou a implantação da Fundação Nagib Haickel,
entidade sem fins lucrativos, cujo objetivo é implantar uma rede de rádios e televisões
educativas via satélite, voltada para o ensino formal e para a difusão da cultura
maranhense. Joaquim Haickel, também, esteve à frente da criação do Museu da
Memória Audiovisual do Maranhão (MAVAM). Ele foi fundador do Instituto de
49
Filho de José Sarney, presidente do Senado, e irmão de Roseana Sarney, governadora do Estado, e do
deputado federal José Sarney Filho.
111
Cidadania
Empresarial
do
Maranhão
(ICE),
que
desenvolve
projetos
de
responsabilidade social. Assim como a “família Duailibe”, percebe-se o esforço de
trabalhar as questões sociais e, no caso da “família Haickel” especificamente, assuntos
também relativos à cultura. Como explicado anteriormente, esse tipo de ação ajuda a
fortalecer uma imagem familiar de preocupação social e elevação cultural muito
significativa. Trata-se de uma estratégia simbólica, que será importante para a vida
política dos agentes.
No ano de 1998, Joaquim Haickel voltou à vida política e se elegeu deputado
estadual. Reelegeu-se nas eleições de 2002 e 2006. Abaixo estão os dados dele na
última eleição concorrida:
QUADRO 6 – Dados eleitorais de Joaquim Haickel
Dados eleitorais de Joaquim Nagib Haickel (2006)
Cargo disputado: Deputado Estadual
UF onde concorre: MA
Nome na urna: Joaquim Nagib Haickel
Número eleitoral: 15369
Nome do partido: Partido Do Movimento Democrático Brasileiro50
Sigla/ número do partido: PMDB /15
Coligação: Maranhão - A Força Do Povo 3 (PFL / PMDB / PV / PTB / PP )
Fonte: Publicação Políticos do Brasil, disponível em: http://noticias.uol.com.br
Em 2010, aos cinqüenta anos, Joaquim Haickel resolveu não mais se candidatar
a deputado. Em seu discurso de despedida do Parlamento Estadual ele declarou que:
Despeço-me desse mandato que muito possivelmente poderá ser o último que exercerei nessa
Augusta corte legislativa. A menos que mude a forma de se fazer as eleições em nosso estado, a
menos que se mude a legislação eleitoral de nosso país, não pretendo mais me candidatar a
mandato eletivo direto, salvo no caso de tentar representar o meu partido, o PMDB, o nosso
estado e o nosso país, no Parlamento do Mercosul51.
Ainda durante o discurso de despedida, ele garantiu que nunca largaria a
50
Joaquim passou por seis partidos: Partido Democrático Social (PDS), Partido do Movimento
Democrático Brasileiro (PMDB), Partido Democrata Cristão (PDC), Partido Republicano Progressista
(PRP) Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e Partido Socialista Brasileiro (PSB).
51
Disponível no site: http://al.ma.gov.br/noticias/noticiasarquivo.php?id=18316, extraído em julho de
2011.
112
política:
O político verdadeiro, aquele que faz política por convicção, por idealismo, nunca deixa a
política. E como acredito que eu seja um dessa espécie, que parece estar em extinção, garanto
que não vou sair da política, apenas não exercerei mandato eletivo. Agradeço a todos a confiança
em mim depositada. Sempre procurei fazer o melhor em defesa dos interesses do povo
maranhense.
Em 2003, participou da edição comemorativa dos vinte anos da Revista
Guarnicê, promovida pela Clara Editora e as Edições Guarnicê, intitulada Almanaque
Guarnicê. A publicação, que foi dirigida por Felix Alberto Lima, narra a trajetória do
semanário e de seus idealizadores, dentre os quais Joaquim Haickel. Nesse mesmo ano,
Joaquim Haickel participou da antologia As melhores crônicas do Claraonline.
Em 2006, passou a ser membro da Academia Imperatrizense de Letras,
ocupando a Cadeira nº 9, patroneada por Thucydides Barbosa e fundada pelo professor,
escritor e humanista Vito Milesi, seu único ocupante até então. No dia 10 de outubro de
2009, tomou posse na Academia Maranhense de Letras, ocupando a Cadeira nº 37.
Percebe-se que o trajeto político de Joaquim foi acompanhado das criações de suas
produções intelectuais. Entretanto, sua consagração intelectual, ou seja, quando é
convidado a fazer parte da Academia Maranhense de Letras (AML), só aconteceu após a
sua consagração política.
Há pouco tempo publicou o livro Dito & Feito, que reúne algumas de suas
crônicas publicadas aos domingos no jornal O Estado do Maranhão e está trabalhando
nos livros 365 filmes para não precisar de psicanálise, em que lista e analisa vários
filmes; A palavra quando acesa, coletânea de discursos; Múltiplo de quatro, que terá
uma embalagem no formato de box, contendo quatro livros com o melhor de sua
produção de contos, crônicas e poemas, roteiros de cinema, histórias em quadrinhos,
críticas e frases. Ele, ainda, tem projetos para roteirizar, produzir e dirigir mais quatro
curtas-metragens baseados em contos de sua autoria e um longa-metragem.
Além da sua produção literária, Joaquim Haickel desenvolveu atividades ligadas
ao cinema. Ele produziu o filme The best friend, O amigão, que conquistou o prêmio de
melhor filme, dado pelo júri popular e o de melhor filme de cineasta maranhense, pelo
júri oficial, no Festival Guarnicê de Cinema e Vídeo, realizado pela Universidade
Federal do Maranhão (UFMA), no ano de 1984.
113
Os curtas-metragens Padre Nosso e Pelo ouvido foram roteirizados, produzidos
e dirigidos por Joaquim Haickel no ano de 2008. Padre Nosso foi escolhido como um
dos melhores filmes brasileiros para mídia móvel. Pelo ouvido foi selecionado para
participar de festivais de cinema no Brasil e no exterior, entre os quais se contam os de
Los Angeles, Philadelphia e Boston, nos Estados Unidos; Valência, Catalunha e Huelva,
na Espanha; Toronto, no Canadá; Bruxelas, na Bélgica; Paris, na França; Cartagena, na
Colômbia; Hamburgo, na Alemanha; Havana, em Cuba; Cusco, no Peru; Luton, na
Inglaterra; e Beijing, na China. A obra ganhou dezesseis prêmios, como, por exemplo,
na Colômbia (Cartagena), nos Estados Unidos (na Philadelphia e em Boston) e na
Espanha (em Valência e na Catalunha). No Brasil, em 2008, Pelo ouvido ganhou
prêmios de melhor filme no 7º Festival Curta Natal e no 16º Festvídeo Teresina. No II
Festival Curta Cabo Frio, recebeu prêmio especial do júri, e o de melhor atriz para
Amanda Acosta. No mesmo ano, no 31º Festival Guarnicê de Cinema, no Maranhão,
ganhou o prêmio de melhor filme do júri popular e Amanda Acosta recebeu novamente
o prêmio de melhor atriz.
No artigo “O que escrever quer dizer na política? Carreiras políticas e gêneros de
produção escrita”, Grill e Reis (2011) tentam compreender de que forma a produção
intelectual dos agentes interfere no trabalho político e como as produções intelectuais
ajudam a agregar um valor de “distinção política” e colaboram para o fortalecimento de
“identidades estratégicas”. Segundo os autores:
De par com a aceitação da existência de amálgamas e intercruzamentos de lógicas e domínios,
derivando em um espaço social marcado pela plasticidade e fluidez das fronteiras que poderiam
delimitar as suas esferas específicas, propõe-se aqui que a dedicação em oferecer escritos
(análises técnicas, narrativas históricas, posicionamentos ideológicos, etc.) pode significar: a)
uma forma de submissão à lógica do jogo social em geral e ao político especialmente, haja vista
que escrever ocupa uma posição de excelência frente a outras formas de produção de bens
simbólicos (como teatro, música, dança, discurso...); b) um trunfo contundente na concorrência
de homens e mulheres com carreiras eletivas entre si e com outros agentes pela imposição de
sentidos sobre o mundo social; c) uma oportunidade de ativação de estratégias de subversão do
jogo ou simplesmente de "saída" da rotina mais pragmática das atividades políticas; d) e,
finalmente, a chance de demarcação de uma singularidade que justifica e maximiza o potencial
distintivo de representação (política) pleiteado (2011, p. 3).
É possível perceber na trajetória intelectual de Joaquim Haickel, descrita
anteriormente, o quanto são realmente variadas as formas de expressão nas quais ele
atua: contos, poemas, filmes e, atualmente, em textos publicados em seu blog.
Diferentemente do pai, Joaquim Haickel teve uma educação diferenciada, obtida nas
114
melhores instituições do Maranhão. Desde pequeno, ele já fazia parte de uma elite que
tinha acesso a esse nível educacional. Isso se refletiu na dedicação de Joaquim Haickel
às letras e, mais tarde, ao cinema. Os pais propiciaram e sempre estimularam Joaquim a
ter uma formação educacional nas melhores instituições de São Luís. Para os
descendentes de imigrantes libaneses que já haviam conquistado um destaque
econômico, só faltava alcançar o destaque intelectual para se igualar às famílias
tradicionais, que frequentavam os melhores colégios de São Luís. Isso foi alcançado nas
gerações posteriores ao enriquecimento econômico, após o investimento educacional
em instituições tradicionais, tais quais as famílias já estabelecidas da elite local.
Com relação ao espaço político, Joaquim Haickel o adentrou muito mais cedo
que seu pai. Seu contato com o mundo político começou, ainda, na infância, no seio
familiar, no ambiente doméstico. Como pode ser comprovado pela afirmação de
Clarisse Haickel de que, durante a infância, ele estava sempre presente nas reuniões do
pai com seus correligionários. Grande parte do saber-fazer político ele aprendeu antes
mesmo de oficialmente se candidatar a algum cargo público. Antes de se candidatar a
cargos políticos, desde os 18 anos Joaquim Haickel trabalhava na Assembléia
Legislativa do Estado como assessor. Joaquim foi herdeiro direto da trajetória política
do pai. Sobre a transmissão de poder político, Canêdo destaca que existem três modos
de fazê-lo:
Daí identificarmos três modos de transmissão do poder político: grandes ancestrais podem ser
homens bem vivos, capazes de assegurar uma continuidade, garantindo àqueles que se servem de
sua imagem uma maior credibilidade dentro do grupo político que o apóia, desde que assegurada
pela sigla partidária. Nesse caso, a filiação de sangue corresponderia, pois, a uma exigência de
estabilidade e de continuidade na ordem política; a presença das alianças familiares no
funcionamento da competição política, que são de grande importância para o esclarecimento, não
só dos diversos tipos de transmissão, como também de casos de fracassos sucessórios, como o de
Paulo Pinheiro, entre outros; e a incidência das redes políticas, uma questão que merece ser
melhor examinada porque, na menção de Hagopian de que as novas elites devem suas
responsabilidades e seus lugares às antigas, por exemplo, observamos que a transmissão incide
menos sobre laços fundados sobre sangue e alianças e mais diretamente nas redes políticas.
Melhor dizendo, considerando que a elegibilidade é uma qualidade relacional, o pertencer a uma
rede traz um potencial considerável de sucesso para um candidato às funções públicas (1997, p.
80).
As condições de elegibilidade estão, então, ligadas a uma série de fatores que
evidenciam as possibilidades de constituição de heranças, como destaca Grill:
115
A chance de ocupar cargos está, pois, condicionada à posse de recursos (“nome de família”,
posições ocupadas nas tramas políticas e pessoais) e de disposições para saber utilizá-los e fazer
frutificá-los na competição política. Em outros termos, a elegibilidade depende das condições e
possibilidades de assumir a posição de “herdeiro” e de inscrever-se nesse tecido relacional de
posicionalidades (personalizadas por alguns “ícones”) sempre evocadas (2008b, p. 32).
Joaquim Haickel volta a falar sobre os aspectos que herdou de seu pai no
seguinte trecho publicado em seu blog:
Meu pai já morreu faz 17 anos e todas as vezes que estou em algum lugar, irremediavelmente
surge o seu nome e conseqüentemente sou comparado a ele. Seja Zé Sarney a me dizer que a
cada dia eu me pareço mais com ele, “só que ele dava no teu ombro”. Seja algum funcionário da
Assembléia comentando que como ele eu passo toda a sessão andando de um lado para outro no
plenário, dando conta de uma votação, aparteando um discurso, conversando com um ou com
outro deputado. Seja mãe Tetê dizendo que olhar para mim é ver papai, do jeito de beber água
bem gelada ao sorriso de olho fechado. Meu pai adorava umas frases de efeito. Uma delas me
persegue até hoje: “O difícil se faz logo, o impossível demora um pouco mais”. Faço o fácil com
prazer, o difícil com dedicação e o impossível com paciência. Essa é minha maior herança: com
tudo que um pai me deu em vida e me legou na morte, eu pude agregar a minha própria
contribuição. Observar e entender o simples, o natural, o fácil.
No ano de 2010, Joaquim Haickel resolveu não mais se candidatar a vida
política, mas em seu discurso de despedida afirmou que jamais largaria o espaço
político por completo: “...garanto que não vou sair da política, apenas não exercerei
mandato eletivo”. Essa afirmação foi confirmada mais tarde, quando ele foi convidado a
ser secretário da Secretaria de Estado do Esporte e Lazer (Sedel), cargo que ocupa
atualmente.
Deve-se ressaltar que Joaquim Haickel pôde contar ao longo de sua trajetória
política e intelectual, com o apoio dos veículos de comunicação de maior audiência no
Estado, pertencentes do Sistema Mirante de Comunicação. Atualmente, Joaquim é sócio
de Fernando Sarney na administração da empresa. De acordo com Reis e Grill em
análise sobre o Almanque Guarnicê: “É importante frisar ainda o reconhecimento ao
amigo e hoje sócio Fernando Sarney e ao Sistema Mirante, de propriedade da ‘família
de políticos’ aos quais os Haickel estão ligados por vínculos de alianças desde o início
da década de sessenta” (2008, p. 156). No quadro a seguir, é possível perceber o
investimento dele em veículos de comunicação.
116
QUADRO 7 - Declaração de bens de Joaquim apresentada à Justiça Eleitoral
(2006)
Descrição do bem
Valor do bem
Prédio em Santa Inês
R$ 22.378,39
01 Prédio em Santa Inês
R$ 29.789,00
49% das quotas da TV Maranhão Central
R$ 122.500,00
Casa no Olho D’água
R$ 340.000,00
Apartamento no Olho D’água
R$ 306.653,59
01 Prédio em Santa Inês
R$ 32.589,80
49% das quotas da rádio FM Maranhão Central
R$ 9.800,00
Ourocap Banco do Brasil
R$ 867,34
Metade do valor do prédio comercial em São Luís
R$ 63.000,00
Prédio comercial em São Luís
R$ 122.300,00
Pajero Sport Ano 2002
R$ 86.663,81
Plano de previdência privada Bradesco
R$ 83.884,42
Fundo de investimento no HSBC
R$ 95.000,44
Fundo de investimento no Banco do Brasil
R$ 112.041,40
Conta poupança no Banco Itaú
R$ 78,36
Poupança dependente na Caixa
R$ 2.288,34
Aplicação BB ações Vale
R$ 88.545,96
Aplicação BB Ações Petrobrás
R$ 81.722,01
Aplicação BB Renda Fixa
R$ 512.053,13
Aplicação BB CDB,DI
R$ 645.000,00
Plano de Previdência da Caixa
R$ 78.691,85
Fundo de Investimento- Fic Da Caixa
R$ 742.529,94
Plano de Previdência da Caixa
R$ 49.951,40
500 Quotas do capital social da empresa Fácil
R$ 500,00
Comunicações Ltda
Saldo em Conta Corrente no Banco Do Brasil
R$ 3.528,49
Ourocap no Banco do Brasil
R$ 7.268,74
Dinheiro em Caixa/Cofre
R$ 300.000,00
Plano de previdência privada da empresa TV Maranhão
R$ 92.920,28
Central
Valor total dos bens declarados:
R$ 4.032.546,69
Fonte: Publicação Políticos do Brasil, disponível em: http://noticias.uol.com.br
Não é à toa que as produções de Joaquim Haickel no espaço cultural maranhense
sempre recebem apoio e amplo espaço nessas mídias, por meio de coberturas
117
jornalísticas dos eventos e divulgações das produções. E essa relação com a mídia é
constante e se atualiza em meio às inovações. Joaquim Haickel, por exemplo, foi um
dos primeiros a possuir um blog hospedado dentro do portal Imirante.com. Além de
produzir intelectualmente, Joaquim está diretamente relacionado ao veículo que divulga
suas produções e auxilia no fortalecimento da sua imagem enquanto intelectual
maranhense.
Outro aspecto percebido ao longo das entrevistas é que representantes da
“família Haickel”, assim como os da “família Duailibe”, também têm a preocupação de
registrar a história da família. Clarisse Haickel, por exemplo, está escrevendo um livro
sobre a trajetória do marido e seu filho, Joaquim Haickel, registrou em um post em seu
blog que teria solicitado a um escritor a tarefa de escrever a história da família. Outro
aspecto semelhante é o fortalecimento da família frente à sociedade por meio da criação
ou nomeação de instituições filantrópicas ou culturais, como é o caso da Fundação
Nagib Haickel. Esse tipo de ação acaba por aumentar o capital simbólico e de
reconhecimento familiar.
Atualmente, como foi destacado anteriormente, Joaquim Haickel é responsável
pela Secretaria de Estado do Esporte e Lazer (Sedel). Vale ressaltar, ainda, que ele foi
presidente da Federação Maranhense de Tênis, vice-presidente da Confederação
Brasileira de Tênis e da Associação Desportiva Mirante, além de já ter conquistado
diversos títulos em modalidades como tênis, voleibol e basquetebol.
O caso de Joaquim Haickel permite enfatizar uma estratégia mobilizada por
vários agentes citados neste trabalho: a vinculação com o esporte. Joaquim Haickel assim como Emílio Biló Murad, César Aboud e outros – demonstram como o
investimento em atividades esportivas, na direção de clubes e também em cargos
públicos pode funcionar como instrumento de acúmulo de capital simbólico. Recurso
sobrevalorizado por aparentar desinteresse e doação. O envolvimento com a esfera
esportiva se assemelha assim às atividades filantrópicas. Pode-se, inclusive, pensar na
divisão entre gêneros, segundo a qual as mulheres dedicam-se à filantropia e os homens
aos esportes. Ambos contribuindo para a reputação dessas famílias que ascenderam e se
afirmaram no espaço político.
Joaquim é detentor da Medalha Manoel Bequimão, da Assembléia Legislativa do
Maranhão; da Medalha do Mérito Timbira, do Governo do Maranhão; e da Medalha
118
Barão de Mauá, do Ministério dos Transportes. Ele é cidadão honorário dos municípios
de Pindaré-Mirim, Santa Inês, Itapecuru-Mirim, São Domingos do Maranhão, Pio XII,
Satubinha, São Benedito do Rio Preto, Vitorino Freire, dentre outros. É, também,
desportista.
QUADRO 8 – Trajetória de Joaquim Haickel
119
Fonte: Entrevistas com membros da família
120
121
122
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A construção e análise dos itinerários dos representantes das “famílias” Dualibe
e Haickel aqui relatados, representam casos exemplares de práticas que podem ser
observadas em outras “famílias” de descendência libanesa no Maranhão. É possível,
portanto, perceber similaridades nas trajetórias de Alfredo Duailibe, Nagib Haickel e
Joaquim Haickel. E além, observando o primeiro capítulo deste trabalho, é possível
notar que há similaridades com relação à ascensão de representantes desta etnia, com
outros grupos de imigrantes que se estabeleram em vários estados brasileiros. Sendo
assim, objetivando destacar essas similaridades e diferenciações que inicia-se essas
considerações finais.
Tanto na “família” Duailibe, quanto na Haickel, é possível perceber que o
investimento econômico voltou-se para a área comercial. Após conseguir atingir uma
patamar economicamente relevante, esses agentes foram cooptados para a política.
Alfredo Duailibe pelas amizades estabelecidas durante o investimento escolar realizado
pela família, Nagib Haickel por meio da relação com o irmão que já adentrara o espaço
político no interior do Estado e, por fim, Joaquim Haickel, que entrou na política
influenciado pelo seu pai.
Trata-se de uma via de mão dupla. Ao mesmo tempo que entrar para o espaço
político propicia prestígio e uma posição conceituada em dada sociedade, para os
descendentes de imigrantes, para as famílias políticas locais, ter o apoio deles
significava, sobretudo, recursos financeiros para períodos de campanha e para as
batalhas políticas.
Para chegar a tanto, as famílias de descendentes de libaneses, já estabelecidas
economicamente, passaram a realizar investimentos que possibilitassem essa projeção
social. Matrimônios com jovens locais de famílias política e economicamente
estabelecidas e investimentos educacionais são fundamentais. Na duas famílias
analisadas é possível notar o acionamento das estratégias educacionais e matrimoniais.
Os filhos de Salim Duailibe e Linda Saad seguiram carreiras de destaque, estudaram
fora do Maranhão e as filhas que constituiram matrimônio, casaram-se com militares ou
grandes comerciantes locais, mantendo ou mesmo multiplicando, assim, o capital social
e econômico familiar. Joaquim Haickel, por exemplo, estudou nas melhores escolas de
123
São Luís, o que permitiu a ele ter um vínculo de amizade com futuros políticos e
empresários maranhenses. Além disso, formou-se em Direito com o propósito de que
tais conhecimentos o ajudariam em sua carreira política.
E é justamente por meio desse vínculos formados ao longo de suas trajetórias
que esses agentes adentram o espaço político. São as relações diádicas que possibilitam
os trampolins sociais. São formadas redes de relações que devem ser mantidas para
estarem “aptas a proporcionar lucros materiais ou simbólicos” (BOURDIEU, 1998, p.
68). E, vale destacar, que, por meio da análise do itinerário de membros da “família
Duailibe”, percebe-se que essas relações diádicas nem sempre culminam em cargos
políticos eletivos, por vezes, podem servir para ocupação de cargos administrativos,
que, também, são importantes para a fortalecimento social familiar. Um exemplo disso é
a trajetória de Antônio Duailibe.
Vale ressaltar que as estratégias acionadas por todos os integrantes da “família”
recaem sobre o grupo como um todo. Por isso, não é apenas o trabalho de um membro
que ajuda a contruir a imagem familiar. Por exemplo, Joaquim Haickel se dedica quase
que exclusivamente à política, mas, paralelamente a isso, ele é um grande empresário.
Porém, quem cuida da administração dos bens de Joaquim Haickel é seu irmão, Nagib,
que é administrador e não possui vínculo direto com a política. Da mesma forma, as
filhas de Salim, mesmo não cuidando diretamente do comércio do pai, como os filhos,
ou se dedicando a uma carreira em uma profissão de destaque, são responsáveis por
ampliar a base do patrimônio econômico da “família” por meio de casamentos com
comerciantes bem estabelecidos no estado. Sendo assim, para a construção de uma
imagem de que “os Haickel são homens políticos” ou “os Duailibe são uma família de
prestígio” pesam as estratégias acionadas por vários membros do grupo.
Analisando o itinerário das “famílias” Haickel e Duailibe nota-se, ainda, o
esforço realizado por diferentes agentes para fortalecer a identificação com a etnia,
sobretudo, quando os elementos são assimilados e repassados sob uma ótica positiva.
Para eles, os descendentes de imigrantes são honestos, trabalhadores, comunicativos e,
por isso, ascenderam economica e políticamente. Ser “carcamano” deixa de ter um
cunho negativo para fortalecer o esteriótipo do bom comerciante e político nato.
Isso ocorre porque ao longo de suas trajetórias tais agentes colocam em prática,
consciente ou inconscientemente, estratégias de fortalecimento simbólico, que são as
124
mais diversificadas possíveis: produções de livros nos quais é relatada a história da
“família” ou de um indivíduo que, excepcionalmente, se destacou; escrevem em blogs;
criam sites fortalecendo a imagem familiar; fazem doações filantrópicas e, em
contrapartida, recebem placas homenageando o feito; publicam livros de culinária
libanesa, atuam e lideram ações no domínio esportivo, etc. Eles estão dessa forma,
constantemente, aumentando o capital de notoriedade familiar, colaborando na
disseminação de um esquema de percepção que favorece às “famílias” (BOURDIEU,
2002).
E, conforme foi destacado anteriormente, todos esses aspectos podem ser
observados em várias etnias que migraram para os mais diferentes estados brasileiros.
Armênios, libaneses, judeus, alemães e japoneses, todos antes de estabelecerem
vínculos políticos passaram por um processo de afirmação econômica. Somente após o
crescimento econômico, esses imigrantes puderam adentrar espaços frequentados pela
elite local: escolas de prestígio, faculdades, clubes etc. Outro aspecto que se assemelha
com o estabelecimento de libaneses no Maranhão é o fato de que a maioria dos agentes
de outras etnias que ascenderam economicamente foi por meio do comércio, seja na
fabricação e venda de sapatos (armênios), seja no comércio de miudezas nas colônias
(alemães) ou mesmo na transitoriedade da posição de mascate (libaneses), o comércio
dava a esses imigrantes uma posição de vantajosa em comparação aos que se voltaram
para o colonato, não os colocando na posição de submissos às família estabelecidas.
Outro aspecto que esta pesquisa permitiu observar é a transmissão familiar dos
ofícios, sejam eles comerciais ou políticos. Três filhos de Salim Duailibe, entre eles o
mais velho, aprendeu o ofício de comerciante com o pai. Entre armênios, a transmissão
familiar do ofício, também, pôde ser observada. Com o objetivo não muito diferente,
Joaquim Haickel foi herdeiro político de Nagib Haickel. O ofício foi aprendido no meio
familiar. Joaquim Haickel, ainda criança, participava de reuniões e pôde incorporar o
ofício de político observando o pai.
Nesse processo de aprendizado não ocorre somente a transferência do ofício.
Toda a rede de relações, sejam comerciais ou políticas, já estabelecida pelos pais é
transmitida aos filhos. Esse tipo de estratégia acionada pelos agentes visa, sobretudo, a
reprodução das práticas e o fortalecimento do patrimônio econômico, político e social
familiar. Não por acaso, um médico com Antônio Duailibe tem um filho médico, que
125
herdou inclusive o seu anel de formatura, e um neto é médico. Da mesma forma, um
comerciante como Salim Duailibe tem filhos que se dedicam ao comércio e um político
como Nagib Haickel tem um filho que se volta para a política. Com isso, formam-se as
famílias de políticos oriundas do processo de migração de libaneses para o Maranhão.
Haickel, Braide, Murad, Heluy, Duailibe, Abdalla. Essas são apenas algumas
“famílias” que enumeram mais de um representante na política do Maranhão. Tais
“famílias” passaram por um processo de enriquecimento econômico, adentraram o
espaço político e repassaram o saber-fazer entre os integrantes escolhidos para
reproduzir o sucesso político. Os exemplos aqui analisados trazem itinerários que
acionaram estratégias de reprodução, que, também, foram utilizadas por outras
“famílias” de descendência libanesa, em suas trajetórias excepcionalmente bem
sucedidas.
Por fim, é válido ressaltar que essa pesquisa pode ter desdobramentos, que não
puderam ser desenvolvidos neste primeiro momento por causa do tempo restrito.
Posteriormente, poderia ser o objeto de um novo estudo, o reconhecimento intelectual
desses descendentes de imigrantes libaneses, por meio da entrada na Academia
Maranhense de Letras (AML). Em que momento esse reconhecimento ocorre? Quais
estratégias são acionadas ao longo da trajetória desses agentes que permite a eles tal
projeção? De que forma o reconhecimento intelectual pode afetar os demais espaços
sociais ocupados por esse agente? Para isso, poderiam ser construídas as trajetórias de
Benedito Buzar, Conceição Neves Aboud e Laura Amélia Damous, e pode ser utilizada,
também, a de Joaquim Haickel, que já consta nesta pesquisa.
Outro desdobramento válido para esta pesquisa é a análise da relação desses
agentes, principalmente as mulheres, com a gastronomia e o uso da culinária enquanto
uma estratégia de fortalecimento da identidade libanesa no Estado do Maranhão. O uso
desse conhecimento para propagar, por meio de cursos, restaurantes ou mesmo pela
publicação de livros, essa identidade libanesa.
Um olhar mais detido e cuidadoso poderia ser dirigido ainda às atividades
filantrópicas e esportivas como meio de notabilização dessas famílias e de inscrição na
elite estadual.
126
REFERÊNCIAS
ABREU FILHO, Ovídio. “Parentesco e Identidade Social”. Anuário Antropológico, v.
1, 1982.
BARTH, Frederik. Los grupos étnicos y SUS fronteras. La organización social de las
diferencias culturales. Introducción. FED, México D.F., 1976, p. 9-49.
BARREIRA, Irlys. “Campanhas em família: as veias abertas das disputas eleitorais”. In:
PALMEIRA, Moacir (Org.). Política no Brasil; visões de antropólogos. Rio de
Janeiro, Relume Dumará. 2006.
BIGUÁ, Edivaldo Pereira; BIGUÁ, Tânia. “Onde anda você ? Dr. Alfredo Duailibe”.
Jornal O Estado do Maranhão. Caderno de Esportes. Publicada no dia 20 de abril de
1998.
BOURDIEU, Pierre. A Distinção: crítica social do julgamento. São Paulo: Edusp;
Porto Alegre, RS: Zouk, 2007.
____________________. Os usos sociais das Ciências. São Paulo: Editora Unesp,
2004.
____________________. Estrategias de reproducción y modos de dominación.
Colección Pedagógica Universitaria, enero-junio/julio-diciembre. 2002ª, p. 37-38.
____________________. “Os modos de dominação”. In: Bourdieu, P. A produção da
crença: contribuição para uma economia dos bens simbólicos. São Paulo:Zouk,
2002b.
____________________. “O Capital Social”. In:__________. Escritos de educação.
Campinas:Vozes, 1998.
____________________. As Regras da Arte. São Paulo: Companhia das letras,1996
127
BRITO, Sérgio. “A libanização do Maranhão”. In: Felix Alberto Lima (org). Maranhão
reportagem. São Luís: Clara Editora, 2000.
BRUBAKER, Rogers; COOPER, Frederick. “Beyond ‘identity’”. Theory and Society.
29, 2000.
BUZAR, Benedito. “Alfredo Duailibe ao oitenta anos: vitorinista, graças a Deus”.
Jornal O Estado do Maranhão. Caderno Alternativo. Publicada no dia 16 de outubro
de 1994.
________________. Vitorinistas e Oposicionistas. São Luís. [s.n.]. 2001.
CALDEIRA, José de Ribamar Chaves. Entrevista concedida a Alexandre Fernandes
Corrêa, publicada em Ciências Humanas em Revista, v.7, nº 1, São Luís/MA, 2009.
CANEDO, Letícia Bicalho. “Um Capital Político Multiplicado no Trabalho
Genealógico”. Revista Pós Ciências Sociais, v.8, nº 15, jan./jun. 2011.
CANEDO, Letícia Bicalho. “As metáforas da família na transmissão do poder político:
questões de método”. Cadernos CEDES, Campinas, v. 18, nº 42, Aug. 1997. Disponível
em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-
32621997000100004&lng=en&nrm=iso>. Acessada no dia 20 de novembro de 2011.
http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32621997000100004.
______________________. “Estratégias familiares na produção social de uma
qualificação política”. Educação & Sociedade, nº 39, agosto/1991.
CASSAS, Maria José Duailibe. Entrevista concedida a Ingrid Pereira de Assis, no mês
de junho de 2010.
COMBESSIE, Jean-Claude. O método em Sociologia – Como é, como faz. São Paulo.
Ed. Loyola. 2004.
128
CORADINI, O. L. “Grandes Famílias e "Elite Profissional" na Medicina no Brasil”.
História, Ciências, Saúde - Manguinhos, III (3), nov. 1996 - fev. 1997.
COSTA, W. C. da. “A raposa e o canguru: crises políticas e estratégia periférica no
Maranhão (1945/1970)”. In: COSTA, Wagner Cabral da (Org.). História do
Maranhão: novos estudos. São Luís: EDUFMA, 2004.
COUTINHO, Mílson. O magistrado da cidadania e justiça: notas referentes à
presença libanesa na vida pública do Estado e apontamentos sobre um novo
modelo de justiça na virada do século. São Luís: Lithograf, 2001.
DUAILIBE, Admée Rodrigues. Entrevista concedida a Ingrid Pereira de Assis, no mês
de junho de 2010.
DUAILIBE, Francisco Jose. História da Família Duailibe, da Síria ao Maranhão.
Disponível em: <www.familyd.net>. Acessado em maio de 2010.
DUAILIBE, Marco Aurélio Rodrigues. Entrevista concedida a Ingrid Pereira de Assis,
no mês de junho de 2010.
FAUSTO, Boris; TRUZZI, Oswaldo; GRÜN, Roberto; SAKURAI, Célia. Imigração e
política em São Paulo. São Paulo: Editora Sumaré: Fapesp, 1995.
FURTADO, Frederico Mamede. A comunidade sírio-libanesa e sua inserção na elite
maranhense. Monografia do Departamento de História e Geografia da Universidade
Estadual do Maranhão. 2008.
GRILL, Igor Gastal. “As fronteiras móveis da “oligarquia” e a “elite política”
maranhense”. Texto apresentado no seminário “As eleitas/Os Eleitos”, no prelo para
publicação em 2012.
__________________. “Os usos de “ismos” em batalhas políticas e intelectuais
129
(RS/MA)”. Trabalho apresentado na Anpocs, 2010.
_________________. “Descendentes de imigrantes na política do Rio Grande do Sul e
do Maranhão: ascensão social, afirmação eleitoral e cooptação política”. In: Ferretti, S.;
RAMALHO, J.R. (Orgs.). Amazônia: desenvolvimento, meio ambiente e diversidade
sociocultural. São Luís: Edufma, 2009.
__________________. “Processos, condicionantes e bases sociais da Especialização
política no Rio Grande do Sul e no Maranhão”. Revista Sociologia e Política, V.16, nº
30, Curitiba, Junho 2008a.
____________________. Heranças políticas no Rio Grande do Sul. Edufma: São
Luís, 2008b.
____________________. “Heranças Políticas no Rio Grande do Sul e no Maranhão”.
Ciências Humanas em Revista. V.5, n.2. 2007a.
____________________. "Família", direito e política no Rio Grande do Sul: os usos do
parentesco e dos títulos escolares no exercício do métier”. Tomo (UFS), v. 10, 2007b.
GRILL, Igor Gastal; REIS, Eliana Tavares dos. “O que escrever quer dizer na polítca?
Gêneros de escrita e carreiras políticas”. Trabalho apresentado na Anpocs, 2011.
GRUN, Roberto. Negócios & Famílias: armênios em São Paulo. São Paulo: Editora
Sumaré, 1992. Fapesp (Série Imigração; v. 3).
HAICKEL, Arcélia Haickel. Entrevista concedida a Ingrid Pereira de Assis, no mês de
outubro de 2011.
HAICKEL, Clarisse. Entrevista concedida a Ingrid Pereira de Assis, no mês de outubro
de 2011.
HAICKEL, Joaquim Haickel. Entrevista concedida ao Prof. Dr. Igor Gastal Grill, no dia
130
7 de novembro de 2006.
LANDÉ, Carl H. “A Base Diádica do Clientelismo”. In: SCHIMIDT; S. W. [et al.]
(eds.). Tradução para fins didáticos de Friends, followers and factions. Berkeley:
University of Califórnia Press, 1977.
LEEDS, Anthony; LEEDS, Elizabeth. A Sociologia do Brasil Urbano. Zahar Editores:
Rio de Janeiro, 1978.
LIMA, Olavo Correia. Sírios e libaneses no Maranhão: perspectiva antropológica.
São Luís: [s.n.], 1981.
LONG, Norman. “Sociología del Desarrollo: una perspectiva centrada en el actor”.
México: Centro de Investigaciones y Estudios Superiores em Antropología Social: El
Colegio de San Luís, 2007.
MIZRUCHI, Mark S. Análise de Redes Sociais: avanços recentes e controvérsias
atuais. In: Redes e Sociologia Econômica. Organizado por Ana Cristina Braga Martes.
São Carlos: EdUFSCar, 2009.
MURAD, Emílio Biló. Entrevista concedida ao Prof. Dr. Igor Gastal Grill, no dia 15 de
junho de 2007.
PIZZORNO, Alessandro. “Sobre la racionalidad de la opción democrática”. In:
GERMANI, G. et al. (Orgs.) Los limites de la democracia. Buenos Aires: FLACSO,
1985.
REIS, Eliana Tavares dos; GRILL, Igor Gastal. “Letrados e votados: lógicas cruzadas
do engajamento político no Brasil”. Tomo, nº 13, 2008.
REIS, Eliana Tavares. “Militâncias, alianças e ocupação de cargos políticos nãoeletivos”. Cadernos CERU, Série 2, v. 20, nº 1, junho, 2009.
131
REIS, Eliana T. dos. Contestação, Engajamento e Militantismo: da luta contra a
ditadura à diversificação das modalidades de intervenção política no RS. Porto
Alegre: Gráfica da UFRGS (Tese de Doutorado), 2007.
REIS, Flávio. “15 anos depois”. In: REIS, Flávio. Grupos Políticos e Estrutura
Oligárquica no Maranhão. São Luís: Unigraf, 2007.
SAINT MARTIN, Monique de. “A Nobreza Em França: A tradição como crença”.
Revista Brasileira de Ciências Sociais, n.20, 1992.
SAYAD, Abdelmalek. A Imigração ou Os Paradoxos da Alteridade. São Paulo: USP,
1998.
SEYFERTH, Giralda. “Etnicidade, política e ascensão social: um exemplo teutobrasileiro”. Mana, Rio de Janeiro, v. 5, nº 2, Oct. 1999. Disponível em:
<http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S010493131999000200003&lng=en&nrm=iso>. Acessada no dia 4 de dezembro de 2011.
http://dx.doi.org/10.1590/S0104-93131999000200003.
TRUZZI, Oswaldo M. S. De mascates a doutores: sírios e libaneses em São Paulo.
São Paulo: Editora Sumaré: FAPESP, 1991.
WEBER, Max. Ciência e política: duas vocações. São Paulo: Cultrix, 1993.
________________. Economia e Sociedade. México: Fundo de Cultura, 1987.
WOLF, Eric. Antropologia e poder. Editora Universidade de Brasília: São Paulo, 2003.
132