Pensamento Econômico

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Pensamento Econômico
Pensamento Econômico
Economistas analisam a Economia, o Brasil
e o mundo,
mundo, na mídia diária 2828-29 03 2009
----------------------------------Folha de S.Paulo 29 03 2009
RUBENS RICUPERO
Tudo bem, tudo normal?
Por que a AL cairia mais que o mundo se nosso sistema
bancário está intacto, nossas reservas continuam altas?
O COMÉRCIO mundial vai cair 9%. A economia global passa de previsão de
crescimento de 2,2% em novembro para queda de 0,5% a 1% agora. O
cauteloso Banco da China publica artigo defendendo moeda internacional
para substituir o dólar. Morgan Stanley prevê que o Brasil vai encolher
4,5%, e a América Latina, 4,3%.
Notícias parecidas com uma dessas só aconteciam antes uma vez a cada 70 anos,
ou nunca. Hoje, elas se sucedem em dois ou três dias e ninguém se abala. Depois
de tantos trilhões de déficits e dívidas, perdemos a capacidade de assombro.
Quando gastarmos os trilhões, como contaremos os zeros, com zilhões? Tendo
passado um quarto de século na monotonia do comércio crescendo por ano dois ou
três pontos acima da produção, nunca pensei que o veria despencar num colapso
de nove pontos (reluto em crer).
Nos meus dias de Nações Unidas, uma camisa-de-força seria providenciada para
quem imaginasse que os chineses voltariam à ideia de Keynes sobre uma moeda de
reserva (o bancor), independente de qualquer país. Pior, que sugerissem haver
chegado a hora de começar a pensar em pôr um ponto final no incontrastável
domínio do dólar.
Não faz muito tempo um economista não arriscaria a reputação em prever para o
Brasil e a América Latina tombos tão abaixo do consenso médio, como essa
estimativa que apenas mereceu uma ironia do presidente Lula. O que está
sucedendo? Perdeu-se a noção do normal, mesmo um palpite implausível vale tanto
quanto outro qualquer?
É verdade que o desempenho da América Latina costuma acompanhar de perto o
da economia global, até mesmo pela intensidade dos vínculos que mantém com os
Estados Unidos. Durante os seis anos de ouro de 2003 a 2008, a região foi
empurrada pelo vento mundial e cresceu à média de 5% por ano e 3% per capita,
algo muito raro. Compreende-se que acompanhe agora o mundo na queda, mas
tanto assim?
Por que cairíamos mais que o mundo se nosso sistema bancário está intacto,
nossas reservas continuam altas e os fundamentos fiscais são muito melhores? Ao
contrário dos Estados Unidos, não temos problemas estruturais com o sistema
financeiro, os setores de imóveis ou de automóveis. Os déficits externos ou fiscais
são de moderados a baixos, existe espaço para reduzir os juros, coisa que
desapareceu nos países avançados.
O comércio certamente sofrerá, e um indício é a mudança nos termos de
intercâmbio (a relação dos preços das exportações com os das importações). De
2001 a 2008, esses termos melhoraram em 28%. Apenas em 2009, espera-se uma
deterioração de 15,6%, sobretudo devido ao mergulho nos preços do petróleo e dos
metais. Por outro lado, nem de longe dependemos das exportações tanto quanto
chineses e asiáticos. No entanto as previsões para eles são muito mais benignas.
Tenho me consolado nestes dias lendo como a América Latina se saiu numa crise
bem pior, a dos anos 30, que, para nós, não merece ser chamada de Grande
Depressão.
Após chegar ao fundo do poço em 1932-33, uma a uma todas as economias da
região logo recuperaram o crescimento de antes da crise. A Colômbia já em 1932, o
Brasil em 1933, o México em 1934, a Argentina em 1935. Substituímos a demanda
do setor externo com a puxada pela indústria interna e saímos da crise mais cedo e
industrializados. Não seria possível repetir o remédio com as indispensáveis
adaptações?
RUBENS RICUPERO, 72, diretor da Faculdade de Economia da Faap e do Instituto
Fernand Braudel de São Paulo, foi secretário-geral da Unctad (Conferência das
Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) e ministro da Fazenda (governo
Itamar Franco).
- - - - - - - - - - - - - - - - -- Folha de S.Paulo 29 03 2009
Economista ROGER AGNELLI
Presidente da Vale
Não há tempo a perder
Cabe ao governo reduzir a burocracia e incentivar os
investimentos para que a economia se movimente
NOS ÚLTIMOS 40 dias, em minhas viagens pelo mundo, tenho conversado
com clientes, banqueiros e representantes de governos. Participei de reuniões com
grandes executivos de empresas norte-americanas, europeias, asiáticas e
brasileiras, e a visão de todos acerca do momento ainda é turva. Os governos estão
fazendo planos de estímulo econômico, mas os efeitos positivos não são imediatos:
os pacotes têm um tempo de maturação até que os resultados apareçam. A
verdade é que o mundo não estava preparado para essa turbulência nem para
elaborar planos de ajustes tão ambiciosos e tão abrangentes.
Nos Estados Unidos, há críticas ao presidente Barack Obama por ter tomado posse
sem propor um plano de combate à crise. As medidas apresentadas por seu
governo nas últimas semanas, apesar de ousadas, ainda geram desconfiança
quanto aos riscos. A economia real continua a apresentar prejuízos, resultado da
retração da demanda, que atinge todas as cadeias produtivas. As empresas sentem
agora os efeitos do forte abalo na economia, até então limitado ao setor financeiro.
Assistimos no Brasil a um retrato do que acontece no mundo. A economia real se
movimenta com dificuldades. Exportadores brasileiros enfrentam problemas de
crédito, e os importadores lutam contra custos de carta de crédito e contra
obstáculos para obter capital de giro. Com isso, alguns países correm risco de não
poder pagar por nossos produtos. A bola de neve cresce. Venho defendendo a tese
de que a sociedade brasileira precisa criar estratégias para acelerar os resultados
no combate à crise. Não basta o anúncio de pacotes ou de planos econômicos. É
preciso efetividade. Não se pode levar muito tempo entre o anúncio e o início das
operações.
Para que nossa economia se movimente, é necessária a realização de
investimentos. Embora os governos tenham dinheiro para tal, a burocracia é um
obstáculo para a aprovação dos projetos. Para vencê-lo, o Brasil precisaria rever
algumas legislações, como as que regulam processos de licenciamento ambiental e
de licitações (lei nº 8.666).
Criadas há anos, muitas de suas regras não mais se justificam. Definir prazos para
a aprovação de processos, capacitar funcionários públicos e usar a tecnologia para
promover mais leilões pela internet seriam medidas acertadas para dar agilidade às
contratações públicas, sem prejuízo do rigor e da transparência, desobstruindo-se,
assim, os caminhos dos investimentos. Senão, corremos o risco de ver emperradas
concorrências e licitações importantes para o Brasil por conta de batalhas
intermináveis, que envolvem recursos ao Judiciário, ao Ministério Público e até ao
Tribunal de Contas da União.
É necessário que o executivo -nas esferas federal, estadual e municipal- e o setor
produtivo se fortaleçam para que se efetivem os projetos. As empresas já estão
revendo processos e fazendo os devidos ajustes. Cabe ao governo reduzir a
burocracia e incentivar os investimentos. Assim, podemos ganhar velocidade para
enfrentar a turbulência e garantir a sobrevivência diante do impacto da crise
econômico-financeira global. Precisamos trabalhar muito para fazer o que tem de
ser feito.
ROGER AGNELLI, 49, economista e diretor-presidente da Vale
-----------------Folha de S.Paulo 29 03 2009
RESENHA
LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA
Reportagens e análises preciosas
MUITOS economistas constroem modelos matemáticos complicados para
explicar a realidade econômica à custa de uma simplificação brutal que se
transforma em uma caricatura.
O grande jornalista econômico Celso Pinto sempre fez o inverso: ajudado por seus
entrevistados, mas jamais submisso a eles, formulava explicações simples e
compreensíveis de uma realidade econômica sempre complexa e contraditória.
Os textos que escreveu entre 1974 e 2003, alguns dos quais reunidos no livro "Os
Desafios do Crescimento - Dos Militares a Lula", mostram bem isso.
Não é fácil para os jornalistas informar os leitores sobre economia porque os
sistemas econômicos são sempre imprevisíveis, e as teorias econômicas,
necessariamente precárias.
Eles podem simplesmente noticiar os fatos ou então entrevistar autoridades
econômicas e economistas e reproduzir suas ideias. Quando, porém, além disso, o
jornalista decide fazer a análise do que está acontecendo e concordar ou discordar
das ideias dos entrevistados, seu trabalho se torna muito mais difícil e desafiador.
Celso Pinto, enquanto teve saúde para realizar seu trabalho, aceitou sempre esse
desafio. Ele começou no jornalismo na Folha, em 1974, depois passou para a
"Gazeta Mercantil", foi correspondente econômico em Londres, voltou para a Folha
e, convidado pelos grupos Folha e Globo, fundou e deu forma ao "Valor
Econômico", que nada fica a dever aos melhores jornais econômicos do mundo.
Em todo esse período, ele desenvolveu uma forma especial de jornalismo
econômico, escrevendo o que eu chamaria de "reportagens-análises". Ele não
escrevia uma coluna, em que o colunista faz com frequência predeterminada
análise do que está acontecendo, nem fazia reportagens ou entrevistas nas quais o
repórter informa os fatos ou reproduz as palavras ou as ideias dos entrevistados.
Em vez disso, ele combinava a notícia e a entrevista com a análise de uma forma
integrada, o que permitia que o leitor ficasse informado e com uma noção
razoavelmente clara dos problemas complicados sobre os quais versava.
O organizador do livro distribuiu as reportagens-análises em oito capítulos. Escolho
o capítulo sobre a taxa de câmbio para ilustrar o método de Celso Pinto. No texto
"Controle cambial na berlinda" (3/9/98), por exemplo, ele foca o problema do
controle dos fluxos de capitais que estava sendo discutido na época. Mostra que os
economistas heterodoxos, apoiados por Paul Krugman, eram a favor dos controles,
enquanto os ortodoxos, no governo, eram contra, garantindo que não eram
necessários. Celso Pinto não toma partido, mas termina seu texto assinalando que
o grande aumento das saídas de capital não justificava o otimismo governamental.
Na verdade, naquele momento a crise cambial estava batendo à porta.
Um mês depois, ele fala no "plano B" que se especulava ter o governo e que
economistas estrangeiros como Rudiger Dornbusch apoiavam a dolarização da
economia na linha seguida pelo Plano de Conversibilidade da Argentina e comenta,
manifestando delicadamente seu desacordo: "Nenhum país de dimensão
continental como o Brasil jamais experimentou um "currency board'".
A clareza e o didatismo comparecem em outra reportagem-análise, "Custos e
benefícios do novo câmbio", que ele escreve em seguida à bem-sucedida flutuação
do câmbio, em janeiro de 1999. Depois de noticiá-la, Celso Pinto analisa a mudança
do câmbio sob cinco dimensões: comparação com outros países, impacto fiscal,
impacto sobre juros e crescimento, pressão sobre a inflação e futuro do regime de
câmbio. E em seguida escreve sobre cada um desses pontos, com grande
propriedade e competência.
Em outro texto, "A tentação de "operar" o mercado", Celso Pinto discute as
tentativas do governo de administrar a taxa de câmbio antes da crise cambial do
final de 1998. Diz ele que, nesses momentos, o formulador de política econômica
tem sempre "a profunda convicção de que o mercado financeiro aposta contra ele
porque não entendeu direito os fundamentos ou porque está metido em uma
especulação desenfreada". Em seguida, entrevista um desses formuladores e,
quando este faz afirmações pouco convincentes, não hesita: escreve um claro
"discordo".
Esses textos são uma preciosidade jornalística e econômica. A Publifolha está de
parabéns ao fazer uma segunda reimpressão do livro. O Grupo Folha podia agora
completar o trabalho e oferecer na internet todas as reportagens-análises que Celso
Pinto escreveu e criar um mecanismo de busca interno a essa coleção de textos.
Essa iniciativa seria uma grande contribuição ao estudo da economia brasileira.
LIVRO - "Os Desafios do Crescimento - Dos Militares a Lula" Celso Pinto;
Publifolha, 376 págs.
-----------------------------------Folha de S.Paulo 29 03 2009
Cenários: IEDI
PIB e crédito determinam pessimismo
Para Iedi, retração de 3,6% na economia no quarto trimestre de 2008 foi o
estopim para a deterioração das expectativas Empresários se queixam do
custo dos empréstimos e das dificuldades de acesso; consultor sugere
prêmio a empresa disposta a investir
A restrição ao crédito ainda é o principal fator que explica a forte deterioração das
expectativas dos empresários, segundo Josué Gomes da Silva, presidente do Iedi
(Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial) e da Coteminas.
Essa preocupação ficou clara na sexta-feira, numa reunião de integrantes do
instituto com o ministro da Fazenda, Guido Mantega. Os empresários reclamaram
do custo do crédito e das dificuldades de acesso.
"O acesso ao crédito não melhorou, e o custo ainda é muito alto", diz Gomes da
Silva.
O economista Júlio Sérgio Gomes de Almeida, consultor do Iedi e ex-secretário de
Política Econômica da Fazenda no governo Lula, diz que a piora das expectativas
dos empresários se deu a partir do anúncio da queda de 3,6% do PIB (Produto
Interno Bruto) no quarto trimestre do ano passado, um número que surpreendeu.
"Esse PIB muito ruim foi o estopim para a deterioração das expectativas", diz
Gomes de Almeida. "O empresário vai resistir a investir com uma perspectiva de
queda da economia desse tamanho."
A freada dos investimentos foi bastante evidente. Setores voltados para a
exportação ou mais dependentes de crédito foram os primeiros a ser atingidos e
não há, até agora, sinais claros de recuperação.
Os números do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) já
começam a mostrar os sinais da freada. As consultas aos empréstimos do BNDES
recuaram 37% em fevereiro, sinal claro de que os empresários preferiram deixar
muitos projetos na gaveta até que a situação melhore.
O empresário Horacio Lafer Piva, presidente da Bracelpa (Associação Brasileira de
Celulose e Papel), admite que mais da metade dos investimentos para o setor de
papel e celulose já foi postergada até que as condições de demanda, preço e
crédito estejam mais claras. Os planos eram ambiciosos: US$ 20 bilhões de 2009 a
2015.
"A vocação permanece, mais forte do que nunca, as empresas estão sólidas e com
caixa, mas as variáveis não são só nacionais, e sim mundiais. É um setor que, pelo
investimento e pelo capital de giro necessários, demanda cuidado extra."
O presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos
Automotores), Jackson Schneider, afirma que até agora nenhuma montadora no
país anunciou planos de suspensão de investimentos em razão da crise, mas ele
admite alguma postergação das obras. A seu ver, como se trata de investimentos
de maturação de longo prazo, haverá manutenção dos planos.
Para melhorar o clima, o governo, na opinião de Gomes de Almeida, precisa baixar
os juros e adotar medidas de estímulo à economia para incentivar o crédito, como a
que anunciou na semana passada, quando ofereceu garantia de até R$ 20 milhões
para quem comprar títulos emitidos por bancos de menor porte -se a instituição
quebrar ou sofrer intervenção do BC, quem comprou os papéis recebe o dinheiro de
volta.
Outra ideia defendida por Gomes de Almeida é o governo oferecer algum tipo de
prêmio, um benefício fiscal adicional, por exemplo, a empresas que estiverem
dispostas a investir. "Quando há um clima de desânimo, a melhor resposta é criar
algum tipo de premiação para incentivar a economia."
(GUILHERME BARROS)
--------------------Folha de S.Paulo 29 03 2009
GEORGE SOROS
ESPECIAL PARA O "FINANCIAL TIMES"
Olhar a periferia deve ser a meta
A REUNIÃO do G20 será um evento decisivo. A menos que resulte em medidas
de apoio aos países menos desenvolvidos, que estão ainda mais vulneráveis que as
nações desenvolvidas, os mercados sofrerão mais uma contração, como aconteceu
no mês passado, quando o secretário do Tesouro dos EUA, Timothy Geithner, não
anunciou medidas práticas para a recapitalização do sistema bancário.
A crise é diferente de todas as demais que aconteceram depois da Segunda Guerra
Mundial. Nos exemplos anteriores, as autoridades se organizaram e impediram o
colapso do sistema financeiro. Desta vez, depois da quebra do Lehman Brothers,
em setembro, o sistema desabou e está sendo mantido vivo por meios artificiais.
Esse passo resultou em consequências adversas: muitos outros países, do leste da
Europa à América Latina, à África e à Ásia, não tinham condições de oferecer
garantias semelhantes. Houve uma fuga de capital da periferia para o centro. Nos
países periféricos, as moedas caíram, as taxas de juros subiram e as taxas dos CDS
("credit default swaps") dispararam.
Quando a história for escrita, registrará que, diferentemente da Grande Depressão,
o protecionismo chegou primeiro às finanças que ao comércio. Instituições como o
FMI (Fundo Monetário Internacional) enfrentam uma novidade: proteger os países
periféricos contra uma tempestade criada nas nações desenvolvidas. As instituições
mundiais estão acostumadas a trabalhar com governos; agora, precisam enfrentar
o colapso do setor privado.
Caso se provem incapazes disso, as economias periféricas sofrerão ainda mais que
as centrais. São mais pobres e dependem mais de commodities que as dos países
desenvolvidos. Também têm US$ 1,44 trilhão de dívidas bancárias a vencer em
2009. Não poderá haver rolagem desses empréstimos sem assistência
internacional.
Diferenças
de
atitude
O primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, observou na reunião do G20 uma
forma de enfrentar a questão. Mas emergiram diferenças de atitude, especialmente
entre EUA e Alemanha. Os EUA reconheceram que o colapso do crédito no setor
privado só pode ser revertido pelo uso mais amplo do crédito de Estado. A
Alemanha, traumatizada pelas memórias da hiperinflação dos anos 20, reluta em
semear uma futura inflação ao incorrer em dívida excessiva. As posições se
sustentam com rigidez. A controvérsia ameaça a reunião.
No entanto deve ser possível um terreno comum. Em lugar de fixar uma meta
universal de 2% do PIB (Produto Interno Bruto) para pacotes de estímulo, bastaria
um acordo para ajudar os países periféricos a proteger seus sistemas financeiros.
Isso serve ao interesse comum. Caso seja permitido um colapso das economias
periféricas, os países desenvolvidos também sairão prejudicados.
A reunião do G20 deve produzir alguns resultados concretos: os recursos do FMI
provavelmente serão duplicados, principalmente pelo uso do mecanismo de "novos
arranjos para captação", que podem ser ativados sem que seja resolvida a
espinhosa questão da redistribuição dos direitos de voto.
Isso bastará para permitir que o FMI ajude países específicos que enfrentam
situações de risco, mas não oferecerá uma solução sistêmica para os menos
desenvolvidos. Essa solução está facilmente disponível na forma de direitos
especiais de saque, os SDRs. Os SDRs são complexos, mas em resumo
representam a criação internacional de dinheiro. Países capazes de criar dinheiro
próprio não precisam deles, mas nações periféricas, sim.
Os países ricos deveriam, portanto, emprestar suas alocações às nações mais
necessitadas. Os beneficiados pagariam o FMI com juros muito baixos, o
equivalente à taxa média dos títulos de Tesouro de todas as moedas conversíveis.
Estariam livres para usar suas alocações, mas seriam fiscalizados quanto ao uso
dado às alocações tomadas de empréstimo.
Além da ampliação extraordinária dos recursos do FMI, deveria haver uma grande
emissão anual de SDRs, no valor de digamos US$ 250 bilhões, enquanto perdurar a
recessão. É tarde demais para que essa medida seja decidida pelo G20 em 2 de
abril, mas, caso a ideia seja apresentada pelo presidente Barack Obama e aceita
pelos demais líderes, isso bastaria para fazer da reunião um sucesso retumbante.
GEORGE SOROS é presidente do conselho da Soros Fund Management
- - - - - - - - - - - - - - - - -O Estado de S.Paulo 28 03 2009
A mística do mercado
Paul Krugman *
Lawrence Summers, diretor do Conselho Econômico Nacional, respondeu
recentemente às críticas dirigidas ao plano da administração Obama de subsidiar a
compra de ativos tóxicos por particulares. "Não conheço um único economista",
declarou "que duvide da ideia de que um mercado de capitais de melhor
funcionamento dentro do qual os ativos sejam negociados represente uma boa
coisa".
Por um momento, vamos deixar de lado a questão do chamado "melhor
funcionamento" de um mercado no qual os compradores tem de ser subornados
para serem convencidos a participar. Seja como for, me parece que Summers
precisa sair mais. Muitos economistas já reconsideraram sua opinião favorável ao
mercado de capitais e à comercialização de ativos.
Mas durante os últimos dias tornou-se cada vez mais claro que os principais
assessores de Obama ainda estão sob o efeito da mística do mercado.
A mística do mercado não esteve sempre no controle das políticas fiscais. Os EUA
emergiram da Grande Depressão com um sistema bancário estritamente
controlado, o que fez das finanças um ramo de negócios sóbrio e até mesmo
monótono.
O sistema financeiro não era apenas monótono. Era também, pelos padrões atuais,
pequeno. Mesmo durante os anos de euforia do mercado dos anos 1960, as
indústrias financeira e de seguros correspondiam a menos de 4% do PIB. A
desimportância relativa das finanças se refletia na lista de ações que compunha o
índice Dow Jones, que até 1982 não relacionava uma única empresa financeira.
Tudo isto parece primitivo pelos padrões de hoje. Ainda assim, este sistema
financeiro monótono e primitivo serviu a uma economia que dobrou a qualidade de
vida no intervalo de uma geração.
É claro que depois de 1980 um sistema financeiro muito diferente emergiu. Na era
Reagan, de mentalidade desregulamentadora, a atividade bancária antiquada foi
gradualmente substituída por apostas e negócios de escala muito superior. O novo
sistema era bem maior do que o antigo regime: na véspera da crise financeira
atual, o ramo das finanças e seguros correspondia a 8% do PIB, mais do que o
dobro de sua participação na década de 1960. No início do ano passado, o índice
Dow relacionava cinco empresas financeiras - gigantes como a AIG, o Citigroup e o
Bank of America.
E as finanças se tornaram o oposto da monotonia. Este ramo atraiu muitas das
nossas mentes mais brilhantes e enriqueceu imensamente alguns.
Subjacente ao glamouroso mundo novo das finanças estava o processo de
securitização. Os empréstimos não ficavam mais com aquele que os solicitava. Em
vez disso, eles eram vendidos a terceiros, que dividiam, combinavam e misturavam
as dívidas individuais para sintetizar novos ativos. Hipotecas subprime, dívidas no
cartão de crédito, financiamentos para a compra de carros - tudo isso entrou no
liquidificador do sistema financeiro. E os feiticeiros foram recompensados por
supervisionar este processo.
Mas estes feiticeiros eram charlatães, quer soubessem disso ou não, e a sua magia
se revelou pouco mais do que um punhado de truques cenográficos baratos. Acima
de tudo, a promessa fundamental da securitização - a de tornar o sistema
financeiro mais robusto por meio da difusão do risco - acabou se mostrando uma
mentira. Os bancos usaram a securitização para aumentar o risco em vez de
reduzi-lo, e neste processo eles aumentaram a vulnerabilidade da economia aos
distúrbios financeiros.
As coisas estavam destinadas a dar errado mais cedo ou mais tarde, e isto
finalmente aconteceu.
Boa parte do debate em torno do plano para os ativos podres se concentrou nos
detalhes e na aritmética, e com razão. Essencialmente, a administração parece
acreditar que, depois que os investidores se acalmarem, a securitização e a
indústria financeira poderão retomar suas atividades a partir do ponto em que
foram interrompidas há um ou dois anos.
É verdade que as autoridades estão pedindo por uma regulação mais presente. De
fato, na quinta-feira o secretário do Tesouro, Tim Geithner, expôs planos para uma
regulação mais ativa que seriam considerados radicais pouco tempo atrás.
Mas a visão subjacente continua sendo a de um sistema financeiro mais ou menos
igual ao de dois anos atrás, apenas um pouco melhor adestrado por novas regras.
Como se pode adivinhar, eu não partilho desta visão. Não acho que estejamos
vivendo um mero pânico financeiro; acredito que a situação atual represente o
fracasso de todo um modelo de funcionamento da atividade bancária, de um setor
financeiro superdimensionado que causou prejuízos muito superiores às vantagens
que deveria trazer. Não acho que a administração Obama seja capaz de trazer a
securitização de volta à vida, e nem acho que ela deva tentar fazê-lo.
*Paul Krugman é economista e articulista do New York Times
-------------------O ESP 28 03 2009
Alemão quer ''duelo'' com Krugman
Chamado de ignorante por Krugman, ministro propõe debate
O economista Paul Krugman, ganhador do Prêmio Nobel, costuma criticar
violentamente Peer Steinbrück da Alemanha por sua resistência aos gastos
previstos pelo estímulo econômico. Agora, o "cabeça dura", "ignorante" ministro
das Finanças mandou um convite a Krugman para que vá a Berlim a fim de
discutirem suas divergências.
Paul Krugman costuma dirigir-se a grandes plateias quando dá conferências na
Universidade de Princeton ou do alto do seu púlpito na qualidade de colunista do
jornal The New York Times. Mas em breve ele será solicitado a falar a uma única
pessoa. No início de março, o ministro das Finanças, Peer Steinbrück, enviou um
convite oficial a Krugman para que se encontre com ele para discutirem a questão
da crise financeira mundial.
Não será a primeira vez que os dois se correspondem - embora, até agora, a
comunicação tenha sido apenas unilateral, consistindo principalmente nos
comentários depreciativos de Krugman a respeito de Steinbrück , por meio de sua
coluna e blogs. O economista enfatizou repetidas vezes sua convicção de que o
déficit é uma das poucas barreiras contra uma recorrência da Grande Depressão e
não hesitou em pôr na berlinda os que demonstram uma atitude um tanto
indiferente em relação ao estímulo.
Steinbrück é um dos seus alvos favoritos. Krugman já criticou asperamente o
ministro, que assumiu o cargo na esperança de equilibrar o orçamento alemão. O
insulto mais contundente de Krugman foi talvez a sugestão de que as críticas
apresentadas por Steinbrück , membro do Partido Social Democrático de centroesquerda, são de um "keynesianismo crasso".
O que Krugman definiu como ignorância em matéria econômica, Steinbrück
considera uma mera diferença de opinião. O ministro disse que, antes de endossar
outra rodada de gastos, quer verificar os efeitos das medidas de estímulo adotadas
na Alemanha - em janeiro, o Parlamento aprovou um plano de 50 bilhões.
Além disso, como o próprio Krugman observou, importantes programas sociais,
como os da Alemanha, reduzem a necessidade de gastos deficitários em tempos de
crise. Os economistas alemães, formados pela experiência da hiperinflação, se
preocupam mais com o risco de inflação do que os americanos.
Mas se Krugman aceitar o convite de Steinbrück, talvez queira se preparar para
receber um puxão de orelhas. Steinbrück tem, como Krugman, uma predileção pela
conversa direta e não hesitou em apontar os culpados pela crise econômica. "A
origem e o centro de todos os problemas estão claramente nos Estados Unidos",
disse em setembro à revista Der Spiegel.
-------------------------O Estado de S.Paulo 29 03 2009
ENTREVISTA
'Finalmente estamos chegando lá''
Economista Seth Waugh: presidente do Deutsche Bank para as
Américas; executivo acredita que plano do governo Obama para salvar o sistema
financeiro americano tem boas chances de emplacar
Leandro Modé
Seth Waugh, presidente do Deutsche Bank para as Américas (incluindo os EUA), é
um dos personagens que vivem de perto o dia a dia da mais grave crise econômica
americana desde a Grande Depressão. Um de seus últimos compromissos antes de
embarcar para o Brasil, quarta-feira, foi um encontro com o secretário do Tesouro
americano, Timothy Geithner. Reunião, aliás, que ocorreu em hora mais do que
especial. Segunda-feira, Geithner detalhou seu plano para salvar o sistema
financeiro.
Desde que a crise se aprofundou, com a quebra do banco Lehman Brothers em 15
de setembro, foi a única proposta que teve algum respaldo do mercado financeiro.
Prova disso foi o desempenho das bolsas de valores. O Índice Dow Jones, o mais
tradicional da Bolsa de Nova York, subiu quase 7% na semana.
Waugh está moderadamente otimista com o plano. Prudente, acha que é preciso
tempo para ver se vai funcionar. Na conversa com o Estado, reconheceu que os
bancos erraram feio e acha inevitável uma regulação mais apertada.
O Deutsche apurou em 2008 prejuízo de 4 bilhões, o primeiro desde a 2ª Guerra. A
perda deveu-se a ativos tóxicos. Só no quarto trimestre, deu baixa de quase 1
bilhão nesses papéis. Waugh esteve no Brasil para participar da reunião anual do
Conselho Latino-Americano do Deutsche. Foi a primeira vez que o encontro ocorreu
fora dos EUA.
O sr. encontrou esta semana o secretário Geithner. Acha que o plano dele
vai funcionar?
A estrutura do plano é interessante e traz ideias muito criativas. O problema será
preço. Haverá algumas transações, há certamente ativos para isso. Estamos a
ponto de fazer o que Henry Paulson (secretário do Tesouro antes de Geithner)
disse. Ele poderia ter feito algo, mas não teve tempo. Finalmente estamos
chegando lá. A questão é quanta atividade conseguiremos tirar disso, o que o
mercado vai pagar pelo que os bancos vão vender.
Acha que os bancos vão vender ?
Sim. Não acho que inicialmente será algo grande, mas haverá uma transação ou
outra, para criar preço, transparência, e o mercado vai poder saber onde quer
vender mais, onde comprar mais. O Plano Geithner é um leilão para compradores
privados com financiamento e parceria do governo para comprá-los. Há um
equilíbrio, protege quem paga impostos e mostra que não se está pagando o que os
bancos querem.
Então, ainda é preciso tempo para saber se o plano vai funcionar? O
mercado pareceu otimista.
As boas notícias são que agora temos um veículo para quem quer vender ativos. Se
alguém tem de limpar ativos, é possível. A primeira coisa a acontecer quando o
teste de estresse (que vai aferir a real capacidade de os bancos resistirem às
dificuldades com ativos podres) é o governo dizer: "Ok, você precisa tomar capital,
você pode vender ativos tóxicos."
A nacionalização é uma possibilidade para os EUA?
Não. Acho que vão colocar dinheiro nos bancos que precisam, mas não
nacionalizar. Funcionou na Suécia, mas é um modelo completamente diferente. O
mercado deles é menor, mais local.
Geithner tem sido criticado. Há quem diga que não é bom o bastante para
lidar com a crise.
Todos precisamos que ele consiga lidar. Ele tem trabalhado, pelo que sei, 24 horas
por dia, é detalhista e inteligente. Conheço-o há alguns anos, e o apoio por essas
qualidades. Teve 30 dias terríveis e uma semana boa. Após alguns momentos mais
isolado, deve aparecer não só para falar de planos, mas buscar ideias. O mundo
dos negócios não pode ser um inimigo, mas um aliado.
O sr. estava - e está - no meio do furacão. Como é ser banqueiro e
testemunha da crise?
Nenhum de nós imaginou que chegaria a este ponto. A verdade é que essa bolha
foi construída por um período longo, talvez uns 15 anos. Mas, com esse último
estouro, o que foi construído em uma década foi perdido em seis meses. Tudo virou
de cabeça para baixo, perdemos referências e só se via medo. Os EUA foram
construídos sobre o consumismo - insustentável, pois as pessoas consumiam além
das necessidades e os bancos lhes davam a possibilidade de fazer isso.
O que deu errado?
Retornos eram baixos, o crédito estava muito disponível, o gerenciamento de risco
lidava com tempestades de dez anos e tivemos uma de cem anos. As pessoas viam
um fenômeno global de crescimento em toda parte: Ásia, Brasil, Oriente Médio.
Todos eram movidos por consumismo e uma perspectiva americana de viver além
de suas necessidades.
E especificamente sobre as operações do Deutsche nos EUA?
Fomos melhor que os outros. Fomos o único que não pegou dinheiro do governo e
me orgulho disso. Ganhamos dinheiro no começo da crise, apesar de termos
perdido pela primeira vez no 4º trimestre em base anual, e disso não me orgulho.
Tivemos demissões. Mas agora estamos em boa posição.
O que vocês viram de diferente?
Primeiro, tivemos várias referências negativas do subprime, da bolha imobiliária e
nos afastamos. Outra coisa que contribuiu foi que, quando não conseguíamos
vender um produto, parávamos de lidar com ele. Também temos uma cultura de
crédito sólida e rigorosa. Nossa maior exposição era um negócio de títulos
alavancados. Era grande e tínhamos muitos empréstimos, mas vendemos quase
tudo.
O sr. teme regulação excessiva?
Sim, mas haverá mais regulação, merecida. O sistema financeiro falhou, as
instituições falharam, foi uma vergonha para nós. Na conversa com Geithner, ele
disse que os EUA querem continuar o centro financeiro e para isso é preciso ser
exigente, mas não a ponto de perder competitividade.
Já vê luz no fim do túnel?
O governo tem papel chave. Um quarto da economia global é americana. O resto
do mundo não vai se recuperar enquanto os EUA não se recuperarem. Em seis ou
12 meses, haverá coisas acontecendo. Haverá dias negros, dificuldades, mas os
mercados estão reagindo. Estamos no caminho.
Quem é: Seth Waugh - É presidente do Deutsche Bank para as Américas,
operação que inclui Brasil e Estados Unidos, desde 2002.
É formado em Economia e Inglês pelo Amherst College.
- - - - - - - -- - - - - - - - - - - - - O Estado de S.Paulo 29 03 2009
JPMorgan parte em socorro
Jean Strouse *, INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE
No que pode ser a frase definitiva sobre nossa crise econômica, entrevistado no
programa "Squawk Box" da CNBC, este mês, Warren Buffet disse que a economia
dos Estados Unidos "despencou num abismo". O mais creditado investidor da
história foi ao ar para falar, com a franqueza e humor característicos, a horrível
verdade que já conhecemos muito bem, possivelmente para tentar acalmar as
coisas e dar algumas respostas que não sabemos ainda.
E ele prosseguiu, dando sua opinião sobre o que deu errado ("todos achavam que
os preços dos imóveis só iriam subir...de modo que você tinha US$ 11 trilhões de
dívida de hipotecas residenciais gerada com base nesta teoria"), sobre o medo e a
confusão que estão paralisando as pessoas e sobre a necessidade de sanear os
bancos e adotar uma ação clara, decisiva.
Um exame da maneira como foi conduzida outra crise financeira um século atrás
realça esse argumento em favor de uma ação decisiva.No início de 1906, o
banqueiro Jacob Schiff disse a um grupo de colegas que, se os Estados Unidos não
modernizassem os sistemas monetário e bancário, a economia, iria cair num
abismo e o país "entraria em tamanho pânico, a ponto de outros pânicos anteriores
parecerem "peça infantil".
Mas o país não reformou suas instituições financeiras, e as condições pioraram
continuamente nos 20 meses seguintes. Houve falta de crédito global. O mercado
de ações entrou duas vezes em colapso. A jovem Média Industrial Dow Jones
perdeu metade do seu valor.
Em outubro de 1907, quando o pânico se instalou em Nova York e aterrorizou os
depositantes, que fizeram filas para tirar o dinheiro, a previsão lúgubre de Schiff
parecia se tornar verdade. Os Estados Unidos não tinham um Federal Reserve, o
secretário do Tesouro não tinha autoridade política, e o presidente, Theodore
Roosevelt, estava caçando na Louisiana.
J. Pierpont Morgan, um banqueiro de 70 anos, se encarregou da situação. Na
ausência de um banco central, Morgan durante décadas funcionou como instituição
de empréstimo não oficial do país, juntando reservas e fornecendo capital aos
mercados em períodos de crise.
Durante duas angustiantes semanas, em 1907, ele agiu como um general,
mobilizando três jovens lugares-tenentes para fazer o trabalho de campo, suprindoo com informações, e trazendo para seu lado dois banqueiros importantes: James
Stillman, do National City Bank, e George Baker, do First National Bank, que
formaram um "trio" que tomava as decisões executivas. (O First National e o
National City acabaram se unindo, para formar o que é hoje o Citigroup - Baker e
Stillman não estariam se contorcendo no túmulo ao ver no que acabou se tornando
o descendente das suas instituições?)
As equipes de Morgan fizeram "testes de estresse" com os trustes financeiros não
regulamentados, para saber quais estavam muito endividados e teriam de falir e
quais estavam saudáveis, apesar de avariadas. Uma vez determinado que uma
instituição estava saudável, os banqueiros emprestavam dinheiro, casando dólares
com os ativos colaterais da instituição.
Quando a Bolsa de Nova York quase fechou num certo dia de outubro de 1907,
porque as instituições financeiras resgatando empréstimos estavam asfixiando a
base monetária, Morgan reuniu os presidentes dos maiores bancos de Nova York e
propôs emprestar US$ 24 milhões à bolsa. Em seguida, a cidade de Nova York ficou
sem caixa e eles levantaram um empréstimo de US$ 30 milhões e evitaram a
insolvência.
No final da primeira semana, o presidente Roosevelt enviou carta à imprensa
congratulando-se com os "abastados empresários que, nesta crise, agiram com
grande sabedoria e espírito público". Carregamentos de ouro estavam a caminho de
Nova York e a confiança voltou "devido"- informava o jornal - "à crença de que
homens de peso das finanças americanas tiveram sucesso nos esforços para
reprimir o espírito de pânico". No final da segunda semana, Morgan reuniu 50
presidentes de trustes financeiros em sua biblioteca, trancou as portas e não
permitiu que saíssem enquanto não assinassem um empréstimo de US$ 25
milhões.
Embora Morgan tivesse um enorme sentido de dever público, seu interesse pessoal
também operava em escala nacional. Seus clientes - muitos deles europeus que,
durante décadas, investiram na emergente economia americana por meio da House
of Morgan - tinham bilhões de dólares nos Estados Unidos. Ao cuidar dos interesses
a longo prazo desses clientes, tentando controlar os excessos do ciclo econômico e
manter o valor do dólar, Morgan servia como guardião do crédito americano nos
mercados internacionais.
Em 1907, seu poder derivava não só do tamanho da fortuna pessoal, mas da
confiança depositada nele por investidores, outros banqueiros e estadistas
internacionais. Após a sua morte em 1913, os jornais informaram que a fortuna
líquida deixada por ele era de US$ 80 milhões - cerca de US$ 1,7 bilhão em dólares
de hoje. Dizem que John D.Rockefeller, que já tinha uma fortuna de US$ 1 bilhão
de 1913, ao saber daquela cifra, balançou a cabeça e observou: "E pensar que ele
nem era rico".
A confiança em Morgan não era universal. Em 1907, alguns críticos o acusaram de
ter iniciado o pânico para comprar os ativos a preços de liquidação e encher os
bolsos. Na verdade, os bancos de Morgan perderam US$ 21 milhões naquele ano.
Hoje, a grande dificuldade de atribuir valores em dólar para ativos "tóxicos" faz
com que o trabalho de Morgan pareça fácil. Mas, embora o volume de dinheiro
exigido para os pacotes de socorro financeiro em 1907 seja um mero trocado em
comparação com os atuais trilhões, na época as dificuldades, e as cifras, eram
enormes.
Hoje, com os mercados em colapso, ninguém, muito menos um banqueiro privado,
conseguirá assumir o tipo de poder exercido por Morgan cem anos atrás. E até
agora, nem mesmo a junção de poderes oficiais do Fed e do Tesouro conseguiu
conter os desastres em cascata.
Paul Volcker, ex-chairman do Federal Reserve, disse que não consegue se lembrar
de uma época "talvez nem mesmo na Grande Depressão, em que as coisas
decaíram de modo tão rápido em todo o mundo".
Talvez uma nova liderança econômica surja nesta crise, sob o nosso talentoso e
carismático presidente. Parece provável que ela vá se constituir de pessoas que
tenham o tipo de experiência, julgamento e autoridade de Morgan - possivelmente
um novo "trio", formado pelo atual chairman do Fed, Ben Bernanke, Paul Volcker e
Warren Buffett.
Buffett disse que podia "garantir" que em cerca de cinco anos "nossa grande
máquina econômica" estará funcionando muito mais rápido do que agora, com o
governo assumindo enorme papel na rapidez com que ela vai se recuperar.
No outono do ano passado ele declarou que estávamos atravessando um "Pearl
Harbor econômico". Na semana passada, ele disse que, para combater esta guerra
econômica, o país tem de se unir em apoio ao presidente Obama, o governo tem de
enviar "mensagens muito claras" e nós temos de nos concentrar em três tarefas:
vencer a guerra econômica; vencer a guerra econômica; vencer a guerra
econômica.
É exatamente isso que Morgan teria dito.
*Jean Strouse é diretor do Cullman Center for Scholars and Writers, na
Biblioteca Pública de Nova York
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----------------Folha de S.Paulo 29 03 2009
Entrevista
JOSEPH STIGLITZ
Prêmio Nobel defende contrato
social global
DE GENEBRA
Há anos o economista americano Joseph Stiglitz alerta de que uma globalização
sem freios e regras será o aumento do fosso entre ricos e pobres. Em seus livros, o
Nobel de Economia de 2001 defende um contrato social global, em que as nações
desenvolvidas abririam seus mercados aos emergentes em favor de um regime de
comércio com mais igualdade. Mas a crise financeira reforça o risco de que ocorra
justamente o contrário, deflagrando uma onda de protecionismo a partir dos países
desenvolvidos. Se isso ocorrer, diz Stiglitz, os maiores prejudicados serão os países
em desenvolvimento. "A crise não começou nos países pobres, mas são eles que
pagarão a parte mais pesada da conta", disse o economista à Folha, em recente
passagem por Genebra. (MN)
FOLHA - O sr. concorda com o premiê Gordon Brown, sobre o risco de
desglobalização?
JOSEPH STIGLITZ - O risco é substancial. A globalização gerou benefícios para
muitos países, mas também criou riscos enormes. Caso não haja as reformas
necessárias, os benefícios da integração dos mercados desaparecerão, e só
permanecerá o lado negativo da globalização, que é a dependência excessiva de
fluxos externos de capital. Seria o pior dos mundos.
FOLHA - Qual a consequência?
STIGLITZ - Se o Ocidente aumentar o protecionismo, isso criará grande
instabilidade e poderá reverter os avanços dos últimos anos. As reações serão
inevitáveis. Com o aumento da pobreza, muitos governos terão argumentos
bastante convincentes para resistir à globalização.
FOLHA - Há protecionismo?
STIGLITZ - Algumas das coisas que os Estados Unidos estão fazendo podem não
provocar efeitos concretos, mas têm um enorme poder simbólico. Um bom exemplo
disso é a cláusula "Buy American".
FOLHA - Quem vai se prejudicar?
STIGLITZ - Os países em desenvolvimento. Espero que os mais ricos tenham
sensibilidade para evitar isso.
----------------------------------OUTRAS NOTÍCIAS
Folha de S.Paulo 29 03 2009
Crise econômica gera
desglobalização
Queda em indicadores de integração, como movimento de bens, de capitais
e de pessoas, mostra tendência de declínio da globalização
Por conta da desaceleração, OMC já estima que comércio global terá
retração de 9% neste ano, a maior desde a Segunda Guerra Mundial
MARCELO NINIO
DE GENEBRA
A vertiginosa desaceleração da economia mundial adiciona à pauta do G20 um
termo até agora restrito ao desejo dos ativistas anticapitalismo: desglobalização.
Com os indicadores de integração dos mercados em queda livre, a globalização
perde fôlego e ameaça mostrar sua face mais desigual.
Muitos alegam que o avanço tecnológico e a interdependência econômica
revolucionaram a tal ponto os meios de produção que tornaram o processo
irreversível. Mas os números mostram recuo em três elementos que definem a
globalização: o movimento de bens, de capitais e de pessoas.
Na semana passada, a OMC (Organização Mundial do Comércio) previu que o
comércio global terá neste ano a maior queda desde a Segunda Guerra Mundial,
com contração de 9%. O declínio drástico da demanda e o bloqueio nos canais de
financiamento fizeram desabar o volume das transações. Para piorar, barreiras
protecionistas começam a ser erguidas em todos os continentes.
Em janeiro, a Iata (Associação Internacional de Transporte Aéreo) registrou queda
de 23,2% no transporte de cargas em relação ao mesmo mês de 2008. "É um claro
sinal de que o pior da crise ainda está por vir", disse o diretor-geral da Iata,
Giovanni Bisignani, observando que mais de um terço do comércio mundial de bens
é feito por via aérea.
A crise também reduziu o movimento de pessoas. O número de passageiros de
voos pelo mundo caiu 5,6% em janeiro. O de turistas, que vinha crescendo 5%
anualmente, encolheu 1% no último semestre, informou a Organização Mundial do
Turismo.
Isso sem falar nas restrições à imigração. Em tempos de prosperidade,
trabalhadores estrangeiros eram atraídos pelos países ricos para suprir a falta de
braços, principalmente no setor de construção civil de países como Estados Unidos,
Espanha, Reino Unido e Irlanda. Agora que a bolha estourou e o desemprego bate
recordes, eles passaram a ser vistos como competidores indesejados.
Nas estações de metrô de Madri, anúncios do governo incentivam imigrantes a
deixar o país, oferecendo 450 para os custos de viagem. Nos Estados Unidos, o
governo dá incentivos a empresas para contratarem funcionários americanos.
A OIT (Organização Internacional do Trabalho) calcula que a crise poderá eliminar
até 40 milhões de empregos no mundo até o fim do ano, grande parte entre a
população "vulnerável", como a imigrante.
Retrocesso na integração
O termo desglobalização tornou-se conhecido como uma proposta do economista
filipino Walden Bello. Veterano crítico do capitalismo, Bello prega um retrocesso no
processo de integração mundial para reduzir a dependência exterior.
Mas o que é uma estratégia para Bello pode estar sendo precipitado pela crise,
alertou em janeiro o premiê Gordon Brown. Anfitrião da cúpula do G20 em Londres,
na próxima quarta-feira, Brown deve repetir a advertência.
"Pela primeira vez vemos fluxos internacionais de capital crescerem menos que os
domésticos e os bancos favorecerem empréstimos nacionais em vez de
estrangeiros. Essa é uma tendência que temos de deter para evitar uma perigosa
espiral de desalavancagem e desglobalização, com consequências adversas para
todas as economias."
O fluxo de investimento estrangeiro direto (IED) teve queda mundial de 21% em
2008 e deve levar um tombo ainda maior neste ano. Mesmo entre os maiores
países emergentes, que nos últimos anos foram os destinos preferidos, haverá forte
queda. No Brasil, que recebeu US$ 43,8 bilhões em 2008, o BC estima que o fluxo
cairá pela metade.
Mas as maiores vítimas são os países mais pobres. "Os combustíveis da integração
são o comércio e o financiamento", disse à Folha Donald Kaberuka, presidente do
Banco Africano de Desenvolvimento.
"Para os países ricos, a falta de acesso ao crédito significa perda de casas e de
empregos. Mas na África são as vidas que estão em perigo."
Uma clara preocupação é o protecionismo, diz Norbert Jorek, da consultoria A.T.
Kearney, responsável pelo índice de globalização publicado pela revista "Foreign
Policy". Ele vê "hipocrisia" nos discursos de líderes como Brown, que no exterior
prega o livre comércio, mas defende "empregos britânicos para os britânicos"
quando volta para casa.
-------------Folha de S.Paulo 28 03 2009
ROBERTO RODRIGUES
Bons projetos e boas intenções
É preciso buscar uma economia
verde, mas sem radicalismo e
com bom senso, mantendo o
lucro na atividade produtiva
NO FINALZINHO de fevereiro, tive a oportunidade de participar da abertura do
Global Seed Vault, um projeto muito interessante localizado em Svalbard, Noruega,
já no círculo polar Ártico. Iniciada há um ano, o objetivo dessa "Arca de Noé" de
sementes é guardar, em temperatura controlada, sementes das plantas alimentares
do mundo todo, com o objetivo de garantir a preservação da biodiversidade.
Bancado por um fundo internacional em parceria com o governo da Noruega, o
notável projeto aspira a ser um banco de germoplasma mundial à disposição da
humanidade, para o caso de catástrofes de quaisquer naturezas destruírem o que
existe nas diferentes regiões do planeta.
Depois de um ano de atividades, a direção do Vault e o governo da Noruega
levaram algumas pessoas a visitarem o projeto, aproveitando a ocasião para
realizar um seminário sobre diversidade. Gente respeitável tratou do tema com
visão científica e preocupação com a sustentabilidade da produção agrícola
mundial.
Tenho participado de eventos similares em vários países e, ao mesmo tempo em
que admiro projetos dessa magnitude e a capacidade de realizá-los por meio de
ações coordenadas entre os setores público e privado de diferentes regiões,
preocupa-me um tema que, não explicitado, aparece meio "sombreado" em
algumas discussões primeiro-mundistas. Vou exagerar nas cores para mostrar essa
preocupação.
Os países ricos esperam que os agricultores de todos os quadrantes produzam mais
alimentos, fibras e energia por hectare, mais baratos e sustentavelmente. Mas
gostariam que tudo isso fosse feito com menos fertilizantes químicos, menos
defensivos, usando pouca água, sem transgênicos, reduzindo as emissões de CO2
pelas máquinas agrícolas, sem ocupar mais terra...
E desejam que se realize mantido o protecionismo, com insuficientes recursos
destinados à pesquisa e à tecnologia, sem coordenação entre os países na direção
de políticas consistentes a favor da produção e enfrentando o preconceito de boa
parte da sociedade urbana e da academia em relação a esse setor. Descontado o
exagero, é claro que a equação não fecha: sem renda, a produção não aumentará.
Em Svalbard, onde há um projeto concreto e exitoso resultante de coordenação de
esforços, o seminário concluiu pela necessidade de que os formuladores de políticas
a favor da produção sustentável precisam sair da sua inércia institucional e, com
transparência, promover mudanças que permitam a preservação da biodiversidade
sem afetar o crescimento da oferta agrícola global.
E recomendam que isso se faça por meio da maciça informação dessas questões à
opinião pública em geral e do diálogo construtivo entre o público e o privado,
internacionalmente. Está tudo muito bem.
Os modernos discursos de Gordon Brown e mesmo do presidente Barack Obama
apontam para a busca de uma economia verde. Propõem que a crise sirva como
alavanca para um novo modelo de desenvolvimento baseado na real
sustentabilidade em suas três vertentes: econômica, social e ambiental. Isso é
correto e devemos todos, particularmente os produtores rurais, embarcar nessa
canoa. Mas sem radicalismo: com bom senso, equilíbrio e inteligência, será possível
fazê-lo, mantendo o lucro na atividade produtiva, motor de qualquer programa de
desenvolvimento.
ROBERTO RODRIGUES, 66, coordenador do Centro de Agronegócio da FGV,
presidente do Conselho Superior do Agronegócio da Fiesp e professor do
Departamento de Economia Rural da Unesp - Jaboticabal, foi ministro da
Agricultura (governo Lula).
-- - - - - - - - - - - - - - - - O Estado de S.Paulo 28 03 2009
China avança na nanotecnologia
Pesquisadores desenvolvem de alto-falante com um milímetro de espessura a
roupas que monitoram a saúde
Tom Mackenzie
Sentados em um dos laboratórios científicos mais avançados da China, dois
estudantes de doutorado, vestidos dos pés à cabeça com roupa branca de proteção,
escutam à canção pop "Hero", da cantora Mariah Carey. Não é o som, mas a faixa
transparente de um milímetro de espessura que captura a atenção deles - um altofalante nanométrico que promete revolucionar onde, e como, ouvimos música.
"Isto é tecnologia de ponta", disse o professor Shoushan Fan, diretor do laboratório
de nanotecnologia da prestigiosa Universidade Tsinghua, de Pequim. Sem precisar
de um cone, um ímã ou um amplificador, o alto-falante, que se parece mais com
um filme fino de plástico transparente, pode ser usado para transformar quase
qualquer superfície num auditório. Ele é feito de nanotubos de carbono que, quando
aquecidos, fazem o ar ao seu redor vibrar, produzindo o som. "O alto-falante é
dobrável e flexível", disse Fan. "Você pode prendê-lo na janela de trás do seu carro
e tocar música a partir dali."
O alto-falante de Fan é somente a ponta do iceberg do programa ambicioso de
nanotecnologia da China, que tem o potencial de transformar sua economia
baseada em exportações e praticamente cada aspecto de nossas vidas, de comida e
roupas a medicina e exército.
A nanotecnologia - manipulação da matéria em escala atômica para desenvolver
novos materiais - é um setor que deve movimentar cerca de US$ 2 trilhões em
2012, e a China está determinada a conquistar o maior pedaço desse mercado.
Seu investimento já ultrapassou o de qualquer outro país depois dos Estados
Unidos. Desde 1999, os gastos da China em pesquisa e desenvolvimento subiu
mais de 20% por ano. Um incentivo maior veio do pacote de estímulo de US$ 585
bilhões, anunciado pelo governo este ano, que destinou US$ 17,5 bilhões para as
atividades de P&D.
"A tendência geral é irrefutável", disse o Dr. James Wilsdon, diretor do Centro de
Política Científica da Royal Society, e autor do relatório China: a nova superpotência
científica?. "A China está alcançando a maioria das nações desenvolvidas em
termos de pesquisa e desenvolvimento, em termos de cientistas ativos na área, em
termos de publicações e em termos de patentes."
Fan espera que a crise econômica, que levou ao fechamento milhares de fábricas
chinesas, force o país a passar de um fabricante de produtos de baixo custo, como
brinquedos e calçados, para bens de alta tecnologia, como telas nanométricas
sensíveis ao toque para telefones móveis. Sua equipe está trabalhando para
substituir o óxido de estanho e índio (ITO, na sigla em inglês), usado em telas
sensíveis ao toque encontradas em Blackberrys e iPhones. "O ITO é muito caro e
quebra quando dobrado", ele disse. "Estamos desenvolvendo filmes finos de
nanotubos para substituir o ITO. Eles podem ser dobrados e são muito mais
baratos."
A China produz hoje mais publicações científicas sobre nanotecnologia do que
qualquer outro país. Fábricas de produtos nanotecnológicos floresceram em cidades
desde Pequim, ao norte, a Shenzhen, ao sul, trabalhando em produtos que incluem
asfalto que absorve poluentes e roupas forradas com nanotubos que podem
monitorar a saúde.
No mês passado, pesquisadores da Universidade Nanjing e colegas da Universidade
de Nova York divulgaram a criação de nanorrobôs com dois braços que podem
alterar o código genético. Eles permitem a criação de novas estruturas de DNA, e
poderiam constituir uma fábrica para produzir os componentes de novos materiais.
"As áreas em que a nanotecnologia já está sendo usada são infinitas", disse
Wilsdon. "É o resultado do investimento direcionado para o desenvolvimento e o
refinamento de novos nanomateriais. E os chineses têm foco nessa área porque ela
é próxima do mercado."
A China, como os Estados Unidos, também deve estar destinando muito do seu
investimento de P&D para aplicações militares. "Existe muita preocupação sobre o
uso da nanotecnologia como arma", disse Wilsdon. "Estou certo de que a China
gasta parte importante de seu orçamento de P&D para uso militar."
Tim Harper, fundador da consultoria de nanotecnologia Cientifica Ltd, disse que os
compostos de nanotubos de carbono podem ser usados para fortalecer superfícies
de metal, que coberturas anti-risco estão sendo desenvolvidas para painéis e que
os pesquisadores estão tentando encontrar um substituto nanométrico para
baterias de uso militar.
----------O Estado de S.Paulo 28 03 2009 Editorial
Lula em dia de Chávez
Desta vez, a queda pela demagogia o traiu e
envergonhou o País
É extremamente positiva a imagem projetada pelo presidente Lula, no mundo,
desde que assumiu o governo. Alvo de interesse e curiosidade compatíveis com a
singularidade de sua biografia e trajetória política, dele se sabia que era o primeiro
dirigente de um país do porte do Brasil a vir de muito baixo na escala social e que
ascendera pela força de sua determinação e o impulso de seu invulgar talento para
liderar. Pesava contra ele, no entanto, a imagem de radical raivoso, construída na
condução de um partido que propunha "acabar com tudo isso que está aí". Não
faltava quem desconfiasse de que a América Latina produzira mais um populista
falastrão, cuja falta de preparo explicava a sua hostilidade à democracia liberal e à
economia de mercado. E não faltava quem deplorasse, antes de conhecê-lo, o
contraste com o seu antecessor.
Surpreendendo os céticos e desarmando os pessimistas, em pouco tempo Lula
adquiriu junto aos dignitários, investidores e formadores de opinião do mundo
desenvolvido um prestígio e até uma simpatia que beneficiaria imensamente o
Brasil. De fato, não havia na cena internacional, nesse começo de século, um chefe
de governo que combinasse como ele duras experiências pessoais, escassa
escolaridade, aguda sensibilidade social, mas também instintiva facilidade para
estabelecer improváveis relacionamentos calorosos - que o diga o ex-presidente
George W. Bush - e, principalmente, capacidade de ouvir e assumir posições
razoáveis no trato das questões que o levavam a correr o mundo. Esse notável Lula
que aqui se evoca é como se não tivesse existido perto do Lula que acaba de se
destacar na grande imprensa estrangeira por soltar uma bobajada que ninguém
estranharia se tivesse saído da boca de um Hugo Chávez ou de um Mahmoud
Ahmadinejad. E, o que é pior, na mais inapropriada das circunstâncias.
Ao lado do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, na entrevista que se seguiu
ao encontro de ambos, no Palácio da Alvorada, Lula dissertou sobre a crise
mundial, atribuindo-a a "comportamentos irracionais de gente branca, de olhos
azuis, que antes parecia que sabia tudo e que, agora, demonstra não saber nada".
Ficasse nisso, a tirada xenófoba já seria suficientemente constrangedora. Mas ele
se desmoralizou de vez na resposta a um perplexo jornalista britânico que lhe
perguntou se essa visão não exprimia um viés ideológico. "Como eu não conheço
nenhum banqueiro negro ou índio", emendou num raciocínio trôpego, "só posso
dizer que não é possível que essa parte da humanidade que é a mais, eu diria,
vítima do mundo (sic) pague por uma crise." De fato, ele não conhece, nem de
ouvir falar, o negro Stan O’Neil, ex-presidente do Merrill Lynch, ou o negro Frank
Raines, ex-presidente da Fannie Mae, duas instituições financeiras americanas cujo
comportamento irracional ajudou a desencadear o colapso de Wall Street. E, se
fossem brancos de olhos azuis, que diferença faria?
Não é preciso muita imaginação para adivinhar o que terá pensado nessa hora o
premier britânico, que fez uma parada no Brasil a caminho de um evento no Chile,
para tratar com Lula da reunião dos líderes dos países que integram o G-20, a se
realizar na próxima quinta-feira, em Londres - e que poderá ser um marco na busca
de soluções para a crise. Brown, um dos mais ativos líderes mundiais da
atualidade, foi um dos primeiros a valorizar a participação do Brasil nessa
espinhosa empreitada, respaldando o protagonismo do presidente brasileiro. Não
havia no encontro entre ambos, portanto, ambiente para tiradas populistas ou
estocadas inoportunas como a alusão de Lula ao "preconceito contra os imigrantes
nos países desenvolvidos". Esse é um problema crescente na Grã-Bretanha, mas
nada tem que ver com a crise, muito menos com o empenho de Brown em reavivar
o comércio mundial - ele anunciou em Brasília que proporá na cúpula do G-20 a
criação de um fundo de US$ 100 bilhões para financiar a retomada do intercâmbio
de bens e serviços.
Quando sobe aos palanques, Lula se compraz em dizer o que lhe dá na telha, sem
se preocupar com as consequências. Desta vez, a queda pela demagogia o traiu e
envergonhou o País, que, aliás, sob o seu governo, se beneficiou mais do que
qualquer outro dos resultados fabulosamente positivos do "comportamento
irracional da gente branca de olhos azuis", para a economia global, até o estouro da
bolha.
--------------Folha de S.Paulo 29 03 2009
ELIANE CANTANHÊDE
"Olhos azuis", o surto chavista
VIÑA DEL MAR - Ser "branca azeda" foi um pesadelo de gerações de adolescentes
brasileiras. Passavam horas sob o sol escaldante, sem filtro (nem existia), e tudo o
que conseguiam era uma vermelhidão de doer, descascar dos pés à cabeça e, no
meu caso, centenas de pintas no corpo e três cânceres na cara.
Não tenho culpa de não ser um Michael Jackson às avessas nem por crise
nenhuma, muito menos pela maior crise econômica mundial desde a Segunda
Guerra. Nem eu nem milhões de cidadãos que não são negros, nem índios, e
condenam o racismo com igual veemência. Todo racismo. Lula perdeu uma bela
chance de ficar calado, ao culpar os "brancos de olhos azuis" pela crise. E
justamente ao lado do primeiro-ministro britânico Gordon Brown -que, segundo a
imprensa londrina, ficou "constrangido".
Poderia ser só mais uma brincadeirinha errada, na hora errada e com a pessoa
errada, não fosse o chavismo que há nela e que remete a outros episódios. Lembra
do discurso de Lula na Namíbia, "tão limpinha que nem parece a África"? E do
"ponto G" na entrevista ao lado de Bush? E do "pepino" depois do encontro com
Obama?
As metáforas futebolísticas rendem pontos para Lula nas pesquisas no Brasil. Mas
expressões de caráter sexista e de incitação racista diante de outros governantes e
sob holofotes internacionais soam ridículas, coisa para Chávez e Evo Morales, de
países rachados ao meio e em crise. Não é o caso do Brasil, que tem estabilidade,
almeja uma vaga no conselho permanente da ONU e quer falar de igual para igual
no G20 nesta semana.
A frase de Lula parece inocente, mas reflete um preconceito de alma contra
"brancos de olhos azuis" e recicla o lance marqueteiro de eleger um inimigo comum
para mobilizar a massa: a tal "elite branca", que não aceita o pobre migrante
nordestino porque é (ou foi, há décadas) migrante nordestino. Não é coisa de
Chávez?
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---------------O Estado de S.Paulo 28 03 2009
''Não é hora de pedir aumento'', diz Lula
Para presidente, trabalhador não vai se beneficiar em época de crise
Ricardo Brandt
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mandou ontem um recado aos trabalhadores:
não é hora de pedir aumento. Em discurso para empresários do setor da
construção, em São Paulo, Lula disse que, sem produção, não há como evitar o
desemprego no País.
"Hoje, mais do que fazer uma pauta de reivindicações pedindo mais aumento,
temos que contribuir para que a empresa venda mais, porque quanto mais ela
vender, mais vai ter trabalhador contratado e mais a gente pode reivindicar
aumento", disse o presidente. "Como fui sindicalista, sei que, quando há uma crise
econômica em que a empresa não está vendendo seu produto, não há como a
gente brigar para segurar o trabalhador", completou.
Lula admitiu que "não existe possibilidade" de os trabalhadores se beneficiarem em
momentos como esse. "Época de crise é época em que todos perdem", disse Lula
durante visita à 17ª Feira Internacional da Indústrias da Construção (Feicon), no
Anhembi, em São Paulo.
Dias depois de lançar o programa "Minha Casa, Minha Vida", que prevê a
construção de 1 milhão de casas populares, Lula defendeu a necessidade de manter
a economia girando.
"Muita gente ficou preocupada porque eu fui no dia 22 de dezembro em rede
nacional de televisão fazer um apelo para que o povo brasileiro não deixasse de
consumir. Eu, que a vida inteira preguei contra o consumismo, fui para a televisão
dizer que era hora de consumir." Segundo ele, seu gesto era para mostrar que,
sem produção, a crise atingiria o País. "O povo não comprando, o comércio não
vendendo, a indústria não produzindo seria um caos econômico em qualquer país."
Lula voltou a afirmar que não haverá pacotes contra a crise. "O governo vem
tomando as medidas adequadas, não tomamos a decisão de fazer nenhum grande
pacote, porque todos os pacotes feitos neste país viraram esqueleto e depois o
governo tem de pagar", justificou.
G-20
O presidente, que embarcou ontem para uma viagem por vários países (Chile,
Catar e França), terminando no Reino Unido, para a reunião do G-20 em Londres,
disse que vai levar ao encontro dos líderes das maiores economias do mundo a
seguinte tese: "Se a gente ficar com medo, tentando resolver apenas o problema
dos banqueiros que quebraram, a crise não vai acabar. É preciso que se coloque os
títulos podres no arquivo morto, que se coloque dinheiro novo para fazer crédito e
vamos tocar o barco para a frente, senão os pobres do mundo é que vão pagar".
''Ele não teria a ousadia de dizer isso numa
assembleia''
Marcelo Rehder
A recomendação do presidente Lula para que os trabalhadores ajudem as empresas
a sair da crise, em vez de pedir aumento de salários, foi duramente criticada por
sindicalistas. "Ele não teria a ousadia de dizer isso numa assembleia de
metalúrgicos do ABC, no tempo em que era sindicalista", disse Antonio Carlos Spis,
primeiro tesoureiro da Central Única dos Trabalhadores (CUT).
Na avaliação de Spis, o conselho do presidente é "absurdo", porque, segundo ele,
as empresas nunca chamam os sindicalistas para discutir quando têm lucro. "Agora,
na hora do prejuízo vamos ter que nos apresentar para salvar a empresa?"
Para o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, a
recomendação é incoerente com a vida de Lula. "Quando era presidente do
Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo, Lula nos ensinou que mais salários
significa mais dinheiro para as pessoas comprarem, o que faz as lojas venderem
mais, as fábricas produzirem mais e o País crescer", disse. "Ou ele desaprendeu ou
nós fomos ensinados errado."
Paulinho afirmou que os sindicatos da Força Sindical vão continuar s brigar por
aumentos reais de salários. Com data-base em 1º de maio, os 300 mil
trabalhadores da construção civil de São Paulo querem que os salários sejam
reajustados em 5,5%, além da reposição das perdas com a inflação. E já marcaram
greve para o dia 27 do mês que vem. "Patrão e governo são iguais a galo velho, só
amaciam na pressão", diz Antônio de Sousa Ramalho, presidente do sindicato da
categoria.
-------------O Estado de S.Paulo 29 03 2009
Ilusão estatística atenua o desemprego
Em fevereiro, segundo a Pesquisa Mensal do Emprego (PME) do IBGE, o índice de
desocupação aumentou 0,3 ponto porcentual sobre janeiro, passando de 8,2% para
8,5% da população ativa das seis maiores regiões metropolitanas, mas foi menor
que o de fevereiro de 2008 (8,7%) e os dados foram vistos como "menos ruins" do
que o esperado.
Mas, de fato, houve uma ilusão estatística: menos pessoas procuraram emprego no
mês passado. Isso é mais importante do que os números absolutos, que permitiram
mascarar os dados. O recuo bastou para mostrar que "o mercado de trabalho não
está absorvendo" trabalhadores e "o cenário econômico não é favorável", disse o
gerente do IBGE Cimar Azeredo.
Entre janeiro e fevereiro, 211 mil vagas foram fechadas nas seis capitais
pesquisadas, segundo o IBGE, afetando muito a indústria. A renda média do
pessoal caiu 0,1%, de R$ 1.323,17 para R$ 1.321,30, e o rendimento médio real
domiciliar por habitante caiu mais (1%).
Em São Paulo, o índice de desocupação atingiu 10%, inferior apenas ao de Salvador
(11%). O rendimento médio domiciliar na capital paulista caiu 2,6%, de R$ 981,46
para R$ 956,19 - ou R$ 25 a menos. Na indústria, a renda caiu 10%.
Proporcionalmente, a queda foi ainda maior no Recife (3,5%), com redução de
quase R$ 18 no rendimento mensal.
Segundo a Fundação Seade, na região metropolitana de São Paulo o nível de
ocupação caiu 2% entre janeiro e fevereiro de 2009 - o que corresponde à redução
de 179 mil postos de trabalho. Porcentualmente, a queda teria sido muito maior se
87 mil pessoas não tivessem desistido de procurar emprego.
Por ora, os números de fevereiro de 2009 ainda são melhores do que os de
fevereiro de 2008. Mas, salvo uma reação forte - e inesperada - do mercado de
trabalho, a tendência é de piora na comparação anual, perdendo-se, aos poucos, o
que havia sido ganho em 2008, ano de forte aumento do PIB.
Menos emprego com carteira assinada e menos rendimento repercutem
desfavoravelmente na Previdência Social (o déficit do INSS, em fevereiro, foi
20,1% superior ao de fevereiro de 2008), na demanda de crédito nos bancos, que
cresce mais devagar, e na inadimplência, que está se agravando.
Isso mostra a importância de que programas oficiais de impacto, como o pacote
habitacional, lançado na quarta-feira, sejam eficientes e não meramente
eleitoreiros, propiciando, de fato, a geração de empregos.
----------O Estado de S.Paulo 29 03 2009
Brasil se alia à UE contra os EUA
País ficará do lado dos europeus por sistema global de regulação financeira; americanos
defendem solução?caseira?
Denise Chrispim Marin e Rui Nogueira, BRASÍLIA
A cúpula do G-20 em Londres, na quinta-feira, será o palco de um embate entre a União
Europeia (UE), que defende a criação de um sistema global de regulação do mercado
financeiro e de suas instituições, e os EUA, que insistem na adoção de receitas domésticas de
controle do setor. O Brasil, que tem a oferecer a bem-sucedida experiência de um setor
financeiro nacional muito normatizado pelo Banco Central, vai se aliar à UE contra a
"regulação caseira" ao gosto americano.
Salvo propostas emergenciais de última hora, como a criação de um fundo de US$ 100 bilhões
para reativar o financiamento ao comércio, os líderes do G-20 terão poucos, porém
complicados, imbróglios a resolver em Londres. A reforma do Fundo Monetário Internacional
(FMI) foi decidida duas semanas atrás - nesse debate, o Brasil está alinhado com os EUA -,
assim como a injeção de mais recursos nessas instituições para o socorro das quebradas
economias do Leste Europeu. Caberá aos líderes definir quanto será aportado - se US$ 500
bilhões ou US$ 750 bilhões - e quem pagará a conta.
O governo brasileiro chegará ao encontro com um poder de ação alargado pela sua inclusão no
Comitê de Basileia de Supervisão Bancária e no Fórum de Estabilidade Financeira (FSF, na
sigla em inglês), além da perspectiva de aumentar seu poder de voto no FMI e no Banco
Mundial (Bird), ao final de suas reformas levados a cabo com amplo aval dos EUA. "O Brasil
terá no G-20 um papel condizente ao seu tamanho", avaliou ao Estado o ministro das Relações
Exteriores, Celso Amorim.
O acúmulo de aliados, entretanto, não diminui o desafio da UE. Neste seu primeiro encontro
multilateral, o presidente dos EUA, Barack Obama, deve resistir à regulação global do sistema
financeiro escudado em duas iniciativas tomadas pelo Tesouro americano na semana passada:
o superpacote de US$ 1 trilhão para a compra de "ativos tóxicos" das suas instituições
financeiras, e a decisão de pedir ao Congresso a ampliação de seu poder de regulação e
supervisão dos bancos.
Com tais munições, os EUA tendem a defender que cada País faça a sua vigilância bancária - a
"regulação caseira" -, bloqueando o consenso em torno da proposta de conversão do FSF, que
atualmente coordena os debates sobre a recuperação do setor, em uma espécie de "inspetor
mundial" das finanças. O FSF poderia examinar periodicamente as políticas macroeconômicas
e financeiras nacionais, inclusive as dos países ricos, como a OMC faz com as políticas
comerciais dos sócios.
Outra proposta prevê a adoção de uma política anticíclica para evitar que os sistemas
crédito evoluam da pura euforia para depressões em que o crédito evapora por completo.
momento de maior liquidez, os países adotariam travas duras no controle da qualidade
crédito. Há ainda a recomendação para que os bancos sejam transparentes na oferta
produtos financeiros - não escamoteando, por exemplo, a toxicidade dos "subprimes",
títulos podres da indústria das hipotecas habitacionais nos EUA.
de
No
do
de
os
"Os EUA têm sido, tradicionalmente, mais reticentes a qualquer tipo de supervisão externa
sobre suas finanças e a macroeconomia", disse Amorim. "Será um embate de princípios: o do
estímulo à concorrência (EUA) contra o da maior regulação (UE)", disse uma fonte da equipe
econômica.
--------------Folha de S.Paulo 29 03 2009
MST multiplica ONGs para não perder
repasses
Desde que Lula assumiu, 43 ONGs que têm alguma ligação com o
movimento sem terra já receberam R$ 152 milhões
Instituto criado em 2006, depois que braços jurídicos do MST se tornaram
alvo de investigações por supostos desvios, já lidera captação
MARTA SALOMON
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Sem placa na porta, uma sala no centro comercial de Brasília abriga, desde 2006, a
discreta sede do Itac (Instituto Técnico de Estudos Agrários e Cooperativismo).
Criado após os principais braços jurídicos do MST tornarem-se alvo de investigações
por desvio de recursos, o instituto conquistou, no ano seguinte, a liderança na
captação de verbas federais entre entidades que prestam serviços a sem-terra e
assentados, ao receber mais de R$ 4 milhões.
Ao lado de outras 42 entidades que receberam dinheiro em parcerias com o
governo, o Itac é comandado por pessoas vinculadas ao movimento dos sem-terra.
Seus dirigentes -Paulo Ueti e Gustavo Moura- aparecem como representantes
oficiais do MST no "Diário Oficial" da União. O rastreamento dos vínculos, feito pela
ONG Contas Abertas e pela Folha, mostra que o repasse de verbas a entidades
ligadas ao movimento desde 2003 se aproxima dos R$ 152 milhões.
O valor é mais de três vezes maior que os números conhecidos até aqui das
transferências feitas a quatro entidades associadas aos sem-terra -e dos quais o
TCU (Tribunal de Contas da União) busca reaver R$ 22 milhões supostamente
desviados em uma década.
Aos 25 anos, o MST nunca existiu juridicamente, não tem registro na Receita, não
pode fazer convênios com a União nem receber verbas diretamente. Por participar
de invasões de terras e prédios, também estaria impedido de receber dinheiro do
contribuinte.
Diferentemente do que afirmou o governo após as recentes invasões e as críticas
por descumprimento da lei lançadas pelo presidente do Supremo, Gilmar Mendes,
os repasses continuam ocorrendo. Eles beneficiam entidades menos visadas, como
a Cepatec, prima-irmã da Anca (Associação Nacional de Cooperação Agrícola), que
teve os bens bloqueados.
Na soma dos dois últimos anos, os repasses já ultrapassam aqueles feitos nos dois
primeiros anos de mandato de Lula (2003-2004): foram R$ 42 milhões para 34
entidades contra R$ 37 milhões para 26.
No período do governo Lula, 2005 registrou o maior volume de pagamentos ao
grupo de entidades ligadas ao movimento, justamente o ano da CPI da Terra e de
investigações no TCU apontarem o relacionamento. Em menos de dois meses e
meio, pagamentos feitos em 2009 a entidades cujos dirigentes mantêm vínculos
com o MST somavam, até o último dia 13, R$ 6,5 milhões, segundo o Siafi (sistema
de acompanhamento de gastos da União).
"Essas são entidades privadas cujos responsáveis pelos convênios têm relação
direta com o MST, os repasses podem ser ainda maiores e é preciso investigar se
os recursos foram aplicados de forma legítima", avalia o economista Gil Castelo
Branco, do Contas Abertas. Dos 925 convênios firmados por órgãos da União com
43 ONGs com vínculos com o MST, 114 estão inadimplentes.
Nos últimos anos, a Anca, o mais conhecido braço do MST, ao lado da Concrab
(Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária), perdeu espaço na captação
de verbas públicas. Em 2007, o lugar foi assumido pelo Itac. Desde o ano passado,
a liderança é ocupada pela Cotrasc (Cooperativa dos Trabalhadores da Reforma
Agrária de Santa Catarina), quinta colocada no ranking dos repasses no período do
governo Lula.
À sua frente, em terceiro lugar, destaca-se a Copetec (Cooperativa de Prestação de
Serviços Técnicos do Rio Grande do Sul). Por meio de um único convênio, o Incra
(Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) pagou R$ 8,3 milhões por
"alternativas viável [sic] para a solução de problemas básicos da sociedade
brasileira", segundo justificativa lançada no Siafi.
Álvaro Dellatorre, responsável pela Copetec, diz que o dinheiro só foi repassado
mediante a prestação de contas de serviços de assistência técnica e apoio na
execução de linhas de crédito do governo aos assentados, além de laudos de
vistoria encomendados pelo Incra. "É que misturam, falam que é repasse para o
MST porque a entidade é ligada ao movimento, mas são coisas diferentes", afirmou
Dellatorre.
Transferência
Logo depois de a Anca perder terreno na captação de recursos, a responsável legal
por parte de seus convênios, Gislei Siqueira Knierim, foi transferida para a Cepatec
(Centro de Formação e Pesquisa), listada entre as dez entidades que mais
receberam verbas federais no governo Lula: R$ 5,8 milhões.
Com sede em São Paulo, a entidade usou termos agora considerados inadequados
pelo governo para justificar o convênio com o Incra, que bancou reuniões e
distribuição de cartilhas para assentados: "Apesar do compromisso do governo
brasileiro com a questão, há setores da sociedade, sobretudo o latifúndio, que não
veem os ganhos coletivos da reforma, senão suas próprias perdas, engajadas em
maquinações políticas e jurídicas para barrar a luta dos trabalhadores".
Localizada pela Folha no escritório do MST em Brasília, Gislei preferiu se calar
sobre a atividade da entidade. "Eu já fui procuradora [da Cepatec], mas não sou
mais", disse. Ela teve o nome mencionado no relatório final da CPI da Terra por ter
supostamente desviado R$ 19,5 mil de um dos convênios assinados com a União,
quando era representante da Anca. Há três semanas, a entidade teve os bens
bloqueados.
-------------O Estado de S.Paulo 29 03 2009
Brasileiro abandona as marcas premium
Estudo da LatinPanel detecta avanço dos produtos mais baratos em 2008
Marili Ribeiro
Por cautela, já que os efeitos ainda não aparecem na renda, os brasileiros estão
migrando das marcas mais caras para as mais baratas. Artigos de limpeza são os
campeões na perda de consumidores que não estão mais dispostos a pagar por
marcas premium. No geral, os produtos de custo baixo e intermediário já
predominam na cesta de compras, como aponta estudo da empresa de pesquisas
LatinPanel ao comparar o consumo residencial em 2008 com o de 2007.
No segmento de limpeza, a movimentação foi mais sentida com aumento de seis
pontos porcentuais entre os consumidores que trocaram as marcas por oferta de
preço no ano passado. Essa migração representou queda de 21% em valor no
segmento, mesmo sem ter ocorrido redução do volume de compras. Itens como
água sanitária e detergente em pó estão entre os que mais perderam compradores
de marcas mais caras.
"As famílias estão readequando o orçamento, já que não deixam de comprar
embora estejam seletivas com o que compram", diz Fátima Merlin, diretora de
varejo da LatinPanel. "O avanço dos artigos de preços baixos e intermediários, em
detrimento das marcas premium, é uma medida de cautela e poderá se expandir ao
longo deste ano, se o atual cenário econômico vier a piorar com a aceleração do
desemprego."
O volume total das compras no universo pesquisado pela LatinPanel - que monitora
70 categorias de bens não duráveis em 8,2 mil domicílios no País - apontou, em
2008, crescimento de 2% em relação ao ano anterior. É um porcentual inferior aos
4% de aumento em 2007 ante 2006, mas indica, como avalia Fátima, que os
ganhos de renda entre 2005 e 2007 com as melhorias salariais não se diluíram.
Para a indústria, cada ponto porcentual perdido com a substituição de marcas de
maior valor representa milhares de reais perdidos. Isso requer reação rápida para
evitar perda da participação de mercado conquistada nos últimos anos com o
avanço da renda para as marcas talebans, ou populares.
O mantra recorrente entre empresários e executivos nos últimos meses tem sido o
de que o mercado interno vai garantir uma travessia amena do Brasil na crise
global. Afinal, destacam sempre que cerca de 60% do Produto Interno Bruto (PIB)
no País é fruto da movimentação do mercado interno. Menos de 16% resulta de
exportações, as mais prejudicadas com a retração do comércio externo.
Algumas das grandes companhias de setores de alimentos, bebidas e produtos de
limpeza e beleza, consultadas pelo Estado, preferiram não falar sobre suas
estratégias, caso se acelere ainda mais a substituição de produtos de maior valor
pelos de menores preços na ponta do varejo. Fato que, reconhecem, compromete a
rentabilidade dos negócios. Mas todas admitem que reduzir preços é uma das
intenções, assim como intensificar as ações promocionais nos supermercados.
A aceleração da troca de produtos captada pela pesquisa da LatinPanel em direção
aos produtos mais baratos só não afetou ainda a categoria de Higiene e Beleza,
onde o consumo em 2008 cresceu 11% em valor ante o ano anterior, justamente
entre os itens de preço mais alto. Pelas considerações de Fátima,seria uma reação
psicológica ao clima de crise que invade o dia a dia. "É uma forma de indulgência,
uma espécie de prêmio para suavizar a tensão de gastar com produtos que dão
prazer."
José Vicente Marino, vice-presidente de Negócios da Natura, endossa a opinião,
mas credita a manutenção dos gastos entre as marcas premium ao fato de a
categoria ser a que mais investe em inovação. "Na Natura, 67% do faturamento no
ano passado veio de produtos lançados nos últimos dois anos", diz ele. "Nas outras
categorias, não há índices de inovação no mesmo ritmo da nossa indústria. Talvez,
se houvesse, já teríamos substituído a velha água sanitária por algo mais
inovador."
Pelo levantamento da LatinPanel, a categoria desodorantes foi uma das que mais
sofreram com trocas por produtos de menor preço. O gasto das famílias com
marcas de baixo preço cresceu de 26%, em 2007, para 31% em 2008. E isso
ocorreu mesmo com os produtos de higiene como um todo tendo aumentado na
ponta das marcas premium de 44%, em 2007, para 49%, no ano passado.
----------------Folha de S.Paulo 29 03 2009
Brasil tem poucas armas contra crise,
diz EIU
Para Justine Thody, diretora para AL da Economist Intelligence Unit, só
Chile fez microrreformas necessárias contra crise. Consultoria ligada à
revista "The Economist", que previa retração de 0,4% na economia
brasileira neste ano, agora estima queda de 1,5%
CRISTIANE BARBIERI
DA REPORTAGEM LOCAL
O crescimento da América Latina depende da exportação de commodities, de
investimentos estrangeiros e da remessas de imigrantes -fatores em queda e com
tendência a piorar. Já o mercado interno está ameaçado pela retração no emprego
e nos ganhos sociais e ainda pela maior entrada de importados, sobretudo
chineses. Tudo somado, a tensão social tende a crescer, com risco de levar ao
aumento da criminalidade e, em alguns países, a colocar em risco as eleições.
Nesse cenário, o Brasil não passará impune, apesar de ser o país da região que
deve sofrer menor impacto. A previsão é de Justine Thody, diretora regional da
Economist Intelligence Unit. O braço da consultoria ligada à revista "The Economist"
reúne um time de 100 analistas fixos e outros 500 pesquisadores especializados em
projeções econômicas.
A consultoria acaba de aumentar sua previsão de encolhimento do PIB (Produto
Interno Bruto) do país. Um dos motivos é a pouca capacidade do governo de
manter, por longo prazo, políticas anticíclicas, como explica nesta entrevista.
FOLHA - A consultoria acaba de projetar que o PIB brasileiro encolherá
ainda mais em 2009. Será retração de 1,5%, em vez do -0,4% previsto
anteriormente. Por quê?
JUSTINE THODY - Apesar de o Brasil ter uma economia mais fechada do que
outros países e de ter mais resistência, a indústria é muito exposta à queda nas
exportações e nos investimentos. Isso terá reflexos no setor de serviços, com efeito
em cadeia. Na última semana, visitei clientes, falei com analistas e economistas e,
depois de conversar com as pessoas, estou contente com a projeção de retração de
1,5% [no PIB]. Não creio que a revisemos de novo.
FOLHA - Não revisará ainda mais para baixo. E para cima? A parada brusca
do fim do ano não pode ter sido apenas de ajuste?
THODY - A retomada da atividade no setor automobilístico, por exemplo, é um
caso muito especial. Há uma defasagem dos efeitos da crise que ainda não foi
sentida, entre outros, pelo setor de serviços. As dificuldades financeiras que as
empresas de pequeno e médio portes estão enfrentando também sofrem dessa
defasagem. Para eles, é mais difícil conseguir crédito, que também está mais caro.
Os pequenos e médios podem resistir até certo ponto, mas, se não melhorar -e
achamos que não melhorará rapidamente-, a resistência deles será minada.
FOLHA - A contração será forte?
THODY - A economia e a produção do Brasil estavam num patamar muito alto de
crescimento. Num contexto global, a contração será moderada. Ela acontecerá
porque, embora o sistema financeiro seja forte e bem capitalizado, ele não é isento
de efeitos externos. Além de a liquidez estar mais restrita, também há o efeito
multiplicador da queda da produção industrial, afetada pela demanda externa.
Apesar de o investimento direto estrangeiro ter se mantido, ele também sofre o
efeito defasado. Os grandes projetos de investimento externo são contratados com
muita antecedência. Agora se vai perceber o impacto da restrição do crédito
mundial.
FOLHA - Há contas que indicam que 35% da renda dos brasileiros
independe de crise, já que vêm do funcionalismo público, pensões e Bolsa
Família. Esse dinheiro também não minimizará o impacto da crise?
THODY - Sim. A rede de proteção social no Brasil é mais efetiva do que em muitos
países em desenvolvimento. Porém um risco que vejo é o de a receita fiscal cair
mais do que o governo prevê. Isso afetará não só o governo federal como também
os estaduais e municipais. Em alguns Estados, os governos vão ter dificuldades
para pagar salários. O efeito de a receita cair mais do que o governo estima vai ser
compensado em parte pela queda dos juros. Por outro lado, prejudica na
manutenção dos compromissos de investimentos. Por isso, vai ser difícil haver um
efeito contracíclico muito forte. Essa é uma das razões pelas quais o governo não
vai evitar completamente a crise. O Brasil não tem grande espaço de manobra em
termos de política anticíclica.
FOLHA - Por que este deve ser o pior ano da crise?
THODY - Uma das premissas fundamentais das projeções para 2010 está na
eficácia dos pacotes fiscais, sobretudo dos Estados Unidos e da China. No fim do
ano, o plano Geithner [de recuperação de papéis tóxicos, sem valor comercial] vai
começar a restaurar a confiança no mercado financeiro. Há, no entanto, riscos
muito grandes e muitas dúvidas.
FOLHA - O que muda no ranking dos países mais atraentes para fazer
negócio com a crise?
THODY - Comparamos a atratividade do ambiente de negócios em 82 países nos
últimos cinco anos com uma projeção dos próximos cinco anos. O potencial de
crescimento a longo prazo depende da qualidade institucional. O problema é que,
na maioria dos países da América Latina, com exceção do Chile, não houve avanços
nas reformas de microeconomia. Nos últimos anos, a abundância global e o
crescimento da economia mascararam a falta de progresso nessa área. Agora, a
situação política vai ser mais difícil. O governo vai ser culpado, não pela crise, mas
pelo manejo e pelo gerenciamento de medidas anticíclicas. Vai ser mais difícil
avançar nessas reformas que são muito contenciosas politicamente. No caso
brasileiro, uma das premissas para o longo prazo envolvia a melhora na
infraestrutura, no sistema financeiro para a baixa do "spread" bancário e de
enfrentamento do problema da burocracia. Fica mais difícil avançar nessas
reformas.
FOLHA - Vocês apontam um recrudescimento na política monetária, tão
logo a economia volte a crescer. Isso afetará muito o Brasil?
THODY - O Banco Central do Brasil vai permanecer conservador. Aos primeiros
sinais de volta inflacionária, é bem provável um aperto monetário. Vão baixar [a
taxa básica de juros] mais neste ano e não vai haver aperto em 2010.
-------------------Jornal do Brasil 29 03 2009
Muito além dos bancos falidos e
bônus milionários
Para milhões de pessoas ao redor do mundo, a questão é de vida ou morte
Gabriel Costa
Os principais efeitos da crise financeira sobre a economia mundial já não são
novidade. Espera-se que o comércio global encolha este ano pela primeira vez
desde 1982, investimentos estrangeiros diminuem progressivamente e o fluxo de
capital privado deve cair de US$ 1 trilhão em 2009 para US$ 530 bilhões em 2009.
No entanto, para a parcela mais pobre da população do planeta, o desastre
econômico causa preocupações muito mais sérias que o pagamento ou não de
bônus para funcionários de instituições como a seguradora AIG.
As apertadas condições de crédito e a desaceleração do crescimento derrubaram a
arrecadação dos governos, o que diminui a capacidade de investimento para
alcançar metas de educação e saúde, assim como os gastos em infraestrutura
necessários para sustentar o crescimento. Agora, pessoas que mal perceberam
benefícios com o processo da globalização enfrentam os reflexos de uma crise que
teve início nas capitais do mundo desenvolvido.
– Uma coisa é as famílias em países desenvolvidos passarem algumas privações.
Outra são enormes populações que podem morrer de fome – lembra o professor
Alexandre Espírito Santo, diretor do curso de Relações Internacionais da Escola
Superior de Propaganda e Marketing do Rio de Janeiro (ESPM-RJ).
De acordo com dados da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe
(Cepal) da Organização das Nações Unidas (ONU), embora a porcentagem da
população que vive na pobreza na região tenha caído de 34,1% para 33,2% em
2008, o número de pessoas na situação de extrema pobreza ou indigência
aumentou de 68 milhões, ou 12,6% da população em 2007, para 71 milhões em
2008, ou 12,9% da população. O relatório destacou que os esforços para reduzir a
pobreza e a indigência no ano passado foram menos efetivos que no período entre
2002 e 2007.
Emergentes expostos
Já o Banco Mundial estima que entre 130 milhões e 155 milhões de pessoas em
todo o mundo caíram na pobreza em 2008 como resultado da disparada dos preços
de alimentos – que, embora tenham caído desde o pico do ano passado, continuam
a afetar os mais pobres, segundo a ONU – e combustíveis. Segundo a instituição,
quase 40% dos 107 países considerados em desenvolvimento estão altamente
expostos à pobreza em consequência da crise, e a maior parte dos restantes foi
"moderadamente" exposta. Menos de 10% das nações enfrentou apenas pequeno
risco de exposição, de acordo com a estimativa.
As expectativas da entidade não encorajam otimismo. Segundo o Banco Mundial, a
crise vai jogar mais 46 milhões na faixa de renda inferior a US$ 1,25 por dia,
enquanto outros 65 milhões cairão abaixo de US$ 2 por dia – 12 milhões a mais do
que a instituição projetava em fevereiro. O total de mais de 100 milhões de "novos
pobres" será somado aos cerca de 2,6 bilhões que já vivem com menos de US$ 2
por dia.
Em seu relatório mensal sobre a economia mundial, a ONU avaliou que o avanço do
desemprego mantém um ritmo alarmante, e que os desequilíbrios globais estão
avançando de forma desordenada.
– Num contexto como esse, os países que estão na linha entre pobreza e miséria
obviamente sofrerão, porque têm economias muito dependentes do mercado
externo – alerta Espírito Santo. – Vivemos um período de dificuldades em que terão
que ser tomadas decisões políticas até mais urgentes que as econômicas. E os
líderes do G-20 terão que arcar com o ônus dessas escolhas.
Domingo, 29 de Março de 2009 – Jornal do Brasil

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