FIGUEIRA E JACARANDÁ I Num mês daqueles... Em que fogões

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FIGUEIRA E JACARANDÁ I Num mês daqueles... Em que fogões
FIGUEIRA E JACARANDÁ
I
Num mês daqueles...
Em que fogões dobram geadas,
Folhas cansadas,
Repousam para o florir.
Um casalzinho
Plantou rancho pra seus sonhos.
Frutas e sombras,
Pra os mormaços que hão de vir.
II
Fez-se mangueiras,
Alambrados para as tropas;
Ergueram copas
Figueira e jacarandá.
Emparceirados,
Como os donos da morada.
Sombra e florada,
Pra os brinquedos dos piás.
Todos nós plantamos sonhos
De esplendor e aconchego
Que o sorver do dia a dia
Rega o tronco e dá apego,
Trago arvores plantadas,
Hora em flor... hora em sossego.
III
Rigor dos anos...
De calejados labores.
Para os amores
Que branquejaram o viver.
Trouxeram frutos
E forais nas primaveras...
Tempos de espera...
De um partir para o volver.
IV
O casalzinho hoje mora no infinito
E seu ranchinho germinou pelo sem fim,
Jacarandá e figueira se eternizam,
Suas raízes, sombra e fruto estão em mim.
Todos nós plantamos sonhos
De esplendor e aconchego
Que o sorver do dia a dia
Rega o tronco e dá apego,
Trago arvores plantadas,
Hora em flor... hora em sossego.
ESPERA
A noite chega, manhosa,
Nos braços da lua cheia
Ondas de esperança
Se desfazem sobre a areia
Adormeço e sonho
Sobre o espelho de lua
Desta lagoa, envolta
Em lembranças tuas
/:O apito do barco
Do barco que invento
Desperta meu sonho
Como um deboche do vento.:/
E fico embriagado
Pela dor desta saudade
Numa louca inquietude
Falta a minha metade
A vida desfiando
O destino mal tecido
Horizonte em vazio
No meu olhar perdido.
VIAJEIRA
Ave migratória,
cansada de voar,
buscando um santuário
para descansar.
O instinto perdido...
O rumo incerto...
Buscando longe
o que está tão perto...
Travessia longa...
Imenso cansaço...
Pouso seguro...
O teu abraço...
Fartura de afeto
o teu abraço tem.
É lagoa serena
que não existe além.
Alimento da alma,
força pra viagem,
o calor do teu abraço,
levo na bagagem.
RUÍNAS
O que restou deste sonho?
Mundo cristão de justiça e verdade
um pesadelo medonho,
abala as estruturas da humanidade.
Sete povos dizimados.
Sete pecados, sete vezes perdoados.
Quantos povos dizimados?
Quantos pecados?
Quantas vezes perdoados?
Os homens em suas terras.
O mundo e seus senhores.
Tratados de paz e guerras.
São donos ou invasores?
Selvagens ou civilizados?
São crentes ou são ateus?
Estão livres ou condenados?
Onde está este Deus?
O Deus dos impérios é a cobiça.
O Deus dos impérios é a ambição.
Erguem a cruz, rezam a missa,
Mas falam pela boca do canhão.
O que restou deste sonho...
RAÍZES D’UMA RAÇA
Pernas bambas, já cansadas
para os bisnetos cavalinho,
na soleira do alpendre
vovô, mateia sozinho.
Olhos vagos no horizonte
-azuis de céus esverdeadose a memória remoçando
no mar dos antepassados.
Tamancos fortes, bombachas,
colete de brim riscado,
estampa velho imigrante
no semem frutificado.
- Meu avô, ainda lembro;
n’um semblante de emoção,
teus olhos eram cacimbas,
lembrando aporte neste chão!
Na labuta... teu suor
a querência irrigou;
semeou aqui a raça
e o progresso germinou.
Tuas mãos, já calejadas,
por entre os mates desta lida,
alicerçou com brava “mutter”,
rumos de fartura e vida.
Avós – raízes do pago!
Futuro, agora e passado,
Ao longo desta sesmaria
No exemplo enraizado!
- Meu avô, ainda lembro;
..........................................
MILONGA PA EL FLACO ALFREDO
A las dos de la mañana. De un diecisiete de enero
Se callaron las guitarras. Se hizo un nudo en los gargueros
Y se empañaron los ojos. De los que estaban despiertos
Cuando corrió la noticia. Que había partido Alfredo.
Ni una corona de flores
Le mando el señor gobierno
Al que le canto a su gente
Al que le canto a su pueblo.
Al que andavo en el exilio
lo anduvieron persiguiendo
por cantar lo que sentía
Y expresar su pensamiento.
Que si se calla el cantor
Dicen que calla la vida,
El flaco sigue cantando
Yo lo escucho cada día.
Su canto es la libertad
Que ilumina la poesía
Y vive en cada canción
Que nace en la tierra mía.
El micrófono esta solo
Desde que el flaco se ha ido
Y cuatro guitarras lloran
Acordes enmudecidos.
Llora doña soledad
Llora el compadre Miguel
Y canta el violín de Vecho
Cada vez que se habla en el.
VELÓRIO DE CAMPO
Vestiu-se a porta de um pano branco
chegou a tristeza no rancho
sem avisar, se acampou.
Um ar parado na tarde
tomou conta da morada
silenciou a cachorrada
custou o sol se esconder.
Vestiu-se a noite de luto
e um silêncio absoluto
roubou a cena das falas
que quatro velas clareavam
o penar de cada um.
No galpão os conhecidos
vizinhos do falecido
golpeavam um trago escondido
lembrando das gauchadas
costela gorda nas brasas
e uma saudade sangrando
a despedida salgada.
Segue lenta a carreta
sobre a mesa a siluêta
daquele negro caixão
final de um homem de campo
plantado no campo santo
a sete palmos do chão.
REGIONAL BRASILEIRO
É o regional brasileiro
cantando sua raiz,
seja do sul ou do norte
a gente canta um país...
É o regional brasileiro
Em cada canto um sotaque
Sabor de novas essências
No gosto da água do mate.
Esta no verde da mata
Esta na pele do povo
Um colorido de raças
Entoando o mesmo coro.
Ah! Coração Brasileiro
Que guarda a luz das estradas,
O sangue das minhas veias
Nas cordas desta viola.
É uma saudade que vem,
É uma tristeza que vai...
É uma toada que chega,
É uma milonga que sai...
É o regional brasileiro
Cantando cada vez mais!
FLOR E TRUCO
Três sonhos na mesma mão
E tanta coisa em comum
Seria um simples envido
Se acaso faltasse um...
Depois que se canta flor
Nenhum decreto retira
O verso que pede boca
Vem à prova de mentira!
Quem chama o nome do jogo
Bem no começo da vaza
Já bebeu além da conta
Ou tem sobrando nas “casa”
Se agranda no compromisso
Quem tem destino cantor
Sabendo o que traz na mão
Não se contenta com flor!
Um grito de flor e truco
É um planchaço ou talho
Ou se atira nos “farpado”
Ou se embreta no baralho
Pois flor e truco se agrada
De costear rodeio estranho
Faz até carta marcada
Disparar com jogo ganho!
Flor e truco pra garganta
Mistura força e carinho
É o mesmo que um sapucai,
É quase um gole de vinho
Quem escutar flor e truco
Não olvide o fundamento:
- Todo sovéu de respeito
se torce tento por tento!!
QUIEN SERA, MILONGA?
Llego montao en un moro
Tiene lanza y usa vincha
Le da la tierra a los pobres
Quien sera?, quien lo adivina?
La historia es como una rueda
Vuelve a pisar el camino
Y al levantarse una piedra
Se oye el suspiro de un indio
Negros criollos y morenos,
Mulatos, sambos, mestizos
Son hijos de la misma madre
Igual sera su destino
En esta pampa salvaje
Patria o muerte es la consigna
La tierra puja su vientre
El sol nace en las cuchillas
Y en medio de la polvadera
Lanzas galopes y gritos
Si no hay patria para todos
Pa’nadie sera lo mismo
Llego montao en un moro
Tiene lanza y usa vincha
Le da le tierra a los pobres
Quien sera?, quien lo adivina?
DEUSA DE CORDAS
Sonora madeira... Prece rude entre cabrestos
Soluça recuerdos decifrados em segredos
Limite traçado por dois pontos cardeais
Compondo buçais, na orquestração dos meus dedos...
Sonora madeira... Quando recorro a presilha
Afino as rendilhas em teu corpo de alma santa
Linguagem dos matos, transpondo a voz natural...
Se tornando imortal: cruz no peito de quem canta!
És Deusa de cordas da presilha ao fiador
Por ti me fiz cantor, ao dar sentido e razão...
Entregue em minhas mãos por ter alma e vida plena
Que a presilha te condena a ficar, junto ao coração...
Sonora madeira... Tens o espírito moreno
Cordas de sereno, todas de alma estendida...
Nos claros de argola do fiador fui entender
Que o bordão deve ser um cabresto que tem vida...
Do fiador à presilha, mora uma Deusa de cordas...
Da ternura que ela acorda nasceu um feitiço antigo
Explico a saudade quando em teu corpo se agarra:
- É minha alma, guitarra! Que ficou presa contigo.
OS TAMBORES DE DANDARA
/Onde andará, onde andará,
a memória de Dandara?/
Nossa senhora dos braços
e da força do Quilombo:
quem vence a guerra, desenha
as glórias, e não os tombos.
Tombos de quem é sangue:
negro, fujão e bandido.
(Sexta letra em ferro em brasa
no corpo dos desvalidos).
/Onde andará, onde andará,
a memória de Dandara?/
/Onde andará, onde andará,
a memória de Dandara?/
O branco, com seus escritos,
fez mil curvas na verdade,
e as folhas brancas do tempo
não devolvem liberdade.
Dandara, minha Dandara,
até parece, meu Deus
que por mulher e por negra
a História te esqueceu...
Se a ferida já não sara,
que se ouça em nossa pele
os tambores de Dandara.
Se a Igreja não pôs a cara,
que se ouça em pleno culto
os tambores de Dandara.
E se a História nos mascara,
que se ouça para sempre
os tambores de Dandara.
ROMANCE DO JUCA GINETE
Declamado
Juca Flores...
tinha primaveras no olhar que eram pétalas de seus motivos,
haviam tantas sonoridades pelas teclas de seu sorriso!
Nos braços, força e talento que muito lhe sustentou
no puro pêlo ou no basto... palavras que eram relatos
e alegrias que eram fatos dos tombos que não levou!
Se foi o tempo das toras nos rodeios do povoado
que maestrava encrinado regendo aporreado a mango,
e eram poucos os maulas que lhe apeavam num bote
nem que dançasse um chote ou ensaiasse algum tango!
Mas houve um bagual tostado, disparador e malino,
que demudou seu destino contra a inércia de uma trama,
os aplausos silenciaram e olhares perdendo o rumo
viram o sumo de um taura dando outras cores pra grama!
Refrão
Hoje... é um ginete do tempo no fio do lombo das horas,
tendo recuerdos por mango e saudades por esporas,
encrinando suas dores nas cerdas de seus assombros
e carregando as macetas... da circunstância de um tombo!
Declamado
Juca Flores...
Tem primaveras no nome que são espinhos sem flor...
E o seu sorriso contido não tem amadrinhador.
No corpo, uma verdade que pra sempre lhe incomoda:
Quem andejou, fez cavalos... com liberdade por frente
Sente bem mais a prisão de uma cadeira de rodas!
Mas ainda tem aromas que exalam livres dos mates,
Uma sulina no catre de rosto sincero e terno.
Um anseio prisioneiro que é um sonho em forma de ventre
Pra perpetuar sua gente no livre-arbítrio do eterno...

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